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FREI LUÍS DE SOUSA Almeida Garrett
FREI LUÍS DE SOUSA
ATO I
No cenário elegante do palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada, D. Madalena
medita nestes versos do episódio de D. Inês de Castro:
Naquele engano de alma Ieda e cego
Que a fortuna não deixa durar muito ...
Estes versos avolumam as dúvidas e os temores que há muito a torturavam (também a sua
felicidade com Manuel de Sousa poderia não durar muito... ). Com efeito, nenhuma nova
aparecera da morte de seu 1.º marido, D. João de Portugal. Por outro lado, a íntima
convicção de Telmo da que D. João de Portugal não morrera e as frequentes confidências
Maria alimentavam nesta uma curiosidade perspicaz e doentia. Tudo isto torturava e
sobressaltava a consciência de Madalena.
Entretanto os governadores castelhanos, como grassava a peste em Lisboa, resolveram
instalar-se no palácio de Manuel de Sousa, em Almada.
Manuel de Sousa, movido por um nobre orgulho patriótico, decide lançar o fogo ao seu
palácio, exclamando ironicamente: Ilumino a minha casa para receber os muito poderosos
governadores destes reinos...
PAULA CRUZ
FREI LUÍS DE SOUSA
ATO II
Durante o incêndio, duas coisas se gravaram no espírito já de si
sobressaltado de D. Madalena: o retrato de Manuel de Sousa, seu marido, e a
visão inesperada do retrato de D. João de Portugal, iluminado pelas chamas.
A destruição do primeiro retrato e a visão do segundo pressagiavam coisas
terríveis...
No palácio de D. João nunca Madalena conseguiu libertar-se do significado
terrível de tal visão. No espirito dela, como no das outras personagens,
abatia-se implacavelmente a fatalidade.
E quando, na ausência de Manuel de Sousa, que tinha ido a Lisboa, Frei Jorge
procurava tranquilizar D. Madalena, eis que um criado anuncia a chegada de
um romeiro.
- Quem és tu, Romeiro? - Perguntou Frei Jorge. E o Romeiro, apontando o
retrato:
NINGUÉM!
PAULA CRUZ
FREI LUÍS DE SOUSA
ATO III
Uma angústia mortal se abatia sobre D. Madalena e Manuel de Sousa.
A identificação de D. João de Portugal na pessoa do romeiro cobria-
os de vergonha, a eles e à sua filha, Maria.
A única solução para eles era agora separarem-se e refugiarem-se
num convento. O romeiro tenta ainda desfazer o mal que tinha
provocado, mas já era tarde.
D. Madalena e Manuel de Sousa resolveram morrer para o mundo e
vão tomar o hábito de S. Francisco. Maria, de rosto macerado e olhos
desvairados, entra precipitadamente na igreja, interrompendo a
impressionante cerimónia e escondendo o rosto no seio da mãe,
grita, perante o espanto de todos: morro, morro de vergonha.
E cai morta no chão.
PAULA CRUZ
A AÇÃO
ESTRUTURA INTERNA DA OBRA
O conflito vai-se desenrolando e tornando cada vez mais angustiante
pela sucessão destas três ações fundamentais:
- O incêndio do palácio de Manuel de Sousa e a destruição do seu
retrato (fim do 1.º ato);
- A mudança para o palácio de D. João de Portugal e a chegada deste
na pessoa do Romeiro (2. o ato);
- A morte de Maria e a tomada de hábito de Manuel de Sousa e de D.
Madalena (fim do 3. ° ato).
PAULA CRUZ
A TRAGÉDIA EM FREI LUÍS DE
SOUSA
Podemos ver aqui já os elementos fundamentais da tragédia clássica:
- Peripécias: incêndio do palácio, mudança para o palácio de D. João de Portugal, chegada
do Romeiro, morte de Maria, tomada de hábito dos pais;
- O clímax atinge-se com a chegada do romeiro e com a sua identificação com D. João de
Portugal (reconhecimento ou anagnórise);
- Catástrofe (coincidente com o desfecho da Ação dramática): morte física de Maria, e
morte apenas para o mundo de Manuel de Sousa e D. Madalena.
- Como elementos mais excitantes, ou de maior expectativa, além do conhecimento e do
incêndio do palácio (já apontados), podemos destacar:
a notícia de que os governadores espanhóis se queriam instalar no palácio de Manuel de
Sousa;
a confissão de D. Madalena (feita a Frei Jorge) de que amara o segundo marido desde a
primeira vez que o vira;
a cena 5 do ato III (diálogo entre Telmo e o Romeiro) e as 10, 11 e 12 do mesmo ato
(diálogo entre Telmo, o Romeiro, D. Madalena e Maria),
PAULA CRUZ
COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS
AÇÕES
A) Ações simultâneas:
- Ligadas por uma relação de causalidade:
A notícia trazida de Lisboa por Frei Jorge de que os governadores
queriam fixar-se em Almada no palácio de Manuel de Sousa e o
incêndio provocado por este;
- Ligados por uma relação de condição:
A ida de Manuel de Sousa a Lisboa e a chegada do Romeiro...
