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Moçambique: memória, sonhos, consciência política e cultural em letras de  Mia Couto  e telas de  Malangatana Valente ,  Roberto Chichorro  e  Naguib Abdula Por: Ricardo Silva Ramos de Souza (Ricardo Riso)* Disciplina: Estágio III – Prof. Accacio Freitas, graduação em Letras – Português/Literaturas Dia: 10/11/2008 – às 21h * Autor do blog  http://ricardoriso.blogspot.com  e integrante do Conselho Editorial da revista acadêmica África e Africanidades – http://www.africaeafricanidades.com
Perguntas à Língua Portuguesa   Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta.  A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem.  Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. (...) Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. (...)  No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas.  Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. (...) Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. (...) ANGIUS, Fernanda & ANGIUS, Matteo.  O desanoitecer da palavra.  Praia-Mindelo: Embaixada de Portugal, Centro Cultural Português, 1998. Mia Couto - 11/04/1997
"Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte.  A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra." (COUTO, Mia.  Terra Sonâmbula.  Lisboa: Caminho, 1992. p. 9)
Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros? óleo s/tela. 232 x 198 cm. 1986. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana.  Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 59.
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Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana. Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...)  No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...) Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas.  (COUTO, 1996, p. 12 -13.  Apud : SECCO, 2003, p. 224-225)
O feitiço óleo s/unitex. 247 x 120 cm. 1962. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 30
Monstros grandes comendo monstros pequenos óleo s/unitex. 153 x 120 cm. 1961. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 32.
O cego Estrelinho era pessoa de nenhuma vez: sua história poderia ser contada e descontada não fosse seu guia, Gigito Efraim. A mão de Gigito conduziu o desvistado por tempos e idades. Aquela mão era repartidamente comum, extensão de um no outro, siamensal. (...) O cego, curioso, queria saber de tudo. Ele não fazia cerimônia no viver. O sempre lhe era pouco e o tudo insuficiente. (...) Gigitinho, porém, o que descrevia era o que não havia. O mundo que ele minuciava eram fantasias e rendilhados. A imaginação do guia era mais profícua que papaeira.(...) Foi no mês de Dezembro que levaram Gigitinho. Lhe tiraram do mundo para pôr na guerra: obrigavam os serviços militares. (...) O guia chamou Estrelinho à parte e lhe tranqüilizou: - Não vai ficar sozinhando por aí. Minha mana já mandei para ficar no meu lugar. (...) Desde então, a menina passou a conduzir o cego. Fazia-o com discrição e silêncios. E era como se Estrelinho, por segunda vez, perdesse a visão. Porque a miúda não tinha nenhuma sabedoria de inventar. Ela descrevia os tintins da paisagem, com senso e realidade. Aquele mundo a que o cego se habituara agora se desiluminava. Estrelinho perdia os brilhos da fantasia.(...) ,[object Object],[object Object],[object Object],[object Object],[object Object]
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Serenata para encantar com lua Acrílico s/tela 100 x 80 cm, 1989. Roberto Chichorro. Lisboa: Caminho, 1998. p. 68.
Serenata em Azul Acrílico s/tela.  100 x 81 cm. 1997. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 122.
Musicando sonhos acrílico s/tela. 90 x 100 cm. 1997. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 118.
Bola de trapo em tempo de beija-flor Acrílico s/tela.  100 x 90 cm. 1996. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 84.
