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Movimento da Escola Moderna
1 de Março de 2008


A comunicação que se apresenta pretende descrever e aprofundar, os componentes
que integram o modelo curricular do Movimento da Escola Moderna tendo por base
um referencial teórico prático.
Estando cada vez mais convicta que a chave da qualidade em educação de infância
é a (o) educadora (r) e os seus saberes praxiológicos reflectidos na acção situada,
espero que a explicitação deste modelo, possa abrir uma “janela” na caminhada do
desenvolvimento profissional de cada uma (m).


Movimento da Escola Moderna
O Movimento da Escola Moderna (MEM) é uma associação de profissionais de
educação assente num Projecto Democrático de autoformação cooperada de
docentes, que transfere, por analogia, essa estrutura de procedimentos para um
modelo de cooperação educativa nas escolas.

Propõe-se   realizar   um   modelo   sociocêntrico   de   educação,   acelerador   do
desenvolvimento moral e social das crianças e dos jovens, através de uma acção
democrática exemplificante, no decurso da educação formal. Daí decorre que os
conteúdos programáticos se estruturem em planos e projectos negociados
cooperativamente (pedagogia da cooperação educativa) para explicitação de
‘contratos’ entre professores e alunos, a partir dos saberes extra-escolares
radicados na vida dos educandos e das suas comunidades. Valoriza o ensino mútuo
e cooperativo como modos de organização das aprendizagens para reforçar o
sentido da cooperação no desenvolvimento educativo e social.



Origem e evolução
A criação do Movimento da Escola Moderna (MEM) decorre da fusão de três práticas
convergentes: Sérgio Niza que procura concretizar a proposta de Educação Cívica
de António Sérgio na concepção de um município escolar numa escola primária de
Évora; Rosalina Gomes de Almeida que introduz uma prática pedagógica
baseada nos princípios e técnicas de cooperação e expressão livre de Freinet na
educação de crianças normovisuais, inseridas em grupos de crianças cegas e
amblíopes, no Centro Infantil Hellen Keller em Lisboa; Rui Grácio, que organiza os
Cursos de Aperfeiçoamento Profissional do Sindicato Nacional de Professores, entre
1963 e 1966, onde colaboraram os dois professores citados.
A partir da sua constituição, o trabalho teórico e prático desenvolvido em Portugal
foi operando a evolução do modelo:
Do tacteamento experimental de Freinet foi evoluindo para uma perspectiva de
desenvolvimento das aprendizagens, através de uma interacção sociocentrada
radicada na herança sociocultural, a redescobrir com o apoio dos pares e dos
adultos, na linha de Vigotsky e de Bruner entre outros.


   •   Deslocação da ênfase da acção pedagógica das expressões para a
       Comunicação baseada em sistemas de trocas sistemáticas entre alunos;
   •   Instrumentos de trabalho reformulados como instrumentos de regulação
       formativa;
   •   Nos processos de tomada de decisão: da votação evolui para o consenso
       negociado, passando a regulação a estar radicada no conselho;
   •   Na gestão do acto pedagógico: do enfoque centrado nas crianças para uma
       visão sociocêntrica da educação escolar


Princípios Pedagógicos
No modelo curricular do MEM a instituição educativa é vista como um espaço de
iniciação às práticas de cooperação e de solidariedade da vivência democrática.
Para isso as crianças deverão criar com os seus educadores as condições materiais,
afectivas e sociais para que possam organizar em comum um ambiente capaz de
ajudar cada um a apropriar-se dos conhecimentos e dos valores morais e estéticos
gerados pela humanidade no seu percurso histórico-cultural. Assim se caminha
desde o planeamento à partilha das responsabilidades e da regulação/avaliação.
Desta concepção da escola como comunidade de partilha das experiências culturais
da vida real de cada um, decorrem as finalidades formativas:
   •   A iniciação às práticas democráticas;
   •   A reinstituição dos valores e das significações sociais;
   •   A reconstrução cooperada da cultura.
As crianças com a colaboração do educador reconstituem, através de trabalho de
projecto, os instrumentos de representação, de apropriação e de descoberta que
lhes proporcionam uma compreensão em profundidade. Este trabalho é partilhado e
reconstruído através dos circuitos de comunicação organizados e vividos pelo grupo
onde se faz circular os saberes científicos, culturais e sociais. Essa tomada de
consciência da apropriação dos conhecimentos, dá dimensão crítica e clarificadora
aos saberes.




