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Luiz Carlos de Freitas




            ELIMINAÇÃO ADIADA: O OCASO DAS CLASSES
    POPULARES NO INTERIOR DA ESCOLA E A OCULTAÇÃO
                     DA (MÁ) QUALIDADE DO ENSINO

                                                                 LUIZ CARLOS DE FREITAS*



       RESUMO: Neste estudo faz-se uma crítica às formas de implementar
       políticas de avaliação baseadas em “responsabilização”, em curso no
       MEC-INEP, bem como se propõe uma forma alternativa de lidar com
       o problema, baseada em “qualidade negociada” com envolvimento
       bilateral do Estado e da escola. Propõem-se elementos iniciais para
       uma política de Estado no campo da avaliação e localiza-se o proces-
       so de avaliação institucional da escola como o elo entre a avaliação ex-
       terna de sistema e a escola e seus profissionais. Alerta-se para o fato de
       que as políticas de responsabilização unilaterais conduzirão à confi-
       guração de escolas para pobres e escolas para ricos, bem como se aler-
       ta para o risco de que os sistemas de avaliação externa centralizados
       na Federação ocultem, em indicadores estatísticos como o IDEB, as di-
       ficuldades que as classes populares estão tendo para aprender no in-
       terior da escola, legitimando estratégias que somente conduzem ao
       adiamento da exclusão destas – apesar do discurso da transparência
       e responsabilidade.
       Palavras-chave: Eliminação adiada. Avaliação institucional. Avaliação
                       de sistema. Responsabilização. Qualidade negociada.

        DEFERRED ELIMINATION: THE TWILIGHT OF THE POPULAR CLASSES WITHIN
         SCHOOLS AND THE CONCEALMENT OF THE (BAD) QUALITY OF TEACHING

       ABSTRACT: This study criticizes the ways MEC-INEP is implement-
       ing assessment policies based on “responsabilization”. It also pro-
       poses an alternative form to deal with the problem based on “nego-
       tiated quality” in a bilateral involvement of the State and school. It
       suggests initial elements for a State policy in the field of assessment



*    Pós-doutor em Educação e professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Esta-
     dual de Campinas (UNICAMP). E-mail: freitas.list@uol.com.br



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Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola...



        and sees the process of the institutional assessment of school as the
        link between the external assessment of system and school and its
        professionals. It alerts to the fact that unilateral responsabilization
        policies will lead to configure schools for the poor and schools for
        the rich. It also highlights the risk that the external assessment sys-
        tems centralized at government level conceal, with such statistical in-
        dicators as the IDEB, the difficulties faced by the popular classes to
        learn within school, and legitimate strategies that only lead to defer-
        ring their exclusion – despite a discourse of transparency and re-
        sponsibility.
        Key words: Deferred elimination. Institutional assessment. System as-
                   sessment. Responsabilization. Negotiated quality.



       surpresa, em matéria de avaliação do ensino fundamental, neste
       momento, fica por conta do aprofundamento das políticas libe-
       rais da era FHC sob o governo de Luis Inácio Lula da Silva. Os
que nele votamos esperávamos, já no primeiro mandato, uma mudan-
ça significativa de rota. Não ocorreu. Agora, assistimos à sua conversão
plena às propostas liberais de “responsabilização” e de privatização do
público.1 A Prova Brasil e o Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (IDEB) (Fernandes, 2007b) são a ponta do iceberg desta mesma
concepção. Ao passo que a política de avaliação do ensino superior, com
a eliminação do Provão e a constituição do SINAES, parece caminhar no
rumo certo, a política de avaliação do Ensino Fundamental envereda
por caminhos duvidosos.
       Segundo Reynaldo Fernandes, atual presidente do INEP, conside-
rado o mentor do IDEB:

        Antes do No Child Left Behind [lei aprovada em 2002, no governo
        Bush, que visa à melhoria da qualidade da educação por meio de um sis-
        tema de prestação de contas baseado em resultados], a maioria dos Es-
        tados já tinha sistema de avaliação. Nos que primeiro criaram um siste-
        ma, a evolução do desempenho dos alunos foi mais acentuada. Esses sis-
        temas fazem com que as escolas e os dirigentes dos sistemas (secretários,
        prefeitos e governadores) se sintam responsáveis pelo desempenho. É a
        idéia da responsabilização, de accountability. (Fernandes, 2007a, grifos
        meus)
        Segundo Araújo, ex-presidente do           INEP:



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       Todo o PDE [Plano de Desenvolvimento da Educação] está ancorado jus-
       tamente na criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Brasi-
       leira – IDEB, que pondera os resultados do SAEB, da Prova Brasil e dos in-
       dicadores de desempenho captados pelo censo escolar (evasão, aprova-
       ção e reprovação). Cria um indicador que varia de zero a dez, desdobrável
       por estado e por município e por redes de ensino [e agora por escola]. A
       partir da construção do IDEB , o MEC vinculará o repasse de recursos
       oriundos do FNDE à assinatura de compromisso dos gestores municipais
       com determinadas metas de melhoria dos seus indicadores ao longo de
       determinado período. (2007, p. 1; comentários entre colchetes meus)
       A estratégia de relacionamento com os municípios é gerencial,
estabelecendo uma relação direta com governadores e prefeitos. Segun-
do Amaury Patrick Gremaud, diretor de Avaliação da Educação Básica
do INEP: “O objetivo é usar o sistema de avaliação para prestar conta à
sociedade, introduzir a transparência e comprometer as pessoas de um
modo geral em busca da melhoria da qualidade de ensino” (Seminário
realizado em Salvador, em julho de 2007; grifos meus).2 Araújo (2007,
p. 4) tem outra posição:
       Por isso concluo que o IDEB é mais um instrumento regulatório do que um
       definidor de critérios para uma melhor aplicação dos recursos da União vi-
       sando alterar indicadores educacionais. O resultado de cada município e
       de cada estado será (e já está sendo) utilizado para ranquear as redes de
       ensino, para acirrar a competição e para pressionar, via opinião pública, o
       alcance de melhores resultados. Ou seja, a função do MEC assumida pelo
       governo Lula mantém a lógica perversa vigente durante doze anos de FHC.
       Já no final do ano de 2002, ainda sob o Governo FHC, o INEP finan-
ciava um convênio com o Núcleo de Estudos da População (NEPO), da
UNICAMP, para desenvolver Indicadores de Produtividade do Sistema Educaci-
onal que envolveu a realização de um seminário sobre um possível Indi-
cador Municipal de Desenvolvimento Educacional (IMDE) para o ensino mé-
dio regular (Cunha et al., 2002).
       Boa parte dos problemas que estamos enfrentando com a educa-
ção básica nacional advém do próprio formato ideológico do projeto
liberal hegemônico, agora “sob nova direção”: ele reduz qualidade a
acesso – supostamente como uma primeira etapa da universalização.
Mas, antes de ser uma etapa em direção à qualidade plena da escola
pública, é um limite ideológico, como bem aponta Alavarse (2007).
Os liberais admitem a igualdade de acesso, mas como têm uma ideologia


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baseada na meritocracia, no empreendedorismo pessoal, não podem
conviver com a igualdade de resultados sem competição. Falam de igual-
dade de oportunidades, não de resultados.3
        Para eles, os resultados dependem de esforço pessoal, uma variá-
vel interveniente que se distribui de forma “naturalmente” desigual na
população, e que deve ser uma retribuição ao acesso permitido. Eles
não podem aceitar que uma espécie de “acumulação primitiva” (Marx)
ou um ethos (Bourdieu) cultural sequer interfira com a obtenção dos
resultados do aluno. Se aceitassem, teriam de admitir as desigualdades
sociais que eles mesmos (os liberais) produzem na sociedade e que en-
tram pela porta da escola. Isso faz com que a tão propalada eqüidade
liberal fique, apesar dos discursos, limitada ao acesso ou ao combate
dos índices de reprovação. Como a progressão continuada já demons-
trou, ausência de reprovação não é sinônimo de aprendizagem e qualidade
(Cf. Bertagna, 2003).
        Como analisamos em outro artigo (Freitas, 2002), esta postura
tende a postergar os problemas políticos, econômicos e sociais que o
liberalismo enfrenta com sua política econômico-social, mas não resol-
ve o problema da universalização da qualidade da educação básica.
        Há hoje um grande contingente de alunos procedentes das ca-
madas populares que vivem o seu ocaso no interior das escolas, desacre-
ditados nas salas de aula ou relegados a programas de recuperação, ace-
leração,4 progressão continuada e/ou automática, educação de jovens e
adultos, pseudo-escolas de tempo integral, cuja eliminação da escola
foi suspensa ou adiada e aguardam sua eliminação definitiva na passa-
gem entre ciclos ou conjunto de séries, quando então saem das estatís-
ticas de reprovação, ou em algum momento de sua vida escolar onde a
estatística seja mais confortável.
        A Prova Brasil e os usos previstos para ela (acesso à avaliação de
cada escola via internet, por exemplo), como forma de responsabili-
zação, poderiam fazer parte de qualquer programa liberal (do Partido
Democrata brasileiro até o Partido Republicano de Bush, para não fa-
lar da dobradinha Thatcher/Blair). Trabalham dentro da perspectiva de
que “responsabilizar a escola”, expondo à sociedade seus resultados, irá
melhorar a qualidade do ensino. A idéia completa dos republicanos de
Bush (iniciada com Reagan) ou dos conservadores de Thatcher implica,
no momento seguinte à divulgação dos resultados por escola, transformar


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o serviço público em mercado (ou mais precisamente em um quase-
mercado), deslocando o dinheiro diretamente para os pais, os quais es-
colhem as melhores escolas a partir da divulgação desses resultados, de
preferência estando as escolas sobre administração privada. É a política
dos “vouchers”, que dá o dinheiro aos pais e não à escola. Paralelamen-
te, tende a criar um mercado educacional para atender ao fracasso es-
colar. No Brasil já se criou o mecanismo para iniciar a privatização: Or-
ganizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) que podem
administrar escolas antes públicas. Para os liberais, a ação do mercado
forçaria à elevação da qualidade de ensino.
       Todas estas ações encobrem o pano de fundo mencionado antes:
nossa sociedade produz tamanha desigualdade social que as institui-
ções que nela funcionam, se nenhuma ação contrária for adotada, aca-
bam por traduzir tais desigualdades como princípio e meio de seu fun-
cionamento (Bourdieu & Passeron, 1975; Baudelot & Establet,
1986). 5 Todos concordamos em que isso não é desejável, mas meras
políticas de eqüidade apenas tendem a ocultar o problema central: a
desigualdade socioeconômica. Não é sem razão que os melhores desem-
penhos escolares estão nas camadas com melhor nível socioeconômico,
brancas (Cf. Miranda, 2006, entre outros estudos disponíveis).
       Isso não significa que todas as escolas não tenham de ser eficazes
em sua ação. Muito menos que as escolas que atendem à pobreza este-
jam desculpadas por não ensinarem, já que têm alunos com mais difi-
culdades para acompanhar os afazeres da escola. Ao contrário, delas se
espera mais competência ainda. Mas os meios e as formas de se obter
essa qualidade não serão efetivos entregando as escolas à lógica
mercadológica. A questão é um pouco mais complexa. Deixada à lógi-
ca do mercado, o resultado esperado será a institucionalização de esco-
la para ricos e escola para pobres (da mesma maneira que temos celu-
lares para ricos e para pobres). As primeiras canalizarão os melhores
desempenhos, as últimas ficarão com os piores desempenhos. As pri-
meiras continuarão sendo as melhores, as últimas continuarão sendo
as piores. Mas o sistema terá criado um corredor para atender as clas-
ses mais bem posicionadas socialmente, o que será, é claro, atribuído
ao mérito pessoal dos alunos e aos profissionais da escola.
       O atual presidente do INEP não ignora estes problemas, antes os
conhece. Diz ele:


