SlideShare uma empresa Scribd logo
ESPAÇO DE SOCIABILIDADE
     Mercado Central: “Se Minas não tem mar, vamo pro bar”

                                                                      Fernando Ribeiro Pinto1

Resumo: Análise da sociabilidade cultural dos bares do Mercado Central frente ao
frenético movimento urbano e individualista no cotidiano de Belo Horizonte e na
história da cidade.

Palavras chave: Mercado Central; sociabilidade; bar.




        Este artigo tem como objetivo discutir a sociabilidade existente em um
dos principais guetos urbanos2 de Belo Horizonte, os bares do Mercado
Central, onde as diferenças econômicas e raciais há muito estão extintas.
        Belo Horizonte é famosa pelos seus mais de 12.000 bares espalhados
pela cidade, sendo considerada como a “capital dos botequins” atingindo “uma
quantidade per capita maior que a de qualquer outra cidade do país” (KUGEL:
http://www.bardoveio.com.br/NY.html). Fato que faz crescer cada vez mais o
ditado popular “se Minas não tem mar, vamo pro bar” recitado entre os jovens
de até 100 anos de idade pelas noites belo-horizontinas.
        No Mercado Central, além da comercialização de hortifrutigranjeiros,
animais, flores, grãos, temperos, embalagens, peixes, material para limpeza,
artigos de decoração, artesanatos, etc. totalizando por volta de 389
estabelecimentos, movendo um total de 2200 trabalhadores todos os dias e
uma renda de R$ 9 milhões a R$ 12 milhões por mês, há também os mais
famosos bares e restaurantes da região central de Belo Horizonte, somando
um total de 17 estabelecimentos dentro do quarteirão fechado do Mercado
central, localizado no quadrilátero limitado pelas ruas Curitiba, Santa Catarina,
dos Goitacazes e Avenida Augusto de Lima.
        Os principais bares e restaurantes do local são: o bar do Mané Doido;
restaurante Casa cheia; o Bar Mercado Central e o Bar São Judas Tadeu.


1
  Graduando do 3º período de História do Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH. Trabalho
para a disciplina Etno-História, ministrada pelo professor José Humberto Rodrigues.
2
  Gueto Urbano: Onde são confinadas certas minorias por imposições econômicas, culturais e/ou raciais
nas grandes cidades

                                                                                                   2
Longe dos bairros nobres da capital, como a Savassi, onde se localizam
os bares nobres da cidade, marcados pela elegância e pelo nível de seus
fregueses, como contra ponto, os bares do Mercado Central adotam uma lógica
quase que contrária a esses bares da cidade, por funcionarem somente
durante as horas úteis do dia (iniciando o funcionamento por volta das 10 horas
da manhã e finalizando às 18 horas) e por serem marcados pelo desconforto,
pois a maioria dos estabelecimentos não há mesas tendo o freguês de tomar
sua cervejinha e deliciar-se com seu tira-gosto de pé em um espaço mínimo,
muitas vezes acotovelando-se com outros fregueses. Pensamos que esse
caráter pode ser um fator desanimador para o freqüentador, mas muito pelo
contrário, é aí que nascem grandes amizades como um exemplo entre o
vendedor de rua e o advogado na hora do almoço ou no horário de lazer. É
como destaca Eduardo Costa a comodidade dos estabelecimentos:

                      As horas passam. Aos poucos, o público vai mudando de lugar:
                      diminui nas outras áreas e cresce geometricamente nos bares.
                      Agora, fica até difícil entrar pela Santa Catarina e pela Curitiba,
                      que concentram o maior número de freqüentadores. Em um
                      dos bares, com o carrinho de compras de um lado e o filho de,
                      aproximadamente, 10 anos, o secretário de Finanças da
                      Prefeitura de Belo Horizonte, Júlio Pires, acena e acrescenta:
                      Tá quente, mas tá bom. Está é outra característica constatada
                      instantaneamente e que nos proporciona tanta curiosidade:
                      pessoas de diferentes origens que se ajeitam, em pé, nas
                      escassas cadeiras ou em bancos improvisados, para
                      “bebericar” e trocar idéias. E é visível o espírito de colaboração,
                      com o “dá licença”, “pode encostar”, “chega aí”. (COSTA, 2007,
                      p.50)

      Tornando o local um dos poucos lugares que reúnem todas as classes
sociais da cidade sem discriminação, mesmo nos finais de semana quando o
movimento é feito especialmente por pessoas da classe alta da cidade, não
vemos nenhuma reclamação de destrato. Vemos nos trechos a seguir de duas
reportagens feitas por Marcela Souza e Karla Mendes respectivamente, que
quem freqüenta os bares do mercado, não estão muito interessados nos
produtos que estão consumindo (que são de excelente qualidade), mas no
ambiente acolhedor:

                      Os botequins também fazem enorme sucesso entre os
                      freqüentadores. Apesar da sujeira e do desconforto, eles vivem

                                                                                       3
lotados, especialmente aos sábados. São estudantes,
                     executivos e operários que não abrem mão de um chope
                     gelado e um belo prato de torresmo. “O ambiente aqui é
                     descontraído e te deixa muito à vontade”, explica o estudante
                     de Economia Lúcio Garcia Caldeira. (SOUZA, 1993, p.5)

                     “Recebemos todo tipo de público, mas no sábado, predominam
                     os cervejeiros de classe média alta e alta e, no domingo, o
                     público é a classe A” diz [Macoud Patrocínio]. (MENDES, 2007,
                     p.6)

