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CULTURA POPULAR: SAMBA DE RODA EM RIACHÃO DO JACUÍPE


                                                                    Alice Ribeiro de Souza Oliveira1
Resumo
Esse artigo faz um estudo acerca do samba de roda no município de Riachão do Jacuípe. Foi
realizado um levantamento dos grupos de samba de roda existentes e da composição de seus
membros. Analisa as condições de produção e perpetuação dessa manifestação cultural; as
relações dos sambadores tanto entre si quanto com a sociedade; a função e a importância da
mulher no samba de roda e a visão dos sambadores em relação à elas. Há ainda a análise do
conteúdo e dos temas mais recorrentes nas músicas compostas e/ou cantadas pelos
sambadores. Por meio das entrevistas foi-lhes dada a oportunidade de serem os protagonistas
de sua própria história.
Palavras chave: Samba de Roda – Riachão do Jacuípe – História Cultural

                                               Abstrat:

This article is a study about the samba de roda in Riachão do Jacuípe, state of Bahia. Were
gathered groups of samba de roda in the municipality and its composition. It analyzes the
conditions of production and perpetuation of this cultural event, the relationships of
sambador, both among themselves and with society, the role and importance of women in the
samba de roda and vision sambador about them. There is also the analysis of the content and
the most recurrent themes in songs written and / or sung by sambador. Through woman, was
given the opportunity to be the protagonists of their own history.

Keywords: Samba de Roda, Riachão do Jacuípe, Cultural History.



1-Introdução:


        O presente artigo faz uma análise a respeito do samba de roda no município de
Riachão do Jacuípe visando torná-lo mais conhecido, respeitado e valorizado como prática
cultural significativa. Assim ao analisar o modo de ser, de agir e as estratégias de
sobrevivência dos grupos de sambadores, este trabalho pretende mostrar para a sociedade a


1
 Graduanda do VIII Semestre do Curso de Licenciatura em História, Campus XIV, da Universidade do Estado
da Bahia-UNEB.
importância que o samba de roda tem para os seus praticantes, contribuindo para a produção e
perpetuação dessa manifestação cultural.
         A Nova História Cultural tem possibilitado o estudo de vários aspectos da sociedade
antes negligenciados pela historiografia tradicional. Ela tem um grande interesse pelo
informal e o popular e o papel das classes subalternas na dinâmica das sociedades. Entre os
vários estudiosos da cultura, Marta Abreu e Jacques Le Goff vêem a cultura popular e o lazer
que é parte do cotidiano de um povo - como um lugar privilegiado para se analisar uma
determinada sociedade .
         Abreu fez uma extraordinária análise da sociedade carioca do século XIX, utilizando
como objeto de estudo uma festa: a Festa do Divino. Assim como a festa, o samba de roda,
uma forma de entretenimento de trabalhadores rurais, é um objeto de análise cujo estudo
poderá contribuir para a compreensão da sociedade jacuipense. O objetivo deste artigo é
examinar as relações dos sujeitos que vivenciam essa prática cultural, tanto entre si quanto
com a sociedade.
         A História cultural abriu um leque de possibilidades de análise de vários temas,
inclusive o de cultura popular antes não estudado. Assim muitos historiadores, inclusive os já
citados acima compreenderam que os conflitos humanos não ocorrem apenas no campo
político e social, mas também no cultural
         Neste trabalho foi feita uma caracterização da sociedade jacuipense para se
compreender a amplitude das dificuldades encontradas pelos sambadores para a manutenção e
preservação do samba de roda e um levantamento dos grupos existentes no município, onde
constatou-se que são formados por trabalhadores rurais, e a cor predominante nos grupos é a
parda.

         Por meio da análise das entrevistas foi possível perceber a rede de sociabilidades; bem
como problematizar o papel da mulher no samba de roda, que apesar de ser para os
sambadores inspiração para a maioria de suas músicas e exercerem um papel fundamental na
roda do samba – o de animadoras – ainda há muitos grupos que são formados exclusivamente
por homens.

         É nesse contexto de inquietude que se inscreve este trabalho, que tem por finalidade
constatar as dificuldades enfrentadas por sambadores e sambadoras de Riachão do Jacuípe
para a realização da prática do samba de roda.
2. Característica da sociedade Jacuipense


       Riachão do Jacuípe localiza-se na mesorregião do nordeste da Bahia, na microrregião
de Serrinha. Sua população, segundo o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e
Estatística) de 2000 é de 31.633 habitantes, predominando os pardos (56,5% da população),
que somados aos que se declararam negros totalizam 64,1% da população. Riachão do Jacuípe
faz parte do espaço denominado de polígono da seca por, entre outros motivos, seu clima ser
semi-árido. As condições naturais são apontadas como principal fator para justificar a
decadência econômica do município a partir da década de 1980. Já que na década anterior,
segundo escreveu Marinélia Silva, em sua dissertação de mestrado, o município era
considerado um dos maiores produtores de sisal da região e a região sisaleira uma das mais
ricas do estado da Bahia. Porém, a partir da década de 80, a cultura do sisal entra em colapso,
devido a substituição da fibra derivada dessa planta por fibra sintética, derivada do petróleo,
na indústria naval e automobilística. Sem apoio do poder público, a partir de então os
respectivos agricultores destruíram os campos de sisal, substituindo-os pelo capim (planta não
resistente à estiagem). Houve grande migração de jacuipenses para São Paulo, Rio de Janeiro
e Salvador em busca de meios de sobrevivência.
       Relacionar a decadência econômica do município de Riachão do Jacuípe apenas com
às condições naturais, é uma idéia construída pela elite e políticos “oportunistas” para se
promoverem às custas da miséria do povo desse lugar (a chamada indústria da seca, onde são
realizadas ações imediatistas que não visam encontrar soluções definitivas para o problema)”
(SILVA, 2005 ).
       Em A Invenção do Nordeste Durval Muniz de Albuquerque analisou profundamente
esse discurso, mostrando que quem construiu essa imagem negativa do Nordeste foi a nossa
elite. Esta preferiu a miséria para a maioria da população dessa região como forma de
manutenção de seus privilégios. O autor supracitado afirma ainda que a Bahia até 1940 não
fazia parte da região Nordeste, vindo a inserir-se após esse período, por interesse da elite
política baiana para usufruir dos recursos da SUDENE – órgão criado como mecanismo de
auxílio aos estados da região para amenizar os reflexos da seca.
       Os políticos e a “elite” jacuipense não agem de forma diferenciada do restante da elite
nordestina. Divulgam a idéia de decadência econômica como consequência direta das
condições naturais. Tal idéia, segundo Marinélia Silva “invade o imaginário da população,
tornando-a inerte, incapaz de lutar e encontrar soluções para tais problemas, já que são vistos
como algo imutável” (SILVA, 2005). Tal comportamento pode ser percebido na música
criada pelo sambador Pedro João Carneiro, denominada de “Seca do Aqueta aí”:


                       “De noventa à noventa e seis,A seca era geral / as nuve se levantaro,Os tanques não
                       tem mais água / o gado, já se acabô / mode a foia do sizá,A plantação que fizeram /
                       eu vi tudo,se acabá / o pobre passano fome,num acha um dia pra ganhá / pobre
                       num,tem pra onde ir / a seca do Aqueta aí, o pobre,tem que aquetá”.


       No trecho desta música o sambador relata sobre a seca que houve em Riachão do
Jacuípe na década de noventa. Nesse, período a população rural passou por muitas
dificuldades, já que não havia água e nem alimentação para o rebanho. O gado era obrigado a
comer folhas de sisal por não haver pastagens, mas morriam, pois este alimento não fazia
digestão. As pessoas não tinham oportunidade de trabalho e nem um bom poder aquisitivo
para ir em busca de melhores condições de sobrevivência, por isso acabavam se conformando
com tal situação. Mal informados dos seus direitos essa população não recebia o apoio devido
do poder público para amenizar os reflexos da seca.




3. O Samba de Roda de Riachão do Jacuípe: origem, características e
disputas


       O samba de roda, no Brasil surgiu no período colonial, visto que foi trazido pelos
escravos africanos. É importante ressaltar que nessa pesquisa pode-se perceber que a maioria
dos sambadores guarda viva em sua memória o continente de origem dessa prática cultural tão
importante para eles, como pode-se perceber nesse depoimento.
       Seguindo uma perspectiva semelhante a de Alessandra Cruz a análise dos depoimentos
dos sambadores como documento oral evidencia elementos de uma “memória fragmentada,
subjetiva, mas absolutamente precisa aos seus princípios” (CRUZ, 2006)

                       “A origem do samba de roda veio da África. No tempo dos escravos, provavelmente
                       nos dias que eles folgava, que o patrão dava uma folguinha para eles. Eles formavam
                       aquele grupo de escravos e fazia o samba (...) A origem do samba de roda aqui no
                       Brasil, ela veio através do... do... dos africanos (...) e trouxe essa cultura...” ( JOSÉ
                       CANDIDO CARNEIRO, 62 anos, 08/09/2007)
Em Riachão do Jacuípe não há um momento preciso para o surgimento do samba de
roda, porém, segundo o depoimento da maioria dos sambadores o primeiro grupo de samba
organizado, o senhor Misael Carneiro diz que:


                          Foi trazido por Zuza das Pedrinha. Veio de Mundo Novo (...) Ele era tropeiro. Ele
                          veio morar na fazenda Pedrinha. Ele sambava lá e trouxe uma dupla (...) já tem
                          mais de 150 anos. Izidro da Pedrinha herda a tradição do pai e ficou conhecido o
                          melhor sambador de Riachão.(MISAEL CARNEIRO,71 anos, 23/05/2009).


          Esse grupo participou do filme Coronel Delmiro Goveia, o qual tinha como
protagonista o ator da Globo Rubem de Falco. Esse filme tinha Oney São Paulo, cineasta
jacuipense como um dos seus produtores. Segundo o jornalista Evandro Matos a participação
do grupo das Pedrinhas nesse filme refletiu de forma positiva, pois aumentou as apresentações
do samba de roda fora do município. Ele ainda afirmou em depoimento que realmente o
senhor Izidro tinha muito talento para o samba, mas principalmente no bater a cuia
(instrumento feito de uma cabaça com pescoço muito pequeno). (Misael Carneiro,71 anos,
23/05/2009). “Samba de apresentação/ de rádio e televisão,a Pedrinha já foi rei/ o samba eu
estou,fazendo/ é pra apresentá a vocês,Por orde do criadô/ a Pedrinha já chorou,a falta que
Izido fez.,(Chula em homenagem a Izido falecido em 1988)”
          Zuza deixou o filho Izidro como responsável pelo grupo de samba das Pedrinhas como
relata Misael Carneiro. Analisando os depoimentos do senhor Misael Carneiro e cruzando
com dados do Jornal Breviário, editado em 1981, onde o mesmo fez uma reportagem sobre o
samba de roda das Pedrinhas no qual afirma que: “há mais de 100 anos que o samba de roda
das Pedrinhas vem se preservando”, percebe-se uma grande evidência de ser este primeiro
grupo a se organizar em Riachão do Jacuípe.
          A partir desse grupo foram surgindo outros. Os motivos dos desmembramentos serão
discutidos adiante. Até aqui pude confirmar a existência de dez grupos, expostos no quadro
abaixo.


