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FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO




           FATOR HUMANO




            Motivação: uma
            viagem ao centro
               do conceito
            M
                          uitos executivos ainda acreditam que é possível gerar
                          motivação condicionando os comportamentos por meio
                          de prêmios e punições. Mas a verdadeira motivação nasce
            das necessidades interiores e não de fatores externos. Não há fórmulas
            que ofereçam soluções fáceis para motivar quem quer que seja. O líder
            não pode motivar seus liderados. Sua eficácia depende de sua compe-
            tência em liberar a motivação que os liderados já trazem dentro de si.


            por Cecília W. Bergamini FGV-EAESP


            Não há nada mais desmotivador do que tentar motivar        se obtenha aquilo que um grande número de publicações
            alguém. Mesmo assim, é fácil cair na tentação de abraçar   em Psicologia considera um verdadeiro milagre.
            a idéia de que uma das principais responsabilidades dos         Um primeiro ponto a considerar é se todos aqueles que
            gerentes é motivar seu pessoal. Por anos a fio, os admi-   descrevem a atividade gerencial como geradora de motiva-
            nistradores vêm tentando alcançar o sucesso nesse tipo     ção estão realmente falando do mesmo assunto. De fato, cus-
            de empreitada. E, mesmo que praticamente nada tenham       ta acreditar que, apesar de muito utilizada e discutida nas
            conseguido, os conselhos continuam a brotar de todos os    organizações, a motivação seja objeto de considerações tão
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            lados. As mais variadas receitas são oferecidas para que   diferentes entre si. Essa discrepância indica que há, pelo



                                                                                                                  © RAE   executivo • 63
FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO




  menos, um interesse considerável pelo assunto. Trata-se de      se desordenadamente, invalidando qualquer tentativa de con-
  um tema que há mais de uma década está em grande evidên-        trole. Os administradores, inquietos, perguntam-se constan-
  cia. No entanto, há um ponto em comum entre muitas das          temente: como é possível conseguir que as pessoas produ-
  interpretações que as pessoas, no geral, oferecem quando fa-    zam sob condições em que normalmente não estariam moti-
  lam do assunto: raramente as opiniões, crenças e mitos ba-      vadas para trabalhar?
  seiam-se em informações oferecidas por pesquisas científicas.
                                                                              Ação interior. Parte da resposta a esse tipo
                                                                              de indagação está ligada à psicodinâmica do
  Ninguém motiva ninguém. O potencial comportamento motivacional, que representa
                                                                              a fonte de energia instalada dentro de cada um,
  motivacional já existe dentro de cada                                       praticamente em estado de ebulição. Quando
                                                                              falamos em motivação, portanto, estamos nos
  um. O importante é não desperdiçá-lo.
                                                                              referindo a um tipo de ação que vem dos pró-