Estou sentado junto da janela olhando a chuva que cai há três dias. (...) Agora a chuva cai, cantarosa. O chão, esse indigente indígena, vai ganhando variedade de belezas. Estou espreitando a rua como se estivesse à janela do meu inteiro país. Enquanto, lá fora, se repletam os charcos a velha Tristereza vai arrumando o quarto. Para Tia Tristereza a chuva não é assunto de clima mas recados dos espíritos. E a velha se atribui amplos sorrisos: desta vez é que eu envergarei o fato de que ela tanto me insiste. Indumentária tão exibível e eu envergando mangas e gangas. (...) Enquanto alisa os lençóis, vai puxando outros assuntos. A idosa senhora não tem dúvida: a chuva está a acontecer devido das rezas, das cerimónias  oferecidas aos antepassados. Em todo o Moçambique a guerra está parar. Sim, agora as chuvas podem recomeçar. Todos estes anos, os deuses nos castigaram com a seca. Os mortos, mesmo os mais veteranos, já se ressequiam lá nas profundezas. Tristereza vai escovando o casaco que eu nunca hei-de usar e profere suas certezas: –  Nossa terra estava cheia de sangue. Hoje, está ser limpa, faz conta é essa roupa que lavei. Mas nem agora, desculpe o favor, nem agora o senhor dá vez a este seu fato? –  Mas, Tia Tristereza, não será está chover de mais? De mais? Não, a chuva não esqueceu os modos de tombar , diz a velha. E me explica:  a água sabe quantos grãos tem a areia. Para cada grão ela faz uma gota. Tal igual a mãe que tricota o agasalho de um filho ausente.  Para Tristereza a natureza tem seus serviços decorridos em simples modos como os dela. As chuvadas foram no justo tempo encomendadas: os deslocados que regressam a seus lugares  já encontrarão o chão molhado, conforme o gosto das sementes. A Paz tem outros governos que não passam pela vontade dos políticos. (...) –  A chuva está limpar a areia. Os falecidos vão ficar satisfeitos. Agora, era bom respeito o senhor usar este fato. Para condizer com a festa de Moçambique... A velha ainda me olha em dúvida. Depois, resignada, pendura o casaco. A roupa parece suspirar. Minha teimosia ficou suspensa num cabide. Espreito a rua, riscos molhados de tristeza vão descendo pelos vidros. (...) A velha acabou o serviço, se despede enquanto vai fechando as portas, com lentos vagares. Entrou uma tristeza na sua alma e eu sou o culpado. Reparo como as plantas despontam lá fora. O verde fala a língua de todas as cores. A tia já dobrou as despedidas e está a sair quando eu a chamo: –  Tristereza, tira o meu casaco. Ela se ilumina de espanto. Enquanto despe o cabide, a chuva vai parando. Apenas uns restantes pingos vão tombando sobre o meu casaco. Tristereza me pede:  não sacuda, essa aguinha dá sorte.  E de braço dado, saímos os dois pisando charcos, em descuido de meninos que sabem do mundo a alegria de um infinito brinquedo. (COUTO, Mia. Chuva: a abensonhada. In:  Estórias abensonhadas.  Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 43-46)
Sonhando amanhã sem lágrimas. Acrílico s/tela. 1975. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 54.
O Im-previsionário Naguib  nasceu e cresceu no Tete, terra de embondeiros. Da árvore ele recolheu a liça dessa vertiginosa viagem que se cumpre na imobilidade. Essa viagem levou-o ao fundo: o artista retomou a condição de aprendiz, artesão de cinzas, encantador de visões e imprevisões. Essa incursão levou-o a colocar-se em causa, decalcar vazios e domesticar abismos. Da sua magoada nação lhe chegaram, durante duas décadas, sinais de ruínas. O pintor afeiçoou o joelho ao chão, magoou os olhos na desesperança, feriu-se nos metais de guerra, colheu a cinza e dela fez florir súbitas colorações. Tocou os recantos escurecidos da paisagem e devolveu-lhes a luz seminal. Foi à lágrima e acendeu-lhe um Sol. Foi ao suspiro e devolveu-lhe a crença. E encontrou sementes onde outros apenas viam destroços. Durante anos, Naguib pintou como se escrevesse uma longa carta para seus filhos. Como se lhes contasse uma história, cada quadro um novo episódio. O que ele lhes está dizendo é isto: a beleza deste mundo não está à mão de ser colhida. Ela nasce dessa procura interior, desse trabalho em que a dor e a alegria se vão fazendo as duas asas da alma. O que descobrimos na sua obra é um artista plural, empenhado na procura incessante da sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo. Obra de mestiçagem, sem buscar as identidades mas as fronteiras, os cruzamentos e as viagens. Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos do nosso tempo moçambicano, as diversas raças do nosso ser colectivo. Naguib sabe: a sua pátria já é e está nascendo. Está brotando do traço que ele acende e com que surpreende a própria tela. Aberta é a obra, inacabado é o mundo. E a pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique. Mia Couto.  Texto escrito em 1994 para catálogo da exposição “Embondeiro de Energia” e reescrito em março de 2005. In:  Naguib . Lisboa: Caminho, 2005. p. 44-45
Alquimia de jóias na dança de Ucanho II (2005) acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela 2,01 X 2,49 m http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/online.asp