Quadro I.Grupos de samba de roda do município de Riachão do Jacuípe.
                           GRUPOS DE SAMBA DE RODA – 2007 A 2009
                 NOME DO GRUPO                                          COORDENADOR
 Pedrinhas                                           Edilson Carneiro
 Ramos                                               José Ramos
Sereno da Madrugada                                   Miguel Calmom
      Sufoco da Fumaça                                      José Cândido Carneiro
      Chuva de Prata                                        Tonho de Nié
      Barrerense                                            Atenor
      Ponto Novo                                            Pedro Luis
      Bom Sucesso                                           Silvinho
      Cultura do Sertão                                     Renato de Anísio
      Fumacinha                                             Leninha – Baixa Nova
      FONTE: Quadro (Entrevistas com os sambadores de Riachão do Jacuípe).




     Por meio do samba de roda pode-se perceber as experiências vividas por esses artistas:


                                Todos são pessoas pobres da zona rural. Uma parte mora na zona rural outra já
                                mora aqui na cidade, mas veio da zona rural por não ter condições de morar na zona
                                rural, mora aqui, mais não deixou o seu lazer, continua sendo sambadô e por aí eu
                                tenho uma parte de sambadores que são daqui, mas que vieram da roça e tenho
                                outras que moram na zona rural até hoje (...) (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62
                                anos, 08/09/2007)


             O samba de roda do município de Riachão do Jacuípe, de acordo com o depoimento
exemplificado acima como o do Sr. José Carneiro, é uma manifestação da cultura popular, um
espaço de lazer do homem da roça, pois como afirma o entrevistado, quem não reside na zona rural
certamente tem ainda uma grande relação com ela, já que continua com seu pedacinho de terra. A
maioria dos que vieram para a cidade, “foi por falta de renda ou porque se aposentou” (José
Cândido Carneiro, 62 anos, 08/09/2007).
             A faixa etária dos sambadores é de sessenta anos, com exceção de Gilmário, de 26
anos, do grupo Sufoco da Fumaça e da maioria dos membros do grupo Fumacinha, uma novidade
no samba de roda do município. Este último, O Fumacinha é coordenado por uma mulher, algo
inédito no mundo do samba de roda de Riachão, mas esse grupo se diferencia ainda pela idade de
seus componentes, pois a maioria são jovens. “Mas o meu grupo tudo mais é jovem, tudo gosta da
tradição do samba.” (Maria Madalena Carneiro, 52 anos, 02/04/2009).
              O grupo Fumacinha se destaca ainda dos demais por cantarem apenas o batuque e D.
     Leninha explica porquê: “A gente só canta batuque (...) porque os meninos gosta, porque é
     mais quente, mais mimada”... (Maria Madalena Carneiro, 52 anos, 02/04/2009).
             O cotidiano, se o perscrutarmos atentamente, revela-se como um dos lugares
     privilegiados das lutas sociais. (VAINFAS, 1997).
Nessa perspectiva, o espaço do lazer, no caso aqui o samba de roda torna-se um lugar
especial para se estudar as relações tanto dos sujeitos praticantes dessa manifestação cultural
entre si quanto com a sociedade.
       Analisando o perfil dos sambadores percebe-se que a maioria não domina a escrita,
nem exerce cargo “importante”, ou de poder na sociedade jacuipense, assim o samba de roda
é um espaço onde essas pessoas conquistam respeito perante a comunidade.
       São nesses momentos que o samba vai se tornando um elemento de afirmação de
identidades, de conquista de espaços e de poder junto à comunidade. (CRUZ,1996)
       Da disputa por espaços sociais foi que surgiram muitos grupos de samba de roda em
Riachão do Jacuípe. Algo que está explícito na narrativa do senhor José Cândido Carneiro,
como podemos ver no depoimento abaixo:


                              Existia um grupo de samba qui chamava grupo de Mano (...) no meio
                              daqueles sambadores tinha sambadores milhor do que outros (...) uma pessoa
                              mais ingraçada começava arriliar, maltratar aquelas pessoas mais fraca. Um
                              dia aquelas pessoas mais fraca resolveu a criar um samba e chegou no centro
                              da cidade e começou a batê um samba (...) aí um dos engraçados do grupo de
                              Mano passou e viu aqueles sambadores, tudo fraquinho, aí chamou o outro e
                              disse: oi só tem bagaço aí. Oi os bagaço formaro um samba, só bagaço! (...)
                              por aí ficou o nome de Bagaço e lá vai desgostano os do grupo de Mano. Sai
                              uma dupla de lá, passa pro Bagaço, sai outra passa pro Bagaço. Virou um
                              grande grupo de samba. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,62 anos,
                              08/09/2007).


       Assim percebe-se que os conflitos sociais não acontecem apenas no âmbito político e
social, como também no cultural. Isso porque o sambador é um ser humano completo de
sentimentos, valores e contradições e tudo isso é levado para roda de samba, já que é ali o seu
principal espaço de lazer.


       Porém essa disputa não se encerra aí. Zé Cândido continua sua narrativa:


                              (...) Chegou um determinado tempo que o organizador do samba do Bagaço
                              se achou entusiasmado e começou a nos maltratar e aí um senhor (...)
                              conhecido por Zezinho do Cafundó achou de criar um samba pra nois sambá
                              fora do Bagaço. Comprou os aparelhos e aí a gente começamos a sambá sem
                              nome. Passando um pouco de tempo eu resolvi a nois arrumar uma farda de
                              samba de roda e botá um nome no nosso grupo. Eu falei com os colegas:
                              vamos fazer de conta qui o grupo do Bagaço acabô e sobrô o sufoco de
                              fumaça. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007).
Analisando alguns trechos da entrevistas, percebe-se um sentimento de desprezo pelo
grupo quando o entrevistado diz: “o Bagaço acabô e sobrô o sufoco da fumaça”. Nota-se,
então, que as relações dos sambadores entre si são muitas vezes conflitivas o que reforça a
idéia de Marta Abreu. Para os historiadores, as manifestações populares são um campo fértil
de estudo da sociedade.da própria sociedade onde estão inseridos.
       Segundo o senhor José Cândido, o grupo Sufoco da Fumaça é registrado.


                             (...) por uma questão de desentendimento entre eu e o outro organizador. Qui
                             existia dois organizador. Nois organizava em parceria. Em morte do finado
                             Zezinho do Cafundó que foi quem criou o samba (...) o outro companheiro
                             começou a desentender mais eu (...) chegou uma maneira de romper comigo
                             (...) e tentou mudar o nome do grupo de samba (...) eu qui tinha amor ao
                             nome do grupo, ao nome do grupo qui foi eu que criei. Eu tinha farda
                             adquirida por mim. Eu cheguei e chamei os outros componentes e continuei
                             o grupo e ele com outro nome, o nome Renascer. Dois anos depois ele fez
                             uma farda e botou o nome Sufoco da Fumaça I. (...) Eu não aceitei, a gente
                             tivemos um grande desentendimento. Eu cheguei, registrei, fiz uma
                             associação com o nome Sufoco da Fumaça. (...) o companheiro achou no
                             direito e registrou também, mas não deu certo (...) por falta da população
                             acreditar (...) ele resolveu com o passar do tempo e deu baixa na associação
                             dele. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007).


       Tratando dos méritos da História Oral, Paul Thompson ressaltou que esta possui uma
maior amplitude do que a maioria das fontes, permitindo que se recrie a multiplicidade
original de pontos de vista ( TOMPSON, 1992).
       É uma característica importante da história oral, essa capacidade de mostrar diversas
visões dos sujeitos envolvidos no processo histórico. Vejamos então a versão do senhor
Manoel Pedro Ramos, ex-componente e organizador do grupo Sufoco da Fumaça:


                             Já que tive o grupo Sufoco da Fumaça qui justamente fui eu Zezim do
                             Cafundó que foi que afundô o grupo aqui em Riachão no ano de noventa e
                             seis (...) Em noventa e seis Zezinho formô esse grupo me entregô pra eu
                             tomá conta. Então colocaram o nome de Sufoco da Fumaça. Mas tem um
                             amigo qui ele ajudaria fazer a participação do grupo. Então teve uma
                             diferençazinha piquena entre nois dois e nois se separamos. Ele ficou com o
                             nome Sufoco da Fumaça, eu passei pro nome Sufoco da Fumaça I, mas
                             depois terminei pra ficar com um só e coloquei o nome do grupo Ramos.
                             (MANOEL PEDRO RAMOS, 67 anos,15/09/2007).

       Analisando os depoimentos pode-se perceber que muitos grupos de samba de roda de
Riachão do Jacuípe têm sua origem no desmembramento de outros grupos. Assim ocorreu
com o grupo Bagaço, cujos membros pertenciam ao grupo de Mano, o mesmo ocorreu com o
Sufoco da Fumaça e o Grupo Renascer, que posteriormente passou a chamar-se Ramos. Nessa
última disputa entre os dois organizadores do grupo Sufoco da Fumaça, fica evidente que o
motivo de tal disputa é a coordenação do grupo. Nas falas dos personagens fica claro o
sentimento de posse em relação ao grupo, pois os dois utilizam muito a primeira pessoa do
singular .O senhor José Cândido ao registrar o grupo procurou, por meios legais, preservar o
nome do mesmo, o que, a princípio não dá certo, já que foi permitido ao senhor Ramos
registrar seu grupo com o nome semelhante. Sufoco da Fumaça I. Enfim, esse conflito se
encerra com a desistência do senhor Ramos em manter o nome do seu grupo, Sufoco da
Fumaça I, o qual foi substituído por Renascer.
       Seguindo a perspectiva de Alessandra Cruz, o que talvez os dois personagens dessa
história não tenham consciência é de que o samba de roda é coletivo, portanto não tem dono.
Suas chulas e batuques podem até ser criados individualmente, mas só existem, de fato, na
roda - complementados com as vozes dos companheiros, os instrumentos, a dança e a resposta
das palmas. De acordo com a autora: “aqui é o limite do indivíduo humano com o saber
coletivo”. (CRUZ, 2006 ).
       O samba de roda é uma prática cultural secular de trabalhadores rurais em Riachão do
Jacuípe. Se essa prática cultural sobrevive em meio às dificuldades vividas pelos sujeitos
praticantes é porque, certamente, tem um grande significado para eles, como expressa o
senhor Manoel Pedro Ramos, 67 anos: (...) É uma coisa na minha vida que eu tenho
unicamente na minha vida desde eu pequeno. É uma coisa na minha vida que eu tenho alegria
é um samba de roda. É uma coisa na minha vida mesmo...“ (RAMOS, 67 anos , 15/09/2007).
       Sendo ainda o samba de roda uma forma de lazer que pra os sambadores é a única,
como confirma o senhor Edilson Carneiro de Oliveira, 67 anos: “O samba de roda é... ele me
faz muito feliz e representa toda alegria na minha vida (...) a vez eu tô até triste assim...
pensano alguma coisa, mas pra fazer aquilo, até eu me sinto feliz sabe, esquece todos os
problemas da vida” (OLIVEIRA, 67, 23/05/2009)
       Nota-se nos depoimentos da maioria dos sambadores, representados nesses dois acima,
um forte sentimento de pertencimento. O samba de roda nessa perspectiva é algo primordial
para suas existências. Sem ele a vida não tem sentido. Na roda de samba eles conseguem
esquecer, pelo menos momentaneamente, os problemas do cotidiano. É sambando que eles e
elas gastam a energia do corpo e recarregam a da alma.
Enfim, estudar origem, características e as disputas existentes entre os sambadores é
interessante, pois através disso pode-se conhecer as experiências vividas por estes artistas e
ajudá-los a preservar esta prática cultural.


