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1o
. Edição
São Paulo
2016
Fragmentos I
Textos Religiosos Antigos
sob a ótica Fenomenológica
da História das Religiões
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
Copyright © 2016 by Leonardo Arantes Marques
Diagramação e capa:
Rubervânio Rubinho Lima
Editoração e revisão:
editoraoxente@gmail.com
Catalogação na publicação (CIP)
Ficha Catalográfica
	 Marques, Leonardo Arantes e Coutinho, Emília dos Santos.
M357f Fragmentos I - Textos Religiosos Antigos sob a ótica
Fenomenológica da História das Religiões /Leonardo
Arantes Marques e Emília dos Santos Coutinho.
São Paulo: Editora Oxente, 2016.
328 p.;
ISBN: 978-85-68841-90-7
1. História das Religiões - Trabalhos Apócrifos,
Pseudoepígrafos, Intertestamentais
2. Leonardo Arantes Marques. I. Título
CDU: 2-25 CDD: 229
E-BOOK
Introdução | 09
1. Publicação e análise de documentos | 12
2. Fragmentos | 14
3. Evangelhos Canônicos | 17
4. As Epístolas | 30
5. Apocalipse | 40
6. Apócrifos | 41
6.1. Lista completa de livros tidos como Apócrifos | 44
7. Outros Fragmentos | 50
8. Cânone Muratori | 57
9. Didaqué ou Didaché | 63
10. Inácio (de Antioquia) | 74
11. Introdução ao Pastor de Hermas | 118
12. Diatesseron | 196
13. Anotações sobre O Livro dos Segredos de Enoch | 198
14. Observações sobre a Carta a Diogneto | 292
15. Livro ou Escritos de Q. | 307
Bibliografia | 324
ÍNDICE
Dedicatórias
Emília Santos Coutinho
A Luisa Esther e Ida, mulheres sem igual
a quem devo minha caminhada acadêmica,
A Gabriela, sem ela tudo seria mais difícil,
A Fundação Maria Tsakos, que nos proporciona
cada dia os mais profundos conhecimentos
sobre a admirável civilização grega,
em especial a professora Yocelyn Fernandes.
Leonardo Arantes Marques
As Minhas Filhas
Aimê da Silva Marques
Aléthia da Silva Marques
A amiga, hoje namorada, esposa e
amante, Neide Rosa da Silva Guimarães, que
dedico o poema abaixo.
Você é meu Anjo Sem Asas
Onde você estava todo este tempo
Que NÃO PUDE te enxergar
Qual a razão desta ausência
Onde poderei te encontrar
Fiz buscas incessantes nos mais recônditos
cantos da terra,
Minha vida estava por um fio,
Não aguentava mais as dores da minha alma
Onde poderei te encontrar
No momento de maior sofrimento,
Você me apareceu como um anjo,
Desceu das grandes alturas e ficou ao meu
lado,
Lutou contra os meus medos
Esteve firme quando fraquejei aterrorizado,
Quando não pude andar. Abraçou-me
Você me fortaleceu e me amparou
Amou-me e beijou-me como se ama e se beija
os heróis
A vitória era inexorável sobre meus medos
Quando pensei que me deixarias e voltarias
aos céus
Me dei conta de mim e da dor que sentiria
Você mirou seus olhos no fundo dos meus olhos
E beijando-me, Abdicou-se de suas asas.
Você é meu Anjo Sem Asas
Você é meu Anjo Sem Asas
(Leonardo Marques, 2015)
Introdução
	I
ntrodução é uma “(…) transposição para a linguagem –
forçosamente confusa ou complicada – de sentimentos vagos
ou complexos, que a redação normal não pode comportar”.1
	 Na verdade, não sabemos se podemos ser honestos ao ponto de
afirmar que o livro é um rachador de cabeça e a leitura será difícil, como
toda obra de pesquisa ou se no cinismo romanesco, convencemos o
leitor que a leitura será agradável. Compor introduções para mim sempre
foi complicado, pois não é um começo e sim um fim. Assim, toda boa
introdução deveria está no fim do livro, lá onde estão as conclusões. Não
sei se por não comportar uma redação normal ou por não dizer totalmente
a verdade sobre o que escrevemos ou se já estou cansado de escrever e
sendo a introdução a última parte, as mesmas já não me interessam muito.
No entanto, aprendemos nas escolas e faculdades que uma boa introdução,
ajuda o leitor a se encantar e a ler o livro. O que diria eu então a estes
leitores sobre este livro?
Em princípio não será uma empreitada muito fácil e
romanesca, pois o mesmo é bem diferente dos outros livros2
já escritos
anteriormente por nós. O Compêndio é um trabalho denso e especializado
em explicar as significações de palavras, expressões e idiossincrasias
utilizadas pelas sacralidades. Está em constantes revisões e acréscimos.
O livro História das Religiões, apesar de bem mais didático e com uma
edição revista e atualizada se tornou com a força do tempo um livro
dinâmico e necessário para se entender a dialektiké3
das religiões e o
comportamento do homo religiosus. “[…] o homo religiosus acredita
sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende
este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando o real”4
.	
1. Pessoa, F. Livro do Desassossego. Vol. I. p. 206 (Os sonhos).
2. Compêndio de Religiões e Espiritualidades, Editora Ícone, 2010 e História das Religiões e a
Dialética do Sagrado, Ideias e Letras 2015 (Edição Revista e Ampliada da edição de 2005).
3. A dialética propõe um método de pensamento baseado nas contradições entre a unidade e
multiplicidade, o singular e o universal, o movimento e a imobilidade.
4. Eliade, M. O Sagrado e o Profano, p. 97.
10
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
	 Quando minha amiga e colaboradora Emília me convidou a
participar do Fragmentos I, que ela estava se dedicando nas traduções,
tive dúvida se conseguiria auxiliá-la, pois o livro hora apresentado tem
um papel diferente das pesquisa anteriores que fizemos. Aqui envolvia
não apenas traduções, pesquisas, revirar textos antigos e novos e sim um
aprofundamento de dedicação quase exclusiva ao livro. Como acreditei
ser uma tarefa quase impossível, aceitei-o imediatamente. Acredito e
ensino as minhas filhas e alunos que tudo o que é satisfatório na vida é
complicado, difícil e trabalhoso, mas não impossível.
	 Meu papel inicialmente era verificar o material traduzido e dar
formaeleituraaomesmo.Comopassardotempoedededicaçãoexclusiva
ao material, percebi que minha empreitada era bem maior que o que
vinha realizando. O material apresentado era tão rico em informações
que seria desperdício da minha parte como estudioso em histórias das
religiões não acrescentar aos textos, estudos históricos aprofundados
antes e durante a leitura e possíveis rodapés. Assim, refiz, reli, estudei-
os varias vezes antes de acrescentar textos mais aprofundados de minhas
pesquisas nos documento apresentados por minha amiga e colaborado
Emília.
	 Os textos que antecedem as traduções servirão para ajudar
na leitura, colocando o leitor a par de cada situação que envolve tais
documentos. E por que muitas vezes este pode vir a se tornar um livro de
difícil leitura? Porque nenhum estudo histórico, filosófico, antropológico
ou psicológico sérios são materiais fáceis e de agradável leitura. Todos
os textos pesquisados, bem como os estudiosos que os explicam o fazem
dentro de validações de seus referenciais de estudos. Essas validações
nunca são claras e na maioria das vezes precisamos nos debruçar dias,
meses e anos, como foi o caso dos Fragmentos I que começamos a
elaborá-lo, pesquisá-lo e a fazer as traduções em 2010, terminando-o
realmente no final de 2015. Para o não afeiçoados em pesquisas, parece
exagero e preciosismo demorar cinco anos para publicar um livro não
muito volumoso. Porém, para a maioria dos pesquisadores estes cinco
anos foi um recorde, pois uma publicação bem feita demora cerca de
dez anos ou mais como foi o Compêndio (1998-2010) e o Dialética do
Sagrado (1999-2005) com a última edição revista (2005-2015).
	 Trabalhamos apenas cinco anos em pesquisas no Fragmentos I,
porque reversamos material de pesquisa para posteriores dez anos ou
mais para os Fragmentos II e III. Desta forma, o livro apresentado é um
livro de pesquisa que pretende trazer para o leitor leigo e o especialista,
material abundante para futuras pesquisas e análises. Tentamos sempre
deixar o livro o mais acessível possível. No entanto, sabemos que a
empreitada é difícil e fazemos sempre o melhor de nós.
Leonardo Arantes Marques
São Paulo, 2015
1. Publicação e análise de
documentos
	O
s documentos mais antigos que temos são relativamente
recentes. Tanto quanto podemos reconstruir o passado
mais remoto, é mais seguro supor que a vida religiosa foi,
desde sempre, bastante complexa, e que as ideias ‘elevadas’ coexistiam
com formas ‘inferiores’ de adoração e crença.5
	 Quanto mais relativamente antigo for um documento ou texto
analisado, mais difícil fica entender suas traduções e tradições (e mais
complexo fica a compreensão de seu contexto original). Não temos
como saber se um determinado documento ‘antigo’ que temos em mãos
seja verdadeiro autêntico, ou seja, se foi escrito, no todo ou em parte,
pelos autores a quem são atribuídos ou se a versão que conhecemos hoje
reflete as ideias da original, há não ser que pensemos no verdadeiro como
norma institucional (verdade eclesiástica), ou seja, estarmos presos a
esses documentos apenas pelo fato de constar o nome do autor que diz
ser quem é.
	 Não existe meio, fórmula, historiador, gênio ou mesmo vidente, que
possa afirmar com toda certeza (toda certeza é subjetiva) que determinado
texto é do autor antigo que estamos lendo. As inserções e acréscimos
eram plágios comuns e em um contexto histórico onde poucos sabiam ler
e escrever, fora os analfabetos funcionais6
que eram contratados como
copista.
	 Os copistas eram os homens, normalmente monges especialmente
na idade média, que se dedicavam a reproduzir os manuscritos 7
antigos
de forma a permitir a sua difusão, numa altura em que a imprensa ainda não
tinha sido inventada, inviabilizando, por isso, a possibilidade de tiragens
5. Eliade, M. Origens, p. 41.
6. Denominação dada à pessoa que, mesmo letradas (capacidade de decodificar minimamente as
letras), geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números, não desenvolve a habilidade de
interpretação de textos e de fazer as operações matemáticas. Também é definido como analfabeto
funcional o individuo maior de quinze anos e que possui escolaridade inferior a quatro anos,
embora essa definição não seja muito precisa, já que existem analfabetos funcionais com nível
superior de escolaridade. Um individuo pode ser letrado, mas não alfabetizado.
7. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Manuscrito.
13
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
elevadas. Os erros e manipulações, conscientes ou inconscientes das cópias
causaram muitas polêmicas e muitos enganos de interpretação por parte de
historiadores e exegetas que se dedicaram à exumação desses documentos
antigos. 8
E por este tempo (ou nesta época) vivia Jesus, um homem
sábio, se justo fosse chamá-lo homem; porque era fazedor
de maravilhosas obras, um mestre dos homens (ou entre os
homens)que recebem a verdade com prazer. Atraiu para si
muitos judeus e muitos gentis. Era o Cristo. E quando Pilatos
, por sugestão dos principais homens como nós (ou entre nós),
o teve que condená-lo (ou o condenou) a morrer na cruz ,
aqueles que o haviam amado (ou os que o amou)ao princípio
não o abandonaram; porque apareceu diante deles vivo (ou
renascido) no terceiro dia; como os profetas divinos haviam
previsto esta e dez mil outras coisas maravilhosas sobre Ele.
E a tribo dos cristãos, assim chamada por ele, não se extinguiu
ate o dia de hoje. (Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, livro
18, parágrafos 63 e 64). 9
	 Não sabemos da veracidade da origem dos escritos e nem quantas
cartas, textos e evangelhos os autores escreveram em seus nomes ou a estes
foram imputadas. A aceitação de veracidade deste ou de outro texto que o
autor escreveu está ligado pura e exclusivamente à tradição e ao conceito
de verdade que o grupo se associa e acredita. Vygotsky deixou bem claro
em vários de seus artigos que a estrutura da língua influencia de maneira
indelével como a pessoa percebe o universo. Se os textos de um determinado
autor fossem parar nas mãos de um grupo messiânico e o mesmo não tivesse
esse fundamento, seus escritos eram tidos como falsos.10
8. Ehrman, B. D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? p. 55.
9. Muitos historiadores modernos, principalmente críticos como Bart D. Ehrman,
Paul Johnson, Ambrosio Donini, Emilio Bossi, Jakob Lentsman, Karl Kautsky, tem
argumentado que a passagem no livro de Flávio Josefo, História dos Hebreus, quebra a
continuidade da narrativa e que são usadas palavras incomuns nos textos.
10. B.A.C. Padres Apostólicos Y Apologistas Griegos do séc. II, p. 678.
2. Fragmentos
‘Parte que resta de uma obra literária antiga’.
“A única verdade é a morte, o restante é apenas poesia”.
(Léo Marques, 2012).
	Q
uem olha, toca, cheira e sente a textura de um livro nos
dias de hoje, não imagina como era difícil e complicada a
missão de se ter ou mandar se compor um manuscrito na
antiguidade. O Manuscrito é um documento escrito à mão sob um papiro,
pergaminho, pele ou um papel com tinta de uma pena, vareta, carvão,
caneta, lápis, etc.
	 A antiguidade relativa de um texto é um fator determinante de
interesse. Geralmente os fragmentos conhecidos se referem aos escritos
ou ditos que foram pretensamente realizados por personagens famosas em
qualquer área de conhecimento.
	 Os escribas egípcios são os antigos produtores de manuscritos, assim
como os monges da Idade Média, melhor seria afirmar que os egípcios e
monges eram os produtores dos documentos antigos mais conhecidos do
Ocidentes, posto que hindus e chineses também produziram volumosos
textos na mesma época. Mensagens e avisos podem ser encontrados escritos
nas pedras (pedra de Roseta), madeira e no caso de folhas de papel no livro
ou códice. 11
	 Um exemplo importante de manuscritos antigos são os Manuscritos
do Mar Morto, descobertos no fim da década de 1940 e durante a década
de 1950.O CodexSinaiticus, também conhecido como Manuscrito ‘Aleph’
(primeiro algarismo do alfabeto hebraico), é um dos mais importantes
manuscritos gregos já descobertos, pois além de ser um dos mais antigos
(século IV), e é o único códex que contém o Novo Testamento inteiro.
Atualmente acha-se no Museu Britânico. Com o Codex Vaticanus, é um
dos mais importantes manuscritos gregos para a crítica textual.12
	 Se a formação produção ou edição e texturização de um manuscrito
11. Forma característica do manuscrito em pergaminho, semelhante à do livro moderno, e assim
denominada por oposição à forma do rolo.
12. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Ver Manuscrito.
15
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
era algo tão complicado e complexo na antiguidade, de onde foram tiradas
as primeiras fontes sobre Jesus? Desde a morte de Jesus até mais ou menos
40 a 45 anos, é provável que quase todo ensino ou memórias correntes
sobre Ele foi feito de forma Oral, baseado nas lembranças de pessoas e
discípulos. Com o tempo, foram reunidos sobre sua pessoa, contos, histórias,
parábolas, fábulas e todo tipo de informação popular que serviu de base para
se escrever os primeiros textos.Após esses primeiros escritos, que incluíam
possivelmente algumas cartas de Paulo e logo depois os textos de Marcos,
a produção “literária” sobre Jesus não parou. Contudo, essa produção era
de uma época e seu contexto já estava distante do da pessoa histórica de
Jesus e de seus contemporâneos imediatos.Amaior parte dos textos passou
a ser reelaborações e registros de interpretações de comunidades cristãs,
cada uma com sua perspectiva do homem Jesus e de sua mensagem, e à
sombra de novos acontecimentos sociais e políticos que não houve no
tempo de Jesus, como a revolta dos judeus em 66 e no início do século II.
Os textos eram de difícil leitura já que muitas vezes, seguindo o padrão do
latim e grego clássicos, eram escritos sem pontuação, parágrafo, vírgula
ou mesmo separação entre uma palavra e outra. Tudo isso dificultava ao
copista saber o que realmente era o sentido de uma coisa ou outra. Sem
falar dos copistas analfabetos que apenas copiavam os caracteres sem ter
a mínimo conhecimento sobre o significado do texto copiado. Em uma
população de noventa por cento de analfabetos, nem é preciso dizer que a
produção e leitura desses manuscritos eram raras. O material para escrita
era de difícil acesso, quando não faltava material o essencial, como peles,
tintas, pincel, etc. Quando tais circunstâncias acorriam e tudo dependia
também do valor cobrado, esses materiais podiam ser substituídos por
carvão ou mesmo substâncias corantes, como é o caso da amora.
	 Quando se pagava para se ter um manuscrito, esse demorava
bastante para ser entregue.Acópia era feita de forma bem rústica. O copista
simplesmente copiava ou tentava copiar as letras como elas se apresentavam
no texto que compilava. Quando não entendia a letra, inventava uma, ou
simplesmente repetia as de cima, quando não, repetia na linha de baixo todo
o parágrafo de cima. 13
Mas, tudo isso tem que ser pensando e avaliado em
um contexto pouco apropriado da seguinte forma: O copista muitas vezes
fazia esse tipo de cópia a noite sobre a luz de uma lamparina que lhe fornecia
luz atenuada sobre a pele em que imprimia suas letras. Imaginemos por um
pequeno momento alguém copiando algo que nem se quer tem noção do
13. Ehrman, B. D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Pag. 65.
16
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
que eram as letras, como fazem as crianças que estão nos primeiros passos
da alfabetização.
	 Assim agiam os copistas não profissionais ou analfabetos. Por outro
lado, se conheciam as letras, como era o caso dos copistas profissionais
contratados mais tarde pela Igreja, tentava dar sentido a algumas passagens
aglomeradas nos textos que não conseguiam entender, até mesmo por ser
diverso o contexto em que os agora profissionais escribas atuavam. Por isso,
as incongruências textuais que muitas vezes observamos nos evangelhos e
textos da Bíblia Hebraica. 14
Um estudo adequado da Bíblia não pode ser feito sem uma
consciência aguda das diferenças nas atitudes e estruturas
políticas, culturais e religiosas que existem entre o Velho
e o Novo Testamento. Supor-se-ia, logicamente, certo
desenvolvimento durante os 400 anos que decorreram entre
os dois livros; mas as várias mudanças observáveis devem ser
explicadas. É necessário, portanto, voltar-se, na história, até
o tempo entre os dois Testamentos, a fim de se apreciar mais
completamente a situação pressuposta no Novo Testamento. 15
14. Ibid., Pag. 67.
15. Hale, B. D. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, p. 7.
3. Evangelhos Canônicos
“Os Evangelhos são lendas; eles podem conter histórias,
mas certamente nem tudo ali é histórico” (Ernest Renan –
Vida de Jesus).
	D
o grego evangélion, em hebraico besoura – significa
“Boa Nova”, expressão encontrada algumas vezes nos
textos Evangélicos. O termo passou a ser utilizado com
referência aos documentos ou discursos produzidos pelos cristãos,
então já distanciados de suas origens judaicas. “Nos escritos primitivos,
Evangelho era empregado tão somente para designar os ensinamentos da
doutrina Cristã”.16
Mais tarde passou a designar “livro” ou “documentos”
que contava a história das origens da religião Cristã. Suas datas e autorias
são incertas, razão porque são chamados Evangelhos Segundo Alguém,
como o de Mateus,17
escrito possivelmente na Síria em estilo hebraico e
com algumas partes em grego e aramaico18
entre os anos 55 e 60 de nossa
época. Possuindo 28 capítulos é um dos maiores evangelhos, discorre sobre
a genealogia de Jesus e que é bem diferente da genealogia encontrada no
Evangelho Segundo Lucas e o único que fala da fuga de seus pais para o
Egito. De onde o escritor do Evangelho Segundo Mateus tirou essa história?
É visível que quem escreveu ou compilou o evangelho segundo Mateus
tinha por alvo um público familiarizado com a tradição judaica e, assim, fez
vários entroncamentos e resumos de histórias antigas da Bíblia Hebraica.
Veja a semelhança desses dois textos:
Disse também o Senhor a Moisés, em Midiã: Vai, torna para o
Egito, porque são mortos todos os que procuravam tirar-te a
vida. Tomou, pois, Moisés a sua mulher e os seus filhos; fê-los
montar num jumento e voltou para a terra do Egito. Moisés
levava na mão o bordão de Deus (Êxodo; 4:19-20).
16. Tricca, M. H. O. Os Apócrifos I, p. 10.
17. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 121.
18. Reza a tradição que Jesus falava o hebraico (‘idioma’ materno), grego (idioma do império,
usado extensivamente nos centros urbanos) e possivelmente o Aramaico Galileu, a língua de sua
região Natal só conhecida de alguns poucos lugares, para se comunicar com aldeias locais. Na
época de Jesus eram falados sete dialetos diferentes do aramaico ocidental.
18
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
Tendo Herodes morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu
em sonho a José, no Egito, e disse-lhe: Dispõe-te, toma o
menino e sua mãe e vai para a terra de Israel; porque já
morreram os que atentavam contra a vida do menino. Dispôs-
se ele, tomou o menino e sua mãe e regressou para a terra de
Israel (2:19-21).
	 Aqui faltou apenas o “levava na mão o bordão de Deus”, para ser
a mesma passagem. Claro que o autor que escreveu o texto não pegou ao
acaso essa passagem. Ele via Jesus como o Messias esperado pelo povo
judeu e buscava no Antigo Testamento indícios que fortalecesse essa ideia
aos olhos dos leitores. Lembremo-nos que todo o sofrimento dos judeus
começou justamente no exílio das terras do Egito, ou mais precisamente
quando “saístes do Egito, da casa da servidão”. O autor do evangelho quis
deixar implícito certo ritual de passagem na volta de José e sua família a
Israel, ou seja, ao mesmo tempo a reconstrução histórica – a lembrança da
servidão – e o retorno triunfante a terra prometida – a libertação (Oséias;
11:1). Daí prestar-se atenção ao fato de que o Evangelho Segundo Alguém
é uma reinterpretação de fatos históricos com as perspectivas de uma visão
de Cristo cristalizada épocas depois dos eventos reais. Existe uma base
narrativa nos evangelhos sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas e permite
ter uma ideia mais ou menos coerente do Jesus histórico e que é passível
de ser comparada com as raríssimas citações sobre Jesus em fontes não
cristãs, como Flávio Josefo, Mara bar Sarapion, Plínio o Jovem, Tácito e
Suetônio. Por vezes o núcleo histórico real é envolvido, nos evangelhos,
por uma certa capa livremente formada com material da tradição judia com
propósitos teológicos, cujo foco variava de acordo com a comunidade em
que eram elaborado os textos evangélicos. Isso explica a disparidade nos
relatos do nascimento. “Mateus e Lucas construíram cada um a sua própria
versão bem distinta das circunstâncias em torno do nascimento da criança
divina, utilizando livremente textos do Antigo Testamento”. 19
	 Mateus apossou-se de várias passagens para compor seu Evangelho.
Sobre a cidade de Belém se valeu de Miquéias para reforçar a profecia
(5:2), os detalhes do nascimento de uma virgem ficou ao encargo do texto
de Isaías (7:14), a manjedoura e os animais retirou do mesmo autor (1:3),
e as faixas que cobriam o menino que constam nos Evangelhos de Lucas
(2:7) foi retirado de Ezequiel (16:4). Sobre a ressurreição, com boa dose
de certeza todos os Evangelistas se apoiaram no texto de Oséias; “Vinde, e
19. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 411.
19
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a
ferida e a ligará.2 Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos
levantará, e viveremos diante dele” (6:1-2).
Evangelho Segundo Marcos 20
	 Segundo os novos estudos e críticas testamentarias, esse parece ter
sido um dos primeiros textos existentes sobre a figura de Jesus, porém não
versa sobre as questões do nascimento, Maria (Mãe) e José (Pai) por um
motivo bem simples. Este “Marcos” que escreveu os textos simplesmente
desconhecia a história sobre o nascimento miraculoso (‘estando Maria,
sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado’), e
provavelmente sabia muito pouco, se é que conhecia, sobre as figuras
de Maria e de José acrescidas posteriormente por outros escritores. Nós
mesmos só sabemos sobre essas pessoas basicamente a partir de Mateus
e Lucas em Paulo, João e muitas das Epístolas, elas simplesmente nunca
existiram.
	 Ora, o nascimento de Jesus foi assim: “estando Maria, sua mãe,
desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida
pelo Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo
infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas,
eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de
Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é
do Espírito Santo” (Mateus; 1:18-20).