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        Quando se cria um sistema de avaliação e passa a haver responsabilização
        pelos resultados, os gestores vão se preocupar com as notas e as metas.
        Qual é a defesa desse sistema: se existe um mecanismo para atribuir res-
        ponsabilidades, os gestores vão melhorar o ensino. Quais são as críticas?
        Eles podem tentar falsear as notas, excluir os alunos mais fracos. Nos Es-
        tados Unidos, isso aconteceu. Esses argumentos não têm como ser
        revidados. Mas não pode deixar de dar um “remédio” para a educação
        por causa dos efeitos colaterais que ele pode causar. Temos de ver se é
        melhor ou pior para a qualidade da educação. Acho que é melhor. Os
        efeitos colaterais devem ser combatidos. Quando a primeira-ministra
        Margareth Thatcher fez a reforma educacional, diziam que era uma vi-
        são de direita. Quando o Tony Blair se tornou primeiro-ministro, acre-
        ditavam que ele suspenderia a reforma. Mas ele a reforçou e combateu
        os “efeitos colaterais”. Criou um programa de combate à exclusão dos pi-
        ores estudantes, e as expulsões de alunos diminuíram absurdamente.
        (Fernandes, 2007a)

       Como se vê, a exclusão da pobreza é “efeito colateral” de “remé-
dios” e Margareth Thatcher estava certa. Lá como cá, o governo pro-
gressista, que deveria ter revertido as políticas neoliberais, não o fez.
Para o presidente do INEP, Tony Blair está certo em não reverter as polí-
ticas de Thatcher, portanto concluo que Lula também está certo em
não reverter e aprofundar as políticas da era FHC. Agora, sobre o êxito
das experiências do Governo Bush no âmbito da educação, há contro-
vérsias. No The New York Times de 16 de abril de 2004 pode-se ler:

        A competição entre escolas públicas e privadas que o governo Bush está
        encorajando esquentou outro dia, na porta da sala 207, da Escola Ele-
        mentar Wentworth, em Chicago. Durante vários meses, uma empresa
        privada financiada pelo governo federal enviou professores para darem
        aulas complementares a alguns alunos de Wentworth. Sem sucesso, o
        professor tentava controlar uma dezena de bagunceiros. A empresa en-
        viou um supervisor para resolver a questão. Effie McHenry, diretora de
        Wentworth, balançava a cabeça com ar de desaprovação. “Simplesmen-
        te não acho que eles estão preparados para lidar com as crianças das zo-
        nas mais pobres”, disse McHenry sobre os professores da empresa. “Acho
        que esperavam encontrar crianças sentadas, esperando explicações. Essas
        crianças não são assim. Elas precisam de instrução com desafios”.

      O Chile, laboratório de idéias neoliberais, discute há anos como
aumentar o valor do repasse às escolas que aceitam alunos pobres para
motivar as escolas melhores a recebê-los, em face da desmotivação destas


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para com esses alunos.6 Pobres costumam derrubar as proficiências mé-
dias...
        O verdadeiro limite à universalização da melhoria da qualidade
da escola é a própria ideologia meritocrática liberal. Caso a avaliação se
coloque a serviço dela, então ficará limitada à medição do mérito e à
ocultação da desigualdade social sob a forma de indicadores “neutros”
como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) criado
pelo MEC.
        Embora nível socioeconômico seja um nome elegante e dissimu-
lador das situações de desigualdade social, ele é fundamental para se en-
tender o impacto dessa desigualdade social na educação. Nem todas as
camadas sociais sofrem da mesma forma com as agruras da realidade es-
colar do país – as camadas populares sofrem mais.
        Durante muito tempo duas vertentes se opuseram no cenário edu-
cacional: uma tentando explicar o fracasso escolar por fatores pedagógi-
cos internos à escola, e outra tentando explicar o mesmo fracasso por fa-
tores externos à escola, sociais. Como é comum acontecer nesses casos,
nenhuma delas, isoladamente, dá conta do fenômeno. A dialética se im-
põe. As duas causas são pertinentes na explicação do fracasso. Se isso é
verdadeiro, as políticas de eqüidade devem ser associadas às políticas de
redução e eliminação das desigualdades sociais, fora da escola. Isso im-
plica continuar a produzir a crítica do sistema social que cerca a escola,
além de introduzir a importância do nível socioeconômico como variável
relevante nas análises de avaliação do desempenho do aluno e da escola.
        É importante saber se a aprendizagem em uma escola de perife-
ria é baixa ou alta. Mas fazer do resultado o ponto de partida para um
processo de responsabilização da escola via prefeituras leva-nos a expli-
car a diferença baseados na ótica meritocrática liberal: mérito do dire-
tor que é bem organizado; mérito das crianças que são esforçadas; mé-
rito dos professores que são aplicados; mérito do prefeito que deve ser
reeleito etc. Mas e as condições de vida dos alunos e professores? E as
políticas governamentais inadequadas? E o que restou de um serviço
público do qual as elites, para se elegerem, fizeram de cabide de em-
prego generalizado, enquanto puderam, sem regras para contratação
ou demissão? O que dizer da permanente remoção de professores e es-
pecialistas a qualquer tempo, pulando de escola em escola? O que di-
zer dos professores horistas que se dividem entre várias escolas? O que


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dizer dos alunos que habitam as crescentes favelas sem condições mí-
nimas de sobrevivência e muito menos para criar um ambiente propí-
cio ao estudo? Sem falar do número de alunos em sala de aula.
       Diante deste quadro, escolher apenas uma variável, desempenho
do aluno, para analisar a educação básica brasileira, como o IDEB faz, é
certamente temerário em face deste complexo de variáveis. Como aler-
ta Araújo (2007), parece que o governo não aprendeu nada com o fi-
nado Provão.
       No próprio censo escolar que as escolas enviam ao MEC existem
outras variáveis que poderiam ser levadas em conta e permitir uma mo-
delagem melhor da realidade.

Novas formas de exclusão
      Nossa preocupação vai mais além. Diz respeito ao aparecimen-
to de novas formas de exclusão que estão sendo implementadas nos
sistemas e sobre as quais temos pouco controle e conhecimento. Con-
tinuamos raciocinando em termos de reprovação, forma antiga de ex-
clusão que coexiste, agora, com outras mais recentes desenvolvidas nos
sistemas.
      Em 1991 (Freitas, 1991) propusemos o conceito de “eliminação
adiada” para identificar uma das situações geradas no processo de ex-
clusão das camadas populares do interior da escola: o conceito referia-
se à permanência dos alunos dessas camadas na escola durante algum
tempo, postergando sua eliminação da escola e realizando-a em outro
momento mais oportuno. Bourdieu e Champagne (apud Bourdieu,
2001, p. 221) chamaram esta categoria de “exclusão branda”:
        Seria necessário mostrar aqui, evitando encorajar a ilusão finalista (ou, em
        termos mais precisos, o “funcionalismo do pior”), como, no estado com-
        pletamente diferente do sistema escolar que foi instaurado com a chega-
        da de novas clientelas, a estrutura da distribuição diferencial dos bene-
        fícios escolares e dos benefícios sociais correlativos foi mantida, no essen-
        cial, mediante uma translação global de distâncias. Todavia, com uma di-
        ferença fundamental: o processo de eliminação foi diferido e estendido no
        tempo, e por conseguinte, como que diluído na duração, a instituição é
        habitada, permanentemente, por excluídos potenciais que introduzem nela
        as contradições e os conflitos associados a uma escolaridade cujo único
        objetivo é ela mesma. (Grifos meus)


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       (...) eis aí um dos mecanismos que, acrescentando-se à lógica da trans-
       missão do capital cultural, fazem com que as mais altas instituições es-
       colares e, em particular, aquelas que conduzem às posições de poder
       econômico e político, continuem sendo exclusivas como foram no pas-
       sado. E fazem com que o sistema de ensino, amplamente aberto a todos
       e, no entanto, estritamente reservado a alguns, consiga a façanha de reu-
       nir as aparências da “democratização”. (p. 223; grifos meus)

       Esta parece ser a base da construção das novas formas de exclu-
são nos anos de 1990, que agora atuam longitudinalmente, por den-
tro do sistema, sem necessidade de excluir fisicamente o aluno no iní-
cio da escola básica, por reprovação. Os processos de avaliação informal
vão construindo “trilhas de progressão diferenciadas” no interior das sa-
las de aula e das escolas.7 Do ponto de vista do sistema, a exclusão foi
internalizada a custos menores – tanto econômicos como políticos (cf.
Freitas, 2002).
       As novas formas de exclusão atuam agora por dentro da escola fun-
damental. Adiam a eliminação do aluno e internalizam o processo de
exclusão. Do ponto de vista da avaliação, essas novas formas de exclu-
são levam a uma redução da ênfase na avaliação formal e pontual do
aluno em sala de aula (introduzem novas formas de organização esco-
lar: progressão continuada, progressão automática, ciclos etc., e novas
formas de avaliação informais), liberando o fluxo de alunos no interior
da escola e conduzindo ao fortalecimento do monitoramento por ava-
liação externa, avaliação de sistema centralizada (Prova Brasil, SAEB ,
SARESP, SIMAVE etc.). Nesses sistemas de avaliação o desempenho indivi-
dual é subsumido nas estatísticas que lidam, preferencialmente, com
tendências globais dos sistemas de ensino ao longo do tempo, a partir
da proficiência média dos alunos.
       O mais grave é o fortalecimento da idéia de que seria possível,
a partir de sistemas de larga escala centralizados em Brasília ou em
uma capital, reorientar escolas específicas, a distância, por exposição
dos resultados à sociedade e acordos com prefeitos. Pode-se imagi-
nar a pressão autoritária, verticalizada, que os acordos assinados en-
tre os prefeitos e o governo federal, para assumir metas do IDEB para
seu município e obter verbas, vão gerar nas escolas e em seus profis-
sionais. Não deveria ser este o papel da avaliação em larga escala ou
de sistema, como veremos mais adiante, a qual deveria ser destinada,


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preferencialmente, à avaliação das próprias políticas públicas e não das
escolas. Para o presidente do INEP: “O dia em que um prefeito perder
a eleição porque foi mal na educação, não cumpriu as metas, aí esta-
remos no caminho correto. O aluno não pode ser punido” (Fernandes,
2007a).
        Muito antes disso, os prefeitos implantarão progressão continu-
ada e liberarão o fluxo no sistema. Depois, contratarão sistemas priva-
dos de ensino (do tipo Objetivo, COC etc.) para enquadrar a metodo-
logia usada pelos professores,8 quando não entregarão escolas inteiras
às OSCIPs, ampliando o mercado educacional. Finalmente, treinarão os
alunos para as provas do SAEB e da Prova Brasil – entre outras “ações
criativas”.
        Importante assinalar que a redução da ênfase na avaliação for-
mal do aluno, em sala de aula, e seu deslocamento para processos in-
formais de avaliação (Freitas, 2003), bem como a ênfase maior em
processos mais gerais de avaliação de sistema, fazem com que a quali-
dade seja objeto de medidas de desempenho como eficiência do sis-
tema de ensino e não como igualdade de resultados dos alunos matri-
culados nas escolas desse sistema. Verificam-se apenas as grandes
tendências ao longo do tempo. Mesmo quando o IDEB é por escola,
ele pode transformar-se em um mecanismo de ocultação do ocaso de
grande quantidade de alunos procedentes das camadas populares que
“habitam” a sala de aula, de forma aparentemente democrática, mas
sem que signifique, de fato, acesso a conteúdos e habilidades. Moni-
tora-se o desempenho global do sistema (ou da escola), mas não se
todos estão aprendendo realmente. Aqui, não há meio-termo: há de
se ensinar tudo “a todos e a cada um” (Betini, 2004, p. 251). Para o
INEP, isso poderá ocorrer em 2095, quando todo o sistema estaria com
o IDEB convergindo em 9.9.9
        O que fazer então? Em primeiro lugar, abandonar a visão auto-
ritária típica da época da ditadura brasileira, quando se acreditou que
gestão verticalizada e treinamento de professor resolveriam o proble-
ma da escola brasileira. Nascia aí o tecnicismo (Saviani, 1982). Esta-
mos agora diante de um “neotecnicismo” (Cf. Freitas, 1992), em que
acordos de gestão com prefeitos (em cascata para dentro dos siste-
mas), responsabilização e treinamento do professor via CAPES e Uni-
versidade Aberta do Brasil são a estratégia.