                                                                                 2
Pressupostos do processo educativo
Uma primeira condição em que se fundamenta a dinâmica social da actividade
educativa no Jardim-de-infância é a da constituição dos grupos de crianças, não por
níveis etários, mas de forma vertical, integrando as várias idades. Esta organização
pretende assegurar a heterogeneidade que melhor garanta o respeito pelas
diferenças individuais no exercício da inter ajuda e colaboração que pressupõe este
projecto de enriquecimento sócio cultural.
Uma outra condição diz respeito à necessidade de se manter um clima de livre
expressão das crianças reforçado pela valorização pública das suas opiniões e
ideias. Essa atitude tornar-se-á visível através da disponibilidade do educador para
registar as mensagens das crianças, estimular a sua fala, as produções técnicas e
artísticas e animar a circulação dessas realizações.
É indispensável permitir às crianças o tempo lúdico da actividade exploratória das
ideias, ou dos materiais para que possa ocorrer a interrogação que suscite
projectos de pesquisa, autopropostos ou provocados pelo educador, enquanto
promotores da organização participada, dinamizadores da cooperação e animadores
cívicos e morais mantendo e estimulando a autonomização, a iniciativa e a
responsabilização de cada criança no grupo de educação cooperada.
Para operacionalizar este pressuposto concebem-se Instrumentos de Regulação
Cooperativa:   Calendário   do   Tempo;      Calendário   do   Mês;   Calendário   dos
Aniversários; Plano de Actividades; Lista semanal de Projectos; Quadro de Tarefas
e o Diário. Cada um destes instrumentos proporciona ainda a realização de outros
objectivos educativos que integram diferentes domínios curriculares.


Organização do Espaço e dos Materiais
As salas de actividades estão organizadas para que as crianças todos os dias
possam escolher o que querem fazer (Rosalina Gomes de Almeida, 1987);
As áreas em que se organiza a sala são determinantes no tipo de actividades e
materiais que oferecem. O fundamental é que todos os materiais sejam autênticos,
os instrumentos que a humanidade usa a sério, fazendo estes cantinhos aproximar-
se o mais possível dos espaços sociais originais. Sobretudo, procura-se evitar o
estereótipo infantilizante das miniaturas ou dos instrumentos artificialmente
construídos para o público infantil (Niza, 1996:148). As áreas básicas desenvolvem-
se: num espaço para biblioteca e documentação; numa oficina de escrita e
reprodução; num espaço de laboratório de ciências e experiências; num espaço de
carpintaria e construções; num espaços de expressão e representação plástica; e
ainda num “espaço de faz de conta”.




                                                                                    3
Organização do Tempo
É pensada para criar um ambiente seguro onde o envolvente cognitivo e o papel
relevante do grupo possa acontecer. A jornada é constituída por duas etapas. A
etapa da manhã, centra-se no trabalho de projecto e na actividade eleita pelas
crianças e por elas sustentada em diferentes áreas espaciais. A etapa da tarde,
reveste a forma de sessões de actividade cultural. Estão integrados na rotina diária
o tempo para se realizar a planificação com as crianças e a avaliação
(comunicações em plenário) o Balanço em Conselho é realizado à sexta-feira com o
apoio do Diário do grupo. A saída de um meio-dia por semana é programada, assim
como as animações e troca de saberes com os pais e outros elementos da
comunidade educativa.


A Avaliação e a Planificação em Cooperação
O modelo curricular considera o sistema de avaliação e planificação integradas no
próprio processo de desenvolvimento da educação. Destacam-se habitualmente
como estratégias, além da observação espontânea, os registos colectivos e
individuais de produção; as várias comunicações das crianças ao grupo; o
acompanhamento       dos   processos     de   produção;     as   ocorrências   significativas
registadas no Diário do grupo e o debate e a reflexão em Conselho.
Os pais para além da colaboração regular onde são chamados a participar, são
convidados trimestralmente para fazerem com os educadores um balanço que
decorre da exposição das produções e explicitação dos processos, dos registos de
planeamento e avaliação do grupo de crianças.


A Interacção com as Famílias e a Comunidade
O modelo curricular requer uma forte articulação com as famílias, os vizinhos e as
organizações da comunidade para que vários dos seus elementos se assumam
conscientemente como fonte do conhecimento e da formação para as crianças do
jardim-de-infância. Por isso são convidados a participar nas sessões de animação
que lhe estão destinadas. A equipa do jardim-de-infância promove encontros
sistemáticos entre educadores e pais para garantir o desenvolvimento educativo
dos filhos de forma participada e dialogante. Conta-se com o envolvimento das
famílias   e   da   comunidade,   quer    para   resolver    problemas    quotidianos     de
organização, quer para que o jardim-de-infância possa cumprir o seu papel de
mediador e de promotor das expressões culturais das populações que serve.