                                                                              prios indivíduos – um tipo de ação qualitativa-
       A dificuldade básica deve-se a um fato simples: nem sem- mente diferente daquela determinada por prêmios ou puni-
  pre dois indivíduos que agem da mesma maneira o fazem         ções oriundos do meio ambiente. Trata-se, mais precisamen-
  pelas mesmas razões. Pesquisas científicas realizadas sobre o te, de uma fonte autônoma de energia cuja origem se situa
  comportamento motivacional revelam que não somente as         no mundo interior de cada um, e que não responde a qual-
  pessoas têm objetivos diferentes, como as fontes de energia   quer tipo de controle do mundo exterior.
  que determinam seu comportamento são extremamente va-              É importante ressaltar que estar motivado não é o mes-
  riadas. Assim, o estudo da motivação humana consiste na       mo que experimentar momentos de alegria, entusiasmo, bem-
  pesquisa dos motivos pelos quais as pessoas fazem o que       estar ou euforia. Esses estados podem, até certo ponto, ser
  fazem e se encaminham em direção a seus objetivos – objeti-   considerados efeitos posteriores do processo motivacional,
  vos que são, em última análise, escolhas de ordem interior    mas nada explicam sobre sua origem nem sobre o caminho
  ou intrínsecas à personalidade de cada um.                    percorrido até que sejam alcançados. Sabe-se que a motiva-
                                                                ção é muito mais ampla do que os comportamentos ou esta-
  Motivação em tempos turbulentos. O mundo em-                  dos que porventura tenha a capacidade de provocar. A sim-
  presarial vive um período em que o grande desafio é conse-    ples e imediata observação do comportamento motivado não
  guir dominar a mudança. No entanto, as condições em que       responde à pergunta de como conhecer o verdadeiro porquê
  as mudanças estão ocorrendo são claramente adversas, ou,      de sua existência.
  como propõem alguns autores, mais turbulentas, caóticas e          Em 1978, o pesquisador Ernest Archer desmistificou
  desafiadoras do que nunca. Assim, pessoas e organizações      muitas das falsas interpretações do comportamento motiva-
  vêem-se ao mesmo tempo atônitas e constrangidas ao viver      do. Seu trabalho enfatizava que a motivação nasce somente
  sob a pressão da procura de alguma estratégia que lhes per-   das necessidades humanas e não das coisas que satisfazem
  mita dominar os novos desafios.                               essas necessidades. Tal posição é fortalecida por um signifi-
       O fim do conceito clássico de emprego já é uma realida-  cativo número de descobertas feitas por pesquisas da Psico-
  de: após anos de previsões otimistas e alarmes falsos, as no- logia Social. A maioria dessas investigações atribui grande
  vas tecnologias de informação e comunicação fazem sentir      peso à valorização da predisposição motivacional gerada por
  seus violentos impactos. Sempre a reboque dos eventos, pa-    necessidades que brotam do interior de cada um. O ser hu-
  rece que as pessoas custaram a entender que não lidavam       mano possuiria, portanto, necessidades interiores que repre-
  mais com inocentes exercícios de futurologia, mas com uma     sentam a fonte de energia de seu comportamento. Ele agiria
  realidade a ser vivida aqui e agora.                          em busca de fatores de satisfação capazes de evitar a sujeição
       Em meio a mudanças, as pessoas parecem movimentar-       a graus desagradáveis e ameaçadores de tensão.



