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Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas
                       Universidade Técnica de Lisboa



           AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO
                   DO CIDADÃO NOS MEDIA:
                         Um Estudo de Casos




Dissertação Apresentada para a Obtenção do Grau de Mestre em Comunicação Social

                    Mestrando: Cheila Sofia Tomás Marques
                Orientadora: Professora Doutora Maria João Cunha


                                   Lisboa
                                    2010
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                                                Um Estudo de Casos

                                                                   ÍNDICE GERAL

ÍNDICE DE FIGURAS .............................................................................................................................6

ÍNDICE DE TABELAS ............................................................................................................................6

ÍNDICE DE GRÁFICOS ..........................................................................................................................6

GLOSSÁRIO...........................................................................................................................................8

INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................9

1. A CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO.......................................................11
   1.1. NUANCES DE UM NOVO CONCEITO: CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO ....................11
   1.2. O CIDADÃO JORNALISTA E O CONCEITO DE CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO .........17
   1.3. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO NO MUNDO.......................................................19
       1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional ....................................19
       1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo...............................23
   1.4. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO EM PORTUGAL .................................................26
       1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em Portugal
        ......................................................................................................................................................26
       1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal ...........................28

2. AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS NOS MEDIA EM PORTUGAL ...........30
   2.1. MOTIVAÇÃO .................................................................................................................................30
       2.1.1. O que é a motivação social ................................................................................................31
       2.1.2. As principais teses da motivação .......................................................................................32
            2.1.2.1. As teorias de Maslow, McClelland e Herzberg............................................................34
            2.1.2.2. As teorias de Watson, Skinner, Adams e Vroom ........................................................38
   2.2. A PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS..................................................................................................41
       2.2.1. “Eu” e a sociedade..............................................................................................................41
       2.2.2. “Eu” e os media ..................................................................................................................43
   2.3. CONCEPTUALIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO NOS MEDIA .....................................................45

3. METODOLOGIA ...............................................................................................................................50
   3.1. A ESCOLHA DO TEMA ....................................................................................................................50
   3.2. A METODOLOGIA ADOPTADA..........................................................................................................51
       3.2.1. Problemática e modelo de análise......................................................................................53
       3.2.2. Objectivos, pergunta de partida, e perguntas de investigação...........................................55
       3.2.3. O inquérito por questionário ...............................................................................................57
       3.2.4. Análise de Conteúdo ..........................................................................................................61

4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ..............................................................................63
   4.1. CARACTERIZAÇÃO DOS INDIVÍDUOS QUE PARTICIPAM ......................................................................63
   4.2. MOMENTOS E CONTEXTOS SUSCEPTÍVEIS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................67
   4.3. LOCAIS DE PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS ....................................................................................73

                                             Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                                                      4
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                                             Um Estudo de Casos

   4.4. FORMAS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................................................................79
   4.5. RAZÕES PELAS QUAIS OS CIDADÃOS PARTICIPAM ............................................................................84

CONCLUSÃO .......................................................................................................................................89

BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................................93

ANEXOS .............................................................................................................................................105




                                           Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                                               5
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                                              Um Estudo de Casos

                                                            ÍNDICE DE FIGURAS

Figura nº 1. Pirâmide de Necessidades de Abraham Maslow .............................................................34
Figura nº 2. Modelo de Análise das motivações da participação do cidadão nos media.....................54


                                                           ÍNDICE DE TABELAS

Tabela nº 1. Factores Motivação-Higiene apontados por Herzberg .....................................................37
Tabela nº 2. Jornais Online com Suporte de Participação do Cidadão em Portugal ...........................59
Tabela nº 3. Categorização efectuada na Análise de Conteúdo ..........................................................62
Tabela nº 4. Razões Mais Fortes da Participação dos Indivíduos de Esquerda ..................................75


