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DUPLICIDADES DA
EPISTEMOLOGIA CÍVICA
GLOBAL SOBRE A COVID-19
José Carlos Pinto da Costa
(CRIA/FCSH-NOVA)
Humanidades em emergência: saúde e reconstrução social
6º Congresso Internacional de Antropologia AIBR, 28-31 Julho, 2020. Edição online
MUTATIO
INTRODUÇÃO
As instituições que comummente serviam de recurso às populações quando estas procuravam segurança em
situações de calamidade ou de emergência, tais como os aparatos do Estado, falharam em impedir que o
SARS-CoV-2 se espalhasse pelo mundo.
Um dos aspetos implícitos na pergunta “Porque razão estão as instituições a falhar?” (cf. Muthukrishna, 2020)
é o de que a interrupção da propagação do vírus só é possível construindo-se e implementando-se uma
epistemologia cívica global sobre o vírus.Tal epistemologia é, porém, bífida, dupla, dirigida ou para o ideal da
imunidade de grupo ou para o confinamento, o que provoca a emergência de questões como:
_ Porque é que alguns governos parecem lidar melhor com a pandemia do que outros?
_ Porque é que alguns governos não aceitam aprender lições de outros governos cuja gestão da crise parece
ser mais eficaz?
Não pretendendo responder a estas perguntas, nesta apresentação proponho refletirmos nas suas
implicações articulando os conceitos de i) epistemologia cívica global, ii) processos de controlo e iii) nudging,
os quais, no contexto da governação da COVID-19, configuram uma epistemologia enquadrada por uma
estratégia de governação conhecida por paternalismo liberal que coloniza a discursividade global de combate
ao coronavírus aparentemente suavizando o papel do estado na imposição da uma ideologia da harmonia.
Epistemologia cívica global
“Epistemologias cívicas são as maneiras estilizadas e culturalmente
específicas nas quais os públicos esperam que o conhecimento da
expertise do estado e o seu raciocínio sejam produzidos, testados e
postos ao uso dos processos de tomada de decisão”. (Jasanoff, in
https://sheilajasanoff.org/research/civic-epistemologies/)
Processos de controlo
“referem-se à natureza transformadora de ideias centrais tais como
harmonia coerciva que emanam das instituições operando como
componentes dinâmicos do poder. Os processos de controlo são
manufaturados,… trabalham para mudar os padrões de gosto e de valor,
e …viajam através de uma multiplicidade de discursos, sítios e práticas”.
(Nader, 1997:712).
Conceitos para pensar a governação da COVID-19
Nugde/Nudging
Estratégia de soft control dos comportamentos sociais por
responsabilização dos indivíduos pelas suas práticas e atitudes de
consumo. Parte do pressuposto de que, porque as populações são
irracionais, devem ser conduzidas em favor de um sistema,
normalmente pensado à escala nacional. (cf. Thaler & Sunstein, 2008)
Paternalismo liberal
O paternalism liberal é a atitude subjacente ao nudge, de orientação
dos indivíduos com base num conhecimento superior que determina o
que é o comportamento correto (para o sistema) (cf. Thaler & Sunstein,
2008)
Conceitos para pensar a governação da COVID-19
O INDIVIDUAL e O COLETIVO
(A PARTIR DE UMA INSPIRAÇÃO PATERNALISTA LIBERAL)
 Individualismo
Afirmação: “os países com instituições com comportamentos que não reduzem
o número de casos e cidadãos que se conformam [às políticas dos seus
governos], e países com instituições que advogam comportamentos
apropriados, mas com cidadãos que não se conformam têm piores resultados”
(Gelfand et al., forthcoming).
 Coletivismo
Afirmação: “sociedades com instituições que advogam comportamentos que
reduzem o número de casos e cidadãos que se conformam a esses
comportamentos têm sucesso na gestão do surto” (Gelfand et al., forthcoming).
COLETIVISMO e INDIVIDUALISMO: A GESTÃO DA
PANDEMIA COMO CONFUSÃO EPISTÉMICA
 Embora os países tenham confrontado a pandemia da COVID-19 começando por
adotar medidas radicalmente diferentes – confinamento vs. não confinamento –,
todos acabaram por, a médio prazo, governar e gerir a pandemia em ambiente de
não confinamento, responsabilizando os indivíduos pelos seus comportamentos. É
neste sentido que podemos falar de uma epistemologia cívica global.