      Uma vez dentro do Mercado Central, o mau humor não é bem-vindo, o
ritmo de vida é totalmente diferente que o da cidade que o cerca, pessoas
totalmente sem pressa, sempre abertas a uma boa conversa em qualquer um
dos bares sempre lotados a qualquer hora e qualquer dia da semana.
Tornando-se uma atraente terapia para o corpo, alma e mente, principalmente
para quem quer curar sua ressaca com outro “porre” depois de uma noite
agitada.
      A maioria das pessoas que entram pela primeira vez nos corredores
escuros do Mercado Central, talvez tenha um único objetivo, fazer compras.
Mas como todo bom mineiro cultiva a cultura do boteco, a maioria acaba sendo
seduzido pelo cheiro do tira-gosto feito na hora misturado aos cheiros de frutas
e legumes. As pessoas acabam por tomar gosto pelo lugar, voltando outra vez
por puro prazer de tomar uma cervejinha e ter um “dedo de prosa” com outros
freqüentadores. É como destaca poeticamente Fernando Brant:

                     O paladar se aguça diante da visão de queijos, peixes e
                     carnes, panelas e frigideiras fritando e cozinhando o tira-gosto
                     que vai se casar com as cervejas geladas e as melhores
                     cachaças do mundo. (BRANT, 2004, P.5)

      Muitos sonhos nascem e são despedaçados pelos corredores do
Mercado Central, associações são fundadas em conversas distraídas, músicas
e poesias são compostas nos guardanapos por celebres freqüentadores que
passam despercebidos por todos, etc. Assim o inusitado faz a rotina de bar em
bar. Brant destaca dois de seus companheiros de copo:

                     Era um daqueles dias amentos em que agente ganha de
                     presente a conversa solta e inteligente de amigos, na
                     companhia de uma cerveja bem gelada, tendo como cenário o
                     espetáculo de cores, luzes e cheiros do Mercado Central.


                                                                                   4
Comigo estavam o escritor Sérgio Sant’Anna e o compositor
                       Tavinho Moura. (BRANT, 2004, p.21)

      Para quem ganha a vida compondo, é impossível freqüentar o Mercado
Central e não compor nada, mesmo que seja um rascunho sem compromisso.
      Mesmo estando dentro de um bar no Mercado Central, o sentido de
família não é perdido, como destaca Eduardo Costa:

                       Um grupo de amigos – na sua maioria juízes e
                       desembargadores – liderado por Ayrton Maia, que se
                       acostumara a reuniões improvisadas “num cantinho” da loja do
                       Rei da Feijoada, decidiu buscar um espaço mais organizado.
                       Então, alugou uma loja nas imediações com o único objetivo de
                       ali se reunir nas manhãs de sábado. Não durou muito.
                       Ninguém entrou em detalhes, mas conta-se que alguns, “mais
                       empolgados”, começaram a levar mulheres (que não eram as
                       respectivas esposas) para o encontro. Devolveram a loja e
                       voltaram ao improviso, explícito, apertados em uma pia da loja.
                       Afinal, como sempre afirmava o doutro Ayrton, “o Mercado é
                       bom exatamente porque aqui há respeito, sentido de família”.
                       (COSTA, 2007, p.31)

      12 bares do Mercado Central participam do festival municipal “Comida di
Buteco” e do festival nacional “Bar em Bar” com seus principais atrativos, o
melhor da comida mineira, o último festival mencionado é realizado no
estacionamento    do    Mercado     Central    atraindo   pessoas    de   todas    as
nacionalidades entre os dias 29 de outubro a 05 de dezembro, juntamente com
42 estabelecimentos da capital, a fim de popularizar pratos e proporcionar mais
investimentos e inserção de mais um atrativo da capital na cena turística de
Minas Gerais.
      Dos festivais gastronômicos, são participantes os bares e pratos: Bar
Café Requinte, "Tá no Jiló"; Bar Campinho, "Xodó do Mineirinho"; Bar da Lora,
"Mistura da Lora"; Bar da Tia, "Mistura da Tia"; Bar do José Maria, "Casadinho
de Fígado"; Bar do Pelé, "Balaio de Gato"; Bar e Restaurante Casa Cheia,
"Porconóbis de Sabugosa"; Bar Fortaleza, "Fígado com Jiló do Fortaleza"; Bar
Fortaleza II, "Figueiredo do Perereca"; Bom Bar, "Fígado Acebolado Estilo
Mercado Central"; Bom Grill, "Carne de Sol à La Bom Grill"; Rei do Torresmo,
"Pururuca Mineira".
      Este lugar mágico que é o Mercado Central, é um dos raros lugares em
uma cidade do porte de Belo Horizonte onde não há fronteira entre o pobre e o

                                                                                    5
rico, talvez o único lugar onde a democracia é exercida em sua plenitude, onde
a sensibilidade é aflorada e a gentileza é o primeiro mandamento, não
importando se você está de terno ou chinelo, o atendimento sempre será o
mesmo, não importa se você seja um velho freguês ou que esteja só de
passagem, sempre será surpreendido com um bom dia ou boa tarde, um
sorriso sempre sincero que despertará a vontade de sempre retornar. O
Mercado Central há muito tempo descobriu que a chave do sucesso não está
só na ótima qualidade da mercadoria que vende, mas nas pessoas que cativam
através de um bom atendimento.
      Porém, o Mercado Central não nasceu com a dinâmica que vemos hoje,
ele foi inaugurado em seu atual endereço no dia 7 de setembro de 1929, com o
objetivo de abastecer com gêneros alimentícios a jovem capital mineira. Na
primeira metade do século XX, o Mercado Central era freqüentado somente por
pessoas da classe baixa, trabalhadores do próprio mercado e empregadas
domésticas, tomando as características de um gueto urbano, como destaca
Fernando Brant:

                    Lauro Filogônio, veterano freqüentador do Mercado Central,
                    conta que, nos primeiros tempos, as mulheres donas de casa
                    não apareciam por ali. Eram tempos de costumes
                    engravatados, de formalidade e moralismo. Só as empregadas
                    domésticas enfeitavam o ambiente, com a graça que toda
                    mulher possui. Bem antes da hora do almoço, lá vinham as
                    moças, com listas de compras e dinheiro ou cadernetas de
                    débito no bolso. Cumprida a tarefa, elas voltavam às
                    residências para providenciar o almoço das famílias. (BRANT,
                    2004, p.10)

      Quando o mercado foi transferido para a então Avenida Paraopeba
(Augusto de Lima), acabou se tornando alvo de condenação, pois do outro lado
estava instalado a Escola de Aperfeiçoamento de Professores, como enfatiza
Eduardo Costa:

                    Na frente do Mercado Central, do outro lado da Avenida
                    Augusto de Lima, onde hoje existe o Minascentro, a avenida
                    abrigava – nos tempos em que se chamava Paraopeba –
                    primeiro, a Escola de Aperfeiçoamento de Professores, depois,
                    a Secretaria de Saúde. Quando o Mercado foi ali instalado,
                    houve quem condenasse, porque não era exatamente um
                    ambiente adequado para ser visto pelas “mocinhas” que
                    estudavam do outro lado da avenida. (COSTA, 2007, p.31)

                                                                               6
Na primeira metade do século XX, a diversão da classe alta se
concentrava na área boemia da cidade, na rua da Bahia e adjacências,
principalmente no Bar do Ponto. O Bar do Ponto, era o ponto de reunião
preferido de intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade, onde as
conversas giravam entorno das prioridades da jovem capital:

                    Em pesquisa em jornais e revistas das primeiras décadas,
                    constata-se que a grande feira não era prioridade dos que
                    faziam a crônica da cidade. Carlos Drummond de Andrade, por
                    exemplo, publicou, sob os pseudônimos de Antônio Crispim e
                    Barba Azul, entre 1930 e 1934, textos que falavam sobre
                    espetáculos do Teatro Municipal, filmes do Cine Glória e
                    conversas do Bar do Ponto. (COSTA, 2007, p. 32)

      Um dos primeiro bares a serem abertos, foi o Gato Preto em 1930, em
1948 foi inaugurado o Bar do Juca Pato, do espanhol Floreal, na década de
1950 funcionou o Café do Seu Noé, muito conhecido pelos seus pastéis de
carne, queijo e palmito. O principal público desses bares eram os próprios
trabalhadores do Mercado, mesmo com abertura de bares, o movimento quase
não mudou.
      A barreira que separava a classe alta da classe baixa dentro da Avenida
do Contorno, começou a ser demolida aos poucos depois da década de 1950,
por um lado pela chegada de sacolões e supermercados à capital, e por outro,
pela perda do brilho da zona boemia da rua da Bahia, pelo fim do Bar do Ponto
e outros pontos.
      Com a chegada dos supermercados e sacolões, a função do Mercado
Central começou a perder o sentido, pois não era mais o único ponto de
abastecimento da cidade. Assim a decadência do quarteirão iniciou-se. Para
sobreviver, ele começou com um longo processo de diversificação dos
produtos depois de sua privatização na década de 1960.
      Foi somente depois da finalização da construção da estrutura de
concreto na década de 1970 que o mercado alcançou a diversificação de sua
clientela, com a abertura de outros bares e os primeiros restaurantes como o
Casa Cheia também aberto nesse período depois dos conselhos de um amigo:




                                                                             7
“Ô mulher, compra um fogão, umas panelas e faz comida pra
                              vender pra esse povo, você vai ganhar dinheiro com isso”. De
                              tanto ouvir essas palavras do fornecedor de queijos de Campos
                              Altos, Maria Nazaré de Jesus passou a investir em um negócio
                              que mudou sua vida. (BRANT, 2004, p.60)


           Da década de 1970 até os dias atuais, ocorre a cada geração uma
fantástica “descoberta” cultural do Mercado Central, principalmente de seus
botecos, onde muitos dos freqüentadores de hoje são filhos e netos da antiga
classe alta que freqüentava a antiga zona boemia da Rua da Bahia.
           Em 2005, foi constatado em algumas pesquisas3 realizada com 700
pessoas em dias diferentes da semana, dos quais 67,6% dos freqüentadores
estão entre a faixa de 21 a 50 anos de idade, 33,9% visitam o local
semanalmente, 44,2% visitam por lazer e/ou encontrar amigos, 42,6% não vão
acompanhados, 40,4% sempre encontram conhecidos e 65,8% sempre estão
dispostas a conversar com pessoas desconhecidas. Tornando-se um local
eclético culturalmente, agradável de visitar e de sempre retornar para encontrar
amigos, fazer novos e sociabilizar-se nos bares apertados do Mercado Central.
           Quando circulamos pelos corredores do Mercado Central, síntese de
toda a cultura existente nas Minas Gerais e de todo o Brasil, podemos ver um
grande número de idosos andando calmamente pelo local, ou sentados nos
balcões dos bares tomando uma cerveja gelada, com ar de nostalgia e
felicitados por estarem ali, esperando por alguém que queira perder (ganhar)
tempo em um “dedo de prosa” e saber um pouco mais sobre a história e sobre
os causos de toda aquela gente.