                                                          ÍNDICE DE GRÁFICOS


Gráfico nº 1. Distribuição dos Suportes de Participação do cidadão por Distrito em Portugal ............59
Gráfico nº 2. Género dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário .........63
Gráfico nº 3. Habilitações Literárias dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa
      Semanário ....................................................................................................................................64
Gráfico nº 4. Profissão dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ......65
Gráfico nº 5. Tendência Política dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa
      Semanário ....................................................................................................................................65
Gráfico nº 6. Idade dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ............68
Gráfico nº 7. Fluxo de Participação dos Indivíduos no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos
      Seis Meses ...................................................................................................................................69
Gráfico nº 8. Participação em Contextos de Situações Caricatas no Jornal i e no Póvoa Semanário
      nos Últimos Seis Meses ...............................................................................................................71
Gráfico nº 9. Comportamento Adoptado aquando da Participação face ao Motivo da Participação
      Segundo a Análise de Conteúdo ..................................................................................................72
Gráfico nº 10. Jornais em que os Indivíduos Participam Mais .............................................................74
Gráfico nº 11. Tipo de Programa Televisivo em os Indivíduos Participam Mais..................................76
Gráfico nº 12. Jornais Online onde os Indivíduos Participam Mais face à sua Idade ..........................77
Gráfico nº 13. Canais Televisivos em os Indivíduos Participam Mais com Texto................................78
Gráfico nº 14. Formas de Participação nos Media segundo os Indivíduos que Participam no Jornal i e
      no Póvoa Semanário ....................................................................................................................79
Gráfico nº 15. Elementos Presentes nas Fotografias das Notícias Analisadas nos Últimos Seis Meses
      ......................................................................................................................................................80
Gráfico nº 16. Elementos Presentes nos Textos Analisados nos Últimos Seis Meses .......................81
Gráfico nº 17. Caracteres com Espaço dos Textos Produzidos pelo Cidadão no Jornal i e no Póvoa
      Semanário nos Últimos seis Meses..............................................................................................81




                                           Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                                                      6
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                                            Um Estudo de Casos

Gráfico nº 18. Distribuição dos Motivos de Participação no Jornal i e no Póvoa Semanário nos
      Últimos Seis Meses face ao Uso de Fotografia e Texto como Material Preferencial de
      Participação ..................................................................................................................................82
Gráfico nº 19. Objectivos da Participação dos Indivíduos nos Media Segundo os Nossos
      Respondentes...............................................................................................................................84
Gráfico nº 20. Grau de Satisfação dos Indivíduos face aos Media Tradicionais segundo os Nossos
      Respondentes...............................................................................................................................85
Gráfico nº 21. Importância que os Indivíduos dão à sua Participação.................................................85
Gráfico nº 22. Motivos de Participação face ao Comportamento Adoptado quando Participam .........87




                                         Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                                                 7
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                               Um Estudo de Casos

                                                  GLOSSÁRIO



Blog- trata-se de uma página pessoal ou uma espécie de diário online que é actualizada por uma
         pessoa ou por um grupo de pessoas com interesses comuns, e onde é possível deixar
         comentários.


Fóruns- espaços de discussão e troca de conhecimentos online.


Flogs- trata-se de um blog cujo conteúdo são as fotografias.


Moblog- flogs actualizados por telemóvel.


Podcasts- trata-se de uma forma de distribuição de arquivos- de som, vídeo ou imagem- digitais pela
         Internet.


SMS- short message service, ou serviço de mensagem curta, é uma mensagem de texto trocada
         entre suportes de comunicação, sobretudo entre telemóveis.


Vlogs- blogs feitos com vídeos.


Webcam- Câmara de vídeo que transfere as imagens em simultâneo para o computador. É
         vulgarmente usada em serviços de mensagens instantâneas como o Skype ou o Messenger.


Webzine- trata-se de um magazine, ou revista, online.


Wiki- Suporte que torna possível adicionar, alterar, apagar ou reescrever conteúdos sem serem
                                                                                                 1
         exigidos grandes conhecimentos técnicos, sendo que o modelo mais conhecido é a Wikipédia .