                                                                       Maria Elisa Leandro




                                                                                           4

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Mem comu

  • 1. Movimento da Escola Moderna 1 de Março de 2008 A comunicação que se apresenta pretende descrever e aprofundar, os componentes que integram o modelo curricular do Movimento da Escola Moderna tendo por base um referencial teórico prático. Estando cada vez mais convicta que a chave da qualidade em educação de infância é a (o) educadora (r) e os seus saberes praxiológicos reflectidos na acção situada, espero que a explicitação deste modelo, possa abrir uma “janela” na caminhada do desenvolvimento profissional de cada uma (m). Movimento da Escola Moderna O Movimento da Escola Moderna (MEM) é uma associação de profissionais de educação assente num Projecto Democrático de autoformação cooperada de docentes, que transfere, por analogia, essa estrutura de procedimentos para um modelo de cooperação educativa nas escolas. Propõe-se realizar um modelo sociocêntrico de educação, acelerador do desenvolvimento moral e social das crianças e dos jovens, através de uma acção democrática exemplificante, no decurso da educação formal. Daí decorre que os conteúdos programáticos se estruturem em planos e projectos negociados cooperativamente (pedagogia da cooperação educativa) para explicitação de ‘contratos’ entre professores e alunos, a partir dos saberes extra-escolares radicados na vida dos educandos e das suas comunidades. Valoriza o ensino mútuo e cooperativo como modos de organização das aprendizagens para reforçar o sentido da cooperação no desenvolvimento educativo e social. Origem e evolução A criação do Movimento da Escola Moderna (MEM) decorre da fusão de três práticas convergentes: Sérgio Niza que procura concretizar a proposta de Educação Cívica de António Sérgio na concepção de um município escolar numa escola primária de Évora; Rosalina Gomes de Almeida que introduz uma prática pedagógica baseada nos princípios e técnicas de cooperação e expressão livre de Freinet na educação de crianças normovisuais, inseridas em grupos de crianças cegas e amblíopes, no Centro Infantil Hellen Keller em Lisboa; Rui Grácio, que organiza os
  • 2. Cursos de Aperfeiçoamento Profissional do Sindicato Nacional de Professores, entre 1963 e 1966, onde colaboraram os dois professores citados. A partir da sua constituição, o trabalho teórico e prático desenvolvido em Portugal foi operando a evolução do modelo: Do tacteamento experimental de Freinet foi evoluindo para uma perspectiva de desenvolvimento das aprendizagens, através de uma interacção sociocentrada radicada na herança sociocultural, a redescobrir com o apoio dos pares e dos adultos, na linha de Vigotsky e de Bruner entre outros. • Deslocação da ênfase da acção pedagógica das expressões para a Comunicação baseada em sistemas de trocas sistemáticas entre alunos; • Instrumentos de trabalho reformulados como instrumentos de regulação formativa; • Nos processos de tomada de decisão: da votação evolui para o consenso negociado, passando a regulação a estar radicada no conselho; • Na gestão do acto pedagógico: do enfoque centrado nas crianças para uma visão sociocêntrica da educação escolar Princípios Pedagógicos No modelo curricular do MEM a instituição educativa é vista como um espaço de iniciação às práticas de cooperação e de solidariedade da vivência democrática. Para isso as crianças deverão criar com os seus educadores as condições materiais, afectivas e sociais para que possam organizar em comum um ambiente capaz de ajudar cada um a apropriar-se dos conhecimentos e dos valores morais e estéticos gerados pela humanidade no seu percurso histórico-cultural. Assim se caminha desde o planeamento à partilha das responsabilidades e da regulação/avaliação. Desta concepção da escola como comunidade de partilha das experiências culturais da vida real de cada um, decorrem as finalidades formativas: • A iniciação às práticas democráticas; • A reinstituição dos valores e das significações sociais; • A reconstrução cooperada da cultura. As crianças com a colaboração do educador reconstituem, através de trabalho de projecto, os instrumentos de representação, de apropriação e de descoberta que lhes proporcionam uma compreensão em profundidade. Este trabalho é partilhado e reconstruído através dos circuitos de comunicação organizados e vividos pelo grupo onde se faz circular os saberes científicos, culturais e sociais. Essa tomada de consciência da apropriação dos conhecimentos, dá dimensão crítica e clarificadora aos saberes. 2
