Este documento fornece um resumo do livro "Biologia do Desenvolvimento", 5a edição. O livro descreve os principais processos de desenvolvimento em diferentes organismos, desde a fertilização até a formação de estruturas complexas. O documento inclui a tabela de conteúdo do livro, com títulos de cada capítulo, além de imagens ilustrativas das capas e páginas de abertura.
Biologia do
Desenvolvimento
QUINTA EDIÇÃO
Scott F. Gilbert
Swarthmore College
Tradução e Revisão
Adolfo Max Rothschild
Zuleika Rothschild
Francisco A. de Moura Duarte
Maria Helena Corrêa Marques
4.
A capa
FOTOGRAFIA DA CAPA: O mRNA para o Fator 8 de Crescimento
Fibroblástico pode ser detectado pela hibridização in situ da montagem
total usando RNA marcado quimicamente que é complementar a
essa mensagem. No embrião de pinto de 3 dias, a mensagem do Fgf8
é encontrada no ectoderma mais distal dos brotos dos membros, no
limite entre o cérebro posterior e o cérebro intermediário, nos somitos,
nos arcos branquiais do pescoço e na cauda em desenvolvimento. O
FGF8 é importante para diversos processos desenvolvimentais e
desempenha papéis críticos no crescimento dos membros e na
padronização do desenvolvimento do cérebro. Capítulos 3, 7 e 18.
(Fotografia cortesia de E. Laufer, C.-Y. Yeo e C. Tabin.)
FOTOGRAFIA DA CONTRACAPA: Fotografia de um embrião de pinto
de 20-21 dias nos estágios de “pipping” (bicando a casca internamente)
Do original: Developmental biology, e pré-eclosão. Note o revestimento peridérmico proeminente na
Fifth Edition extremidade do bico (dente do ovo), usado pelo pinto para fazer
Copyrigth ® 1997 by Sinauer Associates,
Inc. buracos na casca do ovo, a qual se tornou mais fina e mais quebradiça,
como uma conseqüência da utilização de minerais pelo embrião para
Dados Internacionais de Catalogação na seu crescimento esquelético. Esse estágio desenvolvimental marca a
Publicação (CIP)
(Câmara Brasileira do livro, SP, Brasil) transição do embrião em um pinto que respira ar. Capítulos 1 e 5.
_____________________________________ (Fotografia do International Poultry Journal, cortesia de R. Tuan.)
Gilbert, Scott F., 1949-
Biologia do desenvolvimento /
Scott F. Gilbert. -- As páginas de título
5. ed. -- Ribeirão Preto, SP :
FUNPEC Editora, 2003. PÁGINA ESQUERDA: A expressão gênica gera limites nos discos imagi-
Título original : Developmental biology nais da Drosophila. Os discos grandes e pequenos dentro da larva da
Vários tradutores e revisores. mosca formam as asas e os halteres, respectivamente, no adulto. Nes-
Bibliografia. se estágio, a proteína Apterous (vermelho) é expressa somente nos
ISBN 85-87528-61-0 compartimentos dorsais; a proteína Cubitus interruptus (azul) mar-
ca os compartimentos anteriores (mas não os posteriores) (uma linha
1. Biologia do desenvolvimento I. Título.
formando esse limite pode ser observada). A coloração verde (origi-
03-4459 CDD-571.8 nária da proteína Vestigial) no interior demarca o limite entre o mem-
_____________________________________ bro livre e a articulação ligando-o à parede torácica. Capítulo 19. (Fo-
Índices para catálogo sitemático: tografia cortesia de J. Williams, S. Paddock e S. Carroll.)
1. Bilogia do Desenvolvimento: Ciências
da vida 571.8 PÁGINA DIREITA: Expressão do gene paraxis no embrião de pinto no
estágio de 6 somitos. Hibridização in situ da montagem total usando
Direitos para a língua portuguesa cedidos
pela Sinauer Associates, Inc. para a RNA marcado com “digoxygenin” complementar a uma porção da
Fundação de Pesquisas Científicas de mensagem paraxis do pinto mostra a expressão desse gene durante a
Ribeirão Preto que se reserva a formação do somito. A proteína Paraxis é importante no estabeleci-
propriedade desta tradução.
mento da estrutura desses grupos mesodérmicos. Capítulos 2 e 9.
Proibida a reprodução dos textos (Montagem fotográfica cortesia de R. Tuan.)
originais, mesmo parcial e por
qualquer processo, sem autorização
da editora.
Tabela de Conteúdos
PARTEI Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Introdução ao desenvolvimento Genes e desenvolvimento:
animal 1 1 Introdução e técnicas 35 2
O objetivo da biologia do desenvolvimento 1 As origens embriológicas da teoria dos genes 35
Os problemas da biologia do desenvolvimento 2 Núcleo ou Citoplasma: Qual Controla a
Os estágios do desenvolvimento animal 3 Hereditariedade? 35
Nossa herança eucariótica 5 O Cromossomo X como uma Ponte Entre Genes e
Desenvolvimento entre eucariotos unicelulares 6 Desenvolvimento 37
Controle da Morfogênese no Desenvolvimento em A cisão entre a embriologia e a genética 38
Acetabulária 6 Primeiras tentativas da genética do desenvolvimento 39
Diferenciação em Ameboflagelados Naegleria 10 Evidência para a equivalência genômica 40
As Origens da Reprodução Sexual 12 Metaplasia 40
Eucariotos coloniais: A evolução da diferenciação 16 Clonagem de Anfibios: A Restrição da Potência
As Volvocaceanas 16 Nuclear 42
Informações adicionais & Especulações Clonagem de Anfíbios: A Pluripotência de Células
Sexo e Individualidade em Volvox 18 Somáticas 43
Diferenciação e Morfogênese em Dictyostelium 21 Informações adicionais & Especulações
Informações adicionais & Especulações Clonando Mamíferos por Prazer e Lucro 45
Evidência e Anticorpos 25 Sobre E.coli e elefantes: O modelo operon 47
Informações adicionais & Especulações Síntese diferencial de RNA 49
Como o Grex Sabe Qual Lado Está Para Cima 27 Hibridização de ácido nucléico 54
Padrões desenvolvimentais entre metazoários 28 Clonagem de DNA genômico 55
Os Poríferos 29 Hibridização de DNA: entre e intra espécies 58
Protostomatas e Deuterostomatas 30 Seqüenciamento de DNA 59
Análise de mRNA através de bibliotecas de cDNA 61
Técnicas de localização de RNA 63
Hibridização In Situ 63
Transferências Northern 64
7.
Tabela dos Conteúdos vii
Encontrando mensagens raras pela reação da polimerase Identificando moléculas de adesão celular e seu
em cadeia 66 papel no desenvolvimento 92
Determinando a função do gene: células e organismos Caderinas 92
transgênicos 69 CAMs da superfamília de imunoglobulinas 95
Técnicas de inserção de DNA novo em uma célula 69 Moléculas da junção celular: proteínas da junção em
Camundongos quiméricos 70 fenda 97
Experimentos com genes com endereçamento A base molecular da afinidade célula-substrato 99
(Gene targeting ou Knockout) 70 Afinidade diferencial a substrato 99
Determinando a função de uma mensagem: RNA antisense 73 A matriz extracelular 99
Reinvestigação de velhos problemas com novos métodos 73 Receptores celulares para moléculas da matriz
Uma conclusão e um alerta 75 extracelular 104
Adesão diferencial resultante de sistemas de
Base celular da morfogênese: adesão múltipla 106
Afinidade celular diferencial 79 3 Moléculas de receptores e vias de transdução
de sinais 107
A via JAK-STAT 107
Afinidade celular diferencial 80 A via RTK-Ras 108
O modelo termodinâmico de interações celulares 84 Informações adicionais & Especulações
Informações adicionais & Especulações Mutações negativas dominantes em receptores 110
Evidência para o modelo termodinâmico 87
A via do inositol fosfato 111
A base molecular das adesões célula-célula 88 Cruzamentos entre vias 112
As classes de moléculas de adesão celular 88 A matriz extracelular e a superfície da célula como
Informações adicionais & Especulações fontes de sinais críticos para o
Anticorpos monoclonais e genética reversa 89 desenvolvimento 112
Moléculas de adesão celular 92 Interações recíprocas na superfície celular 113
PARTE II Padrões de Desenvolvimento
Fertilização: Iniciando um Prevenção da Polispermia 140
novo organismo 121 4 Informações adicionais & Especulações
A Ativação do Metabolismo dos Gametas
Ativação do metabolismo do óvulo 149
147
Estrutura dos gametas 121 Respostas precoces 149
Espermatozóide 121 Respostas tardias 151
O óvulo 125 Fusão do material genético 152
Reconhecimento do óvulo e do espermatozóide: Ação à Informações adicionais & Especulações
distância 128 A Não-Equivalência dos Pronúcleos de
Atração do Espermatozóide 128 Mamíferos 154
Ativação Espermática: A Reação Acrossômica no Rearranjo do citoplasma do óvulo 156
Ouriço-do-Mar 129 Preparação para a Clivagem 158
Informações adicionais & Especulações
Ação à Distância: Gametas de Mamíferos 131
Clivagem: Criando
Reconhecimento do óvulo e espermatozóide:
Contato de gametas 132
Reconhecimento Espécie-Específico em Ouriços-
multicelularidade 167 5
do-Mar 132 PADRÕES DE CLIVAGEM EMBRIONÁRIA 168
Ligação de Gametas e Reconhecimento em Clivagem holoblástica radial 169
Mamíferos 135 A holotúria, Synapta 169
Fusão de gametas e a prevenção da polispermia 139 Ouriço-do-Mar 170
Fusão entre as membranas do óvulo e do Anfíbios 173
espermatozóide 139 Clivagem holoblástica espiral 175
8.
viii Tabela dos Conteúdos
Informações adicionais & Especulações Mecanismos de gastrulação em aves 238
Adaptação pela modificação da clivagem Gastrulação em mamíferos 242
embrionária 178 Modificações para desenvolvimento dentro de
Clivagem Holoblástica Bilateral 179 outro organismo 242
Clivagem holoblástica rotacional 180 Formação de membranas extra-embrionárias 245
Compactação 181
Informações adicionais & Especulações
Início do desenvolvimento vertebrado:
A Superfície da Célula e o Mecanismo de
Compactação 184
Formação da massa celular interna 185
Neurulação e ectoderma 253
FORMAÇÃO DO SISTEMA NERVOSO CENTRAL 254
7
Fuga da Zona Pelúcida 185 Neurulação: aspectos gerais 254
Informações adicionais & Especulações Neurulação primária 255
Gêmeos e células embrionárias precursoras 186 A mecânica da neurulação primária 257
Clivagem Meroblástica 188 A formação da placa neural 257
Clivagem discoidal 189 Formação do assoalho da placa neural 258
Clivagem Superficial 192 A modelagem e dobramento da placa neural 259
Informações adicionais & Especulações Fechamento do tubo neural 260
Exceções, Generalizações, e Clivagem Informações adicionais & Especulações
Parasítica da Vespa 195 A modelagem dorsoventral do sistema nervoso 264
MECANISMO DE CLIVAGEM 196 Neurulação secundária 264
Regulando o ciclo da clivagem 196 Diferenciação do tubo neural 265
Fator promotor de maturação 197 Formação das regiões do cérebro 265
Informações adicionais & Especulações Informações adicionais & Especulações
MPF e Seus Reguladores 198 Determinando as regiões do cérebro anterior e
O mecanismo citoesquelético da mitose 201 cérebro médio 268
A formação de novas membranas 203 Arquitetura de Tecido no Sistema Nervoso Central 270
Organização do cerebelo 272
Gastrulação: Reorganizando as Organização cerebral 274
células embrionárias 209 6 Tipos de neurônios 276
Desenvolvimento do olho em vertebrados 279
Dinâmica do desenvolvimento ótico 279
Gastrulação em ouriço-do-mar 210
Diferenciação da retina neural 280
Ingresso do Mesênquima Primário 210
Informações adicionais & Especulações
Primeiro estágio da invaginação do arquêntero 215
Porque os bebês não enxergam bem 282
Segundo e terceiro estágios da invaginação do
Diferenciação do cristalino e da córnea 283
arquêntero 217
A CRISTA NEURAL 284
Gastrulação em peixes 218
A crista neural e seus derivados 284
A transição da blástula intermediária e a aquisição
A crista neural do tronco 285
de motilidade celular 218
Vias de migração das células da crista neural do
Formação das camadas germinais 220
tronco 285
Gastrulação de anfíbios 221
A matriz extracelular e a migração da crista neural
Movimentos celulares durante a gastrulação de
do tronco 287
anfíbios 221
Informações adicionais & Especulações
Posicionando o blastóporo 224
Análise das mutações que afetam o desenvolvi-
Movimentos celulares e a construção do arquêntero 226
mento das células da crista neural 290
Migração do mesoderma involutivo 229
A potência do desenvolvimento das células da crista
Informações adicionais & Especulações
neural do tronco 291
Reguladores moleculares do desenvolvimento:
Diferenciação final das células da crista neural 292
Fibronectinas e as vias da migração
A crista neural cefálica 293
mesodérmica 230
Vias migratórias das células da crista neural
Epibolia do ectoderma 232
cefálica 293
Gastrulação em aves 233
Potência de desenvolvimento das células da crista
Generalidades sobre gastrulação em aves 233
neural cefálica 295
9.
Tabela dos Conteúdos ix
A crista neural cardíaca 296 Início do desenvolvimento
A EPIDERME E A ORIGEM DAS ESTRUTURAS CUTÂNEAS 297
A origem das células epidérmicas 297 vertebrado: Mesoderma e
Apêndices cutâneos 299
Conclusões 300
endoderma 341 9
Especificidade axônica 307 8 MESODERMA 341
Mesoderma dorsal: A notocorda e a diferenciação dos
somitos 341
A geração da diversidade neuronial 307 Mesoderma Paraxial 341
Especificação do Neurônio Motor de Vertebrado 308 Somitômeros e a Iniciação da Formação do
Especificação dos Neurônios Motores em Somito 343
Drosophila 310 Geração de Tipos de Células Somíticas 344
Formação de padrões no sistema nervoso 312 Miogênese: Diferenciação do Músculo
Seleção de trajetórias: Orientação pela matriz Esquelético 347
extracelular 313 Informações adicionais & Especulações
Orientação pelo Terreno Físico: Orientação por Construção Muscular e a Família MyoD de
Contato 313 Reguladores Transcricionais 349
Orientação para Gradientes de Adesão: Osteogênese: O Desenvolvimento
Haptotaxia 314 dos Ossos 351
Condução por Sinais Migratórios específicos Informações adicionais & Especulações
do Axônio: A Hipótese das Trajetórias Controle da Condrogênese na Placa de
Marcadas 315 Crescimento 357
Orientação pela Repulsão Específica de Cones de Mesoderma da Placa Lateral 358
Crescimento 317 Formação das Membranas
Informações adicionais & Especulações Extra-Embrionárias 359
Sexo,Odor e Adesão Específica 319 O Coração 361
Seleção de trajetória: Orientação por moléculas Formação dos vasos sangüíneos 366
difusíveis 320 Informações adicionais & Especulações
Sinais para condução múltipla 323 Redirecionando o Fluxo Sangüíneo no
Neurônios Motores Vertebrados 323 Mamífero Recém-nascido 372
Axônios da Retina 325 O Desenvolvimento de células sangüíneas 373
Seleções de alvos 326 O Conceito de Célula-tronco 373
Especificidades Adesivas em Diferentes Regiões Células-tronco Pluripotenciais e Microambientes
do Tectum 328 Hematopoéticos 374
Seleção de endereço: Desenvolvimento dependente de Desenvolvimento Osteoclástico 377
atividade 331 Locais de Hematopoiese 378
Sobrevivência diferencial após a inervação: Fatores ENDODERMA 380
neurotróficos 331 Faringe 380
Informações adicionais & Especulações O tubo digestivo e seus derivados 382
Neurônios Fetais em Hospedeiros Adultos 334 Fígado, Pâncreas e Vesícula Biliar 382
O desenvolvimento de comportamentos: constância e O Tubo Respiratório 383
plasticidade 334
10.
x Tabela dos Conteúdos
PARTE III Mecanismo da Diferenciação Celular
Regulação transcricional da expressão Ruptura e reorganização de nucleossomos: o papel
dos complexos de ruptura 436
gênica: Fatores de transcrição Ruptura e reorganização de nucleossomos: o papel
e a ativação de promotores da competição de histonas 437
específicos 391 10 Regiões de controle de loco: transcrição do gene da
globina 437
Informações adicionais & Especulações
Éxons e Íntrons 392 Trocas no gene de globina 440
Estrutura e função do promotor 394 Metilação de DNA e atividade gênica 442
Estrutura do promotor 396 Correlações entre metilação do promotor e
Função do promotor 397 inatividade gênica 442
Informações adicionais & Especulações Metilação e a manutenção dos padrões de
RNA polimerase e os fatores trans-reguladores transcrição 443
no promotor 399 Informações adicionais & Especulações
Estrutura e função dos intensificadores 402 Metilação e impressão gênica 444
Necessidade de intensificadores 402 Compensação de dosagem do cromossomo X de
Função do intensificador: Modelos temporais e mamíferos 446
espaciais de transcrição 403 Informações adicionais & Especulações
Fatores de transcrição: Os trans-reguladores dos O mecanismo de inativação do cromossomo X 449
promotores e dos intensificadores 404 Associação do DNA ativo com a matriz nuclear 451
Proteínas de homeodomínio 405 Ligação da cromatina ativa a uma matriz nuclear 451
Os fatores de transcrição POU 406 Topoisomerases e a transcrição gênica 453
Informações adicionais & Especulações Isoladores e domínios 454
Regulação da transcrição dos genes de cadeia Resumo 455
leve das imunoglobulinas 409
Fatores de transcrição básicos do tipo hélice-alça-
hélice 415 Controle do desenvolvimento pelo
Informações adicionais & Especulações processamento e tradução
Regulando as proteínas bHLH miogênicas:
Governando a troca entre proliferação e
diferenciação de células musculares 416
diferencial do RNA 461 12
Fatores de transcrição do zíper básico da leucina 416 CONTROLE DO DESENVOLVIMENTO PELO PROCESSAMENTO
Informações adicionais & Especulações DIFERENCIAL DE RNA 461
Armadilhas do intensificador: natural e Controle do desenvolvimento precoce pela seleção de
experimental 418 RNA nuclear 462
Fatores de Transcrição Dedo de Zinco 420 Os mecanismos de emenda de RNA: Spliceosomes 465
Receptores Nucleares de Hormônios e Seus Emenda alternativa do RNA: Criando proteínas
Elementos Responsivos a Hormônios 420 alternativas a partir do mesmo gene 466
Proteínas que dobram o DNA 423 Um gene, Muitas Proteínas Relacionadas 466
Ativação dependente de contexto ou silenciamento 423 Processamento Alternativo de RNA e
Regulação da atividade do fator de transcrição 425 Determinação Sexual em Drosophila 468
Uso Disseminado do Processamento de RNA para
o Controle da Expressão Gênica 471
Regulação transcricional da REGULAÇÃO DA TRADUÇÃO DOS PROCESSOS
expressão gênica: A ativação da DESENVOLVIMENTAIS 471
cromatina 431 11 Mecanismos da tradução eucariótica 472
Controle da síntese protéica pela longevidade diferencial
do mRNA 474
Nucleossomos e a ativação da cromatina reprimida 431 Degradação Seletiva de mRNAs 475
Acessibilidade a fatores trans-reguladores 432 Controle da tradução de mensagens do oócito 476
Sítios hipersensíveis à DNAase I 434
11.
Tabela dos Conteúdos xi
Caracterização de RNAs Mensageiros Informações adicionais & Especulações
Armazenados em Oócitos 477 A Ativação do Genoma Embrionário 488
Informações adicionais & Especulações Regulação dos genes da tradução em larvas e
Determinando o Destino Celular por Meio do adultos 490
mRNA Localizado do Oócito 480 Determinação de Gametas em C. elegans 490
Mecanismos para a regulação da tradução das RNA Antisenso Natural 491
mensagens dos oócitos 481 “Disjuntores” do Controle da Tradução 492
A Hipótese da Mensagem Materna Mascarada 482 Editoração do RNA 493
A Hipótese da Cauda Poli(A) 483 Controle da tradução e síntese protéica coordenada:
A Hipótese da Eficiência da Tradução 486 Produção de Hemoglobina 494
Outros sistemas de ativação do mRNA: Mensagens Epílogo: Regulação Pós-tradução 497
sem “Cap” e Mensagens Seqüestradas 486
PARTE IV Especificação do Destino Celular e os
Eixos Embrionários
Especificação celular autônoma A genética da
por determinantes especificação axial em
citoplasmáticos 505 13 Drosophila 543 14
Comprometimento celular e diferenciação 505 Resumo do desenvolvimento de Drosophila 543
Pré-formação e epigênese 507 AS ORIGENS DA POLARIDADE ÂNTERO-POSTERIOR 545
Os Teratologistas Franceses 509 Visão Panorâmica 545
Especificações autônomas em embriões de tunicados 510 Os genes de efeito materno 546
O determinante formador de músculos do Evidência Embriológica da Regulação da
crescente amarelo 511 Polaridade pelo Citoplasma do Oócito 546
Especificação citoplasmática das linhagens O Modelo Molecular: Gradientes Protéicos no
endodérmicas e epidérmicas e o eixo ântero- Embrião Precoce 547
posterior 514 Informações adicionais & Especulações
Localização citoplasmática em embriões de moluscos 515 Modelos de Gradientes da Informação
O lóbulo polar 517 Posicional 551
Especificação celular no nematódeo Caenorhabditis Evidência que o Gradiente da Proteína Bicoid
elegans 521 Constitui o Centro de Organização Anterior 552
Controle maternal da identidade do blastômero: O O Centro de Organização Posterior: Localizando e
controle genético das células progenitoras Ativando o Produto de nanos 556
faríngeas de C. elegans 524 O Grupo Gene Terminal 557
Regulação em C. elegans 527 Os genes da segmentação 559
Informações adicionais & Especulações Uma Visão Panorâmica 559
“Ser ou Não Ser: Esse é o Fenótipo” 529 Os Genes de gap 561
Divisões celulares assimétricas no desenvolvimento Os Genes pair-rule 563
tardio 530 Os Genes de Polaridade Segmentar 565
Localização citoplasmática de determinantes de células Os genes de Seleção homeótica 569
germinativas 531 Padrões de Expressão dos Genes Homeóticos 569
Determinação de células germinativas em Iniciando os Padrões da Expressão dos genes
nematódeos 531 Homeóticos 572
Determinação da célula germinativa em insetos 532 Mantendo os Padrões de Expressão dos genes
Componentes do plasma polar da Drosophila 534 Homeóticos 572
Determinação de células germinativas em Os Elementos Cis-Reguladores e o Complexo
anfíbios 536 Bithorax 574
Resumo 538
12.
xii Tabela dos Conteúdos
Informações adicionais & Especulações Indução de especificidade mesodérmica ventral e
Regulação Molecular do Desenvolvimento: As lateral 612
Proteínas do Homeodomínio 576 A criação da atividade do organizador 613
A GERAÇÃO DA POLARIDADE DORSOVENTRAL EM Proteínas secretadas do organizador 613
DROSOPHILA 577 Informações adicionais & Especulações
A proteína Dorsal: Morfógeno para a polaridade BMP4 e a lagosta de Geoffroy 616
dorsoventral 577 Fatores de transcrição induzidos no
Translocação da Proteína Dorsal 577 organizador 619
Provendo o sinal assimétrico para a translocação da Informações adicionais & Especulações
proteína Dorsal 578 Como o Organizador Neuraliza o
Sinal do Núcleo do Oócito para as Células Ectoderma? 621
Foliculares 578 A especificidade regional de indução 621
Sinalização das Células Foliculares para o A determinação das diferenças regionais 621
Citoplasma do Oócito 580 O modelo do duplo gradiente 623
O Estabelecimento do Gradiente da Proteína Correlatos moleculares da caudalização
Dorsal 581 neural 624
PRIMÓRDIOS DE ÓRGÃOS E EIXOS 585 Informações adicionais & Especulações
O modelo de coordenadas cartesianas e a especificação Sinais verticais e horizontais do
dos primórdios dos órgãos 585 organizador 626
Resumo: Alguns princípios do desenvolvimento da Genes homeobox na especificação neural 628
Drosophila 586 Competência e cascatas indutivas 628
Especificação do destino celular Estabelecimento dos eixos
por interações célula-célula corporais em mamíferos
progressivas 591 15 e aves 635 16
Desenvolvimento regulativo 591 Iniciando o eixo ântero-posterior 635
Testando a teoria do plasma germinativo 592 Estabelecendo um Centro de Nieuwkoop 635
August Weismann: A teoria do plasma Expressão Gênica em Tecidos Organizadores 636
germinativo 592 Especificando o eixo ântero-posterior de mamífero: A
Wilhelm Roux: Desenvolvimento em mosaico 593 hipótese do código Hox 637
Hans Driesch: Desenvolvimento Regulativo 594 Homologia dos Complexos de Genes Homeóticos
Sven Hörstadius: Potência e gradientes em oócitos 597 entre Drosophila e Mamíferos 637
Formação de um organismo integrado: Restringindo Expressão de Genes Hox no Sistema Nervoso
a potência das células vizinhas 598 Central e seus Derivados 638
Regulação durante o desenvolvimento de anfíbios 600 Análise Experimental de um Código Hox: Gene
Hans Spemann: Determinação progressiva das Alvo 640
células embrionárias 600 Transformação Parcial de Segmentos por
Hans Spemann e Hilde Mangold: Indução Eliminação de Genes Hox Expressos no
embrionária primária 603 Tronco 642
O centro de Nieuwkoop 606 Análise Experimental do Código Hox: Teratogênese
A formação do centro de Nieuwkoop e a polaridade do Ácido Retinóico 643
mesodérmica 606 Evidência para um Código Hox da Anatomia
A especificação da polaridade dorsoventral na Comparada 645
fertilização 607 Informações adicionais & Especulações
A base molecular da indução mesodérmica 609 Animais como Variações sobre o Mesmo Tema
Estabelecendo a regionalização dorsal: o possível Desenvolvimental 646
papel da β-catenina 609 Eixos dorsoventral e esquerdo-direito em mamíferos e
O funcionamento do centro de Nieuwkoop: funções aves 647
para Vg1 e Noggin 610
13.
Tabela dos Conteúdos xiii
PARTE V Interações Celulares Durante a
Formação do Órgão
Interações proximais de tecidos: de crescimento dos fibroblastos como
Indução secundária 655 17 indutores do broto do membro 704
Indução da crista ectodérmica apical 704
Produção do eixo próximo-distal dos membros 706
Interações instrutivas e permissivas 655 A crista ectodérmica apical: O componente
Competência e receptores 656 ectodérmico 706
Fatores parácrinos 657 A zona progressiva: O componente mesodérmico 708
Os Fatores de Crescimento Fibroblástico 658 Genes Hox e a especificação do eixo próximo-
A família hedgehog 659 distal do membro 709
A família Wnt 660 Interações entre a AER e a zona progressiva 711
A superfamília TGF-ß 661 Mutações nas interações entre a zona progressiva
Sinalização Justácrina 662 e a AER 711
Interações epitélio-mesênquima 663 Informações adicionais & Especulações
Especificidade Regional da Indução 663 A regeneração dos membros da salamandra e a
Especificidade Genética da Indução 666 retenção do eixo próximo-distal 714
Cascatas de indução embrionária: Indução do cristalino 667 Especificação do eixo ântero-posterior dos membros 716
Os Fenômenos da Indução do Cristalino 667 A zona de atividade polarizante 716
A Base Celular da Indução do Cristalino 668 Sonic hedgehog como definidor da ZPA 717
Formação da Córnea 672 Interações entre a AER e a ZPA para integrar
Formação de órgãos parenquimatosos 672 crescimento e padrão 718
Morfogênese do Rim de Mamífero 673 Especificando a ZPA 721
Os Mecanismos da Organogênese Renal 676 A produção do eixo dorsoventral 721
Informações adicionais & Especulações Distinguindo o membro anterior do membro posterior 722
Diferenciação Coordenada e Morfogênese no Informações adicionais & Especulações
Dente 682 Lições de limbless 724
Mecanismos de ramificação na formação de órgãos Morte celular e a formação de dígitos 724
parenquimatosos 683 Informações adicionais & Especulações
A Matriz Extracelular como um Elemento Crítico Evolução do membro tetrápode 726
na Ramificação 684
Fatores Parácrinos Efetuando Padrões de
Ramificação 686 Interações celulares à distância:
Indução ao nível de uma única célula 687 Hormônios como mediadores do
Indução Vulvar no Nematóide Caenorhabditis
elegans 690
Informações adicionais & Especulações
desenvolvimento 733 19
Interações Célula-Célula e Possibilidade na Metamorfose: o direcionamento hormonal do
Determinação de Tipos Celulares 692 desenvolvimento 733
Metamorfose anfíbia 734
Controle hormonal da metamorfose de anfíbios 735
Desenvolvimento do membro
de tetrápode 701 18 Respostas Moleculares aos Hormônios da Tireóide
Durante a Metamorfose 740
Informações adicionais & Especulações
Padronização no membro 701 Heterocronia 743
Formação do broto do membro 702 Metamorfose em insetos 746
O campo do membro 702 Eversão e Diferenciação dos Discos Imaginais 746
Especificação dos campos do membro: Genes Informações adicionais & Especulações
Hox e ácido retinóico 703 A determinação dos discos imaginais da perna
Crescimento do broto de membro precoce: fatores e da asa 750
Remodelação do sistema nervoso 753
14.
xiv Tabela dos Conteúdos
Controle Hormonal da Metamorfose de Insetos 754 Hermafroditismo 795
A biologia Molecular da Atividade da Hermafroditismo no Nematóide C. elegans 795
Hidroxiecdisona 757 Hermafroditismo em Peixes 797
Informações adicionais & Especulações Determinação ambiental do sexo 798
Controle ambiental sobre a forma e a função da Determinação Sexual Dependente de Temperatura
larva 761 em Reptéis 798
Interações hormonais múltiplas no desenvolvimento da Determinação Sexual Dependente da Localização
glândula mamária 762 em Bonellia viridis e Crepidula fornicata 799
Estágio embrionário 762 Resumo 800
Adolescência 765
Gravidez e lactação 765 Regulação ambiental do
Determinação do sexo 773 20 desenvolvimento animal 805 21
REGULAÇÃO AMBIENTAL DO DESENVOLVIMENTO NORMAL 806
Determinação cromossômica do sexo em mamíferos 774
Sugestões ambientais usadas pelos organismos para
Determinação Sexual Primária 774
completar seus desenvolvimentos 806
Determinação Secundária do Sexo 774
A colonização larval 806
As Gônadas em Desenvolvimento 775
Refeições de sangue 808
Determinação sexual primária dos mamíferos: Genes
Simbiose no desenvolvimento 808
cromossômicos Y para a determinação dos
Diferenças ambientais previsíveis como sugestões para o
testículos 777
desenvolvimento 810
SRY: O Determinante Sexual do Cromossomo Y 778
Sazonalidade e sexo: Afídios e Volvox 810
Determinação sexual primária em mamíferos: Genes
Diapausa 812
autossômicos na determinação de testículos 780
Plasticidade fenotípica: Polifenismo e regras de
SOX9: Reversão Autossômica na Displasia
reação 813
Campomélica 780
Polifenismo sazonal em borboletas 814
SF1: A Ligação Entre SRY e as Trajetórias
Polifenismo nutricional 816
Desenvolvimentais Masculinas 780
Determinação sexual dependente do ambiente 817
Determinação sexual primária em mamíferos:
Fatores ambientais imprevisíveis controlando o
Desenvolvimento ovariano 781
desenvolvimento animal 818
DAX1: Um Potencial Gene Determinante de Ovário
Defesas induzíveis contra a predação 819
no Cromossomo X 781
Plasticidade fenotípica e mudanças no ambiente 820
Wnt4a: Um Potencial Gene Determinante de
Informações adicionais & Especulações
Ovário em um Autossomo 781
Assimilação Genética 821
Determinação sexual secundária em mamíferos 782
A contínua plasticidade do desenvolvimento 822
Regulação Hormonal do Fenótipo Sexual 782
O sistema imune: Desenvolvimento no adulto 822
Testosterona e Diidrotestosterona 783
Aprendizado: Um sistema nervoso adaptável ao
Hormônio Anti-Mülleriano 784
ambiente 823
O Sistema Nervoso Central 785
DISTÚRBIOS AMBIENTAIS DO DESENVOLVIMENTO NORMAL 827
Informações adicionais & Especulações
Malformações e distúrbios 827
O Desenvolvimento de Comportamentos
Agentes teratogênicos 828
Sexuais 787
Ácido retinóico como um teratogênico 829
Determinação sexual cromossômica em Drosophila 788
Talidomida como um teratogênico 830
A Via do Desenvolvimento Sexual 788
Álcool como um teratogênico 833
O Gene Sex-lethal como o Pivô para a
Outros agentes teratogênicos 835
Determinação do Sexo 790
Informações adicionais & Especulações
Os Genes transformer 793
Estrógenos Ambientais 836
doublesex: O Gene Comutador da Determinação
Interações genética-ambiental 837
Sexual 793
Resumo 837
Genes-alvo para a Cascata de Determinação
Sexual 794
15.
Tabela dos Conteúdos xv
A saga da linhagem Mecanismos desenvolvimentais
germinativa 843 22 da mudança evolucionária 883 23
Migração das células germinativas 843 “Unidade de Tipo” e “Condições de Existência” 883
Migração das Células Germinativas em A Síntese de Charles Darwin 883
Anfíbios 843 E. B.Wilson e F. R. Lillie 885
Migração das Células Germinativas em A evolução do desenvolvimento precoce: E. Pluribis
Mamíferos 844 Unum 885
Informações adicionais & Especulações A emergência dos embriões 885
Teratocarcinomas e Células-Tronco Formação de um Novo Filo: Modificando os
Embrionárias 847 Caminhos do Desenvolvimento 887
Migração de Células Germinativas em Aves e Modularidade: O pré-requisito para mudança evolutiva
Répteis 848 através do desenvolvimento 891
Migração de Células Germinativas Primordiais em Modularidade 891
Drosophila 849 Dissociação: Heterocronia e Alometria 891
Meiose 850 Duplicação e Divergência 893
Informações adicionais & Especulações Co-opção 894
Grandes Decisões: Mitose ou Meiose? Progressão correlacionada 896
Espermatozóide ou Óvulo? 853 Restrições ao desenvolvimento 898
Espermatogênese 855 Restrições Físicas 898
Espermiogênese 857 Restrições Morfogenéticas 898
Informações adicionais & Especulações Restrições Filéticas 899
Expressão Gênica Durante o Desenvolvimento Evolução Conjunta do Ligante e Receptor:
do Espermatozóide 858 Isolamento Reprodutivo 901
Oogênese 860 O mecanismo genético do desenvolvimento da
Meiose oogênica 860 mudança evolucionária: Genes reguladores
Maturação do Oócito em Anfibios 861 homólogos 902
Conclusão da meiose: Progesterona e Pax6 e o desenvolvimento do olho 902
Fecundação 864 BMP4 e a Morfogênese dos Membros 904
Transcrição Gênica em Oócitos 865 Genes Hox e a Evolução dos Vertebrados 905
Oogênese Meroística em Insetos 867 Genes Hox e a Evolução dos Artrópodes 907
Informações adicionais & Especulações Caminhos homólogos do desenvolvimento 909
A Origem dos Eixos Embrionários de Criando novos tipos de células: O mistério evolucionário
Drosophila Durante a Oogênese 869 básico 911
Oogênese em Mamíferos 870 Uma nova síntese evolucionária 912
Informações adicionais & Especulações
O Reinício da Meiose nos Oócitos de Fontes Para as Citações das Aberturas
Mamíferos 875
dos Capítulos C-1
Índice de Autores IA-1
Índice de Assuntos IA-2
Índice de Abreviaturas IA-3
16.
