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Manoel de Oliveira
                                          Produção Áudio Visual




Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro | Comunicação e Multimédia | Marta Filipa Pinto Carvalho 54455
Biografia
• Manoel de Oliveira, de nome completo Manoel
  Cândido Pinto de Oliveira.

• Porto, Cedofeita, 11 de Dezembro de 1908.

• É um cineasta português, actualmente, o mais
  velho do mundo em actividade.
Autor de trinta e duas longas-metragens, Manoel de Oliveira nasceu no seio de uma
família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia. É filho de Francisco José de
Oliveira, industrial e primeiro fabricante de lâmpadas em Portugal, e de sua mulher, Cândida
Ferreira Pinto.

           Ainda jovem foi para A Guarda, na Galiza, onde frequentou um colégio de jesuítas.
Admite ter sido sempre mau aluno. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto
à vara, e atleta do Sport Club do Porto, um clube de elite. Ainda antes dos filmes veio o
automobilismo e a vida boémia. Eram habituais as tertúlias no Café Diana, na Póvoa de Varzim, com
os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, e outros.

            Aos vinte anos vai para a escola de actores fundada no Porto por Rino Lupo, o
cineasta italiano ali radicado, e um dos pioneiros do cinema português de ficção. Berlim: sinfonia de
uma cidade, documentário vanguardista de Walther Ruttmann, influência-o profundamente. Tem
então a ideia de rodar uma curta-metragem sobre a faina no Rio Douro — Douro, Faina
Fluvial (1931) foi o seu primeiro filme, que suscitou a admiração da crítica estrangeira e o desagrado
dos críticos nacionais. Seria o primeiro documentário de muitos que abordariam, de um ponto de
vista etnográfico, o tema da vida marítima da costa de Portugal, motivo repercutido em Nazaré,
Praia de Pescadores de Leitão de Barros,Almadraba Atuneira de António Campos)
ou Avieiros de Ricardo Costa.
Adquiriu entretanto alguma formação técnica nos estúdios da Kodak,
na Alemanha e, mantendo o gosto pela representação, participou como actor no segundo
filme sonoro português, A Canção de Lisboa (1933), de Cottinelli Telmo, vindo a dizer, mais
tarde, não se identificar com aquele estilo de cinema popular.

          Só mais tarde, em 1942, se aventuraria na ficção como realizador: adaptado do
conto Os Meninos Milionários, de João Rodrigues de Freitas, filma Aniki-Bobó (1942), um
enternecedor retrato da infância no cru ambiente neo-realista da Ribeira do Porto. O filme
foi um fracasso comercial, mas com o tempo daria que falar. Oliveira decidiu, talvez por
isso, abandonar outros projectos, envolvendo-se nos negócios da família. Só voltaria ao
cinema catorze anos depois, com O Pintor e a Cidade, em 1956.

          Em 1963, O Acto da Primavera (segunda docuficção portuguesa) marcou uma
nova fase do seu percurso. Com este filme, praticamente ao mesmo tempo que António
Campos, iniciou Oliveira em Portugal a prática da antropologia visual no cinema. Prática
essa que seria amplamente explorada por cineastas como João César Monteiro, na ficção,
como António Reis, Ricardo Costa e Pedro Costa, no documentário. O Acto da
Primavera e A Caça são obras marcantes na carreira de Manoel de Oliveira. O primeiro
filme é representativo enquanto incursão no documentário, trabalhado com técnicas de
encenação, o segundo – que conheceu a supressão de uma cena por parte da censura –
como ficção pura em que a encenação não se esquiva ao gosto do documentário.
Por causa de alguns diálogos no filme passou dez dias de cadeia na PIDE.
A obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, até então interrompida por pausas e
projectos não-realizados, só a partir da sua futura longa metragem (O Passado e o Presente,
de 1971) prosseguiria sem quebras nem sobressaltos, por uns trinta anos, até ao final do
século. A teatralidade imanente de O Acto da Primavera, contaminando esta sua segunda
ficção, afirmar-se-ia como estilo pessoal, como forma de expressão que Oliveira achou por
bem explorar nos seus filmes seguintes, apoiado por reflexões teóricas de amigos e
conhecidos comentadores.

