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ESTUDOS
CULTURAIS E
ANTROPOLÓGICOS
Priscila Farfan Barroso
Etnografia
Objetivos de aprendizagem
Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:
 Identificar o conceito de etnografia.
 Distinguir a etnografia dentro do quadro geral da antropologia.
 Definir quais os objetivos da etnografia.
Introdução
Neste capítulo, você vai aprender o conceito de etnografia e compre-
ender como surge essa ideia ao conhecer e analisar outras culturas. Ao
mesmo tempo, vai perceber a vinculação da etnografia à disciplina da
antropologia, compreendendo quais as suas relações e potencialidades.
Nesse sentido, etnografia não é apenas um método, mas abrange um
arcabouço teórico metodológico para pensar o grupo pesquisado.
Por último, vai conhecer estratégias no âmbito da etnografia que aju-
dam a realizar a pesquisa com mais cuidado e compromisso. Os registros
em campo, as entrevistas e a construção da árvore genealógica podem
ajudar a “ver” o que não é possível enxergar de outra maneira.
Conceito de etnografia
Para conhecermos outras culturas, estudarmos os seus modos de vida e com-
preendermos os seus pensamentos, ainda que eles sejam diferentes dos nossos,
precisamos adotar algumas estratégias de pesquisa. Imagine que você chega a
uma sociedade totalmente diferente da sua, more durante um tempo entre as
pessoas daquele local e aprende alguns hábitos de vida próprios daquela cultura.
Aos poucos, mesmo que de forma intuitiva, você vai entendendo e compre-
endendo o modo de se alimentar, de se vestir, de falar, de cuidar da terra, de se
relacionar entre as pessoas, de se comportar, assim como as festas e as crenças
mais importantes, os motivos para rir e chorar, etc. Entretanto, no âmbito da
pesquisa acadêmica, talvez não tenhamos o tempo e a disponibilidade de nos
inteirarmos da vida do outro como teria um viajante sem destino.
Os primeiros registros sobre outros povos foram feitos por viajantes. Um
deles é alemão Hans Staden, que esteve no Brasil na época da colonização e
escreveu sobre o perfil, o modo de vida dos indígenas que habitavam essas
terras, as práticas canibais em contextos rituais e as relações que se estabeleciam
entre eles e os colonizadores (Figura 1). Pires (2013, p. 21) conta sobre Staden:
[...] apesar de ser um aventureiro alemão, portanto, sem planos de permanecer
em solo brasileiro como os portugueses e os franceses, contribuiu com as suas
obras para a formação das representações sobre a guerra índia, primeiramente
na capitania de Pernambuco e depois na de São Vicente, onde, ambas as vezes,
atuou nos conflitos armados do lado dos lusos contra seus inimigos índios
e normandos. Na segunda experiência, em São Vicente, permaneceu meses
como cativo de guerra dos tupinambá, aliados dos franceses, e, libertado por
uma tribo inimiga de seus algozes, não foi sacrificado no ritual antropofágico.
Assim, por meio das representações dos relatos dos viajantes é que a popu-
lação acessava a cultura de sociedades distantes e mesmo de culturas que não
mais existiam. Muitas vezes, essas descrições registradas pelos viajantes eram
caricatas, exageradas e até mesmo fantasiosas, mas como era a única maneira de
conhecer o que faziam outras culturas, esses relatos eram bastante difundidos.
Figura 1. Desenho de Hans Staden sobre práticas canibais dos indígenas.
Fonte: Caderno de Nosferatu (2010, documento on-line).
Etnografia
2
Contudo, no século XXI, a distância ficou menor, e a tecnologia nos
permite viajar, tornando mais fácil conhecer outras sociedades. Então,
em vez de lermos sobre o outro, vamos nós mesmos observar, analisar
e compreender aspectos de outras culturas. Assim, cabe perceber essas
diferenças entre as culturas e refletir sobre elas. Para ir além de uma obser-
vação curiosa e de fato estudar os aspectos culturais de outras sociedades,
podemos utilizar estratégias e metodologias que nos permitam compreender
as explicações correntes naquela sociedade que observamos. Por isso, de
forma mais rápida, mais explícita e mais sistemática, buscamos formas
científicas de realizar esses estudos.
Uma dessas formas é a etnografia. Na etimologia da palavra, do grego,
etno é povo e grafia é escrita; logo, o significado da palavra pressupõe
escrever sobre um povo. Laplantine (2003) enfoca que a etnografia permite
a descrição das formas de vida de determinados grupos sociais, fazendo
com que estudemos aspectos culturais diferentes dos nossos de forma
mais atenta. Como evidencia Oliveira (2000), agora não conheceremos a
cultura do outro por meio dos livros, mas será o nosso próprio corpo que
acessará outras sociedades.
Segundo explica Laplantine (2003, p. 57), “[...] a etnografia propriamente
dita só começa a existir a partir do momento no qual se percebe que o pes-
quisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse
trabalho de observação direta é parte integrante da pesquisa [...]”. Assim,
dá-se outra maneira de conhecer o outro, mais ativa, mais pessoalizada e mais
interpretativa sobre quem são, o que fazem e como pensam os membros de
outras sociedades existentes.
O pesquisador compreende a partir desse momento que ele deve deixar seu
gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser
considerados não mais como informadores a serem questionados, e sim como
hóspedes que o recebem e mestres que o ensinam. Ele aprende então, como
aluno atento, não apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua
língua e a pensar nessa língua, a sentir suas próprias emoções dentro dele
mesmo. Trata-se, como podemos ver, de condições de estudo radicalmente
diferentes das que conheciam o viajante do século XVIII e até o missionário
ou o administrador do século XIX, residindo geralmente fora da sociedade
indígena e obtendo informações por intermédio de tradutores e informadores:
este último termo merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela
primeira vez uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, “ao vivo”,
em uma “natureza imensa, virgem e aberta” (LAPLANTINE, 2003, p. 57–58).
3
Etnografia
Indica-se a leitura de uma bela etnografia realizada em um contexto urbano, a fim de
compreender que a realização da etnografia não se dá apenas entre sociedades que
vivem longe de nós, mas também entre as mais próximas. Uma dessas etnografias
clássicas é o livro SociedadedeEsquina, no qual William Foote Whyte, conduzido por um
informante-chave, estuda determinado local — que ele chamou de Corneville — para
compreender o cotidiano de um bairro da periferia de uma grande cidade.
Entretanto, essa observação do pesquisador não deve ser feita de forma
passiva, apenas olhando para os membros de uma cultura, sem interagir com
o que acontece; pelo contrário, ele vai participar, conversar, viver e também
contar sobre si para esses nativos. Em outras palavras, propõe-se outra forma
de se relacionar com o outro, e essa relação estabelecida entre pesquisador
e nativos é levada em consideração na qualidade dos dados coletados e na
análise feita sobre essa outra sociedade.