Prefácio
O s últimos anos do século 20 encontram a biologia do desenvolvi-
mento retornando à posição que ela ocupou no início do século: a
disciplina que unifica os estudos da hereditariedade, evolução e
fisiologia. Em 1896, a primeira edição de B. Wilson do The Cell in Development
and Inheritance anunciou “a verdade maravilhosa que uma única célula pode
conter em seu interior sua extensão microscópica da soma-total da herança
das espécies.” Hoje, a biologia do desenvolvimento está na vanguarda desse
estudo de nossa herança natural. Nos seus aspectos moleculares, ela toca a
química física na sua investigação dos mecanismos bioquímicos pelos quais
proteínas diferentes são produzidas em células diferentes do mesmo geno-
ma. Ela também está na liderança dos estudos evolucionários que procuram
entender como mudanças macroevolucionárias ocorreram. Ela abriu recen-
temente uma área nova da biologia do desenvolvimento ecológico, onde mu-
danças ambientais são vistas criando alterações no desenvolvimento do
organismo. Durante os últimos 3 anos, a biologia do desenvolvimento tam-
bém expandiu para a medicina, fundindo-se com a genética clínica para criar
uma ciência revitalizada da embriologia humana, uma ciência que já se
tornou importante na explanação das malformações congênitas.
A quinta edição do Biologia do Desenvolvimento foi revisada e reescrita
para refletir essas revoluções que estão acontecendo. Aconteceram quatro
mudanças importantes na estrutura do livro desde sua última edição. Pri-
meiro, tornou-se impossível discutir os princípios fundamentais da em-
briologia sem o conhecimento da atividade gênica ou vias da transdução de sinais.
Portanto, essa informação foi trazida dentro da seção introdutória do livro
de modo que interações celulares, tais como fertilização e indução, podem
ser apreciadas tanto no âmbito molecular quanto no morfológico.
Segundo, novo interesse nos efeitos do ambiente no desenvolvimento
normal e anormal conduziu a um novo capítulo. O Capítulo 21, “Regulação
Ambiental do Desenvolvimento Animal,” diz respeito às vias pelas quais o
meio ambiente afeta o fenótipo do organismo. Interesse na proteção ambiental
e em controvérsias envolvendo a possibilidade de poluentes teratogênicos
forçaram uma nova percepção das influências que o meio ambiente repre-
senta no desenvolvimento normal e anormal. Na verdade, os biologistas do
desenvolvimento podem rapidamente encontrar-se à frente dos movimen-
tos da conservação ecológica. As primeiras quatro edições deste livro bus-
caram integrar abordagens molecular, celular e orgânica à biologia do de-
senvolvimento; esta edição adiciona a dimensão ecológica.
Terceiro, esta edição introduz novas ênfases nos papéis dos fatores
parácrinos no desenvolvimento. Não somente os estudos da transdução
de sinais estão colocados na seção introdutória deste livro, como a Parte V
17.
Prefácio xvii
da Quinta Edição inicia com uma visão geral das famílias do fator de cres-
cimento fibroblástico, TGF-β, Wnt e Hedgehog dos fatores de crescimento
e diferenciação.
Quarto, este livro está conectado a um website onde estudantes e pro-
fessores podem encontrar mais material em muitos tópicos selecionados.
Tal material inclui (1) detalhes de experimentos que são extremamente
especializados para serem colocados no texto, (2) informação histórica so-
bre áreas particulares da biologia do desenvolvimento e personalidades
envolvidas, (3) implicações médicas de fenômenos particulares do desen-
volvimento, (4) debates ou comentários em questões relevantes para o cam-
po, e (5) atualizações do material do texto nessa área da biologia de cresci-
mento cada vez mais rápido. Filmes e entrevistas gravadas estão incluídas
e esses artigos de destaque poderão ser expandidos à medida que a tecnologia
os tornar mais fáceis para serem usados. Esse website está conectado tam-
bém a outros websites e podem ser usados para enriquecer a perspectiva de
alguém sobre o que está acontecendo no desenvolvimento animal. A presen-
ça de um website nos permite manter o direcionamento deste livro às pesso-
as para as quais isso foi originalmente pretendido: estudantes dos últimos
anos da graduação e do início da pós-graduação. Ele também me ajudou a
não deixar o livro tornar-se um substituto para peso de papel.
A visão de Roux foi que a biologia do desenvolvimento “algum dia cons-
tituiria a base de todas as outras disciplinas biológicas e, em continuada
simbiose com essas disciplinas, desempenharia uma parte proeminente nas
soluções dos problemas da vida.” Essas foram palavras audaciosas, até mes-
mo arrogantes há cem anos atrás; hoje, elas expressam uma aceitação ampla-
mente sustentada. O desenvolvimento integra todas as áreas da biologia e
desempenha um papel crucial em relacionar o genótipo ao fenótipo. O desen-
volvimento pode ser estudado usando qualquer organismo e em qualquer
nível de organização, de moléculas a filos.
À medida que o campo continuar a se expandir e se aprofundar , uma
palavra de advertência é requerida: a biologia do desenvolvimento não pode
ser aprendida ou ensinada em um único semestre. Este texto é uma tentati-
va para prover cada pessoa com material suficiente para seu curso, mas um
instrutor não necessita se sentir culpado por não determinar todos os capí-
tulos, e os estudantes não necessitam se sentir privados se eles não lerem
todos os capítulos. Isto é o começo do caminho, não sua conclusão.
Como usar o website
Qualquer pessoa pode entrar no website através de sua homepage
[http://zygote.swarthmore.edu/index.html] ou através da sua lista de ar-
quivos de capítulos localizada no [http://zygote.swarthmore.edu/info.html].
Alternativamente, nós colocamos acessos específicos endereçados em todo
o livro onde quer que exista uma entrada relevante no momento da publica-
ção. Todos esses endereços começam com [http://zygote.swarthmore.edu/]
e são seguidos por um código dado no livro texto. Assim, a localização
especificada na página 20 do livro é:
http://zygote.swarthmore.edu/intro2.html
Mais localizações estão sendo adicionadas no website, e essas podem
ser acessadas entrando nos arquivos do capítulo. Em adição, clicando no
botão “Outros Arquivos” abaixo de cada capítulo, as conexões para outros
websites serão facilitadas. Divirta-se.
18.
xviii Prefácio
Agradecimentos
Esta edição, como suas precursoras, deve muito às sugestões e críticas dos
estudantes em minhas classes de biologia do desenvolvimento e genética
do desenvolvimento. O grupo de funcionários e docentes extremamente
corporativo da Universidade Swarthmore também desempenharam pa-
péis importantes na produção deste livro, e os bibliotecários da área de
ciência E. Horikawa e M. Spencer merecem agradecimentos especiais por
terem segurado volumes recentes na biblioteca enquanto eu estava escre-
vendo o livro. Os cientistas que revisaram estes capítulos forneceram enor-
me ajuda tanto na precisão técnica dos capítulos quanto nas sugestões
para trabalho futuro. Esses investigadores incluem: S. Carroll, J. Cebra-
Thomas, E. M. De Robertis, S. DiNardo, E. Eicher, C. Emerson, G. Grunwald,
D. J. Grunwald, M. Hollyday, L. A. Jaffe, W. Katz, R. Keller, K. Kemphues, D.
Kirk, G. Martin, H. F. Nijhout, D. Page, R. Raff, R. Schultz, C. Stern, S.
Tilghman, R. Tuan e M. Wickens. Eu também quero agradecer aos muitos
cientistas que desviaram do seu caminho para ajudar a tornar esta edição
melhor lendo porções específicas dos capítulos. Eles incluem: M. Bronner-
Fraser, J. Fallon, N. M. Le Douarin, E. McCloud, J. Opitz, K. Sainio, H. Sariola,
I. Thesleff e T. Valente. Se eu deixei alguém fora, por favor me desculpem. É
desnecessário dizer que os julgamentos editoriais finais foram de minha
responsabilidade. Meus agradecimentos especiais a Judy Cebra-Thomas
que não somente me aconselhou em certos capítulos mas quem deu exce-
lente ajuda durante meu período sabático permitindo-me terminar este
livro. Agradecimentos também aos cientistas e filósofos, especialmente: C.
van der Weele, R. Amundson, L. Nyhart, R. Burian, H. F. Nijhout, A. F.
Sterling, K. Smith e A. I. Tauber, que participaram nos workshops de biolo-
gia do desenvolvimento da Sociedade Internacional para a História, Filo-
sofia e Estudos Sociais da Biologia. Algumas das melhores críticas cons-
trutivas deste livro-texto vieram dessas pessoas.
Andy Sinauer uma vez mais conseguiu reunir as mesmas e extraor-
dinárias pessoas neste projeto, e foi um privilégio trabalhar com eles. Meus
agradecimentos a ele e aos editores Nan Sinauer e Carol Wigg, coordenador
de produção Chris Small, artistas John Woolsey e Gary Welch, designer
Susan Schmidler, editor de texto Janet Greenblatt, e artista de layout Janice
Holabird. As habilidades editoriais de Tinsley Davis são extremamente re-
conhecidas. Devido ao fato de que os prazos finais devem ser cumpridos e
outro trabalho posto de lado, eu tenho que agradecer minha família por
mais uma vez me permitir prosseguir com isso. Em particular, este livro
nunca poderia ter sido completado se não fosse pelo encorajamento de mi-
nha esposa, Anne Raunio, que, como uma obstetra, gosta do lado mais prá-
tico da biologia do desenvolvimento. Meus agradecimentos a todos vocês.
SCOTT F. GILBERT
1 DE MARÇO DE 1997
19.
Introdução à Biologia
doDesenvolvimento
1 Introdução ao desenvolvimento animal 1
2 Genes e desenvolvimento: Introdução e técnicas 35
3 Base celular da morfogênese: Afinidade celular diferencial 79
I
21.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 1
Introdução ao desenvolvimento animal
1
O
A natureza parece nunca mudar, ainda que CONCEITO DE EMBRIÃO é assombroso, e a formação de um embrião é a
sua aparência esteja sempre mudando. É tarefa mais árdua que alguém haverá de realizar. Para se tornar um embrião,
nosso dever como artistas transmitir junta- você teve que construir a si mesmo a partir de uma única célula. Teve que
mente com todos os seus elementos a emo- respirar antes que tivesse pulmões, digerir alimentos antes que seus órgãos estives-
ção dessa permanente transformação.
sem formados, construir ossos a partir de uma massa e ordenar os neurônios antes
Paul Cezanne (ca. 1900)
mesmo de adquirir a capacidade de pensar. Uma diferença marcante entre você e a
máquina é que a máquina nunca é requisitada para uma função antes que esteja
Feliz é a pessoa que consegue discernir as
causas das coisas. terminada. Todo animal tem que estar em funcionamento enquanto se auto-constrói.
Virgílio (37 A.C.)
O objetivo da biologia do desenvolvimento
Para plantas e animais, o único caminho para o desenvolvimento a partir de uma célula,
é desenvolvendo um embrião. O embrião é o intermediário entre o genótipo e o fenótipo,
ou seja, entre os genes herdados e o organismo adulto. Enquanto a maior parte da
biologia estuda a estrutura adulta e função, a biologia do desenvolvimento encontra
maior interesse nos estágios mais transitórios. Biologia do desenvolvimento é a ciên-
cia do vir a ser, a ciência do processo. Dizer que um inseto efêmero vive apenas um dia
não significa nada para um biologista do desenvolvimento, porque o inseto pode ser
adulto apenas por um dia, mas passou outros 364 dias como um embrião e larva.
As questões levantadas por um biologista do desenvolvimento são freqüente-
mente questões mais ligadas ao vir a ser do que ao ser propriamente dito. Dizer que
mamíferos XX são geralmente fêmeas e mamíferos XY são geralmente machos, não
explica a determinação sexual para um biologista do desenvolvimento. Esse quer sa-
ber como o genótipo XX produz um ser feminino e como o genótipo XY produz um ser
masculino. Da mesma maneira, um geneticista gostaria de saber como os genes globina
são transmitidos de uma geração à outra, e um fisiologista pode fazer perguntas sobre
a função da globina no corpo. Porém, o biologista do desenvolvimento pergunta
porque os genes globina se expressam somente nas hemácias e como essas se tornam
ativas apenas em certas fases do desenvolvimento (ainda não sabemos as respostas).
Biologia do desenvolvimento é uma ciência excelente para pessoas que querem
integrar diferentes níveis da biologia. Diante de um problema, podemos estudá-lo a
1
22.
2 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
níveis molecular e químico (p. ex., Como os genes globina são transcritos, e como os
fatores que ativam sua transcrição interagem uns com os outros e com o DNA?), a níveis
celular e tissular (p. ex., Quais são as células capazes de produzir globina, e como o
mRNA da globina deixa o núcleo?), a nível de órgãos ou sistema de órgãos (p. ex., Como
vasos capilares são formados em cada tecido, e como são instruídos a se conectarem e
ramificarem?) e, até mesmo, a níveis ecológicos e evolucionários (p. ex., Como diferenças
na ativação do gene globina permitem o fluxo de oxigênio da mãe para o feto, e como
fatores ambientais acionam a diferenciação de mais hemácias?). Biologistas do desen-
volvimento podem estudar qualquer organismo e todo tipo de célula.
Biologia do desenvolvimento é um dos campos que mais tem crescido e também
um dos mais emocionantes da biologia. Parte dessa emoção vem dos assuntos estu-
dados, porque estamos apenas começando a entender o mecanismo molecular do
desenvolvimento animal. Outra parte da emoção vem do papel unificador que a biolo-
gia do desenvolvimento assume nas ciências biológicas. A biologia do desenvolvi-
mento está criando uma estrutura que integra a biologia molecular, fisiologia, biologia
celular, anatomia, pesquisa do câncer, neurobiologia, imunologia, ecologia, e biologia
evolucionária. O estudo do desenvolvimento tornou-se essencial para a compreensão
de qualquer área da biologia.
Os problemas da biologia do desenvolvimento
O desenvolvimento é realizado por duas funções principais: gera diversidade e ordem
celular dentro de cada geração, o que assegura a continuidade da vida que passa de
uma geração à outra. Assim, existem duas questões fundamentais para a biologia do
desenvolvimento: Como um ovo fertilizado origina um ser adulto, e como esse ser
adulto produz um outro ser? Cada espécie tem suas próprias respostas, mas algumas
generalizações podem ser feitas. Tradicionalmente, essas questões têm sido subdivi-
didas em quatro problemas gerais da biologia do desenvolvimento:
• O problema da diferenciação. Uma única célula, o ovo fertilizado, se desen-
volve e gera centenas de células de diferentes tipos - células musculares,
células epidérmicas, neurônios, linfócitos, células do sangue, células gorduro-
sas, e assim por diante. Essa geração de diversidade celular é chamada diferen-
ciação. Desde que cada célula do corpo contém o mesmo conjunto de genes,
precisamos entender como esse mesmo conjunto de instruções genéticas pode
produzir diferentes tipos de células.
• O problema da morfogênese. Nossas células diferenciadas não são distribuí-
das aleatoriamente; pelo contrário, são organizadas em intrincados tecidos e
órgãos. Esses órgãos estão dispostos de tal maneira que: dedos estão nas
pontas e não no meio de nossas mãos, os olhos estão na nossa cabeça e não
nos pés ou intestinos. Essa criação de forma ordenada, é chamada morfogêne-
se. Como as células se auto-organizam e formam um arranjo correto?
• O problema do crescimento. Somos maiores do que um ovo, mas como as
células sabem quando devem parar de se dividir? Se cada célula de nossa face
realizasse mais uma divisão celular, seríamos considerados horrivelmente mal
formados. Se cada célula de nossos braços tivesse realizado apenas mais uma
série de divisões, poderíamos amarrar nossos sapatos sem nos abaixar.
• O problema da reprodução. O espermatozóide e o óvulo são células muito
especializadas. Somente eles podem transmitir instruções para produzir um
organismo de uma geração para outra. Como essas células são separadas para
formar a próxima geração, e quais as informações no núcleo e no citoplasma
que permitem tal funcionamento?
Recentemente, tem-se dado grande ênfase a um quinto problema:
• O problema da evolução. A evolução envolve mudanças herdadas durante o
desenvolvimento. Quando dizemos que o cavalo de um dedo só de hoje, teve
um ancestral de cinco dedos, estamos dizendo que mudanças no desenvolvi-
23.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 3
mento da cartilagem e dos músculos ocorreram ao longo de muitas gerações de
embriões nos ancestrais do cavalo. Como mudanças no desenvolvimento cri-
am novas formas de corpo? Quais modificações hereditárias são possíveis,
dadas as restrições impostas pela necessidade do organismo sobreviver en-
quanto se desenvolve?
Os estágios do desenvolvimento animal
De acordo com Aristóteles, o primeiro grande embriologista da história, a ciência
começa com a curiosidade: “é graças a curiosidade que as pessoas começaram a
filosofar, e a curiosidade permanece desde o início do conhecimento.” O desenvolvi-
mento de um ser a partir do ovo tem sido motivo de admiração através da história da
humanidade. O simples procedimento de se abrir um ovo de galinha a cada dia do seu
período de incubação de três semanas proporciona uma notável experiência quando
se observa desde uma fina camada de células até o total desenvolvimento da ave.
Aristóteles realizou esse procedimento e observou a formação dos principais órgãos.
Qualquer um pode se admirar com esse fenômeno, ainda que ordinário, mas cientistas
são os que procuram descobrir como o desenvolvimento realmente ocorre. E ainda
mais do que dissipar essa admiração, novo conhecimento só faz aumentá-la.
Organismos pluricelulares não se formam de imediato, ao contrário, são formados
por um processo relativamente lento de mudança progressiva, o qual chamamos de
desenvolvimento. Em quase todos os casos, o desenvolvimento de um organismo
pluricelular começa com uma única célula - ovo fertilizado ou zigoto, que dividido
através da mitose, produz todas as células do corpo. O estudo do desenvolvimento
animal tem sido tradicionalmente chamado de embriologia, se referindo ao fato de que
entre a fertilização e o nascimento, o organismo em desenvolvimento é conhecido
como embrião. Mas o desenvolvimento não cessa no nascimento, ou mesmo na vida
adulta, porque a maioria dos organismos nunca pára de se desenvolver. A cada dia nós
repomos mais de um grama de células de pele (fazendo com que as células mais velhas
se desprendam assim que nos movemos), e nossa medula óssea sustenta o desenvol-
vimento de milhões de novos eritrócitos a cada minuto de nossas vidas. Portanto, nos
últimos anos tem sido comum se falar em biologia do desenvolvimento, como a discipli-
na que estuda processos embrionários e outros do desenvolvimento.
As principais características do desenvolvimento animal estão ilustrados na Figu-
ra 1.1. A vida de um novo indivíduo é iniciada pela fusão do material genético de dois
gametas, o espermatozóide e o óvulo. Essa fusão, chamada fertilização, estimula o
ovo a iniciar o desenvolvimento. Os estágios subseqüentes do desenvolvimento são
coletivamente chamados de embriogênese. Por todo reino animal existe uma incrível
variedade de tipos embrionários, mas a maioria dos padrões de embriogênese compre-
ende variações em quatro temas:
1. Ocorrência de clivagem imediatamente após a fertilização. Clivagem é uma
série de divisões mitóticas extremamente rápidas, onde o enorme volume cito-
plasmático do zigoto é dividido em numerosas células menores. Essas células
são chamadas blastômeros e, ao fim da clivagem, eles geralmente formam uma
esfera conhecida como blástula.
2. Após a redução na taxa de divisão mitótica, os blastômeros passam por
mudanças dramáticas quanto às suas posições, um em relação ao outro. Essa
série de redistribuição de células é chamada de gastrulação. Como resultado
da gastrulação, o embrião típico contém três regiões celulares chamadas
camadas germinativas*. O ectoderma, a camada exterior, produz as células
da epiderme e do sistema nervoso; o endoderma, camada interior, produz o
*Do Latim germen, significa “broto” ou “rebento” (a mesma raiz da palavra germinação). Os
nomes das três camadas germinativas são do Grego: ectoderma de ektos (“fora”) mais derma
(“pele”); mesoderma de mesos (“meio”) e endoderma de endon (“dentro”).
24.
4 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Esperma-
tozóide
Mórula
Blástula
Oócito Local das células
embrionárias
Célula germinativa
(“Germ plasm”)
Esperma- Blastocele
tozóide
(gameta Oócito
masculino) (gameta
feminino)
GAMETOGÊNESE
Adulto
sexualmente maduro
Blastóporo
Ectoderma
Gônada
Mesoderma
Estágios
Endoderma
larvais
imaturos
INCUBAÇÃO (NASCIMENTO)
Figura 1.1
Histórico do desenvolvimento de um repre-
sentante animal, um sapo. Estágios que vão
da fertilização até o nascimento são coletiva-
mente conhecidos como embriogênese. As
regiões responsáveis por produzir células em-
brionárias são mostradas em cores. Gameto-
gênese, que é completa no adulto sexualmen-
te maduro, começa em épocas diferentes, de-
pendendo da espécie. revestimento do tubo digestivo e órgãos associados (pâncreas, fígado, pul-
mões, etc.); e o mesoderma, camada do meio, dá origem a diversos órgãos
(coração, rins, gônadas), tecidos conjuntivos (ossos, músculos, tendões, va-
sos sangüíneos) e células sangüíneas.
3. Uma vez que as três camadas embrionárias estão estabelecidas, as células
interagem umas com as outras e se reorganizam para produzir tecidos e órgãos.
Esse processo é chamado organogênese. (Nos vertebrados, a organogênese é
iniciada quando uma série de interações celulares induzem as células ectodér-
micas da porção mediana do dorso a formar o tubo neural. Esse tubo originará
o cérebro e a coluna vertebral). Muitos órgãos contêm células de mais de uma
camada embrionária, e não é incomum o exterior de um órgão ser derivado de
uma determinada camada e o interior de outra. Também durante a organogênese,
25.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 5
algumas células sofrem longas migrações do seu lugar de origem até sua loca-
lização final. Essas células migrantes incluem os precursores das células san-
güíneas, células linfáticas, células pigmentadas e gametas. A maior parte dos
ossos de nossa face são provenientes de células que migraram ventralmente
da região dorsal da nossa cabeça.
4. Como observado na Figura 1.1, em muitas espécies, uma parte especializada
do citoplasma do ovo dá origem às células que são precursoras dos gametas.
Essas células são chamadas de células germinativas, sendo destinadas à
função reprodutiva. Todas as outras células do corpo são chamadas células
somáticas. Essa separação entre células somáticas (que dão origem a um
corpo individual) e células germinativas (que contribuem para a formação de
uma nova geração) é freqüentemente uma das primeiras diferenciações que
ocorrem durante o desenvolvimento animal. As células germinativas final-
mente migram para as gônadas, onde se diferenciam em gametas. O desen-
volvimento de gametas, chamado de gametogênese, normalmente não é com-
pletado até que o organismo tenha se tornado fisicamente maduro. Na matu-
ridade, os gametas podem ser liberados e participar de uma fertilização dando
início a um novo embrião. O organismo adulto finalmente sofre envelheci-
mento e morre.
Nossa herança eucariótica
Os organismos estão divididos em dois grupos principais, dependendo apenas se
as células possuem um envoltório nuclear ou não. Os procariotos (do grego karion,
significa “núcleo”), onde estão incluídas as arqueobactérias e as eubactérias, não
possuem um núcleo verdadeiro. Os eucariotos que incluem os protistas, animais,
plantas e fungos, possuem um tegumento nuclear bem formado circundando os
seus cromossomos. Essa diferença fundamental entre os eucariotos e procariotos
influencia a maneira como esses grupos organizam e utilizam seu material genético.
Em ambos os grupos, a informação herdada necessária para o seu desenvolvimento
e metabolismo se encontra codificada nas sequências de ácido desoxirribonucléico
(DNA) dos cromossomos. Os cromossomos procarióticos normalmente são hélices
duplas de DNA, pequenas e circulares consistindo de aproximadamente 1 milhão de
pares de bases. As células eucarióticas geralmente possuem diversos cromosso-
mos, e um simples protista eucariótico possui 10 vezes, ou mais, a quantidade de
DNA encontrada na maioria dos procariotos complexos. Além disso, a estrutura de
um gene eucariótico é mais complexa do que a de um gene procariótico. A seqüência
de aminoácidos de uma proteína procariótica é a reflexão direta da seqüência de
DNA do cromossomo. O DNA de um gene eucariótico que codifica uma proteína,
geralmente, é dividido de tal forma que a seqüência completa de aminoácidos da
proteína é derivada de segmentos descontínuos de DNA (Figura 1.2). O DNA entre
os segmentos freqüentemente contém seqüências que estão envolvidas na regulação
do momento e lugar em que o gene é ativado.
Cromossomos eucarióticos também são muito diferentes dos cromossomos
procarióticos. O DNA eucariótico reveste complexos protéicos específicos, chamados
nucleossomos, compostos por proteínas histonas. Os nucleossomos organizam o
DNA em estruturas compactas e são importantes na designação de qual gene irá se
expressar em qual célula. Nas bactérias não existem histonas. Mais ainda, células
eucarióticas sofrem mitose, na qual o tegumento nuclear se parte e os cromossomos
replicados são igualmente divididos entre as células filhas (Figura 1.3). Nos procariotos,
a divisão celular não é mitótica; não se desenvolve o fuso mitótico e, também, não
existe tegumento celular para se partir. Ao invés disso, os cromossomos filhos perma-
necem ligados a pontos adjacentes na membrana celular. Esses pontos de ligação são
separados entre si pelo crescimento da membrana celular, e finalmente colocam os
cromossomos em diferentes células filhas.
26.
6 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 1.2 (A) CÉLULA PROCARIÓTICA (B) CÉLULA EUCARIÓTICA
Resumo dos passos pelos quais as proteínas
são sintetizadas a partir do DNA. (A) Ex- Envoltório nuclear
pressão procariótica (bacteriana) do gene.
Regiões codificadoras do DNA são colineares
Íntron Íntron
com o produto protéico. (B) Expressão de
Gene 1 2
genes eucarióticos. Os genes são descontínuos DNA
e um envoltório nuclear separa o DNA do Éxon Éxon Éxon
citoplasma. 1 2 3
Núcleo
Transcrição
RNA nuclear
Transcrição
Processamento de RNA
mRNA mRNA
Tradução
Citoplasma Tradução
mRNA mRNA
Proteína Proteína
Procariotos e eucariotos têm mecanismos diferentes de regulação do gene. Em
ambos, o DNA é transcrito por enzimas chamadas RNA polimerases para produzir
RNA. Quando o RNA mensageiro (mRNA) é produzido nos procariotos, ele é imedia-
tamente traduzido em uma proteína enquanto o seu outro terminal está sendo transcri-
to do DNA (Figura 1.4). Sendo assim, nos procariotos, transcrição e tradução são
eventos simultâneos e coordenados. Mas a existência de envoltório nuclear em
eucariotos proporciona a oportunidade de se obter um tipo de regulação celular total-
mente novo. Os ribossomos, que são responsáveis pela tradução, estão de um lado do
envoltório nuclear, e o DNA e a RNA polimerase necessária para a transcrição estão do
outro. Entre a transcrição e a tradução, o RNA transcrito deve ser processado para que
possa passar através do envoltório nuclear. A regulação pela qual o mRNA pode
passar para o citoplasma, torna a célula capaz de selecionar quais das mensagens
recém-sintetizadas serão traduzidas. Assim, um novo nível de complexidade foi adici-
onado, que é extremamente importante para o organismo em desenvolvimento.
Desenvolvimento entre eucariotos unicelulares
Todos os organismos eucarióticos pluricelulares se desenvolveram de protistas uni-
celulares. É nesses protistas que as características básicas do desenvolvimento apa-
receram primeiro. Eucariotos simples nos deram os primeiros exemplos da morfogênese
direcionada pelo núcleo, o uso da superfície da célula para mediar cooperação entre
células individuais e as primeiras ocorrências de reprodução sexual.
Controle da Morfogênese no Desenvolvimento em Acetabulária
Há um século, ainda não havia sido provado se o núcleo continha alguma informação
hereditária ou de desenvolvimento. Algumas das melhores evidências para essa teoria
vieram de estudos onde organismos unicelulares foram fragmentados em pedaços
27.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 7
Prófase:
O envoltório nuclear
quebra e um fuso se forma
entre dois centríolos.
Prometáfase:
Interfase: DNA é duplicado em Os cromossomos se
preparação para a divisão celular. ligam às fibras dos fusos.
Cromatídeos do
cromossomo
Núcleo Cromatina Nucléolo
Região do centrômero
Fuso em
desenvolvimento
Centríolos
Áster
Envoltório Envoltório
nuclear nuclear
Nucléolo rompe
Cromossomos filhos
Metáfase:
Os cromossomos se
alinham no equador da célula.
Telófase:
Os cromossomos atingem
os pólos mitóticos e a célula
começa a invaginar.
Figura 1.3
Diagrama de mitose em células animais. Du-
Anáfase:
Os cromossomos duplicados
rante a interfase o DNA é duplicado em pre-
(chamados cromatídeos) são paração para a divisão celular. Durante a
separados. prófase, o envoltório nuclear quebra e for-
ma-se um fuso entre os dois centríolos. Na
nucleados e anucleados (revisão por Wilson, 1986). Quando vários protistas foram metáfase, os cromosssomos se alinham no
equador da célula e se inicia a anáfase, os
fragmentados, quase todas as partes morreram. No entanto, os fragmentos que conti-
cromossomos duplicados (cada duplicata de
nham núcleo foram capazes de sobreviver, regenerando todo a complexa estrutura cromossomo é um cromatídeo) são separa-
celular (Figura 1.5) dos. Na telófase os cromossomos atingem
O controle nuclear da morfogênese celular e a interação do núcleo e citoplasma os pólos mitóticos e a célula começa a
estão muito bem demonstrados nos estudos da Acetabulária. Essa enorme célula invaginar. Cada pólo contém o mesmo núme-
individual (2 a 4 cm de comprimento) consiste de três partes: o disco reprodutivo, o ro e tipos de cromossomos que continha a
pedúnculo e o rizóide (Figura 1.6A). O rizóide está localizado na base da célula onde célula antes da divisão.
essa é presa ao substrato. O núcleo individual da célula se localiza dentro do rizóide. O
tamanho da Acetabulária e a localização do seu núcleo permitiram que pesquisadores
28.
8 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
DNA Ribossomos RNA
Figura 1.4
Transcrição e tradução simultânea em procariotos. Uma porção de DNA de Escherichia coli se
estende horizontalmente por essa microfotografia eletrônica. Transcrições de RNA mensageiro
podem ser vistas dos dois lados. Ribossomos se juntaram ao mRNA e estão sintetizando
proteínas (que não podem ser vistas). O mRNA pode ser visto aumentando de tamanho, da
esquerda para a direita, indicando a direção da transcrição. (Cortesia de O. L. Miller, Jr.)
removessem o núcleo de uma célula e o substituísse por outro, de outra célula. Nos
anos 30, J. Hämmerling tirou proveito dessa singular característica e trocou núcleos
entre duas espécies morfologicamente distintas, A. mediterranea e A. crenulata. Como
é mostrado na fotografia, essas duas espécies têm discos reprodutivos muito diferen-
tes. Hämmerling descobriu que quando um núcleo de uma determinada espécie era
transplantado para o pedúnculo de outra, o novo disco em formação finalmente assu-
mia a forma associada com o núcleo do doador (Figura 1.6B). Assim, foi considerado
que o núcleo era o controlador do desenvolvimento da Acetabulária.
A formação de um disco reprodutivo é um evento morfogênico complexo, envol-
vendo a síntese de um grande número de proteínas, que devem ser acumuladas em
certa porção da célula e então organizadas em estruturas complexas específicas da
espécie. O núcleo transplantado da célula realmente direciona a síntese de seu disco
reprodutivo espécie-específico, mas é uma tarefa que pode levar semanas para ser
realizada. Além disso, se o núcleo for removido da célula de Acetabulária em estágio
inicial do desenvolvimento, antes de formar o disco reprodutivo, um disco normal se
formará semanas depois, ainda que o organismo irá morrer. Esses estudos sugerem
que (1) o núcleo contém informação específica sobre o tipo de disco reprodutivo
produzido (isto é, contém informação genética que especifica as proteínas necessári-
as para a produção de um certo tipo de disco reprodutivo), e (2) o material contendo
essa informação entra no citoplasma muito antes dessa produção ocorrer. A informa-
ção no citoplasma não será usada por várias semanas.
Fragmento
anucleado morre
Corte
Fragmento
Núcleo nucleado
se regenera
Corte
Figura 1.5
Regeneração do fragmento nucleado do protista unicelular
Stylonychia. Os fragmentos anucleados sobrevivem por al- Fragmento
gum tempo, mas finalmente morrem. anucleado morre
29.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 9
(B)
Disco
reprodutivo
(A)
Disco
reprodutivo
Pedúnculo
A. crenulata A. mediterranea
Pedúnculo Núcleos transplantados
Núcleo Núcleo
Rizóide
Rizóide Rizóide
1 cm 1 cm A estrutura do disco
reprodutivo é a do
núcleo doador
Figura 1.6
(A) Acetabulária mediterranea (esquerda) e A.
crenulata (direita). Cada unidade é uma célula singu-
lar. O rizóide contém o núcleo. (B) Efeitos da troca de
núcleos entre duas espécies de Acetabulária. Núcleos
foram transplantados para fragmentos de rizóides
anucleados. Estruturas de A. crenulata estão sombre-
adas; estruturas de A. mediterranea não estão som-
breadas. (Fotografias cortesia de H. Harris.)
Uma hipótese atual, proposta para explicar essas observações, é que o núcleo sintetiza
um mRNA estável, posicionado em estado dormente no citoplasma até a formação do
disco reprodutivo. Essa hipótese é amparada por uma observação publicada por Hämmerling
em 1934. Hämmerling fracionou uma Acetabulária jovem em diversas partes (Figura 1.7). A
porção com o núcleo finalmente formou um novo disco, conforme esperado; da mesma
forma o fez a extremidade apical do pedúnculo. No entanto, a parte intermediária do pedún-
culo não formou o disco reprodutivo. Por isso, Hämmerling postulou (aproximadamente 30
anos antes de sabermos da existência do mRNA), que as instruções para a formação do
disco reprodutivo se originavam no núcleo, sendo de alguma forma guardadas dormen-
tes próximo à extremidade do pedúnculo. Muitos anos mais tarde, Kloppstech e
Schweiger (1975) estabeleceram que o mRNA derivado do núcleo se acumula nessa
região. Ribonuclease, uma enzima que cliva RNA, inibe completamente a formação do
disco reprodutivo quando adicionada à água marinha na qual cresce a Acetabulária. Em
células anucleadas, esse efeito é permanente; uma vez que o RNA é destruído, não pode
mais haver a formação do disco reprodutivo. Em células nucleadas, no entanto, um novo
disco pode ser formado após a eliminação da ribonuclease, presumivelmente porque um
novo mRNA é então produzido pelo núcleo. Garcia e Dazy (1986) também demonstraram
que a síntese da proteína é especialmente ativa no ápice da Acetabulária.