 Todos os países acabaram por adotar a estratégia do nudging. Mais do que
ajustarem as infraestruturas para impedir definitivamente a propagação do vírus,
os governos optaram por aceitar o risco das casualidades como inevitável e
permitir que o vírus se propague através da população (Basevic, 2020). Se este
aspeto foi mais visível nos países que adotaram medidas defensoras do
individualismo total, não é certo de que os que optaram por gerir a crise recorrendo
ao confinamento compulsivo tenham impedido essa propagação.
CONCLUSÕES
 A realização de uma análise crítica dos processos de controlo durante a
pandemia permite compreender como é construída a ideologia da harmonia em
tempos de COVID.Tal análise parte do pressuposto de que os governos,
inspirados na sabedoria das elites iluminadas (cf. Basevic, 2020), que na
atualidade são formadas essencialmente pelas comunidades epistémicas dos
economistas e pelos biotecnólogos, impõem a ideia do que significa ser
civilizado em tempos de COVID ao orientarem e padronizarem os
comportamentos.
 O facto de que alguns estados se terem mantido inativos (cf. Sangaramoorthy,
2020) é apenas aparente. Ao responsabilizarem os indivíduos, os governantes
desses estados acabaram por seguir com maior atenção e vontade o que a elite
iluminada defende: optar pelo nudging.
 Independentemente das opções de governação – ou escolhendo a opção mais
coletiva ou a mais individualista – a crise da COVID-19 é um fenómeno biossocial
(Gibbon et al., 2020) que foi ampliado quer pela ação inicial dos introdutores do
vírus na sociedade quer pelos desequilíbrios e pelas desigualdades estruturais
internos às sociedades, ambos produtos de estratégias cuja intenção é civilizar, ou
tornar harmónico, como diria Laura Nader.
 Os provocadores destes efeitos não são necessariamente culpados – eles são
apenas tão (ir)racionais como qualquer outro ser humano. Quando nos deparamos
com novos desafios, sem ter arquivo onde recorrer para ir buscar um exemplo ou
um conhecimento tipo receita, tropeçamos (MuthuKrishna, 2020).
REFERÊNCIAS CITADAS
 Basevic, J. 2020. No such thing as society? Liberal paternalism, politics of expertise and the corona crisis. Disponível em:
https://discoversociety.org/2020/03/20/no-such-thing-as-society-liberal-paternalism-politics-of-expertise-and-the-corona-
crisis/. Consulta em 21 de abril de 2020.
 Gelfand, M. et al. (forthcoming). Cultural and Institutional factors predicting the infection rate and mortality likelihood of the
COVID-19 pandemic. Disponível em
https://www.researchgate.net/publication/340369351_Cultural_and_Institutional_Factors_Predicting_the_Infection_Rate_and
_Mortality_Likelihood_of_the_COVID-19_Pandemic.Consulta em 14 de julho de 2020.
 Gibbon, S. et al. 2020. Biosocial medical anthropology in the time of COVID-19. New challenges and opportunities. Disponível
em: https://medanthucl.com/2020/04/29/biosocial-medical-anthropology-in-the-time-of-covid-19-new-challenges-and-
opportunities/. Consulta em 22 de maio de 2020.
 Jasanoff, S. s/d. Civic Epistemologies. Disponível em: https://sheilajasanoff.org/research/civic-epistemologies/. Consulta em 21
de janeiro de 2020.
 Muthukrishna, M. 2020. “Long read: Cultural evolution, COVID-19, and preparing what’s next”. Disponível em:
https://blogs.lse.ac.uk/businessreview/2020/04/22/long-read-cultural-evolution-covid-19-and-preparing-for-whats-next/.
Consulta em 3 de junho de 2020.
 Nader, L. 1997. Controlling processes:Tracing the dynamic components of power. Current Anthropology, 38(5):711-737.
 Sangaramoorthy,T. 2020. From HIV to COVID-19:Anthropology, urgency and the politics of engagement. Disponível em
http://somatosphere.net/2020/from-hiv-to-covid19-anthropology-urgency-and-the-politics-of-engagement.html/.Consulta
em 12 de maio de 2020.
 Thaler, R. & Sunstein, C. 2008. Nudge : improving decisions about health, wealth, and happiness. New Haven and London:Yale
University Press.