Logo, realiza-se uma observação participante, na qual os membros da
cultura observada precisam estar de acordo com a presença daquele que vai
realizar a etnografia, como explica Oliveira (2000, p. 24):
[…] aquilo que os antropólogos chamam de "observação participante" […]
significa dizer que o pesquisador assume um papel perfeitamente digerível
pela sociedade observada, a ponto de viabilizar uma aceitação senão ótima
pelos membros daquela sociedade, pelo menos afável, de moda a não impedir
a necessária interação.
Podemos destacar dois antropólogos que iniciaram esse estudo e discu-
tiram a importância da etnografia em seus trabalhos de campo por meio da
antropologia. Um deles é Franz Boas (1858–1942) e Bronislaw Malinowski
(1884–1942). Laplantine (2003, p. 58–59) se dedica a elucidar as contribuições
de cada um deles; sobre Boas, ele afirma:
No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais consti-
tutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, e isso
detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descrição
mais meticulosa, da retranscrição mais fiel... [Para ele] Apenas o antropólo-
go pode elaborar uma monografia, isto é, dar conta cientificamente de uma
microssociedade, apreendida em sua totalidade e considerada em sua auto-
nomia teórica. Pela primeira vez, o teórico e o observador estão finalmente
Etnografia
4
reunidos. Assistimos ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional
que não se contenta mais em coletar materiais à maneira dos antiquários,
mas procura detectar o que faz a unidade da cultura que se expressa através
desses diferentes materiais.
Já sobre Malinowski (Figura 2), Laplantine (2003, p. 60–61) destaca o
posicionamento do pesquisador em meios aos nativos e as suas contribuições
para o campo de estudo:
Se não foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiência etnográfica,
isto é, em primeiro lugar, a viver com as populações que estudava e a recolher
seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreensão por dentro, e para
isso, procurou romper ao máximo os contatos com o mundo europeu. […] Nin-
guém antes dele tinha se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer
de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentalidade dos outros, e
em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de despersonalização, o
que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura que não é
nossa. […] Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada enquanto
uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde a observamos.
Figura 2. Malinowski entre os Trobriandeses.
Fonte: Etnografando (2012, documento on-line).
Assim, temos o contexto da discussão sobre o conceito de etnografia e
podemos avançar na nossa discussão, a fim de compreendermos como esse
conceito é utilizado no âmbito da antropologia — e até mesmo além dessa
disciplina.
5
Etnografia
Etnografia dentro da antropologia
Numa primeira discussão, devemos compreender que a antropologia pretende
levar em consideração a experiência do pesquisador a partir do trabalho de
campo que ele realizou. Então, o pesquisador vai estar diante do que é dife-
rente, do que é estranho e até do que assusta. Porém, essa postura que abarca
a concepção de alteridade constitui questão central na disciplina estudada.
Goldman (2005, p. 163) reforça esse ponto:
A antropologia é um dos lugares destinados pela razão ocidental para pensar
a diferença ou para explicar racionalmente a razão ou desrazão dos outros.
Desse ponto de vista, ela é, sem dúvida, parte do trabalho milenar da razão
ocidental para controlar e excluir a diferença. Por outro lado, entretanto, o
próprio fato de dedicar-se à diferença nunca é desprovido de consequências e,
em lugar de simplesmente digeri-la, a antropologia foi capaz de valorizar essa
diferença, sempre foi capaz de ao menos tentar apreendê-la sem suprimi-la,
pensá-la em si mesma, como ponto de apoio para impulsionar o pensamento,
não como objeto a ser simplesmente explicado — explicação que, aliás, acaba
por deter a própria marcha do pensamento.
Para aprofundar a discussão sobre a etnografia utilizada para a produção de dados
na pesquisa científica, leia o artigo Etnografia:SaberesePráticas, de Ana Luiza Carvalho
da Rocha e Cornelia Eckert.
https://goo.gl/LRD2UJ
Assim, a disciplina de antropologia compreende a etnografia como parte
do processo de pesquisa que possibilita estudar o outro a partir de critérios
científicos. Como explica Mattos (2011, p. 53), a:
[...] etnografia é a especialidade da antropologia, que tem por fim o estudo e
a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais
de suas atividades, é parte ou disciplina integrante da etnologia é a forma de
descrição da cultura material de um determinado povo [...].
Etnografia
6
Então, podemos compreender a etnografia como o exercício de olhar sobre
o outro que nos permite compreender de forma sistemática aspectos culturais
intrínsecos que, numa observação rápida, seriam difíceis de apreender. Para
reforçar essa ideia, Lévi-Strauss evidencia a etnografia como parte do trabalho
do antropólogo:
É por uma razão muito profunda, que se prende à própria natureza da dis-
ciplina e ao caráter distintivo de seu objeto, que o antropólogo necessita da
experiência do campo. Para ele, ela não é nem um objetivo de sua profissão,
nem um remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa
um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá possuir conhe-
cimentos descontínuos que jamais formarão um todo, e após o qual, somente,
estes conhecimentos se "prenderão" num conjunto orgânico e adquirirão um
sentido que lhes faltava anteriormente (LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 415–416).
Tendo a etnografia como parte crucial da aprendizagem do estudo de
outras culturas, cabe ter noção da dimensão que esse conceito alcança em
termos da pesquisa científica. Peirano (2014, p. 383) se questiona critica-
mente sobre a identificação da etnografia como apenas um método, e destaca
que as produções de monografias sobre aspectos de outras culturas “[...] não
são resultado simplesmente de ‘métodos etnográficos’; elas são formulações
teórico-etnográficas. Etnografia não é método; toda etnografia é também teoria
[...]”. Assim, não está limitada apenas ao antropólogo a prática etnográfica,
mas também não cabe difundir a etnografia como simples metodologia que
se aplica a qualquer contexto de pesquisa. Como diz a antropóloga, é preciso
fazer uma boa etnografia:
A primeira e mais importante qualidade de uma boa etnografia reside, então,
em ultrapassar o senso comum quanto aos usos da linguagem. Se o trabalho de
campo se faz pelo diálogo vivido que, depois, é revelado por meio da escrita, é
necessário ultrapassar o senso comum ocidental que acredita que a linguagem
é basicamente referencial. Que ela apenas "diz" e "descreve", com base na
relação entre uma palavra e uma coisa. Ao contrário, palavras fazem coisas,
trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados.
E palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da
mesma maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações
que é necessário avaliar e analisar. Dito de outra forma, é preciso colocar no
texto — em palavras sequenciais, em frases que se seguem umas às outras,
em parágrafos e capítulos — o que foi ação vivida. Este talvez seja um dos
maiores desafios da etnografia — e não há receitas preestabelecidas de como
fazê-lo (PEIRANO, 2014, p. 386).
7
Etnografia
Assim, somente exercitando e praticando a etnografia é que o pesquisador
vai aperfeiçoando e percebendo questões que não estavam evidentes na pri-
meira observação. Desse modo, etnografia é muito mais que escrever sobre
o outro, porque considera um estudo complexo, uma análise cuidadosa e uma
interpretação dos dados que está baseada em teoria precedentes para chegar
a uma conclusão que contribua com o conhecimento científico.