Exaltação lírica nas  margens do Zambeze III (2005) acrílico s/ suporte fotográfico, impressão  litográfica e óleo s/ tela. 2,60 X 1,87 m http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/online.asp
[object Object],[object Object],[object Object],[object Object],[object Object],[object Object],[object Object],do embondeiro tombaram, pareciam astros de feltro. No chão, suas brancas pétalas, uma a uma, se avermelharam. (...) Decidiu voltar à árvore. Outro paradeiro para ele já não existia. Nem rua nem casa: só o ventre do embondeiro. Enquanto caminhava, as aves lhe seguiam, em cortejo de piação, por cima do céu. Chegou à residência do passarinheiro, olhou o chão coberto de pétalas. Já vermelhas não estavam, regressadas ao branco originário. Entrou no tronco, guardou-se na distância de um tempo. Valia a pena esperar pelo velho? (...) - O sacana do preto está dentro da árvore . As tochas se chegaram ao tronco, o fogo namorou as velhas cascas. Dentro, o menino desatara um sonho: seus cabelos se figuravam pequenitas folhas, pernas e braços se madeiravam. Os dedos, lenhosos, minhocavam a terra. O menino transitava de reino: arvorejado, em estado de consentida impossibilidade. E do sonâmbulo embondeiro subiam as mãos do passarinheiro. Tocavam as flores, as corolas se envolucravam: nasciam espantosos pássaros e soltavam-se, petalados, sobre a crista das chamas. As chamas? De onde chegavam elas, excedendo a lonjura do sonho? Foi quando Tiago sentiu a ferida das labaredas, a sedução da cinza. Então, o menino, aprendiz da seiva, se emigrou inteiro para suas recentes raízes. COUTO, Mia. O embondeiro que sonhava pássaros. In:  Cada homem é uma raça.  Lisboa: Caminho, 1992. pp. 57-68.

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Moçambique - Mia Couto, Malangatana, Chichorro e Naguib

  • 1. Moçambique: memória, sonhos, consciência política e cultural em letras de Mia Couto e telas de Malangatana Valente , Roberto Chichorro e Naguib Abdula Por: Ricardo Silva Ramos de Souza (Ricardo Riso)* Disciplina: Estágio III – Prof. Accacio Freitas, graduação em Letras – Português/Literaturas Dia: 10/11/2008 – às 21h * Autor do blog http://ricardoriso.blogspot.com e integrante do Conselho Editorial da revista acadêmica África e Africanidades – http://www.africaeafricanidades.com
  • 2. Perguntas à Língua Portuguesa Venho brincar aqui no Português, a língua. Não aquela que outros embandeiram. Mas a língua nossa, essa que dá gosto a gente namorar e que nos faz a nós, moçambicanos, ficarmos mais Moçambique. Que outros pretendam cavalgar o assunto para fins de cadeira e poleiro pouco me acarreta. A língua que eu quero é essa que perde função e se torna carícia. O que me apronta é o simples gosto da palavra, o mesmo que a asa sente aquando o vôo. Meu desejo é desalisar a linguagem, colocando nela as quantas dimensões da Vida. E quantas são? Se a Vida tem, é idimensões? Assim, embarco nesse gozo de ver como a escrita e o mundo mutuamente se desobedecem. Uns nos acalentam: que nós estamos a sustentar maiores territórios da lusofonia. Nós estamos simplesmente ocupados a sermos. Outros nos acusam: nós estamos a desgastar a língua. Nos falta domínio, carecemos de técnica. (...) Questões que dariam para muita conferência, papelosas comunicações. Mas nós, aqui na mais meridional esquina do Sul, estamos exercendo é a ciência de sobreviver. (...) No enquanto, defendemos o direito de não saber, o gosto de saborear ignorâncias. Entretanto, vamos criando uma língua apta para o futuro, veloz como a palmeira, que dança todas as brisas sem deslocar seu chão. Língua artesanal, plástica, fugidia a gramáticas. Esta obra de reinvenção não é operação exclusiva dos escritores e linguistas. Recriamos a língua na medida em que somos capazes de produzir um pensamento novo, um pensamento nosso. (...) Brincadeiras, brincriações. E é coisa que não se termina. (...) ANGIUS, Fernanda & ANGIUS, Matteo. O desanoitecer da palavra. Praia-Mindelo: Embaixada de Portugal, Centro Cultural Português, 1998. Mia Couto - 11/04/1997
  • 3. "Naquele lugar, a guerra tinha morto a estrada. Pelos caminhos só as hienas se arrastavam, focinhando entre cinzas e poeiras. A paisagem se mestiçara de tristezas nunca vistas, em cores que se pegavam à boca. Eram cores sujas, tão sujas que tinham perdido toda a leveza, esquecidas da ousadia de levantar asas pelo azul. Aqui, o céu se tornara impossível. E os viventes se acostumaram ao chão, em resignada aprendizagem da morte. A estrada que agora se abre a nossos olhos não se entrecruza com outra nenhuma. Está mais deitada que os séculos, suportando sozinha toda a distância. Pelas bermas apodrecem carros incendiados, restos de pilhagens. Na savana em volta, apenas os embondeiros contemplam o mundo a desflorir. Um velho e um miúdo vão seguindo pela estrada. Andam bambolentos como se caminhar fosse seu único serviço desde que nasceram. Vão para lá de nenhuma parte, dando o vindo por não ido, à espera do adiante. Fogem da guerra, dessa guerra que contaminara toda a sua terra." (COUTO, Mia. Terra Sonâmbula. Lisboa: Caminho, 1992. p. 9)
  • 4. Onde está a minha mãe, meus irmãos e todos os outros? óleo s/tela. 232 x 198 cm. 1986. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 59.