PAULA CRUZ
COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS
AÇÕES
B) Ações passadas (causaram ou condicionaram ações do presente, ou
criaram uma nova dinâmica na atuação das personagens):
- Madalena recorda a Telmo a perda do primeiro marido em Alcácer Quibir
(ato I, cena 2);
- D. Madalena recorda três acontecimentos:
É um dia fatal para mim; faz hoje anos que Casei pela primeira vez,
... Que se perdeu el-rei D. Sebastião... e que vi pela primeira vez a
Manuel de Sousa (ato II, cena 10);
- Manuel de Sousa refere-se ao seu casamento com D. Madalena (um erro?
um crime?); ele e frei Jorge recordam os factos do fim do ato II e princípio do
ato III (ato III, cena 1).
PAULA CRUZ
COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS
AÇÕES
C) Ações futuras
Apresentadas por meio de pressentimentos, ou presságios:.. Consti-
tuem molas de tensão que motivam as personagens nas ações pre-
sentes:
- O receio da vinda de D. João de Portugal, fonte de terrores
contínuos para D. Madalena (do princípio do ato I até ao
reconhecimento (fim do ato II).
- Acontecimentos pressentidos pelos presságios contínuos de Telmo,
explorados pela curiosidade de Maria (ato I, cena 4 e ato II, cena 1).
PAULA CRUZ
ESTRUTURA EXTERNA DA OBRA
Frei Luís de Sousa está dividido em três atos e cada ato subdivide-se
em cenas.
Assim, o ato I tem 12 cenas, o ato II tem 15 e o ato III, 12.
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | PROCESSOS DE
CARACTERIZAÇÃO
a) DIRETA - dada pelas palavras que as personagens produzem
acerca de si próprias e pelas palavras de outras personagens;
b) INDIRETA - deduzida pelo espectador a partir das atitudes, das
ações e até das próprias palavras (na medida em que revelam
procedimentos) das personagens. Os gestos, os "apartes" são
também bons elementos de caracterização indireta.
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | D. MADALENA DE VILHENA
"Em tudo o mais sou mulher, muito mulher".
Esta afirmação de Madalena é uma exata autocaracterizarão de uma
personagem romântica. Na realidade D. Madalena foi sempre
dominada pelo sentimento do amor. Religiosa, sim, mas não
compreendia que o amor de Deus pudesse exigir o sacrifício do amor
humano.
Amava a filha, sim, mas o amor de mulher (para com Manuel de
Sousa) era superior ao amor de mãe. Senhora virtuosa, como
convinha à sua dignidade social, mas essa virtude oscilava entre a
realidade e a aparência (amou o segundo marido ainda quando vivia
com o primeiro). O sentimento do amor à pátria confundia-se com o
amor a si própria (a vinda dos espanhóis para casa do seu marido era
uma ofensa pessoal: mas que mal fizemos nós aos governadores?)
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | MANUEL DE SOUSA COUTINHO
Antes do aparecimento do romeiro, Manuel de Sousa era um herói
clássico. Guiado sempre pela razão, enfrentava os acontecimentos
com serenidade, deliberando sempre à luz de uma ordem de valores
aceites universalmente: a liberdade, a moral, a honra, o nacionalismo.
Veja-se, no ato I, a resposta que ele deu às tentativas dos
governadores incendiando o palácio.
Depois do aparecimento do Romeiro, a razão de Manuel de Sousa
deixa-se perturbar pela emoção, revelando-se aqui esta personagem
mais romântica do que clássica. Veja-se, por exemplo, a cena 1 do
ato III, em que as suas palavras revelam, em tom verdadeiramente
trágico, a violência incontrolável da emoção.
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | MANUEL DE SOUSA COUTINHO
Antes do aparecimento do romeiro, Manuel de Sousa era um herói
clássico. Guiado sempre pela razão, enfrentava os acontecimentos
com serenidade, deliberando sempre à luz de uma ordem de valores
aceites universalmente: a liberdade, a moral, a honra, o nacionalismo.
Veja-se, no ato I, a resposta que ele deu às tentativas dos
governadores incendiando o palácio.
Depois do aparecimento do Romeiro, a razão de Manuel de Sousa
deixa-se perturbar pela emoção, revelando-se aqui esta personagem
mais romântica do que clássica. Veja-se, por exemplo, a cena 1 do
ato III, em que as suas palavras revelam, em tom verdadeiramente
trágico, a violência incontrolável da emoção.
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | MARIA DE NORONHA
Menina inteligente e imaginativa, influenciada talvez pela
intranquilidade inevitável da mãe e pelo sebastianismo de Telmo,
também ela vivia no pressentimento de que qualquer coisa de terrível
estava iminente sobre a sua família.
Daí a sua fantasia incontrolável e a sua curiosidade invencível.
Maria não nos aparece nunca como uma personagem real, tal o grau
de idealização em que foi concebida. Angélica com uma criança e
perspicaz como adulta, Maria não se impõe ao espectador (ou leitor)
como uma criança real.
MULHER ANJO
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | JOÃO DE PORTUGAL
No decorrer dos dois primeiros atos; é uma personagem abstrata:
existe na fantasia de Madalena, Maria e Telmo. Torna-se uma
personalidade concreta quando aparece, no 3.º ato, na figura de
romeiro, concretizando assim os receios que torturavam Madalena e
quando tenta mesmo interferir na Ação dramática, procurando
impedir o desenlace fatal.