	 Acredita-se, que os textos de Marcos que chegaram até nossos
dias foi elaborado no ano de 40-45, escrito em grego, com forte colorido
palestino e elementos helênicos, o que o coloca geograficamente ao redor
da região da Síria, vizinha da Palestina.
	 Onde Marcos arrumou suas fontes? As fontes de Marcos foram
ao lado de vestígios de lembranças históricas reais, histórias populares
mirabolantes que os cristãos já contavam, contos folclóricos do Aggadah,
mitos de salvadores e reis messiânicos como é o caso Melquisedeque
(Melek-Sédeq: ‘Rei da Justiça’) que forneceu pão e vinho a Abraão e os
abençoou, dando lhe “Abraão o dizimo de tudo” (Gên. 14:18-20).
	 Convém lembrar que a cidade síria de Antioquia tinha uma
comunidade cristã das mais antigas e fortemente ligada à figura de João
20. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 93.
20
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
Marcos, que foi companheiro de Pedro, o que justificaria a associação deste
evangelho com o nome de Marcos. Possui 18 capítulos e é um dos menores
Evangelhos. Não discorre nem sobre a genealogia nem sobre o nascimento
de Jesus. Por que no Evangelho de Marcos, como nas Cartas de Paulo e
a Didaqué (escritos ou ensinos dos primeiros cristãos) não aparecem a
genealogia e o Nascimento miraculoso de Jesus, bem como as figuras de
Maria e José?
	 Toda essa história sobre Nascimento (‘achou-se grávida pelo Espírito
Santo’), mãe virgem (‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho’),
e outras, como o do pai supostamente idoso apareceu posteriormente em
escritos populares fora das terras de Israel e foram adaptados no Evangelho
de Mateus e Lucas. Os autores destes dois últimos evangelhos se serviram
de Marcos e outras fontes, especialmente do que se acredita ser uma fonte,
hoje perdida, de ditos de Jesus chamada nos meios acadêmicos de Q (de
Quelle, “fonte” em alemão) na elaboração das narrativas sobre Jesus que
se seguem ao episódio do nascimento. Marcos buscava ligar a figura
extraordinária de Jesus com o Messias esperado pelos judeus.
Evangelho Segundo Mateus21
	 Para escrever seu texto, Mateus (50-70 E.C.) recorreu amplamente
aos textos da Bíblia Hebraica, como é o caso da invenção da saída do Egito
que aparece em Êxodo, acrescentando algumas das histórias populares que
até então haviam surgido sobre Jesus, principalmente a do Jesus Messiânico
que Paulo pregou fora das terras de Israel. Muito das históricas comuns
sobre Jesus, com algumas diferenças de ênfase e construção narrativa,
que encontramos em Mateus e Lucas advém do fato de que ambos se
utilizaram do material que é encontrado em Marcos e em Q, além de
tradição oral própria de suas comunidades. Assim, é quase certo que os
discursos memoráveis versando sobre ética e espiritualidade, como o
Sermão da Montanha de Mateus e que também é encontrado em Lucas,
seja uma adaptação dos ensinos de Jesus recolhidos em Q. O evangelho de
João constitui um caso à parte e muito singular. Diferente dos três outros
evangelhos e da fonte Q, o Jesus de João faz discursos longos, elaborados, na
primeira pessoa e de forte cunho helênico, o que aponta para sua composição
bastante tardia, encharcada de elementos de uma comunidade que há muito
tinha se desligado de suas origens semitas. Ainda assim, com cuidado, é
21. Marques, L. A. Historia das Religiões e a Dialética do Sagrado, p. 395.
21
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
possível extrair elementos históricos na narrativa joanina, como veremos
mais adiante.
	 Os textos dos evangelhos que temos em mãos hoje e folheamos
com facilidade e credulidade não eram assim nos tempos antigos dos
seus escritores. Esses textos eram escritos ou rabiscados em peles e de
compreensão difícil e quase ilegíveis, tendo em vista que, não existiam
separações de vírgulas, pontos, acentos, parágrafos e todo o contexto
linguístico que nos faz entendê-los nos dias de hoje. Os textos copiados
à mão por vezes variavam de região para região e eram escritos de forma
corrida e na maioria das vezes suas letras coladas umas as outras para
poupar espaços, pois o material era caro, difícil de obter. Talvez as pessoas
que hoje leem livros e discutem sobre os mesmos, não fazem a menor ideia
de como era difícil (quase impossível) para as pessoas de épocas remotas
obterem um texto manuscrito. Agradeço sinceramente por ter nascido e
fazer parte da era gutemberguiana, e que os deuses abençoe sempre Johann
Gutenberg (c. 1398-1468), ele revolucionou o mundo embora a imprensa
de caracteres móveis já fosse de utilização dos chineses séculos antes de
Gutemberg, mas os sábios do extremo oriente estavam distantes demais
do mundo que formaria a cultura da civilização ocidental.
Evangelho Segundo Lucas
	 Lucas autor do evangelho que leva seu nome e, talvez, dos Atos
dos Apóstolos, companheiro de Paulo segundo a tradição, não foi médico
e muito menos historiador, e sim um grande contador de histórias. Diz
Theissen e Merz em seu compêndio sobre o Jesus Histórico que contra a
imagem clássica do autor do evangelho lucano
...o consenso crítico ressalta as numerosas contradições
existentes entre a narrativa de Atos e as cartas autênticas de
Paulo. Na biografia de Paulo (nos Atos), a notícia da segunda
viagem a Jerusalém antes do concílio apostólico de At
11,30;12,25 contradiz o que o próprio Paulo afirma em Gálatas
1,17-2,1. Lucas nega a Paulo o título de apóstolo, central para
sua autocompreensão. Uma teologia autenticamente paulina
aparece apenas esporadicamente. Sem dúvida, o desconhecido
autor da obra lucana não foi um companheiro de Paulo. 22
	
22. Theissen & Merz, O Jesus Histórico, Loyola, 2002, p.52.
22
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
	 A suposta ideia de este autor ter sido médico é uma tradição mal
explicada e supostamente inventada na tradução da Bíblia do Rei James.
O nome Lucas é a abreviação de Lucano, encontrado em alguns autores,
inferindo daí a identificação com Lúcio de Cirene. “Na igreja que estava
em Antioquia, havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, Simeão
– chamado Níger, Lúcio Cirene, Manaem que fora criado com Herodes o
tetrarca e Saulo” (Atos; 13:1).
	 Seu Evangelho, 23
possuiu 24 capítulos versa sobre a genealogia de
Jesus, inclusive é o único que relata sobre o recenseamento que realmente
houve, mas bem depois da época que o evangelho diz ter havido e, portanto,
não existente nem imposto por CésarAugusto à época de Herodes, o Grande,
e de Ciro, como narrado. Este texto é para justificar a profecia do suposto
advento ou “nascimento” do príncipe messiânico em Belém. “E tu, Belém
Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será
Senhor em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os
dias da eternidade” (Miquéias; 5:2). Este evangelho apareceu entre os anos
70-90, em grego, possivelmente na Europa ou em algum país às margens do
mediterrâneo, mas demonstra certa confusão com a geografia Palestina, o
que prova que sua composição não se deu nas terras onde Jesus caminhou,
já que confunde o “Mar” – que em Marcos é bem identificado com “mar
da Galileia” - com o mediterrâneo. Lucas não apenas copiou os textos de
Mateus, Marcos e de contos populares ensinados oralmente, mas os ampliou
consideravelmente com material oral de sua própria comunidade.
	 Marcos começa seu evangelho a partir dos ensinamentos de João
Batista, não relata nascimentos divinos, não diz nada sobre Maria ou José.
Mateus escreve sobre João Batista, relata sobre o nascimento divino de
Jesus e algumas outras peculiaridades que não se apresenta os textos de
Marcos e nas Passagens de Paulo. Lucas vai além dos relatos já existentes,
não apenas fala de João Batista, mas dá a ele um nascimento também
miraculoso. De qualquer forma, fica claro que entre Jesus e João houve
algum vínculo, talvez de discipulado por algum tempo, posição incômoda
que faz os três evangelistas narrarem o fato modificando-o para sugerir que
João reconheceu Jesus como superior desde o início.
	 Lucas mais que os outros evangelistas está a todo tempo fazendo
referências a tradição profética e aos textos antigos. Sobre o nascimento
miraculoso de João, aproveitou os textos de Gênesis onde Sara já idosa,
‘era estéril; não tinha filhos’, “E o Senhor visitou a Sara, como tinha dito;
23. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 149.
23
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
e fez o SENHOR a Sara como tinha prometido” (Gênesis 21:1). Lucas
apenas repetiu a história para demonstrar a genealogia entre Abraão e os
“pais” de João, seus descendentes e complementares sua história com o
nascimento miraculoso de João Batista, onde “não tinham filhos, porque
Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade. E, depois daqueles
dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou” (1:7 e
24). A Diferença entre esses três evangelhos é que para os dois primeiros
(Marcos e Mateus, João Batista era Elias, para Lucas Jesus era o próprio
Elias. Não observamos na história judaica os profetas realizando milagres,
Elias foi uma exceção. Elias ressuscitou o filho de uma viúva (1 Reis; 17:
18-24), “Nisto conheço agora que tu és homem de Deus”, Jesus ressuscitou
o filho de uma viúva, “Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha-
se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se” (15:24), conhecemos
agora que “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Elias ascendeu aos céus com
seu corpo, “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro
de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao
céu num redemoinho” (2 Reis 2:11), Jesus foi ‘elevado aos céus’ (24:51).
Existe a promessa da volta de Elias; “Eis que eu vos enviarei o profeta
Elias, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR” (Malaquias
4:5), Jesus promete voltar; “E então verão vir o Filho do homem numa nuvem,
com poder e grande glória” (21:27)”.
Evangelho Segundo João
	 Sabemos historicamente que os textos de Mateus e Lucas foram
baseados nos textos de Marcos, na Didaqué, contos e histórias populares
e também no chamado Evangelho de Q. Porém, onde estão as fontes que
inspiraram João a escrever seu Evangelho? “João foi, em larga medida
independente, embora ele possa ter conhecido Lucas”. 24
O Evangelho
Segundo João, o ‘Evangelista’25
é o mais novo, tendo sido escrito nos anos
80-90, em grego e na cidade de Eféso e, desde os fragmentos que se conhece
a partir do século II, a versão que conhecemos hoje parece ter sido muito
pouco alterada ao longo dos séculos, mas o seu famoso final duplo (Jo 20,30
e Jo 21) e a inserção um tanto estranha dos capítulos 15 a 17 mostram
que sua redação foi revista pelo menos algumas vezes. Destinava-se a uma
Igreja, comunidade ou a um público determinado, limitando sua esfera de
24. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 406.
25. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 240.
24
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
ação a uma ou a outra região distante da Palestina onde atuou Jesus, como
se pode ver nas incongruências geográficas e cronológicasnos capítulos de
4 a sete. A inclusão desse Evangelho no cânone deu-se apenas após várias
interpolações e escolhas dos textos mais autorizados aos olhos da Igreja
e dos crentes. 26
É o único texto em que Jesus aparece se exaltando nos
famosos “eu sou” e é o que oferece uma imagem de Jesus mais estilizada,
teologicamente construída. Por exemplo, é o único evangelho em que Jesus
parece ser consciente de sua preexistência ao próprio nascimento: “Antes
de Abraão existir, eu Sou”. Veja-se também o famoso capítulo 1). Alguns
tinham como certo que o Evangelho de João era de origem gnóstica ou
Essênia, porém, apesar das evidências a favor do primeiro ponto, o assunto
ainda está sujeito a controvérsias.27
Pontos de importância histórica, embora
encobertos pela capa da elaboração teológica, podem ser melhor encontrados
em João que nos sinóticos como, por exemplo, os motivos políticos que
conduziram à execução de Jesus.
	 O Livro dosAtos dosApóstolos apareceu entre os anos 70-80 como
sendo as datas mais prováveis. Essa novela fora “escrita” possivelmente por
Lucas e fala de um Paulo idealizado que possivelmente nem Paulo conhecia,
embora os conflitos narrados entre Paulo e os demais apóstolos tenham,
realmente existido, o que se pode ver a partir das epístolas autênticas –
apenas seis das 13 que se encontram na maioria das Bíblias impressas -que
a maioria dos pesquisadores atribuem a Paulo.Atos, conta particularmente a
história do Cristianismo desde o fim da vida pública de Jesus, até o início dos
trabalhos de Paulo nos anos 57-62. 28
“Atos é o último dos livros inteiramente
narrativos do NovoTestamento; obviamente, foi escrito depois do Evangelho
de Lucas, e com toda probabilidade depois de todos os quatro Evangelhos”.
29
Especula-se que Paulo não era da cidade de Tarso e nem muito menos
cidadão de Roma. Alguns críticos situam os Atos no ano de 140 trazido a
26. Lentsman, I. As Origens do Cristianismo, p. 39.
27. Os Gnósticos eram considerados pensadores cristãos basicamente esotéricos, surgidos
provavelmente no Cristianismo primordial (c. séc. I a III). Seus adeptos formulavam outra ideia de
Cristo, viam-no como uma emanação da essência, do Pneuma ou Espírito do Pai, e chamavam-no
de Ophis ou símbolo da sabedoria divina manifesta na matéria. A comunidade Essênia sobreviveu
possivelmente até a destruição do segundo Templo (70 E.C.), quando os exércitos do novo
imperador Vespasiano invadiram e conquistaram Jerusalém, destruíram o Templo, incendiaram e
saquearam as cidades e transformaram a cidade romana numa cidade chamada Aelia Capitolana.
28. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 189.
29. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 412.
25
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
Roma por Márcion30
, contemporâneo de Justino e apenas aceito como texto
do Evangelho após o Concílio de Nicéia. Estas afirmações se dão devido às
citações sobre osAtos só aparecerem em alguns pais da Igreja após o século
II. Nos fragmentos de textos primitivos não existe qualquer referência ou
menção dos pais da Igreja ou dos escritores cristãos e não cristãos sobre
este livro antes do século II. Portanto, há indícios de que antes do ano 100
este livro simplesmente não existia.
	 As cartas de Paulo ou o que sabemos delas, “representam o
documento mais antigo e mais importante da Igreja primitiva; refletem as
mais graves crises do cristianismo nascente, mas também a audácia criadora
do primeiro teólogo cristão”. 31
As epístolas de Tiago, Pedro, João e Judas
ou atribuídas a esses supostos autores, apareceram possivelmente após o
Evangelho de João, ou mais precisamente após o século II. Temos como
fonte “histórica” (se assim podemos chamá-los), alguns evangelhos ou
escritos tidos comoApócrifos pela Igreja, mas aceito por muitos estudiosos
como uma ferramenta de estudo para solucionar o problema do início da
era cristã.
	 Foi realmente Paulo quem escreveu todas as cartas que hoje constam
no Novo Testamente?
30. Um dos sistemas de grande importância herética no inicio dos séculos I e II foi o Marcionismo,
fundado por Márcion, no início do século I. Este sistema gnóstico-cristão pregava um severo
e rigoroso sistema ético e ascético, negavam o Deus do Antigo Testamento e diziam que esse
amaldiçoava o mal, e que os judeus eram os responsáveis pela perseguição e “morte” do Deus do
Novo Testamento, Jesus. Mas como este assumiu na terra apenas um corpo aparente (fluídico), não
conseguiram matá-lo, sua morte e sofrimento foram apenas aparentes. Este sistema de pensamento
se desenvolveu mais fortemente a partir do final do século I e início do século II tendo como
representantes principais Dociteu e Saturnino. Este mesmo pensamento surge no século X (927
- 969) com Bogomil que acreditava e pregava que Jesus não teve corpo carnal, mas um corpo
completamente divino (espiritual) e por isso, não sofreu, não morreu e nem sentiu o martírio da
cruz. A essência do bogomilismo é a dualidade na criação do mundo. Bogomil explicou a vida
terrena pecaminosa corpórea como uma criação de Satanael, um anjo que foi enviado para a Terra
e tempos depois expulso da corporação divina. Devido a esta dualidade, a doutrina rejeita tudo o
que é socialmente criado e que não vem da alma, a posse só divina do humano. Essa dualidade
apregoada por Bogomil prejudica a hierarquia da Igreja, por isso, foi condenada como heresia.
Seus seguidores se recusam a pagar impostos, para trabalhar em servidão, ou a lutar por seu estado.
Apesar de todas as medidas de repressão, manteve-se forte e popular até a queda da Bulgária no
final do século XIV. No século XIX, este mesmo pensamento sobre ser impalpável e intangível o
corpo de Jesus se revalorizou na obra chamada Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação
de Jean Baptista Roustaing, escritos pela médium Madame Collignon. Observe que essa teoria
(corpo fantasma) de Roustaing não é a mesma teoria espírita de Allan Kardec que aceita tal como
todas as Igrejas cristãs o sofrimento mítico-heróico e a morte ‘redentora’ de Jesus na cruz. “Jesus
teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, que é atestado pelos fenômenos
materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência” (Kardec, A. Gênese;
15:66 – itálico nosso.).
31. Mircea, Eliade, Historia das Crenças e das Ideias Religiosas, p. 114.
26
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
Eusébio de Cesáreia, Responde:
‘De minha parte, se hei de dar minha opinião, eu diria que
os pensamentos sim são do Apóstolo [Paulo], mas o estilo
e a composição são de alguém que evocava a memória dos
ensinamentos doApóstolo, como um aluno que anota por escrito
as coisas que seu mestre disse. Por conseguinte, se alguma igreja
tiver esta carta como sendo de Paulo, que também por isto seja
estimada, pois não sem motivo os antigos varões a transmitiram
como de Paulo’.32
O Que são as Epístolas?33
	 Apesar de serem 13 o número de epístolas atribuídas a Paulo
na maioria das Bíblias ocidentais, hoje a maior parte dos pesquisadores
considera que apenas seis destas epístolas tenham sido formuladas pelo
próprio, pois apresentam o mesmo estilo e pontos de semelhança, sendo as
demais meras composições posteriores de discípulos que queriam validar
sua importância como documentos atribuindo-os a Paulo. “Elas (as cartas
não-paulinas) são muito diferentes em estilo literário e conteúdo”, afirma
o pesquisador Pedro Vasconcellos, da PUC. Para o conservadorismo das
diversas Igrejas, no entanto, todas as cartas encontradas na Bíblia cristã
clássica são de autoria de Paulo. As epístolas consideradas originais são:
aos Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses, a primeira
à Tessalônica e a endereçada a Filêmon.
	 Por sua ação missionária em meios não judeus, a figura de Paulo
de Tarso teve uma importância indiscutível na constituição do cristianismo
(especialmente do cristianismo “paulino”) em sua ansiedade em construir
uma teologia sobre Cristo (e não de Cristo), o que causou impacto na
formulação da teologia ortodoxa posterior – inicialmente no Império
mas, bem depois, mais especialmente na teologia protestante, o que é
indiscutível. O problema, contudo, surge quando comparamos os dizeres
e visões teológicas de Paulo com os que são atribuídos ao próprio Jesus,
pelos evangelhos, especialmente o de Mateus.
32. História Eclesiástica. Livro VI, Item XXV:13.
33. Texto escrito por Carlos Antônio Fragoso Guimarães. Formado em Psicologia Clínica
pela UFPB, mestre em Sociologia pelo Programa de pós-graduação em Sociologia da UFPB
e pesquisador na área de história das religiões. Escreveu os Livros: Percepção e Consciência,
Um Estudo do Psiquismo Humano, Ed. Persona, João Pessoa, outubro de 1996; Evidências da
Sobrevivência, vencedor do Concurso Literário José Herculano Pires, promovido pela Editora
Madras e pela U.S.E. São Paulo, 2003. Carl Gustav Jung e os Fenômenos Psíquicos, pela Editora
Madras, São Paulo.
27
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
	 Igualmente digno de nota é de que certamente Paulo não pensava
que suas cartas acabariam por ir parar na Bíblia (ao menos naquilo que se
transformaria Bíblia cristã). Elas eram produtos do interesse de Paulo em
esclarecer problemas e situações das comunidades que ele tinha ajudado a
criar, e não súmulas teológicas indiscutíveis a serem tomadas como regra.
Só muito mais tarde alguém com alguma influência política as julgariam
apropriadas para formarem parte do cânone do Novo Testamento.
	 Paulo, como todos sabem, foi um aspirante a doutor da Lei (sacerdote
graduado). Um judeu do século I, contemporâneo de Cristo, mas que nunca
o vira pessoalmente durante seu ministério, e que, profundamente zeloso
da ortodoxia judaica, de início foi perseguidor implacável dos primeiros
cristãos. Contudo, esta atitude agressiva mudaria radicalmente após Paulo
(na época, Saulo) ter uma visão do Cristo pós-morte. Isso o abalou o
suficiente para que passasse por uma crise religiosa, se convertendo ao
cristianismo e se transformando de perseguidor a divulgador. Contudo,
apesar do que diz supostamente Lucas nos Atos dos Apóstolos (escrito
muitos anos após a morte de Paulo, provavelmente em torno do ano 85-
105), Paulo não procurou nas fontes apropriadas, ou seja, nos discípulos
diretos de Jesus, a base da sua própria mensagem. Ao invés disto, após um
contato muito superficial com alguns discípulos menores – e não com os
apóstolos, o que só se daria após três anos –, Paulo se afastou para pensar
sobre sua experiência da visão que teve do ente que antes perseguira. Com
estas reflexões ele também questionou sua herança formal judaica, para
voltar três anos depois com toda uma visão pessoal já sedimentado do seria
ou deveria ser o cristianismo, moldada com elementos judaicos e gregos
(Paulo era cosmopolita). Só então, depois, teve contato com alguns dos
apóstolos diretos de Jesus e, nas suas palavras, destes mais precisamente
apenas Pedro e Tiago, “irmão do Senhor”, sem que este contato tivesse
qualquer grande impacto na sua já cristalizada visão do cristianismo.Assim,
lemos pela pena do próprio Paulo em Gálatas 1:16-20:
Não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos
que eram apóstolos antes de mim, mas fui à Arábia e voltei
novamente a Damasco. Em seguida, após três anos, é que
subi a Jerusalém para avistar-me com Pedro e fiquei com ele
por 15 dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o
irmão do Senhor. Isso vos escrevo e asseguro diante de Deus
que não minto.
28
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
	 O estudo crítico das epístolas junto com os novos textos descobertos
no século XX, daquela época, mostra que ante o que pareciam ser elementos
próprios de Paulo em muitas de suas cartas, as descobertas de textos antigos,
como os famosos Manuscritos do Mar Morto (que, ao contrário do que
muitos pensam, nada têm de cristãos) mostrou serem elementos de discussão
comum entre a classe judaica mais instruída na época, especialmente as
interpretações apocalípticas dadas ao que se esperava do “Messias” e que
foi adaptada à singularidade da vida e obra de Jesus (o apocalipsismo era
uma mentalidade constante entre os judeus oprimidos da época). Porém,
muito mais sério do que isso, uma parte da visão “cristã” de Paulo parece
chocar de frente com os próprios ensinamentos de Jesus. Isso fica mais
grandemente visível no núcleo do pensamento paulino de que a simples
justificação pela fé em Jesus, especialmente nos fatos de seu sacrifício e
ressurreição, serem os únicos elementos que justificariam a salvação de
um crente, doutrina arduamente abraçada pela maioria das igrejas e seitas
evangélicas, mas que bate frontalmente com o que Jesus diz em Mateus
em 25:31-45:
Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado
por todos os seus anjos, há de sentar-se no seu trono de glória.
Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as
pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos
bodes. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os bodes.
O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu
Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde
a criação do mundo. Porque tive fome e deste-me de comer,
tive sede e deste-me de beber, era peregrino e recolheste-me,
estava nu e deste-me que vestir, adoeci e visitaste-me, estive
na prisão e fostes ter comigo.’Então, os justos vão responder-
lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos
de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos
peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando
te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei
vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre
que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos,
a mim mesmo o fizestes. Em seguida dirá aos da esquerda:
‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está
preparado para o mal e para os seus anjos! Porque tive fome e
não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era
peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes,
29
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
doente e na prisão e não fostes me visitar’. Por sua vez, eles
perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com
sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te
socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo:
Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos,
foi a mim que o deixastes de fazer’.
	 O conhecido especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman
reflete que esta passagem de Mateus “sugere que a salvação não é apenas
uma questão de crença, mas também de ação, uma ideia absolutamente
ausente do raciocínio de Paulo”. Poderíamos dizer ausente não apenas
de Paulo, mas de toda a tradição que se moldou a partir das igrejas
“paulinas”, especialmente as atuais igrejas televangélicas, de cunho
paulino-fundamentalista. Na passagem de Mateus acima transcrita se
percebe mesmo que os escolhidos (as “ovelhas”) podem sequer ter tomado
conhecimento da vida de Jesus (“Senhor, quando foi que te vimos...”). Nos
dizeres de Bart D. Ehrman,
As ‘ovelhas’ ficam perplexas (de terem sido escolhidas como
herdeiras do Reino). Elas não se lembram sequer de ter
encontrado Jesus, o Filho do Homem, quanto mais de fazer
essas coisas por ele. Mas ele diz a elas: ‘Cada vez que fizeste
a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’.