64 • VOL.1 • Nº2 • NOV 2002 A JAN 2003
FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO




     Considerando a motivação um processo, o enfoque atual      descrição dos objetivos motivacionais, como fizeram muitas
procura descobrir como ela ocorre. Parte-se do princípio de     das teorias dos anos 1950, como a conhecida hierarquia dos
que se trata de um desencadeamento de momentos interior-        objetivos motivacionais de Maslow.
mente experimentados, que levam o indivíduo a mobilizar a
sinergia ou as forças já existentes em seu interior. Essa é a   O que não é motivação. O entusiasmo a respeito da
abordagem mais recente dos estudos da motivação humana,         teoria do condicionamento operante de Skinner, psicólogo
que não se atêm simplesmente à análise do conteúdo e à          de Harvard, fez com que se passasse a chamar de motivação




                                                                                                          © RAE   executivo • 65
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                                    As diferentes faces da motivação. No decorrer da
  aquilo que a Psicologia já consagrara com o nome de condi-
                                    década de 1970, Herzberg, outro professor de Harvard, abriu
  cionamento. Essa perspectiva partiu das descobertas de Pavlov,
                                    novas perspectivas a partir de suas pesquisas sobre o assun-
  Prêmio Nobel de Medicina em 1904, sobre o reflexo condi-
                                    to. Seu trabalho culminou com a proposição de que existem
  cionado. A principal conseqüência das teorias daí derivadas,
                                    dois tipos de objetivos motivacionais, considerados qualita-
  conhecidas como de enfoque comportamentalista, foi o en-
                                    tivamente diferentes. Segundo essa teoria, há certos objeti-
  tendimento de que é sempre possível conseguir que as pes-
                                    vos motivacionais cujo papel é simplesmente o de manter a
  soas se comportem de acordo com padrões de conduta pre-
  viamente estabelecidos.           insatisfação das pessoas no nível mais baixo possível. Esses
                                    fatores, denominados de “higiene”, acham-se ligados ao am-
        Preocupados em modelar o comportamento, os es-
                                    biente periférico ou extrínseco ao indivíduo. Existem outros
  tudiosos do behaviorismo, como são conhecidos, recomen-
                                    fatores, no entanto, que dizem respeito à busca de um máxi-
  davam gratificar os comportamentos supostamente ade-
                                    mo de satisfação motivacional. Estes últimos estão ligados ao
  quados (reforço positivo) e punir os inadequados (reforço
                                    próprio indivíduo e ao tipo de trabalho que ele desenvolve,
  negativo). Como Skinner, os administradores que adota-
                                    configurando-se caracteristicamente como os verdadeiros
  ram essa postura acreditavam que, com prêmios ou casti-
                                    fatores responsáveis pela motivação intrínseca. Dentre os fa-
  gos, seria possível fazer com que seus funcionários seguis-
                                    tores de higiene incluem-se amizade com os pares e superio-
  sem qualquer tipo de conduta por eles planejada. Dessa
                                    res, condições físicas do ambiente de trabalho, recompensa
  forma, um bom administrador deveria desenvolver suas
                                    salarial e segurança em não perder o emprego. Dentre os
  habilidades de manipulador das variáveis do ambiente or-
                                    fatores de motivação estão, por exemplo, a realização pessoal,
  ganizacional, servindo-se delas como reforços positivos
  ou negativos.                     a responsabilidade, o trabalho em si e o reconhecimento do
                                    esforço pessoal.
      As diretrizes administrativas em muitos países toma-
                                         Ao caracterizar a diferença entre esses dois tipos de fato-
  ram como ponto de partida o enfoque behaviorista de Pavlov
                                    res, Herzberg procurou demonstrar que não basta oferecer
  e Skinner. Os administradores adotaram definitivamente o
                                    fatores de higiene para ter pessoas motivadas dentro das or-
  caráter de controladores do comportamento humano, de
                                                 ganizações. Ao atendermos esses fatores
                                                 extrínsecos ao indivíduo, só estamos lhe garan-
  O processo motivacional é sempre               tindo o bem-estar físico. É necessário ir além des-
                                                 sa instância e oferecer aos liderados as oportuni-
  íntimo e pessoal. É essencial entender dades para que cheguem aos objetivos de satis-
                                                 fação interior, aqueles situados no mais alto ní-
  o sentido que cada um atribui ao
                                                 vel de prioridade para o indivíduo.
  trabalho que realiza.
                                                                                 O sentido do trabalho. Sendo o desenrolar
                                                                                 do processo motivacional uma dinâmica de cará-
  acordo com os pressupostos que também sustentavam a              ter interior, o aspecto mais importante, neste caso, é entender
  escola da Administração Científica de Taylor. Essa perspec-      o sentido que as pessoas atribuem àquilo que fazem. Referencial
  tiva previa que o administrador poderia e deveria mudar o        que conecta cada indivíduo a seu “mundo real”, o trabalho
  comportamento dos liderados de forma a conseguir a har-          tem a propriedade de oferecer parâmetros para as expectativas
  monia com as diretrizes organizacionais. Os trabalhadores,       e os ideais de cada ser humano. Quando se tem conhecimento
  nesse caso, sofreriam passivamente o efeito da ação das va-      desses parâmetros, torna-se possível entender que tipo de im-
  riáveis condicionantes existentes no ambiente de trabalho.       pulso está em jogo e aguardar, a partir desse marco inicial, o
  Em última análise, administrar se resumiria em punir ou          momento mais conveniente para oferecer os fatores que per-
  premiar os funcionários.                                         mitem chegar à recompensadora satisfação motivacional.