           A tetralogia dos amores frustrados seria o palco por excelência de toda essa longa
experimentação. O palco seria o plateau, em que o filme falado, em «indizíveis» tiradas
teatrais, se tornariam a alma de um cinema puro só por ter o teatro como referência, como
origem e fundamento. Eram assim ditos os amores, ditos eram os seus motivos, e ditos
ficaram os argumentos de quem nisso viu toda a originalidade do mestre invicto: dito e
escrito, com muito peso, sem nenhuma emoção, mas sempre com muito sentimento.
Manoel de Oliveira insiste em dizer que só cria filmes pelo gozo de os fazer, independente
da reacção dos críticos. Apesar dos múltiplos condecorações em alguns dos festivais mais
prestigiados do mundo, tais como o Festival de Cannes, Festival de Veneza ou o Festival de
Montreal, leva uma vida retirada e longe das luzes da ribalta. Durante o Festival de
Cannes em 2008, foi congratulado e felicitado pessoalmente pelo actor norte-
americano Clint Eastwood.
Os seus actores preferidos, com quem mantém uma colaboração regular são Luís
Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Rogério Samora, Miguel Guilherme, Isabel
Ruth e, mais recentemente, o seu neto, Ricardo Trepa. Não são também alheias as
participações de actores estrangeiros, como Catherine Deneuve, Marcello
Mastroianni, John Malkovich, Michel Piccoli, Irene Papas, Chiara Mastroianni, Lima
Duarte ou Marisa Paredes.

          Em 2008 completou cem anos de vida, tendo, entre outras, comemorações, sido
condecorado pelo Presidente da República, e assistido à produção de um sem número de
documentários sobre a sua vida e obra. Centenário, dotado de uma resistência e saúde
física e mental inigualáveis, é o mais velho realizador do mundo em actividade, e ainda com
planos futuros.
Filmografia
Longas-Metragens

2012 - A Igreja do Diabo                      1995 - O Convento
2012 - O Gebo e a Sombra                      1994 - A Caixa
2010 - O Estranho Caso de Angélica            1993 - Vale Abraão
2009 - Singularidades de uma Rapariga Loura
                                              1992 - O Dia do Desespero
2007 - Cristóvão Colombo – O Enigma
2006 - Belle Toujours                         1991 - A Divina Comédia
2005 - Espelho Mágico                         1990 - Non, ou a Vã Glória de Mandar
2004 - O Quinto Império - Ontem Como Hoje     1988 - Os Canibais
2003 - Um Filme Falado                        1986 - O Meu Caso
2002 - O Princípio da Incerteza               1985 - Le Soulier de Satin
2001 - Porto da Minha Infância                1981 - Francisca
2001 - Vou para Casa                          1979 - Amor de Perdição (1979)
2000 - Palavra e Utopia
                                              1974 - Benilde ou a Virgem Mãe
1999 - A Carta
1998 - Inquietude                             1971 - O Passado e o Presente
1997 - Viagem ao Princípio do Mundo           1963 - Acto da Primavera (docuficção)
1996 - Party                                  1942 - Aniki-Bobó
Curtas e médias metragens

2010 - Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética
1985 - Simpósio Internacional de Escultura em Pedra - Porto
1983 - Lisboa Cultural
1983 - Nice - À propos de Jean Vigo
1982 - Visita ou Memórias e Confissões
1966 - O Pão (documentário)
1965 - As Pinturas do meu irmão Júlio (documentário)
1964 - A Caça
1956 - O Pintor e a Cidade
1941 - Famalicão (filme)
1938 - Já se Fabricam Automóveis em Portugal
1938 - Miramar, Praia das Rosas
1932 - Estátuas de Lisboa
1931 - Douro, Faina Fluvial
Webgrafia

http://pt.wikipedia.org/wiki/Manoel_de_Oliveira

http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Manoel_de_Oliveira_3_juillet_2008-2.jpg
Manoel de oliveira