Fica claro pela discussão anterior, que a transcrição nuclear tem um papel impor-
tante na formação do disco reprodutivo da Acetabulária. Mas deve ser notado que o
30.
10 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Disco reprodutivo e
pedúnculo regenerados
Extremidade
apical do
pedúnculo
Porção central
do pedúnculo Sem regeneração
Rizóide
e núcleo
Regeneração total
Figura 1.7
Habilidade regenerativa de diferentes fragmentos da A. mediterranea
citoplasma também cumpre uma parte essencial na formação desse disco. O mRNA
não é traduzido durante semanas, mesmo estando no citoplasma. Algo no citoplasma
controla quando as mensagens devem ou não ser utilizadas. Portanto, a expressão do
disco reprodutivo é controlada não somente pela transcrição nuclear como também
pelo controle de tradução do RNA citoplasmático. Nesse organismo unicelular, o
“desenvolvimento” é controlado em ambos estágios de transcrição e de tradução.
Diferenciação em Ameboflagelados Naegleria
Um dos casos mais marcantes de “diferenciação” em protistas, é aquele de Naegleria
gruberi. Esse organismo ocupa um lugar especial na taxonomia protista porque pode
mudar sua forma, de uma ameba para a de um flagelado (Figura 1.8). Durante a maior
parte do seu ciclo de vida, a N. gruberi é uma ameba típica, alimentando-se de bacté-
rias do solo e dividindo-se por cisão. No entanto, quando as bactérias são diluídas
(tanto pela água da chuva quanto pela água nos experimentos), cada N. gruberi
desenvolve rapidamente uma forma aerodinâmica e dois longos flagelos anteriores,
que são usados para encontrar regiões mais abundantes em bactérias. Nessas condi-
ções, ao invés de existirem diversos tipos de células diferenciadas em um único orga-
nismo, essa célula única tem estruturas celular e bioquímica diferentes nos diferentes
estágios de sua vida.
Diferenciação para a forma de flagelado ocorre aproximadamente em uma hora
(Figura 1.9). Durante esse período, a ameba tem que criar centríolos para servir como
corpos basais do flagelo (centros organizadores de microtúbulos), assim como criar o
próprio flagelo. Os corpos basais e os flagelos são compostos de diversas proteínas,
das quais a mais abundante é a tubulina. As moléculas de tubulina são organizadas em
microtúbulos; esses são posteriormente arranjados para permitir o movimento flagelar.
Fulton e Walsh (1980) mostraram que a tubulina dos flagelos de Naegleria não existe
31.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 11
(A) (B) (C) (D)
Figura 1.8
Transformação de Naegleria gruberi da forma
em seu estágio de ameba. É produzida de novo (“desde o começo”), começando com amebóide ao estado flagelado. Linha superior
uma nova transcrição no núcleo. Para mostrar isso, os pesquisadores manipularam corada com Iodo/Lugol; linha inferior corada
com um anticorpo fluorescente à proteína tu-
transcrições em vários estágios com actinomicina D, uma droga antibiótica que seleti-
bulina dos microtúbulos. A transformação é
vamente inibe a síntese do RNA. Quando adicionada anteriormente à diluição do iniciada pela eliminação do alimento (bactéri-
alimento, esse antibiótico previne a síntese da tubulina. No entanto, se a actinomicina as) da colônia de Naegleria. (A) 0 minutos;
D é adicionada 20 minutos após a diluição, a tubulina ainda é produzida em tempo (B) 25 minutos, mostrando síntese de nova
normal (aproximadamente 30 minutos mais tarde). Portanto, parece que o mRNA para tubulina; (C) 70 minutos, emergência de
a tubulina foi produzido durante os primeiros vinte minutos após a diluição e usado flagelos visíveis (D) 120 minutos, mostrando
logo em seguida. Essa interpretação foi confirmada quando foi demonstrado que o flagelos maduros e forma aerodinâmica do cor-
mRNA extraído da ameba não continha mensagem alguma, detectável para tubulina po (de Walsh, 1984, cortesia de C. Walsh.)
flagelar, ao passo que mRNA extraído de células diferenciadas continha muitas mensa-
gens desse tipo (Walsh, 1984).
Então, temos aqui um excelente exemplo de controle transcricional de um proces-
so de desenvolvimento: O núcleo da Naegleria responde a mudanças ambientais
sintetizando o mRNA para tubulina flagelar. Notamos também um outro processo que
permanece extremamente importante no desenvolvimento de todos os outros animais
e plantas, que é o agrupamento de moléculas de tubulina para a produção do flagelo.
Esse arranjo, pelo qual a tubulina é polimerizada em microtúbulos, e esses por sua vez
agrupados de forma ordenada, é visto em toda a natureza. Em mamíferos, está evidente
no flagelo do espermatozóide e nos cílios da medula espinhal e do trato respiratório.
Mais ainda, não é somente a tubulina que produz o flagelo. Existem em torno de 300
outras proteínas em cada flagelo, e o movimento flagelar depende da orientação ade-
quada dessas proteínas uma em relação a outra. Até mesmo processos celulares têm a
sua própria “morfogênese” baseada em interações moleculares entre os fragmentos
de proteína. Tal controle pós-tradução, onde uma proteína não é funcional até que
esteja ligada a outras moléculas, será discutido melhor mais tarde. Vimos então, que o
desenvolvimento em eucariotos unicelulares pode ser controlado nos estágios de
transcrição, tradução e pós-tradução.
32.
12 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 1.9 os
Diferenciação do fenótipo flagelado em rp
co
Naegleria. Amebas que vinham crescendo a de o am
lin to s
rp r nç
em um meio enriquecido com bactéria são bu a co ela ca o
en is de lag al n t
tu e ç m ula m ve os e
lavadas afim de se eliminar as bactérias no da m pa cél nda isí ão a f el r i m
e co u
gr s, o v aç m ag
tempo 0. Aos 80 minutos, praticamente toda es r A asai rred os m or Fl o m p l
nt l a el or f
a população desenvolveu flagelo. (Segundo Sí a g e b a ag F m c ta
fl se Fl co to
Fulton, 1977.)
100
Porcentagem da população com flagelo
80
Células de corpo com
60 forma flagelar
40
20
0
0 20 40 60 80 100
Tempo após suspensão (minutos)
As Origens da Reprodução Sexual
A reprodução sexual é outra invenção dos protistas que teve um profundo efeito em
organismos mais complexos. Deve-se notar que sexo e reprodução são dois proces-
sos separáveis e distintos. A reprodução envolve a criação de novos indivíduos.
Sexo envolve a combinação de genes de dois indivíduos distintos em um novo
arranjo. Reprodução na ausência de sexo é uma característica de organismos que se
reproduzem por cisão; não há discriminação nos genes quando uma ameba se divide
ou quando uma hidra brota células para formar uma nova colônia. Sexo sem reprodu-
ção também é comum entre os organismos unicelulares. As bactérias são capazes de
transmitir genes de um indivíduo para o outro por meio dos pilos sexuais (Figura
1.10). Essa transmissão é independente da reprodução. Protistas são também capa-
zes de reorganizar genes sem reprodução. Os paramécios, por exemplo, se reprodu-
zem por cisão, mas o sexo é realizado através de conjugação. Quando dois paramécios
se juntam, eles se unem através de seus aparelhos orais formando uma conexão
citoplasmática através da qual podem trocar material genético (Figura 1.11). Cada
macronúcleo (que controla o metabolismo do organismo) degenera enquanto o
Figura 1.10 micronúcleo passa por meiose para produzir oito micronúcleos haplóides, dos quais
Sexo em bactérias. Algumas células de bactéri- todos, exceto um, degeneram. O micronúcleo remanescente divide-se mais uma vez
as estão cobertas de numerosos apêndices
para formar um micronúcleo estacionário e um micronúcleo migratório. Cada
(pilos) sendo capazes de transmitir genes para
uma célula recipiente (sem pilos) através de
micronúcleo migratório atravessa a ponte citoplasmática e se funde com o micronúcleo
um pilus sexual. Nessa figura, o pilus sexual estacionário (“fertilizante”), criando um novo núcleo diplóide em cada célula. Esse
está realçado por partículas virais que se ligam núcleo diplóide se divide mitoticamente fazendo surgir um novo micronúcleo e um
especificamente àquele estrutura. (Cortesia de novo macronúcleo quando os dois parceiros se separam. Ainda que não tenha
C. C. Brinton, Jr. e J. Carnahan.) ocorrido reprodução, houve sexo.
33.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 13
Micronúcleo Fuso
meiótico
Macronúcleo
Ponte
citoplasmática
Dois paramécios Micronúcleos passam Todos menos um
formam por meiose, formando 8 dos micronúcleos de
ponte citoplasmática núcleos haplóides por célula; cada parceiro degeneram
macronúcleos degeneram
Micronúcleo
estacionário
Micronúcleo
migratório
Micronúcleo restante se Micronúcleos migratórios Núcleo diplóide se forma e
divide para formar um micronúcleo atravessam a ponte citoplasmática sofre divisões mitóticas para
estacionário e um migratório e fertilizam os micronúcleos gerar um novo macronúcleo e
estacionários do parceiro dois micronúcleos quando os
paramécios se separam
Figura 1.11
União de paramécios através da ponte citoplasmática, onde dois paramécios podem trocar
material genético, deixando cada um com genes que diferem daqueles com os quais iniciaram o
processo. (Strickberger, 1985.)
A união desses dois processos distintos, sexo e reprodução, em reprodução
sexual, é visto em eucariotos unicelulares. A Figura 1.12 mostra o ciclo de vida da
Chlamydomonas. Esse organismo é geralmente haplóide, portando apenas uma
cópia de cada cromossomo (como os gametas dos mamíferos). Os indivíduos de
cada espécie, no entanto, estão divididos em dois grupos de parceiros: mais e
menos. Quando se encontram, juntam-se os citoplasmas e seus núcleos se fundem
para formar um zigoto diplóide. Esse zigoto é a única célula diplóide do ciclo de vida
e passará por meiose para formar quatro novas células de Chlamydomonas. Aqui
está uma reprodução sexual, pois cromossomos são realinhados durante as divi-
sões meióticas onde mais indivíduos são formados. Note que nesse tipo de reprodu-
ção sexual protista, os gametas são morfologicamente idênticos e a distinção entre
espermatozóide e óvulo ainda não aconteceu.
Com a evolução da reprodução sexual, dois importantes avanços foram alcança-
dos. O primeiro é o mecanismo da meiose (Figura 1.13), pelo qual o complemento
diplóide dos cromossomos é reduzido ao estado haplóide (discutido em detalhe no
Capítulo 22). O outro avanço é o mecanismo pelo qual os parceiros reprodutivos
diferentes se reconhecem um ao outro. Em Chlamydomonas, o reconhecimento ocorre
primeiro nas membranas flagelares (Figura 1.14; Bergman et al., 1975; Goodenough e
Weiss, 1975). A aglutinação dos flagelos permite que regiões específicas das membra-
nas celulares se juntem. Esses setores especializados contêm componentes
reprodutivos específicos que permitem a fusão dos citoplasmas. Seguindo-se à
aglutinação, os indivíduos mais iniciam a fusão estendendo um tubo de fertilização.
34.
14 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 1.12 Reprodução assexual (mitótica)
Reprodução sexual em Chlamydomonas. Duas Parceiro tipo mais Parceiro tipo menos
linhagens, ambas haplóides, podem se repro- (haplóide) (haplóide)
duzir assexuadamente quando separadas. Res-
peitando certas condições, os dois cordões
podem se unir para produzir uma célula
diplóide que pode sofrer meiose para formar
quatro novos organismos haplóides. (Segundo
Strickberger, 1985.) Reprodução
sexual
Acasalamento
Fusão citoplasmática
Zigoto (diplóide)
Maturação (meiose)
Germinação
Dois parceiros tipo mais e tipo menos
Figura 1.13
Sumário da meiose. O DNA e as proteínas associadas replicam durante a interfase. Durante a
prófase, o envoltório nuclear se rompe e os cromossomos homólogos (cada cromossomo é
duplicado, com os cromatídeos juntos no centrômero) se alinham em pares. Reagrupamentos
cromossômicos podem ocorrer entre quatro cromatídeos homólogos nesse estágio. Após a
primeira metáfase, os dois cromossomos homólogos originais são segregados em células dife-
rentes. Durante a segunda divisão, o centrômero se divide, deixando cada nova célula com uma
cópia de cada cromossomo.
MEIOSE I
Envoltório Cromossomos Cromatídeos
nuclear Cromatina homólogos homólogos
Núcleo
Interfase Prófase I precoce Meia prófase I Prófase I tardia Metáfase I
O envoltório nuclear se rompe e cromossomos homólogos (cada cromossomo
sendo duplo, com os cromatídeos ligados no centrômero) se alinham aos pares.
Rearranjos cromossômicos podem ocorrer entre os quatro cromatídeos homólo-
gos neste momento.
35.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 15
(A) (B) Figura 1.14
Duas etapas do reconhecimento no acasala-
mento de Chlamydomonas. (A) Varredura por
micrografia eletrônica (7000x) de par em aca-
salamento. Os flagelos que interagem, torcem-
se um em torno do outro, aderindo nas pontas
(flexas). (B) Microfotografia eletrônica de
transmissão (20.000x) de uma ponte citoplas-
mática conectando os dois organismos. Os
microfilamentos se estendem da célula doado-
ra (abaixo) para a célula recipiente (acima). (de
Goodenough e Weiss, 1975 e Bergman et al.,
1975; com permissão de U. Goodenough.)
Microfilamentos
Esse tubo conecta e se funde com um local específico no indivíduo menos. É interes-
sante que o mecanismo usado para estender esse tubo - polimerização da proteína
actina - também é usado para estender processos do espermatozóide e óvulo do
ouriço-do-mar. No Capítulo 4, veremos que o reconhecimento e fusão de espermato-
zóide e óvulo ocorrem de uma maneira espantosamente semelhante a desses protistas.
Eucariotos unicelulares parecem ter os elementos básicos do processo de desen-
volvimento que caracterizam os organismos mais complexos: a síntese celular é con-
trolada pela regulação transcricional, por tradução e pós-tradução; existe um mecanis-
mo para processar o RNA através da membrana nuclear; as estruturas de genes indi-
viduais e cromossomos são como serão através da evolução eucariótica; mitose e
meiose são aperfeiçoadas; e a reprodução sexual existe, envolvendo a cooperação
entre células individuais.Tal cooperação intercelular se torna ainda mais importante
com a evolução de organismos multicelulares.
MEIOSE II
Anáfase I Telófase I Metáfase II Anáfase II Telófase II
Os dois cromossomos O centrômero se divide Cada nova célula tem
homólogos originais são uma cópia de cada
segregados em células cromossomo
diferentes
36.
16 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Eucariotos coloniais: A evolução da diferenciação
Um dos mais importantes experimentos da evolução foi a criação de organismos
pluricelulares. Parece ter havido diversos caminhos pelo qual uma única célula evo-
luiu para uma disposição pluricelular; discutiremos apenas dois deles (veja o Capítulo
23 para uma discussão mais completa). O primeiro caminho envolve a divisão ordena-
da da célula reprodutiva e a subseqüente diferenciação da sua progênie em diferentes
tipos de células. Esse caminho para a multicelularidade pode ser visto em uma notável
série de organismos pluricelulares, coletivamente referidos como a família das
Volvocaceas ou volvocaceanas.
As Volvocaceanas
Os organismos mais simples entre as volvocaceanas são reuniões ordenadas de nu-
merosas células, cada uma parecida ao protista unicelular Chlamydomonas. Um único
organismo de volvocacea do gênero Gonium (Figura 1.15), por exemplo, consiste de
uma placa plana contendo de 4 a 16 células, cada uma com seu próprio flagelo. Em um
gênero relacionado, Pandorina, 16 células formam uma esfera; e no Eudorina, a esfe-
ra contém 32 ou 64 células organizadas em um padrão regular. Nesses organismos, um
princípio muito importante tem-se desenvolvido: a divisão ordenada de uma célula
para gerar um número de células que são organizadas de uma maneira previsível.
Como ocorre na maioria dos embriões animais, as divisões celulares pelo qual uma
única célula de volvocacea produz um organismo de 4 a 64 células ocorrem em uma
seqüência muito rápida e com ausência de crescimento celular.
Os dois próximos gêneros da série volvocacea exibem um outro princípio impor-
tante do desenvolvimento: a diferenciação de tipos celulares em organismo indivi-
dual. As células reprodutivas se diferenciam das células somáticas. Em todos os
gêneros já mencionados, toda a célula pode, e normalmente o faz, produzir um organis-
mo novo completo por mitose (Figura 1.16 A,B). Nos gêneros Pleodorina e Volvox,
porém, relativamente poucas células podem se reproduzir. Na Pleodorina californica,
as células da região anterior são restritas à uma função somática; somente aquelas
Figura 1.15
Representante da ordem dos Volvocales. (A)
o protista unicelular Chlamydomonas rei-
nhardtii. (B) Gonium pectorale com oito cé-
lulas Chlamydomonas-símiles em um disco
convexo. (C) Pandorina morum. (D) Eudo-
rina elegans. (E) Pleodorina californica. Aqui
todas as 64 células são originalmente simila-
res, mas as posteriores desdiferenciam e redi- (A) (B) (C)
ferenciam como células assexuadas reprodu-
tivas chamadas gonídios, enquanto as células
anteriores permanecem pequenas e biflagela-
das, como o Chlamydomonas. (F) Volvox
carteri. Aqui, células destinadas a se torna-
rem gonídios são separadas no começo do
desenvolvimento e nunca desenvolvem carac-
terísticas somáticas. As células menores,
somáticas, lembram Chlamydomonas. Todas,
menos o Chlamydomonas, são membros da
família das Volvocaceas. A complexidade au-
menta do Chlamydomonas unicelular ao
Volvox pluricelular. Barra em A é de 5µm; B-
D, 25µm; E, F, 50µm (Cortesia de D. Kirk.) (D) (E) (F)
37.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 17
Figura 1.16
Reprodução assexuada nas volvocaceanas. (A)
Colônia madura de Eudorina elegans. (B) Cada
uma das células de E. elegans se divide e pro-
duz uma nova colônia. (C) Volvox carteri ma-
duro. A maioria das células são incapazes de se
reproduzir. Células germinativas (gonídia) co-
meçaram a se dividir em novos organismos. (A
e B segundo Hartmann,1921; C de Kirk et al.,
(A) (B) (C)
1982, cortesia de D. Kirk.)
células do lado posterior podem se reproduzir. Em P. californica, a colônia normalmen-
te tem 128 ou 64 células, e a relação do número de células somáticas para o número de
células reprodutivas é normalmente 3:5. Dessa maneira, uma típica colônia de 128
células tem 48 células somáticas e uma colônia de 64 células tem 24 células somáticas.
Nos Volvox, quase todas células são somáticas, e muito poucas células são capa-
zes de produzir novos indivíduos. Em algumas espécies de Volvox, células reproduti-
vas como as da Pleodorina, são derivadas de células que originalmente parecem e
funcionam como células somáticas antes de crescer e se dividir para formarem uma
nova progênie. No entanto, em outros membros do gênero, como o V. carteri, existe
uma divisão do trabalho completa: as células reprodutivas que vão criar a nova gera-
ção são colocadas de lado durante a divisão das células reprodutivas que estão
formando um novo indivíduo. As células reprodutivas nunca desenvolvem um flagelo
funcional e nunca contribuem para motilidade e outras funções somáticas do indiví-
duo; são inteiramente especializadas para reprodução. Ainda que as volvocaceas
mais simples sejam consideradas organismos coloniais (porque cada célula é capaz de
existência independente e perpetuação da espécie), no V. carteri temos um organismo
verdadeiramente celular com dois tipos de células independentes e distintos (somático
e reprodutivo), ambos requeridos para a perpetuação da espécie (Figura 1.16C). Embo-
ra nem todos os animais separem suas células reprodutivas das células somáticas (e
as plantas raramente o fazem), essa separação de células germinativas das células
somáticas no início do desenvolvimento é característica de muitos filos animais e será
discutida em maior detalhe no Capítulo 13.
Embora todas as volvocaceas, incluindo seu parente unicelular Chlamydomo-
nas, se reproduzam predominantemente por meios assexuados, também são capazes
de reprodução sexual. Isso envolve a produção e fusão de gametas haplóides. Em
muitas espécies de Chlamydomonas, incluindo a ilustrada na Figura 1.12, a reprodu-
ção sexual é isogâmica, já que os gametas haplóides que se encontram são similares
em tamanho, estrutura e motilidade. No entanto, em outras espécies de Chlamydo-
monas - assim como as várias espécies de volvocaceas coloniais - gametas nadado-
res de diversos tamanhos são produzidos por parceiros de acasalamentos diferen-
tes. Isso é chamado heterogamia. Mas as volvocaceas maiores desenvolveram uma
forma especializada de heterogamia, chamada oogamia, que envolve a produção de
óvulos grandes e relativamente imóveis por um parceiro do acasalamento e esper-
matozóides pequenos e móveis pelo outro parceiro (veja Visões Colaterais & Espe-
culações). Aqui vemos um gameta especializado para retenção de recursos nutricionais
e de desenvolvimento e outro gameta especializado para transporte de núcleos.
Assim, as volvocaceas incluem os organismos mais simples que têm macho e fêmea
distinguíveis, e possuem caminhos diferentes para desenvolver o óvulo ou o es-
permatozóide. Em todas as volvocaceas, a reação da fertilização se assemelha à do
Chlamydomonas porque resulta na produção de um zigoto diplóide dormente, ina-
tivo, capaz de sobreviver a condições ambientais severas. Quando as condições
permitem aos zigotos germinar, eles primeiro sofrem meiose para produzir herdeiros
haplóides dos dois parceiros em números iguais. [other.html#intro1]
38.
18 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Informações adicionais
& Especulações
Sexo e Individulidade em Volvox
S imples como é, o Volvox comparti-
lha muitos traços que caracterizam o
ciclo de vida e histórico de desen-
volvimento de organismos muito mais com-
são parentes. A morte chega para uma
ameba apenas se ela é ingerida ou sofre
um acidente fatal; quando isso acontece,
a célula morta não deixa prole.
conjunto de gonídios. No fim da clivagem,
todas as células que estarão presentes no
adulto, foram produzidas de cada um dos
gonídios. Mas o embrião está “virado de
plexos, incluindo nós mesmos. Como já foi Porém, a morte se torna uma parte es- dentro para fora”: seus gonídios estão do
mencionado, o Volvox está entre os orga- sencial da vida para qualquer organismo lado de fora e os flagelos de suas células
nismos mais simples a exibir a divisão de pluricelular que estabelece divisão de tra- somáticas estão apontando para o interi-
trabalho entre dois tipos de células dife- balho entre células somáticas e células or da esfera oca de células. Essa condição
rentes. Como conseqüência disso, está en- germinativas (reprodutivas). Considere o adversa é corrigida por um processo cha-
tre os organismos mais simples a incluir a histórico de vida do Volvox carteri quan- mado inversão, pelo qual o embrião se vira
morte como uma parte regular, geneticamen- do se reproduz assexuadamente (Figura com o lado certo para fora através de
te programada, da sua história de vida. 1.17). Cada adulto assexuado é um movimentos celulares que fazem lembrar
esferóide contendo aproximadamente movimentos de gastrulação no embrião
Morte e Diferenciação 2000 pequenas células somáticas biflage- animal (Figura 1.18). Um agrupamento de
Organismos unicelulares que se reprodu- ladas ao longo de sua periferia e por volta
zem através de uma simples divisão celu- de 16 grandes células reprodutivas Figura 1.17
lar, tais como as amebas, são potencial- assexuadas, chamadas gonídios, dispos- Reprodução assexual em V. carteri. Quando as
mente imortais. A ameba que vemos sob tas em umas das extremidades do interior. células reprodutivas (gonídios) estão maduras,
um microscópio não tem ancestrais mor- Quando maduro, cada gonídio divide-se entram em um estado semelhante à clivagem do
tos! Quando uma ameba se divide, nenhu- rapidamente 11 ou 12 vezes. Parte dessa desenvolvimento embrionário para produzir se-
ma das duas células resultantes pode ser divisão é assimétrica e produz as 16 célu- res juvenis dentro do adulto. Através de uma
considerada ancestral ou progênie; elas las grandes que irão se tornar um novo série de movimentos celulares semelhantes à
gastrulação, o volvox embrionário se inverte e é
finalmente liberado do progenitor. As células
somáticas do progenitor, sem gonídios, passam
por senescência e morrem, enquanto a colônia
juvenil amadurece. O ciclo sexual total dura dois
Expansão
dias. (Segundo Kirk, 1988.)
de adultos
Embriogênese e juvenis
Adulto com
juvenis
Adulto com
gonídios maduros
Maturação
dos gonídios Expansão continuada
da matriz extracelular
Expansão Morte de células
continuada somáticas - progenitores
de juvenis
Liberação
de juvenis
39.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 19
(A) (F) Figura 1.18
Inversão dos embriões V. carteri produzidos
assexuadamente. A-E são micrografias eletrô-
nicas de varredura de embriões completos. F-
J são cortes sagitais através do centro do em-
brião, visualizado por microscopia diferencial
de interferência. Antes da inversão, o embrião
é uma esfera côncava de células conectadas.
Quando as células mudam a sua forma, um
buraco (o fialoporo) abre-se no topo do em-
brião (A,B,F,G). As células se curvam e se
reúnem em um dos pólos (C-E, H-J). (Kirk et
(B) (G) al., 1982, cortesia de D. Kirk.)
das células que as produzem (Pommerville
e Kochert, 1982). Além do mais, nessa mor-
te, as células liberam para o uso de ou-
tras, incluindo sua própria cria, todo o nu-
triente acumulado durante toda a vida.
“Dessa maneira emerge”, como assinala
David Kirk, “um dos grandes temas da
vida no planeta Terra: Alguns morrem para
(C) (H)
que outros possam viver”.
Em V. carteri, foi identificado um gene*
específico que tem um papel importante re-
gulando a morte das células (Kirk, 1988).
Em linhagens laboratoriais possuindo mu-
tações desse gene, as células somáticas
abandonam suas tendências suicidas,
ganham a habilidade de se reproduzirem
(D) (I) * Esse gene (regA) foi clonado e mostrou
codificar uma proteína que age para reprimir
(direta ou indiretamente) todos os genes cujos
produtos são requeridos pela célula para se de-
senvolver como gonídio. Mutações de perda da
função impedirão a proteína de agir, e as células
serão capazes de se tornarem gonídios (D. Kirk,
comunicação pessoal).
(E) (J)
células em forma de garrafa abre um bura- O que acontece às células somáticas
co em um dos lados do embrião produzin- do “progenitor” Volvox agora que as jo- Figura 1.19 “Células garrafas” próxi-
do tensão sobre a camada de células in- vens “deixaram o lar”? Tendo produzido mas à abertura do fialoporo. Essas células
terconectadas (Figura 1.19). O embrião se uma cria e sendo incapazes de uma nova permanecem estreitamente conectadas atra-
utiliza desse buraco para fazer a inversão reprodução, essas células somáticas mor- vés de pontes citoplasmáticas próximas a
seus ápices alongados, desse modo criando
e depois o fecha. Posteriormente, as colô- rem. Para ser mais exato, elas cometem a tensão que causa a curvatura da lâmina ce-
nias juvenis são enzimaticamente soltas suicídio, sintetizando um conjunto de pro- lular interconectada. ( Kirk et al., 1982, cor-
do progenitor e nadam livres. teínas que causam a morte e a dissolução tesia de D. Kirk.)
40.
20 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(A) assexuadamente e se tornam potencialmen- advento da inevitável morte natural
te imortais (Figura 1.20). O fato desses mu- no reino animal, e tudo em nome do
tantes nunca terem sido encontrados na sexo. ”E pergunta: “Vale a pena?”
natureza, indica que a morte das células
tem um papel importante na sobrevivência Para Volvox carteri, certamente que sim.
do V. carteri sob condições naturais. V. carteri vive em pequenas poças rasas
[intro2.html] que temporariamente se enchem com as
águas das chuvas da primavera e secam no
Entra o sexo calor do verão. Durante a maior parte desse
Mesmo o V. carteri se reproduzindo as- tempo, V. carteri nada livremente, reprodu-
sexuadamente a maior parte do tempo, na zindo-se assexuadamente. Esses volvox
(B)
natureza se reproduzem sexualmente uma morreriam em minutos se a poça secasse,
vez por ano. Quando o faz, uma geração mas o V. carteri é capaz de sobreviver se
de indivíduos morre, e uma nova geração tornando sexual pouco antes da secagem
geneticamente diferente é produzida. O das poças, produzindo zigotos inativos que
naturalista Joseph Wood Krutch (1956) sobrevivem ao calor e à seca do alto verão e
colocou isso de uma forma mais poética: ao frio do inverno. Quando a chuva enche
esses pequenos reservatórios na primave-
A ameba e o paramécio são potencial- ra, os zigotos interrompem a sua dormência
mente imortais...Mas para o Volvox a e criam uma nova geração para reproduzi-
morte parece inevitável, assim como o rem-se assexuadamente até que as águas
é para um camundongo ou o homem. ameacem secar novamente. Como esses or-
Volvox deve morrer, como Leeuwenko- ganismos tão simples prevêem a chegada
ek observou, porque teve filhos e não é de condições adversas com acuidade sufi-
Figura 1.20 mais necessário. Quando sua hora ciente para produzir uma geração sexual no
Mutação de um único gene (chamado regene- chegar, tomba em silêncio, vai para tempo certo, ano após ano?
rador somático A) elimina a programação de o fundo juntar-se a seus ancestrais. O estímulo para mudança do modo
morte em células V. carteri. Volvox recém- Como Hegner, o zoologista de Johns assexual para o modo sexual de reprodu-
eclodido carregando essa mutação (A) é Hopkins, escreveu, “Esse é o primeiro ção em V. carteri é devido a uma proteína
indistinguível do esferóide tipo-selvagem. No
entanto, momentos antes das células somáti- Figura 1.21
cas do esferóide tipo-selvagem começarem a Reprodução sexual em V. carteri. Machos e fêmeas são indistiguíveis na sua fase assexuada.
morrer, as células somáticas desse mutante se Quando a proteína indutora sexual está presente, os gonídios de ambos parceiros passam por
rediferenciam como gonídios (B). Finalmente, uma embriogênese modificada que leva à formação de óvulos nas fêmeas e espermatozóides nos
cada célula do mutante irá se dividir para for- machos. Quando os gametas estão maduros, pacotes de espermatozóide (contendo 64 ou 128
mar ( regenerar) um novo esferóide que irá re- espermatozóides cada), são liberados e nadam para as fêmeas. Ao alcançar a fêmea o pacote se
petir esse ciclo do desenvolvimento potenci- rompe em espermatozóides individuais, que podem fertilizar os óvulos. O zigoto resultante tem
almente imortal. paredes duras que podem resistir à seca, calor e frio. Quando as chuvas da primavera fazem o
zigoto germinar, sofrendo meiose para produzir machos e fêmeas haplóides que se reproduzem
assexuadamente até o calor induzir novamente o ciclo sexual.
Pacotes de esperma-
Desenvolvimento tozóide
sexual de gonídios
Indutor
sexual
Espermatozóide
Macho assexuado Desenvolvimento embrionário Macho sexuado
Gonídio modificado dos gonídios resultando
em produção de gametas
Óvulos
Indutor
Zigotos
sexual
Óvulo
Fêmea assexuada Fêmea sexuada
Meiose e germinação
41.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 21
sexual indutiva de 30-kDa. Essa proteína tando placas com V. carteri à temperaturas de aparecer, multiplicar-se, realizando uma
é tão poderosa que concentrações meno- que poderiam ser encontradas em um reser- orgia sexual reprodutiva em poças de água
res que 6x10-17 fazem com que os gonídios vatório raso durante o fim do verão. Quan- da chuva de apenas duas semanas”
sofram um padrão modificado de desen- do isso era feito, as células somáticas dos (Powers, 1908). Ainda que reservatórios tem-
volvimento embrionário que resulta na volvox assexuados produziam a proteína porários formados pela água das chuvas se-
produção de óvulos ou espermatozóides, sexual indutora. Sendo a quantidade da pro- quem sob o calor do verão, Volvox encon-
dependendo do sexo genético do indiví- teína secretada por um indivíduo suficiente trou um meio de sobrevivência: usa o calor
duo (Sumper et al.,1993). Os espermato- para iniciar o desenvolvimento sexual em para induzir a formação de indivíduos sexu-
zóides são liberados para nadar para a fê- mais de 500 milhões de volvox assexuados, ados cujo acasalamento produz zigotos ca-
mea onde fertilizam os óvulos para pro- um único volvox indutor pode converter um pazes de sobreviver sob condições que ma-
duzir zigotos dormentes (Figura 1.21). reservatório inteiro para a sexualidade. Essa tam o organismo adulto. Observamos, tam-
Qual é a fonte dessa proteína indutora descoberta explica uma observação feita há bém, que o desenvolvimento está critica-
sexual? Kirk e Kirk (1986), descobriram que quase 90 anos, de que “na intensa radiação mente ligado ao ecossistema ao qual o or-
o ciclo sexual poderia ser iniciado esquen- solar do verão de Nebraska, Volvox é capaz ganismo se adaptou para sobreviver.
Diferenciação e Morfogênese em Dictyostelium
O CICLO DE VIDA DO DICTYOSTELIUM. Um outro tipo de organização multicelular
derivada de organismos unicelulares é encontrada no Dictyostelium discoideum.* O
ciclo de vida desse organismo fascinante é ilustrado na Figura 1.22. Em seu ciclo
vegetativo, uma solitária ameba haplóide (chamada myxamoebae ou “ameba social”
para distingui-las de espécies de amebas que sempre permanecem solitárias) vive em
troncos caídos, se alimentando de bactérias e se reproduz por cisão binária. Quando
tiver esgotado seu suprimento de comida, dezenas de milhares dessas amebas se juntam
para formar um fluxo corrente de células que convergem em um ponto central. Aqui se
amontoam uma sobre a outra sob forma de um cone chamado de agregado apertado ou
justo. Subseqüentemente, uma ponta surge no topo desse monte, que se dobra forman-
do uma lesma migratória (com a ponta na frente). A lesma (geralmente lhe é dado um
título mais dignificado de pseudoplasmódio ou grex) mede normalmente de 2 a 4 mm de
comprimento e é envolvida por uma bainha viscosa. O grex começa a migrar (se o
ambiente está escuro e úmido) com sua ponta anterior um pouco levantada; quando
atinge uma área iluminada, a migração cessa, e o grex se diferencia em um corpo de
frutificação composto de células esporos e pedúnculo. As células anteriores, represen-
tando 15 a 20 porcento de toda população celular, formam o pedúnculo tubular. O
pedúnculo começa na parte centro-anterior da célula, enquanto as células pré-
pedunculares começam a secretar um revestimento extracelular estendendo um tubo
através do grex. À medida que as células pré-pedunculares se diferenciam, formam
vacúolos e aumentam de tamanho levando a massa de células pré-pedúnculo que
havia ficado nos quatro-quintos posteriores do grex (Jermyn e Williams, 1991). As
células do pedúnculo morrem, mas as células posteriores, elevadas acima do pedún-
culo, transformam-se em células-esporo. Essas se dispersam, cada uma tornando-se
uma nova mixameba.