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Luiz Carlos de Freitas



Uma nova forma de conceber a relação com as escolas: qualidade
negociada

       Há de se reconhecer as falhas nas escolas, mas há de se reconhe-
cer, igualmente, que há falhas nas políticas públicas, no sistema socio-
econômico etc. Portanto, esta é uma situação que, à espera de soluções
mais abrangentes e profundas, só pode ser resolvida por negociação e
responsabilização bilateral: escola e sistema. Os governos não podem
“posar” de grandes avaliadores, sem olhar para seus pés de barro, para
suas políticas, como se não tivessem nada a ver com a realidade educa-
cional do país de ontem e de hoje.
       A estratégia liberal é insuficiente porque responsabiliza apenas
um dos pólos: a escola. E o faz com a intenção de desresponsabilizar o
Estado de suas políticas, pela responsabilização da escola, o que prepa-
ra a privatização. Para a escola, todo o rigor; para o Estado, a relativi-
zação “do que é possível fazer”. Em nossa opinião, uma melhor relação
implica criar uma parceria entre escola e governo local (municípios),
por meio de um processo que chamamos de qualidade negociada, via
avaliação institucional.
       Qualidade negociada é um conceito que nos chega por intermé-
dio de um estudo de Anna Bondioli (2004). Ele reforça uma certa tra-
dição de se conceber a avaliação educacional no Brasil que tem ancora-
gem em autores como Lüdke (1984), Saul (1988), Dias Sobrinho
(2002a; 2002b), entre outros.
       Para a autora, definir qualidade implica explicitar os descritores
fundamentais da sua natureza, ou seja: seu caráter negociável, partici-
pativo, auto-reflexivo, contextual/plural, processual e transformador. A
qualidade, em seu aspecto negociável, é vista da seguinte forma:

       A qualidade não é um dado de fato, não é um valor absoluto, não é ade-
       quação a um padrão ou a normas estabelecidas a priori e do alto. Quali-
       dade é transação, isto é, debate entre indivíduos e grupos que têm um
       interesse em relação à rede educativa, que têm responsabilidade para com
       ela, com a qual estão envolvidos de algum modo e que trabalham para
       explicitar e definir, de modo consensual, valores, objetivos, prioridades,
       idéias sobre como é a rede (...) e sobre como deveria ou poderia ser.
       (Bondioli, 2004, p. 14)


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       O passo inicial, portanto, é mudar nossa concepção de avaliação
passando de uma visão de “responsabilização” para uma visão de parti-
cipação e envolvimento local na vida da escola (Cf. Freitas et al., 2004).
Os mecanismos para este processo ocorrer devem ser baseados no pro-
jeto político-pedagógico da escola (sintonizado com as políticas públicas
de Estado e governo) e no processo de avaliação institucional, ao qual
voltaremos mais adiante. Entretanto, este caminho exige políticas de
Estado para o ensino e para a avaliação.

Políticas de Estado para a avaliação
       Todos sabemos que políticas de governo são vulneráveis. A
descontinuidade é uma realidade em todas as esferas de governo. É pre-
ciso que algumas condições facilitadoras estejam acima dos governos e,
para isso, há de se dispor de leis que estabeleçam políticas de Estado.
Daí que a articulação governo federal/governo municipal não seja sufici-
ente. Acredito que alguns aspectos já podem ser listados como objeto
de tais políticas:
        1. Instituir a obrigatoriedade da avaliação de sistema (políticas
        públicas educacionais) no âmbito municipal, com periodicida-
        de bienal, sob controle do Conselho Municipal de Educação.
        SAEB , Prova Brasil e os sistemas estaduais de avaliação são meca-
        nismos de acompanhamento do âmbito federal ou estadual e de-
        vem ser voltados para o monitoramento das tendências globais
        desses sistemas. Sua função não é entender o que ocorre em uma
        escola específica. Entretanto, a avaliação de sistema no nível mu-
        nicipal tem a finalidade de permitir um acompanhamento do
        conjunto dos resultados das escolas da rede e, pela proximida-
        de, ser mais um elemento a ser levado em conta no processo de
        avaliação institucional de cada escola. Técnicas não-paramétricas
        como Análise por Envoltória de Dados podem ser utilizadas para
        se definir uma fronteira de eficiência entre escolas, levando em
        conta a realidade particular de cada rede e o resultado de avalia-
        ções nacionais e/ou locais (Cf. Rodrigues, 2005). A proximida-
        de e o tamanho permitiriam também estudos longitudinais de
        painel (em que os mesmos alunos são acompanhados ao longo


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       do tempo), superiores aos longitudinais seccionais feitos pelo
       SAEB e pela Prova Brasil (ver, por exemplo, Poli, 2007).10

       2. Instituir a obrigatoriedade de processos de avaliação do pro-
       jeto político-pedagógico das escolas, com periodicidade anual,
       no âmbito dos municípios, sob controle das redes de ensino.
       Complementarmente, definir a obrigatoriedade de que esse pro-
       cesso seja democrático, na forma de avaliação institucional esco-
       lar participativa, por meio da qual os que constroem a vida da
       escola tenham voz.
       3. Instituir a obrigatoriedade da avaliação do professor e dos de-
       mais profissionais da escola pelos municípios, fixando amplas
       oportunidades e mecanismos de melhoramento da atuação do
       profissional e fixando, igualmente, os termos de seu desligamento
       do serviço público, para aqueles casos em que tais oportunidades
       não venham a ser adequadamente aproveitadas com impacto em
       sua atuação na escola, observadas as condições de trabalho ofere-
       cidas pelo sistema municipal e pela escola e “negociadas” no pro-
       cesso de avaliação institucional com a comunidade escolar.
       4. Definir um teto para gastos dos municípios com os processos
       de avaliação com o fim de evitar a mercantilização destes e a re-
       tirada de recursos necessários para outras áreas de ensino.
       5. É importante, ainda, criar um programa de apoio aos muni-
       cípios, com recursos, junto ao INEP, para alavancar, do ponto de
       vista técnico, o trabalho de implantação destas políticas junto
       com os municípios – tanto no campo da avaliação de sistemas
       como no campo da avaliação institucional.
       A idéia, portanto, é que, à municipalização do ensino, deve se-
guir-se a municipalização da avaliação. Em vez de tentar “adivinhar”,
de Brasília, por que uma escola em um determinado município não se
sai bem (ou mandar especialistas visitá-las), propomos que isso seja feito
por quem está mais próximo da escola, o município ou organismos
regionalizados que englobem vários municípios.
       Ações como esta, complexas, não podem ser desenvolvidas por
“canetadas”, sendo recomendável a criação de um fórum envolvendo as
entidades da área da educação (sindicais e acadêmicas) para que as pro-
postas sejam moldadas a várias mãos.


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Em busca do elo perdido: avaliação institucional
       A qualidade negociada é implementada pela avaliação institucio-
nal da escola, a qual é um processo que deve envolver todos os seus
atores com vistas a negociar patamares adequados de aprimoramento,
a partir dos problemas concretos vivenciados por ela. Se a avaliação em
larga escala é externa, a avaliação institucional é interna à escola e sob
controle desta, ao passo que a avaliação da aprendizagem é assunto pre-
ferencialmente do professor em sua sala de aula.
       A avaliação institucional deve levar à apropriação da escola pelos
seus atores no sentido de que estes têm um projeto e um compromisso
social, em especial entre as classes populares, e, portanto, necessitam,
além deste seu compromisso, do compromisso do Estado em relação à
educação. O apropriar-se dos problemas da escola inclui um apropriar-
se para demandar do Estado as condições necessárias ao funcionamen-
to da escola. Mas inclui, igualmente, o compromisso com os resulta-
dos dos alunos da escola. Foi a este processo bilateral que chamamos,
antes, de “qualidade negociada”.
       Com a avaliação institucional, o que se espera, portanto, é que o
coletivo da escola localize seus problemas, suas contradições; reflita so-
bre eles e estruture situações de melhoria ou superação, demandando
condições do poder público, mas, ao mesmo tempo, comprometendo-
se com melhorias concretas na escola.
       Uma boa avaliação institucional terá conseqüências positivas para
o ensino e a avaliação da aprendizagem em sala de aula, cuja prática é
de responsabilidade do professor. Entretanto, por mais que seja uma
responsabilidade e uma criação da professora, esta ação deve integrar-
se ao projeto político-pedagógico da escola, elaborado pelo coletivo es-
colar – base também da avaliação institucional.
       A avaliação institucional deve, portanto, ser o ponto de encon-
tro entre os dados provenientes tanto da avaliação dos alunos, feita pelo
professor, como da avaliação externa dos alunos, feita pelo sistema.
Num processo de auto-avaliação, a escola deverá levar em conta todas
estas visões (cf. Sordi, 2002).
       A avaliação em larga escala de redes de ensino precisa ser articu-
lada com a avaliação institucional e de sala de aula. Nossa opinião é que
a avaliação de sistema é um instrumento importante para monitora-
mento das políticas públicas e seus resultados devem ser encaminhados,


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como subsídio, à escola para que, dentro de um processo de avaliação
institucional, ela possa usar estes dados, validá-los e encontrar formas
de melhoria. A avaliação institucional fará a mediação e dará, então,
subsídios para a avaliação de sala de aula, conduzida pelo professor. En-
tretanto, sem criar este mecanismo de mediação, o simples envio ou a
disponibilização de dados em um site ou relatório não encontrará um
mecanismo seguro de reflexão sobre estes. Os dados podem até ter le-
gitimidade técnica, mas lhes faltará legitimidade política. Vamos, no-
vamente, esquecer de “combinar” com as professoras os acordos entre o
MEC e os municípios, afastando-as do processo?
        Os três níveis de avaliação (sistema, escola e sala de aula) devem
estar trabalhando articuladamente e segundo suas áreas de abrangência.
Não se deve pedir à avaliação de sistema que faça o papel dos outros
níveis de avaliação. Explicar o desempenho de uma escola implica ter
alguma familiaridade e proximidade com o seu dia-a-dia, o que não é
possível para os sistemas de avaliação em larga escala realizados pela Fe-
deração ou pelos estados, distantes da escola. A própria elaboração des-
ses sistemas pode beneficiar-se da proximidade com a rede avaliada, en-
volvendo-a no planejamento da avaliação.11

Qualidade para quem?
       A pobreza perambula pelo interior das escolas. Segregada em tri-
lhas e programas especiais, assiste a seu ocaso à medida que o tempo
escolar passa. Sua passagem pela escola é tolerada.
       As professoras de 4ª série estão surpresas pelo fato de a pobreza
ter chegado até elas sem saber as disciplinas escolares. Têm razão de
estar surpresas. Antes, os mais pobres eram expulsos mais cedo da es-
cola, portanto não chegavam à quarta série. Essa surpresa é, ao mesmo
tempo, um elemento de denúncia da precariedade com que eles per-
correm o sistema educacional. Pusemos a pobreza na escola e não sa-
bemos como ensiná-la. Nenhum processo de avaliação externo resolve-
rá isso. A solução equivocada tem sido liberar o fluxo e deixar de
reprovar para esconder o fracasso. Não que a reprovação tivesse senti-
do, mas pelo que foi substituída?
       Somos contra a reprovação, mas não podemos fazer disso o foco
da atuação das políticas públicas, inclusive porque nem toda reprova-
ção se dá por causas pedagógicas. Combater a reprovação é apenas uma