Para além da escrita, o antropólogo pode apresentar nas monografias os registros
visuais feitos durante o trabalho de campo, a fim de explicitar aspectos culturais de
outras sociedades. Muitas vezes, essas imagens não são apenas para “ilustrar” o que é
dito, mas também compõem a argumentação teórica do que é analisado sobre aquela
cultura. Um dos exemplos mais clássicos na antropologia é a obra Balinese Character,
de Gregory Bateson e Margaret Mead, que apresentaram um estudo minucioso de
diversas práticas culturais entre os balineses.
Por isso, podemos imaginar que o produto final de análise da observação
participante é a monografia, pois “[...] é seguramente no ato de escrever,
portanto na configuração final do produto desse trabalho, que a questão do
conhecimento se torna tanto ou mais crítica [...]” (OLIVEIRA, 2000, p. 25).
Ao juntar as partes de um quebra-cabeça, o todo toma forma. Essa totalidade
não deve pretender retratar a verdade única e absoluta, mas apenas apresentar
uma versão interpretativa sobre o grupo estudado por quem realizou a pesquisa
— podendo seus leitores concordarem ou não.
Na composição desse material final, cabe lembrar que essa a escrita pode
ser composta de outros materiais (organograma, desenhos, fotos, sons, vídeos)
que ajudem o leitor a compreender a argumentação teórico-metodológica
apresentada pelo etnógrafo.
Estratégias e objetivos da etnografia
Para pesquisarmos a cultura do outro, vamos refletir sobre quais estratégias
são relevantes durante o processo da etnografia. Inicialmente, Oliveira (2000,
p. 25) nos lembra que “[...] olhar e o ouvir podem ser considerados como os
atos cognitivos mais preliminares no trabalho de campo [...]”. Podemos pensar
Etnografia
8
que, para olhar o outro, precisamos lançar mão de lentes sociológicas, a fim
de poder ver aquilo que não veríamos com um olhar banal. Assim, esse olhar
e essa escuta devem estar atentos ao que se deseja compreender durante a
observação participante.
Geertz (1978) evidencia o que pode estar contido na proposta de etnografia,
de modo que o pesquisador tenha um quadro mais completo do grupo social
que estuda. Durante a observação participante, ele não só observa, mas também
cria estratégias sistemáticas de como registrar aspectos da vida cultural de
quem é observado:
O que o etnógrafo enfrenta, de fato — a não ser quando (como deve fazer,
naturalmente) está seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados
— é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas
sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estra-
nhas irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro
aprender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade
do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes,
observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de proprie-
dade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como
tentar ler (no sentido de "construir uma leitura de") um manuscrito estranho,
desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários
tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com
exemplos transitórios do comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20).
Assim, para compreender o que parecem incoerências, comentários banais
e sinais não identificáveis, os registros em cadernos de campos — também
chamados de diários — são essenciais e servem para descrever momentos,
explicitar detalhes, apresentar aspectos culturais e refletir sobre tudo o que foi
visto e falado durante a interação com os membros da sociedade pesquisada.
Weber (2009, p. 157) explica que o diário de campo:
[...] é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao
longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o
exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo
social, método que se caracteriza por uma investigação singular [...].
Em conjunto com o diário de campo, cabe fazer entrevistas semiestru-
turadas (aquelas com questões abertas), para captar informações em maior
profundidade, que respondem aos objetivos da pesquisa. Duarte (204, p. 216)
nos provoca a pensar o que seria uma boa entrevista:
9
Etnografia
A realização de uma boa entrevista exige: a) que o pesquisador tenha muito
bem definidos os objetivos de sua pesquisa (e introjetados — não é suficiente
que eles estejam bem definidos apenas “no papel”); b) que ele conheça, com
alguma profundidade, o contexto em que pretende realizar sua investigação (a
experiência pessoal, conversas com pessoas que participam daquele universo
— egos focais/informantes privilegiados —, leitura de estudos precedentes e
uma cuidadosa revisão bibliográfica são requisitos fundamentais para a entrada
do pesquisador no campo); c) a introjeção, pelo entrevistador, do roteiro da
entrevista (fazer uma entrevista “não-válida” com o roteiro é fundamental
para evitar “engasgos” no momento da realização das entrevistas válidas);
d) segurança e auto-confiança; e) algum nível de informalidade, sem jamais
perder de vista os objetivos que levaram a buscar aquele sujeito específico
como fonte de material empírico para sua investigação.
Entretanto, é preciso ter cuidado com o discurso do pesquisado durante
a entrevista semiestruturada. Este, geralmente num contexto mais formal de
pesquisa, acaba dizendo o discurso oficial, o que é esperado, o que ele foi
treinado para dizer, quando o que o pesquisador quer muitas vezes é justamente
o que escapa desse discurso e revela a situação do cotidiano. Assim, também é
preciso considerar as conversas informais como fonte preciosa de informações,
pois é nesses momentos que podemos comparar o discurso oficial com o que
acontece na prática. Com essas ideias em mente, Zaluar (2009, p. 577) conta
como conseguiu estudar o “mundo do crime”:
O objetivo era entender os processos sociais existentes no tráfico, ou seja,
a dinâmica das relações entre fornecedores de armas e drogas, traficantes
e usuários, assim como as formações subjetivas reveladas no simbolismo e
nos rituais das interações entre os atores. Os contatos para entrevistas foram
feitos seguindo a rede de conhecidos dos usuários ou nos locais de lazer
escolhidos para a observação silenciosa. Desse modo, muitas definições e
imagens e vários significados contextuais do crime, do desvio, da droga,
da polícia, do bairro, das diversas atividades de lazer, das relações entre os
usuários, entre eles e os traficantes, entre todos e a polícia foram transmitidos
pela observação direta, por conversas informais depois registradas e pelos
relatos de experiências de nossos informantes.
Além dessas estratégias, também é pertinente para o trabalho de campo a
construção do método genealógico. Ele permite a compreensão das formações
familiares de uma sociedade, evidenciando os povos ascendentes, quem é filho
de quem, se a é cultura patrilinear ou matrilenar, e como se dão casamentos
entre grupos sociais. Rivers (1991) defendeu o uso dessa ferramenta para
os estudos de parentescos e elucidou que essa técnica elevaria o status das
Etnografia
10
ciências sociais como estudos de ciências biológicas, pois a sua construção
seguiria critérios e padrões que permitiriam um estudo científico sobre as
culturas pesquisadas.
Outra estratégia que pode garantir a inclusão num grupo social diferente
do grupo do pesquisador é a aproximação de um informante-chave. Em es-
sência, trata-se de alguém que vai introduzir o pesquisador no cotidiano da
outra cultura, explicar rapidamente o que ele não entende, apresentar pessoas
importantes para o objetivo da pesquisa, entre outros motivos. Essa abordagem
faz com que o pesquisador desenvolva um vínculo maior com essa pessoa.
