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HUBERTO ROHDEN




ESTRATÉGIAS
 DE LÚCIFER
SUAS VITÓRIAS E DERROTAS NO CAMPO DE BATALHA DA HUMANIDADE


                        UNIVERSALISMO
ESTRATÉGIAS DE LÚCIFER



“A luta é inevitável porque faz parte das Leis Cósmicas; evitável é a derrota do
Eu crístico pelo ego luciférico do homem.”

“As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró ou
contra Deus.”

“Se o homem permitir ser derrotado por seu Lúcifer, a culpa é dele, e não de
Deus.”

Estas concisas afirmações constituem o núcleo central e a essência deste novo
livro de Rohden. A obra é uma complementação de outros trabalhos seus,
notadamente, Lúcifer e Lógos e A Nova Humanidade.

Partindo de uma palavra – Lúcifer – complexa, e de conteúdo dialético, Rohden
convida o leitor a desfazer-se de preconceitos e a abandonar certas
concepções teológicas, tragicamente ensinadas ao longo de nossa história.
Desenvolvendo sua linha de pensamento univérsico sobre a bipolaridade da
natureza humana e de todo o universo, ele nos conduz ao centro de nós
mesmos, colocando-nos diante da verdadeira perspectiva para nossa própria
auto-realização. E enfatiza: sem essa perspectiva cósmica, é impossível o ser
humano estabelecer, em si, completa harmonia e felicidade.

Para Rohden, Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agir
naturalmente como fator de retaguarda – embora esse fator negativo tenha a
tendência de usurpar o pólo positivo da vanguarda, desequilibrando, assim, a
harmonia do microcosmo humano. Por isso, explica ele, nos livros sacros, a
ordem que o pólo positivo da vanguarda (Cristo) dá ao pólo negativo da
retaguarda (Satã) é invariavelmente: “Vai à retaguarda (vade retro)”.

“Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólos
evolutivos que regem todo o Universo: o Uno da Essência Absoluta, que rege o
Verso, das Existências Relativas.”

“As Leis Cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólos
da antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja pelo
Poder Supremo, como no mundo infra-hominal; seja pelo livre-arbítrio, como
deve ser no mundo das creaturas livres”.

Este livro conta o drama cósmico de Lúcifer-Lógos no campo de batalha da
humanidade. Indica o caminho para o homem atualizar o seu equilíbrio
meramente potencial, realizando assim a sua natureza integral. Proclama o
plano cósmico da eugenia humana, ou auto-realização.
ADVERTÊNCIA



A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar
é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e
dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior,
porque deturpa o pensamento.

Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a
transição de uma existência para outra existência.

O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado.

Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores.

A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se
aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa
mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa.

Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer
convenções acadêmicas.
PREFÁCIO



Recentemente, publiquei um livro intitulado “A Nova Humanidade” cujo início
focaliza a luta entre o sopro de Deus e o sibilo da serpente, na humanidade
feita à imagem e semelhança de Deus e ainda sujeita ao poder das trevas.

No presente livro limito-me a mostrar a estratégia e os estratagemas desse
poder negativo, que, segundo Cristo, tem poder sobre os homens.

Essa estratégia luciférica vai por altos e baixos, por vitórias e derrotas,
consoante o grau de resistência que ela encontra no livre-arbítrio humano.

As vitórias e derrotas de Lúcifer correm paralelas à força ou fraqueza da
evolução de cada homem.

O livre-arbítrio humano é uma creatividade tanto positiva como negativa, ora
aliada ao poder da luz, ora aliada ao poder das trevas. O homem é, aqui na
terra, a única creatura que se pode crear melhor ou pior do que foi creado. O
homem é o único ser auto-creador, enquanto os outros seres são apenas alo-
creados.

Por isto o destino do homem está, em grande parte, nas mãos dele.

Na creação do homem creador, o Creador abdicou, por assim dizer, de uma
parcela da sua jurisdição divina a favor da liberdade humana; o Deus
monocrático da natureza se tornou, por assim dizer, um Deus cosmocrático na
humanidade, fazendo uma creatura partícipe do poder creador.

Com o advento do homem despontou uma nova fase cósmica, apareceu um
fenômeno inédito sobre a face da terra.

Pela creatividade, positiva ou negativa, do livre-arbítrio pode o homem integrar-
se no Todo da universalidade – e pode também desintegrar-se no Nada da sua
individualidade.

A estratégia de Lúcifer é necessária para testar o homem em evolução, porque
sem resistência não há evolução rumo ao Lógos.

Lúcifer e Lógos são os dois pólos do Universo, sobre os quais gira toda a
evolução da creatura humana. Sem a atuação desses dois pólos, seria o
homem um simples autômato estático, mas não um realizador dinâmico do seu
destino. A grandeza do homem, diz um pensador moderno, está na
possibilidade de sua auto-parturição, ou seja, auto-realização. Realização
existencial ou frustração existencial – é esta a gloriosa e perigosa alternativa do
homem. Um único homem que se auto-realize é infinitamente maior do que
todas as grandezas do cosmos alo-realizadas.

É este o drama paradoxal que preside à luta evolutiva que Lúcifer e Lógos
travam no campo de batalha da humanidade.
NOSSA VIZINHANÇA CÓSMICA



O homem antigo considerava a terra como o centro do Universo, e a nossa
humanidade como a única.

Há muito tempo, sabemos que o planeta terra é uma parcela mínima do
cosmos total, que abrange milhões de sistemas solares, estelares e galáxias,
iguais ou maiores que o sistema solar a que pertencemos.

Esta astronomia física nos sugere uma filosofia metafísica: é possível, e
mesmo provável, que haja muitas humanidades, iguais, inferiores ou
superiores, à humanidade terrestre.

As creaturas conscientes e livres mais evolvidas [1] que nós, são chamadas
pelos livros sacros os celestes, as menos evolvidas são as infra-terrestres, ou
os ínferos, e nós somos os terrestres.

--------------
[1] Note o leitor que, em todos os nossos livros, usamos a palavra corretamente latina evolver e involver,
e não o hibridismo francês evoluir e involuir, que, infelizmente, tomaram conta da língua portuguesa,
sobretudo no Brasil. Evolver é desenvolver, involver é o contrário. Ninguém diz desenvoluir em vez de
desenvolver, nem devoluir ou revoluir, em vez de devolver ou revolver. O português não é derivado do
francês, mas do latim.

Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve que, em nome do Cristo,
se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres.

As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró ou
contra Deus, se por Deus entendemos a alma do Universo, ou o Creador.

Em virtude dessa consciência e liberdade, a parte creatural do Universo se
bifurca em dois pólos: positivo e negativo.

Essa bifurcação bipolar é necessária para a evolução do Universo consciente e
livre, porque sem resistência não há evolução. Em linguagem comum, as
entidades do pólo positivo são chamadas os bons, e as do pólo negativo são os
maus – ou seja, anjos e diabos, em se tratando do mundo invisível. Anjo (do
grego angelos) quer dizer mensageiro; diabo (em grego diábolos) significa
adversário.

Os mensageiros pró-Deus e os adversários contra-Deus constituem o mundo
das creaturas conscientes e livres, que têm a possibilidade de realizar a sua
evolução autônoma, como também a sua involução.
O livro do Apocalipse diz que houve uma grande luta no céu, isto é, entre as
creaturas superiores à nossa humanidade: algumas se revoltaram contra Deus,
enquanto outras aderiram a Deus. Os revoltados foram lançados à terra, onde
continuam a sua tarefa de servirem de peças de resistência às creaturas
terráqueas em evolução.

Se houve uma luta no céu, então o céu não é esse ridículo museu de múmias
fossilizadas eternamente no bem, que a nossa teologia infantil nos impingiu;
nem o inferno é um museu de seres petrificados no mal. Céu e inferno são dois
campos em vias de evolução habitados por seres dotados de livre-arbítrio. No
Universo das creaturas, tudo é fluxo incessante, nada é estagnação definitiva.

Os livros sacros enumeram nove hierarquias de mensageiros celestes,
chamados: anjos, arcanjos, serafins, querubins, tronos, dominações,
principados, virtudes e potestades.

Na Epístola aos Efésios 6,12, Paulo de Tarso enumera três dessas hierarquias
como adversários de Deus e ativos na terra dos homens: principados,
potestades e dominações; diz que a nossa luta não é contra carne e sangue,
mas contra este mundo tenebroso dos espíritos malignos.

No livro de Job, aparece um desses adversários (satan, em hebraico) no meio
dos emissários de Deus, ou anjos. Esse satan arruinou completamente a
prosperidade material desse grande fazendeiro de Hus, matou os dez filhos
dele e cobriu o corpo de Job com chagas purulentas.

Nem os mensageiros nem os adversários, têm poder sobre a consciência e o
livre-arbítrio do homem, mas podem, em certas circunstâncias, afetar, benéfica
ou maleficamente, a vida do homem.

Quase toda a literatura humana, tanto do oriente como do ocidente, está
repleta de referências a essas entidades invisíveis, que afetam a evolução do
homem, consoante a atitude, positiva ou negativa, que o homem assume em
face delas.

No presente livro, descrevemos algumas atividades desses poderes invisíveis,
as estratégias do adversário, que, em hebráico, se chama satan, e em grego
diábolos.

Preferimos todavia usar o nome Lúcifer para designar esse poder adverso.
Lúcifer quer dizer literalmente porta-luz, simbolizando a luz matutina (estrela
d’alva, Vênus), que precede o nascer do sol, como é usado na Bíblia. Mas
Lúcifer pode também simbolizar a luz da inteligência que precede a luz da
razão (espírito). Nos livros sacros não ocorre a palavra Lúcifer no sentido
negativo de satanás ou diabo; mas na linguagem popular de todos os países,
Lúcifer é usado como o poder anti-espiritual, sentido esse em que o
empregamos no presente livro. Os povos têm certa razão em identificar Lúcifer
com satanás, porque a inteligência humana, quando atua em seu próprio
nome, sem o controle da razão espiritual, degenera invariavelmente em
satanidade anti-espiritual.

O nosso mundo moderno, altamente intelectualizado, é grandemente contrário
ao espírito.

Na cena da tentação de Jesus, o tentador quer ser servido e adorado pelo
Cristo, e como recompensa lhe oferece todos os reinos do mundo e sua glória
– lucefirismo esse que caracteriza adequadamente grande parte da nossa
civilização moderna.

Por esta razão disse o Mestre a seus discípulos: “O príncipe deste mundo, que
é o poder das trevas, tem poder sobre vós; sobre mim ele não tem poder,
porque eu venci o mundo”.

Descrevemos neste livro a estratégia característica de Lúcifer, por vezes
vitoriosa, por vezes derrotada.

Os leitores que conhecem o meu livro “A Nova Humanidade” têm a vantagem
de compreender melhor as seguintes páginas sobre a tática do adversário –
tática essa que faz parte do plano cósmico da evolução entre as creaturas
conscientes e livres. Se o leitor assumir uma atitude cosmorâmica em face do
Universo, compreenderá o Uno do Creador e o Verso das creaturas.
LÚCIFER



Como caíste do céu, Lúcifer, estrela d’alva! Tu, que dizias em tua mente:
subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus, para além
das mais altas nuvens – serei semelhante ao Altíssimo!

“E agora, foste lançado ao inferno, às ínfimas profundezas da terra”. (Isaias,
14,12-15).

No texto acima, escrito durante o exílio babilônico, 600 anos antes da Era
Cristã, pelo maior dos profetas hebreus, Lúcifer é chamado estrela d’alva (em
grego: eosfóros, portador da aurora), talvez por ter sido a mais deslumbrante
das entidades angélicas.

O Apocalipse de João diz que o “dragão”, quando foi expulso do céu, arrastou
consigo um terço das estrelas celestes rebeladas contra Deus.

O céu, como se vê, não é um lugar definitivo, e as creaturas dotadas de livre-
arbítrio não se acham numa meta estática e definitiva de evolução; podem
assumir atitude pró ou contra Deus.

Lúcifer, que, daí por diante, é chamado satan (adversário) ou diábolos
(opositor), foi lançado das regiões superiores (céu) para as regiões inferiores
(inferno), onde ele domina as profundezas da terra, como o tentador afirma, e
como o Cristo confirma: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas,
tem poder sobre vós”.

O mundo das creaturas dotadas de consciência e livre-arbítrio, tanto celestes
como terrestres, não é um mundo de robôs, padronizados, mas de entidades
em evolução, responsáveis por seus atos.

Não há nenhum museu celeste nem infernal.

A mais deslumbrante mentalidade celeste quis ser semelhante ao Altíssimo
pelo poder da sua inteligência, e por isso foi lançada às regiões inferiores.
Houve uma grande luta no céu, escreve João, no Apocalipse, e o campeão das
falanges fieis a Deus derrotou Lúcifer e seus adeptos com o brado: “Quem-
como-Deus?” (em hebraico: Mi-cha-el).

Um terço das falanges celestes foi lançado às regiões inferiores da terra, onde
continuam a sua luta, tentando revoltar os habitantes terrestres contra Deus.
Entretanto, uma creatura dotada de livre-arbítrio não pode ser forçada por
nenhuma outra, que apenas lhe pode dificultar a evolução ascensional.
Segundo as leis cósmicas, essa oposição luciférica faz parte da evolução
humana, porque sem resistência não há evolução.

Acima dessa antítese de dois poderes em luta, existe a Tese do Poder Único e
Absoluto da Divindade. No mundo infra-hominal (natureza), as antíteses
evolutivas são sintetizadas automaticamente pelo Poder Supremo, ao passo
que, no mundo hominal, devem as antíteses sintetizar-se pela liberdade da
própria creatura. Tanto a “luz do mundo” como o “poder das trevas” estão a
serviço do Poder Supremo e Único da Divindade. O destino cósmico e
indestrutível e infalível, ao passo que o destino humano depende da creatura
livre, oscilando entre a felicidade e infelicidade dela.

Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agir naturalmente como
fator de retaguarda – mas ele tem a tendência de usurpar o pólo positivo da
vanguarda, desequilibrando assim a harmonia do microcosmo humano
(pecado). Por isto nos livros sacros, a ordem que o pólo positivo da vanguarda
(Cristo) dá ao pólo negativo da retaguarda é invariavelmente: “Vai à
retaguarda” (vade retro).

Concorda com isto a sabedoria milenar da Bhagavad Gita, como dissemos,
quando afirma que o ego (negativo, retaguarda) é o pior inimigo do Eu
(positivo, vanguarda), mas que o Eu é o melhor amigo do ego. E acrescenta:
“O ego é um péssimo senhor da nossa vida, mas é um ótimo servidor”.

Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólos
evolutivos, que regem todo o Universo: O Uno da Essência Absoluta, que rege
o Verso, das Existências Relativas.

As leis cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólos
da antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja pelo
Poder Supremo, como no mundo infra-hominal, seja pelo livre-arbítrio, como
deve ser no mundo das creaturas livres.

No mundo hominal do Universo, o Verso das antíteses complementares é
reduzido à síntese do Uno pela consciência creadora do livre-arbítrio.

O grande tratado de paz, a harmonia entre a antítese dos pólos
complementares da natureza humana, só pode ser obtido pela soberania do Eu
sobre o ego, ou seja, pela voluntária integração do ego inferior no Eu superior
do homem.

É esta a perfeição e felicidade do homem.
O PLANO CÓSMICO

                           DA EUGENIA HUMANA



Falamos, no capítulo precedente, dos dois pólos complementares do Universo
e do homem.

No Universo macrocósmico, essas duas antíteses estão automaticamente
sintonizadas pela própria Potência Creadora do cosmos; a atração é
equilibrada pela repulsão; o próton do átomo é harmonizado por seus elétrons;
o pólo positivo da eletricidade é equilibrado pelo pólo negativo, etc.

Mas, não é isto que acontece no Universo microcósmico do homem, porque
aqui aparece um fenômeno inédito, inexistente no Universo sideral: a
creatividade do livre-arbítrio. No homem existe uma harmonia apenas potencial
entre os dois pólos, que pode equilibrar esses pólos, mas pode também
desequilibrá-los. É esta a essência do livre-arbítrio, que não é ausência de
causalidade, mas uma causalidade auto-causante, em vez da causalidade alo-
causada. O homem pode atualizar o seu equilíbrio meramente potencial,
realizando assim a sua natureza integral.

Todo o drama milenar do homem gravita em torno do livre-arbítrio, usado ou
abusado. Neste sentido, disse um pensador moderno: “Deus creou o homem o
menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível”. Esse
menos possível representa a potencialidade; o mais possível indica a
atualização da harmonia dos dois pólos. Só por esse processo de creatividade
é que o homem realiza a sua evolução tipicamente humana.

O plano cósmico referente ao fenômeno “homem” é essa realização livre da
sua existência, que poderíamos denominar eugenia humana, ou auto-
realização.

Essa realização existencial depende da íntima essência do homem, a
substância central do seu Eu. As circunstâncias periféricas, relacionadas com o
seu ego, podem facilitar ou dificultar essa realização existencial, mas não a
podem impedir, enquanto se trata de um homem normal.

No homem, como se vê, os dois pólos da sua natureza são elásticos e
evolvíveis, tanto para o lado da realização como também da frustração
existencial. Depende do homem fortalecer ou enfraquecer o poder da sua
substância central.
Através de toda a história humana vai essa luta constante, pró ou contra a
substância, pró ou contra as circunstâncias.

No centro desse campo de batalha está o mistério do livre-arbítrio, da
creatividade, positiva ou negativa, que pode ser considerada como um reflexo
do próprio Creador, com a diferença de que, no homem, esse poder é relativo e
não absoluto. Se há no homem uma “imagem e semelhança” com Deus, como
diz o Gênesis, então é essa creatividade do seu livre-arbítrio.

Na história multimilenar da humanidade aparecem constantemente a ação e a
reação dos dois pólos antitéticos em demanda duma sintetização.

Convém saber que as Potências que os livros sacros chamam o “poder das
trevas” e a “luz do mundo” – ou seja Lúcifer e Lógos – existem tanto no
transcendente impessoal como também no imanente pessoal. Existe uma
potência positiva e uma potência negativa no Verso do Universo sideral, como
também no Verso do Universo hominal.

O poder Único é somente da Essência, do Uno, da Tese – em todo o âmbito da
Existência, do Verso, das Antíteses, esse Poder Único aparece bifurcado em
dois poderes, aparentemente antagônicos, realmente complementares.

Os livros sacros, bem como as filosofias, mencionam frequentemente essa luta
do homem entre dois poderes, que têm o seu reflexo dentro da própria
natureza humana. E, como já lembramos, esses dois poderes parecem, à
primeira vista, antagônicos e irreconciliáveis. O poder negativo aparece
comumente com a conotação pejorativa de “poder das trevas”, “adversário”,
“opositor”, ou, em hebráico e grego, satan e diábolos.

Os grandes iniciados da humanidade sabem que esses poderes não são
realmente antagônicos, mas complementares, razão por que esses iniciados
colocam o pólo positivo na vanguarda, e o pólo negativo na retaguarda, como
consta nitidamente da filosofia milenar da Bhagavad Gita e da Sabedoria do
Evangelho. Krishna afirma que o ego (poder negativo) é o pior inimigo do Eu
(poder positivo), mas que este é o melhor amigo daquele. O ego é um péssimo
senhor, mas um ótimo servidor da vida. O Cristo-Lógos do Evangelho manda
Lúcifer para a retaguarda do servir, enquanto ele mesmo está na vanguarda do
mandar.

Por toda a parte, aparece a sabedoria cósmica de complementaridade positiva
e negativa do Eu e do ego humanos.

Numa grandiosa cosmo-visão, o Salmista celebra a grandeza do homem,
exclamando: “Que é o homem, Senhor, que o contemples? E o Filho do
Homem que o visites? Pouco abaixo dos anjos o colocaste e o constituíste
sobre as obras das tuas mãos”. Estas palavras focalizam a grandeza do
homem, quando plenamente realizado.
Alguns autores, como Alexis Carrel, dizem que o homem é um “Desconhecido”,
referindo-se ao seu Eu realizável, porém não realizado.

Outros, como Blaise Pascal, preferem dizer que o homem é um “misto de
grandeza e de miséria”, referindo-se ao seu ego, que é miséria, e ao seu Eu,
que é grandeza.

Teilhard de Chardin acha que o homem é um “fenômeno” colocado no marco
inicial alfa em demanda da meta longínqua do Ômega.

O erro funesto das teologias tem sido o fato de considerarem o homem do
Gênesis como um homem divinamente realizado, quando, na verdade, é
apenas um homem humanamente realizável, e que teve ordem de se realizar.
Mas, como toda a evolução vai com passos mínimos em espaços máximos, o
grosso da humanidade não se realizou, achando-se ainda no marco primitivo
do homem-alfa. Só de longe aparecem, como que meteoros em plena noite,
homens de avançada evolução, rumo ao ponto ômega.

A perfeita eugenia humana existe em todos potencialmente, mas atualmente
em pouquíssimos, porquanto muitos são os vocados, e poucos os evocados. O
vocado, ou chamado é todo o homem em sua potencialidade creativa; os
evocados são os poucos que atenderam ao chamamento da vocação e o
realizaram na evocação. O evocado é o homem que tem a consciência e a
vivência da sua vocação hominal, o homem que realizou as suas
potencialidades creadoras.

Logo no início da creação do homem, já aparecem essas duas potências em
luta pelo homem. Sendo que o homem não era uma creatura realizada, mas
apenas realizável, era necessário esse duelo entre Lúcifer e Lógos, para a
evolução do homem, porque, como dizem os corifeus atômicos no livro “A
Gnose de Princeton”: “Sem resistência não há evolução”. Evolver, ou
desenvolver, quer dizer desdobrar o que está dobrado. Evolver é atualizar a
potencialidade, tornar realizado o realizável.

A eugenia humana é um marco avançado na evolução ascensional do homem.
Quando essa eugenia atinge grande altura, o homem é chamado “Filho do
Homem”; enquanto ele está longe do ideal, é chamado “filho de mulher”.

No início da humanidade, quando o “sopro divino” acabava de ser insuflado
num organismo infra-humano, como era natural, a animalidade prevaleceu
sobre a hominalidade. E, quando o espírito se manifesta no primeiro estágio de
inteligência, é natural que o instinto animal se manifeste em forma de
intelectualidade.

Mas, é lógico e matematicamente certo que um instinto animal ainda não
espiritualizado, mas apenas intelectualizado, degrade o homem,
temporariamente, abaixo do nível do animal. O instinto age automaticamente,
com infalível certeza, porque é controlado pelas Potências Creadoras do
Universo. Mas, quando o instinto é ligeiramente intelectualizado, isto é, liberto
do seu automatismo instintivo, então perde ele a sua segurança e faz do
homem um animal perigosamente intelectualizado.

Instinto é segurança sem liberdade.

Inteligência é liberdade sem segurança.

Razão é liberdade com segurança.

Mas, até hoje, a humanidade como tal não evolveu até a esse terceiro estágio,
que os cientistas denominam logosfera; o homem se debate na noosfera do
intelecto, nesse caos de semi-segurança e semi-liberdade.

Este estágio de homificação vem descrito no Gênesis de Moisés. O “fruto
proibido” não era o uso do sexo, mas a perversão do instinto sexual
engendrada pela inteligência ainda não espiritualizada.

Quanto mais a liberdade intelectual cresce, tanto mais decresce a segurança
instintiva. Somente com o despertar do espírito (Lógos), são integralmente
compatíveis, em perfeito equilíbrio, a liberdade e a segurança.

O homem de hoje perdeu a segurança instintiva, porque em parte adquiriu
liberdade intelectual. Comeu do “fruto proibido”, mas não comeu ainda do “fruto
da árvore da vida”, que seria perfeita segurança com perfeita liberdade, que só
é possível sob o regime do “sopro de Deus”, e não do “sibilo da serpente”.

Já aqui, no início da humanidade, aparece no campo de batalha os devas do
espírito e os kurus do intelecto, do intelecto unilateralmente evolvido, e do
espírito ainda dormente. Esse trágico desequilíbrio entre espírito e intelecto é,
por muitos, considerado uma “queda” do homem, quando, na realidade, é um
estado preliminar da sua evolução.

Se, segundo as citadas palavras do inspirado Salmista, o homem foi
constituído sobre as obras de Deus, aqui na terra; se, segundo as palavras
proféticas do Apocalipse, o reino dos céus será proclamado sobre a face da
terra; e se, segundo a afirmação do Lógos e a confirmação do próprio Lúcifer,
todos os reinos do mundo são, atualmente, do “poder das trevas” – então é
lógico que Lúcifer se defenda com todas as forças contra a perda desta sua
soberania terrestre e hostilize o “intruso homem”, que lhe poderia usurpar os
reinos da terra e sua glória.