Obrigado

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Mutatio. Duplicidades da epistemologia cívica global sobre a COVID-19

  • 1. DUPLICIDADES DA EPISTEMOLOGIA CÍVICA GLOBAL SOBRE A COVID-19 José Carlos Pinto da Costa (CRIA/FCSH-NOVA) Humanidades em emergência: saúde e reconstrução social 6º Congresso Internacional de Antropologia AIBR, 28-31 Julho, 2020. Edição online MUTATIO
  • 2. INTRODUÇÃO As instituições que comummente serviam de recurso às populações quando estas procuravam segurança em situações de calamidade ou de emergência, tais como os aparatos do Estado, falharam em impedir que o SARS-CoV-2 se espalhasse pelo mundo. Um dos aspetos implícitos na pergunta “Porque razão estão as instituições a falhar?” (cf. Muthukrishna, 2020) é o de que a interrupção da propagação do vírus só é possível construindo-se e implementando-se uma epistemologia cívica global sobre o vírus.Tal epistemologia é, porém, bífida, dupla, dirigida ou para o ideal da imunidade de grupo ou para o confinamento, o que provoca a emergência de questões como: _ Porque é que alguns governos parecem lidar melhor com a pandemia do que outros? _ Porque é que alguns governos não aceitam aprender lições de outros governos cuja gestão da crise parece ser mais eficaz? Não pretendendo responder a estas perguntas, nesta apresentação proponho refletirmos nas suas implicações articulando os conceitos de i) epistemologia cívica global, ii) processos de controlo e iii) nudging, os quais, no contexto da governação da COVID-19, configuram uma epistemologia enquadrada por uma estratégia de governação conhecida por paternalismo liberal que coloniza a discursividade global de combate ao coronavírus aparentemente suavizando o papel do estado na imposição da uma ideologia da harmonia.
  • 3. Epistemologia cívica global “Epistemologias cívicas são as maneiras estilizadas e culturalmente específicas nas quais os públicos esperam que o conhecimento da expertise do estado e o seu raciocínio sejam produzidos, testados e postos ao uso dos processos de tomada de decisão”. (Jasanoff, in https://sheilajasanoff.org/research/civic-epistemologies/) Processos de controlo “referem-se à natureza transformadora de ideias centrais tais como harmonia coerciva que emanam das instituições operando como componentes dinâmicos do poder. Os processos de controlo são manufaturados,… trabalham para mudar os padrões de gosto e de valor, e …viajam através de uma multiplicidade de discursos, sítios e práticas”. (Nader, 1997:712). Conceitos para pensar a governação da COVID-19
  • 4. Nugde/Nudging Estratégia de soft control dos comportamentos sociais por responsabilização dos indivíduos pelas suas práticas e atitudes de consumo. Parte do pressuposto de que, porque as populações são irracionais, devem ser conduzidas em favor de um sistema, normalmente pensado à escala nacional. (cf. Thaler & Sunstein, 2008) Paternalismo liberal O paternalism liberal é a atitude subjacente ao nudge, de orientação dos indivíduos com base num conhecimento superior que determina o que é o comportamento correto (para o sistema) (cf. Thaler & Sunstein, 2008) Conceitos para pensar a governação da COVID-19
  • 5. O INDIVIDUAL e O COLETIVO (A PARTIR DE UMA INSPIRAÇÃO PATERNALISTA LIBERAL)  Individualismo Afirmação: “os países com instituições com comportamentos que não reduzem o número de casos e cidadãos que se conformam [às políticas dos seus governos], e países com instituições que advogam comportamentos apropriados, mas com cidadãos que não se conformam têm piores resultados” (Gelfand et al., forthcoming).  Coletivismo Afirmação: “sociedades com instituições que advogam comportamentos que reduzem o número de casos e cidadãos que se conformam a esses comportamentos têm sucesso na gestão do surto” (Gelfand et al., forthcoming).