Em outras palavras, é cuidando dos que têm fome, sede, estão
nus, doentes e encarcerados que é possível herdar o Reino de
Deus. Como essas palavras se coadunam com Paulo? Não muito
bem. Paulo acreditava que a Cida eterna era dada àqueles que
acreditavam na morte e ressurreição de Jesus. No relato de
Mateus sobre as ovelhas e os bodes, a salvação é dada a quem
nunca havia falar de Jesus. É dada a quem trata os outros de
forma humana e carinhosa no momento de maior necessidade.
É uma visão da salvação inteiramente diferente. 34
	 Portanto, segundo alguns pesquisadores – e até mesmo alguns
teólogos mais esclarecidos –, existe material suficiente para suspeitar
que Paulo divulgou uma doutrina “paulina” em franco contraste com a
mensagem de Jesus.
34. Bart D. Ehrman, “Quem foi Jesus? Quem Jesus não foi”, Ed. Ediouro, 2010.
4. As Epístolas
	A
os Romanos,35
sugere que foi o próprio que a escreveu ou
ditouparaalguémescrever(1:1).Foiescrita,provavelmente,
em 57, na cidade de Corinto, Grécia, pouco antes da visita
do apóstolo à Jerusalém.36
A carta tinha por objetivo retificar algumas
interpretações a respeito de suas pregações levadas à comunidade de
Roma, provavelmente por judeus ou cristãos judaizantes. Foi estudando
essa carta que Lutero chegou à conclusão da salvação pela graça, dada
gratuitamente por Deus, fazendo-o insurgir-se contra as verdades da Igreja
e principalmente sobre as vendas de indulgências que se disseminava entre
a classe eclesiástica de então (1:17). [“Erram, portanto, os pregadores de
indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva
pelas indulgências do Papa.Averdadeira contrição procura e ama as penas,
ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo
menos dando ocasião para tanto. Deve-se pregar com muita cautela sobre
as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente
como preferíveis às demais boas obras do amor. A atitude do papa é
necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante)
são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia,
o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma
centena de sinos, procissões e cerimônias. Os tesouros da Igreja, dos quais
o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados
nem conhecidos entre o povo de Cristo.” (Teses de Lutero, itens 21, 40,
41, 55 e 56)]. “A Igreja ensina e ordena que o uso das indulgências,
particularmente salutar ao povo cristão e aprovado pela autoridade
dos santos concílios, seja conservado na Igreja, e fere com o anátema
aos que afirmam serem inúteis as indulgências e negam à Igreja o
poder de concedê-las” (Decreto sobre as Indulgências). Segundo a
Carta aos Romanos, a salvação que Deus proporciona à humanidade
não vem através de pagamentos, mas é dado gratuitamente através do
sacrifício de seu Filho Jesus Cristo, na cruz do Calvário. “Sendo, pois,
justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo;
35. Barth, K. Carta aos Romanos.
36. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 395.
31
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos
firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (5:1-2). O
que fica realmente forte nessa carta é que Paulo deixa claro tanto para
os cristãos como judeus, que a salvação é somente pela fé em Jesus
Cristo, e não em uma religião, pensamento, nacionalidade, nem em
qualquer obra do homem. Paulo em outro momento já havia dito que a
antiga aliança 37
havia envelhecido e estava prestes a expirar, por outra
nova. “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi
tornado velho e se envelhece perto está de acabar”. (Hebreus; 8:13).
Os Cristãos acreditam em Deus e que Jesus Cristo veio ao mundo como
homem e morreu na cruz para pagar nossos pecados; acreditam que
devemos aceitar a Jesus Cristo como nosso único salvador e acredita
que Jesus Cristo é o único caminho entre DEUS e o homem. O estudo
deste livro é considerado pelos cristãos necessários para compreensão
espiritual e também para compreensão da justificação pela fé e a graça
de Deus através de Jesus Cristo. “Mas não é assim o dom gratuito como
a ofensa; porque, se, pela ofensa de um, morreram muitos, muito mais
a graça de Deus e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus
Cristo, abundou sobre muitos” (Romanos; 5:15).
Do século II em diante, a recusa a celebrar o culto imperial
foi a causa mais notável das perseguições aos cristãos. No
início, com exceção da carnificina ordenada, por Nero,
as medidas anticristãs foram encorajadas, sobretudo pela
hostilidade da opinião pública. No decurso dos dois primeiros
séculos, o cristianismo foi considerado religio illicita; os
cristãos eram perseguidos porque praticavam uma religião
clandestina, que não contava com a autorização oficial. Em
202, Septímio Severo publica o primeiro decreto anticristão,
proibindo o proselitismo. Pouco tempo depois, Maximino
combate a hierarquia eclesiástica, mas sem sucesso. Até o
37. A história salvífica desde a criação até a época de Moisés é uma sucessão de alianças divinas.
Após o dilúvio, Deus faz com Noé uma aliança de caráter universal, que tem como preceito a
proibição de comer sangue (Gn 9,1-17). Após a dispersão de Babel, Deus faz aliança com Abraão,
restringindo o seu plano salvífico aos descendentes do patriarca, que são obrigados a praticar a
circuncisão (Gn 17,3-14). Esta aliança inclui a promessa de descendência e duma terra (Gn 12,3-
7; 15,1s; 22,16-18; 50,24; Sl 105,8-11). Depois da opressão do Egito, Deus sela com Israel a
aliança do Sinai (Ex 24,3-8), por meio do rito de sangue. Assim Israel nasceu como povo livre (Lv
26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido em observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1;
20,22-23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus promete fazê-lo seu povo particular (Ex 19,4-8)
e cercá-lo com sua proteção (Dt 11,22-25; 28,1-14).
32
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
reinado de Décio, a Igreja desenvolve-se em paz. No entanto,
em 250, um edito desse imperador obriga todos os cidadãos
a oferecer sacrifícios aos deuses do Império. A perseguição
foi de curto prazo, mas muito rigorosa o que explica o grande
número de abjurações. Contudo, graças principalmente aos
seus confessores e mártires, a Igreja passa vitoriosamente
por esse transe. A repressão decidida por Valeriano em 257-
58 foi acompanhada de um longo período de paz (260-303).
O cristianismo conseguiu infiltrar-se por todo o Império e
em todas as camadas sociais (até na família do imperador...).
Aureliano (270-75) logrou reintroduzir o culto do Sol invictus.
Aureliano compreendera que era inútil exaltar apenas o grande
passado religioso de Roma, e que, além disso, impunha-se
integrar a venerável tradição romana numa teologia solar de
estrutura monoteísta, a única religião que se estava tornando
universal. 38
	 1ª e 2ª Coríntios, ‘escritas’em Éfeso no ano de 57. Corinto era uma
rica cidade comercial, com mais de 500.000 habitantes, na maioria escravos.
Nesse porto marítimo acotovelava-se gente de todas as raças e religiões à
procura de vida fácil e luxuosa, criando ambiente de imoralidade e ganância.
Ariqueza escandalosa de uma minoria estava ao lado da miséria de muitos.
Surgiu, inclusive, uma expressão: ‘viver à moda de Corinto’, que significava
viver no luxo e na orgia. Não sabemos ao certo se foi Paulo quem escreveu
esta e muitas das outras cartas que aparecem no Novo Testamento. O que
se sabe é que essas cartas só chegaram ao conhecimento da Igreja a partir
do século II. As epístolas tinham a incumbência de responder e orientar os
Cristãos de Corinto sobre problemas do cotidiano, tais como, o casamento;
a circuncisão; a escravidão; as carnes oferecidas em holocausto aos ídolos e
sua autoridade contra doutores que tentavam iludir os principiantes seguidores
de Jesus.
A primeira carta aos Coríntios foi escrita em Éfeso,
provavelmente no ano 56. A comunidade já reproduzia,
de certa maneira, o ambiente que se vivia na cidade. Ela
também estava dividida: os grupos litigavam entre si, cada um
apoiando-se na autoridade de algum pregador do Evangelho.
Por isso, o primeiro objetivo de Paulo na carta é restabelecer
a unidade, advertindo que o único chefe é Cristo, e Este não
está dividido. Paulo aproveita da situação para traçar um
38. Eliade, Mircea. História das crenças e das Ideias religiosas. Tomo II, p. 134-135
33
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
retrato do verdadeiro agente de pastoral (1Cor 1-4). Depois,
passa a denunciar os escândalos que invadem a comunidade:
incesto, julgamento em tribunais pagãos, a imoralidade,
e vai elaborando uma teologia do corpo: este é templo do
Espírito Santo (1Cor 5-6). Em seguida, responde a diversas
perguntas formuladas pelos Coríntios. Na primeira série,
procura orientar os cristãos sobre os estados de vida (1Cor
7): matrimônio ou celibato? divórcio ou indissolubilidade?
o que pensar da virgindade? Como devem se comportar
os noivos? As viúvas podem casar-se de novo? Em tudo
isso, onde está a originalidade cristã? Ao responder sobre a
questão da carne sacrificada aos ídolos (1Cor 8-10), coloca
o fundamento da verdadeira liberdade cristã: o respeito pelos
outros. A carta também apresenta normas para que haja
ordem e autêntico culto cristão nas assembleias litúrgicas
(1Cor 11-14): entra na debatida questão do véu das mulheres;
denuncia as diferenças de classe nas celebrações eucarísticas,
e aí é taxativo: Eucaristia sem amor fraterno é impossível.
Salienta igualmente que os carismas que fervilham na
comunidade só têm sentido quando estão ao serviço dos
irmãos, e se estão subordinados ao dom maior, que é o amor.
Por fim (1Cor 15), citando exemplos da natureza e da própria
ressurreição de Cristo, demonstra que a ressurreição dos
corpos é inquestionável: o cerne da fé é a certeza de que a
vida vence a morte.39
	Gálatas40
– ‘nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão,
mas o ser nova criatura’ (6:15). A Galácia não era uma cidade, mas uma
região da Ásia Menor. Cartas ‘escritas’ para ‘advertir’ os neófitos acerca
da intromissão do judaísmo nas questões religiosas. Foi escrita no fim da
estada de Paulo em Éfeso, provavelmente no Inverno de 56- 57. Paulo
demonstra carinho especial com esses discípulos, por saber que a igreja
corria sério perigo de transformar-se em mais uma seita dos judeus (Atos.
15:1-5). Discorre boa parte sobre questões delicadas acerca dos costumes
judeus, que nada tinham a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo. É a
única carta de Paulo que não começa com ação de graças e não termina
com bênção, fato que testemunha a sua indignação.
	 O principal trabalho de Paulo nessa epístola era mostrar os erros
e enxertos judaizantes, existentes em algumas pequenas comunidades.
39. Marques e Coutinho, Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Coríntios.
40. Ibid., Verbete: Gálatas.
34
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
Segundo Paulo, a vida do homem não deve ser determinada por um código
de leis, mas por um compromisso pessoal e íntimo com Cristo, que está
presente no profundo do ser humano (2,20). A liberdade é conduzida
pelo amor a si mesmo e aos outros, amor que é compromisso ativo com o
crescimento do outro (5: 6 e 13-14). Os ensinos falsos, não faziam mais
que destruir a própria vida e alma do ensino de Jesus Cristo. Assim, era
necessário que os mesmos ficassem em alerta, pois “veio o seu inimigo, e
semeou joio no meio do trigo, e retirou-se” (Mateus 13:25) . Separar o joio
do trigo, rebater as falsidades que os adversários tinham propagado a seu
respeito era o caminho mais sensato para provar sua missão e autoridade
apostólica. “Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que,
por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo
conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos
e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias,
e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para
convosco. Sede qual eu sou; pois também eu sou como vós. Irmãos, assim
vos suplico. Em nada me ofendestes” (Gálatas; 4. 8-12).
	Efésios41
– Naturais da Cidade de Éfeso -onde cultuavam a deusa
Diana, e para onde Paulo enviou uma das três epístolas escritas em sua
prisão em Roma (Atos; 28:16-22). Éfeso era a capital da província romana,
na Ásia. As quatro cartas aos Filipenses, a Filemon, aos Colossenses e aos
Efésios formam o grupo das cartas do cativeiro. As três primeiras foram muito
provavelmente escritas em Éfeso, entre os anos 55-57. As cartas aos Efésios e
Colossenses talvez tenham sido escritas na mesma ocasião; é o que se deduz da
semelhança entre elas e pelo fato de mencionarem Tíquico como portador de
ambas (Efésios; 6,21 e Colossenses; 4:7). Seguida de Antioquia, na Síria, e
Alexandria, no Egito, Eféso era uma das três maiores cidades do litoral
leste do mar mediterrâneo. “Apesar de Paulo trabalhar por mais de dois
anos em Éfeso, não há na Epístola de Paulo aos Efésios qualquer saudação
aos seus amigos e, ainda, a palavra ‘em Éfeso’aparece somente em um dos
três manuscritos mais antigos”. 42
OApóstolo parece não conhecer pessoalmente os destinatários
dessas duas cartas. Isto nos leva a pensar que a carta aos
Efésios, na origem, não teve destinatário preciso; talvez fosse
uma circular destinada às comunidades da região vizinha de
Éfeso; e alguns chegam a pensar que seria a mesma carta
dirigida à Igreja de Laodicéia, citada em Colossenses; 4:16.
41. Ibid., Verbete: Efésios.
42. Boyer, O. S. Pequena Enciclopédia Bíblica, p. 216.
35
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
A carta aos Efésios é fruto de longa e amadurecida meditação
teológica. Contemplando o projeto de Deus para a salvação da
Humanidade, o olhar de Paulo concentra-se em Jesus Cristo
no Céu. É A ideia central da carta. Cristo, porém, não está
longe do mundo nem dos homens. De facto, a sua soberania
engloba toda a Criação e com ela toda a Humanidade, que
assim constituem o seu Corpo, a Igreja, na qual se manifesta o
grande mistério agora revelado, ou seja: em Cristo, Deus reúne
todos os homens na paz e na unidade, excluindo quaisquer
separações de raça ou de origem religiosa. Cristo é o centro e
ápice do eterno projeto de Deus, é o caminho da reconciliação
e reunião de todos os homens no único povo de Deus. A
Igreja abarca a Humanidade inteira, e Paulo contempla-a nas
dimensões do Universo. Ela é descrita sob três imagens: esposa
(5,22-23), corpo (1,23; 4,16) e edifício (2,19-22). Deste modo,
o Apóstolo relembra os laços íntimos e orgânicos que unem
os homens a Cristo e entre si na comunidade, para levá-la ao
pleno desenvolvimento (TEB).
	 Filipenses43
– Naturais de Filipos, cidade onde se encontrava a
Capital da Macedônia, situada entre a estrada de Roma e Ásia. Esta carta
parece ter sido escrita na prisão, provavelmente em Éfeso, entre os anos 55-
57 (Atos;19). Paulo está incerto sobre o rumo que a sua situação vai tomar:
poderá ser morto ou posto em liberdade. Mas espera ser libertado e poder
visitar de novo, pessoalmente, a comunidade de Filipos. O primeiro núcleo da
comunidade por ele fundada formou-se através de reuniões em casa de Lídia,
uma negociante de púrpura, que acolhera Paulo por ocasião da sua visita.
O Apóstolo voltou a Filipos outras vezes, durante as suas várias passagens
pela Macedônia. Carta aos Filipensenses “é uma carta simples e sincera, um
derramamento afetuoso e espontâneo de um coração que podia se exprimir
sem reserva a uma igreja amadíssima”. 44
Na carta, demonstra sempre afeto
e gratidão pela comunidade de Filipos e, por isso, quer vê-la sempre fiel ao
Evangelho. Alguns pregadores insistem em que a salvação depende da Lei.
O Apóstolo mostra com vigor que a salvação só depende de Jesus Cristo. É
Jesus que, feito homem e morto numa cruz, recebeu do Pai o poder de dar aos
homens a salvação. E todo aquele que não transmite isto pelo testemunho de
vida e pela palavra, será sempre falso transmissor do Evangelho. Esta carta,
portanto, fornece o critério para que uma comunidade cristã saiba reconhecer
o verdadeiro Evangelho e quais são os pregadores autênticos.
43. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Filipenses.
44. Boyer, O. S. Pequena Enciclopédia Bíblica, p. 272.
36
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
	Colossenses45
– Colossos era uma pequena cidade da Ásia Menor,
distante 200 km de Éfeso, e próxima de Hierápolis e Laodiceia (4, 13.16).
Paulo não a visitou pessoalmente (2,1). A carta aos Colossenses foi escrita
na prisão, provavelmente em Éfeso, entre os anos 55 e 57 (Atos; 19), talvez
na mesma ocasião em que foi escrita a carta aos Filipenses. Paulo chamou a
atenção, sobretudo acerca das obras e dos trabalhos realizados em nome do
ideal de Jesus Cristo e não dos homens.As comunidades cristãs de Colossos,
Hierápolis e Laodiceia foram fundadas por Epafras, discípulo de Paulo
(1,7; 4,13), enquanto este se encontrava em Éfeso. “Cuidado que ninguém
vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição
dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo;
porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade”
(2:8-9). Os cristãos de Colossos eram provenientes do paganismo (1,21.27)
e costumavam reunir-se nas casas de família, como na de Ninfas (4,15) e
na de Arquipo (4,17). Paulo mostra então que Cristo é o mediador único
e universal entre Deus e o mundo criado; tudo se realiza por meio d’Ele,
desde a criação até a salvação e reconciliação de todas as coisas. Deus
colocou Jesus Cristo como Cabeça do universo, e os cristãos, que com Ele
morreram e ressuscitaram e a Ele permanecem unidos, não devem temer
nada e a ninguém: nada mais, tanto na Terra como no Céu, pode aliená-
los e escravizá-los. Doravante, o empenho na fé em Cristo é o caminho
único para a verdadeira sabedoria e liberdade. Só a renovação em Cristo
pode quebrar as barreiras entre os homens, dando origem a novas relações
humanas, radicalmente diferentes das que costumam existir na sociedade
(3,11). O problema que Paulo enfrenta em Colossos não é a contraposição
entre fé e incredulidade.Trata-se de uma questão que surge dentro da própria
Igreja: distinguir entre o verdadeiro e o falso na interpretação da própria
fé. E isso não é problema meramente teórico, pois a concepção que se tem
da base da fé determina toda a prática da vida cristã.
	 1ª e 2ª Tessalonicenses – Não há certeza se as duas cartas recebidas
pelos tessalônicos tenham realmente sido escritas por Paulo. Porém, das
semelhanças literárias que apresentam é possível traçar um panorama entre
essas duas epístolas. 46
	 Redigida em Corinto no Inverno de 50-51, esta carta é o primeiro
documento escrito do Novo Testamento e do cristianismo. Atingido pela
45. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Colossenses.
46. Ibid., Verbete: Tessalonicenses.
37
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
perseguição, Paulo teve que deixar à pressa a cidade de Filipos. Dirigiu-se a
Tessalônica (Atos; 16:19-40), grande cidade comercial e ponto de encontro
para muitos pensadores e pregadores das mais diversas filosofias e religiões.
Paulo anuncia o Evangelho e forma aí um pequeno grupo. Mas, perseguido,
tem que fugir (Atos; 17:1-10) e o seu trabalho corre o risco de se esvaziar
perante as inúmeras propostas dessa grande cidade. Então, de Atenas, ele
envia os seus colaboradores, Timóteo e Silas, para visitarem e trazerem
notícias dessa comunidade perseguida. Timóteo e Silas encontram Paulo
em Corinto.Ao receber deles a notícia de que a comunidade de Tessalónica
continuava fervorosa e ativa, escreve esta carta para comunicar a sua alegria
e estimular a perseverança da comunidade. Nesta carta, Paulo também
procura responder a algumas questões que preocupam a comunidade de
Tessalónica. Uma é o problema da vinda gloriosa de Cristo.
	 Os tessalonicenses pensavam que essa vinda se realizaria em breve, e
perguntavam: Os que já morreram, será que não vão participar desse grande
acontecimento? Paulo mostra que, no fim da História, tanto os mortos como
os vivos estarão reunidos para viverem sempre com Cristo ressuscitado.
A esperança é para todos, e todos participarão da vitória de Cristo sobre o
mal e sobre a morte. “Aestada de Paulo em Tessalônica talvez não tenha
sido tão breve quanto se pode deduzir de At 17.2. Com efeito, o apóstolo
teve tempo para aí exercer um ofício (ITs 2.9), receber várias doações dos
filipenses que acabara de deixar (Fl 4.16) e fazer que judeus, prosélitos e
pagãos aderissem ao Evangelho. Mas uma viva reação da colônia judaica o
forçou a uma partida precipitada (At 17.5-9), o que explica sua inquietação
a respeito dessa jovem comunidade e o tom violento que ele usa para falar
dos judeus a seus correspondentes (1Ts 2.15-16). A primeira Epístola aos
Tessalonicenses é o mais antigo documento literário cristão conhecido”.47
O Apóstolo relembra que a vida cristã é espera activa do Senhor. A espera,
formada de fé e perseverança, leva a construir a comunidade no amor. Ela
faz olhar para o alto e para o fim da História, mas também leva os fiéis
a empenharem-se com todos os outros homens nas realidades terrestres,
como o respeito pelo corpo e pelo trabalho. Uma espera que não deixa de
reforçar a fidelidade ao Senhor, porque o Céu nada mais será do que a plena
manifestação da realidade que os cristãos já começam a viver no presente
da História: a união com o Senhor para sempre.
47. Bíblia TEB, p. 1454.
1ª e 2ª Timóteo – As cartas a Tito, as cartas a Timóteo formam
um conjunto à parte na literatura que é comumente atribuída a Paulo. Não
se dirigem a uma comunidade, mas a pessoas individuais que possuem
responsabilidades no governo, no ensino e no comportamento das
comunidades cristãs. Porque apresentam diretrizes para os pastores, desde o
século XVIII são chamadas Cartas Pastorais. “Timóteo era filho de um grego
pagão e de uma mãe judia. Converteu-se ao cristianismo, foi companheiro
de missão de Paulo (Atos; 16:1-3) e seu amigo fiel (Romanos; 16:21)”.
48
Ao passar por Listra, na sua segunda viagem missionária, Paulo tomou
Timóteo consigo como companheiro de viagem. Timóteo ficou em Bereia
quando Paulo teve que fugir (Atos; 17:14) e depois se juntou a Paulo em
Corinto. Foi mandado para a Macedônia antes da terceira viagem de Paulo
(Atos; 19:22) e estava no grupo de Paulo no fim da terceira viagem (Atos;
20:4).
	 A 1ª Timóteo deve ter sido escrita em 64-65 e apresenta Timóteo
como responsável pela Igreja de Éfeso. A importância dessa carta está no
seu testemunho histórico sobre a organização eclesiástica. Paulo insiste para
que Timóteo desempenhe com firmeza e coragem a função que recebeu de
Cristo mediante a imposição das mãos. Exorta-o a tornar-se anunciador e
defensor da verdade (1:3- 20), a organizar o culto (2:1-15) e a ser pastor,
dirigindo a comunidade na diversidade dos grupos (3:1-6,2). Estamos
ainda longe de uma rígida organização jurídica, mas podemos dizer que
temos aqui um verdadeiro ponto de partida para a reflexão teológica sobre
o ministério na Igreja.
	 O tema central da carta 2ª Timóteo, são as considerações sobre
os últimos tempos de Paulo, prisioneiro, doravante próximo a partir, e
também dos últimos tempos da Igreja. Assim, o Apóstolo deseja rever
Timóteo. Relembra os próprios sofrimentos e experimenta o conforto de ter
“combatido o bom combate”, e a certeza de receber a coroa da justiça. Por
outro lado, recomenda a Timóteo: que não se envergonhe do Evangelho,
mas que o proclame com integridade; que tome cuidado com as “palavras
vãs” de falsos pregadores que aparecerão nos últimos tempos, apresentando
falsas doutrinas; que se vigie a si mesmo e se mantenha perseverante, mesmo
que deva sofrer como ele, Paulo, por causa do Evangelho. O Apóstolo
sente-se só, ninguém o defendeu no tribunal, os seus dias estão contados,
e prepara-se para o martírio. Frente ao abandono, incompreensão, torturas
e próxima execução, Paulo continua firme e dá graças. Antes da morte,
48. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Timóteo.
deseja rever o seu “amado filho Timóteo” e confirmá-lo na missão. Este é
apresentado com traços mais precisos: uma pessoa sensível (1,4), às vezes
indecisa e sem coragem (1,8). Ficamos também a conhecer o nome de sua
avó Lóide e de sua mãe Eunice (1,5), exemplos de fé para Timóteo.