Em adição a esse ciclo sexual, existe a possibilidade para sexo em Dictyostelium.
Duas amebas podem fundir-se para criar uma célula gigante, que digere todas as
outra células do agregado. Quando tiver ingerido todos seus vizinhos, se enquista
em uma parede grossa e sofre divisões meiótica e mitótica; e por fim, novas mixamebas
são liberadas.
Dictyostelium tem sido um maravilhoso organismo experimental para biologis-
tas do desenvolvimento, porque células inicialmente iguais são diferenciadas em
dois tipos alternativos de células, esporo e pedúnculo. É também um organismo
onde células individuais se juntam para formar uma estrutura coesa composta por
tipos de células diferenciadas, parecido com a formação de tecidos em organismos
* Embora chamado coloquialmente um “fungo celular pegajoso”, Dictyostelium não é um fungo
(como Neurospora), nem é consistentemente pegajoso. É melhor considerá-lo como uma ameba social.
42.
22 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Lesma
(Pseudoplasmódio; grex)
15 h
16 h
14 h
17 h
CULMINAÇÃO 20 h
MIGRAÇÃO
12 h
Esporos
23 h
10 h
AGREGAÇÃO
Mixamebas Fluxos
9 h celulares
Corpo de frutificação maduro
6 h
24h
Figura 1.22
Ciclo vital de Dictyostelium discoideum. Esporos haplóides originam mixamebas, que podem
reproduzir-se assexualmente para formar mais mixamebas haplóides. A medida que diminui o
suprimento alimentar, ocorre agregação em pontos centrais, e forma-se um agregado de
pseudoplasmódio. Finalmente, esse pára de se movimentar e forma um corpo de frutificação
que libera mais esporos. Os números referem-se às horas decorridas desde que a diluição
nutricional iniciou a seqüência desenvolvimental.
mais complexos. A agregação de milhares de amebas em um único organismo é um
feito incrível de organização e convida à experimentação para resolver perguntas
sobre os mecanismos envolvidos.
AGREGAÇÃO DE CÉLULAS DE DICTYOSTELIUM. A primeira pergunta é: O que
induz a ameba a se agregar? Microcinematografia de espaçamento temporal mostrou
que não ocorre movimento direcionado durante as primeiras 4-5 horas após carência
nutricional. Durante as 5 horas seguintes, porém, as células são vistas mover-se por
aproximadamente 20µm / min durante 100 segundos. Esse movimento cessa após
aproximadamente 4 minutos, e em seguida recomeça. Embora o movimento seja
direcionado para um ponto central, não é um simples movimento radial. Antes, as
células se juntam umas às outras para formar correntes; essas convergem em corren-
tes maiores, e finalmente todas se juntam no centro. Bonner (1947) e Shaffer (1953)
mostraram que esse movimento é devido à quimiotaxia: as células são guiadas para os
centros de agregação por uma substância solúvel. Essa substância foi posteriormente
identificada como adenosina 3’,5’ monofosfato cíclico (cAMP) (Konijn et al., 1967;
Bonner et al., 1969), cuja estrutura química está mostrada na Figura 1.23A.
A agregação é iniciada à medida que cada célula começa a sintetizar o cAMP. Não
há células “dominantes” que começam a secreção ou controlam as outras. Antes, os
locais de agregação são determinados pela distribuição das amebas (Keller e Segal,
1970; Tyson e Murray, 1989). Células vizinhas respondem ao cAMP de duas maneiras:
ou iniciando sua movimentação de acordo com as pulsações de cAMP, ou acompa-
nhando a liberação de seu cAMP próprio (Robertson et al., 1972; Shaffer, 1975). Em
seguida, a células não respondem mais aos pulsos de cAMP por vários minutos. O
43.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 23
(A) Adenina (B)
(C)
(D)
Figura 1.23
Quimiotaxia de amebas de Dictyostelium de-
vida à ondas espirais de cAMP. (A) estrutura
resultado é uma onda giratória em espiral de cAMP, que se propaga através da química do cAMP. (B) Visualização de várias
população de células (Figura 1.23B-D). À medida que chega cada onda, as células dão “ondas” de cAMP no meio. Células centrais
secretam cAMP em intervalos regulares, e
mais um passo para o centro.*
cada secreção difunde para fora como um onda
A diferenciação de amebas individuais em células pedunculares (somáticas) ou concêntrica. As ondas são mapeadas saturan-
esporos (reprodutivas) é uma questão complexa. Raper (1940) e Bonner (1957) de- do-se papel de filtro com cAMP radioativo e
monstraram que as células anteriores normalmente formam pedúnculo, enquanto as colocando-o sobre uma colônia em agregação.
células remanescentes, posteriores, em geral estão destinadas a formar esporos. No O cAMP das células secretoras dilui o cAMP
entanto, a remoção cirúrgica da parte anterior da lesma não elimina a capacidade do radiativo. Quando a radioatividade no papel
grex formar um pedúnculo. Em vez disso, as células que agora se encontram no final é registada (colocando-o sobre filme de raios-
anterior após a cirurgia (e que originalmente estavam destinadas a formar esporos), X), as regiões de alta concentração de cAMP
agora formam o pedúnculo (Raper, 1940). De alguma maneira, é tomada uma decisão de na cultura aparecem mais claras que aquelas
de baixa concentração de cAMP. (C,D) On-
modo tal, que células anteriores virem células pedunculares e células posteriores
das espirais de amebas movendo-se em dire-
virem esporos. Essa habilidade de células mudarem seus destinos desenvolvimentais, ção à fonte inicial de cAMP. (C) Essa
microfotografia em campo escuro processa-
da digitalmente mostra cerca de 107 células.
* A bioquímica dessa reação envolve um receptor que liga o cAMP. Quando essa ligação Como células móveis e imóveis dispersam a
ocorre, realiza-se transcrição específica de genes, é iniciada movimentação em direção à fonte de luz diferentemente, a fotografia reflete movi-
cAMP, e enzimas adenilciclases (que sintetizam cAMP a partir de ATP) são ativadas. O cAMP mento celular. As bandas claras são compos-
recém-formado ativa seus receptores próprios, assim como aqueles de seus vizinhos. As células tas de células migratórias alongadas; as ban-
na área permanecem insensíveis às novas ondas de cAMP até que o cAMP ligado seja removido das escuras são células que pararam de se
dos receptores por outra enzima da superfície celular, a fosfodiesterase (Johnson et al., 1989). mover e se arredondaram. (D) As células for-
A matemática de tais reações de oscilação prevê que a difusão de cAMP seria inicialmente mam correntes, a espiral de movimento ainda
circular. Porém, à medida que o cAMP interage com as células que recebem e propagam o sinal, pode ser vista movendo-se em direção ao cen-
as células que recebem a parte frontal da onda começam a migrar com uma velocidade diferente
daquela das células atrás delas. O resultado é a espiral rotatória de cAMP e a migração vistas na tro. (B de Tomchick e Devreotes, 1981, cor-
Figura 1.23. É interessante que as mesmas fórmulas matemáticas predizem o comportamento de tesia de P. Devreotes; C e D de Siegert e Weijer,
certas reações químicas e a formação de novas estrelas em galáxias espirais rotatórias (Tyson e 1989, cortesia de F. Siegert.)
Murray, 1989).
44.
24 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 1.24
Células de Dictyostelium sintetizam um adesivo, glicoproteína 24-kDa, pouco após a inanição
nutricional. Células de Dictyostelium foram coradas com um anticorpo fluorescente que se liga
à glicoproteína 24-kDa e foram em seguida observada sob luz ultravioleta. Essa proteína não foi
vista em amebas que tinham apenas parado de se dividir. No entanto, como mostrado aqui – 10
horas após o fim da divisão celular – amebas individuais são vistas apresentando essa proteína
em suas membranas celulares e são capazes de aderir umas às outras.
de acordo com sua localização dentro do organismo inteiro, e assim compensar por
partes faltantes, é chamada regulação. Veremos esse fenômeno em muitos embriões,
inclusive naqueles dos mamiferos.
MOLÉCULAS DE ADESÃO CELULAR EM DICTYOSTELIUM. Como essas células
individuais aderem entre si para formar um organismo coeso? Este é o mesmo proble-
ma que enfrentam as células embrionárias, e a solução que evoluiu para os protistas é
a mesma que aquela usada pelos embriões: moléculas de adesão celular reguladas
pelo desenvolvimento.
Enquanto estão crescendo mitoticamente em bactérias, células de Dictyostelium
não aderem umas às outras. Porém, uma vez que a divisão celular cessa, as células se
tornam progressivamente mais adesivas, alcançando um patamar de coesividade má-
xima aproximadamente após 8 horas de inanição. A adesão célula-célula é mediada por
uma glicoproteína de 24.0000 Da (24-kDa) que está ausente em células em crescimento
mas pode ser vista pouco depois dessa fase (Figura 1.24; Knecht et al., 1987; Loomis,
1988). Essa proteína é sintetizada a partir de mRNA recém-transcrito e fica localizada
nas membranas celulares das mixamebas. Se essas células são tratadas com anticor-
pos que se ligam a essa proteína e a mascaram, as células não irão aderir umas às
outras e todo desenvolvimento subseqüente cessa.
Uma vez que essa agregação inicial tiver ocorrido, é estabilizada por uma segunda
molécula de adesão celular. Essa glicoproteína de 80-kDa também é sintetizada duran-
te a fase de agregação. Se apresentar defeitos ou estiver ausente nas células, lesmas
pequenas se formarão, e seus corpos de frutificação só atingirão aproximadamente um
terço de seu tamanho normal. Assim, o segundo sistema de adesão celular, parece ser
necessário para a retenção de um número de células suficientemente grande para a
formação de grandes corpos de frutificação (Müller e Gerisch, 1978; Loomis, 1988). Um
terceiro sistema de adesão é ativado tardiamente no desenvolvimento, quando a les-
ma estiver migrando. A proteína ou grupo de proteínas que intervem no terceiro siste-
ma pode existir somente em células pré-esporo e pode ser responsável pela separação
de células pré-esporo de células pré-pedúnculo (Loomis, comunicação pessoal). As-
sim, Dictyostelium evoluiu para três sistemas de adesão célula-célula regulados pelo
desenvolvimento, e que são necessários para a morfogênese de células individuais
para formar um organismo coerente. Como veremos em capítulos subseqüentes, célu-
las de metazoários também usam moléculas de adesão celular para formar os tecidos e
órgãos do embrião.
Dictyostelium é um “organismo multicelular em tempo parcial” que não forma
muitos tipos de células (Kay et al., 1989), e os organismos multicelulares mais comple-
xos não se formam pela agregação de células anteriormente independentes. No entan-
to, muitos dos princípios do desenvolvimento demonstrados por esse “simples” or-
45.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 25
ganismo também aparecem em embriões de filos mais complexos. A habilidade de
células individuais sentir um gradiente químico (como a resposta da ameba ao cAMP)
é muito importante para a migração celular e morfogênese durante o desenvolvimento
animal. Ainda mais, o papel das proteínas da superfície celular para a coesividade
celular pode ser visto através do reino animal, e moléculas indutoras da diferenciação
estão agora começando a ser isoladas de organismos metazoários.
Informações adicionais
& Especulações
Evidência e Anticorpos
A Biologia, tal como qualquer outra Como então ir para além da mera cor- teínas de membrana em geral). Nesse
ciência, não trata de fatos; antes, relação? No estudo da adesão celular em caso, bloquear a glicoproteína também
trata de evidências. Vários tipos Dictyostelium, o próximo passo foi usar causaria a inibição da agregação celu-
de evidência serão apresentados neste li- aqueles mesmos anticorpos para bloque- lar. Assim, a evidência perda-de–função
vro; não são todos de equivalente vigor. ar a adesão de mixamebas. Usando uma precisa ser amparada por muitos con-
Como exemplo, vamos usar a análise da técnica introduzida pelo laboratório de troles demonstrando que agentes cau-
adesão celular em Dictyostelium. O primei- Gerisch (Beug et al., 1970), Knecht e cola- sadores de perda de função derrubam
ro e mais fraco tipo de evidência é a evi- boradores (1987) tomaram os anticorpos especificamente aquela função em par-
dência correlativa. Aqui, são feitas corre- que ligam essa glicoproteína 24-kDa e iso- ticular, e nada mais.
lações entre dois ou mais eventos, e infe- laram seus sítios ligantes de antígeno (as O tipo mais forte de evidência é evi-
re-se que um evento estimule o outro. partes da molécula do anticorpo que re- dência-de-ganho-de-função. Aqui, o iní-
Como vimos, anticorpos marcados com flu- conhecem o antígeno). Isso foi necessá- cio do primeiro evento estimula um segun-
orescência para uma certa glicoproteína de rio porque o todo da molécula de anticor- do e mesmo em situações onde nenhum
24 kDa, não marcam células vegetativas em po contém dois sítios ligantes de antígeno desses eventos ocorre usualmente. Recen-
divisão; porém, esses mesmos anticorpos que iriam ligar-se artificialmente de manei- temente, da Silva e Klein (1990) e Faix e
acham a proteína em membranas celulares ra cruzada e aglutinar as mixamebas. Quan- colaboradores (1990) obtiveram tal evidên-
de mixameba logo que as células param de do esses fragmentos ligantes de antígeno cia para mostrar que a glicoproteína 80-kDa
se dividir e tornam-se competentes para (chamados Fragmentos Fab) foram adici- é uma molécula adesiva. Isolaram o gene
agregar (veja Figura 1.24). Assim, existe uma onados às células competentes para agre- para essa proteína e o modificaram de uma
correlação entre a presença dessa glico- gação, as células não puderam se agre- maneira a motivá-lo ser expresso continu-
proteína da membrana celular e a capaci- gar. Os fragmentos de anticorpo impedi- amente. Em seguida, recolocaram-no em
dade de agregação. ram as células de aderir entre si, presu– mixameba bem-alimentada, crescendo ve-
Evidência correlativa dá um ponto de mivelmente por ligar–se a glicoproteína getativamente, que usualmente não expres-
partida para investigações, mas não se 24-kDa, bloqueando sua função. Esse tipo sa essa proteína e não tem capacidade de
pode afirmar com certeza que um evento de evidência é chamado evidência-de- adesão. A presença dessa proteína na mem-
estimula outro somente baseado em cor- perda-de-função. Se bem que mais forte brana celular dessas células em divisão foi
relações. Embora se possa inferir que a que a evidência correlativa, ela ainda não confirmada por marcação com anticorpos.
síntese dessa proteína causa a adesão das exclui outras inferências. Por exemplo, é Tais células agora aderiram umas às outras
células, é também possível que adesão ce- possível que os anticorpos tenham mata- mesmo nos estados vegetativos, o que nor-
lular leve as células a sintetizar essa nova do a célula (o que poderia acontecer se a malmente não fazem. Assim, elas tinham
glicoproteína, ou que a adesão celular e a glicoproteína 24-kDa for um crítico canal ganho uma função adesiva somente por
síntese da glicoproteína 24-kDa sejam de transporte). Isso também impediria a expressar essa glicoproteína em particular
eventos separados, iniciados pela mesma adesão celular. Ou talvez, a glicoproteína nas suas superfícies celulares. Essa evi-
causa subjacente. A ocorrência simultâ- 24-kDa nada tinha a ver com a adesão pro- dência de ganho-de-função é mais convin-
nea dos dois eventos pode mesmo ser co- priamente, mas é necessária para o funci- cente que outros tipos de análise. Experi-
incidência e os eventos não terem relação onamento da verdadeira molécula adesi- mentos semelhantes foram recentemente
um com o outro.* va (como através da estabilização de pro- realizados em células de mamíferos (veja
capítulo 3), para demonstrar a presença de
* Em uma carta irônica, caçoando de tais inferências correlativas, Sies (1988) demonstrou uma determinadas moléculas adesivas celula-
notável boa correlação entre o número de cegonhas vistas na Alemanha Ocidental de 1965 até 1980 res no embrião em desenvolvimento.
e o número de bebês nascidos durante esses mesmos anos.
46.
26 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
DIFERENCIAÇÃO EM DICTYOSTELIUM. A diferenciação em uma célula-pedúncu-
lo ou em uma célula-esporo reflete um dos principais fenômenos da embriogênese: a
seleção pela célula de uma trajetória desenvolvimental. As células freqüentemente
selecionam um determinado destino desenvolvimental quando alternativas estão dis-
poníveis. Uma determinada célula num embrião de vertebrado por exemplo, pode tor-
nar-se uma célula da epiderme ou um neurônio. Em Dictyostelium, vemos uma decisão
dicotômica simples, porque somente dois tipos celulares são possíveis. Como uma
célula torna-se uma célula de pedúnculo ou uma célula de esporo? Embora os detalhes
não sejam totalmente conhecidos o destino de uma célula parece ser regulado por
certas moléculas difusivas. Os dois principais candidatos são o fator indutor de dife-
renciação (DIF) e o cAMP. DIF parece ser necessário para a diferenciação da célula
peduncular. Esse fator, tal como o fator indutor de sexo em Volvox, é eficaz em concen-
trações muito baixas (10-10M); e, como a proteína de Volvox, parece induzir a diferen-
ciação de um determinado tipo de célula. Quando adicionado às amebas isoladas ou
mesmo às células pré-esporo (posteriores), induz a formação de células pedunculares.
A síntese desse lipídeo de baixo peso molecular é regulada geneticamente, pois há
cepas mutantes de Dictyostelium que formam somente o precursor de células-esporo
e não de células pedunculares. Quando DIF é adicionado a essas culturas de mutantes,
células penduculares conseguem se diferenciar (Kay e Jermyn, 1983; Morris et al.,
1987), e novos mRNAs específicos pré-pedúnculo são encontrados no citoplasma
celular (Williams et al., 1987). O mecanismo pelo qual DIF induz 20 porcento das
células do plasmódio (grex) a tornar-se tecido peduncular ainda é controverso (veja
Early et al., 1995). DIF pode agir através da liberação de íons de cálcio de compartimen-
tos intracelulares no interior da célula (Schaulsky e Loomis, 1995). [other.html#intro3]
Embora DIF estimule amebas a tornarem-se células pré-pedúnculo, a diferencia-
ção de células pré-esporo é mais provavelmente controlada por pulsos contínuos
de cAMP. Altas concentrações de cAMP iniciam a expressão de mRNA pré-esporo
específico, em amebas agregadas. Além disso, quando lesmas são colocadas em um
meio contendo uma enzima que destrói cAMP extracelular, as células pré-esporo
perdem suas características de diferenciação (Figura 1.25; Schaap e van Driel, 1985;
Wang et al., 1988a,b).
(A)
(B)
Figura 1.25
Substâncias químicas que controlam a diferenciação em Dictyostelium. (A) e (C)
(B) mostram os efeitos de se colocar lesmas Dictyostelium em um meio
contendo enzimas que destroem cAMP extracelular. (A) Grex (pseudoplas-
módio) corado para presença de uma proteína pré-esporo específica (regiões
claras). (B) Grex semelhante corado após tratamento com enzimas que de-
gradam cAMP. Não é visto produto pré-esporo específico. (C) Amplifica-
ção maior de uma lesma tratada com DIF (na ausência de amônia). O corante
usado liga-se à parede de celulose das células pedunculares. Todas as células
do grex tornaram-se células pedunculares. (A e B de Wang et al., 1988a; C de
Wang e Schaap, 1989; cortesia dos autores.)
47.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 27
Informações adicionais
& Especulações
Como o Grex Sabe Qual Lado Está Para Cima
S E TODAS AS AMEBAS do grex
começarem no mesmo nível, como
podem células nos quatro-quintos
posteriores da lesma se diferenciar em cé-
da estão emanando da ponta apical do
agregado. Esses pulsos são quimiotácti-
cos para células pré-pedúnculo, mas não
para células pré-esporo, de modo que atra-
luz solar, cessa de migrar e sofre a diferen-
ciação final em esporos e pedúnculo. Du-
rante esse processo (chamado culmina-
ção), o grex se apóia em um dos terminais
lulas-esporo, enquanto células equivalen- em as células pré-pedúnculo para a ponta fazendo com que as células traseiras se
tes do quinto anterior se tornam células da agregado (Matsukuma e Durston, 1979; tornem sua base. Algumas células pstA
pedunculares? A resposta pode estar na Mee et al., 1986; Siegert e Weijer, 1991; migram para o tubo central de células pstB,
observação de que as células originais não Takeuchi, 1991).Portanto, o AMP cíclico e quando entram em contato com o tubo
são todas iguais. Amebas sujeitas à ina- parece ter várias funções no desenvolvi- central, diferenciam-se em células pstB, sin-
nição durante a parte precoce de seu ci- mento de Dictyostelium. Agrega as célu- tetizando componentes de uma nova matriz
clo celular tendem a se mover para a por- las umas às outras, induz diferenciação de extracelular. As células novas são adiciona-
ção anterior do pseudoplasmódio, en- células pré-esporo e dirige a migração de das à região anterior do tubo, forçando-o
quanto amebas expostas à inanição du- células pré-pedúnculo para a parte anteri- mais para dentro da estrutura culminativa.
rante o fim do ciclo, tendem a permanecer or do agregado. Esse tubo se diferencia para tornar-se o pe-
na porção posterior (McDonald e Durs- Uma vez completo, o agregado tomba dúnculo. Ao mesmo tempo, as células pstA
ton, 1984; Weijer et al., 1984). Esse traba- sobre um dos lados e forma o grex migra- que tinham ficado na região posterior do
lho foi confirmado e ampliado por Ohmori tório. A maioria das células pré-pedúncu-
e Maeda (1987), que mostraram que célu- lo estão nos 20 porcento anteriores do
Figura 1.26
las não-alimentadas durante a parte tar- grex, porém, há também algumas células
Regulação da diferenciação de células pedun-
dia do ciclo celular, respondem de manei- pré-pedúnculo espalhadas através da par-
culares durante a fase de culminação do cresci-
ra diferente ao cAMP e mostram adesivi- te posterior. Células pré-pedúnculo podem mento de Dictyostelium. Representação
dade muito mais alta que células jejuadas ser distinguidas pela sua secreção de pro- esquemática mostrando que células pré-esporo
imediatamente após a mitose. Williams e teína A da matriz extracelular para espa- e pré-pedúnculo estão em geral misturadas no
colaboradores (1989) acharam que célu- ços intercelulares. No centro da porção estágio precoce da agregação, mas se separam
las pré-esporo e pré-pedúnculo podem ser anterior do grex, um outro grupo de célu- de modo que a maioria das células pré-
diferenciadas em agregados precoces e las pré-pedúnculo começa a secretar uma pedúnculo se encontrem na parte anterior do
que estão distribuídas de modo aleatório segunda nova proteína (proteína B), para grex. As células pré-pedúnculo A constituem
através desses montes hemisféricos. As- sua matriz extracelular. Essas células são a maior parte do anterior do grex, com alguma
sim, as tendências para certos destinos chamadas células pré-pedúnculo B (pstB), células similares no posterior. Células pré-
foram estabelecidas até mesmo antes do enquanto a maioria das células pré-pedún- pedúnculo B são vistas na parte central da
grex começar a migrar. Dentro de cada agre- culo são conhecidas como células pré- porção anterior do grex. Nos estágios preco-
gado, a maioria das células pré-pedúncu- pedúnculo A (pstA) (Figura 1.26). Outro ces da culminação, as células pré-pedúnculo
lo, migram ativamente para o anterior, en- grupo de células pré-pedúnculo, as célu- do posterior migram para formar o disco basal
quanto células pré-esporo permanecem las pstO, estão espalhadas de maneira e os cálices do saco de esporos; as células pré-
no que se tornará a região posterior do esparsa através das células pré-esporo, e pedúnculo A do anterior migram para o centro
e se tornam células pré-pedúnculo B. Isso es-
grex. Essa migração provavelmente é de- migram mais lentamente em direção ao
tende o pedúnculo até que esse eleve a caixa de
vida a repetidos pulsos de cAMP que ain- anterior. Quando o grex se encontra na
esporos acima da superfície. (Segundo
Harwood et al., 1992).
Células pré-pedúnculo A Cálice superior
Células pré-pedúnculo B
Células pré-pedúnculo AB Células
Direção do movimento celular pré-esporo
Células pré-esporo Cálice
Pré-pedúnculo AB
Pré-pedúnculo AB Inferior Pré-pedúnculo AB
Pré-pedúnculo B
Guarda da Pré-pedúnculo A
retaguarda Disco basal interior
Disco basal exterior
Pré-pedúnculo B Pré-pedúnculo B
Agregado Grex Culminante precoce Culminante médio Culminante tardio
48.
28 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
grex migram para as bordas da região pré- (Gross et al., 1983; Wang et al., 1990). passa a fosforilar um repressor que esta-
esporo e diferenciam-se no invólucro dos Bonner e colaboradores (1985), sugeriram va inibindo a expressão dos genes de di-
esporos e disco basal (Williams e Jermyn, que como a luz causa difusão mais rápida ferenciação do pedúnculo. No estado fos-
1991; Harwood et al., 1992). Finalmente, da amônia, remove o inibidor permitindo forilado, o inibidor é inativo. Portanto, uma
os esporos são levantados 2 mm acima assim, o progresso da culminação. vez que os níveis de cAMP se elevam (pela
do solo, de onde podem ser dispersos A amônia parece inibir a produção do remoção da amônia), a PKA pode inativar
pelo vento ou um animal que passa. pedúnculo pelos menos de duas manei- o inibidor dos genes formadores do pe-
O gatilho para a culminação parece ser ras. Inibe a ação de DIF (Wang e Schaap, dúnculo (Figura 1.27). [intro.4html]
a luz solar ou a baixa umidade. Experimen- 1989), e inibe a produção de cAMP nas
tos recentes sugerem que esses dois fa- células pré-pedúnculo (Schindler e Sus- Figura 1.27
tores causam a difusão de amônia da les- sman, 1977; Harwood et al., 1992). Esse Uma hipótese para a iniciação coordenada da
ma. A amônia é produzida copiosamente cAMP é necessário para ativar a proteína culminação e diferenciação de células
por lesmas migratórias e reprime a culmi- quinase cAMP-dependente (PKA). Célu- pedunculares em Dictyostelium. A luz solar
dissipa a amônia na parte anterior do grex,
nação. Sempre que a amônia estiver exau- las pré-pedúnculo contendo PKA não- permitindo maior produção de cAMP nas cé-
rida (quer naturalmente ou experimental- funcional, não fosforilam certas proteínas. lulas pré-pedúnculo. A concentração mais alta
mente), a culminação começa (Schindler e Essas células não migram para a região de cAMP ativa a PKA, que fosforila um
Sussman, 1977; Newell e Ross, 1982; central anterior, nem se diferenciam em inibidor da expressão gênica do pedúnculo. O
Bonner et al., 1985). A amônia inibe a con- células do pedúnculo (Firtel e Chapman, inibidor fosforilado não pode mais inibir os
versão de células pstA em pstB e proíbe a 1990; Harwood et al., 1992). Os dados genes pedúnculo-específicos. A seqüência pela
qual a formação de esporos é inibida, não está
continuação da formação do pedúnculo sugerem que quando PKA é ativada, clara. (Baseado em modelos de Bonner et al.,
1985, e Harwood et al., 1992)
cAMP
Amônia
Repressor ativo da
diferenciação e de Migração
genes de migração continuada
peduncular do grex
Luz solar PKA
inativa
cAMP
PKA
ativa
Transcrição
do gene da proteína B
da matriz extracelular;
Repressor inativo
migração de células
(fosforilado)
pré-pedúnculo;
diferenciação e
culminação peduncular
Padrões desenvolvimentais entre metazoários
Como o restante deste livro se ocupa do desenvolvimento de metazoários - animais
multicelulares que atravessam estágios embrionários de desenvolvimento - apre-
sentaremos um visão panorâmica dos seus padrões desenvolvimentais.* A Figura
1.28 ilustra os principais rumos evolutivos do desenvolvimento metazoário. A ob-
servação mais impressionante é que a vida não evoluiu segundo uma linha reta;
apresenta diversos caminhos evolutivos ramificados. Podemos ver que a maioria
das espécies de metazoários pertence a um de dois principais ramos de animais:
protostomatas e deuterostomatas.
*Plantas passam por padrões igualmente complexos e fascinantes de desenvolvimento embri-
onário e pós-embrionário. No entanto, o desenvolvimento das plantas difere significativamente
daquele dos animais; a inclusão de um tratamento abrangente do seu desenvolvimento teria dobrado
a extensão deste livro. Por isso, foi tomada a decisão de enfocar neste texto, o desenvolvimento dos
animais. Para uma revisão, veja Singer, 1997.
49.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 29
BILATERIA RADIATA PARAZOA
DEUTEROSTOMATAS PROTOSTOMATAS
Ascídios Moluscos Artrópodos Platel- Cnidários Poríferos
Nematelmintos
Vertebrados (Tunicados) Equinodermos Anelídeos mintos (Celenterados) (Esponjas)
Segmentados Não-segmentados
Larva
trocófora
Clivagem em
a
ad
espiral gastrulação
m
lo
protostosomal da
ce
ma
do
lo
eu
ce
Larva dipleura
ps
a
izo
ad
em
(tornária)
m
qu
elo
ag
es
ac
nh
em
Li
em
ag
ag
nh
Clivagem radial
nh
Li
gastrulação Li
deuterostomal
L
DIA
RA
SIMETRIA Platelmintos primitivos RIA
ET
BILATERAL (acelomados) SIM
Larvas planulóides
Protozoários coloniais
primitivos
Protistas flagelados
Figura 1.28
Principiais divergências evolucionárias em animais existentes. (Outros modelos são possíveis,
porém, os esquemas em geral são todos semelhantes ao mostrado aqui.)
Os Poríferos
Considera-se que os protistas coloniais deram origem, ao menos, a dois grupos de
metazoários, ambos passando por estágios embrionários. Um desses grupos é o Porífero
(esponjas). Esses animais desenvolvem-se de um modo tão diferente daquele de qual-
quer outro grupo de animais, que alguns taxonomistas sequer consideram-nos
metazoários (chamando-os, “parazoários”). Uma esponja tem três tipos principais de
células somáticas, mas um deles, o arqueócito, pode se diferenciar em todos os outros
50.
30 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
tipos. As células de uma esponja quando passadas por uma peneira, podem regenerar
novas esponjas a partir de células individuais. Ainda mais, em alguns casos, tal re-
agregação é espécie-específica: se células individuais de esponja de duas espécies
diferentes forem misturadas, cada uma que se re-forma contém somente células de
uma espécie (Wilson, 1907). Nesses casos, admite-se que os arqueócitos móveis cole-
cionam células de sua espécie, mas não das outras (Turner, 1978). Esponjas não con-
tém mesoderma, não havendo portanto verdadeiros sistemas de órgãos em Porífero;
esses seres não têm tubo digestivo, sistema circulatório, nervos ou músculos. Assim,
apesar de passarem por estágios embrionários e larvais, esponjas são muito pouco
parecidos com a maioria dos metazoários (veja Fell, 1997).
Protostomatas e Deuterostomatas
O outro grupo de metazoários emergindo dos protistas coloniais é caracterizado pela
presença de três camadas germinativas durante o desenvolvimento. Alguns membros
do grupo constituem os Radiatas, assim chamados porque têm simetria radial tal como
um tubo ou uma roda. Os Radiatas incluem os cnidários (medusas, corais e hidras) e
ctenóforos (medusas de crista). Nesses animais, o mesoderma é rudimentar, consistin-
do de células escassamente disseminadas em uma matriz gelatinosa. Porém, a maioria
dos metazoários tem simetria bilateral, constituindo assim, os Bilaterias. Esses filos
bilaterais são classificados como platelmintos, protostomatas ou deuterostomatas.
Pensa-se que todos os Bilateria descendam de um tipo primitivo de platelminto. Esses
platelmintos foram os primeiros a ter mesoderma verdadeiro (embora não tivessem
ficado ocos para formar uma cavidade corpórea), e foram considerados parecidos com
as larvas de certos celenterados contemporâneos. Enquanto os platelmintos são des-
providos de celoma (cavidade corpórea), os nematelmintos (e rotiferas) têm uma cavi-
dade corpórea diferente daquela de todos os outros animais, por ser desprovida de
revestimento mesodérmico. A maioria dos filos são celomados, isto é, possuem uma
cavidade corporal revestida por mesoderma.
As diferenças entre as duas divisões de Bilateria estão ilustradas na Figura 1.29.
Protostomatas (do Grego, “boca primeiro”), incluem os filos dos moluscos, artrópodos
e vermes; são assim chamados porque a boca é formada em primeiro lugar, junto ou
próximo da abertura intestinal, produzida durante a gastrulação. O ânus se forma mais
tarde em outro local.
A cavidade corpórea desses animais se forma a partir de uma previamente sólida
corda de células mesodérmicas, tornadas ocas. A outra grande divisão dos Bilateria é
a linhagem dos deuterostomatas. Os filos nessa divisão incluem os chordatas e os
equinodermos. Embora possa parecer estranho classificar seres humanos e cavalos
no mesmo grupo que estrelas-do-mar e ouriços-do-mar, alguns traços embriológicos
acentuam esse parentesco. Em primeiro lugar, nos deuterostomatas (do Grego signifi-
cando “boca depois”), a abertura bucal é formada depois da abertura anal. Também,
enquanto prostostomatas em geral formam suas cavidades corpóreas tornando oco
um bloco sólido de mesoderma (formação esquizelóide), a maioria dos deuterostomatas
formam suas cavidades corpóreas a partir de bolsas mesodérmicas estendendo-se do
intestino (formação enterocélica). Porém, deve-se mencionar que há muitas exceções
a essas generalizações.
Protostomatas e deuterostomatas diferem na maneira pela qual são clivados. Na
maioria dos deuterostomatas, os blastômeros são perpendiculares ou paralelos uns aos
outros. Isso é chamado clivagem radial. Protostomatas ao contrário, têm uma extensa
variedade de tipos de clivagem. Muitas espécies formam blástulas compostas por célu-
las que estão em ângulos agudos relativamente ao eixo polar do embrião. São por isso
considerados sofrer clivagem espiral. Além disso, os blastômeros em estágio de clivagem,
na maioria dos deuterostomatas, têm maior capacidade de regular seu desenvolvimento
do que os prostostomatas. Se um único blastômero é removido de um embrião
quadricelular de ouriço-do-mar ou camundongo, tal blastômero irá desenvolver-se em
um organismo inteiro, e os três-quartos restantes do embrião também irão se desenvolver
51.
