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Biologia do
Desenvolvimento
       QUINTA EDIÇÃO
Biologia do
Desenvolvimento
            QUINTA EDIÇÃO


         Scott F. Gilbert
                 Swarthmore College




           Tradução e Revisão

            Adolfo Max Rothschild
                Zuleika Rothschild
     Francisco A. de Moura Duarte
     Maria Helena Corrêa Marques
A capa
                                            FOTOGRAFIA DA CAPA: O mRNA para o Fator 8 de Crescimento
                                            Fibroblástico pode ser detectado pela hibridização in situ da montagem
                                            total usando RNA marcado quimicamente que é complementar a
                                            essa mensagem. No embrião de pinto de 3 dias, a mensagem do Fgf8
                                            é encontrada no ectoderma mais distal dos brotos dos membros, no
                                            limite entre o cérebro posterior e o cérebro intermediário, nos somitos,
                                            nos arcos branquiais do pescoço e na cauda em desenvolvimento. O
                                            FGF8 é importante para diversos processos desenvolvimentais e
                                            desempenha papéis críticos no crescimento dos membros e na
                                            padronização do desenvolvimento do cérebro. Capítulos 3, 7 e 18.
                                            (Fotografia cortesia de E. Laufer, C.-Y. Yeo e C. Tabin.)

                                            FOTOGRAFIA DA CONTRACAPA: Fotografia de um embrião de pinto
                                            de 20-21 dias nos estágios de “pipping” (bicando a casca internamente)
Do original: Developmental biology,         e pré-eclosão. Note o revestimento peridérmico proeminente na
  Fifth Edition                             extremidade do bico (dente do ovo), usado pelo pinto para fazer
Copyrigth ® 1997 by Sinauer Associates,
  Inc.                                      buracos na casca do ovo, a qual se tornou mais fina e mais quebradiça,
                                            como uma conseqüência da utilização de minerais pelo embrião para
Dados Internacionais de Catalogação na      seu crescimento esquelético. Esse estágio desenvolvimental marca a
   Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do livro, SP, Brasil)    transição do embrião em um pinto que respira ar. Capítulos 1 e 5.
 _____________________________________      (Fotografia do International Poultry Journal, cortesia de R. Tuan.)
Gilbert, Scott F., 1949-
Biologia do desenvolvimento /
    Scott F. Gilbert. --                    As páginas de título
5. ed. -- Ribeirão Preto, SP :
    FUNPEC Editora, 2003.                   PÁGINA ESQUERDA: A expressão gênica gera limites nos discos imagi-
Título original : Developmental biology     nais da Drosophila. Os discos grandes e pequenos dentro da larva da
Vários tradutores e revisores.              mosca formam as asas e os halteres, respectivamente, no adulto. Nes-
Bibliografia.                               se estágio, a proteína Apterous (vermelho) é expressa somente nos
ISBN 85-87528-61-0                          compartimentos dorsais; a proteína Cubitus interruptus (azul) mar-
                                            ca os compartimentos anteriores (mas não os posteriores) (uma linha
1. Biologia do desenvolvimento I. Título.
                                            formando esse limite pode ser observada). A coloração verde (origi-
03-4459                     CDD-571.8       nária da proteína Vestigial) no interior demarca o limite entre o mem-
 _____________________________________      bro livre e a articulação ligando-o à parede torácica. Capítulo 19. (Fo-
Índices para catálogo sitemático:           tografia cortesia de J. Williams, S. Paddock e S. Carroll.)
1. Bilogia do Desenvolvimento: Ciências
   da vida 571.8                            PÁGINA DIREITA: Expressão do gene paraxis no embrião de pinto no
                                            estágio de 6 somitos. Hibridização in situ da montagem total usando
Direitos para a língua portuguesa cedidos
   pela Sinauer Associates, Inc. para a     RNA marcado com “digoxygenin” complementar a uma porção da
   Fundação de Pesquisas Científicas de     mensagem paraxis do pinto mostra a expressão desse gene durante a
   Ribeirão Preto que se reserva a          formação do somito. A proteína Paraxis é importante no estabeleci-
   propriedade desta tradução.
                                            mento da estrutura desses grupos mesodérmicos. Capítulos 2 e 9.
Proibida a reprodução dos textos            (Montagem fotográfica cortesia de R. Tuan.)
   originais, mesmo parcial e por
   qualquer processo, sem autorização
   da editora.
Para Daniel, Sarah, e David
Tabela de Conteúdos




PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Introdução ao desenvolvimento                                   Genes e desenvolvimento:
animal 1                                                   1    Introdução e técnicas 35                                 2
O objetivo da biologia do desenvolvimento 1                     As origens embriológicas da teoria dos genes       35
Os problemas da biologia do desenvolvimento 2                        Núcleo ou Citoplasma: Qual Controla a
Os estágios do desenvolvimento animal 3                                 Hereditariedade? 35
Nossa herança eucariótica 5                                          O Cromossomo X como uma Ponte Entre Genes e
Desenvolvimento entre eucariotos unicelulares 6                         Desenvolvimento     37
     Controle da Morfogênese no Desenvolvimento em              A cisão entre a embriologia e a genética 38
         Acetabulária 6                                         Primeiras tentativas da genética do desenvolvimento     39
     Diferenciação em Ameboflagelados Naegleria 10              Evidência para a equivalência genômica 40
     As Origens da Reprodução Sexual 12                              Metaplasia 40
Eucariotos coloniais: A evolução da diferenciação     16             Clonagem de Anfibios: A Restrição da Potência
     As Volvocaceanas      16                                           Nuclear 42
     Informações adicionais & Especulações                           Clonagem de Anfíbios: A Pluripotência de Células
     Sexo e Individualidade em Volvox      18                           Somáticas 43
     Diferenciação e Morfogênese em Dictyostelium          21        Informações adicionais & Especulações
     Informações adicionais & Especulações                           Clonando Mamíferos por Prazer e Lucro              45
     Evidência e Anticorpos       25                            Sobre E.coli e elefantes: O modelo operon     47
     Informações adicionais & Especulações                      Síntese diferencial de RNA 49
     Como o Grex Sabe Qual Lado Está Para Cima             27   Hibridização de ácido nucléico         54
Padrões desenvolvimentais entre metazoários      28             Clonagem de DNA genômico 55
     Os Poríferos 29                                            Hibridização de DNA: entre e intra espécies        58
     Protostomatas e Deuterostomatas        30                  Seqüenciamento de DNA          59
                                                                Análise de mRNA através de bibliotecas de cDNA 61
                                                                Técnicas de localização de RNA 63
                                                                     Hibridização In Situ 63
                                                                     Transferências Northern 64
Tabela dos Conteúdos    vii


Encontrando mensagens raras pela reação da polimerase             Identificando moléculas de adesão celular e seu
        em cadeia 66                                                  papel no desenvolvimento 92
Determinando a função do gene: células e organismos               Caderinas 92
        transgênicos 69                                           CAMs da superfamília de imunoglobulinas 95
     Técnicas de inserção de DNA novo em uma célula 69       Moléculas da junção celular: proteínas da junção em
     Camundongos quiméricos 70                                       fenda 97
     Experimentos com genes com endereçamento                A base molecular da afinidade célula-substrato 99
         (Gene targeting ou Knockout) 70                          Afinidade diferencial a substrato 99
Determinando a função de uma mensagem: RNA antisense 73           A matriz extracelular 99
Reinvestigação de velhos problemas com novos métodos 73           Receptores celulares para moléculas da matriz
Uma conclusão e um alerta 75                                          extracelular 104
                                                                  Adesão diferencial resultante de sistemas de
Base celular da morfogênese:                                          adesão múltipla 106

Afinidade celular diferencial 79                        3    Moléculas de receptores e vias de transdução
                                                                     de sinais 107
                                                                  A via JAK-STAT 107
Afinidade celular diferencial   80                                A via RTK-Ras 108
     O modelo termodinâmico de interações celulares     84        Informações adicionais & Especulações
     Informações adicionais & Especulações                        Mutações negativas dominantes em receptores       110
     Evidência para o modelo termodinâmico            87
                                                                  A via do inositol fosfato 111
A base molecular das adesões célula-célula   88                   Cruzamentos entre vias 112
     As classes de moléculas de adesão celular        88          A matriz extracelular e a superfície da célula como
     Informações adicionais & Especulações                            fontes de sinais críticos para o
     Anticorpos monoclonais e genética reversa          89            desenvolvimento      112
Moléculas de adesão celular     92                                Interações recíprocas na superfície celular    113


PARTE II Padrões de Desenvolvimento
Fertilização: Iniciando um                                        Prevenção da Polispermia      140

novo organismo 121                                      4         Informações adicionais & Especulações
                                                                  A Ativação do Metabolismo dos Gametas
                                                             Ativação do metabolismo do óvulo       149
                                                                                                                    147

Estrutura dos gametas    121                                      Respostas precoces    149
     Espermatozóide      121                                      Respostas tardias 151
     O óvulo 125                                                  Fusão do material genético     152
Reconhecimento do óvulo e do espermatozóide: Ação à               Informações adicionais & Especulações
        distância 128                                             A Não-Equivalência dos Pronúcleos de
     Atração do Espermatozóide 128                                   Mamíferos 154
     Ativação Espermática: A Reação Acrossômica no           Rearranjo do citoplasma do óvulo       156
         Ouriço-do-Mar 129                                        Preparação para a Clivagem        158
     Informações adicionais & Especulações
     Ação à Distância: Gametas de Mamíferos           131
                                                             Clivagem: Criando
     Reconhecimento do óvulo e espermatozóide:
         Contato de gametas 132
     Reconhecimento Espécie-Específico em Ouriços-
                                                             multicelularidade 167                                  5
         do-Mar 132                                          PADRÕES DE CLIVAGEM EMBRIONÁRIA 168
     Ligação de Gametas e Reconhecimento em                  Clivagem holoblástica radial 169
         Mamíferos 135                                            A holotúria, Synapta    169
Fusão de gametas e a prevenção da polispermia     139             Ouriço-do-Mar 170
     Fusão entre as membranas do óvulo e do                       Anfíbios 173
        espermatozóide 139                                   Clivagem holoblástica espiral    175
viii   Tabela dos Conteúdos


       Informações adicionais & Especulações                        Mecanismos de gastrulação em aves            238
       Adaptação pela modificação da clivagem                  Gastrulação em mamíferos      242
           embrionária 178                                          Modificações para desenvolvimento dentro de
       Clivagem Holoblástica Bilateral 179                             outro organismo 242
Clivagem holoblástica rotacional      180                           Formação de membranas extra-embrionárias 245
       Compactação      181
       Informações adicionais & Especulações
                                                               Início do desenvolvimento vertebrado:
       A Superfície da Célula e o Mecanismo de
          Compactação 184
       Formação da massa celular interna 185
                                                               Neurulação e ectoderma 253
                                                               FORMAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL          254
                                                                                                                         7
       Fuga da Zona Pelúcida 185                               Neurulação: aspectos gerais 254
       Informações adicionais & Especulações                        Neurulação primária 255
       Gêmeos e células embrionárias precursoras        186         A mecânica da neurulação primária 257
Clivagem Meroblástica         188                                   A formação da placa neural 257
       Clivagem discoidal 189                                       Formação do assoalho da placa neural 258
       Clivagem Superficial 192                                     A modelagem e dobramento da placa neural 259
       Informações adicionais & Especulações                        Fechamento do tubo neural 260
       Exceções, Generalizações, e Clivagem                         Informações adicionais & Especulações
          Parasítica da Vespa 195                                   A modelagem dorsoventral do sistema nervoso 264
MECANISMO DE CLIVAGEM 196                                      Neurulação secundária 264
Regulando o ciclo da clivagem       196                        Diferenciação do tubo neural       265
       Fator promotor de maturação        197                       Formação das regiões do cérebro        265
       Informações adicionais & Especulações                        Informações adicionais & Especulações
       MPF e Seus Reguladores         198                           Determinando as regiões do cérebro anterior e
O mecanismo citoesquelético da mitose 201                               cérebro médio 268
A formação de novas membranas 203                                   Arquitetura de Tecido no Sistema Nervoso Central 270
                                                                    Organização do cerebelo 272
Gastrulação: Reorganizando as                                       Organização cerebral 274

células embrionárias 209                                 6     Tipos de neurônios 276
                                                               Desenvolvimento do olho em vertebrados        279
                                                                    Dinâmica do desenvolvimento ótico  279
Gastrulação em ouriço-do-mar        210
                                                                    Diferenciação da retina neural 280
       Ingresso do Mesênquima Primário 210
                                                                    Informações adicionais & Especulações
       Primeiro estágio da invaginação do arquêntero 215
                                                                    Porque os bebês não enxergam bem               282
       Segundo e terceiro estágios da invaginação do
                                                                    Diferenciação do cristalino e da córnea        283
           arquêntero 217
                                                               A CRISTA NEURAL 284
Gastrulação em peixes      218
                                                               A crista neural e seus derivados    284
       A transição da blástula intermediária e a aquisição
                                                               A crista neural do tronco 285
           de motilidade celular 218
                                                                    Vias de migração das células da crista neural do
       Formação das camadas germinais 220
                                                                        tronco 285
Gastrulação de anfíbios       221
                                                                    A matriz extracelular e a migração da crista neural
       Movimentos celulares durante a gastrulação de
                                                                        do tronco 287
           anfíbios 221
                                                                    Informações adicionais & Especulações
       Posicionando o blastóporo 224
                                                                    Análise das mutações que afetam o desenvolvi-
       Movimentos celulares e a construção do arquêntero 226
                                                                       mento das células da crista neural 290
       Migração do mesoderma involutivo 229
                                                               A potência do desenvolvimento das células da crista
       Informações adicionais & Especulações
                                                                        neural do tronco 291
       Reguladores moleculares do desenvolvimento:
                                                                    Diferenciação final das células da crista neural     292
       Fibronectinas e as vias da migração
                                                               A crista neural cefálica   293
       mesodérmica 230
                                                                    Vias migratórias das células da crista neural
       Epibolia do ectoderma 232
                                                                        cefálica 293
Gastrulação em aves      233
                                                                    Potência de desenvolvimento das células da crista
       Generalidades sobre gastrulação em aves        233
                                                                        neural cefálica 295
Tabela dos Conteúdos    ix


A crista neural cardíaca 296                                Início do desenvolvimento
A EPIDERME E A ORIGEM DAS ESTRUTURAS CUTÂNEAS        297
     A origem das células epidérmicas      297              vertebrado: Mesoderma e
     Apêndices cutâneos 299
Conclusões   300
                                                            endoderma 341                                         9
Especificidade axônica 307                            8     MESODERMA 341
                                                            Mesoderma dorsal: A notocorda e a diferenciação dos
                                                                   somitos 341
A geração da diversidade neuronial   307                         Mesoderma Paraxial 341
     Especificação do Neurônio Motor de Vertebrado    308        Somitômeros e a Iniciação da Formação do
     Especificação dos Neurônios Motores em                          Somito 343
        Drosophila 310                                           Geração de Tipos de Células Somíticas 344
Formação de padrões no sistema nervoso 312                       Miogênese: Diferenciação do Músculo
Seleção de trajetórias: Orientação pela matriz                       Esquelético 347
         extracelular 313                                        Informações adicionais & Especulações
     Orientação pelo Terreno Físico: Orientação por              Construção Muscular e a Família MyoD de
         Contato 313                                                Reguladores Transcricionais   349
     Orientação para Gradientes de Adesão:                       Osteogênese: O Desenvolvimento
         Haptotaxia 314                                             dos Ossos 351
     Condução por Sinais Migratórios específicos                 Informações adicionais & Especulações
         do Axônio: A Hipótese das Trajetórias                   Controle da Condrogênese na Placa de
         Marcadas 315                                               Crescimento 357
     Orientação pela Repulsão Específica de Cones de        Mesoderma da Placa Lateral     358
         Crescimento 317                                         Formação das Membranas
     Informações adicionais & Especulações                          Extra-Embrionárias 359
     Sexo,Odor e Adesão Específica         319                   O Coração 361
Seleção de trajetória: Orientação por moléculas                  Formação dos vasos sangüíneos         366
         difusíveis 320                                          Informações adicionais & Especulações
Sinais para condução múltipla 323                                Redirecionando o Fluxo Sangüíneo no
     Neurônios Motores Vertebrados      323                         Mamífero Recém-nascido 372
     Axônios da Retina 325                                  O Desenvolvimento de células sangüíneas     373
Seleções de alvos   326                                          O Conceito de Célula-tronco 373
     Especificidades Adesivas em Diferentes Regiões              Células-tronco Pluripotenciais e Microambientes
        do Tectum 328                                               Hematopoéticos 374
Seleção de endereço: Desenvolvimento dependente de               Desenvolvimento Osteoclástico     377
         atividade 331                                           Locais de Hematopoiese 378
Sobrevivência diferencial após a inervação: Fatores         ENDODERMA 380
         neurotróficos 331                                  Faringe 380
     Informações adicionais & Especulações                  O tubo digestivo e seus derivados    382
     Neurônios Fetais em Hospedeiros Adultos          334        Fígado, Pâncreas e Vesícula Biliar    382
O desenvolvimento de comportamentos: constância e                O Tubo Respiratório 383
        plasticidade 334
x   Tabela dos Conteúdos



PARTE III Mecanismo da Diferenciação Celular
Regulação transcricional da expressão                             Ruptura e reorganização de nucleossomos: o papel
                                                                     dos complexos de ruptura 436
gênica: Fatores de transcrição                                    Ruptura e reorganização de nucleossomos: o papel
e a ativação de promotores                                           da competição de histonas 437

específicos 391                                    10        Regiões de controle de loco: transcrição do gene da
                                                                      globina 437
                                                                  Informações adicionais & Especulações
Éxons e Íntrons 392                                               Trocas no gene de globina       440
Estrutura e função do promotor     394                       Metilação de DNA e atividade gênica     442
     Estrutura do promotor 396                                    Correlações entre metilação do promotor e
     Função do promotor 397                                          inatividade gênica 442
     Informações adicionais & Especulações                        Metilação e a manutenção dos padrões de
     RNA polimerase e os fatores trans-reguladores                   transcrição 443
       no promotor 399                                            Informações adicionais & Especulações
Estrutura e função dos intensificadores   402                     Metilação e impressão gênica       444
     Necessidade de intensificadores    402                  Compensação de dosagem do cromossomo X de
     Função do intensificador: Modelos temporais e                   mamíferos 446
        espaciais de transcrição 403                             Informações adicionais & Especulações
Fatores de transcrição: Os trans-reguladores dos                  O mecanismo de inativação do cromossomo X         449
         promotores e dos intensificadores 404               Associação do DNA ativo com a matriz nuclear      451
     Proteínas de homeodomínio 405                                Ligação da cromatina ativa a uma matriz nuclear 451
     Os fatores de transcrição POU 406                            Topoisomerases e a transcrição gênica 453
     Informações adicionais & Especulações                        Isoladores e domínios 454
     Regulação da transcrição dos genes de cadeia                 Resumo 455
         leve das imunoglobulinas 409
     Fatores de transcrição básicos do tipo hélice-alça-
         hélice 415                                          Controle do desenvolvimento pelo
     Informações adicionais & Especulações                   processamento e tradução
     Regulando as proteínas bHLH miogênicas:
         Governando a troca entre proliferação e
         diferenciação de células musculares 416
                                                             diferencial do RNA 461                            12
     Fatores de transcrição do zíper básico da leucina 416   CONTROLE DO DESENVOLVIMENTO PELO PROCESSAMENTO
     Informações adicionais & Especulações                            DIFERENCIAL DE RNA 461
     Armadilhas do intensificador: natural e                 Controle do desenvolvimento precoce pela seleção de
         experimental 418                                             RNA nuclear 462
     Fatores de Transcrição Dedo de Zinco 420                Os mecanismos de emenda de RNA: Spliceosomes 465
     Receptores Nucleares de Hormônios e Seus                Emenda alternativa do RNA: Criando proteínas
         Elementos Responsivos a Hormônios    420                     alternativas a partir do mesmo gene 466
Proteínas que dobram o DNA 423                                    Um gene, Muitas Proteínas Relacionadas 466
Ativação dependente de contexto ou silenciamento 423              Processamento Alternativo de RNA e
Regulação da atividade do fator de transcrição 425                   Determinação Sexual em Drosophila 468
                                                                  Uso Disseminado do Processamento de RNA para
                                                                     o Controle da Expressão Gênica 471
Regulação transcricional da                                  REGULAÇÃO DA TRADUÇÃO DOS PROCESSOS
expressão gênica: A ativação da                                       DESENVOLVIMENTAIS 471

cromatina 431                                      11        Mecanismos da tradução eucariótica 472
                                                             Controle da síntese protéica pela longevidade diferencial
                                                                      do mRNA 474
Nucleossomos e a ativação da cromatina reprimida      431         Degradação Seletiva de mRNAs          475
     Acessibilidade a fatores trans-reguladores     432      Controle da tradução de mensagens do oócito      476
     Sítios hipersensíveis à DNAase I     434
Tabela dos Conteúdos   xi


     Caracterização de RNAs Mensageiros                         Informações adicionais & Especulações
        Armazenados em Oócitos 477                              A Ativação do Genoma Embrionário           488
     Informações adicionais & Especulações                 Regulação dos genes da tradução em larvas e
     Determinando o Destino Celular por Meio do                    adultos 490
        mRNA Localizado do Oócito 480                           Determinação de Gametas em C. elegans 490
Mecanismos para a regulação da tradução das                     RNA Antisenso Natural 491
       mensagens dos oócitos 481                                “Disjuntores” do Controle da Tradução 492
     A Hipótese da Mensagem Materna Mascarada 482               Editoração do RNA 493
     A Hipótese da Cauda Poli(A) 483                       Controle da tradução e síntese protéica coordenada:
     A Hipótese da Eficiência da Tradução 486                       Produção de Hemoglobina 494
     Outros sistemas de ativação do mRNA: Mensagens        Epílogo: Regulação Pós-tradução 497
         sem “Cap” e Mensagens Seqüestradas 486


PARTE IV Especificação do Destino Celular e os
                            Eixos Embrionários
Especificação celular autônoma                             A genética da
por determinantes                                          especificação axial em
citoplasmáticos 505                              13        Drosophila 543                                      14
Comprometimento celular e diferenciação    505             Resumo do desenvolvimento de Drosophila 543
Pré-formação e epigênese 507                               AS ORIGENS DA POLARIDADE ÂNTERO-POSTERIOR 545
     Os Teratologistas Franceses    509                    Visão Panorâmica 545
Especificações autônomas em embriões de tunicados    510   Os genes de efeito materno 546
     O determinante formador de músculos do                     Evidência Embriológica da Regulação da
        crescente amarelo 511                                       Polaridade pelo Citoplasma do Oócito 546
     Especificação citoplasmática das linhagens                 O Modelo Molecular: Gradientes Protéicos no
        endodérmicas e epidérmicas e o eixo ântero-                 Embrião Precoce 547
        posterior 514                                           Informações adicionais & Especulações
Localização citoplasmática em embriões de moluscos 515          Modelos de Gradientes da Informação
     O lóbulo polar   517                                           Posicional 551
Especificação celular no nematódeo Caenorhabditis               Evidência que o Gradiente da Proteína Bicoid
         elegans 521                                                Constitui o Centro de Organização Anterior 552
     Controle maternal da identidade do blastômero: O           O Centro de Organização Posterior: Localizando e
        controle genético das células progenitoras                  Ativando o Produto de nanos 556
        faríngeas de C. elegans 524                             O Grupo Gene Terminal 557
     Regulação em C. elegans 527                           Os genes da segmentação    559
     Informações adicionais & Especulações                      Uma Visão Panorâmica 559
     “Ser ou Não Ser: Esse é o Fenótipo”       529              Os Genes de gap 561
Divisões celulares assimétricas no desenvolvimento              Os Genes pair-rule 563
         tardio 530                                             Os Genes de Polaridade Segmentar         565
Localização citoplasmática de determinantes de células     Os genes de Seleção homeótica     569
         germinativas 531                                       Padrões de Expressão dos Genes Homeóticos 569
     Determinação de células germinativas em                    Iniciando os Padrões da Expressão dos genes
         nematódeos 531                                              Homeóticos 572
     Determinação da célula germinativa em insetos   532        Mantendo os Padrões de Expressão dos genes
     Componentes do plasma polar da Drosophila       534             Homeóticos 572
     Determinação de células germinativas em                    Os Elementos Cis-Reguladores e o Complexo
         anfíbios 536                                                Bithorax 574
     Resumo    538
xii   Tabela dos Conteúdos


      Informações adicionais & Especulações                        Indução de especificidade mesodérmica ventral e
      Regulação Molecular do Desenvolvimento: As                       lateral 612
         Proteínas do Homeodomínio    576                     A criação da atividade do organizador      613
A GERAÇÃO DA POLARIDADE DORSOVENTRAL EM                            Proteínas secretadas do organizador         613
         DROSOPHILA 577                                            Informações adicionais & Especulações
A proteína Dorsal: Morfógeno para a polaridade                     BMP4 e a lagosta de Geoffroy 616
         dorsoventral 577                                          Fatores de transcrição induzidos no
      Translocação da Proteína Dorsal     577                          organizador 619
Provendo o sinal assimétrico para a translocação da                Informações adicionais & Especulações
        proteína Dorsal 578                                        Como o Organizador Neuraliza o
      Sinal do Núcleo do Oócito para as Células                      Ectoderma? 621
          Foliculares 578                                     A especificidade regional de indução      621
      Sinalização das Células Foliculares para o                   A determinação das diferenças regionais           621
          Citoplasma do Oócito 580                                 O modelo do duplo gradiente 623
      O Estabelecimento do Gradiente da Proteína                   Correlatos moleculares da caudalização
          Dorsal 581                                                  neural 624
PRIMÓRDIOS DE ÓRGÃOS E EIXOS 585                                   Informações adicionais & Especulações
O modelo de coordenadas cartesianas e a especificação              Sinais verticais e horizontais do
        dos primórdios dos órgãos 585                                 organizador 626
Resumo: Alguns princípios do desenvolvimento da                    Genes homeobox na especificação neural 628
        Drosophila 586                                        Competência e cascatas indutivas 628

Especificação do destino celular                              Estabelecimento dos eixos
por interações célula-célula                                  corporais em mamíferos
progressivas 591                                      15      e aves 635                                             16
Desenvolvimento regulativo 591                                Iniciando o eixo ântero-posterior   635
Testando a teoria do plasma germinativo      592                   Estabelecendo um Centro de Nieuwkoop 635
      August Weismann: A teoria do plasma                          Expressão Gênica em Tecidos Organizadores 636
          germinativo 592                                     Especificando o eixo ântero-posterior de mamífero: A
      Wilhelm Roux: Desenvolvimento em mosaico 593                     hipótese do código Hox 637
      Hans Driesch: Desenvolvimento Regulativo          594        Homologia dos Complexos de Genes Homeóticos
      Sven Hörstadius: Potência e gradientes em oócitos 597            entre Drosophila e Mamíferos 637
      Formação de um organismo integrado: Restringindo             Expressão de Genes Hox no Sistema Nervoso
          a potência das células vizinhas 598                          Central e seus Derivados 638
Regulação durante o desenvolvimento de anfíbios       600          Análise Experimental de um Código Hox: Gene
      Hans Spemann: Determinação progressiva das                       Alvo 640
         células embrionárias 600                                  Transformação Parcial de Segmentos por
      Hans Spemann e Hilde Mangold: Indução                            Eliminação de Genes Hox Expressos no
         embrionária primária 603                                      Tronco 642
O centro de Nieuwkoop      606                                     Análise Experimental do Código Hox: Teratogênese
      A formação do centro de Nieuwkoop e a polaridade                 do Ácido Retinóico 643
          mesodérmica 606                                          Evidência para um Código Hox da Anatomia
      A especificação da polaridade dorsoventral na                    Comparada 645
          fertilização 607                                         Informações adicionais & Especulações
A base molecular da indução mesodérmica         609                Animais como Variações sobre o Mesmo Tema
      Estabelecendo a regionalização dorsal: o possível               Desenvolvimental 646
          papel da β-catenina 609                             Eixos dorsoventral e esquerdo-direito em mamíferos e
      O funcionamento do centro de Nieuwkoop: funções                  aves 647
          para Vg1 e Noggin 610
Tabela dos Conteúdos   xiii



PARTE V Interações Celulares Durante a
                           Formação do Órgão
Interações proximais de tecidos:                                      de crescimento dos fibroblastos como

Indução secundária 655                               17               indutores do broto do membro 704
                                                                  Indução da crista ectodérmica apical 704
                                                             Produção do eixo próximo-distal dos membros       706
Interações instrutivas e permissivas    655                       A crista ectodérmica apical: O componente
Competência e receptores 656                                          ectodérmico 706
Fatores parácrinos 657                                            A zona progressiva: O componente mesodérmico 708
     Os Fatores de Crescimento Fibroblástico         658          Genes Hox e a especificação do eixo próximo-
     A família hedgehog 659                                           distal do membro 709
     A família Wnt 660                                            Interações entre a AER e a zona progressiva 711
     A superfamília TGF-ß 661                                     Mutações nas interações entre a zona progressiva
     Sinalização Justácrina 662                                       e a AER 711
Interações epitélio-mesênquima    663                             Informações adicionais & Especulações
     Especificidade Regional da Indução        663                A regeneração dos membros da salamandra e a
     Especificidade Genética da Indução        666                    retenção do eixo próximo-distal 714
Cascatas de indução embrionária: Indução do cristalino 667   Especificação do eixo ântero-posterior dos membros 716
     Os Fenômenos da Indução do Cristalino           667          A zona de atividade polarizante 716
     A Base Celular da Indução do Cristalino         668          Sonic hedgehog como definidor da ZPA 717
     Formação da Córnea 672                                       Interações entre a AER e a ZPA para integrar
Formação de órgãos parenquimatosos 672                                crescimento e padrão 718
     Morfogênese do Rim de Mamífero 673                           Especificando a ZPA 721
     Os Mecanismos da Organogênese Renal             676     A produção do eixo dorsoventral 721
     Informações adicionais & Especulações                   Distinguindo o membro anterior do membro posterior 722
     Diferenciação Coordenada e Morfogênese no                     Informações adicionais & Especulações
         Dente 682                                                Lições de limbless     724
Mecanismos de ramificação na formação de órgãos              Morte celular e a formação de dígitos 724
        parenquimatosos 683                                      Informações adicionais & Especulações
     A Matriz Extracelular como um Elemento Crítico               Evolução do membro tetrápode           726
         na Ramificação 684
     Fatores Parácrinos Efetuando Padrões de
         Ramificação 686                                     Interações celulares à distância:
Indução ao nível de uma única célula     687                 Hormônios como mediadores do
     Indução Vulvar no Nematóide Caenorhabditis
         elegans 690
     Informações adicionais & Especulações
                                                             desenvolvimento 733                                19
     Interações Célula-Célula e Possibilidade na             Metamorfose: o direcionamento hormonal do
         Determinação de Tipos Celulares 692                        desenvolvimento 733
                                                             Metamorfose anfíbia 734
                                                                  Controle hormonal da metamorfose de anfíbios 735
Desenvolvimento do membro
de tetrápode 701                                     18           Respostas Moleculares aos Hormônios da Tireóide
                                                                     Durante a Metamorfose 740
                                                                  Informações adicionais & Especulações
Padronização no membro 701                                        Heterocronia    743
Formação do broto do membro 702                              Metamorfose em insetos     746
     O campo do membro 702                                        Eversão e Diferenciação dos Discos Imaginais       746
     Especificação dos campos do membro: Genes                    Informações adicionais & Especulações
        Hox e ácido retinóico 703                                 A determinação dos discos imaginais da perna
     Crescimento do broto de membro precoce: fatores                 e da asa 750
                                                                  Remodelação do sistema nervoso 753
xiv   Tabela dos Conteúdos


Controle Hormonal da Metamorfose de Insetos    754        Hermafroditismo    795
      A biologia Molecular da Atividade da                     Hermafroditismo no Nematóide C. elegans           795
          Hidroxiecdisona 757                                  Hermafroditismo em Peixes 797
      Informações adicionais & Especulações               Determinação ambiental do sexo     798
      Controle ambiental sobre a forma e a função da           Determinação Sexual Dependente de Temperatura
         larva 761                                                em Reptéis 798
Interações hormonais múltiplas no desenvolvimento da           Determinação Sexual Dependente da Localização
         glândula mamária 762                                     em Bonellia viridis e Crepidula fornicata 799
      Estágio embrionário    762                          Resumo    800
      Adolescência 765
      Gravidez e lactação    765                          Regulação ambiental do
Determinação do sexo 773                          20      desenvolvimento animal 805                         21
                                                          REGULAÇÃO AMBIENTAL DO DESENVOLVIMENTO NORMAL            806
Determinação cromossômica do sexo em mamíferos 774
                                                          Sugestões ambientais usadas pelos organismos para
      Determinação Sexual Primária 774
                                                                   completar seus desenvolvimentos 806
      Determinação Secundária do Sexo 774
                                                               A colonização larval 806
      As Gônadas em Desenvolvimento    775
                                                               Refeições de sangue 808
Determinação sexual primária dos mamíferos: Genes
                                                               Simbiose no desenvolvimento       808
        cromossômicos Y para a determinação dos
                                                          Diferenças ambientais previsíveis como sugestões para o
        testículos 777
                                                                   desenvolvimento 810
      SRY: O Determinante Sexual do Cromossomo Y    778
                                                               Sazonalidade e sexo: Afídios e Volvox       810
Determinação sexual primária em mamíferos: Genes
                                                               Diapausa 812
        autossômicos na determinação de testículos 780
                                                          Plasticidade fenotípica: Polifenismo e regras de
      SOX9: Reversão Autossômica na Displasia
                                                                   reação 813
         Campomélica 780
                                                               Polifenismo sazonal em borboletas   814
      SF1: A Ligação Entre SRY e as Trajetórias
                                                               Polifenismo nutricional 816
         Desenvolvimentais Masculinas     780
                                                               Determinação sexual dependente do ambiente         817
Determinação sexual primária em mamíferos:
                                                          Fatores ambientais imprevisíveis controlando o
        Desenvolvimento ovariano 781
                                                                   desenvolvimento animal 818
      DAX1: Um Potencial Gene Determinante de Ovário
                                                               Defesas induzíveis contra a predação 819
         no Cromossomo X 781
                                                               Plasticidade fenotípica e mudanças no ambiente     820
      Wnt4a: Um Potencial Gene Determinante de
                                                               Informações adicionais & Especulações
         Ovário em um Autossomo 781
                                                               Assimilação Genética       821
Determinação sexual secundária em mamíferos    782
                                                          A contínua plasticidade do desenvolvimento     822
      Regulação Hormonal do Fenótipo Sexual       782
                                                               O sistema imune: Desenvolvimento no adulto 822
      Testosterona e Diidrotestosterona 783
                                                               Aprendizado: Um sistema nervoso adaptável ao
      Hormônio Anti-Mülleriano 784
                                                                   ambiente 823
      O Sistema Nervoso Central 785
                                                          DISTÚRBIOS AMBIENTAIS DO DESENVOLVIMENTO NORMAL          827
      Informações adicionais & Especulações
                                                          Malformações e distúrbios 827
      O Desenvolvimento de Comportamentos
                                                          Agentes teratogênicos 828
         Sexuais 787
                                                               Ácido retinóico como um teratogênico 829
Determinação sexual cromossômica em Drosophila 788
                                                               Talidomida como um teratogênico 830
      A Via do Desenvolvimento Sexual   788
                                                               Álcool como um teratogênico 833
      O Gene Sex-lethal como o Pivô para a
                                                               Outros agentes teratogênicos 835
         Determinação do Sexo 790
                                                               Informações adicionais & Especulações
      Os Genes transformer    793
                                                               Estrógenos Ambientais       836
      doublesex: O Gene Comutador da Determinação
                                                          Interações genética-ambiental    837
         Sexual 793
                                                          Resumo 837
      Genes-alvo para a Cascata de Determinação
         Sexual 794
Tabela dos Conteúdos   xv



A saga da linhagem                                    Mecanismos desenvolvimentais
germinativa 843                             22        da mudança evolucionária 883                     23
Migração das células germinativas   843               “Unidade de Tipo” e “Condições de Existência”        883
    Migração das Células Germinativas em                   A Síntese de Charles Darwin 883
       Anfíbios 843                                        E. B.Wilson e F. R. Lillie 885
    Migração das Células Germinativas em              A evolução do desenvolvimento precoce: E. Pluribis
       Mamíferos 844                                          Unum 885
    Informações adicionais & Especulações                  A emergência dos embriões 885
    Teratocarcinomas e Células-Tronco                      Formação de um Novo Filo: Modificando os
        Embrionárias 847                                      Caminhos do Desenvolvimento 887
    Migração de Células Germinativas em Aves e        Modularidade: O pré-requisito para mudança evolutiva
        Répteis 848                                           através do desenvolvimento 891
    Migração de Células Germinativas Primordiais em        Modularidade 891
        Drosophila 849                                     Dissociação: Heterocronia e Alometria     891
Meiose 850                                                 Duplicação e Divergência 893
    Informações adicionais & Especulações                  Co-opção 894
    Grandes Decisões: Mitose ou Meiose?                    Progressão correlacionada 896
       Espermatozóide ou Óvulo? 853                   Restrições ao desenvolvimento    898
Espermatogênese   855                                      Restrições Físicas   898
    Espermiogênese      857                                Restrições Morfogenéticas   898
    Informações adicionais & Especulações                  Restrições Filéticas  899
    Expressão Gênica Durante o Desenvolvimento             Evolução Conjunta do Ligante e Receptor:
       do Espermatozóide 858                                  Isolamento Reprodutivo 901
Oogênese   860                                        O mecanismo genético do desenvolvimento da
    Meiose oogênica 860                                       mudança evolucionária: Genes reguladores
    Maturação do Oócito em Anfibios 861                       homólogos 902
    Conclusão da meiose: Progesterona e                    Pax6 e o desenvolvimento do olho 902
        Fecundação 864                                     BMP4 e a Morfogênese dos Membros 904
    Transcrição Gênica em Oócitos   865                    Genes Hox e a Evolução dos Vertebrados 905
    Oogênese Meroística em Insetos    867                  Genes Hox e a Evolução dos Artrópodes 907
    Informações adicionais & Especulações                  Caminhos homólogos do desenvolvimento 909
    A Origem dos Eixos Embrionários de                Criando novos tipos de células: O mistério evolucionário
       Drosophila Durante a Oogênese 869                      básico 911
    Oogênese em Mamíferos 870                         Uma nova síntese evolucionária 912
    Informações adicionais & Especulações
    O Reinício da Meiose nos Oócitos de               Fontes Para as Citações das Aberturas
       Mamíferos 875
                                                      dos Capítulos C-1
                                                      Índice de Autores IA-1
                                                      Índice de Assuntos IA-2
                                                      Índice de Abreviaturas IA-3
Prefácio


           O         s últimos anos do século 20 encontram a biologia do desenvolvi-
                     mento retornando à posição que ela ocupou no início do século: a
                     disciplina que unifica os estudos da hereditariedade, evolução e
           fisiologia. Em 1896, a primeira edição de B. Wilson do The Cell in Development
           and Inheritance anunciou “a verdade maravilhosa que uma única célula pode
           conter em seu interior sua extensão microscópica da soma-total da herança
           das espécies.” Hoje, a biologia do desenvolvimento está na vanguarda desse
           estudo de nossa herança natural. Nos seus aspectos moleculares, ela toca a
           química física na sua investigação dos mecanismos bioquímicos pelos quais
           proteínas diferentes são produzidas em células diferentes do mesmo geno-
           ma. Ela também está na liderança dos estudos evolucionários que procuram
           entender como mudanças macroevolucionárias ocorreram. Ela abriu recen-
           temente uma área nova da biologia do desenvolvimento ecológico, onde mu-
           danças ambientais são vistas criando alterações no desenvolvimento do
           organismo. Durante os últimos 3 anos, a biologia do desenvolvimento tam-
           bém expandiu para a medicina, fundindo-se com a genética clínica para criar
           uma ciência revitalizada da embriologia humana, uma ciência que já se
           tornou importante na explanação das malformações congênitas.
                 A quinta edição do Biologia do Desenvolvimento foi revisada e reescrita
           para refletir essas revoluções que estão acontecendo. Aconteceram quatro
           mudanças importantes na estrutura do livro desde sua última edição. Pri-
           meiro, tornou-se impossível discutir os princípios fundamentais da em-
           briologia sem o conhecimento da atividade gênica ou vias da transdução de sinais.
           Portanto, essa informação foi trazida dentro da seção introdutória do livro
           de modo que interações celulares, tais como fertilização e indução, podem
           ser apreciadas tanto no âmbito molecular quanto no morfológico.
                 Segundo, novo interesse nos efeitos do ambiente no desenvolvimento
           normal e anormal conduziu a um novo capítulo. O Capítulo 21, “Regulação
           Ambiental do Desenvolvimento Animal,” diz respeito às vias pelas quais o
           meio ambiente afeta o fenótipo do organismo. Interesse na proteção ambiental
           e em controvérsias envolvendo a possibilidade de poluentes teratogênicos
           forçaram uma nova percepção das influências que o meio ambiente repre-
           senta no desenvolvimento normal e anormal. Na verdade, os biologistas do
           desenvolvimento podem rapidamente encontrar-se à frente dos movimen-
           tos da conservação ecológica. As primeiras quatro edições deste livro bus-
           caram integrar abordagens molecular, celular e orgânica à biologia do de-
           senvolvimento; esta edição adiciona a dimensão ecológica.
                 Terceiro, esta edição introduz novas ênfases nos papéis dos fatores
           parácrinos no desenvolvimento. Não somente os estudos da transdução
           de sinais estão colocados na seção introdutória deste livro, como a Parte V
Prefácio   xvii


da Quinta Edição inicia com uma visão geral das famílias do fator de cres-
cimento fibroblástico, TGF-β, Wnt e Hedgehog dos fatores de crescimento
e diferenciação.
      Quarto, este livro está conectado a um website onde estudantes e pro-
fessores podem encontrar mais material em muitos tópicos selecionados.
Tal material inclui (1) detalhes de experimentos que são extremamente
especializados para serem colocados no texto, (2) informação histórica so-
bre áreas particulares da biologia do desenvolvimento e personalidades
envolvidas, (3) implicações médicas de fenômenos particulares do desen-
volvimento, (4) debates ou comentários em questões relevantes para o cam-
po, e (5) atualizações do material do texto nessa área da biologia de cresci-
mento cada vez mais rápido. Filmes e entrevistas gravadas estão incluídas
e esses artigos de destaque poderão ser expandidos à medida que a tecnologia
os tornar mais fáceis para serem usados. Esse website está conectado tam-
bém a outros websites e podem ser usados para enriquecer a perspectiva de
alguém sobre o que está acontecendo no desenvolvimento animal. A presen-
ça de um website nos permite manter o direcionamento deste livro às pesso-
as para as quais isso foi originalmente pretendido: estudantes dos últimos
anos da graduação e do início da pós-graduação. Ele também me ajudou a
não deixar o livro tornar-se um substituto para peso de papel.
      A visão de Roux foi que a biologia do desenvolvimento “algum dia cons-
tituiria a base de todas as outras disciplinas biológicas e, em continuada
simbiose com essas disciplinas, desempenharia uma parte proeminente nas
soluções dos problemas da vida.” Essas foram palavras audaciosas, até mes-
mo arrogantes há cem anos atrás; hoje, elas expressam uma aceitação ampla-
mente sustentada. O desenvolvimento integra todas as áreas da biologia e
desempenha um papel crucial em relacionar o genótipo ao fenótipo. O desen-
volvimento pode ser estudado usando qualquer organismo e em qualquer
nível de organização, de moléculas a filos.
      À medida que o campo continuar a se expandir e se aprofundar , uma
palavra de advertência é requerida: a biologia do desenvolvimento não pode
ser aprendida ou ensinada em um único semestre. Este texto é uma tentati-
va para prover cada pessoa com material suficiente para seu curso, mas um
instrutor não necessita se sentir culpado por não determinar todos os capí-
tulos, e os estudantes não necessitam se sentir privados se eles não lerem
todos os capítulos. Isto é o começo do caminho, não sua conclusão.