  • 5.
  • 6. Estes rostos repetidos até a exaustão do espaço, estas figuras retorcidas por infinita amargura são imagens deste mundo criado por nós e, afinal, contra nós. Monstros que julgávamos há muito extintos dentro de nós são ressuscitados no pincel de Malangatana. Ressurge um temor que nos atemoriza porque é o nosso velho medo desadormecido. Ficamos assim à mercê destas visões, somos assaltados pela fragilidade da nossa representação visual do universo. (...) No seu traço está nua e tangível a geografia do tempo africano. No jogo das cores está, sedutor e cruel, o feitiço, (...) Estes bichos e homens, atirados para um espaço tornado exíguo pelo acumular de elementos gráficos, procuram em nós uma saída. A tensão criada na tela não permite que fiquem confinados a ela, obriga-nos a procurar uma ordem exterior ao quadro. Aqui reside afinal o gênio apurado deste ‘ingênuo’ invocador do caos, sábio perturbador das nossas certezas. (COUTO, 1996, p. 12 -13. Apud : SECCO, 2003, p. 224-225)
  • 7. O feitiço óleo s/unitex. 247 x 120 cm. 1962. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 30
  • 8. Monstros grandes comendo monstros pequenos óleo s/unitex. 153 x 120 cm. 1961. MALANGATANA. Catálogo da exposição Malangatana – de Matalana a Matalana. Lisboa: Instituto Camões,1999. p. 32.
  • 9.
  • 10.
  • 11. Serenata para encantar com lua Acrílico s/tela 100 x 80 cm, 1989. Roberto Chichorro. Lisboa: Caminho, 1998. p. 68.
  • 12. Serenata em Azul Acrílico s/tela. 100 x 81 cm. 1997. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 122.
  • 13. Musicando sonhos acrílico s/tela. 90 x 100 cm. 1997. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 118.
  • 14. Bola de trapo em tempo de beija-flor Acrílico s/tela. 100 x 90 cm. 1996. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 84.
  • 15. Estou sentado junto da janela olhando a chuva que cai há três dias. (...) Agora a chuva cai, cantarosa. O chão, esse indigente indígena, vai ganhando variedade de belezas. Estou espreitando a rua como se estivesse à janela do meu inteiro país. Enquanto, lá fora, se repletam os charcos a velha Tristereza vai arrumando o quarto. Para Tia Tristereza a chuva não é assunto de clima mas recados dos espíritos. E a velha se atribui amplos sorrisos: desta vez é que eu envergarei o fato de que ela tanto me insiste. Indumentária tão exibível e eu envergando mangas e gangas. (...) Enquanto alisa os lençóis, vai puxando outros assuntos. A idosa senhora não tem dúvida: a chuva está a acontecer devido das rezas, das cerimónias oferecidas aos antepassados. Em todo o Moçambique a guerra está parar. Sim, agora as chuvas podem recomeçar. Todos estes anos, os deuses nos castigaram com a seca. Os mortos, mesmo os mais veteranos, já se ressequiam lá nas profundezas. Tristereza vai escovando o casaco que eu nunca hei-de usar e profere suas certezas: – Nossa terra estava cheia de sangue. Hoje, está ser limpa, faz conta é essa roupa que lavei. Mas nem agora, desculpe o favor, nem agora o senhor dá vez a este seu fato? – Mas, Tia Tristereza, não será está chover de mais? De mais? Não, a chuva não esqueceu os modos de tombar , diz a velha. E me explica: a água sabe quantos grãos tem a areia. Para cada grão ela faz uma gota. Tal igual a mãe que tricota o agasalho de um filho ausente. Para Tristereza a natureza tem seus serviços decorridos em simples modos como os dela. As chuvadas foram no justo tempo encomendadas: os deslocados que regressam a seus lugares já encontrarão o chão molhado, conforme o gosto das sementes. A Paz tem outros governos que não passam pela vontade dos políticos. (...) – A chuva está limpar