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parte da solução. A questão de fundo é ensinar a todos e a cada um. A
redução dos índices de reprovação é necessária, mas não é suficiente.
Mais ainda, dada a composição do IDEB,12 ele poderá estimular no cur-
to prazo a liberação do fluxo para reduzir a reprovação, regularizando
o tempo de permanência do aluno na escola e aumentando o valor do
IDEB ,13 sem que isso necessariamente signifique aumento do desempe-
nho do aluno.
        A mera passagem do tempo não ensina ninguém, a menos que
seja feito algo nesta direção – mas isso, tenhamos presente, custa. Edu-
cação (de qualidade) para todos e cada um é cara. Contraditoriamente, o
IDEB pode aprofundar o ocaso da pobreza e ser conivente com uma me-
nor qualificação das camadas populares que, apesar de transitarem pelo
sistema (a cobertura está acima de 97%), não aprendem nem são co-
bradas pelo desempenho, à espera da eliminação adiada nos finais de
ciclo ou na passagem da 4ª para a 5ª série. Se após esta fase inicial do
IDEB haverá ou não um aumento do desempenho do aluno, isso per-
manece no campo dos desejos e do futuro, o qual “a Deus pertence”.
Outras possibilidades estão presentes. As escolas vão querer a pobreza
dentro dela, com o risco de ver seu IDEB piorar? A “responsabilização”
gerará escolas que concentrarão exclusivamente pobres, onde o IDEB não
importa, pois “já se sabe que não dá para esperar muito desses alunos”?
No caso da rede, se um subconjunto de escolas elevar o índice, e este
atingir a pontuação combinada entre prefeito e governo federal, já é
suficiente; as demais continuarão onde estão – provavelmente estas se-
rão as que atenderão à pobreza, que é guardada na escola para não
incomodar, mesmo que não aprenda. No caso da escola não será di-
ferente, muda apenas a unidade de análise. Mais ainda, o que fazer
com escolas em que a evasão e a repetência não se dão por causas pe-
dagógicas?
        No estado atual, as avaliações de sistema podem terminar ocul-
tando esta realidade. A pobreza só se torna alvo de reflexão quando as
médias de desempenho começam a cair. Caso a inclinação das curvas
de desempenho seja positiva, em média, o sistema se salva. Mas a po-
breza continua “excluída por dentro” e, de certa forma, a exclusão é
legitimada pela positividade geral das curvas estatísticas.
        O que propomos é um modelo alternativo baseado na mobiliza-
ção da comunidade local da escola, com a finalidade dupla de compro-


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meter-se com resultados e, ao mesmo tempo, demandar do poder pú-
blico condições para tal. Uma proposta como esta só pode ser
implementada como política de Estado. Governos temem demandas.
       O fato é que, para ensinar a pobreza, teríamos de gastar muito
mais com educação, pois ela exige estratégias pedagógicas mais caras,
já que mais personalizadas. Não poderíamos ter o número de alunos
elevado em sala de aula, o que demandaria mais escolas. Não podería-
mos tratar diferenciadamente a pobreza, do ponto de vista metodoló-
gico, deixando-a em trilhas secundárias que a remetem ao nada. Tudo
isso custa. Seria melhor assistir a sua passagem pelo sistema e, por que
não, de certa forma facilitá-la?

Os riscos de ocultação da má qualidade
       Em resumo, não somos contra a existência de avaliação externa.
Não somos contra, igualmente, a existência de índices. Mas somos
contra o uso da avaliação externa tendo como pano de fundo a “teo-
ria da responsabilização” liberal. A responsabilização pressupõe uma
linha direta de pressão sobre os municípios, o que poderá levar a toda
sorte de armadilhas para se obter recursos. Prova Brasil, SAEB e IDEB
devem ser instrumentos de monitoramento de tendências e não instru-
mentos de pressão.
       O primeiro risco de ocultação da má qualidade vigente é no cam-
po dos conceitos. Chama a atenção que o MEC tenha optado pelo IDEB
como referência de qualidade. Por que não constituímos uma medição
baseada no custo aluno/qualidade, na qual se levaria em conta uma sé-
rie de variáveis que são necessárias ao funcionamento adequado de uma
escola de qualidade? Por que não definimos o que entendemos por uma
escola que tenha condições de ensinar e não criamos um indicador mais
amplo e sensível às desigualdades sociais?14 Há de se considerar ainda
que somente língua portuguesa e matemática são medidas nos testes.
Mas a escola é mais que isso. Há uma discussão a ser feita, ainda: Que
tipo de escolarização está sendo oferecido às crianças? O que estão me-
dindo os testes nas avaliações nacionais?
       Em segundo lugar, há risco de ocultação da má qualidade ao se
lidar com a proporção de aprovados na fórmula do IDEB. Como já dis-
semos, aumento de aprovados não é o mesmo que aumento da apren-
dizagem. 15


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       Em terceiro lugar, há o risco da ocultação da má qualidade pelo
uso da média como referência.16 O IDEB não deixa de ser baseado em
uma proficiência média da escola ou da rede. O uso da média como
referência e sua variação ao longo do tempo não significam que hou-
ve melhoria para todos. Se um grupo de bons alunos for melhor ain-
da, a média subirá, mesmo que os piores continuem onde sempre es-
tiveram. Ainda sobre esta questão, ouçamos a experiência internacional
sintetizada por S. W. Raundenbush (2004, p. 36): “A legislação [No
Child Left Behind] requer decisões pesadamente baseadas em medi-
das de proficiência média da escola (...). Elas são enviesadas de ma-
neira particular contra escolas que atendem grande número de crian-
ças pobres”.
       Em quarto lugar, há a ocultação da má qualidade pelas metas
distantes. Fixar 2021 como referência retira de foco a melhoria mais
imediata do ensino para todos. Fala-se em nota 6 no IDEB para 2021.
É muito tempo para pouca nota. Necessitamos de ações mais imedia-
tas de universalização da qualidade. Essa data pode sinalizar que, até
lá, não devemos cobrar o governo federal por melhorias além das pre-
vistas para cada ano. Firmado o convênio, o problema não é mais com
o governo federal – é dos prefeitos ou governadores. Espera-se mais.
Espera-se do governo federal uma política de Estado para o ensino fun-
damental e para sua avaliação. Nesta ordem: primeiro a política edu-
cacional, depois a política de avaliação.
       A melhoria do ensino, de fato, não vai ocorrer por cobrança a
distância, mas por políticas de Estado que levem a ações locais nos mu-
nicípios – entre elas à avaliação institucional das escolas pelo envolvi-
mento de seus atores. Leithwood e Earl (2000), estudando os efeitos
da responsabilização educacional, chamam a atenção para algumas variá-
veis que afetam este processo, entre elas “o poder do contexto e da his-
tória local para explicar as diferenças na implementação e no impacto
dos mecanismos de responsabilização gerais” (p. 16).
       Caso não constituamos um coletivo nas escolas que resolva apro-
priar-se dos problemas destas, no sentido bilateral de responsabilização
(do Estado e da escola), e não estabeleçamos um elo entre as avaliações
externas e o ensino e a avaliação que o professor conduz em sala de aula,
passando pelo controle social local do coletivo da escola, na forma de
avaliação institucional, sob o olhar atento do poder público, corremos


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o risco de ocultar a má qualidade das escolas, inclusive para continuar
a eleger os prefeitos, governadores e, é claro, até presidentes.

Recebido em julho de 2007 e aprovado em agosto de 2007.

Notas
1.   Basta ver projeto encaminhado ao legislativo propondo o fim da estabilidade do servidor
     público: “O governo pretende aplicar regras do setor privado para o funcionalismo pú-
     blico, eliminando, por exemplo, a estabilidade no emprego (...). As novas regras valeri-
     am para hospitais e outras áreas como a TV pública, ciência e tecnologia e previdência com-
     plementar de servidores. O governo argumenta que a mudança agilizará a administração e
     premiará bons servidores” (Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidia-
     no/ult95u311596.shtml>; grifos meus).
2.   Assisti, em Brasília, no Seminário de Educação Básica promovido pela ANPED, em 2006, à
     exposição do diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP , professor Amaury P.
     Gremaud.
3.   Quando instados a falar de igualdade de resultados, dizem que ela chegará com o tempo;
     por exemplo, um IDEB de 9,9 virá em 2095, tal como a “liberdade, igualdade e frater-
     nidade” viria.
4.   Tese de doutorado em andamento, sob responsabilidade de Rippel (2007), mostra o im-
     pacto predominantemente irrelevante desses processos para os alunos que deles participam.
5.   Aos que ainda acham que Bourdieu é um reprodutivista, recomendo que estudem nova-
     mente o autor. Sua categoria “campo” não tem nada de reprodutivista.
6.   Proyecto de ley propone subvención a estudiantes vulnerables, gobierno de Chile, 5 jul.
     2007.
7.   Como demonstrou Biani (2004), estas trilhas podem englobar classes inteiras.
8.   Mais de 120 municípios no Estado de São Paulo já fazem isso.
9.   Conferir, em <http://www.consed.org.br/mostra.asp?id=38592>, a apresentação do pro-
     fessor Gremaud, diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP.
10. Um dos maiores estudos longitudinais de painel em curso no Brasil é o GERES, que tem a
    coordenação geral de Nigel Brooke e a coordenação técnica de Francisco Creso Franco Jr.
11. Um exame mais detalhado destas relações será encontrado em Freitas et al., Avaliação edu-
    cacional: caminhando pela contramão (no prelo); ver também Freitas (2003b) e Freitas
    et al. (2004).
12. Baseado no tempo de permanência na etapa e na nota (1/T*Nota).
13. Para Francisco Creso Franco Jr., este movimento será possível apenas em um primeiro mo-
    mento, tendendo depois a um aumento do desempenho do aluno. Diz o pesquisador: “Em
    um primeiro momento, na maior parte das situações, será mais fácil melhorar o IDEB dimi-
    nuindo a reprovação (desde que a nota não piore sensivelmente); em seguida, para que o IDEB
    aumente, será necessário aumentar a nota” (Disponível em: <http://www.consed.org.br/
    mostra.asp?id=38592>).



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14. Ver, por exemplo, Dourado, Oliveira e Santos (2007), Carreira e Pinto (2006) e Ação
    Educativa (2004).
15. Este e o fator T na equação do IDEB.
16. O fator N na equação do IDEB.