Como usar o website
      Qualquer pessoa pode entrar no website através de sua homepage
[http://zygote.swarthmore.edu/index.html] ou através da sua lista de ar-
quivos de capítulos localizada no [http://zygote.swarthmore.edu/info.html].
Alternativamente, nós colocamos acessos específicos endereçados em todo
o livro onde quer que exista uma entrada relevante no momento da publica-
ção. Todos esses endereços começam com [http://zygote.swarthmore.edu/]
e são seguidos por um código dado no livro texto. Assim, a localização
especificada na página 20 do livro é:

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ser acessadas entrando nos arquivos do capítulo. Em adição, clicando no
botão “Outros Arquivos” abaixo de cada capítulo, as conexões para outros
websites serão facilitadas. Divirta-se.
xviii   Prefácio



                   Agradecimentos
                   Esta edição, como suas precursoras, deve muito às sugestões e críticas dos
                   estudantes em minhas classes de biologia do desenvolvimento e genética
                   do desenvolvimento. O grupo de funcionários e docentes extremamente
                   corporativo da Universidade Swarthmore também desempenharam pa-
                   péis importantes na produção deste livro, e os bibliotecários da área de
                   ciência E. Horikawa e M. Spencer merecem agradecimentos especiais por
                   terem segurado volumes recentes na biblioteca enquanto eu estava escre-
                   vendo o livro. Os cientistas que revisaram estes capítulos forneceram enor-
                   me ajuda tanto na precisão técnica dos capítulos quanto nas sugestões
                   para trabalho futuro. Esses investigadores incluem: S. Carroll, J. Cebra-
                   Thomas, E. M. De Robertis, S. DiNardo, E. Eicher, C. Emerson, G. Grunwald,
                   D. J. Grunwald, M. Hollyday, L. A. Jaffe, W. Katz, R. Keller, K. Kemphues, D.
                   Kirk, G. Martin, H. F. Nijhout, D. Page, R. Raff, R. Schultz, C. Stern, S.
                   Tilghman, R. Tuan e M. Wickens. Eu também quero agradecer aos muitos
                   cientistas que desviaram do seu caminho para ajudar a tornar esta edição
                   melhor lendo porções específicas dos capítulos. Eles incluem: M. Bronner-
                   Fraser, J. Fallon, N. M. Le Douarin, E. McCloud, J. Opitz, K. Sainio, H. Sariola,
                   I. Thesleff e T. Valente. Se eu deixei alguém fora, por favor me desculpem. É
                   desnecessário dizer que os julgamentos editoriais finais foram de minha
                   responsabilidade. Meus agradecimentos especiais a Judy Cebra-Thomas
                   que não somente me aconselhou em certos capítulos mas quem deu exce-
                   lente ajuda durante meu período sabático permitindo-me terminar este
                   livro. Agradecimentos também aos cientistas e filósofos, especialmente: C.
                   van der Weele, R. Amundson, L. Nyhart, R. Burian, H. F. Nijhout, A. F.
                   Sterling, K. Smith e A. I. Tauber, que participaram nos workshops de biolo-
                   gia do desenvolvimento da Sociedade Internacional para a História, Filo-
                   sofia e Estudos Sociais da Biologia. Algumas das melhores críticas cons-
                   trutivas deste livro-texto vieram dessas pessoas.
                          Andy Sinauer uma vez mais conseguiu reunir as mesmas e extraor-
                   dinárias pessoas neste projeto, e foi um privilégio trabalhar com eles. Meus
                   agradecimentos a ele e aos editores Nan Sinauer e Carol Wigg, coordenador
                   de produção Chris Small, artistas John Woolsey e Gary Welch, designer
                   Susan Schmidler, editor de texto Janet Greenblatt, e artista de layout Janice
                   Holabird. As habilidades editoriais de Tinsley Davis são extremamente re-
                   conhecidas. Devido ao fato de que os prazos finais devem ser cumpridos e
                   outro trabalho posto de lado, eu tenho que agradecer minha família por
                   mais uma vez me permitir prosseguir com isso. Em particular, este livro
                   nunca poderia ter sido completado se não fosse pelo encorajamento de mi-
                   nha esposa, Anne Raunio, que, como uma obstetra, gosta do lado mais prá-
                   tico da biologia do desenvolvimento. Meus agradecimentos a todos vocês.

                                                                   SCOTT F. GILBERT
                                                                   1 DE MARÇO DE 1997
Introdução à Biologia
do Desenvolvimento
  1 Introdução ao desenvolvimento animal     1
    2 Genes e desenvolvimento: Introdução e técnicas    35
      3 Base celular da morfogênese: Afinidade celular diferencial   79
                                                                          I
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal               1




Introdução ao desenvolvimento animal
                                                                                                                         1
                                              O
A natureza parece nunca mudar, ainda que               CONCEITO DE EMBRIÃO é assombroso, e a formação de um embrião é a
sua aparência esteja sempre mudando. É                  tarefa mais árdua que alguém haverá de realizar. Para se tornar um embrião,
nosso dever como artistas transmitir junta-             você teve que construir a si mesmo a partir de uma única célula. Teve que
mente com todos os seus elementos a emo-      respirar antes que tivesse pulmões, digerir alimentos antes que seus órgãos estives-
ção dessa permanente transformação.
                                              sem formados, construir ossos a partir de uma massa e ordenar os neurônios antes
Paul Cezanne (ca. 1900)
                                              mesmo de adquirir a capacidade de pensar. Uma diferença marcante entre você e a
                                              máquina é que a máquina nunca é requisitada para uma função antes que esteja
Feliz é a pessoa que consegue discernir as
causas das coisas.                            terminada. Todo animal tem que estar em funcionamento enquanto se auto-constrói.
Virgílio (37 A.C.)
                                              O objetivo da biologia do desenvolvimento
                                              Para plantas e animais, o único caminho para o desenvolvimento a partir de uma célula,
                                              é desenvolvendo um embrião. O embrião é o intermediário entre o genótipo e o fenótipo,
                                              ou seja, entre os genes herdados e o organismo adulto. Enquanto a maior parte da
                                              biologia estuda a estrutura adulta e função, a biologia do desenvolvimento encontra
                                              maior interesse nos estágios mais transitórios. Biologia do desenvolvimento é a ciên-
                                              cia do vir a ser, a ciência do processo. Dizer que um inseto efêmero vive apenas um dia
                                              não significa nada para um biologista do desenvolvimento, porque o inseto pode ser
                                              adulto apenas por um dia, mas passou outros 364 dias como um embrião e larva.
                                                  As questões levantadas por um biologista do desenvolvimento são freqüente-
                                              mente questões mais ligadas ao vir a ser do que ao ser propriamente dito. Dizer que
                                              mamíferos XX são geralmente fêmeas e mamíferos XY são geralmente machos, não
                                              explica a determinação sexual para um biologista do desenvolvimento. Esse quer sa-
                                              ber como o genótipo XX produz um ser feminino e como o genótipo XY produz um ser
                                              masculino. Da mesma maneira, um geneticista gostaria de saber como os genes globina
                                              são transmitidos de uma geração à outra, e um fisiologista pode fazer perguntas sobre
                                              a função da globina no corpo. Porém, o biologista do desenvolvimento pergunta
                                              porque os genes globina se expressam somente nas hemácias e como essas se tornam
                                              ativas apenas em certas fases do desenvolvimento (ainda não sabemos as respostas).
                                                  Biologia do desenvolvimento é uma ciência excelente para pessoas que querem
                                              integrar diferentes níveis da biologia. Diante de um problema, podemos estudá-lo a

                                                                                                                                   1
2   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                      níveis molecular e químico (p. ex., Como os genes globina são transcritos, e como os
                                      fatores que ativam sua transcrição interagem uns com os outros e com o DNA?), a níveis
                                      celular e tissular (p. ex., Quais são as células capazes de produzir globina, e como o
                                      mRNA da globina deixa o núcleo?), a nível de órgãos ou sistema de órgãos (p. ex., Como
                                      vasos capilares são formados em cada tecido, e como são instruídos a se conectarem e
                                      ramificarem?) e, até mesmo, a níveis ecológicos e evolucionários (p. ex., Como diferenças
                                      na ativação do gene globina permitem o fluxo de oxigênio da mãe para o feto, e como
                                      fatores ambientais acionam a diferenciação de mais hemácias?). Biologistas do desen-
                                      volvimento podem estudar qualquer organismo e todo tipo de célula.
                                          Biologia do desenvolvimento é um dos campos que mais tem crescido e também
                                      um dos mais emocionantes da biologia. Parte dessa emoção vem dos assuntos estu-
                                      dados, porque estamos apenas começando a entender o mecanismo molecular do
                                      desenvolvimento animal. Outra parte da emoção vem do papel unificador que a biolo-
                                      gia do desenvolvimento assume nas ciências biológicas. A biologia do desenvolvi-
                                      mento está criando uma estrutura que integra a biologia molecular, fisiologia, biologia
                                      celular, anatomia, pesquisa do câncer, neurobiologia, imunologia, ecologia, e biologia
                                      evolucionária. O estudo do desenvolvimento tornou-se essencial para a compreensão
                                      de qualquer área da biologia.

                                      Os problemas da biologia do desenvolvimento
                                      O desenvolvimento é realizado por duas funções principais: gera diversidade e ordem
                                      celular dentro de cada geração, o que assegura a continuidade da vida que passa de
                                      uma geração à outra. Assim, existem duas questões fundamentais para a biologia do
                                      desenvolvimento: Como um ovo fertilizado origina um ser adulto, e como esse ser
                                      adulto produz um outro ser? Cada espécie tem suas próprias respostas, mas algumas
                                      generalizações podem ser feitas. Tradicionalmente, essas questões têm sido subdivi-
                                      didas em quatro problemas gerais da biologia do desenvolvimento:
                                         • O problema da diferenciação. Uma única célula, o ovo fertilizado, se desen-
                                             volve e gera centenas de células de diferentes tipos - células musculares,
                                             células epidérmicas, neurônios, linfócitos, células do sangue, células gorduro-
                                             sas, e assim por diante. Essa geração de diversidade celular é chamada diferen-
                                             ciação. Desde que cada célula do corpo contém o mesmo conjunto de genes,
                                             precisamos entender como esse mesmo conjunto de instruções genéticas pode
                                             produzir diferentes tipos de células.
                                         • O problema da morfogênese. Nossas células diferenciadas não são distribuí-
                                             das aleatoriamente; pelo contrário, são organizadas em intrincados tecidos e
                                             órgãos. Esses órgãos estão dispostos de tal maneira que: dedos estão nas
                                             pontas e não no meio de nossas mãos, os olhos estão na nossa cabeça e não
                                             nos pés ou intestinos. Essa criação de forma ordenada, é chamada morfogêne-
                                             se. Como as células se auto-organizam e formam um arranjo correto?
                                         • O problema do crescimento. Somos maiores do que um ovo, mas como as
                                             células sabem quando devem parar de se dividir? Se cada célula de nossa face
                                             realizasse mais uma divisão celular, seríamos considerados horrivelmente mal
                                             formados. Se cada célula de nossos braços tivesse realizado apenas mais uma
                                             série de divisões, poderíamos amarrar nossos sapatos sem nos abaixar.
                                         • O problema da reprodução. O espermatozóide e o óvulo são células muito
                                             especializadas. Somente eles podem transmitir instruções para produzir um
                                             organismo de uma geração para outra. Como essas células são separadas para
                                             formar a próxima geração, e quais as informações no núcleo e no citoplasma
                                             que permitem tal funcionamento?
                                      Recentemente, tem-se dado grande ênfase a um quinto problema:
                                         • O problema da evolução. A evolução envolve mudanças herdadas durante o
                                             desenvolvimento. Quando dizemos que o cavalo de um dedo só de hoje, teve
                                             um ancestral de cinco dedos, estamos dizendo que mudanças no desenvolvi-
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal   3


       mento da cartilagem e dos músculos ocorreram ao longo de muitas gerações de
       embriões nos ancestrais do cavalo. Como mudanças no desenvolvimento cri-
       am novas formas de corpo? Quais modificações hereditárias são possíveis,
       dadas as restrições impostas pela necessidade do organismo sobreviver en-
       quanto se desenvolve?

Os estágios do desenvolvimento animal
De acordo com Aristóteles, o primeiro grande embriologista da história, a ciência
começa com a curiosidade: “é graças a curiosidade que as pessoas começaram a
filosofar, e a curiosidade permanece desde o início do conhecimento.” O desenvolvi-
mento de um ser a partir do ovo tem sido motivo de admiração através da história da
humanidade. O simples procedimento de se abrir um ovo de galinha a cada dia do seu
período de incubação de três semanas proporciona uma notável experiência quando
se observa desde uma fina camada de células até o total desenvolvimento da ave.
Aristóteles realizou esse procedimento e observou a formação dos principais órgãos.
Qualquer um pode se admirar com esse fenômeno, ainda que ordinário, mas cientistas
são os que procuram descobrir como o desenvolvimento realmente ocorre. E ainda
mais do que dissipar essa admiração, novo conhecimento só faz aumentá-la.
    Organismos pluricelulares não se formam de imediato, ao contrário, são formados
por um processo relativamente lento de mudança progressiva, o qual chamamos de
desenvolvimento. Em quase todos os casos, o desenvolvimento de um organismo
pluricelular começa com uma única célula - ovo fertilizado ou zigoto, que dividido
através da mitose, produz todas as células do corpo. O estudo do desenvolvimento
animal tem sido tradicionalmente chamado de embriologia, se referindo ao fato de que
entre a fertilização e o nascimento, o organismo em desenvolvimento é conhecido
como embrião. Mas o desenvolvimento não cessa no nascimento, ou mesmo na vida
adulta, porque a maioria dos organismos nunca pára de se desenvolver. A cada dia nós
repomos mais de um grama de células de pele (fazendo com que as células mais velhas
se desprendam assim que nos movemos), e nossa medula óssea sustenta o desenvol-
vimento de milhões de novos eritrócitos a cada minuto de nossas vidas. Portanto, nos
últimos anos tem sido comum se falar em biologia do desenvolvimento, como a discipli-
na que estuda processos embrionários e outros do desenvolvimento.
    As principais características do desenvolvimento animal estão ilustrados na Figu-
ra 1.1. A vida de um novo indivíduo é iniciada pela fusão do material genético de dois
gametas, o espermatozóide e o óvulo. Essa fusão, chamada fertilização, estimula o
ovo a iniciar o desenvolvimento. Os estágios subseqüentes do desenvolvimento são
coletivamente chamados de embriogênese. Por todo reino animal existe uma incrível
variedade de tipos embrionários, mas a maioria dos padrões de embriogênese compre-
ende variações em quatro temas:

   1. Ocorrência de clivagem imediatamente após a fertilização. Clivagem é uma
      série de divisões mitóticas extremamente rápidas, onde o enorme volume cito-
      plasmático do zigoto é dividido em numerosas células menores. Essas células
      são chamadas blastômeros e, ao fim da clivagem, eles geralmente formam uma
      esfera conhecida como blástula.
   2. Após a redução na taxa de divisão mitótica, os blastômeros passam por
      mudanças dramáticas quanto às suas posições, um em relação ao outro. Essa
      série de redistribuição de células é chamada de gastrulação. Como resultado
      da gastrulação, o embrião típico contém três regiões celulares chamadas
      camadas germinativas*. O ectoderma, a camada exterior, produz as células
      da epiderme e do sistema nervoso; o endoderma, camada interior, produz o
    *Do Latim germen, significa “broto” ou “rebento” (a mesma raiz da palavra germinação). Os
nomes das três camadas germinativas são do Grego: ectoderma de ektos (“fora”) mais derma
(“pele”); mesoderma de mesos (“meio”) e endoderma de endon (“dentro”).
4    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




                                          Esperma-
                                          tozóide
                                                                      Mórula
                                                                                       Blástula
                                                      Oócito           Local das células
                                                                       embrionárias
                                             Célula germinativa
                                             (“Germ plasm”)
                 Esperma-                                                                  Blastocele
                  tozóide
                  (gameta                Oócito
                masculino)               (gameta
                                         feminino)
                                 GAMETOGÊNESE
                                       Adulto
                                       sexualmente maduro
                                                                                                                     Blastóporo
                                                                                                         Ectoderma
                             Gônada
                                                                                                  Mesoderma

                                      Estágios
                                                                                                   Endoderma
                                      larvais
                                      imaturos




                               INCUBAÇÃO (NASCIMENTO)




Figura 1.1
Histórico do desenvolvimento de um repre-
sentante animal, um sapo. Estágios que vão
da fertilização até o nascimento são coletiva-
mente conhecidos como embriogênese. As
regiões responsáveis por produzir células em-
brionárias são mostradas em cores. Gameto-
gênese, que é completa no adulto sexualmen-
te maduro, começa em épocas diferentes, de-
pendendo da espécie.                                       revestimento do tubo digestivo e órgãos associados (pâncreas, fígado, pul-
                                                           mões, etc.); e o mesoderma, camada do meio, dá origem a diversos órgãos
                                                           (coração, rins, gônadas), tecidos conjuntivos (ossos, músculos, tendões, va-
                                                           sos sangüíneos) e células sangüíneas.
                                                        3. Uma vez que as três camadas embrionárias estão estabelecidas, as células
                                                           interagem umas com as outras e se reorganizam para produzir tecidos e órgãos.
                                                           Esse processo é chamado organogênese. (Nos vertebrados, a organogênese é
                                                           iniciada quando uma série de interações celulares induzem as células ectodér-
                                                           micas da porção mediana do dorso a formar o tubo neural. Esse tubo originará
                                                           o cérebro e a coluna vertebral). Muitos órgãos contêm células de mais de uma
                                                           camada embrionária, e não é incomum o exterior de um órgão ser derivado de
                                                           uma determinada camada e o interior de outra. Também durante a organogênese,
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal   5


      algumas células sofrem longas migrações do seu lugar de origem até sua loca-
      lização final. Essas células migrantes incluem os precursores das células san-
      güíneas, células linfáticas, células pigmentadas e gametas. A maior parte dos
      ossos de nossa face são provenientes de células que migraram ventralmente
      da região dorsal da nossa cabeça.
   4. Como observado na Figura 1.1, em muitas espécies, uma parte especializada
      do citoplasma do ovo dá origem às células que são precursoras dos gametas.
      Essas células são chamadas de células germinativas, sendo destinadas à
      função reprodutiva. Todas as outras células do corpo são chamadas células
      somáticas. Essa separação entre células somáticas (que dão origem a um
      corpo individual) e células germinativas (que contribuem para a formação de
      uma nova geração) é freqüentemente uma das primeiras diferenciações que
      ocorrem durante o desenvolvimento animal. As células germinativas final-
      mente migram para as gônadas, onde se diferenciam em gametas. O desen-
      volvimento de gametas, chamado de gametogênese, normalmente não é com-
      pletado até que o organismo tenha se tornado fisicamente maduro. Na matu-
      ridade, os gametas podem ser liberados e participar de uma fertilização dando
      início a um novo embrião. O organismo adulto finalmente sofre envelheci-
      mento e morre.

Nossa herança eucariótica
Os organismos estão divididos em dois grupos principais, dependendo apenas se
as células possuem um envoltório nuclear ou não. Os procariotos (do grego karion,
significa “núcleo”), onde estão incluídas as arqueobactérias e as eubactérias, não
possuem um núcleo verdadeiro. Os eucariotos que incluem os protistas, animais,
plantas e fungos, possuem um tegumento nuclear bem formado circundando os
seus cromossomos. Essa diferença fundamental entre os eucariotos e procariotos
influencia a maneira como esses grupos organizam e utilizam seu material genético.
Em ambos os grupos, a informação herdada necessária para o seu desenvolvimento
e metabolismo se encontra codificada nas sequências de ácido desoxirribonucléico
(DNA) dos cromossomos. Os cromossomos procarióticos normalmente são hélices
duplas de DNA, pequenas e circulares consistindo de aproximadamente 1 milhão de
pares de bases. As células eucarióticas geralmente possuem diversos cromosso-
mos, e um simples protista eucariótico possui 10 vezes, ou mais, a quantidade de
DNA encontrada na maioria dos procariotos complexos. Além disso, a estrutura de
um gene eucariótico é mais complexa do que a de um gene procariótico. A seqüência
de aminoácidos de uma proteína procariótica é a reflexão direta da seqüência de
DNA do cromossomo. O DNA de um gene eucariótico que codifica uma proteína,
geralmente, é dividido de tal forma que a seqüência completa de aminoácidos da
proteína é derivada de segmentos descontínuos de DNA (Figura 1.2). O DNA entre
os segmentos freqüentemente contém seqüências que estão envolvidas na regulação
do momento e lugar em que o gene é ativado.
    Cromossomos eucarióticos também são muito diferentes dos cromossomos
procarióticos. O DNA eucariótico reveste complexos protéicos específicos, chamados
nucleossomos, compostos por proteínas histonas. Os nucleossomos organizam o
DNA em estruturas compactas e são importantes na designação de qual gene irá se
expressar em qual célula. Nas bactérias não existem histonas. Mais ainda, células
eucarióticas sofrem mitose, na qual o tegumento nuclear se parte e os cromossomos
replicados são igualmente divididos entre as células filhas (Figura 1.3). Nos procariotos,
a divisão celular não é mitótica; não se desenvolve o fuso mitótico e, também, não
existe tegumento celular para se partir. Ao invés disso, os cromossomos filhos perma-
necem ligados a pontos adjacentes na membrana celular. Esses pontos de ligação são
separados entre si pelo crescimento da membrana celular, e finalmente colocam os
cromossomos em diferentes células filhas.
6   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 1.2                                        (A) CÉLULA PROCARIÓTICA                     (B) CÉLULA EUCARIÓTICA
Resumo dos passos pelos quais as proteínas
são sintetizadas a partir do DNA. (A) Ex-                                                          Envoltório nuclear
pressão procariótica (bacteriana) do gene.
Regiões codificadoras do DNA são colineares
                                                                                                  Íntron          Íntron
com o produto protéico. (B) Expressão de
                                                           Gene                                     1               2
genes eucarióticos. Os genes são descontínuos                             DNA
e um envoltório nuclear separa o DNA do                                                    Éxon            Éxon            Éxon
citoplasma.                                                                                 1               2               3
                                                                                                                                  Núcleo
                                                                                                              Transcrição
                                                                                          RNA nuclear
                                                              Transcrição




                                                                                                              Processamento de RNA
                                                                          mRNA                                        mRNA
                                                               Tradução
                                                                                     Citoplasma               Tradução

                                                                          mRNA                                              mRNA



                                                        Proteína                                   Proteína




                                                    Procariotos e eucariotos têm mecanismos diferentes de regulação do gene. Em
                                                ambos, o DNA é transcrito por enzimas chamadas RNA polimerases para produzir
                                                RNA. Quando o RNA mensageiro (mRNA) é produzido nos procariotos, ele é imedia-
                                                tamente traduzido em uma proteína enquanto o seu outro terminal está sendo transcri-
                                                to do DNA (Figura 1.4). Sendo assim, nos procariotos, transcrição e tradução são
                                                eventos simultâneos e coordenados. Mas a existência de envoltório nuclear em
                                                eucariotos proporciona a oportunidade de se obter um tipo de regulação celular total-
                                                mente novo. Os ribossomos, que são responsáveis pela tradução, estão de um lado do
                                                envoltório nuclear, e o DNA e a RNA polimerase necessária para a transcrição estão do
                                                outro. Entre a transcrição e a tradução, o RNA transcrito deve ser processado para que
                                                possa passar através do envoltório nuclear. A regulação pela qual o mRNA pode
                                                passar para o citoplasma, torna a célula capaz de selecionar quais das mensagens
                                                recém-sintetizadas serão traduzidas. Assim, um novo nível de complexidade foi adici-
                                                onado, que é extremamente importante para o organismo em desenvolvimento.

                                                Desenvolvimento entre eucariotos unicelulares
                                                Todos os organismos eucarióticos pluricelulares se desenvolveram de protistas uni-
                                                celulares. É nesses protistas que as características básicas do desenvolvimento apa-
                                                receram primeiro. Eucariotos simples nos deram os primeiros exemplos da morfogênese
                                                direcionada pelo núcleo, o uso da superfície da célula para mediar cooperação entre
                                                células individuais e as primeiras ocorrências de reprodução sexual.

                                                Controle da Morfogênese no Desenvolvimento em Acetabulária
                                                Há um século, ainda não havia sido provado se o núcleo continha alguma informação
                                                hereditária ou de desenvolvimento. Algumas das melhores evidências para essa teoria
                                                vieram de estudos onde organismos unicelulares foram fragmentados em pedaços
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                          7


                                                                             Prófase:
                                                                             O envoltório nuclear
                                                                             quebra e um fuso se forma
                                                                             entre dois centríolos.


                                                                                                                        Prometáfase:
  Interfase: DNA é duplicado em                                                                                         Os cromossomos se
  preparação para a divisão celular.                                                                                    ligam às fibras dos fusos.

                                                                                     Cromatídeos do
                                                                                       cromossomo
                                         Núcleo    Cromatina     Nucléolo
                                                                            Região do centrômero
                                                                                          Fuso em
                                                                                  desenvolvimento
                                              Centríolos
                                                                                                   Áster
                                              Envoltório                                                   Envoltório
                                              nuclear                                                       nuclear
                                   Nucléolo                                                                  rompe




                                                           Cromossomos filhos

                                                                                                                        Metáfase:
                                                                                                                        Os cromossomos se
                                                                                                                        alinham no equador da célula.

   Telófase:
   Os cromossomos atingem
   os pólos mitóticos e a célula
   começa a invaginar.
                                                                                                         Figura 1.3
                                                                                                         Diagrama de mitose em células animais. Du-
                                          Anáfase:
                                          Os cromossomos duplicados
                                                                                                         rante a interfase o DNA é duplicado em pre-
                                          (chamados cromatídeos) são                                     paração para a divisão celular. Durante a
                                          separados.                                                     prófase, o envoltório nuclear quebra e for-
                                                                                                         ma-se um fuso entre os dois centríolos. Na
nucleados e anucleados (revisão por Wilson, 1986). Quando vários protistas foram                         metáfase, os cromosssomos se alinham no
                                                                                                         equador da célula e se inicia a anáfase, os
fragmentados, quase todas as partes morreram. No entanto, os fragmentos que conti-
                                                                                                         cromossomos duplicados (cada duplicata de
nham núcleo foram capazes de sobreviver, regenerando todo a complexa estrutura                           cromossomo é um cromatídeo) são separa-
celular (Figura 1.5)                                                                                     dos. Na telófase os cromossomos atingem
    O controle nuclear da morfogênese celular e a interação do núcleo e citoplasma                       os pólos mitóticos e a célula começa a
estão muito bem demonstrados nos estudos da Acetabulária. Essa enorme célula                             invaginar. Cada pólo contém o mesmo núme-
individual (2 a 4 cm de comprimento) consiste de três partes: o disco reprodutivo, o                     ro e tipos de cromossomos que continha a
pedúnculo e o rizóide (Figura 1.6A). O rizóide está localizado na base da célula onde                    célula antes da divisão.
essa é presa ao substrato. O núcleo individual da célula se localiza dentro do rizóide. O
tamanho da Acetabulária e a localização do seu núcleo permitiram que pesquisadores
8   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




                               DNA                       Ribossomos            RNA




                                           Figura 1.4
                                           Transcrição e tradução simultânea em procariotos. Uma porção de DNA de Escherichia coli se
                                           estende horizontalmente por essa microfotografia eletrônica. Transcrições de RNA mensageiro
                                           podem ser vistas dos dois lados. Ribossomos se juntaram ao mRNA e estão sintetizando
                                           proteínas (que não podem ser vistas). O mRNA pode ser visto aumentando de tamanho, da
                                           esquerda para a direita, indicando a direção da transcrição. (Cortesia de O. L. Miller, Jr.)




                                           removessem o núcleo de uma célula e o substituísse por outro, de outra célula. Nos
                                           anos 30, J. Hämmerling tirou proveito dessa singular característica e trocou núcleos
                                           entre duas espécies morfologicamente distintas, A. mediterranea e A. crenulata. Como
                                           é mostrado na fotografia, essas duas espécies têm discos reprodutivos muito diferen-
                                           tes. Hämmerling descobriu que quando um núcleo de uma determinada espécie era
                                           transplantado para o pedúnculo de outra, o novo disco em formação finalmente assu-
                                           mia a forma associada com o núcleo do doador (Figura 1.6B). Assim, foi considerado
                                           que o núcleo era o controlador do desenvolvimento da Acetabulária.
                                               A formação de um disco reprodutivo é um evento morfogênico complexo, envol-
                                           vendo a síntese de um grande número de proteínas, que devem ser acumuladas em
                                           certa porção da célula e então organizadas em estruturas complexas específicas da
                                           espécie. O núcleo transplantado da célula realmente direciona a síntese de seu disco
                                           reprodutivo espécie-específico, mas é uma tarefa que pode levar semanas para ser
                                           realizada. Além disso, se o núcleo for removido da célula de Acetabulária em estágio
                                           inicial do desenvolvimento, antes de formar o disco reprodutivo, um disco normal se
                                           formará semanas depois, ainda que o organismo irá morrer. Esses estudos sugerem
                                           que (1) o núcleo contém informação específica sobre o tipo de disco reprodutivo
                                           produzido (isto é, contém informação genética que especifica as proteínas necessári-
                                           as para a produção de um certo tipo de disco reprodutivo), e (2) o material contendo
                                           essa informação entra no citoplasma muito antes dessa produção ocorrer. A informa-
                                           ção no citoplasma não será usada por várias semanas.

                                                                                                                  Fragmento
                                                                                                                  anucleado morre
                                                                       Corte
                                                                                                              Fragmento
                                                                     Núcleo                                   nucleado
                                                                                                              se regenera
                                                                     Corte




          Figura 1.5
          Regeneração do fragmento nucleado do protista unicelular
          Stylonychia. Os fragmentos anucleados sobrevivem por al-                                              Fragmento
          gum tempo, mas finalmente morrem.                                                                     anucleado morre
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal   9


                                                          (B)
                                   Disco
                                   reprodutivo


(A)

               Disco
               reprodutivo




                              Pedúnculo
                                                          A. crenulata             A. mediterranea
           Pedúnculo                                            Núcleos transplantados


                                                      Núcleo                              Núcleo



                                                                         Rizóide

          Rizóide                  Rizóide

       1 cm                      1 cm                              A estrutura do disco
                                                                   reprodutivo é a do
                                                                     núcleo doador


Figura 1.6
(A) Acetabulária mediterranea (esquerda) e A.
crenulata (direita). Cada unidade é uma célula singu-
lar. O rizóide contém o núcleo. (B) Efeitos da troca de
núcleos entre duas espécies de Acetabulária. Núcleos
foram transplantados para fragmentos de rizóides
anucleados. Estruturas de A. crenulata estão sombre-
adas; estruturas de A. mediterranea não estão som-
breadas. (Fotografias cortesia de H. Harris.)


    Uma hipótese atual, proposta para explicar essas observações, é que o núcleo sintetiza
um mRNA estável, posicionado em estado dormente no citoplasma até a formação do
disco reprodutivo. Essa hipótese é amparada por uma observação publicada por Hämmerling
em 1934. Hämmerling fracionou uma Acetabulária jovem em diversas partes (Figura 1.7). A
porção com o núcleo finalmente formou um novo disco, conforme esperado; da mesma
forma o fez a extremidade apical do pedúnculo. No entanto, a parte intermediária do pedún-
culo não formou o disco reprodutivo. Por isso, Hämmerling postulou (aproximadamente 30
anos antes de sabermos da existência do mRNA), que as instruções para a formação do
disco reprodutivo se originavam no núcleo, sendo de alguma forma guardadas dormen-
tes próximo à extremidade do pedúnculo. Muitos anos mais tarde, Kloppstech e
Schweiger (1975) estabeleceram que o mRNA derivado do núcleo se acumula nessa
região. Ribonuclease, uma enzima que cliva RNA, inibe completamente a formação do
disco reprodutivo quando adicionada à água marinha na qual cresce a Acetabulária. Em
células anucleadas, esse efeito é permanente; uma vez que o RNA é destruído, não pode
mais haver a formação do disco reprodutivo. Em células nucleadas, no entanto, um novo
disco pode ser formado após a eliminação da ribonuclease, presumivelmente porque um
novo mRNA é então produzido pelo núcleo. Garcia e Dazy (1986) também demonstraram
que a síntese da proteína é especialmente ativa no ápice da Acetabulária.
    Fica claro pela discussão anterior, que a transcrição nuclear tem um papel impor-
tante na formação do disco reprodutivo da Acetabulária. Mas deve ser notado que o
10   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




                                                                                                         Disco reprodutivo e
                                                                                                       pedúnculo regenerados
                                                                   Extremidade
                                                                      apical do
                                                                     pedúnculo




                                                                 Porção central
                                                                  do pedúnculo                Sem regeneração




                                                                       Rizóide
                                                                      e núcleo



                                                                                                           Regeneração total




                                     Figura 1.7
                                     Habilidade regenerativa de diferentes fragmentos da A. mediterranea




                                     citoplasma também cumpre uma parte essencial na formação desse disco. O mRNA
                                     não é traduzido durante semanas, mesmo estando no citoplasma. Algo no citoplasma
                                     controla quando as mensagens devem ou não ser utilizadas. Portanto, a expressão do
                                     disco reprodutivo é controlada não somente pela transcrição nuclear como também
                                     pelo controle de tradução do RNA citoplasmático. Nesse organismo unicelular, o
                                     “desenvolvimento” é controlado em ambos estágios de transcrição e de tradução.

