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FALAR É BOM!
Faz alguns anos que escuto pessoas. Minha formação universitária me
proporcionou essa atuação nas duas graduações e nas especializações.
Gosto do que faço! Sinto-me realizado!
Considero-me um bom ouvinte! Entretanto, opino!
Na interação com meus pacientes e clientes aprendi a direcionar meu olhar para
o que está escondido. Isto é, para as potencialidades adormecidas1
que
necessitam ser concretizadas.
Na interação com os pacientes vou auxiliando-os para que
encontrem/descubram o sentido do que buscam. Nunca aponto o sentido. Nem
o invento. A descoberta é sempre do paciente. O paciente possui a liberdade e a
responsabilidade de enfrentar a angustia da escolha.
Ao longo desses anos de atuação em consultório de psicologia realizei
importantes descobertas. Relato algumas delas.
Percebi ao longo do meu trabalho de escuta que alguns pacientes estavam
sempre muito atentos na sessão de psicoterapia do encontro de algo enquanto
conversávamos. Eles colhiam as boas idéias que eles mesmos semeavam em
verbalizações feitas na interação com alguém preparado tecnicamente para a
escuta. Começaram a notar que falar para um profissional da saúde mental era
uma oportunidade de plantio para uma futura colheita. Quem fala num ambiente
preparado para a escuta acaba se ouvindo de uma maneira diferente. Quem fala
num encontro psicoterápico fala para a sociedade, para o mundo. O
psicoterapeuta está ali como técnico, como alguém que representa a sociedade.
Os pacientes começam falando e progridem para realizar e fazer.
Notei que os pacientes na interação comigo, depois de um número de sessões de
psicoterapia, ficavam atentos para a descoberta do que estava ali para ser
encontrado. Faziam dupla declaração: para mim, como representante da
sociedade, e, para si mesmos. Ali, no encontro psicoterápico, os pacientes diziam
para si mesmos o caminho a seguir. Fosse o que estudar, onde trabalhar ou do
que participar.
1 Frankl,V.E.
À medida que esses eventos foram se repetindo fui também fazendo as minhas
descobertas.
Descobri que o espaço do consultório não era simplesmente um lugar de
tratamento. Mas era também uma fábrica de excelentes oportunidades e ideias,
além das possibilidades de resoluções de problemas.
Gosto do termo “fábrica” no que se refere à construção. Já no que se refere à
linha de produção não aprecio o termo. Então, proponho que aqui pensemos em
fábrica sem linha de produção, talvez uma fábrica artesanal. Um lugar onde um
produto pode ser planejado e construído em um processo que não há
fragmentação do conhecimento. Portanto, não alienante.
A matéria prima básica utilizada nessa fábrica é a palavra.
Convido você a buscar um momento só seu com alguém que domine as técnicas
da escuta. Fará muito bem para você! Melhore sua saúde emocional e espiritual
num encontro assim. Busque um mentor, para ter sempre alguém com quem
partilhar das alegrias e dificuldades do seu ministério ou trabalho. É isso!
Paulo Pinto Alexandre, pastor-psicólogo e mestre em ciências da religião e
distúrbios do desenvolvimento.

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  • 1. FALAR É BOM! Faz alguns anos que escuto pessoas. Minha formação universitária me proporcionou essa atuação nas duas graduações e nas especializações. Gosto do que faço! Sinto-me realizado! Considero-me um bom ouvinte! Entretanto, opino! Na interação com meus pacientes e clientes aprendi a direcionar meu olhar para o que está escondido. Isto é, para as potencialidades adormecidas1 que necessitam ser concretizadas. Na interação com os pacientes vou auxiliando-os para que encontrem/descubram o sentido do que buscam. Nunca aponto o sentido. Nem o invento. A descoberta é sempre do paciente. O paciente possui a liberdade e a responsabilidade de enfrentar a angustia da escolha. Ao longo desses anos de atuação em consultório de psicologia realizei importantes descobertas. Relato algumas delas. Percebi ao longo do meu trabalho de escuta que alguns pacientes estavam sempre muito atentos na sessão de psicoterapia do encontro de algo enquanto conversávamos. Eles colhiam as boas idéias que eles mesmos semeavam em verbalizações feitas na interação com alguém preparado tecnicamente para a escuta. Começaram a notar que falar para um profissional da saúde mental era uma oportunidade de plantio para uma futura colheita. Quem fala num ambiente preparado para a escuta acaba se ouvindo de uma maneira diferente. Quem fala num encontro psicoterápico fala para a sociedade, para o mundo. O psicoterapeuta está ali como técnico, como alguém que representa a sociedade. Os pacientes começam falando e progridem para realizar e fazer. Notei que os pacientes na interação comigo, depois de um número de sessões de psicoterapia, ficavam atentos para a descoberta do que estava ali para ser encontrado. Faziam dupla declaração: para mim, como representante da sociedade, e, para si mesmos. Ali, no encontro psicoterápico, os pacientes diziam para si mesmos o caminho a seguir. Fosse o que estudar, onde trabalhar ou do que participar. 1 Frankl,V.E.
  • 2. À medida que esses eventos foram se repetindo fui também fazendo as minhas descobertas. Descobri que o espaço do consultório não era simplesmente um lugar de tratamento. Mas era também uma fábrica de excelentes oportunidades e ideias, além das possibilidades de resoluções de problemas. Gosto do termo “fábrica” no que se refere à construção. Já no que se refere à linha de produção não aprecio o termo. Então, proponho que aqui pensemos em fábrica sem linha de produção, talvez uma fábrica artesanal. Um lugar onde um produto pode ser planejado e construído em um processo que não há fragmentação do conhecimento. Portanto, não alienante. A matéria prima básica utilizada nessa fábrica é a palavra. Convido você a buscar um momento só seu com alguém que domine as técnicas da escuta. Fará muito bem para você! Melhore sua saúde emocional e espiritual num encontro assim. Busque um mentor, para ter sempre alguém com quem partilhar das alegrias e dificuldades do seu ministério ou trabalho. É isso! Paulo Pinto Alexandre, pastor-psicólogo e mestre em ciências da religião e distúrbios do desenvolvimento.