Os informantes chaves são participantes que possuem conhecimentos, status,
destrezas comunicativas especiais e estão dispostos a colaborar com o inves-
tigador. Ajudam ao investigador a vencer, superar as barreiras que aparecem
no seu caminho. Tem acesso a determinados subgrupos e pessoas, que, por
outra via seria difícil alcançar. Os atores chaves devem ser escolhidos com
cuidado tendo em consideração seu nível adequado de representatividade
em relação ao grupo completo de informantes chaves. Recomenda-se que as
informações obtidas dos informantes chaves sejam claramente especificadas
e diferenciadas como nas notas de campo (LÓPEZ, 1999, p. 49).
Assim, vamos percebendo que as estratégias do pesquisador correspondem
aos objetivos da etnografia. Para coletar dados que respondam às perguntas
gerais e específicas da pesquisa, é preciso que o pesquisador utilize algumas
dessas técnicas. Entretanto, sabe-se que não há formulas a serem seguidas, pois
cada pesquisa tem suas particularidades, como evidencia Mattos (2011, p. 50):
A etnografia é um processo guiado preponderantemente pelo senso questio-
nador do etnógrafo. Deste modo, a utilização de técnicas e procedimentos
etnográficos, não segue padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso
que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social
da pesquisa. Os instrumentos de coleta e análise utilizados nesta abordagem
de pesquisa, muitas vezes, têm que ser formuladas ou recriadas para atender
à realidade do trabalho de campo. Assim, na maioria das vezes, o processo
de pesquisa etnográfica será determinado explícita ou implicitamente pelas
questões propostas pelo pesquisador.
Por último, Mattos (2011) ainda sistematiza três questões da etnografia
que contribuem com o campo da pesquisa qualitativa:
1. A preocupação com uma análise holística ou dialética da cultura, isto
é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da
11
Etnografia
sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as
estruturas sociais e as ações e interações humanas.
2. A introdução dos atores sociais com uma participação ativa e dinâmica
no processo modificador das estruturas sociais.
3. Apresentação das interações e evidência dos processos engendrados e
de difícil visibilidade para os sujeitos que dela fazem parte.
Logo, a etnografia nos permites conhecer outra cultura de forma mais
aprofundada, pois se utiliza de estratégias específicas, de acordo com os
objetivos da pesquisa. Nesse sentido, para conhecer os grupos sociais que
são diferentes de nós, não basta chegarmos até eles: precisamos ter um olhar
mais cuidadoso e atenção redobrada, e também fazer notas sobre aquilo que
queremos compreender. Com isso, vamos explicitando os procedimentos da
pesquisa científica e reconhecendo essas estratégias dentro de um arcabouço
teórico-metodológico guiado pela disciplina da antropologia.
CADERNO DE NOSFERATU. Antrpofágia. 2010. Disponível em: <https://cadernodenos-
feratu.wordpress.com/2010/07/07/antropofagi/>. Acesso em: 31 out. 2018.
DUARTE, R. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar UFPRS, Curitiba, n. 24, p.
213-225, 2004.
ETNOGRAFANDO. Malinowski e sua contribuição à antropologia. 2012. Disponível em:
<http://etnografandoantropologia.blogspot.com/2012/05/malinowski-e-sua-contri-
buicao.html>. Acesso em: 31 out. 2018.
O livro Entre saias justas e jogos de cintura, organizado por Soraya Fleischer e Alinne
Bonetti, reúne artigos sobre os encontros dos pesquisadores e seus pesquisados.
Cada um deles conta sobre as suas experiências etnográficas, apresenta situações
inesperadas em campo e mesmo soluções surpreendentes durante a etnografia. É um
livro atual, que apresenta pesquisas contemporâneas e que motiva o leitor a perceber
que a etnografia é desafiadora e prazerosa.
https://goo.gl/sgd9SZ
Etnografia
12
GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978.
GOLDMAN, M. Jeanne Favret-Saada: os afetos, a etnografia. Cadernos de Campo, São
Paulo, v. 13, n. 13, p. 149-153, 2005.
LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003.
LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991. 
LÓPEZ, G. L. O método etnográfico como um paradigma científico e sua aplicação
na pesquisa. Textura: Revista de Educação e Letras, Canoas, v. 1, n. 1, p. 45-50, 1999.
MATTOS, C. L. G. A abordagem etnográfica na investigação científica. In: MATTOS, C. L. G.;
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brasileira sob a pena de viajantes europeus (1500-1627) História. Revista da Faculdade
de Letras: História, Porto, v. 3, n. 1, p. 9-28, 2013.
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OLIVEIRA, R. (Org.). A antropologia de Rivers. Campinas: Unicamp, 1991. p. 51-67.
WEBER, F. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou: por que censurar seu diário de campo?
Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 157-170, 2009.
ZALUAR, A. Pesquisando no perigo: etnografias voluntárias e não acidentais. Mana,
Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 557-584, out. 2009.
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BATESON, G.; MEAD, M. Balinesecharacter: a photographic anlysis. 1942. Disponível em:
<https://archive.org/details/BatesonGregoryMeadMargaretBalineseCharacterAPhoto-
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CARDOSO, R. C. L. Aventuras de antropólogos em campo ou como escapar das ar-
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DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981.
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VELHO, G. Observando o Familiar. In: NUNES, E. (Org.). A aventura sociológica. Rio de
Janeiro: Zahar, 1978.