                                     Diferenciação em Ameboflagelados Naegleria
                                     Um dos casos mais marcantes de “diferenciação” em protistas, é aquele de Naegleria
                                     gruberi. Esse organismo ocupa um lugar especial na taxonomia protista porque pode
                                     mudar sua forma, de uma ameba para a de um flagelado (Figura 1.8). Durante a maior
                                     parte do seu ciclo de vida, a N. gruberi é uma ameba típica, alimentando-se de bacté-
                                     rias do solo e dividindo-se por cisão. No entanto, quando as bactérias são diluídas
                                     (tanto pela água da chuva quanto pela água nos experimentos), cada N. gruberi
                                     desenvolve rapidamente uma forma aerodinâmica e dois longos flagelos anteriores,
                                     que são usados para encontrar regiões mais abundantes em bactérias. Nessas condi-
                                     ções, ao invés de existirem diversos tipos de células diferenciadas em um único orga-
                                     nismo, essa célula única tem estruturas celular e bioquímica diferentes nos diferentes
                                     estágios de sua vida.
                                         Diferenciação para a forma de flagelado ocorre aproximadamente em uma hora
                                     (Figura 1.9). Durante esse período, a ameba tem que criar centríolos para servir como
                                     corpos basais do flagelo (centros organizadores de microtúbulos), assim como criar o
                                     próprio flagelo. Os corpos basais e os flagelos são compostos de diversas proteínas,
                                     das quais a mais abundante é a tubulina. As moléculas de tubulina são organizadas em
                                     microtúbulos; esses são posteriormente arranjados para permitir o movimento flagelar.
                                     Fulton e Walsh (1980) mostraram que a tubulina dos flagelos de Naegleria não existe
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                   11




(A)                              (B)                              (C)                              (D)

                                                                                          Figura 1.8
                                                                                          Transformação de Naegleria gruberi da forma
em seu estágio de ameba. É produzida de novo (“desde o começo”), começando com            amebóide ao estado flagelado. Linha superior
uma nova transcrição no núcleo. Para mostrar isso, os pesquisadores manipularam           corada com Iodo/Lugol; linha inferior corada
                                                                                          com um anticorpo fluorescente à proteína tu-
transcrições em vários estágios com actinomicina D, uma droga antibiótica que seleti-
                                                                                          bulina dos microtúbulos. A transformação é
vamente inibe a síntese do RNA. Quando adicionada anteriormente à diluição do             iniciada pela eliminação do alimento (bactéri-
alimento, esse antibiótico previne a síntese da tubulina. No entanto, se a actinomicina   as) da colônia de Naegleria. (A) 0 minutos;
D é adicionada 20 minutos após a diluição, a tubulina ainda é produzida em tempo          (B) 25 minutos, mostrando síntese de nova
normal (aproximadamente 30 minutos mais tarde). Portanto, parece que o mRNA para          tubulina; (C) 70 minutos, emergência de
a tubulina foi produzido durante os primeiros vinte minutos após a diluição e usado       flagelos visíveis (D) 120 minutos, mostrando
logo em seguida. Essa interpretação foi confirmada quando foi demonstrado que o           flagelos maduros e forma aerodinâmica do cor-
mRNA extraído da ameba não continha mensagem alguma, detectável para tubulina             po (de Walsh, 1984, cortesia de C. Walsh.)
flagelar, ao passo que mRNA extraído de células diferenciadas continha muitas mensa-
gens desse tipo (Walsh, 1984).
    Então, temos aqui um excelente exemplo de controle transcricional de um proces-
so de desenvolvimento: O núcleo da Naegleria responde a mudanças ambientais
sintetizando o mRNA para tubulina flagelar. Notamos também um outro processo que
permanece extremamente importante no desenvolvimento de todos os outros animais
e plantas, que é o agrupamento de moléculas de tubulina para a produção do flagelo.
Esse arranjo, pelo qual a tubulina é polimerizada em microtúbulos, e esses por sua vez
agrupados de forma ordenada, é visto em toda a natureza. Em mamíferos, está evidente
no flagelo do espermatozóide e nos cílios da medula espinhal e do trato respiratório.
Mais ainda, não é somente a tubulina que produz o flagelo. Existem em torno de 300
outras proteínas em cada flagelo, e o movimento flagelar depende da orientação ade-
quada dessas proteínas uma em relação a outra. Até mesmo processos celulares têm a
sua própria “morfogênese” baseada em interações moleculares entre os fragmentos
de proteína. Tal controle pós-tradução, onde uma proteína não é funcional até que
esteja ligada a outras moléculas, será discutido melhor mais tarde. Vimos então, que o
desenvolvimento em eucariotos unicelulares pode ser controlado nos estágios de
transcrição, tradução e pós-tradução.
12    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 1.9                                                                                                                                           os
Diferenciação do fenótipo flagelado em                                                                                                          rp
                                                                                                                                           co
Naegleria. Amebas que vinham crescendo                                                                               a                de                                         o                  am
                                                                                                                 lin                to s
                                                                                                                                                                               rp r              nç
em um meio enriquecido com bactéria são                                                                        bu a                                                         co ela             ca o
                                                                                                                                 en                           is          de lag            al n t
                                                                                                             tu e ç             m ula m                    ve                             os e
lavadas afim de se eliminar as bactérias no                                                                da m               pa cél nda               isí              ão a f          el r i m
                                                                                                         e co               u
                                                                                                                          gr s, o                    v                aç m           ag
tempo 0. Aos 80 minutos, praticamente toda                                                             es r              A asai rred              os                m or           Fl o m p l
                                                                                                     nt l a                                    el                 or f
a população desenvolveu flagelo. (Segundo                                                          Sí a g e                b a              ag                   F m                  c ta
                                                                                                      fl                      se         Fl                        co                    to
Fulton, 1977.)
                                                                                    100




                                                   Porcentagem da população com flagelo
                                                                                          80

                                                                                                                                                             Células de corpo com
                                                                                          60                                                                 forma flagelar



                                                                                          40



                                                                                          20



                                                                                           0
                                                                                               0   20               40              60                              80                     100
                                                                                                              Tempo após suspensão (minutos)




                                                   As Origens da Reprodução Sexual
                                                   A reprodução sexual é outra invenção dos protistas que teve um profundo efeito em
                                                   organismos mais complexos. Deve-se notar que sexo e reprodução são dois proces-
                                                   sos separáveis e distintos. A reprodução envolve a criação de novos indivíduos.
                                                   Sexo envolve a combinação de genes de dois indivíduos distintos em um novo
                                                   arranjo. Reprodução na ausência de sexo é uma característica de organismos que se
                                                   reproduzem por cisão; não há discriminação nos genes quando uma ameba se divide
                                                   ou quando uma hidra brota células para formar uma nova colônia. Sexo sem reprodu-
                                                   ção também é comum entre os organismos unicelulares. As bactérias são capazes de
                                                   transmitir genes de um indivíduo para o outro por meio dos pilos sexuais (Figura
                                                   1.10). Essa transmissão é independente da reprodução. Protistas são também capa-
                                                   zes de reorganizar genes sem reprodução. Os paramécios, por exemplo, se reprodu-
                                                   zem por cisão, mas o sexo é realizado através de conjugação. Quando dois paramécios
                                                   se juntam, eles se unem através de seus aparelhos orais formando uma conexão
                                                   citoplasmática através da qual podem trocar material genético (Figura 1.11). Cada
                                                   macronúcleo (que controla o metabolismo do organismo) degenera enquanto o
Figura 1.10                                        micronúcleo passa por meiose para produzir oito micronúcleos haplóides, dos quais
Sexo em bactérias. Algumas células de bactéri-     todos, exceto um, degeneram. O micronúcleo remanescente divide-se mais uma vez
as estão cobertas de numerosos apêndices
                                                   para formar um micronúcleo estacionário e um micronúcleo migratório. Cada
(pilos) sendo capazes de transmitir genes para
uma célula recipiente (sem pilos) através de
                                                   micronúcleo migratório atravessa a ponte citoplasmática e se funde com o micronúcleo
um pilus sexual. Nessa figura, o pilus sexual      estacionário (“fertilizante”), criando um novo núcleo diplóide em cada célula. Esse
está realçado por partículas virais que se ligam   núcleo diplóide se divide mitoticamente fazendo surgir um novo micronúcleo e um
especificamente àquele estrutura. (Cortesia de     novo macronúcleo quando os dois parceiros se separam. Ainda que não tenha
C. C. Brinton, Jr. e J. Carnahan.)                 ocorrido reprodução, houve sexo.
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal         13


                  Micronúcleo                                        Fuso
                                                                     meiótico
                    Macronúcleo




                    Ponte
                    citoplasmática
    Dois paramécios                              Micronúcleos passam                                  Todos menos um
        formam                                  por meiose, formando 8                               dos micronúcleos de
  ponte citoplasmática                        núcleos haplóides por célula;                        cada parceiro degeneram
                                               macronúcleos degeneram




 Micronúcleo
 estacionário

  Micronúcleo
   migratório

           Micronúcleo restante se                    Micronúcleos migratórios                  Núcleo diplóide se forma e
     divide para formar um micronúcleo           atravessam a ponte citoplasmática             sofre divisões mitóticas para
        estacionário e um migratório                e fertilizam os micronúcleos              gerar um novo macronúcleo e
                                                      estacionários do parceiro                dois micronúcleos quando os
                                                                                                  paramécios se separam


Figura 1.11
União de paramécios através da ponte citoplasmática, onde dois paramécios podem trocar
material genético, deixando cada um com genes que diferem daqueles com os quais iniciaram o
processo. (Strickberger, 1985.)



    A união desses dois processos distintos, sexo e reprodução, em reprodução
sexual, é visto em eucariotos unicelulares. A Figura 1.12 mostra o ciclo de vida da
Chlamydomonas. Esse organismo é geralmente haplóide, portando apenas uma
cópia de cada cromossomo (como os gametas dos mamíferos). Os indivíduos de
cada espécie, no entanto, estão divididos em dois grupos de parceiros: mais e
menos. Quando se encontram, juntam-se os citoplasmas e seus núcleos se fundem
para formar um zigoto diplóide. Esse zigoto é a única célula diplóide do ciclo de vida
e passará por meiose para formar quatro novas células de Chlamydomonas. Aqui
está uma reprodução sexual, pois cromossomos são realinhados durante as divi-
sões meióticas onde mais indivíduos são formados. Note que nesse tipo de reprodu-
ção sexual protista, os gametas são morfologicamente idênticos e a distinção entre
espermatozóide e óvulo ainda não aconteceu.
    Com a evolução da reprodução sexual, dois importantes avanços foram alcança-
dos. O primeiro é o mecanismo da meiose (Figura 1.13), pelo qual o complemento
diplóide dos cromossomos é reduzido ao estado haplóide (discutido em detalhe no
Capítulo 22). O outro avanço é o mecanismo pelo qual os parceiros reprodutivos
diferentes se reconhecem um ao outro. Em Chlamydomonas, o reconhecimento ocorre
primeiro nas membranas flagelares (Figura 1.14; Bergman et al., 1975; Goodenough e
Weiss, 1975). A aglutinação dos flagelos permite que regiões específicas das membra-
nas celulares se juntem. Esses setores especializados contêm componentes
reprodutivos específicos que permitem a fusão dos citoplasmas. Seguindo-se à
aglutinação, os indivíduos mais iniciam a fusão estendendo um tubo de fertilização.
14    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 1.12                                                                 Reprodução assexual (mitótica)
Reprodução sexual em Chlamydomonas. Duas                      Parceiro tipo mais                      Parceiro tipo menos
linhagens, ambas haplóides, podem se repro-                       (haplóide)                               (haplóide)
duzir assexuadamente quando separadas. Res-
peitando certas condições, os dois cordões
podem se unir para produzir uma célula
diplóide que pode sofrer meiose para formar
quatro novos organismos haplóides. (Segundo
Strickberger, 1985.)                                                                  Reprodução
                                                                                        sexual


                                                                                                   Acasalamento



                                                                                                   Fusão citoplasmática



                                                                                                   Zigoto (diplóide)




                                                                                                   Maturação (meiose)




                                                                                                        Germinação

                                                                         Dois parceiros tipo mais e tipo menos




                                              Figura 1.13
                                              Sumário da meiose. O DNA e as proteínas associadas replicam durante a interfase. Durante a
                                              prófase, o envoltório nuclear se rompe e os cromossomos homólogos (cada cromossomo é
                                              duplicado, com os cromatídeos juntos no centrômero) se alinham em pares. Reagrupamentos
                                              cromossômicos podem ocorrer entre quatro cromatídeos homólogos nesse estágio. Após a
                                              primeira metáfase, os dois cromossomos homólogos originais são segregados em células dife-
                                              rentes. Durante a segunda divisão, o centrômero se divide, deixando cada nova célula com uma
                                              cópia de cada cromossomo.


              MEIOSE I

                 Envoltório                                           Cromossomos                                Cromatídeos
                  nuclear                     Cromatina                homólogos                                 homólogos
                              Núcleo




              Interfase                Prófase I precoce                Meia prófase I                  Prófase I tardia                Metáfase I


                                              O envoltório nuclear se rompe e cromossomos homólogos (cada cromossomo
                                              sendo duplo, com os cromatídeos ligados no centrômero) se alinham aos pares.
                                              Rearranjos cromossômicos podem ocorrer entre os quatro cromatídeos homólo-
                                              gos neste momento.
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                       15


(A)                                     (B)                                              Figura 1.14
                                                                                         Duas etapas do reconhecimento no acasala-
                                                                                         mento de Chlamydomonas. (A) Varredura por
                                                                                         micrografia eletrônica (7000x) de par em aca-
                                                                                         salamento. Os flagelos que interagem, torcem-
                                                                                         se um em torno do outro, aderindo nas pontas
                                                                                         (flexas). (B) Microfotografia eletrônica de
                                                                                         transmissão (20.000x) de uma ponte citoplas-
                                                                                         mática conectando os dois organismos. Os
                                                                                         microfilamentos se estendem da célula doado-
                                                                                         ra (abaixo) para a célula recipiente (acima). (de
                                                                                         Goodenough e Weiss, 1975 e Bergman et al.,
                                                                                         1975; com permissão de U. Goodenough.)
                                                            Microfilamentos




Esse tubo conecta e se funde com um local específico no indivíduo menos. É interes-
sante que o mecanismo usado para estender esse tubo - polimerização da proteína
actina - também é usado para estender processos do espermatozóide e óvulo do
ouriço-do-mar. No Capítulo 4, veremos que o reconhecimento e fusão de espermato-
zóide e óvulo ocorrem de uma maneira espantosamente semelhante a desses protistas.
    Eucariotos unicelulares parecem ter os elementos básicos do processo de desen-
volvimento que caracterizam os organismos mais complexos: a síntese celular é con-
trolada pela regulação transcricional, por tradução e pós-tradução; existe um mecanis-
mo para processar o RNA através da membrana nuclear; as estruturas de genes indi-
viduais e cromossomos são como serão através da evolução eucariótica; mitose e
meiose são aperfeiçoadas; e a reprodução sexual existe, envolvendo a cooperação
entre células individuais.Tal cooperação intercelular se torna ainda mais importante
com a evolução de organismos multicelulares.




                                                                MEIOSE II




       Anáfase I                   Telófase I                    Metáfase II               Anáfase II                     Telófase II

                              Os dois cromossomos                                    O centrômero se divide          Cada nova célula tem
                             homólogos originais são                                                                  uma cópia de cada
                              segregados em células                                                                     cromossomo
                                    diferentes
16    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                                 Eucariotos coloniais: A evolução da diferenciação
                                                 Um dos mais importantes experimentos da evolução foi a criação de organismos
                                                 pluricelulares. Parece ter havido diversos caminhos pelo qual uma única célula evo-
                                                 luiu para uma disposição pluricelular; discutiremos apenas dois deles (veja o Capítulo
                                                 23 para uma discussão mais completa). O primeiro caminho envolve a divisão ordena-
                                                 da da célula reprodutiva e a subseqüente diferenciação da sua progênie em diferentes
                                                 tipos de células. Esse caminho para a multicelularidade pode ser visto em uma notável
                                                 série de organismos pluricelulares, coletivamente referidos como a família das
                                                 Volvocaceas ou volvocaceanas.

                                                 As Volvocaceanas
                                                 Os organismos mais simples entre as volvocaceanas são reuniões ordenadas de nu-
                                                 merosas células, cada uma parecida ao protista unicelular Chlamydomonas. Um único
                                                 organismo de volvocacea do gênero Gonium (Figura 1.15), por exemplo, consiste de
                                                 uma placa plana contendo de 4 a 16 células, cada uma com seu próprio flagelo. Em um
                                                 gênero relacionado, Pandorina, 16 células formam uma esfera; e no Eudorina, a esfe-
                                                 ra contém 32 ou 64 células organizadas em um padrão regular. Nesses organismos, um
                                                 princípio muito importante tem-se desenvolvido: a divisão ordenada de uma célula
                                                 para gerar um número de células que são organizadas de uma maneira previsível.
                                                 Como ocorre na maioria dos embriões animais, as divisões celulares pelo qual uma
                                                 única célula de volvocacea produz um organismo de 4 a 64 células ocorrem em uma
                                                 seqüência muito rápida e com ausência de crescimento celular.
                                                     Os dois próximos gêneros da série volvocacea exibem um outro princípio impor-
                                                 tante do desenvolvimento: a diferenciação de tipos celulares em organismo indivi-
                                                 dual. As células reprodutivas se diferenciam das células somáticas. Em todos os
                                                 gêneros já mencionados, toda a célula pode, e normalmente o faz, produzir um organis-
                                                 mo novo completo por mitose (Figura 1.16 A,B). Nos gêneros Pleodorina e Volvox,
                                                 porém, relativamente poucas células podem se reproduzir. Na Pleodorina californica,
                                                 as células da região anterior são restritas à uma função somática; somente aquelas




Figura 1.15
Representante da ordem dos Volvocales. (A)
o protista unicelular Chlamydomonas rei-
nhardtii. (B) Gonium pectorale com oito cé-
lulas Chlamydomonas-símiles em um disco
convexo. (C) Pandorina morum. (D) Eudo-
rina elegans. (E) Pleodorina californica. Aqui
todas as 64 células são originalmente simila-
res, mas as posteriores desdiferenciam e redi-   (A)                         (B)                           (C)
ferenciam como células assexuadas reprodu-
tivas chamadas gonídios, enquanto as células
anteriores permanecem pequenas e biflagela-
das, como o Chlamydomonas. (F) Volvox
carteri. Aqui, células destinadas a se torna-
rem gonídios são separadas no começo do
desenvolvimento e nunca desenvolvem carac-
terísticas somáticas. As células menores,
somáticas, lembram Chlamydomonas. Todas,
menos o Chlamydomonas, são membros da
família das Volvocaceas. A complexidade au-
menta do Chlamydomonas unicelular ao
Volvox pluricelular. Barra em A é de 5µm; B-
D, 25µm; E, F, 50µm (Cortesia de D. Kirk.)       (D)                         (E)                           (F)
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                   17


                                                                                         Figura 1.16
                                                                                         Reprodução assexuada nas volvocaceanas. (A)
                                                                                         Colônia madura de Eudorina elegans. (B) Cada
                                                                                         uma das células de E. elegans se divide e pro-
                                                                                         duz uma nova colônia. (C) Volvox carteri ma-
                                                                                         duro. A maioria das células são incapazes de se
                                                                                         reproduzir. Células germinativas (gonídia) co-
                                                                                         meçaram a se dividir em novos organismos. (A
                                                                                         e B segundo Hartmann,1921; C de Kirk et al.,
           (A)                              (B)                         (C)
                                                                                         1982, cortesia de D. Kirk.)




células do lado posterior podem se reproduzir. Em P. californica, a colônia normalmen-
te tem 128 ou 64 células, e a relação do número de células somáticas para o número de
células reprodutivas é normalmente 3:5. Dessa maneira, uma típica colônia de 128
células tem 48 células somáticas e uma colônia de 64 células tem 24 células somáticas.
     Nos Volvox, quase todas células são somáticas, e muito poucas células são capa-
zes de produzir novos indivíduos. Em algumas espécies de Volvox, células reproduti-
vas como as da Pleodorina, são derivadas de células que originalmente parecem e
funcionam como células somáticas antes de crescer e se dividir para formarem uma
nova progênie. No entanto, em outros membros do gênero, como o V. carteri, existe
uma divisão do trabalho completa: as células reprodutivas que vão criar a nova gera-
ção são colocadas de lado durante a divisão das células reprodutivas que estão
formando um novo indivíduo. As células reprodutivas nunca desenvolvem um flagelo
funcional e nunca contribuem para motilidade e outras funções somáticas do indiví-
duo; são inteiramente especializadas para reprodução. Ainda que as volvocaceas
mais simples sejam consideradas organismos coloniais (porque cada célula é capaz de
existência independente e perpetuação da espécie), no V. carteri temos um organismo
verdadeiramente celular com dois tipos de células independentes e distintos (somático
e reprodutivo), ambos requeridos para a perpetuação da espécie (Figura 1.16C). Embo-
ra nem todos os animais separem suas células reprodutivas das células somáticas (e
as plantas raramente o fazem), essa separação de células germinativas das células
somáticas no início do desenvolvimento é característica de muitos filos animais e será
discutida em maior detalhe no Capítulo 13.
     Embora todas as volvocaceas, incluindo seu parente unicelular Chlamydomo-
nas, se reproduzam predominantemente por meios assexuados, também são capazes
de reprodução sexual. Isso envolve a produção e fusão de gametas haplóides. Em
muitas espécies de Chlamydomonas, incluindo a ilustrada na Figura 1.12, a reprodu-
ção sexual é isogâmica, já que os gametas haplóides que se encontram são similares
em tamanho, estrutura e motilidade. No entanto, em outras espécies de Chlamydo-
monas - assim como as várias espécies de volvocaceas coloniais - gametas nadado-
res de diversos tamanhos são produzidos por parceiros de acasalamentos diferen-
tes. Isso é chamado heterogamia. Mas as volvocaceas maiores desenvolveram uma
forma especializada de heterogamia, chamada oogamia, que envolve a produção de
óvulos grandes e relativamente imóveis por um parceiro do acasalamento e esper-
matozóides pequenos e móveis pelo outro parceiro (veja Visões Colaterais & Espe-
culações). Aqui vemos um gameta especializado para retenção de recursos nutricionais
e de desenvolvimento e outro gameta especializado para transporte de núcleos.
Assim, as volvocaceas incluem os organismos mais simples que têm macho e fêmea
distinguíveis, e possuem caminhos diferentes para desenvolver o óvulo ou o es-
permatozóide. Em todas as volvocaceas, a reação da fertilização se assemelha à do
Chlamydomonas porque resulta na produção de um zigoto diplóide dormente, ina-
tivo, capaz de sobreviver a condições ambientais severas. Quando as condições
permitem aos zigotos germinar, eles primeiro sofrem meiose para produzir herdeiros
haplóides dos dois parceiros em números iguais. [other.html#intro1]
18    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento



 Informações adicionais
                                                 &         Especulações

Sexo e Individulidade em Volvox
S      imples como é, o Volvox comparti-
       lha muitos traços que caracterizam o
       ciclo de vida e histórico de desen-
volvimento de organismos muito mais com-
                                                são parentes. A morte chega para uma
                                                ameba apenas se ela é ingerida ou sofre
                                                um acidente fatal; quando isso acontece,
                                                a célula morta não deixa prole.
                                                                                                conjunto de gonídios. No fim da clivagem,
                                                                                                todas as células que estarão presentes no
                                                                                                adulto, foram produzidas de cada um dos
                                                                                                gonídios. Mas o embrião está “virado de
plexos, incluindo nós mesmos. Como já foi           Porém, a morte se torna uma parte es-       dentro para fora”: seus gonídios estão do
mencionado, o Volvox está entre os orga-        sencial da vida para qualquer organismo         lado de fora e os flagelos de suas células
nismos mais simples a exibir a divisão de       pluricelular que estabelece divisão de tra-     somáticas estão apontando para o interi-
trabalho entre dois tipos de células dife-      balho entre células somáticas e células         or da esfera oca de células. Essa condição
rentes. Como conseqüência disso, está en-       germinativas (reprodutivas). Considere o        adversa é corrigida por um processo cha-
tre os organismos mais simples a incluir a      histórico de vida do Volvox carteri quan-       mado inversão, pelo qual o embrião se vira
morte como uma parte regular, geneticamen-      do se reproduz assexuadamente (Figura           com o lado certo para fora através de
te programada, da sua história de vida.         1.17). Cada adulto assexuado é um               movimentos celulares que fazem lembrar
                                                esferóide contendo aproximadamente              movimentos de gastrulação no embrião
Morte e Diferenciação                           2000 pequenas células somáticas biflage-        animal (Figura 1.18). Um agrupamento de
Organismos unicelulares que se reprodu-         ladas ao longo de sua periferia e por volta
zem através de uma simples divisão celu-        de 16 grandes células reprodutivas              Figura 1.17
lar, tais como as amebas, são potencial-        assexuadas, chamadas gonídios, dispos-          Reprodução assexual em V. carteri. Quando as
mente imortais. A ameba que vemos sob           tas em umas das extremidades do interior.       células reprodutivas (gonídios) estão maduras,
um microscópio não tem ancestrais mor-          Quando maduro, cada gonídio divide-se           entram em um estado semelhante à clivagem do
tos! Quando uma ameba se divide, nenhu-         rapidamente 11 ou 12 vezes. Parte dessa         desenvolvimento embrionário para produzir se-
ma das duas células resultantes pode ser        divisão é assimétrica e produz as 16 célu-      res juvenis dentro do adulto. Através de uma
considerada ancestral ou progênie; elas         las grandes que irão se tornar um novo          série de movimentos celulares semelhantes à
                                                                                                gastrulação, o volvox embrionário se inverte e é
                                                                                                finalmente liberado do progenitor. As células
                                                                                                somáticas do progenitor, sem gonídios, passam
                                                                                                por senescência e morrem, enquanto a colônia
                                                                                                juvenil amadurece. O ciclo sexual total dura dois
                                                                    Expansão
                                                                                                dias. (Segundo Kirk, 1988.)
                                                                    de adultos
                     Embriogênese                                   e juvenis

                                                     Adulto com
                                                       juvenis
                     Adulto com
                     gonídios maduros




Maturação
dos gonídios                                                                                  Expansão continuada
                                                                                              da matriz extracelular




                        Expansão                                                                   Morte de células
                       continuada                                                               somáticas - progenitores
                        de juvenis
                                        Liberação
                                        de juvenis
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                      19


        (A)                                  (F)                                          Figura 1.18
                                                                                          Inversão dos embriões V. carteri produzidos
                                                                                          assexuadamente. A-E são micrografias eletrô-
                                                                                          nicas de varredura de embriões completos. F-
                                                                                          J são cortes sagitais através do centro do em-
                                                                                          brião, visualizado por microscopia diferencial
                                                                                          de interferência. Antes da inversão, o embrião
                                                                                          é uma esfera côncava de células conectadas.
                                                                                          Quando as células mudam a sua forma, um
                                                                                          buraco (o fialoporo) abre-se no topo do em-
                                                                                          brião (A,B,F,G). As células se curvam e se
                                                                                          reúnem em um dos pólos (C-E, H-J). (Kirk et
        (B)                                  (G)                                          al., 1982, cortesia de D. Kirk.)

                                                                                          das células que as produzem (Pommerville
                                                                                          e Kochert, 1982). Além do mais, nessa mor-
                                                                                          te, as células liberam para o uso de ou-
                                                                                          tras, incluindo sua própria cria, todo o nu-
                                                                                          triente acumulado durante toda a vida.
                                                                                          “Dessa maneira emerge”, como assinala
                                                                                          David Kirk, “um dos grandes temas da
                                                                                          vida no planeta Terra: Alguns morrem para
        (C)                                  (H)
                                                                                          que outros possam viver”.
                                                                                              Em V. carteri, foi identificado um gene*
                                                                                          específico que tem um papel importante re-
                                                                                          gulando a morte das células (Kirk, 1988).
                                                                                          Em linhagens laboratoriais possuindo mu-
                                                                                          tações desse gene, as células somáticas
                                                                                          abandonam suas tendências suicidas,
                                                                                          ganham a habilidade de se reproduzirem

        (D)                                  (I)                                              * Esse gene (regA) foi clonado e mostrou
                                                                                          codificar uma proteína que age para reprimir
                                                                                          (direta ou indiretamente) todos os genes cujos
                                                                                          produtos são requeridos pela célula para se de-
                                                                                          senvolver como gonídio. Mutações de perda da
                                                                                          função impedirão a proteína de agir, e as células
                                                                                          serão capazes de se tornarem gonídios (D. Kirk,
                                                                                          comunicação pessoal).




        (E)                                  (J)




células em forma de garrafa abre um bura-        O que acontece às células somáticas
co em um dos lados do embrião produzin-      do “progenitor” Volvox agora que as jo-      Figura 1.19       “Células garrafas” próxi-
do tensão sobre a camada de células in-      vens “deixaram o lar”? Tendo produzido       mas à abertura do fialoporo. Essas células
terconectadas (Figura 1.19). O embrião se    uma cria e sendo incapazes de uma nova       permanecem estreitamente conectadas atra-
utiliza desse buraco para fazer a inversão   reprodução, essas células somáticas mor-     vés de pontes citoplasmáticas próximas a
                                                                                          seus ápices alongados, desse modo criando
e depois o fecha. Posteriormente, as colô-   rem. Para ser mais exato, elas cometem       a tensão que causa a curvatura da lâmina ce-
nias juvenis são enzimaticamente soltas      suicídio, sintetizando um conjunto de pro-   lular interconectada. ( Kirk et al., 1982, cor-
do progenitor e nadam livres.                teínas que causam a morte e a dissolução     tesia de D. Kirk.)
20    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


(A)                                               assexuadamente e se tornam potencialmen-           advento da inevitável morte natural
                                                  te imortais (Figura 1.20). O fato desses mu-       no reino animal, e tudo em nome do
                                                  tantes nunca terem sido encontrados na             sexo. ”E pergunta: “Vale a pena?”
                                                  natureza, indica que a morte das células
                                                  tem um papel importante na sobrevivência            Para Volvox carteri, certamente que sim.
                                                  do V. carteri sob condições naturais.          V. carteri vive em pequenas poças rasas
                                                  [intro2.html]                                  que temporariamente se enchem com as
                                                                                                 águas das chuvas da primavera e secam no
                                                  Entra o sexo                                   calor do verão. Durante a maior parte desse
                                                  Mesmo o V. carteri se reproduzindo as-         tempo, V. carteri nada livremente, reprodu-
                                                  sexuadamente a maior parte do tempo, na        zindo-se assexuadamente. Esses volvox
(B)
                                                  natureza se reproduzem sexualmente uma         morreriam em minutos se a poça secasse,
                                                  vez por ano. Quando o faz, uma geração         mas o V. carteri é capaz de sobreviver se
                                                  de indivíduos morre, e uma nova geração        tornando sexual pouco antes da secagem
                                                  geneticamente diferente é produzida. O         das poças, produzindo zigotos inativos que
                                                  naturalista Joseph Wood Krutch (1956)          sobrevivem ao calor e à seca do alto verão e
                                                  colocou isso de uma forma mais poética:        ao frio do inverno. Quando a chuva enche
                                                                                                 esses pequenos reservatórios na primave-
                                                     A ameba e o paramécio são potencial-        ra, os zigotos interrompem a sua dormência
                                                     mente imortais...Mas para o Volvox a        e criam uma nova geração para reproduzi-
                                                     morte parece inevitável, assim como o       rem-se assexuadamente até que as águas
                                                     é para um camundongo ou o homem.            ameacem secar novamente. Como esses or-
                                                     Volvox deve morrer, como Leeuwenko-         ganismos tão simples prevêem a chegada
                                                     ek observou, porque teve filhos e não é     de condições adversas com acuidade sufi-
Figura 1.20                                          mais necessário. Quando sua hora            ciente para produzir uma geração sexual no
Mutação de um único gene (chamado regene-            chegar, tomba em silêncio, vai para         tempo certo, ano após ano?
rador somático A) elimina a programação de           o fundo juntar-se a seus ancestrais.             O estímulo para mudança do modo
morte em células V. carteri. Volvox recém-           Como Hegner, o zoologista de Johns          assexual para o modo sexual de reprodu-
eclodido carregando essa mutação (A) é               Hopkins, escreveu, “Esse é o primeiro       ção em V. carteri é devido a uma proteína
indistinguível do esferóide tipo-selvagem. No
entanto, momentos antes das células somáti-       Figura 1.21
cas do esferóide tipo-selvagem começarem a        Reprodução sexual em V. carteri. Machos e fêmeas são indistiguíveis na sua fase assexuada.
morrer, as células somáticas desse mutante se     Quando a proteína indutora sexual está presente, os gonídios de ambos parceiros passam por
rediferenciam como gonídios (B). Finalmente,      uma embriogênese modificada que leva à formação de óvulos nas fêmeas e espermatozóides nos
cada célula do mutante irá se dividir para for-   machos. Quando os gametas estão maduros, pacotes de espermatozóide (contendo 64 ou 128
mar ( regenerar) um novo esferóide que irá re-    espermatozóides cada), são liberados e nadam para as fêmeas. Ao alcançar a fêmea o pacote se
petir esse ciclo do desenvolvimento potenci-      rompe em espermatozóides individuais, que podem fertilizar os óvulos. O zigoto resultante tem
almente imortal.                                  paredes duras que podem resistir à seca, calor e frio. Quando as chuvas da primavera fazem o
                                                  zigoto germinar, sofrendo meiose para produzir machos e fêmeas haplóides que se reproduzem
                                                  assexuadamente até o calor induzir novamente o ciclo sexual.
                                                                                                       Pacotes de esperma-
                                                      Desenvolvimento                                  tozóide
                                                      sexual de gonídios

                                Indutor
                                 sexual

                                                                  Espermatozóide

          Macho assexuado                      Desenvolvimento embrionário               Macho sexuado
                                 Gonídio      modificado dos gonídios resultando
                                                  em produção de gametas
                                                                                                          Óvulos

                                Indutor
                                                                                                                                    Zigotos
                                 sexual

                                                                           Óvulo

          Fêmea assexuada                                                                 Fêmea sexuada
                                                        Meiose e germinação
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                   21


sexual indutiva de 30-kDa. Essa proteína         tando placas com V. carteri à temperaturas        de aparecer, multiplicar-se, realizando uma
é tão poderosa que concentrações meno-           que poderiam ser encontradas em um reser-         orgia sexual reprodutiva em poças de água
res que 6x10-17 fazem com que os gonídios        vatório raso durante o fim do verão. Quan-        da chuva de apenas duas semanas”
sofram um padrão modificado de desen-            do isso era feito, as células somáticas dos       (Powers, 1908). Ainda que reservatórios tem-
volvimento embrionário que resulta na            volvox assexuados produziam a proteína            porários formados pela água das chuvas se-
produção de óvulos ou espermatozóides,           sexual indutora. Sendo a quantidade da pro-       quem sob o calor do verão, Volvox encon-
dependendo do sexo genético do indiví-           teína secretada por um indivíduo suficiente       trou um meio de sobrevivência: usa o calor
duo (Sumper et al.,1993). Os espermato-          para iniciar o desenvolvimento sexual em          para induzir a formação de indivíduos sexu-
zóides são liberados para nadar para a fê-       mais de 500 milhões de volvox assexuados,         ados cujo acasalamento produz zigotos ca-
mea onde fertilizam os óvulos para pro-          um único volvox indutor pode converter um         pazes de sobreviver sob condições que ma-
duzir zigotos dormentes (Figura 1.21).           reservatório inteiro para a sexualidade. Essa     tam o organismo adulto. Observamos, tam-
     Qual é a fonte dessa proteína indutora      descoberta explica uma observação feita há        bém, que o desenvolvimento está critica-
sexual? Kirk e Kirk (1986), descobriram que      quase 90 anos, de que “na intensa radiação        mente ligado ao ecossistema ao qual o or-
o ciclo sexual poderia ser iniciado esquen-      solar do verão de Nebraska, Volvox é capaz        ganismo se adaptou para sobreviver.



Diferenciação e Morfogênese em Dictyostelium

O CICLO DE VIDA DO DICTYOSTELIUM. Um outro tipo de organização multicelular
derivada de organismos unicelulares é encontrada no Dictyostelium discoideum.* O
ciclo de vida desse organismo fascinante é ilustrado na Figura 1.22. Em seu ciclo
vegetativo, uma solitária ameba haplóide (chamada myxamoebae ou “ameba social”
para distingui-las de espécies de amebas que sempre permanecem solitárias) vive em
troncos caídos, se alimentando de bactérias e se reproduz por cisão binária. Quando
tiver esgotado seu suprimento de comida, dezenas de milhares dessas amebas se juntam
para formar um fluxo corrente de células que convergem em um ponto central. Aqui se
amontoam uma sobre a outra sob forma de um cone chamado de agregado apertado ou
justo. Subseqüentemente, uma ponta surge no topo desse monte, que se dobra forman-
do uma lesma migratória (com a ponta na frente). A lesma (geralmente lhe é dado um
título mais dignificado de pseudoplasmódio ou grex) mede normalmente de 2 a 4 mm de
comprimento e é envolvida por uma bainha viscosa. O grex começa a migrar (se o
ambiente está escuro e úmido) com sua ponta anterior um pouco levantada; quando
atinge uma área iluminada, a migração cessa, e o grex se diferencia em um corpo de
frutificação composto de células esporos e pedúnculo. As células anteriores, represen-
tando 15 a 20 porcento de toda população celular, formam o pedúnculo tubular. O
pedúnculo começa na parte centro-anterior da célula, enquanto as células pré-
pedunculares começam a secretar um revestimento extracelular estendendo um tubo
através do grex. À medida que as células pré-pedunculares se diferenciam, formam
vacúolos e aumentam de tamanho levando a massa de células pré-pedúnculo que
havia ficado nos quatro-quintos posteriores do grex (Jermyn e Williams, 1991). As
células do pedúnculo morrem, mas as células posteriores, elevadas acima do pedún-
culo, transformam-se em células-esporo. Essas se dispersam, cada uma tornando-se
uma nova mixameba.
     Em adição a esse ciclo sexual, existe a possibilidade para sexo em Dictyostelium.
Duas amebas podem fundir-se para criar uma célula gigante, que digere todas as
outra células do agregado. Quando tiver ingerido todos seus vizinhos, se enquista
em uma parede grossa e sofre divisões meiótica e mitótica; e por fim, novas mixamebas
são liberadas.
     Dictyostelium tem sido um maravilhoso organismo experimental para biologis-
tas do desenvolvimento, porque células inicialmente iguais são diferenciadas em
dois tipos alternativos de células, esporo e pedúnculo. É também um organismo
onde células individuais se juntam para formar uma estrutura coesa composta por
tipos de células diferenciadas, parecido com a formação de tecidos em organismos
    * Embora chamado coloquialmente um “fungo celular pegajoso”, Dictyostelium não é um fungo
(como Neurospora), nem é consistentemente pegajoso. É melhor considerá-lo como uma ameba social.
22   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




           Lesma
           (Pseudoplasmódio; grex)


                                                   15 h
                                                                       16 h
                            14 h
                                                                                         17 h
                                                                                   CULMINAÇÃO             20 h
                   MIGRAÇÃO




           12 h


                                                                                                Esporos
                                                                                                                             23 h


        10 h
                                                           AGREGAÇÃO
                                                                                          Mixamebas              Fluxos
                     9 h                                                                                         celulares
                           Corpo de frutificação                                                                 maduro


                                                     6 h
                                                                                                                     24h
                                              Figura 1.22
                                              Ciclo vital de Dictyostelium discoideum. Esporos haplóides originam mixamebas, que podem
                                              reproduzir-se assexualmente para formar mais mixamebas haplóides. A medida que diminui o
                                              suprimento alimentar, ocorre agregação em pontos centrais, e forma-se um agregado de
                                              pseudoplasmódio. Finalmente, esse pára de se movimentar e forma um corpo de frutificação
                                              que libera mais esporos. Os números referem-se às horas decorridas desde que a diluição
                                              nutricional iniciou a seqüência desenvolvimental.