  • 3. Pressupostos do processo educativo Uma primeira condição em que se fundamenta a dinâmica social da actividade educativa no Jardim-de-infância é a da constituição dos grupos de crianças, não por níveis etários, mas de forma vertical, integrando as várias idades. Esta organização pretende assegurar a heterogeneidade que melhor garanta o respeito pelas diferenças individuais no exercício da inter ajuda e colaboração que pressupõe este projecto de enriquecimento sócio cultural. Uma outra condição diz respeito à necessidade de se manter um clima de livre expressão das crianças reforçado pela valorização pública das suas opiniões e ideias. Essa atitude tornar-se-á visível através da disponibilidade do educador para registar as mensagens das crianças, estimular a sua fala, as produções técnicas e artísticas e animar a circulação dessas realizações. É indispensável permitir às crianças o tempo lúdico da actividade exploratória das ideias, ou dos materiais para que possa ocorrer a interrogação que suscite projectos de pesquisa, autopropostos ou provocados pelo educador, enquanto promotores da organização participada, dinamizadores da cooperação e animadores cívicos e morais mantendo e estimulando a autonomização, a iniciativa e a responsabilização de cada criança no grupo de educação cooperada. Para operacionalizar este pressuposto concebem-se Instrumentos de Regulação Cooperativa: Calendário do Tempo; Calendário do Mês; Calendário dos Aniversários; Plano de Actividades; Lista semanal de Projectos; Quadro de Tarefas e o Diário. Cada um destes instrumentos proporciona ainda a realização de outros objectivos educativos que integram diferentes domínios curriculares. Organização do Espaço e dos Materiais As salas de actividades estão organizadas para que as crianças todos os dias possam escolher o que querem fazer (Rosalina Gomes de Almeida, 1987); As áreas em que se organiza a sala são determinantes no tipo de actividades e materiais que oferecem. O fundamental é que todos os materiais sejam autênticos, os instrumentos que a humanidade usa a sério, fazendo estes cantinhos aproximar- se o mais possível dos espaços sociais originais. Sobretudo, procura-se evitar o estereótipo infantilizante das miniaturas ou dos instrumentos artificialmente construídos para o público infantil (Niza, 1996:148). As áreas básicas desenvolvem- se: num espaço para biblioteca e documentação; numa oficina de escrita e reprodução; num espaço de laboratório de ciências e experiências; num espaço de carpintaria e construções; num espaços de expressão e representação plástica; e ainda num “espaço de faz de conta”. 3
  • 4. Organização do Tempo É pensada para criar um ambiente seguro onde o envolvente cognitivo e o papel relevante do grupo possa acontecer. A jornada é constituída por duas etapas. A etapa da manhã, centra-se no trabalho de projecto e na actividade eleita pelas crianças e por elas sustentada em diferentes áreas espaciais. A etapa da tarde, reveste a forma de sessões de actividade cultural. Estão integrados na rotina diária o tempo para se realizar a planificação com as crianças e a avaliação (comunicações em plenário) o Balanço em Conselho é realizado à sexta-feira com o apoio do Diário do grupo. A saída de um meio-dia por semana é programada, assim como as animações e troca de saberes com os pais e outros elementos da comunidade educativa. A Avaliação e a Planificação em Cooperação O modelo curricular considera o sistema de avaliação e planificação integradas no próprio processo de desenvolvimento da educação. Destacam-se habitualmente como estratégias, além da observação espontânea, os registos colectivos e individuais de produção; as várias comunicações das crianças ao grupo; o acompanhamento dos processos de produção; as ocorrências significativas registadas no Diário do grupo e o debate e a reflexão em Conselho. Os pais para além da colaboração regular onde são chamados a participar, são convidados trimestralmente para fazerem com os educadores um balanço que decorre da exposição das produções e explicitação dos processos, dos registos de planeamento e avaliação do grupo de crianças. A Interacção com as Famílias e a Comunidade O modelo curricular requer uma forte articulação com as famílias, os vizinhos e as organizações da comunidade para que vários dos seus elementos se assumam conscientemente como fonte do conhecimento e da formação para as crianças do jardim-de-infância. Por isso são convidados a participar nas sessões de animação que lhe estão destinadas. A equipa do jardim-de-infância promove encontros sistemáticos entre educadores e pais para garantir o desenvolvimento educativo dos filhos de forma participada e dialogante. Conta-se com o envolvimento das famílias e da comunidade, quer para resolver problemas quotidianos de organização, quer para que o jardim-de-infância possa cumprir o seu papel de mediador e de promotor das expressões culturais das populações que serve. Maria Elisa Leandro 4