Referências bibliográficas

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  • 1. Luiz Carlos de Freitas ELIMINAÇÃO ADIADA: O OCASO DAS CLASSES POPULARES NO INTERIOR DA ESCOLA E A OCULTAÇÃO DA (MÁ) QUALIDADE DO ENSINO LUIZ CARLOS DE FREITAS* RESUMO: Neste estudo faz-se uma crítica às formas de implementar políticas de avaliação baseadas em “responsabilização”, em curso no MEC-INEP, bem como se propõe uma forma alternativa de lidar com o problema, baseada em “qualidade negociada” com envolvimento bilateral do Estado e da escola. Propõem-se elementos iniciais para uma política de Estado no campo da avaliação e localiza-se o proces- so de avaliação institucional da escola como o elo entre a avaliação ex- terna de sistema e a escola e seus profissionais. Alerta-se para o fato de que as políticas de responsabilização unilaterais conduzirão à confi- guração de escolas para pobres e escolas para ricos, bem como se aler- ta para o risco de que os sistemas de avaliação externa centralizados na Federação ocultem, em indicadores estatísticos como o IDEB, as di- ficuldades que as classes populares estão tendo para aprender no in- terior da escola, legitimando estratégias que somente conduzem ao adiamento da exclusão destas – apesar do discurso da transparência e responsabilidade. Palavras-chave: Eliminação adiada. Avaliação institucional. Avaliação de sistema. Responsabilização. Qualidade negociada. DEFERRED ELIMINATION: THE TWILIGHT OF THE POPULAR CLASSES WITHIN SCHOOLS AND THE CONCEALMENT OF THE (BAD) QUALITY OF TEACHING ABSTRACT: This study criticizes the ways MEC-INEP is implement- ing assessment policies based on “responsabilization”. It also pro- poses an alternative form to deal with the problem based on “nego- tiated quality” in a bilateral involvement of the State and school. It suggests initial elements for a State policy in the field of assessment * Pós-doutor em Educação e professor titular da Faculdade de Educação da Universidade Esta- dual de Campinas (UNICAMP). E-mail: freitas.list@uol.com.br Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 965 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 2. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... and sees the process of the institutional assessment of school as the link between the external assessment of system and school and its professionals. It alerts to the fact that unilateral responsabilization policies will lead to configure schools for the poor and schools for the rich. It also highlights the risk that the external assessment sys- tems centralized at government level conceal, with such statistical in- dicators as the IDEB, the difficulties faced by the popular classes to learn within school, and legitimate strategies that only lead to defer- ring their exclusion – despite a discourse of transparency and re- sponsibility. Key words: Deferred elimination. Institutional assessment. System as- sessment. Responsabilization. Negotiated quality. surpresa, em matéria de avaliação do ensino fundamental, neste momento, fica por conta do aprofundamento das políticas libe- rais da era FHC sob o governo de Luis Inácio Lula da Silva. Os que nele votamos esperávamos, já no primeiro mandato, uma mudan- ça significativa de rota. Não ocorreu. Agora, assistimos à sua conversão plena às propostas liberais de “responsabilização” e de privatização do público.1 A Prova Brasil e o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) (Fernandes, 2007b) são a ponta do iceberg desta mesma concepção. Ao passo que a política de avaliação do ensino superior, com a eliminação do Provão e a constituição do SINAES, parece caminhar no rumo certo, a política de avaliação do Ensino Fundamental envereda por caminhos duvidosos. Segundo Reynaldo Fernandes, atual presidente do INEP, conside- rado o mentor do IDEB: Antes do No Child Left Behind [lei aprovada em 2002, no governo Bush, que visa à melhoria da qualidade da educação por meio de um sis- tema de prestação de contas baseado em resultados], a maioria dos Es- tados já tinha sistema de avaliação. Nos que primeiro criaram um siste- ma, a evolução do desempenho dos alunos foi mais acentuada. Esses sis- temas fazem com que as escolas e os dirigentes dos sistemas (secretários, prefeitos e governadores) se sintam responsáveis pelo desempenho. É a idéia da responsabilização, de accountability. (Fernandes, 2007a, grifos meus) Segundo Araújo, ex-presidente do INEP: 966 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 3. Luiz Carlos de Freitas Todo o PDE [Plano de Desenvolvimento da Educação] está ancorado jus- tamente na criação do Índice de Desenvolvimento da Educação Brasi- leira – IDEB, que pondera os resultados do SAEB, da Prova Brasil e dos in- dicadores de desempenho captados pelo censo escolar (evasão, aprova- ção e reprovação). Cria um indicador que varia de zero a dez, desdobrável por estado e por município e por redes de ensino [e agora por escola]. A partir da construção do IDEB , o MEC vinculará o repasse de recursos oriundos do FNDE à assinatura de compromisso dos gestores municipais com determinadas metas de melhoria dos seus indicadores ao longo de determinado período. (2007, p. 1; comentários entre colchetes meus) A estratégia de relacionamento com os municípios é gerencial, estabelecendo uma relação direta com governadores e prefeitos. Segun- do Amaury Patrick Gremaud, diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP: “O objetivo é usar o sistema de avaliação para prestar conta à sociedade, introduzir a transparência e comprometer as pessoas de um modo geral em busca da melhoria da qualidade de ensino” (Seminário realizado em Salvador, em julho de 2007; grifos meus).2 Araújo (2007, p. 4) tem outra posição: Por isso concluo que o IDEB é mais um instrumento regulatório do que um definidor de critérios para uma melhor aplicação dos recursos da União vi- sando alterar indicadores educacionais. O resultado de cada município e de cada estado será (e já está sendo) utilizado para ranquear as redes de ensino, para acirrar a competição e para pressionar, via opinião pública, o alcance de melhores resultados. Ou seja, a função do MEC assumida pelo governo Lula mantém a lógica perversa vigente durante doze anos de FHC. Já no final do ano de 2002, ainda sob o Governo FHC, o INEP finan- ciava um convênio com o Núcleo de Estudos da População (NEPO), da UNICAMP, para desenvolver Indicadores de Produtividade do Sistema Educaci- onal que envolveu a realização de um seminário sobre um possível Indi- cador Municipal de Desenvolvimento Educacional (IMDE) para o ensino mé- dio regular (Cunha et al., 2002). Boa parte dos problemas que estamos enfrentando com a educa- ção básica nacional advém do próprio formato ideológico do projeto liberal hegemônico, agora “sob nova direção”: ele reduz qualidade a acesso – supostamente como uma primeira etapa da universalização. Mas, antes de ser uma etapa em direção à qualidade plena da escola pública, é um limite ideológico, como bem aponta Alavarse (2007). Os liberais admitem a igualdade de acesso, mas como têm uma ideologia Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 967 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 4. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... baseada na meritocracia, no empreendedorismo pessoal, não podem conviver com a igualdade de resultados sem competição. Falam de igual- dade de oportunidades, não de resultados.3 Para eles, os resultados dependem de esforço pessoal, uma variá- vel interveniente que se distribui de forma “naturalmente” desigual na população, e que deve ser uma retribuição ao acesso permitido. Eles não podem aceitar que uma espécie de “acumulação primitiva” (Marx) ou um ethos (Bourdieu) cultural sequer interfira com a obtenção dos resultados do aluno. Se aceitassem, teriam de admitir as desigualdades sociais que eles mesmos (os liberais) produzem na sociedade e que en- tram pela porta da escola. Isso faz com que a tão propalada eqüidade liberal fique, apesar dos discursos, limitada ao acesso ou ao combate dos índices de reprovação. Como a progressão continuada já demons- trou, ausência de reprovação não é sinônimo de aprendizagem e qualidade (Cf. Bertagna, 2003). Como analisamos em outro artigo (Freitas, 2002), esta postura tende a postergar os problemas políticos, econômicos e sociais que o liberalismo enfrenta com sua política econômico-social, mas não resol- ve o problema da universalização da qualidade da educação básica. Há hoje um grande contingente de alunos procedentes das ca- madas populares que vivem o seu ocaso no interior das escolas, desacre- ditados nas salas de aula ou relegados a programas de recuperação, ace- leração,4 progressão continuada e/ou automática, educação de jovens e adultos, pseudo-escolas de tempo integral, cuja eliminação da escola foi suspensa ou adiada e aguardam sua eliminação definitiva na passa- gem entre ciclos ou conjunto de séries, quando então saem das estatís- ticas de reprovação, ou em algum momento de sua vida escolar onde a estatística seja mais confortável. A Prova Brasil e os usos previstos para ela (acesso à avaliação de cada escola via internet, por exemplo), como forma de responsabili- zação, poderiam fazer parte de qualquer programa liberal (do Partido Democrata brasileiro até o Partido Republicano de Bush, para não fa- lar da dobradinha Thatcher/Blair). Trabalham dentro da perspectiva de que “responsabilizar a escola”, expondo à sociedade seus resultados, irá melhorar a qualidade do ensino. A idéia completa dos republicanos de Bush (iniciada com Reagan) ou dos conservadores de Thatcher implica, no momento seguinte à divulgação dos resultados por escola, transformar 968 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 5. Luiz Carlos de Freitas o serviço público em mercado (ou mais precisamente em um quase- mercado), deslocando o dinheiro diretamente para os pais, os quais es- colhem as melhores escolas a partir da divulgação desses resultados, de preferência estando as escolas sobre administração privada. É a política dos “vouchers”, que dá o dinheiro aos pais e não à escola. Paralelamen- te, tende a criar um mercado educacional para atender ao fracasso es- colar. No Brasil já se criou o mecanismo para iniciar a privatização: Or- ganizações da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIPs) que podem administrar escolas antes públicas. Para os liberais, a ação do mercado forçaria à elevação da qualidade de ensino. Todas estas ações encobrem o pano de fundo mencionado antes: nossa sociedade produz tamanha desigualdade social que as institui- ções que nela funcionam, se nenhuma ação contrária for adotada, aca- bam por traduzir tais desigualdades como princípio e meio de seu fun- cionamento (Bourdieu & Passeron, 1975; Baudelot & Establet, 1986). 5 Todos concordamos em que isso não é desejável, mas meras políticas de eqüidade apenas tendem a ocultar o problema central: a desigualdade socioeconômica. Não é sem razão que os melhores desem- penhos escolares estão nas camadas com melhor nível socioeconômico, brancas (Cf. Miranda, 2006, entre outros estudos disponíveis). Isso não significa que todas as escolas não tenham de ser eficazes em sua ação. Muito menos que as escolas que atendem à pobreza este- jam desculpadas por não ensinarem, já que têm alunos com mais difi- culdades para acompanhar os afazeres da escola. Ao contrário, delas se espera mais competência ainda. Mas os meios e as formas de se obter essa qualidade não serão efetivos entregando as escolas à lógica mercadológica. A questão é um pouco mais complexa. Deixada à lógi- ca do mercado, o resultado esperado será a institucionalização de esco- la para ricos e escola para pobres (da mesma maneira que temos celu- lares para ricos e para pobres). As primeiras canalizarão os melhores desempenhos, as últimas ficarão com os piores desempenhos. As pri- meiras continuarão sendo as melhores, as últimas continuarão sendo as piores. Mas o sistema terá criado um corredor para atender as clas- ses mais bem posicionadas socialmente, o que será, é claro, atribuído ao mérito pessoal dos alunos e aos profissionais da escola. O atual presidente do INEP não ignora estes problemas, antes os conhece. Diz ele: Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 969 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 6. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... Quando se cria um sistema de avaliação e passa a haver responsabilização pelos resultados, os gestores vão se preocupar com as notas e as metas. Qual é a defesa desse sistema: se existe um mecanismo para atribuir res- ponsabilidades, os gestores vão melhorar o ensino. Quais são as críticas? Eles podem tentar falsear as notas, excluir os alunos mais fracos. Nos Es- tados Unidos, isso aconteceu. Esses argumentos não têm como ser revidados. Mas não pode deixar de dar um “remédio” para a educação por causa dos efeitos colaterais que ele pode causar. Temos de ver se é melhor ou pior para a qualidade da educação. Acho que é melhor. Os efeitos colaterais devem ser combatidos. Quando a primeira-ministra Margareth Thatcher fez a reforma educacional, diziam que era uma vi- são de direita. Quando o Tony Blair se tornou primeiro-ministro, acre- ditavam que ele suspenderia a reforma. Mas ele a reforçou e combateu os “efeitos colaterais”. Criou um programa de combate à exclusão dos pi- ores estudantes, e as expulsões de alunos diminuíram absurdamente. (Fernandes, 2007a) Como se vê, a exclusão da pobreza é “efeito colateral” de “remé- dios” e Margareth Thatcher estava certa. Lá como cá, o governo pro- gressista, que deveria ter revertido as políticas neoliberais, não o fez. Para o presidente do INEP, Tony Blair está certo em não reverter as polí- ticas de Thatcher, portanto concluo que Lula também está certo em não reverter e aprofundar as políticas da era FHC. Agora, sobre o êxito das experiências do Governo Bush no âmbito da educação, há contro- vérsias. No The New York Times de 16 de abril de 2004 pode-se ler: A competição entre escolas públicas e privadas que o governo Bush está encorajando esquentou outro dia, na porta da sala 207, da Escola Ele- mentar Wentworth, em Chicago. Durante vários meses, uma empresa privada financiada pelo governo federal enviou professores para darem aulas complementares a alguns alunos de Wentworth. Sem sucesso, o professor tentava controlar uma dezena de bagunceiros. A empresa en- viou um supervisor para resolver a questão. Effie McHenry, diretora de Wentworth, balançava a cabeça com ar de desaprovação. “Simplesmen- te não acho que eles estão preparados para lidar com as crianças das zo- nas mais pobres”, disse McHenry sobre os professores da empresa. “Acho que esperavam encontrar crianças sentadas, esperando explicações. Essas crianças não são assim. Elas precisam de instrução com desafios”. O Chile, laboratório de idéias neoliberais, discute há anos como aumentar o valor do repasse às escolas que aceitam alunos pobres para motivar as escolas melhores a recebê-los, em face da desmotivação destas 970 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 7. Luiz Carlos de Freitas para com esses alunos.6 Pobres costumam derrubar as proficiências mé- dias... O verdadeiro limite à universalização da melhoria da qualidade da escola é a própria ideologia meritocrática liberal. Caso a avaliação se coloque a serviço dela, então ficará limitada à medição do mérito e à ocultação da desigualdade social sob a forma de indicadores “neutros” como o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) criado pelo MEC. Embora nível socioeconômico seja um nome elegante e dissimu- lador das situações de desigualdade social, ele é fundamental para se en- tender o impacto dessa desigualdade social na educação. Nem todas as camadas sociais sofrem da mesma forma com as agruras da realidade es- colar do país – as camadas populares sofrem mais. Durante muito tempo duas vertentes se opuseram no cenário edu- cacional: uma tentando explicar o fracasso escolar por fatores pedagógi- cos internos à escola, e outra tentando explicar o mesmo fracasso por fa- tores externos à escola, sociais. Como é comum acontecer nesses casos, nenhuma delas, isoladamente, dá conta do fenômeno. A dialética se im- põe. As duas causas são pertinentes na explicação do fracasso. Se isso é verdadeiro, as políticas de eqüidade devem ser associadas às políticas de redução e eliminação das desigualdades sociais, fora da escola. Isso im- plica continuar a produzir a crítica do sistema social que cerca a escola, além de introduzir a importância do nível socioeconômico como variável relevante nas análises de avaliação do desempenho do aluno e da escola. É importante saber se a aprendizagem em uma escola de perife- ria é baixa ou alta. Mas fazer do resultado o ponto de partida para um processo de responsabilização da escola via prefeituras leva-nos a expli- car a diferença baseados na ótica meritocrática liberal: mérito do dire- tor que é bem organizado; mérito das crianças que são esforçadas; mé- rito dos professores que são aplicados; mérito do prefeito que deve ser reeleito etc. Mas e as condições de vida dos alunos e professores? E as políticas governamentais inadequadas? E o que restou de um serviço público do qual as elites, para se elegerem, fizeram de cabide de em- prego generalizado, enquanto puderam, sem regras para contratação ou demissão? O que dizer da permanente remoção de professores e es- pecialistas a qualquer tempo, pulando de escola em escola? O que di- zer dos professores horistas que se dividem entre várias escolas? O que Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 971 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 8. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... dizer dos alunos que habitam as crescentes favelas sem condições mí- nimas de sobrevivência e muito menos para criar um ambiente propí- cio ao estudo? Sem falar do número de alunos em sala de aula. Diante deste quadro, escolher apenas uma variável, desempenho do aluno, para analisar a educação básica brasileira, como o IDEB faz, é certamente temerário em face deste complexo de variáveis. Como aler- ta Araújo (2007), parece que o governo não aprendeu nada com o fi- nado Provão. No próprio censo escolar que as escolas enviam ao MEC existem outras variáveis que poderiam ser levadas em conta e permitir uma mo- delagem melhor da realidade. Novas formas de exclusão Nossa preocupação vai mais além. Diz respeito ao aparecimen- to de novas formas de exclusão que estão sendo implementadas nos sistemas e sobre as quais temos pouco controle e conhecimento. Con- tinuamos raciocinando em termos de reprovação, forma antiga de ex- clusão que coexiste, agora, com outras mais recentes desenvolvidas nos sistemas. Em 1991 (Freitas, 1991) propusemos o conceito de “eliminação adiada” para identificar uma das situações geradas no processo de ex- clusão das camadas populares do interior da escola: o conceito referia- se à permanência dos alunos dessas camadas na escola durante algum tempo, postergando sua eliminação da escola e realizando-a em outro momento mais oportuno. Bourdieu e Champagne (apud Bourdieu, 2001, p. 221) chamaram esta categoria de “exclusão branda”: Seria necessário mostrar aqui, evitando encorajar a ilusão finalista (ou, em termos mais precisos, o “funcionalismo do pior”), como, no estado com- pletamente diferente do sistema escolar que foi instaurado com a chega- da de novas clientelas, a estrutura da distribuição diferencial dos bene- fícios escolares e dos benefícios sociais correlativos foi mantida, no essen- cial, mediante uma translação global de distâncias. Todavia, com uma di- ferença fundamental: o processo de eliminação foi diferido e estendido no tempo, e por conseguinte, como que diluído na duração, a instituição é habitada, permanentemente, por excluídos potenciais que introduzem nela as contradições e os conflitos associados a uma escolaridade cujo único objetivo é ela mesma. (Grifos meus) 972 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 9. Luiz Carlos de Freitas (...) eis aí um dos mecanismos que, acrescentando-se à lógica da trans- missão do capital cultural, fazem com que as mais altas instituições es- colares e, em particular, aquelas que conduzem às posições de poder econômico e político, continuem sendo exclusivas como foram no pas- sado. E fazem com que o sistema de ensino, amplamente aberto a todos e, no entanto, estritamente reservado a alguns, consiga a façanha de reu- nir as aparências da “democratização”. (p. 223; grifos meus) Esta parece ser a base da construção das novas formas de exclu- são nos anos de 1990, que agora atuam longitudinalmente, por den- tro do sistema, sem necessidade de excluir fisicamente o aluno no iní- cio da escola básica, por reprovação. Os processos de avaliação informal vão construindo “trilhas de progressão diferenciadas” no interior das sa- las de aula e das escolas.7 Do ponto de vista do sistema, a exclusão foi internalizada a custos menores – tanto econômicos como políticos (cf. Freitas, 2002). As novas formas de exclusão atuam agora por dentro da escola fun- damental. Adiam a eliminação do aluno e internalizam o processo de exclusão. Do ponto de vista da avaliação, essas novas formas de exclu- são levam a uma redução da ênfase na avaliação formal e pontual do aluno em sala de aula (introduzem novas formas de organização esco- lar: progressão continuada, progressão automática, ciclos etc., e novas formas de avaliação informais), liberando o fluxo de alunos no interior da escola e conduzindo ao fortalecimento do monitoramento por ava- liação externa, avaliação de sistema centralizada (Prova Brasil, SAEB , SARESP, SIMAVE etc.). Nesses sistemas de avaliação o desempenho indivi- dual é subsumido nas estatísticas que lidam, preferencialmente, com tendências globais dos sistemas de ensino ao longo do tempo, a partir da proficiência média dos alunos. O mais grave é o fortalecimento da idéia de que seria possível, a partir de sistemas de larga escala centralizados em Brasília ou em uma capital, reorientar escolas específicas, a distância, por exposição dos resultados à sociedade e acordos com prefeitos. Pode-se imagi- nar a pressão autoritária, verticalizada, que os acordos assinados en- tre os prefeitos e o governo federal, para assumir metas do IDEB para seu município e obter verbas, vão gerar nas escolas e em seus profis- sionais. Não deveria ser este o papel da avaliação em larga escala ou de sistema, como veremos mais adiante, a qual deveria ser destinada, Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 973 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 10. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... preferencialmente, à avaliação das próprias políticas públicas e não das escolas. Para o presidente do INEP: “O dia em que um prefeito perder a eleição porque foi mal na educação, não cumpriu as metas, aí esta- remos no caminho correto. O aluno não pode ser punido” (Fernandes, 2007a). Muito antes disso, os prefeitos implantarão progressão continu- ada e liberarão o fluxo no sistema. Depois, contratarão sistemas priva- dos de ensino (do tipo Objetivo, COC etc.) para enquadrar a metodo- logia usada pelos professores,8 quando não entregarão escolas inteiras às OSCIPs, ampliando o mercado educacional. Finalmente, treinarão os alunos para as provas do SAEB e da Prova Brasil – entre outras “ações criativas”. Importante assinalar que a redução da ênfase na avaliação for- mal do aluno, em sala de aula, e seu deslocamento para processos in- formais de avaliação (Freitas, 2003), bem como a ênfase maior em processos mais gerais de avaliação de sistema, fazem com que a quali- dade seja objeto de medidas de desempenho como eficiência do sis- tema de ensino e não como igualdade de resultados dos alunos matri- culados nas escolas desse sistema. Verificam-se apenas as grandes tendências ao longo do tempo. Mesmo quando o IDEB é por escola, ele pode transformar-se em um mecanismo de ocultação do ocaso de grande quantidade de alunos procedentes das camadas populares que “habitam” a sala de aula, de forma aparentemente democrática, mas sem que signifique, de fato, acesso a conteúdos e habilidades. Moni- tora-se o desempenho global do sistema (ou da escola), mas não se todos estão aprendendo realmente. Aqui, não há meio-termo: há de se ensinar tudo “a todos e a cada um” (Betini, 2004, p. 251). Para o INEP, isso poderá ocorrer em 2095, quando todo o sistema estaria com o IDEB convergindo em 9.9.9 O que fazer então? Em primeiro lugar, abandonar a visão auto- ritária típica da época da ditadura brasileira, quando se acreditou que gestão verticalizada e treinamento de professor resolveriam o proble- ma da escola brasileira. Nascia aí o tecnicismo (Saviani, 1982). Esta- mos agora diante de um “neotecnicismo” (Cf. Freitas, 1992), em que acordos de gestão com prefeitos (em cascata para dentro dos siste- mas), responsabilização e treinamento do professor via CAPES e Uni- versidade Aberta do Brasil são a estratégia. 974 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 11. Luiz Carlos de Freitas Uma nova forma de conceber a relação com as escolas: qualidade negociada Há de se reconhecer as falhas nas escolas, mas há de se reconhe- cer, igualmente, que há falhas nas políticas públicas, no sistema socio- econômico etc. Portanto, esta é uma situação que, à espera de soluções mais abrangentes e profundas, só pode ser resolvida por negociação e responsabilização bilateral: escola e sistema. Os governos não podem “posar” de grandes avaliadores, sem olhar para seus pés de barro, para suas políticas, como se não tivessem nada a ver com a realidade educa- cional do país de ontem e de hoje. A estratégia liberal é insuficiente porque responsabiliza apenas um dos pólos: a escola. E o faz com a intenção de desresponsabilizar o Estado de suas políticas, pela responsabilização da escola, o que prepa- ra a privatização. Para a escola, todo o rigor; para o Estado, a relativi- zação “do que é possível fazer”. Em nossa opinião, uma melhor relação implica criar uma parceria entre escola e governo local (municípios), por meio de um processo que chamamos de qualidade negociada, via avaliação institucional. Qualidade negociada é um conceito que nos chega por intermé- dio de um estudo de Anna Bondioli (2004). Ele reforça uma certa tra- dição de se conceber a avaliação educacional no Brasil que tem ancora- gem em autores como Lüdke (1984), Saul (1988), Dias Sobrinho (2002a; 2002b), entre outros. Para a autora, definir qualidade implica explicitar os descritores fundamentais da sua natureza, ou seja: seu caráter negociável, partici- pativo, auto-reflexivo, contextual/plural, processual e transformador. A qualidade, em seu aspecto negociável, é vista da seguinte forma: A qualidade não é um dado de fato, não é um valor absoluto, não é ade- quação a um padrão ou a normas estabelecidas a priori e do alto. Quali- dade é transação, isto é, debate entre indivíduos e grupos que têm um interesse em relação à rede educativa, que têm responsabilidade para com ela, com a qual estão envolvidos de algum modo e que trabalham para explicitar e definir, de modo consensual, valores, objetivos, prioridades, idéias sobre como é a rede (...) e sobre como deveria ou poderia ser. (Bondioli, 2004, p. 14) Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 975 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 12. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... O passo inicial, portanto, é mudar nossa concepção de avaliação passando de uma visão de “responsabilização” para uma visão de parti- cipação e envolvimento local na vida da escola (Cf. Freitas et al., 2004). Os mecanismos para este processo ocorrer devem ser baseados no pro- jeto político-pedagógico da escola (sintonizado com as políticas públicas de Estado e governo) e no processo de avaliação institucional, ao qual voltaremos mais adiante. Entretanto, este caminho exige políticas de Estado para o ensino e para a avaliação. Políticas de Estado para a avaliação Todos sabemos que políticas de governo são vulneráveis. A descontinuidade é uma realidade em todas as esferas de governo. É pre- ciso que algumas condições facilitadoras estejam acima dos governos e, para isso, há de se dispor de leis que estabeleçam políticas de Estado. Daí que a articulação governo federal/governo municipal não seja sufici- ente. Acredito que alguns aspectos já podem ser listados como objeto de tais políticas: 1. Instituir a obrigatoriedade da avaliação de sistema (políticas públicas educacionais) no âmbito municipal, com periodicida- de bienal, sob controle do Conselho Municipal de Educação. SAEB , Prova Brasil e os sistemas estaduais de avaliação são meca- nismos de acompanhamento do âmbito federal ou estadual e de- vem ser voltados para o monitoramento das tendências globais desses sistemas. Sua função não é entender o que ocorre em uma escola específica. Entretanto, a avaliação de sistema no nível mu- nicipal tem a finalidade de permitir um acompanhamento do conjunto dos resultados das escolas da rede e, pela proximida- de, ser mais um elemento a ser levado em conta no processo de avaliação institucional de cada escola. Técnicas não-paramétricas como Análise por Envoltória de Dados podem ser utilizadas para se definir uma fronteira de eficiência entre escolas, levando em conta a realidade particular de cada rede e o resultado de avalia- ções nacionais e/ou locais (Cf. Rodrigues, 2005). A proximida- de e o tamanho permitiriam também estudos longitudinais de painel (em que os mesmos alunos são acompanhados ao longo 976 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 13. Luiz Carlos de Freitas do tempo), superiores aos longitudinais seccionais feitos pelo SAEB e pela Prova Brasil (ver, por exemplo, Poli, 2007).10 2. Instituir a obrigatoriedade de processos de avaliação do pro- jeto político-pedagógico das escolas, com periodicidade anual, no âmbito dos municípios, sob controle das redes de ensino. Complementarmente, definir a obrigatoriedade de que esse pro- cesso seja democrático, na forma de avaliação institucional esco- lar participativa, por meio da qual os que constroem a vida da escola tenham voz. 3. Instituir a obrigatoriedade da avaliação do professor e dos de- mais profissionais da escola pelos municípios, fixando amplas oportunidades e mecanismos de melhoramento da atuação do profissional e fixando, igualmente, os termos de seu desligamento do serviço público, para aqueles casos em que tais oportunidades não venham a ser adequadamente aproveitadas com impacto em sua atuação na escola, observadas as condições de trabalho ofere- cidas pelo sistema municipal e pela escola e “negociadas” no pro- cesso de avaliação institucional com a comunidade escolar. 4. Definir um teto para gastos dos municípios com os processos de avaliação com o fim de evitar a mercantilização destes e a re- tirada de recursos necessários para outras áreas de ensino. 5. É importante, ainda, criar um programa de apoio aos muni- cípios, com recursos, junto ao INEP, para alavancar, do ponto de vista técnico, o trabalho de implantação destas políticas junto com os municípios – tanto no campo da avaliação de sistemas como no campo da avaliação institucional. A idéia, portanto, é que, à municipalização do ensino, deve se- guir-se a municipalização da avaliação. Em vez de tentar “adivinhar”, de Brasília, por que uma escola em um determinado município não se sai bem (ou mandar especialistas visitá-las), propomos que isso seja feito por quem está mais próximo da escola, o município ou organismos regionalizados que englobem vários municípios. Ações como esta, complexas, não podem ser desenvolvidas por “canetadas”, sendo recomendável a criação de um fórum envolvendo as entidades da área da educação (sindicais e acadêmicas) para que as pro- postas sejam moldadas a várias mãos. Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 977 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 14. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... Em busca do elo perdido: avaliação institucional A qualidade negociada é implementada pela avaliação institucio- nal da escola, a qual é um processo que deve envolver todos os seus atores com vistas a negociar patamares adequados de aprimoramento, a partir dos problemas concretos vivenciados por ela. Se a avaliação em larga escala é externa, a avaliação institucional é interna à escola e sob controle desta, ao passo que a avaliação da aprendizagem é assunto pre- ferencialmente do professor em sua sala de aula. A avaliação institucional deve levar à apropriação da escola pelos seus atores no sentido de que estes têm um projeto e um compromisso social, em especial entre as classes populares, e, portanto, necessitam, além deste seu compromisso, do compromisso do Estado em relação à educação. O apropriar-se dos problemas da escola inclui um apropriar- se para demandar do Estado as condições necessárias ao funcionamen- to da escola. Mas inclui, igualmente, o compromisso com os resulta- dos dos alunos da escola. Foi a este processo bilateral que chamamos, antes, de “qualidade negociada”. Com a avaliação institucional, o que se espera, portanto, é que o coletivo da escola localize seus problemas, suas contradições; reflita so- bre eles e estruture situações de melhoria ou superação, demandando condições do poder público, mas, ao mesmo tempo, comprometendo- se com melhorias concretas na escola. Uma boa avaliação institucional terá conseqüências positivas para o ensino e a avaliação da aprendizagem em sala de aula, cuja prática é de responsabilidade do professor. Entretanto, por mais que seja uma responsabilidade e uma criação da professora, esta ação deve integrar- se ao projeto político-pedagógico da escola, elaborado pelo coletivo es- colar – base também da avaliação institucional. A avaliação institucional deve, portanto, ser o ponto de encon- tro entre os dados provenientes tanto da avaliação dos alunos, feita pelo professor, como da avaliação externa dos alunos, feita pelo sistema. Num processo de auto-avaliação, a escola deverá levar em conta todas estas visões (cf. Sordi, 2002). A avaliação em larga escala de redes de ensino precisa ser articu- lada com a avaliação institucional e de sala de aula. Nossa opinião é que a avaliação de sistema é um instrumento importante para monitora- mento das políticas públicas e seus resultados devem ser encaminhados, 978 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 15. Luiz Carlos de Freitas como subsídio, à escola para que, dentro de um processo de avaliação institucional, ela possa usar estes dados, validá-los e encontrar formas de melhoria. A avaliação institucional fará a mediação e dará, então, subsídios para a avaliação de sala de aula, conduzida pelo professor. En- tretanto, sem criar este mecanismo de mediação, o simples envio ou a disponibilização de dados em um site ou relatório não encontrará um mecanismo seguro de reflexão sobre estes. Os dados podem até ter le- gitimidade técnica, mas lhes faltará legitimidade política. Vamos, no- vamente, esquecer de “combinar” com as professoras os acordos entre o MEC e os municípios, afastando-as do processo? Os três níveis de avaliação (sistema, escola e sala de aula) devem estar trabalhando articuladamente e segundo suas áreas de abrangência. Não se deve pedir à avaliação de sistema que faça o papel dos outros níveis de avaliação. Explicar o desempenho de uma escola implica ter alguma familiaridade e proximidade com o seu dia-a-dia, o que não é possível para os sistemas de avaliação em larga escala realizados pela Fe- deração ou pelos estados, distantes da escola. A própria elaboração des- ses sistemas pode beneficiar-se da proximidade com a rede avaliada, en- volvendo-a no planejamento da avaliação.11 Qualidade para quem? A pobreza perambula pelo interior das escolas. Segregada em tri- lhas e programas especiais, assiste a seu ocaso à medida que o tempo escolar passa. Sua passagem pela escola é tolerada. As professoras de 4ª série estão surpresas pelo fato de a pobreza ter chegado até elas sem saber as disciplinas escolares. Têm razão de estar surpresas. Antes, os mais pobres eram expulsos mais cedo da es- cola, portanto não chegavam à quarta série. Essa surpresa é, ao mesmo tempo, um elemento de denúncia da precariedade com que eles per- correm o sistema educacional. Pusemos a pobreza na escola e não sa- bemos como ensiná-la. Nenhum processo de avaliação externo resolve- rá isso. A solução equivocada tem sido liberar o fluxo e deixar de reprovar para esconder o fracasso. Não que a reprovação tivesse senti- do, mas pelo que foi substituída? Somos contra a reprovação, mas não podemos fazer disso o foco da atuação das políticas públicas, inclusive porque nem toda reprova- ção se dá por causas pedagógicas. Combater a reprovação é apenas uma Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 979 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 16. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... parte da solução. A questão de fundo é ensinar a todos e a cada um. A redução dos índices de reprovação é necessária, mas não é suficiente. Mais ainda, dada a composição do IDEB,12 ele poderá estimular no cur- to prazo a liberação do fluxo para reduzir a reprovação, regularizando o tempo de permanência do aluno na escola e aumentando o valor do IDEB ,13 sem que isso necessariamente signifique aumento do desempe- nho do aluno. A mera passagem do tempo não ensina ninguém, a menos que seja feito algo nesta direção – mas isso, tenhamos presente, custa. Edu- cação (de qualidade) para todos e cada um é cara. Contraditoriamente, o IDEB pode aprofundar o ocaso da pobreza e ser conivente com uma me- nor qualificação das camadas populares que, apesar de transitarem pelo sistema (a cobertura está acima de 97%), não aprendem nem são co- bradas pelo desempenho, à espera da eliminação adiada nos finais de ciclo ou na passagem da 4ª para a 5ª série. Se após esta fase inicial do IDEB haverá ou não um aumento do desempenho do aluno, isso per- manece no campo dos desejos e do futuro, o qual “a Deus pertence”. Outras possibilidades estão presentes. As escolas vão querer a pobreza dentro dela, com o risco de ver seu IDEB piorar? A “responsabilização” gerará escolas que concentrarão exclusivamente pobres, onde o IDEB não importa, pois “já se sabe que não dá para esperar muito desses alunos”? No caso da rede, se um subconjunto de escolas elevar o índice, e este atingir a pontuação combinada entre prefeito e governo federal, já é suficiente; as demais continuarão onde estão – provavelmente estas se- rão as que atenderão à pobreza, que é guardada na escola para não incomodar, mesmo que não aprenda. No caso da escola não será di- ferente, muda apenas a unidade de análise. Mais ainda, o que fazer com escolas em que a evasão e a repetência não se dão por causas pe- dagógicas? No estado atual, as avaliações de sistema podem terminar ocul- tando esta realidade. A pobreza só se torna alvo de reflexão quando as médias de desempenho começam a cair. Caso a inclinação das curvas de desempenho seja positiva, em média, o sistema se salva. Mas a po- breza continua “excluída por dentro” e, de certa forma, a exclusão é legitimada pela positividade geral das curvas estatísticas. O que propomos é um modelo alternativo baseado na mobiliza- ção da comunidade local da escola, com a finalidade dupla de compro- 980 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 17. Luiz Carlos de Freitas meter-se com resultados e, ao mesmo tempo, demandar do poder pú- blico condições para tal. Uma proposta como esta só pode ser implementada como política de Estado. Governos temem demandas. O fato é que, para ensinar