66 • VOL.1 • Nº2 • NOV 2002 A JAN 2003
FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO




      Um indivíduo engajado em uma ativi-
dade que para ele faz sentido espera ser re-
compensado quando percebe que está fazen-
do jus ao prazer de uma reputação positiva.
Isso significa reconhecimento, independên-
cia e acesso a um mundo melhor. Diretamente
ligado ao potencial criativo, esse tipo de ne-
cessidade possui vida própria no interior de
cada um. O desejo de trabalhar passa a re-
presentar uma necessidade de ordem afetiva
continuamente alimentada pelo imperativo
daqueles valores representados pelo objeti-
vo almejado. A partir de uma perspectiva de
tal profundidade, podemos reconhecer o
papel crucial que as necessidades interiores
desempenham no processo motivacional.
      Não são os fatores existentes no meio
ambiente que criam necessidades interiores,
mas essas necessidades que destacam do meio
aqueles fatores que lhes são complementa-
res. Por isso, ninguém consegue motivar nin-
guém. O administrador é tão-somente capaz
de satisfazer as necessidades presentes. Por
outro lado, ele pode contra satisfazê-las quan-
do não percebe o tipo de necessidade em
jogo, ou quando não tem recursos para
atendê-las. Como ressalta Herzberg, “se você
tiver alguém ocupando um cargo, use-o. Se
não puder usá-lo, livre-se dele, quer pela
automação quer pela escolha de outra pes-
soa com menor capacidade. Se você não puder usá-lo nem           funda, uma perspectiva baseada em pesquisas desenvolvidas
puder livrar-se dele, está enfrentando um problema de moti-      segundo parâmetros científicos.
vação”. Entenda-se aqui “usar” como aproveitar o potencial            Como decorrência lógica do fato de aceitarmos a com-
da energia motivacional de cada um.                              plexidade do comportamento motivacional, acabamos
      A administração desse potencial interior é bastante pro-   compreendendo que seria difícil, senão impossível, encon-
blemática, uma vez que as necessidades podem estar dor-          trar a fórmula ideal para motivar pessoas. Aqueles que perse-
mentes dentro do indivíduo – ou seja, é possível que nem ele     guem esse tipo de resultado em curto prazo devem ser con-
mesmo as conheça. Outro aspecto relevante acerca da difi-        siderados fortes candidatos ao desapontamento. Como to-
culdade desse tipo de ação é que os administradores freqüen-     dos os outros assuntos relativos ao comportamento huma-
temente podem projetar em seus liderados as motivações que       no, o da motivação guarda sutilezas e complexidades que
são suas. Para trabalhar a favor do potencial de motivação       não podem ser menosprezadas. Esse parece constituir o prin-
que existe dentro de cada um, é necessário abordar o com-        cipal desafio ao qual poucos líderes têm conseguido respon-
portamento humano a partir de uma perspectiva mais pro-          der adequadamente.