Mesmo nesta segunda fase, como entidade concreta, esta persona-
gem não vale por si própria, tem apenas força simbólica, que movi-
menta as outras personagens.
D. João de Portugal é, pois, uma espécie de fantasma personificando
a fatalidade, o destino mau, não em relação a si, mas em relação às
outras personagens. No fim da peça ninguém se compadece dele
como marido ultrajado, mas das outras personagens trágicas PAULA CRUZ
PERSONAGENS | TELMO PAIS
Com os seus vaticínios (presságios), com os frequentes comentários
aos acontecimentos, tudo imbuído de um sebastianismo arreigado,
Teimo encarna em si o papel do coro na tragédia clássica. É também
confidente, sobretudo em relação a D. Madalena e a Maria. Apesar de
personagem secundária, Teimo é dotado de uma certa profundidade
psicológica, provocada pelo conflito interior que o divide entre a fide-
lidade a D. João de Portugal e a fidelidade a D. Madalena.
PAULA CRUZ
PERSONAGENS | FREI JORGE
É também confidente e participa com Telmo no papel próprio do coro
da tragédia clássica.
Ele é, porém, a personagem que contribui para que os
acontecimentos trágicos sejam suavizados por uma perspetival cristã.
PAULA CRUZ
O ESPAÇO
Considerando o espaço onde se realiza a ação (o espaço cénico), cada ato
tem o seu espaço:
- No ato I a ação situa-se "numa câmara antiga, ornada com todo o luxo e
caprichosa elegância portuguesa dos princípios do séc. XVII", no palácio de
Manuel de Sousa, em Almada.
- No ato II, a ação passa-se num "salão antigo, de gosto melancólico e
pesado, com grandes retratos de família, (...) o de el-rei D. Sebastião, de
Camões, e de D. João de Portugal", também em Almada.
- No ato III, a ação desenrola-se na "parte baixa do palácio de D. João de
Portugal, um casarão vasto sem ornato algum..., comunicando com a capela
da Senhora da Piedade... "
PAULA CRUZ
O TEMPO
Tal como sucede com o espaço, também aqui podemos considerar aqui da
ação ou ações que constam da peça e o tempo dramático, que é mais vasto
que o primeiro.
Quanto ao tempo da ação o primeiro ato decorre num fim de tarde (É
no fim da tarde); o segundo ato passa-se oito dias depois (há já oito dias
que aqui estamos nesta casa...); o terceiro ato decorre a altas horas da noite
(É alta noite).
Quanto ao tempo dramático, ele vem desde o casamento de D. João
de Portugal com D. Madalena (antes de 1578), passando pelos sete anos em
que ela procurou saber se ele era vivo ou morto, pelos catorze em que D.
Madalena esteve casada com Manuel de Sousa, pelos oito dias em que
Madalena viveu no palácio de D. João de Portugal, três dias (de um a três de
agosto) em que D. João se apressava a chegar junto de sua mulher, até um
dia (4 de agosto - HOJE!)
Portanto, também o tempo dramático se vai estreitando, se vai
estreitando, à medida que o desenlace trágico vai chegando ao fim. PAULA CRUZ
LINGUAGEM E MODOS DE EXPRESSÃO
A linguagem é sempre digna e culta, conforme convém a uma obra
com características de tragédia. Há, porém, muitas vezes, um tom
declamatório, com muitas exclamações, reticências, interrogações, o
que está de acordo com os processos românticos.
De qualquer forma, a linguagem é acomodada às circunstâncias
e personagens: linguagem carregada de inquietação e angústia em
Madalena; digna, respeitosa sem deixar de ser familiar em Telmo;
nobre e elegante, por vezes de tom didático, em Manuel de Sousa;
confidencial, de tom religioso e moralizador, em Frei Jorge.
PAULA CRUZ
CLASSIFICAÇÃO DA OBRA
Na Memória Ao Conservatório Real, Garrett classificou a sua obra: é
uma tragédia (...). Não sou tão desabusado contudo que me atreva a
dar a uma composição em prosa o título solene que as musas gregas
deixaram consagrada à mais sublime e difícil de todas as
composições poéticas (... ). Contento-me para a minha obra com o
título modesto de drama) desta de drama".
Trata-se, portanto, de um drama romântico com algumas
características de tragédia clássica.
PAULA CRUZ
CARACTERISTICAS CLÁSSICAS
Tem unidade de ação com progressão dramática das acontecimentos até
atingir o clímax;
o sofrimento (pathos) apodera-se das personagens e dos espectadores
também progressivamente até à catástrofe / a incêndio provocado por
Manuel de Sousa pode considerar-se um excesso, um desafio (hybris);
há a ação' constante da fatalidade, da de tino;
há os presságios lançadas sobretudo por Telmo- função do coro na tragédia
grega;
dá-se o reconhecimento (anagnórise) que dá origem à catástrofe;
as personagens são nobres (aristocráticas) e sempre poucas em cena.
Não obedece, porém à unidade de espaço e de tempo e não foi escrita em
verso, como as tragédias clássicas, pelo que, e segunda opinião do próprio
autor, é melhor considerar esta obra coma um drama.