1
    http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal

                                  Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                     8
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                             Um Estudo de Casos

                                              INTRODUÇÃO

        Esta dissertação foi realizada no âmbito do Mestrado em Comunicação Social do Instituto
Superior de Ciências Sociais e Políticas, pertencente à Universidade Técnica de Lisboa.
        Trata-se de um estudo exploratório que surge devido à ausência de matérias e investigações
em Portugal sobre o citizen journalism, que nós assumimos como sendo cidadania da informação e
para a informação. Procuramos entender o fenómeno e apurar quais as motivações para um
indivíduo comum participar nos órgãos de comunicação social. Incidimos especificamente no ponto
de vista dos indivíduos que participam no Jornal i e no Póvoa Semanário, questionando-os
directamente e analisando as suas notícias dos últimos seis meses. Vamos focar-nos nas novas
tecnologias e no seu papel face à emergência do conceito de cidadão da informação e para a
informação, conhecido vulgarmente como cidadão jornalista.
        O desenvolvimento da Internet e a vontade do cidadão participar activamente na sociedade,
transporta-nos à realidade actual. De facto, a perda de credibilidade dos órgãos de comunicação
tradicional, juntamente com as tecnologias e a vontade do cidadão em ser activo deixou um espaço
em aberto entre os jornalistas e a sua audiência. Esse espaço veio então ser ocupado pelo cidadão
da informação e para a informação, que embora não siga os procedimentos técnicos, éticos e legais
da profissão, tem um papel relevante na imprensa actual. Trata-se de alguém que está no sítio certo
à hora certa. Tira uma fotografia ou grava um vídeo porque o jornalista muitas vezes não consegue
estar no local ou pelo inesperado do acontecimento.
        Com a cidadania da informação e para a informação, qualquer pessoa pode participar nos
media. Se em 2008 foram as imagens (produzidas pelos cidadãos) da agressão de uma aluna a uma
professora que abriram os telejornais em Portugal, este ano a situação repetiu-se com o Terramoto
do Haiti ou as cheias na Madeira. As fotos e os textos destes cidadãos fizeram a imagem do
momento uma vez que espelharam as consequências dos cataclismos nas suas residências e países.
        Esta temática surge com a necessidade de compreendermos os motivos que estão por detrás
da participação destes cidadãos. Pretendemos aprofundar o conhecimento sobre a cidadania da
informação e para a informação nos jornais online portugueses, diários e semanais, e saber quem
participa, onde, quando, como e porque participa. Trata-se de conhecer quem é o cidadão da
informação e para a informação, onde está e que suportes e materiais usa e envia. Pretendemos
saber se a motivação da participação é de foro altruísta ou egoísta e ainda que tipo de consequências
tem. Será que os motivos que suscitam a acção dos indivíduos provocam comportamentos pró-
sociais, anti-sociais ou podem agir segundo instintos sociais?. Assim, a nossa pergunta de partida é
sintetizada da seguinte forma:


              Quais as motivações da participação do cidadão nos media na perspectiva
             dos indivíduos que participam no Jornal de Notícias e no Póvoa Semanário?


        Quanto à estrutura da investigação, a mesma desenvolve-se em quatro capítulos. No primeiro
temos a introdução ao fenómeno em estudo em Portugal e no mundo e a apresentação do conceito
de cidadania da informação e para a informação. Em seguida, temos as questões inerentes ao

                                 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                       9
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                             Um Estudo de Casos

conceito de motivação. Definimos a motivação, abordamos as principais teses do conceito, e ainda as
relações e a participação dos indivíduos na sociedade e nos media. Na terceira parte, damos a
conhecer a metodologia seguida para respondermos à nossa problemática e às nossas linhas de
investigação. Finalmente, vamos analisar os resultados dos questionários e saber quem, quando,
onde, porquê e como é que os indivíduos participam nos jornais online.
        Aquando do início desta dissertação, atentámos ao facto de um problema bem formulado ser o
mais importante para o desenvolvimento da ciência, pois uma investigação pode ter um grande mérito se
desobstruir ou construir um caminho, contribuindo para o seu desenvolvimento. Por seu turno os
objectivos gerais que nos propomos concretizar vão ser:


             1. Caracterizar o cidadão que participa.


             2. Compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação.


             3. Saber quais os locais onde o indivíduo participa.


             4. Verificar de que forma os indivíduos participam.


        Para a prossecução dos objectivos traçados, nesta dissertação vamos aplicar duas técnicas
de pesquisa quantitativa: a análise de conteúdo e o inquérito por questionário. A análise de conteúdo
será fulcral para compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação no Jornal
i e no Póvoa Semanário. O inquérito por questionário será necessário para que possamos
caracterizar o indivíduo que participa nos media (segundo o ponto de vista dos indivíduos que
participam no i e no Póvoa Semanário), e para ouvirmos o cidadão dizer em que momentos e
contextos participa, para sabermos quais os locais onde participa, e para sabermos de que forma
participa.
        Finda a análise dos resultados, pretende-se ir ao encontro dos objectivos traçados e obter
uma resposta face à nossa pergunta de partida. Resta então expor os factos e apresentar conclusões
empíricas. Se a ideia que previamente havia sobre o assunto estiver deturpada, permanece a certeza
da desmistificação de uma ideia infundada ou errónea.




                                Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                       10
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

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1. A cidadania da informação e para a informação


   1.1. Nuances de um novo conceito: cidadania da informação e para a informação


        A Internet tem um papel indiscutível nas sociedades contemporâneas. Há agora uma nova
realidade onde o tempo e o espaço foram redefinidos. A nova democracia digital, mediada pelas
tecnologias de informação e comunicação (vulgarmente conhecidas como TIC) e pelos computadores
(Hacker e Dijk, 2001), permite-nos aceder à informação a qualquer hora e em qualquer lugar. De
facto, é notória a capacidade que a Internet tem para aumentar a velocidade no fornecimento de
informação, para facilitar a participação política, para permitir que novas comunidades políticas
nasçam livres da intervenção do Estado, e para permitir aos cidadãos participarem na sociedade
(Meraz, 2006). Para participar, os indivíduos recorrem então ao espaço (através do qual transmitem a
informação) e ao conhecimento. Com estes recursos, o exercício da cidadania é mais dinâmico pois o
indivíduo social tem a capacidade de criar fluxos de informação personalizada e de se expor apenas
às fontes de informação que selecciona. As TIC permitem a existência de meios de expressão a
quem não é profissional da comunicação, logo torna-se mais fácil ao indivíduo comum exercer a sua
cidadania.
        Os media assumem cada vez mais um papel determinante no fomento de uma cidadania activa
e o número de indivíduos que utiliza os espaços online dos media tradicionais tende a crescer,
segundo um estudo das Nações Unidas (2005). Este novo fenómeno deve então ser encarado como
um dos instrumentos dos quais o jornalista dispõe para preencher um papel de activista político e
social caracterizado pela rejeição da corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade no
tratamento e na aplicação das leis e outros. Recorde-se que a sua actividade primária é observar e
descrever eventos pois «move-se no campo da realidade e não no da fantasia. […] Nem sempre
escreve sobre o que gostaria de escrever mas sobre o que é preciso que escreva» (Araújo, 1988:
269).
        O jornalismo tem sido, indubitavelmente, «um dos principais instrumentos de construção da
democracia e de conquista de direitos de cidadania» (Kucinski, 2000: 2). Por outro lado, é «uma força
activa nos esforços conscientes para efectuar transformações históricas em benefício da
humanidade» (Hudec, 1981: 68), pois é o jornalismo que tem de «informar, combater o segredo de
Estado, levantar polémicas, denunciar abusos de poder, corrupção e violação dos direitos humanos»
(Idem). Mas a Internet, além de causar uma revolução na produção de notícias, fez com que o
jornalista tivesse de aliar conhecimentos técnicos a uma boa redacção pois o que diz ou escreve,
determina, ou influencia o que o público pensa e sobre o que pensa. Assim, é premente que o
jornalista escreva de forma clara e concisa e que domine os suportes de redacção e difusão da
informação.
        A separação rígida entre os jornalistas e a audiência desaparece no mundo virtual pois «as TIC
acarretam 4 tipos de consequências: a tecnicização das relações, a mercantilização da comunicação,
a fragmentação dos públicos, a mundialização dos fluxos de informação» (Chambat in Rieffel, 2004:
48). Note-se que a tecnicização das relações diz respeito à grande diversidade de veículos de