	Tito – Carta supostamente escrita por Paulo, após sua libertação
da primeira prisão em Roma, ao amigo Tito, entre os anos de 64 e 66.
Uma das epístolas pastorais escritas por ele, com apenas três capítulos e
46 versículos. Já no primeiro capítulo Paulo demonstra ligação fraternal
com Tito. “Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar os
eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade conforme a piedade, na
esperança da vida eterna prometida, antes dos tempos eternos, pelo Deus
que não mente e que, nos tempos fixados, manifestou a sua palavra numa
mensagem que me foi confiada, de acordo com a ordem de Deus, nosso
Salvador, a Tito, meu verdadeiro filho na fé que nos é comum: graça e paz
da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador” (1:1-4). 49
	Filemon – Carta de Paulo a um cristão de Colossos. De todas as
cartas, esta a Filemon é a mais breve e pessoal, a única escrita inteiramente
de próprio punho. Paulo está na prisão, provavelmente em Éfeso. O
fato de Onésimo voltar com Tíquico para Colossos (Cl 4:7-9) faz supor
que esta carta foi escrita na mesma data que a carta aos Colossenses.
Filemon parece ser membro importante da Igreja de Colossos, e é muito
provavelmente o chefe do grupo que se reúne em sua casa (vv. 1-2). É uma
carta de recomendação em favor de Onésimo, um escravo que fugiu ao seu
patrão, Filemon, provavelmente depois de o ter roubado (v. 18). Onésimo
procurou o apoio de Paulo, que estava na prisão, e acabou por se converter
ao cristianismo (v. 10). Paulo devolve-o a Filemon, pedindo-lhe que o trate
como irmão (v. 16). Paulo não pensava certamente em criticar o estatuto da
escravidão, comum no seu tempo, provocando assim uma revolução social.
Os cristãos ainda não tinham força para exigir transformações estruturais da
sociedade. Mas oApóstolo, implicitamente, declara que a estrutura vigente
não é legítima. De facto, mostrando que as relações dentro da comunidade
cristã devem ser fraternas, Paulo esvazia completamente o estatuto da
escravidão e a desigualdade entre as classes. Em Cristo todos são irmãos,
com os mesmos direitos e deveres. 50
49. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Tito.
50. Ibid., Verbete: Filemon.
5. Apocalipse
	D
o gr. apokálypsis, ‘revelação’, pelo latim eclesiástico;
apocalypsis.
	 Apareceu por volta do ano 100. É o último livro do
Novo Testamento, traz uma linguagem muito obscura, compreensão difícil
e enigmática simbolizando as perseguições que os cristãos de então estavam
sofrendo sob o julgo dos imperadores romanos, e que é hoje interpretando
como contendo que contém revelações terrificantes acerca do destino da
humanidade, como grandes cataclismos; flagelos terríveis, doença, morte,
fome,epidemias,etc.“Oapocalipseésempreumaliteraturadecrise;opassado
conhecido se encaminha para um fim catastrófico, o futuro desconhecido
está sobre nós; estamos situados, como ninguém antes, precisamente no
momento do tempo em que o passado pode ser visto como um padrão e
o futuro, amplamente previsto nos números e imagens do texto, começa a
assumir contornos exatos”.51
	 Os gêneros literários apocalíptico são escatológicos; foi um tipo de
literatura amplamente difundido no judaísmo do séc. II A.E.C. ao II E.C.52
Tal literatura se caracterizou por uma fantasia exuberante e mesmo bizarra.
Nela, animais simbolizam pessoas e povos; números têm valor simbólico e
a revelação sobre a história futura é feita por meio de visões explicadas por
anjosintérpretes,apresentadascomohomens.Exemplosdestegêneroliterário
já aparecem em Is 24-27; Ez 38-39; Zc 9-14. Mas ele é amplamente usado
no livro de Daniel, no Apocalipse e na literatura apócrifa judaica e cristã.
Era literatura comum utilizada por quase todos os pensamentos da época do
Cristianismo, profetizavam a queda do império romano, que no texto do livro
do Apocalipse aparece como a ‘Grande Prostituta, Babilônia’. O Livro do
Apocalipse ou ‘Revelação’, foi tido no seu aparecimento como suspeito por
alguns pais da Igreja e questionado por Lutero e Calvino, por bem pouco não
se tornou como os outros livros, 53
literatura apócrifa para os Protestantes.
Este livro só foi aceito como cânon muitos séculos depois de sua divulgação,
utilização e após ter sofrido muitas interpolações e adaptações para o bem
da comunidade cristã. 54
51. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 414.
52. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 594.
53. Tobias – Judite – Macabeus I e II – Baruque – Sabedoria – Eclesiástico (ou Ben Sira).
54. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Apocalipse.
6. Apócrifos
	 A
palavravemdoGrego“Apokryphos”,pelolatim“Apokryplu”,
significa literalmente algo “oculto”, “secreto”,55
ou ‘não-
inspirado’. Com o tempo, e o poder temporal da Igreja
aumentando através da imposição estatal, estes escritos passaram a ser
considerados como obras ou fatos sem autenticidade, ou cuja autenticidade
não se provou.
	 No “início” da era cristã essas mesmas obras eram lidas e estudas
por “todos” os cristãos que as conseguissem obter e místicos sem nenhuma
distinção. Com a imposição da legitimidade atribuída aos concílios e ao Papa
como santidade infalível, essas mesmas obras passaram a ser consideradas
de origem duvidosa. Com o passar do tempo, o termo apócrifo passou a
ser usado para distinguir não só os livros de ‘autenticidade duvidosa’, mas
principalmente os ‘espúrios’ou ‘suspeitos de heresia’. 56
“Os elementos de
demonização dos hereges se mantiveram por muito tempo na teoria de que
aqueles que se opuseram à Igreja eram os seguidores de Satanás, e numa
época em que a presença diabólica era sentida por ser particularmente
imediata, a demonização ficou intensa”. 57
Segundo conta a história sagrada
relatada no Novo Testamento o nome cristãos foi empregado pela primeira
vez em Antioquia. “Em Antioquia forma os discípulos (de Jesus), pela
primeira vez, chamados Cristãos” (Atos; 11:26).
	 Sabe-se que o Cristianismo é de formação social e cultural judaica,
entretanto podemos aventar a possibilidade que no início de sua caminhada
tenha sido pregado e divulgado por não judeus (Gói). Daí aquela expressão
bastante utilizada no meio cristão afirmando ser Paulo o Apóstolo da
gentilidade (Romanos; 11:13).O texto que se segue deixa entrever adeptos
do cristianismo fora da palestina. “Ainda tenho outras ovelhas que não são
deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha
voz, e haverá um rebanho e um Pastor” (João;10:16).
	Transgressão58
55. Ibid., Verbete: Apócrifo.
56. Lião, Irineu de. Contra as Heresias, p. 116.
57. Russell, J. F. Lúcifer – o diabo na idade média, p. 184
58. Drury, John. In: Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 445.
42
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
	 Muita gente veio a conhecer os ensinos de Jesus de segunda mão e
reinterpretados por judeus que estavam embebidos em uma visão cultural
escatológica de seus tempos como sendo os derradeiros tempos antes da
vingança final de Deus. Isso fazia parte da tentativa de dar uma lógica a
um mundo colonizado por romanos que impunham regras estranhas.
‘Um mundo é ordenado e estruturado por suas fronteiras. É mudado quando
essas fronteiras são cruzadas. Elas são ficções sociais, mitos que aguardam
os desmistificadores. Uma narrativa pode traçar fronteiras ainda mais
ordenadas do que as que existem no mundo, mas apenas para violá-las mais
dramaticamente. Os cristãos foram herdeiros das transgressões dogmáticas
de seu fundador, o proscrito messias. Do ponto de vista do judaísmo
tradicional, elas eram blasfêmias. A blasfêmia, crime pelo qual Jesus é
condenado (14:64), é uma erupção de energia religiosa das profundezas
da estruturas ortodoxa, que ela ameaça por sua força primal. Cabia aos
cristãos mostrar que o que parecia, do ponto de vista tradicionalista, um
mal destrutivo, era, na verdade, uma salvação divinamente autentica dos
perdidos.
	 Ahistória de Marcos começa e terminam com o tipo de transgressões
importantes necessárias para justificar o cristianismo: isto é, transgressões
aprovadas ou cometidas por Deus. O céu se abriu no batismo de Jesus, o
templo se velou em sua morte. Com a ruptura desse véu, que demarcava o
santuário interno do templo e que apenas o sumo sacerdote penetrava uma
vez por ano com o sangue sacrificial, uma profanação imensa ocorreu. Ao
mesmo tempo (15:36-39), uma nova santidade apareceu com o centurião
gentio expressando a identidade divina de Jesus, previamente expressa
pela voz divina. O templo e o Gólgota estavam bem distantes. Apenas
o texto torna essas coisas simultâneas – aos olhos da mente. O maior
choque de violação vem no fim. É o túmulo vazio, uma lacuna na fronteira
supremamente importante entre mortos e vivos. Por meio dela o poder
divino, de um tipo extremamente suspeito e impróprio, é solto no mundo.
Daí a fuga aterrorizada dos pranteadores.
	 Medo, espanto e assombro são reações frequentes às palavras e ações
de Jesus por toda a narrativa irrequieta de Marcos. Cercam seu primeiro
milagre, o exorcismo de um endemoninhado na sinagoga em Cafarnaum em
1:21-27. O exorcismo vem de forças que rompem limites. O ensinamento
de Jesus na sinagoga é abalizado e não oficial – Portanto, surpreendente.
Assim que ele é ministrado, apresenta-se a nós uma brecha alarmante na
norma religiosa como um fait accompli (fato consumado): “Estava na
43
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
sinagoga deles um homem possuído de [Marcos diz “em”] um espírito
impuro” (v.23). Na casa pura há uma presença impura, e dela irrompe, em
completa contradição de expectativas, a verdade sagrada: “Sei quem tu és:
o santo de Deus” (v.24). Esse estilhaçamento duplo da ordem convencional
é seguido de uma ruptura culminante á medida que o espírito impuro lacera
o homem e sai dele, gritando. A série rápida de irrupções tem o efeito de
uma das cenas de “escândalo” de Dostoievski: o embaraço com o diapasão
do terror.
	 E assim continua. Em 2:1-12, um teto é “aberto” para trazer um
paralítico á presença de Jesus. Jesus perdoa o sofredor, e os escribas ficam
escandalizados pela blasfêmia de ele fazer o que só Deus deveria fazer. Mas
o homem é curado e sai, e novamente os circunstantes estão “admirados”.
Em 2:15-17, há um escândalo adicional quando Jesus come com “muitos
publicanos e pecadores”. Em 2:18-22, Jesus dá a justificação parabólica de
rasgar e romper: a peça nova rasga o vestido velho, o vinho novo estoura os
odres velhos e as normas da existência cotidiana são subvertidas pela festa
do dia do casamento. Jesus prossegue desconsiderando os regulamentos
do sábado, tão fundamentais para a ordem tradicional. Pouco lhe importa
que seus discípulos os contrariem, pois “o sábado foi feito para o homem,
e não o homem para o sábado” e ele, o “filho do homem”, é “senhor até do
sábado” (2:27-28). Cura o homem ate da mão atrofiada em uma sinagoga
(aumentando o escândalo) no sábado, e os fariseus decidem vingar a
subversão de sua ortodoxia, destruindo-o (3:6). As grandes rupturas que
estão no clímax do evangelho de Marcos são visíveis: a morte de Jesus e sua
ressurreição. Na narrativa intermediária o sagrado move-se decisivamente
de seus lugares costumeiros para novos lugares, da sinagoga para a casa e,
acima de tudo, da tradição para Jesus’.
6.1. Lista completa de livros tidos
como Apócrifos
ANTIGO TESTAMENTO
1.	 Apocalipse de Adão
2.	 Apocalipse de Baruc
3.	 Apocalipse de Moisés
4.	 Apocalipse de Sidrac
5.	 As Três Estelas de Seth
6.	 Ascensão de Isaías
7.	 Assunção de Moisés
8.	 Caverna dos Tesouros
9.	 Epístola de Aristéas
10.	 Livro dos Jubileus
11.	 Martírio de Isaías
12.	 Oráculos Sibilinos
13.	 Prece de Manassés
14.	 Primeiro Livro de Adão e Eva
15.	 Primeiro Livro de Enoque
16.	 Primeiro Livro de Esdras
17.	 Quarto Livro dos Macabeus
18.	 Revelação de Esdras
19.	 Salmo 151
20.	 Salmos de Salomão (ou Odes de Salomão)
21.	 Segundo Livro de Adão e Eva
22.	 Segundo Livro de Enoque (ou Livro dos Segredos de Enoque)
23.	 Segundo Livro de Esdras (ou Quarto Livro de Esdras)
24.	 Segundo Tratado do Grande Seth
25.	 Terceiro Livro dos Macabeus
26.	 Testamento de Abraão
27.	 Testamento dos Doze Patriarcas
28.	 Vida de Adão e Eva
45
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Emília dos Santos Coutinho
ESCRITOS DE QUMRAN
1.	 A Nova Jerusalém (5Q15)
2.	 A Sedutora (4Q184)
3.	 Antologia Messiânica (4Q175)
4.	 Bênção de Jacó (4QPBl)
5.	 Bênçãos (1QSb)
6.	 Cânticos do Sábio (4Q510-4Q511)
7.	 Cânticos para o Holocausto do Sábado (4Q400-4Q407/11Q5-11Q6)
8.	 Comentários sobre a Lei (4Q159/4Q513-4Q514)
9.	 Comentários sobre Habacuc (1QpHab)
10.	 Comentários sobre Isaías (4Q161-4Q164)
11.	 Comentários sobre Miquéias (1Q14)
12.	 Comentários sobre Naum (4Q169)
13.	 Comentários sobre Oséias (4Q166-4Q167)
14.	 Comentários sobre Salmos (4Q171/4Q173)
15.	 Consolações (4Q176)
16.	 Eras da Criação (4Q180)
17.	 Escritos do Pseudo-Daniel (4QpsDan/4Q246)
18.	 Exortação para Busca da Sabedoria (4Q185)
19.	 Gênese Apócrifo (1QapGen)
20.	 Hinos de Ação de Graças (1QH)
21.	 Horóscopos (4Q186/4QMessAr)
22.	 Lamentações (4Q179/4Q501)
23.	 Maldições de Satanás e seus Partidários (4Q286-4Q287/4Q-
280-4Q282)
24.	 Melquisedec, o Príncipe Celeste (11QMelq)
25.	 O Triunfo da Retidão (1Q27)
26.	 Oração Litúrgica (1Q34/1Q34bis)
27.	 Orações Diárias (4Q503)
28.	 Orações para as Festividades (4Q507-4Q509)
29.	 Os Iníquos e os Santos (4Q181)
30.	 Os Últimos Dias (4Q174)
31.	 Palavras das Luzes Celestes (4Q504)
32.	 Palavras de Moisés (1Q22)
46
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
33.	 Pergaminho de Cobre (3Q15)
34.	 Pergaminho do Templo (11QT)
35.	 Prece de Nabonidus (4QprNab)
36.	 Preceito da Guerra (1QM/4QM)
37.	 Preceito de Damasco (CD)
38.	 Preceito do Messianismo (1QSa)
39.	 Regra da Comunidade (1QS)
40.	 Rito de Purificação (4Q512)
41.	 Salmos Apócrifos (11QPsa)
42.	 Samuel Apócrifo (4Q160)
43.	 Testamento de Amran (4QAm)
NOVO TESTAMENTO
1.	 A Hipóstase dos Arcontes
2.	 (Ágrafos Extra-Evangelhos)
3.	 (Ágrafos de Origens Diversas)
4.	 Apocalipse da Virgem
5.	 Apocalipse de João o Teólogo
6.	 Apocalipse de Paulo
7.	 Apocalipse de Pedro
8.	 Apocalipse de Tomé
9.	 Atos de André
10.	 Atos de André e Mateus
11.	 Atos de Barnabé
12.	 Atos de Filipe
13.	 Atos de João
14.	 Atos de João o Teólogo
15.	 Atos de Paulo
16.	 Atos de Paulo e Tecla
17.	 Atos de Pedro
18.	 Atos de Pedro e André
19.	 Atos de Pedro e Paulo
20.	 Atos de Pedro e os Doze Apóstolos
21.	 Atos de Tadeu
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Emília dos Santos Coutinho
22.	 Atos de Tomé
23.	 Consumação de Tomé
24.	 Correspondência entre Paulo e Sêneca
25.	 Declaração de José de Arimatéia
26.	 Descida de Cristo ao Inferno
27.	 Discurso de Domingo
28.	 Ditos de Jesus ao rei Abgaro
29.	 Ensinamentos de Silvano
30.	 Ensinamentos do Apóstolo Tadeu
31.	 Ensinamentos dos Apóstolos
32.	 Epístola aos Laodicenses
33.	 Epístola de Herodes a Pôncio Pilatos
34.	 Epístola de Jesus ao rei Abgaro (2 versões)
35.	 Epístola de Pedro a Filipe
36.	 Epístola de Pôncio Pilatos a Herodes
37.	 Epístola de Pôncio Pilatos ao Imperador
38.	 Epístola de Tibério a Pôncio Pilatos
39.	 Epístola do rei Abgaro a Jesus
40.	 Epístola dos Apóstolos
41.	 Eugnostos, o Bem-Aventurado
42.	 Evangelho Apócrifo de João
43.	 Evangelho Apócrifo de Tiago
44.	 Evangelho Árabe de Infância
45.	 Evangelho Armênio de Infância (fragmentos)
46.	 Evangelho da Verdade
47.	 Evangelho de Bartolomeu
48.	 Evangelho de Filipe
49.	 Evangelho de Marcião
50.	 Evangelho de Maria Madalena (ou Evangelho de Maria de Betânia)
51.	 Evangelho de Matias (ou Tradições de Matias)
52.	 Evangelho de Nicodemos (ou Atos de Pilatos)
53.	 Evangelho de Pedro
54.	 Evangelho de Tome o Dídimo
55.	 Evangelho do Pseudo-Mateus
56.	 Evangelho do Pseudo-Tomé
48
FRAGMENTOS I
Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
57.	 Evangelho dos Ebionitas (ou Evangelho dos Doze Apóstolos)
58.	 Evangelho dos Egípcios
59.	 Evangelho dos Hebreus
60.	 Evangelho Secreto de Marcos
61.	 Exegese sobre a Alma
62.	 Exposições Valentinianas
63.	 (Fragmentos Evangélicos Conservados em Papiros)
64.	 (Fragmentos Evangélicos de Textos Coptas)
65.	 História de José o Carpinteiro
66.	 Infância do Salvador
67.	 Julgamento de Pôncio Pilatos
68.	 Livro de João o Teólogo sobre a Assunção da Virgem Maria
69.	 Martírio de André
70.	 Martírio de Bartolomeu
71.	 Martírio de Mateus
72.	 Morte de Pôncio Pilatos
73.	 Natividade de Maria
74.	 O Pensamento de Norea
75.	 O Testemunho da Verdade
76.	 O Trovão, Mente Perfeita
77.	 Passagem da Bem-Aventurada Virgem Maria
78.	 Pistis Sophia
79.	 Prece de Ação de Graças
80.	 Prece do Apóstolo Paulo
81.	 Primeiro Apocalipse de Tiago
82.	 Protoevangelho de Tiago
83.	 Retrato de Jesus
84.	 Retrato do Salvador
85.	 Revelação de Estevão
86.	 Revelação de Paulo
87.	 Revelação de Pedro
88.	 Sabedoria de Jesus Cristo
89.	 Segundo Apocalipse de Tiago
90.	 Sentença de Pôncio Pilatos contra Jesus
91.	 Sobre a Origem do Mundo
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Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
92.	 Testemunho sobre o Oitavo e o Nono
93.	 Tratado sobre a Ressurreição
94.	 Vingança do Salvador
95.	 Visão de Paulo
OUTROS ESCRITOS
1. História do Sábio Ahicar
2. Livro do Pseudo-Filon
7. Outros Fragmentos
Não procuramos verdades com a intenção de encontrá-las, mas
sim com o objetivo de compará-las. As verdades dependem
pura e exclusivamente da interpretação teórica que recorremos
para explicá-las. 59
	O
s Fragmentos abaixo são datados em torno dos anos 150 a
500 E.C. escritos por autores desconhecidos. Apesar dessa
peculiaridade apresentam-se de suma importância para o
estudo da formação e estudo dos Evangelhos e conhecimento da Igreja
Inicial. A tradução dos textos do original grego/copta para o espanhol foi
realizada por Gustavo Cerro e Olavo de Santos Otero e do espanhol para
o português por Emília Santos Coutinho.
1 - Palavras do Senhor reunidas em um papiro de Oxirrinco, datado pelo
fim do século II e III, escrito em grego.
I.	 E então terás que tirar a palha que está no olho do teu
irmão. (Mt.7,5: Lc.6,42).
II.	 Disse Jesus: ‘Se não te afastares do mundo, não
encontrareis o reino de deus. E se não guardais o sábado,
não veras o Pai’.
III.	Disse Jesus: Estive no meio do mundo e me manifestei
a ele em carne e encontrei que todos estavam ébrios, e
não encontrei ninguém entre eles que estivesse sedento.
IV.	 Disse Jesus: ‘Minha alma sofre pelos filhos do homem,
porque estão cegos de coração e não olham... a pobreza’.
V.	 Disse Jesus:- ‘Onde quer que estejam... e onde esteja
um só, Eu estou com ele.Levanta a pedra e ali me
encontraras, rompa a pedra e ali estou’.
VI.	Disse jesus: Não e aceito um profeta em sua própria
terra.nem medico faz curas entre os que o conhecem.
(Lc.4, 24).
VII.	 Disse Jesus: ‘Uma cidade edificada no alto de um
monte elevado e fortificada não pode cair, nem se
ocultar’.(Mt, 5, 14).
59. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades, p. 452.
51
Leonardo Arantes Marques
Emília dos Santos Coutinho
VIII.	 Disse Jesus: ‘Escutes com um só de teus ouvidos....’
2 - Fragmento Evangélico de Oxirrinco do ano de 655 escrito em grego,
sua data provável é do século II.
(Coluna A-1,23) “Não te preocupes desde a manha ate a
tarde, nem desde a tarde ate a manha, nem por sua comida
que comereis nem por vossa roupa que vestireis. Porque vos
sois melhores que os lírios que crescem e não fiam. também
vós tens uma roupa (Mt. 6, 25 e Lc 12, 22).
Quem poderá juntar algo a vossa Estatura (ou ao vosso
tamanho? Seus discípulos disseram:
Quanto vai se manifestar a nós e quando te vamos ver? Ele os
contestou (ou ele respondeu):
“Quando te desnudeis e não sentis vergonha” (Gen.3,7).
(Coluna B-41,50) Dizia: “Esconderam as chaves do reino e
nem eles a encontram e nem deixam entrar os que desejam.
Mas vos sedes prudentes como as serpentes e simples como
as pombas”. (Mt.10.16).
3 - Fragmento Evangélico De Fayum, data do século IV ou anterior escrito
em grego. Papiro escrito provavelmente nas últimas décadas do século II,
encontrado no Oásis de Fayum. Trata-se de uma versão abreviada. . Jesus na
véspera da paixão, profetiza a deserção dos apóstolos e a negação de Pedro.
Não se encontra nenhum detalhe apócrifo. Tampouco existem argumentos
para dirimir em um sentido ou outro a questão sobre a dependência ou não
dos textos canônicos.
....E depois de comer, segundo o costume, Jesus lhes disse:
Todos ficarão escandalizados esta noite segundo o está escrito:
“Ferirei o pastor e dispersaram as ovelhas”.
Quando Pedro lhes disse: Ainda que todos, menos eu”. Jesus
lhe disse: - Antes que o galo cante duas vezes, tu me negaras
três.
4 - Papiro Evangélico de Oxirrinco 840. Trata-se de uma folha de
pergaminho, escrito em grego, provavelmente do século IV ou V descoberta
por B. B. Greenfield e A. S. Hundt em 1905. O texto é composto pelos
Fragmentos I - Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões
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Fragmentos I - Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões

  • 1.
  • 2.