Algum dia, segundo as profecias dos videntes, o homem deve ser o dominador
do planeta terra, não pelo poder da inteligência (que não é domínio estável)
mas pelo poder do espírito. Mas esse domínio não será Teo-dado e sim auto-
realizado. E, para mostrar ao homem o que ele pode e deve vir a ser, o Cristo
cósmico encarnou na natureza humana, convidando o homem a segui-lo
livremente.

Os planos cósmicos não falham, mas serão realizados pela única creatura
creadora da terra – o que não significa que todos os indivíduos humanos
realizarão esses planos, mas sim que eles serão realizados pela natureza
humana representada pelos indivíduos que, livremente, os queiram realizar.

“Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o
mais possível”.
ESTRATAGEMA VITORIOSO

                                DE LÚCIFER



Lúcifer foi chamado pelo Lógos o “príncipe deste mundo”, que tem pode sobre
os homens. E Lúcifer confirma esse título, dizendo que ele é o dono de “todos
os reinos deste mundo e sua glória” e os dá a quem ele quer.

Quando apareceram nesta terra duas creaturas diferentes das outras, achou
Lúcifer que devia sondar essa novidade, que, possivelmente, seria um perigo
para seu reino – tanto mais que um dos dois havia recebido o sopro dos
Elohim. Escolheu Lúcifer para sua sondagem a mulher, que lhe parecia, mais
acessível aos seus planos e suas sugestões. Aproximou-se dela a sós, na
ausência do homem, e lhe fez a pergunta provocante: “Por que vos proibiram
os Elohim comerdes de todos os frutos do paraíso?

A mulher respondeu prontamente: “Nós comemos de todos os frutos do
paraíso, exceto um; que não podemos comer, nem mesmo tocar, do contrário
morreremos”.

Ao que Lúcifer replicou, jogando perversamente com a sabedoria dos próprios
Elohim, dizendo: “De modo algum morrereis; os Elohim sabem que, se desse
fruto comerdes, abrir-se-vos-ão os olhos e sereis semelhantes a eles,
conhecedores do bem e do mal”.

Veladamente, fez ver à mulher que os Elohim agiam por inveja ou ciúme: não
queriam que os homens fossem iguais a eles.

Que estratagema melhor poderia Lúcifer ter usado senão este?

Quando a mulher percebeu a suposta camuflagem dos Elohim, ardia de
impaciência por comer do fruto proibido. Estas palavras enigmáticas aguçaram
a curiosidade dela: abrir-se-vos-ão os olhos e conhecereis o bem e o mal...
Que era isto?

E começou a observar atentamente o fruto proibido, que era bom para comer,
delicioso para olhar, e era a hora certa para ser provado, como diz
enfaticamente a Septuaginta grega.

Tomou do fruto, primeiro sozinha; pois estava só; depois foi ter com seu marido
e lhe deu do fruto, e ele comeu.

Neste momento, abriram-se-lhes os olhos e verificaram que estavam nus.
É este o momento em que o instinto inconsciente do animal passa para a
inteligência consciente do homem.

O fruto proibido, como já dissemos, não era o uso do sexo, porquanto os
Elohim haviam dado ordem para se multiplicarem. Mas o uso do sexo não
obedeceu ao instinto inconsciente, e sim à inteligência consciente: usaram o
sexo, não como meio para a procriação, mas com o fim de gozarem de um
prazer libidinoso. Adulteraram a sua natureza; já eram animais inocentes, eram
seres humanos culpados.

O intelecto é ótimo servidor, mas é péssimo senhor da vida. Agiram sob os
auspícios do intelecto, e não do espírito nem do instinto inocente.

A libido sexual arvorada em fim degradou os homens ao nível infra-animal. Em
vez de subirem a um nível supra-animal, desceram a uma baixada infra-animal,
a uma involução que lhe dificultava a evolução.

Era precisamente esse o estratagema de Lúcifer, obstruir o caminho evolutivo a
essas creaturas suspeitas de, um dia, usurparem o reino de Lúcifer e
emanciparem-se do poder dele.

Era necessário fossilizar o homem no domínio luciférico da inteligência.

Depois desta primeira vitória de Lúcifer sobre a humanidade inicial, lançaram
as Potências Creadoras três maldições terríveis, uma contra a serpente da
inteligência luciférica, outra sobre a mulher, e a terceira sobre o homem. A
serpente é condenada a rastejar e nutrir-se das coisas materiais da terra; a
mulher sofrerá muito com a gravidez e o parto e estará sob o domínio do
homem; a terra toda estará maldita por causa do homem, que comerá do seu
pão no suor do seu rosto.

A veemência dessas três maldições é incompreensível, se se tratasse apenas
duma imoralidade de agir, como pensam os intérpretes tradicionais. Moisés,
porém, e os Elohim sabiam que aqui está em jogo a própria verdade do ser de
toda a futura humanidade, e em jogo esta o próprio destino do homem, que
devia tornar-se a coroa da creação.

O próprio Cristo afirma que Lúcifer se arvorou em príncipe deste mundo e tem
poder sobre os homens, porque estes apostataram da soberania do espírito
divino e se submeteram à tirania da inteligência luciférica.

Através de todos os tempos da humanidade, as grandes catástrofes – como o
dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra – são consideradas pelos livros
sacros como o eco dessas maldições.

A humanidade trocou o reto-agir do sopro divino pelo falso-agir do sibilo da
serpente, subvertendo assim a ordem cósmica e arvorando o prazer sexual
como fim autônomo da existência, quando devia ser apenas um meio para
outro fim.

Em face disto se compreende a insólita veemência das maldições dos Elohim.
Trata-se da realização existencial – ou da frustração existencial do gênero
humano.

Em nossos dias, esta subversão das leis cósmicas atingiu o clímax da sua
gravidade: a serpente da inteligência luciférica inventou uma pílula que
proporciona ao homem e à mulher o gozo ilimitado da libido erótica sem
nenhuma outra finalidade.

Em face disto se compreende a agravação de todos os males da humanidade e
a ameaça de uma tragédia universal, que pode comprometer a própria
existência do homem sobre a face da terra.

As maldições das Potências Creadoras, em vez de serem neutralizadas, estão
sendo cada vez mais agravadas.

É esta sem dúvida, a vitória máxima da estratégia de Lúcifer, a cujo poder o
homem se entregou.

“O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”.

Quando Lúcifer levou a mulher a um ego-agir, realizou ele a maior façanha da
sua estratégia anti-cósmica: desviou o trilho do reto-agir para um falso-agir.
Verdade é que esse desvio era mínimo, quase imperceptível; mas, quando um
trilho que devia ir ao norte, é desviado um milímetro para o leste ou oeste, esse
milímetro se torna, aos poucos, um centímetro, depois um metro, mais tarde,
um quilômetro – e o homem não atinge a meta do seu destino.

A erótica não é proibida quando funciona como um meio, como um fenômeno
concomitante do reto-agir; mas é proibida quando substitui o reto-agir do Eu
pelo falso-agir do ego.

Para compreender essa estratégia perversa de Lúcifer, é necessário saber que
a libido é a mais alta afirmação do ego, chamada eufemisticamente “amor”. O
Eu verdadeiro não age em nome da libido erótica, mas em nome do amor
humano, rumo à grande vertical do seu destino. Quando a libido erótica
funciona como um fim autônomo, então o homem funciona como ego
masculino e ego feminino; funciona em nome e por amor à sua máscara
ilusória, e não em nome do seu Eu verdadeiro.

Em quase 2000 anos de cristianismo a cristandade não conseguiu neutralizar
essa estratégia sutil de Lúcifer; pelo contrário, essa estratégia foi fortalecida
através dos séculos e milênios, até culminar, no século XX, na prática da pílula
anti-concepcional, onde o ego é 100%, e o Eu 0%. Por esta razão, os grandes
videntes profetizam o fim da humanidade para as vésperas do terceiro milênio.

Nesta primeira investida saiu Lúcifer plenamente vitorioso: derrotou a única
creatura terrestre que representava um perigo para o seu reino.

Lúcifer se serve do homem intelectual mas teme o homem espiritual.

Os Elohim fulminaram terrível maldição à inteligência luciférica, condenando-a
a rastejar nas baixadas materiais dos sentidos, nutrindo-se das coisas
terrestres, incapaz de saborear as coisas celestes.

Dessa mesma inteligência rastejante escreveu Paulo de Tarso: “O homem
intelectual não compreende as coisas do espírito, que lhe parecem estultícia,
nem as pode compreender, porque as coisas do espírito devem ser
compreendidas espiritualmente”.

E o sábio rei Salomão declara: “Num corpo viciado não entra sabedoria”.

                                       ***

Logo após essa vitória, porém, teve Lúcifer de ouvir palavras estranhas e de
mau agouro. Os Elohim declararam que poriam inimizade entre ele e a mulher,
entre o descendente dele e o descendente dela, o qual esmagaria, um dia, a
cabeça de Lúcifer.

Contudo, Lúcifer continuaria a sua estratégia, armando ciladas ao calcanhar do
vencedor.

Esse certame de Lúcifer versus Lógos, de trevas contra luz, faz parte dos
planos cósmicos que regem todo o Universo, até à plenitude dos tempos. Entre
altos e baixos, por entre luzes e trevas, se projeta a estrada da evolução; o joio
não será exterminado do meio do trigo enquanto este não atingir a plenitude da
sua maturidade. Iguais em sua evolução externa são o joio e o trigo –
desiguais, porém, em seu destino interno. O positivo se perpetua rumo ao Todo
– o negativo vai rumo ao Nada.

Todas as coisas finitas são como linhas curvas que, cedo ou tarde, terminam
onde começaram – ao passo que o Infinito é semelhante a uma linha reta, cujo
término transcende o seu princípio.

Nos planos cósmicos, o bem e o mal do homem estão a serviço do Todo,
embora um dê felicidade, e outro infelicidade.
LÚCIFER PERDE

                          UMA APOSTA COM DEUS



O livro de “Job”, da Bíblia do Antigo Testamento, é uma obra-prima de literatura
de psicologia. Se, nesse tempo, tivesse havido “Prêmio Nobel”, deveria ser
conferido ao livro de Job.

Trata-se de um riquíssimo fazendeiro agropecuário, gentio, na terra de Hus, lá
pelas bandas da Mesopotâmia.

Job tinha 10 filhos, sendo 7 homens e 3 mulheres. Possuía 7.000 ovelhas,
3.000 camelos, 500 bois de tração e 500 mulas. Era mais rico que outro
homem qualquer do oriente. Das plantações de Job não se fala; mas deviam
ser imensas para poder alimentar esses 11.000 animais herbívoros.

Esse riquíssimo fazendeiro era ao mesmo tempo profundamente espiritual.

Certo dia, refere o texto, estavam reunidos os Filhos de Deus, e no meio deles
apareceu Lúcifer – um kuru no meio dos devas. E a terra de Hus se converteu
num novo Kurukshetra, um campo de batalha entre o bem e o mal.

– Donde vieste? – perguntou Deus a Lúcifer.

– Vim da terra – respondeu Lúcifer como quem diz que veio da sua casa, dos
seus reinos e sua glória.

– Viste meu servo Job? – perguntou Deus.

– Vi, sim – respondeu secamente Lúcifer, que devia ter uma lembrança amarga
dessa visita a Job, porque era um subversivo no meio do seu reino.

– Que tal? – perguntou Deus – não é um servo meu altamente espiritual?

– Ora, ora – replicou cinicamente Lúcifer – é muito fácil ser espiritual, porque o
fizeste nadar em prosperidade.

Deus, porém, respondeu a Lúcifer que Job não era espiritual porque era
próspero em bens materiais; ele seria espiritual mesmo que fosse pobre.

Nesta altura, Lúcifer propõe um jogo de aposta: quer apostar com Deus que
Job deixaria de ser espiritual, se perdesse toda a sua fortuna. Deus aceita a
aposta: dá licença a Lúcifer para arruinar toda a fortuna do rico fazendeiro.
Mais que depressa, Lúcifer volta à terra e manda os seus comparsas humanos
invadirem a fazenda de Job, roubar todo o gado dele e arrasar as plantações.

Depois disto, Lúcifer volta à presença de Deus.

– Então? – pergunta Deus – arruinaste a fortuna de meu servo Job?

– Arruinei tudo – replicou Lúcifer.

– E Job me maldisse?

– Não, ele disse: Deus o deu, Deus o tirou, seja bendito o nome de Deus.

Lúcifer, porém, apesar de ter perdido o primeiro ponto de aposta com Deus,
não se deu por derrotado. Respondeu sarcasticamente:

– Pele por pele! Até agora só toquei na fortuna dele, mas não na família e na
pessoa de Job.

Segue-se nova aposta. Deus permite a Lúcifer arruinar também a família e a
saúde de Job, poupando, porém, a vida dele. Lúcifer põe mãos à obra.
Aproveita a oportunidade em que todos os filhos de Job estão reunidos numa
festa – e faz desabar sobre eles a casa, matando todos, com exceção única da
mulher, que era contra Job e a favor de Lúcifer. Possivelmente, Lúcifer se
lembrava daquela mulher, no Éden, que sucumbira à investida dele.

Logo depois da morte de todos os filhos, Lúcifer cobre de chagas purulentas
todo o corpo de Job. Não tinha licença para matá-lo. Reduzido a uma chaga
viva, senta-se Job num monturo, e, com um caco, único resto da sua fortuna,
raspa o pus das chagas, murmurando: Deus o deu, Deus o tirou – seja bendito
o nome de Deus.

Aparece então a mulher, única sobrevivente da família, e diz ao marido: De que
te serviu toda a tua espiritualidade? Maldize a Deus e morre de uma vez.

Replica Job;

– Qual mulher insensata falaste. Se Deus nos deu tudo, por que não poderia
tirar tudo?

Lúcifer, depois de perder todas as suas apostas com Deus, não tem a coragem
de voltar à presença dele, nem à presença de Job. Vergonhosamente
derrotado em sua estratégia manda três dos seus comparsas, três filósofos
orientais, cujos nomes são Elifas, Baldad e Sofar. Esses tinham ouvido das
desgraças do amigo e foram vê-lo e consolá-lo dos seus sofrimentos.
Estupefatos à vista do estado trágico do amigo, não se atrevem aproximar-se
dele. Sentam-se no chão, à segura distância, (para não serem contaminados) e
começam a falar.
A consolação que entre os três filósofos têm a dar ao amigo é digna do seu
chefe Lúcifer: todos os três tentam provar, um após outro, que Job é um grande
pecador – bela consolação: – porque Deus é justo e não castiga os justos mas
tão somente os pecadores.

Job protesta a sua inocência; não tem consciência de pecado algum. Mas os
três filósofos inventam subterfúgios para não se darem por vencidos: se Job
não tem consciência do seu pecado, daí não se segue que seja isento de
pecados; pode ter débitos inconscientes, talvez de uma vida passada, débitos
que tem de pagar na vida presente.

Job continua a protestar a sua inocência e a louvar a justiça de Deus, que pode
dar tudo e tirar tudo, sem cometer injustiça.

Após essa derrota total dos três comparsas de Lúcifer, aparece finalmente o
próprio Deus que reprova a filosofia dos três desastrados consoladores,
dizendo:

– Que estais a falsificar com a vossa filosofia os planos da minha sabedoria?

– Os três filósofos emudecem, reprovados em filosofia pelo próprio Deus. E
Deus continua:

– Job não sofre por pecado algum, não tem débito; eu o fiz sofrer para
aumentar o seu crédito, para ele se tornar ainda mais espiritual do que era. Por
ventura não tem o oleiro o direito de dar a seu barro o destino que quer? Fazer
dele vasos preciosos ou vasos para fins humildes?

Com isto faz Deus ver aos três filósofos que ele não faz as coisas por serem
justas, mas que as coisas são justas porque ele as faz.

Depois dessa derrota de Lúcifer e dessa vitória de Job, termina o drama de
luzes e trevas, e Job é reintegrado em todos os seus bens super-
abundantemente.

Lúcifer, embora derrotado, cumpriu a sua missão específica: servir de peça de
resistência para que o homem bom se torne ainda melhor. De acordo com os
eternos planos evolutivos das Potências Creadoras, também o poder das
trevas é servidor delas, mesmo à sua revelia.

Lúcifer, após esta derrota, desaparece do cenário, cogitando novos planos para
sabotar a sabedoria de Deus.
UM ESTRATAGEMA

                                MALOGRADO



Esperançado com a vitória sobre a primeira mulher, no Éden, aventurou-se
Lúcifer a assediar um homem; não num jardim florido mas num deserto árido
da Judéia.

Esse homem era um mistério. Jejuara e meditara durante 40 dias consecutivos.

Desta vez, mudou Lúcifer de tática. Um homem austero como este,
naturalmente, não podia ser tentado com um primitivo engodo sensual. Por
outro lado, recordava-se Lúcifer da sua derrota na terra de Hus, onde perdera a
aposta com Deus sobre um rico fazendeiro, espiritualmente firme como um
obelisco de granito.

Será que este eremita do deserto seria tão inexpugnável como aquele ricaço?

Lúcifer foi sondando cautelosamente o terreno. Apanhou duas pedras do
deserto, e apresentando-as ao misterioso eremita, disse:

– Se tu és um filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão.

O estranho jejuador devia estar com vontade de comer.

Mas a sugestão foi repelida com as palavras enérgicas:

– Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de
Deus.

Esta resposta dava uma boa pista a Lúcifer. Esse homem era um “filho de
Deus”, diferente dos outros homens. Devia ter ilimitada confiança num mundo
invisível. Seria um grande mago, mestre e líder em energia astral?

Num ápice, o tentador levou o homem ao alto da torre do Templo de
Jerusalém, mais de 40 quilômetros de viagem aérea. Se o levou fisicamente,
ou mentalmente, não consta. Mas o teste era válido. Lúcifer sugeriu uma
exibição de faquirismo, dizendo:

– Lança-te daqui abaixo, porque Deus deu aos seus anjos para te
suspenderem nas mãos, para que não firas os pés numa pedra.

E esperava que o suposto mago desponderasse o seu corpo e o fizesse descer
suavemente à terra, incólume.
Mas, em vez desta exibição de magia mental, o austero jejuador replicou
energicamente:

– Está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus.

Após esta segunda derrota, excogitou Lúcifer um estratagema arrojado. Jogaria
a sua última cartada. Levou o estranho eremita a um monte elevado;
descortinou diante dele, num deslumbrante cosmorama, todos os reinos do
mundo e sua glória, e disse:

– Tudo isto eu te darei, porque é meu, e eu o dou a quem eu quero... Calou-se
por uns momentos, observando o semblante imutável do homem e ponderando
a condição que lhe faria; daria, sim, todos os reinos do mundo e sua glória –
mas não de graça. Ia exigir um teste de incondicional vassalagem a esse
possível primeiro-ministro do seu reino. Com firmeza e solenidade ordenou:

– Prostra-te em terra e adora-me.

Mas o austero eremita se conservou em pé. Em vez de obedecer a Lúcifer,
exigiu dele absoluta obediência e adoração, dizendo:

– A Deus adorarás e só a ele prestarás culto.

Derrota tamanha não havia Lúcifer sofrido ainda. Em vez de ser adorado, é ele
convidado a adorar aquele a quem hostilizava.

E por fim, o estranho eremita teve a audácia de lhe fazer ver que o lugar dele
era na retaguarda paras servir, e não na vanguarda para ser servido e adorado:
– Vai à minha retaguarda!

Depois dessa derrota no deserto, começou Lúcifer a temer pela segurança dos
seus reinos na terra. Se existia um homem que não se considerava vassalo
dele, mas se arvorava em soberano, então estava em perigo a segurança dos
seus domínios terrestres. No Éden oferecera Lúcifer apenas um prazer
libidinoso a uma mulher, e ela caíra como uma folha seca. Recordava-se ele da
profecia enigmática dos Elohim sobre o descendente daquela mulher que
esmagaria a cabeça dele – será que era este o homem perigoso aos reinos
dele? E não dizia esse homem que o seu reino não era deste mundo? A que
outro mundo aludia ele?...

Lúcifer não aceitou o convite do jejuador de se pôr na retaguarda dele. Ele, o
“poderoso”, não ia servir a um outro senhor que se considerava como o “mais
poderoso”.

Em vez disto, desapareceu, cheio de vergonha e repleto de cólera.

Retirou-se apenas temporariamente, diz o texto, a fim de reaparecer
oportunamente, e tentar nova sabotagem.
De uma coisa tinha ele plena e dolorosa certeza: que o planeta terra, seus
domínios, estava sendo invadido por um ser estranho sobre o qual ele não
tinha poder.

Que fazer?

Lúcifer, sendo o mais astuto dos seres vivos da terra, como haviam dito os
Elohim, ia excogitar um estratagema de inaudita audácia: ia mobilizar uma
quinta-coluna dentro da própria fortaleza desse homem perigoso. E sua vitória
seria certa desta vez.
LÚCIFER MOBILIZA UM

                               QUINTA-COLUNA



Depois de derrotado fragorosamente no deserto da Judéia, resolvera Lúcifer
voltar oportunamente para tentar aquele perigoso eremita.

Essa oportunidade se lhe apresentou três anos mais tarde. Durante esse
triênio, tivera o “poder das trevas” tempo para mudar de tática a ver se
derrotava aquele que dizia ser a “luz do mundo”. Ia valer-se do auxílio de um
dos seus íntimos discípulos.

Prontamente, mobilizou um quinta-coluna para seu serviço.

Quinta-coluna é sinônimo de traidor, nome usado desde a guerra civil da
Espanha. Durante essa guerra, um dos chefes estava assediando uma
fortaleza à frente de quatro colunas de forças armadas. Perguntou-lhe alguém
se, com estas quatro colunas tinha esperança de tomar a fortaleza. Ao que o
chefe revolucionário respondeu calmamente:

– O quinta-coluna está dentro da fortaleza a nosso serviço.

Havia traidores secretos dentro da própria fortaleza.

De igual estratagema se ia servir Lúcifer, após a sua derrota no deserto da
Judéia. Conseguiu um aliado dentro da própria fortaleza daquele homem
perigoso. Conseguiu fazer de um dos 12 confidentes íntimos do Nazareno o
agente secreto da sua política.

De longa data vinha Lúcifer preparando o traidor, no princípio com falta de fé
nas palavras do seu Mestre. Mais tarde, essa falta de fé levou Judas a negociar
com os chefes da Sinagoga a entrega do Mestre.

Por espaço de três anos havia Iscariotes esperado a inauguração do Reino de
Deus sobre a terra, de que falava diariamente o Nazareno. Nesse reino seria
ele, que sempre levava a bolsa do dinheiro, um dos primeiros-ministros. Mas o
reino de que o Mestre falava não era deste mundo – e Judas só acreditava
num reino deste mundo. Era um homem realista, prático e não acreditava em
reinos utópicos, nas nuvens. No fim do terceiro ano de espera inútil,
convenceu-se Judas de que nada tinha a esperar do Nazareno; mas queria
fazer um negócio rendoso com as suas relações de discípulo do rabi da
Galiléia. Verdade é que não tencionava matá-lo, mas servir de intermediário da
sua prisão, na certeza de que o Mestre se tornaria invisível diante de seus
inimigos. O pagamento, naturalmente, seria adiantado.

Havia tempo que os chefes da Sinagoga tentavam prender o profeta da
Galiléia, que entusiasmava o povo simples, mas destoava das idéias dele.
Jesus porém, sempre lhes fugia das mãos.

Então se ofereceu Iscariotes para fazer negócio com os sacerdotes. Quanto me
quereis pagar? Perguntou ele, se eu vô-lo entregar? Trinta moedas de prata,
responderam eles.

– De acordo – replicou Judas. Recebeu o pagamento adiantado e especulava
por uma ocasião para entregar o seu Mestre sem alarmar o povo, sobretudo os
bons galileus, sempre amigos de Jesus.

Aliás, Judas era o único judeu entre os 12 discípulos; os outros eram galileus,
gente simples, ainda não pervertidos pela inteligência luciférica. Por isto seria
fácil o estratagema de Lúcifer para mobilizar Judas a seu favor.

Em vésperas da Páscoa judaica, estava Jesus com os 12 discípulos numa sala
para celebrar a tradicional cerimônia do cordeiro pascal, em comemoração da
libertação de Israel da longa escravidão do Egito. Judas estava presente. Sabia
também que, depois desse ritual, ia Jesus com os seus discípulos ao
Getsêmane para orar. Era ensejo oportuno para o entregar às mãos de seus
inimigos.