CAPÍTULO 1 Introduçãoao Desenvolvimento Animal 31
(A) PROTOSTOMATAS (B) DEUTEROSTOMATAS
1. Clivagem espiral 1. Clivagem radial
2. Desenvolvimento esquizocélico 2. Desenvolvimento enterocélico
Celoma Celoma
Bolsa
Blastocele Blastocele
Intestinal
Mesoderma Bolsas se
se divide destacam
Mesoderma Mesoderma
Intestino Intestino Intestino Intestino
3. Tendência a não regulação 3. Tendência à regulação
Embrião de Um blastômero Desenvolvimento
de 4 células excluído interrompido Embrião de Um blastômero Duas larvas normais
de 4 células excluído se desenvolvem
Figura 1.29
Tendências principais dos prostostomatas e
normalmente. Porém, se a mesma operação fosse realizada em um embrião de lesma ou de deuterostomatas. Exceções à todas essas ten-
verme, tanto o blastômero isolado como os restantes se desenvolveriam em embriões dências gerais evoluíram secundariamente em
certos membros de cada grupo. (A maioria dos
parciais – cada um carente daquilo que foi formado a partir dos outros.
vertebrados por exemplo, não tem uma forma-
A evolução dos organismos depende de alterações herdadas em seu desenvolvi- ção estritamente enterocélica da cavidade cor-
mento. Um dos maiores avanços evolucionários – o ovo amniótico – ocorreu entre os poral; e os embriões de certos deuterostomatas,
deuterostomatas. Esse tipo de ovo, exemplificado pelo da galinha (Figura 1.30), é como os tunicados, não sofrem regulação se os
considerado ter-se originado dos ancestrais anfíbios dos répteis, há cerca de 255 blastômeros são deles removidos.)
milhões de anos. O ovo amniótico permitiu aos vertebrados vagar pela terra longe de
suprimentos de água existentes. Ao passo que a maioria dos anfíbios é obrigada a
voltar para a água para procriar e permitir o desenvolvimento de seus ovos, o ovo
amniótico carrega seu próprio suprimento de água e nutrientes. O ovo é fertilizado
internamente e contém a gema para nutrir o embrião em desenvolvimento. Ainda,
contém quatro bolsas: o saco vitelínico, que armazena proteínas nutrientes, o âmnio,
que contém fluido banhando o embrião, a alantóide, na qual restos do metabolismo
embrionário são coletados, e o cório, que interage com o ambiente externo, seletiva-
mente permitindo materiais chegar ao embrião. O todo dessa estrutura está contido em
uma casca que permite a difusão de oxigênio, ao mesmo tempo sendo suficientemente
dura para proteger o embrião de agressões ambientais. Desenvolvimento semelhante
de proteções do ovo permitiram aos artrópodes serem os primeiros invertebrados
sobre a terra. Assim, a travessia final dos limites entre água e terra ocorreu com a
modificação do estágio mais precoce do desenvolvimento – o ovo.
52.
32 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 1.30 Embrião
Diagrama do ovo amniótico do pinto, mos- Intestino
trando o desenvolvimento das membranas en-
Âmnio
volvendo o embrião. (A) Incubação de três dias.
O mesoderma extra-embrionário se estende do Cavidade
embrião para prover vasos sangüíneos para e amniótica
de várias regiões fora do embrião. (B) Incuba-
Alantóide
ção de sete dias. A origem das membranas será
detalhada no capítulo 9. A gema será finalmen- Cório
te rodeada pelo saco vitelínico que permite a
entrada de nutrientes nos vasos sangüíneos. O Gema
cório é derivado em parte do ectoderma e es-
tende-se do embrião até a casca (onde irá tro- Saco vitelino
car oxigênio e gás carbônico e obter cálcio da Alantóide
casca). O âmnio prove o meio fluido no qual
(A) (B)
cresce o embrião, e a alantóide coleta resíduos
nitrogenados que seriam perigosos para o em-
brião. Finalmente, o endoderma se transforma
no intestino e envolve a gema. A evolução do
âmnio e das outras membranas extra-embrio- A biologia do desenvolvimento proporciona um sortimento infinito de fascinantes
nárias constituiu uma grande linha divisória problemas e animais. No presente livro, encontraremos apenas uma pequeníssima
entre aqueles vertebrados cuja reprodução está amostra deles, servindo para ilustrar os princípios mais importantes do desenvolvi-
ligada à água (anamniotas) e aqueles que po- mento animal (para uma cobertura mais completa da diversidade do desenvolvimento
dem se reproduzir em áreas secas (amniotas).
animal através dos filos, veja Gilbert e Raunio,1997). Estamos apenas observando o
conjunto das marés ao nosso alcance, enquanto todo o oceano do desenvolvimento
se estende à nossa frente. Após uma breve visão dos princípios genéticos e celulares
relevantes para a biologia do desenvolvimento, investigaremos os estágios precoces
da embriogênese animal: fertilização, clivagem, gastrulação e construção do plano do
corpo vertebrado. Capítulos posteriores se concentrarão nos mecanismos genéticos e
celulares pelos quais ele é elaborado. Embora uma tentativa de cobrir as variações
importantes que ocorreram no reino animal tivesse sido feita, um certo chauvinismo
deuterostossômico pode ter ficado aparente.
LITERATURA CITADA
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34 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
discoideum is correlated with the expression of Williams, J. G. and Jermyn, K. A. 1991. Cell Williams, J. G., Duffy, K. T., Lane, D. P.,
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Dependence of cell-type proportioning and
sorting on cell cycle phase in Dictyostelium dis-
coideum. Exp. Cell Res. 70: 133-145.
55.
Genes e desenvolvimento:
Introduçãoe técnicas 2
O que gostaríamos de saber é se a estrutura
é determinada diretamente pela informação
codificada no DNA, gravada no ovo... na
extensão em que estrutura pode ser ex-
pressa por informação. JONATHAN
“E NTRE OS CARACTERES que fornecem os dados para a teoria, e os
genes postulados, aos quais os caracteres se referem, está todo o cam-
po do desenvolvimento embrionário”. Aqui Thomas Hunt Morgan (1926)
estava verificando que o único caminho de genótipo para fenótipo, passava através
de processos desenvolvimentais. No começo do século vinte, embriologia e genética
BARD (1990) não eram consideradas ciências separadas. Divergiram na década de 1920, quando
Morgan redefiniu a genética como a ciência que estuda a transmissão dos traços em
Os segredos que me enlaçam e cativam são oposição à embriologia, a ciência que estuda a expressão desses traços. Durante a
em geral segredos da hereditariedade: como última década, porém, as técnicas da biologia molecular realizaram uma reaproximação
uma semente de pêra vira uma pereira em entre embriologia e genética. Na realidade, os dois campos se ligaram novamente a tal
vez de um urso polar. CYNTHIA
ponto que se torna necessário uma discussão prévia da genética molecular neste
OZICK (1989)
texto. Questões do desenvolvimento animal que não poderiam ser consideradas há
uma década, estão sendo agora resolvidas por um conjunto de técnicas envolvendo
síntese de ácidos nucléico e hibridização. Este capítulo procura situar essas novas
técnicas dentro do contexto do diálogo, ora em curso, entre genética e embriologia.
As origens embriológicas da teoria dos genes
Núcleo ou Citoplasma: Qual Controla a Hereditariedade?
Mendel chamou-os Formbildungelementen, elementos construtores de formas; nós os
chamamos de genes. Porém, é na terminologia de Mendel que vemos como no século
dezenove os conceitos de herança e desenvolvimento estavam intimamente entrelaça-
dos. Entretanto, as observações de Mendel não indicaram onde na célula ficavam esses
elementos hereditários, nem como eram levados a se expressarem. A teoria dos genes,
que viria a ser a pedra angular da genética moderna, teve origem em uma controvérsia no
campo da embriologia. Em fins século XIX, um grupo de cientistas começou a estudar,
por seu valor intrínseco, como ovos fertilizados davam origem a organismos adultos.
Dois jovens embriologistas americanos, Edmund Beecher Wilson e Thomas Hunt Morgan
(Figura 2.1), tornaram-se parte desse grupo de “embriologistas fisiológicos”, cada um
tornando-se partidário na controvérsia sobre qual dos dois compartimentos do ovo
fertilizado - o núcleo ou o citoplasma - controla a herança.
35
56.
36 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(B)
Figura 2.1
(A) E. B. Wilson (1856-1939; mostrado aqui em
aproximadamente 1899), um embriologista cujo
trabalho, na fase precoce da embriologia e da de-
terminação sexual, muito avançou as hipóteses
cromossômicas do desenvolvimento. (Wilson era
também reconhecido como um dos melhores vio-
loncelistas amadores do país.) (B) Thomas Hunt
Morgan (1866-1945), que desenvolveu a teoria
dos genes a partir da embriologia. Essa fotografia
- tomada em 1915, quando os elementos básicos
da teoria dos genes estavam se encontrando –
mostra Morgan usando uma lente manual para
identificar moscas. (A) cortesia de W. N. Timmins;
(B) cortesia de G. Allen.)
(A)
Quando Morgan e Wilson entraram nesse debate, a disputa já estava bem ativa.
Uma escola associada a Oskar Hertwig, Wilhelm Roux e Theodor Boveri, propunha
que os cromossomos do núcleo continham os elementos construtores de formas.
Esse grupo era desafiado por Eduard Pflüger, T. L. W. Bischoff, Wilhelm His e seus
colegas, que acreditavam que estruturas pré-formadas não poderiam causar tão enor-
mes mudanças durante o desenvolvimento; ao contrário, eles acreditavam que os
padrões herdados de desenvolvimento eram causados pela criação de novas molécu-
las do gameta interativo, citoplasmas. Morgan aliou-se a esse último grupo e obteve
dados que interpretou com sendo consistentes com o modelo citoplasmático da he-
rança. Em seu experimento mais crucial, ele removeu citoplasma do récem-fertilizado
ovo ctenóforo (geléia de crista). Em 1897 Morgan relatou:
Aqui, embora todo o núcleo de segmentação esteja presente, devido à perda de
parte do citoplasma, produz-se embriões com defeito... Parece não haver escape
da conclusão que no citoplasma, e não no núcleo, está o poder de diferenciação
dos estágios precoces do desenvolvimento.
57.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 37
Wilson, nesse ínterim, tornou-se o maior proponente do ponto de vista de que os
elementos formadores se encontravam nos cromossomos nucleares. Defendeu
vigorosamente essa idéia em seu livro A Célula no Desenvolvimento e na Herança
(1896), salientando a necessidade da presença do núcleo para regeneração dos
protozoários (veja capítulo 1):
Esse fato presume que o núcleo é, se não o local da formação de energia, ao menos,
o fator controlador dessa energia e, por isso, o fator controlador da herança. Essa
conjectura transforma-se em certeza quando nos voltamos para os fatos da matu-
ração (meiose), fertilização e divisão celular. Todos convergem em direção da
conclusão de que a cromatina é o elemento essencial para o desenvolvimento.
Wilson (1895) não se esquivou das conseqüências dessa conclusão*
Agora, a cromatina é sabida ser intimamente semelhante, se não idêntica, à
substância conhecida como nucleína...que a análise demonstra ser um compos- (A)
to químico toleravelmente bem definido, composto de ácido nucléico (um com-
plexo ácido orgânico rico em fósforo) e albumina. E assim, chegamos à notável
conclusão que a herança pode, talvez, ser efetuada pela transmissão física de um
dado composto químico do progenitor para a descendência.
Wilson pensou que o material formador de órgãos que Morgan havia removido do
citoplasma de ovos de ctenóforo, já havia sido para ali secretado pelos cromossomos
nucleares (Wilson, 1894, 1904). Para Wilson (1905) “Os materiais citoplasmáticos pare-
cem ser apenas o meio imediato ou a causa eficiente da diferenciação, e ainda procu-
ramos sua determinação primária nas causas que residem mais profundamente.”
Parte do maior apoio para a hipótese cromossômica da herança estava vindo dos
estudos embriológicos de Theodor Boveri (Figura 2.2 A), um pesquisador na Estação
Biológica de Nápoles. Boveri fertilizou óvulos de ouriço-do-mar com altas concentra-
ções de seu espermatozóide e obteve ovos que haviam sido fertilizados por dois
espermatozóides. Na primeira clivagem, esses ovos formaram quatro pólos mitóticos e
dividiram o ovo em quatro, em vez de duas células (veja capítulo 4). Boveri então
separou os blastômeros e demonstrou que cada célula se desenvolvia anormalmente
e de maneiras diferentes por ter cada célula diferentes tipos de cromossomos. Assim,
Boveri declarou que cada cromossomo tinha uma natureza individual e o controle de (B)
diferentes processos vitais.
Figura 2.2
O Cromossomo X como uma Ponte Entre Genes e Desenvolvimento O caráter singular do cromossomo foi mostra-
do por Boveri e Stevens. (A) Theodor Boveri
Em adição à evidência de Boveri, E. B. Wilson (1905) e Nettie Stevens (1905a,b) de- (1862-1915) cujo trabalho Wilson (1918) co-
monstraram uma correlação crítica entre cromossomos nucleares e o desenvolvimento mentou: “conseguiu a verdadeira fusão de
organizacional. Stevens (Figura 2.2B), uma ex- estudante de Morgan, mostrou que em citologia, embriologia e genética – um feito bi-
92 espécies de insetos (e um cordato primitivo), as fêmeas tinham dois cromossomos ológico que... não fica atrás de qualquer outro
sexo-específicos em cada núcleo (XX), enquanto machos tinham somente um cromos- de nosso tempo.” Fotografia tirada em 1908,
somo X (XY ou XO). Parecia que uma estrutura nuclear, o cromossomo X, estava quando os estudos cromossômicos e embrio-
controlando o desenvolvimento sexual** . Morgan discordou da interpretação de que lógicos de Boveri estavam no seu apogeu. (B)
Nettie M. Stevens (1861-1912), que treinou
tanto com Boveri como com Morgan, vista
*Note-se que Wilson está escrevendo sobre unidades construtoras de forma na cromatina aqui em 1904 quando era estudante de pós-
em 1896 – antes da redescoberta do trabalhos de Mendel ou do estabelecimento da teoria dos doutorado, realizando a pesquisa que correla-
genes. Para uma análise mais detalhada das interações entre Morgan e Wilson que levaram à cionou o número de cromossomos X com o
teoria dos genes, veja Gilbert (1978, 1987) e Allen (1986). desenvolvimento sexual. [(A) cortesia de
**
Baltzer, 1967; (B) cortesia do Instituto
Wilson era um dos amigos mais íntimos de Morgan, que considerava Stevens sua melhor
estudante de pós-graduação. Ambos estavam contra Morgan nessa questão. Mesmo assim,
Carnegie de Washington.]
Morgan apoiou inteiramente o pedido de Stevens para fundos de pesquisa, confirmando suas
qualidades como as melhores possíveis. Wilson escreveu uma elogiosa carta de recomendação,
apesar de saber que ela seria uma rival na pesquisa (veja Brush, 1978).
58.
38 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
os cromossomos determinavam o sexo. Ao contrário, ele considerou o conjunto de
cromossomos como uma característica sexual secundária, controlada por alguma subs-
tância citoplasmática determinadora do sexo.
A “conversão” de Morgan para a hipótese cromossômica ocorreu depois de
obter dados contrários às suas teorias (veja Allen, 1978; Gilbert, 1978; Lederman,
1989). Enquanto criava Drosophila para uma série de experimentos sobre evolu-
ção, Morgan começou a obter várias mutações correlacionadas com o sexo. (Como
ele logo iria mostrar, mutações ligadas ao X apareciam antes de mutações em
outros cromossomos, porque defeitos no cromossomo X não são mascarados
pelo cromossomo homólogo no macho.) Em 1910, Morgan mostrou que os traços
para ambos sexos e cor branca dos olhos estão correlacionados de alguma manei-
ra com a presença de um dado cromossomo X; entretanto, evitou considerá-los
ligados fisicamente. Porém, em 1911mostrou que fatores reguladores da cor dos
olhos, cor do corpo, forma das asas e sexo segregavam-se juntos com o cro-
mossomo X, o que o levou a começar a visualizar os genes como fisicamente
ligados um ao outro no cromossomo. O embriologista Morgan tinha demonstra-
do que cromossomos nucleares eram responsáveis pelo desenvolvimento de
caracteres herdados. [gene1.html]
A cisão entre a embriologia e a genética
A evidência de Morgan proporcionou uma base material para o conceito do gene. A
genética havia sido, em geral, uma ciência empírica sobre procriação de animais e
plantas; Morgan deu-lhe um fundamento científico. Movida pelo desejo de progre-
dir no conhecimento da reprodução de animais e plantas (e seres humanos), e na
capacidade dos geneticistas de obter rapidamente resultados concretos e matemati-
camente verificáveis, a genética logo se tornou a ciência biológica predominante
nos Estados Unidos (veja Allen, 1986; Sapp, 1987; Paul e Kimmelman, 1988). Na
década de 1930, tornou-se disciplina autônoma, desenvolvendo seu vocabulário
próprio, revistas, sociedades, organismos favorecidos, professorados e regras de
evidência. Hostilidade entre embriologia e genética também emergiu. Os geneticis-
tas acreditavam que os embriologistas eram antiquados e que o desenvolvimento
viria a ser inteiramente explicado como o resultado da expressão gênica. Conforme
proclamado por Richard Goldschmidt (1938), “O desenvolvimento, obviamente, é a
produção ordenada de um padrão e assim, em última análise, os genes controlam o
padrão”. Se os embriologistas não olharem para a embriogênese em termos da ativi-
dade dos genes, os geneticistas o farão.
Reciprocamente, os embriologistas consideraram os geneticistas como irrelevantes
e mal-informados. Embriologistas como Frank Lillie (1927), Ross Granville Harrison
(1937), Hans Spemann (1938) e Ernest E. Just (1939) (Figura 2.3), argumentaram que
não poderia haver uma teoria genética do desenvolvimento até que ao menos três
principais desafios fossem resolvidos:
1. Os geneticistas teriam que explicar como cromossomos – que eram considera-
dos idênticos em cada célula do organismo – direcionam tipos diferentes e
variáveis de citoplasmas celulares.
2. Quase todos genes conhecidos na época afetavam a modelagem das etapas
finais (cor dos olhos, forma das cerdas, vascularização alar). Os geneticistas
teriam que produzir evidência que os genes controlam os estágios precoces da
embriogênese. Conforme enunciado por Just (citado por Harrison, 1937), os
embriologistas estavam interessados em saber como uma mosca forma o seu
dorso e não no número de cerdas no seu dorso.
3. Os geneticistas teriam que explicar fenômenos como a determinação do sexo
em certos invertebrados (e vertebrados, como répteis), nos quais o ambiente
determina o fenótipo sexual.
59.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 39
(A) (B)
Figura 2.3 (C)
Embriologistas tentaram impedir a genética de “conquistar” seu território na década de 1930.
(A) Frank Lillie encabeçou o Laboratório de Biologia Marinha em Woods Hole e foi um líder na
pesquisa sobre fertilização e endocrinologia reprodutiva. (B) Hans Spemann (à esquerda) e
Ross Harrison (à direita) aperfeiçoaram operações de transplante para descobrir quando eram
determinados os eixos do corpo e dos membros. Argumentaram que os geneticistas não possu-
íam um mecanismo para explicar como os mesmos genes nucleares podiam criar tipos celulares
diferentes durante o desenvolvimento. (C) Ernest E. Just fez descobertas cruciais sobre fertili-
zação. Rejeitou a genética e enfatizou o papel da membrana celular na determinação dos destinos
das células. (A cortesia de V. Hamburger; B cortesia de T. Horder; C cortesia do Laboratório de
Biologia Marinha, Woods Hole.)
O debate tornou-se deveras veemente. Numa retórica, refletindo as ansiedades
políticas do fim da década de 1930, Harrison (1937) alertou:
Agora que a necessidade de relacionar os dados da genética com a embriologia
está sendo usualmente reconhecida e a sede de conhecimento dos geneticistas
começa a impeli-los em nossa direção, não pareceria impróprio apontar para
um perigo dessa ameaçada invasão. O prestígio do sucesso desfrutado pela
teoria dos genes poderia facilmente tornar-se um obstáculo para a compreensão
do desenvolvimento, por dirigir nossa atenção exclusivamente para o genoma,
enquanto movimentos celulares, diferenciação e todos os processos desenvolvi-
mentais são de fato realizados pelo citoplasma. Já temos teorias que referem os
processos do desenvolvimento à ação dos genes e consideram toda performance
como nada mais que a consecução dos potenciais dos genes. Tais teorias são
totais e demasiadamente unilaterais.
Até que os geneticistas puderam demonstrar a existência de variantes herdadas du-
rante a fase precoce do desenvolvimento e até que os geneticistas tiveram uma bem-
documentada teoria sobre como os mesmos cromossomos podiam produzir diferentes
tipos de células, os embriologistas em geral não sentiram a necessidade de basear sua
embriologia na ação dos genes. [gene2.html]
Primeiras tentativas da genética do desenvolvimento
Porém, alguns cientistas acharam que nem a embriologia nem a genética estavam
completas uma sem a outra. Várias tentativas foram feitas para sintetizar as duas
disciplinas, mas sua primeira integração bem-sucedida veio no fim da década de
60.
40 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
1930, por parte de dois embriologistas, Salome Gluecksohn-Schoenheimer (agora
S. Gluecksohn Waelsch) e Conrad Hal Waddington. Ambos haviam sido treinados
em embriologia na Europa e tinham aprendido genética nos Estados Unidos com
estudantes de Morgan. Gluecksohn-Schoenheimer e Waddington, tentaram achar
mutações que afetassem o desenvolvimento precoce e processos afetados por es-
ses genes. Gluecksohn-Schoenheimer (1938, 1940) mostrou que mutações nos genes
de Brachyury do camundongo, causavam desenvolvimento aberrante da porção
posterior do embrião, e atribuiu os efeitos desses genes mutantes a defeitos no
mesoderma axial que normalmente teriam ajudado a induzir o eixo dorsal.* Além
disso, Gluecksohn-Schoenheimer (1938) considerou que no trabalho com camun-
dongos não era possível fazer o que os embriologistas experimentais deveriam estar
fazendo - alterando a estrutura durante seu desenvolvimento e observando quais
eram as conseqüências dessa operação. Em vez disso, um novo tipo de cientista era
necessário, o geneticista do desenvolvimento:
Enquanto o embriologista experimental desenvolve um dado experimento e em
seguida estuda seus resultados, o geneticista do desenvolvimento tem que estu-
dar primeiro o desenrolar do desenvolvimento (isto é, os resultados da pertur-
bação do desenvolvimento) para depois, às vezes, chegar a conclusões sobre a
natureza do “experimento” realizado pelo gene.
Ao mesmo tempo, Waddington (1939) isolava diversos genes que causavam mal-
formações alares na mosca das frutas, Drosophila. Também analisava como esses
genes podiam afetar os primórdios que dão origem a essas estruturas. A asa da Droso-
phila, conforme proclamou corretamente, “parecia favorável para pesquisas sobre a
ação desenvolvimental dos genes”. Assim, uma das principais objeções ao modelo
genético do desenvolvimento levantadas pelos embriologistas - que os genes atuam
somente sobre a modelagem final do embrião e não sobre seus principais esquemas de
construção – foi contrariada. [gene3.html]
Evidência para a equivalência genômica
Ainda permanecia uma outra grande objeção para uma embriologia baseada na genéti-
ca: Como poderiam genes nucleares dirigir o desenvolvimento se os genes eram os
mesmos em cada tipo celular? Essa equivalência genômica não estava provada mas
era assumida (porque cada célula é o descendente mitótico do ovo fertilizado) e um
dos primeiros problemas da genética do desenvolvimento era o de determinar se cada
célula de um organismo tinha o mesmo genoma que outra.
Metaplasia
A primeira evidência para equivalência genômica veio após a 2a Guerra Mundial, por
parte de embriologistas que estavam estudando a regeneração de tecidos excisados.
O estudo da regeneração do olho da salamandra demonstrou que mesmo células
adultas diferenciadas podem reter o seu potencial de produzir outros tipos celulares.
Portanto, os genes para os produtos desses outros tipos de células devem ainda estar
presentes, embora normalmente não expressos. Na salamandra, a remoção da retina
*As observações de Gluecksohn-Schoenheimer levaram 60 anos para ser confirmadas através
da hibridização do DNA. No entanto, quando o gene do T-locus foi clonado e sua expressão
detectada pela técnica da hibridização in situ (discutida mais adiante neste capítulo), Wilkinson e
colaboradores (1990) acharam que “a expressão do gene T tem um papel direto nos eventos
precoces da formação do mesoderma e na morfogênese da notocorda”. Embora uma história
completa do desenvolvimento precoce da genética do desenvolvimento ainda permaneça por ser
escrita, mais informações sobre suas turbulentas origens podem ser encontradas em Oppenheimer,
1981; Sander, 1986; Gilbert, 1988, 1991, 1996; Burian et al., 1991; Harwood, 1993; Keller, 1995;
e Morange, 1996.
61.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 41
neural promove sua regeneração a partir da retina pigmentada, e uma nova lente pode
ser formada a partir das células da íris dorsal. A regeneração do tecido lenticular da íris
(a assim chamada regeneração Wolffiana a partir da pessoa que primeiro a observou
em 1894) foi intensamente estudada. Yamada e seus colegas (Yamada, 1966, Dumont e
Yamada, 1972) acharam que após a remoção de uma lente, uma série de acontecimentos
leva à produção de uma nova lente a partir da íris (Figura 2.4). Os núcleos do lado
dorsal da íris começam a sintetizar quantidades enormes de ribossomos, seu DNA se
replica, e divisões mitóticas se sucedem. As células da íris pigmentada começam, em
seguida, a se desdiferenciar expelindo seus melanossomos (os grânulos pigmentados
que dão ao olho a sua cor; esses melanossomos são ingeridos por macrófagos que
entram no local da ferida). A íris dorsal continua a se dividir, formando um globo de
tecido desdiferenciado na região da lente removida. Essas células começam então a
sintetizar os produtos diferenciados de células lenticulares, as proteínas do cristali-
no. Essas proteínas são fabricadas na mesma ordem que no desenvolvimento normal
da lente. Uma vez formada uma nova lente, as células do lado dorsal da íris cessam sua
atividade mitótica.
Esses eventos não são a via normal pela qual a lente dos vertebrados é formada.
Como será visto em detalhe mais tarde, a lente normalmente se desenvolve a partir de
uma camada de células epiteliais da cabeça, induzida pelas células retinais precursoras
subjacentes. A formação da lente por células diferenciadas da íris representa metaplasia
(ou transdiferenciação), a transformação de um tipo celular diferenciado em outro
(Okada, 1991). A íris da salamandra, portanto, não havia perdido gene algum daqueles
usados na diferenciação das células da lente.
Retina Retina
pigmentada neural
Íris dorsal
Figura 2.4
Lente Regeneração Wolffiana da lente da salamandra
a partir da margem dorsal da íris. (A) Olho
normal, não-operado no estágio larval da sala-
Íris mandra Notophtalmus viridiscens. (B-G) Re-
ventral generação da lente, vista respectivamente nos
dias 5, 7, 9, 16, 18 e 30. A nova lente estará
completa no dia 30. (de Reyer, 1954, cortesia
de R. W. Reyer.)
(A) (B) (C)
(D) (E) (F) (G)
62.
42 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Clonagem de Anfíbios: A Restrição da Potência Nuclear
O teste definitivo sobre se, ou não, o núcleo de uma célula diferenciada sofreu qual-
quer restrição funcional irreversível, seria o de conseguir que esse núcleo gerasse
todo outro tipo de célula diferenciada no organismo. Se cada núcleo fosse idêntico ao
núcleo do zigoto, o núcleo de cada célula deveria ser capaz de direcionar todo o
desenvolvimento do organismo, quando transplantado para um ovo ativado enucleado.
Porém, antes que tal experimento pudesse ser feito, três técnicas tiveram que ser
aperfeiçoadas: (1) um método para enuclear ovos do hospedeiro sem destruí-los; (2)
um método para isolar núcleos doadores intactos; (3) um método para transferir tais
núcleos para dentro do ovo sem danificar o núcleo ou o oócito.
Essas técnicas foram desenvolvidas na década de 1950, em primeiro lugar por
Robert Briggs e Thomas King que combinaram a enucleação com a ativação do ovo.
Quando um oócito de rã-leopardo (Rana pipiens) é perfurado com uma agulha limpa
de vidro, o ovo sofre todas as mudanças citológicas e bioquímicas associadas à
fertilização. Ocorre rearranjo citoplasmático interno e a finalização da meiose perto
do pólo animal da célula. Esse fuso meiótico pode ser facilmente localizado quando
empurra os grânulos pigmentados do pólo animal; a punção do oócito nesse local
induz o fuso e seus cromossomos a fluir para fora do ovo (Figura 2.5). O ovo hospe-
deiro é agora considerado estar ativado (as reações de fertilização necessárias para
iniciar o desenvolvimento foram completadas) e enucleado. A passagem de um nú-
cleo para o ovo é conseguida pela ruptura de uma célula doadora e transferência do
núcleo liberado para o oócito por meio de uma micropipeta. Algum citoplasma acom-
panha o núcleo para seu novo lar, mas a razão do citoplasma doador para o receptor
é somente de 1:105, e o citoplasma do doador não parece afetar o resultado dos
experimentos. Em 1952, Briggs e King demonstraram que núcleos da célula da blás-
tula podiam direcionar o desenvolvimento de girinos completos quando transferi-
dos para o citoplasma do oócito.
O que acontece quando núcleos de estágios mais avançados são transferidos
para oócitos ativados e enucleados? Os resultados de King e Briggs (1956) estão
delineados na Figura 2.6. Enquanto a maioria dos núcleos da blástula podiam produzir
girinos completos, houve um dramático decréscimo da capacidade dos núcleos deri-
vados de estágios mais tardios direcionar o desenvolvimento direto até o estágio de
Pólo animal Fuso
Agulha de vidro meiótico isolado
Micropipeta
Fuso Grânulos Remoção dos cromossomos Ovo ativado Extração e lise da Núcleo doador
meiótico pigmentados e do fuso da célula enucleado célula doadora inserido na célula
enucleada
Figura 2.5
Procedimento para o transplante de núcleos da Membrana
blástula para ovos ativados enucleados de Rana cicatriza
pipiens. As dimensões relativas do fuso meiótico
foram exageradas para demonstrar a técnica. A
bela R. pipiens na fotografia foi derivada dessa
maneira. (Segundo King, 1966; fotografia corte-
sia de M. DiBerardino e N. Hoffner.)
63.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 43
Estágio desenvolvimental dos embriões e girinos Figura 2.6
dos quais foram retirados os núcleos Gráfico de transplantes nucleares bem sucedidos, em fun-
a l
ud
ção da idade do desenvolvimento nuclear. A abscissa repre-
ca co senta o estágio no qual o núcleo doador (de R. pipiens) foi
e o to ía
a oc a br m ard isolado e inserido no oócito ativado e enucleado. A ordena-
nucleares que se desenvolvem normalmente
r di ec r di co c
pr om o s n t o
Porcentagem de embriões de transplantes
ta ta c da mostra a porcentagem desses transplantes capazes de
a a a la n e
st ul tr ul tr ul ru os iri m produzir blástulas que podiam em seguida direcionar o de-
á ás ás êu ir in G ati
Bl G G N G b senvolvimento para o estágio do girino nadador (Segundo
McKinnell, 1978.)
Girinos (Rana pipiens)
nadando normalmente
Horas a 18oC
girino. Quando núcleos de células somáticas de girinos no estágio de broto caudal
foram usados como doadores, não ocorreu desenvolvimento normal. Porém, núcle-
os de células germinativas de girinos do estágio de broto caudal (que irão finalmen-
te dar origem a um organismo completo após a fertilização), foram capazes de
direcionar desenvolvimento completo em 40 porcento das blástulas que se desen-
volveram (Smith, 1956). Assim, células somáticas parecem perder sua capacidade de
direcionar desenvolvimento completo à medida que se tornam definidas e diferenci-
adas, e a progressiva restrição da potência nuclear durante o desenvolvimento
parece ser uma regra geral. Porém, é possível que alguns núcleos celulares diferen-
ciados sejam diferentes de outros.
Clonagem de Anfíbios: A Pluripotência de Células Somáticas
John Gurdon e seus colegas, usando métodos ligeiramente diferentes de transplante
nuclear na rã Xenopus, obtiveram resultados sugerindo que os núcleos de algumas
células diferenciadas podem permanecer totipotentes. Gurdon também achou uma
progressiva perda de potência no decorrer do desenvolvimento, embora células de
Xenopus tenham retido suas potências por um período de desenvolvimento mais
longo (Prancha 1). As exceções a essa regra mostraram ser muito interessantes. Gurdon
havia transferido núcleos do endoderma intestinal de girinos Xenopus que se alimen-
tavam, para ovos ativados enucleados. Esses núcleos doadores continham um
marcador genético (um nucléolo por célula, em lugar dos dois usuais), que os distin-
guia dos núcleos do hospedeiro. Entre 276 núcleos transferidos, somente 10 (1.4
porcento) promoveram o desenvolvimento até o estágio do girino que se alimentava.
Transplantes seriados (que requeriam colocar um núcleo intestinal em um ovo e quan-
do o ovo tinha se transformado em blástula, transferia-se o núcleo da blástula para
vários outros ovos), aumentavam o rendimento para 7 porcento (Gurdon, 1962). Em
alguns casos, núcleos das células intestinais dos girinos foram capazes de gerar todas
linhagens de células – neurônios, células do sangue, nervos e assim por diante – de
um girino vivente. Além disso, sete desses girinos (de dois núcleos originais) se
metamorfosearam em rãs adultas férteis (Gurdon e Uehlinger, 1966); esses núcleos
eram totipotentes (Figura 2.7).
King e seus colegas criticaram esses experimentos assinalando que: (1) não havi-
am sido tomadas suficientes precauções para ter certeza que células germinativas
primordiais, que podem migrar até o intestino, não foram usadas como fontes de
núcleos, e (2) as células intestinais de um girino tão jovem poderiam não se qualificarem
64.
44 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 2.7 EXPERIMENTO
Procedimento empregado para obter rãs ma- Ovo não-fertilizado Girino
duras de núcleos intestinais de girinos de Xe- (cepa 2 – nu) (cepa 1 – nu)
nopus. O ovo de tipo selvagem (2 nucléolos
por núcleo; 2-nu) é irradiado para destruir os
cromossomos maternos, e um núcleo intesti-
nal de um girino marcado (1-nu) é inserido. Em
alguns casos não ocorre divisão; em alguns ca- Núcleo intestinal
Irradiação UV destrói epitelial é inserido
sos o desenvolvimento do embrião é sustado;
comossomos do ovo no ovo irradiado
porém, em outros casos, uma rã inteiramente
nova é formada tendo um genótipo 1-nu. (Se-
gundo Gurdon, 1968, 1977.) Micropipeta
Ovo receptor Núcleo intestinal
irradiado
RESULTADOS
Blástula Blástula Blástula Sem divisão
Girino Girino
(morre)
Embrião
anormal
Rã adulta
(Cepa 1 – nu)
como um tipo de célula verdadeiramente diferenciada porque células de girinos que se
alimentam ainda contêm plaquetas de gema (DiBerardino e King, 1967; McKinnell,
1978; Briggs, 1979). Para responder a essas críticas, Gurdon e seus colegas cultivaram
células epiteliais da membrana natatória de rãs adultas. Essas células mostraram estar
diferenciadas; cada uma continha queratina, a proteína característica de células adul-
tas da pele. Quando núcleos dessas células foram transferidos para oócitos ativados
e enucleados de Xenopus, nenhum dos transferidos de primeira geração progrediu
além da formação do tubo neural, pouco após a gastrulação. Por transplantes seria-
dos, porém, numerosos girinos foram gerados (Gurdon et al., 1975). Embora esses
girinos tivessem morrido antes de atingir o estado alimentar, um único núcleo celular
diferenciado ainda retinha potências incríveis. Um único núcleo derivado de uma
hemácia de uma rã adulta (que nem se replica e nem sintetiza RNA) pode sofrer mais de
100 divisões após ser transplantado para um oócito ativado e, ainda, reter a habilidade
65.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 45
de gerar girinos natatórios (Orr et al., 1986; DiBerardino, 1989). Embora DiBerardino
(1987) tenha observado que “até o presente, núcleo algum de uma célula
documentadamente especializada, nem de uma célula adulta tenha mostrado ser
totipotente”, tal núcleo pode no entanto instruir a formação de todos os órgãos do
girino natatório.