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As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                            Um Estudo de Casos

comunicação presentes no nosso dia-a-dia (que vão desde um simples telemóvel a um computador),
e a fragmentação dos públicos resulta de uma oferta alargada de produtos que consegue satisfazer
interesses particulares.
      De facto, no dealbar do novo século o jornalismo enfrenta novos desafios. Nos media
tradicionais surgem novos suportes de difusão de informação. Por outro lado, os indivíduos que são
diariamente bombardeados com informação podem agora, com a Internet, seleccionar a informação
que querem receber e quando a querem receber. A sociedade tem agora novas necessidades e vai
identificar os recursos que permitem alcançar os seus objectivos e satisfazer as suas necessidades.
O principal recurso a que a sociedade civil vai ter acesso é a World Wide Web que fomenta a
                                                  2                      3                               4
participação devido ao: factor multimédia , à hipertextualidade , à comutação em pacote , à
         5                                    6
sincronia , e, finalmente, à interactividade (Newhagen e Rafaeli, 1995). Note-se que, já em 1972,
Dennis McQuail e outros autores defendiam que os media fomentavam um processo interactivo que
relaciona os conteúdos de media, as necessidades individuais, as percepções, os papéis, os valores
e o contexto social no qual uma pessoa se encontra (McQuail et al., 1972). Mas o significado de
interactividade mudou bastante desde 1972.
      Hoje, quando se fala em interactividade, referimo-nos à comunicação bidireccional ou
                                                                                           7
multidireccional (Barbosa, 2001), e aos conteúdos gerados pelos utilizadores . Como tal, a
interactividade torna-se «uma das características mais proeminentes que distingue os media online
dos media tradicionais» (Kopper in Barbosa, 2001: 5). Estas características são de facto visíveis e
fortalecem o reconhecimento da rede enquanto meio descentralizado e independente de
comunicação para todos os indivíduos, permitindo a oponentes de várias esferas sociais
confrontarem ideias directamente. Hoje, existem milhares de editores e autores que convivem em
simultâneo num espaço virtual onde o computador esconde o rosto dos envergonhados e altera os
processos de socialização tradicionais. Se antes as pessoas discutiam, em reuniões, os problemas
de uma dada empresa, hoje podem fazê-lo a partir de casa com uma webcam. Assim, a tecnologia
«dotou-nos de um conjunto de ferramentas de comunicação capaz de nos transformar a todos em
jornalistas, com custos reduzidos e, em teoria, com acesso a um público global» (Gillmor, 2004:14). É
precisamente neste contexto que nos vamos deparar com um novo fenómeno que envolve a
participação do cidadão comum nos media tradicionais e ainda nos novos media.
      O conceito de cidadão jornalismo surgiu «num momento em que o jornalismo americano
atravessava uma grave crise de credibilidade, com a consequente perda de leitores» (Gonçalves,
2005: 3). Os poderes económicos e políticos estavam a dominar cada vez mais os media, pelo que se
tornou necessário combater esta realidade. Cientes deste poder na imprensa, os cidadãos
começaram a desenvolver novas formas de exercício da sua cidadania, com maior e mais activa