Havia, porém, uma dificuldade: Jesus devia ser preso pelos soldados romanos,
que estavam a serviço da Sinagoga; mas estes não o conheciam, e, estando
ele no meio dos seus discípulos, era difícil identificá-lo à sombra das oliveiras
do Getsêmane.

Judas, porém, achou saída fácil. Fez ver ao chefe da Sinagoga que ele mesmo
estaria presente e daria a senha da identificação do Mestre: aquele a quem eu
beijar, disse, esse é o tal; prendei-o.

Na hora marcada, após o rito do cordeiro pascal dirigiu-se Jesus ao horto das
oliveiras com seus discípulos. Judas chegou à frente dos soldados. Avançou
para o Mestre, abraçou-o e beijou-o na face, dizendo:

– Salve, Mestre!

– Jesus, para mostrar que não era vítima de uma cilada imprevista, mas sabia
do plano de Judas, disse:

– Amigo, a que vieste? Com um beijo tu atraiçoas o Filho do Homem?

Depois, voltando-se aos soldados, perguntou:

– A quem procurais?
– A Jesus de Nazaré – responderam eles.

– Sou eu – disse Jesus. E, no mesmo instante, todos os agressores caíram de
costas no chão. Jesus, em vez de fugir, como teria sido fácil, deu ordem que se
levantassem, e disse-lhes num tom singularmente solene e misterioso:

– Esta é a vossa hora e o poder das trevas.

E entregou-se a eles sem resistência. A partir deste momento, desistiu ele de
qualquer resistência ou evasão, ao contrário do que fizera nos três anos
anteriores da sua vida pública. E assim continuaria até ao último suspiro no dia
seguinte. Fisicamente se entregaria ao poder das trevas, parecendo ser
derrotado por Lúcifer.

Os evangelistas descrevem detalhadamente o que aconteceu depois desta
noite até às três horas da tarde seguinte: os homens a serviço do poder das
trevas ludibriaram dele de todos os modos imagináveis. É esta a política do ego
inferior contra o Eu superior: desabafar a sua cólera e vingança de pigmeus em
face de um gigante que não se defende. Prisão, flagelação, coroação de
espinhos, bofetadas e escarros na face, ludíbrios com um manto de púrpura e
um cetro real de uma cana de taquara – tudo isto foi mobilizado pelos
comparsas de Lúcifer aparentemente vitorioso. Tudo isto faz parte da
estratégia do poder das trevas que se vinga da intrusão da luz do mundo nos
seus domínios.

Certos teólogos cristãos, há quase 2.000 anos, ensinam que todos esses
sofrimentos e ludíbrios foram mandados por Deus para que Jesus com eles
pagasse os pecados da humanidade.

Finalmente, Jesus pôs termo final à vitória do poder das trevas dizendo:

– Está consumado...

E consumada estava a maior vitória do Lógos, que mediante essa voluntária
derrota, derrotara o Lúcifer pseudo-vitorioso.
“O MEU REINO

                             NÃO É DESTE MUNDO”



Era em Jerusalém, dia 7 de abril do ano 33, numa sexta-feira, às 9 horas da
manhã, como o Evangelho frisa com insistência. Achava-se Jesus na área
pavimentada do “Pretório Romano”, que os gregos chamavam Lithóstrotos, e
os hebreus GÁBBATA.

Neste lugar e nesta hora, o governador romano Pôncio Pilatos e seu réu Jesus
de Nazaré iam discorrer sobre os dois reinos que se digladiam no Universo: o
reino das trevas e da ilusão, e o reino da luz e da verdade. Os dois homens
eram embaixadores plenipotenciários dos respectivos reinos.

Perguntou Pilatos a Jesus:

– Tu és rei?

É que Jesus fora acusado de pretender a realeza da Judéia, que, havia meio
século, era uma província do Império dos Césares, senhores da Europa, da
Ásia e da África.

– Sim, eu sou rei – respondeu o homem no banco dos réus, e, para evitar
qualquer equívoco, logo acrescentou com firmeza:

– Mas o meu reino não é deste mundo.

Cheio de estranheza e espanto, olhou Pilatos para essa ruína humana diante
dele e perguntou:

– Donde és tu?

Se esse homem era rei, onde estava o reino dele? Na Europa, Ásia, na África?
Não; porque esses países eram do Império Romano. Vagamente se lembrava
Pilatos de certas fábulas da mitologia que falavam de reis divinos vindos à
terra. Seria o Nazareno um desses reis extra-terráqueos?

Respondeu o réu, com toda a clareza e decisão:

– Eu nasci para isto e vim à terra para isto: para dar testemunho à verdade.

Implicitamente, declarava o réu que o Império Romano, representado por
Pilatos, não era o reino da verdade. E, como uma advertência a seu juiz,
acrescentou:
– E todo aquele que é filho da verdade, atende à minha voz.

E acrescentou significativamente, reforçando o caráter extra-terrestre do seu
reino:

– Se deste mundo fosse o meu reino, os meus amigos lutariam para que eu
não fosse entregue a meus inimigos; mas o meu reino não é daqui.

No reino desse rei não se lutava com armas físicas, matando uns aos outros;
lutava-se com as armas metafísicas da verdade.

Quando Pilatos ouviu duas vezes a insistente palavra: verdade, verdade,
encolheu os ombros, com cético desdém, e murmurou:

– Que é a verdade?

Nesta memorável manhã de 7 de abril, às 9 horas, foi demarcada nitidamente a
linha divisória entre os dois poderes que se digladiam no Universo: o reino da
ilusão e o reino da verdade. E aqui estão os dois embaixadores
plenipotenciários dos dois reinos: um deles, no banco dos réus, representando
o reino da luz e da verdade – o outro, sentado na cátedra de juiz,
personificando o reino das trevas e da ilusão.

Se Lúcifer ouviu estas derradeiras palavras do Lógos, deve ter ficado
apavorado e indignado: esse Nazareno, aparentemente derrotado, se atreve a
declarar que o reino de Lúcifer é um reino de ilusão e de trevas, que, um dia,
será derrotado pelo reino da luz e da verdade – evidentemente, um subversivo
audacioso, um intruso nos domínios do dominador deste mundo. Desde quinta-
feira da noite, quando Judas traiu o Mestre com um beijo de amizade fictícia,
julgava-se Lúcifer vitorioso – e agora esse farrapo de homem, que inspirava
compaixão até ao juiz, diz que para vencer não é necessário lutar com as
armas do ódio, mas somente com as armas da verdade – que pretensão!

Pilatos, depois de ter ouvido dos lábios do seu réu, que ele era rei de um reino
que não era deste mundo, se convenceu definitivamente que estava lidando
com um visionário místico que sofria de megalomania de realeza. Perante as
leis do Império Romano, era ele inocente, e o governador romano o podia
absolver como inofensivo.

Por isso, em vez de ouvir a resposta à pergunta “que é a verdade?” voltou as
costas ao réu e tornou a declarar ao povo e aos chefes da Sinagoga, lá fora:

– Não encontro culpa neste homem.

De súbito, aparece um mensageiro com um recado urgente; vinha por ordem
da esposa do governador. O recado enviado pela mulher era este: “Nada
tenhas que ver com esse homem justo, porque, nesta noite, sofri muito em
sonhos por causa dele”.
É um corisco minaz que rompe as nuvens sombrias da consciência de Pilatos...
Esse réu é um justo, um santo, e uma voz noturna avisou a mulher que Pilatos
abrisse mão desse processo.

Cláudia Prócola, a esposa, não tem a coragem de dizer ao marido “absolve-o!”
prefere aconselhar neutralidade evasiva e tergiversar covardemente: abre mão
do processo contra esse homem justo!

Pilatos, perante a gritaria dos chefes da Sinagoga e da plebe por eles
assanhada, não teve tempo para refletir. Como típico romano, primava pela
clareza do seu senso jurídico; percebia nitidamente a inanidade de todas as
acusações contra Jesus. Mas os chefes da Sinagoga conheciam o caráter do
governador humanamente frágil. Por isto, abandonaram o terreno jurídico
objetivo e assentaram as suas baterias contra os interesses subjetivos de
Pilatos, bradando:

– Se soltares esse homem, não serás amigo de César!

Ameaçavam com uma denúncia em Roma contra o governador. E, como
Pilatos havia cometido graves injustiças não conhecidas na capital do Império,
receava ele perder a sua posição de governador da Judéia, se a Sinagoga
provasse os crimes que cometera. Confessando a sua fraqueza pessoal,
ensaiou uma comédia ridícula: Lavou as mãos em público, declarando:

– Sou inocente do sangue deste justo; vós lá vos avindes com ele. – E o
condenou à morte na cruz.

Lúcifer exultou. Judas e Pilatos eram ótimos auxiliares dele. Era plenamente
vitoriosa a política do poder das trevas, dominador deste mundo.

Não sabia ele que esta maior vitória das trevas era o triunfo da luz.
LÚCIFER TENTA

                       UMA CAMUFLAGEM RIDÍCULA



Com sua derrota voluntária, havia o Lógos proclamado sua maior vitória sobre
Lúcifer, sobretudo com sua inexplicável ressurreição no terceiro dia.

O poder das trevas não aceitaria impassível essa derrota. Instruiu os seus
veículos humanos que negassem de todos os modos essa notícia da
ressurreição, que desmoralizaria toda a estratégia luciférica.

A camuflagem que Lúcifer inventou na manhã da ressurreição é tão ridícula e
dá prova de tamanha mediocridade intelectual que dificilmente podia ser
atribuída a um ser chamado o mais astuto entre todas as creaturas da terra; a
sua mediocridade devia ser antes atribuída aos veículos humanos que foram
colhidos de improviso e perderam o mais rudimentar bom-senso e lógica,
quando os soldados romanos vieram com a notícia alarmante da ressurreição.
Se isto fosse verdade, a Sinagoga estaria perdida.

Por isto, era indispensável sabotar por todos os meios o fato da ressurreição.

Quando, na madrugada do terceiro dia, os soldados romanos encarregados da
guarda do sepulcro lacrado, comunicaram aos chefes da Sinagoga os
fenômenos estranhos ocorridos e que o sepulcro do crucificado estava vazio,
ficaram os sacerdotes tão atarantados que perderam o derradeiro vestígio de
lógica e sensatez. Se o rabi da Galiléia tivesse realmente ressuscitado, estaria
perdido o prestígio da Sinagoga. Por isto, era necessário negar de qualquer
modo o fato.

Mas como?

Os chefes da Sinagoga chamaram os soldados romanos e lhes deram a ordem
seguinte:

– Dizei ao povo que, enquanto nós dormíamos, vieram os discípulos do
Nazareno e roubaram o corpo – disto nós somos testemunhas.

Através destas palavras aparece toda a perplexidade e desorientação dos
sacerdotes. Os guardas do sepulcro devem afirmar corajosamente três coisas:

      1 – que eles, os guardas, dormiram em vez de vigiarem,
2 – que, mesmo dormindo, viram nitidamente que alguns discípulos de
      Jesus se aproximavam e roubaram o corpo do crucificado,

      3 – que, dormindo e vendo tudo, não impediram este roubo, como era da
      sua obrigação.

Quando os soldados romanos tiveram ordem da Sinagoga de espalhar um
boato tão flagrantemente absurdo, fizeram valer o seu bom-senso, e não
obedeceram, alegando ainda que Pilatos os castigaria, se eles confessassem
ter dormido em vez de vigiarem, como era seu dever.

Mas os sacerdotes prometeram defendê-los perante o governador para que
não fossem punidos – tão grande era o prestígio do clero de Israel perante o
Governo Romano...

Mas, mesmo assim, os soldados não se renderam.

Então os chefes da Sinagoga apelaram para o último e decisivo argumento: o
dinheiro. Diz o texto que encheram de dinheiro os bolsos dos soldados
romanos para que tivessem a coragem de propalar um boato três vezes
absurdo. E os soldados venderam a inteligência pelo estômago e espalharam a
notícia de que os discípulos do Nazareno haviam roubado o corpo do
crucificado, enquanto eles, os guardas, dormiam.

Lúcifer deve ter ficado envergonhado da mediocridade mental dos seus
veículos humanos, responsáveis por este contra-senso. Desta vez, o
estratagema sofreu frustração total.

Também, como poderia um cego ver a sua própria cegueira? Como poderia o
poder das trevas enxergar suas próprias trevas?

O dinheiro de Iscariotes continuava a render juros; as trinta moedas de prata
passaram a encher os bolsos dos soldados romanos. Judas se havia suicidado,
desesperado, mas os outros comparsas de Lúcifer continuavam a viver
contentes.

Diziam os antigos romanos: “Quos Jupiter perdere vult, prius dementat”. –
Quando Júpiter quer perder alguém, em primeiro lugar lhe tira o juízo.

Na presente tentativa de camuflagem luciférica, tudo prima por sua insensatez;
não só o tríplice absurdo impingido aos guardas do sepulcro, como também
todo o resto.

Suponhamos que os discípulos tivessem roubado o cadáver do Mestre, em
presença dos guardas dormentes, teria sido fácil descobrir o paradeiro do
corpo; bastaria que a Sinagoga pedisse ao governador romano que desse uma
busca nas casas dos amigos e discípulos do Nazareno – e Jerusalém não era
uma metrópole de milhões. Encontrando o corpo morto de Jesus, os
sacerdotes o exporiam à entrada do Templo e convidariam todo o povo para
verificar se estava vivo ou morto. Teria sido o triunfo máximo da Sinagoga
sobre o rabi da Galiléia.

De resto, que interesse teriam os discípulos em roubar e esconder o corpo de
seu Mestre, se eles mesmos não acreditavam na ressurreição? De que modo
fariam crer aos outros o que eles mesmos não criam?

Na manhã do terceiro dia, Maria Madalena e duas outras discípulas vão ao
sepulcro para embalsamarem o corpo do Mestre, naturalmente não um corpo
vivo. Logo depois, aparecem Pedro e João, viram o túmulo vazio, menearam a
cabeça, mas não acreditaram na ressurreição. Pela tarde do mesmo dia Jesus
aparece, no cenáculo, aos discípulos reunidos, que se apavoraram e julgavam
ver um fantasma. Mesmo depois de o apalparem e comerem com ele,
duvidavam que fosse ele.

Alguns escritores fantasiosos nos querem fazer crer que a ardente fé na
ressurreição tenha substituído o fato – mas essa suposta fé não existia em
nenhum dos discípulos do Nazareno. Se, durante os 40 dias subsequentes,
eles acabaram por se convencer da realidade da ressurreição, foi à força de
provas irrefragáveis.

Paulo de Tarso escreve: “Se temos fé apenas no Jesus crucificado, e não no
Cristo ressuscitado, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé – e somos as mais
deploráveis de todas as creaturas”.

Quando alguém está a caminho da perdição, primeiro de tudo perde o juízo.
LÚCIFER PERDE SEUS

                        UTENSÍLIOS E SUAS ARMAS



Certa vez, acabava Jesus de expulsar um demônio. Quando disto souberam os
chefes da Sinagoga, observaram:

– É por Belzebu, chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios.

Não negam o fato, mas atribuem-no ao poder de Belzebu, nome jocoso, que
significa literalmente “rei do lixo”, ou “rei das moscas”, que os judeus davam ao
adversário.

Responde-lhes Jesus, com uma lógica irrefutável, mostrando que, se satanás e
contra satanás, não pode subsistir o seu reino. Mas, se Jesus expulsa os
demônios pelo poder de Deus, então se revelou na terra o reino dos céus.

Depois disto, confirma suas palavras com a seguinte ilustração:

– Quando o forte guarda os seus utensílios, está em segurança tudo quanto ele
possui; mas, quando lhe sobrevém outro, mais forte do que ele, liga o forte e o
despoja das armas em que confiava.

O forte é satanás; o mais forte é Jesus que ligou satanás e lhe tirou seus
utensílios e suas armas. Pelo contexto, os utensílios (skeue) e as armas, ou a
armadura total (panoplia) são os demônios.

Jesus não expulsou satanás, nem o identificava com os demônios, que são
apenas utensílios e armas de que ele se serve para seus fins. Mas a perda
desses utensílios e armas enfraquece o poder do forte, ligado pelo mais forte.

Anos atrás, quando se exibia o filme “O Exorcista”, recrudesceu na imprensa a
velha controvérsia sobre a identidade ou não-identidade de diabo e demônio.
Na linguagem popular, e mesmo na de muitos eruditos, demônio é homônimo
de diabo. Essa identificação é quase geral em toda a literatura. Os Evangelhos,
que narram a vida e doutrina de Jesus, são, a meu ver, o único livro que não
identifica demônio com diabo. Nem uma única vez afirmam os evangelistas que
Jesus tenha expulsado um diabo, ou satanás; referem exclusivamente
expulsões de demônios, ou espíritos impuros. Estes últimos são entidades de
natureza inferior, talvez do mundo elemental ou do baixo astral, que, em certas
ocasiões, se apoderam do corpo humano, em que encontram vantagens para
sua vivência. “Quando o mau espírito – diz Jesus – sai do homem, anda por
lugares desertos em busca de repouso, mas, não o encontrando, diz: voltarei
para minha casa donde saí. E leva consigo 7 espíritos piores do que ele que
entram na casa, e torna-se o último estado desse homem pior do que o
primeiro”.

Aqui não aparece nenhum convite e nenhuma culpabilidade do homem, como
no caso de Pedro e de Judas, onde se fala de satanás, e não de demônios.

Toda a atitude e linguagem dos demônios revelam que são seres inermes e
fracos; à aproximação do mais forte, gemem e suplicam: “Se nos mandares
sair daqui, não nos mande para o abismo; permite que entremos nos porcos” e,
depois de entrar nos porcos, nem têm o poder de conservarem vivos esses
seus veículos animais.

Nunca nenhum desses seres elementais se arvora em senhor de todos os
reinos do mundo e sua glória; nunca nenhum deles exige do Cristo que o
adore, como fez satanás.

O Evangelho nunca fala em satanás ou diabo no plural, como nos demônios;
usa sempre o singular, porque se trata duma mentalidade anti-espiritual;
quando os demônios são entidades da natureza. Por isso Pedro e Judas, são
chamados satanás e diabo porque, por vontade própria, crearam uma
mentalidade hostil ao espírito de Deus.

Satanás ou diabo são creações da mente humana, ou extra-hominais,
contrárias ao espírito Divino; mas, depois de mente-creadas, podem também
funcionar em veículos objetivos, como entidades próprias. Paulo de Tarso,
escreve aos Efésios que a nossa luta não é contra a carne e sangue, mas sim
contra os príncipes e as potestades invisíveis dos espaços. Qualquer creatura
dotada de consciência e livre-arbítrio, humana ou não humana, é responsável
pelos seus atos; Deus não a obriga ser boa ou má, nem expulsa dessa
creatura uma entidade que ela mesma creou ou dela se apoderou. Jesus não
expulsou satanás do seu discípulo Pedro, como dissemos, nem o expulsou de
Judas, nos quais entraram ou foram creadas por eles mesmos. Deus não
arranca o joio, não contraria o livre-arbítrio do homem; o próprio homem é
responsável pela entrada e saída de satanás.

O endemoninhado de Gêrasa, possesso de uma legião de demônios, era
vítima dessa obsessão, que não o tornara moralmente mau, tanto assim que,
logo após o exorcismo, o recém-liberto pediu a Jesus que o aceitasse como
seu discípulo, e Jesus o aceitou, recomendando-lhe que fosse discípulo dele
em sua terra natal. A obsessão demoníaca não afeta necessariamente o moral
da vítima – quando satanás só pode entrar no homem por culpa deste. Por esta
razão, Jesus expulsa demônio, mas não diabo. Paulo de Tarso, na epístola aos
Filipenses, diz que em nome do Cristo se dobrem todos os joelhos, dos
habitantes do céu, da terra e do inferno. O Credo Apostólico, que data dos
inícios do cristianismo, diz que, depois da sua morte, Jesus desceu aos
infernos. Inferno ou ínferos, parece designar uma zona onde vivem entidades
primitivas, semi-conscientes, de baixa evolução mental-espiritual. Dizem alguns
sensitivos que essas entidades elementais necessitam de fosfato para sua
evolução, razão porque se apoderam do corpo humano, sobretudo do cérebro,
fonte de fosfato.

A palavra Lúcifer, como já dissemos, não ocorre nos livros sacros como
sinônimo de satanás ou diabo; Lúcifer quer dizer luzeiro, ou porta-luz, quer do
mundo físico (estrela d’alva ou lúcifer matutino), ou mesmo um luzeiro
espiritual. Um lúcifer mental pode ser amigo de Deus, e pode ser também
inimigo, consoante o uso ou abuso do seu livre-arbítrio. Na linguagem
tradicional os povos, como dissemos, lúcifer designa uma mentalidade hostil ao
espírito.

Tem-se alegado que as palavras de Jesus “eu vi satanás cair do céu como um
raio” provam a identidade de satanás e demônio. Acabavam os discípulos de
regressar da sua primeira excursão apostólica, e, cheios de entusiasmo,
contaram ao Mestre que, em nome dele, até os demônios lhes estavam
sujeitos e saiam das suas vítimas. Ao que o Mestre profere as palavras acima.
Se os demônios são os utensílios e as armas de satanás, que admira que esta
caia da alturas do seu poder, quando os discípulos do mais forte solapam o
sustentáculo do forte?

O homem, quando amigo do mais forte, não corre perigo de ser dominado pelo
forte e de seus utensílios e suas armas.

Segundo o Evangelho, os demônios são os utensílios e armas de Lúcifer, mas
não são ele mesmo.
LÚCIFER OFERECE

                         TRÊS PRESENTES GREGOS



Apenas havia a “luz do mundo” regressado à sua pátria cósmica, quando o
“poder das trevas” começou a intensificar a sua estratégia contra os discípulos
do Nazareno.

Insuflou a um rabi da Sinagoga que mandasse apedrejar Estevam, um dos
chefes dos cristãos.

Mas, desta vez Lúcifer se saiu mal, porque, pouco depois, o próprio Saulo de
Tarso, que matara Estevam, se transformara no maior defensor do Cristo, que
ele proclama, durante três decênios, na Ásia e na Europa, como o “rei imortal
dos séculos”.

“O poder das trevas” excogitou nova sabotagem: mobilizou a Sinagoga em
peso contra os discípulos de Jesus.

Depois da destruição de Jerusalém, Lúcifer mobilizou o maior Império mundial
da época contra os discípulos do Nazareno: exilou-os aos subterrâneos das
catacumbas sombrias, donde só havia uma saída – para o martírio do Coliseu.
Durante quase três séculos, lutou o “poder das trevas” contra o reino da “luz do
mundo”.

Mas, o sangue dos mártires era semente para novos cristãos, e um dos
auxiliares de Lúcifer, que apostatara do Lógos, bradou ao morrer: “Venceste,
Galileu!”.

E, na escuridão das catacumbas, os discípulos do Cristo, perseguidos e
massacrados, intensificavam cada vez mais a luz do mundo, morrendo
sorridentes e felizes, dilacerados pelas feras do anfiteatro. “O poder das trevas”
verificou seu erro: a perseguição era contra-producente.

Era necessário voltar à estratégia do beijo de Judas.

No ano 313, encontrou Lúcifer um segundo Iscariotes, incomparavelmente
mais poderoso do que o primeiro: o Imperador Romano Constantino Magno,
nominalmente cristão, realmente luciférico.

Constantino decretou o fim das perseguições e deu liberdade aos discípulos do
Nazareno. Convidou os recém-libertos a ocuparem altos postos no governo do
Império, e, para esse fim, lhes ofereceu três presentes gregos: armas, política,
dinheiro – armas para matar seus inimigos, política para enganar os amigos, e
dinheiro para comprar e vender consciências.

“Salve, Mestre!... prendei-o!”...

O estratagema estava tão bem excogitado que os discípulos da luz do mundo
sucumbiram à estratégia do poder das trevas, porquanto “os filhos deste
mundo são mais astutos no trato com seus semelhantes do que os filhos da
luz”. A liberdade e a glória se provaram mais nefastas do que o exílio e o
martírio.

Desde o início do quarto século, até hoje, funcionam os três presentes fatídicos
que Lúcifer ofereceu aos discípulos do Nazareno, através do seu comparsa
Constantino Magno: armas, política, dinheiro.

Prevenira o Nazareno os seus discípulos contra essa estratégia: “o meu reino
não é deste mundo... se deste mundo fosse o meu reino, meus amigos lutariam
para que eu não fosse entregue aos meus inimigos, mas o meu reino não é
daqui... cuidado com o fermento dos fariseus... não podereis servir a dois
senhores, a Deus e ao dinheiro”. Os discípulos, porém, se esqueceram do
alerta do Mestre.