3
    Pesquisa registrada no livro: Mercado Central: A convivência entre iguais e diferentes, páginas: (67-75)

                                                                                                           8
Referências:
BRANT, Fernando. Mercado Central. Belo Horizonte: Conceito, 2004. 79 p.
(BH.A cidade de cada um ;v. 2)

COSTA, Eduardo. Mercado central: a convivência entre iguais e diferentes.
Belo Horizonte: Edição do autor, 2007. 80 p.

BRITO, Fátima Rosângela Salada de Moura. Estratégias de fidelização de
clientes no Mercado Central. 2001. 57 f. Monografia (Pós-Graduação) –
Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH, Belo Horizonte.

MENDES, Karla. Mercado Central, Quase um shopping. JORNAL ESTADO DE
MINAS. Belo Horizonte, 13 maio, 2007. Economia, p. 6.

SOUZA, Marcela. O inusitado faz rotina. Revista Múltipla, Belo Horizonte:
FUNDAC-BH, v. 3, n. 2, p. 4-5, junho de 1993.

BAR do Véio. Desenvolvido por: KUGEL, Seth, 28/10/2007. Apresenta
informações e notícias sobre o Bar do Véio. Disponível em:
<http://www.bardoveio.com.br/NY.html>. Acesso em 20 abr.2009.

UOL Notícias. Desenvolvido por: BRAGON, Rayder, 09/05/2008. Portal de
notícias.                              Disponível                        em:
<http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/05/09/ult23u2215.jhtm>. Acesso em 20
abr.2009.

URBANISTAS/BH. Desenvolvido por: MARTINS, Frank et al, 28/10/2008. Blog
sobre             Belo          Horizonte.          Disponível          em:
<http://urbanistas.com.br/bh/2008/10/28/quem-nao-tem-mar-vai-pro-bar/>.
Acesso em 20 abr.2009.




                                                                          9

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Roteiro americano
Roteiro americanoRoteiro americano
Roteiro americano
Luara Schamó
 
0112santa23
0112santa230112santa23
0112santa23
Folha de Pernambuco
 
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013 Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
paulo maia
 
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
premierbrasileventos
 
Gralha azul no. 23 julho 2012
Gralha azul no. 23   julho 2012Gralha azul no. 23   julho 2012
Gralha azul no. 23 julho 2012
Sérgio Pitaki
 
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
Mauricio Campos
 
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
premierbrasileventos
 
20.revolução de 1930
20.revolução de 193020.revolução de 1930
20.revolução de 1930
22leozao
 

Mais procurados (8)

Roteiro americano
Roteiro americanoRoteiro americano
Roteiro americano
 
0112santa23
0112santa230112santa23
0112santa23
 
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013 Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
Jornal Zoada Bonita Setembro 2013
 
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
CALENDARIO CONGRESSOS 2008 SAO PAULO
 
Gralha azul no. 23 julho 2012
Gralha azul no. 23   julho 2012Gralha azul no. 23   julho 2012
Gralha azul no. 23 julho 2012
 
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
Circuito Charmoso da Cachaça - Paraná
 
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
CALENDARIO EVENTOS CONGRESSOS SAO PAULO 2008
 
20.revolução de 1930
20.revolução de 193020.revolução de 1930
20.revolução de 1930
 

Semelhante a Espaço de Sociabilidade: Mercado Central: "Se Minas não tem mar, vamo pro bar"

Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdfLinguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
BrunoCosta364836
 
O Bandeirante 092006
O Bandeirante 092006O Bandeirante 092006
O Bandeirante 092006
Marcos Gimenes Salun
 
Urbanismo E Mobilidade Dr1
Urbanismo E Mobilidade Dr1Urbanismo E Mobilidade Dr1
Urbanismo E Mobilidade Dr1
Manuel Campinho
 
Boteco zé mané-institucional2013
Boteco zé mané-institucional2013Boteco zé mané-institucional2013
Boteco zé mané-institucional2013
publizi
 
Venha para o circuito do ouro
Venha para o circuito do ouroVenha para o circuito do ouro
Venha para o circuito do ouro
Ubiraney Figueiredo Silva
 
Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
 Revista Leque 2. Edição Dezembro/14 Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
Revista Leque
 
Bar 9 Planejamento de Produto e Plano Investidores
Bar 9   Planejamento de Produto e Plano InvestidoresBar 9   Planejamento de Produto e Plano Investidores
Bar 9 Planejamento de Produto e Plano Investidores
Sérgio Nunes
 
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratenseTempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
Ivanilda Junqueira
 
Edição março 2010
Edição março 2010Edição março 2010
Edição março 2010
Lianeuechi
 
Case beco do vinil
Case beco do vinilCase beco do vinil
Case beco do vinil
Dú Pente
 
Os Jovens e a Vida Nocturna
Os Jovens e a Vida NocturnaOs Jovens e a Vida Nocturna
Os Jovens e a Vida Nocturna
JMESSCP
 
A Retomada do Bairro da Lapa, RJ
A Retomada do Bairro da Lapa, RJA Retomada do Bairro da Lapa, RJ
A Retomada do Bairro da Lapa, RJ
Augusto Motta Veríssimo
 