                                                                                                             © RAE   executivo • 67

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  • 1. FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO FATOR HUMANO Motivação: uma viagem ao centro do conceito M uitos executivos ainda acreditam que é possível gerar motivação condicionando os comportamentos por meio de prêmios e punições. Mas a verdadeira motivação nasce das necessidades interiores e não de fatores externos. Não há fórmulas que ofereçam soluções fáceis para motivar quem quer que seja. O líder não pode motivar seus liderados. Sua eficácia depende de sua compe- tência em liberar a motivação que os liderados já trazem dentro de si. por Cecília W. Bergamini FGV-EAESP Não há nada mais desmotivador do que tentar motivar se obtenha aquilo que um grande número de publicações alguém. Mesmo assim, é fácil cair na tentação de abraçar em Psicologia considera um verdadeiro milagre. a idéia de que uma das principais responsabilidades dos Um primeiro ponto a considerar é se todos aqueles que gerentes é motivar seu pessoal. Por anos a fio, os admi- descrevem a atividade gerencial como geradora de motiva- nistradores vêm tentando alcançar o sucesso nesse tipo ção estão realmente falando do mesmo assunto. De fato, cus- de empreitada. E, mesmo que praticamente nada tenham ta acreditar que, apesar de muito utilizada e discutida nas conseguido, os conselhos continuam a brotar de todos os organizações, a motivação seja objeto de considerações tão FOTOS TW lados. As mais variadas receitas são oferecidas para que diferentes entre si. Essa discrepância indica que há, pelo © RAE executivo • 63
  • 2. FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO menos, um interesse considerável pelo assunto. Trata-se de se desordenadamente, invalidando qualquer tentativa de con- um tema que há mais de uma década está em grande evidên- trole. Os administradores, inquietos, perguntam-se constan- cia. No entanto, há um ponto em comum entre muitas das temente: como é possível conseguir que as pessoas produ- interpretações que as pessoas, no geral, oferecem quando fa- zam sob condições em que normalmente não estariam moti- lam do assunto: raramente as opiniões, crenças e mitos ba- vadas para trabalhar? seiam-se em informações oferecidas por pesquisas científicas. Ação interior. Parte da resposta a esse tipo de indagação está ligada à psicodinâmica do Ninguém motiva ninguém. O potencial comportamento motivacional, que representa a fonte de energia instalada dentro de cada um, motivacional já existe dentro de cada praticamente em estado de ebulição. Quando falamos em motivação, portanto, estamos nos um. O importante é não desperdiçá-lo. referindo a um tipo de ação que vem dos pró- prios indivíduos – um tipo de ação qualitativa- A dificuldade básica deve-se a um fato simples: nem sem- mente diferente daquela determinada por prêmios ou puni- pre dois indivíduos que agem da mesma maneira o fazem ções oriundos do meio ambiente. Trata-se, mais precisamen- pelas mesmas razões. Pesquisas científicas realizadas sobre o te, de uma fonte autônoma de energia cuja origem se situa comportamento motivacional revelam que não somente as no mundo interior de cada um, e que não responde a qual- pessoas têm objetivos diferentes, como as fontes de energia quer tipo de controle do mundo exterior. que determinam seu comportamento são extremamente va- É importante ressaltar que estar motivado não é o mes- riadas. Assim, o estudo da motivação humana consiste na mo que experimentar momentos de alegria, entusiasmo, bem- pesquisa dos motivos pelos quais as pessoas fazem o que estar ou euforia. Esses estados podem, até certo ponto, ser fazem e se encaminham em direção a seus objetivos – objeti- considerados efeitos posteriores do processo motivacional, vos que são, em última análise, escolhas de ordem interior mas nada explicam sobre sua origem nem sobre o caminho ou intrínsecas à personalidade de cada um. percorrido até que sejam alcançados. Sabe-se que a motiva- ção é muito mais ampla do que os comportamentos ou esta- Motivação em tempos turbulentos. O mundo em- dos que porventura tenha a capacidade de provocar. A sim- presarial vive um período em que o grande desafio é conse- ples e imediata observação do comportamento motivado não guir dominar a mudança. No entanto, as condições em que responde à pergunta de como conhecer o verdadeiro porquê as mudanças estão ocorrendo são claramente adversas, ou, de sua existência. como propõem alguns autores, mais turbulentas, caóticas e Em 1978, o pesquisador Ernest Archer desmistificou