  • 3. 1o . Edição São Paulo 2016 Fragmentos I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho
  • 4. Copyright © 2016 by Leonardo Arantes Marques Diagramação e capa: Rubervânio Rubinho Lima Editoração e revisão: editoraoxente@gmail.com Catalogação na publicação (CIP) Ficha Catalográfica Marques, Leonardo Arantes e Coutinho, Emília dos Santos. M357f Fragmentos I - Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões /Leonardo Arantes Marques e Emília dos Santos Coutinho. São Paulo: Editora Oxente, 2016. 328 p.; ISBN: 978-85-68841-90-7 1. História das Religiões - Trabalhos Apócrifos, Pseudoepígrafos, Intertestamentais 2. Leonardo Arantes Marques. I. Título CDU: 2-25 CDD: 229 E-BOOK
  • 5. Introdução | 09 1. Publicação e análise de documentos | 12 2. Fragmentos | 14 3. Evangelhos Canônicos | 17 4. As Epístolas | 30 5. Apocalipse | 40 6. Apócrifos | 41 6.1. Lista completa de livros tidos como Apócrifos | 44 7. Outros Fragmentos | 50 8. Cânone Muratori | 57 9. Didaqué ou Didaché | 63 10. Inácio (de Antioquia) | 74 11. Introdução ao Pastor de Hermas | 118 12. Diatesseron | 196 13. Anotações sobre O Livro dos Segredos de Enoch | 198 14. Observações sobre a Carta a Diogneto | 292 15. Livro ou Escritos de Q. | 307 Bibliografia | 324 ÍNDICE
  • 6. Dedicatórias Emília Santos Coutinho A Luisa Esther e Ida, mulheres sem igual a quem devo minha caminhada acadêmica, A Gabriela, sem ela tudo seria mais difícil, A Fundação Maria Tsakos, que nos proporciona cada dia os mais profundos conhecimentos sobre a admirável civilização grega, em especial a professora Yocelyn Fernandes. Leonardo Arantes Marques As Minhas Filhas Aimê da Silva Marques Aléthia da Silva Marques A amiga, hoje namorada, esposa e amante, Neide Rosa da Silva Guimarães, que dedico o poema abaixo. Você é meu Anjo Sem Asas Onde você estava todo este tempo Que NÃO PUDE te enxergar Qual a razão desta ausência Onde poderei te encontrar Fiz buscas incessantes nos mais recônditos cantos da terra, Minha vida estava por um fio, Não aguentava mais as dores da minha alma Onde poderei te encontrar No momento de maior sofrimento, Você me apareceu como um anjo,
  • 7. Desceu das grandes alturas e ficou ao meu lado, Lutou contra os meus medos Esteve firme quando fraquejei aterrorizado, Quando não pude andar. Abraçou-me Você me fortaleceu e me amparou Amou-me e beijou-me como se ama e se beija os heróis A vitória era inexorável sobre meus medos Quando pensei que me deixarias e voltarias aos céus Me dei conta de mim e da dor que sentiria Você mirou seus olhos no fundo dos meus olhos E beijando-me, Abdicou-se de suas asas. Você é meu Anjo Sem Asas Você é meu Anjo Sem Asas (Leonardo Marques, 2015)
  • 8. Introdução I ntrodução é uma “(…) transposição para a linguagem – forçosamente confusa ou complicada – de sentimentos vagos ou complexos, que a redação normal não pode comportar”.1 Na verdade, não sabemos se podemos ser honestos ao ponto de afirmar que o livro é um rachador de cabeça e a leitura será difícil, como toda obra de pesquisa ou se no cinismo romanesco, convencemos o leitor que a leitura será agradável. Compor introduções para mim sempre foi complicado, pois não é um começo e sim um fim. Assim, toda boa introdução deveria está no fim do livro, lá onde estão as conclusões. Não sei se por não comportar uma redação normal ou por não dizer totalmente a verdade sobre o que escrevemos ou se já estou cansado de escrever e sendo a introdução a última parte, as mesmas já não me interessam muito. No entanto, aprendemos nas escolas e faculdades que uma boa introdução, ajuda o leitor a se encantar e a ler o livro. O que diria eu então a estes leitores sobre este livro? Em princípio não será uma empreitada muito fácil e romanesca, pois o mesmo é bem diferente dos outros livros2 já escritos anteriormente por nós. O Compêndio é um trabalho denso e especializado em explicar as significações de palavras, expressões e idiossincrasias utilizadas pelas sacralidades. Está em constantes revisões e acréscimos. O livro História das Religiões, apesar de bem mais didático e com uma edição revista e atualizada se tornou com a força do tempo um livro dinâmico e necessário para se entender a dialektiké3 das religiões e o comportamento do homo religiosus. “[…] o homo religiosus acredita sempre que existe uma realidade absoluta, o sagrado, que transcende este mundo, que aqui se manifesta, santificando-o e tornando o real”4 . 1. Pessoa, F. Livro do Desassossego. Vol. I. p. 206 (Os sonhos). 2. Compêndio de Religiões e Espiritualidades, Editora Ícone, 2010 e História das Religiões e a Dialética do Sagrado, Ideias e Letras 2015 (Edição Revista e Ampliada da edição de 2005). 3. A dialética propõe um método de pensamento baseado nas contradições entre a unidade e multiplicidade, o singular e o universal, o movimento e a imobilidade. 4. Eliade, M. O Sagrado e o Profano, p. 97.
  • 9. 10 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Quando minha amiga e colaboradora Emília me convidou a participar do Fragmentos I, que ela estava se dedicando nas traduções, tive dúvida se conseguiria auxiliá-la, pois o livro hora apresentado tem um papel diferente das pesquisa anteriores que fizemos. Aqui envolvia não apenas traduções, pesquisas, revirar textos antigos e novos e sim um aprofundamento de dedicação quase exclusiva ao livro. Como acreditei ser uma tarefa quase impossível, aceitei-o imediatamente. Acredito e ensino as minhas filhas e alunos que tudo o que é satisfatório na vida é complicado, difícil e trabalhoso, mas não impossível. Meu papel inicialmente era verificar o material traduzido e dar formaeleituraaomesmo.Comopassardotempoedededicaçãoexclusiva ao material, percebi que minha empreitada era bem maior que o que vinha realizando. O material apresentado era tão rico em informações que seria desperdício da minha parte como estudioso em histórias das religiões não acrescentar aos textos, estudos históricos aprofundados antes e durante a leitura e possíveis rodapés. Assim, refiz, reli, estudei- os varias vezes antes de acrescentar textos mais aprofundados de minhas pesquisas nos documento apresentados por minha amiga e colaborado Emília. Os textos que antecedem as traduções servirão para ajudar na leitura, colocando o leitor a par de cada situação que envolve tais documentos. E por que muitas vezes este pode vir a se tornar um livro de difícil leitura? Porque nenhum estudo histórico, filosófico, antropológico ou psicológico sérios são materiais fáceis e de agradável leitura. Todos os textos pesquisados, bem como os estudiosos que os explicam o fazem dentro de validações de seus referenciais de estudos. Essas validações nunca são claras e na maioria das vezes precisamos nos debruçar dias, meses e anos, como foi o caso dos Fragmentos I que começamos a elaborá-lo, pesquisá-lo e a fazer as traduções em 2010, terminando-o realmente no final de 2015. Para o não afeiçoados em pesquisas, parece exagero e preciosismo demorar cinco anos para publicar um livro não muito volumoso. Porém, para a maioria dos pesquisadores estes cinco anos foi um recorde, pois uma publicação bem feita demora cerca de dez anos ou mais como foi o Compêndio (1998-2010) e o Dialética do Sagrado (1999-2005) com a última edição revista (2005-2015). Trabalhamos apenas cinco anos em pesquisas no Fragmentos I,
  • 10. porque reversamos material de pesquisa para posteriores dez anos ou mais para os Fragmentos II e III. Desta forma, o livro apresentado é um livro de pesquisa que pretende trazer para o leitor leigo e o especialista, material abundante para futuras pesquisas e análises. Tentamos sempre deixar o livro o mais acessível possível. No entanto, sabemos que a empreitada é difícil e fazemos sempre o melhor de nós. Leonardo Arantes Marques São Paulo, 2015
  • 11. 1. Publicação e análise de documentos O s documentos mais antigos que temos são relativamente recentes. Tanto quanto podemos reconstruir o passado mais remoto, é mais seguro supor que a vida religiosa foi, desde sempre, bastante complexa, e que as ideias ‘elevadas’ coexistiam com formas ‘inferiores’ de adoração e crença.5 Quanto mais relativamente antigo for um documento ou texto analisado, mais difícil fica entender suas traduções e tradições (e mais complexo fica a compreensão de seu contexto original). Não temos como saber se um determinado documento ‘antigo’ que temos em mãos seja verdadeiro autêntico, ou seja, se foi escrito, no todo ou em parte, pelos autores a quem são atribuídos ou se a versão que conhecemos hoje reflete as ideias da original, há não ser que pensemos no verdadeiro como norma institucional (verdade eclesiástica), ou seja, estarmos presos a esses documentos apenas pelo fato de constar o nome do autor que diz ser quem é. Não existe meio, fórmula, historiador, gênio ou mesmo vidente, que possa afirmar com toda certeza (toda certeza é subjetiva) que determinado texto é do autor antigo que estamos lendo. As inserções e acréscimos eram plágios comuns e em um contexto histórico onde poucos sabiam ler e escrever, fora os analfabetos funcionais6 que eram contratados como copista. Os copistas eram os homens, normalmente monges especialmente na idade média, que se dedicavam a reproduzir os manuscritos 7 antigos de forma a permitir a sua difusão, numa altura em que a imprensa ainda não tinha sido inventada, inviabilizando, por isso, a possibilidade de tiragens 5. Eliade, M. Origens, p. 41. 6. Denominação dada à pessoa que, mesmo letradas (capacidade de decodificar minimamente as letras), geralmente frases, sentenças, textos curtos e os números, não desenvolve a habilidade de interpretação de textos e de fazer as operações matemáticas. Também é definido como analfabeto funcional o individuo maior de quinze anos e que possui escolaridade inferior a quatro anos, embora essa definição não seja muito precisa, já que existem analfabetos funcionais com nível superior de escolaridade. Um individuo pode ser letrado, mas não alfabetizado. 7. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Manuscrito.
  • 12. 13 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho elevadas. Os erros e manipulações, conscientes ou inconscientes das cópias causaram muitas polêmicas e muitos enganos de interpretação por parte de historiadores e exegetas que se dedicaram à exumação desses documentos antigos. 8 E por este tempo (ou nesta época) vivia Jesus, um homem sábio, se justo fosse chamá-lo homem; porque era fazedor de maravilhosas obras, um mestre dos homens (ou entre os homens)que recebem a verdade com prazer. Atraiu para si muitos judeus e muitos gentis. Era o Cristo. E quando Pilatos , por sugestão dos principais homens como nós (ou entre nós), o teve que condená-lo (ou o condenou) a morrer na cruz , aqueles que o haviam amado (ou os que o amou)ao princípio não o abandonaram; porque apareceu diante deles vivo (ou renascido) no terceiro dia; como os profetas divinos haviam previsto esta e dez mil outras coisas maravilhosas sobre Ele. E a tribo dos cristãos, assim chamada por ele, não se extinguiu ate o dia de hoje. (Flávio Josefo. Antiguidades Judaicas, livro 18, parágrafos 63 e 64). 9 Não sabemos da veracidade da origem dos escritos e nem quantas cartas, textos e evangelhos os autores escreveram em seus nomes ou a estes foram imputadas. A aceitação de veracidade deste ou de outro texto que o autor escreveu está ligado pura e exclusivamente à tradição e ao conceito de verdade que o grupo se associa e acredita. Vygotsky deixou bem claro em vários de seus artigos que a estrutura da língua influencia de maneira indelével como a pessoa percebe o universo. Se os textos de um determinado autor fossem parar nas mãos de um grupo messiânico e o mesmo não tivesse esse fundamento, seus escritos eram tidos como falsos.10 8. Ehrman, B. D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? p. 55. 9. Muitos historiadores modernos, principalmente críticos como Bart D. Ehrman, Paul Johnson, Ambrosio Donini, Emilio Bossi, Jakob Lentsman, Karl Kautsky, tem argumentado que a passagem no livro de Flávio Josefo, História dos Hebreus, quebra a continuidade da narrativa e que são usadas palavras incomuns nos textos. 10. B.A.C. Padres Apostólicos Y Apologistas Griegos do séc. II, p. 678.
  • 13. 2. Fragmentos ‘Parte que resta de uma obra literária antiga’. “A única verdade é a morte, o restante é apenas poesia”. (Léo Marques, 2012). Q uem olha, toca, cheira e sente a textura de um livro nos dias de hoje, não imagina como era difícil e complicada a missão de se ter ou mandar se compor um manuscrito na antiguidade. O Manuscrito é um documento escrito à mão sob um papiro, pergaminho, pele ou um papel com tinta de uma pena, vareta, carvão, caneta, lápis, etc. A antiguidade relativa de um texto é um fator determinante de interesse. Geralmente os fragmentos conhecidos se referem aos escritos ou ditos que foram pretensamente realizados por personagens famosas em qualquer área de conhecimento. Os escribas egípcios são os antigos produtores de manuscritos, assim como os monges da Idade Média, melhor seria afirmar que os egípcios e monges eram os produtores dos documentos antigos mais conhecidos do Ocidentes, posto que hindus e chineses também produziram volumosos textos na mesma época. Mensagens e avisos podem ser encontrados escritos nas pedras (pedra de Roseta), madeira e no caso de folhas de papel no livro ou códice. 11 Um exemplo importante de manuscritos antigos são os Manuscritos do Mar Morto, descobertos no fim da década de 1940 e durante a década de 1950.O CodexSinaiticus, também conhecido como Manuscrito ‘Aleph’ (primeiro algarismo do alfabeto hebraico), é um dos mais importantes manuscritos gregos já descobertos, pois além de ser um dos mais antigos (século IV), e é o único códex que contém o Novo Testamento inteiro. Atualmente acha-se no Museu Britânico. Com o Codex Vaticanus, é um dos mais importantes manuscritos gregos para a crítica textual.12 Se a formação produção ou edição e texturização de um manuscrito 11. Forma característica do manuscrito em pergaminho, semelhante à do livro moderno, e assim denominada por oposição à forma do rolo. 12. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Ver Manuscrito.
  • 14. 15 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho era algo tão complicado e complexo na antiguidade, de onde foram tiradas as primeiras fontes sobre Jesus? Desde a morte de Jesus até mais ou menos 40 a 45 anos, é provável que quase todo ensino ou memórias correntes sobre Ele foi feito de forma Oral, baseado nas lembranças de pessoas e discípulos. Com o tempo, foram reunidos sobre sua pessoa, contos, histórias, parábolas, fábulas e todo tipo de informação popular que serviu de base para se escrever os primeiros textos.Após esses primeiros escritos, que incluíam possivelmente algumas cartas de Paulo e logo depois os textos de Marcos, a produção “literária” sobre Jesus não parou. Contudo, essa produção era de uma época e seu contexto já estava distante do da pessoa histórica de Jesus e de seus contemporâneos imediatos.Amaior parte dos textos passou a ser reelaborações e registros de interpretações de comunidades cristãs, cada uma com sua perspectiva do homem Jesus e de sua mensagem, e à sombra de novos acontecimentos sociais e políticos que não houve no tempo de Jesus, como a revolta dos judeus em 66 e no início do século II. Os textos eram de difícil leitura já que muitas vezes, seguindo o padrão do latim e grego clássicos, eram escritos sem pontuação, parágrafo, vírgula ou mesmo separação entre uma palavra e outra. Tudo isso dificultava ao copista saber o que realmente era o sentido de uma coisa ou outra. Sem falar dos copistas analfabetos que apenas copiavam os caracteres sem ter a mínimo conhecimento sobre o significado do texto copiado. Em uma população de noventa por cento de analfabetos, nem é preciso dizer que a produção e leitura desses manuscritos eram raras. O material para escrita era de difícil acesso, quando não faltava material o essencial, como peles, tintas, pincel, etc. Quando tais circunstâncias acorriam e tudo dependia também do valor cobrado, esses materiais podiam ser substituídos por carvão ou mesmo substâncias corantes, como é o caso da amora. Quando se pagava para se ter um manuscrito, esse demorava bastante para ser entregue.Acópia era feita de forma bem rústica. O copista simplesmente copiava ou tentava copiar as letras como elas se apresentavam no texto que compilava. Quando não entendia a letra, inventava uma, ou simplesmente repetia as de cima, quando não, repetia na linha de baixo todo o parágrafo de cima. 13 Mas, tudo isso tem que ser pensando e avaliado em um contexto pouco apropriado da seguinte forma: O copista muitas vezes fazia esse tipo de cópia a noite sobre a luz de uma lamparina que lhe fornecia luz atenuada sobre a pele em que imprimia suas letras. Imaginemos por um pequeno momento alguém copiando algo que nem se quer tem noção do 13. Ehrman, B. D. O que Jesus Disse? O que Jesus Não Disse? Pag. 65.
  • 15. 16 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões que eram as letras, como fazem as crianças que estão nos primeiros passos da alfabetização. Assim agiam os copistas não profissionais ou analfabetos. Por outro lado, se conheciam as letras, como era o caso dos copistas profissionais contratados mais tarde pela Igreja, tentava dar sentido a algumas passagens aglomeradas nos textos que não conseguiam entender, até mesmo por ser diverso o contexto em que os agora profissionais escribas atuavam. Por isso, as incongruências textuais que muitas vezes observamos nos evangelhos e textos da Bíblia Hebraica. 14 Um estudo adequado da Bíblia não pode ser feito sem uma consciência aguda das diferenças nas atitudes e estruturas políticas, culturais e religiosas que existem entre o Velho e o Novo Testamento. Supor-se-ia, logicamente, certo desenvolvimento durante os 400 anos que decorreram entre os dois livros; mas as várias mudanças observáveis devem ser explicadas. É necessário, portanto, voltar-se, na história, até o tempo entre os dois Testamentos, a fim de se apreciar mais completamente a situação pressuposta no Novo Testamento. 15 14. Ibid., Pag. 67. 15. Hale, B. D. Introdução ao Estudo do Novo Testamento, p. 7.
  • 16. 3. Evangelhos Canônicos “Os Evangelhos são lendas; eles podem conter histórias, mas certamente nem tudo ali é histórico” (Ernest Renan – Vida de Jesus). D o grego evangélion, em hebraico besoura – significa “Boa Nova”, expressão encontrada algumas vezes nos textos Evangélicos. O termo passou a ser utilizado com referência aos documentos ou discursos produzidos pelos cristãos, então já distanciados de suas origens judaicas. “Nos escritos primitivos, Evangelho era empregado tão somente para designar os ensinamentos da doutrina Cristã”.16 Mais tarde passou a designar “livro” ou “documentos” que contava a história das origens da religião Cristã. Suas datas e autorias são incertas, razão porque são chamados Evangelhos Segundo Alguém, como o de Mateus,17 escrito possivelmente na Síria em estilo hebraico e com algumas partes em grego e aramaico18 entre os anos 55 e 60 de nossa época. Possuindo 28 capítulos é um dos maiores evangelhos, discorre sobre a genealogia de Jesus e que é bem diferente da genealogia encontrada no Evangelho Segundo Lucas e o único que fala da fuga de seus pais para o Egito. De onde o escritor do Evangelho Segundo Mateus tirou essa história? É visível que quem escreveu ou compilou o evangelho segundo Mateus tinha por alvo um público familiarizado com a tradição judaica e, assim, fez vários entroncamentos e resumos de histórias antigas da Bíblia Hebraica. Veja a semelhança desses dois textos: Disse também o Senhor a Moisés, em Midiã: Vai, torna para o Egito, porque são mortos todos os que procuravam tirar-te a vida. Tomou, pois, Moisés a sua mulher e os seus filhos; fê-los montar num jumento e voltou para a terra do Egito. Moisés levava na mão o bordão de Deus (Êxodo; 4:19-20). 16. Tricca, M. H. O. Os Apócrifos I, p. 10. 17. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 121. 18. Reza a tradição que Jesus falava o hebraico (‘idioma’ materno), grego (idioma do império, usado extensivamente nos centros urbanos) e possivelmente o Aramaico Galileu, a língua de sua região Natal só conhecida de alguns poucos lugares, para se comunicar com aldeias locais. Na época de Jesus eram falados sete dialetos diferentes do aramaico ocidental.
  • 17. 18 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Tendo Herodes morrido, eis que um anjo do Senhor apareceu em sonho a José, no Egito, e disse-lhe: Dispõe-te, toma o menino e sua mãe e vai para a terra de Israel; porque já morreram os que atentavam contra a vida do menino. Dispôs- se ele, tomou o menino e sua mãe e regressou para a terra de Israel (2:19-21). Aqui faltou apenas o “levava na mão o bordão de Deus”, para ser a mesma passagem. Claro que o autor que escreveu o texto não pegou ao acaso essa passagem. Ele via Jesus como o Messias esperado pelo povo judeu e buscava no Antigo Testamento indícios que fortalecesse essa ideia aos olhos dos leitores. Lembremo-nos que todo o sofrimento dos judeus começou justamente no exílio das terras do Egito, ou mais precisamente quando “saístes do Egito, da casa da servidão”. O autor do evangelho quis deixar implícito certo ritual de passagem na volta de José e sua família a Israel, ou seja, ao mesmo tempo a reconstrução histórica – a lembrança da servidão – e o retorno triunfante a terra prometida – a libertação (Oséias; 11:1). Daí prestar-se atenção ao fato de que o Evangelho Segundo Alguém é uma reinterpretação de fatos históricos com as perspectivas de uma visão de Cristo cristalizada épocas depois dos eventos reais. Existe uma base narrativa nos evangelhos sinóticos de Mateus, Marcos e Lucas e permite ter uma ideia mais ou menos coerente do Jesus histórico e que é passível de ser comparada com as raríssimas citações sobre Jesus em fontes não cristãs, como Flávio Josefo, Mara bar Sarapion, Plínio o Jovem, Tácito e Suetônio. Por vezes o núcleo histórico real é envolvido, nos evangelhos, por uma certa capa livremente formada com material da tradição judia com propósitos teológicos, cujo foco variava de acordo com a comunidade em que eram elaborado os textos evangélicos. Isso explica a disparidade nos relatos do nascimento. “Mateus e Lucas construíram cada um a sua própria versão bem distinta das circunstâncias em torno do nascimento da criança divina, utilizando livremente textos do Antigo Testamento”. 19 Mateus apossou-se de várias passagens para compor seu Evangelho. Sobre a cidade de Belém se valeu de Miquéias para reforçar a profecia (5:2), os detalhes do nascimento de uma virgem ficou ao encargo do texto de Isaías (7:14), a manjedoura e os animais retirou do mesmo autor (1:3), e as faixas que cobriam o menino que constam nos Evangelhos de Lucas (2:7) foi retirado de Ezequiel (16:4). Sobre a ressurreição, com boa dose de certeza todos os Evangelistas se apoiaram no texto de Oséias; “Vinde, e 19. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 411.
  • 18. 19 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho tornemos para o SENHOR, porque ele nos despedaçou e nos sarará; fez a ferida e a ligará.2 Depois de dois dias, nos revigorará; ao terceiro dia, nos levantará, e viveremos diante dele” (6:1-2). Evangelho Segundo Marcos 20 Segundo os novos estudos e críticas testamentarias, esse parece ter sido um dos primeiros textos existentes sobre a figura de Jesus, porém não versa sobre as questões do nascimento, Maria (Mãe) e José (Pai) por um motivo bem simples. Este “Marcos” que escreveu os textos simplesmente desconhecia a história sobre o nascimento miraculoso (‘estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado’), e provavelmente sabia muito pouco, se é que conhecia, sobre as figuras de Maria e de José acrescidas posteriormente por outros escritores. Nós mesmos só sabemos sobre essas pessoas basicamente a partir de Mateus e Lucas em Paulo, João e muitas das Epístolas, elas simplesmente nunca existiram. Ora, o nascimento de Jesus foi assim: “estando Maria, sua mãe, desposada com José, sem que tivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito Santo. Mas José, seu esposo, sendo justo e não a querendo infamar, resolveu deixá-la secretamente. Enquanto ponderava nestas coisas, eis que lhe apareceu, em sonho, um anjo do Senhor, dizendo: José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo” (Mateus; 1:18-20). Acredita-se, que os textos de Marcos que chegaram até nossos dias foi elaborado no ano de 40-45, escrito em grego, com forte colorido palestino e elementos helênicos, o que o coloca geograficamente ao redor da região da Síria, vizinha da Palestina. Onde Marcos arrumou suas fontes? As fontes de Marcos foram ao lado de vestígios de lembranças históricas reais, histórias populares mirabolantes que os cristãos já contavam, contos folclóricos do Aggadah, mitos de salvadores e reis messiânicos como é o caso Melquisedeque (Melek-Sédeq: ‘Rei da Justiça’) que forneceu pão e vinho a Abraão e os abençoou, dando lhe “Abraão o dizimo de tudo” (Gên. 14:18-20). Convém lembrar que a cidade síria de Antioquia tinha uma comunidade cristã das mais antigas e fortemente ligada à figura de João 20. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 93.