PAULA CRUZ
CARACTERISTICAS CLÁSSICAS
Embora não perfeitamente histórica, a assunto é nacional, eivado da
messianismo que constituída uma força de reação contra a
dominação das espanhóis;
algumas personagens, sobretudo D. Madalena e Maria, embora
aristocráticas, são verdadeiras heroínas românticas pelo seu
comportamento emocional;
a religião consoladora aparece para suavizar a sofrimento trágica
(tomada de hábito de D. Madalena e de Manuel de Sousa);
uma sensibilidade cristã percorre toda a abra e a própria conflito tem,
em grande parte, origem na ética cristã;
a morte de uma personagem em cena admite-se no romantismo, mas
não no classicismo;
a linguagem e o estilo, como já se viu, têm características românticas.PAULA CRUZ
PARA UMA SISTEMATIZAÇÃO DIDÁCTICA
DAS LEITURAS INTERPRETATIVAS DO FREI LUÍS DE SOUSA DE ALMEIDA GARRETT *-
EXCERTOS DE UMA COMUNICAÇÃO DE CÂNDIDO MARTINS
Leitura político-sociológica
(…) está subjacente no Frei Luís de Sousa a ideológica exploração da
similitude entre duas épocas históricas: o moderno autoritarismo cabralista,
sob a aparência de um regime liberalista, assemelha-se à despótica
ocupação castelhana. Neste sentido, a obra de Garrett não deixa de ser uma
crítica mais ou menos velada à política vigente, ressaltando a revolta e
sublevação de um homem (Manuel de Sousa) contra a tirania de um regime
imposto, e em prol do elevado valor da liberdade e da independência
ideológica. Imagem ficcional do empenhamento político-ideológico do
próprio Garrett, o heroísmo de Manuel de Sousa deve ser interpretado como
um significativo acto de vontade, por parte de um homem que preza a
liberdade contra todas as formas de tirania. (…)
PAULA CRUZ
(…) António José Saraiva sustenta que Telmo, verdadeira personagem central
do drama, que o próprio Garrett interpretou na primeira representação,
simboliza a alma profunda e fragmentada do autor, no seu aspecto mais
dramático de interioridade partida entre dois conflitos de fidelidades (culto
sebástico e crença no regresso do seu amo, a par da profunda afeição por
Maria), de impossível harmonização: "A personagem que verdadeiramente se
encontra no núcleo do Frei Luís de Sousa e em quem encarna o conflito é
Telmo Pais" (…) O dramatismo intensifica-se quando o velho Telmo se
consciencializa da passagem do tempo, dando-se conta de que a antiga
veneração ou culto por D. João, que vive apenas na sua "lembrança
mumificada", é substituída por uma sentida afeição bem real e viva pela
jovem Maria de Noronha. Este é o cerne do conflito interior de Telmo Pais,
aquele que lhe opõe a antiga "fidelidade de escudeiro" e nova afeição por
Maria. Mudam-se os tempos e as circunstâncias, mudam os corações, e a
pretendida coerência de sentimentos torna-se impossível. Perante este
dilema interior, o velho aio acaba por transformar-se no anunciador da
"morte do impostor" (D. João de Portugal). Essa morte do passado é-lhe
solicitada expressamente pelo antigo amo, mas esse pedido estava já PAULA CRUZ
LEITURA MÍTICO-CULTURAL: O
SEBASTIANISMO E O DESTINO PORTUGUÊS
. Para Garrett, desencantado com o rumo da nação, umbilicalmente
ligado a um passado quinhentista, e vivendo à sombra de uma
pesada memória, o Portugal de Oitocentos só teria futuro libertando-
se dessa persistente, infrutífera e mortal nostalgia passadista.
O mito do Encoberto é perspectivado, negativamente, como sinónimo
de paragem no tempo, de irrealidade, de sacrifício do herói na ca-
tástrofe final. O regresso do (falso) D. Sebastião, na figura de D. João,
implica a alteração do rumo da história e o aniquilamento. Por isso,
diante do espelho do seu retrato, o representante do Portugal morto
e sebástico se define como Ninguém. O Portugal do futuro não pode
alimentar-se de estéreis utopias passadistas.
PAULA CRUZ
LEITURA MÍTICO-CULTURAL: O
SEBASTIANISMO E O DESTINO PORTUGUÊS
O drama de Garrett fala de Portugal, num momento em que ele se interroga pela
boca de Garrett. É um país que vive um presente hipotecado, à sombra de um
obcecado sentimento de saudade passadista e sebastianista. Neste sentido, é
uma peça assombrada, habitada por dois fantasmas – um quase fantasma (D.