13
Etnografia
Estudos culturais e antropologicos
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  • 2. Etnografia Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados:  Identificar o conceito de etnografia.  Distinguir a etnografia dentro do quadro geral da antropologia.  Definir quais os objetivos da etnografia. Introdução Neste capítulo, você vai aprender o conceito de etnografia e compre- ender como surge essa ideia ao conhecer e analisar outras culturas. Ao mesmo tempo, vai perceber a vinculação da etnografia à disciplina da antropologia, compreendendo quais as suas relações e potencialidades. Nesse sentido, etnografia não é apenas um método, mas abrange um arcabouço teórico metodológico para pensar o grupo pesquisado. Por último, vai conhecer estratégias no âmbito da etnografia que aju- dam a realizar a pesquisa com mais cuidado e compromisso. Os registros em campo, as entrevistas e a construção da árvore genealógica podem ajudar a “ver” o que não é possível enxergar de outra maneira. Conceito de etnografia Para conhecermos outras culturas, estudarmos os seus modos de vida e com- preendermos os seus pensamentos, ainda que eles sejam diferentes dos nossos, precisamos adotar algumas estratégias de pesquisa. Imagine que você chega a uma sociedade totalmente diferente da sua, more durante um tempo entre as pessoas daquele local e aprende alguns hábitos de vida próprios daquela cultura. Aos poucos, mesmo que de forma intuitiva, você vai entendendo e compre- endendo o modo de se alimentar, de se vestir, de falar, de cuidar da terra, de se relacionar entre as pessoas, de se comportar, assim como as festas e as crenças mais importantes, os motivos para rir e chorar, etc. Entretanto, no âmbito da
  • 3. pesquisa acadêmica, talvez não tenhamos o tempo e a disponibilidade de nos inteirarmos da vida do outro como teria um viajante sem destino. Os primeiros registros sobre outros povos foram feitos por viajantes. Um deles é alemão Hans Staden, que esteve no Brasil na época da colonização e escreveu sobre o perfil, o modo de vida dos indígenas que habitavam essas terras, as práticas canibais em contextos rituais e as relações que se estabeleciam entre eles e os colonizadores (Figura 1). Pires (2013, p. 21) conta sobre Staden: [...] apesar de ser um aventureiro alemão, portanto, sem planos de permanecer em solo brasileiro como os portugueses e os franceses, contribuiu com as suas obras para a formação das representações sobre a guerra índia, primeiramente na capitania de Pernambuco e depois na de São Vicente, onde, ambas as vezes, atuou nos conflitos armados do lado dos lusos contra seus inimigos índios e normandos. Na segunda experiência, em São Vicente, permaneceu meses como cativo de guerra dos tupinambá, aliados dos franceses, e, libertado por uma tribo inimiga de seus algozes, não foi sacrificado no ritual antropofágico. Assim, por meio das representações dos relatos dos viajantes é que a popu- lação acessava a cultura de sociedades distantes e mesmo de culturas que não mais existiam. Muitas vezes, essas descrições registradas pelos viajantes eram caricatas, exageradas e até mesmo fantasiosas, mas como era a única maneira de conhecer o que faziam outras culturas, esses relatos eram bastante difundidos. Figura 1. Desenho de Hans Staden sobre práticas canibais dos indígenas. Fonte: Caderno de Nosferatu (2010, documento on-line). Etnografia 2
  • 4. Contudo, no século XXI, a distância ficou menor, e a tecnologia nos permite viajar, tornando mais fácil conhecer outras sociedades. Então, em vez de lermos sobre o outro, vamos nós mesmos observar, analisar e compreender aspectos de outras culturas. Assim, cabe perceber essas diferenças entre as culturas e refletir sobre elas. Para ir além de uma obser- vação curiosa e de fato estudar os aspectos culturais de outras sociedades, podemos utilizar estratégias e metodologias que nos permitam compreender as explicações correntes naquela sociedade que observamos. Por isso, de forma mais rápida, mais explícita e mais sistemática, buscamos formas científicas de realizar esses estudos. Uma dessas formas é a etnografia. Na etimologia da palavra, do grego, etno é povo e grafia é escrita; logo, o significado da palavra pressupõe escrever sobre um povo. Laplantine (2003) enfoca que a etnografia permite a descrição das formas de vida de determinados grupos sociais, fazendo com que estudemos aspectos culturais diferentes dos nossos de forma mais atenta. Como evidencia Oliveira (2000), agora não conheceremos a cultura do outro por meio dos livros, mas será o nosso próprio corpo que acessará outras sociedades. Segundo explica Laplantine (2003, p. 57), “[...] a etnografia propriamente dita só começa a existir a partir do momento no qual se percebe que o pes- quisador deve ele mesmo efetuar no campo sua própria pesquisa, e que esse trabalho de observação direta é parte integrante da pesquisa [...]”. Assim, dá-se outra maneira de conhecer o outro, mais ativa, mais pessoalizada e mais interpretativa sobre quem são, o que fazem e como pensam os membros de outras sociedades existentes. O pesquisador compreende a partir desse momento que ele deve deixar seu gabinete de trabalho para ir compartilhar a intimidade dos que devem ser considerados não mais como informadores a serem questionados, e sim como hóspedes que o recebem e mestres que o ensinam. Ele aprende então, como aluno atento, não apenas a viver entre eles, mas a viver como eles, a falar sua língua e a pensar nessa língua, a sentir suas próprias emoções dentro dele mesmo. Trata-se, como podemos ver, de condições de estudo radicalmente diferentes das que conheciam o viajante do século XVIII e até o missionário ou o administrador do século XIX, residindo geralmente fora da sociedade indígena e obtendo informações por intermédio de tradutores e informadores: este último termo merece ser repetido. Em suma, a antropologia se torna pela primeira vez uma atividade ao ar livre, levada, como diz Malinowski, “ao vivo”, em uma “natureza imensa, virgem e aberta” (LAPLANTINE, 2003, p. 57–58). 3 Etnografia
  • 5. Indica-se a leitura de uma bela etnografia realizada em um contexto urbano, a fim de compreender que a realização da etnografia não se dá apenas entre sociedades que vivem longe de nós, mas também entre as mais próximas. Uma dessas etnografias clássicas é o livro SociedadedeEsquina, no qual William Foote Whyte, conduzido por um informante-chave, estuda determinado local — que ele chamou de Corneville — para compreender o cotidiano de um bairro da periferia de uma grande cidade. Entretanto, essa observação do pesquisador não deve ser feita de forma passiva, apenas olhando para os membros de uma cultura, sem interagir com o que acontece; pelo contrário, ele vai participar, conversar, viver e também contar sobre si para esses nativos. Em outras palavras, propõe-se outra forma de se relacionar com o outro, e essa relação estabelecida entre pesquisador e nativos é levada em consideração na qualidade dos dados coletados e na análise feita sobre essa outra sociedade. Logo, realiza-se uma observação participante, na qual os membros da cultura observada precisam estar de acordo com a presença daquele que vai realizar a etnografia, como explica Oliveira (2000, p. 24): […] aquilo que os antropólogos chamam de "observação participante" […] significa