4. A mulher no samba de roda


       Em Riachão do Jacuípe, a presença da mulher no samba de roda não é tão freqüente,
já que existem grupos como o das Pedrinhas e o Sufoco da Fumaça que são formados
apenas por homens, apesar dos sambadores em geral, mesmo dos grupos aqui citados,
considerarem-nas peças importantes.


                        “(...) as mulheres são as dançarinas, as animadoras do Samba de Roda (...) o
                        samba só com home fica disanimado”. (...) Tem hora delas entrá e hora delas sair.
                        Agora a gente sente dificuldade, pois não é todas qui aprendero fazer esse
                        trabalho”. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007).


       Para o depoente não é “qualquer mulher” que pode entrar na roda do samba. É preciso
conhecer as regras. É preciso ter disciplina e nem todas que querem entrar “aprendero fazer
esse trabalho”.
       Homem e mulher tem papéis diferenciados no samba de roda, como relata o seguinte
depoimento de Sr. Manoel: “Nois temos um regime qui na área do salão só brinca as
mulheres, as damas é quem dança e os home é só pra sambá (...) as mulheres tem a área
delas e nois temos a nossa área também”. (MANOEL PEDRO RAMOS, 67 anos, 15/09/2007)
       Mesmo havendo papéis diferenciados para ambos os gêneros, como afirma o
depoente, há também uma relação de complementaridade enfatizada na fala do Sr. Hermes
Roque dos Santos: “(...) Quem faz a parada do samba é as mulher. Elas ajuda a respondê os
batuque (...) sem as mulher a gente sofre muito.”(HERMES ROQUE DOS SANTOS,70 anos,
14/11/2009)
       Entre homens e mulheres entrevistados é unânime o reconhecimento do papel de
animadora que a figura feminina exerce no samba.


                        “toda mulher também, ela anima o samba. As pessoas que estão assistindo gosta de
                        vê dançar. Gosta de vê elas tudo alegre. É uma coisa muito importante e bunita. É
                        uma mistura do masculino com o feminino e aí a gente faz o samba animado”.(
                        ANTONIO MATOS DE LIMA, 67 anos, 12/09/2008)
A mulher ainda pode ser fonte de inspiração para as canções improvisadas pelos
sambadores como afirma o sambador: “A gente vê alguma moça bonita no salão, a gente faz
um batuque falando daquela moça.” (GILMÁRIO LIMA CARNEIRO, 26 anos, 15/10/2007)
“Que sorriso tão lindo, eu preciso te dizer / qui a moça bunita da festa hoje chama você..”.
       Se a mulher é peça tão importante na roda do samba como afirmam os entrevistados.
Se com suas vozes elas contribuem tanto para que o samba não saia do ritmo, quanto para que
enquanto elas sambem, os sambadores descansem e se ainda são elas as principais
responsáveis pela animação é, no mínimo curioso que existam grupos sem a presença da
mulher. Dona Madalena, 52 anos, dá a sua opinião: “(...) hoje em dia ninguém quer sambá.
As maioria até arrilia, fala mal do samba de roda...” ( MADALENA CARNEIRO,52 anos,
02/04/2009).
       O preconceito em relação ao samba de roda é algo histórico e os motivos são diversos,
como por exemplo por ser o samba uma festa de origem africana. Festas consideradas,
segundo o historiador João José Reis pela elite baiana como um entrave à europeização dos
costumes, dificultando o projeto de civilização da província no século XIX. Além de “ferir
(...) a moralidade das famílias brancas das cenas públicas de sensualidade negra exibidas nas
danças que acompanhavam os Batuques” (REIS, 2005).
       Assim o preconceito em relação ao samba de roda por ser uma festa de origem
africana, além da exigência de que para entrar na roda do samba a mulher deve saber as regras
locais do samba, talvez explique a pouca participação da mulher no samba de roda.
       Entendendo o samba como uma forma de expressão dos sentimentos dos trabalhadores
rurais, a música torna-se o principal mecanismo utilizado para expressar tais sentimentos,
vejamos como a figura feminina é representada nas letras:


                         A música é essencial para a cultura brasileira: para nossa memória, individual e
                         coletiva (...) ela acompanha a nossa existência, delimita e marca os episódios
                         significativos da vida. (AGNES MARIANO, 2009, p.13).



       Nessa perspectiva, a música torna-se um elemento fundamental por meio do qual o
artista, no caso aqui o sambador, se expressa. Ela nesse caso pode ser compreendida como
forma de comunicação tão importante quanto o discurso. A música sempre esteve
intimamente ligada à vida do povo brasileiro. Em Contos Populares do Brasil, Silvio Romero
já ressaltava a importância da música no cotidiano do povo :“(...) lavrando a terra ou deitando
matas ao chão. (...) o trabalhador vai cantando e improvisando” (ROMERO, 1985).

           Há diferentes ritmos e formas de músicas como a chula, o arremate e o batuque no
samba de roda. Os quais podem ser reproduzidos, ou seja herdadas dos antepassados dos
sambadores, ou ainda criados e improvisados por eles. O mesmo podemos dizer em relação
aos temas abordados, a esse respeito vejamos a tabela abaixo:




           Quadro II. Músicas cantadas pelos sambadores do município de Riachão do Jacuípe.
TEMA                             SUJEITO              ADJETIVOS

1- Romance                       Mulher               Amada

2- Samba                         Mulher               Linda, morena, flor

3- Festa                         Mulher               Morena, meu bem

4- Romance                       Homem e mulher       Ingrata

5- Festa                         Moça                 Sorriso lindo, moça bonita

6- Medo de fazer amor            Mulher               Amorosa

7- Desencontro                   Mulher               Ingrata

8- Comportamento                 Mulher               Sem respeito

9- Preciso de você               Mulher               Amor indispensável

10- Namoro                       Mulher               Amor verdadeiro

11- Saudade                      Mulher               Meu bem

12- Sonho                        Mulher               Morena bonita, pele bronzeada

13- Namoro                       Iolanda              Carente

14- Tempestade                   Maria                 Vaqueira

15- Razão dos problemas          Mulher               Nova, bonita, carinhosa
16- Perda                        Mulher                   Razão do meu viver

17- Vida de Cigano               Mulher                   Ciganinha

FONTE:Quadro(CDS Gravados por grupos de samba de roda do município de Riachão do Jacuipe).

        Seguindo a mesma perspectiva de Agnes Mariano, em A Invenção da baianidade, que
tem como objetivo descobrir nas letras das canções que retratam a Bahia, o que e como se fala
do jeito de ser baiano, optou-se nesse trabalho apenas por uma temática - a mulher - por ser
este o tema mais recorrente.

        Assim, percebe-se nas letras das canções que os sambadores utilizam de muitos
adjetivos positivos como amada, amorosa, bonita carinhosa para referirem-se à figura
feminina. Essa mulher cantada por eles é idealizada, pois em nenhum momento é feita
qualquer referência à elas como esposas, nas suas atividades laborais diárias. Quando a
mulher parece real é evocada com saudosismo, pois é como se permanecesse viva em suas
memórias as aventuras amorosas dos tempos de jovens: “menina bonita da pele bronzeada,
sonho com você toda madrugada. Em sua pele não posso tocar, em sua boca não posso beijar”
(...) (Música gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça, 2006).

        Eles também se referem à mulher de forma negativa chamando-a de “ingrata” quando
não correspondem ao seu amor e de “sem respeito”, quando fogem aos padrões sociais como,
por exemplo, a forma de vestir-se.

                                Tem muita mulé no mundo qui ta perdeno o respeito / vestido curto demais,
                                bem acima do juelho, umas mostra as pernas outras mostra os seios a saia
                                deixa cair, mostra a coluna do meio, isso é coisa do maldito, o home acha
                                bunito, mais Jesus Cristo acha feio (Música gravada pelo grupo sufoco da
                                fumaça – 2006)



        Apesar de a mulher ser o tema mais recorrente, os sambadores também falam nas suas
canções do contextos que marcaram suas vidas como períodos de seca, inflação, devastação
ambiental. Enfim, a música é um canal pelo qual eles expressam seu modo de ser, agir na
sociedade, e suas visões sobre ela. Eles sempre colocam as canções na roda dos contextos de
suas vidas.
5. Mecanismos de preservação do samba de roda em Riachão do Jacuípe

       O samba de roda em Riachão do Jacuípe, apesar das dificuldades encontradas para a
manutenção da tradição, principalmente dificuldades financeiras, assim como é confirmado
no depoimento: “(...) tem muita dificuldade cum transporte, nem sempre os dono da casa
paga as dispesa, nem sempre as pessoa tem dinheiro pra pagá” (TEREZINA PEREIRA DE
JESUS, 73 anos, 20/12/2009).Essa prática cultural tem sobrevivido até aqui, de acordo com a
opinião dos sambadores, exemplificada na fala de Edílson Oliveira, de 67 anos, por ser tão
significante pra eles. “O samba de roda é... ele me faz muito feliz e representa toda aligria na
minha vida (...)”. Sendo tão importante para os sambadores, muitos deles, direta ou
indiretamente herdaram das gerações passadas e transmitiram para as futuras esse gosto pelo
samba. Assim, esse foi até o final do século passado o principal mecanismo de preservação do
samba de roda em Riachão do Jacuípe. A memória aí exerce papel fundamental, pois, segundo
Ecléa Bosi, por meio da memória o passado sobrevive (BOSI, 1994). Algo perceptível na fala
do sambador José Matos de Lima, 67 anos: “Eu lembro qui era meu avô que era sambador,
chamava Nicolau Guedes e era a diversão nessa época. Em 1990 por aí foi qui eu comecei a
sambá (...)”.