João de Portugal) e um outro fantasma mítico (D. Sebastião). O simbolismo
alegórico que une os dois personagens está bem representado no nome do
primeiro: o primeiro nome (D. João) remete-nos para alguns monarcas da
História de Portugal; e no sobrenome (de Portugal), está cristalizado o próprio
nome da Nação, num momento crucial da sua História. É preciso matar ou
exorcizar o passado, para que Portugal possa ter futuro:
"Um só personagem tem os pés no presente por tê-los no futuro, mas os
restantes fantasmas acabam por convertê-lo em Frei Luís de Sousa, em cronista
encerrado entre os quatro muros, entregue à evocação desse passado que o
devorou vivo. É o duplo de Garrett que por sua vez escreverá o Frei Luís de
Sousa para mostrar como também ele não tem presente ou só o tem sob a forma
dessa escrita através da qual o presente – todos os presentes – manifesta a sua
intrínseca e irremível irrealidade"
PAULA CRUZ

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Frei luís de sousa

  • 1. FREI LUÍS DE SOUSA Almeida Garrett
  • 2. FREI LUÍS DE SOUSA ATO I No cenário elegante do palácio de Manuel de Sousa Coutinho, em Almada, D. Madalena medita nestes versos do episódio de D. Inês de Castro: Naquele engano de alma Ieda e cego Que a fortuna não deixa durar muito ... Estes versos avolumam as dúvidas e os temores que há muito a torturavam (também a sua felicidade com Manuel de Sousa poderia não durar muito... ). Com efeito, nenhuma nova aparecera da morte de seu 1.º marido, D. João de Portugal. Por outro lado, a íntima convicção de Telmo da que D. João de Portugal não morrera e as frequentes confidências Maria alimentavam nesta uma curiosidade perspicaz e doentia. Tudo isto torturava e sobressaltava a consciência de Madalena. Entretanto os governadores castelhanos, como grassava a peste em Lisboa, resolveram instalar-se no palácio de Manuel de Sousa, em Almada. Manuel de Sousa, movido por um nobre orgulho patriótico, decide lançar o fogo ao seu palácio, exclamando ironicamente: Ilumino a minha casa para receber os muito poderosos governadores destes reinos... PAULA CRUZ
  • 3. FREI LUÍS DE SOUSA ATO II Durante o incêndio, duas coisas se gravaram no espírito já de si sobressaltado de D. Madalena: o retrato de Manuel de Sousa, seu marido, e a visão inesperada do retrato de D. João de Portugal, iluminado pelas chamas. A destruição do primeiro retrato e a visão do segundo pressagiavam coisas terríveis... No palácio de D. João nunca Madalena conseguiu libertar-se do significado terrível de tal visão. No espirito dela, como no das outras personagens, abatia-se implacavelmente a fatalidade. E quando, na ausência de Manuel de Sousa, que tinha ido a Lisboa, Frei Jorge procurava tranquilizar D. Madalena, eis que um criado anuncia a chegada de um romeiro. - Quem és tu, Romeiro? - Perguntou Frei Jorge. E o Romeiro, apontando o retrato: NINGUÉM! PAULA CRUZ
  • 4. FREI LUÍS DE SOUSA ATO III Uma angústia mortal se abatia sobre D. Madalena e Manuel de Sousa. A identificação de D. João de Portugal na pessoa do romeiro cobria- os de vergonha, a eles e à sua filha, Maria. A única solução para eles era agora separarem-se e refugiarem-se num convento. O romeiro tenta ainda desfazer o mal que tinha provocado, mas já era tarde. D. Madalena e Manuel de Sousa resolveram morrer para o mundo e vão tomar o hábito de S. Francisco. Maria, de rosto macerado e olhos desvairados, entra precipitadamente na igreja, interrompendo a impressionante cerimónia e escondendo o rosto no seio da mãe, grita, perante o espanto de todos: morro, morro de vergonha. E cai morta no chão. PAULA CRUZ
  • 5. A AÇÃO ESTRUTURA INTERNA DA OBRA O conflito vai-se desenrolando e tornando cada vez mais angustiante pela sucessão destas três ações fundamentais: - O incêndio do palácio de Manuel de Sousa e a destruição do seu retrato (fim do 1.º ato); - A mudança para o palácio de D. João de Portugal e a chegada deste na pessoa do Romeiro (2. o ato); - A morte de Maria e a tomada de hábito de Manuel de Sousa e de D. Madalena (fim do 3. ° ato). PAULA CRUZ
  • 6. A TRAGÉDIA EM FREI LUÍS DE SOUSA Podemos ver aqui já os elementos fundamentais da tragédia clássica: - Peripécias: incêndio do palácio, mudança para o palácio de D. João de Portugal, chegada do Romeiro, morte de Maria, tomada de hábito dos pais; - O clímax atinge-se com a chegada do romeiro e com a sua identificação com D. João de Portugal (reconhecimento ou anagnórise); - Catástrofe (coincidente com o desfecho da Ação dramática): morte física de Maria, e morte apenas para o mundo de Manuel de Sousa e D. Madalena. - Como elementos mais excitantes, ou de maior expectativa, além do conhecimento e do incêndio do palácio (já apontados), podemos destacar: a notícia de que os governadores espanhóis se queriam instalar no palácio de Manuel de Sousa; a confissão de D. Madalena (feita a Frei Jorge) de que amara o segundo marido desde a primeira vez que o vira; a cena 5 do ato III (diálogo entre Telmo e o Romeiro) e as 10, 11 e 12 do mesmo ato (diálogo entre Telmo, o Romeiro, D. Madalena e Maria), PAULA CRUZ