a areia. Os falecidos vão ficar satisfeitos. Agora, era bom respeito o senhor usar este fato. Para condizer com a festa de Moçambique... A velha ainda me olha em dúvida. Depois, resignada, pendura o casaco. A roupa parece suspirar. Minha teimosia ficou suspensa num cabide. Espreito a rua, riscos molhados de tristeza vão descendo pelos vidros. (...) A velha acabou o serviço, se despede enquanto vai fechando as portas, com lentos vagares. Entrou uma tristeza na sua alma e eu sou o culpado. Reparo como as plantas despontam lá fora. O verde fala a língua de todas as cores. A tia já dobrou as despedidas e está a sair quando eu a chamo: – Tristereza, tira o meu casaco. Ela se ilumina de espanto. Enquanto despe o cabide, a chuva vai parando. Apenas uns restantes pingos vão tombando sobre o meu casaco. Tristereza me pede: não sacuda, essa aguinha dá sorte. E de braço dado, saímos os dois pisando charcos, em descuido de meninos que sabem do mundo a alegria de um infinito brinquedo. (COUTO, Mia. Chuva: a abensonhada. In: Estórias abensonhadas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1996. p. 43-46)
  • 16. Sonhando amanhã sem lágrimas. Acrílico s/tela. 1975. ROBERTO CHICHORRO. Lisboa: Caminho, 1998. p. 54.
  • 17. O Im-previsionário Naguib nasceu e cresceu no Tete, terra de embondeiros. Da árvore ele recolheu a liça dessa vertiginosa viagem que se cumpre na imobilidade. Essa viagem levou-o ao fundo: o artista retomou a condição de aprendiz, artesão de cinzas, encantador de visões e imprevisões. Essa incursão levou-o a colocar-se em causa, decalcar vazios e domesticar abismos. Da sua magoada nação lhe chegaram, durante duas décadas, sinais de ruínas. O pintor afeiçoou o joelho ao chão, magoou os olhos na desesperança, feriu-se nos metais de guerra, colheu a cinza e dela fez florir súbitas colorações. Tocou os recantos escurecidos da paisagem e devolveu-lhes a luz seminal. Foi à lágrima e acendeu-lhe um Sol. Foi ao suspiro e devolveu-lhe a crença. E encontrou sementes onde outros apenas viam destroços. Durante anos, Naguib pintou como se escrevesse uma longa carta para seus filhos. Como se lhes contasse uma história, cada quadro um novo episódio. O que ele lhes está dizendo é isto: a beleza deste mundo não está à mão de ser colhida. Ela nasce dessa procura interior, desse trabalho em que a dor e a alegria se vão fazendo as duas asas da alma. O que descobrimos na sua obra é um artista plural, empenhado na procura incessante da sua própria diversidade, na confrontação exigente consigo mesmo. Obra de mestiçagem, sem buscar as identidades mas as fronteiras, os cruzamentos e as viagens. Nos seus quadros reconhecemos os múltiplos tempos do nosso tempo moçambicano, as diversas raças do nosso ser colectivo. Naguib sabe: a sua pátria já é e está nascendo. Está brotando do traço que ele acende e com que surpreende a própria tela. Aberta é a obra, inacabado é o mundo. E a pintura de Naguib confirma em mim a alegria de pertencer a essa pátria que existe apenas onde a inventamos: Moçambique. Mia Couto. Texto escrito em 1994 para catálogo da exposição “Embondeiro de Energia” e reescrito em março de 2005. In: Naguib . Lisboa: Caminho, 2005. p. 44-45
  • 18. Alquimia de jóias na dança de Ucanho II (2005) acrílico, pintura corporal, digitalização, impressão litográfica e óleo s/ tela 2,01 X 2,49 m http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/online.asp
  • 19. Exaltação lírica nas margens do Zambeze III (2005) acrílico s/ suporte fotográfico, impressão litográfica e óleo s/ tela. 2,60 X 1,87 m http://www.macvirtual.usp.br/MAC/templates/exposicoes/AfricaBrasil/online.asp
  • 20.