Discurso cidadão olindense
Discurso cidadão olindenseDiscurso cidadão olindense
Discurso cidadão olindense
Jamildo Melo
 
Boletim cultural outubro 2013
Boletim cultural   outubro 2013Boletim cultural   outubro 2013
Boletim cultural outubro 2013
Celso Corrêa de Freitas
 
Traçados e destinos final menor
Traçados e destinos   final menorTraçados e destinos   final menor
Traçados e destinos final menor
passeiosculturais1
 
Bolcultset2
Bolcultset2Bolcultset2
Ano 4 nº15 - julho agosto - 2012
Ano 4 nº15  - julho agosto - 2012Ano 4 nº15  - julho agosto - 2012
Ano 4 nº15 - julho agosto - 2012
inbrasci
 
Trecho
TrechoTrecho
Gastronomia nos tempos do barão
Gastronomia nos tempos do barãoGastronomia nos tempos do barão
Gastronomia nos tempos do barão
quituteira quitutes
 
Politica De Marcas Sp[1]
Politica De Marcas   Sp[1]Politica De Marcas   Sp[1]
Politica De Marcas Sp[1]
Faustino Albano Pereira Junior
 

Semelhante a Espaço de Sociabilidade: Mercado Central: "Se Minas não tem mar, vamo pro bar" (20)

Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdfLinguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
Linguagens - Tema 5 - Lista de questões.pdf
 
O Bandeirante 092006
O Bandeirante 092006O Bandeirante 092006
O Bandeirante 092006
 
Urbanismo E Mobilidade Dr1
Urbanismo E Mobilidade Dr1Urbanismo E Mobilidade Dr1
Urbanismo E Mobilidade Dr1
 
Boteco zé mané-institucional2013
Boteco zé mané-institucional2013Boteco zé mané-institucional2013
Boteco zé mané-institucional2013
 
Venha para o circuito do ouro
Venha para o circuito do ouroVenha para o circuito do ouro
Venha para o circuito do ouro
 
Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
 Revista Leque 2. Edição Dezembro/14 Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
Revista Leque 2. Edição Dezembro/14
 
Bar 9 Planejamento de Produto e Plano Investidores
Bar 9   Planejamento de Produto e Plano InvestidoresBar 9   Planejamento de Produto e Plano Investidores
Bar 9 Planejamento de Produto e Plano Investidores
 
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratenseTempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
Tempo de lazer cinema e cultura popular no cotidiano pratense
 
Edição março 2010
Edição março 2010Edição março 2010
Edição março 2010
 
Case beco do vinil
Case beco do vinilCase beco do vinil
Case beco do vinil
 
Os Jovens e a Vida Nocturna
Os Jovens e a Vida NocturnaOs Jovens e a Vida Nocturna
Os Jovens e a Vida Nocturna
 
A Retomada do Bairro da Lapa, RJ
A Retomada do Bairro da Lapa, RJA Retomada do Bairro da Lapa, RJ
A Retomada do Bairro da Lapa, RJ
 
Discurso cidadão olindense
Discurso cidadão olindenseDiscurso cidadão olindense
Discurso cidadão olindense
 
Boletim cultural outubro 2013
Boletim cultural   outubro 2013Boletim cultural   outubro 2013
Boletim cultural outubro 2013
 
Traçados e destinos final menor
Traçados e destinos   final menorTraçados e destinos   final menor
Traçados e destinos final menor
 
Bolcultset2
Bolcultset2Bolcultset2
Bolcultset2
 
Ano 4 nº15 - julho agosto - 2012
Ano 4 nº15  - julho agosto - 2012Ano 4 nº15  - julho agosto - 2012
Ano 4 nº15 - julho agosto - 2012
 
Trecho
TrechoTrecho
Trecho
 
Gastronomia nos tempos do barão
Gastronomia nos tempos do barãoGastronomia nos tempos do barão
Gastronomia nos tempos do barão
 
Politica De Marcas Sp[1]
Politica De Marcas   Sp[1]Politica De Marcas   Sp[1]
Politica De Marcas Sp[1]
 

Espaço de Sociabilidade: Mercado Central: "Se Minas não tem mar, vamo pro bar"