  • 7. COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS AÇÕES A) Ações simultâneas: - Ligadas por uma relação de causalidade: A notícia trazida de Lisboa por Frei Jorge de que os governadores queriam fixar-se em Almada no palácio de Manuel de Sousa e o incêndio provocado por este; - Ligados por uma relação de condição: A ida de Manuel de Sousa a Lisboa e a chegada do Romeiro... PAULA CRUZ
  • 8. COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS AÇÕES B) Ações passadas (causaram ou condicionaram ações do presente, ou criaram uma nova dinâmica na atuação das personagens): - Madalena recorda a Telmo a perda do primeiro marido em Alcácer Quibir (ato I, cena 2); - D. Madalena recorda três acontecimentos: É um dia fatal para mim; faz hoje anos que Casei pela primeira vez, ... Que se perdeu el-rei D. Sebastião... e que vi pela primeira vez a Manuel de Sousa (ato II, cena 10); - Manuel de Sousa refere-se ao seu casamento com D. Madalena (um erro? um crime?); ele e frei Jorge recordam os factos do fim do ato II e princípio do ato III (ato III, cena 1). PAULA CRUZ
  • 9. COORDENAÇÃO E CORRELAÇÃO DAS AÇÕES C) Ações futuras Apresentadas por meio de pressentimentos, ou presságios:.. Consti- tuem molas de tensão que motivam as personagens nas ações pre- sentes: - O receio da vinda de D. João de Portugal, fonte de terrores contínuos para D. Madalena (do princípio do ato I até ao reconhecimento (fim do ato II). - Acontecimentos pressentidos pelos presságios contínuos de Telmo, explorados pela curiosidade de Maria (ato I, cena 4 e ato II, cena 1). PAULA CRUZ
  • 10. ESTRUTURA EXTERNA DA OBRA Frei Luís de Sousa está dividido em três atos e cada ato subdivide-se em cenas. Assim, o ato I tem 12 cenas, o ato II tem 15 e o ato III, 12. PAULA CRUZ
  • 11. PERSONAGENS | PROCESSOS DE CARACTERIZAÇÃO a) DIRETA - dada pelas palavras que as personagens produzem acerca de si próprias e pelas palavras de outras personagens; b) INDIRETA - deduzida pelo espectador a partir das atitudes, das ações e até das próprias palavras (na medida em que revelam procedimentos) das personagens. Os gestos, os "apartes" são também bons elementos de caracterização indireta. PAULA CRUZ
  • 12. PERSONAGENS | D. MADALENA DE VILHENA "Em tudo o mais sou mulher, muito mulher". Esta afirmação de Madalena é uma exata autocaracterizarão de uma personagem romântica. Na realidade D. Madalena foi sempre dominada pelo sentimento do amor. Religiosa, sim, mas não compreendia que o amor de Deus pudesse exigir o sacrifício do amor humano. Amava a filha, sim, mas o amor de mulher (para com Manuel de Sousa) era superior ao amor de mãe. Senhora virtuosa, como convinha à sua dignidade social, mas essa virtude oscilava entre a realidade e a aparência (amou o segundo marido ainda quando vivia com o primeiro). O sentimento do amor à pátria confundia-se com o amor a si própria (a vinda dos espanhóis para casa do seu marido era uma ofensa pessoal: mas que mal fizemos nós aos governadores?) PAULA CRUZ
  • 13. PERSONAGENS | MANUEL DE SOUSA COUTINHO Antes do aparecimento do romeiro, Manuel de Sousa era um herói clássico. Guiado sempre pela razão, enfrentava os acontecimentos com serenidade, deliberando sempre à luz de uma ordem de valores aceites universalmente: a liberdade, a moral, a honra, o nacionalismo. Veja-se, no ato I, a resposta que ele deu às tentativas dos governadores incendiando o palácio. Depois do aparecimento do Romeiro, a razão de Manuel de Sousa deixa-se perturbar pela emoção, revelando-se aqui esta personagem mais romântica do que clássica. Veja-se, por exemplo, a cena 1 do ato III, em que as suas palavras revelam, em tom verdadeiramente trágico, a violência incontrolável da emoção. PAULA CRUZ
  • 14. PERSONAGENS | MANUEL DE SOUSA COUTINHO Antes do aparecimento do romeiro, Manuel de Sousa era um herói clássico. Guiado sempre pela razão, enfrentava os acontecimentos com serenidade, deliberando sempre à luz de uma ordem de valores aceites universalmente: a liberdade, a moral, a honra, o nacionalismo. Veja-se, no ato I, a resposta que ele deu às tentativas dos governadores incendiando o palácio. Depois do aparecimento do Romeiro, a razão de Manuel de Sousa deixa-se perturbar pela emoção, revelando-se aqui esta personagem mais romântica do que clássica. Veja-se, por exemplo, a cena 1 do ato III, em que as suas palavras revelam, em tom verdadeiramente trágico, a violência incontrolável da emoção. PAULA CRUZ
  • 15. PERSONAGENS | MARIA DE NORONHA Menina inteligente e imaginativa, influenciada talvez pela intranquilidade inevitável da mãe e pelo sebastianismo de Telmo, também ela vivia no pressentimento de que qualquer coisa de terrível estava iminente sobre a sua família. Daí a sua fantasia incontrolável e a sua curiosidade invencível. Maria não nos aparece nunca como uma personagem real, tal o grau de idealização em que foi concebida. Angélica com uma criança e perspicaz como adulta, Maria não se impõe ao espectador (ou leitor) como uma criança real. MULHER ANJO PAULA CRUZ