  • 19. 20 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Marcos, que foi companheiro de Pedro, o que justificaria a associação deste evangelho com o nome de Marcos. Possui 18 capítulos e é um dos menores Evangelhos. Não discorre nem sobre a genealogia nem sobre o nascimento de Jesus. Por que no Evangelho de Marcos, como nas Cartas de Paulo e a Didaqué (escritos ou ensinos dos primeiros cristãos) não aparecem a genealogia e o Nascimento miraculoso de Jesus, bem como as figuras de Maria e José? Toda essa história sobre Nascimento (‘achou-se grávida pelo Espírito Santo’), mãe virgem (‘Eis que a virgem conceberá e dará à luz um filho’), e outras, como o do pai supostamente idoso apareceu posteriormente em escritos populares fora das terras de Israel e foram adaptados no Evangelho de Mateus e Lucas. Os autores destes dois últimos evangelhos se serviram de Marcos e outras fontes, especialmente do que se acredita ser uma fonte, hoje perdida, de ditos de Jesus chamada nos meios acadêmicos de Q (de Quelle, “fonte” em alemão) na elaboração das narrativas sobre Jesus que se seguem ao episódio do nascimento. Marcos buscava ligar a figura extraordinária de Jesus com o Messias esperado pelos judeus. Evangelho Segundo Mateus21 Para escrever seu texto, Mateus (50-70 E.C.) recorreu amplamente aos textos da Bíblia Hebraica, como é o caso da invenção da saída do Egito que aparece em Êxodo, acrescentando algumas das histórias populares que até então haviam surgido sobre Jesus, principalmente a do Jesus Messiânico que Paulo pregou fora das terras de Israel. Muito das históricas comuns sobre Jesus, com algumas diferenças de ênfase e construção narrativa, que encontramos em Mateus e Lucas advém do fato de que ambos se utilizaram do material que é encontrado em Marcos e em Q, além de tradição oral própria de suas comunidades. Assim, é quase certo que os discursos memoráveis versando sobre ética e espiritualidade, como o Sermão da Montanha de Mateus e que também é encontrado em Lucas, seja uma adaptação dos ensinos de Jesus recolhidos em Q. O evangelho de João constitui um caso à parte e muito singular. Diferente dos três outros evangelhos e da fonte Q, o Jesus de João faz discursos longos, elaborados, na primeira pessoa e de forte cunho helênico, o que aponta para sua composição bastante tardia, encharcada de elementos de uma comunidade que há muito tinha se desligado de suas origens semitas. Ainda assim, com cuidado, é 21. Marques, L. A. Historia das Religiões e a Dialética do Sagrado, p. 395.
  • 20. 21 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho possível extrair elementos históricos na narrativa joanina, como veremos mais adiante. Os textos dos evangelhos que temos em mãos hoje e folheamos com facilidade e credulidade não eram assim nos tempos antigos dos seus escritores. Esses textos eram escritos ou rabiscados em peles e de compreensão difícil e quase ilegíveis, tendo em vista que, não existiam separações de vírgulas, pontos, acentos, parágrafos e todo o contexto linguístico que nos faz entendê-los nos dias de hoje. Os textos copiados à mão por vezes variavam de região para região e eram escritos de forma corrida e na maioria das vezes suas letras coladas umas as outras para poupar espaços, pois o material era caro, difícil de obter. Talvez as pessoas que hoje leem livros e discutem sobre os mesmos, não fazem a menor ideia de como era difícil (quase impossível) para as pessoas de épocas remotas obterem um texto manuscrito. Agradeço sinceramente por ter nascido e fazer parte da era gutemberguiana, e que os deuses abençoe sempre Johann Gutenberg (c. 1398-1468), ele revolucionou o mundo embora a imprensa de caracteres móveis já fosse de utilização dos chineses séculos antes de Gutemberg, mas os sábios do extremo oriente estavam distantes demais do mundo que formaria a cultura da civilização ocidental. Evangelho Segundo Lucas Lucas autor do evangelho que leva seu nome e, talvez, dos Atos dos Apóstolos, companheiro de Paulo segundo a tradição, não foi médico e muito menos historiador, e sim um grande contador de histórias. Diz Theissen e Merz em seu compêndio sobre o Jesus Histórico que contra a imagem clássica do autor do evangelho lucano ...o consenso crítico ressalta as numerosas contradições existentes entre a narrativa de Atos e as cartas autênticas de Paulo. Na biografia de Paulo (nos Atos), a notícia da segunda viagem a Jerusalém antes do concílio apostólico de At 11,30;12,25 contradiz o que o próprio Paulo afirma em Gálatas 1,17-2,1. Lucas nega a Paulo o título de apóstolo, central para sua autocompreensão. Uma teologia autenticamente paulina aparece apenas esporadicamente. Sem dúvida, o desconhecido autor da obra lucana não foi um companheiro de Paulo. 22 22. Theissen & Merz, O Jesus Histórico, Loyola, 2002, p.52.
  • 21. 22 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões A suposta ideia de este autor ter sido médico é uma tradição mal explicada e supostamente inventada na tradução da Bíblia do Rei James. O nome Lucas é a abreviação de Lucano, encontrado em alguns autores, inferindo daí a identificação com Lúcio de Cirene. “Na igreja que estava em Antioquia, havia alguns profetas e doutores, a saber: Barnabé, Simeão – chamado Níger, Lúcio Cirene, Manaem que fora criado com Herodes o tetrarca e Saulo” (Atos; 13:1). Seu Evangelho, 23 possuiu 24 capítulos versa sobre a genealogia de Jesus, inclusive é o único que relata sobre o recenseamento que realmente houve, mas bem depois da época que o evangelho diz ter havido e, portanto, não existente nem imposto por CésarAugusto à época de Herodes, o Grande, e de Ciro, como narrado. Este texto é para justificar a profecia do suposto advento ou “nascimento” do príncipe messiânico em Belém. “E tu, Belém Efrata, posto que pequena entre milhares de Judá, de ti me sairá o que será Senhor em Israel, e cujas origens são desde os tempos antigos, desde os dias da eternidade” (Miquéias; 5:2). Este evangelho apareceu entre os anos 70-90, em grego, possivelmente na Europa ou em algum país às margens do mediterrâneo, mas demonstra certa confusão com a geografia Palestina, o que prova que sua composição não se deu nas terras onde Jesus caminhou, já que confunde o “Mar” – que em Marcos é bem identificado com “mar da Galileia” - com o mediterrâneo. Lucas não apenas copiou os textos de Mateus, Marcos e de contos populares ensinados oralmente, mas os ampliou consideravelmente com material oral de sua própria comunidade. Marcos começa seu evangelho a partir dos ensinamentos de João Batista, não relata nascimentos divinos, não diz nada sobre Maria ou José. Mateus escreve sobre João Batista, relata sobre o nascimento divino de Jesus e algumas outras peculiaridades que não se apresenta os textos de Marcos e nas Passagens de Paulo. Lucas vai além dos relatos já existentes, não apenas fala de João Batista, mas dá a ele um nascimento também miraculoso. De qualquer forma, fica claro que entre Jesus e João houve algum vínculo, talvez de discipulado por algum tempo, posição incômoda que faz os três evangelistas narrarem o fato modificando-o para sugerir que João reconheceu Jesus como superior desde o início. Lucas mais que os outros evangelistas está a todo tempo fazendo referências a tradição profética e aos textos antigos. Sobre o nascimento miraculoso de João, aproveitou os textos de Gênesis onde Sara já idosa, ‘era estéril; não tinha filhos’, “E o Senhor visitou a Sara, como tinha dito; 23. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 149.
  • 22. 23 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho e fez o SENHOR a Sara como tinha prometido” (Gênesis 21:1). Lucas apenas repetiu a história para demonstrar a genealogia entre Abraão e os “pais” de João, seus descendentes e complementares sua história com o nascimento miraculoso de João Batista, onde “não tinham filhos, porque Isabel era estéril, e ambos eram avançados em idade. E, depois daqueles dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e por cinco meses se ocultou” (1:7 e 24). A Diferença entre esses três evangelhos é que para os dois primeiros (Marcos e Mateus, João Batista era Elias, para Lucas Jesus era o próprio Elias. Não observamos na história judaica os profetas realizando milagres, Elias foi uma exceção. Elias ressuscitou o filho de uma viúva (1 Reis; 17: 18-24), “Nisto conheço agora que tu és homem de Deus”, Jesus ressuscitou o filho de uma viúva, “Porque este meu filho estava morto, e reviveu, tinha- se perdido, e foi achado. E começaram a alegrar-se” (15:24), conhecemos agora que “Tu és o Cristo, o Filho de Deus”. Elias ascendeu aos céus com seu corpo, “E sucedeu que, indo eles andando e falando, eis que um carro de fogo, com cavalos de fogo, os separou um do outro; e Elias subiu ao céu num redemoinho” (2 Reis 2:11), Jesus foi ‘elevado aos céus’ (24:51). Existe a promessa da volta de Elias; “Eis que eu vos enviarei o profeta Elias, antes que venha o grande e terrível dia do SENHOR” (Malaquias 4:5), Jesus promete voltar; “E então verão vir o Filho do homem numa nuvem, com poder e grande glória” (21:27)”. Evangelho Segundo João Sabemos historicamente que os textos de Mateus e Lucas foram baseados nos textos de Marcos, na Didaqué, contos e histórias populares e também no chamado Evangelho de Q. Porém, onde estão as fontes que inspiraram João a escrever seu Evangelho? “João foi, em larga medida independente, embora ele possa ter conhecido Lucas”. 24 O Evangelho Segundo João, o ‘Evangelista’25 é o mais novo, tendo sido escrito nos anos 80-90, em grego e na cidade de Eféso e, desde os fragmentos que se conhece a partir do século II, a versão que conhecemos hoje parece ter sido muito pouco alterada ao longo dos séculos, mas o seu famoso final duplo (Jo 20,30 e Jo 21) e a inserção um tanto estranha dos capítulos 15 a 17 mostram que sua redação foi revista pelo menos algumas vezes. Destinava-se a uma Igreja, comunidade ou a um público determinado, limitando sua esfera de 24. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 406. 25. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 240.
  • 23. 24 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões ação a uma ou a outra região distante da Palestina onde atuou Jesus, como se pode ver nas incongruências geográficas e cronológicasnos capítulos de 4 a sete. A inclusão desse Evangelho no cânone deu-se apenas após várias interpolações e escolhas dos textos mais autorizados aos olhos da Igreja e dos crentes. 26 É o único texto em que Jesus aparece se exaltando nos famosos “eu sou” e é o que oferece uma imagem de Jesus mais estilizada, teologicamente construída. Por exemplo, é o único evangelho em que Jesus parece ser consciente de sua preexistência ao próprio nascimento: “Antes de Abraão existir, eu Sou”. Veja-se também o famoso capítulo 1). Alguns tinham como certo que o Evangelho de João era de origem gnóstica ou Essênia, porém, apesar das evidências a favor do primeiro ponto, o assunto ainda está sujeito a controvérsias.27 Pontos de importância histórica, embora encobertos pela capa da elaboração teológica, podem ser melhor encontrados em João que nos sinóticos como, por exemplo, os motivos políticos que conduziram à execução de Jesus. O Livro dosAtos dosApóstolos apareceu entre os anos 70-80 como sendo as datas mais prováveis. Essa novela fora “escrita” possivelmente por Lucas e fala de um Paulo idealizado que possivelmente nem Paulo conhecia, embora os conflitos narrados entre Paulo e os demais apóstolos tenham, realmente existido, o que se pode ver a partir das epístolas autênticas – apenas seis das 13 que se encontram na maioria das Bíblias impressas -que a maioria dos pesquisadores atribuem a Paulo.Atos, conta particularmente a história do Cristianismo desde o fim da vida pública de Jesus, até o início dos trabalhos de Paulo nos anos 57-62. 28 “Atos é o último dos livros inteiramente narrativos do NovoTestamento; obviamente, foi escrito depois do Evangelho de Lucas, e com toda probabilidade depois de todos os quatro Evangelhos”. 29 Especula-se que Paulo não era da cidade de Tarso e nem muito menos cidadão de Roma. Alguns críticos situam os Atos no ano de 140 trazido a 26. Lentsman, I. As Origens do Cristianismo, p. 39. 27. Os Gnósticos eram considerados pensadores cristãos basicamente esotéricos, surgidos provavelmente no Cristianismo primordial (c. séc. I a III). Seus adeptos formulavam outra ideia de Cristo, viam-no como uma emanação da essência, do Pneuma ou Espírito do Pai, e chamavam-no de Ophis ou símbolo da sabedoria divina manifesta na matéria. A comunidade Essênia sobreviveu possivelmente até a destruição do segundo Templo (70 E.C.), quando os exércitos do novo imperador Vespasiano invadiram e conquistaram Jerusalém, destruíram o Templo, incendiaram e saquearam as cidades e transformaram a cidade romana numa cidade chamada Aelia Capitolana. 28. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 189. 29. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 412.
  • 24. 25 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho Roma por Márcion30 , contemporâneo de Justino e apenas aceito como texto do Evangelho após o Concílio de Nicéia. Estas afirmações se dão devido às citações sobre osAtos só aparecerem em alguns pais da Igreja após o século II. Nos fragmentos de textos primitivos não existe qualquer referência ou menção dos pais da Igreja ou dos escritores cristãos e não cristãos sobre este livro antes do século II. Portanto, há indícios de que antes do ano 100 este livro simplesmente não existia. As cartas de Paulo ou o que sabemos delas, “representam o documento mais antigo e mais importante da Igreja primitiva; refletem as mais graves crises do cristianismo nascente, mas também a audácia criadora do primeiro teólogo cristão”. 31 As epístolas de Tiago, Pedro, João e Judas ou atribuídas a esses supostos autores, apareceram possivelmente após o Evangelho de João, ou mais precisamente após o século II. Temos como fonte “histórica” (se assim podemos chamá-los), alguns evangelhos ou escritos tidos comoApócrifos pela Igreja, mas aceito por muitos estudiosos como uma ferramenta de estudo para solucionar o problema do início da era cristã. Foi realmente Paulo quem escreveu todas as cartas que hoje constam no Novo Testamente? 30. Um dos sistemas de grande importância herética no inicio dos séculos I e II foi o Marcionismo, fundado por Márcion, no início do século I. Este sistema gnóstico-cristão pregava um severo e rigoroso sistema ético e ascético, negavam o Deus do Antigo Testamento e diziam que esse amaldiçoava o mal, e que os judeus eram os responsáveis pela perseguição e “morte” do Deus do Novo Testamento, Jesus. Mas como este assumiu na terra apenas um corpo aparente (fluídico), não conseguiram matá-lo, sua morte e sofrimento foram apenas aparentes. Este sistema de pensamento se desenvolveu mais fortemente a partir do final do século I e início do século II tendo como representantes principais Dociteu e Saturnino. Este mesmo pensamento surge no século X (927 - 969) com Bogomil que acreditava e pregava que Jesus não teve corpo carnal, mas um corpo completamente divino (espiritual) e por isso, não sofreu, não morreu e nem sentiu o martírio da cruz. A essência do bogomilismo é a dualidade na criação do mundo. Bogomil explicou a vida terrena pecaminosa corpórea como uma criação de Satanael, um anjo que foi enviado para a Terra e tempos depois expulso da corporação divina. Devido a esta dualidade, a doutrina rejeita tudo o que é socialmente criado e que não vem da alma, a posse só divina do humano. Essa dualidade apregoada por Bogomil prejudica a hierarquia da Igreja, por isso, foi condenada como heresia. Seus seguidores se recusam a pagar impostos, para trabalhar em servidão, ou a lutar por seu estado. Apesar de todas as medidas de repressão, manteve-se forte e popular até a queda da Bulgária no final do século XIV. No século XIX, este mesmo pensamento sobre ser impalpável e intangível o corpo de Jesus se revalorizou na obra chamada Os Quatro Evangelhos ou Revelação da Revelação de Jean Baptista Roustaing, escritos pela médium Madame Collignon. Observe que essa teoria (corpo fantasma) de Roustaing não é a mesma teoria espírita de Allan Kardec que aceita tal como todas as Igrejas cristãs o sofrimento mítico-heróico e a morte ‘redentora’ de Jesus na cruz. “Jesus teve, como todo homem, um corpo carnal e um corpo fluídico, que é atestado pelos fenômenos materiais e pelos fenômenos psíquicos que lhe assinalaram a existência” (Kardec, A. Gênese; 15:66 – itálico nosso.). 31. Mircea, Eliade, Historia das Crenças e das Ideias Religiosas, p. 114.
  • 25. 26 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Eusébio de Cesáreia, Responde: ‘De minha parte, se hei de dar minha opinião, eu diria que os pensamentos sim são do Apóstolo [Paulo], mas o estilo e a composição são de alguém que evocava a memória dos ensinamentos doApóstolo, como um aluno que anota por escrito as coisas que seu mestre disse. Por conseguinte, se alguma igreja tiver esta carta como sendo de Paulo, que também por isto seja estimada, pois não sem motivo os antigos varões a transmitiram como de Paulo’.32 O Que são as Epístolas?33 Apesar de serem 13 o número de epístolas atribuídas a Paulo na maioria das Bíblias ocidentais, hoje a maior parte dos pesquisadores considera que apenas seis destas epístolas tenham sido formuladas pelo próprio, pois apresentam o mesmo estilo e pontos de semelhança, sendo as demais meras composições posteriores de discípulos que queriam validar sua importância como documentos atribuindo-os a Paulo. “Elas (as cartas não-paulinas) são muito diferentes em estilo literário e conteúdo”, afirma o pesquisador Pedro Vasconcellos, da PUC. Para o conservadorismo das diversas Igrejas, no entanto, todas as cartas encontradas na Bíblia cristã clássica são de autoria de Paulo. As epístolas consideradas originais são: aos Romanos, 1 e 2 aos Coríntios, aos Gálatas, aos Filipenses, a primeira à Tessalônica e a endereçada a Filêmon. Por sua ação missionária em meios não judeus, a figura de Paulo de Tarso teve uma importância indiscutível na constituição do cristianismo (especialmente do cristianismo “paulino”) em sua ansiedade em construir uma teologia sobre Cristo (e não de Cristo), o que causou impacto na formulação da teologia ortodoxa posterior – inicialmente no Império mas, bem depois, mais especialmente na teologia protestante, o que é indiscutível. O problema, contudo, surge quando comparamos os dizeres e visões teológicas de Paulo com os que são atribuídos ao próprio Jesus, pelos evangelhos, especialmente o de Mateus. 32. História Eclesiástica. Livro VI, Item XXV:13. 33. Texto escrito por Carlos Antônio Fragoso Guimarães. Formado em Psicologia Clínica pela UFPB, mestre em Sociologia pelo Programa de pós-graduação em Sociologia da UFPB e pesquisador na área de história das religiões. Escreveu os Livros: Percepção e Consciência, Um Estudo do Psiquismo Humano, Ed. Persona, João Pessoa, outubro de 1996; Evidências da Sobrevivência, vencedor do Concurso Literário José Herculano Pires, promovido pela Editora Madras e pela U.S.E. São Paulo, 2003. Carl Gustav Jung e os Fenômenos Psíquicos, pela Editora Madras, São Paulo.
  • 26. 27 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho Igualmente digno de nota é de que certamente Paulo não pensava que suas cartas acabariam por ir parar na Bíblia (ao menos naquilo que se transformaria Bíblia cristã). Elas eram produtos do interesse de Paulo em esclarecer problemas e situações das comunidades que ele tinha ajudado a criar, e não súmulas teológicas indiscutíveis a serem tomadas como regra. Só muito mais tarde alguém com alguma influência política as julgariam apropriadas para formarem parte do cânone do Novo Testamento. Paulo, como todos sabem, foi um aspirante a doutor da Lei (sacerdote graduado). Um judeu do século I, contemporâneo de Cristo, mas que nunca o vira pessoalmente durante seu ministério, e que, profundamente zeloso da ortodoxia judaica, de início foi perseguidor implacável dos primeiros cristãos. Contudo, esta atitude agressiva mudaria radicalmente após Paulo (na época, Saulo) ter uma visão do Cristo pós-morte. Isso o abalou o suficiente para que passasse por uma crise religiosa, se convertendo ao cristianismo e se transformando de perseguidor a divulgador. Contudo, apesar do que diz supostamente Lucas nos Atos dos Apóstolos (escrito muitos anos após a morte de Paulo, provavelmente em torno do ano 85- 105), Paulo não procurou nas fontes apropriadas, ou seja, nos discípulos diretos de Jesus, a base da sua própria mensagem. Ao invés disto, após um contato muito superficial com alguns discípulos menores – e não com os apóstolos, o que só se daria após três anos –, Paulo se afastou para pensar sobre sua experiência da visão que teve do ente que antes perseguira. Com estas reflexões ele também questionou sua herança formal judaica, para voltar três anos depois com toda uma visão pessoal já sedimentado do seria ou deveria ser o cristianismo, moldada com elementos judaicos e gregos (Paulo era cosmopolita). Só então, depois, teve contato com alguns dos apóstolos diretos de Jesus e, nas suas palavras, destes mais precisamente apenas Pedro e Tiago, “irmão do Senhor”, sem que este contato tivesse qualquer grande impacto na sua já cristalizada visão do cristianismo.Assim, lemos pela pena do próprio Paulo em Gálatas 1:16-20: Não consultei carne nem sangue, nem subi a Jerusalém aos que eram apóstolos antes de mim, mas fui à Arábia e voltei novamente a Damasco. Em seguida, após três anos, é que subi a Jerusalém para avistar-me com Pedro e fiquei com ele por 15 dias. Não vi nenhum apóstolo, mas somente Tiago, o irmão do Senhor. Isso vos escrevo e asseguro diante de Deus que não minto.
  • 27. 28 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões O estudo crítico das epístolas junto com os novos textos descobertos no século XX, daquela época, mostra que ante o que pareciam ser elementos próprios de Paulo em muitas de suas cartas, as descobertas de textos antigos, como os famosos Manuscritos do Mar Morto (que, ao contrário do que muitos pensam, nada têm de cristãos) mostrou serem elementos de discussão comum entre a classe judaica mais instruída na época, especialmente as interpretações apocalípticas dadas ao que se esperava do “Messias” e que foi adaptada à singularidade da vida e obra de Jesus (o apocalipsismo era uma mentalidade constante entre os judeus oprimidos da época). Porém, muito mais sério do que isso, uma parte da visão “cristã” de Paulo parece chocar de frente com os próprios ensinamentos de Jesus. Isso fica mais grandemente visível no núcleo do pensamento paulino de que a simples justificação pela fé em Jesus, especialmente nos fatos de seu sacrifício e ressurreição, serem os únicos elementos que justificariam a salvação de um crente, doutrina arduamente abraçada pela maioria das igrejas e seitas evangélicas, mas que bate frontalmente com o que Jesus diz em Mateus em 25:31-45: Quando o Filho do Homem vier na sua glória, acompanhado por todos os seus anjos, há de sentar-se no seu trono de glória. Perante Ele, vão reunir-se todos os povos e Ele separará as pessoas umas das outras, como o pastor separa as ovelhas dos bodes. À sua direita porá as ovelhas e à sua esquerda, os bodes. O Rei dirá, então, aos da sua direita: ‘Vinde, benditos de meu Pai! Recebei em herança o Reino que vos está preparado desde a criação do mundo. Porque tive fome e deste-me de comer, tive sede e deste-me de beber, era peregrino e recolheste-me, estava nu e deste-me que vestir, adoeci e visitaste-me, estive na prisão e fostes ter comigo.’Então, os justos vão responder- lhe: ‘Senhor, quando foi que te vimos com fome e te demos de comer, ou com sede e te demos de beber? Quando te vimos peregrino e te recolhemos, ou nu e te vestimos? E quando te vimos doente ou na prisão, e fomos visitar-te?’ E o Rei vai dizer-lhes, em resposta: ‘Em verdade vos digo: Sempre que fizestes isto a um destes meus irmãos mais pequeninos, a mim mesmo o fizestes. Em seguida dirá aos da esquerda: ‘Afastai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, que está preparado para o mal e para os seus anjos! Porque tive fome e não me destes de comer, tive sede e não me destes de beber, era peregrino e não me recolhestes, estava nu e não me vestistes,
  • 28. 29 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho doente e na prisão e não fostes me visitar’. Por sua vez, eles perguntarão: ‘Quando foi que te vimos com fome, ou com sede, ou peregrino, ou nu, ou doente, ou na prisão, e não te socorremos?’ Ele responderá, então: ‘Em verdade vos digo: Sempre que deixastes de fazer isto a um destes pequeninos, foi a mim que o deixastes de fazer’. O conhecido especialista em Novo Testamento Bart D. Ehrman reflete que esta passagem de Mateus “sugere que a salvação não é apenas uma questão de crença, mas também de ação, uma ideia absolutamente ausente do raciocínio de Paulo”. Poderíamos dizer ausente não apenas de Paulo, mas de toda a tradição que se moldou a partir das igrejas “paulinas”, especialmente as atuais igrejas televangélicas, de cunho paulino-fundamentalista. Na passagem de Mateus acima transcrita se percebe mesmo que os escolhidos (as “ovelhas”) podem sequer ter tomado conhecimento da vida de Jesus (“Senhor, quando foi que te vimos...”). Nos dizeres de Bart D. Ehrman, As ‘ovelhas’ ficam perplexas (de terem sido escolhidas como herdeiras do Reino). Elas não se lembram sequer de ter encontrado Jesus, o Filho do Homem, quanto mais de fazer essas coisas por ele. Mas ele diz a elas: ‘Cada vez que fizeste a um desses meus irmãos mais pequeninos, a mim o fizestes’. Em outras palavras, é cuidando dos que têm fome, sede, estão nus, doentes e encarcerados que é possível herdar o Reino de Deus. Como essas palavras se coadunam com Paulo? Não muito bem. Paulo acreditava que a Cida eterna era dada àqueles que acreditavam na morte e ressurreição de Jesus. No relato de Mateus sobre as ovelhas e os bodes, a salvação é dada a quem nunca havia falar de Jesus. É dada a quem trata os outros de forma humana e carinhosa no momento de maior necessidade. É uma visão da salvação inteiramente diferente. 34 Portanto, segundo alguns pesquisadores – e até mesmo alguns teólogos mais esclarecidos –, existe material suficiente para suspeitar que Paulo divulgou uma doutrina “paulina” em franco contraste com a mensagem de Jesus. 34. Bart D. Ehrman, “Quem foi Jesus? Quem Jesus não foi”, Ed. Ediouro, 2010.