  • 1. ESPAÇO DE SOCIABILIDADE Mercado Central: “Se Minas não tem mar, vamo pro bar” Fernando Ribeiro Pinto1 Resumo: Análise da sociabilidade cultural dos bares do Mercado Central frente ao frenético movimento urbano e individualista no cotidiano de Belo Horizonte e na história da cidade. Palavras chave: Mercado Central; sociabilidade; bar. Este artigo tem como objetivo discutir a sociabilidade existente em um dos principais guetos urbanos2 de Belo Horizonte, os bares do Mercado Central, onde as diferenças econômicas e raciais há muito estão extintas. Belo Horizonte é famosa pelos seus mais de 12.000 bares espalhados pela cidade, sendo considerada como a “capital dos botequins” atingindo “uma quantidade per capita maior que a de qualquer outra cidade do país” (KUGEL: http://www.bardoveio.com.br/NY.html). Fato que faz crescer cada vez mais o ditado popular “se Minas não tem mar, vamo pro bar” recitado entre os jovens de até 100 anos de idade pelas noites belo-horizontinas. No Mercado Central, além da comercialização de hortifrutigranjeiros, animais, flores, grãos, temperos, embalagens, peixes, material para limpeza, artigos de decoração, artesanatos, etc. totalizando por volta de 389 estabelecimentos, movendo um total de 2200 trabalhadores todos os dias e uma renda de R$ 9 milhões a R$ 12 milhões por mês, há também os mais famosos bares e restaurantes da região central de Belo Horizonte, somando um total de 17 estabelecimentos dentro do quarteirão fechado do Mercado central, localizado no quadrilátero limitado pelas ruas Curitiba, Santa Catarina, dos Goitacazes e Avenida Augusto de Lima. Os principais bares e restaurantes do local são: o bar do Mané Doido; restaurante Casa cheia; o Bar Mercado Central e o Bar São Judas Tadeu. 1 Graduando do 3º período de História do Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH. Trabalho para a disciplina Etno-História, ministrada pelo professor José Humberto Rodrigues. 2 Gueto Urbano: Onde são confinadas certas minorias por imposições econômicas, culturais e/ou raciais nas grandes cidades 2
  • 2. Longe dos bairros nobres da capital, como a Savassi, onde se localizam os bares nobres da cidade, marcados pela elegância e pelo nível de seus fregueses, como contra ponto, os bares do Mercado Central adotam uma lógica quase que contrária a esses bares da cidade, por funcionarem somente durante as horas úteis do dia (iniciando o funcionamento por volta das 10 horas da manhã e finalizando às 18 horas) e por serem marcados pelo desconforto, pois a maioria dos estabelecimentos não há mesas tendo o freguês de tomar sua cervejinha e deliciar-se com seu tira-gosto de pé em um espaço mínimo, muitas vezes acotovelando-se com outros fregueses. Pensamos que esse caráter pode ser um fator desanimador para o freqüentador, mas muito pelo contrário, é aí que nascem grandes amizades como um exemplo entre o vendedor de rua e o advogado na hora do almoço ou no horário de lazer. É como destaca Eduardo Costa a comodidade dos estabelecimentos: As horas passam. Aos poucos, o público vai mudando de lugar: diminui nas outras áreas e cresce geometricamente nos bares. Agora, fica até difícil entrar pela Santa Catarina e pela Curitiba, que concentram o maior número de freqüentadores. Em um dos bares, com o carrinho de compras de um lado e o filho de, aproximadamente, 10 anos, o secretário de Finanças da Prefeitura de Belo Horizonte, Júlio Pires, acena e acrescenta: Tá quente, mas tá bom. Está é outra característica constatada instantaneamente e que nos proporciona tanta curiosidade: pessoas de diferentes origens que se ajeitam, em pé, nas escassas cadeiras ou em bancos improvisados, para “bebericar” e trocar idéias. E é visível o espírito de colaboração, com o “dá licença”, “pode encostar”, “chega aí”. (COSTA, 2007, p.50) Tornando o local um dos poucos lugares que reúnem todas as classes sociais da cidade sem discriminação, mesmo nos finais de semana quando o movimento é feito especialmente por pessoas da classe alta da cidade, não vemos nenhuma reclamação de destrato. Vemos nos trechos a seguir de duas reportagens feitas por Marcela Souza e Karla Mendes respectivamente, que quem freqüenta os bares do mercado, não estão muito interessados nos produtos que estão consumindo (que são de excelente qualidade), mas no ambiente acolhedor: Os botequins também fazem enorme sucesso entre os freqüentadores. Apesar da sujeira e do desconforto, eles vivem 3
  • 3. lotados, especialmente aos sábados. São estudantes, executivos e operários que não abrem mão de um chope gelado e um belo prato de torresmo. “O ambiente aqui é descontraído e te deixa muito à vontade”, explica o estudante de Economia Lúcio Garcia Caldeira. (SOUZA, 1993, p.5) “Recebemos todo tipo de público, mas no sábado, predominam os cervejeiros de classe média alta e alta e, no domingo, o público é a classe A” diz [Macoud Patrocínio]. (MENDES, 2007, p.6) Uma vez dentro do Mercado Central, o mau humor não é bem-vindo, o ritmo de vida é totalmente diferente que o da cidade que o cerca, pessoas totalmente sem pressa, sempre abertas a uma boa conversa em qualquer um dos bares sempre lotados a qualquer hora e qualquer dia da semana. Tornando-se uma atraente terapia para o corpo, alma e mente, principalmente para quem quer curar sua ressaca com outro “porre” depois de uma noite agitada. A maioria das pessoas que entram pela primeira vez nos corredores