       A partir da primeira década do século XXI dois eventos acontecem anualmente e
transformaram-se ou deveriam transformar-se em espaços especiais para a preservação do
samba: O 1º de maio e o Festival de samba de roda. O 1º de maio é uma festa de trabalhadores
rurais, os quais chegam de várias comunidades com seus instrumentos musicais com muita
expectativa para se apresentarem. Porém estes disputam com políticos e representantes do
Sindicato de Trabalhadores Rurais o espaço e a atenção do público. O pouco tempo que sobra
para as apresentações do Samba de roda ainda é dividido com vários grupos que apresentam
ou encenam outras manifestações, como o boi de roça, as rezas de Cosme e Damião e o
Bumba meu Boi, dentre outras, mas o que incomoda os sambadores são os políticos, com seus
discursos prolongados.

                              O espaço é pouco, purque eles come mais tempo cum político. Lá, quando
                              parte pra brincadeira, o tempo já acabo, mas o tempo o político já cumeu e é
                              por isso que a gente esse ano ficou de fora.(EDÍLSON CARNEIRO DE
                              OLIVEIRA, 67 anos,23/05/2009)
Assim, o momento e o espaço deles se expressarem acabam se transformando em
espaço de promoção de políticos.
       Com o Festival de samba ocorre algo semelhante, pois um espaço que deveria ser
reservado principalmente aos grupos de samba do município é dado a outros de outras
regiões. No último Festival não havia grupos de Riachão do Jacuípe disputando. Apenas o
grupo “Sufoco da Fumaça” se apresentou sem concorrer, já que, esse grupo é o organizador
oficial desse evento, mas na prática apenas um membro, o Senhor José Candido assume essa
função.


                              Eu organizo o Festival de Samba de Roda aqui na nossa cidade (...) passo
                              dois, três meses antes do dia do evento pedino à todos os amigos, não só os
                              pulíticos como os amigos, ao comércio local (...) contrato aquele grupo de
                              samba pra fazê a festa e pego um caixazinho àqueles grupo de samba.( JOSÉ
                              CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos, 08/09/2007).



       Nesse contexto, há uma apropriação desse espaço de poder e prestígio proporcionado
pelo samba de roda. Desse modo, o Festival de samba de roda não está exercendo
efetivamente sua principal função que é divulgar e promover, principalmente, os grupos de
samba de roda do município. Pois o espaço maior no palco, que deveria ser dos grupos locais,
está sendo cedido na maior parte das vezes aos de outras localidades. Além disso, a ajuda
financeira dada pelo comércio e pelos políticos, é retribuída na forma de propaganda para
promovê-los, o que também ocupa o tempo do samba.

       O samba de roda assume aí uma perspectiva, confirmada por Cláudio Noel R. Júnior,
de legitimação da lógica social capitalista em que esse sujeitos, os sambadores, estão inseridos
(JÚNIOR,1982).




6.Considerações Finais

       A partir da pesquisa realizada para este artigo foi possível identificar a existência de
dez grupos de samba de roda de Riachão do Jacuípe. Percebemos que a principal dificuldade
para a manutenção dos grupos é a falta de apoio financeiro, pois na opinião dos próprios
sambadores nem sempre quem convida os grupos para uma apresentação em sua casa, por
exemplo, paga as despesas de transporte, dentre outras.
As estratégias de preservação como o Festival de Samba de Roda e o 1º de maio
fazem isso de forma restrita, pois o espaço e tempo disponível são ocupados por grupos de
outras localidades.
       Percebeu-se ainda que em alguns casos a liderança dos grupos de samba é muito
disputada, por ser esta uma oportunidade das pessoas conquistarem respeito perante a
comunidade.
       Esse trabalho não tem a pretensão de esgotar as discussões acerca do samba de roda
em Riachão do Jacuípe, pois tenho a consciência que toda pesquisa é limitada pelo tempo e
pela escassez de fontes. Espero que as lacunas aqui existentes se tornem um convite a uma
investigação mais ampla dessa manifestação cultural secular que sobrevive, apesar das
dificuldades. Como disse uma das sambadoras: “precisa de um projeto para essa cultura num
acabá (...) a gente cresce quando recebe apoio” (MARIA CÉLIA DOS S. CONCEIÇÃO, 42
anos, 20/12/2009)
       Diante das dificuldades de sobrevivência do samba de roda em Riachão do Jacuípe e
dos sujeitos que vivenciam essa prática cultural, os sambadores, foi constatado que é
necessário um engajamento tanto do poder público, dando condições materiais à esses sujeitos
e apoio efetivo à projetos voltados para essa área, quanto da sociedade, pois o samba é um
patrimônio local. A idéia de preservação de patrimônio deve ser vista como algo discursivo,
devendo não apenas ser identificado como um bem imaterial, mas como prática cultural,
podendo também promovê-los por meio de apoio à organização de espaço físico para a
promoção de eventos culturais para que assim essas práticas culturais sejam reconhecidas e
valorizadas pelas futuras gerações (FONSECA, 1997).


                              A preservação do samba de roda é muito difícil, purque o jove num interessa
                              muito, mas eu acho qui o ponto certo era fazê uma iscola, aqueles qui se
                              interessasse ia participá e pudia aprende pra que preservasse. (ANTONIO
                              MATOS DE LIMA, 67 anos, 12/09/2008).



       Como afirma o próprio sambador, a educação tem papel fundamental na preservação
do samba de roda, pois cabe também à escola despertar nos educandos a consciência da
importância desse bem imaterial tão relevante não só para os sambadores, como para toda
sociedade jacuipense, já que o samba de roda é parte da própria história desse município.
Referências Bibliográficas


ABREU, Martha, O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro,
1830-1900
______, “Cultura popular: um conceito e várias histórias” in ABREU, Martha e SOIHET,
            Raquel,(orgs.), Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia, Rio de
            Janeiro, Faperj/Casa da Palavra, 2003, pp.83-102.
ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de : A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife. FNJ,
            Ed Massangama, São Paulo: Ed Cortez, 1999.
BOSI, ECLÉA. Memória e Sociedade: lembrança dos velhos /Ecléa Bosi-3 ed- São
            Paulo,Companhia das Letras,1994.
BURKE PETER, 1937. O que é história cultural?/ Peter Burke; tradução: Sérgio Góes de
Paula. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005.
CRUZ, Alessandra, “O samba na roda”. Samba e cultura popular em Salvador, 1937-1954.
2006.
CENSO DEMOGRÁFICO, 2000: Disponível em:
http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/universo.php?tipo=31o/tabela1
3_1.shtm&paginaatual=1&uf=29&letra=R. Acesso em 15/09/2009.
DANTAS, Beatriz Góis, “Uma festa de negros e caboclos”, Aracajú, cadernos UFS, 1998.
FONSECA, Maria, Cecília Lourdes, “A prática de tombamentos: 1970-1990” in o patrimônio
em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil, Rio de Janeiro,
UFRJ/IPHAN, 1997, pp.202-246.
JUNIOR, Jorge Cláudio Noel Ribeiro. A festa do povo-Pedagogia de Resistência. Editora
Vozes Ltda. Petrópolis, Rio de Janeiro.
MARIANO, Agnes, A invenção da baianidade, Agnes Mariano – São Paulo: Anablue, 2009.
5 Baianidade.
REIS, Demian,” A dramaturgia histórica na dança do quilombo”, in greiner, C. e Bião,
A,(orgs).
REIS, João José, ”Tambores e Teimores: A festa negra na Bahia na primeira metade d século
XIX”, in Cunha, M.C.P.(org), Carnavais e outros f® estas, Campinas, Ed. Unicamp, 2005, pp
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ROMERO, Silvio, 1851-1914, Folclore brasileiro: Cantos |Populares do Brasil/ Silvio
Romero – Belo Horizonte: Ed. Itatiaia: São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1985.


SILVA, Marinélia sousa da, “ Padre não deve se meter em política?.” Conflitos de política e
religião em Riachão do Jacuípe nas últimas décadas do século XX/ Marinélia Sousa da Silva –
Salvador: Dissertação de Mestrado em História. UFBA. 2005.
THOMPSON, Paul,1935. A voz do passado: história oral/ Paul Thompson; Tradução Loio
Lourenço de Oliveira, Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1992.
VAINFAS, Ronaldo, ETC.... ”História das mentalidades” in Cardoso, CF e Vaifas, Ronaldo
(orgs.), Domínios da História. Rio de Janeiro. ED. Campos, 1997.




                                     Arquivos Orais


Carneiro,Carmito da Natividade. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007
Carneiro, Gilmário Lima. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/10/2007.
Carneiro, José Cândido. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007.
Carneiro, José Roque de Oliveira. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007.
Carneiro, Maria Madalena. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 02/04/2009.
Carneiro, Misael. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 23/05/2009.
Conceição , Maria Célia dos Santos. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe
Jesus, Terezinha Pereira de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 20/12/2009.
Lima, Antonio Matos de. Depoimento tomado em Chapada - Riachão do Jacuípe, 12/09/2008.
Lima,Risoleta dos Santos. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007
Lima, José Neves de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/11/2009.
Marcenio,José Jesus. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007.
Oliveira, Edílson Carneiro de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 23/05/2009.
Oliveira, Azeny Almeida de. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe,
20/12/2009
Ramos, Pedro Manoel. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/09/2007.
Santos, Hermes Roque dos. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 20/12/2009.
Oliveira, Azeny Almeida de. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe,
20/12/2009
Santos, Luis Ferreira dos. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe,
12/09/2008.