  • 6. COLETIVISMO e INDIVIDUALISMO: A GESTÃO DA PANDEMIA COMO CONFUSÃO EPISTÉMICA  Embora os países tenham confrontado a pandemia da COVID-19 começando por adotar medidas radicalmente diferentes – confinamento vs. não confinamento –, todos acabaram por, a médio prazo, governar e gerir a pandemia em ambiente de não confinamento, responsabilizando os indivíduos pelos seus comportamentos. É neste sentido que podemos falar de uma epistemologia cívica global.  Todos os países acabaram por adotar a estratégia do nudging. Mais do que ajustarem as infraestruturas para impedir definitivamente a propagação do vírus, os governos optaram por aceitar o risco das casualidades como inevitável e permitir que o vírus se propague através da população (Basevic, 2020). Se este aspeto foi mais visível nos países que adotaram medidas defensoras do individualismo total, não é certo de que os que optaram por gerir a crise recorrendo ao confinamento compulsivo tenham impedido essa propagação.
  • 7. CONCLUSÕES  A realização de uma análise crítica dos processos de controlo durante a pandemia permite compreender como é construída a ideologia da harmonia em tempos de COVID.Tal análise parte do pressuposto de que os governos, inspirados na sabedoria das elites iluminadas (cf. Basevic, 2020), que na atualidade são formadas essencialmente pelas comunidades epistémicas dos economistas e pelos biotecnólogos, impõem a ideia do que significa ser civilizado em tempos de COVID ao orientarem e padronizarem os comportamentos.  O facto de que alguns estados se terem mantido inativos (cf. Sangaramoorthy, 2020) é apenas aparente. Ao responsabilizarem os indivíduos, os governantes desses estados acabaram por seguir com maior atenção e vontade o que a elite iluminada defende: optar pelo nudging.
  • 8.  Independentemente das opções de governação – ou escolhendo a opção mais coletiva ou a mais individualista – a crise da COVID-19 é um fenómeno biossocial (Gibbon et al., 2020) que foi ampliado quer pela ação inicial dos introdutores do vírus na sociedade quer pelos desequilíbrios e pelas desigualdades estruturais internos às sociedades, ambos produtos de estratégias cuja intenção é civilizar, ou tornar harmónico, como diria Laura Nader.  Os provocadores destes efeitos não são necessariamente culpados – eles são apenas tão (ir)racionais como qualquer outro ser humano. Quando nos deparamos com novos desafios, sem ter arquivo onde recorrer para ir buscar um exemplo ou um conhecimento tipo receita, tropeçamos (MuthuKrishna, 2020).
  • 9. REFERÊNCIAS CITADAS  Basevic, J. 2020. No such thing as society? Liberal paternalism, politics of expertise and the corona crisis. Disponível em: https://discoversociety.org/2020/03/20/no-such-thing-as-society-liberal-paternalism-politics-of-expertise-and-the-corona- crisis/. Consulta em 21 de abril de 2020.  Gelfand, M. et al. (forthcoming). Cultural and Institutional factors predicting the infection rate and mortality likelihood of the COVID-19 pandemic. Disponível em https://www.researchgate.net/publication/340369351_Cultural_and_Institutional_Factors_Predicting_the_Infection_Rate_and _Mortality_Likelihood_of_the_COVID-19_Pandemic.Consulta em 14 de julho de 2020.  Gibbon, S. et al. 2020. Biosocial medical anthropology in the time of COVID-19. New challenges and opportunities. Disponível em: https://medanthucl.com/2020/04/29/biosocial-medical-anthropology-in-the-time-of-covid-19-new-challenges-and- opportunities/. Consulta em 22 de maio de 2020.  Jasanoff, S. s/d. Civic Epistemologies. Disponível em: https://sheilajasanoff.org/research/civic-epistemologies/. Consulta em 21 de janeiro de 2020.  Muthukrishna, M. 2020. “Long read: Cultural evolution, COVID-19, and preparing what’s next”. Disponível em: https://blogs.lse.ac.uk/businessreview/2020/04/22/long-read-cultural-evolution-covid-19-and-preparing-for-whats-next/. Consulta em 3 de junho de 2020.  Nader, L. 1997. Controlling processes:Tracing the dynamic components of power. Current Anthropology, 38(5):711-737.  Sangaramoorthy,T. 2020. From HIV to COVID-19:Anthropology, urgency and the politics of engagement. Disponível em http://somatosphere.net/2020/from-hiv-to-covid19-anthropology-urgency-and-the-politics-of-engagement.html/.Consulta em 12 de maio de 2020.  Thaler, R. & Sunstein, C. 2008. Nudge : improving decisions about health, wealth, and happiness. New Haven and London:Yale University Press.