  • 16. PERSONAGENS | JOÃO DE PORTUGAL No decorrer dos dois primeiros atos; é uma personagem abstrata: existe na fantasia de Madalena, Maria e Telmo. Torna-se uma personalidade concreta quando aparece, no 3.º ato, na figura de romeiro, concretizando assim os receios que torturavam Madalena e quando tenta mesmo interferir na Ação dramática, procurando impedir o desenlace fatal. Mesmo nesta segunda fase, como entidade concreta, esta persona- gem não vale por si própria, tem apenas força simbólica, que movi- menta as outras personagens. D. João de Portugal é, pois, uma espécie de fantasma personificando a fatalidade, o destino mau, não em relação a si, mas em relação às outras personagens. No fim da peça ninguém se compadece dele como marido ultrajado, mas das outras personagens trágicas PAULA CRUZ
  • 17. PERSONAGENS | TELMO PAIS Com os seus vaticínios (presságios), com os frequentes comentários aos acontecimentos, tudo imbuído de um sebastianismo arreigado, Teimo encarna em si o papel do coro na tragédia clássica. É também confidente, sobretudo em relação a D. Madalena e a Maria. Apesar de personagem secundária, Teimo é dotado de uma certa profundidade psicológica, provocada pelo conflito interior que o divide entre a fide- lidade a D. João de Portugal e a fidelidade a D. Madalena. PAULA CRUZ
  • 18. PERSONAGENS | FREI JORGE É também confidente e participa com Telmo no papel próprio do coro da tragédia clássica. Ele é, porém, a personagem que contribui para que os acontecimentos trágicos sejam suavizados por uma perspetival cristã. PAULA CRUZ
  • 19. O ESPAÇO Considerando o espaço onde se realiza a ação (o espaço cénico), cada ato tem o seu espaço: - No ato I a ação situa-se "numa câmara antiga, ornada com todo o luxo e caprichosa elegância portuguesa dos princípios do séc. XVII", no palácio de Manuel de Sousa, em Almada. - No ato II, a ação passa-se num "salão antigo, de gosto melancólico e pesado, com grandes retratos de família, (...) o de el-rei D. Sebastião, de Camões, e de D. João de Portugal", também em Almada. - No ato III, a ação desenrola-se na "parte baixa do palácio de D. João de Portugal, um casarão vasto sem ornato algum..., comunicando com a capela da Senhora da Piedade... " PAULA CRUZ
  • 20. O TEMPO Tal como sucede com o espaço, também aqui podemos considerar aqui da ação ou ações que constam da peça e o tempo dramático, que é mais vasto que o primeiro. Quanto ao tempo da ação o primeiro ato decorre num fim de tarde (É no fim da tarde); o segundo ato passa-se oito dias depois (há já oito dias que aqui estamos nesta casa...); o terceiro ato decorre a altas horas da noite (É alta noite). Quanto ao tempo dramático, ele vem desde o casamento de D. João de Portugal com D. Madalena (antes de 1578), passando pelos sete anos em que ela procurou saber se ele era vivo ou morto, pelos catorze em que D. Madalena esteve casada com Manuel de Sousa, pelos oito dias em que Madalena viveu no palácio de D. João de Portugal, três dias (de um a três de agosto) em que D. João se apressava a chegar junto de sua mulher, até um dia (4 de agosto - HOJE!) Portanto, também o tempo dramático se vai estreitando, se vai estreitando, à medida que o desenlace trágico vai chegando ao fim. PAULA CRUZ
  • 21. LINGUAGEM E MODOS DE EXPRESSÃO A linguagem é sempre digna e culta, conforme convém a uma obra com características de tragédia. Há, porém, muitas vezes, um tom declamatório, com muitas exclamações, reticências, interrogações, o que está de acordo com os processos românticos. De qualquer forma, a linguagem é acomodada às circunstâncias e personagens: linguagem carregada de inquietação e angústia em Madalena; digna, respeitosa sem deixar de ser familiar em Telmo; nobre e elegante, por vezes de tom didático, em Manuel de Sousa; confidencial, de tom religioso e moralizador, em Frei Jorge. PAULA CRUZ
  • 22. CLASSIFICAÇÃO DA OBRA Na Memória Ao Conservatório Real, Garrett classificou a sua obra: é uma tragédia (...). Não sou tão desabusado contudo que me atreva a dar a uma composição em prosa o título solene que as musas gregas deixaram consagrada à mais sublime e difícil de todas as composições poéticas (... ). Contento-me para a minha obra com o título modesto de drama) desta de drama". Trata-se, portanto, de um drama romântico com algumas características de tragédia clássica. PAULA CRUZ
  • 23. CARACTERISTICAS CLÁSSICAS Tem unidade de ação com progressão dramática das acontecimentos até atingir o clímax; o sofrimento (pathos) apodera-se das personagens e dos espectadores também progressivamente até à catástrofe / a incêndio provocado por Manuel de Sousa pode considerar-se um excesso, um desafio (hybris); há a ação' constante da fatalidade, da de tino; há os presságios lançadas sobretudo por Telmo- função do coro na tragédia grega; dá-se o reconhecimento (anagnórise) que dá origem à catástrofe; as personagens são nobres (aristocráticas) e sempre poucas em cena. Não obedece, porém à unidade de espaço e de tempo e não foi escrita em verso, como as tragédias clássicas, pelo que, e segunda opinião do próprio autor, é melhor considerar esta obra coma um drama. PAULA CRUZ