                                        Músicas


   01. Seca do Aqueta Aí – Gravada pelo grupo das Pedrinhas.
   02. Homenagem a Izidro - Gravada pelo grupo das Perdinhas
   03. Sorriso lindo – Gravada pelo grupo Sufoco da Fumaça.
   04. Mulher sem respeito – Gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça.
   05. Festa – Gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça.
   06. Vem Amor – Cantada por José Cândido e José Moisés.
   07. Se essa mulher não te ama – Cantada por José e Cândido e José Moisés.
   08. Festa na cidade – Cantada por Mandinho e Tiago.
   09. Preciso de você – Cantada por Nadinho e Dunga
   10. Vem morar mais eu – Cantada pelo Grupo Chuva de Prata.
   11. Eu tenho uma namorada – Cantada por Nadinho e Dunga.
   12. Abre a porta meu bem – Cantada por Geraldo e Arnaldo
   13. Morena bonita da pele bronzeada – Cantada por Geraldo e Arnaldo.
   14. Iolanda – Cantada por Geraldo e Arnaldo
   15. Maria leva teu chale – Cantada por Geraldo e Arnaldo
   16. Mulher nova, bonita e carinhosa – Cantada pelo Grupo Chuva de Prata
   17. Linda cigana – Cantada por Carmito e José de Rosália
   18. Medo de fazer amor – José Cândido e José Moisés
   19. Quatro horas da manhã –Cantada por José Cândido
   20. Lhe desejo ser feliz – Cantada por José Cândido e José Moisés