As armas de Pilatos, a política de Caifaz e o dinheiro de Judas foram usados
pelo poder das trevas para eclipsar a luz do mundo.

O Evangelho, segundo Judas Iscariotes, suplantou os outros Evangelhos...

A bandeira do Cristo foi hasteada sobre o quartel-general do anti-cristo...

O Cristo dos salões adulterou o Cristo na cruz... Os judeus mataram o corpo de
Jesus – mas os cristãos mataram o espírito do Cristo, através dos séculos...

Mais audacioso do que nunca proclamou Lúcifer a sua antiga plataforma: “eu te
darei todos os reinos do mundo e sua glória, porque são meus, e eu os dou a
quem eu quero – prostra-se em terra e adora-me!”

O Cristo ficou em pé – mas os cristãos se prostraram em terra e adoraram o
anti-cristo, pela idolatria das armas, pela idolatria da política, pela idolatria do
dinheiro.

A bandeira do Lógos continua hasteada sobre o quartel-general de Lúcifer –
que rica seara produziu o beijo de Judas! “Aquele a quem eu beijar, esse é o tal
– prendei-o!... Salve, Mestre!”...

E agora que a estratégia de Lúcifer atingiu a culminância da sua astúcia, que
resta a fazer?

Milênios antes, triunfara Lúcifer pela luxúria, enganando uma mulher.
Depois triunfou pelo luxo, enganando um discípulo do Cristo pelo dinheiro.

Agora, quase no ocaso do segundo milênio, a luxúria e o luxo culminaram no
lixo dos programas de cinema, de rádio, de televisão – essas conquistas
máximas da inteligência humana estão a serviço do poder das trevas.

O grosso da humanidade cristã perdeu a cristicidade. Não hostiliza
abertamente o Cristo, continua a beijá-lo e a saudá-lo como Mestre – para
entregá-lo a seus inimigos, para fazê-lo cair da sua altura cósmica e reduzi-lo à
mediocridade do homem telúrico, do homem luciférico, do homem animal...

Em vez de subirmos até ele, achamos mais cômodo fazê-lo descer até nós...

O Sermão da Montanha está aposentado...

O Evangelho foi revogado ou adulterado... aquele a quem eu beijar – prendei-
o... crucificai-o.

O suicídio do primeiro traidor está levando ao suicídio coletivo o cristianismo-
traidor.

“Aparecerão falsos cristos, e dirão: sou eu! Farão prodígios e fenômenos
espantosos para enganar até os eleitos... Eis que vos pus de sobreaviso!”

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E os três presentes gregos de Lúcifer continuam a dominar os cristãos...

Armas para matar os inimigos...

Política para enganar os amigos...

Dinheiro para comprar e vender consciências...

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Mas, após o ocaso da velha humanidade, amanhecerá a alvorada de uma nova
humanidade – e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.
AS SERPENTES E OS

                         QUERUBINS DO ESPAÇO



Em todos os tempos da história humana houve intercâmbio entre as entidades
supra-terrestres, terrestres e infra-terrestres do Universo.

Por vezes, esse intercâmbio é meramente mental, e mesmo inconsciente; por
vezes se torna material e consciente.

As antigas mitologias personificavam as entidades cósmicas, dando-lhes
determinados nomes.

Ultimamente, sobretudo desde o início da Era Atômica e nuclear da nossa
humanidade, esse intercâmbio se tornou mais intenso e concreto. Os
chamados “discos voadores” representam uma fase visível desse intercâmbio
cósmico. As entidades que dirigem esses aparelhos são habitantes do espaço
inter-sideral. Os seus corpos e seus veículos são de substância astral, ou
energética, que se materializam ao penetrarem na atmosfera terrestre, e se
desmaterializam ao deixá-la.

Essas entidades astrais são dotadas de consciência e livre-arbítrio como nós,
podendo por isto, ser emissários de luz ou de trevas, benéficos ou maléficos
aos habitantes terrestres. O que os livros sacros dizem das hierarquias do bem
e do mal pode ser aplicado a essas mentalidades do espaço.

Há quem chame esses seres serpentes e querubins, com alusão ao que o texto
do Genêsis diz do guarda da árvore do conhecimento e da árvore da vida.

Qual a finalidade dessas entidades cósmicas, ao visitarem o planeta terra?

Onde imperam consciência e livre-arbítrio não pode falar em finalidade, no
singular. O livre-arbítrio é essencialmente bilateral, e sempre imprevisível.
Tanto os emissários a luz como os das trevas fazem parte dos visitantes
espaciais. Alguns querem a nossa realização; outros, a nossa destruição.

A nossa terra, como se vê, é um kurukshetra entre os devas e os kurus, como
diria a Bhagavad Gita.

Os querubins astrais conhecem o perigo que o nosso Lúcifer mental creou para
a sobrevivência da humanidade do planeta terra. Se as nossas experiências
atômicas e nucleares perderem o controle sobre a “reação em cadeia” que
desencadeamos – adeus, humanidade!... Adeus vida da terra!...
O insistente apelo que Albert Schweitzer, nos últimos anos de sua vida, dirigiu
a todos os governos do mundo, era um alerta inspirado pelos querubins
benéficos do espaço. As nossas centrais nucleares e atômicas atraem os
visitantes astrais, interessados, em saber do estado da nossa fissão atômica,
de que depende o futuro da humanidade e da terra.

É bem possível que as serpentes do espaço promovam o nosso conhecimento
intelectual a fim de interferirem no destino do homem adâmico, como a
serpente do Éden tentou no princípio.

Não estamos sós...

Cada vez mais depende o destino da humanidade terrestre da interferência de
entidades extra-terrestres. A humanidade cósmica prevalece cada vez mais
sobre a humanidade telúrica.

Ninguém sabe se a estratégia da serpente do espaço vai acabar em vitória ou
derrota.

Para certas mentalidades espaciais é a nossa humanidade terrestre apenas
uma fauna primitiva, própria para experiências de laboratório; os visitantes
levam daqui material e pessoal como cobaias de suas pesquisas. Para eles, se
acha a nossa ciência e técnica num plano elementar. Que atraso o dos nossos
aparelhos aéreos, que usam como combustível gasolina ou querosene, –
quando eles se servem das correntes magnéticas do espaço para movimentar
seus veículos, com estupenda velocidade e em perfeito silencio...

Que diria o divo Platão sobre a nossa Atlântida (terra)? Repetiria o que, há
mais de 2000 anos, escreveu sobre a mentalidade luciférica dos antigos
atlantes? Será que o nóos humano não está em vias de suicídio coletivo, por
não se integrar no Lógos cósmico? Será que o poder das trevas não impede a
vitória das potestades da luz?

No meu livro antigo “Luzes e Sombras da Alvorada”, escrevi um capítulo
intitulado: “Eu e os Discos Voadores”, em que focalizei a minha atitude em face
desses estranhos fenômenos.

Se é verdade, como diz a filosofia oriental, que a nossa humanidade está
atravessando o kali-yuga, (era tenebrosa), não é de recear que o poder das
trevas envolva a nossa humanidade terrestre?

Os livros sacros nos dão a esperança longínqua de que uma pequena elite
sobreviverá ao suicídio coletivo da humanidade-massa; e que essa elite será a
semente para uma nova humanidade. O ferro vira ferrugem, mas a ferrugem
não tornará a ser ferro. Entretanto, se sobrarem uns átomos de ferro, reagirão
ao impacto magnético do ímã – e do cataclismo universal anunciado pelos
videntes sobrará uma elite não corroída – e então haverá um novo céu e uma
nova terra, e o Reino dos Céus será proclamado sobre a face da terra.
LÚCIFER É PRESO POR MIL ANOS



A segunda parte do Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento,
descreve a enorme devastação que o “dragão, a antiga serpente, satanás”, fez
no planeta terra, depois de ser derrotado e expulso do céu pelo campeão da
milícia divina, cujo nome simbólico é Mi-cha-el, o que quer dizer “Quem-como-
Deus?”

Lúcifer, o luzeiro da inteligência angélica, declarou a Deus “não te servirei”, e
foi expulso do céu com seus partidários.

Na terra, como refere Moisés no Gênesis, a mesma entidade, o mais inteligente
dos seres vivos da terra, continuou a rebeldia contra o sopro de Deus.

Houve uma grande luta no céu, diz o texto; naturalmente não num local, mas
no espaço cósmico das entidades superiores em evolução, onde impera o livre-
arbítrio.

Houve uma luta no céu... Os livros sacros nada sabem de um museu celeste
engendrado pela teologia clerical, onde as múmias beatíficas estejam
eternamente congeladas na imóvel contemplação de Deus; o céu verdadeiro é
uma humanidade em incessante evolução, como diz Paulo de Tarso: iremos de
conhecimento em conhecimento, de glória em glória, de beatitude em
beatitude.

Não é a vida terrestre que, segundo o clero, determina o destino eterno do
homem, mas sim o momento da morte: se o moribundo consegue ser absolvido
por um padre, entra no museu celeste; do contrário, cai no museu infernal. E
ambos os museus são a fossilização do livre-arbítrio, que, segundo a teologia,
só existe na vida presente, mas perece na hora da morte; uma alma sem corpo
físico é eternamente congelada no bem ou no mal – é esta a teologia infeliz
que nos foi impingida na infância, e que muitos não conseguem superar na
adultez.

Céu e inferno são creações da creatura livre, e durarão enquanto quer a
consciência da creatura.

Naquela zona superior do Universo, chamada céu, já não havia ambiente para
o rebelde, e foi lançado a uma zona inferior de evolução, cujos habitantes se
achavam ainda numa mentalidade caótica entre o bem e o mal, na zona
penumbral entre luz e as trevas, que é a nossa humanidade terrestre.
Nesse lusco-fusco telúrico encontrou Lúcifer campo propício para suas
atividades.

Diz o texto do Apocalipse que os dons do dragão intelectual foram conferidos a
uma animal que tinha sete cabeças, e dez chifres em cada uma, e em cada
chifre havia uma coroa. Os chifres simbolizam a força, as coroas designam a
soberania da inteligência do dragão.

Mal recebera o animal os dons do dragão, quando começou a blasfemar contra
Deus e a guerrear todos os povos. O animal-animal não blasfema nem
guerreia, mas o animal-homem, quando apenas intelectualizado e ainda não
espiritualizado, blasfema para cima e guerreia para todos os lados. O ego
humano é anti-divino e anti-humano. A sua tarefa é destruir – e por isto é
também auto-destruidor.

João o discípulo amado, vislumbrou o conteúdo do seu Apocalipse na
silenciosa solidão da ilha de Patmos, no mar Egeu, para onde fora desterrado
pelo Imperador Trajano, quando tinha quase 100 anos de idade. Nessa imensa
solidão perdeu João todo o centrifuguismo do mundo externo e focalizou-se
exclusivamente no centripetismo do seu mundo interior. Despojou-se de todas
as sucessividades ilusórias do passado e do futuro e revestiu-se da
simultaneidade real do eterno presente, e assim, fora de tempo e espaço,
ensimesmou-se no aqui e agora.

E então contemplou ele o Universo no foco do Uno, sem as periferias do Verso.
E todas antíteses da luta evolutiva do Devir se sintetizaram na grande realidade
do Ser.

Por isto, a luta no céu não lhe pareceu um paradoxo, porque compreendeu a
síntese das antíteses à luz da eterna TESE.

Aliás, essa visão cosmorâmica de João já se revelara no cenáculo, depois da
última ceia. Quando o Mestre lhe revelou o segredo do traidor, João não se
revoltou contra Judas; pois, se o Mestre sabia de tudo e não o impedia, porque
devia o discípulo impedir a traição? Todas as antíteses culminam em síntese à
luz da TESE.

Na solidão de Patmos remontou João a mais longínqua transcendência, porque
entrou na perfeita imanência. Para ele, a luta entre Lúcifer e Lógos era um
aspecto necessário da evolução ascensional da creatura creadora. A
misteriosa Apokatástasis, que dois séculos mais tarde, foi escrita por Orígenes
de Alexandria, não lhe devia parecer nenhum paradoxo, como parece a nós,
que soletramos o abc da sabedoria de Deus na escola primária da humanidade
terrestre.

O Apocalipse faz um jogo do paralelismo entre a velha Babilônia e a nova
Jerusalém. A antiga torre de Babel era o símbolo do orgulho luciférico do
homem, bem como da sua subsequente confusão e derrota. João apresenta
Babilônia como a sede da luxúria e da idolatria, onde Lúcifer erigiu o seu trono
e hasteou sua bandeira de rebeldia. Diz o texto que o animal que recebeu os
dons do dragão era um misto de pantera, leão e urso. Mas, apesar da sua
força, foi derrotado pelo Cordeiro, símbolo da não-violência.

O dragão de fogo que está à espreita do filho duma mulher vestida de luz solar;
e assim que ela deu à luz, o dragão quis devorar o filho dela, o qual foi
arrebatado ao trono de Deus, enquanto a mulher voava em asas de águia para
o deserto. Lúcifer devia estar lembrado das palavras dos Elohim, que haviam
prometido pôr inimizade entre a serpente e o descendente da mulher; e devia
estar apavorado com a visão de que o descendente da mulher esmagaria a
cabeça da serpente.

Quando a inteligência luciférica julga ter derrotado o seu adversário, verifica
que foi derrotada pelo espírito dele. Lúcifer cumpre a sua missão opondo-se ao
Lógos, porque esta resistência é necessária para a evolução das humanidades;
mas esta missão não isenta Lúcifer da sua maldade.

As creaturas dotadas de livre-arbítrio são indefinidamente realizáveis; a sua
tarefa suprema é realizarem-se cada vez mais pela luta contra os obstáculos.
Toda a creatura, queira ou não queira realizar os planos cósmicos, se realiza,
ou então desrealiza a si mesma. O Creador está para além do bem e do mal
das creaturas. A creatura pode derrotar-se a si mesma, mas não pode derrotar
o Creador. Convém à creatura que realize os planos do Creador, realizando a
sua própria felicidade. Mas ela é livre nesse pró ou contra.

Os mil anos de prisão do dragão, de que fala o Apocalipse, e o triunfo do
Cordeiro parecem insinuar que o poder do dragão será enfraquecido aqui na
terra e que o Lógos estabelecerá o seu Reino entre os homens, durante esse
longo período.

Depois deste período, porém, o dragão será solto novamente, mas já não terá
o mesmo poder de antes sobre os terrestres.

Diz a sabedoria da Bhagavad Gita que o ego é o pior inimigo do Eu, mas que
este é o melhor amigo daquele.

Embora Lúcifer deva, por sua própria natureza, ser a antítese do Lógos, este
contudo sendo de suprema sabedoria, pode levar Lúcifer a uma síntese de paz,
a uma integração voluntária nos planos do Eu cósmico. O joio tem de ser joio
no meio do trigo, enquanto este necessita da resistência daquele: “Não
arranqueis o joio”. Mas, quando o trigo atingir elevado grau de maturidade, não
necessita mais do joio: “Este será queimado”. O Apocalipse termina com uma
visão gloriosa do Cordeiro: não haverá mais lágrimas nem sofrimentos, nem
maldades – e o Reino de Deus será proclamado sobre a face da terra; haverá
um novo céu para o Eu, e uma nova terra para o ego.

Este triunfo final não é um céu estático e passivo, é um céu dinâmico e ativo,
uma incessante jornada evolutiva do homem, já não desviável da linha reta do
seu destino.

Esta linha reta sem desvios nem zigue-zagues, é a fase avançada da Nova
Humanidade, cuja jornada não coincidirá jamais com uma chegada, mas que
eternamente se aproximará do Infinito – e esta jornada em linha reta é a vida
eterna, que, segundo os livros sacros, terá por cenário também o planeta terra,
que será o habitáculo da nova humanidade. A celeste Jerusalém será a nossa
terra expurgada das profanações da velha humanidade, e onde se realizará
aquilo que os Elohim haviam deslumbrado no princípio.

                                      ***

Concretizando graficamente todo este drama multimilenar da evolução
humana, poderíamos servi-nos do diagrama seguinte:
Na parte inferior do desenho onde impera o ego adâmico do velho homem,
toda a evolução é um labirinto de zigue-zagues, de desvios para a direita e
para a esquerda, um caótico círculo vicioso. O príncipe deste mundo ainda tem
poder sobre os homens, embora não lhes possa destruir o livre-arbítrio.

Na medida que a evolução avança, diminuem os zigue-zagues; o ego adâmico
decresce, e o Eu crístico cresce. Por fim terminam todos os desvios para a
direita e para a esquerda, e a evolução humana entra numa linha reta de
decisiva verticalidade, rumo ao seu destino.

Esta verticalidade e retitude simbolizam a vida eterna, a reques aeterna, a
felicidade dos auto-realizados, sempre ulteriormente realizáveis.

A massa primitiva e seus guias cegos identificam a vida eterna e o eterno
repouso com uma total passividade contemplativa, com uma espécie de
aposentadoria celeste, em que o homem seria recompensado eternamente por
uns cinquenta ou mais anos de vida terrestre.

Como já lembramos, a vida eterna não é eterna passividade e inércia
contemplativa – que seria antes morte eterna. A vida eterna é a ausência de
zigue-zagues, de dúvidas, de incerteza, de vicissitudes desconcertantes – e é a
presença da segurança, da certeza e serenidade dinâmica, nascidas da
consciência do caminho certo.

O ser em evolução é perfeitamente feliz quando tem a certeza absoluta da sua
direção retilínea rumo ao Infinito, e não necessita de nenhuma chegada, de
nenhuma coincidência do seu finito com o Infinito. Esta certeza da retitude de
direção nada tem que ver com um Além; é a quintessência do próprio Aquém,
quando este superou os fatigantes zigue-zagues do ego adâmico e entrou na
repousante linha reta do Eu crístico.

Esse início na linha reta do Eu crístico principia com a iniciação, e continua
incessantemente na auto-realização, sempre ulteriormente realizável, numa
gloriosa jornada sem fim, que está sempre no fim, por ser uma jornada em
direção certa – e o viajor tem plena certeza dessa retitude, que é o seu eterno
repouso e sua felicidade eterna.

Projeção vertical da linha reta do gráfico acima indica uma auto-realização
ilimitada da creatura creadora. Todas as antíteses da evolução culminam nesta
síntese – rumo à grande TESE.
LÚCIFER ENCONTRA-SE

                                COM UM AVATAR



Nas suas extensas divagações pelos mundos, encontrou-se Lúcifer, um dia,
com um ser estranho. Aproximou-se dele e perguntou-lhe:

– Quem és tu?

Respondeu-lhe o desconhecido:

– Eu não sou ninguém. Não tenho nome. Sou um anônimo.

– Que estás fazendo aqui, anônimo?

O estranho olhou longamente, em total silêncio, para Lúcifer. Finalmente, disse
com certa solenidade:

– Estou em demanda da plenitude.

– Da plenitude?

– Sim, da minha plenitude.

– Ah! tu és um avatar...

– Assim me chamam alguns.

– A plenitude é o céu, não é?

– Sim, o céu dentro de mim. Esse céu sempre propínquo e sempre longínquo...

Dizendo isto, o avatar olhou para o horizonte distante onde um sol dourado
mergulhava nas trevas.

– E tu não estás no céu da tua plenitude?

– Sim, estou no céu – e por isto o procuro cada vez mais.

– Estranha filosofia – murmurou Lúcifer, sem ser ouvido. Depois perguntou em
voz alta:

– Se estás no céu, por que não gozas o teu céu? Se estás na plenitude, por
que não bebes a tua doçura?
– Eu estou no céu do meu gozo gozado, mas vou descer ao céu de um gozo
sofrido...

– Gozo gozado, gozo sofrido?

– Sim, eu não estou na plenitude plena, mas plenificável. Não estou no termo
da viagem, estou em plena jornada.

– Não estás então na vida eterna?

– Estou num viver sem fim, numa libertação indefinida, e por isso devo servir,
descendo voluntariamente...

– E por que queres descer?

– Para me libertar ainda mais.

– Sofrer, por quê?

– Sofrer por amor.

– Por amor de quem?

– Por amor de mim mesmo.

– E por que não sofrer por amor dos outros?

– Quem não sofre por amor de si não pode sofrer por amor dos outros.

– Mas isto não é amor-próprio?

– É sim. Ninguém pode ter amor-alheio sem ter amor-próprio. Ninguém pode
fazer bem aos outros sem ser bom em si mesmo.

– Estranha filosofia...

– A minha plenitude transborda em benefício dos outros. Se eu não for pleno
em mim, não posso transbordar em benefício dos outros.

– Para onde vais descer?

– Vou descer ao nadir do Universo a fim de chegar ao zênite de mim mesmo.

– Quer dizer que vais encarnar como um avatar por amor aos outros?

– Por amor de mim, pelo bem dos outros.

– Mas isto não é egoísmo?

– Isto é auto-afirmação, auto-amor, auto-realização. Estou em demanda da
minha plenitude.
– Vais descer para te realizar?

– Desço às baixadas para subir às alturas. Quanto mais desço por amor, tanto
mais subo rumo à plenitude.

Lúcifer permaneceu calado por muito tempo, pensando nessa paradoxal
antidromia do avatar. E lembrava-se dos tempos longínquos em que ele fora
expulso dos céus por ter bradado a Deus: “Não te servirei!”... E esse Ninguém,
esse Anônimo, quer servir voluntariamente por amor. E a plenitude desse amor
a si mesmo transbordará em benefício dos outros – que estranha filosofia!...

Quando Lúcifer voltou a si das cogitações longínquas, não viu mais ninguém. O
estranho anônimo descera às baixadas do Universo a fim de se realizar
ulteriormente, o que ele chamava o céu sofrido. Foi prestar os mais humildes
serviços as creaturas inferiores, sem esperar recompensa nem louvores nem
admiração. Somente por amor.

Por longo tempo andou Lúcifer pensando nesse misterioso amor-próprio, que
não era egoísmo. Mas não conseguiu solver o enigma: amar a si mesmo por
amor aos outros.

Depois de terminar as suas divagações pelo cosmos, Lúcifer voltou ao planeta
terra, que era o seu campo de atividade.

Na terra encontrou milhões de creaturas que procuravam realizar o seu céu
gozando os seus gozos. Ninguém entendia a estranha filosofia do avatar que
queria plenificar-se por amor esvaziando-se voluntariamente dos gozos e
plenificando-se de sofrimentos – por amor... Só uma única vez, em plena selva,
encontrou um grupo de seres humanos que compreendiam e viviam a filosofia
do Anônimo, do estranho Ninguém, que encontrara em outros mundos.

Olhando atentamente para os componentes desse grupo, identificou Lúcifer o
semblante do avatar, que varria o pátio da casinha modesta, e foi descascar e
preparar legumes para a refeição dos colegas.

Pouco a pouco, Lúcifer começou a sentir-se mal, a cada vez pior, nesse
ambiente. Sentia-se como que asfixiado, com falta de ar... A frequência
vibratória irradiada pelos habitantes desse lugar era insuportável para o poder
das trevas. Quando essa sensação da mal-estar atingiu o clímax, Lúcifer fugiu
desse inferno. Uma ventania violenta o arrojava para fora, e ele julgou ouvir
nos uivos da ventania o grito estridente: não quero servir... não quero servir por
amor... quero ser servido... quero ser adorado...

Depois se fez profundo silêncio...

E tudo em derredor estava envolto em trevas noturnas...
UMA DERROTA EM PLENA VITÓRIA



No início da Era Cristã, celebrou Lúcifer algumas das suas vitórias mais
estupendas. Conseguiu que seu inimigo número um fosse condenado a uma
morte vergonhosa pelas autoridades, civil e religiosa, e que esta condenação
fosse forjada por um dos discípulos dele que com ele vivera três anos.

Tanto mais gloriosa foi esta vitória porque, três anos antes, no deserto da
Judéia, o Nazareno lhe dera ordem categórica de se pôr na retaguarda e servir
e adorar em vez de ser servido e adorado. Mas o príncipe deste mundo
conseguiu que seu inimigo número um fosse entregue à morte por ordem do
representante do maior império do mundo, à insistência da mais poderosa
organização religiosa da época.

Na cidade da Tarso, capital da província romana da Cilícia, na Ásia Menor,
vivia, um jovem judeu, da seita dos fariseus, que acompanhara
preocupadamente as vitórias do profeta de Nazaré, que tinha o desplante de
dizer ao povo da Palestina, referindo-se a Moisés: “Foi dito aos antigos – eu
porém vos digo”... Sobrepunha a sua autoridade à do grande legislador de
Israel.

Esse jovem judeu de Tarso, chamado Saulo, ardia de impaciência por ir à
Judéia e combater a arrogância do Nazareno – quando, um dia, ouviu que o
arrogante profeta fora condenado à morte de Crucifixão.