                                              mais complexos. A agregação de milhares de amebas em um único organismo é um
                                              feito incrível de organização e convida à experimentação para resolver perguntas
                                              sobre os mecanismos envolvidos.

                                              AGREGAÇÃO DE CÉLULAS DE DICTYOSTELIUM. A primeira pergunta é: O que
                                              induz a ameba a se agregar? Microcinematografia de espaçamento temporal mostrou
                                              que não ocorre movimento direcionado durante as primeiras 4-5 horas após carência
                                              nutricional. Durante as 5 horas seguintes, porém, as células são vistas mover-se por
                                              aproximadamente 20µm / min durante 100 segundos. Esse movimento cessa após
                                              aproximadamente 4 minutos, e em seguida recomeça. Embora o movimento seja
                                              direcionado para um ponto central, não é um simples movimento radial. Antes, as
                                              células se juntam umas às outras para formar correntes; essas convergem em corren-
                                              tes maiores, e finalmente todas se juntam no centro. Bonner (1947) e Shaffer (1953)
                                              mostraram que esse movimento é devido à quimiotaxia: as células são guiadas para os
                                              centros de agregação por uma substância solúvel. Essa substância foi posteriormente
                                              identificada como adenosina 3’,5’ monofosfato cíclico (cAMP) (Konijn et al., 1967;
                                              Bonner et al., 1969), cuja estrutura química está mostrada na Figura 1.23A.
                                                  A agregação é iniciada à medida que cada célula começa a sintetizar o cAMP. Não
                                              há células “dominantes” que começam a secreção ou controlam as outras. Antes, os
                                              locais de agregação são determinados pela distribuição das amebas (Keller e Segal,
                                              1970; Tyson e Murray, 1989). Células vizinhas respondem ao cAMP de duas maneiras:
                                              ou iniciando sua movimentação de acordo com as pulsações de cAMP, ou acompa-
                                              nhando a liberação de seu cAMP próprio (Robertson et al., 1972; Shaffer, 1975). Em
                                              seguida, a células não respondem mais aos pulsos de cAMP por vários minutos. O
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                        23


(A)                    Adenina                      (B)




(C)




                                                    (D)




                                                                                                    Figura 1.23
                                                                                                    Quimiotaxia de amebas de Dictyostelium de-
                                                                                                    vida à ondas espirais de cAMP. (A) estrutura
resultado é uma onda giratória em espiral de cAMP, que se propaga através da                        química do cAMP. (B) Visualização de várias
população de células (Figura 1.23B-D). À medida que chega cada onda, as células dão                 “ondas” de cAMP no meio. Células centrais
                                                                                                    secretam cAMP em intervalos regulares, e
mais um passo para o centro.*
                                                                                                    cada secreção difunde para fora como um onda
    A diferenciação de amebas individuais em células pedunculares (somáticas) ou                    concêntrica. As ondas são mapeadas saturan-
esporos (reprodutivas) é uma questão complexa. Raper (1940) e Bonner (1957) de-                     do-se papel de filtro com cAMP radioativo e
monstraram que as células anteriores normalmente formam pedúnculo, enquanto as                      colocando-o sobre uma colônia em agregação.
células remanescentes, posteriores, em geral estão destinadas a formar esporos. No                  O cAMP das células secretoras dilui o cAMP
entanto, a remoção cirúrgica da parte anterior da lesma não elimina a capacidade do                 radiativo. Quando a radioatividade no papel
grex formar um pedúnculo. Em vez disso, as células que agora se encontram no final                  é registada (colocando-o sobre filme de raios-
anterior após a cirurgia (e que originalmente estavam destinadas a formar esporos),                 X), as regiões de alta concentração de cAMP
agora formam o pedúnculo (Raper, 1940). De alguma maneira, é tomada uma decisão de                  na cultura aparecem mais claras que aquelas
                                                                                                    de baixa concentração de cAMP. (C,D) On-
modo tal, que células anteriores virem células pedunculares e células posteriores
                                                                                                    das espirais de amebas movendo-se em dire-
virem esporos. Essa habilidade de células mudarem seus destinos desenvolvimentais,                  ção à fonte inicial de cAMP. (C) Essa
                                                                                                    microfotografia em campo escuro processa-
                                                                                                    da digitalmente mostra cerca de 107 células.
    * A bioquímica dessa reação envolve um receptor que liga o cAMP. Quando essa ligação            Como células móveis e imóveis dispersam a
ocorre, realiza-se transcrição específica de genes, é iniciada movimentação em direção à fonte de   luz diferentemente, a fotografia reflete movi-
cAMP, e enzimas adenilciclases (que sintetizam cAMP a partir de ATP) são ativadas. O cAMP           mento celular. As bandas claras são compos-
recém-formado ativa seus receptores próprios, assim como aqueles de seus vizinhos. As células       tas de células migratórias alongadas; as ban-
na área permanecem insensíveis às novas ondas de cAMP até que o cAMP ligado seja removido           das escuras são células que pararam de se
dos receptores por outra enzima da superfície celular, a fosfodiesterase (Johnson et al., 1989).    mover e se arredondaram. (D) As células for-
A matemática de tais reações de oscilação prevê que a difusão de cAMP seria inicialmente            mam correntes, a espiral de movimento ainda
circular. Porém, à medida que o cAMP interage com as células que recebem e propagam o sinal,        pode ser vista movendo-se em direção ao cen-
as células que recebem a parte frontal da onda começam a migrar com uma velocidade diferente
daquela das células atrás delas. O resultado é a espiral rotatória de cAMP e a migração vistas na   tro. (B de Tomchick e Devreotes, 1981, cor-
Figura 1.23. É interessante que as mesmas fórmulas matemáticas predizem o comportamento de          tesia de P. Devreotes; C e D de Siegert e Weijer,
certas reações químicas e a formação de novas estrelas em galáxias espirais rotatórias (Tyson e     1989, cortesia de F. Siegert.)
Murray, 1989).
24   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




                                     Figura 1.24
                                     Células de Dictyostelium sintetizam um adesivo, glicoproteína 24-kDa, pouco após a inanição
                                     nutricional. Células de Dictyostelium foram coradas com um anticorpo fluorescente que se liga
                                     à glicoproteína 24-kDa e foram em seguida observada sob luz ultravioleta. Essa proteína não foi
                                     vista em amebas que tinham apenas parado de se dividir. No entanto, como mostrado aqui – 10
                                     horas após o fim da divisão celular – amebas individuais são vistas apresentando essa proteína
                                     em suas membranas celulares e são capazes de aderir umas às outras.

                                     de acordo com sua localização dentro do organismo inteiro, e assim compensar por
                                     partes faltantes, é chamada regulação. Veremos esse fenômeno em muitos embriões,
                                     inclusive naqueles dos mamiferos.

                                     MOLÉCULAS DE ADESÃO CELULAR EM DICTYOSTELIUM. Como essas células
                                     individuais aderem entre si para formar um organismo coeso? Este é o mesmo proble-
                                     ma que enfrentam as células embrionárias, e a solução que evoluiu para os protistas é
                                     a mesma que aquela usada pelos embriões: moléculas de adesão celular reguladas
                                     pelo desenvolvimento.
                                         Enquanto estão crescendo mitoticamente em bactérias, células de Dictyostelium
                                     não aderem umas às outras. Porém, uma vez que a divisão celular cessa, as células se
                                     tornam progressivamente mais adesivas, alcançando um patamar de coesividade má-
                                     xima aproximadamente após 8 horas de inanição. A adesão célula-célula é mediada por
                                     uma glicoproteína de 24.0000 Da (24-kDa) que está ausente em células em crescimento
                                     mas pode ser vista pouco depois dessa fase (Figura 1.24; Knecht et al., 1987; Loomis,
                                     1988). Essa proteína é sintetizada a partir de mRNA recém-transcrito e fica localizada
                                     nas membranas celulares das mixamebas. Se essas células são tratadas com anticor-
                                     pos que se ligam a essa proteína e a mascaram, as células não irão aderir umas às
                                     outras e todo desenvolvimento subseqüente cessa.
                                         Uma vez que essa agregação inicial tiver ocorrido, é estabilizada por uma segunda
                                     molécula de adesão celular. Essa glicoproteína de 80-kDa também é sintetizada duran-
                                     te a fase de agregação. Se apresentar defeitos ou estiver ausente nas células, lesmas
                                     pequenas se formarão, e seus corpos de frutificação só atingirão aproximadamente um
                                     terço de seu tamanho normal. Assim, o segundo sistema de adesão celular, parece ser
                                     necessário para a retenção de um número de células suficientemente grande para a
                                     formação de grandes corpos de frutificação (Müller e Gerisch, 1978; Loomis, 1988). Um
                                     terceiro sistema de adesão é ativado tardiamente no desenvolvimento, quando a les-
                                     ma estiver migrando. A proteína ou grupo de proteínas que intervem no terceiro siste-
                                     ma pode existir somente em células pré-esporo e pode ser responsável pela separação
                                     de células pré-esporo de células pré-pedúnculo (Loomis, comunicação pessoal). As-
                                     sim, Dictyostelium evoluiu para três sistemas de adesão célula-célula regulados pelo
                                     desenvolvimento, e que são necessários para a morfogênese de células individuais
                                     para formar um organismo coerente. Como veremos em capítulos subseqüentes, célu-
                                     las de metazoários também usam moléculas de adesão celular para formar os tecidos e
                                     órgãos do embrião.
                                         Dictyostelium é um “organismo multicelular em tempo parcial” que não forma
                                     muitos tipos de células (Kay et al., 1989), e os organismos multicelulares mais comple-
                                     xos não se formam pela agregação de células anteriormente independentes. No entan-
                                     to, muitos dos princípios do desenvolvimento demonstrados por esse “simples” or-
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                   25


ganismo também aparecem em embriões de filos mais complexos. A habilidade de
células individuais sentir um gradiente químico (como a resposta da ameba ao cAMP)
é muito importante para a migração celular e morfogênese durante o desenvolvimento
animal. Ainda mais, o papel das proteínas da superfície celular para a coesividade
celular pode ser visto através do reino animal, e moléculas indutoras da diferenciação
estão agora começando a ser isoladas de organismos metazoários.



 Informações adicionais
                                                  &        Especulações

Evidência e Anticorpos

A         Biologia, tal como qualquer outra           Como então ir para além da mera cor-          teínas de membrana em geral). Nesse
          ciência, não trata de fatos; antes,     relação? No estudo da adesão celular em           caso, bloquear a glicoproteína também
          trata de evidências. Vários tipos       Dictyostelium, o próximo passo foi usar           causaria a inibição da agregação celu-
de evidência serão apresentados neste li-         aqueles mesmos anticorpos para bloque-            lar. Assim, a evidência perda-de–função
vro; não são todos de equivalente vigor.          ar a adesão de mixamebas. Usando uma              precisa ser amparada por muitos con-
Como exemplo, vamos usar a análise da             técnica introduzida pelo laboratório de           troles demonstrando que agentes cau-
adesão celular em Dictyostelium. O primei-        Gerisch (Beug et al., 1970), Knecht e cola-       sadores de perda de função derrubam
ro e mais fraco tipo de evidência é a evi-        boradores (1987) tomaram os anticorpos            especificamente aquela função em par-
dência correlativa. Aqui, são feitas corre-       que ligam essa glicoproteína 24-kDa e iso-        ticular, e nada mais.
lações entre dois ou mais eventos, e infe-        laram seus sítios ligantes de antígeno (as             O tipo mais forte de evidência é evi-
re-se que um evento estimule o outro.             partes da molécula do anticorpo que re-           dência-de-ganho-de-função. Aqui, o iní-
Como vimos, anticorpos marcados com flu-          conhecem o antígeno). Isso foi necessá-           cio do primeiro evento estimula um segun-
orescência para uma certa glicoproteína de        rio porque o todo da molécula de anticor-         do e mesmo em situações onde nenhum
24 kDa, não marcam células vegetativas em         po contém dois sítios ligantes de antígeno        desses eventos ocorre usualmente. Recen-
divisão; porém, esses mesmos anticorpos           que iriam ligar-se artificialmente de manei-      temente, da Silva e Klein (1990) e Faix e
acham a proteína em membranas celulares           ra cruzada e aglutinar as mixamebas. Quan-        colaboradores (1990) obtiveram tal evidên-
de mixameba logo que as células param de          do esses fragmentos ligantes de antígeno          cia para mostrar que a glicoproteína 80-kDa
se dividir e tornam-se competentes para           (chamados Fragmentos Fab) foram adici-            é uma molécula adesiva. Isolaram o gene
agregar (veja Figura 1.24). Assim, existe uma     onados às células competentes para agre-          para essa proteína e o modificaram de uma
correlação entre a presença dessa glico-          gação, as células não puderam se agre-            maneira a motivá-lo ser expresso continu-
proteína da membrana celular e a capaci-          gar. Os fragmentos de anticorpo impedi-           amente. Em seguida, recolocaram-no em
dade de agregação.                                ram as células de aderir entre si, presu–         mixameba bem-alimentada, crescendo ve-
     Evidência correlativa dá um ponto de         mivelmente por ligar–se a glicoproteína           getativamente, que usualmente não expres-
partida para investigações, mas não se            24-kDa, bloqueando sua função. Esse tipo          sa essa proteína e não tem capacidade de
pode afirmar com certeza que um evento            de evidência é chamado evidência-de-              adesão. A presença dessa proteína na mem-
estimula outro somente baseado em cor-            perda-de-função. Se bem que mais forte            brana celular dessas células em divisão foi
relações. Embora se possa inferir que a           que a evidência correlativa, ela ainda não        confirmada por marcação com anticorpos.
síntese dessa proteína causa a adesão das         exclui outras inferências. Por exemplo, é         Tais células agora aderiram umas às outras
células, é também possível que adesão ce-         possível que os anticorpos tenham mata-           mesmo nos estados vegetativos, o que nor-
lular leve as células a sintetizar essa nova      do a célula (o que poderia acontecer se a         malmente não fazem. Assim, elas tinham
glicoproteína, ou que a adesão celular e a        glicoproteína 24-kDa for um crítico canal         ganho uma função adesiva somente por
síntese da glicoproteína 24-kDa sejam             de transporte). Isso também impediria a           expressar essa glicoproteína em particular
eventos separados, iniciados pela mesma           adesão celular. Ou talvez, a glicoproteína        nas suas superfícies celulares. Essa evi-
causa subjacente. A ocorrência simultâ-           24-kDa nada tinha a ver com a adesão pro-         dência de ganho-de-função é mais convin-
nea dos dois eventos pode mesmo ser co-           priamente, mas é necessária para o funci-         cente que outros tipos de análise. Experi-
incidência e os eventos não terem relação         onamento da verdadeira molécula adesi-            mentos semelhantes foram recentemente
um com o outro.*                                  va (como através da estabilização de pro-         realizados em células de mamíferos (veja
                                                                                                    capítulo 3), para demonstrar a presença de
    * Em uma carta irônica, caçoando de tais inferências correlativas, Sies (1988) demonstrou uma   determinadas moléculas adesivas celula-
notável boa correlação entre o número de cegonhas vistas na Alemanha Ocidental de 1965 até 1980     res no embrião em desenvolvimento.
e o número de bebês nascidos durante esses mesmos anos.
26    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                             DIFERENCIAÇÃO EM DICTYOSTELIUM. A diferenciação em uma célula-pedúncu-
                                             lo ou em uma célula-esporo reflete um dos principais fenômenos da embriogênese: a
                                             seleção pela célula de uma trajetória desenvolvimental. As células freqüentemente
                                             selecionam um determinado destino desenvolvimental quando alternativas estão dis-
                                             poníveis. Uma determinada célula num embrião de vertebrado por exemplo, pode tor-
                                             nar-se uma célula da epiderme ou um neurônio. Em Dictyostelium, vemos uma decisão
                                             dicotômica simples, porque somente dois tipos celulares são possíveis. Como uma
                                             célula torna-se uma célula de pedúnculo ou uma célula de esporo? Embora os detalhes
                                             não sejam totalmente conhecidos o destino de uma célula parece ser regulado por
                                             certas moléculas difusivas. Os dois principais candidatos são o fator indutor de dife-
                                             renciação (DIF) e o cAMP. DIF parece ser necessário para a diferenciação da célula
                                             peduncular. Esse fator, tal como o fator indutor de sexo em Volvox, é eficaz em concen-
                                             trações muito baixas (10-10M); e, como a proteína de Volvox, parece induzir a diferen-
                                             ciação de um determinado tipo de célula. Quando adicionado às amebas isoladas ou
                                             mesmo às células pré-esporo (posteriores), induz a formação de células pedunculares.
                                             A síntese desse lipídeo de baixo peso molecular é regulada geneticamente, pois há
                                             cepas mutantes de Dictyostelium que formam somente o precursor de células-esporo
                                             e não de células pedunculares. Quando DIF é adicionado a essas culturas de mutantes,
                                             células penduculares conseguem se diferenciar (Kay e Jermyn, 1983; Morris et al.,
                                             1987), e novos mRNAs específicos pré-pedúnculo são encontrados no citoplasma
                                             celular (Williams et al., 1987). O mecanismo pelo qual DIF induz 20 porcento das
                                             células do plasmódio (grex) a tornar-se tecido peduncular ainda é controverso (veja
                                             Early et al., 1995). DIF pode agir através da liberação de íons de cálcio de compartimen-
                                             tos intracelulares no interior da célula (Schaulsky e Loomis, 1995). [other.html#intro3]
                                                 Embora DIF estimule amebas a tornarem-se células pré-pedúnculo, a diferencia-
                                             ção de células pré-esporo é mais provavelmente controlada por pulsos contínuos
                                             de cAMP. Altas concentrações de cAMP iniciam a expressão de mRNA pré-esporo
                                             específico, em amebas agregadas. Além disso, quando lesmas são colocadas em um
                                             meio contendo uma enzima que destrói cAMP extracelular, as células pré-esporo
                                             perdem suas características de diferenciação (Figura 1.25; Schaap e van Driel, 1985;
                                             Wang et al., 1988a,b).


                                                                          (A)




                                                                          (B)




Figura 1.25
Substâncias químicas que controlam a diferenciação em Dictyostelium. (A) e (C)
(B) mostram os efeitos de se colocar lesmas Dictyostelium em um meio
contendo enzimas que destroem cAMP extracelular. (A) Grex (pseudoplas-
módio) corado para presença de uma proteína pré-esporo específica (regiões
claras). (B) Grex semelhante corado após tratamento com enzimas que de-
gradam cAMP. Não é visto produto pré-esporo específico. (C) Amplifica-
ção maior de uma lesma tratada com DIF (na ausência de amônia). O corante
usado liga-se à parede de celulose das células pedunculares. Todas as células
do grex tornaram-se células pedunculares. (A e B de Wang et al., 1988a; C de
Wang e Schaap, 1989; cortesia dos autores.)
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                    27



 Informações adicionais
                                               &       Especulações

Como o Grex Sabe Qual Lado Está Para Cima
S      E TODAS AS AMEBAS do grex
       começarem no mesmo nível, como
       podem células nos quatro-quintos
posteriores da lesma se diferenciar em cé-
                                               da estão emanando da ponta apical do
                                               agregado. Esses pulsos são quimiotácti-
                                               cos para células pré-pedúnculo, mas não
                                               para células pré-esporo, de modo que atra-
                                                                                            luz solar, cessa de migrar e sofre a diferen-
                                                                                            ciação final em esporos e pedúnculo. Du-
                                                                                            rante esse processo (chamado culmina-
                                                                                            ção), o grex se apóia em um dos terminais
lulas-esporo, enquanto células equivalen-      em as células pré-pedúnculo para a ponta     fazendo com que as células traseiras se
tes do quinto anterior se tornam células       da agregado (Matsukuma e Durston, 1979;      tornem sua base. Algumas células pstA
pedunculares? A resposta pode estar na         Mee et al., 1986; Siegert e Weijer, 1991;    migram para o tubo central de células pstB,
observação de que as células originais não     Takeuchi, 1991).Portanto, o AMP cíclico      e quando entram em contato com o tubo
são todas iguais. Amebas sujeitas à ina-       parece ter várias funções no desenvolvi-     central, diferenciam-se em células pstB, sin-
nição durante a parte precoce de seu ci-       mento de Dictyostelium. Agrega as célu-      tetizando componentes de uma nova matriz
clo celular tendem a se mover para a por-      las umas às outras, induz diferenciação de   extracelular. As células novas são adiciona-
ção anterior do pseudoplasmódio, en-           células pré-esporo e dirige a migração de    das à região anterior do tubo, forçando-o
quanto amebas expostas à inanição du-          células pré-pedúnculo para a parte anteri-   mais para dentro da estrutura culminativa.
rante o fim do ciclo, tendem a permanecer      or do agregado.                              Esse tubo se diferencia para tornar-se o pe-
na porção posterior (McDonald e Durs-              Uma vez completo, o agregado tomba       dúnculo. Ao mesmo tempo, as células pstA
ton, 1984; Weijer et al., 1984). Esse traba-   sobre um dos lados e forma o grex migra-     que tinham ficado na região posterior do
lho foi confirmado e ampliado por Ohmori       tório. A maioria das células pré-pedúncu-
e Maeda (1987), que mostraram que célu-        lo estão nos 20 porcento anteriores do
                                                                                            Figura 1.26
las não-alimentadas durante a parte tar-       grex, porém, há também algumas células
                                                                                            Regulação da diferenciação de células pedun-
dia do ciclo celular, respondem de manei-      pré-pedúnculo espalhadas através da par-
                                                                                            culares durante a fase de culminação do cresci-
ra diferente ao cAMP e mostram adesivi-        te posterior. Células pré-pedúnculo podem    mento de Dictyostelium. Representação
dade muito mais alta que células jejuadas      ser distinguidas pela sua secreção de pro-   esquemática mostrando que células pré-esporo
imediatamente após a mitose. Williams e        teína A da matriz extracelular para espa-    e pré-pedúnculo estão em geral misturadas no
colaboradores (1989) acharam que célu-         ços intercelulares. No centro da porção      estágio precoce da agregação, mas se separam
las pré-esporo e pré-pedúnculo podem ser       anterior do grex, um outro grupo de célu-    de modo que a maioria das células pré-
diferenciadas em agregados precoces e          las pré-pedúnculo começa a secretar uma      pedúnculo se encontrem na parte anterior do
que estão distribuídas de modo aleatório       segunda nova proteína (proteína B), para     grex. As células pré-pedúnculo A constituem
através desses montes hemisféricos. As-        sua matriz extracelular. Essas células são   a maior parte do anterior do grex, com alguma
sim, as tendências para certos destinos        chamadas células pré-pedúnculo B (pstB),     células similares no posterior. Células pré-
foram estabelecidas até mesmo antes do         enquanto a maioria das células pré-pedún-    pedúnculo B são vistas na parte central da
grex começar a migrar. Dentro de cada agre-    culo são conhecidas como células pré-        porção anterior do grex. Nos estágios preco-
gado, a maioria das células pré-pedúncu-       pedúnculo A (pstA) (Figura 1.26). Outro      ces da culminação, as células pré-pedúnculo
lo, migram ativamente para o anterior, en-     grupo de células pré-pedúnculo, as célu-     do posterior migram para formar o disco basal
quanto células pré-esporo permanecem           las pstO, estão espalhadas de maneira        e os cálices do saco de esporos; as células pré-
no que se tornará a região posterior do        esparsa através das células pré-esporo, e    pedúnculo A do anterior migram para o centro
                                                                                            e se tornam células pré-pedúnculo B. Isso es-
grex. Essa migração provavelmente é de-        migram mais lentamente em direção ao
                                                                                            tende o pedúnculo até que esse eleve a caixa de
vida a repetidos pulsos de cAMP que ain-       anterior. Quando o grex se encontra na
                                                                                            esporos acima da superfície. (Segundo
                                                                                            Harwood et al., 1992).

    Células pré-pedúnculo A                                                                 Cálice superior
    Células pré-pedúnculo B
    Células pré-pedúnculo AB                                                                                              Células
    Direção do movimento celular                                                                                          pré-esporo
    Células pré-esporo                                                                              Cálice
                                                         Pré-pedúnculo AB
                            Pré-pedúnculo AB                                                      Inferior             Pré-pedúnculo AB
                                                     Pré-pedúnculo B
                 Guarda da   Pré-pedúnculo A
                retaguarda                                                                                         Disco basal interior
                                                                                                                       Disco basal exterior


                                   Pré-pedúnculo B                                                                    Pré-pedúnculo B

     Agregado                        Grex                   Culminante precoce    Culminante médio       Culminante tardio
28    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


grex migram para as bordas da região pré-     (Gross et al., 1983; Wang et al., 1990).           passa a fosforilar um repressor que esta-
esporo e diferenciam-se no invólucro dos      Bonner e colaboradores (1985), sugeriram           va inibindo a expressão dos genes de di-
esporos e disco basal (Williams e Jermyn,     que como a luz causa difusão mais rápida           ferenciação do pedúnculo. No estado fos-
1991; Harwood et al., 1992). Finalmente,      da amônia, remove o inibidor permitindo            forilado, o inibidor é inativo. Portanto, uma
os esporos são levantados 2 mm acima          assim, o progresso da culminação.                  vez que os níveis de cAMP se elevam (pela
do solo, de onde podem ser dispersos              A amônia parece inibir a produção do           remoção da amônia), a PKA pode inativar
pelo vento ou um animal que passa.            pedúnculo pelos menos de duas manei-               o inibidor dos genes formadores do pe-
    O gatilho para a culminação parece ser    ras. Inibe a ação de DIF (Wang e Schaap,           dúnculo (Figura 1.27). [intro.4html]
a luz solar ou a baixa umidade. Experimen-    1989), e inibe a produção de cAMP nas
tos recentes sugerem que esses dois fa-       células pré-pedúnculo (Schindler e Sus-            Figura 1.27
tores causam a difusão de amônia da les-      sman, 1977; Harwood et al., 1992). Esse            Uma hipótese para a iniciação coordenada da
ma. A amônia é produzida copiosamente         cAMP é necessário para ativar a proteína           culminação e diferenciação de células
por lesmas migratórias e reprime a culmi-     quinase cAMP-dependente (PKA). Célu-               pedunculares em Dictyostelium. A luz solar
                                                                                                 dissipa a amônia na parte anterior do grex,
nação. Sempre que a amônia estiver exau-      las pré-pedúnculo contendo PKA não-                permitindo maior produção de cAMP nas cé-
rida (quer naturalmente ou experimental-      funcional, não fosforilam certas proteínas.        lulas pré-pedúnculo. A concentração mais alta
mente), a culminação começa (Schindler e      Essas células não migram para a região             de cAMP ativa a PKA, que fosforila um
Sussman, 1977; Newell e Ross, 1982;           central anterior, nem se diferenciam em            inibidor da expressão gênica do pedúnculo. O
Bonner et al., 1985). A amônia inibe a con-   células do pedúnculo (Firtel e Chapman,            inibidor fosforilado não pode mais inibir os
versão de células pstA em pstB e proíbe a     1990; Harwood et al., 1992). Os dados              genes pedúnculo-específicos. A seqüência pela
                                                                                                 qual a formação de esporos é inibida, não está
continuação da formação do pedúnculo          sugerem que quando PKA é ativada,                  clara. (Baseado em modelos de Bonner et al.,
                                                                                                 1985, e Harwood et al., 1992)
                                   cAMP
                  Amônia
                                                                       Repressor ativo da
                                                                       diferenciação e de                               Migração
                                                                       genes de migração                               continuada
                                                                           peduncular                                    do grex

Luz solar                                       PKA
                                               inativa
                                    cAMP

                                               PKA
                                               ativa


                                                                                                                              Transcrição
                                                                                                                         do gene da proteína B
                                                                                                                         da matriz extracelular;
                                                                        Repressor inativo
                                                                                                                           migração de células
                                                                          (fosforilado)
                                                                                                                             pré-pedúnculo;
                                                                                                                            diferenciação e
                                                                                                                         culminação peduncular




                                              Padrões desenvolvimentais entre metazoários
                                              Como o restante deste livro se ocupa do desenvolvimento de metazoários - animais
                                              multicelulares que atravessam estágios embrionários de desenvolvimento - apre-
                                              sentaremos um visão panorâmica dos seus padrões desenvolvimentais.* A Figura
                                              1.28 ilustra os principais rumos evolutivos do desenvolvimento metazoário. A ob-
                                              servação mais impressionante é que a vida não evoluiu segundo uma linha reta;
                                              apresenta diversos caminhos evolutivos ramificados. Podemos ver que a maioria
                                              das espécies de metazoários pertence a um de dois principais ramos de animais:
                                              protostomatas e deuterostomatas.

                                                   *Plantas passam por padrões igualmente complexos e fascinantes de desenvolvimento embri-
                                              onário e pós-embrionário. No entanto, o desenvolvimento das plantas difere significativamente
                                              daquele dos animais; a inclusão de um tratamento abrangente do seu desenvolvimento teria dobrado
                                              a extensão deste livro. Por isso, foi tomada a decisão de enfocar neste texto, o desenvolvimento dos
                                              animais. Para uma revisão, veja Singer, 1997.
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                                    29


                                             BILATERIA                                                                                    RADIATA        PARAZOA

           DEUTEROSTOMATAS                                                  PROTOSTOMATAS




                Ascídios                           Moluscos              Artrópodos                                           Platel-     Cnidários       Poríferos
                                                                                                  Nematelmintos
Vertebrados   (Tunicados)   Equinodermos                        Anelídeos                                                     mintos    (Celenterados)   (Esponjas)


  Segmentados           Não-segmentados
                                                                                            Larva
                                                                                          trocófora


                                                   Clivagem em




                                                                                                                a
                                                                                                               ad
                                              espiral gastrulação




                                                                                                           m
                                                                                                          lo
                                                  protostosomal           da




                                                                                                       ce
                                                                       ma




                                                                                                   do
                                                                     lo




                                                                                                  eu
                                                                     ce



  Larva dipleura



                                                                                                ps




                                                                                                                          a
                                                                 izo




                                                                                                                      ad
                                                                                             em
    (tornária)




                                                                                                                     m
                                                                qu




                                                                                                                    elo
                                                                                          ag
                                                            es




                                                                                                                ac
                                                                                        nh
                                                           em




                                                                                       Li




                                                                                                               em
                                                       ag




                                                                                                           ag
                                                      nh




                     Clivagem radial
                                                                                                          nh
                                                    Li




                         gastrulação                                                                 Li
                      deuterostomal

                                                                                                      L
                                                                                                DIA
                                                                                           RA
SIMETRIA           Platelmintos primitivos                                             RIA
                                                                                  ET
BILATERAL          (acelomados)                                             SIM


                    Larvas planulóides




                   Protozoários coloniais
                   primitivos



                   Protistas flagelados


Figura 1.28
Principiais divergências evolucionárias em animais existentes. (Outros modelos são possíveis,
porém, os esquemas em geral são todos semelhantes ao mostrado aqui.)




Os Poríferos
Considera-se que os protistas coloniais deram origem, ao menos, a dois grupos de
metazoários, ambos passando por estágios embrionários. Um desses grupos é o Porífero
(esponjas). Esses animais desenvolvem-se de um modo tão diferente daquele de qual-
quer outro grupo de animais, que alguns taxonomistas sequer consideram-nos
metazoários (chamando-os, “parazoários”). Uma esponja tem três tipos principais de
células somáticas, mas um deles, o arqueócito, pode se diferenciar em todos os outros
30   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                     tipos. As células de uma esponja quando passadas por uma peneira, podem regenerar
                                     novas esponjas a partir de células individuais. Ainda mais, em alguns casos, tal re-
                                     agregação é espécie-específica: se células individuais de esponja de duas espécies
                                     diferentes forem misturadas, cada uma que se re-forma contém somente células de
                                     uma espécie (Wilson, 1907). Nesses casos, admite-se que os arqueócitos móveis cole-
                                     cionam células de sua espécie, mas não das outras (Turner, 1978). Esponjas não con-
                                     tém mesoderma, não havendo portanto verdadeiros sistemas de órgãos em Porífero;
                                     esses seres não têm tubo digestivo, sistema circulatório, nervos ou músculos. Assim,
                                     apesar de passarem por estágios embrionários e larvais, esponjas são muito pouco
                                     parecidos com a maioria dos metazoários (veja Fell, 1997).

                                     Protostomatas e Deuterostomatas
                                     O outro grupo de metazoários emergindo dos protistas coloniais é caracterizado pela
                                     presença de três camadas germinativas durante o desenvolvimento. Alguns membros
                                     do grupo constituem os Radiatas, assim chamados porque têm simetria radial tal como
                                     um tubo ou uma roda. Os Radiatas incluem os cnidários (medusas, corais e hidras) e
                                     ctenóforos (medusas de crista). Nesses animais, o mesoderma é rudimentar, consistin-
                                     do de células escassamente disseminadas em uma matriz gelatinosa. Porém, a maioria
                                     dos metazoários tem simetria bilateral, constituindo assim, os Bilaterias. Esses filos
                                     bilaterais são classificados como platelmintos, protostomatas ou deuterostomatas.
                                     Pensa-se que todos os Bilateria descendam de um tipo primitivo de platelminto. Esses
                                     platelmintos foram os primeiros a ter mesoderma verdadeiro (embora não tivessem
                                     ficado ocos para formar uma cavidade corpórea), e foram considerados parecidos com
                                     as larvas de certos celenterados contemporâneos. Enquanto os platelmintos são des-
                                     providos de celoma (cavidade corpórea), os nematelmintos (e rotiferas) têm uma cavi-
                                     dade corpórea diferente daquela de todos os outros animais, por ser desprovida de
                                     revestimento mesodérmico. A maioria dos filos são celomados, isto é, possuem uma
                                     cavidade corporal revestida por mesoderma.
                                         As diferenças entre as duas divisões de Bilateria estão ilustradas na Figura 1.29.
                                     Protostomatas (do Grego, “boca primeiro”), incluem os filos dos moluscos, artrópodos
                                     e vermes; são assim chamados porque a boca é formada em primeiro lugar, junto ou
                                     próximo da abertura intestinal, produzida durante a gastrulação. O ânus se forma mais
                                     tarde em outro local.
                                         A cavidade corpórea desses animais se forma a partir de uma previamente sólida
                                     corda de células mesodérmicas, tornadas ocas. A outra grande divisão dos Bilateria é
                                     a linhagem dos deuterostomatas. Os filos nessa divisão incluem os chordatas e os
                                     equinodermos. Embora possa parecer estranho classificar seres humanos e cavalos
                                     no mesmo grupo que estrelas-do-mar e ouriços-do-mar, alguns traços embriológicos
                                     acentuam esse parentesco. Em primeiro lugar, nos deuterostomatas (do Grego signifi-
                                     cando “boca depois”), a abertura bucal é formada depois da abertura anal. Também,
                                     enquanto prostostomatas em geral formam suas cavidades corpóreas tornando oco
                                     um bloco sólido de mesoderma (formação esquizelóide), a maioria dos deuterostomatas
                                     formam suas cavidades corpóreas a partir de bolsas mesodérmicas estendendo-se do
                                     intestino (formação enterocélica). Porém, deve-se mencionar que há muitas exceções
                                     a essas generalizações.
                                         Protostomatas e deuterostomatas diferem na maneira pela qual são clivados. Na
                                     maioria dos deuterostomatas, os blastômeros são perpendiculares ou paralelos uns aos
                                     outros. Isso é chamado clivagem radial. Protostomatas ao contrário, têm uma extensa
                                     variedade de tipos de clivagem. Muitas espécies formam blástulas compostas por célu-
                                     las que estão em ângulos agudos relativamente ao eixo polar do embrião. São por isso
                                     considerados sofrer clivagem espiral. Além disso, os blastômeros em estágio de clivagem,
                                     na maioria dos deuterostomatas, têm maior capacidade de regular seu desenvolvimento
                                     do que os prostostomatas. Se um único blastômero é removido de um embrião
                                     quadricelular de ouriço-do-mar ou camundongo, tal blastômero irá desenvolver-se em
                                     um organismo inteiro, e os três-quartos restantes do embrião também irão se desenvolver
CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                       31



(A) PROTOSTOMATAS                                                 (B) DEUTEROSTOMATAS

1. Clivagem espiral                                               1. Clivagem radial




2. Desenvolvimento esquizocélico                                   2. Desenvolvimento enterocélico

                                                  Celoma                                                                Celoma
                                                                                         Bolsa
                         Blastocele                               Blastocele
                                                                                         Intestinal

                                  Mesoderma                                                     Bolsas se
                                   se divide                                                    destacam


                            Mesoderma                                                      Mesoderma


                      Intestino                  Intestino                          Intestino                            Intestino


3. Tendência a não regulação                                         3. Tendência à regulação




      Embrião de               Um blastômero   Desenvolvimento
      de 4 células               excluído       interrompido         Embrião de            Um blastômero         Duas larvas normais
                                                                     de 4 células            excluído              se desenvolvem



                                                                                           Figura 1.29
                                                                                           Tendências principais dos prostostomatas e
normalmente. Porém, se a mesma operação fosse realizada em um embrião de lesma ou de       deuterostomatas. Exceções à todas essas ten-
verme, tanto o blastômero isolado como os restantes se desenvolveriam em embriões          dências gerais evoluíram secundariamente em
                                                                                           certos membros de cada grupo. (A maioria dos
parciais – cada um carente daquilo que foi formado a partir dos outros.
                                                                                           vertebrados por exemplo, não tem uma forma-
    A evolução dos organismos depende de alterações herdadas em seu desenvolvi-            ção estritamente enterocélica da cavidade cor-
mento. Um dos maiores avanços evolucionários – o ovo amniótico – ocorreu entre os          poral; e os embriões de certos deuterostomatas,
deuterostomatas. Esse tipo de ovo, exemplificado pelo da galinha (Figura 1.30), é          como os tunicados, não sofrem regulação se os
considerado ter-se originado dos ancestrais anfíbios dos répteis, há cerca de 255          blastômeros são deles removidos.)
milhões de anos. O ovo amniótico permitiu aos vertebrados vagar pela terra longe de
suprimentos de água existentes. Ao passo que a maioria dos anfíbios é obrigada a
voltar para a água para procriar e permitir o desenvolvimento de seus ovos, o ovo
amniótico carrega seu próprio suprimento de água e nutrientes. O ovo é fertilizado
internamente e contém a gema para nutrir o embrião em desenvolvimento. Ainda,
contém quatro bolsas: o saco vitelínico, que armazena proteínas nutrientes, o âmnio,
que contém fluido banhando o embrião, a alantóide, na qual restos do metabolismo
embrionário são coletados, e o cório, que interage com o ambiente externo, seletiva-
mente permitindo materiais chegar ao embrião. O todo dessa estrutura está contido em
uma casca que permite a difusão de oxigênio, ao mesmo tempo sendo suficientemente
dura para proteger o embrião de agressões ambientais. Desenvolvimento semelhante
de proteções do ovo permitiram aos artrópodes serem os primeiros invertebrados
sobre a terra. Assim, a travessia final dos limites entre água e terra ocorreu com a
modificação do estágio mais precoce do desenvolvimento – o ovo.
32     PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 1.30                                                                                        Embrião
Diagrama do ovo amniótico do pinto, mos-                                                          Intestino
trando o desenvolvimento das membranas en-
                                                                                                   Âmnio
volvendo o embrião. (A) Incubação de três dias.
O mesoderma extra-embrionário se estende do                                                       Cavidade
embrião para prover vasos sangüíneos para e                                                       amniótica
de várias regiões fora do embrião. (B) Incuba-
                                                                                                  Alantóide
ção de sete dias. A origem das membranas será
detalhada no capítulo 9. A gema será finalmen-                                                      Cório
te rodeada pelo saco vitelínico que permite a
entrada de nutrientes nos vasos sangüíneos. O                                                       Gema
cório é derivado em parte do ectoderma e es-
tende-se do embrião até a casca (onde irá tro-                                                   Saco vitelino
car oxigênio e gás carbônico e obter cálcio da                                                                                                    Alantóide
casca). O âmnio prove o meio fluido no qual
                                                          (A)                                                       (B)
cresce o embrião, e a alantóide coleta resíduos
nitrogenados que seriam perigosos para o em-
brião. Finalmente, o endoderma se transforma
no intestino e envolve a gema. A evolução do
âmnio e das outras membranas extra-embrio-                A biologia do desenvolvimento proporciona um sortimento infinito de fascinantes
nárias constituiu uma grande linha divisória          problemas e animais. No presente livro, encontraremos apenas uma pequeníssima
entre aqueles vertebrados cuja reprodução está        amostra deles, servindo para ilustrar os princípios mais importantes do desenvolvi-
ligada à água (anamniotas) e aqueles que po-          mento animal (para uma cobertura mais completa da diversidade do desenvolvimento
dem se reproduzir em áreas secas (amniotas).
                                                      animal através dos filos, veja Gilbert e Raunio,1997). Estamos apenas observando o
                                                      conjunto das marés ao nosso alcance, enquanto todo o oceano do desenvolvimento
                                                      se estende à nossa frente. Após uma breve visão dos princípios genéticos e celulares
                                                      relevantes para a biologia do desenvolvimento, investigaremos os estágios precoces
                                                      da embriogênese animal: fertilização, clivagem, gastrulação e construção do plano do
                                                      corpo vertebrado. Capítulos posteriores se concentrarão nos mecanismos genéticos e
                                                      celulares pelos quais ele é elaborado. Embora uma tentativa de cobrir as variações
                                                      importantes que ocorreram no reino animal tivesse sido feita, um certo chauvinismo
                                                      deuterostossômico pode ter ficado aparente.