escuros do Mercado Central, talvez tenha um único objetivo, fazer compras. Mas como todo bom mineiro cultiva a cultura do boteco, a maioria acaba sendo seduzido pelo cheiro do tira-gosto feito na hora misturado aos cheiros de frutas e legumes. As pessoas acabam por tomar gosto pelo lugar, voltando outra vez por puro prazer de tomar uma cervejinha e ter um “dedo de prosa” com outros freqüentadores. É como destaca poeticamente Fernando Brant: O paladar se aguça diante da visão de queijos, peixes e carnes, panelas e frigideiras fritando e cozinhando o tira-gosto que vai se casar com as cervejas geladas e as melhores cachaças do mundo. (BRANT, 2004, P.5) Muitos sonhos nascem e são despedaçados pelos corredores do Mercado Central, associações são fundadas em conversas distraídas, músicas e poesias são compostas nos guardanapos por celebres freqüentadores que passam despercebidos por todos, etc. Assim o inusitado faz a rotina de bar em bar. Brant destaca dois de seus companheiros de copo: Era um daqueles dias amentos em que agente ganha de presente a conversa solta e inteligente de amigos, na companhia de uma cerveja bem gelada, tendo como cenário o espetáculo de cores, luzes e cheiros do Mercado Central. 4
  • 4. Comigo estavam o escritor Sérgio Sant’Anna e o compositor Tavinho Moura. (BRANT, 2004, p.21) Para quem ganha a vida compondo, é impossível freqüentar o Mercado Central e não compor nada, mesmo que seja um rascunho sem compromisso. Mesmo estando dentro de um bar no Mercado Central, o sentido de família não é perdido, como destaca Eduardo Costa: Um grupo de amigos – na sua maioria juízes e desembargadores – liderado por Ayrton Maia, que se acostumara a reuniões improvisadas “num cantinho” da loja do Rei da Feijoada, decidiu buscar um espaço mais organizado. Então, alugou uma loja nas imediações com o único objetivo de ali se reunir nas manhãs de sábado. Não durou muito. Ninguém entrou em detalhes, mas conta-se que alguns, “mais empolgados”, começaram a levar mulheres (que não eram as respectivas esposas) para o encontro. Devolveram a loja e voltaram ao improviso, explícito, apertados em uma pia da loja. Afinal, como sempre afirmava o doutro Ayrton, “o Mercado é bom exatamente porque aqui há respeito, sentido de família”. (COSTA, 2007, p.31) 12 bares do Mercado Central participam do festival municipal “Comida di Buteco” e do festival nacional “Bar em Bar” com seus principais atrativos, o melhor da comida mineira, o último festival mencionado é realizado no estacionamento do Mercado Central atraindo pessoas de todas as nacionalidades entre os dias 29 de outubro a 05 de dezembro, juntamente com 42 estabelecimentos da capital, a fim de popularizar pratos e proporcionar mais investimentos e inserção de mais um atrativo da capital na cena turística de Minas Gerais. Dos festivais gastronômicos, são participantes os bares e pratos: Bar Café Requinte, "Tá no Jiló"; Bar Campinho, "Xodó do Mineirinho"; Bar da Lora, "Mistura da Lora"; Bar da Tia, "Mistura da Tia"; Bar do José Maria, "Casadinho de Fígado"; Bar do Pelé, "Balaio de Gato"; Bar e Restaurante Casa Cheia, "Porconóbis de Sabugosa"; Bar Fortaleza, "Fígado com Jiló do Fortaleza"; Bar Fortaleza II, "Figueiredo do Perereca"; Bom Bar, "Fígado Acebolado Estilo Mercado Central"; Bom Grill, "Carne de Sol à La Bom Grill"; Rei do Torresmo, "Pururuca Mineira". Este lugar mágico que é o Mercado Central, é um dos raros lugares em uma cidade do porte de Belo Horizonte onde não há fronteira entre o pobre e o 5
  • 5. rico, talvez o único lugar onde a democracia é exercida em sua plenitude, onde a sensibilidade é aflorada e a gentileza é o primeiro mandamento, não importando se você está de terno ou chinelo, o atendimento sempre será o mesmo, não importa se você seja um velho freguês ou que esteja só de passagem, sempre será surpreendido com um bom dia ou boa tarde, um sorriso sempre sincero que despertará a vontade de sempre retornar. O Mercado Central há muito tempo descobriu que a chave do sucesso não está só na ótima qualidade da mercadoria que vende, mas nas pessoas que cativam através de um bom atendimento. Porém, o Mercado Central não nasceu com a dinâmica que vemos hoje, ele foi inaugurado em seu atual endereço no dia 7 de setembro de 1929, com o objetivo de abastecer com gêneros alimentícios a jovem capital mineira. Na primeira metade do século XX, o Mercado Central era freqüentado somente por pessoas da classe baixa, trabalhadores do próprio mercado e empregadas domésticas, tomando as características de um gueto urbano, como destaca Fernando Brant: Lauro Filogônio, veterano freqüentador do Mercado Central, conta que, nos primeiros tempos, as mulheres donas de casa não apareciam por ali. Eram tempos de costumes engravatados, de formalidade e moralismo. Só as empregadas domésticas enfeitavam o ambiente, com a graça que toda mulher possui. Bem antes da hora do almoço, lá vinham as moças, com listas de compras e dinheiro ou cadernetas de débito no bolso. Cumprida a tarefa, elas voltavam às residências para providenciar o almoço das famílias. (BRANT, 2004, p.10) Quando o mercado foi transferido para a então Avenida Paraopeba (Augusto de Lima), acabou se tornando alvo de condenação, pois do outro lado estava instalado a Escola de Aperfeiçoamento de Professores, como enfatiza Eduardo Costa: Na frente do Mercado Central, do outro lado da Avenida Augusto de Lima, onde hoje existe o Minascentro, a avenida abrigava – nos tempos em que se chamava Paraopeba – primeiro, a Escola de Aperfeiçoamento de Professores, depois, a Secretaria de Saúde. Quando o Mercado foi ali instalado, houve quem condenasse, porque não era exatamente um ambiente adequado para ser visto pelas “mocinhas” que estudavam do outro lado da avenida. (COSTA, 2007, p.31) 6