dizer que o pesquisador assume um papel perfeitamente digerível pela sociedade observada, a ponto de viabilizar uma aceitação senão ótima pelos membros daquela sociedade, pelo menos afável, de moda a não impedir a necessária interação. Podemos destacar dois antropólogos que iniciaram esse estudo e discu- tiram a importância da etnografia em seus trabalhos de campo por meio da antropologia. Um deles é Franz Boas (1858–1942) e Bronislaw Malinowski (1884–1942). Laplantine (2003, p. 58–59) se dedica a elucidar as contribuições de cada um deles; sobre Boas, ele afirma: No campo, ensina Boas, tudo deve ser anotado: desde os materiais consti- tutivos das casas até as notas das melodias cantadas pelos Esquimós, e isso detalhadamente, e no detalhe do detalhe. Tudo deve ser objeto da descrição mais meticulosa, da retranscrição mais fiel... [Para ele] Apenas o antropólo- go pode elaborar uma monografia, isto é, dar conta cientificamente de uma microssociedade, apreendida em sua totalidade e considerada em sua auto- nomia teórica. Pela primeira vez, o teórico e o observador estão finalmente Etnografia 4
  • 6. reunidos. Assistimos ao nascimento de uma verdadeira etnografia profissional que não se contenta mais em coletar materiais à maneira dos antiquários, mas procura detectar o que faz a unidade da cultura que se expressa através desses diferentes materiais. Já sobre Malinowski (Figura 2), Laplantine (2003, p. 60–61) destaca o posicionamento do pesquisador em meios aos nativos e as suas contribuições para o campo de estudo: Se não foi o primeiro a conduzir cientificamente uma experiência etnográfica, isto é, em primeiro lugar, a viver com as populações que estudava e a recolher seus materiais de seus idiomas, radicalizou essa compreensão por dentro, e para isso, procurou romper ao máximo os contatos com o mundo europeu. […] Nin- guém antes dele tinha se esforçado em penetrar tanto, como ele fez no decorrer de duas estadias sucessivas nas ilhas Trobriand, na mentalidade dos outros, e em compreender de dentro, por uma verdadeira busca de despersonalização, o que sentem os homens e as mulheres que pertencem a uma cultura que não é nossa. […] Malinowski considera que uma sociedade deve ser estudada enquanto uma totalidade, tal como funciona no momento mesmo onde a observamos. Figura 2. Malinowski entre os Trobriandeses. Fonte: Etnografando (2012, documento on-line). Assim, temos o contexto da discussão sobre o conceito de etnografia e podemos avançar na nossa discussão, a fim de compreendermos como esse conceito é utilizado no âmbito da antropologia — e até mesmo além dessa disciplina. 5 Etnografia
  • 7. Etnografia dentro da antropologia Numa primeira discussão, devemos compreender que a antropologia pretende levar em consideração a experiência do pesquisador a partir do trabalho de campo que ele realizou. Então, o pesquisador vai estar diante do que é dife- rente, do que é estranho e até do que assusta. Porém, essa postura que abarca a concepção de alteridade constitui questão central na disciplina estudada. Goldman (2005, p. 163) reforça esse ponto: A antropologia é um dos lugares destinados pela razão ocidental para pensar a diferença ou para explicar racionalmente a razão ou desrazão dos outros. Desse ponto de vista, ela é, sem dúvida, parte do trabalho milenar da razão ocidental para controlar e excluir a diferença. Por outro lado, entretanto, o próprio fato de dedicar-se à diferença nunca é desprovido de consequências e, em lugar de simplesmente digeri-la, a antropologia foi capaz de valorizar essa diferença, sempre foi capaz de ao menos tentar apreendê-la sem suprimi-la, pensá-la em si mesma, como ponto de apoio para impulsionar o pensamento, não como objeto a ser simplesmente explicado — explicação que, aliás, acaba por deter a própria marcha do pensamento. Para aprofundar a discussão sobre a etnografia utilizada para a produção de dados na pesquisa científica, leia o artigo Etnografia:SaberesePráticas, de Ana Luiza Carvalho da Rocha e Cornelia Eckert. https://goo.gl/LRD2UJ Assim, a disciplina de antropologia compreende a etnografia como parte do processo de pesquisa que possibilita estudar o outro a partir de critérios científicos. Como explica Mattos (2011, p. 53), a: [...] etnografia é a especialidade da antropologia, que tem por fim o estudo e a descrição dos povos, sua língua, raça, religião, e manifestações materiais de suas atividades, é parte ou disciplina integrante da etnologia é a forma de descrição da cultura material de um determinado povo [...]. Etnografia 6
  • 8. Então, podemos compreender a etnografia como o exercício de olhar sobre o outro que nos permite compreender de forma sistemática aspectos culturais intrínsecos que, numa observação rápida, seriam difíceis de apreender. Para reforçar essa ideia, Lévi-Strauss evidencia a etnografia como parte do trabalho do antropólogo: É por uma razão muito profunda, que se prende à própria natureza da dis- ciplina e ao caráter distintivo de seu objeto, que o antropólogo necessita da experiência do campo. Para ele, ela não é nem um objetivo de sua profissão, nem um remate de sua cultura, nem uma aprendizagem técnica. Representa um momento crucial de sua educação, antes do qual ele poderá possuir conhe- cimentos descontínuos que jamais formarão um todo, e após o qual, somente, estes conhecimentos se "prenderão" num conjunto orgânico e adquirirão um sentido que lhes faltava anteriormente (LÉVI-STRAUSS, 1991, p. 415–416). Tendo a etnografia como parte crucial da aprendizagem do estudo de outras culturas, cabe ter noção da dimensão que esse conceito alcança em termos da pesquisa científica. Peirano (2014, p. 383) se questiona critica- mente sobre a identificação da etnografia como apenas um método, e destaca que as produções de monografias sobre aspectos de outras culturas “[...] não são resultado simplesmente de ‘métodos etnográficos’; elas são formulações teórico-etnográficas. Etnografia não é método; toda etnografia é também teoria [...]”. Assim, não está limitada apenas ao antropólogo a prática etnográfica, mas também não cabe difundir a etnografia como simples metodologia que se aplica a qualquer contexto de pesquisa. Como diz a antropóloga, é preciso fazer uma boa etnografia: A primeira e mais importante qualidade de uma boa etnografia reside, então, em ultrapassar o senso comum quanto aos usos da linguagem. Se o trabalho de campo se faz pelo diálogo vivido que, depois, é revelado por meio da escrita, é necessário ultrapassar o senso comum ocidental que acredita que a linguagem é basicamente referencial. Que ela apenas "diz" e "descreve", com base na relação entre uma palavra e uma coisa. Ao contrário, palavras fazem coisas, trazem consequências, realizam tarefas, comunicam e produzem resultados. E palavras não são o único meio de comunicação: silêncios comunicam. Da mesma maneira, os outros sentidos (olfato, visão, espaço, tato) têm implicações que é necessário avaliar e analisar. Dito de outra forma, é preciso colocar no texto — em palavras sequenciais, em frases que se seguem umas às outras, em parágrafos e capítulos — o que foi ação vivida. Este talvez seja um dos maiores desafios da etnografia — e não há receitas preestabelecidas de como fazê-lo (PEIRANO, 2014, p. 386). 7 Etnografia