Saulo exultou de júbilo.

Breve, porém, foi o seu júbilo, porque de Jerusalém lhe vinham rumores de que
os discípulos do crucificado continuavam fanaticamente à rebeldia anti-mosáica
do Mestre.

Saulo partiu para Jerusalém a fim de debelar a arrogância dos discípulos do
Nazareno.

Chegado a Jerusalém, soube que o chefe dos nazarenos revoltosos era um tal
Estevam. Com a aprovação dos chefes da Sinagoga, resolveu Saulo mandar
apedrejar Estevam como blasfemo, segundo preceituava a lei de Moisés.

Depois do apedrejamento de Estevam, ouviu Saulo que, em Damasco, capital
da Síria, viviam numerosos adeptos do profeta de Nazaré, que divulgavam
entusiasticamente a doutrina dele.
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Huberto Rohden - Estratégias de Lúcifer

  • 1. HUBERTO ROHDEN ESTRATÉGIAS DE LÚCIFER SUAS VITÓRIAS E DERROTAS NO CAMPO DE BATALHA DA HUMANIDADE UNIVERSALISMO
  • 2. ESTRATÉGIAS DE LÚCIFER “A luta é inevitável porque faz parte das Leis Cósmicas; evitável é a derrota do Eu crístico pelo ego luciférico do homem.” “As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró ou contra Deus.” “Se o homem permitir ser derrotado por seu Lúcifer, a culpa é dele, e não de Deus.” Estas concisas afirmações constituem o núcleo central e a essência deste novo livro de Rohden. A obra é uma complementação de outros trabalhos seus, notadamente, Lúcifer e Lógos e A Nova Humanidade. Partindo de uma palavra – Lúcifer – complexa, e de conteúdo dialético, Rohden convida o leitor a desfazer-se de preconceitos e a abandonar certas concepções teológicas, tragicamente ensinadas ao longo de nossa história. Desenvolvendo sua linha de pensamento univérsico sobre a bipolaridade da natureza humana e de todo o universo, ele nos conduz ao centro de nós mesmos, colocando-nos diante da verdadeira perspectiva para nossa própria auto-realização. E enfatiza: sem essa perspectiva cósmica, é impossível o ser humano estabelecer, em si, completa harmonia e felicidade. Para Rohden, Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agir naturalmente como fator de retaguarda – embora esse fator negativo tenha a tendência de usurpar o pólo positivo da vanguarda, desequilibrando, assim, a harmonia do microcosmo humano. Por isso, explica ele, nos livros sacros, a ordem que o pólo positivo da vanguarda (Cristo) dá ao pólo negativo da retaguarda (Satã) é invariavelmente: “Vai à retaguarda (vade retro)”. “Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólos evolutivos que regem todo o Universo: o Uno da Essência Absoluta, que rege o Verso, das Existências Relativas.” “As Leis Cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólos da antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja pelo Poder Supremo, como no mundo infra-hominal; seja pelo livre-arbítrio, como deve ser no mundo das creaturas livres”. Este livro conta o drama cósmico de Lúcifer-Lógos no campo de batalha da humanidade. Indica o caminho para o homem atualizar o seu equilíbrio
  • 3. meramente potencial, realizando assim a sua natureza integral. Proclama o plano cósmico da eugenia humana, ou auto-realização.
  • 4. ADVERTÊNCIA A substituição da tradicional palavra latina crear pelo neologismo moderno criar é aceitável em nível de cultura primária, porque favorece a alfabetização e dispensa esforço mental – mas não é aceitável em nível de cultura superior, porque deturpa o pensamento. Crear é a manifestação da Essência em forma de existência – criar é a transição de uma existência para outra existência. O Poder Infinito é o creador do Universo – um fazendeiro é criador de gado. Há entre os homens gênios creadores, embora não sejam talvez criadores. A conhecida lei de Lavoisier diz que “na natureza nada se crea e nada se aniquila, tudo se transforma”, se grafarmos “nada se crea”, esta lei está certa mas se escrevermos “nada se cria”, ela resulta totalmente falsa. Por isto, preferimos a verdade e clareza do pensamento a quaisquer convenções acadêmicas.
  • 5. PREFÁCIO Recentemente, publiquei um livro intitulado “A Nova Humanidade” cujo início focaliza a luta entre o sopro de Deus e o sibilo da serpente, na humanidade feita à imagem e semelhança de Deus e ainda sujeita ao poder das trevas. No presente livro limito-me a mostrar a estratégia e os estratagemas desse poder negativo, que, segundo Cristo, tem poder sobre os homens. Essa estratégia luciférica vai por altos e baixos, por vitórias e derrotas, consoante o grau de resistência que ela encontra no livre-arbítrio humano. As vitórias e derrotas de Lúcifer correm paralelas à força ou fraqueza da evolução de cada homem. O livre-arbítrio humano é uma creatividade tanto positiva como negativa, ora aliada ao poder da luz, ora aliada ao poder das trevas. O homem é, aqui na terra, a única creatura que se pode crear melhor ou pior do que foi creado. O homem é o único ser auto-creador, enquanto os outros seres são apenas alo- creados. Por isto o destino do homem está, em grande parte, nas mãos dele. Na creação do homem creador, o Creador abdicou, por assim dizer, de uma parcela da sua jurisdição divina a favor da liberdade humana; o Deus monocrático da natureza se tornou, por assim dizer, um Deus cosmocrático na humanidade, fazendo uma creatura partícipe do poder creador. Com o advento do homem despontou uma nova fase cósmica, apareceu um fenômeno inédito sobre a face da terra. Pela creatividade, positiva ou negativa, do livre-arbítrio pode o homem integrar- se no Todo da universalidade – e pode também desintegrar-se no Nada da sua individualidade. A estratégia de Lúcifer é necessária para testar o homem em evolução, porque sem resistência não há evolução rumo ao Lógos. Lúcifer e Lógos são os dois pólos do Universo, sobre os quais gira toda a evolução da creatura humana. Sem a atuação desses dois pólos, seria o homem um simples autômato estático, mas não um realizador dinâmico do seu destino. A grandeza do homem, diz um pensador moderno, está na possibilidade de sua auto-parturição, ou seja, auto-realização. Realização
  • 6. existencial ou frustração existencial – é esta a gloriosa e perigosa alternativa do homem. Um único homem que se auto-realize é infinitamente maior do que todas as grandezas do cosmos alo-realizadas. É este o drama paradoxal que preside à luta evolutiva que Lúcifer e Lógos travam no campo de batalha da humanidade.
  • 7. NOSSA VIZINHANÇA CÓSMICA O homem antigo considerava a terra como o centro do Universo, e a nossa humanidade como a única. Há muito tempo, sabemos que o planeta terra é uma parcela mínima do cosmos total, que abrange milhões de sistemas solares, estelares e galáxias, iguais ou maiores que o sistema solar a que pertencemos. Esta astronomia física nos sugere uma filosofia metafísica: é possível, e mesmo provável, que haja muitas humanidades, iguais, inferiores ou superiores, à humanidade terrestre. As creaturas conscientes e livres mais evolvidas [1] que nós, são chamadas pelos livros sacros os celestes, as menos evolvidas são as infra-terrestres, ou os ínferos, e nós somos os terrestres. -------------- [1] Note o leitor que, em todos os nossos livros, usamos a palavra corretamente latina evolver e involver, e não o hibridismo francês evoluir e involuir, que, infelizmente, tomaram conta da língua portuguesa, sobretudo no Brasil. Evolver é desenvolver, involver é o contrário. Ninguém diz desenvoluir em vez de desenvolver, nem devoluir ou revoluir, em vez de devolver ou revolver. O português não é derivado do francês, mas do latim. Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, escreve que, em nome do Cristo, se dobram todos os joelhos, dos celestes, dos terrestres e dos infra-terrestres. As creaturas conscientes e livres têm a possibilidade de assumir atitude pró ou contra Deus, se por Deus entendemos a alma do Universo, ou o Creador. Em virtude dessa consciência e liberdade, a parte creatural do Universo se bifurca em dois pólos: positivo e negativo. Essa bifurcação bipolar é necessária para a evolução do Universo consciente e livre, porque sem resistência não há evolução. Em linguagem comum, as entidades do pólo positivo são chamadas os bons, e as do pólo negativo são os maus – ou seja, anjos e diabos, em se tratando do mundo invisível. Anjo (do grego angelos) quer dizer mensageiro; diabo (em grego diábolos) significa adversário. Os mensageiros pró-Deus e os adversários contra-Deus constituem o mundo das creaturas conscientes e livres, que têm a possibilidade de realizar a sua evolução autônoma, como também a sua involução.
  • 8. O livro do Apocalipse diz que houve uma grande luta no céu, isto é, entre as creaturas superiores à nossa humanidade: algumas se revoltaram contra Deus, enquanto outras aderiram a Deus. Os revoltados foram lançados à terra, onde continuam a sua tarefa de servirem de peças de resistência às creaturas terráqueas em evolução. Se houve uma luta no céu, então o céu não é esse ridículo museu de múmias fossilizadas eternamente no bem, que a nossa teologia infantil nos impingiu; nem o inferno é um museu de seres petrificados no mal. Céu e inferno são dois campos em vias de evolução habitados por seres dotados de livre-arbítrio. No Universo das creaturas, tudo é fluxo incessante, nada é estagnação definitiva. Os livros sacros enumeram nove hierarquias de mensageiros celestes, chamados: anjos, arcanjos, serafins, querubins, tronos, dominações, principados, virtudes e potestades. Na Epístola aos Efésios 6,12, Paulo de Tarso enumera três dessas hierarquias como adversários de Deus e ativos na terra dos homens: principados, potestades e dominações; diz que a nossa luta não é contra carne e sangue, mas contra este mundo tenebroso dos espíritos malignos. No livro de Job, aparece um desses adversários (satan, em hebraico) no meio dos emissários de Deus, ou anjos. Esse satan arruinou completamente a prosperidade material desse grande fazendeiro de Hus, matou os dez filhos dele e cobriu o corpo de Job com chagas purulentas. Nem os mensageiros nem os adversários, têm poder sobre a consciência e o livre-arbítrio do homem, mas podem, em certas circunstâncias, afetar, benéfica ou maleficamente, a vida do homem. Quase toda a literatura humana, tanto do oriente como do ocidente, está repleta de referências a essas entidades invisíveis, que afetam a evolução do homem, consoante a atitude, positiva ou negativa, que o homem assume em face delas. No presente livro, descrevemos algumas atividades desses poderes invisíveis, as estratégias do adversário, que, em hebráico, se chama satan, e em grego diábolos. Preferimos todavia usar o nome Lúcifer para designar esse poder adverso. Lúcifer quer dizer literalmente porta-luz, simbolizando a luz matutina (estrela d’alva, Vênus), que precede o nascer do sol, como é usado na Bíblia. Mas Lúcifer pode também simbolizar a luz da inteligência que precede a luz da razão (espírito). Nos livros sacros não ocorre a palavra Lúcifer no sentido negativo de satanás ou diabo; mas na linguagem popular de todos os países, Lúcifer é usado como o poder anti-espiritual, sentido esse em que o empregamos no presente livro. Os povos têm certa razão em identificar Lúcifer
  • 9. com satanás, porque a inteligência humana, quando atua em seu próprio nome, sem o controle da razão espiritual, degenera invariavelmente em satanidade anti-espiritual. O nosso mundo moderno, altamente intelectualizado, é grandemente contrário ao espírito. Na cena da tentação de Jesus, o tentador quer ser servido e adorado pelo Cristo, e como recompensa lhe oferece todos os reinos do mundo e sua glória – lucefirismo esse que caracteriza adequadamente grande parte da nossa civilização moderna. Por esta razão disse o Mestre a seus discípulos: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós; sobre mim ele não tem poder, porque eu venci o mundo”. Descrevemos neste livro a estratégia característica de Lúcifer, por vezes vitoriosa, por vezes derrotada. Os leitores que conhecem o meu livro “A Nova Humanidade” têm a vantagem de compreender melhor as seguintes páginas sobre a tática do adversário – tática essa que faz parte do plano cósmico da evolução entre as creaturas conscientes e livres. Se o leitor assumir uma atitude cosmorâmica em face do Universo, compreenderá o Uno do Creador e o Verso das creaturas.
  • 10. LÚCIFER Como caíste do céu, Lúcifer, estrela d’alva! Tu, que dizias em tua mente: subirei ao céu, exaltarei o meu trono acima das estrelas de Deus, para além das mais altas nuvens – serei semelhante ao Altíssimo! “E agora, foste lançado ao inferno, às ínfimas profundezas da terra”. (Isaias, 14,12-15). No texto acima, escrito durante o exílio babilônico, 600 anos antes da Era Cristã, pelo maior dos profetas hebreus, Lúcifer é chamado estrela d’alva (em grego: eosfóros, portador da aurora), talvez por ter sido a mais deslumbrante das entidades angélicas. O Apocalipse de João diz que o “dragão”, quando foi expulso do céu, arrastou consigo um terço das estrelas celestes rebeladas contra Deus. O céu, como se vê, não é um lugar definitivo, e as creaturas dotadas de livre- arbítrio não se acham numa meta estática e definitiva de evolução; podem assumir atitude pró ou contra Deus. Lúcifer, que, daí por diante, é chamado satan (adversário) ou diábolos (opositor), foi lançado das regiões superiores (céu) para as regiões inferiores (inferno), onde ele domina as profundezas da terra, como o tentador afirma, e como o Cristo confirma: “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. O mundo das creaturas dotadas de consciência e livre-arbítrio, tanto celestes como terrestres, não é um mundo de robôs, padronizados, mas de entidades em evolução, responsáveis por seus atos. Não há nenhum museu celeste nem infernal. A mais deslumbrante mentalidade celeste quis ser semelhante ao Altíssimo pelo poder da sua inteligência, e por isso foi lançada às regiões inferiores. Houve uma grande luta no céu, escreve João, no Apocalipse, e o campeão das falanges fieis a Deus derrotou Lúcifer e seus adeptos com o brado: “Quem- como-Deus?” (em hebraico: Mi-cha-el). Um terço das falanges celestes foi lançado às regiões inferiores da terra, onde continuam a sua luta, tentando revoltar os habitantes terrestres contra Deus. Entretanto, uma creatura dotada de livre-arbítrio não pode ser forçada por nenhuma outra, que apenas lhe pode dificultar a evolução ascensional.
  • 11. Segundo as leis cósmicas, essa oposição luciférica faz parte da evolução humana, porque sem resistência não há evolução. Acima dessa antítese de dois poderes em luta, existe a Tese do Poder Único e Absoluto da Divindade. No mundo infra-hominal (natureza), as antíteses evolutivas são sintetizadas automaticamente pelo Poder Supremo, ao passo que, no mundo hominal, devem as antíteses sintetizar-se pela liberdade da própria creatura. Tanto a “luz do mundo” como o “poder das trevas” estão a serviço do Poder Supremo e Único da Divindade. O destino cósmico e indestrutível e infalível, ao passo que o destino humano depende da creatura livre, oscilando entre a felicidade e infelicidade dela. Lúcifer, o pólo negativo da evolução humana, deve agir naturalmente como fator de retaguarda – mas ele tem a tendência de usurpar o pólo positivo da vanguarda, desequilibrando assim a harmonia do microcosmo humano (pecado). Por isto nos livros sacros, a ordem que o pólo positivo da vanguarda (Cristo) dá ao pólo negativo da retaguarda é invariavelmente: “Vai à retaguarda” (vade retro). Concorda com isto a sabedoria milenar da Bhagavad Gita, como dissemos, quando afirma que o ego (negativo, retaguarda) é o pior inimigo do Eu (positivo, vanguarda), mas que o Eu é o melhor amigo do ego. E acrescenta: “O ego é um péssimo senhor da nossa vida, mas é um ótimo servidor”. Toda a harmonia cósmica se baseia no equilíbrio dinâmico entre dois pólos evolutivos, que regem todo o Universo: O Uno da Essência Absoluta, que rege o Verso, das Existências Relativas. As leis cósmicas não conhecem nem identidade nem contrariedade; os pólos da antítese são sempre complementares, devendo ser sintetizados, seja pelo Poder Supremo, como no mundo infra-hominal, seja pelo livre-arbítrio, como deve ser no mundo das creaturas livres. No mundo hominal do Universo, o Verso das antíteses complementares é reduzido à síntese do Uno pela consciência creadora do livre-arbítrio. O grande tratado de paz, a harmonia entre a antítese dos pólos complementares da natureza humana, só pode ser obtido pela soberania do Eu sobre o ego, ou seja, pela voluntária integração do ego inferior no Eu superior do homem. É esta a perfeição e felicidade do homem.
  • 12. O PLANO CÓSMICO DA EUGENIA HUMANA Falamos, no capítulo precedente, dos dois pólos complementares do Universo e do homem. No Universo macrocósmico, essas duas antíteses estão automaticamente sintonizadas pela própria Potência Creadora do cosmos; a atração é equilibrada pela repulsão; o próton do átomo é harmonizado por seus elétrons; o pólo positivo da eletricidade é equilibrado pelo pólo negativo, etc. Mas, não é isto que acontece no Universo microcósmico do homem, porque aqui aparece um fenômeno inédito, inexistente no Universo sideral: a creatividade do livre-arbítrio. No homem existe uma harmonia apenas potencial entre os dois pólos, que pode equilibrar esses pólos, mas pode também desequilibrá-los. É esta a essência do livre-arbítrio, que não é ausência de causalidade, mas uma causalidade auto-causante, em vez da causalidade alo- causada. O homem pode atualizar o seu equilíbrio meramente potencial, realizando assim a sua natureza integral. Todo o drama milenar do homem gravita em torno do livre-arbítrio, usado ou abusado. Neste sentido, disse um pensador moderno: “Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível”. Esse menos possível representa a potencialidade; o mais possível indica a atualização da harmonia dos dois pólos. Só por esse processo de creatividade é que o homem realiza a sua evolução tipicamente humana. O plano cósmico referente ao fenômeno “homem” é essa realização livre da sua existência, que poderíamos denominar eugenia humana, ou auto- realização. Essa realização existencial depende da íntima essência do homem, a substância central do seu Eu. As circunstâncias periféricas, relacionadas com o seu ego, podem facilitar ou dificultar essa realização existencial, mas não a podem impedir, enquanto se trata de um homem normal. No homem, como se vê, os dois pólos da sua natureza são elásticos e evolvíveis, tanto para o lado da realização como também da frustração existencial. Depende do homem fortalecer ou enfraquecer o poder da sua substância central.
  • 13. Através de toda a história humana vai essa luta constante, pró ou contra a substância, pró ou contra as circunstâncias. No centro desse campo de batalha está o mistério do livre-arbítrio, da creatividade, positiva ou negativa, que pode ser considerada como um reflexo do próprio Creador, com a diferença de que, no homem, esse poder é relativo e não absoluto. Se há no homem uma “imagem e semelhança” com Deus, como diz o Gênesis, então é essa creatividade do seu livre-arbítrio. Na história multimilenar da humanidade aparecem constantemente a ação e a reação dos dois pólos antitéticos em demanda duma sintetização. Convém saber que as Potências que os livros sacros chamam o “poder das trevas” e a “luz do mundo” – ou seja Lúcifer e Lógos – existem tanto no transcendente impessoal como também no imanente pessoal. Existe uma potência positiva e uma potência negativa no Verso do Universo sideral, como também no Verso do Universo hominal. O poder Único é somente da Essência, do Uno, da Tese – em todo o âmbito da Existência, do Verso, das Antíteses, esse Poder Único aparece bifurcado em dois poderes, aparentemente antagônicos, realmente complementares. Os livros sacros, bem como as filosofias, mencionam frequentemente essa luta do homem entre dois poderes, que têm o seu reflexo dentro da própria natureza humana. E, como já lembramos, esses dois poderes parecem, à primeira vista, antagônicos e irreconciliáveis. O poder negativo aparece comumente com a conotação pejorativa de “poder das trevas”, “adversário”, “opositor”, ou, em hebráico e grego, satan e diábolos. Os grandes iniciados da humanidade sabem que esses poderes não são realmente antagônicos, mas complementares, razão por que esses iniciados colocam o pólo positivo na vanguarda, e o pólo negativo na retaguarda, como consta nitidamente da filosofia milenar da Bhagavad Gita e da Sabedoria do Evangelho. Krishna afirma que o ego (poder negativo) é o pior inimigo do Eu (poder positivo), mas que este é o melhor amigo daquele. O ego é um péssimo senhor, mas um ótimo servidor da vida. O Cristo-Lógos do Evangelho manda Lúcifer para a retaguarda do servir, enquanto ele mesmo está na vanguarda do mandar. Por toda a parte, aparece a sabedoria cósmica de complementaridade positiva e negativa do Eu e do ego humanos. Numa grandiosa cosmo-visão, o Salmista celebra a grandeza do homem, exclamando: “Que é o homem, Senhor, que o contemples? E o Filho do Homem que o visites? Pouco abaixo dos anjos o colocaste e o constituíste sobre as obras das tuas mãos”. Estas palavras focalizam a grandeza do homem, quando plenamente realizado.
  • 14. Alguns autores, como Alexis Carrel, dizem que o homem é um “Desconhecido”, referindo-se ao seu Eu realizável, porém não realizado. Outros, como Blaise Pascal, preferem dizer que o homem é um “misto de grandeza e de miséria”, referindo-se ao seu ego, que é miséria, e ao seu Eu, que é grandeza. Teilhard de Chardin acha que o homem é um “fenômeno” colocado no marco inicial alfa em demanda da meta longínqua do Ômega. O erro funesto das teologias tem sido o fato de considerarem o homem do Gênesis como um homem divinamente realizado, quando, na verdade, é apenas um homem humanamente realizável, e que teve ordem de se realizar. Mas, como toda a evolução vai com passos mínimos em espaços máximos, o grosso da humanidade não se realizou, achando-se ainda no marco primitivo do homem-alfa. Só de longe aparecem, como que meteoros em plena noite, homens de avançada evolução, rumo ao ponto ômega. A perfeita eugenia humana existe em todos potencialmente, mas atualmente em pouquíssimos, porquanto muitos são os vocados, e poucos os evocados. O vocado, ou chamado é todo o homem em sua potencialidade creativa; os evocados são os poucos que atenderam ao chamamento da vocação e o realizaram na evocação. O evocado é o homem que tem a consciência e a vivência da sua vocação hominal, o homem que realizou as suas potencialidades creadoras. Logo no início da creação do homem, já aparecem essas duas potências em luta pelo homem. Sendo que o homem não era uma creatura realizada, mas apenas realizável, era necessário esse duelo entre Lúcifer e Lógos, para a evolução do homem, porque, como dizem os corifeus atômicos no livro “A Gnose de Princeton”: “Sem resistência não há evolução”. Evolver, ou desenvolver, quer dizer desdobrar o que está dobrado. Evolver é atualizar a potencialidade, tornar realizado o realizável. A eugenia humana é um marco avançado na evolução ascensional do homem. Quando essa eugenia atinge grande altura, o homem é chamado “Filho do Homem”; enquanto ele está longe do ideal, é chamado “filho de mulher”. No início da humanidade, quando o “sopro divino” acabava de ser insuflado num organismo infra-humano, como era natural, a animalidade prevaleceu sobre a hominalidade. E, quando o espírito se manifesta no primeiro estágio de inteligência, é natural que o instinto animal se manifeste em forma de intelectualidade. Mas, é lógico e matematicamente certo que um instinto animal ainda não espiritualizado, mas apenas intelectualizado, degrade o homem, temporariamente, abaixo do nível do animal. O instinto age automaticamente,