LITERATURA CITADA


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                                                                                                            distribution of poly(A) + RNA and protein
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                                                      Gilbert and A. M. Raunio (eds.), Embryology:
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sensitivity to acrasin in Dictyostelium discoi-                                                             associated mating structure activation in wild-type
                                                      Sunderland, MA.
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CAPÍTULO 1 Introdução ao Desenvolvimento Animal                         33


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                                                      ducing factor from Dictyostelium discoideum.         Constructing the Organism. Sinauer Associates,
and stalk-specific cell autonomous markers. De-
                                                      Nature 328: 811-814.                                 Sunderland, MA.
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                                                      of senescence on somatic cell physiology in the
slime mold aggregation viewed as an instability.                                                           telium discoideum: A demonstration by isotope
                                                      green alga Volvox carteri. Exp. Cell Res. 14:
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                                                      Exp. Cell Res. 159: 388-398.                         Wang, M., van Driel, R. and Schaap, P. 1988a.
Knecht, D. A., Fuller, D. and Loomis, W. F.                                                                Cyclic AMP-phosphodiesterase induces dediffe-
1987. Surface glycoprotein gp24 involved in           Schindier, J. and Sussman, M. 1977. Ammonia          rentiation of prespore celIs in Dictyostelium
early adhesion of Dictyostelium discoideum. Dev.      determines the choice of morphogenetic               discoideum slugs: Evidence that cyclic AMP is
Biol. 121: 277-283.                                   pathways in Dictyostelium discoideum. J. Mol.        the morphogenetic signal for prespore differen-
                                                      Biol. 116:161-169.                                   tiation. Development 103: 611-618.
Konijn, T. M., van der Meene, J. G. C., Bonner,
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                                                                                                           Wang, M., Aerts, R. J., Spek, W. and Schaap,
of adenosine -3´,5'-cyclic phosphate. Proc. Natl.     slime molds: In vitro isolation of acrasin.
                                                                                                           P. 1988b. Cell cycle phase in. Dictyostelium
Acad. Sei. USA 58: 1152-1154.                         Nature 171: 975.
34     PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


discoideum is correlated with the expression of     Williams, J. G. and Jermyn, K. A. 1991. Cell         Williams, J. G., Duffy, K. T., Lane, D. P.,
cyclic AMP production, detection and degrada-       sorting and positional differentiation during Dic-   McRobbie, S. J., Harwood, A. J., Traynor, D.,
tion. Involvement of cAMP signalling in cell        tyostelium morphogenesis. In J. Gerhart (ed.),       Kay, R. R. and Jermyn, K. A. 1989. Origins of
sorting. Dev. Biol. 125:410-416.                    Ce11-Cell Interactions in Early Development.         the prestalk-prespore pattern in Dictyostelium
                                                    Wiley-Liss, New York, pp. 261-272.                   development. Cell 59: 1157-1163.
Wang, M., Roelfsema, J. H., Williams, J. G. and
Schaap, P. 1990. Cytoplasmic acidification          Williams, J. C., Ceccarelli, A., McRobbie, S.,       Wilson, E. B. 1896. The Cell in Development
facilitates but does not mediate DIF-induced        Mahbubani, H., Kay, R. R., Early, A., Berks, M.      and Inheritance. Macmillian, New York.
prestalk gene expression in Dictyostelium dis-      and Jermyn, K. A. 1987. Direct induction of
                                                                                                         Wilson, H. V. 1907. On some phenomena of
coideum. Dev. Biol. 140: 182-188.                   Dictyostelium pre-staIk gene expression. of DIF
                                                                                                         coalescence and regeneration. in sponges. J. Exp.
                                                    provides evidence that DIF is a morphogen. Cell
Weijer, C. J., DuschI, G. and David, C. N. 1984.                                                         Zool. 5: 245-258.
                                                    49: 185-192.
Dependence of cell-type proportioning and
sorting on cell cycle phase in Dictyostelium dis-
coideum. Exp. Cell Res. 70: 133-145.
Genes e desenvolvimento:
Introdução e técnicas                                                                                                  2
O que gostaríamos de saber é se a estrutura
é determinada diretamente pela informação
codificada no DNA, gravada no ovo... na
extensão em que estrutura pode ser ex-
pressa por informação. JONATHAN
                                              “E             NTRE OS CARACTERES que fornecem os dados para a teoria, e os
                                                             genes postulados, aos quais os caracteres se referem, está todo o cam-
                                                             po do desenvolvimento embrionário”. Aqui Thomas Hunt Morgan (1926)
                                              estava verificando que o único caminho de genótipo para fenótipo, passava através
                                              de processos desenvolvimentais. No começo do século vinte, embriologia e genética
BARD (1990)                                   não eram consideradas ciências separadas. Divergiram na década de 1920, quando
                                              Morgan redefiniu a genética como a ciência que estuda a transmissão dos traços em
Os segredos que me enlaçam e cativam são      oposição à embriologia, a ciência que estuda a expressão desses traços. Durante a
em geral segredos da hereditariedade: como    última década, porém, as técnicas da biologia molecular realizaram uma reaproximação
uma semente de pêra vira uma pereira em       entre embriologia e genética. Na realidade, os dois campos se ligaram novamente a tal
vez de um urso polar. CYNTHIA
                                              ponto que se torna necessário uma discussão prévia da genética molecular neste
OZICK (1989)
                                              texto. Questões do desenvolvimento animal que não poderiam ser consideradas há
                                              uma década, estão sendo agora resolvidas por um conjunto de técnicas envolvendo
                                              síntese de ácidos nucléico e hibridização. Este capítulo procura situar essas novas
                                              técnicas dentro do contexto do diálogo, ora em curso, entre genética e embriologia.

                                              As origens embriológicas da teoria dos genes
                                              Núcleo ou Citoplasma: Qual Controla a Hereditariedade?
                                              Mendel chamou-os Formbildungelementen, elementos construtores de formas; nós os
                                              chamamos de genes. Porém, é na terminologia de Mendel que vemos como no século
                                              dezenove os conceitos de herança e desenvolvimento estavam intimamente entrelaça-
                                              dos. Entretanto, as observações de Mendel não indicaram onde na célula ficavam esses
                                              elementos hereditários, nem como eram levados a se expressarem. A teoria dos genes,
                                              que viria a ser a pedra angular da genética moderna, teve origem em uma controvérsia no
                                              campo da embriologia. Em fins século XIX, um grupo de cientistas começou a estudar,
                                              por seu valor intrínseco, como ovos fertilizados davam origem a organismos adultos.
                                              Dois jovens embriologistas americanos, Edmund Beecher Wilson e Thomas Hunt Morgan
                                              (Figura 2.1), tornaram-se parte desse grupo de “embriologistas fisiológicos”, cada um
                                              tornando-se partidário na controvérsia sobre qual dos dois compartimentos do ovo
                                              fertilizado - o núcleo ou o citoplasma - controla a herança.


                                                                                                                                  35
36    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento




                                                                               (B)
                                                                               Figura 2.1
                                                                               (A) E. B. Wilson (1856-1939; mostrado aqui em
                                                                               aproximadamente 1899), um embriologista cujo
                                                                               trabalho, na fase precoce da embriologia e da de-
                                                                               terminação sexual, muito avançou as hipóteses
                                                                               cromossômicas do desenvolvimento. (Wilson era
                                                                               também reconhecido como um dos melhores vio-
                                                                               loncelistas amadores do país.) (B) Thomas Hunt
                                                                               Morgan (1866-1945), que desenvolveu a teoria
                                                                               dos genes a partir da embriologia. Essa fotografia
                                                                               - tomada em 1915, quando os elementos básicos
                                                                               da teoria dos genes estavam se encontrando –
                                                                               mostra Morgan usando uma lente manual para
                                                                               identificar moscas. (A) cortesia de W. N. Timmins;
                                                                               (B) cortesia de G. Allen.)
(A)




                                           Quando Morgan e Wilson entraram nesse debate, a disputa já estava bem ativa.
                                      Uma escola associada a Oskar Hertwig, Wilhelm Roux e Theodor Boveri, propunha
                                      que os cromossomos do núcleo continham os elementos construtores de formas.
                                      Esse grupo era desafiado por Eduard Pflüger, T. L. W. Bischoff, Wilhelm His e seus
                                      colegas, que acreditavam que estruturas pré-formadas não poderiam causar tão enor-
                                      mes mudanças durante o desenvolvimento; ao contrário, eles acreditavam que os
                                      padrões herdados de desenvolvimento eram causados pela criação de novas molécu-
                                      las do gameta interativo, citoplasmas. Morgan aliou-se a esse último grupo e obteve
                                      dados que interpretou com sendo consistentes com o modelo citoplasmático da he-
                                      rança. Em seu experimento mais crucial, ele removeu citoplasma do récem-fertilizado
                                      ovo ctenóforo (geléia de crista). Em 1897 Morgan relatou:

                                          Aqui, embora todo o núcleo de segmentação esteja presente, devido à perda de
                                          parte do citoplasma, produz-se embriões com defeito... Parece não haver escape
                                          da conclusão que no citoplasma, e não no núcleo, está o poder de diferenciação
                                          dos estágios precoces do desenvolvimento.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                37


   Wilson, nesse ínterim, tornou-se o maior proponente do ponto de vista de que os
elementos formadores se encontravam nos cromossomos nucleares. Defendeu
vigorosamente essa idéia em seu livro A Célula no Desenvolvimento e na Herança
(1896), salientando a necessidade da presença do núcleo para regeneração dos
protozoários (veja capítulo 1):

   Esse fato presume que o núcleo é, se não o local da formação de energia, ao menos,
   o fator controlador dessa energia e, por isso, o fator controlador da herança. Essa
   conjectura transforma-se em certeza quando nos voltamos para os fatos da matu-
   ração (meiose), fertilização e divisão celular. Todos convergem em direção da
   conclusão de que a cromatina é o elemento essencial para o desenvolvimento.

Wilson (1895) não se esquivou das conseqüências dessa conclusão*

   Agora, a cromatina é sabida ser intimamente semelhante, se não idêntica, à
   substância conhecida como nucleína...que a análise demonstra ser um compos-                (A)
   to químico toleravelmente bem definido, composto de ácido nucléico (um com-
   plexo ácido orgânico rico em fósforo) e albumina. E assim, chegamos à notável
   conclusão que a herança pode, talvez, ser efetuada pela transmissão física de um
   dado composto químico do progenitor para a descendência.

Wilson pensou que o material formador de órgãos que Morgan havia removido do
citoplasma de ovos de ctenóforo, já havia sido para ali secretado pelos cromossomos
nucleares (Wilson, 1894, 1904). Para Wilson (1905) “Os materiais citoplasmáticos pare-
cem ser apenas o meio imediato ou a causa eficiente da diferenciação, e ainda procu-
ramos sua determinação primária nas causas que residem mais profundamente.”
    Parte do maior apoio para a hipótese cromossômica da herança estava vindo dos
estudos embriológicos de Theodor Boveri (Figura 2.2 A), um pesquisador na Estação
Biológica de Nápoles. Boveri fertilizou óvulos de ouriço-do-mar com altas concentra-
ções de seu espermatozóide e obteve ovos que haviam sido fertilizados por dois
espermatozóides. Na primeira clivagem, esses ovos formaram quatro pólos mitóticos e
dividiram o ovo em quatro, em vez de duas células (veja capítulo 4). Boveri então
separou os blastômeros e demonstrou que cada célula se desenvolvia anormalmente
e de maneiras diferentes por ter cada célula diferentes tipos de cromossomos. Assim,
Boveri declarou que cada cromossomo tinha uma natureza individual e o controle de             (B)
diferentes processos vitais.
                                                                                              Figura 2.2
O Cromossomo X como uma Ponte Entre Genes e Desenvolvimento                                   O caráter singular do cromossomo foi mostra-
                                                                                              do por Boveri e Stevens. (A) Theodor Boveri
Em adição à evidência de Boveri, E. B. Wilson (1905) e Nettie Stevens (1905a,b) de-           (1862-1915) cujo trabalho Wilson (1918) co-
monstraram uma correlação crítica entre cromossomos nucleares e o desenvolvimento             mentou: “conseguiu a verdadeira fusão de
organizacional. Stevens (Figura 2.2B), uma ex- estudante de Morgan, mostrou que em            citologia, embriologia e genética – um feito bi-
92 espécies de insetos (e um cordato primitivo), as fêmeas tinham dois cromossomos            ológico que... não fica atrás de qualquer outro
sexo-específicos em cada núcleo (XX), enquanto machos tinham somente um cromos-               de nosso tempo.” Fotografia tirada em 1908,
somo X (XY ou XO). Parecia que uma estrutura nuclear, o cromossomo X, estava                  quando os estudos cromossômicos e embrio-
controlando o desenvolvimento sexual** . Morgan discordou da interpretação de que             lógicos de Boveri estavam no seu apogeu. (B)
                                                                                              Nettie M. Stevens (1861-1912), que treinou
                                                                                              tanto com Boveri como com Morgan, vista
     *Note-se que Wilson está escrevendo sobre unidades construtoras de forma na cromatina    aqui em 1904 quando era estudante de pós-
em 1896 – antes da redescoberta do trabalhos de Mendel ou do estabelecimento da teoria dos    doutorado, realizando a pesquisa que correla-
genes. Para uma análise mais detalhada das interações entre Morgan e Wilson que levaram à     cionou o número de cromossomos X com o
teoria dos genes, veja Gilbert (1978, 1987) e Allen (1986).                                   desenvolvimento sexual. [(A) cortesia de
    **
                                                                                              Baltzer, 1967; (B) cortesia do Instituto
       Wilson era um dos amigos mais íntimos de Morgan, que considerava Stevens sua melhor
estudante de pós-graduação. Ambos estavam contra Morgan nessa questão. Mesmo assim,
                                                                                              Carnegie de Washington.]
Morgan apoiou inteiramente o pedido de Stevens para fundos de pesquisa, confirmando suas
qualidades como as melhores possíveis. Wilson escreveu uma elogiosa carta de recomendação,
apesar de saber que ela seria uma rival na pesquisa (veja Brush, 1978).
38   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                     os cromossomos determinavam o sexo. Ao contrário, ele considerou o conjunto de
                                     cromossomos como uma característica sexual secundária, controlada por alguma subs-
                                     tância citoplasmática determinadora do sexo.
                                         A “conversão” de Morgan para a hipótese cromossômica ocorreu depois de
                                     obter dados contrários às suas teorias (veja Allen, 1978; Gilbert, 1978; Lederman,
                                     1989). Enquanto criava Drosophila para uma série de experimentos sobre evolu-
                                     ção, Morgan começou a obter várias mutações correlacionadas com o sexo. (Como
                                     ele logo iria mostrar, mutações ligadas ao X apareciam antes de mutações em
                                     outros cromossomos, porque defeitos no cromossomo X não são mascarados
                                     pelo cromossomo homólogo no macho.) Em 1910, Morgan mostrou que os traços
                                     para ambos sexos e cor branca dos olhos estão correlacionados de alguma manei-
                                     ra com a presença de um dado cromossomo X; entretanto, evitou considerá-los
                                     ligados fisicamente. Porém, em 1911mostrou que fatores reguladores da cor dos
                                     olhos, cor do corpo, forma das asas e sexo segregavam-se juntos com o cro-
                                     mossomo X, o que o levou a começar a visualizar os genes como fisicamente
                                     ligados um ao outro no cromossomo. O embriologista Morgan tinha demonstra-
                                     do que cromossomos nucleares eram responsáveis pelo desenvolvimento de
                                     caracteres herdados. [gene1.html]

                                     A cisão entre a embriologia e a genética
                                     A evidência de Morgan proporcionou uma base material para o conceito do gene. A
                                     genética havia sido, em geral, uma ciência empírica sobre procriação de animais e
                                     plantas; Morgan deu-lhe um fundamento científico. Movida pelo desejo de progre-
                                     dir no conhecimento da reprodução de animais e plantas (e seres humanos), e na
                                     capacidade dos geneticistas de obter rapidamente resultados concretos e matemati-
                                     camente verificáveis, a genética logo se tornou a ciência biológica predominante
                                     nos Estados Unidos (veja Allen, 1986; Sapp, 1987; Paul e Kimmelman, 1988). Na
                                     década de 1930, tornou-se disciplina autônoma, desenvolvendo seu vocabulário
                                     próprio, revistas, sociedades, organismos favorecidos, professorados e regras de
                                     evidência. Hostilidade entre embriologia e genética também emergiu. Os geneticis-
                                     tas acreditavam que os embriologistas eram antiquados e que o desenvolvimento
                                     viria a ser inteiramente explicado como o resultado da expressão gênica. Conforme
                                     proclamado por Richard Goldschmidt (1938), “O desenvolvimento, obviamente, é a
                                     produção ordenada de um padrão e assim, em última análise, os genes controlam o
                                     padrão”. Se os embriologistas não olharem para a embriogênese em termos da ativi-
                                     dade dos genes, os geneticistas o farão.
                                         Reciprocamente, os embriologistas consideraram os geneticistas como irrelevantes
                                     e mal-informados. Embriologistas como Frank Lillie (1927), Ross Granville Harrison
                                     (1937), Hans Spemann (1938) e Ernest E. Just (1939) (Figura 2.3), argumentaram que
                                     não poderia haver uma teoria genética do desenvolvimento até que ao menos três
                                     principais desafios fossem resolvidos:

                                         1. Os geneticistas teriam que explicar como cromossomos – que eram considera-
                                            dos idênticos em cada célula do organismo – direcionam tipos diferentes e
                                            variáveis de citoplasmas celulares.
                                         2. Quase todos genes conhecidos na época afetavam a modelagem das etapas
                                            finais (cor dos olhos, forma das cerdas, vascularização alar). Os geneticistas
                                            teriam que produzir evidência que os genes controlam os estágios precoces da
                                            embriogênese. Conforme enunciado por Just (citado por Harrison, 1937), os
                                            embriologistas estavam interessados em saber como uma mosca forma o seu
                                            dorso e não no número de cerdas no seu dorso.
                                         3. Os geneticistas teriam que explicar fenômenos como a determinação do sexo
                                            em certos invertebrados (e vertebrados, como répteis), nos quais o ambiente
                                            determina o fenótipo sexual.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento   39


(A)                                                         (B)




Figura 2.3                                                                                         (C)
Embriologistas tentaram impedir a genética de “conquistar” seu território na década de 1930.
(A) Frank Lillie encabeçou o Laboratório de Biologia Marinha em Woods Hole e foi um líder na
pesquisa sobre fertilização e endocrinologia reprodutiva. (B) Hans Spemann (à esquerda) e
Ross Harrison (à direita) aperfeiçoaram operações de transplante para descobrir quando eram
determinados os eixos do corpo e dos membros. Argumentaram que os geneticistas não possu-
íam um mecanismo para explicar como os mesmos genes nucleares podiam criar tipos celulares
diferentes durante o desenvolvimento. (C) Ernest E. Just fez descobertas cruciais sobre fertili-
zação. Rejeitou a genética e enfatizou o papel da membrana celular na determinação dos destinos
das células. (A cortesia de V. Hamburger; B cortesia de T. Horder; C cortesia do Laboratório de
Biologia Marinha, Woods Hole.)


    O debate tornou-se deveras veemente. Numa retórica, refletindo as ansiedades
políticas do fim da década de 1930, Harrison (1937) alertou:
    Agora que a necessidade de relacionar os dados da genética com a embriologia
    está sendo usualmente reconhecida e a sede de conhecimento dos geneticistas
    começa a impeli-los em nossa direção, não pareceria impróprio apontar para
    um perigo dessa ameaçada invasão. O prestígio do sucesso desfrutado pela
    teoria dos genes poderia facilmente tornar-se um obstáculo para a compreensão
    do desenvolvimento, por dirigir nossa atenção exclusivamente para o genoma,
    enquanto movimentos celulares, diferenciação e todos os processos desenvolvi-
    mentais são de fato realizados pelo citoplasma. Já temos teorias que referem os
    processos do desenvolvimento à ação dos genes e consideram toda performance
    como nada mais que a consecução dos potenciais dos genes. Tais teorias são
    totais e demasiadamente unilaterais.

Até que os geneticistas puderam demonstrar a existência de variantes herdadas du-
rante a fase precoce do desenvolvimento e até que os geneticistas tiveram uma bem-
documentada teoria sobre como os mesmos cromossomos podiam produzir diferentes
tipos de células, os embriologistas em geral não sentiram a necessidade de basear sua
embriologia na ação dos genes. [gene2.html]

Primeiras tentativas da genética do desenvolvimento
Porém, alguns cientistas acharam que nem a embriologia nem a genética estavam
completas uma sem a outra. Várias tentativas foram feitas para sintetizar as duas
disciplinas, mas sua primeira integração bem-sucedida veio no fim da década de
40   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                     1930, por parte de dois embriologistas, Salome Gluecksohn-Schoenheimer (agora
                                     S. Gluecksohn Waelsch) e Conrad Hal Waddington. Ambos haviam sido treinados
                                     em embriologia na Europa e tinham aprendido genética nos Estados Unidos com
                                     estudantes de Morgan. Gluecksohn-Schoenheimer e Waddington, tentaram achar
                                     mutações que afetassem o desenvolvimento precoce e processos afetados por es-
                                     ses genes. Gluecksohn-Schoenheimer (1938, 1940) mostrou que mutações nos genes
                                     de Brachyury do camundongo, causavam desenvolvimento aberrante da porção
                                     posterior do embrião, e atribuiu os efeitos desses genes mutantes a defeitos no
                                     mesoderma axial que normalmente teriam ajudado a induzir o eixo dorsal.* Além
                                     disso, Gluecksohn-Schoenheimer (1938) considerou que no trabalho com camun-
                                     dongos não era possível fazer o que os embriologistas experimentais deveriam estar
                                     fazendo - alterando a estrutura durante seu desenvolvimento e observando quais
                                     eram as conseqüências dessa operação. Em vez disso, um novo tipo de cientista era
                                     necessário, o geneticista do desenvolvimento:
                                         Enquanto o embriologista experimental desenvolve um dado experimento e em
                                         seguida estuda seus resultados, o geneticista do desenvolvimento tem que estu-
                                         dar primeiro o desenrolar do desenvolvimento (isto é, os resultados da pertur-
                                         bação do desenvolvimento) para depois, às vezes, chegar a conclusões sobre a
                                         natureza do “experimento” realizado pelo gene.

                                        Ao mesmo tempo, Waddington (1939) isolava diversos genes que causavam mal-
                                     formações alares na mosca das frutas, Drosophila. Também analisava como esses
                                     genes podiam afetar os primórdios que dão origem a essas estruturas. A asa da Droso-
                                     phila, conforme proclamou corretamente, “parecia favorável para pesquisas sobre a
                                     ação desenvolvimental dos genes”. Assim, uma das principais objeções ao modelo
                                     genético do desenvolvimento levantadas pelos embriologistas - que os genes atuam
                                     somente sobre a modelagem final do embrião e não sobre seus principais esquemas de
                                     construção – foi contrariada. [gene3.html]

                                     Evidência para a equivalência genômica
                                     Ainda permanecia uma outra grande objeção para uma embriologia baseada na genéti-
                                     ca: Como poderiam genes nucleares dirigir o desenvolvimento se os genes eram os
                                     mesmos em cada tipo celular? Essa equivalência genômica não estava provada mas
                                     era assumida (porque cada célula é o descendente mitótico do ovo fertilizado) e um
                                     dos primeiros problemas da genética do desenvolvimento era o de determinar se cada
                                     célula de um organismo tinha o mesmo genoma que outra.

                                     Metaplasia
                                     A primeira evidência para equivalência genômica veio após a 2a Guerra Mundial, por
                                     parte de embriologistas que estavam estudando a regeneração de tecidos excisados.
                                     O estudo da regeneração do olho da salamandra demonstrou que mesmo células
                                     adultas diferenciadas podem reter o seu potencial de produzir outros tipos celulares.
                                     Portanto, os genes para os produtos desses outros tipos de células devem ainda estar
                                     presentes, embora normalmente não expressos. Na salamandra, a remoção da retina


                                         *As observações de Gluecksohn-Schoenheimer levaram 60 anos para ser confirmadas através
                                     da hibridização do DNA. No entanto, quando o gene do T-locus foi clonado e sua expressão
                                     detectada pela técnica da hibridização in situ (discutida mais adiante neste capítulo), Wilkinson e
                                     colaboradores (1990) acharam que “a expressão do gene T tem um papel direto nos eventos
                                     precoces da formação do mesoderma e na morfogênese da notocorda”. Embora uma história
                                     completa do desenvolvimento precoce da genética do desenvolvimento ainda permaneça por ser
                                     escrita, mais informações sobre suas turbulentas origens podem ser encontradas em Oppenheimer,
                                     1981; Sander, 1986; Gilbert, 1988, 1991, 1996; Burian et al., 1991; Harwood, 1993; Keller, 1995;
                                     e Morange, 1996.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                 41


neural promove sua regeneração a partir da retina pigmentada, e uma nova lente pode
ser formada a partir das células da íris dorsal. A regeneração do tecido lenticular da íris
(a assim chamada regeneração Wolffiana a partir da pessoa que primeiro a observou
em 1894) foi intensamente estudada. Yamada e seus colegas (Yamada, 1966, Dumont e
Yamada, 1972) acharam que após a remoção de uma lente, uma série de acontecimentos
leva à produção de uma nova lente a partir da íris (Figura 2.4). Os núcleos do lado
dorsal da íris começam a sintetizar quantidades enormes de ribossomos, seu DNA se
replica, e divisões mitóticas se sucedem. As células da íris pigmentada começam, em
seguida, a se desdiferenciar expelindo seus melanossomos (os grânulos pigmentados
que dão ao olho a sua cor; esses melanossomos são ingeridos por macrófagos que
entram no local da ferida). A íris dorsal continua a se dividir, formando um globo de
tecido desdiferenciado na região da lente removida. Essas células começam então a
sintetizar os produtos diferenciados de células lenticulares, as proteínas do cristali-
no. Essas proteínas são fabricadas na mesma ordem que no desenvolvimento normal
da lente. Uma vez formada uma nova lente, as células do lado dorsal da íris cessam sua
atividade mitótica.
     Esses eventos não são a via normal pela qual a lente dos vertebrados é formada.
Como será visto em detalhe mais tarde, a lente normalmente se desenvolve a partir de
uma camada de células epiteliais da cabeça, induzida pelas células retinais precursoras
subjacentes. A formação da lente por células diferenciadas da íris representa metaplasia
(ou transdiferenciação), a transformação de um tipo celular diferenciado em outro
(Okada, 1991). A íris da salamandra, portanto, não havia perdido gene algum daqueles
usados na diferenciação das células da lente.




Retina          Retina
pigmentada      neural

                                Íris dorsal



                                                                                              Figura 2.4
                                Lente                                                         Regeneração Wolffiana da lente da salamandra
                                                                                              a partir da margem dorsal da íris. (A) Olho
                                                                                              normal, não-operado no estágio larval da sala-
                                Íris                                                          mandra Notophtalmus viridiscens. (B-G) Re-
                                ventral                                                       generação da lente, vista respectivamente nos
                                                                                              dias 5, 7, 9, 16, 18 e 30. A nova lente estará
                                                                                              completa no dia 30. (de Reyer, 1954, cortesia
                                                                                              de R. W. Reyer.)
(A)                                           (B)                 (C)




(D)                      (E)                         (F)                            (G)
42    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                                   Clonagem de Anfíbios: A Restrição da Potência Nuclear
                                                   O teste definitivo sobre se, ou não, o núcleo de uma célula diferenciada sofreu qual-
                                                   quer restrição funcional irreversível, seria o de conseguir que esse núcleo gerasse
                                                   todo outro tipo de célula diferenciada no organismo. Se cada núcleo fosse idêntico ao
                                                   núcleo do zigoto, o núcleo de cada célula deveria ser capaz de direcionar todo o
                                                   desenvolvimento do organismo, quando transplantado para um ovo ativado enucleado.
                                                   Porém, antes que tal experimento pudesse ser feito, três técnicas tiveram que ser
                                                   aperfeiçoadas: (1) um método para enuclear ovos do hospedeiro sem destruí-los; (2)
                                                   um método para isolar núcleos doadores intactos; (3) um método para transferir tais
                                                   núcleos para dentro do ovo sem danificar o núcleo ou o oócito.
                                                        Essas técnicas foram desenvolvidas na década de 1950, em primeiro lugar por
                                                   Robert Briggs e Thomas King que combinaram a enucleação com a ativação do ovo.
                                                   Quando um oócito de rã-leopardo (Rana pipiens) é perfurado com uma agulha limpa
                                                   de vidro, o ovo sofre todas as mudanças citológicas e bioquímicas associadas à
                                                   fertilização. Ocorre rearranjo citoplasmático interno e a finalização da meiose perto
                                                   do pólo animal da célula. Esse fuso meiótico pode ser facilmente localizado quando
                                                   empurra os grânulos pigmentados do pólo animal; a punção do oócito nesse local
                                                   induz o fuso e seus cromossomos a fluir para fora do ovo (Figura 2.5). O ovo hospe-
                                                   deiro é agora considerado estar ativado (as reações de fertilização necessárias para
                                                   iniciar o desenvolvimento foram completadas) e enucleado. A passagem de um nú-
                                                   cleo para o ovo é conseguida pela ruptura de uma célula doadora e transferência do
                                                   núcleo liberado para o oócito por meio de uma micropipeta. Algum citoplasma acom-
                                                   panha o núcleo para seu novo lar, mas a razão do citoplasma doador para o receptor
                                                   é somente de 1:105, e o citoplasma do doador não parece afetar o resultado dos
                                                   experimentos. Em 1952, Briggs e King demonstraram que núcleos da célula da blás-
                                                   tula podiam direcionar o desenvolvimento de girinos completos quando transferi-
                                                   dos para o citoplasma do oócito.
                                                        O que acontece quando núcleos de estágios mais avançados são transferidos
                                                   para oócitos ativados e enucleados? Os resultados de King e Briggs (1956) estão
                                                   delineados na Figura 2.6. Enquanto a maioria dos núcleos da blástula podiam produzir
                                                   girinos completos, houve um dramático decréscimo da capacidade dos núcleos deri-
                                                   vados de estágios mais tardios direcionar o desenvolvimento direto até o estágio de




Pólo animal                                                         Fuso
                            Agulha de vidro                   meiótico isolado
                                                                                                      Micropipeta




Fuso        Grânulos       Remoção dos cromossomos                Ovo ativado              Extração e lise da                  Núcleo doador
meiótico    pigmentados       e do fuso da célula                  enucleado                célula doadora                   inserido na célula
                                                                                                                                 enucleada

Figura 2.5
Procedimento para o transplante de núcleos da                                                                   Membrana
blástula para ovos ativados enucleados de Rana                                                                   cicatriza
pipiens. As dimensões relativas do fuso meiótico
foram exageradas para demonstrar a técnica. A
bela R. pipiens na fotografia foi derivada dessa
maneira. (Segundo King, 1966; fotografia corte-
sia de M. DiBerardino e N. Hoffner.)
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                  43


                                           Estágio desenvolvimental dos embriões e girinos                                                                                                    Figura 2.6
                                                 dos quais foram retirados os núcleos                                                                                                         Gráfico de transplantes nucleares bem sucedidos, em fun-
                                                                                                                                                                            a   l
                                                                                                                                                                         ud
                                                                                                                                                                                              ção da idade do desenvolvimento nuclear. A abscissa repre-
                                                                                                                                                                    ca                   co   senta o estágio no qual o núcleo doador (de R. pipiens) foi
                                                                                                 e                                                         o   to                   ía
                                                                               a              oc                     a                                  br         m ard                      isolado e inserido no oócito ativado e enucleado. A ordena-
nucleares que se desenvolvem normalmente




                                                                        r   di           ec                   r   di                                             co c
                                                                                    pr                                                                   om o s n t o
Porcentagem de embriões de transplantes




                                                                   ta                                    ta                                            c                                      da mostra a porcentagem desses transplantes capazes de
                                                               a                a                    a                                 la                      n e
                                                       st   ul          tr   ul              tr   ul                              ru                os      iri m                             produzir blástulas que podiam em seguida direcionar o de-
                                                   á               ás                   ás                                   êu               ir in        G ati
                                                Bl            G                     G                                    N                  G                  b                              senvolvimento para o estágio do girino nadador (Segundo
                                                                                                                                                                                              McKinnell, 1978.)



                                                                                         Girinos (Rana pipiens)
                                                                                         nadando normalmente




                                                                                    Horas a 18oC



girino. Quando núcleos de células somáticas de girinos no estágio de broto caudal
foram usados como doadores, não ocorreu desenvolvimento normal. Porém, núcle-
os de células germinativas de girinos do estágio de broto caudal (que irão finalmen-
te dar origem a um organismo completo após a fertilização), foram capazes de
direcionar desenvolvimento completo em 40 porcento das blástulas que se desen-
volveram (Smith, 1956). Assim, células somáticas parecem perder sua capacidade de
direcionar desenvolvimento completo à medida que se tornam definidas e diferenci-
adas, e a progressiva restrição da potência nuclear durante o desenvolvimento
parece ser uma regra geral. Porém, é possível que alguns núcleos celulares diferen-
ciados sejam diferentes de outros.