  • 29. 4. As Epístolas A os Romanos,35 sugere que foi o próprio que a escreveu ou ditouparaalguémescrever(1:1).Foiescrita,provavelmente, em 57, na cidade de Corinto, Grécia, pouco antes da visita do apóstolo à Jerusalém.36 A carta tinha por objetivo retificar algumas interpretações a respeito de suas pregações levadas à comunidade de Roma, provavelmente por judeus ou cristãos judaizantes. Foi estudando essa carta que Lutero chegou à conclusão da salvação pela graça, dada gratuitamente por Deus, fazendo-o insurgir-se contra as verdades da Igreja e principalmente sobre as vendas de indulgências que se disseminava entre a classe eclesiástica de então (1:17). [“Erram, portanto, os pregadores de indulgências que afirmam que a pessoa é absolvida de toda pena e salva pelas indulgências do Papa.Averdadeira contrição procura e ama as penas, ao passo que a abundância das indulgências as afrouxa e faz odiá-las, pelo menos dando ocasião para tanto. Deve-se pregar com muita cautela sobre as indulgências apostólicas, para que o povo não as julgue erroneamente como preferíveis às demais boas obras do amor. A atitude do papa é necessariamente esta: se as indulgências (que são o menos importante) são celebradas com um toque de sino, uma procissão e uma cerimônia, o Evangelho (que é o mais importante) deve ser anunciado com uma centena de sinos, procissões e cerimônias. Os tesouros da Igreja, dos quais o papa concede as indulgências, não são suficientemente mencionados nem conhecidos entre o povo de Cristo.” (Teses de Lutero, itens 21, 40, 41, 55 e 56)]. “A Igreja ensina e ordena que o uso das indulgências, particularmente salutar ao povo cristão e aprovado pela autoridade dos santos concílios, seja conservado na Igreja, e fere com o anátema aos que afirmam serem inúteis as indulgências e negam à Igreja o poder de concedê-las” (Decreto sobre as Indulgências). Segundo a Carta aos Romanos, a salvação que Deus proporciona à humanidade não vem através de pagamentos, mas é dado gratuitamente através do sacrifício de seu Filho Jesus Cristo, na cruz do Calvário. “Sendo, pois, justificados pela fé, temos paz com Deus por nosso Senhor Jesus Cristo; 35. Barth, K. Carta aos Romanos. 36. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 395.
  • 30. 31 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho pelo qual também temos entrada pela fé a esta graça, na qual estamos firmes; e nos gloriamos na esperança da glória de Deus” (5:1-2). O que fica realmente forte nessa carta é que Paulo deixa claro tanto para os cristãos como judeus, que a salvação é somente pela fé em Jesus Cristo, e não em uma religião, pensamento, nacionalidade, nem em qualquer obra do homem. Paulo em outro momento já havia dito que a antiga aliança 37 havia envelhecido e estava prestes a expirar, por outra nova. “Dizendo novo concerto, envelheceu o primeiro. Ora, o que foi tornado velho e se envelhece perto está de acabar”. (Hebreus; 8:13). Os Cristãos acreditam em Deus e que Jesus Cristo veio ao mundo como homem e morreu na cruz para pagar nossos pecados; acreditam que devemos aceitar a Jesus Cristo como nosso único salvador e acredita que Jesus Cristo é o único caminho entre DEUS e o homem. O estudo deste livro é considerado pelos cristãos necessários para compreensão espiritual e também para compreensão da justificação pela fé e a graça de Deus através de Jesus Cristo. “Mas não é assim o dom gratuito como a ofensa; porque, se, pela ofensa de um, morreram muitos, muito mais a graça de Deus e o dom pela graça, que é de um só homem, Jesus Cristo, abundou sobre muitos” (Romanos; 5:15). Do século II em diante, a recusa a celebrar o culto imperial foi a causa mais notável das perseguições aos cristãos. No início, com exceção da carnificina ordenada, por Nero, as medidas anticristãs foram encorajadas, sobretudo pela hostilidade da opinião pública. No decurso dos dois primeiros séculos, o cristianismo foi considerado religio illicita; os cristãos eram perseguidos porque praticavam uma religião clandestina, que não contava com a autorização oficial. Em 202, Septímio Severo publica o primeiro decreto anticristão, proibindo o proselitismo. Pouco tempo depois, Maximino combate a hierarquia eclesiástica, mas sem sucesso. Até o 37. A história salvífica desde a criação até a época de Moisés é uma sucessão de alianças divinas. Após o dilúvio, Deus faz com Noé uma aliança de caráter universal, que tem como preceito a proibição de comer sangue (Gn 9,1-17). Após a dispersão de Babel, Deus faz aliança com Abraão, restringindo o seu plano salvífico aos descendentes do patriarca, que são obrigados a praticar a circuncisão (Gn 17,3-14). Esta aliança inclui a promessa de descendência e duma terra (Gn 12,3- 7; 15,1s; 22,16-18; 50,24; Sl 105,8-11). Depois da opressão do Egito, Deus sela com Israel a aliança do Sinai (Ex 24,3-8), por meio do rito de sangue. Assim Israel nasceu como povo livre (Lv 26,42-45; Dt 4,31; Eclo 44,21-23) e comprometido em observar os mandamentos e a Lei (Ex 20,1; 20,22-23,33; Dt 5,1-21). Em contrapartida, Deus promete fazê-lo seu povo particular (Ex 19,4-8) e cercá-lo com sua proteção (Dt 11,22-25; 28,1-14).
  • 31. 32 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões reinado de Décio, a Igreja desenvolve-se em paz. No entanto, em 250, um edito desse imperador obriga todos os cidadãos a oferecer sacrifícios aos deuses do Império. A perseguição foi de curto prazo, mas muito rigorosa o que explica o grande número de abjurações. Contudo, graças principalmente aos seus confessores e mártires, a Igreja passa vitoriosamente por esse transe. A repressão decidida por Valeriano em 257- 58 foi acompanhada de um longo período de paz (260-303). O cristianismo conseguiu infiltrar-se por todo o Império e em todas as camadas sociais (até na família do imperador...). Aureliano (270-75) logrou reintroduzir o culto do Sol invictus. Aureliano compreendera que era inútil exaltar apenas o grande passado religioso de Roma, e que, além disso, impunha-se integrar a venerável tradição romana numa teologia solar de estrutura monoteísta, a única religião que se estava tornando universal. 38 1ª e 2ª Coríntios, ‘escritas’em Éfeso no ano de 57. Corinto era uma rica cidade comercial, com mais de 500.000 habitantes, na maioria escravos. Nesse porto marítimo acotovelava-se gente de todas as raças e religiões à procura de vida fácil e luxuosa, criando ambiente de imoralidade e ganância. Ariqueza escandalosa de uma minoria estava ao lado da miséria de muitos. Surgiu, inclusive, uma expressão: ‘viver à moda de Corinto’, que significava viver no luxo e na orgia. Não sabemos ao certo se foi Paulo quem escreveu esta e muitas das outras cartas que aparecem no Novo Testamento. O que se sabe é que essas cartas só chegaram ao conhecimento da Igreja a partir do século II. As epístolas tinham a incumbência de responder e orientar os Cristãos de Corinto sobre problemas do cotidiano, tais como, o casamento; a circuncisão; a escravidão; as carnes oferecidas em holocausto aos ídolos e sua autoridade contra doutores que tentavam iludir os principiantes seguidores de Jesus. A primeira carta aos Coríntios foi escrita em Éfeso, provavelmente no ano 56. A comunidade já reproduzia, de certa maneira, o ambiente que se vivia na cidade. Ela também estava dividida: os grupos litigavam entre si, cada um apoiando-se na autoridade de algum pregador do Evangelho. Por isso, o primeiro objetivo de Paulo na carta é restabelecer a unidade, advertindo que o único chefe é Cristo, e Este não está dividido. Paulo aproveita da situação para traçar um 38. Eliade, Mircea. História das crenças e das Ideias religiosas. Tomo II, p. 134-135
  • 32. 33 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho retrato do verdadeiro agente de pastoral (1Cor 1-4). Depois, passa a denunciar os escândalos que invadem a comunidade: incesto, julgamento em tribunais pagãos, a imoralidade, e vai elaborando uma teologia do corpo: este é templo do Espírito Santo (1Cor 5-6). Em seguida, responde a diversas perguntas formuladas pelos Coríntios. Na primeira série, procura orientar os cristãos sobre os estados de vida (1Cor 7): matrimônio ou celibato? divórcio ou indissolubilidade? o que pensar da virgindade? Como devem se comportar os noivos? As viúvas podem casar-se de novo? Em tudo isso, onde está a originalidade cristã? Ao responder sobre a questão da carne sacrificada aos ídolos (1Cor 8-10), coloca o fundamento da verdadeira liberdade cristã: o respeito pelos outros. A carta também apresenta normas para que haja ordem e autêntico culto cristão nas assembleias litúrgicas (1Cor 11-14): entra na debatida questão do véu das mulheres; denuncia as diferenças de classe nas celebrações eucarísticas, e aí é taxativo: Eucaristia sem amor fraterno é impossível. Salienta igualmente que os carismas que fervilham na comunidade só têm sentido quando estão ao serviço dos irmãos, e se estão subordinados ao dom maior, que é o amor. Por fim (1Cor 15), citando exemplos da natureza e da própria ressurreição de Cristo, demonstra que a ressurreição dos corpos é inquestionável: o cerne da fé é a certeza de que a vida vence a morte.39 Gálatas40 – ‘nem a circuncisão é coisa alguma, nem a incircuncisão, mas o ser nova criatura’ (6:15). A Galácia não era uma cidade, mas uma região da Ásia Menor. Cartas ‘escritas’ para ‘advertir’ os neófitos acerca da intromissão do judaísmo nas questões religiosas. Foi escrita no fim da estada de Paulo em Éfeso, provavelmente no Inverno de 56- 57. Paulo demonstra carinho especial com esses discípulos, por saber que a igreja corria sério perigo de transformar-se em mais uma seita dos judeus (Atos. 15:1-5). Discorre boa parte sobre questões delicadas acerca dos costumes judeus, que nada tinham a ver com os ensinamentos de Jesus Cristo. É a única carta de Paulo que não começa com ação de graças e não termina com bênção, fato que testemunha a sua indignação. O principal trabalho de Paulo nessa epístola era mostrar os erros e enxertos judaizantes, existentes em algumas pequenas comunidades. 39. Marques e Coutinho, Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Coríntios. 40. Ibid., Verbete: Gálatas.
  • 33. 34 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Segundo Paulo, a vida do homem não deve ser determinada por um código de leis, mas por um compromisso pessoal e íntimo com Cristo, que está presente no profundo do ser humano (2,20). A liberdade é conduzida pelo amor a si mesmo e aos outros, amor que é compromisso ativo com o crescimento do outro (5: 6 e 13-14). Os ensinos falsos, não faziam mais que destruir a própria vida e alma do ensino de Jesus Cristo. Assim, era necessário que os mesmos ficassem em alerta, pois “veio o seu inimigo, e semeou joio no meio do trigo, e retirou-se” (Mateus 13:25) . Separar o joio do trigo, rebater as falsidades que os adversários tinham propagado a seu respeito era o caminho mais sensato para provar sua missão e autoridade apostólica. “Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos. Receio de vós tenha eu trabalhado em vão para convosco. Sede qual eu sou; pois também eu sou como vós. Irmãos, assim vos suplico. Em nada me ofendestes” (Gálatas; 4. 8-12). Efésios41 – Naturais da Cidade de Éfeso -onde cultuavam a deusa Diana, e para onde Paulo enviou uma das três epístolas escritas em sua prisão em Roma (Atos; 28:16-22). Éfeso era a capital da província romana, na Ásia. As quatro cartas aos Filipenses, a Filemon, aos Colossenses e aos Efésios formam o grupo das cartas do cativeiro. As três primeiras foram muito provavelmente escritas em Éfeso, entre os anos 55-57. As cartas aos Efésios e Colossenses talvez tenham sido escritas na mesma ocasião; é o que se deduz da semelhança entre elas e pelo fato de mencionarem Tíquico como portador de ambas (Efésios; 6,21 e Colossenses; 4:7). Seguida de Antioquia, na Síria, e Alexandria, no Egito, Eféso era uma das três maiores cidades do litoral leste do mar mediterrâneo. “Apesar de Paulo trabalhar por mais de dois anos em Éfeso, não há na Epístola de Paulo aos Efésios qualquer saudação aos seus amigos e, ainda, a palavra ‘em Éfeso’aparece somente em um dos três manuscritos mais antigos”. 42 OApóstolo parece não conhecer pessoalmente os destinatários dessas duas cartas. Isto nos leva a pensar que a carta aos Efésios, na origem, não teve destinatário preciso; talvez fosse uma circular destinada às comunidades da região vizinha de Éfeso; e alguns chegam a pensar que seria a mesma carta dirigida à Igreja de Laodicéia, citada em Colossenses; 4:16. 41. Ibid., Verbete: Efésios. 42. Boyer, O. S. Pequena Enciclopédia Bíblica, p. 216.
  • 34. 35 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho A carta aos Efésios é fruto de longa e amadurecida meditação teológica. Contemplando o projeto de Deus para a salvação da Humanidade, o olhar de Paulo concentra-se em Jesus Cristo no Céu. É A ideia central da carta. Cristo, porém, não está longe do mundo nem dos homens. De facto, a sua soberania engloba toda a Criação e com ela toda a Humanidade, que assim constituem o seu Corpo, a Igreja, na qual se manifesta o grande mistério agora revelado, ou seja: em Cristo, Deus reúne todos os homens na paz e na unidade, excluindo quaisquer separações de raça ou de origem religiosa. Cristo é o centro e ápice do eterno projeto de Deus, é o caminho da reconciliação e reunião de todos os homens no único povo de Deus. A Igreja abarca a Humanidade inteira, e Paulo contempla-a nas dimensões do Universo. Ela é descrita sob três imagens: esposa (5,22-23), corpo (1,23; 4,16) e edifício (2,19-22). Deste modo, o Apóstolo relembra os laços íntimos e orgânicos que unem os homens a Cristo e entre si na comunidade, para levá-la ao pleno desenvolvimento (TEB). Filipenses43 – Naturais de Filipos, cidade onde se encontrava a Capital da Macedônia, situada entre a estrada de Roma e Ásia. Esta carta parece ter sido escrita na prisão, provavelmente em Éfeso, entre os anos 55- 57 (Atos;19). Paulo está incerto sobre o rumo que a sua situação vai tomar: poderá ser morto ou posto em liberdade. Mas espera ser libertado e poder visitar de novo, pessoalmente, a comunidade de Filipos. O primeiro núcleo da comunidade por ele fundada formou-se através de reuniões em casa de Lídia, uma negociante de púrpura, que acolhera Paulo por ocasião da sua visita. O Apóstolo voltou a Filipos outras vezes, durante as suas várias passagens pela Macedônia. Carta aos Filipensenses “é uma carta simples e sincera, um derramamento afetuoso e espontâneo de um coração que podia se exprimir sem reserva a uma igreja amadíssima”. 44 Na carta, demonstra sempre afeto e gratidão pela comunidade de Filipos e, por isso, quer vê-la sempre fiel ao Evangelho. Alguns pregadores insistem em que a salvação depende da Lei. O Apóstolo mostra com vigor que a salvação só depende de Jesus Cristo. É Jesus que, feito homem e morto numa cruz, recebeu do Pai o poder de dar aos homens a salvação. E todo aquele que não transmite isto pelo testemunho de vida e pela palavra, será sempre falso transmissor do Evangelho. Esta carta, portanto, fornece o critério para que uma comunidade cristã saiba reconhecer o verdadeiro Evangelho e quais são os pregadores autênticos. 43. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Filipenses. 44. Boyer, O. S. Pequena Enciclopédia Bíblica, p. 272.
  • 35. 36 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Colossenses45 – Colossos era uma pequena cidade da Ásia Menor, distante 200 km de Éfeso, e próxima de Hierápolis e Laodiceia (4, 13.16). Paulo não a visitou pessoalmente (2,1). A carta aos Colossenses foi escrita na prisão, provavelmente em Éfeso, entre os anos 55 e 57 (Atos; 19), talvez na mesma ocasião em que foi escrita a carta aos Filipenses. Paulo chamou a atenção, sobretudo acerca das obras e dos trabalhos realizados em nome do ideal de Jesus Cristo e não dos homens.As comunidades cristãs de Colossos, Hierápolis e Laodiceia foram fundadas por Epafras, discípulo de Paulo (1,7; 4,13), enquanto este se encontrava em Éfeso. “Cuidado que ninguém vos venha a enredar com sua filosofia e vãs sutilezas, conforme a tradição dos homens, conforme os rudimentos do mundo e não segundo Cristo; porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” (2:8-9). Os cristãos de Colossos eram provenientes do paganismo (1,21.27) e costumavam reunir-se nas casas de família, como na de Ninfas (4,15) e na de Arquipo (4,17). Paulo mostra então que Cristo é o mediador único e universal entre Deus e o mundo criado; tudo se realiza por meio d’Ele, desde a criação até a salvação e reconciliação de todas as coisas. Deus colocou Jesus Cristo como Cabeça do universo, e os cristãos, que com Ele morreram e ressuscitaram e a Ele permanecem unidos, não devem temer nada e a ninguém: nada mais, tanto na Terra como no Céu, pode aliená- los e escravizá-los. Doravante, o empenho na fé em Cristo é o caminho único para a verdadeira sabedoria e liberdade. Só a renovação em Cristo pode quebrar as barreiras entre os homens, dando origem a novas relações humanas, radicalmente diferentes das que costumam existir na sociedade (3,11). O problema que Paulo enfrenta em Colossos não é a contraposição entre fé e incredulidade.Trata-se de uma questão que surge dentro da própria Igreja: distinguir entre o verdadeiro e o falso na interpretação da própria fé. E isso não é problema meramente teórico, pois a concepção que se tem da base da fé determina toda a prática da vida cristã. 1ª e 2ª Tessalonicenses – Não há certeza se as duas cartas recebidas pelos tessalônicos tenham realmente sido escritas por Paulo. Porém, das semelhanças literárias que apresentam é possível traçar um panorama entre essas duas epístolas. 46 Redigida em Corinto no Inverno de 50-51, esta carta é o primeiro documento escrito do Novo Testamento e do cristianismo. Atingido pela 45. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Colossenses. 46. Ibid., Verbete: Tessalonicenses.
  • 36. 37 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho perseguição, Paulo teve que deixar à pressa a cidade de Filipos. Dirigiu-se a Tessalônica (Atos; 16:19-40), grande cidade comercial e ponto de encontro para muitos pensadores e pregadores das mais diversas filosofias e religiões. Paulo anuncia o Evangelho e forma aí um pequeno grupo. Mas, perseguido, tem que fugir (Atos; 17:1-10) e o seu trabalho corre o risco de se esvaziar perante as inúmeras propostas dessa grande cidade. Então, de Atenas, ele envia os seus colaboradores, Timóteo e Silas, para visitarem e trazerem notícias dessa comunidade perseguida. Timóteo e Silas encontram Paulo em Corinto.Ao receber deles a notícia de que a comunidade de Tessalónica continuava fervorosa e ativa, escreve esta carta para comunicar a sua alegria e estimular a perseverança da comunidade. Nesta carta, Paulo também procura responder a algumas questões que preocupam a comunidade de Tessalónica. Uma é o problema da vinda gloriosa de Cristo. Os tessalonicenses pensavam que essa vinda se realizaria em breve, e perguntavam: Os que já morreram, será que não vão participar desse grande acontecimento? Paulo mostra que, no fim da História, tanto os mortos como os vivos estarão reunidos para viverem sempre com Cristo ressuscitado. A esperança é para todos, e todos participarão da vitória de Cristo sobre o mal e sobre a morte. “Aestada de Paulo em Tessalônica talvez não tenha sido tão breve quanto se pode deduzir de At 17.2. Com efeito, o apóstolo teve tempo para aí exercer um ofício (ITs 2.9), receber várias doações dos filipenses que acabara de deixar (Fl 4.16) e fazer que judeus, prosélitos e pagãos aderissem ao Evangelho. Mas uma viva reação da colônia judaica o forçou a uma partida precipitada (At 17.5-9), o que explica sua inquietação a respeito dessa jovem comunidade e o tom violento que ele usa para falar dos judeus a seus correspondentes (1Ts 2.15-16). A primeira Epístola aos Tessalonicenses é o mais antigo documento literário cristão conhecido”.47 O Apóstolo relembra que a vida cristã é espera activa do Senhor. A espera, formada de fé e perseverança, leva a construir a comunidade no amor. Ela faz olhar para o alto e para o fim da História, mas também leva os fiéis a empenharem-se com todos os outros homens nas realidades terrestres, como o respeito pelo corpo e pelo trabalho. Uma espera que não deixa de reforçar a fidelidade ao Senhor, porque o Céu nada mais será do que a plena manifestação da realidade que os cristãos já começam a viver no presente da História: a união com o Senhor para sempre. 47. Bíblia TEB, p. 1454.
  • 37. 1ª e 2ª Timóteo – As cartas a Tito, as cartas a Timóteo formam um conjunto à parte na literatura que é comumente atribuída a Paulo. Não se dirigem a uma comunidade, mas a pessoas individuais que possuem responsabilidades no governo, no ensino e no comportamento das comunidades cristãs. Porque apresentam diretrizes para os pastores, desde o século XVIII são chamadas Cartas Pastorais. “Timóteo era filho de um grego pagão e de uma mãe judia. Converteu-se ao cristianismo, foi companheiro de missão de Paulo (Atos; 16:1-3) e seu amigo fiel (Romanos; 16:21)”. 48 Ao passar por Listra, na sua segunda viagem missionária, Paulo tomou Timóteo consigo como companheiro de viagem. Timóteo ficou em Bereia quando Paulo teve que fugir (Atos; 17:14) e depois se juntou a Paulo em Corinto. Foi mandado para a Macedônia antes da terceira viagem de Paulo (Atos; 19:22) e estava no grupo de Paulo no fim da terceira viagem (Atos; 20:4). A 1ª Timóteo deve ter sido escrita em 64-65 e apresenta Timóteo como responsável pela Igreja de Éfeso. A importância dessa carta está no seu testemunho histórico sobre a organização eclesiástica. Paulo insiste para que Timóteo desempenhe com firmeza e coragem a função que recebeu de Cristo mediante a imposição das mãos. Exorta-o a tornar-se anunciador e defensor da verdade (1:3- 20), a organizar o culto (2:1-15) e a ser pastor, dirigindo a comunidade na diversidade dos grupos (3:1-6,2). Estamos ainda longe de uma rígida organização jurídica, mas podemos dizer que temos aqui um verdadeiro ponto de partida para a reflexão teológica sobre o ministério na Igreja. O tema central da carta 2ª Timóteo, são as considerações sobre os últimos tempos de Paulo, prisioneiro, doravante próximo a partir, e também dos últimos tempos da Igreja. Assim, o Apóstolo deseja rever Timóteo. Relembra os próprios sofrimentos e experimenta o conforto de ter “combatido o bom combate”, e a certeza de receber a coroa da justiça. Por outro lado, recomenda a Timóteo: que não se envergonhe do Evangelho, mas que o proclame com integridade; que tome cuidado com as “palavras vãs” de falsos pregadores que aparecerão nos últimos tempos, apresentando falsas doutrinas; que se vigie a si mesmo e se mantenha perseverante, mesmo que deva sofrer como ele, Paulo, por causa do Evangelho. O Apóstolo sente-se só, ninguém o defendeu no tribunal, os seus dias estão contados, e prepara-se para o martírio. Frente ao abandono, incompreensão, torturas e próxima execução, Paulo continua firme e dá graças. Antes da morte, 48. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Timóteo.