  • 24. CARACTERISTICAS CLÁSSICAS Embora não perfeitamente histórica, a assunto é nacional, eivado da messianismo que constituída uma força de reação contra a dominação das espanhóis; algumas personagens, sobretudo D. Madalena e Maria, embora aristocráticas, são verdadeiras heroínas românticas pelo seu comportamento emocional; a religião consoladora aparece para suavizar a sofrimento trágica (tomada de hábito de D. Madalena e de Manuel de Sousa); uma sensibilidade cristã percorre toda a abra e a própria conflito tem, em grande parte, origem na ética cristã; a morte de uma personagem em cena admite-se no romantismo, mas não no classicismo; a linguagem e o estilo, como já se viu, têm características românticas.PAULA CRUZ
  • 25. PARA UMA SISTEMATIZAÇÃO DIDÁCTICA DAS LEITURAS INTERPRETATIVAS DO FREI LUÍS DE SOUSA DE ALMEIDA GARRETT *- EXCERTOS DE UMA COMUNICAÇÃO DE CÂNDIDO MARTINS Leitura político-sociológica (…) está subjacente no Frei Luís de Sousa a ideológica exploração da similitude entre duas épocas históricas: o moderno autoritarismo cabralista, sob a aparência de um regime liberalista, assemelha-se à despótica ocupação castelhana. Neste sentido, a obra de Garrett não deixa de ser uma crítica mais ou menos velada à política vigente, ressaltando a revolta e sublevação de um homem (Manuel de Sousa) contra a tirania de um regime imposto, e em prol do elevado valor da liberdade e da independência ideológica. Imagem ficcional do empenhamento político-ideológico do próprio Garrett, o heroísmo de Manuel de Sousa deve ser interpretado como um significativo acto de vontade, por parte de um homem que preza a liberdade contra todas as formas de tirania. (…) PAULA CRUZ
  • 26. (…) António José Saraiva sustenta que Telmo, verdadeira personagem central do drama, que o próprio Garrett interpretou na primeira representação, simboliza a alma profunda e fragmentada do autor, no seu aspecto mais dramático de interioridade partida entre dois conflitos de fidelidades (culto sebástico e crença no regresso do seu amo, a par da profunda afeição por Maria), de impossível harmonização: "A personagem que verdadeiramente se encontra no núcleo do Frei Luís de Sousa e em quem encarna o conflito é Telmo Pais" (…) O dramatismo intensifica-se quando o velho Telmo se consciencializa da passagem do tempo, dando-se conta de que a antiga veneração ou culto por D. João, que vive apenas na sua "lembrança mumificada", é substituída por uma sentida afeição bem real e viva pela jovem Maria de Noronha. Este é o cerne do conflito interior de Telmo Pais, aquele que lhe opõe a antiga "fidelidade de escudeiro" e nova afeição por Maria. Mudam-se os tempos e as circunstâncias, mudam os corações, e a pretendida coerência de sentimentos torna-se impossível. Perante este dilema interior, o velho aio acaba por transformar-se no anunciador da "morte do impostor" (D. João de Portugal). Essa morte do passado é-lhe solicitada expressamente pelo antigo amo, mas esse pedido estava já PAULA CRUZ
  • 27. LEITURA MÍTICO-CULTURAL: O SEBASTIANISMO E O DESTINO PORTUGUÊS . Para Garrett, desencantado com o rumo da nação, umbilicalmente ligado a um passado quinhentista, e vivendo à sombra de uma pesada memória, o Portugal de Oitocentos só teria futuro libertando- se dessa persistente, infrutífera e mortal nostalgia passadista. O mito do Encoberto é perspectivado, negativamente, como sinónimo de paragem no tempo, de irrealidade, de sacrifício do herói na ca- tástrofe final. O regresso do (falso) D. Sebastião, na figura de D. João, implica a alteração do rumo da história e o aniquilamento. Por isso, diante do espelho do seu retrato, o representante do Portugal morto e sebástico se define como Ninguém. O Portugal do futuro não pode alimentar-se de estéreis utopias passadistas. PAULA CRUZ
  • 28. LEITURA MÍTICO-CULTURAL: O SEBASTIANISMO E O DESTINO PORTUGUÊS O drama de Garrett fala de Portugal, num momento em que ele se interroga pela boca de Garrett. É um país que vive um presente hipotecado, à sombra de um obcecado sentimento de saudade passadista e sebastianista. Neste sentido, é uma peça assombrada, habitada por dois fantasmas – um quase fantasma (D. João de Portugal) e um outro fantasma mítico (D. Sebastião). O simbolismo alegórico que une os dois personagens está bem representado no nome do primeiro: o primeiro nome (D. João) remete-nos para alguns monarcas da História de Portugal; e no sobrenome (de Portugal), está cristalizado o próprio nome da Nação, num momento crucial da sua História. É preciso matar ou exorcizar o passado, para que Portugal possa ter futuro: "Um só personagem tem os pés no presente por tê-los no futuro, mas os restantes fantasmas acabam por convertê-lo em Frei Luís de Sousa, em cronista encerrado entre os quatro muros, entregue à evocação desse passado que o devorou vivo. É o duplo de Garrett que por sua vez escreverá o Frei Luís de Sousa para mostrar como também ele não tem presente ou só o tem sob a forma dessa escrita através da qual o presente – todos os presentes – manifesta a sua intrínseca e irremível irrealidade" PAULA CRUZ