  • 15. com infalível certeza, porque é controlado pelas Potências Creadoras do Universo. Mas, quando o instinto é ligeiramente intelectualizado, isto é, liberto do seu automatismo instintivo, então perde ele a sua segurança e faz do homem um animal perigosamente intelectualizado. Instinto é segurança sem liberdade. Inteligência é liberdade sem segurança. Razão é liberdade com segurança. Mas, até hoje, a humanidade como tal não evolveu até a esse terceiro estágio, que os cientistas denominam logosfera; o homem se debate na noosfera do intelecto, nesse caos de semi-segurança e semi-liberdade. Este estágio de homificação vem descrito no Gênesis de Moisés. O “fruto proibido” não era o uso do sexo, mas a perversão do instinto sexual engendrada pela inteligência ainda não espiritualizada. Quanto mais a liberdade intelectual cresce, tanto mais decresce a segurança instintiva. Somente com o despertar do espírito (Lógos), são integralmente compatíveis, em perfeito equilíbrio, a liberdade e a segurança. O homem de hoje perdeu a segurança instintiva, porque em parte adquiriu liberdade intelectual. Comeu do “fruto proibido”, mas não comeu ainda do “fruto da árvore da vida”, que seria perfeita segurança com perfeita liberdade, que só é possível sob o regime do “sopro de Deus”, e não do “sibilo da serpente”. Já aqui, no início da humanidade, aparece no campo de batalha os devas do espírito e os kurus do intelecto, do intelecto unilateralmente evolvido, e do espírito ainda dormente. Esse trágico desequilíbrio entre espírito e intelecto é, por muitos, considerado uma “queda” do homem, quando, na realidade, é um estado preliminar da sua evolução. Se, segundo as citadas palavras do inspirado Salmista, o homem foi constituído sobre as obras de Deus, aqui na terra; se, segundo as palavras proféticas do Apocalipse, o reino dos céus será proclamado sobre a face da terra; e se, segundo a afirmação do Lógos e a confirmação do próprio Lúcifer, todos os reinos do mundo são, atualmente, do “poder das trevas” – então é lógico que Lúcifer se defenda com todas as forças contra a perda desta sua soberania terrestre e hostilize o “intruso homem”, que lhe poderia usurpar os reinos da terra e sua glória. Algum dia, segundo as profecias dos videntes, o homem deve ser o dominador do planeta terra, não pelo poder da inteligência (que não é domínio estável) mas pelo poder do espírito. Mas esse domínio não será Teo-dado e sim auto- realizado. E, para mostrar ao homem o que ele pode e deve vir a ser, o Cristo
  • 16. cósmico encarnou na natureza humana, convidando o homem a segui-lo livremente. Os planos cósmicos não falham, mas serão realizados pela única creatura creadora da terra – o que não significa que todos os indivíduos humanos realizarão esses planos, mas sim que eles serão realizados pela natureza humana representada pelos indivíduos que, livremente, os queiram realizar. “Deus creou o homem o menos possível, para que o homem se possa crear o mais possível”.
  • 17. ESTRATAGEMA VITORIOSO DE LÚCIFER Lúcifer foi chamado pelo Lógos o “príncipe deste mundo”, que tem pode sobre os homens. E Lúcifer confirma esse título, dizendo que ele é o dono de “todos os reinos deste mundo e sua glória” e os dá a quem ele quer. Quando apareceram nesta terra duas creaturas diferentes das outras, achou Lúcifer que devia sondar essa novidade, que, possivelmente, seria um perigo para seu reino – tanto mais que um dos dois havia recebido o sopro dos Elohim. Escolheu Lúcifer para sua sondagem a mulher, que lhe parecia, mais acessível aos seus planos e suas sugestões. Aproximou-se dela a sós, na ausência do homem, e lhe fez a pergunta provocante: “Por que vos proibiram os Elohim comerdes de todos os frutos do paraíso? A mulher respondeu prontamente: “Nós comemos de todos os frutos do paraíso, exceto um; que não podemos comer, nem mesmo tocar, do contrário morreremos”. Ao que Lúcifer replicou, jogando perversamente com a sabedoria dos próprios Elohim, dizendo: “De modo algum morrereis; os Elohim sabem que, se desse fruto comerdes, abrir-se-vos-ão os olhos e sereis semelhantes a eles, conhecedores do bem e do mal”. Veladamente, fez ver à mulher que os Elohim agiam por inveja ou ciúme: não queriam que os homens fossem iguais a eles. Que estratagema melhor poderia Lúcifer ter usado senão este? Quando a mulher percebeu a suposta camuflagem dos Elohim, ardia de impaciência por comer do fruto proibido. Estas palavras enigmáticas aguçaram a curiosidade dela: abrir-se-vos-ão os olhos e conhecereis o bem e o mal... Que era isto? E começou a observar atentamente o fruto proibido, que era bom para comer, delicioso para olhar, e era a hora certa para ser provado, como diz enfaticamente a Septuaginta grega. Tomou do fruto, primeiro sozinha; pois estava só; depois foi ter com seu marido e lhe deu do fruto, e ele comeu. Neste momento, abriram-se-lhes os olhos e verificaram que estavam nus.
  • 18. É este o momento em que o instinto inconsciente do animal passa para a inteligência consciente do homem. O fruto proibido, como já dissemos, não era o uso do sexo, porquanto os Elohim haviam dado ordem para se multiplicarem. Mas o uso do sexo não obedeceu ao instinto inconsciente, e sim à inteligência consciente: usaram o sexo, não como meio para a procriação, mas com o fim de gozarem de um prazer libidinoso. Adulteraram a sua natureza; já eram animais inocentes, eram seres humanos culpados. O intelecto é ótimo servidor, mas é péssimo senhor da vida. Agiram sob os auspícios do intelecto, e não do espírito nem do instinto inocente. A libido sexual arvorada em fim degradou os homens ao nível infra-animal. Em vez de subirem a um nível supra-animal, desceram a uma baixada infra-animal, a uma involução que lhe dificultava a evolução. Era precisamente esse o estratagema de Lúcifer, obstruir o caminho evolutivo a essas creaturas suspeitas de, um dia, usurparem o reino de Lúcifer e emanciparem-se do poder dele. Era necessário fossilizar o homem no domínio luciférico da inteligência. Depois desta primeira vitória de Lúcifer sobre a humanidade inicial, lançaram as Potências Creadoras três maldições terríveis, uma contra a serpente da inteligência luciférica, outra sobre a mulher, e a terceira sobre o homem. A serpente é condenada a rastejar e nutrir-se das coisas materiais da terra; a mulher sofrerá muito com a gravidez e o parto e estará sob o domínio do homem; a terra toda estará maldita por causa do homem, que comerá do seu pão no suor do seu rosto. A veemência dessas três maldições é incompreensível, se se tratasse apenas duma imoralidade de agir, como pensam os intérpretes tradicionais. Moisés, porém, e os Elohim sabiam que aqui está em jogo a própria verdade do ser de toda a futura humanidade, e em jogo esta o próprio destino do homem, que devia tornar-se a coroa da creação. O próprio Cristo afirma que Lúcifer se arvorou em príncipe deste mundo e tem poder sobre os homens, porque estes apostataram da soberania do espírito divino e se submeteram à tirania da inteligência luciférica. Através de todos os tempos da humanidade, as grandes catástrofes – como o dilúvio e a destruição de Sodoma e Gomorra – são consideradas pelos livros sacros como o eco dessas maldições. A humanidade trocou o reto-agir do sopro divino pelo falso-agir do sibilo da serpente, subvertendo assim a ordem cósmica e arvorando o prazer sexual
  • 19. como fim autônomo da existência, quando devia ser apenas um meio para outro fim. Em face disto se compreende a insólita veemência das maldições dos Elohim. Trata-se da realização existencial – ou da frustração existencial do gênero humano. Em nossos dias, esta subversão das leis cósmicas atingiu o clímax da sua gravidade: a serpente da inteligência luciférica inventou uma pílula que proporciona ao homem e à mulher o gozo ilimitado da libido erótica sem nenhuma outra finalidade. Em face disto se compreende a agravação de todos os males da humanidade e a ameaça de uma tragédia universal, que pode comprometer a própria existência do homem sobre a face da terra. As maldições das Potências Creadoras, em vez de serem neutralizadas, estão sendo cada vez mais agravadas. É esta sem dúvida, a vitória máxima da estratégia de Lúcifer, a cujo poder o homem se entregou. “O príncipe deste mundo, que é o poder das trevas, tem poder sobre vós”. Quando Lúcifer levou a mulher a um ego-agir, realizou ele a maior façanha da sua estratégia anti-cósmica: desviou o trilho do reto-agir para um falso-agir. Verdade é que esse desvio era mínimo, quase imperceptível; mas, quando um trilho que devia ir ao norte, é desviado um milímetro para o leste ou oeste, esse milímetro se torna, aos poucos, um centímetro, depois um metro, mais tarde, um quilômetro – e o homem não atinge a meta do seu destino. A erótica não é proibida quando funciona como um meio, como um fenômeno concomitante do reto-agir; mas é proibida quando substitui o reto-agir do Eu pelo falso-agir do ego. Para compreender essa estratégia perversa de Lúcifer, é necessário saber que a libido é a mais alta afirmação do ego, chamada eufemisticamente “amor”. O Eu verdadeiro não age em nome da libido erótica, mas em nome do amor humano, rumo à grande vertical do seu destino. Quando a libido erótica funciona como um fim autônomo, então o homem funciona como ego masculino e ego feminino; funciona em nome e por amor à sua máscara ilusória, e não em nome do seu Eu verdadeiro. Em quase 2000 anos de cristianismo a cristandade não conseguiu neutralizar essa estratégia sutil de Lúcifer; pelo contrário, essa estratégia foi fortalecida através dos séculos e milênios, até culminar, no século XX, na prática da pílula
  • 20. anti-concepcional, onde o ego é 100%, e o Eu 0%. Por esta razão, os grandes videntes profetizam o fim da humanidade para as vésperas do terceiro milênio. Nesta primeira investida saiu Lúcifer plenamente vitorioso: derrotou a única creatura terrestre que representava um perigo para o seu reino. Lúcifer se serve do homem intelectual mas teme o homem espiritual. Os Elohim fulminaram terrível maldição à inteligência luciférica, condenando-a a rastejar nas baixadas materiais dos sentidos, nutrindo-se das coisas terrestres, incapaz de saborear as coisas celestes. Dessa mesma inteligência rastejante escreveu Paulo de Tarso: “O homem intelectual não compreende as coisas do espírito, que lhe parecem estultícia, nem as pode compreender, porque as coisas do espírito devem ser compreendidas espiritualmente”. E o sábio rei Salomão declara: “Num corpo viciado não entra sabedoria”. *** Logo após essa vitória, porém, teve Lúcifer de ouvir palavras estranhas e de mau agouro. Os Elohim declararam que poriam inimizade entre ele e a mulher, entre o descendente dele e o descendente dela, o qual esmagaria, um dia, a cabeça de Lúcifer. Contudo, Lúcifer continuaria a sua estratégia, armando ciladas ao calcanhar do vencedor. Esse certame de Lúcifer versus Lógos, de trevas contra luz, faz parte dos planos cósmicos que regem todo o Universo, até à plenitude dos tempos. Entre altos e baixos, por entre luzes e trevas, se projeta a estrada da evolução; o joio não será exterminado do meio do trigo enquanto este não atingir a plenitude da sua maturidade. Iguais em sua evolução externa são o joio e o trigo – desiguais, porém, em seu destino interno. O positivo se perpetua rumo ao Todo – o negativo vai rumo ao Nada. Todas as coisas finitas são como linhas curvas que, cedo ou tarde, terminam onde começaram – ao passo que o Infinito é semelhante a uma linha reta, cujo término transcende o seu princípio. Nos planos cósmicos, o bem e o mal do homem estão a serviço do Todo, embora um dê felicidade, e outro infelicidade.
  • 21. LÚCIFER PERDE UMA APOSTA COM DEUS O livro de “Job”, da Bíblia do Antigo Testamento, é uma obra-prima de literatura de psicologia. Se, nesse tempo, tivesse havido “Prêmio Nobel”, deveria ser conferido ao livro de Job. Trata-se de um riquíssimo fazendeiro agropecuário, gentio, na terra de Hus, lá pelas bandas da Mesopotâmia. Job tinha 10 filhos, sendo 7 homens e 3 mulheres. Possuía 7.000 ovelhas, 3.000 camelos, 500 bois de tração e 500 mulas. Era mais rico que outro homem qualquer do oriente. Das plantações de Job não se fala; mas deviam ser imensas para poder alimentar esses 11.000 animais herbívoros. Esse riquíssimo fazendeiro era ao mesmo tempo profundamente espiritual. Certo dia, refere o texto, estavam reunidos os Filhos de Deus, e no meio deles apareceu Lúcifer – um kuru no meio dos devas. E a terra de Hus se converteu num novo Kurukshetra, um campo de batalha entre o bem e o mal. – Donde vieste? – perguntou Deus a Lúcifer. – Vim da terra – respondeu Lúcifer como quem diz que veio da sua casa, dos seus reinos e sua glória. – Viste meu servo Job? – perguntou Deus. – Vi, sim – respondeu secamente Lúcifer, que devia ter uma lembrança amarga dessa visita a Job, porque era um subversivo no meio do seu reino. – Que tal? – perguntou Deus – não é um servo meu altamente espiritual? – Ora, ora – replicou cinicamente Lúcifer – é muito fácil ser espiritual, porque o fizeste nadar em prosperidade. Deus, porém, respondeu a Lúcifer que Job não era espiritual porque era próspero em bens materiais; ele seria espiritual mesmo que fosse pobre. Nesta altura, Lúcifer propõe um jogo de aposta: quer apostar com Deus que Job deixaria de ser espiritual, se perdesse toda a sua fortuna. Deus aceita a aposta: dá licença a Lúcifer para arruinar toda a fortuna do rico fazendeiro.
  • 22. Mais que depressa, Lúcifer volta à terra e manda os seus comparsas humanos invadirem a fazenda de Job, roubar todo o gado dele e arrasar as plantações. Depois disto, Lúcifer volta à presença de Deus. – Então? – pergunta Deus – arruinaste a fortuna de meu servo Job? – Arruinei tudo – replicou Lúcifer. – E Job me maldisse? – Não, ele disse: Deus o deu, Deus o tirou, seja bendito o nome de Deus. Lúcifer, porém, apesar de ter perdido o primeiro ponto de aposta com Deus, não se deu por derrotado. Respondeu sarcasticamente: – Pele por pele! Até agora só toquei na fortuna dele, mas não na família e na pessoa de Job. Segue-se nova aposta. Deus permite a Lúcifer arruinar também a família e a saúde de Job, poupando, porém, a vida dele. Lúcifer põe mãos à obra. Aproveita a oportunidade em que todos os filhos de Job estão reunidos numa festa – e faz desabar sobre eles a casa, matando todos, com exceção única da mulher, que era contra Job e a favor de Lúcifer. Possivelmente, Lúcifer se lembrava daquela mulher, no Éden, que sucumbira à investida dele. Logo depois da morte de todos os filhos, Lúcifer cobre de chagas purulentas todo o corpo de Job. Não tinha licença para matá-lo. Reduzido a uma chaga viva, senta-se Job num monturo, e, com um caco, único resto da sua fortuna, raspa o pus das chagas, murmurando: Deus o deu, Deus o tirou – seja bendito o nome de Deus. Aparece então a mulher, única sobrevivente da família, e diz ao marido: De que te serviu toda a tua espiritualidade? Maldize a Deus e morre de uma vez. Replica Job; – Qual mulher insensata falaste. Se Deus nos deu tudo, por que não poderia tirar tudo? Lúcifer, depois de perder todas as suas apostas com Deus, não tem a coragem de voltar à presença dele, nem à presença de Job. Vergonhosamente derrotado em sua estratégia manda três dos seus comparsas, três filósofos orientais, cujos nomes são Elifas, Baldad e Sofar. Esses tinham ouvido das desgraças do amigo e foram vê-lo e consolá-lo dos seus sofrimentos. Estupefatos à vista do estado trágico do amigo, não se atrevem aproximar-se dele. Sentam-se no chão, à segura distância, (para não serem contaminados) e começam a falar.
  • 23. A consolação que entre os três filósofos têm a dar ao amigo é digna do seu chefe Lúcifer: todos os três tentam provar, um após outro, que Job é um grande pecador – bela consolação: – porque Deus é justo e não castiga os justos mas tão somente os pecadores. Job protesta a sua inocência; não tem consciência de pecado algum. Mas os três filósofos inventam subterfúgios para não se darem por vencidos: se Job não tem consciência do seu pecado, daí não se segue que seja isento de pecados; pode ter débitos inconscientes, talvez de uma vida passada, débitos que tem de pagar na vida presente. Job continua a protestar a sua inocência e a louvar a justiça de Deus, que pode dar tudo e tirar tudo, sem cometer injustiça. Após essa derrota total dos três comparsas de Lúcifer, aparece finalmente o próprio Deus que reprova a filosofia dos três desastrados consoladores, dizendo: – Que estais a falsificar com a vossa filosofia os planos da minha sabedoria? – Os três filósofos emudecem, reprovados em filosofia pelo próprio Deus. E Deus continua: – Job não sofre por pecado algum, não tem débito; eu o fiz sofrer para aumentar o seu crédito, para ele se tornar ainda mais espiritual do que era. Por ventura não tem o oleiro o direito de dar a seu barro o destino que quer? Fazer dele vasos preciosos ou vasos para fins humildes? Com isto faz Deus ver aos três filósofos que ele não faz as coisas por serem justas, mas que as coisas são justas porque ele as faz. Depois dessa derrota de Lúcifer e dessa vitória de Job, termina o drama de luzes e trevas, e Job é reintegrado em todos os seus bens super- abundantemente. Lúcifer, embora derrotado, cumpriu a sua missão específica: servir de peça de resistência para que o homem bom se torne ainda melhor. De acordo com os eternos planos evolutivos das Potências Creadoras, também o poder das trevas é servidor delas, mesmo à sua revelia. Lúcifer, após esta derrota, desaparece do cenário, cogitando novos planos para sabotar a sabedoria de Deus.
  • 24. UM ESTRATAGEMA MALOGRADO Esperançado com a vitória sobre a primeira mulher, no Éden, aventurou-se Lúcifer a assediar um homem; não num jardim florido mas num deserto árido da Judéia. Esse homem era um mistério. Jejuara e meditara durante 40 dias consecutivos. Desta vez, mudou Lúcifer de tática. Um homem austero como este, naturalmente, não podia ser tentado com um primitivo engodo sensual. Por outro lado, recordava-se Lúcifer da sua derrota na terra de Hus, onde perdera a aposta com Deus sobre um rico fazendeiro, espiritualmente firme como um obelisco de granito. Será que este eremita do deserto seria tão inexpugnável como aquele ricaço? Lúcifer foi sondando cautelosamente o terreno. Apanhou duas pedras do deserto, e apresentando-as ao misterioso eremita, disse: – Se tu és um filho de Deus, manda que estas pedras se convertam em pão. O estranho jejuador devia estar com vontade de comer. Mas a sugestão foi repelida com as palavras enérgicas: – Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus. Esta resposta dava uma boa pista a Lúcifer. Esse homem era um “filho de Deus”, diferente dos outros homens. Devia ter ilimitada confiança num mundo invisível. Seria um grande mago, mestre e líder em energia astral? Num ápice, o tentador levou o homem ao alto da torre do Templo de Jerusalém, mais de 40 quilômetros de viagem aérea. Se o levou fisicamente, ou mentalmente, não consta. Mas o teste era válido. Lúcifer sugeriu uma exibição de faquirismo, dizendo: – Lança-te daqui abaixo, porque Deus deu aos seus anjos para te suspenderem nas mãos, para que não firas os pés numa pedra. E esperava que o suposto mago desponderasse o seu corpo e o fizesse descer suavemente à terra, incólume.
  • 25. Mas, em vez desta exibição de magia mental, o austero jejuador replicou energicamente: – Está escrito: não tentarás o Senhor teu Deus. Após esta segunda derrota, excogitou Lúcifer um estratagema arrojado. Jogaria a sua última cartada. Levou o estranho eremita a um monte elevado; descortinou diante dele, num deslumbrante cosmorama, todos os reinos do mundo e sua glória, e disse: – Tudo isto eu te darei, porque é meu, e eu o dou a quem eu quero... Calou-se por uns momentos, observando o semblante imutável do homem e ponderando a condição que lhe faria; daria, sim, todos os reinos do mundo e sua glória – mas não de graça. Ia exigir um teste de incondicional vassalagem a esse possível primeiro-ministro do seu reino. Com firmeza e solenidade ordenou: – Prostra-te em terra e adora-me. Mas o austero eremita se conservou em pé. Em vez de obedecer a Lúcifer, exigiu dele absoluta obediência e adoração, dizendo: – A Deus adorarás e só a ele prestarás culto. Derrota tamanha não havia Lúcifer sofrido ainda. Em vez de ser adorado, é ele convidado a adorar aquele a quem hostilizava. E por fim, o estranho eremita teve a audácia de lhe fazer ver que o lugar dele era na retaguarda paras servir, e não na vanguarda para ser servido e adorado: – Vai à minha retaguarda! Depois dessa derrota no deserto, começou Lúcifer a temer pela segurança dos seus reinos na terra. Se existia um homem que não se considerava vassalo dele, mas se arvorava em soberano, então estava em perigo a segurança dos seus domínios terrestres. No Éden oferecera Lúcifer apenas um prazer libidinoso a uma mulher, e ela caíra como uma folha seca. Recordava-se ele da profecia enigmática dos Elohim sobre o descendente daquela mulher que esmagaria a cabeça dele – será que era este o homem perigoso aos reinos dele? E não dizia esse homem que o seu reino não era deste mundo? A que outro mundo aludia ele?... Lúcifer não aceitou o convite do jejuador de se pôr na retaguarda dele. Ele, o “poderoso”, não ia servir a um outro senhor que se considerava como o “mais poderoso”. Em vez disto, desapareceu, cheio de vergonha e repleto de cólera. Retirou-se apenas temporariamente, diz o texto, a fim de reaparecer oportunamente, e tentar nova sabotagem.
  • 26. De uma coisa tinha ele plena e dolorosa certeza: que o planeta terra, seus domínios, estava sendo invadido por um ser estranho sobre o qual ele não tinha poder. Que fazer? Lúcifer, sendo o mais astuto dos seres vivos da terra, como haviam dito os Elohim, ia excogitar um estratagema de inaudita audácia: ia mobilizar uma quinta-coluna dentro da própria fortaleza desse homem perigoso. E sua vitória seria certa desta vez.
  • 27. LÚCIFER MOBILIZA UM QUINTA-COLUNA Depois de derrotado fragorosamente no deserto da Judéia, resolvera Lúcifer voltar oportunamente para tentar aquele perigoso eremita. Essa oportunidade se lhe apresentou três anos mais tarde. Durante esse triênio, tivera o “poder das trevas” tempo para mudar de tática a ver se derrotava aquele que dizia ser a “luz do mundo”. Ia valer-se do auxílio de um dos seus íntimos discípulos. Prontamente, mobilizou um quinta-coluna para seu serviço. Quinta-coluna é sinônimo de traidor, nome usado desde a guerra civil da Espanha. Durante essa guerra, um dos chefes estava assediando uma fortaleza à frente de quatro colunas de forças armadas. Perguntou-lhe alguém se, com estas quatro colunas tinha esperança de tomar a fortaleza. Ao que o chefe revolucionário respondeu calmamente: – O quinta-coluna está dentro da fortaleza a nosso serviço. Havia traidores secretos dentro da própria fortaleza. De igual estratagema se ia servir Lúcifer, após a sua derrota no deserto da Judéia. Conseguiu um aliado dentro da própria fortaleza daquele homem perigoso. Conseguiu fazer de um dos 12 confidentes íntimos do Nazareno o agente secreto da sua política. De longa data vinha Lúcifer preparando o traidor, no princípio com falta de fé nas palavras do seu Mestre. Mais tarde, essa falta de fé levou Judas a negociar com os chefes da Sinagoga a entrega do Mestre. Por espaço de três anos havia Iscariotes esperado a inauguração do Reino de Deus sobre a terra, de que falava diariamente o Nazareno. Nesse reino seria ele, que sempre levava a bolsa do dinheiro, um dos primeiros-ministros. Mas o reino de que o Mestre falava não era deste mundo – e Judas só acreditava num reino deste mundo. Era um homem realista, prático e não acreditava em reinos utópicos, nas nuvens. No fim do terceiro ano de espera inútil, convenceu-se Judas de que nada tinha a esperar do Nazareno; mas queria fazer um negócio rendoso com as suas relações de discípulo do rabi da Galiléia. Verdade é que não tencionava matá-lo, mas servir de intermediário da