  • 38. deseja rever o seu “amado filho Timóteo” e confirmá-lo na missão. Este é apresentado com traços mais precisos: uma pessoa sensível (1,4), às vezes indecisa e sem coragem (1,8). Ficamos também a conhecer o nome de sua avó Lóide e de sua mãe Eunice (1,5), exemplos de fé para Timóteo. Tito – Carta supostamente escrita por Paulo, após sua libertação da primeira prisão em Roma, ao amigo Tito, entre os anos de 64 e 66. Uma das epístolas pastorais escritas por ele, com apenas três capítulos e 46 versículos. Já no primeiro capítulo Paulo demonstra ligação fraternal com Tito. “Paulo, servo de Deus, apóstolo de Jesus Cristo para levar os eleitos de Deus à fé e ao conhecimento da verdade conforme a piedade, na esperança da vida eterna prometida, antes dos tempos eternos, pelo Deus que não mente e que, nos tempos fixados, manifestou a sua palavra numa mensagem que me foi confiada, de acordo com a ordem de Deus, nosso Salvador, a Tito, meu verdadeiro filho na fé que nos é comum: graça e paz da parte de Deus Pai e de Cristo Jesus, nosso Salvador” (1:1-4). 49 Filemon – Carta de Paulo a um cristão de Colossos. De todas as cartas, esta a Filemon é a mais breve e pessoal, a única escrita inteiramente de próprio punho. Paulo está na prisão, provavelmente em Éfeso. O fato de Onésimo voltar com Tíquico para Colossos (Cl 4:7-9) faz supor que esta carta foi escrita na mesma data que a carta aos Colossenses. Filemon parece ser membro importante da Igreja de Colossos, e é muito provavelmente o chefe do grupo que se reúne em sua casa (vv. 1-2). É uma carta de recomendação em favor de Onésimo, um escravo que fugiu ao seu patrão, Filemon, provavelmente depois de o ter roubado (v. 18). Onésimo procurou o apoio de Paulo, que estava na prisão, e acabou por se converter ao cristianismo (v. 10). Paulo devolve-o a Filemon, pedindo-lhe que o trate como irmão (v. 16). Paulo não pensava certamente em criticar o estatuto da escravidão, comum no seu tempo, provocando assim uma revolução social. Os cristãos ainda não tinham força para exigir transformações estruturais da sociedade. Mas oApóstolo, implicitamente, declara que a estrutura vigente não é legítima. De facto, mostrando que as relações dentro da comunidade cristã devem ser fraternas, Paulo esvazia completamente o estatuto da escravidão e a desigualdade entre as classes. Em Cristo todos são irmãos, com os mesmos direitos e deveres. 50 49. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Tito. 50. Ibid., Verbete: Filemon.
  • 39. 5. Apocalipse D o gr. apokálypsis, ‘revelação’, pelo latim eclesiástico; apocalypsis. Apareceu por volta do ano 100. É o último livro do Novo Testamento, traz uma linguagem muito obscura, compreensão difícil e enigmática simbolizando as perseguições que os cristãos de então estavam sofrendo sob o julgo dos imperadores romanos, e que é hoje interpretando como contendo que contém revelações terrificantes acerca do destino da humanidade, como grandes cataclismos; flagelos terríveis, doença, morte, fome,epidemias,etc.“Oapocalipseésempreumaliteraturadecrise;opassado conhecido se encaminha para um fim catastrófico, o futuro desconhecido está sobre nós; estamos situados, como ninguém antes, precisamente no momento do tempo em que o passado pode ser visto como um padrão e o futuro, amplamente previsto nos números e imagens do texto, começa a assumir contornos exatos”.51 Os gêneros literários apocalíptico são escatológicos; foi um tipo de literatura amplamente difundido no judaísmo do séc. II A.E.C. ao II E.C.52 Tal literatura se caracterizou por uma fantasia exuberante e mesmo bizarra. Nela, animais simbolizam pessoas e povos; números têm valor simbólico e a revelação sobre a história futura é feita por meio de visões explicadas por anjosintérpretes,apresentadascomohomens.Exemplosdestegêneroliterário já aparecem em Is 24-27; Ez 38-39; Zc 9-14. Mas ele é amplamente usado no livro de Daniel, no Apocalipse e na literatura apócrifa judaica e cristã. Era literatura comum utilizada por quase todos os pensamentos da época do Cristianismo, profetizavam a queda do império romano, que no texto do livro do Apocalipse aparece como a ‘Grande Prostituta, Babilônia’. O Livro do Apocalipse ou ‘Revelação’, foi tido no seu aparecimento como suspeito por alguns pais da Igreja e questionado por Lutero e Calvino, por bem pouco não se tornou como os outros livros, 53 literatura apócrifa para os Protestantes. Este livro só foi aceito como cânon muitos séculos depois de sua divulgação, utilização e após ter sofrido muitas interpolações e adaptações para o bem da comunidade cristã. 54 51. Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 414. 52. Kummel. W. G. Introdução ao Novo Testamento, p. 594. 53. Tobias – Judite – Macabeus I e II – Baruque – Sabedoria – Eclesiástico (ou Ben Sira). 54. Marques, e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades. Verbete: Apocalipse.
  • 40. 6. Apócrifos A palavravemdoGrego“Apokryphos”,pelolatim“Apokryplu”, significa literalmente algo “oculto”, “secreto”,55 ou ‘não- inspirado’. Com o tempo, e o poder temporal da Igreja aumentando através da imposição estatal, estes escritos passaram a ser considerados como obras ou fatos sem autenticidade, ou cuja autenticidade não se provou. No “início” da era cristã essas mesmas obras eram lidas e estudas por “todos” os cristãos que as conseguissem obter e místicos sem nenhuma distinção. Com a imposição da legitimidade atribuída aos concílios e ao Papa como santidade infalível, essas mesmas obras passaram a ser consideradas de origem duvidosa. Com o passar do tempo, o termo apócrifo passou a ser usado para distinguir não só os livros de ‘autenticidade duvidosa’, mas principalmente os ‘espúrios’ou ‘suspeitos de heresia’. 56 “Os elementos de demonização dos hereges se mantiveram por muito tempo na teoria de que aqueles que se opuseram à Igreja eram os seguidores de Satanás, e numa época em que a presença diabólica era sentida por ser particularmente imediata, a demonização ficou intensa”. 57 Segundo conta a história sagrada relatada no Novo Testamento o nome cristãos foi empregado pela primeira vez em Antioquia. “Em Antioquia forma os discípulos (de Jesus), pela primeira vez, chamados Cristãos” (Atos; 11:26). Sabe-se que o Cristianismo é de formação social e cultural judaica, entretanto podemos aventar a possibilidade que no início de sua caminhada tenha sido pregado e divulgado por não judeus (Gói). Daí aquela expressão bastante utilizada no meio cristão afirmando ser Paulo o Apóstolo da gentilidade (Romanos; 11:13).O texto que se segue deixa entrever adeptos do cristianismo fora da palestina. “Ainda tenho outras ovelhas que não são deste aprisco; também me convém agregar estas, e elas ouvirão a minha voz, e haverá um rebanho e um Pastor” (João;10:16). Transgressão58 55. Ibid., Verbete: Apócrifo. 56. Lião, Irineu de. Contra as Heresias, p. 116. 57. Russell, J. F. Lúcifer – o diabo na idade média, p. 184 58. Drury, John. In: Alter, R. e Kermode, F. Guia Literário da Bíblia, p. 445.
  • 41. 42 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões Muita gente veio a conhecer os ensinos de Jesus de segunda mão e reinterpretados por judeus que estavam embebidos em uma visão cultural escatológica de seus tempos como sendo os derradeiros tempos antes da vingança final de Deus. Isso fazia parte da tentativa de dar uma lógica a um mundo colonizado por romanos que impunham regras estranhas. ‘Um mundo é ordenado e estruturado por suas fronteiras. É mudado quando essas fronteiras são cruzadas. Elas são ficções sociais, mitos que aguardam os desmistificadores. Uma narrativa pode traçar fronteiras ainda mais ordenadas do que as que existem no mundo, mas apenas para violá-las mais dramaticamente. Os cristãos foram herdeiros das transgressões dogmáticas de seu fundador, o proscrito messias. Do ponto de vista do judaísmo tradicional, elas eram blasfêmias. A blasfêmia, crime pelo qual Jesus é condenado (14:64), é uma erupção de energia religiosa das profundezas da estruturas ortodoxa, que ela ameaça por sua força primal. Cabia aos cristãos mostrar que o que parecia, do ponto de vista tradicionalista, um mal destrutivo, era, na verdade, uma salvação divinamente autentica dos perdidos. Ahistória de Marcos começa e terminam com o tipo de transgressões importantes necessárias para justificar o cristianismo: isto é, transgressões aprovadas ou cometidas por Deus. O céu se abriu no batismo de Jesus, o templo se velou em sua morte. Com a ruptura desse véu, que demarcava o santuário interno do templo e que apenas o sumo sacerdote penetrava uma vez por ano com o sangue sacrificial, uma profanação imensa ocorreu. Ao mesmo tempo (15:36-39), uma nova santidade apareceu com o centurião gentio expressando a identidade divina de Jesus, previamente expressa pela voz divina. O templo e o Gólgota estavam bem distantes. Apenas o texto torna essas coisas simultâneas – aos olhos da mente. O maior choque de violação vem no fim. É o túmulo vazio, uma lacuna na fronteira supremamente importante entre mortos e vivos. Por meio dela o poder divino, de um tipo extremamente suspeito e impróprio, é solto no mundo. Daí a fuga aterrorizada dos pranteadores. Medo, espanto e assombro são reações frequentes às palavras e ações de Jesus por toda a narrativa irrequieta de Marcos. Cercam seu primeiro milagre, o exorcismo de um endemoninhado na sinagoga em Cafarnaum em 1:21-27. O exorcismo vem de forças que rompem limites. O ensinamento de Jesus na sinagoga é abalizado e não oficial – Portanto, surpreendente. Assim que ele é ministrado, apresenta-se a nós uma brecha alarmante na norma religiosa como um fait accompli (fato consumado): “Estava na
  • 42. 43 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho sinagoga deles um homem possuído de [Marcos diz “em”] um espírito impuro” (v.23). Na casa pura há uma presença impura, e dela irrompe, em completa contradição de expectativas, a verdade sagrada: “Sei quem tu és: o santo de Deus” (v.24). Esse estilhaçamento duplo da ordem convencional é seguido de uma ruptura culminante á medida que o espírito impuro lacera o homem e sai dele, gritando. A série rápida de irrupções tem o efeito de uma das cenas de “escândalo” de Dostoievski: o embaraço com o diapasão do terror. E assim continua. Em 2:1-12, um teto é “aberto” para trazer um paralítico á presença de Jesus. Jesus perdoa o sofredor, e os escribas ficam escandalizados pela blasfêmia de ele fazer o que só Deus deveria fazer. Mas o homem é curado e sai, e novamente os circunstantes estão “admirados”. Em 2:15-17, há um escândalo adicional quando Jesus come com “muitos publicanos e pecadores”. Em 2:18-22, Jesus dá a justificação parabólica de rasgar e romper: a peça nova rasga o vestido velho, o vinho novo estoura os odres velhos e as normas da existência cotidiana são subvertidas pela festa do dia do casamento. Jesus prossegue desconsiderando os regulamentos do sábado, tão fundamentais para a ordem tradicional. Pouco lhe importa que seus discípulos os contrariem, pois “o sábado foi feito para o homem, e não o homem para o sábado” e ele, o “filho do homem”, é “senhor até do sábado” (2:27-28). Cura o homem ate da mão atrofiada em uma sinagoga (aumentando o escândalo) no sábado, e os fariseus decidem vingar a subversão de sua ortodoxia, destruindo-o (3:6). As grandes rupturas que estão no clímax do evangelho de Marcos são visíveis: a morte de Jesus e sua ressurreição. Na narrativa intermediária o sagrado move-se decisivamente de seus lugares costumeiros para novos lugares, da sinagoga para a casa e, acima de tudo, da tradição para Jesus’.
  • 43. 6.1. Lista completa de livros tidos como Apócrifos ANTIGO TESTAMENTO 1. Apocalipse de Adão 2. Apocalipse de Baruc 3. Apocalipse de Moisés 4. Apocalipse de Sidrac 5. As Três Estelas de Seth 6. Ascensão de Isaías 7. Assunção de Moisés 8. Caverna dos Tesouros 9. Epístola de Aristéas 10. Livro dos Jubileus 11. Martírio de Isaías 12. Oráculos Sibilinos 13. Prece de Manassés 14. Primeiro Livro de Adão e Eva 15. Primeiro Livro de Enoque 16. Primeiro Livro de Esdras 17. Quarto Livro dos Macabeus 18. Revelação de Esdras 19. Salmo 151 20. Salmos de Salomão (ou Odes de Salomão) 21. Segundo Livro de Adão e Eva 22. Segundo Livro de Enoque (ou Livro dos Segredos de Enoque) 23. Segundo Livro de Esdras (ou Quarto Livro de Esdras) 24. Segundo Tratado do Grande Seth 25. Terceiro Livro dos Macabeus 26. Testamento de Abraão 27. Testamento dos Doze Patriarcas 28. Vida de Adão e Eva
  • 44. 45 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho ESCRITOS DE QUMRAN 1. A Nova Jerusalém (5Q15) 2. A Sedutora (4Q184) 3. Antologia Messiânica (4Q175) 4. Bênção de Jacó (4QPBl) 5. Bênçãos (1QSb) 6. Cânticos do Sábio (4Q510-4Q511) 7. Cânticos para o Holocausto do Sábado (4Q400-4Q407/11Q5-11Q6) 8. Comentários sobre a Lei (4Q159/4Q513-4Q514) 9. Comentários sobre Habacuc (1QpHab) 10. Comentários sobre Isaías (4Q161-4Q164) 11. Comentários sobre Miquéias (1Q14) 12. Comentários sobre Naum (4Q169) 13. Comentários sobre Oséias (4Q166-4Q167) 14. Comentários sobre Salmos (4Q171/4Q173) 15. Consolações (4Q176) 16. Eras da Criação (4Q180) 17. Escritos do Pseudo-Daniel (4QpsDan/4Q246) 18. Exortação para Busca da Sabedoria (4Q185) 19. Gênese Apócrifo (1QapGen) 20. Hinos de Ação de Graças (1QH) 21. Horóscopos (4Q186/4QMessAr) 22. Lamentações (4Q179/4Q501) 23. Maldições de Satanás e seus Partidários (4Q286-4Q287/4Q- 280-4Q282) 24. Melquisedec, o Príncipe Celeste (11QMelq) 25. O Triunfo da Retidão (1Q27) 26. Oração Litúrgica (1Q34/1Q34bis) 27. Orações Diárias (4Q503) 28. Orações para as Festividades (4Q507-4Q509) 29. Os Iníquos e os Santos (4Q181) 30. Os Últimos Dias (4Q174) 31. Palavras das Luzes Celestes (4Q504) 32. Palavras de Moisés (1Q22)
  • 45. 46 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões 33. Pergaminho de Cobre (3Q15) 34. Pergaminho do Templo (11QT) 35. Prece de Nabonidus (4QprNab) 36. Preceito da Guerra (1QM/4QM) 37. Preceito de Damasco (CD) 38. Preceito do Messianismo (1QSa) 39. Regra da Comunidade (1QS) 40. Rito de Purificação (4Q512) 41. Salmos Apócrifos (11QPsa) 42. Samuel Apócrifo (4Q160) 43. Testamento de Amran (4QAm) NOVO TESTAMENTO 1. A Hipóstase dos Arcontes 2. (Ágrafos Extra-Evangelhos) 3. (Ágrafos de Origens Diversas) 4. Apocalipse da Virgem 5. Apocalipse de João o Teólogo 6. Apocalipse de Paulo 7. Apocalipse de Pedro 8. Apocalipse de Tomé 9. Atos de André 10. Atos de André e Mateus 11. Atos de Barnabé 12. Atos de Filipe 13. Atos de João 14. Atos de João o Teólogo 15. Atos de Paulo 16. Atos de Paulo e Tecla 17. Atos de Pedro 18. Atos de Pedro e André 19. Atos de Pedro e Paulo 20. Atos de Pedro e os Doze Apóstolos 21. Atos de Tadeu
  • 46. 47 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho 22. Atos de Tomé 23. Consumação de Tomé 24. Correspondência entre Paulo e Sêneca 25. Declaração de José de Arimatéia 26. Descida de Cristo ao Inferno 27. Discurso de Domingo 28. Ditos de Jesus ao rei Abgaro 29. Ensinamentos de Silvano 30. Ensinamentos do Apóstolo Tadeu 31. Ensinamentos dos Apóstolos 32. Epístola aos Laodicenses 33. Epístola de Herodes a Pôncio Pilatos 34. Epístola de Jesus ao rei Abgaro (2 versões) 35. Epístola de Pedro a Filipe 36. Epístola de Pôncio Pilatos a Herodes 37. Epístola de Pôncio Pilatos ao Imperador 38. Epístola de Tibério a Pôncio Pilatos 39. Epístola do rei Abgaro a Jesus 40. Epístola dos Apóstolos 41. Eugnostos, o Bem-Aventurado 42. Evangelho Apócrifo de João 43. Evangelho Apócrifo de Tiago 44. Evangelho Árabe de Infância 45. Evangelho Armênio de Infância (fragmentos) 46. Evangelho da Verdade 47. Evangelho de Bartolomeu 48. Evangelho de Filipe 49. Evangelho de Marcião 50. Evangelho de Maria Madalena (ou Evangelho de Maria de Betânia) 51. Evangelho de Matias (ou Tradições de Matias) 52. Evangelho de Nicodemos (ou Atos de Pilatos) 53. Evangelho de Pedro 54. Evangelho de Tome o Dídimo 55. Evangelho do Pseudo-Mateus 56. Evangelho do Pseudo-Tomé
  • 47. 48 FRAGMENTOS I Textos Religiosos Antigos sob a ótica Fenomenológica da História das Religiões 57. Evangelho dos Ebionitas (ou Evangelho dos Doze Apóstolos) 58. Evangelho dos Egípcios 59. Evangelho dos Hebreus 60. Evangelho Secreto de Marcos 61. Exegese sobre a Alma 62. Exposições Valentinianas 63. (Fragmentos Evangélicos Conservados em Papiros) 64. (Fragmentos Evangélicos de Textos Coptas) 65. História de José o Carpinteiro 66. Infância do Salvador 67. Julgamento de Pôncio Pilatos 68. Livro de João o Teólogo sobre a Assunção da Virgem Maria 69. Martírio de André 70. Martírio de Bartolomeu 71. Martírio de Mateus 72. Morte de Pôncio Pilatos 73. Natividade de Maria 74. O Pensamento de Norea 75. O Testemunho da Verdade 76. O Trovão, Mente Perfeita 77. Passagem da Bem-Aventurada Virgem Maria 78. Pistis Sophia 79. Prece de Ação de Graças 80. Prece do Apóstolo Paulo 81. Primeiro Apocalipse de Tiago 82. Protoevangelho de Tiago 83. Retrato de Jesus 84. Retrato do Salvador 85. Revelação de Estevão 86. Revelação de Paulo 87. Revelação de Pedro 88. Sabedoria de Jesus Cristo 89. Segundo Apocalipse de Tiago 90. Sentença de Pôncio Pilatos contra Jesus 91. Sobre a Origem do Mundo
  • 48. 49 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho 92. Testemunho sobre o Oitavo e o Nono 93. Tratado sobre a Ressurreição 94. Vingança do Salvador 95. Visão de Paulo OUTROS ESCRITOS 1. História do Sábio Ahicar 2. Livro do Pseudo-Filon
  • 49. 7. Outros Fragmentos Não procuramos verdades com a intenção de encontrá-las, mas sim com o objetivo de compará-las. As verdades dependem pura e exclusivamente da interpretação teórica que recorremos para explicá-las. 59 O s Fragmentos abaixo são datados em torno dos anos 150 a 500 E.C. escritos por autores desconhecidos. Apesar dessa peculiaridade apresentam-se de suma importância para o estudo da formação e estudo dos Evangelhos e conhecimento da Igreja Inicial. A tradução dos textos do original grego/copta para o espanhol foi realizada por Gustavo Cerro e Olavo de Santos Otero e do espanhol para o português por Emília Santos Coutinho. 1 - Palavras do Senhor reunidas em um papiro de Oxirrinco, datado pelo fim do século II e III, escrito em grego. I. E então terás que tirar a palha que está no olho do teu irmão. (Mt.7,5: Lc.6,42). II. Disse Jesus: ‘Se não te afastares do mundo, não encontrareis o reino de deus. E se não guardais o sábado, não veras o Pai’. III. Disse Jesus: Estive no meio do mundo e me manifestei a ele em carne e encontrei que todos estavam ébrios, e não encontrei ninguém entre eles que estivesse sedento. IV. Disse Jesus: ‘Minha alma sofre pelos filhos do homem, porque estão cegos de coração e não olham... a pobreza’. V. Disse Jesus:- ‘Onde quer que estejam... e onde esteja um só, Eu estou com ele.Levanta a pedra e ali me encontraras, rompa a pedra e ali estou’. VI. Disse jesus: Não e aceito um profeta em sua própria terra.nem medico faz curas entre os que o conhecem. (Lc.4, 24). VII. Disse Jesus: ‘Uma cidade edificada no alto de um monte elevado e fortificada não pode cair, nem se ocultar’.(Mt, 5, 14). 59. Marques e Coutinho. Compêndio de Religiões e Espiritualidades, p. 452.
  • 50. 51 Leonardo Arantes Marques Emília dos Santos Coutinho VIII. Disse Jesus: ‘Escutes com um só de teus ouvidos....’ 2 - Fragmento Evangélico de Oxirrinco do ano de 655 escrito em grego, sua data provável é do século II. (Coluna A-1,23) “Não te preocupes desde a manha ate a tarde, nem desde a tarde ate a manha, nem por sua comida que comereis nem por vossa roupa que vestireis. Porque vos sois melhores que os lírios que crescem e não fiam. também vós tens uma roupa (Mt. 6, 25 e Lc 12, 22). Quem poderá juntar algo a vossa Estatura (ou ao vosso tamanho? Seus discípulos disseram: Quanto vai se manifestar a nós e quando te vamos ver? Ele os contestou (ou ele respondeu): “Quando te desnudeis e não sentis vergonha” (Gen.3,7). (Coluna B-41,50) Dizia: “Esconderam as chaves do reino e nem eles a encontram e nem deixam entrar os que desejam. Mas vos sedes prudentes como as serpentes e simples como as pombas”. (Mt.10.16). 3 - Fragmento Evangélico De Fayum, data do século IV ou anterior escrito em grego. Papiro escrito provavelmente nas últimas décadas do século II, encontrado no Oásis de Fayum. Trata-se de uma versão abreviada. . Jesus na véspera da paixão, profetiza a deserção dos apóstolos e a negação de Pedro. Não se encontra nenhum detalhe apócrifo. Tampouco existem argumentos para dirimir em um sentido ou outro a questão sobre a dependência ou não dos textos canônicos. ....E depois de comer, segundo o costume, Jesus lhes disse: Todos ficarão escandalizados esta noite segundo o está escrito: “Ferirei o pastor e dispersaram as ovelhas”. Quando Pedro lhes disse: Ainda que todos, menos eu”. Jesus lhe disse: - Antes que o galo cante duas vezes, tu me negaras três. 4 - Papiro Evangélico de Oxirrinco 840. Trata-se de uma folha de pergaminho, escrito em grego, provavelmente do século IV ou V descoberta por B. B. Greenfield e A. S. Hundt em 1905. O texto é composto pelos