  • 9. Assim, somente exercitando e praticando a etnografia é que o pesquisador vai aperfeiçoando e percebendo questões que não estavam evidentes na pri- meira observação. Desse modo, etnografia é muito mais que escrever sobre o outro, porque considera um estudo complexo, uma análise cuidadosa e uma interpretação dos dados que está baseada em teoria precedentes para chegar a uma conclusão que contribua com o conhecimento científico. Para além da escrita, o antropólogo pode apresentar nas monografias os registros visuais feitos durante o trabalho de campo, a fim de explicitar aspectos culturais de outras sociedades. Muitas vezes, essas imagens não são apenas para “ilustrar” o que é dito, mas também compõem a argumentação teórica do que é analisado sobre aquela cultura. Um dos exemplos mais clássicos na antropologia é a obra Balinese Character, de Gregory Bateson e Margaret Mead, que apresentaram um estudo minucioso de diversas práticas culturais entre os balineses. Por isso, podemos imaginar que o produto final de análise da observação participante é a monografia, pois “[...] é seguramente no ato de escrever, portanto na configuração final do produto desse trabalho, que a questão do conhecimento se torna tanto ou mais crítica [...]” (OLIVEIRA, 2000, p. 25). Ao juntar as partes de um quebra-cabeça, o todo toma forma. Essa totalidade não deve pretender retratar a verdade única e absoluta, mas apenas apresentar uma versão interpretativa sobre o grupo estudado por quem realizou a pesquisa — podendo seus leitores concordarem ou não. Na composição desse material final, cabe lembrar que essa a escrita pode ser composta de outros materiais (organograma, desenhos, fotos, sons, vídeos) que ajudem o leitor a compreender a argumentação teórico-metodológica apresentada pelo etnógrafo. Estratégias e objetivos da etnografia Para pesquisarmos a cultura do outro, vamos refletir sobre quais estratégias são relevantes durante o processo da etnografia. Inicialmente, Oliveira (2000, p. 25) nos lembra que “[...] olhar e o ouvir podem ser considerados como os atos cognitivos mais preliminares no trabalho de campo [...]”. Podemos pensar Etnografia 8
  • 10. que, para olhar o outro, precisamos lançar mão de lentes sociológicas, a fim de poder ver aquilo que não veríamos com um olhar banal. Assim, esse olhar e essa escuta devem estar atentos ao que se deseja compreender durante a observação participante. Geertz (1978) evidencia o que pode estar contido na proposta de etnografia, de modo que o pesquisador tenha um quadro mais completo do grupo social que estuda. Durante a observação participante, ele não só observa, mas também cria estratégias sistemáticas de como registrar aspectos da vida cultural de quem é observado: O que o etnógrafo enfrenta, de fato — a não ser quando (como deve fazer, naturalmente) está seguindo as rotinas mais automatizadas de coletar dados — é uma multiplicidade de estruturas conceptuais complexas, muitas delas sobrepostas ou amarradas umas às outras, que são simultaneamente estra- nhas irregulares e inexplícitas, e que ele tem que, de alguma forma, primeiro aprender e depois apresentar. E isso é verdade em todos os níveis de atividade do seu trabalho de campo, mesmo o mais rotineiro: entrevistar informantes, observar rituais, deduzir os termos de parentesco, traçar as linhas de proprie- dade, fazer o censo doméstico... escrever seu diário. Fazer etnografia é como tentar ler (no sentido de "construir uma leitura de") um manuscrito estranho, desbotado, cheio de elipses, incoerências, emendas suspeitas e comentários tendenciosos, escrito não com os sinais convencionais do som, mas com exemplos transitórios do comportamento modelado (GEERTZ, 1978, p. 20). Assim, para compreender o que parecem incoerências, comentários banais e sinais não identificáveis, os registros em cadernos de campos — também chamados de diários — são essenciais e servem para descrever momentos, explicitar detalhes, apresentar aspectos culturais e refletir sobre tudo o que foi visto e falado durante a interação com os membros da sociedade pesquisada. Weber (2009, p. 157) explica que o diário de campo: [...] é um instrumento que o pesquisador se dedica a produzir dia após dia ao longo de toda a experiência etnográfica. É uma técnica que tem por base o exercício da observação direta dos comportamentos culturais de um grupo social, método que se caracteriza por uma investigação singular [...]. Em conjunto com o diário de campo, cabe fazer entrevistas semiestru- turadas (aquelas com questões abertas), para captar informações em maior profundidade, que respondem aos objetivos da pesquisa. Duarte (204, p. 216) nos provoca a pensar o que seria uma boa entrevista: 9 Etnografia
  • 11. A realização de uma boa entrevista exige: a) que o pesquisador tenha muito bem definidos os objetivos de sua pesquisa (e introjetados — não é suficiente que eles estejam bem definidos apenas “no papel”); b) que ele conheça, com alguma profundidade, o contexto em que pretende realizar sua investigação (a experiência pessoal, conversas com pessoas que participam daquele universo — egos focais/informantes privilegiados —, leitura de estudos precedentes e uma cuidadosa revisão bibliográfica são requisitos fundamentais para a entrada do pesquisador no campo); c) a introjeção, pelo entrevistador, do roteiro da entrevista (fazer uma entrevista “não-válida” com o roteiro é fundamental para evitar “engasgos” no momento da realização das entrevistas válidas); d) segurança e auto-confiança; e) algum nível de informalidade, sem jamais perder de vista os objetivos que levaram a buscar aquele sujeito específico como fonte de material empírico para sua investigação. Entretanto, é preciso ter cuidado com o discurso do pesquisado durante a entrevista semiestruturada. Este, geralmente num contexto mais formal de pesquisa, acaba dizendo o discurso oficial, o que é esperado, o que ele foi treinado para dizer, quando o que o pesquisador quer muitas vezes é justamente o que escapa desse discurso e revela a situação do cotidiano. Assim, também é preciso considerar as conversas informais como fonte preciosa de informações, pois é nesses momentos que podemos comparar o discurso oficial com o que acontece na prática. Com essas ideias em mente, Zaluar (2009, p. 577) conta como conseguiu estudar o “mundo do crime”: O objetivo era entender os processos sociais existentes no tráfico, ou seja, a dinâmica das relações entre fornecedores de armas e drogas, traficantes e usuários, assim como as formações subjetivas reveladas no simbolismo e nos rituais das interações entre os atores. Os contatos para entrevistas foram feitos seguindo a rede de conhecidos dos usuários ou nos locais de lazer escolhidos para a observação silenciosa. Desse modo, muitas definições e imagens e vários significados contextuais do crime, do desvio, da droga, da polícia, do bairro, das diversas atividades de lazer, das relações entre os usuários, entre eles e os traficantes, entre todos e a polícia foram transmitidos pela observação direta, por conversas informais depois registradas e pelos relatos de experiências de nossos informantes. Além dessas estratégias, também é pertinente para o trabalho de campo a construção do método genealógico. Ele permite a compreensão das formações familiares de uma sociedade, evidenciando os povos ascendentes, quem é filho de quem, se a é cultura patrilinear ou matrilenar, e como se dão casamentos entre grupos sociais. Rivers (1991) defendeu o uso dessa ferramenta para os estudos de parentescos e elucidou que essa técnica elevaria o status das Etnografia 10