Algumas das diferenças entre os resultados dos laboratórios de Briggs e de Gurdon,
podem envolver diferenças na fisiologia do desenvolvimento das rãs Rana e Xenopus.
Quando se transfere um núcleo de uma célula diferenciada para o citoplasma do oócito,
se está pedindo ao núcleo para reverter para condições fisiológicas às quais ele não
está acostumado. Os núcleos da clivagem das rãs dividem-se rapidamente, enquanto
alguns núcleos de células diferenciadas dividem-se raramente, se tanto. Falhas em
replicar DNA rapidamente podem levar a quebras cromossômicas: tais anormalidades
foram vistas em muitas células de girinos clonados. Sally Hennen (1970) mostrou que
o sucesso desenvolvimental de núcleos doadores pode ser ampliado tratando-se
esses núcleos com espermina e resfriando os ovos para dar tempo ao núcleo de se
adaptar ao citoplasma do ovo. Acredita-se que a espermina remova histonas da
cromatina podendo “re-acertar” a atividade dos núcleos. Quando núcleos do endoderma
de girinos de Rana pipiens, no estágio de broto caudal, foram tratados dessa maneira,
62 porcento daqueles núcleos que iniciaram desenvolvimento normal, prosseguiram
até a geração de girinos normais. Em animais controle, nenhum dos núcleos conse-
guiu gerar tais girinos. Assim, os genes para o desenvolvimento do girino completo
não pareceram ter sido perdidos pelas células do endoderma.
Podemos olhar para esses experimentos de clonagem de anfíbios de duas manei-
ras. Primeiro, reconhecer uma restrição geral de potência concomitante ao desenvolvi-
mento. Segundo, facilmente ver que o genoma da célula diferenciada é notavelmente
potente em sua habilidade de produzir todos os tipos celulares do girino anfíbio. Em
outras palavras, mesmo existindo um debate sobre a totipotência de tais núcleos,
existe pouca dúvida de que eles são extremamente pluripotentes. Certamente, muitos
genes não usados na pele ou em células sangüíneas, podem ser reativados para
produzir os nervos, o estômago, ou o coração de um girino natatório. Assim, cada
núcleo no corpo contém a maioria (se não todos) dos mesmos genes.
Informações adicionais
& Especulações
Clonando Mamíferos por Prazer e Lucro
C LONAR SERES HUMANOS a
partir de células previamente di-
ferenciadas parece ser o objeti-
vo de editores de jornais e novelistas.
dessem ser geradas de núcleos diferencia-
dos, essa habilidade não poderia ser
extrapolada para células humanas. Além
das dificuldades éticas e técnicas do tra-
1983). Esses zigotos reconstruídos come-
çam a se dividir e são então implantados
no útero. Os camundongos resultantes exi-
bem o fenótipo do núcleo doador. Enquan-
Deve ter ficado óbvio da discussão pre- balho com o organismo humano, o cito- to mais de 90 porcento dos zigotos enucle-
cedente que clonar um indivíduo total- plasma do oócito humano pode não res- ados do camundongo, recebendo pronú-
mente desenvolvido, a partir de células ponder a sinais emitidos por um núcleo de cleos de outros zigotos, se desenvolvem
diferenciadas, é uma formidável tarefa. uma célula em estágio avançado. Trans- até o blastócito (blástula), nem um único
Mesmo em anfíbios, os núcleos das célu- plante nuclear foi conseguido em camun- embrião (de 81), desenvolveu-se até esse
las diferenciadas não foram capazes de dongos, pela remoção de pronúcleos estágio quando núcleos de embriões de 4
gerar animais adultos quando colocados (haplóides) de espermatozóide e óvulo de células foram transferidos para zigotos
em células ativadas e enucleadas. um zigoto, e substituição por pronúcleos enucleados (McGrath e Solter, 1984). Simi-
Além disso, mesmo se rãs adultas pu- de outro (Figura 2.8; McGrath e Solter, larmente, núcleos de embriões de 8 células
66.
46 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(A) (C) po de ativação e implantação uterina. Usan-
do modificações técnicas, Willadsen (1986)
produziu carneiros de termo completo a
partir de núcleos transplantados de blas-
tômeros do estágio de 8 células; núcleos
de embriões pré-implantados de gado, por-
cos e coelhos foram capazes de direcionar
o desenvolvimento completo quando
(B) (D) transplantados para oócitos ativados e
enucleados (Prather et al., 1987; Stice e
Robl, 1988; Prather et al., 1989; Willadsen,
1989). Porém, em todos esses casos, os nú-
cleos vieram de embriões pré-implantados.
Recentemente, Wilmut e colaboradores
(1997) mostraram que é possível clonar um
carneiro a partir de um núcleo de célula de
glândula mamária adulta. Esse resultado
Figura 2.8 Procedimento para transferir núcleos para o ovo ativado enucleado de mamifero.
Um embrião de célula única, incubado em colcemida e citocalasina para relaxar o citoesquele- poderá ter importantes conseqüências agrí-
to, é seguro com uma pipeta de sucção. Os núcleos haplóides derivados do espermatozóide e colas e legais (Prather, 1991). [gene4.html]
do óvulo, não se juntaram ainda. A pipeta de enucleação perfura a zona pelúcida (a proteína
que envolve o ovo) e aspira a membrana celular adjacente e a área da célula contendo os Clonagem de Plantas
pronúcleos. (A) A pipeta de enucleação é retirada e o citoplasma contendo os pronúcleos é Somente nas plantas os núcleos de célu-
removido do ovo. A membrana celular não está rompida; a continuidade do citoplasma limita- las diferenciadas de organismos adultos
do pela membrana está indicada pela flexa. (B) A membrana celular forma uma vesícula ao podem ser facilmente vistos como capa-
redor dos pronúcleos no interior da pipeta de enucleação. (C) Essa vesícula é misturada com zes de direcionar o desenvolvimento de
vírus Sendai (que induz a fusão de membranas nucleares) e é inserida no espaço entre a zona outro organismo adulto. Essa habilidade
pelúcida e o outro ovo enucleado. (D) O vírus Sendai proporciona a fusão do ovo enucleado foi dramaticamente demonstrada em célu-
e os pronúcleos envoltos pela membrana, permitindo que os pronúcleos (flexa) penetrem na las de cenouras ou tabaco. Em 1958, F. C.
célula. (Segundo McGrath e Solter, 1983; cortesia dos autores.) Steward e seus colegas estabeleceram um
processo pelo qual os tecidos diferencia-
e massa celular interna (os blastômeros que (cujas células são totipotentes) não dão dos de raízes de cenouras podiam dar ori-
formam o embrião, mas não a placenta*) suporte para o desenvolvimento total. Tais gem a toda uma nova planta (Figura 2.9).
também não puderam apoiar o desenvolvi- experimentos provavelmente fracassam Pequenos pedaços de floema são isola-
mento. Em contraste com núcleos de ouri- porque núcleos de blastômeros não funci- dos da cenoura e rodados em grandes
ços-do-mar ou anfíbios, os núcleos dos onam de maneira normal no citoplasma frascos contendo leite de coco. Esse flui-
blastômeros precoces do camundongo zigótico. Por isso, a clonagem de Elvis do (é realmente o endosperma da semen-
Presley a partir de células diferenciadas não te do coco) contém os fatores e nutrien-
*Cada blastômero da massa celular interna
é algo com que possamos contar. tes necessários para o crescimento da
é totipotente no sentido de reter sua capacida-
de de formar células de qualquer tipo no orga- Nem todos blastômeros mamíferos planta e os hormônios exigidos para a
nismo. Essa capacidade permite o aparecimen- são os mesmos, todavia, as espécies diferenciação. Sob essas condições, os
to de gêmeos. mamíferas diferem muito em termos de tem- tecidos proliferam e formam uma massa
Figura 2.9
Experimento de Steward demonstrando a
totipotência de células do floema da cenoura.
Células livre do calo
continuam a se desenvolver
em suspensão
Floema
de raiz
Corte Planta
Planta de Proliferação de
transversal jovem
cenoura massa celular
da raiz
madura (calo) em meio Planta embrionária
de cultura de transferida para meio Planta de cenoura
leite de coco de cultura de agar madura no agar
67.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 47
desorganizada chamada calo. A continu- de cenoura completa e fértil (Steward et são destacadas como uma linhagem dis-
ação da rotação leva ao desbastamento al., 1964; Steward, 1970). tinta de células no início do desenvol-
de células individuais do calo para o meio Porém, plantas e animais se desen- vimento), as plantas normalmente deri-
de suspensão. Essas células dão origem volvem de maneira diferente; a propa- vam seus gametas de células somáticas.
a nódulos celulares semelhantes a raízes gação vegetativa de plantas por corte Portanto, não é tão surpreendente que
que continuam a crescer enquanto per- (i.e, porções de plantas que quando nu- uma única célula de uma planta possa
manecem em suspensão. A partir desses tridas, regeneram as partes faltantes) é se diferenciar em outros tipos de célu-
nódulos, colocados em um meio solidifi- uma prática agrícola comum. Além dis- las e formar um clone geneticamente
cado com agar, o resto da planta é capaz so, em contraste com anfíbios e mamífe- idêntico (clone, do grego klon, signifi-
de se desenvolver, formando uma planta ros (nos quais as células germinativas cando “ramo”).
Sobre E. coli e elefantes: O modelo operon
Na maioria dos casos estudados, o genoma é o mesmo de célula para célula no orga-
nismo. Os genes para a proteína globina podem ser encontrados em células da pele, e
os genes para as queratinas da pele podem ser encontrados em neurônios cerebrais.
Porém, isso ainda deixa sem resposta outra grande questão levantada pelos
embriologistas: Se o núcleo de cada célula no organismo tem os mesmos genes, como
podem esses genes fazer com que essas células se tornem diferentes? *Pouco tempo
após a 2a Guerra Mundial, muitos biologistas concordaram que:
a maior lacuna, ainda para ser preenchida, entre dois campos da pesquisa em
biologia é provavelmente aquela entre a genética e a embriologia. É o problema
repetidas vezes declarado, porém, até agora não resolvido, de como células com
genomas idênticos podem se tornar diferenciadas, adquirir a propriedade de
confeccionar moléculas com novos, ou no mínimo, diferentes padrões ou confi-
gurações específicos.
Curiosamente, essa citação vem de Jacques Monod (1947), um geneticista
microbiano trabalhando na síntese de enzimas adaptativas, que são proteínas que
embora não sejam usualmente sintetizadas por bactérias ou levedos, serão sinte-
tizadas se os microorganismos encontrarem um novo substrato. Por exemplo, a
bactéria Escherichia coli só sintetiza β-galactosidase e outras enzimas digestoras
de lactose, quando encontram a lactose. Se a lactose está ausente do citoplasma,
essas enzimas não são sintetizadas. Mas, com a introdução de lactose no citoplasma,
esse grupo de novas enzimas aparecem. Em micróbios, ao menos, o mesmo genoma
pode produzir dois estados citoplasmáticos funcionalmente diferentes, depen-
dendo da presença ou não de determinado composto (no caso, a lactose). Monod
lançou a hipótese que o fenômeno da adaptação enzimática podia oferecer a solu-
ção para o problema de como genomas idênticos podem sintetizar diferentes mo-
léculas “específicas”.
*A grande exceção a essa regra da constância dos genes – os genes das imunoglobulinas – é
discutida no Capítulo 10. Cada célula tem todas as subunidades gênicas das imunoglobulinas, mas em
linfócitos, algumas dessas subunidades estão rearranjadas ou mesmo suprimidas do genoma. O
terceiro desafio - a explicação de como o ambiente pode direcionar o desenvolvimento – foi
prontamente compreendida, uma vez que a explicação geral para a expressão diferencial da expres-
são gênica foi estabelecida. Conforme veremos, o modelo do operon demonstrou como uma
substância do ambiente podia efetuar a expresão gênica diferenciada.
68.
48 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Monod não foi o único cientista a achar que micróbios unicelulares poderiam
explicar a diferenciação multicelular. O microbiologista Sol Spiegelman (1947) declarou
que a embriologia estava sendo prejudicada por sua própria terminologia. O problema
da diferenciação não podia mais ser visto como uma propriedade estrutural dos teci-
dos, mas passar a ser considerado uma propriedade bioquímica de células individuais.
A diferenciação deveria ser vista não em termos anatômicos, mas como “produção
controlada de padrões enzimáticos únicos”. Essa redefinição focaliza a atenção para a
relação entre os genes do núcleo e as propriedades do citoplasma. Além disso, a
síntese de uma enzima adaptativa em presença do seu substrato deveria ser discutida
como uma “indução”. Esse é o termo técnico usado em embriologia para descrever a
habilidade de uma célula produzir uma substância capaz de influenciar a diferenciação
de outra. O agente molecular responsável deveria ser chamado “o indutor”. Spiegelman
via uma semelhança fundamental entre a indução de novos tipos celulares no embrião
e a indução de novas enzimas em microorganismos. [gene5.html]
No fim da década de 1950, um grupo de pesquisadores acreditava que micróbios
eram um excelente (e facilmente estudado) modelo para diferenciação embrionária.
Muitos geneticistas microbianos explicitamente ligaram enzimas indutivas a concei-
tos embriológicos. Julgavam ser válida a extrapolação, e apelaram para a unidade da
natureza e, em última análise, as regras simples que esperavam encontrar. Como suge-
rido por Monod (veja Judson, 1979), se alguém entender a bactéria, entenderá o ele-
fante. Muitos embriologistas, porém, permaneceram cépticos a respeito da extrapolação
de bactérias a embriões, enfatizando a complexidade do desenvolvimento e a diversi-
dade da performance embriológica.
Em 1961, Jacob e Monod sintetizaram dados sobre a indução da β-galactosidase
levando à construção do modelo do operon. Esse modelo postula que a pequena
molécula do indutor causava a transcrição de diferentes genes em E. coli (Figura 2.10).
Em sistemas indutivos, uma proteína repressora codificada por genes liga-se ao sítio
operador adjacente aos genes estruturais, impedindo a ligação da RNA polimerase ao
sítio promotor que inciaria a transcrição. Estando presente, o indutor liga-se à proteína
repressora alterando sua conformação de forma a impedir a ligação ao operador. Com
isso, o gene torna-se capaz de transcrever mRNA, que pode ser traduzido formando
proteína. Dessa maneira, o mesmo genoma pode sintetizar diferentes enzimas, depen-
dendo da presença ou não do respectivo indutor. Em um importante trabalho de 1961,
Jacob e Monod enfatizaram que o mecanismo de controle do operon-símile pode ser
parte da regulação gênica universal. Eles conectaram seus resultados ao “problema
fundamental da embriologia química que é a compreensão do porquê células dos
tecidos não expressam constantemente todos os potenciais contidos em seu genoma”.
O modelo do operon foi imediatamente introduzido nos textos de embriologia por
cientistas que procuravam a síntese da genética com a embriologia. O livro de
Waddington (1962), Novos Padrões na Genética e no Desenvolvimento, começa com
um capítulo relacionando o modelo do operon de Jacob e Monod com o controle da
expressão gênica no desenvovimento dos anfíbios. Waddington aprovou especial-
mente esse modelo porque significava que os genes não são apenas ativos, mas
reativos, respondendo às mudanças no citoplasma. Waddington considerou genes e
citoplasma como mutuamente interativos. Essa perspectiva foi também salientada em
Hereditariedade e Desenvolvimento (1963), síntese de embriologia com genética por
John Moore, que conclui:
Na geração anterior, poucos embriologistas ou geneticistas teriam previsto
que a síntese dos seus campos de trabalho teria se tornado possível por estu-
dos com a bactéria Escherichia coli. No entanto, essa criatura microscópica,
sem embrião próprio, mostrou um caminho. Na próxima década, poderá ser
difícil perceber a diferença entre um geneticista e um embriologista, à medida
que eles avançam em sua ciência para além daquilo que cada um poderia ter
conseguido isoladamente.
69.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 49
(A) O operon lac Figura 2.10
Regulação diferencial de genes em E. coli. (A-C) No estado induzível de
tipo-selvagem, não há transcrição de RNA de β-galactosidase a não ser
que a lactose esteja presente. (B) Quando a lactose não está disponível,
uma proteína repressora produzida pelo gene i liga-se ao sítio repressor
Gene indutor Promotor Genes estruturais
para utilização
(o), inibindo a transcrição pela RNA polimerase do promotor (p). (C)
Operador
da lactose Quando o indutor lactose está presente, combina com a proteína repres-
sora, alterando sua forma, o que faz com que a proteína não possa mais
(B) Quando não há lactose disponível se ligar ao DNA operador , fazendo começar a transcrição. (D) A solubi-
Genes estruturais lidade dessa proteína é demonstrada em estudos com o mutante de E.
coli. Quando células bacterianas haplóides com um gene indutor não-
funcional (i-) são tornadas parcialmente diplóides com o gene tipo-
selvagem (i+), forma-se repressor tipo-selvagem capaz de tornar indutível
Não há transcrição o gene original da β-galactosidase.
Proteína repressora de genes estruturais
produzidas por
i liga-se a o
(C ) Quando a lactose está disponível
Genes estruturais
Lactose
RNA
mRNA polimerase
β-galactosidase
mRNA é transcrito
Lactose combinando
com o repressor,
previne ligação a o
(D) O repressor da lactose é solúvel
Genes estruturais
O gene i do tipo selvagem pode produzir
repressor para ambos cromossomos que se
ligam a o na ausência de lactose
Genes estruturais
Síntese diferencial de RNA
A desejada unificação não ocorreu tão rapidamente como esperado por Moore. Po-
rém, baseado na evidência embriológica a favor da equivalência genômica e do mode-
lo do operon de E. coli, emergiu na década de 1960 um consenso de que as células
regulam seu desenvolvimento através da expressão gênica diferencial. Como bactéri-
as eram os modelos para tal atividade, expressão em geral significava transcrição de
mRNA. Os três postulados da expressão gênica diferencial eram os seguintes:
70.
50 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
1. Cada núcleo celular contém o genoma completo estabelecido no ovo fertiliza-
do. Em termos moleculares, os DNAs de todas as células diferenciadas são
idênticos.
2. Os genes não-usados das células diferenciadas não são destruídos ou mutados,
retendo o potencial de serem expressos.
3. Só uma pequena porcentagem do genoma está sendo expressa em cada célula,
e uma porção do RNA sintetizado é específica para aquele tipo de célula.
Os dois primeiros postulados já foram discutidos. O terceiro – que só uma pequena
parte do genoma está ativo produzindo produtos específicos dos tecidos – foi primei-
ro testado em larvas de insetos. Após a eclosão, uma larva de inseto tem duas popu-
lações celulares diferentes, formadas por cerca de 10.000 células. A maior parte tem
cromossomos politênicos. Tais cromossomos sofrem replicação de DNA na ausência
de mitose, contendo portanto 512 (29), 1024 (210), ou mesmo mais hélices duplas para-
lelas de DNA em lugar de somente uma (Figura 2.11; Prancha 31). Essas células não
sofrem mitose, e crescem expandindo seu volume até 150 vezes. Durante a metamorfo-
se, tais células morrem sendo substituídas por células diplóides não politênicas agru-
padas em certas regiões da larva (veja Capítulo 19). Beermann (1952) mostrou que o
padrão de distribuição das bandas de cromossomos politênicos era idêntico ao longo
da larva e que não se notavam perdas ou adições de qualquer região cromossômica
quando diferentes tipos de células eram comparados (Figura 2.12). Porém, Beermann
estudando o mosquito Chironomus e Becker (1959) estudando Drosophila, acharam
regiões cromossômicas que estavam “estufadas”. Esses tufos apareciam em lugares
diferentes nos cromossomos em cada tecido; seu aparecimento mudava com o de-
senvolvimento dessas células (Figura 2.13). Ainda mais, alguns tufos podiam ser
Figura 2.11
Cromossomos politênicos. (A) Cromossomos politênicos de células da glândula salivar de
Drosophila melanogaster. Os quatro cromossomos estão conectados em seus centrômeros,
formando um denso cromocentro. Os genes estruturais para a álcool desidrogenase (ADH),
aldeído oxidase (Aldox) e octanol desidrogenase (ODH) foram mapeados nas posições designa-
das nesses cromossomos. (B) Fotografia ao microscópio eletrônico de uma pequena região de
um cromossomo politênico de Drosophila. As bandas escuras estão altamente condensadas
comparadas com as regiões interbandas. (A de Ursprung et al., 1968, cortesia de H. Ursprung;
B de Burkholder, 1976, cortesia de G. D. Burkholder.)
Aldox
71.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 51
estimulados ou inibidos por certas mudanças fisiológicas causadas pelo calor ou por
hormônios (Clever, 1966; Ashburner, 1972; Ashburner e Berondes, 1978).
Beermann (1961) apresentou evidências que esses tufos representam um afrouxa-
mento localizado de cromossomos politênicos (Figura 2.14) e que são sítios de síntese
ativa de RNA. Duas espécies intercruzadas diferentes de Chiromonus foram encon-
tradas: uma produzindo grande quantidade de proteína salivar e a outra não (Figura
2.15). Os produtores tinham uma tufo grande (anel de Balbiani) em determinada banda;
esse tufo não existia nos não-produtores. O cruzamento de produtor com não-produ-
tor resultou em larvas produzindo quantias intermediárias de proteína salivar. Cruzan-
do duas moscas híbridas, a capacidade de produzir proteína salivar segregou-se de
forma Mendeliana: 1 alto produtor: 2 intermediários:1 não-produtor. Altos produtores
tinham dois tufos (um em cada cromossomo homólogo), produtores intermediários
tinham apenas um, e não-produtores nenhum tufo. Beermann concluiu que a informa-
ção genética necessária para a síntese dessa proteína salivar está presente nessa
banda distal do cromossomo e que sua produção dependia de transformação em uma
região estufada.
(A)
Glândula Túbulos de Tecido Intestino
salivar Malpighi retal
(B)
Figura 2.12
Identidade genômica em cromossomos politênicos. (A) Uma região do
conjunto cromossômico da mosca Chiromonus tentans. Notar a constân-
cia do número de bandas nos diferentes tecidos. (B) Hibridização do RNA
de uma proteína da gema com um cromossomo da glândula salivar larval
de Drosophila. Os grãos escuros (flexa) mostram onde a mensagem da
proteína radioativa da gema se ligou aos cromossomos. Notar que o gene
para a proteína está presente no cromossomo da glândula salivar, apesar
da proteína não ser aí sintetizada. (A) Segundo Beermann, 1952; (B) De
Barnett et al., 1980; fotografia cortesia de P. C. Wensink.
72.
52 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Figura 2.13
Seqüência de estufamentos de uma porção do cro-
mossomo 3 da glândula salivar de Drosophila mela-
nogaster. (A,B) larva de 110 horas; (C) larva de 115
horas; (D,E) estágio pré-pupa (após 4 horas). Notar
o estufamento e a regressão das bandas 74EF e 75B.
Outras bandas (71DE, 78D) estufam mais tarde, po-
rém, a maioria não estufa de modo algum durante o
período. (Cortesia de M. Ashburner.)
(A) (B) (C) (D) (E)
Prova adicional de que tufos cromossômicos produzem mRNA vem de estudos
sobre tufos do anel de Balbiani (BR2) em Chironomus tentans. O BR2 pode ser
isolado por microdissecção devido seu tamanho excepcional, e seus produtos po-
dem ser analisados por autoradiografia (Lambert e Daneholt, 1975). A Figura 2.16 A,
B mostra o isolamento de BR2 do cromossomo 4 de C. tentans. Transcrição de BR2
foi demonstrada incubando glândulas salivares isoladas com precursores de RNA
(A)
(B)
Figura 2.14
Terminação proximal do cromossomo 4 da glândula sali-
var de Chiromonus pallidivitatus, mostrando o enorme
tufo BR2. (A) Fotomicrografia em contraste de fase, de
preparações coradas, mostrando o extenso tufo no cro-
mossomo politênico. (B) Diagrama da região passando
por estufamento. (A de Grossbach, 1973, cortesia de U.
Grossbach; B segundo Beermann, 1963)
73.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 53
BR4(SZ)
Alto Não-produtor
produtor
BR2
Todos produtos
intermediários
BR1
BR3
Alto produtor Não-produtor
Produtores
(A) (B) (C) Intermediários
Figura 2.15
Correlação de padrões de estufamento com fun-
ções especializadas nas células das glândulas
salivares de Chironomus pallidivitatus. (A)
radioativos. O RNA radioativo pôde, em seguida, ser extraído da porção BR2 do Cromossomo de uma célula produzindo uma
cromossomo dissecado (Lambert, 1972). Esse RNA era excepcionalmente grande – secreção granular e mostrando um anel de
cerca de 50.000 bases. O grande segmento de RNA radioativo, especificamente Balbiani adicional [BR4(SZ)]. (B) Cromosso-
hibridizado para a região BR2 do cromossomo, mostrou que o DNA estufado (Puff mo 4 de uma célula salivar, mostrando somen-
de DNA) - e nenhum outro local - tinha-o transcrito ativamente (Figura 2.16C). Esse te anéis de Balbiani 1, 2 e 3 (BR1, BR2, BR3).
mesmo RNA pôde ser isolado de polissomos sintetizadores de proteínas, indicando (C) Evidência genética que a síntese de uma
importante proteína salivar depende da for-
que é ativo na síntese protéica (Wieslander e Daneholt, 1977). Assim, um RNA
mação de tufos BR4(SZ). Larvas com altos
transcrito de uma banda específica de DNA, que estufa na glândula salivar larval, níveis de secreções granulares têm células sali-
pode posteriormente ser visto produzindo proteínas em ribossomos citoplasmáticos. vares glandulares com tufos BR4(SZ) em am-
bos cromossomos 4 (coloridos), enquanto lar-
vas sem essas secreções não têm tais tufos.
Produtores intermediários têm somente um
cromossomo 4 com uma região estufada
BR4(SZ) em cada célula salivar realizando a
secreção. (A e B segundo Beermann, 1961, cor-
tesia de W. Beermann.)
(A)
(B) Figura 2.16
BR 2 (A,B) Isolamento da região BR2 de Chirono-
mus tentans por micromanipulação. O cromos-
somo intacto 4 pode ser dividido em três regi-
ões, uma contendo BR2. (C) Transcrição da
região BR2 mostrado por uma auto-radiogra-
fia in situ após hibridização do BR2 RNA com
a preparação cromossômica. (A e B de Lambert
e Daneholt, 1975; C de Lambert, 1972; foto-
(C) grafias cortesia de B. Lambert.)
74.
54 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Portanto, os tufos nos cromossomos salivares estão produzindo mRNA ativamen-
te. Em células que sintetizam essa proteína, o gene está ativado; em células que não
usam essa proteína, o gene permanece reprimido.
Hibridização de ácido nucléico
Poucos genes puderam ser analisados como aqueles nos tufos politênicos de
Chiromonus. E embora esses genes dos tufos eram ativos em células que já se
haviam diferenciado (como aquelas da glândula salivar), não eram os genes cau-
sadores da diferenciação celular. Para encontrar e analisar os genes que são res-
ponsáveis pelo desenvolvimento embrionário, novas técnicas tiveram que ser
aperfeiçoadas.
A maioria das técnicas para análise de genes eucariotos baseia-se na hibridização
de ácidos nucléicos. Essa técnica envolve fortalecimento de pedaços de fitas simples
de RNA e DNA, para permitir a formação de híbridos de fitas duplas. Por exemplo, se
o DNA é cortado em pequenos pedaços e cada pedaço dissociado em duas fitas
simples – desnaturado – cada fita na solução deverá achar e reunir-se com seu parcei-
ro complementar, quando lhe é dado tempo suficiente para isso. As condições de
renaturação devem ser tais que ligação específica entre fitas complementares seja
mantida e combinações não específicas sejam dissociadas. Isso é, em geral, consegui-
do variando a temperatura ou as condições iônicas da solução em que ocorre a
renaturação (Wetmur e Davidson, 1968). De maneira semelhante, RNA sintetizado a
partir de uma região particular do DNA poderia ser esperado ligar-se à fita do qual foi
transcrito (Figura 2.17). Assim, RNA pode ser esperado hibridizar especificamente
com o gene que o codifica. Para medir essa hibridização, uma das fitas de ácido nucléico
(a sonda) é em geral marcada pela incorporação de nucleotídeos radioativos. Um
problema técnico que inicialmente atormentou os estudos de hibridização de ácidos
nucléicos foi a dificuldade em conseguir colocar quantidades suficientes de radioati-
vidade na molécula de RNA. Esse problema foi superado isolando o RNA e fazendo
uma cópia complementar de DNA (cDNA) na presença de precursores radiativos. Isso
pode ser feito em tubo de ensaio contendo o RNA, uma extensão curta de DNA
(chamado de iniciador ou primer), precursores radioativos de DNA e a enzima viral
transcriptase reversa. Essa enzima pode produzir DNA de um molde de RNA (Figura
2.18). O DNA é sintetizado in vitro, não sendo necessário preocupar-se com a diluição
(A)
Condições de Condições de
desnaturação re-anelamento
(calor, álcali)
Figura 2.17
Hibridização de ácidos nucléicos. (A) Se a hé- RNA
(B)
lice de DNA for separada em duas fitas, essas
devem se re-anelar sob condições adequadas
de força iônica e tempo. De maneira semelhan-
te, se o DNA for separado em suas duas fitas,
o RNA deve ficar capacitado a se ligar a genes
que o codificam. Se presente em quantidades Desnaturar; adicionar RNA hibridiza
RNA (em grande com uma
suficientemente grandes em comparação com
quantidade em fita de DNA
o DNA, o RNA irá substituir uma das fitas de comparação com DNA)
DNA nessa região.
75.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 55
dos precursores radiativos. Além disso, o DNA pode hibridizar tanto com o gene que
produziu o RNA (embora a outra fita) e com o próprio RNA, tornando-o extremamente
mRNA
útil para a detecção de pequenas quantidades de RNAs específicos.[other.html#gene6]
Anelar iniciador
Clonagem de DNA genômico
mRNA
Já em 1904 Theodor Boveri desesperava-se, considerando que as técnicas de sua
época nunca seriam suficientes para permitir-lhe estudar como os genes criam embri- Transcriptase
ões. Havia necessidade de uma técnica especial de amplificação gênica: reversa
Porque não é somente o núcleo, nem mesmo cromossomos individuais, mas cer- mRNA
tas partes de certos cromossomos de certas células que precisam ser isolados e
coletados em quantidades enormes para análise; essa seria uma pré-condição cDNA
para colocar o químico em uma posição a qual lhe permitiria analisar (o mate- Álcali
rial hereditário) com mais minúcias que o morfologista.
cDNA
Entretanto, desde a década de 1970 a hibridização de ácido nucléico permitiu aos
biologistas do desenvolvimento realizar o que Boveri aspirava: isolar e amplificar Figura 2.18
regiões específicas do cromossomo. A técnica principal para isolar e amplificar genes Método para preparar DNA complementar
individuais é chamada clonagem de genes. A primeira fase desse processo consiste no (cDNA). A maioria dos mRNA possui uma
corte de DNA nuclear em pedaços distintos, por incubação de DNA com uma longa cadeia de resíduos de adenosina (AAAn)
endonuclease de restrição (geralmente chamada de enzima de restrição). De modo no terminal 3’ da mensagem (a ser discutida no
geral, essas endonucleases são enzimas bacterianas que reconhecem seqüências es- Capítulo 12); por isso, o pesquisador anela
pecíficas do DNA e o clivam nesses sítios (Tabela 2.1; Nathans e Smith, 1975). Por um iniciador consistindo de 15 resíduos de de-
soxitimidina (dT15) ao final 3' da mensagem.
exemplo, quando DNA humano é incubado com a enzima BamHI (de Bacillus
Transcriptase reversa em seguida, transcreve
amyloliquifaciens, cepa H), o DNA é clivado em cada sítio onde aparece a seqüência uma fita de DNA complementar, começando
GGATCC. Os produtos são fragmentos de DNA de vários tamanhos, todos terminan- no iniciador dT15. O cDNA pode ser separado
do com G em um dos lados e GATCC no outro (Figura 2.19). Esses pedaços são aumentando o pH da solução, dessa maneira,
freqüentemente chamados de fragmentos de restrição. desnaturando o híbrido de dupla fita e clivan-
do o RNA.
Tabela 2.1 Enzimas de restrição comumente usadas
Sítio Derivação Reconhecimento e clivagem
enzimático*
EcoRI Escherichia coli G AA T T C
C T TAA G
BamHi Bacillus amyloliquifaciens G G AT C C
C C TAG G
HindIII Haemophilus influenzae A AG CTT
TTC GA A
SalI Streptomyces albus G TC GAC
CAG C T G
SmaI Serratia marcescens CCC GGG
GGG CCC
HhaI Haemophilus haemolyticus GCG C
C GCG
HaeIII Haemophilus aegyptius GG CC
CC GG
AluI Arthrobacter luteus AGCT
T C GA
* Todos os sítios de reconhecimento de enzimas de restrição têm um centro de simetria. A seqüência
de dupla fita lida em uma direção é idêntica à seqüência lida da frente para trás na outra direção.
76.
56 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
O próximo procedimento na clonagem do gene é incorporar esses fragmentos de
restrição em vetores de clonagem. Usualmente esses vetores são moléculas circulares
de DNA, replicadas em células bacterianas, independentemente do cromossomo
bacteriano. São usados plasmídeos resistentes a drogas ou vírus especialmente modi-
ficados (que são muito úteis na clonagem de grandes fragmentos de DNA). Por exem-
plo, um vetor pode ser construído contendo apenas um sítio sensível à BamHI. Esse
vetor pode ser aberto por incubação com essa enzima de restrição. Após a abertura,
ele pode ser misturado com os fragmentos de DNA humano, produzidos também por
BamHI. Em muitos casos, os pedaços do DNA cortado serão incorporados a esses
vetores (porque seus terminais são complementares aos terminais abertos do vetor) e
ligados covalentemente, colocando-os em uma solução contendo a enzima DNA ligase.
O processo total fornece plasmídeos bacterianos, cada um contendo um único pedaço
de DNA humano. Esses são chamados plasmídeos recombinantes ou, geralmente,
DNA recombinante (Cohen et al.,1973; Blattner et al., 1978).