2
  Esta possibilita o envio simultâneo de ficheiros de texto, imagem, voz, animação e pintura.
3
  É um código digital presente nos textos online que permite completar a informação dada. No fundo o leitor ao
    clicar numa hiperligação sobre a ONU, por exemplo, é redireccionado para o site da organização onde pode
    ter mais informação sobre a mesma.
4
  Onde se percorre um caminho alternativo mais rápido quando está impedida a linha mais curta de contacto.
5
  Onde o acesso do ponto receptor depende da vontade e disponibilidade deste em atender e responder, sendo
    simultânea ou diferida no tempo.
6
  Esta permite aos indivíduos responder rapidamente a uma ideia publicada
7
  Conhecido também como user-generated content cuja sigla é UGC.

                               Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                   12
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                               Um Estudo de Casos
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participação. No fundo, houve uma síndrome de esvaziamento , na qual os editores de jornais e
directores de estações de radiodifusão se aperceberam que, ao cortarem na quantidade e na
qualidade dos trabalhos jornalísticos, podiam aumentar momentaneamente os lucros (Gillmor, 2004).
Esta situação não se deteve nas questões de quantidade e qualidade. Agravou-se ainda mais pelas
fusões dos órgãos de comunicação social, que à medida que cresceram negligenciaram o dever de
informar e prestar um serviço público aos cidadãos. O serviço público foi, em parte, esquecido, pelo
que houve um esvaziamento informativo que os cidadãos jornalistas vieram colmatar. Surge então a
primeira forma de jornalismo nesta área: o public journalism, que emergiu devido à perda de
audiência da imprensa escrita em prol da televisiva. Este tendia a combater a pressões políticas e
«pretendia impor uma nova agenda de opinião e se tornar o intérprete dos cidadãos quanto à
hierarquia dos problemas e à escolha das soluções pela comunidade» (Abreu, 2003: 6). Porém, foi na
década de 70, que se evoluiu para o civic journalism (Abreu, 2003). Este tinha como cerne enaltecer
os valores democráticos e era «orientado para mobilizar, dar a palavra aos cidadãos comuns e aos
responsáveis por associações e comunidades» (Abreu, 2003: 6). O civic journalism acreditava que o
confronto de ideias e opiniões auxiliava na edificação de uma sociedade democrática, sendo que o
jornalista desempenhava a função de mediador desse confronto. É assim que nasce um movimento
no qual se dá prioridade a uma democracia directa e participativa onde se fundamenta a base do
cidadão jornalismo que hoje conhecemos.
         Na década de 90, com o aumento exponencial de espaços para a participação do cidadão nos
meios de comunicação social, este conceito ganhou novos contornos. A participação do cidadão nos
media foi facilitada e, por outro lado, a comunicação tornou-se «sóbria, directa e objectiva» (Abreu,
2003: 7). Pese embora o facto do seu desenvolvimento ter seguido fundamentos económicos e
acompanhado a evolução das TIC, este «continua muito vulnerável às manipulações da indústria
mediática» (Gonçalves, 2005:3), sendo que a palavra-chave deste fenómeno é colaboração. Há uma
comunicação de um para um, de um para muitos, e de muitos para muitos (Dahlgren in Rieffel, 2004).
Já não existe, no mundo virtual, uma fronteira que separa quem faz as notícias de quem as recebe.
Os jornalistas têm agora milhares de cidadãos que os auxiliam na árdua tarefa de apurar, conhecer,
reunir e até mesmo comentar informações – deu-se lugar à comunicação através de colaboração e
da interactividade, tendo em conta a utilidade social. Este último conceito diz respeito ao facto de o
jornalismo se dispor a servir «os interesses concretos dos cidadãos e a responder às preocupações
dos leitores ou da audiência referentes a emprego, habitação, educação, segurança, e qualidade de
vida» (Abreu, 2003: 5-6), associado à ideia de que o jornalismo trabalha para o público.
         Em linhas gerais, o cidadão jornalista é um indivíduo sem formação académica na área de
jornalismo com uma vontade enorme de participação na esfera social. É alguém que usa os suportes
tecnológicos para levar a informação directamente da fonte para a audiência sem passar
obrigatoriamente pelos media (Vollmer, 2007). É alguém que participa activamente na sociedade
através da recolha, análise e transmissão de notícias e informações. O âmago da sua acção é
contribuir para a democracia através da publicação de informação independente, séria, verdadeira,