Clonagem de Anfíbios: A Pluripotência de Células Somáticas
John Gurdon e seus colegas, usando métodos ligeiramente diferentes de transplante
nuclear na rã Xenopus, obtiveram resultados sugerindo que os núcleos de algumas
células diferenciadas podem permanecer totipotentes. Gurdon também achou uma
progressiva perda de potência no decorrer do desenvolvimento, embora células de
Xenopus tenham retido suas potências por um período de desenvolvimento mais
longo (Prancha 1). As exceções a essa regra mostraram ser muito interessantes. Gurdon
havia transferido núcleos do endoderma intestinal de girinos Xenopus que se alimen-
tavam, para ovos ativados enucleados. Esses núcleos doadores continham um
marcador genético (um nucléolo por célula, em lugar dos dois usuais), que os distin-
guia dos núcleos do hospedeiro. Entre 276 núcleos transferidos, somente 10 (1.4
porcento) promoveram o desenvolvimento até o estágio do girino que se alimentava.
Transplantes seriados (que requeriam colocar um núcleo intestinal em um ovo e quan-
do o ovo tinha se transformado em blástula, transferia-se o núcleo da blástula para
vários outros ovos), aumentavam o rendimento para 7 porcento (Gurdon, 1962). Em
alguns casos, núcleos das células intestinais dos girinos foram capazes de gerar todas
linhagens de células – neurônios, células do sangue, nervos e assim por diante – de
um girino vivente. Além disso, sete desses girinos (de dois núcleos originais) se
metamorfosearam em rãs adultas férteis (Gurdon e Uehlinger, 1966); esses núcleos
eram totipotentes (Figura 2.7).
    King e seus colegas criticaram esses experimentos assinalando que: (1) não havi-
am sido tomadas suficientes precauções para ter certeza que células germinativas
primordiais, que podem migrar até o intestino, não foram usadas como fontes de
núcleos, e (2) as células intestinais de um girino tão jovem poderiam não se qualificarem
44    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 2.7                                       EXPERIMENTO
Procedimento empregado para obter rãs ma-                  Ovo não-fertilizado                                      Girino
duras de núcleos intestinais de girinos de Xe-               (cepa 2 – nu)                                      (cepa 1 – nu)
nopus. O ovo de tipo selvagem (2 nucléolos
por núcleo; 2-nu) é irradiado para destruir os
cromossomos maternos, e um núcleo intesti-
nal de um girino marcado (1-nu) é inserido. Em
alguns casos não ocorre divisão; em alguns ca-                                                                           Núcleo intestinal
                                                 Irradiação UV destrói                                                   epitelial é inserido
sos o desenvolvimento do embrião é sustado;
                                                 comossomos do ovo                                                       no ovo irradiado
porém, em outros casos, uma rã inteiramente
nova é formada tendo um genótipo 1-nu. (Se-
gundo Gurdon, 1968, 1977.)                                                                                Micropipeta


                                                                         Ovo receptor                Núcleo intestinal
                                                                             irradiado


                                                 RESULTADOS




                                                        Blástula                  Blástula          Blástula                Sem divisão




                                                         Girino                     Girino
                                                                                   (morre)
                                                                                                    Embrião
                                                                                                    anormal




                                                       Rã adulta
                                                     (Cepa 1 – nu)




                                                 como um tipo de célula verdadeiramente diferenciada porque células de girinos que se
                                                 alimentam ainda contêm plaquetas de gema (DiBerardino e King, 1967; McKinnell,
                                                 1978; Briggs, 1979). Para responder a essas críticas, Gurdon e seus colegas cultivaram
                                                 células epiteliais da membrana natatória de rãs adultas. Essas células mostraram estar
                                                 diferenciadas; cada uma continha queratina, a proteína característica de células adul-
                                                 tas da pele. Quando núcleos dessas células foram transferidos para oócitos ativados
                                                 e enucleados de Xenopus, nenhum dos transferidos de primeira geração progrediu
                                                 além da formação do tubo neural, pouco após a gastrulação. Por transplantes seria-
                                                 dos, porém, numerosos girinos foram gerados (Gurdon et al., 1975). Embora esses
                                                 girinos tivessem morrido antes de atingir o estado alimentar, um único núcleo celular
                                                 diferenciado ainda retinha potências incríveis. Um único núcleo derivado de uma
                                                 hemácia de uma rã adulta (que nem se replica e nem sintetiza RNA) pode sofrer mais de
                                                 100 divisões após ser transplantado para um oócito ativado e, ainda, reter a habilidade
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento              45


de gerar girinos natatórios (Orr et al., 1986; DiBerardino, 1989). Embora DiBerardino
(1987) tenha observado que “até o presente, núcleo algum de uma célula
documentadamente especializada, nem de uma célula adulta tenha mostrado ser
totipotente”, tal núcleo pode no entanto instruir a formação de todos os órgãos do
girino natatório.
    Algumas das diferenças entre os resultados dos laboratórios de Briggs e de Gurdon,
podem envolver diferenças na fisiologia do desenvolvimento das rãs Rana e Xenopus.
Quando se transfere um núcleo de uma célula diferenciada para o citoplasma do oócito,
se está pedindo ao núcleo para reverter para condições fisiológicas às quais ele não
está acostumado. Os núcleos da clivagem das rãs dividem-se rapidamente, enquanto
alguns núcleos de células diferenciadas dividem-se raramente, se tanto. Falhas em
replicar DNA rapidamente podem levar a quebras cromossômicas: tais anormalidades
foram vistas em muitas células de girinos clonados. Sally Hennen (1970) mostrou que
o sucesso desenvolvimental de núcleos doadores pode ser ampliado tratando-se
esses núcleos com espermina e resfriando os ovos para dar tempo ao núcleo de se
adaptar ao citoplasma do ovo. Acredita-se que a espermina remova histonas da
cromatina podendo “re-acertar” a atividade dos núcleos. Quando núcleos do endoderma
de girinos de Rana pipiens, no estágio de broto caudal, foram tratados dessa maneira,
62 porcento daqueles núcleos que iniciaram desenvolvimento normal, prosseguiram
até a geração de girinos normais. Em animais controle, nenhum dos núcleos conse-
guiu gerar tais girinos. Assim, os genes para o desenvolvimento do girino completo
não pareceram ter sido perdidos pelas células do endoderma.
     Podemos olhar para esses experimentos de clonagem de anfíbios de duas manei-
ras. Primeiro, reconhecer uma restrição geral de potência concomitante ao desenvolvi-
mento. Segundo, facilmente ver que o genoma da célula diferenciada é notavelmente
potente em sua habilidade de produzir todos os tipos celulares do girino anfíbio. Em
outras palavras, mesmo existindo um debate sobre a totipotência de tais núcleos,
existe pouca dúvida de que eles são extremamente pluripotentes. Certamente, muitos
genes não usados na pele ou em células sangüíneas, podem ser reativados para
produzir os nervos, o estômago, ou o coração de um girino natatório. Assim, cada
núcleo no corpo contém a maioria (se não todos) dos mesmos genes.




 Informações adicionais
                                             &       Especulações

Clonando Mamíferos por Prazer e Lucro

C        LONAR SERES HUMANOS a
         partir de células previamente di-
         ferenciadas parece ser o objeti-
vo de editores de jornais e novelistas.
                                             dessem ser geradas de núcleos diferencia-
                                             dos, essa habilidade não poderia ser
                                             extrapolada para células humanas. Além
                                             das dificuldades éticas e técnicas do tra-
                                                                                          1983). Esses zigotos reconstruídos come-
                                                                                          çam a se dividir e são então implantados
                                                                                          no útero. Os camundongos resultantes exi-
                                                                                          bem o fenótipo do núcleo doador. Enquan-
Deve ter ficado óbvio da discussão pre-      balho com o organismo humano, o cito-        to mais de 90 porcento dos zigotos enucle-
cedente que clonar um indivíduo total-       plasma do oócito humano pode não res-        ados do camundongo, recebendo pronú-
mente desenvolvido, a partir de células      ponder a sinais emitidos por um núcleo de    cleos de outros zigotos, se desenvolvem
diferenciadas, é uma formidável tarefa.      uma célula em estágio avançado. Trans-       até o blastócito (blástula), nem um único
Mesmo em anfíbios, os núcleos das célu-      plante nuclear foi conseguido em camun-      embrião (de 81), desenvolveu-se até esse
las diferenciadas não foram capazes de       dongos, pela remoção de pronúcleos           estágio quando núcleos de embriões de 4
gerar animais adultos quando colocados       (haplóides) de espermatozóide e óvulo de     células foram transferidos para zigotos
em células ativadas e enucleadas.            um zigoto, e substituição por pronúcleos     enucleados (McGrath e Solter, 1984). Simi-
    Além disso, mesmo se rãs adultas pu-     de outro (Figura 2.8; McGrath e Solter,      larmente, núcleos de embriões de 8 células
46    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


(A)                                                 (C)                                             po de ativação e implantação uterina. Usan-
                                                                                                    do modificações técnicas, Willadsen (1986)
                                                                                                    produziu carneiros de termo completo a
                                                                                                    partir de núcleos transplantados de blas-
                                                                                                    tômeros do estágio de 8 células; núcleos
                                                                                                    de embriões pré-implantados de gado, por-
                                                                                                    cos e coelhos foram capazes de direcionar
                                                                                                    o desenvolvimento completo quando
(B)                                                 (D)                                             transplantados para oócitos ativados e
                                                                                                    enucleados (Prather et al., 1987; Stice e
                                                                                                    Robl, 1988; Prather et al., 1989; Willadsen,
                                                                                                    1989). Porém, em todos esses casos, os nú-
                                                                                                    cleos vieram de embriões pré-implantados.
                                                                                                    Recentemente, Wilmut e colaboradores
                                                                                                    (1997) mostraram que é possível clonar um
                                                                                                    carneiro a partir de um núcleo de célula de
                                                                                                    glândula mamária adulta. Esse resultado
Figura 2.8     Procedimento para transferir núcleos para o ovo ativado enucleado de mamifero.
Um embrião de célula única, incubado em colcemida e citocalasina para relaxar o citoesquele-        poderá ter importantes conseqüências agrí-
to, é seguro com uma pipeta de sucção. Os núcleos haplóides derivados do espermatozóide e           colas e legais (Prather, 1991). [gene4.html]
do óvulo, não se juntaram ainda. A pipeta de enucleação perfura a zona pelúcida (a proteína
que envolve o ovo) e aspira a membrana celular adjacente e a área da célula contendo os             Clonagem de Plantas
pronúcleos. (A) A pipeta de enucleação é retirada e o citoplasma contendo os pronúcleos é           Somente nas plantas os núcleos de célu-
removido do ovo. A membrana celular não está rompida; a continuidade do citoplasma limita-          las diferenciadas de organismos adultos
do pela membrana está indicada pela flexa. (B) A membrana celular forma uma vesícula ao             podem ser facilmente vistos como capa-
redor dos pronúcleos no interior da pipeta de enucleação. (C) Essa vesícula é misturada com         zes de direcionar o desenvolvimento de
vírus Sendai (que induz a fusão de membranas nucleares) e é inserida no espaço entre a zona         outro organismo adulto. Essa habilidade
pelúcida e o outro ovo enucleado. (D) O vírus Sendai proporciona a fusão do ovo enucleado           foi dramaticamente demonstrada em célu-
e os pronúcleos envoltos pela membrana, permitindo que os pronúcleos (flexa) penetrem na            las de cenouras ou tabaco. Em 1958, F. C.
célula. (Segundo McGrath e Solter, 1983; cortesia dos autores.)                                     Steward e seus colegas estabeleceram um
                                                                                                    processo pelo qual os tecidos diferencia-
e massa celular interna (os blastômeros que         (cujas células são totipotentes) não dão        dos de raízes de cenouras podiam dar ori-
formam o embrião, mas não a placenta*)              suporte para o desenvolvimento total. Tais      gem a toda uma nova planta (Figura 2.9).
também não puderam apoiar o desenvolvi-             experimentos provavelmente fracassam            Pequenos pedaços de floema são isola-
mento. Em contraste com núcleos de ouri-            porque núcleos de blastômeros não funci-        dos da cenoura e rodados em grandes
ços-do-mar ou anfíbios, os núcleos dos              onam de maneira normal no citoplasma            frascos contendo leite de coco. Esse flui-
blastômeros precoces do camundongo                  zigótico. Por isso, a clonagem de Elvis         do (é realmente o endosperma da semen-
                                                    Presley a partir de células diferenciadas não   te do coco) contém os fatores e nutrien-
    *Cada blastômero da massa celular interna
                                                    é algo com que possamos contar.                 tes necessários para o crescimento da
é totipotente no sentido de reter sua capacida-
de de formar células de qualquer tipo no orga-          Nem todos blastômeros mamíferos             planta e os hormônios exigidos para a
nismo. Essa capacidade permite o aparecimen-        são os mesmos, todavia, as espécies             diferenciação. Sob essas condições, os
to de gêmeos.                                       mamíferas diferem muito em termos de tem-       tecidos proliferam e formam uma massa

                                                    Figura 2.9
                                                    Experimento de Steward demonstrando a
                                                    totipotência de células do floema da cenoura.


                                                                    Células livre do calo
                                                                 continuam a se desenvolver
                                                                       em suspensão
                                     Floema
                                     de raiz

                          Corte                                                                                                    Planta
Planta de                                         Proliferação de
                       transversal                                                                                                 jovem
cenoura                                            massa celular
                          da raiz
madura                                            (calo) em meio                    Planta embrionária
                                                   de cultura de                    transferida para meio   Planta de cenoura
                                                   leite de coco                    de cultura de agar      madura no agar
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento            47


desorganizada chamada calo. A continu-            de cenoura completa e fértil (Steward et           são destacadas como uma linhagem dis-
ação da rotação leva ao desbastamento             al., 1964; Steward, 1970).                         tinta de células no início do desenvol-
de células individuais do calo para o meio             Porém, plantas e animais se desen-            vimento), as plantas normalmente deri-
de suspensão. Essas células dão origem            volvem de maneira diferente; a propa-              vam seus gametas de células somáticas.
a nódulos celulares semelhantes a raízes          gação vegetativa de plantas por corte              Portanto, não é tão surpreendente que
que continuam a crescer enquanto per-             (i.e, porções de plantas que quando nu-            uma única célula de uma planta possa
manecem em suspensão. A partir desses             tridas, regeneram as partes faltantes) é           se diferenciar em outros tipos de célu-
nódulos, colocados em um meio solidifi-           uma prática agrícola comum. Além dis-              las e formar um clone geneticamente
cado com agar, o resto da planta é capaz          so, em contraste com anfíbios e mamífe-            idêntico (clone, do grego klon, signifi-
de se desenvolver, formando uma planta            ros (nos quais as células germinativas             cando “ramo”).




Sobre E. coli e elefantes: O modelo operon
Na maioria dos casos estudados, o genoma é o mesmo de célula para célula no orga-
nismo. Os genes para a proteína globina podem ser encontrados em células da pele, e
os genes para as queratinas da pele podem ser encontrados em neurônios cerebrais.
Porém, isso ainda deixa sem resposta outra grande questão levantada pelos
embriologistas: Se o núcleo de cada célula no organismo tem os mesmos genes, como
podem esses genes fazer com que essas células se tornem diferentes? *Pouco tempo
após a 2a Guerra Mundial, muitos biologistas concordaram que:

    a maior lacuna, ainda para ser preenchida, entre dois campos da pesquisa em
    biologia é provavelmente aquela entre a genética e a embriologia. É o problema
    repetidas vezes declarado, porém, até agora não resolvido, de como células com
    genomas idênticos podem se tornar diferenciadas, adquirir a propriedade de
    confeccionar moléculas com novos, ou no mínimo, diferentes padrões ou confi-
    gurações específicos.

Curiosamente, essa citação vem de Jacques Monod (1947), um geneticista
microbiano trabalhando na síntese de enzimas adaptativas, que são proteínas que
embora não sejam usualmente sintetizadas por bactérias ou levedos, serão sinte-
tizadas se os microorganismos encontrarem um novo substrato. Por exemplo, a
bactéria Escherichia coli só sintetiza β-galactosidase e outras enzimas digestoras
de lactose, quando encontram a lactose. Se a lactose está ausente do citoplasma,
essas enzimas não são sintetizadas. Mas, com a introdução de lactose no citoplasma,
esse grupo de novas enzimas aparecem. Em micróbios, ao menos, o mesmo genoma
pode produzir dois estados citoplasmáticos funcionalmente diferentes, depen-
dendo da presença ou não de determinado composto (no caso, a lactose). Monod
lançou a hipótese que o fenômeno da adaptação enzimática podia oferecer a solu-
ção para o problema de como genomas idênticos podem sintetizar diferentes mo-
léculas “específicas”.




     *A grande exceção a essa regra da constância dos genes – os genes das imunoglobulinas – é
discutida no Capítulo 10. Cada célula tem todas as subunidades gênicas das imunoglobulinas, mas em
linfócitos, algumas dessas subunidades estão rearranjadas ou mesmo suprimidas do genoma. O
terceiro desafio - a explicação de como o ambiente pode direcionar o desenvolvimento – foi
prontamente compreendida, uma vez que a explicação geral para a expressão diferencial da expres-
são gênica foi estabelecida. Conforme veremos, o modelo do operon demonstrou como uma
substância do ambiente podia efetuar a expresão gênica diferenciada.
48   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                          Monod não foi o único cientista a achar que micróbios unicelulares poderiam
                                     explicar a diferenciação multicelular. O microbiologista Sol Spiegelman (1947) declarou
                                     que a embriologia estava sendo prejudicada por sua própria terminologia. O problema
                                     da diferenciação não podia mais ser visto como uma propriedade estrutural dos teci-
                                     dos, mas passar a ser considerado uma propriedade bioquímica de células individuais.
                                     A diferenciação deveria ser vista não em termos anatômicos, mas como “produção
                                     controlada de padrões enzimáticos únicos”. Essa redefinição focaliza a atenção para a
                                     relação entre os genes do núcleo e as propriedades do citoplasma. Além disso, a
                                     síntese de uma enzima adaptativa em presença do seu substrato deveria ser discutida
                                     como uma “indução”. Esse é o termo técnico usado em embriologia para descrever a
                                     habilidade de uma célula produzir uma substância capaz de influenciar a diferenciação
                                     de outra. O agente molecular responsável deveria ser chamado “o indutor”. Spiegelman
                                     via uma semelhança fundamental entre a indução de novos tipos celulares no embrião
                                     e a indução de novas enzimas em microorganismos. [gene5.html]
                                          No fim da década de 1950, um grupo de pesquisadores acreditava que micróbios
                                     eram um excelente (e facilmente estudado) modelo para diferenciação embrionária.
                                     Muitos geneticistas microbianos explicitamente ligaram enzimas indutivas a concei-
                                     tos embriológicos. Julgavam ser válida a extrapolação, e apelaram para a unidade da
                                     natureza e, em última análise, as regras simples que esperavam encontrar. Como suge-
                                     rido por Monod (veja Judson, 1979), se alguém entender a bactéria, entenderá o ele-
                                     fante. Muitos embriologistas, porém, permaneceram cépticos a respeito da extrapolação
                                     de bactérias a embriões, enfatizando a complexidade do desenvolvimento e a diversi-
                                     dade da performance embriológica.
                                          Em 1961, Jacob e Monod sintetizaram dados sobre a indução da β-galactosidase
                                     levando à construção do modelo do operon. Esse modelo postula que a pequena
                                     molécula do indutor causava a transcrição de diferentes genes em E. coli (Figura 2.10).
                                     Em sistemas indutivos, uma proteína repressora codificada por genes liga-se ao sítio
                                     operador adjacente aos genes estruturais, impedindo a ligação da RNA polimerase ao
                                     sítio promotor que inciaria a transcrição. Estando presente, o indutor liga-se à proteína
                                     repressora alterando sua conformação de forma a impedir a ligação ao operador. Com
                                     isso, o gene torna-se capaz de transcrever mRNA, que pode ser traduzido formando
                                     proteína. Dessa maneira, o mesmo genoma pode sintetizar diferentes enzimas, depen-
                                     dendo da presença ou não do respectivo indutor. Em um importante trabalho de 1961,
                                     Jacob e Monod enfatizaram que o mecanismo de controle do operon-símile pode ser
                                     parte da regulação gênica universal. Eles conectaram seus resultados ao “problema
                                     fundamental da embriologia química que é a compreensão do porquê células dos
                                     tecidos não expressam constantemente todos os potenciais contidos em seu genoma”.
                                          O modelo do operon foi imediatamente introduzido nos textos de embriologia por
                                     cientistas que procuravam a síntese da genética com a embriologia. O livro de
                                     Waddington (1962), Novos Padrões na Genética e no Desenvolvimento, começa com
                                     um capítulo relacionando o modelo do operon de Jacob e Monod com o controle da
                                     expressão gênica no desenvovimento dos anfíbios. Waddington aprovou especial-
                                     mente esse modelo porque significava que os genes não são apenas ativos, mas
                                     reativos, respondendo às mudanças no citoplasma. Waddington considerou genes e
                                     citoplasma como mutuamente interativos. Essa perspectiva foi também salientada em
                                     Hereditariedade e Desenvolvimento (1963), síntese de embriologia com genética por
                                     John Moore, que conclui:

                                         Na geração anterior, poucos embriologistas ou geneticistas teriam previsto
                                         que a síntese dos seus campos de trabalho teria se tornado possível por estu-
                                         dos com a bactéria Escherichia coli. No entanto, essa criatura microscópica,
                                         sem embrião próprio, mostrou um caminho. Na próxima década, poderá ser
                                         difícil perceber a diferença entre um geneticista e um embriologista, à medida
                                         que eles avançam em sua ciência para além daquilo que cada um poderia ter
                                         conseguido isoladamente.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                   49


(A) O operon lac                                                     Figura 2.10
                                                                     Regulação diferencial de genes em E. coli. (A-C) No estado induzível de
                                                                     tipo-selvagem, não há transcrição de RNA de β-galactosidase a não ser
                                                                     que a lactose esteja presente. (B) Quando a lactose não está disponível,
                                                                     uma proteína repressora produzida pelo gene i liga-se ao sítio repressor
Gene indutor              Promotor            Genes estruturais
                                               para utilização
                                                                     (o), inibindo a transcrição pela RNA polimerase do promotor (p). (C)
                                Operador
                                                 da lactose          Quando o indutor lactose está presente, combina com a proteína repres-
                                                                     sora, alterando sua forma, o que faz com que a proteína não possa mais
(B) Quando não há lactose disponível                                 se ligar ao DNA operador , fazendo começar a transcrição. (D) A solubi-
                                              Genes estruturais      lidade dessa proteína é demonstrada em estudos com o mutante de E.
                                                                     coli. Quando células bacterianas haplóides com um gene indutor não-
                                                                     funcional (i-) são tornadas parcialmente diplóides com o gene tipo-
                                                                     selvagem (i+), forma-se repressor tipo-selvagem capaz de tornar indutível
                                             Não há transcrição      o gene original da β-galactosidase.
               Proteína repressora           de genes estruturais
               produzidas por
               i liga-se a o


(C ) Quando a lactose está disponível
                                              Genes estruturais




               Lactose
                                                           RNA
                                 mRNA                   polimerase
                                        β-galactosidase
                                        mRNA é transcrito
       Lactose combinando
       com o repressor,
       previne ligação a o


(D) O repressor da lactose é solúvel

                                              Genes estruturais




                   O gene i do tipo selvagem pode produzir
                   repressor para ambos cromossomos que se
                   ligam a o na ausência de lactose


                                              Genes estruturais




Síntese diferencial de RNA
A desejada unificação não ocorreu tão rapidamente como esperado por Moore. Po-
rém, baseado na evidência embriológica a favor da equivalência genômica e do mode-
lo do operon de E. coli, emergiu na década de 1960 um consenso de que as células
regulam seu desenvolvimento através da expressão gênica diferencial. Como bactéri-
as eram os modelos para tal atividade, expressão em geral significava transcrição de
mRNA. Os três postulados da expressão gênica diferencial eram os seguintes:
50   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                         1. Cada núcleo celular contém o genoma completo estabelecido no ovo fertiliza-
                                            do. Em termos moleculares, os DNAs de todas as células diferenciadas são
                                            idênticos.
                                         2. Os genes não-usados das células diferenciadas não são destruídos ou mutados,
                                            retendo o potencial de serem expressos.
                                         3. Só uma pequena porcentagem do genoma está sendo expressa em cada célula,
                                            e uma porção do RNA sintetizado é específica para aquele tipo de célula.

                                     Os dois primeiros postulados já foram discutidos. O terceiro – que só uma pequena
                                     parte do genoma está ativo produzindo produtos específicos dos tecidos – foi primei-
                                     ro testado em larvas de insetos. Após a eclosão, uma larva de inseto tem duas popu-
                                     lações celulares diferentes, formadas por cerca de 10.000 células. A maior parte tem
                                     cromossomos politênicos. Tais cromossomos sofrem replicação de DNA na ausência
                                     de mitose, contendo portanto 512 (29), 1024 (210), ou mesmo mais hélices duplas para-
                                     lelas de DNA em lugar de somente uma (Figura 2.11; Prancha 31). Essas células não
                                     sofrem mitose, e crescem expandindo seu volume até 150 vezes. Durante a metamorfo-
                                     se, tais células morrem sendo substituídas por células diplóides não politênicas agru-
                                     padas em certas regiões da larva (veja Capítulo 19). Beermann (1952) mostrou que o
                                     padrão de distribuição das bandas de cromossomos politênicos era idêntico ao longo
                                     da larva e que não se notavam perdas ou adições de qualquer região cromossômica
                                     quando diferentes tipos de células eram comparados (Figura 2.12). Porém, Beermann
                                     estudando o mosquito Chironomus e Becker (1959) estudando Drosophila, acharam
                                     regiões cromossômicas que estavam “estufadas”. Esses tufos apareciam em lugares
                                     diferentes nos cromossomos em cada tecido; seu aparecimento mudava com o de-
                                     senvolvimento dessas células (Figura 2.13). Ainda mais, alguns tufos podiam ser



                                     Figura 2.11
                                     Cromossomos politênicos. (A) Cromossomos politênicos de células da glândula salivar de
                                     Drosophila melanogaster. Os quatro cromossomos estão conectados em seus centrômeros,
                                     formando um denso cromocentro. Os genes estruturais para a álcool desidrogenase (ADH),
                                     aldeído oxidase (Aldox) e octanol desidrogenase (ODH) foram mapeados nas posições designa-
                                     das nesses cromossomos. (B) Fotografia ao microscópio eletrônico de uma pequena região de
                                     um cromossomo politênico de Drosophila. As bandas escuras estão altamente condensadas
                                     comparadas com as regiões interbandas. (A de Ursprung et al., 1968, cortesia de H. Ursprung;
                                     B de Burkholder, 1976, cortesia de G. D. Burkholder.)

                                                                    Aldox
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento             51


estimulados ou inibidos por certas mudanças fisiológicas causadas pelo calor ou por
hormônios (Clever, 1966; Ashburner, 1972; Ashburner e Berondes, 1978).
    Beermann (1961) apresentou evidências que esses tufos representam um afrouxa-
mento localizado de cromossomos politênicos (Figura 2.14) e que são sítios de síntese
ativa de RNA. Duas espécies intercruzadas diferentes de Chiromonus foram encon-
tradas: uma produzindo grande quantidade de proteína salivar e a outra não (Figura
2.15). Os produtores tinham uma tufo grande (anel de Balbiani) em determinada banda;
esse tufo não existia nos não-produtores. O cruzamento de produtor com não-produ-
tor resultou em larvas produzindo quantias intermediárias de proteína salivar. Cruzan-
do duas moscas híbridas, a capacidade de produzir proteína salivar segregou-se de
forma Mendeliana: 1 alto produtor: 2 intermediários:1 não-produtor. Altos produtores
tinham dois tufos (um em cada cromossomo homólogo), produtores intermediários
tinham apenas um, e não-produtores nenhum tufo. Beermann concluiu que a informa-
ção genética necessária para a síntese dessa proteína salivar está presente nessa
banda distal do cromossomo e que sua produção dependia de transformação em uma
região estufada.




(A)




               Glândula          Túbulos de             Tecido            Intestino
                salivar           Malpighi               retal

(B)




                                                                 Figura 2.12
                                                                 Identidade genômica em cromossomos politênicos. (A) Uma região do
                                                                 conjunto cromossômico da mosca Chiromonus tentans. Notar a constân-
                                                                 cia do número de bandas nos diferentes tecidos. (B) Hibridização do RNA
                                                                 de uma proteína da gema com um cromossomo da glândula salivar larval
                                                                 de Drosophila. Os grãos escuros (flexa) mostram onde a mensagem da
                                                                 proteína radioativa da gema se ligou aos cromossomos. Notar que o gene
                                                                 para a proteína está presente no cromossomo da glândula salivar, apesar
                                                                 da proteína não ser aí sintetizada. (A) Segundo Beermann, 1952; (B) De
                                                                 Barnett et al., 1980; fotografia cortesia de P. C. Wensink.
52    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


Figura 2.13
Seqüência de estufamentos de uma porção do cro-
mossomo 3 da glândula salivar de Drosophila mela-
nogaster. (A,B) larva de 110 horas; (C) larva de 115
horas; (D,E) estágio pré-pupa (após 4 horas). Notar
o estufamento e a regressão das bandas 74EF e 75B.
Outras bandas (71DE, 78D) estufam mais tarde, po-
rém, a maioria não estufa de modo algum durante o
período. (Cortesia de M. Ashburner.)




                                                               (A)         (B)           (C)                 (D)           (E)




                                                    Prova adicional de que tufos cromossômicos produzem mRNA vem de estudos
                                                sobre tufos do anel de Balbiani (BR2) em Chironomus tentans. O BR2 pode ser
                                                isolado por microdissecção devido seu tamanho excepcional, e seus produtos po-
                                                dem ser analisados por autoradiografia (Lambert e Daneholt, 1975). A Figura 2.16 A,
                                                B mostra o isolamento de BR2 do cromossomo 4 de C. tentans. Transcrição de BR2
                                                foi demonstrada incubando glândulas salivares isoladas com precursores de RNA



                                                         (A)




                                                                                                     (B)


Figura 2.14
Terminação proximal do cromossomo 4 da glândula sali-
var de Chiromonus pallidivitatus, mostrando o enorme
tufo BR2. (A) Fotomicrografia em contraste de fase, de
preparações coradas, mostrando o extenso tufo no cro-
mossomo politênico. (B) Diagrama da região passando
por estufamento. (A de Grossbach, 1973, cortesia de U.
Grossbach; B segundo Beermann, 1963)
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                    53



BR4(SZ)
                                                                           Alto                       Não-produtor
                                                                       produtor


                       BR2

                                                     Todos produtos
                                                      intermediários

                        BR1




                       BR3

                                               Alto produtor                                        Não-produtor
                                                                             Produtores
(A)                    (B)                     (C)                         Intermediários

                                                                                            Figura 2.15
                                                                                            Correlação de padrões de estufamento com fun-
                                                                                            ções especializadas nas células das glândulas
                                                                                            salivares de Chironomus pallidivitatus. (A)
radioativos. O RNA radioativo pôde, em seguida, ser extraído da porção BR2 do               Cromossomo de uma célula produzindo uma
cromossomo dissecado (Lambert, 1972). Esse RNA era excepcionalmente grande –                secreção granular e mostrando um anel de
cerca de 50.000 bases. O grande segmento de RNA radioativo, especificamente                 Balbiani adicional [BR4(SZ)]. (B) Cromosso-
hibridizado para a região BR2 do cromossomo, mostrou que o DNA estufado (Puff               mo 4 de uma célula salivar, mostrando somen-
de DNA) - e nenhum outro local - tinha-o transcrito ativamente (Figura 2.16C). Esse         te anéis de Balbiani 1, 2 e 3 (BR1, BR2, BR3).
mesmo RNA pôde ser isolado de polissomos sintetizadores de proteínas, indicando             (C) Evidência genética que a síntese de uma
                                                                                            importante proteína salivar depende da for-
que é ativo na síntese protéica (Wieslander e Daneholt, 1977). Assim, um RNA
                                                                                            mação de tufos BR4(SZ). Larvas com altos
transcrito de uma banda específica de DNA, que estufa na glândula salivar larval,           níveis de secreções granulares têm células sali-
pode posteriormente ser visto produzindo proteínas em ribossomos citoplasmáticos.           vares glandulares com tufos BR4(SZ) em am-
                                                                                            bos cromossomos 4 (coloridos), enquanto lar-
                                                                                            vas sem essas secreções não têm tais tufos.
                                                                                            Produtores intermediários têm somente um
                                                                                            cromossomo 4 com uma região estufada
                                                                                            BR4(SZ) em cada célula salivar realizando a
                                                                                            secreção. (A e B segundo Beermann, 1961, cor-
                                                                                            tesia de W. Beermann.)


          (A)




          (B)                                                                               Figura 2.16
                                        BR 2                                                (A,B) Isolamento da região BR2 de Chirono-
                                                                                            mus tentans por micromanipulação. O cromos-
                                                                                            somo intacto 4 pode ser dividido em três regi-
                                                                                            ões, uma contendo BR2. (C) Transcrição da
                                                                                            região BR2 mostrado por uma auto-radiogra-
                                                                                            fia in situ após hibridização do BR2 RNA com
                                                                                            a preparação cromossômica. (A e B de Lambert
                                                                                            e Daneholt, 1975; C de Lambert, 1972; foto-
          (C)                                                                               grafias cortesia de B. Lambert.)
54    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                                 Portanto, os tufos nos cromossomos salivares estão produzindo mRNA ativamen-
                                                 te. Em células que sintetizam essa proteína, o gene está ativado; em células que não
                                                 usam essa proteína, o gene permanece reprimido.

                                                 Hibridização de ácido nucléico
                                                 Poucos genes puderam ser analisados como aqueles nos tufos politênicos de
                                                 Chiromonus. E embora esses genes dos tufos eram ativos em células que já se
                                                 haviam diferenciado (como aquelas da glândula salivar), não eram os genes cau-
                                                 sadores da diferenciação celular. Para encontrar e analisar os genes que são res-
                                                 ponsáveis pelo desenvolvimento embrionário, novas técnicas tiveram que ser
                                                 aperfeiçoadas.
                                                     A maioria das técnicas para análise de genes eucariotos baseia-se na hibridização
                                                 de ácidos nucléicos. Essa técnica envolve fortalecimento de pedaços de fitas simples
                                                 de RNA e DNA, para permitir a formação de híbridos de fitas duplas. Por exemplo, se
                                                 o DNA é cortado em pequenos pedaços e cada pedaço dissociado em duas fitas
                                                 simples – desnaturado – cada fita na solução deverá achar e reunir-se com seu parcei-
                                                 ro complementar, quando lhe é dado tempo suficiente para isso. As condições de
                                                 renaturação devem ser tais que ligação específica entre fitas complementares seja
                                                 mantida e combinações não específicas sejam dissociadas. Isso é, em geral, consegui-
                                                 do variando a temperatura ou as condições iônicas da solução em que ocorre a
                                                 renaturação (Wetmur e Davidson, 1968). De maneira semelhante, RNA sintetizado a
                                                 partir de uma região particular do DNA poderia ser esperado ligar-se à fita do qual foi
                                                 transcrito (Figura 2.17). Assim, RNA pode ser esperado hibridizar especificamente
                                                 com o gene que o codifica. Para medir essa hibridização, uma das fitas de ácido nucléico
                                                 (a sonda) é em geral marcada pela incorporação de nucleotídeos radioativos. Um
                                                 problema técnico que inicialmente atormentou os estudos de hibridização de ácidos
                                                 nucléicos foi a dificuldade em conseguir colocar quantidades suficientes de radioati-
                                                 vidade na molécula de RNA. Esse problema foi superado isolando o RNA e fazendo
                                                 uma cópia complementar de DNA (cDNA) na presença de precursores radiativos. Isso
                                                 pode ser feito em tubo de ensaio contendo o RNA, uma extensão curta de DNA
                                                 (chamado de iniciador ou primer), precursores radioativos de DNA e a enzima viral
                                                 transcriptase reversa. Essa enzima pode produzir DNA de um molde de RNA (Figura
                                                 2.18). O DNA é sintetizado in vitro, não sendo necessário preocupar-se com a diluição


                                                 (A)




                                                                  Condições de                            Condições de
                                                                  desnaturação                           re-anelamento
                                                                  (calor, álcali)



Figura 2.17
Hibridização de ácidos nucléicos. (A) Se a hé-                                          RNA
                                                 (B)
lice de DNA for separada em duas fitas, essas
devem se re-anelar sob condições adequadas
de força iônica e tempo. De maneira semelhan-
te, se o DNA for separado em suas duas fitas,
o RNA deve ficar capacitado a se ligar a genes
que o codificam. Se presente em quantidades                    Desnaturar; adicionar                      RNA hibridiza
                                                                 RNA (em grande                              com uma
suficientemente grandes em comparação com
                                                                  quantidade em                            fita de DNA
o DNA, o RNA irá substituir uma das fitas de                  comparação com DNA)
DNA nessa região.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                  55


dos precursores radiativos. Além disso, o DNA pode hibridizar tanto com o gene que
produziu o RNA (embora a outra fita) e com o próprio RNA, tornando-o extremamente
                                                                                                                                  mRNA
útil para a detecção de pequenas quantidades de RNAs específicos.[other.html#gene6]
                                                                                                                             Anelar iniciador
 Clonagem de DNA genômico
                                                                                                                                  mRNA
Já em 1904 Theodor Boveri desesperava-se, considerando que as técnicas de sua
época nunca seriam suficientes para permitir-lhe estudar como os genes criam embri-                                           Transcriptase
ões. Havia necessidade de uma técnica especial de amplificação gênica:                                                        reversa
    Porque não é somente o núcleo, nem mesmo cromossomos individuais, mas cer-                                                    mRNA
    tas partes de certos cromossomos de certas células que precisam ser isolados e
    coletados em quantidades enormes para análise; essa seria uma pré-condição                                                    cDNA
    para colocar o químico em uma posição a qual lhe permitiria analisar (o mate-                                            Álcali
    rial hereditário) com mais minúcias que o morfologista.
                                                                                                                                   cDNA
    Entretanto, desde a década de 1970 a hibridização de ácido nucléico permitiu aos
biologistas do desenvolvimento realizar o que Boveri aspirava: isolar e amplificar                    Figura 2.18
regiões específicas do cromossomo. A técnica principal para isolar e amplificar genes                 Método para preparar DNA complementar
individuais é chamada clonagem de genes. A primeira fase desse processo consiste no                   (cDNA). A maioria dos mRNA possui uma
corte de DNA nuclear em pedaços distintos, por incubação de DNA com uma                               longa cadeia de resíduos de adenosina (AAAn)
endonuclease de restrição (geralmente chamada de enzima de restrição). De modo                        no terminal 3’ da mensagem (a ser discutida no
geral, essas endonucleases são enzimas bacterianas que reconhecem seqüências es-                      Capítulo 12); por isso, o pesquisador anela
pecíficas do DNA e o clivam nesses sítios (Tabela 2.1; Nathans e Smith, 1975). Por                    um iniciador consistindo de 15 resíduos de de-
                                                                                                      soxitimidina (dT15) ao final 3' da mensagem.
exemplo, quando DNA humano é incubado com a enzima BamHI (de Bacillus
                                                                                                      Transcriptase reversa em seguida, transcreve
amyloliquifaciens, cepa H), o DNA é clivado em cada sítio onde aparece a seqüência                    uma fita de DNA complementar, começando
GGATCC. Os produtos são fragmentos de DNA de vários tamanhos, todos terminan-                         no iniciador dT15. O cDNA pode ser separado
do com G em um dos lados e GATCC no outro (Figura 2.19). Esses pedaços são                            aumentando o pH da solução, dessa maneira,
freqüentemente chamados de fragmentos de restrição.                                                   desnaturando o híbrido de dupla fita e clivan-
                                                                                                      do o RNA.