desafiadoras do que nunca. Assim, pessoas e organizações muitas das falsas interpretações do comportamento motiva- vêem-se ao mesmo tempo atônitas e constrangidas ao viver do. Seu trabalho enfatizava que a motivação nasce somente sob a pressão da procura de alguma estratégia que lhes per- das necessidades humanas e não das coisas que satisfazem mita dominar os novos desafios. essas necessidades. Tal posição é fortalecida por um signifi- O fim do conceito clássico de emprego já é uma realida- cativo número de descobertas feitas por pesquisas da Psico- de: após anos de previsões otimistas e alarmes falsos, as no- logia Social. A maioria dessas investigações atribui grande vas tecnologias de informação e comunicação fazem sentir peso à valorização da predisposição motivacional gerada por seus violentos impactos. Sempre a reboque dos eventos, pa- necessidades que brotam do interior de cada um. O ser hu- rece que as pessoas custaram a entender que não lidavam mano possuiria, portanto, necessidades interiores que repre- mais com inocentes exercícios de futurologia, mas com uma sentam a fonte de energia de seu comportamento. Ele agiria realidade a ser vivida aqui e agora. em busca de fatores de satisfação capazes de evitar a sujeição Em meio a mudanças, as pessoas parecem movimentar- a graus desagradáveis e ameaçadores de tensão. 64 • VOL.1 • Nº2 • NOV 2002 A JAN 2003
  • 3. FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO Considerando a motivação um processo, o enfoque atual descrição dos objetivos motivacionais, como fizeram muitas procura descobrir como ela ocorre. Parte-se do princípio de das teorias dos anos 1950, como a conhecida hierarquia dos que se trata de um desencadeamento de momentos interior- objetivos motivacionais de Maslow. mente experimentados, que levam o indivíduo a mobilizar a sinergia ou as forças já existentes em seu interior. Essa é a O que não é motivação. O entusiasmo a respeito da abordagem mais recente dos estudos da motivação humana, teoria do condicionamento operante de Skinner, psicólogo que não se atêm simplesmente à análise do conteúdo e à de Harvard, fez com que se passasse a chamar de motivação © RAE executivo • 65
  • 4. FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO As diferentes faces da motivação. No decorrer da aquilo que a Psicologia já consagrara com o nome de condi- década de 1970, Herzberg, outro professor de Harvard, abriu cionamento. Essa perspectiva partiu das descobertas de Pavlov, novas perspectivas a partir de suas pesquisas sobre o assun- Prêmio Nobel de Medicina em 1904, sobre o reflexo condi- to. Seu trabalho culminou com a proposição de que existem cionado. A principal conseqüência das teorias daí derivadas, dois tipos de objetivos motivacionais, considerados qualita- conhecidas como de enfoque comportamentalista, foi o en- tivamente diferentes. Segundo essa teoria, há certos objeti- tendimento de que é sempre possível conseguir que as pes- vos motivacionais cujo papel é simplesmente o de manter a soas se comportem de acordo com padrões de conduta pre- viamente estabelecidos. insatisfação das pessoas no nível mais baixo possível. Esses fatores, denominados de “higiene”, acham-se ligados ao am- Preocupados em modelar o comportamento, os es- biente periférico ou extrínseco ao indivíduo. Existem outros tudiosos do behaviorismo, como são conhecidos, recomen- fatores, no entanto, que dizem respeito à busca de um máxi- davam gratificar os comportamentos supostamente ade- mo de satisfação motivacional. Estes últimos estão ligados ao quados (reforço positivo) e punir os inadequados (reforço próprio indivíduo e ao tipo de trabalho que ele desenvolve, negativo). Como Skinner, os administradores que adota- configurando-se caracteristicamente como os verdadeiros ram essa postura acreditavam que, com prêmios ou casti- fatores responsáveis pela motivação intrínseca. Dentre os fa- gos, seria possível fazer com que seus funcionários seguis- tores de higiene incluem-se amizade com os pares e superio- sem qualquer tipo de conduta por eles planejada. Dessa res, condições físicas do ambiente de trabalho, recompensa forma, um bom administrador deveria desenvolver suas salarial e segurança em não perder o emprego. Dentre os habilidades de manipulador das variáveis do ambiente or- fatores de motivação estão, por exemplo, a realização pessoal, ganizacional, servindo-se delas como reforços positivos ou negativos. a responsabilidade, o trabalho em si e o reconhecimento do esforço pessoal. As diretrizes administrativas em muitos países toma- Ao caracterizar a diferença entre esses dois tipos de fato- ram como ponto de partida