  • 28. sua prisão, na certeza de que o Mestre se tornaria invisível diante de seus inimigos. O pagamento, naturalmente, seria adiantado. Havia tempo que os chefes da Sinagoga tentavam prender o profeta da Galiléia, que entusiasmava o povo simples, mas destoava das idéias dele. Jesus porém, sempre lhes fugia das mãos. Então se ofereceu Iscariotes para fazer negócio com os sacerdotes. Quanto me quereis pagar? Perguntou ele, se eu vô-lo entregar? Trinta moedas de prata, responderam eles. – De acordo – replicou Judas. Recebeu o pagamento adiantado e especulava por uma ocasião para entregar o seu Mestre sem alarmar o povo, sobretudo os bons galileus, sempre amigos de Jesus. Aliás, Judas era o único judeu entre os 12 discípulos; os outros eram galileus, gente simples, ainda não pervertidos pela inteligência luciférica. Por isto seria fácil o estratagema de Lúcifer para mobilizar Judas a seu favor. Em vésperas da Páscoa judaica, estava Jesus com os 12 discípulos numa sala para celebrar a tradicional cerimônia do cordeiro pascal, em comemoração da libertação de Israel da longa escravidão do Egito. Judas estava presente. Sabia também que, depois desse ritual, ia Jesus com os seus discípulos ao Getsêmane para orar. Era ensejo oportuno para o entregar às mãos de seus inimigos. Havia, porém, uma dificuldade: Jesus devia ser preso pelos soldados romanos, que estavam a serviço da Sinagoga; mas estes não o conheciam, e, estando ele no meio dos seus discípulos, era difícil identificá-lo à sombra das oliveiras do Getsêmane. Judas, porém, achou saída fácil. Fez ver ao chefe da Sinagoga que ele mesmo estaria presente e daria a senha da identificação do Mestre: aquele a quem eu beijar, disse, esse é o tal; prendei-o. Na hora marcada, após o rito do cordeiro pascal dirigiu-se Jesus ao horto das oliveiras com seus discípulos. Judas chegou à frente dos soldados. Avançou para o Mestre, abraçou-o e beijou-o na face, dizendo: – Salve, Mestre! – Jesus, para mostrar que não era vítima de uma cilada imprevista, mas sabia do plano de Judas, disse: – Amigo, a que vieste? Com um beijo tu atraiçoas o Filho do Homem? Depois, voltando-se aos soldados, perguntou: – A quem procurais?
  • 29. – A Jesus de Nazaré – responderam eles. – Sou eu – disse Jesus. E, no mesmo instante, todos os agressores caíram de costas no chão. Jesus, em vez de fugir, como teria sido fácil, deu ordem que se levantassem, e disse-lhes num tom singularmente solene e misterioso: – Esta é a vossa hora e o poder das trevas. E entregou-se a eles sem resistência. A partir deste momento, desistiu ele de qualquer resistência ou evasão, ao contrário do que fizera nos três anos anteriores da sua vida pública. E assim continuaria até ao último suspiro no dia seguinte. Fisicamente se entregaria ao poder das trevas, parecendo ser derrotado por Lúcifer. Os evangelistas descrevem detalhadamente o que aconteceu depois desta noite até às três horas da tarde seguinte: os homens a serviço do poder das trevas ludibriaram dele de todos os modos imagináveis. É esta a política do ego inferior contra o Eu superior: desabafar a sua cólera e vingança de pigmeus em face de um gigante que não se defende. Prisão, flagelação, coroação de espinhos, bofetadas e escarros na face, ludíbrios com um manto de púrpura e um cetro real de uma cana de taquara – tudo isto foi mobilizado pelos comparsas de Lúcifer aparentemente vitorioso. Tudo isto faz parte da estratégia do poder das trevas que se vinga da intrusão da luz do mundo nos seus domínios. Certos teólogos cristãos, há quase 2.000 anos, ensinam que todos esses sofrimentos e ludíbrios foram mandados por Deus para que Jesus com eles pagasse os pecados da humanidade. Finalmente, Jesus pôs termo final à vitória do poder das trevas dizendo: – Está consumado... E consumada estava a maior vitória do Lógos, que mediante essa voluntária derrota, derrotara o Lúcifer pseudo-vitorioso.
  • 30. “O MEU REINO NÃO É DESTE MUNDO” Era em Jerusalém, dia 7 de abril do ano 33, numa sexta-feira, às 9 horas da manhã, como o Evangelho frisa com insistência. Achava-se Jesus na área pavimentada do “Pretório Romano”, que os gregos chamavam Lithóstrotos, e os hebreus GÁBBATA. Neste lugar e nesta hora, o governador romano Pôncio Pilatos e seu réu Jesus de Nazaré iam discorrer sobre os dois reinos que se digladiam no Universo: o reino das trevas e da ilusão, e o reino da luz e da verdade. Os dois homens eram embaixadores plenipotenciários dos respectivos reinos. Perguntou Pilatos a Jesus: – Tu és rei? É que Jesus fora acusado de pretender a realeza da Judéia, que, havia meio século, era uma província do Império dos Césares, senhores da Europa, da Ásia e da África. – Sim, eu sou rei – respondeu o homem no banco dos réus, e, para evitar qualquer equívoco, logo acrescentou com firmeza: – Mas o meu reino não é deste mundo. Cheio de estranheza e espanto, olhou Pilatos para essa ruína humana diante dele e perguntou: – Donde és tu? Se esse homem era rei, onde estava o reino dele? Na Europa, Ásia, na África? Não; porque esses países eram do Império Romano. Vagamente se lembrava Pilatos de certas fábulas da mitologia que falavam de reis divinos vindos à terra. Seria o Nazareno um desses reis extra-terráqueos? Respondeu o réu, com toda a clareza e decisão: – Eu nasci para isto e vim à terra para isto: para dar testemunho à verdade. Implicitamente, declarava o réu que o Império Romano, representado por Pilatos, não era o reino da verdade. E, como uma advertência a seu juiz, acrescentou:
  • 31. – E todo aquele que é filho da verdade, atende à minha voz. E acrescentou significativamente, reforçando o caráter extra-terrestre do seu reino: – Se deste mundo fosse o meu reino, os meus amigos lutariam para que eu não fosse entregue a meus inimigos; mas o meu reino não é daqui. No reino desse rei não se lutava com armas físicas, matando uns aos outros; lutava-se com as armas metafísicas da verdade. Quando Pilatos ouviu duas vezes a insistente palavra: verdade, verdade, encolheu os ombros, com cético desdém, e murmurou: – Que é a verdade? Nesta memorável manhã de 7 de abril, às 9 horas, foi demarcada nitidamente a linha divisória entre os dois poderes que se digladiam no Universo: o reino da ilusão e o reino da verdade. E aqui estão os dois embaixadores plenipotenciários dos dois reinos: um deles, no banco dos réus, representando o reino da luz e da verdade – o outro, sentado na cátedra de juiz, personificando o reino das trevas e da ilusão. Se Lúcifer ouviu estas derradeiras palavras do Lógos, deve ter ficado apavorado e indignado: esse Nazareno, aparentemente derrotado, se atreve a declarar que o reino de Lúcifer é um reino de ilusão e de trevas, que, um dia, será derrotado pelo reino da luz e da verdade – evidentemente, um subversivo audacioso, um intruso nos domínios do dominador deste mundo. Desde quinta- feira da noite, quando Judas traiu o Mestre com um beijo de amizade fictícia, julgava-se Lúcifer vitorioso – e agora esse farrapo de homem, que inspirava compaixão até ao juiz, diz que para vencer não é necessário lutar com as armas do ódio, mas somente com as armas da verdade – que pretensão! Pilatos, depois de ter ouvido dos lábios do seu réu, que ele era rei de um reino que não era deste mundo, se convenceu definitivamente que estava lidando com um visionário místico que sofria de megalomania de realeza. Perante as leis do Império Romano, era ele inocente, e o governador romano o podia absolver como inofensivo. Por isso, em vez de ouvir a resposta à pergunta “que é a verdade?” voltou as costas ao réu e tornou a declarar ao povo e aos chefes da Sinagoga, lá fora: – Não encontro culpa neste homem. De súbito, aparece um mensageiro com um recado urgente; vinha por ordem da esposa do governador. O recado enviado pela mulher era este: “Nada tenhas que ver com esse homem justo, porque, nesta noite, sofri muito em sonhos por causa dele”.
  • 32. É um corisco minaz que rompe as nuvens sombrias da consciência de Pilatos... Esse réu é um justo, um santo, e uma voz noturna avisou a mulher que Pilatos abrisse mão desse processo. Cláudia Prócola, a esposa, não tem a coragem de dizer ao marido “absolve-o!” prefere aconselhar neutralidade evasiva e tergiversar covardemente: abre mão do processo contra esse homem justo! Pilatos, perante a gritaria dos chefes da Sinagoga e da plebe por eles assanhada, não teve tempo para refletir. Como típico romano, primava pela clareza do seu senso jurídico; percebia nitidamente a inanidade de todas as acusações contra Jesus. Mas os chefes da Sinagoga conheciam o caráter do governador humanamente frágil. Por isto, abandonaram o terreno jurídico objetivo e assentaram as suas baterias contra os interesses subjetivos de Pilatos, bradando: – Se soltares esse homem, não serás amigo de César! Ameaçavam com uma denúncia em Roma contra o governador. E, como Pilatos havia cometido graves injustiças não conhecidas na capital do Império, receava ele perder a sua posição de governador da Judéia, se a Sinagoga provasse os crimes que cometera. Confessando a sua fraqueza pessoal, ensaiou uma comédia ridícula: Lavou as mãos em público, declarando: – Sou inocente do sangue deste justo; vós lá vos avindes com ele. – E o condenou à morte na cruz. Lúcifer exultou. Judas e Pilatos eram ótimos auxiliares dele. Era plenamente vitoriosa a política do poder das trevas, dominador deste mundo. Não sabia ele que esta maior vitória das trevas era o triunfo da luz.
  • 33. LÚCIFER TENTA UMA CAMUFLAGEM RIDÍCULA Com sua derrota voluntária, havia o Lógos proclamado sua maior vitória sobre Lúcifer, sobretudo com sua inexplicável ressurreição no terceiro dia. O poder das trevas não aceitaria impassível essa derrota. Instruiu os seus veículos humanos que negassem de todos os modos essa notícia da ressurreição, que desmoralizaria toda a estratégia luciférica. A camuflagem que Lúcifer inventou na manhã da ressurreição é tão ridícula e dá prova de tamanha mediocridade intelectual que dificilmente podia ser atribuída a um ser chamado o mais astuto entre todas as creaturas da terra; a sua mediocridade devia ser antes atribuída aos veículos humanos que foram colhidos de improviso e perderam o mais rudimentar bom-senso e lógica, quando os soldados romanos vieram com a notícia alarmante da ressurreição. Se isto fosse verdade, a Sinagoga estaria perdida. Por isto, era indispensável sabotar por todos os meios o fato da ressurreição. Quando, na madrugada do terceiro dia, os soldados romanos encarregados da guarda do sepulcro lacrado, comunicaram aos chefes da Sinagoga os fenômenos estranhos ocorridos e que o sepulcro do crucificado estava vazio, ficaram os sacerdotes tão atarantados que perderam o derradeiro vestígio de lógica e sensatez. Se o rabi da Galiléia tivesse realmente ressuscitado, estaria perdido o prestígio da Sinagoga. Por isto, era necessário negar de qualquer modo o fato. Mas como? Os chefes da Sinagoga chamaram os soldados romanos e lhes deram a ordem seguinte: – Dizei ao povo que, enquanto nós dormíamos, vieram os discípulos do Nazareno e roubaram o corpo – disto nós somos testemunhas. Através destas palavras aparece toda a perplexidade e desorientação dos sacerdotes. Os guardas do sepulcro devem afirmar corajosamente três coisas: 1 – que eles, os guardas, dormiram em vez de vigiarem,
  • 34. 2 – que, mesmo dormindo, viram nitidamente que alguns discípulos de Jesus se aproximavam e roubaram o corpo do crucificado, 3 – que, dormindo e vendo tudo, não impediram este roubo, como era da sua obrigação. Quando os soldados romanos tiveram ordem da Sinagoga de espalhar um boato tão flagrantemente absurdo, fizeram valer o seu bom-senso, e não obedeceram, alegando ainda que Pilatos os castigaria, se eles confessassem ter dormido em vez de vigiarem, como era seu dever. Mas os sacerdotes prometeram defendê-los perante o governador para que não fossem punidos – tão grande era o prestígio do clero de Israel perante o Governo Romano... Mas, mesmo assim, os soldados não se renderam. Então os chefes da Sinagoga apelaram para o último e decisivo argumento: o dinheiro. Diz o texto que encheram de dinheiro os bolsos dos soldados romanos para que tivessem a coragem de propalar um boato três vezes absurdo. E os soldados venderam a inteligência pelo estômago e espalharam a notícia de que os discípulos do Nazareno haviam roubado o corpo do crucificado, enquanto eles, os guardas, dormiam. Lúcifer deve ter ficado envergonhado da mediocridade mental dos seus veículos humanos, responsáveis por este contra-senso. Desta vez, o estratagema sofreu frustração total. Também, como poderia um cego ver a sua própria cegueira? Como poderia o poder das trevas enxergar suas próprias trevas? O dinheiro de Iscariotes continuava a render juros; as trinta moedas de prata passaram a encher os bolsos dos soldados romanos. Judas se havia suicidado, desesperado, mas os outros comparsas de Lúcifer continuavam a viver contentes. Diziam os antigos romanos: “Quos Jupiter perdere vult, prius dementat”. – Quando Júpiter quer perder alguém, em primeiro lugar lhe tira o juízo. Na presente tentativa de camuflagem luciférica, tudo prima por sua insensatez; não só o tríplice absurdo impingido aos guardas do sepulcro, como também todo o resto. Suponhamos que os discípulos tivessem roubado o cadáver do Mestre, em presença dos guardas dormentes, teria sido fácil descobrir o paradeiro do corpo; bastaria que a Sinagoga pedisse ao governador romano que desse uma busca nas casas dos amigos e discípulos do Nazareno – e Jerusalém não era uma metrópole de milhões. Encontrando o corpo morto de Jesus, os
  • 35. sacerdotes o exporiam à entrada do Templo e convidariam todo o povo para verificar se estava vivo ou morto. Teria sido o triunfo máximo da Sinagoga sobre o rabi da Galiléia. De resto, que interesse teriam os discípulos em roubar e esconder o corpo de seu Mestre, se eles mesmos não acreditavam na ressurreição? De que modo fariam crer aos outros o que eles mesmos não criam? Na manhã do terceiro dia, Maria Madalena e duas outras discípulas vão ao sepulcro para embalsamarem o corpo do Mestre, naturalmente não um corpo vivo. Logo depois, aparecem Pedro e João, viram o túmulo vazio, menearam a cabeça, mas não acreditaram na ressurreição. Pela tarde do mesmo dia Jesus aparece, no cenáculo, aos discípulos reunidos, que se apavoraram e julgavam ver um fantasma. Mesmo depois de o apalparem e comerem com ele, duvidavam que fosse ele. Alguns escritores fantasiosos nos querem fazer crer que a ardente fé na ressurreição tenha substituído o fato – mas essa suposta fé não existia em nenhum dos discípulos do Nazareno. Se, durante os 40 dias subsequentes, eles acabaram por se convencer da realidade da ressurreição, foi à força de provas irrefragáveis. Paulo de Tarso escreve: “Se temos fé apenas no Jesus crucificado, e não no Cristo ressuscitado, vã é a nossa pregação, vã é a vossa fé – e somos as mais deploráveis de todas as creaturas”. Quando alguém está a caminho da perdição, primeiro de tudo perde o juízo.
  • 36. LÚCIFER PERDE SEUS UTENSÍLIOS E SUAS ARMAS Certa vez, acabava Jesus de expulsar um demônio. Quando disto souberam os chefes da Sinagoga, observaram: – É por Belzebu, chefe dos demônios, que ele expulsa os demônios. Não negam o fato, mas atribuem-no ao poder de Belzebu, nome jocoso, que significa literalmente “rei do lixo”, ou “rei das moscas”, que os judeus davam ao adversário. Responde-lhes Jesus, com uma lógica irrefutável, mostrando que, se satanás e contra satanás, não pode subsistir o seu reino. Mas, se Jesus expulsa os demônios pelo poder de Deus, então se revelou na terra o reino dos céus. Depois disto, confirma suas palavras com a seguinte ilustração: – Quando o forte guarda os seus utensílios, está em segurança tudo quanto ele possui; mas, quando lhe sobrevém outro, mais forte do que ele, liga o forte e o despoja das armas em que confiava. O forte é satanás; o mais forte é Jesus que ligou satanás e lhe tirou seus utensílios e suas armas. Pelo contexto, os utensílios (skeue) e as armas, ou a armadura total (panoplia) são os demônios. Jesus não expulsou satanás, nem o identificava com os demônios, que são apenas utensílios e armas de que ele se serve para seus fins. Mas a perda desses utensílios e armas enfraquece o poder do forte, ligado pelo mais forte. Anos atrás, quando se exibia o filme “O Exorcista”, recrudesceu na imprensa a velha controvérsia sobre a identidade ou não-identidade de diabo e demônio. Na linguagem popular, e mesmo na de muitos eruditos, demônio é homônimo de diabo. Essa identificação é quase geral em toda a literatura. Os Evangelhos, que narram a vida e doutrina de Jesus, são, a meu ver, o único livro que não identifica demônio com diabo. Nem uma única vez afirmam os evangelistas que Jesus tenha expulsado um diabo, ou satanás; referem exclusivamente expulsões de demônios, ou espíritos impuros. Estes últimos são entidades de natureza inferior, talvez do mundo elemental ou do baixo astral, que, em certas ocasiões, se apoderam do corpo humano, em que encontram vantagens para sua vivência. “Quando o mau espírito – diz Jesus – sai do homem, anda por lugares desertos em busca de repouso, mas, não o encontrando, diz: voltarei
  • 37. para minha casa donde saí. E leva consigo 7 espíritos piores do que ele que entram na casa, e torna-se o último estado desse homem pior do que o primeiro”. Aqui não aparece nenhum convite e nenhuma culpabilidade do homem, como no caso de Pedro e de Judas, onde se fala de satanás, e não de demônios. Toda a atitude e linguagem dos demônios revelam que são seres inermes e fracos; à aproximação do mais forte, gemem e suplicam: “Se nos mandares sair daqui, não nos mande para o abismo; permite que entremos nos porcos” e, depois de entrar nos porcos, nem têm o poder de conservarem vivos esses seus veículos animais. Nunca nenhum desses seres elementais se arvora em senhor de todos os reinos do mundo e sua glória; nunca nenhum deles exige do Cristo que o adore, como fez satanás. O Evangelho nunca fala em satanás ou diabo no plural, como nos demônios; usa sempre o singular, porque se trata duma mentalidade anti-espiritual; quando os demônios são entidades da natureza. Por isso Pedro e Judas, são chamados satanás e diabo porque, por vontade própria, crearam uma mentalidade hostil ao espírito de Deus. Satanás ou diabo são creações da mente humana, ou extra-hominais, contrárias ao espírito Divino; mas, depois de mente-creadas, podem também funcionar em veículos objetivos, como entidades próprias. Paulo de Tarso, escreve aos Efésios que a nossa luta não é contra a carne e sangue, mas sim contra os príncipes e as potestades invisíveis dos espaços. Qualquer creatura dotada de consciência e livre-arbítrio, humana ou não humana, é responsável pelos seus atos; Deus não a obriga ser boa ou má, nem expulsa dessa creatura uma entidade que ela mesma creou ou dela se apoderou. Jesus não expulsou satanás do seu discípulo Pedro, como dissemos, nem o expulsou de Judas, nos quais entraram ou foram creadas por eles mesmos. Deus não arranca o joio, não contraria o livre-arbítrio do homem; o próprio homem é responsável pela entrada e saída de satanás. O endemoninhado de Gêrasa, possesso de uma legião de demônios, era vítima dessa obsessão, que não o tornara moralmente mau, tanto assim que, logo após o exorcismo, o recém-liberto pediu a Jesus que o aceitasse como seu discípulo, e Jesus o aceitou, recomendando-lhe que fosse discípulo dele em sua terra natal. A obsessão demoníaca não afeta necessariamente o moral da vítima – quando satanás só pode entrar no homem por culpa deste. Por esta razão, Jesus expulsa demônio, mas não diabo. Paulo de Tarso, na epístola aos Filipenses, diz que em nome do Cristo se dobrem todos os joelhos, dos habitantes do céu, da terra e do inferno. O Credo Apostólico, que data dos inícios do cristianismo, diz que, depois da sua morte, Jesus desceu aos
  • 38. infernos. Inferno ou ínferos, parece designar uma zona onde vivem entidades primitivas, semi-conscientes, de baixa evolução mental-espiritual. Dizem alguns sensitivos que essas entidades elementais necessitam de fosfato para sua evolução, razão porque se apoderam do corpo humano, sobretudo do cérebro, fonte de fosfato. A palavra Lúcifer, como já dissemos, não ocorre nos livros sacros como sinônimo de satanás ou diabo; Lúcifer quer dizer luzeiro, ou porta-luz, quer do mundo físico (estrela d’alva ou lúcifer matutino), ou mesmo um luzeiro espiritual. Um lúcifer mental pode ser amigo de Deus, e pode ser também inimigo, consoante o uso ou abuso do seu livre-arbítrio. Na linguagem tradicional os povos, como dissemos, lúcifer designa uma mentalidade hostil ao espírito. Tem-se alegado que as palavras de Jesus “eu vi satanás cair do céu como um raio” provam a identidade de satanás e demônio. Acabavam os discípulos de regressar da sua primeira excursão apostólica, e, cheios de entusiasmo, contaram ao Mestre que, em nome dele, até os demônios lhes estavam sujeitos e saiam das suas vítimas. Ao que o Mestre profere as palavras acima. Se os demônios são os utensílios e as armas de satanás, que admira que esta caia da alturas do seu poder, quando os discípulos do mais forte solapam o sustentáculo do forte? O homem, quando amigo do mais forte, não corre perigo de ser dominado pelo forte e de seus utensílios e suas armas. Segundo o Evangelho, os demônios são os utensílios e armas de Lúcifer, mas não são ele mesmo.
  • 39. LÚCIFER OFERECE TRÊS PRESENTES GREGOS Apenas havia a “luz do mundo” regressado à sua pátria cósmica, quando o “poder das trevas” começou a intensificar a sua estratégia contra os discípulos do Nazareno. Insuflou a um rabi da Sinagoga que mandasse apedrejar Estevam, um dos chefes dos cristãos. Mas, desta vez Lúcifer se saiu mal, porque, pouco depois, o próprio Saulo de Tarso, que matara Estevam, se transformara no maior defensor do Cristo, que ele proclama, durante três decênios, na Ásia e na Europa, como o “rei imortal dos séculos”. “O poder das trevas” excogitou nova sabotagem: mobilizou a Sinagoga em peso contra os discípulos de Jesus. Depois da destruição de Jerusalém, Lúcifer mobilizou o maior Império mundial da época contra os discípulos do Nazareno: exilou-os aos subterrâneos das catacumbas sombrias, donde só havia uma saída – para o martírio do Coliseu. Durante quase três séculos, lutou o “poder das trevas” contra o reino da “luz do mundo”. Mas, o sangue dos mártires era semente para novos cristãos, e um dos auxiliares de Lúcifer, que apostatara do Lógos, bradou ao morrer: “Venceste, Galileu!”. E, na escuridão das catacumbas, os discípulos do Cristo, perseguidos e massacrados, intensificavam cada vez mais a luz do mundo, morrendo sorridentes e felizes, dilacerados pelas feras do anfiteatro. “O poder das trevas” verificou seu erro: a perseguição era contra-producente. Era necessário voltar à estratégia do beijo de Judas. No ano 313, encontrou Lúcifer um segundo Iscariotes, incomparavelmente mais poderoso do que o primeiro: o Imperador Romano Constantino Magno, nominalmente cristão, realmente luciférico. Constantino decretou o fim das perseguições e deu liberdade aos discípulos do Nazareno. Convidou os recém-libertos a ocuparem altos postos no governo do Império, e, para esse fim, lhes ofereceu três presentes gregos: armas, política,
  • 40. dinheiro – armas para matar seus inimigos, política para enganar os amigos, e dinheiro para comprar e vender consciências. “Salve, Mestre!... prendei-o!”... O estratagema estava tão bem excogitado que os discípulos da luz do mundo sucumbiram à estratégia do poder das trevas, porquanto “os filhos deste mundo são mais astutos no trato com seus semelhantes do que os filhos da luz”. A liberdade e a glória se provaram mais nefastas do que o exílio e o martírio. Desde o início do quarto século, até hoje, funcionam os três presentes fatídicos que Lúcifer ofereceu aos discípulos do Nazareno, através do seu comparsa Constantino Magno: armas, política, dinheiro. Prevenira o Nazareno os seus discípulos contra essa estratégia: “o meu reino não é deste mundo... se deste mundo fosse o meu reino, meus amigos lutariam para que eu não fosse entregue aos meus inimigos, mas o meu reino não é daqui... cuidado com o fermento dos fariseus... não podereis servir a dois senhores, a Deus e ao dinheiro”. Os discípulos, porém, se esqueceram do alerta do Mestre. As armas de Pilatos, a política de Caifaz e o dinheiro de Judas foram usados pelo poder das trevas para eclipsar a luz do mundo. O Evangelho, segundo Judas Iscariotes, suplantou os outros Evangelhos... A bandeira do Cristo foi hasteada sobre o quartel-general do anti-cristo... O Cristo dos salões adulterou o Cristo na cruz... Os judeus mataram o corpo de Jesus – mas os cristãos mataram o espírito do Cristo, através dos séculos... Mais audacioso do que nunca proclamou Lúcifer a sua antiga plataforma: “eu te darei todos os reinos do mundo e sua glória, porque são meus, e eu os dou a quem eu quero – prostra-se em terra e adora-me!” O Cristo ficou em pé – mas os cristãos se prostraram em terra e adoraram o anti-cristo, pela idolatria das armas, pela idolatria da política, pela idolatria do dinheiro. A bandeira do Lógos continua hasteada sobre o quartel-general de Lúcifer – que rica seara produziu o beijo de Judas! “Aquele a quem eu beijar, esse é o tal – prendei-o!... Salve, Mestre!”... E agora que a estratégia de Lúcifer atingiu a culminância da sua astúcia, que resta a fazer? Milênios antes, triunfara Lúcifer pela luxúria, enganando uma mulher.