8
    Esta diz respeito à mercantilização do jornalismo que deixa de se preocupar tanto com a qualidade do trabalho
    informativo e com a sua função social, e passa a preocupar-se com a rentabilização da actividade, sucumbindo
    a ideais capitalistas.

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As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

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interessante e relevante (Bowman e Willis, 2003). Apresenta conteúdos informativos (de texto,
imagem e som), onde exprime novas perspectivas e informação que, de outro modo, não teriam
                                 9
visibilidade na esfera pública . Este não exclui o que é produzido pelos jornalistas. Contribui, através
dos seus conteúdos e com uma maior liberdade na produção e veiculação de informação, para o
jornalismo.
         Nesta nova participação social, podemos ouvir sistematicamente as histórias e ideias dos
cidadãos, pelo que estes também são livres de escolher o assunto que vão cobrir. O cidadão procura
também seleccionar livremente os suportes através dos quais dá a conhecer aos outros as histórias
relativas a questões importantes da sua comunidade, procura enquadrar a informação de modo a que
seja claramente perceptível, fomentar a discussão pública, e divulgar e propor soluções para
eventuais problemas que existam na comunidade. Tende a apresentar novas perspectivas de um
determinado problema, e presta sistemática e continuamente atenção à forma como os comunicam
com o público (Lambeth, Meyer e Thorson, 1998). Segundo o estudo de Serena Carpenter (2008), os
cidadãos jornalistas optam por citar fontes não oficiais (60.6%), ao passo que os jornalistas online
geralmente usam fontes oficiais (75%). Isto sucede porque os jornalistas têm maior acesso a fontes
oficiais. Segundo Gans, os jornalistas «têm maior acesso a fontes oficiais e as fontes não oficiais
requerem mais tempo para serem localizadas» (Gans in Carpenter, 2008: 19). Em Portugal, por
exemplo, o acesso a documentos administrativos (fonte oficial) é regulado pela Lei n.º 46/2007 de 24
de Agosto- Lei de Acesso aos Documentos da Administração. De acordo com o artigo 5.º, «todos,
sem necessidade de enunciar qualquer interesse, têm direito de acesso aos documentos
administrativos, o qual compreende os direitos de consulta, de reprodução e de informação sobre a
sua existência e conteúdo». Quanto às restrições ao acesso, estão presentes no artigo 6.º da mesma
Lei, e compreendem, por exemplo, o acesso a documentos que possam comprometer a segurança
interna e externa do Estado, ou ainda documentos que respeitem a matérias que estão em segredo
de justiça.
         Esta participação do cidadão no jornalismo depende da colaboração e permite um
enriquecimento e democratização do trabalho do jornalista e da informação, pois pode produzir a
informação sem as pressões económicas ou políticas a que os jornalistas estão, geralmente, sujeitos.
Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei (Foschini e Taddei, 2006), dizem que os indivíduos
que participam na imprensa podem ser: publicadores (os que têm páginas pessoais como blogs,
flogs, vlogs, ou que produzem podcasts com notícias, independentemente do assunto abordado);
observadores (quem está preparado para, a qualquer momento, registar um acontecimento
inesperado); militantes (os que defendem uma causa ou se dedicam a um tema com grande fervor);
comentadores (os cidadãos jornalistas que se manifestam na web através de comentários que
inserem nos blogs, nos flogs, nos vlogs, nos fóruns, nas comunidades e nos websites da
comunicação social); e, finalmente, podem ser editores (os que seleccionam as notícias e participam
nas comunidades ou sites colaborativos, onde podem existir links, ou ligações, para outros sites).
Note-se que um cidadão jornalista pode, por exemplo, ser publicador e comentador ao mesmo tempo.