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Manoel de oliveira

  • 1. Manoel de Oliveira Produção Áudio Visual Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro | Comunicação e Multimédia | Marta Filipa Pinto Carvalho 54455
  • 2. Biografia • Manoel de Oliveira, de nome completo Manoel Cândido Pinto de Oliveira. • Porto, Cedofeita, 11 de Dezembro de 1908. • É um cineasta português, actualmente, o mais velho do mundo em actividade.
  • 3. Autor de trinta e duas longas-metragens, Manoel de Oliveira nasceu no seio de uma família da alta burguesia nortenha, com origens na pequena fidalguia. É filho de Francisco José de Oliveira, industrial e primeiro fabricante de lâmpadas em Portugal, e de sua mulher, Cândida Ferreira Pinto. Ainda jovem foi para A Guarda, na Galiza, onde frequentou um colégio de jesuítas. Admite ter sido sempre mau aluno. Dedicou-se ao atletismo, tendo sido campeão nacional de salto à vara, e atleta do Sport Club do Porto, um clube de elite. Ainda antes dos filmes veio o automobilismo e a vida boémia. Eram habituais as tertúlias no Café Diana, na Póvoa de Varzim, com os amigos José Régio, Agustina Bessa-Luís, e outros. Aos vinte anos vai para a escola de actores fundada no Porto por Rino Lupo, o cineasta italiano ali radicado, e um dos pioneiros do cinema português de ficção. Berlim: sinfonia de uma cidade, documentário vanguardista de Walther Ruttmann, influência-o profundamente. Tem então a ideia de rodar uma curta-metragem sobre a faina no Rio Douro — Douro, Faina Fluvial (1931) foi o seu primeiro filme, que suscitou a admiração da crítica estrangeira e o desagrado dos críticos nacionais. Seria o primeiro documentário de muitos que abordariam, de um ponto de vista etnográfico, o tema da vida marítima da costa de Portugal, motivo repercutido em Nazaré, Praia de Pescadores de Leitão de Barros,Almadraba Atuneira de António Campos) ou Avieiros de Ricardo Costa.
  • 4. Adquiriu entretanto alguma formação técnica nos estúdios da Kodak, na Alemanha e, mantendo o gosto pela representação, participou como actor no segundo filme sonoro português, A Canção de Lisboa (1933), de Cottinelli Telmo, vindo a dizer, mais tarde, não se identificar com aquele estilo de cinema popular. Só mais tarde, em 1942, se aventuraria na ficção como realizador: adaptado do conto Os Meninos Milionários, de João Rodrigues de Freitas, filma Aniki-Bobó (1942), um enternecedor retrato da infância no cru ambiente neo-realista da Ribeira do Porto. O filme foi um fracasso comercial, mas com o tempo daria que falar. Oliveira decidiu, talvez por isso, abandonar outros projectos, envolvendo-se nos negócios da família. Só voltaria ao cinema catorze anos depois, com O Pintor e a Cidade, em 1956. Em 1963, O Acto da Primavera (segunda docuficção portuguesa) marcou uma nova fase do seu percurso. Com este filme, praticamente ao mesmo tempo que António Campos, iniciou Oliveira em Portugal a prática da antropologia visual no cinema. Prática essa que seria amplamente explorada por cineastas como João César Monteiro, na ficção, como António Reis, Ricardo Costa e Pedro Costa, no documentário. O Acto da Primavera e A Caça são obras marcantes na carreira de Manoel de Oliveira. O primeiro filme é representativo enquanto incursão no documentário, trabalhado com técnicas de encenação, o segundo – que conheceu a supressão de uma cena por parte da censura – como ficção pura em que a encenação não se esquiva ao gosto do documentário.