O plasmídeo ilustrado na Figura 2.19 é pUC18, um vetor freqüentemente usado por
biologistas moleculares (Vierra e Messing,1982). Ele contém (1) um gene resistente a
drogas, AmpR, que torna a bactéria imune à ampicilina e permite ao pesquisador sele-
cionar aquelas bactérias que incorporaram um plasmídeo; (2) uma origem para a
replicação de DNA, permitindo ao plasmídeo replicar centenas de vezes em cada
bactéria; e (3) um poli-ligante, um pedaço curto de DNA artificial que contém os sítios
enzimáticos de restrição para várias dessas endonucleases. O poli-ligante se situa
dentro de um gene lacZ que codifica a ß-galactosidase de E. coli. O poli-ligante é
suficientemente curto (e tem o número correto de pares de bases) de modo a não
interferir com a atividade enzimática da β-galactosidase. O processo de clonagem
começa quando os fragmentos de restrição do DNA nuclear são misturados aos
plasmídeos abertos pUC18 e a eles são ligados, ocasionando o fechamento do
plasmídeo. Os plasmídeos recombinantes putativos assim formados são então incu-
bados com células de E. coli sensíveis à ampicilina e sem o gene da β-galactosidase.
Mesmo que as bactérias e os plasmídeos sejam misturados em condições que encora-
jam as bactérias a incorporar os plasmídeos, nem todas as bactérias incorporam um
plasmídeo. Para evidenciar aquelas bactérias que incorporaram plasmídeos, as células
tratadas de E. coli são cultivadas em ágar contendo ampicilina. Somente aquelas
bactérias que incorporaram um plasmídeo (com seu gene dominante, ampicilina-resis-
tente) sobrevivem.
Mas nem todos plasmídeos incorporaram um gene estranho, porque é possível
que os “terminais adesivos” do sítio da enzima de restrição sofram uma renaturação
entre si mesmos. Para distinguir entre colônias bacterianas que incorporaram DNA
estranho e aquelas que não o fizeram, o ágar também contém um corante chamado X-
gal. Esse composto é incolor, mas quando transformado pela β-galactosidase forma
um precipitado azul *.Assim, se um plasmídeo não incorporou um fragmento de restri-
ção ao sítio de enzima de restrição no poli-ligante, o gene da β-galactosidase (lacZ)
está funcional e a β-galactosidase resultante torna o corante azul. O resultado é o
aparecimento de “colônias azuis”. Entretanto, se o plasmídeo incorporou um fragmen-
to de DNA, o gene da β-galactosidase é destruído pela inserção. Essas bactérias não
vão produzir a cor azul do corante; produzem colônias incolores no ágar.
Colônias incolores são então selecionadas quanto a presença de um gene especí-
fico. Células de cada uma dessas colônias são colocadas em um finíssimo filtro de
nitrocelulose ou nylon. Quando essas células são lisadas, seu DNA adere aos filtros.
Em seguida, as fitas de DNA são separadas por aquecimento, e os filtros incubados
em uma solução contendo o RNA radioativo (ou sua cópia de cDNA) do gene que se
*O corante é 5-bromo-4-cloroindol, e é azul a não ser quando está complexado com uma
molécula como galactose. A ß-galactosidase codificada pelo gene do plasmídeo cliva a galactose do
corante permitindo que adquira a conformação azul.
77.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 57
Sítio Sítio BamHI Sítio Eco RI
Hind III
Poli-ligante
Plasmídeo cortado
no gene lacZ
Quebra
endonucleolítica
por BamHI
Fragmentos
de gene Plasmídeo
humano recombinante
incubados e com gene lacZ
ligados em um interrompido
plasmídeo
DNA humano
Quebra endonucleolítica Mistura com bactérias
por BamHI (lacZ–, sensível à amp.)
Figura 2.19
Um protocolo geral para clonar DNA, usando como exemplo a inserção de uma se-
“Colônias
qüência de DNA humano em um plasmídeo com um sítio sensível à BamHI.
incolores”
quer clonar. Em alguns casos, a seqüência do mRNA ou gene não é conhecida, Meio contendo
ampicilina
devendo-se então estimar a seqüência a partir da seqüência de aminoácidos da
proteína). Se o plasmídeo contém aquele gene, seu DNA deve estar no filtro, e
“Colônias azuis”
somente aquele DNA deverá ser capaz de ligar o RNA radioativo ou a sonda de
cDNA. Portanto, somente aquelas áreas serão radioativas. A radioatividade nessas
regiões é determinada por auto-radiografia. Filme sensível a raios-X é colocado Aplicação das colônias
“incolores” nos círculos do
sobre o papel tratado. Os elétrons de alta energia, emitidos pelo RNA radioativo, papel de filtro; lisar para
sensibilizam os grãos de prata no filme, tornando-os escuros quando o filme é reve- expor o DNA
lado. Finalmente, uma mancha escura é produzida sobre cada colônia contendo o
plasmídeo recombinante que carrega o gene específico (veja Figura 2.19). Essa colô-
nia é então isolada e cultivada, produzindo bilhões de bactérias, cada uma contendo
centenas de plasmídeos recombinantes idênticos.
Os plasmídeos recombinantes podem ser separados do cromossomo da E. coli por
centrifugação, e incubando o DNA do plasmídeo com BamHI libera-se o fragmento de
DNA extranho que contém o gene. Esse fragmento pode ser separado do DNA
plasmídico, permitindo ao pesquisador possuir microgramas de seqüências de DNA mRNA
radioativo
purificado contendo o gene específico. Apesar desse procedimento parecer muito
lógico e fácil, freqüentemente o número de colônias a serem selecionadas é astronômi- Papel de filtro incubado com mRNA
co. O número de fragmentos aleatórios que devem ser clonados para a obtenção do radioativo do gene a ser clonado
gene desejado, aumenta com a crescente complexidade do genoma do organismo*.
Para detectar um gene específico de um genoma de mamífero, milhões de clones indi-
viduais devem ser selecionados.
*Complexidade se refere ao número de diferentes tipos de genes no núcleo. Apesar que
milhões de clones precisam ser selecionados, aproximadamente 100.000 colônias podem, agora,
ser selecionadas em uma única placa. Outra maneira comum de selecionar os clones é usar um
plasmídeo que tem seu sítio da enzima de restrição próximo a um vigoroso promotor bacteriano
(tal como aquele para ß-galactosidase). As bactérias transcreverão o cDNA e o traduzirão em
proteína. Após a lise das colônias bacterianas no papel de filtro, as proteínas aderem ao papel e Preparação de auto-radiografia para indicar os
podem ser identificadas por anticorpos dirigidos contra àquela proteína. Isso é chamado clonagem clones bacterianos com fragmento de DNA
de expressão, e os plasmídeos referidos como vetores de expressão. que formou um híbrido com o DNA radioativo
78.
58 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Hibridização de DNA: entre e intra espécies
Clones podem ser selecionados por qualquer segmento de nucleotídeos radioativos.
Portanto, os genes clonados de um organismo podem ser sondados com cDNAs
radioativos derivados do mRNA de outras espécies. Uma das descobertas mais exci-
tantes da moderna biologia do desenvolvimento foi verificar que genes usados para
processos específicos de desenvolvimento em um organismo, podem ser usados para
processos similares em outro organismo. Drosophila teve uma importância crítica na
descoberta desses genes. Iniciando com Morgan, esses genes foram mapeados e, nos
anos 60, E. B. Lewis confirmou que alguns desses genes são responsáveis pela forma-
ção de partes básicas do corpo (veja Capítulo 14). Um deles, Antennapedia, é um gene
cujo produto protéico é essencial para inibir a formação de estruturas da cabeça no
tórax. Se o gene não está presente, antenas crescem onde deveriam estar as pernas. Se
o gene é expresso na cabeça (como sucede em um mutante específico), a mosca
desenvolve um conjunto extra de pernas saindo das cavidades orbitais (veja Figura
14.28). Poderia tal gene existir em vertebrados?
Evidências desses genes em vertebrados apareceram em transferências de DNA,
algumas vezes chamadas de transferências Southern devido a seu inventor, E. M.
Southern (1975). DNA de numerosos organismos vertebrados e invertebrados, foram
tratados com uma enzima de restrição, e os fragmentos de DNA resultantes foram
separados em uma eletroforese em gel. As misturas de fragmentos foram colocadas em
fendas em um dos lados do gel, que foi em seguida submetido à uma corrente elétrica.
Os fragmentos de DNA carregados negativamente migraram em direção ao pólo posi-
tivo, os fragmentos menores movendo-se mais rapidamente do que os maiores. *
Como a hibridização não pode ser feita dentro do gel; o DNA deve ser colocado em
uma superfície plana, e isso é feito por transferência. Após a desnaturação das fitas de
DNA em álcali, os pesquisadores retornaram o gel a um pH neutro e em seguida o
Figura 2.20 colocaram sobre um papel de filtro úmido suportado por uma estrutura de plástico
Transferência Southern. DNA é tratado com (Figura 2.20; Mc Ginnis et al., 1984; Holland e Hogan, 1986). Papel de nitrocelulose
enzimas de restrição e os fragmentos resul-
(capaz de ligar DNA de fita única) foi colocado diretamente sobre o gel e coberto com
tantes são colocados em um gel e separados
por eletroforese. Após a separação, o DNA é múltiplas camadas de papel-toalha secas. O papel de filtro abaixo do gel estava em
desnaturado em fitas únicas. O gel é, em se- comunicação com o interior de uma cuba contendo tampão de alta força iônica. O
guida, colocado sobre um papel de filtro tampão caminhou para cima através do gel e do filtro de nitrocelulose para as toalhas
saturado com tampão de alta força iônica. Pa- de papel. O DNA também foi levado por esse fluxo de tampão, mas foi detido pelo filtro
pel de nitrocelulose ou um filtro de nylon é de nitrocelulose; assim, o DNA foi transferido do gel ao papel de nitrocelulose. Após
colocado sobre o gel e o conjunto coberto fixar pelo calor os fragmentos de DNA no papel de nitrocelulose (de outra forma eles
com toalhas de papel. O tampão de transfe-
rência atravessa o gel, o papel de nitrocelulo-
se e as toalhas por ação capilar, levando jun- *Considerando a mesma relação carga/massa, fragmentos menores adquirem uma maior veloci-
to o DNA. O DNA de fita única é retido pelo dade que os maiores quando impulsionados pela mesma energia. Isso é uma função da equação de
energia cinética, E=1/2 mv2. Resolvendo para velocidade, encontramos que ela é inversamente
papel de nitrocelulose. As posições do DNA
proporcional à raiz quadrada da massa.
no papel diretamente refletem a posição dos Filtro de
fragmentos de DNA no gel. nitrocelulose
ou nylon
Espaçadores Papel-toalha Peso
Contatos de
Desnaturar fragmentos de papel de filtro
DNA à fitas simples em álcali
Suporte
Cuba com
Gel
Digestão com restrição solução tampão Colocar filtro de nitrocelulose
e eletroforese Colocar gel no papel de filtro ou membrana de nylon sobre gel:
em gel de agarose úmido entre 2 espaçadores colocar papel-toalha e peso
79.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 59
Figura 2.21 Drosophila Besouro Galinha Camundongo
Transferência Southern do DNA de vários organismos usando uma sonda radioativa do melanogaster
gene Antennapedia de Drosophila melanogaster. Não se espera que as seqüências de
espécies tão diversas sejam perfeitamente idênticas e por essa razão o rigor da hibridização 10 10 10 10
Ubx
é diminuído trocando as soluções salinas. (Coloquialmente esse baixo rigor das transferên-
cias ao longo dos filos é chamado “transferências de zoológico”, por razões óbvias). Auto- ftz
radiografia mostra que os genes de Drosophila contêm várias porções que são como as do 3 3 3
gene Antennapedia em termos de estrutura; também, muitos organismos contêm vários
3
genes que formarão híbridos com esse fragmento gênico radioativo, sugerindo que genes
Antp
similares a Antennapedia existem nesses organismos. Os números ao lado das transferênci-
as indicam os tamanhos das bandas, em quilobases. (de McGinnis et al.,1984, cortesia de 1
W. McGinnis.) 1 1
1
se desprenderiam), o conjunto foi incubado com cDNA radioativo de uma porção do
gene Antennapedia de Drosophila. Um autoradiograma do papel de nitrocelulose
mostrou onde o DNA radioativo encontrou seu semelhante. Os resultados desses
experimentos (Figura 2.21) mostraram que mesmo vertebrados (camundongos, huma-
nos e pintos) têm genes que hibridizam com essas seqüências. Essa secção radioativa
do gene Antennapedia foi usada para selecionar uma biblioteca genômica de clones
de DNA derivados do genoma dessas diferentes espécies. Como veremos no Capítulo
16, pesquisadores encontraram clones contendo genes que se parecem com o
Antennapedia; esses genes se mostraram extremamente importantes na formação do
eixo do corpo dos vertebrados.
Seqüenciamento de DNA
Dados de seqüência podem dar informações sobre a estrutura da proteína codifi-
cada e podem identificar seqüências regulatórias de DNA que certos genes têm em
comum. A simplicidade da técnica de seqüenciamento “didesoxi” de Sanger (Sanger
et al.,1977) tornou-a um procedimento padrão em muitos laboratórios de biologia
molecular. No início, usa-se um vetor contendo o gene clonado e se isola uma fita
única do DNA circular (Figura 2.22). Funde-se (anela-se) então um iniciador (primer)
radioativo de DNA (aproximadamente 20 pares de bases) complementar ao DNA
do vetor imediatamente 3' ao gene clonado. (Porque essas seqüências dos vetores
são conhecidas, iniciadores oligonucleotídicos podem ser facilmente sintetizados
ou adquiridos comercialmente). O iniciador tem uma ponta 3' livre à qual mais
nucleotídeos podem ser adicionados. Coloca-se o DNA alvo e o iniciador junta-
mente com todos os quatro desoxirribonucleosídeos trifosfatos em quatro tubos
de ensaio. Cada um dos tubos contém a subunidade polimerizante da DNA polime-
rase e um diferente didesoxinucleosídeo trifosfato: um tubo contém didesoxi-G,
outro didesoxi-A e assim por diante. As estruturas dos desoxinucleotídeos e dos
didesoxinucleotídeos estão representadas na Figura 2.23. Enquanto o
desoxirribonucleotídeo não tem um grupo hidroxila (OH) no carbono 2' do seu
açúcar, o didesoxirribonucleotídeo não tem grupos hidroxila em ambos os carbo-
nos, 2' e 3'. Assim, mesmo que um didesoxirribonucleotídeo possa ser ligado a uma
crescente cadeia de DNA pela DNA polimerase, ele interrompe o crescimento da
cadeia por não ter um grupamento 3' ao qual se ligaria um novo nucleotídeo.
Assim, quando a DNA polimerase está sintetizando DNA do iniciador, o novo
DNA será complementar ao gene clonado. No tubo com didesoxi-A, entretanto,
sempre que a polimerase coloca um A na cadeia crescente, existe a possibilidade
de que um didesoxi-A seja colocado em lugar do desoxi-A. Se isso acontecer, a
cadeia pára. Similarmente, no tubo com didesoxi-G, a cadeia tem o potencial de
parar toda vez que um G é inserido. (O processo foi comparado à uma dança
folclórica grega na qual uma pequena porcentagem dos dançarinos em potencial
tem um braço em uma tipóia).
80.
60 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Fita única desnaturada de DNA de plasmídeo recombinante
Iniciador
Subunidade polimerizante de DNA polimerase I
de E. coli + dATP, dGTP, dCTP e dTTP
Seqüência da fita
do iniciador
Seqüência
complementar
Fragmentos
maiores
Fragmentos
menores
Figura 2.22
O método didesoxi de seqüenciar DNA. A fotografia contém a região da auto-radiografia que
mostra essa seqüência (Cortesia de G. Guild).
Base 1
Adenina Adenina
Base 2
Adenina Desoxiadenosina Didesoxiadenosina
trifosfato (açúcar desoxirribose) trifosfato (açúcar
(A) didesoxirribose) (B)
Figura 2.23
Comparação entre desoxinucleotídeos e didesoxinucleotídeos. (A) Estruturas dos dois tipos de
nucleotídeos. A diferença é evidenciada em cores. (B) O terminal 3' de uma cadeia que terminou
pela incorporação de um didesoxinucleotídeo não tem um grupo hidroxila 3' terminal para
continuar a polimerização do DNA.
81.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 61
Em cada tubo estão sendo feitas milhões de cadeias e por essa razão eles conterão
uma população de cadeias, algumas interrompidas no primeiro sítio possível, outras
no último e algumas em sítios intermediários. O tubo com didesoxi-A, por exemplo,
conterá cadeias com diferentes e distintos comprimentos, cada uma terminando com o
resíduo A. Os fragmentos de DNA radioativo resultantes serão separados por eletro-
forese. O resultado é uma “escada” de fragmentos onde cada “degrau” é uma seqüên-
cia de nucleotídeos de comprimento diferente. Lendo escada acima, obtem-se a se-
qüência do DNA complementar àquela do gene clonado.
Análise de mRNA através de bibliotecas de cDNA
Agora podemos retornar à especificidade da transcrição de mRNA: É possível
isolar populações de mRNA que caracterizam certos tipos de células e estão au-
sentes em todas as outras? Para encontrar esses RNAs, podemos “clonar” os
mRNA de diferentes tipos de células e compará-los. Como mostra a Figura 2.24A,
isso é feito tomando os RNAs mensageiros de uma célula ou tecido e converten-
do-os em fitas de DNA complementar. Levando esse procedimento um passo à
frente (com o auxílio de DNA polimerase e S1 nuclease), podemos transformar
essa população de cDNA de fita única em outra contendo pedaços de cDNA com
fitas duplas. Essas fitas de DNA podem ser inseridas em plasmídeos, adicionan-
do-lhes “finais” apropriados com DNA ligase. Acoplando um fragmento GATCC/
G aos terminais rombudos desse pedaço de DNA cria-se um corte artificial de
restrição BamHI, o que permite a inserção em um vírus ou plasmídeo clivado por
essa enzima (Figura 2.24B).
Tais coleções de clones derivados de mRNAs são freqüentemente chamadas de
bibliotecas. Assim, podemos ter uma biblioteca de fígado de embrião de camundongo
de 16 dias, representando todos os genes ativos produzindo proteínas hepáticas
embrionárias. Podemos ter também uma biblioteca de oócitos vegetais de Xenopus,
representando mensagens presentes somente em uma parte específica daquela célula.
Genes clonados dessa maneira são muito importantes porque eles não têm íntrons.
Quando adicionados às células bacterianas, esses genes podem ser transcritos e em
seguida traduzidos nas proteínas que codificam.
Bibliotecas têm sido extremamente úteis no estudo de desenvolvimento como
demonstram os esforços de Wessel e colaboradores (1989) em verificar diferenças nos
RNAs de diferentes partes do embrião, em gastrulação, do ouriço-do-mar. Para encon-
trar mRNAs específicos do endoderma em ouriço-do-mar, Wessel e colaboradores
prepararam uma biblioteca de cDNA de embriões gastrulantes. O mRNA dessas amos-
tras (a maior parte do RNA de células eucarióticas é ribossômico) foi isolado por
passagem em esferas com oligo-dT, as quais capturam as caudas de poli(A) das men-
sagens (veja legenda da Figura 2.19). A população de mRNA foi, então, convertida em
uma de cDNA pelo uso da transcriptase reversa (veja Figura 2.24A). Usando polimerase
I de E. coli o cDNA de fita única foi transformado em fita dupla. No próximo passo, os
cDNAs de fita dupla foram ligados a “finais” de EcoRI que estão disponíveis no comér-
cio. Isso os tornou clonáveis em vetores que foram abertos com a enzima de restrição
EcoRI. O DNA foi misturado com os braços de um fago λ geneticamente modificado
(veja Figura 2.24B). Esse fago é construído de tal maneira que ao ser cultivado em uma
placa de Petri, os fagos que incorporaram o DNA (e assim destruíram o gene da ß-
galactosidase) produzem placas incolores (Figura 2.24C). Dessa forma, foram gerados
aproximadamente 4 milhões de fagos recombinantes, cada um contendo um cDNA re-
presentando uma molécula de mRNA.
O próximo passo envolvia selecionar os fagos recombinantes. Quais deles repre-
sentariam mRNAs encontrados no endoderma e não em outras camadas celulares?
Wessel e seus colegas isolaram populações de mRNAs do mesoderma, ectoderma e
endoderma. Depois prepararam cDNAs marcados de cada uma das populações de
mRNA, usando precursores radioativos. Agora, possuíam três coleções de moléculas
82.
62 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(A)Preparação de cDNA (B) Inserção de cDNA de dupla fita no vetor viral (bacteriófago λ)
clonável
Região codificadora
mRNA DNA de fago λ
Anela iniciador oligo (dT)
BamHI
Região codificadora
mRNA
Transcriptase reversa “Braço esquerdo” “Braço direito”
cDNA
Não é necessário para
mRNA a replicação do fago
Hidrólise alcalina Braços contêm todos os
cDNA de dupla fita genes necessários para a
preparado como replicação, mas muito
cDNA descrito em (A) pequeno para o
empacotamento
Inserir cDNA nos
terminais do DNA do
DNA polimerase I fago λ; ligar
Região codificadora
cDNA
S1 nuclease
Região codificadora
Fita cDNA do
dupla mRNA, agora
cDNA clonado em
vetores virais
Adicionar finais Bam HI
de cDNA radioativos, cada uma representando a população de mRNA de uma das
três camadas germinativas.
Os fagos recombinantes representando os mRNAs do embrião, em gastrulação,
do ouriço-do-mar foram cultivados e amostras de numerosas colônias— cada uma
contendo milhares de fagos— colocadas em dois filtros de nitrocelulose (Figura 2.24D).
O conjunto foi colocado em solução de álcali para a lise dos fagos e obtenção de DNA
de fita única. Um desses papéis de filtro foi incubado com cDNA radioativo feito a
partir do mRNA total do endoderma; o outro papel incubado com sondas radioativas
para ambos, mesoderma e ectoderma. Os filtros foram lavados para a remoção de
cDNA radioativo não hibridizado, secos e expostos em filmes para raios-X. Se um
mRNA estivesse presente no endoderma, mas não no ectoderma ou mesoderma, o
DNA recombinante produzido daquela mensagem deveria ligar cDNA radioativo do
endoderma e não deveria encontrar um mRNA em qualquer outro lugar. Como resulta-
do, aquela mancha de DNA recombinante do endoderma deveria ser radioativa (pois
foi ligado ao cDNA radioativo do endoderma), mas o mesmo clone não deveria ser
radioativo quando exposto a mRNA ectodérmico ou mesodérmico; isso foi confirma-
do. Um fago recombinante, em particular, ligou somente cDNA radioativo produzido
83.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 63
(C) Preparação da biblioteca de clones do fago (D) Seleção da biblioteca de fagos clonados
Transferir alguns
Fago fagos para filtros
híbrido de nitrocelulose
Adicionar à camada de
células de E. coli Filtros de nitrocelulose
Infecção de E. coli pelo fago
Lise
Placa Tratar filtros com
solução alcalina para
lisar os fagos e
Zona de lise desnaturar o DNA
indicando clones liberado
Camada de do fago
bactérias
E. coli Incubar com sonda radioativa Incubar com sonda radioativa
para endoderma para mesoderma e ectoderma
Figura 2.24 Sonda
radioativa
Protocolo usado para organizar bibliotecas de cDNA. (A)
RNA mensageiro é isolado e feito seu cDNA, que é em segui-
da transformado em dupla fita e adicionado de fragmentos DNA de
finais de restrição. (B) Os “genes” cDNA são inseridos em fago de fita
vetores especialmente modificados, nesse caso, bacteriófagos. única ligado
(C) Os fagos contendo o DNA recombinante lisarão E. coli ao filtro
formando placas. Técnicas bioquímicas podem distinguir pla-
cas de fagos recombinantes daquelas que não têm o gene inse- Preparação dos
rido. (D) As placas são transferidas para papel de nitrocelu- autoradiogramas
lose e tratadas com álcali para lisar os fagos e desnaturar
DNA localmente. Esses filtros são então incubados com son-
das radioativas (usualmente cDNA) de um tecido. Para a
seleção da biblioteca diferencial de cDNA, discutida no texto,
a mesma biblioteca de fagos foi selecionada com sondas radi-
oativas de dois tecidos diferentes, permitindo ao pesquisador Clone de DNA representando o mRNA
procurar por um mRNA encontrado em um tipo de tecido encontrado no endoderma mas não no
mas não em outro. mesoderma ou ectoderma
de mRNA do endoderma; portanto, representava um mRNA encontrado no endoderma
e não no mesoderma ou ectoderma. O fago contendo esse gene pode agora ser culti-
vado em grandes quantidades e caracterizado.
Técnicas de localização de RNA
Hibridização In Situ
O processo de hibridização in situ, desenvolvido por Mary Lou Pardue e Joseph
Gall (1970), permite ao pesquisador visualizar as posições de ácidos nucléicos espe-
cíficos dentro de células e tecidos. Se um clone específico é considerado interessan-
te (por exemplo, o clone endoderma-específico que foi mencionado) ele é cultivado em
84.
64 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
grandes quantidades, e o gene clonado é isolado tratando o vetor recombinante com
enzimas de restrição. Esse é transformado em fita única e tornado radioativo. Quan-
do o cDNA radioativo é adicionado às células fixadas apropriadamente em lâminas
de microscópio, o cDNA radioativo se liga unicamente onde está presente o mRNA
complementar. Após eliminação do cDNA não fixado, a lâmina é coberta com uma
emulsão fotográfica transparente para auto-radiografia. As manchas resultantes,
diretamente acima de onde o cDNA radioativo foi ligado, parecem escuras quando
visualizadas diretamente, ou brancas quando vistas com iluminação em campo
escuro. Assim, pode-se visualizar aquelas células (ou mesmo regiões dentro das
células) que acumularam um tipo específico de mRNA. A Figura 2.25A,B mostra
hibridização in situ usando o cDNA específico para células endodérmicas. O cDNA
encontra mRNAs somente no endoderma da gástrula precoce do ouriço-do-mar.
Continuando a gastrulação, o cDNA (e portanto o mRNA) se localiza de forma
ainda mais precisa — entre a região do intestino posterior e o intestino médio no
tubo endodérmico.
Trabalhando com sondas radioativas e emulsões, torna-se necessário o uso de
secções microscópicas extremamente finas. Uma técnica mais recente para hibridiza-
ção in situ utiliza sondas que ligam reagentes coloridos. Dessa maneira, cientistas
podem observar órgãos inteiros (e organismos) sem seccioná-los, e com uma visão de
amplas regiões de expressão gênica. A Figura 2.25C mostra uma hibridização in situ,
realizada em montagem integral, em um embrião de camundongo com 10.5 dias. A
sonda reconhece o mRNA codificado pelo gene Brachyury (discutido na página 40),
que sintetiza uma proteína necessária para a produção de células mesodérmicas na
parte posterior do embrião de camundongo.
Transferências Northern
Podemos também determinar a expressão temporal e espacial de RNAs executando
uma transferência de RNA (freqüentemente chamada transferência Northern). En-
quanto transferências Southern transferem fragmentos de DNA do gel para o papel,
transferências Northern (nome não se relaciona com o inventor) transferem RNA
entre os mesmos suportes e da mesma maneira. O pesquisador pode extrair RNAs
mensageiros do embrião em vários estágios de desenvolvimento e submetê-los à
eletroforese lado a lado, em um gel. Após transferência dos RNAs separados para o
papel de nitrocelulose ou membrana de nylon, o conjunto é incubado em uma solu-
ção contendo um fragmento radioativo, mono-fita, de DNA de um determinado gene.
Esse DNA adere somente às regiões onde está localizado o RNA complementar.
Assim, se o mRNA para aquele gene está presente em um determinado estágio
embrionário, o DNA radioativo se liga a ele e pode ser detectado por auto-radiogra-
fia. Autoradiogramas desse tipo, onde vários estágios são comparados simultanea-
mente, são denominados transferências Northern de desenvolvimento. A Figura
2.26A mostra uma transferência Northern de desenvolvimento para a expressão de
um gene endoderma-específico durante o desenvolvimento do ouriço-do-mar. Po-
demos ver que o mRNA para essa proteína endodérmica é inicialmente sintetizado
durante o estágio de blástula mesenquimatosa e continuamente durante todo o
resto do desenvolvimento. A transferência Northern na Figura 2.26B mostra que a
acumulação desse mRNA no estágio de prisma é restrita ao endoderma (Wessel et
al.,1989). Hibridização in situ e transferências Northern fornecem as melhores evi-
dências em favor da transcrição diferencial de RNA, no espaço e no tempo. A trans-
crição de certos genes pode ser específica para tecidos ou tempo.
A distribuição temporal na transcrição de vários genes pode ser visualizada por
transferência de mancha. Por exemplo, Sargent e Dawid (1983) isolaram da gástrula de
Xenopus um mRNA que não estava presente no ovo. Para isso eles extraíram o mRNA
da gástrula e fizeram cópias cDNA dessas mensagens. Os cDNAs da gástrula foram
misturados com grandes quantidades de mRNA de oócitos. Se houvesse hibridização
entre o mRNA dos oócitos e o cDNA da gástrula, significaria que o cDNA era derivado
85.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 65
(B)
(A)
(C)
Figura 2.25
Hibridação in situ. (A,B) Fotomicrografias,
em fundo escuro, de hibridação in situ, mos-
trando a localização de mRNA endoderma-
específico em embrião de ouriço-do-mar. O
cDNA radioativo usado como sonda foi pre-
parado do gene clonado, feito a partir de
mRNA endoderma-específico (veja Figura
2.24). Esse cDNA radioativo se liga ao mRNA
do endoderma da gástrula precoce do ouriço-
do-mar (A) e ao endoderma do intestino mé-
dio e posterior da gástrula tardia do ouriço-
do-mar (B). (C) Hibridização in situ, em mon-
tagem integral, de um embrião de camundon-
go de 9.5-10.5 dias corado para mRNA de
Brachyury. Essa mensagem é transcrita em
células formando novo mesoderma, e nesse
estágio é encontrada na porção posterior do
embrião. Embriões fixados foram incubados
Enzima em uma sonda para mRNA de Brachyury (a
fosfatase Corante fita antisense complementar ao mRNA) que
alcalina (precipitado azul escuro) foi sintetizada usando uridina biotinilada.
Núcleo Após eliminar a parte da sonda que não se
Corante ligou ao mRNA de Brachyury (e inativar qual-
Anticorpo (incolor) quer atividade endógena de fosfatase alcalina
para biotina do embrião), o embrião foi tratado com anti-
Sonda complementar a mRNA de Brachyury corpos para biotina. Esses anticorpos foram
Biotina ligados às enzimas do tipo fosfatase alcalina.
tendo resíduos de biotina em suas uridinas
Colorir para a presença de fosfatase alcalina
permite que se determine a localização de um
mRNA específico. Fotografias coloridas da
mRNA de Brachyury hibridização in situ, em montagem integral,
estão nas Pranchas 22, 23 e 25. (A e B de
Wessel et al.,1989, cortesia de G. Wessel; C
do laboratório do autor.)
86.
66 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(A) Ovo de um mRNA presente em ambos os estágios, oócito e gástrula. Essas moléculas
Clivagem híbridas com dupla fita foram removidas por filtração, deixando uma população de
cDNAs gástrula-específico. Os cDNAs foram transformados na forma de dupla fita
Blástula
(pela DNA polimerase) e inseridos em veículos de clonagem. Essa técnica é denomina-
Blástula da de clonagem de subtração. Como a seleção dupla de bibliotecas de cDNA, a
Mesenquimatosa clonagem de subtração gera um conjunto de clones estágio-específicos cujo mRNA é
Blástula precoce
encontrado em alguns estágios, mas não em outros, ou em alguns tecidos mas não em
Blástula tardia outros (Figura 2.27).
Sargent e Dawid usaram embriões, dos estágios de zigoto a broto caudal do
Prisma
girino e, separadamente, isolaram seus RNAs. Os RNAs foram aplicados direta-
Plúteo mente (sem prévia eletroforese em gel) a filtros de nitrocelulose de modo que cada
filtro tinha RNAs de todos os estágios. Após a fixação (calor) dos RNAs no filtro,
(B) Ectoderma / mesoderma
DNA de fita única derivado de um específico clone “gastrular”, foi marcado radi-
oativamente e incubado com os filtros. Se um gene estava sendo transcrito em um
Endoderma determinado estágio, o cDNA radioativo daquele gene encontraria seu comple-
mento nos mRNAs daquele estágio, no filtro. Após eliminacão do cDNA não liga-
Figura 2.26 do, a ligação do cDNA radioativo foi observado por auto-radiografia. A transfe-
Transferência Northern para um gene especí- rência de manchas na Figura 2.28 mostra o esquema temporal de expressão para 17
fico no endoderma do ouriço-do-mar, Lytechi-
genes que são ativos em vários estágios da gastrulação. Nenhum deles é expresso
nus variegatus. (A) Transferência Northern
de desenvolvimento, mostrando acumulação antes da transição da blástula mediana em 7 horas. Alguns genes (DG64, DG39)
de mRNA de acordo com o estágio específico são expressos imediatamente depois, enquanto outros (DG72, DG81) começam a
desse gene. mRNA total (10 µg por estágio) ser transcritos na gástrula mediana, após aproximadamente 7 horas. Alguns genes
foi submetido à eletroforese em gel de agarose. (DG76, DG81) são mantidos após a ativação, enquanto a atividade de outros (DG56,
O gel foi transferido para papel tratado e os DG21) é muito mais transitória.
mRNAs aderidos ao papel, que foi em seguida
incubado com cDNA radioativo de um clone
endoderma-específico. Mostrou-se que esse
Encontrando mensagens raras pela
mRNA é sintetizado durante o estágio de blás-
reação da polimerase em cadeia
tula do mesênquima e aumentado ao longo do
desenvolvimento. (B) Transferência Northern A reação da polimerase em cadeia (PCR) é um método de clonagem in vitro que pode
no estágio de prisma, mostrando que o mRNA produzir enormes quantidades de um fragmento específico de DNA a partir de uma
está presente no endoderma (com algum me- pequena quantidade de material de partida (Saiki et al.,1985). Esse método pode ser
soderma aderido) mas não no ectoderma. RNA usado para clonar um gene específico ou para determinar se um gene específico está
total do endoderma foi eletroforisado (pista 2) ativamente transcrevendo RNA em um determinado órgão ou tipo de célula. O método
próximo ao mRNA do resto do ouriço-do-mar padrão de clonagem usa microorganismos vivos para amplificar o DNA recombinante.
(pista1). Ligação com cDNA radioativo detec-
PCR, no entanto, pode amplificar uma única molécula de DNA por um fator de vários
tou mRNA somente no endoderma. (de Wessel
et al., 1989, cortesia de G. Wessel.) milhões em poucas horas e o faz em um tubo de ensaio. Essa técnica tem sido extrema-
mente útil em casos onde a quantidade de ácido nucléico para estudo é muito peque-
na. Embriões de camundongos, por exemplo, na fase de pré-implantação têm muito
pouco mRNA e não se pode obter milhões desses embriões para estudo. Se fosse
necessário saber se o embrião de camundongo na fase de pré-implantação contém o
mRNA para uma proteína determinada, seria muito difícil descobrir usando os méto-
dos padrão de clonagem. Entretanto, a técnica do PCR permite encontrar essa mensa-
gem com poucos embriões, por amplificar especificamente somente aquela mensagem,
um milhão de vezes (Rappolee et al., 1988).