  • 41. Depois triunfou pelo luxo, enganando um discípulo do Cristo pelo dinheiro. Agora, quase no ocaso do segundo milênio, a luxúria e o luxo culminaram no lixo dos programas de cinema, de rádio, de televisão – essas conquistas máximas da inteligência humana estão a serviço do poder das trevas. O grosso da humanidade cristã perdeu a cristicidade. Não hostiliza abertamente o Cristo, continua a beijá-lo e a saudá-lo como Mestre – para entregá-lo a seus inimigos, para fazê-lo cair da sua altura cósmica e reduzi-lo à mediocridade do homem telúrico, do homem luciférico, do homem animal... Em vez de subirmos até ele, achamos mais cômodo fazê-lo descer até nós... O Sermão da Montanha está aposentado... O Evangelho foi revogado ou adulterado... aquele a quem eu beijar – prendei- o... crucificai-o. O suicídio do primeiro traidor está levando ao suicídio coletivo o cristianismo- traidor. “Aparecerão falsos cristos, e dirão: sou eu! Farão prodígios e fenômenos espantosos para enganar até os eleitos... Eis que vos pus de sobreaviso!” ............................................................................................................................... E os três presentes gregos de Lúcifer continuam a dominar os cristãos... Armas para matar os inimigos... Política para enganar os amigos... Dinheiro para comprar e vender consciências... ............................................................................................................................... Mas, após o ocaso da velha humanidade, amanhecerá a alvorada de uma nova humanidade – e o reino de Deus será proclamado sobre a face da terra.
  • 42. AS SERPENTES E OS QUERUBINS DO ESPAÇO Em todos os tempos da história humana houve intercâmbio entre as entidades supra-terrestres, terrestres e infra-terrestres do Universo. Por vezes, esse intercâmbio é meramente mental, e mesmo inconsciente; por vezes se torna material e consciente. As antigas mitologias personificavam as entidades cósmicas, dando-lhes determinados nomes. Ultimamente, sobretudo desde o início da Era Atômica e nuclear da nossa humanidade, esse intercâmbio se tornou mais intenso e concreto. Os chamados “discos voadores” representam uma fase visível desse intercâmbio cósmico. As entidades que dirigem esses aparelhos são habitantes do espaço inter-sideral. Os seus corpos e seus veículos são de substância astral, ou energética, que se materializam ao penetrarem na atmosfera terrestre, e se desmaterializam ao deixá-la. Essas entidades astrais são dotadas de consciência e livre-arbítrio como nós, podendo por isto, ser emissários de luz ou de trevas, benéficos ou maléficos aos habitantes terrestres. O que os livros sacros dizem das hierarquias do bem e do mal pode ser aplicado a essas mentalidades do espaço. Há quem chame esses seres serpentes e querubins, com alusão ao que o texto do Genêsis diz do guarda da árvore do conhecimento e da árvore da vida. Qual a finalidade dessas entidades cósmicas, ao visitarem o planeta terra? Onde imperam consciência e livre-arbítrio não pode falar em finalidade, no singular. O livre-arbítrio é essencialmente bilateral, e sempre imprevisível. Tanto os emissários a luz como os das trevas fazem parte dos visitantes espaciais. Alguns querem a nossa realização; outros, a nossa destruição. A nossa terra, como se vê, é um kurukshetra entre os devas e os kurus, como diria a Bhagavad Gita. Os querubins astrais conhecem o perigo que o nosso Lúcifer mental creou para a sobrevivência da humanidade do planeta terra. Se as nossas experiências atômicas e nucleares perderem o controle sobre a “reação em cadeia” que desencadeamos – adeus, humanidade!... Adeus vida da terra!...
  • 43. O insistente apelo que Albert Schweitzer, nos últimos anos de sua vida, dirigiu a todos os governos do mundo, era um alerta inspirado pelos querubins benéficos do espaço. As nossas centrais nucleares e atômicas atraem os visitantes astrais, interessados, em saber do estado da nossa fissão atômica, de que depende o futuro da humanidade e da terra. É bem possível que as serpentes do espaço promovam o nosso conhecimento intelectual a fim de interferirem no destino do homem adâmico, como a serpente do Éden tentou no princípio. Não estamos sós... Cada vez mais depende o destino da humanidade terrestre da interferência de entidades extra-terrestres. A humanidade cósmica prevalece cada vez mais sobre a humanidade telúrica. Ninguém sabe se a estratégia da serpente do espaço vai acabar em vitória ou derrota. Para certas mentalidades espaciais é a nossa humanidade terrestre apenas uma fauna primitiva, própria para experiências de laboratório; os visitantes levam daqui material e pessoal como cobaias de suas pesquisas. Para eles, se acha a nossa ciência e técnica num plano elementar. Que atraso o dos nossos aparelhos aéreos, que usam como combustível gasolina ou querosene, – quando eles se servem das correntes magnéticas do espaço para movimentar seus veículos, com estupenda velocidade e em perfeito silencio... Que diria o divo Platão sobre a nossa Atlântida (terra)? Repetiria o que, há mais de 2000 anos, escreveu sobre a mentalidade luciférica dos antigos atlantes? Será que o nóos humano não está em vias de suicídio coletivo, por não se integrar no Lógos cósmico? Será que o poder das trevas não impede a vitória das potestades da luz? No meu livro antigo “Luzes e Sombras da Alvorada”, escrevi um capítulo intitulado: “Eu e os Discos Voadores”, em que focalizei a minha atitude em face desses estranhos fenômenos. Se é verdade, como diz a filosofia oriental, que a nossa humanidade está atravessando o kali-yuga, (era tenebrosa), não é de recear que o poder das trevas envolva a nossa humanidade terrestre? Os livros sacros nos dão a esperança longínqua de que uma pequena elite sobreviverá ao suicídio coletivo da humanidade-massa; e que essa elite será a semente para uma nova humanidade. O ferro vira ferrugem, mas a ferrugem não tornará a ser ferro. Entretanto, se sobrarem uns átomos de ferro, reagirão ao impacto magnético do ímã – e do cataclismo universal anunciado pelos
  • 44. videntes sobrará uma elite não corroída – e então haverá um novo céu e uma nova terra, e o Reino dos Céus será proclamado sobre a face da terra.
  • 45. LÚCIFER É PRESO POR MIL ANOS A segunda parte do Apocalipse, o único livro profético do Novo Testamento, descreve a enorme devastação que o “dragão, a antiga serpente, satanás”, fez no planeta terra, depois de ser derrotado e expulso do céu pelo campeão da milícia divina, cujo nome simbólico é Mi-cha-el, o que quer dizer “Quem-como- Deus?” Lúcifer, o luzeiro da inteligência angélica, declarou a Deus “não te servirei”, e foi expulso do céu com seus partidários. Na terra, como refere Moisés no Gênesis, a mesma entidade, o mais inteligente dos seres vivos da terra, continuou a rebeldia contra o sopro de Deus. Houve uma grande luta no céu, diz o texto; naturalmente não num local, mas no espaço cósmico das entidades superiores em evolução, onde impera o livre- arbítrio. Houve uma luta no céu... Os livros sacros nada sabem de um museu celeste engendrado pela teologia clerical, onde as múmias beatíficas estejam eternamente congeladas na imóvel contemplação de Deus; o céu verdadeiro é uma humanidade em incessante evolução, como diz Paulo de Tarso: iremos de conhecimento em conhecimento, de glória em glória, de beatitude em beatitude. Não é a vida terrestre que, segundo o clero, determina o destino eterno do homem, mas sim o momento da morte: se o moribundo consegue ser absolvido por um padre, entra no museu celeste; do contrário, cai no museu infernal. E ambos os museus são a fossilização do livre-arbítrio, que, segundo a teologia, só existe na vida presente, mas perece na hora da morte; uma alma sem corpo físico é eternamente congelada no bem ou no mal – é esta a teologia infeliz que nos foi impingida na infância, e que muitos não conseguem superar na adultez. Céu e inferno são creações da creatura livre, e durarão enquanto quer a consciência da creatura. Naquela zona superior do Universo, chamada céu, já não havia ambiente para o rebelde, e foi lançado a uma zona inferior de evolução, cujos habitantes se achavam ainda numa mentalidade caótica entre o bem e o mal, na zona penumbral entre luz e as trevas, que é a nossa humanidade terrestre.
  • 46. Nesse lusco-fusco telúrico encontrou Lúcifer campo propício para suas atividades. Diz o texto do Apocalipse que os dons do dragão intelectual foram conferidos a uma animal que tinha sete cabeças, e dez chifres em cada uma, e em cada chifre havia uma coroa. Os chifres simbolizam a força, as coroas designam a soberania da inteligência do dragão. Mal recebera o animal os dons do dragão, quando começou a blasfemar contra Deus e a guerrear todos os povos. O animal-animal não blasfema nem guerreia, mas o animal-homem, quando apenas intelectualizado e ainda não espiritualizado, blasfema para cima e guerreia para todos os lados. O ego humano é anti-divino e anti-humano. A sua tarefa é destruir – e por isto é também auto-destruidor. João o discípulo amado, vislumbrou o conteúdo do seu Apocalipse na silenciosa solidão da ilha de Patmos, no mar Egeu, para onde fora desterrado pelo Imperador Trajano, quando tinha quase 100 anos de idade. Nessa imensa solidão perdeu João todo o centrifuguismo do mundo externo e focalizou-se exclusivamente no centripetismo do seu mundo interior. Despojou-se de todas as sucessividades ilusórias do passado e do futuro e revestiu-se da simultaneidade real do eterno presente, e assim, fora de tempo e espaço, ensimesmou-se no aqui e agora. E então contemplou ele o Universo no foco do Uno, sem as periferias do Verso. E todas antíteses da luta evolutiva do Devir se sintetizaram na grande realidade do Ser. Por isto, a luta no céu não lhe pareceu um paradoxo, porque compreendeu a síntese das antíteses à luz da eterna TESE. Aliás, essa visão cosmorâmica de João já se revelara no cenáculo, depois da última ceia. Quando o Mestre lhe revelou o segredo do traidor, João não se revoltou contra Judas; pois, se o Mestre sabia de tudo e não o impedia, porque devia o discípulo impedir a traição? Todas as antíteses culminam em síntese à luz da TESE. Na solidão de Patmos remontou João a mais longínqua transcendência, porque entrou na perfeita imanência. Para ele, a luta entre Lúcifer e Lógos era um aspecto necessário da evolução ascensional da creatura creadora. A misteriosa Apokatástasis, que dois séculos mais tarde, foi escrita por Orígenes de Alexandria, não lhe devia parecer nenhum paradoxo, como parece a nós, que soletramos o abc da sabedoria de Deus na escola primária da humanidade terrestre. O Apocalipse faz um jogo do paralelismo entre a velha Babilônia e a nova Jerusalém. A antiga torre de Babel era o símbolo do orgulho luciférico do
  • 47. homem, bem como da sua subsequente confusão e derrota. João apresenta Babilônia como a sede da luxúria e da idolatria, onde Lúcifer erigiu o seu trono e hasteou sua bandeira de rebeldia. Diz o texto que o animal que recebeu os dons do dragão era um misto de pantera, leão e urso. Mas, apesar da sua força, foi derrotado pelo Cordeiro, símbolo da não-violência. O dragão de fogo que está à espreita do filho duma mulher vestida de luz solar; e assim que ela deu à luz, o dragão quis devorar o filho dela, o qual foi arrebatado ao trono de Deus, enquanto a mulher voava em asas de águia para o deserto. Lúcifer devia estar lembrado das palavras dos Elohim, que haviam prometido pôr inimizade entre a serpente e o descendente da mulher; e devia estar apavorado com a visão de que o descendente da mulher esmagaria a cabeça da serpente. Quando a inteligência luciférica julga ter derrotado o seu adversário, verifica que foi derrotada pelo espírito dele. Lúcifer cumpre a sua missão opondo-se ao Lógos, porque esta resistência é necessária para a evolução das humanidades; mas esta missão não isenta Lúcifer da sua maldade. As creaturas dotadas de livre-arbítrio são indefinidamente realizáveis; a sua tarefa suprema é realizarem-se cada vez mais pela luta contra os obstáculos. Toda a creatura, queira ou não queira realizar os planos cósmicos, se realiza, ou então desrealiza a si mesma. O Creador está para além do bem e do mal das creaturas. A creatura pode derrotar-se a si mesma, mas não pode derrotar o Creador. Convém à creatura que realize os planos do Creador, realizando a sua própria felicidade. Mas ela é livre nesse pró ou contra. Os mil anos de prisão do dragão, de que fala o Apocalipse, e o triunfo do Cordeiro parecem insinuar que o poder do dragão será enfraquecido aqui na terra e que o Lógos estabelecerá o seu Reino entre os homens, durante esse longo período. Depois deste período, porém, o dragão será solto novamente, mas já não terá o mesmo poder de antes sobre os terrestres. Diz a sabedoria da Bhagavad Gita que o ego é o pior inimigo do Eu, mas que este é o melhor amigo daquele. Embora Lúcifer deva, por sua própria natureza, ser a antítese do Lógos, este contudo sendo de suprema sabedoria, pode levar Lúcifer a uma síntese de paz, a uma integração voluntária nos planos do Eu cósmico. O joio tem de ser joio no meio do trigo, enquanto este necessita da resistência daquele: “Não arranqueis o joio”. Mas, quando o trigo atingir elevado grau de maturidade, não necessita mais do joio: “Este será queimado”. O Apocalipse termina com uma visão gloriosa do Cordeiro: não haverá mais lágrimas nem sofrimentos, nem
  • 48. maldades – e o Reino de Deus será proclamado sobre a face da terra; haverá um novo céu para o Eu, e uma nova terra para o ego. Este triunfo final não é um céu estático e passivo, é um céu dinâmico e ativo, uma incessante jornada evolutiva do homem, já não desviável da linha reta do seu destino. Esta linha reta sem desvios nem zigue-zagues, é a fase avançada da Nova Humanidade, cuja jornada não coincidirá jamais com uma chegada, mas que eternamente se aproximará do Infinito – e esta jornada em linha reta é a vida eterna, que, segundo os livros sacros, terá por cenário também o planeta terra, que será o habitáculo da nova humanidade. A celeste Jerusalém será a nossa terra expurgada das profanações da velha humanidade, e onde se realizará aquilo que os Elohim haviam deslumbrado no princípio. *** Concretizando graficamente todo este drama multimilenar da evolução humana, poderíamos servi-nos do diagrama seguinte:
  • 49. Na parte inferior do desenho onde impera o ego adâmico do velho homem, toda a evolução é um labirinto de zigue-zagues, de desvios para a direita e para a esquerda, um caótico círculo vicioso. O príncipe deste mundo ainda tem poder sobre os homens, embora não lhes possa destruir o livre-arbítrio. Na medida que a evolução avança, diminuem os zigue-zagues; o ego adâmico decresce, e o Eu crístico cresce. Por fim terminam todos os desvios para a direita e para a esquerda, e a evolução humana entra numa linha reta de decisiva verticalidade, rumo ao seu destino. Esta verticalidade e retitude simbolizam a vida eterna, a reques aeterna, a felicidade dos auto-realizados, sempre ulteriormente realizáveis. A massa primitiva e seus guias cegos identificam a vida eterna e o eterno repouso com uma total passividade contemplativa, com uma espécie de aposentadoria celeste, em que o homem seria recompensado eternamente por uns cinquenta ou mais anos de vida terrestre. Como já lembramos, a vida eterna não é eterna passividade e inércia contemplativa – que seria antes morte eterna. A vida eterna é a ausência de zigue-zagues, de dúvidas, de incerteza, de vicissitudes desconcertantes – e é a presença da segurança, da certeza e serenidade dinâmica, nascidas da consciência do caminho certo. O ser em evolução é perfeitamente feliz quando tem a certeza absoluta da sua direção retilínea rumo ao Infinito, e não necessita de nenhuma chegada, de nenhuma coincidência do seu finito com o Infinito. Esta certeza da retitude de direção nada tem que ver com um Além; é a quintessência do próprio Aquém, quando este superou os fatigantes zigue-zagues do ego adâmico e entrou na repousante linha reta do Eu crístico. Esse início na linha reta do Eu crístico principia com a iniciação, e continua incessantemente na auto-realização, sempre ulteriormente realizável, numa gloriosa jornada sem fim, que está sempre no fim, por ser uma jornada em direção certa – e o viajor tem plena certeza dessa retitude, que é o seu eterno repouso e sua felicidade eterna. Projeção vertical da linha reta do gráfico acima indica uma auto-realização ilimitada da creatura creadora. Todas as antíteses da evolução culminam nesta síntese – rumo à grande TESE.
  • 50. LÚCIFER ENCONTRA-SE COM UM AVATAR Nas suas extensas divagações pelos mundos, encontrou-se Lúcifer, um dia, com um ser estranho. Aproximou-se dele e perguntou-lhe: – Quem és tu? Respondeu-lhe o desconhecido: – Eu não sou ninguém. Não tenho nome. Sou um anônimo. – Que estás fazendo aqui, anônimo? O estranho olhou longamente, em total silêncio, para Lúcifer. Finalmente, disse com certa solenidade: – Estou em demanda da plenitude. – Da plenitude? – Sim, da minha plenitude. – Ah! tu és um avatar... – Assim me chamam alguns. – A plenitude é o céu, não é? – Sim, o céu dentro de mim. Esse céu sempre propínquo e sempre longínquo... Dizendo isto, o avatar olhou para o horizonte distante onde um sol dourado mergulhava nas trevas. – E tu não estás no céu da tua plenitude? – Sim, estou no céu – e por isto o procuro cada vez mais. – Estranha filosofia – murmurou Lúcifer, sem ser ouvido. Depois perguntou em voz alta: – Se estás no céu, por que não gozas o teu céu? Se estás na plenitude, por que não bebes a tua doçura?
  • 51. – Eu estou no céu do meu gozo gozado, mas vou descer ao céu de um gozo sofrido... – Gozo gozado, gozo sofrido? – Sim, eu não estou na plenitude plena, mas plenificável. Não estou no termo da viagem, estou em plena jornada. – Não estás então na vida eterna? – Estou num viver sem fim, numa libertação indefinida, e por isso devo servir, descendo voluntariamente... – E por que queres descer? – Para me libertar ainda mais. – Sofrer, por quê? – Sofrer por amor. – Por amor de quem? – Por amor de mim mesmo. – E por que não sofrer por amor dos outros? – Quem não sofre por amor de si não pode sofrer por amor dos outros. – Mas isto não é amor-próprio? – É sim. Ninguém pode ter amor-alheio sem ter amor-próprio. Ninguém pode fazer bem aos outros sem ser bom em si mesmo. – Estranha filosofia... – A minha plenitude transborda em benefício dos outros. Se eu não for pleno em mim, não posso transbordar em benefício dos outros. – Para onde vais descer? – Vou descer ao nadir do Universo a fim de chegar ao zênite de mim mesmo. – Quer dizer que vais encarnar como um avatar por amor aos outros? – Por amor de mim, pelo bem dos outros. – Mas isto não é egoísmo? – Isto é auto-afirmação, auto-amor, auto-realização. Estou em demanda da minha plenitude.
  • 52. – Vais descer para te realizar? – Desço às baixadas para subir às alturas. Quanto mais desço por amor, tanto mais subo rumo à plenitude. Lúcifer permaneceu calado por muito tempo, pensando nessa paradoxal antidromia do avatar. E lembrava-se dos tempos longínquos em que ele fora expulso dos céus por ter bradado a Deus: “Não te servirei!”... E esse Ninguém, esse Anônimo, quer servir voluntariamente por amor. E a plenitude desse amor a si mesmo transbordará em benefício dos outros – que estranha filosofia!... Quando Lúcifer voltou a si das cogitações longínquas, não viu mais ninguém. O estranho anônimo descera às baixadas do Universo a fim de se realizar ulteriormente, o que ele chamava o céu sofrido. Foi prestar os mais humildes serviços as creaturas inferiores, sem esperar recompensa nem louvores nem admiração. Somente por amor. Por longo tempo andou Lúcifer pensando nesse misterioso amor-próprio, que não era egoísmo. Mas não conseguiu solver o enigma: amar a si mesmo por amor aos outros. Depois de terminar as suas divagações pelo cosmos, Lúcifer voltou ao planeta terra, que era o seu campo de atividade. Na terra encontrou milhões de creaturas que procuravam realizar o seu céu gozando os seus gozos. Ninguém entendia a estranha filosofia do avatar que queria plenificar-se por amor esvaziando-se voluntariamente dos gozos e plenificando-se de sofrimentos – por amor... Só uma única vez, em plena selva, encontrou um grupo de seres humanos que compreendiam e viviam a filosofia do Anônimo, do estranho Ninguém, que encontrara em outros mundos. Olhando atentamente para os componentes desse grupo, identificou Lúcifer o semblante do avatar, que varria o pátio da casinha modesta, e foi descascar e preparar legumes para a refeição dos colegas. Pouco a pouco, Lúcifer começou a sentir-se mal, a cada vez pior, nesse ambiente. Sentia-se como que asfixiado, com falta de ar... A frequência vibratória irradiada pelos habitantes desse lugar era insuportável para o poder das trevas. Quando essa sensação da mal-estar atingiu o clímax, Lúcifer fugiu desse inferno. Uma ventania violenta o arrojava para fora, e ele julgou ouvir nos uivos da ventania o grito estridente: não quero servir... não quero servir por amor... quero ser servido... quero ser adorado... Depois se fez profundo silêncio... E tudo em derredor estava envolto em trevas noturnas...
  • 53. UMA DERROTA EM PLENA VITÓRIA No início da Era Cristã, celebrou Lúcifer algumas das suas vitórias mais estupendas. Conseguiu que seu inimigo número um fosse condenado a uma morte vergonhosa pelas autoridades, civil e religiosa, e que esta condenação fosse forjada por um dos discípulos dele que com ele vivera três anos. Tanto mais gloriosa foi esta vitória porque, três anos antes, no deserto da Judéia, o Nazareno lhe dera ordem categórica de se pôr na retaguarda e servir e adorar em vez de ser servido e adorado. Mas o príncipe deste mundo conseguiu que seu inimigo número um fosse entregue à morte por ordem do representante do maior império do mundo, à insistência da mais poderosa organização religiosa da época. Na cidade da Tarso, capital da província romana da Cilícia, na Ásia Menor, vivia, um jovem judeu, da seita dos fariseus, que acompanhara preocupadamente as vitórias do profeta de Nazaré, que tinha o desplante de dizer ao povo da Palestina, referindo-se a Moisés: “Foi dito aos antigos – eu porém vos digo”... Sobrepunha a sua autoridade à do grande legislador de Israel. Esse jovem judeu de Tarso, chamado Saulo, ardia de impaciência por ir à Judéia e combater a arrogância do Nazareno – quando, um dia, ouviu que o arrogante profeta fora condenado à morte de Crucifixão. Saulo exultou de júbilo. Breve, porém, foi o seu júbilo, porque de Jerusalém lhe vinham rumores de que os discípulos do crucificado continuavam fanaticamente à rebeldia anti-mosáica do Mestre. Saulo partiu para Jerusalém a fim de debelar a arrogância dos discípulos do Nazareno. Chegado a Jerusalém, soube que o chefe dos nazarenos revoltosos era um tal Estevam. Com a aprovação dos chefes da Sinagoga, resolveu Saulo mandar apedrejar Estevam como blasfemo, segundo preceituava a lei de Moisés. Depois do apedrejamento de Estevam, ouviu Saulo que, em Damasco, capital da Síria, viviam numerosos adeptos do profeta de Nazaré, que divulgavam entusiasticamente a doutrina dele.