  • 5. Por causa de alguns diálogos no filme passou dez dias de cadeia na PIDE. A obra cinematográfica de Manoel de Oliveira, até então interrompida por pausas e projectos não-realizados, só a partir da sua futura longa metragem (O Passado e o Presente, de 1971) prosseguiria sem quebras nem sobressaltos, por uns trinta anos, até ao final do século. A teatralidade imanente de O Acto da Primavera, contaminando esta sua segunda ficção, afirmar-se-ia como estilo pessoal, como forma de expressão que Oliveira achou por bem explorar nos seus filmes seguintes, apoiado por reflexões teóricas de amigos e conhecidos comentadores. A tetralogia dos amores frustrados seria o palco por excelência de toda essa longa experimentação. O palco seria o plateau, em que o filme falado, em «indizíveis» tiradas teatrais, se tornariam a alma de um cinema puro só por ter o teatro como referência, como origem e fundamento. Eram assim ditos os amores, ditos eram os seus motivos, e ditos ficaram os argumentos de quem nisso viu toda a originalidade do mestre invicto: dito e escrito, com muito peso, sem nenhuma emoção, mas sempre com muito sentimento. Manoel de Oliveira insiste em dizer que só cria filmes pelo gozo de os fazer, independente da reacção dos críticos. Apesar dos múltiplos condecorações em alguns dos festivais mais prestigiados do mundo, tais como o Festival de Cannes, Festival de Veneza ou o Festival de Montreal, leva uma vida retirada e longe das luzes da ribalta. Durante o Festival de Cannes em 2008, foi congratulado e felicitado pessoalmente pelo actor norte- americano Clint Eastwood.
  • 6. Os seus actores preferidos, com quem mantém uma colaboração regular são Luís Miguel Cintra, Leonor Silveira, Diogo Dória, Rogério Samora, Miguel Guilherme, Isabel Ruth e, mais recentemente, o seu neto, Ricardo Trepa. Não são também alheias as participações de actores estrangeiros, como Catherine Deneuve, Marcello Mastroianni, John Malkovich, Michel Piccoli, Irene Papas, Chiara Mastroianni, Lima Duarte ou Marisa Paredes. Em 2008 completou cem anos de vida, tendo, entre outras, comemorações, sido condecorado pelo Presidente da República, e assistido à produção de um sem número de documentários sobre a sua vida e obra. Centenário, dotado de uma resistência e saúde física e mental inigualáveis, é o mais velho realizador do mundo em actividade, e ainda com planos futuros.
  • 7. Filmografia Longas-Metragens 2012 - A Igreja do Diabo 1995 - O Convento 2012 - O Gebo e a Sombra 1994 - A Caixa 2010 - O Estranho Caso de Angélica 1993 - Vale Abraão 2009 - Singularidades de uma Rapariga Loura 1992 - O Dia do Desespero 2007 - Cristóvão Colombo – O Enigma 2006 - Belle Toujours 1991 - A Divina Comédia 2005 - Espelho Mágico 1990 - Non, ou a Vã Glória de Mandar 2004 - O Quinto Império - Ontem Como Hoje 1988 - Os Canibais 2003 - Um Filme Falado 1986 - O Meu Caso 2002 - O Princípio da Incerteza 1985 - Le Soulier de Satin 2001 - Porto da Minha Infância 1981 - Francisca 2001 - Vou para Casa 1979 - Amor de Perdição (1979) 2000 - Palavra e Utopia 1974 - Benilde ou a Virgem Mãe 1999 - A Carta 1998 - Inquietude 1971 - O Passado e o Presente 1997 - Viagem ao Princípio do Mundo 1963 - Acto da Primavera (docuficção) 1996 - Party 1942 - Aniki-Bobó
  • 8. Curtas e médias metragens 2010 - Painéis de São Vicente de Fora, Visão Poética 1985 - Simpósio Internacional de Escultura em Pedra - Porto 1983 - Lisboa Cultural 1983 - Nice - À propos de Jean Vigo 1982 - Visita ou Memórias e Confissões 1966 - O Pão (documentário) 1965 - As Pinturas do meu irmão Júlio (documentário) 1964 - A Caça 1956 - O Pintor e a Cidade 1941 - Famalicão (filme) 1938 - Já se Fabricam Automóveis em Portugal 1938 - Miramar, Praia das Rosas 1932 - Estátuas de Lisboa 1931 - Douro, Faina Fluvial