Tabela 2.1       Enzimas de restrição comumente usadas

Sítio                    Derivação                               Reconhecimento e clivagem
enzimático*

EcoRI                    Escherichia coli                        G AA T T C
                                                                 C T TAA G
BamHi                    Bacillus amyloliquifaciens              G G AT C C
                                                                 C C TAG G
HindIII                  Haemophilus influenzae                  A AG CTT
                                                                 TTC GA A
SalI                     Streptomyces albus                      G TC GAC
                                                                 CAG C T G
SmaI                     Serratia marcescens                     CCC GGG
                                                                 GGG CCC
HhaI                     Haemophilus haemolyticus                GCG C
                                                                 C GCG
HaeIII                   Haemophilus aegyptius                   GG CC
                                                                 CC GG
AluI                     Arthrobacter luteus                     AGCT
                                                                 T C GA

* Todos os sítios de reconhecimento de enzimas de restrição têm um centro de simetria. A seqüência
de dupla fita lida em uma direção é idêntica à seqüência lida da frente para trás na outra direção.
56   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                         O próximo procedimento na clonagem do gene é incorporar esses fragmentos de
                                     restrição em vetores de clonagem. Usualmente esses vetores são moléculas circulares
                                     de DNA, replicadas em células bacterianas, independentemente do cromossomo
                                     bacteriano. São usados plasmídeos resistentes a drogas ou vírus especialmente modi-
                                     ficados (que são muito úteis na clonagem de grandes fragmentos de DNA). Por exem-
                                     plo, um vetor pode ser construído contendo apenas um sítio sensível à BamHI. Esse
                                     vetor pode ser aberto por incubação com essa enzima de restrição. Após a abertura,
                                     ele pode ser misturado com os fragmentos de DNA humano, produzidos também por
                                     BamHI. Em muitos casos, os pedaços do DNA cortado serão incorporados a esses
                                     vetores (porque seus terminais são complementares aos terminais abertos do vetor) e
                                     ligados covalentemente, colocando-os em uma solução contendo a enzima DNA ligase.
                                     O processo total fornece plasmídeos bacterianos, cada um contendo um único pedaço
                                     de DNA humano. Esses são chamados plasmídeos recombinantes ou, geralmente,
                                     DNA recombinante (Cohen et al.,1973; Blattner et al., 1978).
                                         O plasmídeo ilustrado na Figura 2.19 é pUC18, um vetor freqüentemente usado por
                                     biologistas moleculares (Vierra e Messing,1982). Ele contém (1) um gene resistente a
                                     drogas, AmpR, que torna a bactéria imune à ampicilina e permite ao pesquisador sele-
                                     cionar aquelas bactérias que incorporaram um plasmídeo; (2) uma origem para a
                                     replicação de DNA, permitindo ao plasmídeo replicar centenas de vezes em cada
                                     bactéria; e (3) um poli-ligante, um pedaço curto de DNA artificial que contém os sítios
                                     enzimáticos de restrição para várias dessas endonucleases. O poli-ligante se situa
                                     dentro de um gene lacZ que codifica a ß-galactosidase de E. coli. O poli-ligante é
                                     suficientemente curto (e tem o número correto de pares de bases) de modo a não
                                     interferir com a atividade enzimática da β-galactosidase. O processo de clonagem
                                     começa quando os fragmentos de restrição do DNA nuclear são misturados aos
                                     plasmídeos abertos pUC18 e a eles são ligados, ocasionando o fechamento do
                                     plasmídeo. Os plasmídeos recombinantes putativos assim formados são então incu-
                                     bados com células de E. coli sensíveis à ampicilina e sem o gene da β-galactosidase.
                                     Mesmo que as bactérias e os plasmídeos sejam misturados em condições que encora-
                                     jam as bactérias a incorporar os plasmídeos, nem todas as bactérias incorporam um
                                     plasmídeo. Para evidenciar aquelas bactérias que incorporaram plasmídeos, as células
                                     tratadas de E. coli são cultivadas em ágar contendo ampicilina. Somente aquelas
                                     bactérias que incorporaram um plasmídeo (com seu gene dominante, ampicilina-resis-
                                     tente) sobrevivem.
                                         Mas nem todos plasmídeos incorporaram um gene estranho, porque é possível
                                     que os “terminais adesivos” do sítio da enzima de restrição sofram uma renaturação
                                     entre si mesmos. Para distinguir entre colônias bacterianas que incorporaram DNA
                                     estranho e aquelas que não o fizeram, o ágar também contém um corante chamado X-
                                     gal. Esse composto é incolor, mas quando transformado pela β-galactosidase forma
                                     um precipitado azul *.Assim, se um plasmídeo não incorporou um fragmento de restri-
                                     ção ao sítio de enzima de restrição no poli-ligante, o gene da β-galactosidase (lacZ)
                                     está funcional e a β-galactosidase resultante torna o corante azul. O resultado é o
                                     aparecimento de “colônias azuis”. Entretanto, se o plasmídeo incorporou um fragmen-
                                     to de DNA, o gene da β-galactosidase é destruído pela inserção. Essas bactérias não
                                     vão produzir a cor azul do corante; produzem colônias incolores no ágar.
                                         Colônias incolores são então selecionadas quanto a presença de um gene especí-
                                     fico. Células de cada uma dessas colônias são colocadas em um finíssimo filtro de
                                     nitrocelulose ou nylon. Quando essas células são lisadas, seu DNA adere aos filtros.
                                     Em seguida, as fitas de DNA são separadas por aquecimento, e os filtros incubados
                                     em uma solução contendo o RNA radioativo (ou sua cópia de cDNA) do gene que se



                                         *O corante é 5-bromo-4-cloroindol, e é azul a não ser quando está complexado com uma
                                     molécula como galactose. A ß-galactosidase codificada pelo gene do plasmídeo cliva a galactose do
                                     corante permitindo que adquira a conformação azul.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                      57


   Sítio        Sítio BamHI        Sítio Eco RI
  Hind III
                                  Poli-ligante




                                                              Plasmídeo cortado
                                                                 no gene lacZ

                                         Quebra
                                     endonucleolítica
                                       por BamHI
                                                                                        Fragmentos
                                                                                             de gene                         Plasmídeo
                                                                                            humano                        recombinante
                                                                                        incubados e                       com gene lacZ
                                                                                     ligados em um                         interrompido
                                                                                          plasmídeo
         DNA humano


                                  Quebra endonucleolítica                                                Mistura com bactérias
                                       por BamHI                                                       (lacZ–, sensível à amp.)

Figura 2.19
Um protocolo geral para clonar DNA, usando como exemplo a inserção de uma se-
                                                                                                            “Colônias
qüência de DNA humano em um plasmídeo com um sítio sensível à BamHI.
                                                                                                            incolores”



quer clonar. Em alguns casos, a seqüência do mRNA ou gene não é conhecida,                                                         Meio contendo
                                                                                                                                   ampicilina
devendo-se então estimar a seqüência a partir da seqüência de aminoácidos da
proteína). Se o plasmídeo contém aquele gene, seu DNA deve estar no filtro, e
                                                                                                       “Colônias azuis”
somente aquele DNA deverá ser capaz de ligar o RNA radioativo ou a sonda de
cDNA. Portanto, somente aquelas áreas serão radioativas. A radioatividade nessas
regiões é determinada por auto-radiografia. Filme sensível a raios-X é colocado                               Aplicação das colônias
                                                                                                         “incolores” nos círculos do
sobre o papel tratado. Os elétrons de alta energia, emitidos pelo RNA radioativo,                           papel de filtro; lisar para
sensibilizam os grãos de prata no filme, tornando-os escuros quando o filme é reve-                                    expor o DNA
lado. Finalmente, uma mancha escura é produzida sobre cada colônia contendo o
plasmídeo recombinante que carrega o gene específico (veja Figura 2.19). Essa colô-
nia é então isolada e cultivada, produzindo bilhões de bactérias, cada uma contendo
centenas de plasmídeos recombinantes idênticos.
    Os plasmídeos recombinantes podem ser separados do cromossomo da E. coli por
centrifugação, e incubando o DNA do plasmídeo com BamHI libera-se o fragmento de
DNA extranho que contém o gene. Esse fragmento pode ser separado do DNA
plasmídico, permitindo ao pesquisador possuir microgramas de seqüências de DNA                             mRNA
                                                                                                         radioativo
purificado contendo o gene específico. Apesar desse procedimento parecer muito
lógico e fácil, freqüentemente o número de colônias a serem selecionadas é astronômi-                          Papel de filtro incubado com mRNA
co. O número de fragmentos aleatórios que devem ser clonados para a obtenção do                                  radioativo do gene a ser clonado
gene desejado, aumenta com a crescente complexidade do genoma do organismo*.
Para detectar um gene específico de um genoma de mamífero, milhões de clones indi-
viduais devem ser selecionados.


     *Complexidade se refere ao número de diferentes tipos de genes no núcleo. Apesar que
milhões de clones precisam ser selecionados, aproximadamente 100.000 colônias podem, agora,
ser selecionadas em uma única placa. Outra maneira comum de selecionar os clones é usar um
plasmídeo que tem seu sítio da enzima de restrição próximo a um vigoroso promotor bacteriano
(tal como aquele para ß-galactosidase). As bactérias transcreverão o cDNA e o traduzirão em
proteína. Após a lise das colônias bacterianas no papel de filtro, as proteínas aderem ao papel e      Preparação de auto-radiografia para indicar os
podem ser identificadas por anticorpos dirigidos contra àquela proteína. Isso é chamado clonagem       clones bacterianos com fragmento de DNA
de expressão, e os plasmídeos referidos como vetores de expressão.                                     que formou um híbrido com o DNA radioativo
58    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                                  Hibridização de DNA: entre e intra espécies
                                                  Clones podem ser selecionados por qualquer segmento de nucleotídeos radioativos.
                                                  Portanto, os genes clonados de um organismo podem ser sondados com cDNAs
                                                  radioativos derivados do mRNA de outras espécies. Uma das descobertas mais exci-
                                                  tantes da moderna biologia do desenvolvimento foi verificar que genes usados para
                                                  processos específicos de desenvolvimento em um organismo, podem ser usados para
                                                  processos similares em outro organismo. Drosophila teve uma importância crítica na
                                                  descoberta desses genes. Iniciando com Morgan, esses genes foram mapeados e, nos
                                                  anos 60, E. B. Lewis confirmou que alguns desses genes são responsáveis pela forma-
                                                  ção de partes básicas do corpo (veja Capítulo 14). Um deles, Antennapedia, é um gene
                                                  cujo produto protéico é essencial para inibir a formação de estruturas da cabeça no
                                                  tórax. Se o gene não está presente, antenas crescem onde deveriam estar as pernas. Se
                                                  o gene é expresso na cabeça (como sucede em um mutante específico), a mosca
                                                  desenvolve um conjunto extra de pernas saindo das cavidades orbitais (veja Figura
                                                  14.28). Poderia tal gene existir em vertebrados?
                                                      Evidências desses genes em vertebrados apareceram em transferências de DNA,
                                                  algumas vezes chamadas de transferências Southern devido a seu inventor, E. M.
                                                  Southern (1975). DNA de numerosos organismos vertebrados e invertebrados, foram
                                                  tratados com uma enzima de restrição, e os fragmentos de DNA resultantes foram
                                                  separados em uma eletroforese em gel. As misturas de fragmentos foram colocadas em
                                                  fendas em um dos lados do gel, que foi em seguida submetido à uma corrente elétrica.
                                                  Os fragmentos de DNA carregados negativamente migraram em direção ao pólo posi-
                                                  tivo, os fragmentos menores movendo-se mais rapidamente do que os maiores. *
                                                  Como a hibridização não pode ser feita dentro do gel; o DNA deve ser colocado em
                                                  uma superfície plana, e isso é feito por transferência. Após a desnaturação das fitas de
                                                  DNA em álcali, os pesquisadores retornaram o gel a um pH neutro e em seguida o
Figura 2.20                                       colocaram sobre um papel de filtro úmido suportado por uma estrutura de plástico
Transferência Southern. DNA é tratado com         (Figura 2.20; Mc Ginnis et al., 1984; Holland e Hogan, 1986). Papel de nitrocelulose
enzimas de restrição e os fragmentos resul-
                                                  (capaz de ligar DNA de fita única) foi colocado diretamente sobre o gel e coberto com
tantes são colocados em um gel e separados
por eletroforese. Após a separação, o DNA é       múltiplas camadas de papel-toalha secas. O papel de filtro abaixo do gel estava em
desnaturado em fitas únicas. O gel é, em se-      comunicação com o interior de uma cuba contendo tampão de alta força iônica. O
guida, colocado sobre um papel de filtro          tampão caminhou para cima através do gel e do filtro de nitrocelulose para as toalhas
saturado com tampão de alta força iônica. Pa-     de papel. O DNA também foi levado por esse fluxo de tampão, mas foi detido pelo filtro
pel de nitrocelulose ou um filtro de nylon é      de nitrocelulose; assim, o DNA foi transferido do gel ao papel de nitrocelulose. Após
colocado sobre o gel e o conjunto coberto         fixar pelo calor os fragmentos de DNA no papel de nitrocelulose (de outra forma eles
com toalhas de papel. O tampão de transfe-
rência atravessa o gel, o papel de nitrocelulo-
se e as toalhas por ação capilar, levando jun-        *Considerando a mesma relação carga/massa, fragmentos menores adquirem uma maior veloci-
to o DNA. O DNA de fita única é retido pelo       dade que os maiores quando impulsionados pela mesma energia. Isso é uma função da equação de
                                                  energia cinética, E=1/2 mv2. Resolvendo para velocidade, encontramos que ela é inversamente
papel de nitrocelulose. As posições do DNA
                                                  proporcional à raiz quadrada da massa.
no papel diretamente refletem a posição dos                                                                                       Filtro de
fragmentos de DNA no gel.                                                                                                       nitrocelulose
                                                                                                                                  ou nylon

                                                             Espaçadores          Papel-toalha                         Peso

                                                                                                   Contatos de
                           Desnaturar fragmentos de                                              papel de filtro
                           DNA à fitas simples em álcali



                                           Suporte

                                                Cuba com
                                                                         Gel
 Digestão com restrição                      solução tampão                                                    Colocar filtro de nitrocelulose
     e eletroforese                                        Colocar gel no papel de filtro                     ou membrana de nylon sobre gel:
   em gel de agarose                                       úmido entre 2 espaçadores                            colocar papel-toalha e peso
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento            59


Figura 2.21                                                                                      Drosophila Besouro   Galinha Camundongo
Transferência Southern do DNA de vários organismos usando uma sonda radioativa do                melanogaster
gene Antennapedia de Drosophila melanogaster. Não se espera que as seqüências de
espécies tão diversas sejam perfeitamente idênticas e por essa razão o rigor da hibridização          10    10         10        10
                                                                                               Ubx
é diminuído trocando as soluções salinas. (Coloquialmente esse baixo rigor das transferên-
cias ao longo dos filos é chamado “transferências de zoológico”, por razões óbvias). Auto-      ftz
radiografia mostra que os genes de Drosophila contêm várias porções que são como as do                3      3          3
gene Antennapedia em termos de estrutura; também, muitos organismos contêm vários
                                                                                                                                  3
genes que formarão híbridos com esse fragmento gênico radioativo, sugerindo que genes
                                                                                               Antp
similares a Antennapedia existem nesses organismos. Os números ao lado das transferênci-
as indicam os tamanhos das bandas, em quilobases. (de McGinnis et al.,1984, cortesia de                                 1
W. McGinnis.)                                                                                         1      1
                                                                                                                                  1


se desprenderiam), o conjunto foi incubado com cDNA radioativo de uma porção do
gene Antennapedia de Drosophila. Um autoradiograma do papel de nitrocelulose
mostrou onde o DNA radioativo encontrou seu semelhante. Os resultados desses
experimentos (Figura 2.21) mostraram que mesmo vertebrados (camundongos, huma-
nos e pintos) têm genes que hibridizam com essas seqüências. Essa secção radioativa
do gene Antennapedia foi usada para selecionar uma biblioteca genômica de clones
de DNA derivados do genoma dessas diferentes espécies. Como veremos no Capítulo
16, pesquisadores encontraram clones contendo genes que se parecem com o
Antennapedia; esses genes se mostraram extremamente importantes na formação do
eixo do corpo dos vertebrados.

Seqüenciamento de DNA
Dados de seqüência podem dar informações sobre a estrutura da proteína codifi-
cada e podem identificar seqüências regulatórias de DNA que certos genes têm em
comum. A simplicidade da técnica de seqüenciamento “didesoxi” de Sanger (Sanger
et al.,1977) tornou-a um procedimento padrão em muitos laboratórios de biologia
molecular. No início, usa-se um vetor contendo o gene clonado e se isola uma fita
única do DNA circular (Figura 2.22). Funde-se (anela-se) então um iniciador (primer)
radioativo de DNA (aproximadamente 20 pares de bases) complementar ao DNA
do vetor imediatamente 3' ao gene clonado. (Porque essas seqüências dos vetores
são conhecidas, iniciadores oligonucleotídicos podem ser facilmente sintetizados
ou adquiridos comercialmente). O iniciador tem uma ponta 3' livre à qual mais
nucleotídeos podem ser adicionados. Coloca-se o DNA alvo e o iniciador junta-
mente com todos os quatro desoxirribonucleosídeos trifosfatos em quatro tubos
de ensaio. Cada um dos tubos contém a subunidade polimerizante da DNA polime-
rase e um diferente didesoxinucleosídeo trifosfato: um tubo contém didesoxi-G,
outro didesoxi-A e assim por diante. As estruturas dos desoxinucleotídeos e dos
didesoxinucleotídeos estão representadas na Figura 2.23. Enquanto o
desoxirribonucleotídeo não tem um grupo hidroxila (OH) no carbono 2' do seu
açúcar, o didesoxirribonucleotídeo não tem grupos hidroxila em ambos os carbo-
nos, 2' e 3'. Assim, mesmo que um didesoxirribonucleotídeo possa ser ligado a uma
crescente cadeia de DNA pela DNA polimerase, ele interrompe o crescimento da
cadeia por não ter um grupamento 3' ao qual se ligaria um novo nucleotídeo.
Assim, quando a DNA polimerase está sintetizando DNA do iniciador, o novo
DNA será complementar ao gene clonado. No tubo com didesoxi-A, entretanto,
sempre que a polimerase coloca um A na cadeia crescente, existe a possibilidade
de que um didesoxi-A seja colocado em lugar do desoxi-A. Se isso acontecer, a
cadeia pára. Similarmente, no tubo com didesoxi-G, a cadeia tem o potencial de
parar toda vez que um G é inserido. (O processo foi comparado à uma dança
folclórica grega na qual uma pequena porcentagem dos dançarinos em potencial
tem um braço em uma tipóia).
60    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                      Fita única desnaturada de DNA de plasmídeo recombinante



                                                          Iniciador


                            Subunidade polimerizante de DNA polimerase I
                               de E. coli + dATP, dGTP, dCTP e dTTP




                                                                                                              Seqüência da fita
                                                                                                              do iniciador

                                                                                                            Seqüência
                                                                                                            complementar
                                                                                   Fragmentos
                                                                                     maiores




                                                                                   Fragmentos
                                                                                    menores




Figura 2.22
O método didesoxi de seqüenciar DNA. A fotografia contém a região da auto-radiografia que
mostra essa seqüência (Cortesia de G. Guild).




                                                                                                 Base 1
                            Adenina                       Adenina




                                                                                                          Base 2
              Adenina Desoxiadenosina          Didesoxiadenosina
          trifosfato (açúcar desoxirribose)    trifosfato (açúcar
(A)                                             didesoxirribose)                     (B)

Figura 2.23
Comparação entre desoxinucleotídeos e didesoxinucleotídeos. (A) Estruturas dos dois tipos de
nucleotídeos. A diferença é evidenciada em cores. (B) O terminal 3' de uma cadeia que terminou
pela incorporação de um didesoxinucleotídeo não tem um grupo hidroxila 3' terminal para
continuar a polimerização do DNA.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento   61


    Em cada tubo estão sendo feitas milhões de cadeias e por essa razão eles conterão
uma população de cadeias, algumas interrompidas no primeiro sítio possível, outras
no último e algumas em sítios intermediários. O tubo com didesoxi-A, por exemplo,
conterá cadeias com diferentes e distintos comprimentos, cada uma terminando com o
resíduo A. Os fragmentos de DNA radioativo resultantes serão separados por eletro-
forese. O resultado é uma “escada” de fragmentos onde cada “degrau” é uma seqüên-
cia de nucleotídeos de comprimento diferente. Lendo escada acima, obtem-se a se-
qüência do DNA complementar àquela do gene clonado.

Análise de mRNA através de bibliotecas de cDNA
Agora podemos retornar à especificidade da transcrição de mRNA: É possível
isolar populações de mRNA que caracterizam certos tipos de células e estão au-
sentes em todas as outras? Para encontrar esses RNAs, podemos “clonar” os
mRNA de diferentes tipos de células e compará-los. Como mostra a Figura 2.24A,
isso é feito tomando os RNAs mensageiros de uma célula ou tecido e converten-
do-os em fitas de DNA complementar. Levando esse procedimento um passo à
frente (com o auxílio de DNA polimerase e S1 nuclease), podemos transformar
essa população de cDNA de fita única em outra contendo pedaços de cDNA com
fitas duplas. Essas fitas de DNA podem ser inseridas em plasmídeos, adicionan-
do-lhes “finais” apropriados com DNA ligase. Acoplando um fragmento GATCC/
G aos terminais rombudos desse pedaço de DNA cria-se um corte artificial de
restrição BamHI, o que permite a inserção em um vírus ou plasmídeo clivado por
essa enzima (Figura 2.24B).
    Tais coleções de clones derivados de mRNAs são freqüentemente chamadas de
bibliotecas. Assim, podemos ter uma biblioteca de fígado de embrião de camundongo
de 16 dias, representando todos os genes ativos produzindo proteínas hepáticas
embrionárias. Podemos ter também uma biblioteca de oócitos vegetais de Xenopus,
representando mensagens presentes somente em uma parte específica daquela célula.
Genes clonados dessa maneira são muito importantes porque eles não têm íntrons.
Quando adicionados às células bacterianas, esses genes podem ser transcritos e em
seguida traduzidos nas proteínas que codificam.
    Bibliotecas têm sido extremamente úteis no estudo de desenvolvimento como
demonstram os esforços de Wessel e colaboradores (1989) em verificar diferenças nos
RNAs de diferentes partes do embrião, em gastrulação, do ouriço-do-mar. Para encon-
trar mRNAs específicos do endoderma em ouriço-do-mar, Wessel e colaboradores
prepararam uma biblioteca de cDNA de embriões gastrulantes. O mRNA dessas amos-
tras (a maior parte do RNA de células eucarióticas é ribossômico) foi isolado por
passagem em esferas com oligo-dT, as quais capturam as caudas de poli(A) das men-
sagens (veja legenda da Figura 2.19). A população de mRNA foi, então, convertida em
uma de cDNA pelo uso da transcriptase reversa (veja Figura 2.24A). Usando polimerase
I de E. coli o cDNA de fita única foi transformado em fita dupla. No próximo passo, os
cDNAs de fita dupla foram ligados a “finais” de EcoRI que estão disponíveis no comér-
cio. Isso os tornou clonáveis em vetores que foram abertos com a enzima de restrição
EcoRI. O DNA foi misturado com os braços de um fago λ geneticamente modificado
(veja Figura 2.24B). Esse fago é construído de tal maneira que ao ser cultivado em uma
placa de Petri, os fagos que incorporaram o DNA (e assim destruíram o gene da ß-
galactosidase) produzem placas incolores (Figura 2.24C). Dessa forma, foram gerados
aproximadamente 4 milhões de fagos recombinantes, cada um contendo um cDNA re-
presentando uma molécula de mRNA.
    O próximo passo envolvia selecionar os fagos recombinantes. Quais deles repre-
sentariam mRNAs encontrados no endoderma e não em outras camadas celulares?
Wessel e seus colegas isolaram populações de mRNAs do mesoderma, ectoderma e
endoderma. Depois prepararam cDNAs marcados de cada uma das populações de
mRNA, usando precursores radioativos. Agora, possuíam três coleções de moléculas
62     PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


(A)Preparação de cDNA                   (B)    Inserção de cDNA de dupla fita no vetor viral (bacteriófago λ)
   clonável
       Região codificadora
mRNA                                                  DNA de fago λ

        Anela iniciador oligo (dT)

                                                                                        BamHI
          Região codificadora
mRNA

               Transcriptase reversa                                 “Braço esquerdo”                   “Braço direito”



cDNA
                                                                                    Não é necessário para
mRNA                                                                                 a replicação do fago

                 Hidrólise alcalina                                                                   Braços contêm todos os
                                                    cDNA de dupla fita                                genes necessários para a
                                                     preparado como                                    replicação, mas muito
cDNA                                                 descrito em (A)                                      pequeno para o
                                                                                                          empacotamento
                                                                               Inserir cDNA nos
                                                                               terminais do DNA do
                 DNA polimerase I                                              fago λ; ligar

      Região codificadora
cDNA



                    S1 nuclease

      Região codificadora
Fita                                                                                                                      cDNA do
dupla                                                                                                                     mRNA, agora
cDNA                                                                                                                      clonado em
                                                                                                                          vetores virais
              Adicionar finais Bam HI




                                        de cDNA radioativos, cada uma representando a população de mRNA de uma das
                                        três camadas germinativas.
                                            Os fagos recombinantes representando os mRNAs do embrião, em gastrulação,
                                        do ouriço-do-mar foram cultivados e amostras de numerosas colônias— cada uma
                                        contendo milhares de fagos— colocadas em dois filtros de nitrocelulose (Figura 2.24D).
                                        O conjunto foi colocado em solução de álcali para a lise dos fagos e obtenção de DNA
                                        de fita única. Um desses papéis de filtro foi incubado com cDNA radioativo feito a
                                        partir do mRNA total do endoderma; o outro papel incubado com sondas radioativas
                                        para ambos, mesoderma e ectoderma. Os filtros foram lavados para a remoção de
                                        cDNA radioativo não hibridizado, secos e expostos em filmes para raios-X. Se um
                                        mRNA estivesse presente no endoderma, mas não no ectoderma ou mesoderma, o
                                        DNA recombinante produzido daquela mensagem deveria ligar cDNA radioativo do
                                        endoderma e não deveria encontrar um mRNA em qualquer outro lugar. Como resulta-
                                        do, aquela mancha de DNA recombinante do endoderma deveria ser radioativa (pois
                                        foi ligado ao cDNA radioativo do endoderma), mas o mesmo clone não deveria ser
                                        radioativo quando exposto a mRNA ectodérmico ou mesodérmico; isso foi confirma-
                                        do. Um fago recombinante, em particular, ligou somente cDNA radioativo produzido
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                63


(C) Preparação da biblioteca de clones do fago                       (D) Seleção da biblioteca de fagos clonados


                                                                              Transferir alguns
Fago                                                                          fagos para filtros
híbrido                                                                        de nitrocelulose
          Adicionar à camada de
          células de E. coli                                                                Filtros de nitrocelulose



Infecção de E. coli pelo fago
                                  Lise
                                                     Placa                                    Tratar filtros com
                                                                                             solução alcalina para
                                                                                                lisar os fagos e
                                                 Zona de lise                                 desnaturar o DNA
                                                 indicando clones                                   liberado
               Camada de                         do fago
                bactérias
                  E. coli                                            Incubar com sonda radioativa           Incubar com sonda radioativa
                                                                          para endoderma                   para mesoderma e ectoderma




Figura 2.24                                                               Sonda
                                                                          radioativa
Protocolo usado para organizar bibliotecas de cDNA. (A)
RNA mensageiro é isolado e feito seu cDNA, que é em segui-
da transformado em dupla fita e adicionado de fragmentos                     DNA de
finais de restrição. (B) Os “genes” cDNA são inseridos em                fago de fita
vetores especialmente modificados, nesse caso, bacteriófagos.            única ligado
(C) Os fagos contendo o DNA recombinante lisarão E. coli                    ao filtro
formando placas. Técnicas bioquímicas podem distinguir pla-
cas de fagos recombinantes daquelas que não têm o gene inse-                                         Preparação dos
rido. (D) As placas são transferidas para papel de nitrocelu-                                       autoradiogramas
lose e tratadas com álcali para lisar os fagos e desnaturar
DNA localmente. Esses filtros são então incubados com son-
das radioativas (usualmente cDNA) de um tecido. Para a
seleção da biblioteca diferencial de cDNA, discutida no texto,
a mesma biblioteca de fagos foi selecionada com sondas radi-
oativas de dois tecidos diferentes, permitindo ao pesquisador       Clone de DNA representando o mRNA
procurar por um mRNA encontrado em um tipo de tecido                encontrado no endoderma mas não no
mas não em outro.                                                         mesoderma ou ectoderma




de mRNA do endoderma; portanto, representava um mRNA encontrado no endoderma
e não no mesoderma ou ectoderma. O fago contendo esse gene pode agora ser culti-
vado em grandes quantidades e caracterizado.

Técnicas de localização de RNA
Hibridização In Situ

O processo de hibridização in situ, desenvolvido por Mary Lou Pardue e Joseph
Gall (1970), permite ao pesquisador visualizar as posições de ácidos nucléicos espe-
cíficos dentro de células e tecidos. Se um clone específico é considerado interessan-
te (por exemplo, o clone endoderma-específico que foi mencionado) ele é cultivado em
64   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                     grandes quantidades, e o gene clonado é isolado tratando o vetor recombinante com
                                     enzimas de restrição. Esse é transformado em fita única e tornado radioativo. Quan-
                                     do o cDNA radioativo é adicionado às células fixadas apropriadamente em lâminas
                                     de microscópio, o cDNA radioativo se liga unicamente onde está presente o mRNA
                                     complementar. Após eliminação do cDNA não fixado, a lâmina é coberta com uma
                                     emulsão fotográfica transparente para auto-radiografia. As manchas resultantes,
                                     diretamente acima de onde o cDNA radioativo foi ligado, parecem escuras quando
                                     visualizadas diretamente, ou brancas quando vistas com iluminação em campo
                                     escuro. Assim, pode-se visualizar aquelas células (ou mesmo regiões dentro das
                                     células) que acumularam um tipo específico de mRNA. A Figura 2.25A,B mostra
                                     hibridização in situ usando o cDNA específico para células endodérmicas. O cDNA
                                     encontra mRNAs somente no endoderma da gástrula precoce do ouriço-do-mar.
                                     Continuando a gastrulação, o cDNA (e portanto o mRNA) se localiza de forma
                                     ainda mais precisa — entre a região do intestino posterior e o intestino médio no
                                     tubo endodérmico.
                                         Trabalhando com sondas radioativas e emulsões, torna-se necessário o uso de
                                     secções microscópicas extremamente finas. Uma técnica mais recente para hibridiza-
                                     ção in situ utiliza sondas que ligam reagentes coloridos. Dessa maneira, cientistas
                                     podem observar órgãos inteiros (e organismos) sem seccioná-los, e com uma visão de
                                     amplas regiões de expressão gênica. A Figura 2.25C mostra uma hibridização in situ,
                                     realizada em montagem integral, em um embrião de camundongo com 10.5 dias. A
                                     sonda reconhece o mRNA codificado pelo gene Brachyury (discutido na página 40),
                                     que sintetiza uma proteína necessária para a produção de células mesodérmicas na
                                     parte posterior do embrião de camundongo.

                                     Transferências Northern
                                     Podemos também determinar a expressão temporal e espacial de RNAs executando
                                     uma transferência de RNA (freqüentemente chamada transferência Northern). En-
                                     quanto transferências Southern transferem fragmentos de DNA do gel para o papel,
                                     transferências Northern (nome não se relaciona com o inventor) transferem RNA
                                     entre os mesmos suportes e da mesma maneira. O pesquisador pode extrair RNAs
                                     mensageiros do embrião em vários estágios de desenvolvimento e submetê-los à
                                     eletroforese lado a lado, em um gel. Após transferência dos RNAs separados para o
                                     papel de nitrocelulose ou membrana de nylon, o conjunto é incubado em uma solu-
                                     ção contendo um fragmento radioativo, mono-fita, de DNA de um determinado gene.
                                     Esse DNA adere somente às regiões onde está localizado o RNA complementar.
                                     Assim, se o mRNA para aquele gene está presente em um determinado estágio
                                     embrionário, o DNA radioativo se liga a ele e pode ser detectado por auto-radiogra-
                                     fia. Autoradiogramas desse tipo, onde vários estágios são comparados simultanea-
                                     mente, são denominados transferências Northern de desenvolvimento. A Figura
                                     2.26A mostra uma transferência Northern de desenvolvimento para a expressão de
                                     um gene endoderma-específico durante o desenvolvimento do ouriço-do-mar. Po-
                                     demos ver que o mRNA para essa proteína endodérmica é inicialmente sintetizado
                                     durante o estágio de blástula mesenquimatosa e continuamente durante todo o
                                     resto do desenvolvimento. A transferência Northern na Figura 2.26B mostra que a
                                     acumulação desse mRNA no estágio de prisma é restrita ao endoderma (Wessel et
                                     al.,1989). Hibridização in situ e transferências Northern fornecem as melhores evi-
                                     dências em favor da transcrição diferencial de RNA, no espaço e no tempo. A trans-
                                     crição de certos genes pode ser específica para tecidos ou tempo.
                                         A distribuição temporal na transcrição de vários genes pode ser visualizada por
                                     transferência de mancha. Por exemplo, Sargent e Dawid (1983) isolaram da gástrula de
                                     Xenopus um mRNA que não estava presente no ovo. Para isso eles extraíram o mRNA
                                     da gástrula e fizeram cópias cDNA dessas mensagens. Os cDNAs da gástrula foram
                                     misturados com grandes quantidades de mRNA de oócitos. Se houvesse hibridização
                                     entre o mRNA dos oócitos e o cDNA da gástrula, significaria que o cDNA era derivado
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento              65




                         (B)
(A)




  (C)

                                                                                  Figura 2.25
                                                                                  Hibridação in situ. (A,B) Fotomicrografias,
                                                                                  em fundo escuro, de hibridação in situ, mos-
                                                                                  trando a localização de mRNA endoderma-
                                                                                  específico em embrião de ouriço-do-mar. O
                                                                                  cDNA radioativo usado como sonda foi pre-
                                                                                  parado do gene clonado, feito a partir de
                                                                                  mRNA endoderma-específico (veja Figura
                                                                                  2.24). Esse cDNA radioativo se liga ao mRNA
                                                                                  do endoderma da gástrula precoce do ouriço-
                                                                                  do-mar (A) e ao endoderma do intestino mé-
                                                                                  dio e posterior da gástrula tardia do ouriço-
                                                                                  do-mar (B). (C) Hibridização in situ, em mon-
                                                                                  tagem integral, de um embrião de camundon-
                                                                                  go de 9.5-10.5 dias corado para mRNA de
                                                                                  Brachyury. Essa mensagem é transcrita em
                                                                                  células formando novo mesoderma, e nesse
                                                                                  estágio é encontrada na porção posterior do
                                                                                  embrião. Embriões fixados foram incubados
             Enzima                                                               em uma sonda para mRNA de Brachyury (a
             fosfatase                Corante                                     fita antisense complementar ao mRNA) que
             alcalina                  (precipitado azul escuro)                  foi sintetizada usando uridina biotinilada.
                                                                        Núcleo    Após eliminar a parte da sonda que não se
                                      Corante                                     ligou ao mRNA de Brachyury (e inativar qual-
         Anticorpo                         (incolor)                              quer atividade endógena de fosfatase alcalina
        para biotina                                                              do embrião), o embrião foi tratado com anti-
                               Sonda complementar a mRNA de Brachyury             corpos para biotina. Esses anticorpos foram
        Biotina                                                                   ligados às enzimas do tipo fosfatase alcalina.
                               tendo resíduos de biotina em suas uridinas
                                                                                  Colorir para a presença de fosfatase alcalina
                                                                                  permite que se determine a localização de um
                                                                                  mRNA específico. Fotografias coloridas da
                                 mRNA de Brachyury                                hibridização in situ, em montagem integral,
                                                                                  estão nas Pranchas 22, 23 e 25. (A e B de
                                                                                  Wessel et al.,1989, cortesia de G. Wessel; C
                                                                                  do laboratório do autor.)
66    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


(A)           Ovo                                 de um mRNA presente em ambos os estágios, oócito e gástrula. Essas moléculas
              Clivagem                            híbridas com dupla fita foram removidas por filtração, deixando uma população de
                                                  cDNAs gástrula-específico. Os cDNAs foram transformados na forma de dupla fita
              Blástula
                                                  (pela DNA polimerase) e inseridos em veículos de clonagem. Essa técnica é denomina-
              Blástula                            da de clonagem de subtração. Como a seleção dupla de bibliotecas de cDNA, a
              Mesenquimatosa                      clonagem de subtração gera um conjunto de clones estágio-específicos cujo mRNA é
              Blástula precoce
                                                  encontrado em alguns estágios, mas não em outros, ou em alguns tecidos mas não em
              Blástula tardia                     outros (Figura 2.27).
                                                      Sargent e Dawid usaram embriões, dos estágios de zigoto a broto caudal do
              Prisma
                                                  girino e, separadamente, isolaram seus RNAs. Os RNAs foram aplicados direta-
              Plúteo                              mente (sem prévia eletroforese em gel) a filtros de nitrocelulose de modo que cada
                                                  filtro tinha RNAs de todos os estágios. Após a fixação (calor) dos RNAs no filtro,
(B)           Ectoderma / mesoderma
                                                  DNA de fita única derivado de um específico clone “gastrular”, foi marcado radi-
                                                  oativamente e incubado com os filtros. Se um gene estava sendo transcrito em um
              Endoderma                           determinado estágio, o cDNA radioativo daquele gene encontraria seu comple-
                                                  mento nos mRNAs daquele estágio, no filtro. Após eliminacão do cDNA não liga-
Figura 2.26                                       do, a ligação do cDNA radioativo foi observado por auto-radiografia. A transfe-
Transferência Northern para um gene especí-       rência de manchas na Figura 2.28 mostra o esquema temporal de expressão para 17
fico no endoderma do ouriço-do-mar, Lytechi-
                                                  genes que são ativos em vários estágios da gastrulação. Nenhum deles é expresso
nus variegatus. (A) Transferência Northern
de desenvolvimento, mostrando acumulação          antes da transição da blástula mediana em 7 horas. Alguns genes (DG64, DG39)
de mRNA de acordo com o estágio específico        são expressos imediatamente depois, enquanto outros (DG72, DG81) começam a
desse gene. mRNA total (10 µg por estágio)        ser transcritos na gástrula mediana, após aproximadamente 7 horas. Alguns genes
foi submetido à eletroforese em gel de agarose.   (DG76, DG81) são mantidos após a ativação, enquanto a atividade de outros (DG56,
O gel foi transferido para papel tratado e os     DG21) é muito mais transitória.
mRNAs aderidos ao papel, que foi em seguida
incubado com cDNA radioativo de um clone
endoderma-específico. Mostrou-se que esse
                                                  Encontrando mensagens raras pela
mRNA é sintetizado durante o estágio de blás-
                                                  reação da polimerase em cadeia
tula do mesênquima e aumentado ao longo do
desenvolvimento. (B) Transferência Northern       A reação da polimerase em cadeia (PCR) é um método de clonagem in vitro que pode
no estágio de prisma, mostrando que o mRNA        produzir enormes quantidades de um fragmento específico de DNA a partir de uma
está presente no endoderma (com algum me-         pequena quantidade de material de partida (Saiki et al.,1985). Esse método pode ser
soderma aderido) mas não no ectoderma. RNA        usado para clonar um gene específico ou para determinar se um gene específico está
total do endoderma foi eletroforisado (pista 2)   ativamente transcrevendo RNA em um determinado órgão ou tipo de célula. O método
próximo ao mRNA do resto do ouriço-do-mar         padrão de clonagem usa microorganismos vivos para amplificar o DNA recombinante.
(pista1). Ligação com cDNA radioativo detec-
                                                  PCR, no entanto, pode amplificar uma única molécula de DNA por um fator de vários
tou mRNA somente no endoderma. (de Wessel
et al., 1989, cortesia de G. Wessel.)             milhões em poucas horas e o faz em um tubo de ensaio. Essa técnica tem sido extrema-
                                                  mente útil em casos onde a quantidade de ácido nucléico para estudo é muito peque-
                                                  na. Embriões de camundongos, por exemplo, na fase de pré-implantação têm muito
                                                  pouco mRNA e não se pode obter milhões desses embriões para estudo. Se fosse
                                                  necessário saber se o embrião de camundongo na fase de pré-implantação contém o
                                                  mRNA para uma proteína determinada, seria muito difícil descobrir usando os méto-
                                                  dos padrão de clonagem. Entretanto, a técnica do PCR permite encontrar essa mensa-
                                                  gem com poucos embriões, por amplificar especificamente somente aquela mensagem,
                                                  um milhão de vezes (Rappolee et al., 1988).
                                                      O uso de PCR para encontrar mRNAs raros está ilustrado na Figura 2.29. Os
                                                  mRNAs de um grupo de células são purificados e convertidos a cDNA por transcriptase
                                                  reversa. Usando DNA polimerase e S1 nuclease, a população de DNAs de fita única é
                                                  transformada em uma população de fita dupla. Em seguida, escolhe-se um DNA para
                                                  ser amplificado. Para isso, separam-se as duplas hélices do DNA, às quais são adici-
                                                  onados dois pequenos oligonucleotídeos iniciadores que são complementares a
                                                  uma porção da mensagem procurada. Se os oligonucleotídeos reconhecem seqüên-
                                                  cias no DNA, então o mRNA estava presente originalmente. Os oligonucleotídeos
                                                  foram preparados de forma a permitir uma hibridização com fitas opostas e lados
                                                  opostos da seqüência alvo. (Se a tentativa é isolar o gene ou mRNA para uma proteína
                                                  específica de seqüência conhecida, essas regiões laterais podem ser preparadas,
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento               67



                                                                                      cDNA de gástrula que         cDNA de gástrula sem
                                                                                       encontra mensagem          seqüência complementar
                      Extrair                                                           complementar em             a mRNA de oócitos
                      mRNA                                                               mRNA de oócito

    Oócito                            mRNA total
                                       de oócito                       Hibridizar




                      Extrair                       Fazer cDNA                                               DNA polimerase
                      mRNA                           de mRNA                                                     S1 nuclease

    Gástrula                          mRNA total                   cDNA de
                                      de gástrula                   gástrula
                                                                                                            cDNA de dupla
Figura 2.27                                                                                     fita específico de gástrula
Clonagem de subtração de genes de gástrula expressos diferencialmente em Xenopus laevis.
cDNA foi produzido para mensagens isoladas de gástrula e hibridizado com mRNA de oócitos.                 Adicionar ligantes
Os cDNA de gástrula que não encontraram seqüências complementares nos mRNAs de
oócitos, eram produtos de genes ativos na gástrula mas não nos oócitos. Esses genes foram
clonados fazendo o cDNA de fita dupla e adicionando ligantes para permitir sua inserção em
veículos de clonagem.
                                                                                                       Colocar em veículo
                                                                                                             de clonagem
Figura 2.28
Transferências de mancha no desenvolvimento mostram os tempos em que 17 genes de Xenopus
estão transcrevendo ativamente. Acumulação específica de mRNA no citoplasma é registrada
embebendo mRNA total, de genes em estágios embrionários, em papel de nitrocelulose e incu-      Plasmídeo recombi-
                                                                                               nante contendo DNA
bando a tira de papel com DNA radioativo derivado de um clone de cDNA específico de
                                                                                              para mRNA específico
gástrula. Justapondo essas tiras, obtem-se um esquema temporal para a atividade de genes               para gástrula
específicos. A linha r5 representa um controle de RNA ribossômico que deve estar sempre
presente. (de Jamrich et al., 1985, cortesia de I. Dawid e M. Sargent.)