  • 12. ciências sociais como estudos de ciências biológicas, pois a sua construção seguiria critérios e padrões que permitiriam um estudo científico sobre as culturas pesquisadas. Outra estratégia que pode garantir a inclusão num grupo social diferente do grupo do pesquisador é a aproximação de um informante-chave. Em es- sência, trata-se de alguém que vai introduzir o pesquisador no cotidiano da outra cultura, explicar rapidamente o que ele não entende, apresentar pessoas importantes para o objetivo da pesquisa, entre outros motivos. Essa abordagem faz com que o pesquisador desenvolva um vínculo maior com essa pessoa. Os informantes chaves são participantes que possuem conhecimentos, status, destrezas comunicativas especiais e estão dispostos a colaborar com o inves- tigador. Ajudam ao investigador a vencer, superar as barreiras que aparecem no seu caminho. Tem acesso a determinados subgrupos e pessoas, que, por outra via seria difícil alcançar. Os atores chaves devem ser escolhidos com cuidado tendo em consideração seu nível adequado de representatividade em relação ao grupo completo de informantes chaves. Recomenda-se que as informações obtidas dos informantes chaves sejam claramente especificadas e diferenciadas como nas notas de campo (LÓPEZ, 1999, p. 49). Assim, vamos percebendo que as estratégias do pesquisador correspondem aos objetivos da etnografia. Para coletar dados que respondam às perguntas gerais e específicas da pesquisa, é preciso que o pesquisador utilize algumas dessas técnicas. Entretanto, sabe-se que não há formulas a serem seguidas, pois cada pesquisa tem suas particularidades, como evidencia Mattos (2011, p. 50): A etnografia é um processo guiado preponderantemente pelo senso questio- nador do etnógrafo. Deste modo, a utilização de técnicas e procedimentos etnográficos, não segue padrões rígidos ou pré-determinados, mas sim, o senso que o etnógrafo desenvolve a partir do trabalho de campo no contexto social da pesquisa. Os instrumentos de coleta e análise utilizados nesta abordagem de pesquisa, muitas vezes, têm que ser formuladas ou recriadas para atender à realidade do trabalho de campo. Assim, na maioria das vezes, o processo de pesquisa etnográfica será determinado explícita ou implicitamente pelas questões propostas pelo pesquisador. Por último, Mattos (2011) ainda sistematiza três questões da etnografia que contribuem com o campo da pesquisa qualitativa: 1. A preocupação com uma análise holística ou dialética da cultura, isto é, a cultura não é vista como um mero reflexo de forças estruturais da 11 Etnografia
  • 13. sociedade, mas como um sistema de significados mediadores entre as estruturas sociais e as ações e interações humanas. 2. A introdução dos atores sociais com uma participação ativa e dinâmica no processo modificador das estruturas sociais. 3. Apresentação das interações e evidência dos processos engendrados e de difícil visibilidade para os sujeitos que dela fazem parte. Logo, a etnografia nos permites conhecer outra cultura de forma mais aprofundada, pois se utiliza de estratégias específicas, de acordo com os objetivos da pesquisa. Nesse sentido, para conhecer os grupos sociais que são diferentes de nós, não basta chegarmos até eles: precisamos ter um olhar mais cuidadoso e atenção redobrada, e também fazer notas sobre aquilo que queremos compreender. Com isso, vamos explicitando os procedimentos da pesquisa científica e reconhecendo essas estratégias dentro de um arcabouço teórico-metodológico guiado pela disciplina da antropologia. CADERNO DE NOSFERATU. Antrpofágia. 2010. Disponível em: <https://cadernodenos- feratu.wordpress.com/2010/07/07/antropofagi/>. Acesso em: 31 out. 2018. DUARTE, R. Entrevistas em pesquisas qualitativas. Educar UFPRS, Curitiba, n. 24, p. 213-225, 2004. ETNOGRAFANDO. Malinowski e sua contribuição à antropologia. 2012. Disponível em: <http://etnografandoantropologia.blogspot.com/2012/05/malinowski-e-sua-contri- buicao.html>. Acesso em: 31 out. 2018. O livro Entre saias justas e jogos de cintura, organizado por Soraya Fleischer e Alinne Bonetti, reúne artigos sobre os encontros dos pesquisadores e seus pesquisados. Cada um deles conta sobre as suas experiências etnográficas, apresenta situações inesperadas em campo e mesmo soluções surpreendentes durante a etnografia. É um livro atual, que apresenta pesquisas contemporâneas e que motiva o leitor a perceber que a etnografia é desafiadora e prazerosa. https://goo.gl/sgd9SZ Etnografia 12
  • 14. GEERTZ, C. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. GOLDMAN, M. Jeanne Favret-Saada: os afetos, a etnografia. Cadernos de Campo, São Paulo, v. 13, n. 13, p. 149-153, 2005. LAPLANTINE, F. Aprender antropologia. São Paulo: Brasiliense, 2003. LÉVI-STRAUSS, C. Antropologia estrutural. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1991.  LÓPEZ, G. L. O método etnográfico como um paradigma científico e sua aplicação na pesquisa. Textura: Revista de Educação e Letras, Canoas, v. 1, n. 1, p. 45-50, 1999. MATTOS, C. L. G. A abordagem etnográfica na investigação científica. In: MATTOS, C. L. G.; CASTRO,P.A.(Org.).Etnografiaeeducação:conceitoseusos.CampinaGrande:EDUEPB,2011. OLIVEIRA, R. C. O trabalho do antropólogo. 2. ed. São Paulo: Unesp, 2000. PEIRANO, M. Etnografia não é método. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, v. 20, n. 42, p. 377-391, jul./dez. 2014. PIRES, V. Uma breve análise acerca da atuação interétnica dos indígenas da costa brasileira sob a pena de viajantes europeus (1500-1627) História. Revista da Faculdade de Letras: História, Porto, v. 3, n. 1, p. 9-28, 2013. RIVERS, W. H. O método genealógico na pesquisa antropológica. In: CARDOSO DE OLIVEIRA, R. (Org.). A antropologia de Rivers. Campinas: Unicamp, 1991. p. 51-67. WEBER, F. A entrevista, a pesquisa e o íntimo, ou: por que censurar seu diário de campo? Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 15, n. 32, p. 157-170, 2009. ZALUAR, A. Pesquisando no perigo: etnografias voluntárias e não acidentais. Mana, Rio de Janeiro, v. 15, n. 2, p. 557-584, out. 2009. Leituras recomendadas BATESON, G.; MEAD, M. Balinesecharacter: a photographic anlysis. 1942. Disponível em: <https://archive.org/details/BatesonGregoryMeadMargaretBalineseCharacterAPhoto- graphicAnalysis1942/page/n1>. Acesso em: 31 out. 2018. CARDOSO, R. C. L. Aventuras de antropólogos em campo ou como escapar das ar- madilhas do método. In: CARDOSO, R. C. L. A aventura antropológica. 2. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1988. p. 95-106. DAMATTA, R. Relativizando: uma introdução à antropologia social. Petrópolis: Vozes, 1981. PALERMO, E. G.; TOZZINI, M. A. Resenha. Campos, v. 11, n. 2, p. 137-142, 2010. Disponível em: <https://revistas.ufpr.br/campos/article/view/24318/17358>. Acesso em: 1 out. 2018. ROCHA, A. L. C.; ECKERT, C. Etnografia: saberes e práticas. Iluminuras, Porto Alegre, v. 9, n. 21, 2008. Disponível em: <https://seer.ufrgs.br/iluminuras/article/view/9301/5371>. Acesso em: 31 out. 2018. VELHO, G. Observando o Familiar. In: NUNES, E. (Org.). A aventura sociológica. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. 13 Etnografia