a pobreza, teríamos de gastar muito mais com educação, pois ela exige estratégias pedagógicas mais caras, já que mais personalizadas. Não poderíamos ter o número de alunos elevado em sala de aula, o que demandaria mais escolas. Não podería- mos tratar diferenciadamente a pobreza, do ponto de vista metodoló- gico, deixando-a em trilhas secundárias que a remetem ao nada. Tudo isso custa. Seria melhor assistir a sua passagem pelo sistema e, por que não, de certa forma facilitá-la? Os riscos de ocultação da má qualidade Em resumo, não somos contra a existência de avaliação externa. Não somos contra, igualmente, a existência de índices. Mas somos contra o uso da avaliação externa tendo como pano de fundo a “teo- ria da responsabilização” liberal. A responsabilização pressupõe uma linha direta de pressão sobre os municípios, o que poderá levar a toda sorte de armadilhas para se obter recursos. Prova Brasil, SAEB e IDEB devem ser instrumentos de monitoramento de tendências e não instru- mentos de pressão. O primeiro risco de ocultação da má qualidade vigente é no cam- po dos conceitos. Chama a atenção que o MEC tenha optado pelo IDEB como referência de qualidade. Por que não constituímos uma medição baseada no custo aluno/qualidade, na qual se levaria em conta uma sé- rie de variáveis que são necessárias ao funcionamento adequado de uma escola de qualidade? Por que não definimos o que entendemos por uma escola que tenha condições de ensinar e não criamos um indicador mais amplo e sensível às desigualdades sociais?14 Há de se considerar ainda que somente língua portuguesa e matemática são medidas nos testes. Mas a escola é mais que isso. Há uma discussão a ser feita, ainda: Que tipo de escolarização está sendo oferecido às crianças? O que estão me- dindo os testes nas avaliações nacionais? Em segundo lugar, há risco de ocultação da má qualidade ao se lidar com a proporção de aprovados na fórmula do IDEB. Como já dis- semos, aumento de aprovados não é o mesmo que aumento da apren- dizagem. 15 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 981 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 18. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... Em terceiro lugar, há o risco da ocultação da má qualidade pelo uso da média como referência.16 O IDEB não deixa de ser baseado em uma proficiência média da escola ou da rede. O uso da média como referência e sua variação ao longo do tempo não significam que hou- ve melhoria para todos. Se um grupo de bons alunos for melhor ain- da, a média subirá, mesmo que os piores continuem onde sempre es- tiveram. Ainda sobre esta questão, ouçamos a experiência internacional sintetizada por S. W. Raundenbush (2004, p. 36): “A legislação [No Child Left Behind] requer decisões pesadamente baseadas em medi- das de proficiência média da escola (...). Elas são enviesadas de ma- neira particular contra escolas que atendem grande número de crian- ças pobres”. Em quarto lugar, há a ocultação da má qualidade pelas metas distantes. Fixar 2021 como referência retira de foco a melhoria mais imediata do ensino para todos. Fala-se em nota 6 no IDEB para 2021. É muito tempo para pouca nota. Necessitamos de ações mais imedia- tas de universalização da qualidade. Essa data pode sinalizar que, até lá, não devemos cobrar o governo federal por melhorias além das pre- vistas para cada ano. Firmado o convênio, o problema não é mais com o governo federal – é dos prefeitos ou governadores. Espera-se mais. Espera-se do governo federal uma política de Estado para o ensino fun- damental e para sua avaliação. Nesta ordem: primeiro a política edu- cacional, depois a política de avaliação. A melhoria do ensino, de fato, não vai ocorrer por cobrança a distância, mas por políticas de Estado que levem a ações locais nos mu- nicípios – entre elas à avaliação institucional das escolas pelo envolvi- mento de seus atores. Leithwood e Earl (2000), estudando os efeitos da responsabilização educacional, chamam a atenção para algumas variá- veis que afetam este processo, entre elas “o poder do contexto e da his- tória local para explicar as diferenças na implementação e no impacto dos mecanismos de responsabilização gerais” (p. 16). Caso não constituamos um coletivo nas escolas que resolva apro- priar-se dos problemas destas, no sentido bilateral de responsabilização (do Estado e da escola), e não estabeleçamos um elo entre as avaliações externas e o ensino e a avaliação que o professor conduz em sala de aula, passando pelo controle social local do coletivo da escola, na forma de avaliação institucional, sob o olhar atento do poder público, corremos 982 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 19. Luiz Carlos de Freitas o risco de ocultar a má qualidade das escolas, inclusive para continuar a eleger os prefeitos, governadores e, é claro, até presidentes. Recebido em julho de 2007 e aprovado em agosto de 2007. Notas 1. Basta ver projeto encaminhado ao legislativo propondo o fim da estabilidade do servidor público: “O governo pretende aplicar regras do setor privado para o funcionalismo pú- blico, eliminando, por exemplo, a estabilidade no emprego (...). As novas regras valeri- am para hospitais e outras áreas como a TV pública, ciência e tecnologia e previdência com- plementar de servidores. O governo argumenta que a mudança agilizará a administração e premiará bons servidores” (Disponível em: <http://www1.folha.uol.com.br/folha/cotidia- no/ult95u311596.shtml>; grifos meus). 2. Assisti, em Brasília, no Seminário de Educação Básica promovido pela ANPED, em 2006, à exposição do diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP , professor Amaury P. Gremaud. 3. Quando instados a falar de igualdade de resultados, dizem que ela chegará com o tempo; por exemplo, um IDEB de 9,9 virá em 2095, tal como a “liberdade, igualdade e frater- nidade” viria. 4. Tese de doutorado em andamento, sob responsabilidade de Rippel (2007), mostra o im- pacto predominantemente irrelevante desses processos para os alunos que deles participam. 5. Aos que ainda acham que Bourdieu é um reprodutivista, recomendo que estudem nova- mente o autor. Sua categoria “campo” não tem nada de reprodutivista. 6. Proyecto de ley propone subvención a estudiantes vulnerables, gobierno de Chile, 5 jul. 2007. 7. Como demonstrou Biani (2004), estas trilhas podem englobar classes inteiras. 8. Mais de 120 municípios no Estado de São Paulo já fazem isso. 9. Conferir, em <http://www.consed.org.br/mostra.asp?id=38592>, a apresentação do pro- fessor Gremaud, diretor de Avaliação da Educação Básica do INEP. 10. Um dos maiores estudos longitudinais de painel em curso no Brasil é o GERES, que tem a coordenação geral de Nigel Brooke e a coordenação técnica de Francisco Creso Franco Jr. 11. Um exame mais detalhado destas relações será encontrado em Freitas et al., Avaliação edu- cacional: caminhando pela contramão (no prelo); ver também Freitas (2003b) e Freitas et al. (2004). 12. Baseado no tempo de permanência na etapa e na nota (1/T*Nota). 13. Para Francisco Creso Franco Jr., este movimento será possível apenas em um primeiro mo- mento, tendendo depois a um aumento do desempenho do aluno. Diz o pesquisador: “Em um primeiro momento, na maior parte das situações, será mais fácil melhorar o IDEB dimi- nuindo a reprovação (desde que a nota não piore sensivelmente); em seguida, para que o IDEB aumente, será necessário aumentar a nota” (Disponível em: <http://www.consed.org.br/ mostra.asp?id=38592>). Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 983 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 20. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... 14. Ver, por exemplo, Dourado, Oliveira e Santos (2007), Carreira e Pinto (2006) e Ação Educativa (2004). 15. Este e o fator T na equação do IDEB. 16. O fator N na equação do IDEB. Referências bibliográficas AÇÃO EDUCATIVA. Indicadores da qualidade na educação. Ação Educativa, UNICEF, PNUD, INEP-MEC (coordenadores). São Paulo: Ação Educativa, 2004. ALAVARSE, O.M. Ciclos ou séries?: a democratização do ensino em questão. 2007. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Univer- sidade de São Paulo, São Paulo. ARAÚJO, L. Os fios condutores do PDE são antigos. 2007. Disponível em: <http://www.redefinanciamento.ufpr.br/araujo2.pdf>. BAUDELOT, C.; ESTABLET, R. La escuela capitalista. México: Siglo Veintiuno, 1986. BERTAGNA, R.H. Progressão continuada: limites e possibilidades. 2003. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Es- tadual de Campinas, Campinas. BETINI, M.E.S. Uma escola em Betel: relações, práticas, alunos, fa- mílias e professoras – 1977 a 2000. 2004. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Cam- pinas. BIANI, R.P. Progressão continuada: a produção de novas formas de ex- clusão. 2004. (Trabalho de Conclusão de Curso) – Faculdade de Edu- cação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. BONDIOLI, A. O projeto pedagógico da creche e a sua avaliação: a qua- lidade negociada. Campinas: Autores Associados, 2004. BOURDIEU, P. Escritos de educação. Petrópolis: Vozes, 2001. BOURDIEU, P.; PASSERON, J.C. A reprodução. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975. 984 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 21. Luiz Carlos de Freitas CARREIRA, D.; PINTO, J.M.R. Custo aluno-qualidade inicial: rumo à educação pública de qualidade no Brasil. In: CAMPANHA NACIONAL PELO DIREITO À EDUCAÇÃO. A educação na Amé- rica Latina: direito em risco. São Paulo: CNDE; Cortez; AAA, 2006. CUNHA, J.M.P. et al. Seminário sobre Indicador Municipal de Desenvol- vimento Educacional: ensino regular médio. Campinas: NEPO/UNICAMP, set. 2002. DIAS SOBRINHO, J. Universidade e avaliação: entre a ética e o merca- do. Florianópolis: Insular, 2002a. DIAS SOBRINHO, J. Campo e caminhos da avaliação: a avaliação da educação superior no Brasil. In: FREITAS, L.C. (Org.). Avaliação: cons- truindo o campo e a crítica. Florianópolis: Insular, 2002b. p. 13-62. DOURADO, L.F.; OLIVEIRA, J.F.; SANTOS, C.A. A qualidade da educação: conceitos e definições. Brasília, DF: MEC/INEP, 2007. FERNANDES, R. O mentor da equação; entrevista a Marta Avancini. Revista Educação, São Paulo, edição 123, 2007a. Disponível em: <http:/ /revistaeducacao.uol.com.br/revista.asp?edicao=Edição%20123>. Acesso em: jul. 2007. FERNANDES, R. Índice de desenvolvimento da educação básica (IDEB). Brasília, DF: MEC/INEP, 2007b. (Textos para Discussão, 26). FREITAS, L.C. A dialética da eliminação no processo seletivo. Edu- cação & Sociedade, Campinas, v. 12, n. 39, p. 265-285, ago. 1991. FREITAS, L.C. Neotecnicismo e formação de professores. In: ALVES, N. Formação de professores: pensar e fazer. São Paulo: Cortez, 1992. FREITAS, L.C. A internalização da exclusão. Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 80, p. 301-327, out. 2002. FREITAS, L.C. Ciclos, seriação e avaliação. São Paulo: Moderna, 2003a. FREITAS, L.C. (Org.). Avaliação de escolas e universidades. Campinas: Komedi, 2003b. FREITAS, L.C. Qualidade negociada: avaliação e contra-regulação na escola pública. Educação & Sociedade, Campinas, v. 26, n. 92, p. 911- 933, 2005. Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 985 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
  • 22. Eliminação adiada: o ocaso das classes populares no interior da escola... FREITAS, L.C. et al. Dialética da inclusão e da exclusão: por uma qua- lidade negociada e emancipadora nas escolas. In: GERALDI, C.G.; RIOLFI, C.R.; GARCIA, M.F. Escola viva: elementos para a construção de uma educação de qualidade social. São Paulo: Mercado de Letras, 2004. FREITAS, L.C. et al. Avaliação educacional: caminhando pela contra- mão. São Paulo: Vozes. (no prelo). MIRANDA, E.C.M. O SAEB 2003 no Estado de São Paulo: uma aná- lise multinível (HLM). 2006. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. LEITHWOOD, K.; EARL, L. Educational accountability effects: an international perspective. Peabody Journal of Education, New Jersey, v. 4, n. 75, p. 1-18, 2000. LÜDKE, M. O que vale em avaliação. Educação & Seleção, São Paulo, n. 9, p. 27-36, 1984. POLI, E.C. Estudo longitudinal em matemática: possibilidades e leitu- ra de uma realidade do ensino fundamental. 2007. Tese (Doutorado) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Cam- pinas. PROJETO educacional de Bush desvaloriza professor e deixa criança “para trás”. The New York Times, New York, 16 abr. 2004. RAUDENBUSH, S.W. Schooling, statistics and poverty: can we measure school improvement? Princeton: Educational Testing Service, 2004. RIPPEL, V. O itinerário dos alunos egressos do projeto correção de fluxo dos anos 1997-98: um estudo de caso em Toledo (PR). 2007. (Relató- rio de Pesquisa) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. RODRIGUES, S.C. Análise por envoltória de dados: uma ferramenta para transitar entre o quantitativo e o qualitativo. 2005. Tese (Douto- rado) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas. SAUL, A.M. Avaliação emancipatória. São Paulo: Cortez, 1988. SAVIANI, D. Escola e democracia. São Paulo: Cortez, 1982. 986 Educ. Soc., Campinas, vol. 28, n. 100 - Especial, p. 965-987, out. 2007 Disponível em <http://www.cedes.unicamp.br>
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