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  • 1. CULTURA POPULAR: SAMBA DE RODA EM RIACHÃO DO JACUÍPE Alice Ribeiro de Souza Oliveira1 Resumo Esse artigo faz um estudo acerca do samba de roda no município de Riachão do Jacuípe. Foi realizado um levantamento dos grupos de samba de roda existentes e da composição de seus membros. Analisa as condições de produção e perpetuação dessa manifestação cultural; as relações dos sambadores tanto entre si quanto com a sociedade; a função e a importância da mulher no samba de roda e a visão dos sambadores em relação à elas. Há ainda a análise do conteúdo e dos temas mais recorrentes nas músicas compostas e/ou cantadas pelos sambadores. Por meio das entrevistas foi-lhes dada a oportunidade de serem os protagonistas de sua própria história. Palavras chave: Samba de Roda – Riachão do Jacuípe – História Cultural Abstrat: This article is a study about the samba de roda in Riachão do Jacuípe, state of Bahia. Were gathered groups of samba de roda in the municipality and its composition. It analyzes the conditions of production and perpetuation of this cultural event, the relationships of sambador, both among themselves and with society, the role and importance of women in the samba de roda and vision sambador about them. There is also the analysis of the content and the most recurrent themes in songs written and / or sung by sambador. Through woman, was given the opportunity to be the protagonists of their own history. Keywords: Samba de Roda, Riachão do Jacuípe, Cultural History. 1-Introdução: O presente artigo faz uma análise a respeito do samba de roda no município de Riachão do Jacuípe visando torná-lo mais conhecido, respeitado e valorizado como prática cultural significativa. Assim ao analisar o modo de ser, de agir e as estratégias de sobrevivência dos grupos de sambadores, este trabalho pretende mostrar para a sociedade a 1 Graduanda do VIII Semestre do Curso de Licenciatura em História, Campus XIV, da Universidade do Estado da Bahia-UNEB.
  • 2. importância que o samba de roda tem para os seus praticantes, contribuindo para a produção e perpetuação dessa manifestação cultural. A Nova História Cultural tem possibilitado o estudo de vários aspectos da sociedade antes negligenciados pela historiografia tradicional. Ela tem um grande interesse pelo informal e o popular e o papel das classes subalternas na dinâmica das sociedades. Entre os vários estudiosos da cultura, Marta Abreu e Jacques Le Goff vêem a cultura popular e o lazer que é parte do cotidiano de um povo - como um lugar privilegiado para se analisar uma determinada sociedade . Abreu fez uma extraordinária análise da sociedade carioca do século XIX, utilizando como objeto de estudo uma festa: a Festa do Divino. Assim como a festa, o samba de roda, uma forma de entretenimento de trabalhadores rurais, é um objeto de análise cujo estudo poderá contribuir para a compreensão da sociedade jacuipense. O objetivo deste artigo é examinar as relações dos sujeitos que vivenciam essa prática cultural, tanto entre si quanto com a sociedade. A História cultural abriu um leque de possibilidades de análise de vários temas, inclusive o de cultura popular antes não estudado. Assim muitos historiadores, inclusive os já citados acima compreenderam que os conflitos humanos não ocorrem apenas no campo político e social, mas também no cultural Neste trabalho foi feita uma caracterização da sociedade jacuipense para se compreender a amplitude das dificuldades encontradas pelos sambadores para a manutenção e preservação do samba de roda e um levantamento dos grupos existentes no município, onde constatou-se que são formados por trabalhadores rurais, e a cor predominante nos grupos é a parda. Por meio da análise das entrevistas foi possível perceber a rede de sociabilidades; bem como problematizar o papel da mulher no samba de roda, que apesar de ser para os sambadores inspiração para a maioria de suas músicas e exercerem um papel fundamental na roda do samba – o de animadoras – ainda há muitos grupos que são formados exclusivamente por homens. É nesse contexto de inquietude que se inscreve este trabalho, que tem por finalidade constatar as dificuldades enfrentadas por sambadores e sambadoras de Riachão do Jacuípe para a realização da prática do samba de roda.
  • 3. 2. Característica da sociedade Jacuipense Riachão do Jacuípe localiza-se na mesorregião do nordeste da Bahia, na microrregião de Serrinha. Sua população, segundo o censo do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) de 2000 é de 31.633 habitantes, predominando os pardos (56,5% da população), que somados aos que se declararam negros totalizam 64,1% da população. Riachão do Jacuípe faz parte do espaço denominado de polígono da seca por, entre outros motivos, seu clima ser semi-árido. As condições naturais são apontadas como principal fator para justificar a decadência econômica do município a partir da década de 1980. Já que na década anterior, segundo escreveu Marinélia Silva, em sua dissertação de mestrado, o município era considerado um dos maiores produtores de sisal da região e a região sisaleira uma das mais ricas do estado da Bahia. Porém, a partir da década de 80, a cultura do sisal entra em colapso, devido a substituição da fibra derivada dessa planta por fibra sintética, derivada do petróleo, na indústria naval e automobilística. Sem apoio do poder público, a partir de então os respectivos agricultores destruíram os campos de sisal, substituindo-os pelo capim (planta não resistente à estiagem). Houve grande migração de jacuipenses para São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador em busca de meios de sobrevivência. Relacionar a decadência econômica do município de Riachão do Jacuípe apenas com às condições naturais, é uma idéia construída pela elite e políticos “oportunistas” para se promoverem às custas da miséria do povo desse lugar (a chamada indústria da seca, onde são realizadas ações imediatistas que não visam encontrar soluções definitivas para o problema)” (SILVA, 2005 ). Em A Invenção do Nordeste Durval Muniz de Albuquerque analisou profundamente esse discurso, mostrando que quem construiu essa imagem negativa do Nordeste foi a nossa elite. Esta preferiu a miséria para a maioria da população dessa região como forma de manutenção de seus privilégios. O autor supracitado afirma ainda que a Bahia até 1940 não fazia parte da região Nordeste, vindo a inserir-se após esse período, por interesse da elite política baiana para usufruir dos recursos da SUDENE – órgão criado como mecanismo de auxílio aos estados da região para amenizar os reflexos da seca. Os políticos e a “elite” jacuipense não agem de forma diferenciada do restante da elite nordestina. Divulgam a idéia de decadência econômica como consequência direta das
  • 4. condições naturais. Tal idéia, segundo Marinélia Silva “invade o imaginário da população, tornando-a inerte, incapaz de lutar e encontrar soluções para tais problemas, já que são vistos como algo imutável” (SILVA, 2005). Tal comportamento pode ser percebido na música criada pelo sambador Pedro João Carneiro, denominada de “Seca do Aqueta aí”: “De noventa à noventa e seis,A seca era geral / as nuve se levantaro,Os tanques não tem mais água / o gado, já se acabô / mode a foia do sizá,A plantação que fizeram / eu vi tudo,se acabá / o pobre passano fome,num acha um dia pra ganhá / pobre num,tem pra onde ir / a seca do Aqueta aí, o pobre,tem que aquetá”. No trecho desta música o sambador relata sobre a seca que houve em Riachão do Jacuípe na década de noventa. Nesse, período a população rural passou por muitas dificuldades, já que não havia água e nem alimentação para o rebanho. O gado era obrigado a comer folhas de sisal por não haver pastagens, mas morriam, pois este alimento não fazia digestão. As pessoas não tinham oportunidade de trabalho e nem um bom poder aquisitivo para ir em busca de melhores condições de sobrevivência, por isso acabavam se conformando com tal situação. Mal informados dos seus direitos essa população não recebia o apoio devido do poder público para amenizar os reflexos da seca. 3. O Samba de Roda de Riachão do Jacuípe: origem, características e disputas O samba de roda, no Brasil surgiu no período colonial, visto que foi trazido pelos escravos africanos. É importante ressaltar que nessa pesquisa pode-se perceber que a maioria dos sambadores guarda viva em sua memória o continente de origem dessa prática cultural tão importante para eles, como pode-se perceber nesse depoimento. Seguindo uma perspectiva semelhante a de Alessandra Cruz a análise dos depoimentos dos sambadores como documento oral evidencia elementos de uma “memória fragmentada, subjetiva, mas absolutamente precisa aos seus princípios” (CRUZ, 2006) “A origem do samba de roda veio da África. No tempo dos escravos, provavelmente nos dias que eles folgava, que o patrão dava uma folguinha para eles. Eles formavam aquele grupo de escravos e fazia o samba (...) A origem do samba de roda aqui no Brasil, ela veio através do... do... dos africanos (...) e trouxe essa cultura...” ( JOSÉ CANDIDO CARNEIRO, 62 anos, 08/09/2007)
  • 5. Em Riachão do Jacuípe não há um momento preciso para o surgimento do samba de roda, porém, segundo o depoimento da maioria dos sambadores o primeiro grupo de samba organizado, o senhor Misael Carneiro diz que: Foi trazido por Zuza das Pedrinha. Veio de Mundo Novo (...) Ele era tropeiro. Ele veio morar na fazenda Pedrinha. Ele sambava lá e trouxe uma dupla (...) já tem mais de 150 anos. Izidro da Pedrinha herda a tradição do pai e ficou conhecido o melhor sambador de Riachão.(MISAEL CARNEIRO,71 anos, 23/05/2009). Esse grupo participou do filme Coronel Delmiro Goveia, o qual tinha como protagonista o ator da Globo Rubem de Falco. Esse filme tinha Oney São Paulo, cineasta jacuipense como um dos seus produtores. Segundo o jornalista Evandro Matos a participação do grupo das Pedrinhas nesse filme refletiu de forma positiva, pois aumentou as apresentações do samba de roda fora do município. Ele ainda afirmou em depoimento que realmente o senhor Izidro tinha muito talento para o samba, mas principalmente no bater a cuia (instrumento feito de uma cabaça com pescoço muito pequeno). (Misael Carneiro,71 anos, 23/05/2009). “Samba de apresentação/ de rádio e televisão,a Pedrinha já foi rei/ o samba eu estou,fazendo/ é pra apresentá a vocês,Por orde do criadô/ a Pedrinha já chorou,a falta que Izido fez.,(Chula em homenagem a Izido falecido em 1988)” Zuza deixou o filho Izidro como responsável pelo grupo de samba das Pedrinhas como relata Misael Carneiro. Analisando os depoimentos do senhor Misael Carneiro e cruzando com dados do Jornal Breviário, editado em 1981, onde o mesmo fez uma reportagem sobre o samba de roda das Pedrinhas no qual afirma que: “há mais de 100 anos que o samba de roda das Pedrinhas vem se preservando”, percebe-se uma grande evidência de ser este primeiro grupo a se organizar em Riachão do Jacuípe. A partir desse grupo foram surgindo outros. Os motivos dos desmembramentos serão discutidos adiante. Até aqui pude confirmar a existência de dez grupos, expostos no quadro abaixo. Quadro I.Grupos de samba de roda do município de Riachão do Jacuípe. GRUPOS DE SAMBA DE RODA – 2007 A 2009 NOME DO GRUPO COORDENADOR Pedrinhas Edilson Carneiro Ramos José Ramos
  • 6. Sereno da Madrugada Miguel Calmom Sufoco da Fumaça José Cândido Carneiro Chuva de Prata Tonho de Nié Barrerense Atenor Ponto Novo Pedro Luis Bom Sucesso Silvinho Cultura do Sertão Renato de Anísio Fumacinha Leninha – Baixa Nova FONTE: Quadro (Entrevistas com os sambadores de Riachão do Jacuípe). Por meio do samba de roda pode-se perceber as experiências vividas por esses artistas: Todos são pessoas pobres da zona rural. Uma parte mora na zona rural outra já mora aqui na cidade, mas veio da zona rural por não ter condições de morar na zona rural, mora aqui, mais não deixou o seu lazer, continua sendo sambadô e por aí eu tenho uma parte de sambadores que são daqui, mas que vieram da roça e tenho outras que moram na zona rural até hoje (...) (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos, 08/09/2007) O samba de roda do município de Riachão do Jacuípe, de acordo com o depoimento exemplificado acima como o do Sr. José Carneiro, é uma manifestação da cultura popular, um espaço de lazer do homem da roça, pois como afirma o entrevistado, quem não reside na zona rural certamente tem ainda uma grande relação com ela, já que continua com seu pedacinho de terra. A maioria dos que vieram para a cidade, “foi por falta de renda ou porque se aposentou” (José Cândido Carneiro, 62 anos, 08/09/2007). A faixa etária dos sambadores é de sessenta anos, com exceção de Gilmário, de 26 anos, do grupo Sufoco da Fumaça e da maioria dos membros do grupo Fumacinha, uma novidade no samba de roda do município. Este último, O Fumacinha é coordenado por uma mulher, algo inédito no mundo do samba de roda de Riachão, mas esse grupo se diferencia ainda pela idade de seus componentes, pois a maioria são jovens. “Mas o meu grupo tudo mais é jovem, tudo gosta da tradição do samba.” (Maria Madalena Carneiro, 52 anos, 02/04/2009). O grupo Fumacinha se destaca ainda dos demais por cantarem apenas o batuque e D. Leninha explica porquê: “A gente só canta batuque (...) porque os meninos gosta, porque é mais quente, mais mimada”... (Maria Madalena Carneiro, 52 anos, 02/04/2009). O cotidiano, se o perscrutarmos atentamente, revela-se como um dos lugares privilegiados das lutas sociais. (VAINFAS, 1997).