                      Blástula                          Gástrula                    Nêurula        Broto de cauda

Estágio
 Clone




          Horas após a fertilização
68    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                  Finais da seqüência do polipeptídeo



RNAs que codificam                                    RNAs que codificam
 o amino terminal                                      o carboxi terminal
   (iniciador 1)                                          (iniciador 2)

                                                                                     RNA
1 cópia                                                                        iniciador 1      DNA alvo
                                     Aquecer a 95oC para
                                     desnaturar DNA.
                                     Esfriar a 37oC para                                                          RNA
                                     permitir hibridização                                                        iniciador 2
                                     dos iniciadores a DNA
                    Primeiro ciclo




                                                                                        Quando aquecido a 72o C, taq
                                                                                          polimerase estende fitas
                                                                                        complementares a partir dos
                                                                                                iniciadores
2 cópias
                                                                                         Primeiro ciclo de sínteses
                                                                                    resulta em duas cópias da seqüência
                                                                                               alvo de DNA

                                                                                             Desnatura DNA

                                                                                                Hibridiza
           Segundo ciclo




                                                                                               iniciadores


                                                                                             Estende novas
                                                                                             fitas de DNA



                                                                                            Segundo ciclo de
                                                                                           sínteses resulta em
4 cópias                                                                                    quatro cópias da
                                                                                         seqüência alvo de DNA


                                                                 Figura 2.29
                                                                 Protocolo para a reação de polimerase em cadeia (PCR). Para determinar se um tipo particular
                                                                 de mRNA está presente, todo mRNA é convertido a DNA de dupla fita pela transcriptase
                                                                 reversa e DNA polimerase. Esse DNA é desnaturado e dois conjuntos de iniciadores são
                                                                 adicionados. Se a seqüência específica estiver presente, os iniciadores se hibridizarão aos seus
                                                                 terminais opostos. (Iniciadores específicos são produzidos com base na seqüência que se pro-
                                                                 cura. Se é conhecida apenas a seqüência da proteína codificada pela mensagem, prepara-se um
                                                                 conjunto de diferentes iniciadores, cada um possivelmente complementar ao DNA.) Usando
                                                                 DNA polimerase termoestável de T. aquaticus, cada fita de DNA sintetiza seu complemento.
                                                                 Essas fitas são, por sua vez, desnaturadas e os iniciadores são hibridizados a elas, iniciando o
                                                                 ciclo novamente. Dessa maneira, o número de fitas novas com a sequência entre os dois
                                                                 iniciadores aumenta exponencialmente.




                                                                 sintetizando oligonucleotídeos que codificam o amino terminal da proteína e
                                                                 oligonucleotídeos complementares aqueles que codificam o carboxi terminal da prote-
                                                                 ína). Os finais 3' desses iniciadores estão face a face de modo que a replicação é
                                                                 através do DNA alvo. Uma vez hibridizado o primeiro iniciador, a DNA polimerase
                                                                 pode sintetizar uma nova fita.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                69


    Essa enzima não é a DNA polimerase normal de E. coli; é uma polimerase de
bactérias como Thermus aquaticus ou Thermococcus litoralis. Essas bactérias vivem                              Ovário de rato




                                                                                                                                           Adulto
em fontes de água quente (como aquelas do Yellowstone National Park) ou nos respi-                             Ovário de camundongo
radouros térmicos de submarinos, onde a temperatura atinge valores próximos de
900C. Essas DNA polimerases podem suportar temperaturas próximas à ebulição e o                                Rim de camundongo
PCR se utiliza dessa adaptação evolucionária. Uma vez sintetizada a segunda fita, ela
                                                                                                               Rim de camundongo




                                                                                                                                           Embrião de 14 dias
é separada de seu complemento por desnaturação em alta temperatura. O segundo
iniciador é adicionado e agora ambas as fitas podem sintetizar novo DNA. Sucessivos                            Salivares de camundongo
ciclos de desnaturação e síntese amplificarão essa região do DNA de forma geométri-
ca. Após vinte turnos, aquela região específica estará amplificada 220 vezes (um pouco                         Pâncreas de camundongo
mais de um milhão). Quando submetido à eletroforese esse fragmento amplificado é                               Pulmão de camundongo
facilmente detectado. Isso mostra que o mRNA original com essa seqüência estava
presente na amostra. (A confirmação poderia ser feita por transferência Southern,
como na Figura 2.30). Além disso, pode-se usar essas cópias amplificadas para clona-                           Sem adição de DNA
gem, colocando-as em vetores de clonagem.
                                                                                           Figura 2.30
Determinando a função do gene:                                                             Evidência fornecida por PCR, para a síntese
                                                                                           de um fator de crescimento, activina, de ór-
células e organismos transgênicos                                                          gãos embrionários de camundongo. O mRNA
                                                                                           desses órgãos foi convertido em DNA e am-
Técnicas de inserção de DNA novo em uma célula                                             plificado através de 20 ciclos de replicação.
Apesar de ser importante conhecer a seqüência de um gene e seu esquema temporo-            O DNA foi submetido sucessivamente à ele-
espacial de expressão, o que é realmente crucial é conhecer a função daquele gene          troforese e transferência Southern usando uma
no desenvolvimento. Técnicas recentes permitem estudar a função do gene, tirando           sonda radioativa para uma parte do gene de
e repondo certos genes de células embrionárias. Pedaços de DNA clonados podem              activina. mRNA de activina foi encontrado
ser modificados (se desejado), e colocados em células por vários meios. Uma técni-         no ovário do camundongo adulto (como es-
ca muito direta é a microinjeção, na qual uma solução contendo o gene clonado é            perado) e também em vários órgãos embrio-
                                                                                           nários. A possível função de activina nesses
cuidadosamente injetada no núcleo da célula (Capecchi, 1980). Essa é uma técnica
                                                                                           orgãos será discutida no Capítulo 17. (Corte-
especialmente útil para injetar genes em ovos recentemente fertilizados, pois os           sia de O. Ritvos.)
núcleo haplóides do espermatozóide e do óvulo são relativamente grandes (Figura
2.31). Em transfecção, o DNA é incorporado diretamente na célula por incubação em
uma solução determinada onde a célula o incorpora. A probabilidade de incorpora-
ção de tal fragmento de DNA no cromossomo é relativamente pequena, sendo ne-
cessário misturar o DNA com outro gene que permite a sobrevivência das raras
células que o incorporaram, em condições de cultura onde as outras células são
destruídas (Perucho et al.,1980; Robins et al.,1981).
    Outra técnica é a eletroporação, onde pulsos de alta voltagem “empurram” o DNA
para dentro da célula. Um método mais “natural” para introduzir genes na célula é
colocar o gene clonado em um elemento transponível ou vetor retroviral. Esses são
regiões móveis de DNA, de ocorrência natural, que podem ser integrados no genoma.
Retrovírus são vírus contendo RNA. Dentro da célula hospedeira eles produzem uma
cópia de seu DNA (usando sua própria transcriptase reversa); a cópia se transforma
em dupla fita e se integra em um cromossomo do hospedeiro. A integração é consuma-
da devido às duas seqüências idênticas (longas repetições terminais) nos terminais
do DNA retroviral. Vetores retrovirais são produzidos removendo os genes do
empacotamento viral (necessários para a saída dos vírus da célula) do centro de um
retrovírus de camundongo. Essa extração cria um sítio vazio onde outros genes po-
dem ser colocados. Usando enzimas de restrição apropriadas, o pesquisador pode
remover genes de um fago ou plasmídeo clonado e reinserir o gene em vetores retrovirais.
Retrovetores virais infectam células de camundongo com eficiência próxima de 100%.
Em Drosophila, novos genes podem ser introduzidos na mosca, via elementos P.
Essas seqüências de DNA, são elementos transponíveis de ocorrência natural que
podem ser integrados como vírus em qualquer região do genoma da Drosophila.
Ainda mais, eles podem ser isolados, e genes clonados inseridos no centro do elemen-
to P. Quando o elemento P recombinado é injetado em um oócito de Drosophila, ele
pode se integrar ao DNA e prover o embrião de um novo gene (Spradling e Rubin, 1982).
70    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                               Camundongos quiméricos
                                               As técnicas descritas têm sido usadas recentemente para transferir genes para to-
                                               das as células do embrião de camundongo (Figura 2.32). Durante o desenvolvimen-
                                               to do camundongo existe um estágio onde somente estão presentes dois tipos de
                                               células: as células externas, que formarão a porção fetal da placenta, e as células
                                               internas, que darão origem ao próprio embrião. Essas células internas são chamadas
                                               células embrionárias precursoras (células tronco), porque cada uma delas pode,
                                               se isolada, gerar todas as células do embrião (Gardner, 1968; Moustafa e Brinster,
                                               1972). Essas células podem ser isoladas do embrião de um camundongo e cultiva-
                                               das. Uma vez em cultura, elas podem ser tratadas como descrito, de modo a incorpo-
                                               rar novo DNA. A nova célula embrionária precursora (não somente o DNA, mas a
                                               célula inteira) pode ser injetada em outro embrião de camundongo em fase precoce.
                                               Assim, a célula precursora tratada estará integrada no embrião do hospedeiro. O
                                               resultado é um camundongo quimérico*. Algumas de suas células são derivadas
                                               das células embrionárias precursoras do hospedeiro, mas outra porção de células é
                                               derivada também das células precursoras tratadas. Se as células tratadas se torna-
                                               ram parte da linha germinal do camundongo, alguns dos seus gametas serão deriva-
                                               dos da célula doadora. Quando cruzado com um camundongo do tipo selvagem,
                                               alguns de seus descendentes levarão, portanto, uma cópia do gene inserido. Os
                                               descendentes heterozigotos, no acasalamento produzirão 25% de embriões carre-
Figura 2.31                                    gando duas cópias do gene inserido em cada célula de seu corpo (Gossler et al.,1986).
Injeção de DNA (de genes clonados) em um
                                               Assim, em três gerações — o camundongo quimérico, o camundongo heterozigoto
núcleo (neste caso, um pronúcleo de um ovo
de camundongo). (de Wagner et al.,1981, cor-   e o camundongo homozigoto — um gene que foi clonado de um outro indivíduo,
tesia de T. E. Wagner.)                        está agora presente em ambas as cópias dos cromossomos dentro do genoma do
                                               camundongo. Camundongos com genes estáveis de outros indivíduos são chama-
                                               dos camundongos transgênicos. Essas linhagens têm sido particularmente úteis na
                                               determinação das funções de regiões reguladoras que ladeiam os genes.

                                               Experimentos com genes com endereçamento
                                               (Gene targeting ou Knockout)
                                               A análise de embriões precoces de mamíferos foi durante muito tempo prejudicada
                                               pela dificuldade em criar e selecionar mutações que afetam a fase inicial do desen-
                                               volvimento embrionário. Esse problema foi superado pela técnica chamada de
                                               endereçamento de genes (às vezes, chamada de “Knockout”). As técnicas são simi-
                                               lares àquelas que produzem camundongos transgênicos, mas em lugar de adicionar
                                               genes, endereçar genes significa trocar alelos do tipo selvagem por outros mutados.
                                               Chisaka e Capecchi (1991) usaram essa técnica para estudar a função do gene Hoxa-
                                               3 no desenvolvimento do camundongo. Hoxa-3 é semelhante a vários genes de
                                               Drosophila que são conhecidos como controladores da expressão gênica de seg-
                                               mentos específicos no embrião precoce; a proteína codificada por Hoxa-3 liga-se ao
                                               DNA, exatamente como sua correspondente na Drosophila. Seria possível que Hoxa-
                                               3 de maneira similar estaria regulando a expressão gênica espaço-específica nos
                                               mamíferos? Chisaka e Capecchi isolaram o gene Hoxa-3, cortaram-no com uma enzima
                                               de restrição e inseriram nesse sítio um gene para resistência à neomicina (Figura
                                               2.33). Em outras palavras, eles mutaram o gene Hoxa-3 pela inserção de um grande
                                               pedaço de DNA que continha um gene resistente à neomicina, destruindo a habili-
                                               dade da proteína Hoxa-3 em se ligar a DNA. Esses genes mutantes Hoxa-3 foram
                                               eletroporados em células embrionárias precursoras que eram sensíveis à neomicina.


                                                   * É crítico notar a diferença entre uma quimera e um híbrido. Um híbrido resulta da união de dois
                                               genomas diferentes dentro da mesma célula: o descendente de um genitor de genótipo AA e outro de
                                               genótipo aa é um híbrido Aa. Uma quimera resulta quando células de constituição genética diferente
                                               aparecem no mesmo organismo. O termo é apto: refere-se a um monstro mitológico com cabeça de
                                               leão, corpo de bode e cauda de serpente.
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento                     71


                         Células embrionárias
                             precursoras




                                                                                              Gene clonado
                                                                                                no vetor
                                                   Cultura de células
                              Trofoblasto       embrionárias precursoras
                                                                               Mistura de células                            Seleção de células
                                                                            embrionárias precursoras                     embrionárias precursoras
                                                                              com o gene clonado                       que incorporaram o transgene




                           Microinjetar            Integração das células                Injetar no
                        células precursoras            no hospedeiro                       útero
                         transgênicas no                                                                                        Camundongos
                       embrião hospedeiro                                                                                        quiméricos




                                                                                                      Figura 2.32
                                                                                                      Produção de camundongos transgênicos. Cé-
                                                                                                      lulas embrionárias precursoras de um camun-
                                                                                                      dongo são cultivadas e o genoma alterado pela
                                                                                                      adição de um gene clonado. As células
                                                                                                      transgênicas são selecionadas e injetadas em
                                                                                                      um embrião hospedeiro de camundongo na sua
                                                                                                      fase precoce. Aqui, as células embrionárias
                                                                 Camundongos                          precursoras transgênicas se integram às celulas
                                                                 transgênicos                         precursoras do hospedeiro. Esse embrião é
                                                                 homozigotos                          colocado no útero de um camundongo fêmea
                               Camundongos
                                                                                                      grávida e se desenvolve em um camundongo
                                transgênicos
                               heterozigotos                                                          quimérico. Se as células precursoras doadoras
                                                                                                      contribuíram para a linha germinativa, e o ca-
                                                                                                      mundongo quimérico é cruzado com um do
                                                                                                      tipo selvagem, parte dos descendentes serão
Uma vez dentro do núcleo dessas células, o gene Hoxa-3 mutado substituiu um                           heterozigotos ao alelo adicionado. Cruzando
alelo normal desse gene por um processo chamado recombinação homóloga. Aqui,                          heterozigotos, pode ser gerada uma linhagem
                                                                                                      de camundongos que é homozigota ao alelo
as enzimas envolvidas no reparo de DNA e replicação incorporam o gene mutante
                                                                                                      adicionado. Essa seria uma linhagem transgê-
em lugar da cópia normal. Esse é um evento raro, mas tais células podem ser                           nica. O gene adicionado (o transgene) pode
selecionadas cultivando as células precursoras em neomicina. A maioria das células                    ser de qualquer fonte eucariótica.
morre com a droga, mas aquelas que adquiriram resistência pelo gene incorporado
sobrevivem. As células resultantes têm um gene Hoxa-3 normal e um Hoxa-3 mutado.
As células precursoras heterozigotas são microinjetadas em um blastócito de ca-
mundongo e se integram nas células do embrião. O camundongo resultante é uma
quimera composta de células do tipo selvagem do embrião hospedeiro e de células
heterozigotas Hoxa-3, das células precursoras. As quimeras são acasaladas com
camundongos do tipo selvagem e se algumas das células doadoras se integraram à
linhagem das células germinativas, alguns dos descendentes serão heterozigotos
72    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


(A)

  Massa
 celular                                                                                               neo r
 interna
                                Cultura de células
             Blastócito           embrionárias
                                precursoras (ES)                                                               Recombinação
                                                                     Eletroporação                             homóloga
(B)                                                                                                                             Célula
      gene Hoxa-3                                                                                                               precursora
                                                                                                                                embrionária
                                                                                                         Hoxa-3
                    Endonucleases                             gene Hoxa-3 mutado
                     de restrição                           com o gene neor inserido

                                 gene neor




Figura 2.33
                                                                                                                    Seleção de células ES
Técnica de endereçamento de genes (gene targeting). Nesse caso o gene alvo é o                                      heterozigotas por sua
Hoxa-3. (A) Células embrionárias precursoras (ES) são cultivadas a partir de uma                                    resistência à neomicína
massa celular interna. (B) Os genes Hoxa-3 clonados são cortados com uma enzima
de restrição, e um gene neomicina-resistente é inserido na região que codifica o sítio
de ligação da proteína ao DNA. Esses genes Hoxa-3 mutantes são eletroporados em
células ES, onde recombinação homóloga troca o gene do tipo selvagem pela cópia                                     Injeção de células ES
mutada. As células são selecionadas pela sua resistência à neomicina. (C) As células                                heterozigotas no
                                                                                         (C)
                                                                                                                    blastócito
ES heterozigotas selecionadas são inseridas na massa interna de células de um em-
brião do tipo selvagem, e o blastócito é retornado ao útero. O camundongo resultante
é uma quimera composta de tecidos Hoxa-3 heterozigotos e tecidos Hoxa-3 do tipo
selvagem. Cruzando os animais quiméricos com camundongos do tipo selvagem
produz-se descendentes Hoxa-3 heterozigotos se as células ES contribuíram na
linhagem germinativa. Os animais heterozigotos podem ser cruzados entre si, e                                       Injeção dos
aproximadamente 25% de sua cria deve ser de homozigotos mutantes de Hoxa-3.                                         blastócitos no útero




                                                                                                                    Produção de
                                                                                                                    camundongos quiméricos



                                                                                                                   Cruzamento de
                                                                                                                   quiméricos com
                                                                                                                   tipo selvagem
                                                                                                                             Cruzamento de
                                                                                                                             camundongos
                                                                                                                             heterozigotos
                                                                                                                             Hoxa-3¯/ Hoxa-3+
                                                                                               Heterozigotos      Heterozigotos

                                                                                                                      Hoxa-3¯/ Hoxa-3¯
                                                                                                      Homozigoto




                                                     para o gene Hoxa-3. Os animais heterozigotos podem ser cruzados entre si, e apro-
                                                     ximadamente 25% de seus descendentes devem levar duas cópias do gene mutado
                                                     Hoxa-3. Esses camundongos mutantes homozigotos não possuem as glândulas
                                                     tireóide, paratireóide e timo! Dessa maneira, endereçando genes pode-se analisar as
                                                     funções de determinados genes durante o desenvolvimento de mamíferos.
                                                     [gene7.html]
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento               73


Determinando a função de uma mensagem:
RNA antisense
Outro método para determinar a função de um gene é fazer cópias “antisense” de sua
mensagem. Mensagens antisense podem ser produzidas usando cDNA clonado e
fazendo sua reclonagem em reverso, próximo a um vigoroso promotor bacteriano, em
outro vetor. O promotor bacteriano iniciará a transcrição da mensagem na “direção
errada” quando for incubado com RNA polimerase e nucleosídeos trifosfato. Dessa
maneira, é sintetizado um transcrito que é complementar aquele natural (Figura 2.34A).
O transcrito complementar é chamado RNA antisense porque é o reverso da mensa-
gem original. Quando grandes quantidades de RNA antisense são injetadas ou
transfectadas em células contendo o mRNA normal desse gene, o RNA antisense se
liga à mensagem normal; o ácido nucléico dupla-fita resultante é degradado (enzimas       Figura 2.34
do citoplasma das células digerem ácidos nucléicos de fita dupla). Isso causa uma         Producão de RNA antisense para examinar a
depleção funcional da mensagem, como se houvesse uma mutação eliminatória para            função dos genes no desenvolvimento. (A)
aquele gene.                                                                              Produção da mensagem antisense (neste caso,
    Esses resultados foram confirmados quando RNA antisense foi produzido a partir        ao gene Krüppel da Drosophila) colocando o
                                                                                          fragmento de cDNA clonado para a mensagem
do gene Krüppel de Drosophila. Krüppel é crítico para a formação do tórax e do
                                                                                          Krüppel entre dois vigorosos promotores. Os
abdômen da mosca. Se esse gene está ausente, as larvas da mosca morrem pela falta         promotores estão em orientação oposta com
dos segmentos torácico e abdominal anterior (Figura 2.34B); uma situação semelhante       respeito ao cDNA do Krüppel. Nesse caso, o
é criada quando grandes quantidades de RNA antisense contra a mensagem Krüppel            promotor T3 está em orientação normal e o
são injetados em embriões precoces da mosca (Rosenberg et al.,1985). RNA antisense        promotor T7 está revertido. Os promotores
permite ao biologista do desenvolvimento determinar a função dos genes durante o          reconhecem RNA polimerases diferentes (dos
desenvolvimento e analisar a ação dos genes em animais; de outra forma isso seria         bacteriófagos T3 e T7, respectivamente). T3
inacessível à análise genética.                                                           polimerase permite a transcrição de mRNA de
                                                                                          consenso, ao passo que T7 polimerase pro-
                                                                                          duz transcritos antisense. (B) Resultado da
Reinvestigação de velhos problemas com novos métodos                                      injeção da mensagem Krüppel antisense em um
                                                                                          embrião precoce (estágio blastodérmico
A união da embriologia com a biologia molecular está permitindo ao biologista do          sincicial) de Drosophila antes que a mensa-
desenvolvimento uma nova apreciação de como trabalham os genes na construção de           gem Krüppel seja produzida. A figura central é
um organismo. Estamos em meio à uma revolução nos nossos conhecimentos sobre              um embrião do tipo selvagem pouco antes de
desenvolvimento, e um dos maiores sucessos resultantes de clonagens e                     eclodir. Acima está o mutante causado pela
seqüenciamentos é a nova “anatomia” do gene eucarioto. Descreveremos a estrutura          falta do genes Krüppel. Abaixo está o embrião
do gene com mais detalhe no Capítulo 10, mas é importante ressaltar que os genes          do tipo selvagem, injetado com a mensagem
                                                                                          Krüppel antisense no estágio embrionário pre-
eucariotos que codificam proteínas têm vários sítios regulatórios (Figura 2.35). Um
                                                                                          coce. Ambos os embriões, mutante e o tratado
sítio, o promotor, está localizado diretamente a montante do gene (antes do início) e é   com antisense, não possuem os segmentos
                                                                                          torácico e abdominal anterior. (B, de acordo
(A)                                                                                       com Rosenberg et al., 1985.)

mRNA de consenso                                     (B)   Embrião mutante Krüppel
(sense) Krüppel


                                             promotor
                                             T7
                          mRNA
                        antisense                                 Embrião normal
                         Krüppel


                   T3 RNA
   T3              polimerase                polimerase
promotor                                     T7 RNA          Embrião normal
                                                             infectado com RNA
                                                             “antisense” Krüppel
74    PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                                  o sítio onde se liga a RNA polimerase. Localizada em algum lugar dentro do gene (a
                                                  jusante ou a montante, ou ainda em um íntron dentro do gene), está uma segunda
                                                  região chamada intensificadora. Fatores protéicos que se ligam ao intensificador per-
                                                  mitem sua interação com o promotor e, conseqüentemente, com a transcrição do gene
                                                  pela RNA polimerase. Alguns promotores (como aqueles usados por produtos relaci-
                                                  onados ao metabolismo geral da célula) não precisam ser ativados por intensificado-
                                                  res, mas a maioria dos genes ligados ao desenvolvimento são ativados em tempos e
                                                  células específicos. Esses genes precisam ser ativados por fatores que se ligam ao
                                                  intensificador e ao promotor. Como veremos no Capítulo 10, a ligação de diferentes
                                                  fatores de transcrição aos promotores e intensificadores de genes específicos é um
                                                  dos mecanismos que controlam a produção de proteínas diferentes a partir de genomas
                                                  idênticos. Um exemplo é a ativação do gene para ZP3.
                                                      Como detalharemos no Capítulo 4, ZP3 é a principal proteína ligante de espermato-
                                                  zóide na superfície do óvulo de camundongo. É uma glicoproteína sintetisada pelo
                                                  oócito durante sua maturação em óvulo (Roller et al.,1989). Uma transferência Northern
                                                  mostra que o mRNA para essa proteína é sintetizado somente em oócitos em cresci-
                                                  mento e não pode ser detectado em nenhum outro tipo de célula (Figura 2.36). O que
                                                  permite a esse gene ser ativado somente nos oócitos? Lira e colaboradores (1990)
                                                  isolaram o gene para ZP3, determinaram sua seqüência e encontraram um sítio promo-
                                                  tor, 28 pares de bases a montante do sítio onde a transcrição do gene é iniciada. Como
                                                  hipótese, consideraram que seqüências responsáveis por ativação oócito-específica
                                                  podem existir até mais longe, a montante do gene. Eles usaram enzimas de restrição
                                                  para isolar o DNA da região 5', a montante, (com 150 pares de bases) e o fundiram ao
                                                  gene para a luciferinase de vaga-lume. (Não é necessário dizer que essa enzima produ-
                                                  tora de luz não é encontrada em camundongos. Está sendo usada aqui como um “gene
                                                  repórter” para monitorar onde o DNA a montante pode causar sua expressão.) O gene
                                                  recém-construído, contendo a região a montante do gene ZP3 ligada ao gene estrutu-
                                                  ral para luciferinase, foi injetado em zigotos de camundongo para criar animais
                                                  transgênicos, levando em cada núcleo o gene luciferinase com a região regulatória
                                                  ZP3. Em camundongos transgênicos fêmeas, a hibridização in situ localizou mRNA de
                                                  luciferinase em um único tipo de célula, o oócito (Figura 2.37). Assim, a seqüência de
                                                  DNA com 150 pares de bases foi necessária e suficiente para ativar o gene (qualquer
                                                  gene!) no oócito. Dentro dessa região de 150 pares de bases (de 99 a 86 pares de bases
                                                  a montante do gene estrutural ZP3) existe a seqüência 5’-GATAA-3' que liga uma
                                                  proteína chamada OSP-1. OSP-1 é encontrada somente em oócitos em maturação; ela
                                                  ativa o gene ZP3 ligando-se a essa sequência de DNA no promotor. Parece, então, que
                                                  ZP3 é sintetizado em oócitos porque eles têm a proteína OSP-1 que se liga a certas
                                                  seqüências de DNA que são parte de seu promotor (Schickler et al.,1992). No momen-
                                                  to, está sendo investigado como é regulado o gene codificador de OSP-1.


Figura 2.35
Estrutura básica de um gene regulado pelo de-
senvolvimento. O promotor da maioria dos
genes codificadores de proteínas é encontrado
no terminal 5' (a montante) do gene. O intensi-
ficador freqüentemente está mais acima, a mon-
tante, mas pode ser encontrado dentro de um              Intensificador
íntron ou no terminal 3'. Proteínas que se li-                        Promotor   Éxon         Íntron        Éxon Íntron Éxon
gam ao promotor e aos intensificadores
interagem para regular a transcrição do gene.
(No exemplo ZP3, o sítio OSP-1, GATAA,
está localizado no promotor, aproximadamen-
te 95 pares de bases a montante do sítio de                                                Intensificador                      Intensificador
início da transcrição. Um sítio intensificador
sensível a estrogênios é encontrado no primei-        “a montante                                                     “a jusante”
ro íntron do gene ZP3.)                                 do gene”                                                        do gene
CAPÍTULO 2 Genes e Desenvolvimento         75


Figura 2.36                                                                                                    Oócito
Transferência Northern de RNA de ZP3 acumulado no camundongo. RNA de vários tecidos
                                                                                                               Ovário
(10µg por pista) e oócitos (125ng) foram submetidos à eletroforese e transferidos para papel de
nitrocelulose. Um fragmento radioativamente marcado do gene ZP3 foi usado como sonda do                        Cérebro
mRNA. A mensagem ZP3 foi encontrada somente no ovário, especialmente dentro dos oócitos.                       Embrião de 13 dias
(de Roller et al.,1989, cortesia de P. Wassarman).
                                                                                                               Coração
                                                                                                               Intestino
                                                                                                               Rim
Uma conclusão e um alerta
                                                                                                               Fígado

Depois de quase um século, estamos começando a entender como as células regulam                                Músculo
a expressão diferenciada de seus genes, permitindo que genes diferentes possam se                              Testículos
tornar ativos em diferentes células. Esse conhecimento está ajudando a explicar como                           Útero
a informação herdada é utilizada para construir os planos básicos do corpo e os tipos
específicos de células do organismo em desenvolvimento.
    Entretanto, uma palavra de alerta. Caso o tom celebratório deste capítulo deixou a
impressão de que desenvolvimento é somente uma função da atividade gênica é
necessário relembrar do Capítulo 1, que a distinção entre talo e esporo (Dictyoste-
lium), estado amebóide e flagelado (Naegleria) e gonídios sexual e assexual (Volvox)
é determinada pelo ambiente. Em capítulos posteriores (especialmente Capítulo 21),
veremos outros exemplos do controle ambiental do desenvolvimento: determinação
de sexo temperatura-dependente em répteis, desenvolvimento em insetos dependente
da dieta, e a diferenciação, dependente de experiência, dos neurônios e linfócitos em
mamíferos. Nesses casos o organismo herda a habilidade para responder aos sinais
do ambiente, mas não é possível predizer o fenótipo a partir do genótipo.




(A)                                            (B)




Figura 2.37
Hibridização in situ da expressão do gene repórter luciferinase, quando luciferinase foi
ligado ao promotor do gene ZP3. A sonda radioativa era dirigida à mensagem luciferinase,
a qual apareceu onde foi expressa sob a direção do promotor de ZP3. (A) Visão do
ovário inteiro (60x). (B) Magnificação (160x) de dois folículos ovarianos contendo
oócitos em maturação. (de Lira et al., 1990, cortesia de P. Wassarman.)
76     PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


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78     PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


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A base celular da morfogênese:
Afinidade celular diferencial
                                                                                                                        3
Mas a natureza não é atomizada. Sua pa-
dronização é inerente e primária, e a ordem
subjacente à beleza é nela demonstrada; mais
ainda, a natureza só pode ser percebida pela
mente humana, porque ela mesmo é parte
                                               U         m corpo não é meramente uma coleção de tipos de células distribuídas ao
                                                         acaso. Desenvolvimento envolve não só a diferenciação celular, mas tam-
                                                         bém sua morfogênese em arranjos multicelulares tais como tecidos e órgãos.
                                               Quando observamos a anatomia detalhada de um tecido como a retina neural, vemos
                                               um arranjo preciso e intrincado de muitos tipos diferentes de células. Neste Capítulo,
integrante e majoritária daquela ordem.        introduziremos as vias de mudança pelas quais as células do embrião em desenvolvi-
Paul Weiss (1960)                              mento criam órgãos funcionais do corpo. Existem quatro questões majoritárias partici-
                                               pando do arcabouço de discussões sobre morfogênese:
Eu fui criado terrivelmente e maravilhosa-
                                                   • Como se formam tecidos a partir de células? De que modo células da retina
mente. Salmo 139 (ca. 500 a.c).
                                                      neural aderem a outras células da retina neural e não se associam às celulas da
                                                      retina pigmentada ou da íris que estão próximas a elas? De que modo, os vários
                                                      tipos de células presentes na retina neural (as três camadas distintas de fotore-
                                                      ceptores, neurônios bipolares e células ganglionares) estão organizados para
                                                      permitir que a retina seja funcional?
                                                   • Como são os órgãos construídos a partir de tecidos? As células retinais do
                                                      olho estão situadas atrás da córnea e da lente a uma distância exata. A retina
                                                      seria inútil se estivesse situada atrás de um osso ou outro lugar qualquer, onde
                                                      a lente não pudesse nela focalizar os raios de luz. Além disso, os neurônios da
                                                      retina devem penetrar no cérebro para inervar as regiões do córtex cerebral que
                                                      analisam a informação visual. Todas essas conexões devem estar precisamente
                                                      ordenadas.
                                                   • Como células migrantes atingem seu destino, e como se formam órgãos em
                                                      determinados locais? Olhos se desenvolvem na cabeça, mas em nenhum ou-
                                                      tro lugar. O que impede a formação de um olho em outras partes do corpo, se
                                                      todas as células têm o mesmo potencial genético? Em alguns casos, como o de
                                                      precursores de nossas células pigmentadas, células germinativas e glândula
                                                      supra-renal, as células devem percorrer longas distâncias para alcançar seu
                                                      destino final. Como as células são instruídas para percorrer certas rotas e parar
                                                      quando atingem uma região específica do corpo?
                                                   • Como crescem órgãos e suas células, e como é esse crescimento coordenado
                                                      ao longo do desenvolvimento? As células do olho devem crescer juntas, e as
                                                      células da retina raramente dividem-se após o nascimento. Nosso intestino,
                                                      entretanto, está constantemente descartando células e regenerando outras, e
                                                                                                                                    79
80   PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento


                                             ainda assim, sua velocidade mitótica é cuidadosamente controlada. Se mais
                                             células fossem regeneradas do que aquelas descartadas, seriam produzidos
                                             crescimentos cancerosos. Se o número de células regeneradas fosse menor, o
                                             intestino não poderia digerir o alimento. O que controla essas diferenças na
                                             velocidade de crescimento?

                                          Todas essas perguntas se referem a aspectos do comportamento celular. Existem
                                      dois grupos principais de células no embrião: células epiteliais, fortemente ligadas
                                      umas às outras em camadas ou tubos, e as células mesenquimatosas, isoladas e
                                      funcionando como unidades individuais. A morfogênese nessas duas classes de célu-
                                      las se dá através de um limitado repertório de processos celulares: (1) direção e núme-
                                      ro de divisões celulares; (2) mudanças na forma das células; (3) movimento celular; (4)
                                      crescimento celular; (5) morte celular; e (6) mudanças na composição da membrana
                                      celular e da matriz extracelular. A maneira pela qual esses processos se completam
                                      pode diferenciar entre células epiteliais e mesenquimatosas (Figura 3.1).
                                          Parecem existir duas vias principais pelas quais células se comunicam umas com as
                                      outras para que se efetue a morfogênese. A primeira é através de substâncias difusíveis
                                      que são sintetizadas por um tipo de célula e que mudam o comportamento de outros
                                      tipos celulares. Essas substâncias incluem hormônios, fatores de crescimento e
                                      morfógenos; cada um será detalhado em capítulos subseqüentes. O segundo método
                                      involve contato entre superfícies de células adjacentes. Células podem seletivamente
                                      reconhecer outras, aderindo a algumas células ou migrando sobre outras. Os eventos
                                      moleculares que intermediam o reconhecimento seletivo de células e sua transforma-
                                      ção em tecidos e órgãos, ocorrem na superfície celular. Enquanto o paradigma domi-
                                      nante na genética do desenvolvimento é a expressão diferencial do gene, o paradigma
                                      dominante na morfogênese envolve afinidade celular diferencial. Essas afinidades
                                      podem ser para superfícies de outras células ou para moléculas da matriz extracelular
                                      secretadas pelas células. Neste capítulo veremos como superfícies de células adjacen-
                                      tes interagem durante o desenvolvimento, visando localizar as células em sítios apro-
                                      priados dentro de tecidos e órgãos.

                                      Afinidade celular diferencial
                                      Assim como a demonstração da importância dos genes no desenvolvimento gerou
                                      desentendimentos entre pesquisadores, também se desenvolveu um debate sobre o
                                      papel da superfície celular na formação do embrião. A superfície celular parece a mes-
                                      ma em todos tipos de células, e muitos pesquisadores mais antigos pensavam até que
                                      a superfície celular não era uma parte vital da célula. Observações sobre fecundação e
                                      desenvolvimento embrionário precoce feitas por E. E. Just (1939) sugeriam que a
                                      superfície celular diferia em tipos diferentes de células, mas a análise moderna da
                                      morfogênese se inicia com os experimentos de Townes e Holtfreter em 1955. Conside-
                                      rando a descoberta de que tecidos de anfíbios se dissociavam em células isoladas
                                      quando colocados em soluções alcalinas, eles prepararam suspensões de células
                                      isoladas provenientes de cada uma das três camadas germinativas dos anfíbios, logo
                                      após a formação do tubo neural. Duas ou mais dessas suspensões de células isoladas
                                      poderiam ser combinadas de várias maneiras, e quando o pH era normalizado, as
                                      células aderiam umas às outras, formando agregados em placas de Petri cobertas com
                                      agár. Usando embriões de espécies que tinham células de diferentes tamanhos e co-
                                      res, Townes e Holtfreter conseguiram observar o comportamento das células
                                      recombinadas (Figura 3.2).



                                      Figura 3.1                                                                                ±
                                      Sumário dos principais processos morfogenéticos em células mesenquimatosas e epiteliais