  • 6. Na primeira metade do século XX, a diversão da classe alta se concentrava na área boemia da cidade, na rua da Bahia e adjacências, principalmente no Bar do Ponto. O Bar do Ponto, era o ponto de reunião preferido de intelectuais, como Carlos Drummond de Andrade, onde as conversas giravam entorno das prioridades da jovem capital: Em pesquisa em jornais e revistas das primeiras décadas, constata-se que a grande feira não era prioridade dos que faziam a crônica da cidade. Carlos Drummond de Andrade, por exemplo, publicou, sob os pseudônimos de Antônio Crispim e Barba Azul, entre 1930 e 1934, textos que falavam sobre espetáculos do Teatro Municipal, filmes do Cine Glória e conversas do Bar do Ponto. (COSTA, 2007, p. 32) Um dos primeiro bares a serem abertos, foi o Gato Preto em 1930, em 1948 foi inaugurado o Bar do Juca Pato, do espanhol Floreal, na década de 1950 funcionou o Café do Seu Noé, muito conhecido pelos seus pastéis de carne, queijo e palmito. O principal público desses bares eram os próprios trabalhadores do Mercado, mesmo com abertura de bares, o movimento quase não mudou. A barreira que separava a classe alta da classe baixa dentro da Avenida do Contorno, começou a ser demolida aos poucos depois da década de 1950, por um lado pela chegada de sacolões e supermercados à capital, e por outro, pela perda do brilho da zona boemia da rua da Bahia, pelo fim do Bar do Ponto e outros pontos. Com a chegada dos supermercados e sacolões, a função do Mercado Central começou a perder o sentido, pois não era mais o único ponto de abastecimento da cidade. Assim a decadência do quarteirão iniciou-se. Para sobreviver, ele começou com um longo processo de diversificação dos produtos depois de sua privatização na década de 1960. Foi somente depois da finalização da construção da estrutura de concreto na década de 1970 que o mercado alcançou a diversificação de sua clientela, com a abertura de outros bares e os primeiros restaurantes como o Casa Cheia também aberto nesse período depois dos conselhos de um amigo: 7
  • 7. “Ô mulher, compra um fogão, umas panelas e faz comida pra vender pra esse povo, você vai ganhar dinheiro com isso”. De tanto ouvir essas palavras do fornecedor de queijos de Campos Altos, Maria Nazaré de Jesus passou a investir em um negócio que mudou sua vida. (BRANT, 2004, p.60) Da década de 1970 até os dias atuais, ocorre a cada geração uma fantástica “descoberta” cultural do Mercado Central, principalmente de seus botecos, onde muitos dos freqüentadores de hoje são filhos e netos da antiga classe alta que freqüentava a antiga zona boemia da Rua da Bahia. Em 2005, foi constatado em algumas pesquisas3 realizada com 700 pessoas em dias diferentes da semana, dos quais 67,6% dos freqüentadores estão entre a faixa de 21 a 50 anos de idade, 33,9% visitam o local semanalmente, 44,2% visitam por lazer e/ou encontrar amigos, 42,6% não vão acompanhados, 40,4% sempre encontram conhecidos e 65,8% sempre estão dispostas a conversar com pessoas desconhecidas. Tornando-se um local eclético culturalmente, agradável de visitar e de sempre retornar para encontrar amigos, fazer novos e sociabilizar-se nos bares apertados do Mercado Central. Quando circulamos pelos corredores do Mercado Central, síntese de toda a cultura existente nas Minas Gerais e de todo o Brasil, podemos ver um grande número de idosos andando calmamente pelo local, ou sentados nos balcões dos bares tomando uma cerveja gelada, com ar de nostalgia e felicitados por estarem ali, esperando por alguém que queira perder (ganhar) tempo em um “dedo de prosa” e saber um pouco mais sobre a história e sobre os causos de toda aquela gente. 3 Pesquisa registrada no livro: Mercado Central: A convivência entre iguais e diferentes, páginas: (67-75) 8
  • 8. Referências: BRANT, Fernando. Mercado Central. Belo Horizonte: Conceito, 2004. 79 p. (BH.A cidade de cada um ;v. 2) COSTA, Eduardo. Mercado central: a convivência entre iguais e diferentes. Belo Horizonte: Edição do autor, 2007. 80 p. BRITO, Fátima Rosângela Salada de Moura. Estratégias de fidelização de clientes no Mercado Central. 2001. 57 f. Monografia (Pós-Graduação) – Centro Universitário de Belo Horizonte – UNI-BH, Belo Horizonte. MENDES, Karla. Mercado Central, Quase um shopping. JORNAL ESTADO DE MINAS. Belo Horizonte, 13 maio, 2007. Economia, p. 6. SOUZA, Marcela. O inusitado faz rotina. Revista Múltipla, Belo Horizonte: FUNDAC-BH, v. 3, n. 2, p. 4-5, junho de 1993. BAR do Véio. Desenvolvido por: KUGEL, Seth, 28/10/2007. Apresenta informações e notícias sobre o Bar do Véio. Disponível em: <http://www.bardoveio.com.br/NY.html>. Acesso em 20 abr.2009. UOL Notícias. Desenvolvido por: BRAGON, Rayder, 09/05/2008. Portal de notícias. Disponível em: <http://noticias.uol.com.br/ultnot/2008/05/09/ult23u2215.jhtm>. Acesso em 20 abr.2009. URBANISTAS/BH. Desenvolvido por: MARTINS, Frank et al, 28/10/2008. Blog sobre Belo Horizonte. Disponível em: <http://urbanistas.com.br/bh/2008/10/28/quem-nao-tem-mar-vai-pro-bar/>. Acesso em 20 abr.2009. 9