  • 7. Nessa perspectiva, o espaço do lazer, no caso aqui o samba de roda torna-se um lugar especial para se estudar as relações tanto dos sujeitos praticantes dessa manifestação cultural entre si quanto com a sociedade. Analisando o perfil dos sambadores percebe-se que a maioria não domina a escrita, nem exerce cargo “importante”, ou de poder na sociedade jacuipense, assim o samba de roda é um espaço onde essas pessoas conquistam respeito perante a comunidade. São nesses momentos que o samba vai se tornando um elemento de afirmação de identidades, de conquista de espaços e de poder junto à comunidade. (CRUZ,1996) Da disputa por espaços sociais foi que surgiram muitos grupos de samba de roda em Riachão do Jacuípe. Algo que está explícito na narrativa do senhor José Cândido Carneiro, como podemos ver no depoimento abaixo: Existia um grupo de samba qui chamava grupo de Mano (...) no meio daqueles sambadores tinha sambadores milhor do que outros (...) uma pessoa mais ingraçada começava arriliar, maltratar aquelas pessoas mais fraca. Um dia aquelas pessoas mais fraca resolveu a criar um samba e chegou no centro da cidade e começou a batê um samba (...) aí um dos engraçados do grupo de Mano passou e viu aqueles sambadores, tudo fraquinho, aí chamou o outro e disse: oi só tem bagaço aí. Oi os bagaço formaro um samba, só bagaço! (...) por aí ficou o nome de Bagaço e lá vai desgostano os do grupo de Mano. Sai uma dupla de lá, passa pro Bagaço, sai outra passa pro Bagaço. Virou um grande grupo de samba. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,62 anos, 08/09/2007). Assim percebe-se que os conflitos sociais não acontecem apenas no âmbito político e social, como também no cultural. Isso porque o sambador é um ser humano completo de sentimentos, valores e contradições e tudo isso é levado para roda de samba, já que é ali o seu principal espaço de lazer. Porém essa disputa não se encerra aí. Zé Cândido continua sua narrativa: (...) Chegou um determinado tempo que o organizador do samba do Bagaço se achou entusiasmado e começou a nos maltratar e aí um senhor (...) conhecido por Zezinho do Cafundó achou de criar um samba pra nois sambá fora do Bagaço. Comprou os aparelhos e aí a gente começamos a sambá sem nome. Passando um pouco de tempo eu resolvi a nois arrumar uma farda de samba de roda e botá um nome no nosso grupo. Eu falei com os colegas: vamos fazer de conta qui o grupo do Bagaço acabô e sobrô o sufoco de fumaça. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007).
  • 8. Analisando alguns trechos da entrevistas, percebe-se um sentimento de desprezo pelo grupo quando o entrevistado diz: “o Bagaço acabô e sobrô o sufoco da fumaça”. Nota-se, então, que as relações dos sambadores entre si são muitas vezes conflitivas o que reforça a idéia de Marta Abreu. Para os historiadores, as manifestações populares são um campo fértil de estudo da sociedade.da própria sociedade onde estão inseridos. Segundo o senhor José Cândido, o grupo Sufoco da Fumaça é registrado. (...) por uma questão de desentendimento entre eu e o outro organizador. Qui existia dois organizador. Nois organizava em parceria. Em morte do finado Zezinho do Cafundó que foi quem criou o samba (...) o outro companheiro começou a desentender mais eu (...) chegou uma maneira de romper comigo (...) e tentou mudar o nome do grupo de samba (...) eu qui tinha amor ao nome do grupo, ao nome do grupo qui foi eu que criei. Eu tinha farda adquirida por mim. Eu cheguei e chamei os outros componentes e continuei o grupo e ele com outro nome, o nome Renascer. Dois anos depois ele fez uma farda e botou o nome Sufoco da Fumaça I. (...) Eu não aceitei, a gente tivemos um grande desentendimento. Eu cheguei, registrei, fiz uma associação com o nome Sufoco da Fumaça. (...) o companheiro achou no direito e registrou também, mas não deu certo (...) por falta da população acreditar (...) ele resolveu com o passar do tempo e deu baixa na associação dele. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007). Tratando dos méritos da História Oral, Paul Thompson ressaltou que esta possui uma maior amplitude do que a maioria das fontes, permitindo que se recrie a multiplicidade original de pontos de vista ( TOMPSON, 1992). É uma característica importante da história oral, essa capacidade de mostrar diversas visões dos sujeitos envolvidos no processo histórico. Vejamos então a versão do senhor Manoel Pedro Ramos, ex-componente e organizador do grupo Sufoco da Fumaça: Já que tive o grupo Sufoco da Fumaça qui justamente fui eu Zezim do Cafundó que foi que afundô o grupo aqui em Riachão no ano de noventa e seis (...) Em noventa e seis Zezinho formô esse grupo me entregô pra eu tomá conta. Então colocaram o nome de Sufoco da Fumaça. Mas tem um amigo qui ele ajudaria fazer a participação do grupo. Então teve uma diferençazinha piquena entre nois dois e nois se separamos. Ele ficou com o nome Sufoco da Fumaça, eu passei pro nome Sufoco da Fumaça I, mas depois terminei pra ficar com um só e coloquei o nome do grupo Ramos. (MANOEL PEDRO RAMOS, 67 anos,15/09/2007). Analisando os depoimentos pode-se perceber que muitos grupos de samba de roda de Riachão do Jacuípe têm sua origem no desmembramento de outros grupos. Assim ocorreu com o grupo Bagaço, cujos membros pertenciam ao grupo de Mano, o mesmo ocorreu com o Sufoco da Fumaça e o Grupo Renascer, que posteriormente passou a chamar-se Ramos. Nessa
  • 9. última disputa entre os dois organizadores do grupo Sufoco da Fumaça, fica evidente que o motivo de tal disputa é a coordenação do grupo. Nas falas dos personagens fica claro o sentimento de posse em relação ao grupo, pois os dois utilizam muito a primeira pessoa do singular .O senhor José Cândido ao registrar o grupo procurou, por meios legais, preservar o nome do mesmo, o que, a princípio não dá certo, já que foi permitido ao senhor Ramos registrar seu grupo com o nome semelhante. Sufoco da Fumaça I. Enfim, esse conflito se encerra com a desistência do senhor Ramos em manter o nome do seu grupo, Sufoco da Fumaça I, o qual foi substituído por Renascer. Seguindo a perspectiva de Alessandra Cruz, o que talvez os dois personagens dessa história não tenham consciência é de que o samba de roda é coletivo, portanto não tem dono. Suas chulas e batuques podem até ser criados individualmente, mas só existem, de fato, na roda - complementados com as vozes dos companheiros, os instrumentos, a dança e a resposta das palmas. De acordo com a autora: “aqui é o limite do indivíduo humano com o saber coletivo”. (CRUZ, 2006 ). O samba de roda é uma prática cultural secular de trabalhadores rurais em Riachão do Jacuípe. Se essa prática cultural sobrevive em meio às dificuldades vividas pelos sujeitos praticantes é porque, certamente, tem um grande significado para eles, como expressa o senhor Manoel Pedro Ramos, 67 anos: (...) É uma coisa na minha vida que eu tenho unicamente na minha vida desde eu pequeno. É uma coisa na minha vida que eu tenho alegria é um samba de roda. É uma coisa na minha vida mesmo...“ (RAMOS, 67 anos , 15/09/2007). Sendo ainda o samba de roda uma forma de lazer que pra os sambadores é a única, como confirma o senhor Edilson Carneiro de Oliveira, 67 anos: “O samba de roda é... ele me faz muito feliz e representa toda alegria na minha vida (...) a vez eu tô até triste assim... pensano alguma coisa, mas pra fazer aquilo, até eu me sinto feliz sabe, esquece todos os problemas da vida” (OLIVEIRA, 67, 23/05/2009) Nota-se nos depoimentos da maioria dos sambadores, representados nesses dois acima, um forte sentimento de pertencimento. O samba de roda nessa perspectiva é algo primordial para suas existências. Sem ele a vida não tem sentido. Na roda de samba eles conseguem esquecer, pelo menos momentaneamente, os problemas do cotidiano. É sambando que eles e elas gastam a energia do corpo e recarregam a da alma.
  • 10. Enfim, estudar origem, características e as disputas existentes entre os sambadores é interessante, pois através disso pode-se conhecer as experiências vividas por estes artistas e ajudá-los a preservar esta prática cultural. 4. A mulher no samba de roda Em Riachão do Jacuípe, a presença da mulher no samba de roda não é tão freqüente, já que existem grupos como o das Pedrinhas e o Sufoco da Fumaça que são formados apenas por homens, apesar dos sambadores em geral, mesmo dos grupos aqui citados, considerarem-nas peças importantes. “(...) as mulheres são as dançarinas, as animadoras do Samba de Roda (...) o samba só com home fica disanimado”. (...) Tem hora delas entrá e hora delas sair. Agora a gente sente dificuldade, pois não é todas qui aprendero fazer esse trabalho”. (JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos,08/09/2007). Para o depoente não é “qualquer mulher” que pode entrar na roda do samba. É preciso conhecer as regras. É preciso ter disciplina e nem todas que querem entrar “aprendero fazer esse trabalho”. Homem e mulher tem papéis diferenciados no samba de roda, como relata o seguinte depoimento de Sr. Manoel: “Nois temos um regime qui na área do salão só brinca as mulheres, as damas é quem dança e os home é só pra sambá (...) as mulheres tem a área delas e nois temos a nossa área também”. (MANOEL PEDRO RAMOS, 67 anos, 15/09/2007) Mesmo havendo papéis diferenciados para ambos os gêneros, como afirma o depoente, há também uma relação de complementaridade enfatizada na fala do Sr. Hermes Roque dos Santos: “(...) Quem faz a parada do samba é as mulher. Elas ajuda a respondê os batuque (...) sem as mulher a gente sofre muito.”(HERMES ROQUE DOS SANTOS,70 anos, 14/11/2009) Entre homens e mulheres entrevistados é unânime o reconhecimento do papel de animadora que a figura feminina exerce no samba. “toda mulher também, ela anima o samba. As pessoas que estão assistindo gosta de vê dançar. Gosta de vê elas tudo alegre. É uma coisa muito importante e bunita. É uma mistura do masculino com o feminino e aí a gente faz o samba animado”.( ANTONIO MATOS DE LIMA, 67 anos, 12/09/2008)
  • 11. A mulher ainda pode ser fonte de inspiração para as canções improvisadas pelos sambadores como afirma o sambador: “A gente vê alguma moça bonita no salão, a gente faz um batuque falando daquela moça.” (GILMÁRIO LIMA CARNEIRO, 26 anos, 15/10/2007) “Que sorriso tão lindo, eu preciso te dizer / qui a moça bunita da festa hoje chama você..”. Se a mulher é peça tão importante na roda do samba como afirmam os entrevistados. Se com suas vozes elas contribuem tanto para que o samba não saia do ritmo, quanto para que enquanto elas sambem, os sambadores descansem e se ainda são elas as principais responsáveis pela animação é, no mínimo curioso que existam grupos sem a presença da mulher. Dona Madalena, 52 anos, dá a sua opinião: “(...) hoje em dia ninguém quer sambá. As maioria até arrilia, fala mal do samba de roda...” ( MADALENA CARNEIRO,52 anos, 02/04/2009). O preconceito em relação ao samba de roda é algo histórico e os motivos são diversos, como por exemplo por ser o samba uma festa de origem africana. Festas consideradas, segundo o historiador João José Reis pela elite baiana como um entrave à europeização dos costumes, dificultando o projeto de civilização da província no século XIX. Além de “ferir (...) a moralidade das famílias brancas das cenas públicas de sensualidade negra exibidas nas danças que acompanhavam os Batuques” (REIS, 2005). Assim o preconceito em relação ao samba de roda por ser uma festa de origem africana, além da exigência de que para entrar na roda do samba a mulher deve saber as regras locais do samba, talvez explique a pouca participação da mulher no samba de roda. Entendendo o samba como uma forma de expressão dos sentimentos dos trabalhadores rurais, a música torna-se o principal mecanismo utilizado para expressar tais sentimentos, vejamos como a figura feminina é representada nas letras: A música é essencial para a cultura brasileira: para nossa memória, individual e coletiva (...) ela acompanha a nossa existência, delimita e marca os episódios significativos da vida. (AGNES MARIANO, 2009, p.13). Nessa perspectiva, a música torna-se um elemento fundamental por meio do qual o artista, no caso aqui o sambador, se expressa. Ela nesse caso pode ser compreendida como forma de comunicação tão importante quanto o discurso. A música sempre esteve intimamente ligada à vida do povo brasileiro. Em Contos Populares do Brasil, Silvio Romero
  • 12. já ressaltava a importância da música no cotidiano do povo :“(...) lavrando a terra ou deitando matas ao chão. (...) o trabalhador vai cantando e improvisando” (ROMERO, 1985). Há diferentes ritmos e formas de músicas como a chula, o arremate e o batuque no samba de roda. Os quais podem ser reproduzidos, ou seja herdadas dos antepassados dos sambadores, ou ainda criados e improvisados por eles. O mesmo podemos dizer em relação aos temas abordados, a esse respeito vejamos a tabela abaixo: Quadro II. Músicas cantadas pelos sambadores do município de Riachão do Jacuípe. TEMA SUJEITO ADJETIVOS 1- Romance Mulher Amada 2- Samba Mulher Linda, morena, flor 3- Festa Mulher Morena, meu bem 4- Romance Homem e mulher Ingrata 5- Festa Moça Sorriso lindo, moça bonita 6- Medo de fazer amor Mulher Amorosa 7- Desencontro Mulher Ingrata 8- Comportamento Mulher Sem respeito 9- Preciso de você Mulher Amor indispensável 10- Namoro Mulher Amor verdadeiro 11- Saudade Mulher Meu bem 12- Sonho Mulher Morena bonita, pele bronzeada 13- Namoro Iolanda Carente 14- Tempestade Maria Vaqueira 15- Razão dos problemas Mulher Nova, bonita, carinhosa