o enfoque behaviorista de Pavlov res, Herzberg procurou demonstrar que não basta oferecer e Skinner. Os administradores adotaram definitivamente o fatores de higiene para ter pessoas motivadas dentro das or- caráter de controladores do comportamento humano, de ganizações. Ao atendermos esses fatores extrínsecos ao indivíduo, só estamos lhe garan- O processo motivacional é sempre tindo o bem-estar físico. É necessário ir além des- sa instância e oferecer aos liderados as oportuni- íntimo e pessoal. É essencial entender dades para que cheguem aos objetivos de satis- fação interior, aqueles situados no mais alto ní- o sentido que cada um atribui ao vel de prioridade para o indivíduo. trabalho que realiza. O sentido do trabalho. Sendo o desenrolar do processo motivacional uma dinâmica de cará- acordo com os pressupostos que também sustentavam a ter interior, o aspecto mais importante, neste caso, é entender escola da Administração Científica de Taylor. Essa perspec- o sentido que as pessoas atribuem àquilo que fazem. Referencial tiva previa que o administrador poderia e deveria mudar o que conecta cada indivíduo a seu “mundo real”, o trabalho comportamento dos liderados de forma a conseguir a har- tem a propriedade de oferecer parâmetros para as expectativas monia com as diretrizes organizacionais. Os trabalhadores, e os ideais de cada ser humano. Quando se tem conhecimento nesse caso, sofreriam passivamente o efeito da ação das va- desses parâmetros, torna-se possível entender que tipo de im- riáveis condicionantes existentes no ambiente de trabalho. pulso está em jogo e aguardar, a partir desse marco inicial, o Em última análise, administrar se resumiria em punir ou momento mais conveniente para oferecer os fatores que per- premiar os funcionários. mitem chegar à recompensadora satisfação motivacional. 66 • VOL.1 • Nº2 • NOV 2002 A JAN 2003
  • 5. FATOR HUMANO: MOTIVAÇÃO: UMA VIAGEM AO CENTRO DO CONCEITO Um indivíduo engajado em uma ativi- dade que para ele faz sentido espera ser re- compensado quando percebe que está fazen- do jus ao prazer de uma reputação positiva. Isso significa reconhecimento, independên- cia e acesso a um mundo melhor. Diretamente ligado ao potencial criativo, esse tipo de ne- cessidade possui vida própria no interior de cada um. O desejo de trabalhar passa a re- presentar uma necessidade de ordem afetiva continuamente alimentada pelo imperativo daqueles valores representados pelo objeti- vo almejado. A partir de uma perspectiva de tal profundidade, podemos reconhecer o papel crucial que as necessidades interiores desempenham no processo motivacional. Não são os fatores existentes no meio ambiente que criam necessidades interiores, mas essas necessidades que destacam do meio aqueles fatores que lhes são complementa- res. Por isso, ninguém consegue motivar nin- guém. O administrador é tão-somente capaz de satisfazer as necessidades presentes. Por outro lado, ele pode contra satisfazê-las quan- do não percebe o tipo de necessidade em jogo, ou quando não tem recursos para atendê-las. Como ressalta Herzberg, “se você tiver alguém ocupando um cargo, use-o. Se não puder usá-lo, livre-se dele, quer pela automação quer pela escolha de outra pes- soa com menor capacidade. Se você não puder usá-lo nem funda, uma perspectiva baseada em pesquisas desenvolvidas puder livrar-se dele, está enfrentando um problema de moti- segundo parâmetros científicos. vação”. Entenda-se aqui “usar” como aproveitar o potencial Como decorrência lógica do fato de aceitarmos a com- da energia motivacional de cada um. plexidade do comportamento motivacional, acabamos A administração desse potencial interior é bastante pro- compreendendo que seria difícil, senão impossível, encon- blemática, uma vez que as necessidades podem estar dor- trar a fórmula ideal para motivar pessoas. Aqueles que perse- mentes dentro do indivíduo – ou seja, é possível que nem ele guem esse tipo de resultado em curto prazo devem ser con- mesmo as conheça. Outro aspecto relevante acerca da difi- siderados fortes candidatos ao desapontamento. Como to- culdade desse tipo de ação é que os administradores freqüen- dos os outros assuntos relativos ao comportamento huma- temente podem projetar em seus liderados as motivações que no, o da motivação guarda sutilezas e complexidades que são suas. Para trabalhar a favor do potencial de motivação não podem ser menosprezadas. Esse parece constituir o prin- que existe dentro de cada um, é necessário abordar o com- cipal desafio ao qual poucos líderes têm conseguido respon- portamento humano a partir de uma perspectiva mais pro- der adequadamente. © RAE executivo • 67