O uso de PCR para encontrar mRNAs raros está ilustrado na Figura 2.29. Os
mRNAs de um grupo de células são purificados e convertidos a cDNA por transcriptase
reversa. Usando DNA polimerase e S1 nuclease, a população de DNAs de fita única é
transformada em uma população de fita dupla. Em seguida, escolhe-se um DNA para
ser amplificado. Para isso, separam-se as duplas hélices do DNA, às quais são adici-
onados dois pequenos oligonucleotídeos iniciadores que são complementares a
uma porção da mensagem procurada. Se os oligonucleotídeos reconhecem seqüên-
cias no DNA, então o mRNA estava presente originalmente. Os oligonucleotídeos
foram preparados de forma a permitir uma hibridização com fitas opostas e lados
opostos da seqüência alvo. (Se a tentativa é isolar o gene ou mRNA para uma proteína
específica de seqüência conhecida, essas regiões laterais podem ser preparadas,
87.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 67
cDNA de gástrula que cDNA de gástrula sem
encontra mensagem seqüência complementar
Extrair complementar em a mRNA de oócitos
mRNA mRNA de oócito
Oócito mRNA total
de oócito Hibridizar
Extrair Fazer cDNA DNA polimerase
mRNA de mRNA S1 nuclease
Gástrula mRNA total cDNA de
de gástrula gástrula
cDNA de dupla
Figura 2.27 fita específico de gástrula
Clonagem de subtração de genes de gástrula expressos diferencialmente em Xenopus laevis.
cDNA foi produzido para mensagens isoladas de gástrula e hibridizado com mRNA de oócitos. Adicionar ligantes
Os cDNA de gástrula que não encontraram seqüências complementares nos mRNAs de
oócitos, eram produtos de genes ativos na gástrula mas não nos oócitos. Esses genes foram
clonados fazendo o cDNA de fita dupla e adicionando ligantes para permitir sua inserção em
veículos de clonagem.
Colocar em veículo
de clonagem
Figura 2.28
Transferências de mancha no desenvolvimento mostram os tempos em que 17 genes de Xenopus
estão transcrevendo ativamente. Acumulação específica de mRNA no citoplasma é registrada
embebendo mRNA total, de genes em estágios embrionários, em papel de nitrocelulose e incu- Plasmídeo recombi-
nante contendo DNA
bando a tira de papel com DNA radioativo derivado de um clone de cDNA específico de
para mRNA específico
gástrula. Justapondo essas tiras, obtem-se um esquema temporal para a atividade de genes para gástrula
específicos. A linha r5 representa um controle de RNA ribossômico que deve estar sempre
presente. (de Jamrich et al., 1985, cortesia de I. Dawid e M. Sargent.)
Blástula Gástrula Nêurula Broto de cauda
Estágio
Clone
Horas após a fertilização
88.
68 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Finais da seqüência do polipeptídeo
RNAs que codificam RNAs que codificam
o amino terminal o carboxi terminal
(iniciador 1) (iniciador 2)
RNA
1 cópia iniciador 1 DNA alvo
Aquecer a 95oC para
desnaturar DNA.
Esfriar a 37oC para RNA
permitir hibridização iniciador 2
dos iniciadores a DNA
Primeiro ciclo
Quando aquecido a 72o C, taq
polimerase estende fitas
complementares a partir dos
iniciadores
2 cópias
Primeiro ciclo de sínteses
resulta em duas cópias da seqüência
alvo de DNA
Desnatura DNA
Hibridiza
Segundo ciclo
iniciadores
Estende novas
fitas de DNA
Segundo ciclo de
sínteses resulta em
4 cópias quatro cópias da
seqüência alvo de DNA
Figura 2.29
Protocolo para a reação de polimerase em cadeia (PCR). Para determinar se um tipo particular
de mRNA está presente, todo mRNA é convertido a DNA de dupla fita pela transcriptase
reversa e DNA polimerase. Esse DNA é desnaturado e dois conjuntos de iniciadores são
adicionados. Se a seqüência específica estiver presente, os iniciadores se hibridizarão aos seus
terminais opostos. (Iniciadores específicos são produzidos com base na seqüência que se pro-
cura. Se é conhecida apenas a seqüência da proteína codificada pela mensagem, prepara-se um
conjunto de diferentes iniciadores, cada um possivelmente complementar ao DNA.) Usando
DNA polimerase termoestável de T. aquaticus, cada fita de DNA sintetiza seu complemento.
Essas fitas são, por sua vez, desnaturadas e os iniciadores são hibridizados a elas, iniciando o
ciclo novamente. Dessa maneira, o número de fitas novas com a sequência entre os dois
iniciadores aumenta exponencialmente.
sintetizando oligonucleotídeos que codificam o amino terminal da proteína e
oligonucleotídeos complementares aqueles que codificam o carboxi terminal da prote-
ína). Os finais 3' desses iniciadores estão face a face de modo que a replicação é
através do DNA alvo. Uma vez hibridizado o primeiro iniciador, a DNA polimerase
pode sintetizar uma nova fita.
89.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 69
Essa enzima não é a DNA polimerase normal de E. coli; é uma polimerase de
bactérias como Thermus aquaticus ou Thermococcus litoralis. Essas bactérias vivem Ovário de rato
Adulto
em fontes de água quente (como aquelas do Yellowstone National Park) ou nos respi- Ovário de camundongo
radouros térmicos de submarinos, onde a temperatura atinge valores próximos de
900C. Essas DNA polimerases podem suportar temperaturas próximas à ebulição e o Rim de camundongo
PCR se utiliza dessa adaptação evolucionária. Uma vez sintetizada a segunda fita, ela
Rim de camundongo
Embrião de 14 dias
é separada de seu complemento por desnaturação em alta temperatura. O segundo
iniciador é adicionado e agora ambas as fitas podem sintetizar novo DNA. Sucessivos Salivares de camundongo
ciclos de desnaturação e síntese amplificarão essa região do DNA de forma geométri-
ca. Após vinte turnos, aquela região específica estará amplificada 220 vezes (um pouco Pâncreas de camundongo
mais de um milhão). Quando submetido à eletroforese esse fragmento amplificado é Pulmão de camundongo
facilmente detectado. Isso mostra que o mRNA original com essa seqüência estava
presente na amostra. (A confirmação poderia ser feita por transferência Southern,
como na Figura 2.30). Além disso, pode-se usar essas cópias amplificadas para clona- Sem adição de DNA
gem, colocando-as em vetores de clonagem.
Figura 2.30
Determinando a função do gene: Evidência fornecida por PCR, para a síntese
de um fator de crescimento, activina, de ór-
células e organismos transgênicos gãos embrionários de camundongo. O mRNA
desses órgãos foi convertido em DNA e am-
Técnicas de inserção de DNA novo em uma célula plificado através de 20 ciclos de replicação.
Apesar de ser importante conhecer a seqüência de um gene e seu esquema temporo- O DNA foi submetido sucessivamente à ele-
espacial de expressão, o que é realmente crucial é conhecer a função daquele gene troforese e transferência Southern usando uma
no desenvolvimento. Técnicas recentes permitem estudar a função do gene, tirando sonda radioativa para uma parte do gene de
e repondo certos genes de células embrionárias. Pedaços de DNA clonados podem activina. mRNA de activina foi encontrado
ser modificados (se desejado), e colocados em células por vários meios. Uma técni- no ovário do camundongo adulto (como es-
ca muito direta é a microinjeção, na qual uma solução contendo o gene clonado é perado) e também em vários órgãos embrio-
nários. A possível função de activina nesses
cuidadosamente injetada no núcleo da célula (Capecchi, 1980). Essa é uma técnica
orgãos será discutida no Capítulo 17. (Corte-
especialmente útil para injetar genes em ovos recentemente fertilizados, pois os sia de O. Ritvos.)
núcleo haplóides do espermatozóide e do óvulo são relativamente grandes (Figura
2.31). Em transfecção, o DNA é incorporado diretamente na célula por incubação em
uma solução determinada onde a célula o incorpora. A probabilidade de incorpora-
ção de tal fragmento de DNA no cromossomo é relativamente pequena, sendo ne-
cessário misturar o DNA com outro gene que permite a sobrevivência das raras
células que o incorporaram, em condições de cultura onde as outras células são
destruídas (Perucho et al.,1980; Robins et al.,1981).
Outra técnica é a eletroporação, onde pulsos de alta voltagem “empurram” o DNA
para dentro da célula. Um método mais “natural” para introduzir genes na célula é
colocar o gene clonado em um elemento transponível ou vetor retroviral. Esses são
regiões móveis de DNA, de ocorrência natural, que podem ser integrados no genoma.
Retrovírus são vírus contendo RNA. Dentro da célula hospedeira eles produzem uma
cópia de seu DNA (usando sua própria transcriptase reversa); a cópia se transforma
em dupla fita e se integra em um cromossomo do hospedeiro. A integração é consuma-
da devido às duas seqüências idênticas (longas repetições terminais) nos terminais
do DNA retroviral. Vetores retrovirais são produzidos removendo os genes do
empacotamento viral (necessários para a saída dos vírus da célula) do centro de um
retrovírus de camundongo. Essa extração cria um sítio vazio onde outros genes po-
dem ser colocados. Usando enzimas de restrição apropriadas, o pesquisador pode
remover genes de um fago ou plasmídeo clonado e reinserir o gene em vetores retrovirais.
Retrovetores virais infectam células de camundongo com eficiência próxima de 100%.
Em Drosophila, novos genes podem ser introduzidos na mosca, via elementos P.
Essas seqüências de DNA, são elementos transponíveis de ocorrência natural que
podem ser integrados como vírus em qualquer região do genoma da Drosophila.
Ainda mais, eles podem ser isolados, e genes clonados inseridos no centro do elemen-
to P. Quando o elemento P recombinado é injetado em um oócito de Drosophila, ele
pode se integrar ao DNA e prover o embrião de um novo gene (Spradling e Rubin, 1982).
90.
70 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
Camundongos quiméricos
As técnicas descritas têm sido usadas recentemente para transferir genes para to-
das as células do embrião de camundongo (Figura 2.32). Durante o desenvolvimen-
to do camundongo existe um estágio onde somente estão presentes dois tipos de
células: as células externas, que formarão a porção fetal da placenta, e as células
internas, que darão origem ao próprio embrião. Essas células internas são chamadas
células embrionárias precursoras (células tronco), porque cada uma delas pode,
se isolada, gerar todas as células do embrião (Gardner, 1968; Moustafa e Brinster,
1972). Essas células podem ser isoladas do embrião de um camundongo e cultiva-
das. Uma vez em cultura, elas podem ser tratadas como descrito, de modo a incorpo-
rar novo DNA. A nova célula embrionária precursora (não somente o DNA, mas a
célula inteira) pode ser injetada em outro embrião de camundongo em fase precoce.
Assim, a célula precursora tratada estará integrada no embrião do hospedeiro. O
resultado é um camundongo quimérico*. Algumas de suas células são derivadas
das células embrionárias precursoras do hospedeiro, mas outra porção de células é
derivada também das células precursoras tratadas. Se as células tratadas se torna-
ram parte da linha germinal do camundongo, alguns dos seus gametas serão deriva-
dos da célula doadora. Quando cruzado com um camundongo do tipo selvagem,
alguns de seus descendentes levarão, portanto, uma cópia do gene inserido. Os
descendentes heterozigotos, no acasalamento produzirão 25% de embriões carre-
Figura 2.31 gando duas cópias do gene inserido em cada célula de seu corpo (Gossler et al.,1986).
Injeção de DNA (de genes clonados) em um
Assim, em três gerações — o camundongo quimérico, o camundongo heterozigoto
núcleo (neste caso, um pronúcleo de um ovo
de camundongo). (de Wagner et al.,1981, cor- e o camundongo homozigoto — um gene que foi clonado de um outro indivíduo,
tesia de T. E. Wagner.) está agora presente em ambas as cópias dos cromossomos dentro do genoma do
camundongo. Camundongos com genes estáveis de outros indivíduos são chama-
dos camundongos transgênicos. Essas linhagens têm sido particularmente úteis na
determinação das funções de regiões reguladoras que ladeiam os genes.
Experimentos com genes com endereçamento
(Gene targeting ou Knockout)
A análise de embriões precoces de mamíferos foi durante muito tempo prejudicada
pela dificuldade em criar e selecionar mutações que afetam a fase inicial do desen-
volvimento embrionário. Esse problema foi superado pela técnica chamada de
endereçamento de genes (às vezes, chamada de “Knockout”). As técnicas são simi-
lares àquelas que produzem camundongos transgênicos, mas em lugar de adicionar
genes, endereçar genes significa trocar alelos do tipo selvagem por outros mutados.
Chisaka e Capecchi (1991) usaram essa técnica para estudar a função do gene Hoxa-
3 no desenvolvimento do camundongo. Hoxa-3 é semelhante a vários genes de
Drosophila que são conhecidos como controladores da expressão gênica de seg-
mentos específicos no embrião precoce; a proteína codificada por Hoxa-3 liga-se ao
DNA, exatamente como sua correspondente na Drosophila. Seria possível que Hoxa-
3 de maneira similar estaria regulando a expressão gênica espaço-específica nos
mamíferos? Chisaka e Capecchi isolaram o gene Hoxa-3, cortaram-no com uma enzima
de restrição e inseriram nesse sítio um gene para resistência à neomicina (Figura
2.33). Em outras palavras, eles mutaram o gene Hoxa-3 pela inserção de um grande
pedaço de DNA que continha um gene resistente à neomicina, destruindo a habili-
dade da proteína Hoxa-3 em se ligar a DNA. Esses genes mutantes Hoxa-3 foram
eletroporados em células embrionárias precursoras que eram sensíveis à neomicina.
* É crítico notar a diferença entre uma quimera e um híbrido. Um híbrido resulta da união de dois
genomas diferentes dentro da mesma célula: o descendente de um genitor de genótipo AA e outro de
genótipo aa é um híbrido Aa. Uma quimera resulta quando células de constituição genética diferente
aparecem no mesmo organismo. O termo é apto: refere-se a um monstro mitológico com cabeça de
leão, corpo de bode e cauda de serpente.
91.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 71
Células embrionárias
precursoras
Gene clonado
no vetor
Cultura de células
Trofoblasto embrionárias precursoras
Mistura de células Seleção de células
embrionárias precursoras embrionárias precursoras
com o gene clonado que incorporaram o transgene
Microinjetar Integração das células Injetar no
células precursoras no hospedeiro útero
transgênicas no Camundongos
embrião hospedeiro quiméricos
Figura 2.32
Produção de camundongos transgênicos. Cé-
lulas embrionárias precursoras de um camun-
dongo são cultivadas e o genoma alterado pela
adição de um gene clonado. As células
transgênicas são selecionadas e injetadas em
um embrião hospedeiro de camundongo na sua
fase precoce. Aqui, as células embrionárias
Camundongos precursoras transgênicas se integram às celulas
transgênicos precursoras do hospedeiro. Esse embrião é
homozigotos colocado no útero de um camundongo fêmea
Camundongos
grávida e se desenvolve em um camundongo
transgênicos
heterozigotos quimérico. Se as células precursoras doadoras
contribuíram para a linha germinativa, e o ca-
mundongo quimérico é cruzado com um do
tipo selvagem, parte dos descendentes serão
Uma vez dentro do núcleo dessas células, o gene Hoxa-3 mutado substituiu um heterozigotos ao alelo adicionado. Cruzando
alelo normal desse gene por um processo chamado recombinação homóloga. Aqui, heterozigotos, pode ser gerada uma linhagem
de camundongos que é homozigota ao alelo
as enzimas envolvidas no reparo de DNA e replicação incorporam o gene mutante
adicionado. Essa seria uma linhagem transgê-
em lugar da cópia normal. Esse é um evento raro, mas tais células podem ser nica. O gene adicionado (o transgene) pode
selecionadas cultivando as células precursoras em neomicina. A maioria das células ser de qualquer fonte eucariótica.
morre com a droga, mas aquelas que adquiriram resistência pelo gene incorporado
sobrevivem. As células resultantes têm um gene Hoxa-3 normal e um Hoxa-3 mutado.
As células precursoras heterozigotas são microinjetadas em um blastócito de ca-
mundongo e se integram nas células do embrião. O camundongo resultante é uma
quimera composta de células do tipo selvagem do embrião hospedeiro e de células
heterozigotas Hoxa-3, das células precursoras. As quimeras são acasaladas com
camundongos do tipo selvagem e se algumas das células doadoras se integraram à
linhagem das células germinativas, alguns dos descendentes serão heterozigotos
92.
72 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
(A)
Massa
celular neo r
interna
Cultura de células
Blastócito embrionárias
precursoras (ES) Recombinação
Eletroporação homóloga
(B) Célula
gene Hoxa-3 precursora
embrionária
Hoxa-3
Endonucleases gene Hoxa-3 mutado
de restrição com o gene neor inserido
gene neor
Figura 2.33
Seleção de células ES
Técnica de endereçamento de genes (gene targeting). Nesse caso o gene alvo é o heterozigotas por sua
Hoxa-3. (A) Células embrionárias precursoras (ES) são cultivadas a partir de uma resistência à neomicína
massa celular interna. (B) Os genes Hoxa-3 clonados são cortados com uma enzima
de restrição, e um gene neomicina-resistente é inserido na região que codifica o sítio
de ligação da proteína ao DNA. Esses genes Hoxa-3 mutantes são eletroporados em
células ES, onde recombinação homóloga troca o gene do tipo selvagem pela cópia Injeção de células ES
mutada. As células são selecionadas pela sua resistência à neomicina. (C) As células heterozigotas no
(C)
blastócito
ES heterozigotas selecionadas são inseridas na massa interna de células de um em-
brião do tipo selvagem, e o blastócito é retornado ao útero. O camundongo resultante
é uma quimera composta de tecidos Hoxa-3 heterozigotos e tecidos Hoxa-3 do tipo
selvagem. Cruzando os animais quiméricos com camundongos do tipo selvagem
produz-se descendentes Hoxa-3 heterozigotos se as células ES contribuíram na
linhagem germinativa. Os animais heterozigotos podem ser cruzados entre si, e Injeção dos
aproximadamente 25% de sua cria deve ser de homozigotos mutantes de Hoxa-3. blastócitos no útero
Produção de
camundongos quiméricos
Cruzamento de
quiméricos com
tipo selvagem
Cruzamento de
camundongos
heterozigotos
Hoxa-3¯/ Hoxa-3+
Heterozigotos Heterozigotos
Hoxa-3¯/ Hoxa-3¯
Homozigoto
para o gene Hoxa-3. Os animais heterozigotos podem ser cruzados entre si, e apro-
ximadamente 25% de seus descendentes devem levar duas cópias do gene mutado
Hoxa-3. Esses camundongos mutantes homozigotos não possuem as glândulas
tireóide, paratireóide e timo! Dessa maneira, endereçando genes pode-se analisar as
funções de determinados genes durante o desenvolvimento de mamíferos.
[gene7.html]
93.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 73
Determinando a função de uma mensagem:
RNA antisense
Outro método para determinar a função de um gene é fazer cópias “antisense” de sua
mensagem. Mensagens antisense podem ser produzidas usando cDNA clonado e
fazendo sua reclonagem em reverso, próximo a um vigoroso promotor bacteriano, em
outro vetor. O promotor bacteriano iniciará a transcrição da mensagem na “direção
errada” quando for incubado com RNA polimerase e nucleosídeos trifosfato. Dessa
maneira, é sintetizado um transcrito que é complementar aquele natural (Figura 2.34A).
O transcrito complementar é chamado RNA antisense porque é o reverso da mensa-
gem original. Quando grandes quantidades de RNA antisense são injetadas ou
transfectadas em células contendo o mRNA normal desse gene, o RNA antisense se
liga à mensagem normal; o ácido nucléico dupla-fita resultante é degradado (enzimas Figura 2.34
do citoplasma das células digerem ácidos nucléicos de fita dupla). Isso causa uma Producão de RNA antisense para examinar a
depleção funcional da mensagem, como se houvesse uma mutação eliminatória para função dos genes no desenvolvimento. (A)
aquele gene. Produção da mensagem antisense (neste caso,
Esses resultados foram confirmados quando RNA antisense foi produzido a partir ao gene Krüppel da Drosophila) colocando o
fragmento de cDNA clonado para a mensagem
do gene Krüppel de Drosophila. Krüppel é crítico para a formação do tórax e do
Krüppel entre dois vigorosos promotores. Os
abdômen da mosca. Se esse gene está ausente, as larvas da mosca morrem pela falta promotores estão em orientação oposta com
dos segmentos torácico e abdominal anterior (Figura 2.34B); uma situação semelhante respeito ao cDNA do Krüppel. Nesse caso, o
é criada quando grandes quantidades de RNA antisense contra a mensagem Krüppel promotor T3 está em orientação normal e o
são injetados em embriões precoces da mosca (Rosenberg et al.,1985). RNA antisense promotor T7 está revertido. Os promotores
permite ao biologista do desenvolvimento determinar a função dos genes durante o reconhecem RNA polimerases diferentes (dos
desenvolvimento e analisar a ação dos genes em animais; de outra forma isso seria bacteriófagos T3 e T7, respectivamente). T3
inacessível à análise genética. polimerase permite a transcrição de mRNA de
consenso, ao passo que T7 polimerase pro-
duz transcritos antisense. (B) Resultado da
Reinvestigação de velhos problemas com novos métodos injeção da mensagem Krüppel antisense em um
embrião precoce (estágio blastodérmico
A união da embriologia com a biologia molecular está permitindo ao biologista do sincicial) de Drosophila antes que a mensa-
desenvolvimento uma nova apreciação de como trabalham os genes na construção de gem Krüppel seja produzida. A figura central é
um organismo. Estamos em meio à uma revolução nos nossos conhecimentos sobre um embrião do tipo selvagem pouco antes de
desenvolvimento, e um dos maiores sucessos resultantes de clonagens e eclodir. Acima está o mutante causado pela
seqüenciamentos é a nova “anatomia” do gene eucarioto. Descreveremos a estrutura falta do genes Krüppel. Abaixo está o embrião
do gene com mais detalhe no Capítulo 10, mas é importante ressaltar que os genes do tipo selvagem, injetado com a mensagem
Krüppel antisense no estágio embrionário pre-
eucariotos que codificam proteínas têm vários sítios regulatórios (Figura 2.35). Um
coce. Ambos os embriões, mutante e o tratado
sítio, o promotor, está localizado diretamente a montante do gene (antes do início) e é com antisense, não possuem os segmentos
torácico e abdominal anterior. (B, de acordo
(A) com Rosenberg et al., 1985.)
mRNA de consenso (B) Embrião mutante Krüppel
(sense) Krüppel
promotor
T7
mRNA
antisense Embrião normal
Krüppel
T3 RNA
T3 polimerase polimerase
promotor T7 RNA Embrião normal
infectado com RNA
“antisense” Krüppel
94.
74 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
o sítio onde se liga a RNA polimerase. Localizada em algum lugar dentro do gene (a
jusante ou a montante, ou ainda em um íntron dentro do gene), está uma segunda
região chamada intensificadora. Fatores protéicos que se ligam ao intensificador per-
mitem sua interação com o promotor e, conseqüentemente, com a transcrição do gene
pela RNA polimerase. Alguns promotores (como aqueles usados por produtos relaci-
onados ao metabolismo geral da célula) não precisam ser ativados por intensificado-
res, mas a maioria dos genes ligados ao desenvolvimento são ativados em tempos e
células específicos. Esses genes precisam ser ativados por fatores que se ligam ao
intensificador e ao promotor. Como veremos no Capítulo 10, a ligação de diferentes
fatores de transcrição aos promotores e intensificadores de genes específicos é um
dos mecanismos que controlam a produção de proteínas diferentes a partir de genomas
idênticos. Um exemplo é a ativação do gene para ZP3.
Como detalharemos no Capítulo 4, ZP3 é a principal proteína ligante de espermato-
zóide na superfície do óvulo de camundongo. É uma glicoproteína sintetisada pelo
oócito durante sua maturação em óvulo (Roller et al.,1989). Uma transferência Northern
mostra que o mRNA para essa proteína é sintetizado somente em oócitos em cresci-
mento e não pode ser detectado em nenhum outro tipo de célula (Figura 2.36). O que
permite a esse gene ser ativado somente nos oócitos? Lira e colaboradores (1990)
isolaram o gene para ZP3, determinaram sua seqüência e encontraram um sítio promo-
tor, 28 pares de bases a montante do sítio onde a transcrição do gene é iniciada. Como
hipótese, consideraram que seqüências responsáveis por ativação oócito-específica
podem existir até mais longe, a montante do gene. Eles usaram enzimas de restrição
para isolar o DNA da região 5', a montante, (com 150 pares de bases) e o fundiram ao
gene para a luciferinase de vaga-lume. (Não é necessário dizer que essa enzima produ-
tora de luz não é encontrada em camundongos. Está sendo usada aqui como um “gene
repórter” para monitorar onde o DNA a montante pode causar sua expressão.) O gene
recém-construído, contendo a região a montante do gene ZP3 ligada ao gene estrutu-
ral para luciferinase, foi injetado em zigotos de camundongo para criar animais
transgênicos, levando em cada núcleo o gene luciferinase com a região regulatória
ZP3. Em camundongos transgênicos fêmeas, a hibridização in situ localizou mRNA de
luciferinase em um único tipo de célula, o oócito (Figura 2.37). Assim, a seqüência de
DNA com 150 pares de bases foi necessária e suficiente para ativar o gene (qualquer
gene!) no oócito. Dentro dessa região de 150 pares de bases (de 99 a 86 pares de bases
a montante do gene estrutural ZP3) existe a seqüência 5’-GATAA-3' que liga uma
proteína chamada OSP-1. OSP-1 é encontrada somente em oócitos em maturação; ela
ativa o gene ZP3 ligando-se a essa sequência de DNA no promotor. Parece, então, que
ZP3 é sintetizado em oócitos porque eles têm a proteína OSP-1 que se liga a certas
seqüências de DNA que são parte de seu promotor (Schickler et al.,1992). No momen-
to, está sendo investigado como é regulado o gene codificador de OSP-1.
Figura 2.35
Estrutura básica de um gene regulado pelo de-
senvolvimento. O promotor da maioria dos
genes codificadores de proteínas é encontrado
no terminal 5' (a montante) do gene. O intensi-
ficador freqüentemente está mais acima, a mon-
tante, mas pode ser encontrado dentro de um Intensificador
íntron ou no terminal 3'. Proteínas que se li- Promotor Éxon Íntron Éxon Íntron Éxon
gam ao promotor e aos intensificadores
interagem para regular a transcrição do gene.
(No exemplo ZP3, o sítio OSP-1, GATAA,
está localizado no promotor, aproximadamen-
te 95 pares de bases a montante do sítio de Intensificador Intensificador
início da transcrição. Um sítio intensificador
sensível a estrogênios é encontrado no primei- “a montante “a jusante”
ro íntron do gene ZP3.) do gene” do gene
95.
CAPÍTULO 2 Genese Desenvolvimento 75
Figura 2.36 Oócito
Transferência Northern de RNA de ZP3 acumulado no camundongo. RNA de vários tecidos
Ovário
(10µg por pista) e oócitos (125ng) foram submetidos à eletroforese e transferidos para papel de
nitrocelulose. Um fragmento radioativamente marcado do gene ZP3 foi usado como sonda do Cérebro
mRNA. A mensagem ZP3 foi encontrada somente no ovário, especialmente dentro dos oócitos. Embrião de 13 dias
(de Roller et al.,1989, cortesia de P. Wassarman).
Coração
Intestino
Rim
Uma conclusão e um alerta
Fígado
Depois de quase um século, estamos começando a entender como as células regulam Músculo
a expressão diferenciada de seus genes, permitindo que genes diferentes possam se Testículos
tornar ativos em diferentes células. Esse conhecimento está ajudando a explicar como Útero
a informação herdada é utilizada para construir os planos básicos do corpo e os tipos
específicos de células do organismo em desenvolvimento.
Entretanto, uma palavra de alerta. Caso o tom celebratório deste capítulo deixou a
impressão de que desenvolvimento é somente uma função da atividade gênica é
necessário relembrar do Capítulo 1, que a distinção entre talo e esporo (Dictyoste-
lium), estado amebóide e flagelado (Naegleria) e gonídios sexual e assexual (Volvox)
é determinada pelo ambiente. Em capítulos posteriores (especialmente Capítulo 21),
veremos outros exemplos do controle ambiental do desenvolvimento: determinação
de sexo temperatura-dependente em répteis, desenvolvimento em insetos dependente
da dieta, e a diferenciação, dependente de experiência, dos neurônios e linfócitos em
mamíferos. Nesses casos o organismo herda a habilidade para responder aos sinais
do ambiente, mas não é possível predizer o fenótipo a partir do genótipo.
(A) (B)
Figura 2.37
Hibridização in situ da expressão do gene repórter luciferinase, quando luciferinase foi
ligado ao promotor do gene ZP3. A sonda radioativa era dirigida à mensagem luciferinase,
a qual apareceu onde foi expressa sob a direção do promotor de ZP3. (A) Visão do
ovário inteiro (60x). (B) Magnificação (160x) de dois folículos ovarianos contendo
oócitos em maturação. (de Lira et al., 1990, cortesia de P. Wassarman.)
96.
76 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
LITERATURA CITADA
Allen, G. E. 1978. Thomas Hunt Morgan: The Brush, S. 1978. Nettie Stevens and the discovery Gilbert, S. F. 1991. Induction and the origins
Man and His Science. Princeton University of sex determination. Isis 69: 132-172. of developmental genetics. In S. Gilbert
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99.
A base celularda morfogênese:
Afinidade celular diferencial
3
Mas a natureza não é atomizada. Sua pa-
dronização é inerente e primária, e a ordem
subjacente à beleza é nela demonstrada; mais
ainda, a natureza só pode ser percebida pela
mente humana, porque ela mesmo é parte
U m corpo não é meramente uma coleção de tipos de células distribuídas ao
acaso. Desenvolvimento envolve não só a diferenciação celular, mas tam-
bém sua morfogênese em arranjos multicelulares tais como tecidos e órgãos.
Quando observamos a anatomia detalhada de um tecido como a retina neural, vemos
um arranjo preciso e intrincado de muitos tipos diferentes de células. Neste Capítulo,
integrante e majoritária daquela ordem. introduziremos as vias de mudança pelas quais as células do embrião em desenvolvi-
Paul Weiss (1960) mento criam órgãos funcionais do corpo. Existem quatro questões majoritárias partici-
pando do arcabouço de discussões sobre morfogênese:
Eu fui criado terrivelmente e maravilhosa-
• Como se formam tecidos a partir de células? De que modo células da retina
mente. Salmo 139 (ca. 500 a.c).
neural aderem a outras células da retina neural e não se associam às celulas da
retina pigmentada ou da íris que estão próximas a elas? De que modo, os vários
tipos de células presentes na retina neural (as três camadas distintas de fotore-
ceptores, neurônios bipolares e células ganglionares) estão organizados para
permitir que a retina seja funcional?
• Como são os órgãos construídos a partir de tecidos? As células retinais do
olho estão situadas atrás da córnea e da lente a uma distância exata. A retina
seria inútil se estivesse situada atrás de um osso ou outro lugar qualquer, onde
a lente não pudesse nela focalizar os raios de luz. Além disso, os neurônios da
retina devem penetrar no cérebro para inervar as regiões do córtex cerebral que
analisam a informação visual. Todas essas conexões devem estar precisamente
ordenadas.
• Como células migrantes atingem seu destino, e como se formam órgãos em
determinados locais? Olhos se desenvolvem na cabeça, mas em nenhum ou-
tro lugar. O que impede a formação de um olho em outras partes do corpo, se
todas as células têm o mesmo potencial genético? Em alguns casos, como o de
precursores de nossas células pigmentadas, células germinativas e glândula
supra-renal, as células devem percorrer longas distâncias para alcançar seu
destino final. Como as células são instruídas para percorrer certas rotas e parar
quando atingem uma região específica do corpo?
• Como crescem órgãos e suas células, e como é esse crescimento coordenado
ao longo do desenvolvimento? As células do olho devem crescer juntas, e as
células da retina raramente dividem-se após o nascimento. Nosso intestino,
entretanto, está constantemente descartando células e regenerando outras, e
79
100.
80 PARTE I Introdução à Biologia do Desenvolvimento
ainda assim, sua velocidade mitótica é cuidadosamente controlada. Se mais
células fossem regeneradas do que aquelas descartadas, seriam produzidos
crescimentos cancerosos. Se o número de células regeneradas fosse menor, o
intestino não poderia digerir o alimento. O que controla essas diferenças na
velocidade de crescimento?
Todas essas perguntas se referem a aspectos do comportamento celular. Existem
dois grupos principais de células no embrião: células epiteliais, fortemente ligadas
umas às outras em camadas ou tubos, e as células mesenquimatosas, isoladas e
funcionando como unidades individuais. A morfogênese nessas duas classes de célu-
las se dá através de um limitado repertório de processos celulares: (1) direção e núme-
ro de divisões celulares; (2) mudanças na forma das células; (3) movimento celular; (4)
crescimento celular; (5) morte celular; e (6) mudanças na composição da membrana
celular e da matriz extracelular. A maneira pela qual esses processos se completam
pode diferenciar entre células epiteliais e mesenquimatosas (Figura 3.1).
Parecem existir duas vias principais pelas quais células se comunicam umas com as
outras para que se efetue a morfogênese. A primeira é através de substâncias difusíveis
que são sintetizadas por um tipo de célula e que mudam o comportamento de outros
tipos celulares. Essas substâncias incluem hormônios, fatores de crescimento e
morfógenos; cada um será detalhado em capítulos subseqüentes. O segundo método
involve contato entre superfícies de células adjacentes. Células podem seletivamente
reconhecer outras, aderindo a algumas células ou migrando sobre outras. Os eventos
moleculares que intermediam o reconhecimento seletivo de células e sua transforma-
ção em tecidos e órgãos, ocorrem na superfície celular. Enquanto o paradigma domi-
nante na genética do desenvolvimento é a expressão diferencial do gene, o paradigma
dominante na morfogênese envolve afinidade celular diferencial. Essas afinidades
podem ser para superfícies de outras células ou para moléculas da matriz extracelular
secretadas pelas células. Neste capítulo veremos como superfícies de células adjacen-
tes interagem durante o desenvolvimento, visando localizar as células em sítios apro-
priados dentro de tecidos e órgãos.
Afinidade celular diferencial
Assim como a demonstração da importância dos genes no desenvolvimento gerou
desentendimentos entre pesquisadores, também se desenvolveu um debate sobre o
papel da superfície celular na formação do embrião. A superfície celular parece a mes-
ma em todos tipos de células, e muitos pesquisadores mais antigos pensavam até que
a superfície celular não era uma parte vital da célula. Observações sobre fecundação e
desenvolvimento embrionário precoce feitas por E. E. Just (1939) sugeriam que a
superfície celular diferia em tipos diferentes de células, mas a análise moderna da
morfogênese se inicia com os experimentos de Townes e Holtfreter em 1955. Conside-
rando a descoberta de que tecidos de anfíbios se dissociavam em células isoladas
quando colocados em soluções alcalinas, eles prepararam suspensões de células
isoladas provenientes de cada uma das três camadas germinativas dos anfíbios, logo
após a formação do tubo neural. Duas ou mais dessas suspensões de células isoladas
poderiam ser combinadas de várias maneiras, e quando o pH era normalizado, as
células aderiam umas às outras, formando agregados em placas de Petri cobertas com
agár. Usando embriões de espécies que tinham células de diferentes tamanhos e co-
res, Townes e Holtfreter conseguiram observar o comportamento das células
recombinadas (Figura 3.2).
Figura 3.1 ±
Sumário dos principais processos morfogenéticos em células mesenquimatosas e epiteliais