  • 13. 16- Perda Mulher Razão do meu viver 17- Vida de Cigano Mulher Ciganinha FONTE:Quadro(CDS Gravados por grupos de samba de roda do município de Riachão do Jacuipe). Seguindo a mesma perspectiva de Agnes Mariano, em A Invenção da baianidade, que tem como objetivo descobrir nas letras das canções que retratam a Bahia, o que e como se fala do jeito de ser baiano, optou-se nesse trabalho apenas por uma temática - a mulher - por ser este o tema mais recorrente. Assim, percebe-se nas letras das canções que os sambadores utilizam de muitos adjetivos positivos como amada, amorosa, bonita carinhosa para referirem-se à figura feminina. Essa mulher cantada por eles é idealizada, pois em nenhum momento é feita qualquer referência à elas como esposas, nas suas atividades laborais diárias. Quando a mulher parece real é evocada com saudosismo, pois é como se permanecesse viva em suas memórias as aventuras amorosas dos tempos de jovens: “menina bonita da pele bronzeada, sonho com você toda madrugada. Em sua pele não posso tocar, em sua boca não posso beijar” (...) (Música gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça, 2006). Eles também se referem à mulher de forma negativa chamando-a de “ingrata” quando não correspondem ao seu amor e de “sem respeito”, quando fogem aos padrões sociais como, por exemplo, a forma de vestir-se. Tem muita mulé no mundo qui ta perdeno o respeito / vestido curto demais, bem acima do juelho, umas mostra as pernas outras mostra os seios a saia deixa cair, mostra a coluna do meio, isso é coisa do maldito, o home acha bunito, mais Jesus Cristo acha feio (Música gravada pelo grupo sufoco da fumaça – 2006) Apesar de a mulher ser o tema mais recorrente, os sambadores também falam nas suas canções do contextos que marcaram suas vidas como períodos de seca, inflação, devastação ambiental. Enfim, a música é um canal pelo qual eles expressam seu modo de ser, agir na sociedade, e suas visões sobre ela. Eles sempre colocam as canções na roda dos contextos de suas vidas.
  • 14. 5. Mecanismos de preservação do samba de roda em Riachão do Jacuípe O samba de roda em Riachão do Jacuípe, apesar das dificuldades encontradas para a manutenção da tradição, principalmente dificuldades financeiras, assim como é confirmado no depoimento: “(...) tem muita dificuldade cum transporte, nem sempre os dono da casa paga as dispesa, nem sempre as pessoa tem dinheiro pra pagá” (TEREZINA PEREIRA DE JESUS, 73 anos, 20/12/2009).Essa prática cultural tem sobrevivido até aqui, de acordo com a opinião dos sambadores, exemplificada na fala de Edílson Oliveira, de 67 anos, por ser tão significante pra eles. “O samba de roda é... ele me faz muito feliz e representa toda aligria na minha vida (...)”. Sendo tão importante para os sambadores, muitos deles, direta ou indiretamente herdaram das gerações passadas e transmitiram para as futuras esse gosto pelo samba. Assim, esse foi até o final do século passado o principal mecanismo de preservação do samba de roda em Riachão do Jacuípe. A memória aí exerce papel fundamental, pois, segundo Ecléa Bosi, por meio da memória o passado sobrevive (BOSI, 1994). Algo perceptível na fala do sambador José Matos de Lima, 67 anos: “Eu lembro qui era meu avô que era sambador, chamava Nicolau Guedes e era a diversão nessa época. Em 1990 por aí foi qui eu comecei a sambá (...)”. A partir da primeira década do século XXI dois eventos acontecem anualmente e transformaram-se ou deveriam transformar-se em espaços especiais para a preservação do samba: O 1º de maio e o Festival de samba de roda. O 1º de maio é uma festa de trabalhadores rurais, os quais chegam de várias comunidades com seus instrumentos musicais com muita expectativa para se apresentarem. Porém estes disputam com políticos e representantes do Sindicato de Trabalhadores Rurais o espaço e a atenção do público. O pouco tempo que sobra para as apresentações do Samba de roda ainda é dividido com vários grupos que apresentam ou encenam outras manifestações, como o boi de roça, as rezas de Cosme e Damião e o Bumba meu Boi, dentre outras, mas o que incomoda os sambadores são os políticos, com seus discursos prolongados. O espaço é pouco, purque eles come mais tempo cum político. Lá, quando parte pra brincadeira, o tempo já acabo, mas o tempo o político já cumeu e é por isso que a gente esse ano ficou de fora.(EDÍLSON CARNEIRO DE OLIVEIRA, 67 anos,23/05/2009)
  • 15. Assim, o momento e o espaço deles se expressarem acabam se transformando em espaço de promoção de políticos. Com o Festival de samba ocorre algo semelhante, pois um espaço que deveria ser reservado principalmente aos grupos de samba do município é dado a outros de outras regiões. No último Festival não havia grupos de Riachão do Jacuípe disputando. Apenas o grupo “Sufoco da Fumaça” se apresentou sem concorrer, já que, esse grupo é o organizador oficial desse evento, mas na prática apenas um membro, o Senhor José Candido assume essa função. Eu organizo o Festival de Samba de Roda aqui na nossa cidade (...) passo dois, três meses antes do dia do evento pedino à todos os amigos, não só os pulíticos como os amigos, ao comércio local (...) contrato aquele grupo de samba pra fazê a festa e pego um caixazinho àqueles grupo de samba.( JOSÉ CÂNDIDO CARNEIRO, 62 anos, 08/09/2007). Nesse contexto, há uma apropriação desse espaço de poder e prestígio proporcionado pelo samba de roda. Desse modo, o Festival de samba de roda não está exercendo efetivamente sua principal função que é divulgar e promover, principalmente, os grupos de samba de roda do município. Pois o espaço maior no palco, que deveria ser dos grupos locais, está sendo cedido na maior parte das vezes aos de outras localidades. Além disso, a ajuda financeira dada pelo comércio e pelos políticos, é retribuída na forma de propaganda para promovê-los, o que também ocupa o tempo do samba. O samba de roda assume aí uma perspectiva, confirmada por Cláudio Noel R. Júnior, de legitimação da lógica social capitalista em que esse sujeitos, os sambadores, estão inseridos (JÚNIOR,1982). 6.Considerações Finais A partir da pesquisa realizada para este artigo foi possível identificar a existência de dez grupos de samba de roda de Riachão do Jacuípe. Percebemos que a principal dificuldade para a manutenção dos grupos é a falta de apoio financeiro, pois na opinião dos próprios sambadores nem sempre quem convida os grupos para uma apresentação em sua casa, por exemplo, paga as despesas de transporte, dentre outras.
  • 16. As estratégias de preservação como o Festival de Samba de Roda e o 1º de maio fazem isso de forma restrita, pois o espaço e tempo disponível são ocupados por grupos de outras localidades. Percebeu-se ainda que em alguns casos a liderança dos grupos de samba é muito disputada, por ser esta uma oportunidade das pessoas conquistarem respeito perante a comunidade. Esse trabalho não tem a pretensão de esgotar as discussões acerca do samba de roda em Riachão do Jacuípe, pois tenho a consciência que toda pesquisa é limitada pelo tempo e pela escassez de fontes. Espero que as lacunas aqui existentes se tornem um convite a uma investigação mais ampla dessa manifestação cultural secular que sobrevive, apesar das dificuldades. Como disse uma das sambadoras: “precisa de um projeto para essa cultura num acabá (...) a gente cresce quando recebe apoio” (MARIA CÉLIA DOS S. CONCEIÇÃO, 42 anos, 20/12/2009) Diante das dificuldades de sobrevivência do samba de roda em Riachão do Jacuípe e dos sujeitos que vivenciam essa prática cultural, os sambadores, foi constatado que é necessário um engajamento tanto do poder público, dando condições materiais à esses sujeitos e apoio efetivo à projetos voltados para essa área, quanto da sociedade, pois o samba é um patrimônio local. A idéia de preservação de patrimônio deve ser vista como algo discursivo, devendo não apenas ser identificado como um bem imaterial, mas como prática cultural, podendo também promovê-los por meio de apoio à organização de espaço físico para a promoção de eventos culturais para que assim essas práticas culturais sejam reconhecidas e valorizadas pelas futuras gerações (FONSECA, 1997). A preservação do samba de roda é muito difícil, purque o jove num interessa muito, mas eu acho qui o ponto certo era fazê uma iscola, aqueles qui se interessasse ia participá e pudia aprende pra que preservasse. (ANTONIO MATOS DE LIMA, 67 anos, 12/09/2008). Como afirma o próprio sambador, a educação tem papel fundamental na preservação do samba de roda, pois cabe também à escola despertar nos educandos a consciência da importância desse bem imaterial tão relevante não só para os sambadores, como para toda sociedade jacuipense, já que o samba de roda é parte da própria história desse município.
  • 17. Referências Bibliográficas ABREU, Martha, O Império do Divino: festas religiosas e cultura popular no Rio de Janeiro, 1830-1900 ______, “Cultura popular: um conceito e várias histórias” in ABREU, Martha e SOIHET, Raquel,(orgs.), Ensino de História: conceitos, temáticas e metodologia, Rio de Janeiro, Faperj/Casa da Palavra, 2003, pp.83-102. ALBUQUERQUE JR, Durval Muniz de : A Invenção do Nordeste e outras artes. Recife. FNJ, Ed Massangama, São Paulo: Ed Cortez, 1999. BOSI, ECLÉA. Memória e Sociedade: lembrança dos velhos /Ecléa Bosi-3 ed- São Paulo,Companhia das Letras,1994. BURKE PETER, 1937. O que é história cultural?/ Peter Burke; tradução: Sérgio Góes de Paula. – Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005. CRUZ, Alessandra, “O samba na roda”. Samba e cultura popular em Salvador, 1937-1954. 2006. CENSO DEMOGRÁFICO, 2000: Disponível em: http://www.ibge.gov.br/home/estatistica/populacao/censo2000/universo.php?tipo=31o/tabela1 3_1.shtm&paginaatual=1&uf=29&letra=R. Acesso em 15/09/2009. DANTAS, Beatriz Góis, “Uma festa de negros e caboclos”, Aracajú, cadernos UFS, 1998. FONSECA, Maria, Cecília Lourdes, “A prática de tombamentos: 1970-1990” in o patrimônio em processo: trajetória da política federal de preservação no Brasil, Rio de Janeiro, UFRJ/IPHAN, 1997, pp.202-246. JUNIOR, Jorge Cláudio Noel Ribeiro. A festa do povo-Pedagogia de Resistência. Editora Vozes Ltda. Petrópolis, Rio de Janeiro. MARIANO, Agnes, A invenção da baianidade, Agnes Mariano – São Paulo: Anablue, 2009. 5 Baianidade. REIS, Demian,” A dramaturgia histórica na dança do quilombo”, in greiner, C. e Bião, A,(orgs). REIS, João José, ”Tambores e Teimores: A festa negra na Bahia na primeira metade d século XIX”, in Cunha, M.C.P.(org), Carnavais e outros f® estas, Campinas, Ed. Unicamp, 2005, pp 109-155.
  • 18. ROMERO, Silvio, 1851-1914, Folclore brasileiro: Cantos |Populares do Brasil/ Silvio Romero – Belo Horizonte: Ed. Itatiaia: São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1985. SILVA, Marinélia sousa da, “ Padre não deve se meter em política?.” Conflitos de política e religião em Riachão do Jacuípe nas últimas décadas do século XX/ Marinélia Sousa da Silva – Salvador: Dissertação de Mestrado em História. UFBA. 2005. THOMPSON, Paul,1935. A voz do passado: história oral/ Paul Thompson; Tradução Loio Lourenço de Oliveira, Rio de Janeiro; Paz e Terra, 1992. VAINFAS, Ronaldo, ETC.... ”História das mentalidades” in Cardoso, CF e Vaifas, Ronaldo (orgs.), Domínios da História. Rio de Janeiro. ED. Campos, 1997. Arquivos Orais Carneiro,Carmito da Natividade. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007 Carneiro, Gilmário Lima. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/10/2007. Carneiro, José Cândido. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007. Carneiro, José Roque de Oliveira. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007. Carneiro, Maria Madalena. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 02/04/2009. Carneiro, Misael. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 23/05/2009. Conceição , Maria Célia dos Santos. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe Jesus, Terezinha Pereira de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 20/12/2009. Lima, Antonio Matos de. Depoimento tomado em Chapada - Riachão do Jacuípe, 12/09/2008. Lima,Risoleta dos Santos. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007 Lima, José Neves de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/11/2009. Marcenio,José Jesus. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 08/09/2007. Oliveira, Edílson Carneiro de. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 23/05/2009. Oliveira, Azeny Almeida de. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe, 20/12/2009 Ramos, Pedro Manoel. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 15/09/2007. Santos, Hermes Roque dos. Depoimento tomado em Riachão do Jacuípe, 20/12/2009.
  • 19. Oliveira, Azeny Almeida de. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe, 20/12/2009 Santos, Luis Ferreira dos. Depoimento tomado em Chapada – Riachão do Jacuípe, 12/09/2008. Músicas 01. Seca do Aqueta Aí – Gravada pelo grupo das Pedrinhas. 02. Homenagem a Izidro - Gravada pelo grupo das Perdinhas 03. Sorriso lindo – Gravada pelo grupo Sufoco da Fumaça. 04. Mulher sem respeito – Gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça. 05. Festa – Gravada pelo Grupo Sufoco da Fumaça. 06. Vem Amor – Cantada por José Cândido e José Moisés. 07. Se essa mulher não te ama – Cantada por José e Cândido e José Moisés. 08. Festa na cidade – Cantada por Mandinho e Tiago. 09. Preciso de você – Cantada por Nadinho e Dunga 10. Vem morar mais eu – Cantada pelo Grupo Chuva de Prata. 11. Eu tenho uma namorada – Cantada por Nadinho e Dunga. 12. Abre a porta meu bem – Cantada por Geraldo e Arnaldo 13. Morena bonita da pele bronzeada – Cantada por Geraldo e Arnaldo. 14. Iolanda – Cantada por Geraldo e Arnaldo 15. Maria leva teu chale – Cantada por Geraldo e Arnaldo 16. Mulher nova, bonita e carinhosa – Cantada pelo Grupo Chuva de Prata 17. Linda cigana – Cantada por Carmito e José de Rosália 18. Medo de fazer amor – José Cândido e José Moisés 19. Quatro horas da manhã –Cantada por José Cândido 20. Lhe desejo ser feliz – Cantada por José Cândido e José Moisés