9
    O primeiro caso mediático a surgir deste jornalismo foi o caso Mónica Lewinsky, apresentado inicialmente num
     blogue, o Drudgereport, de Matt Drudge, sob a forma de notícia.

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                                                 Um Estudo de Casos

         J.D. Lasica (2003) também desenvolveu uma divisão do fenómeno tendo em contas suportes
usados para a publicação de informação. Este distingue: a participação do público (onde se integram
os comentários feitos nos blogs, o uso de fotografias e filmes ou os textos feitos por moradores de um
dado local ou por comunidades); os websites jornalísticos independentes, como o Drudge Report; os
websites de notícias feitas por utilizadores (como o OhMyNews e o WikiNews); os websites de media
colaborativos ou participativos (por exemplo o Slashdot e o Kuro5hin); e, finalmente, os websites de
transmissão pessoal (onde se inserem os podcastings -de áudio ou vídeo -, os blogs, os fotologs e os
vlogs). Tendo também em conta os suportes usados para publicação de informação, o autor Chris
Carroll (2006) define quatro categorias de cidadão jornalista. Na primeira estão inseridos os cidadãos
que possuem uma máquina fotográfica, ou que usam o seu telemóvel e tiram fotografias ou gravam
vídeos de acontecimentos (sejam eles de grande envergadura ou eventos locais) para depois
enviarem para os media. A segunda categoria respeita ao cidadão que quer cobrir as suas
comunidades locais ou virtuais e produz conteúdos direccionados aos seus objectivos. Finalmente,
temos os militantes que lutam por causas políticas. Estes são os cidadãos que participam num chat
ou comentam as notícias de um jornal ou blog. Pese embora o facto de este autor dividir o cidadão
jornalista em categorias e aceitar que este exista, não acredita que este venha a substituir o
jornalismo tradicional (Idem).
         O conceito de cidadão jornalista tem sido analisado por diversos estudiosos, alguns com visões
análogas e outros com visões antagónicas. Mas um conceito que é comum encontrarmos é o
defendido por Bowman e Willis (2003). Segundo eles, este fenómeno consiste:
                       «no acto de um cidadão, ou de um grupo de cidadãos que desempenham um
                       papel activo no processo de recolha, no acto de informar, na análise e difusão das
                       notícias e da informação. A intenção desta participação é fornecer a informação
                       independente, credível, exacta, extensa e relevante que uma democracia
                       necessita… é um fenómeno emergente no qual existe pouca ou nenhuma
                       intervenção editorial e os constrangimentos formais das rotinas jornalísticas a
                       ditarem as decisões dos colaboradores» (Bowman e Willis, 2003: 36).
         Um dos mais activos e fervorosos defensores do cidadão jornalista defende que a interacção
do público com a produção de notícias é uma oportunidade e não uma ameaça ao jornalismo
(Gillmor, 2004). Admite ainda que o seu público sabe mais sobre o seu quotidiano do que o próprio
jornalista. Na obra Nós, os Media (Gillmor, 2004), o autor defende que o conceito de jornalismo open
source está intimamente ligado com os novos media e com o facto de estes permitirem a actores
heterogéneos o acesso à rede. Quem também é adepta deste conceito é Catarina Moura, que diz que
o jornalismo open source permite a divulgação de pontos de vista díspares e isentos (Moura, 2002).
         Importa ressalvar a posição de Jay Rosen, outro defensor acérrimo da participação do cidadão
                                            10
nos media. O autor do blog Pressthink , que dá particular enfoque às questões do jornalismo na “era
da Internet”, diz que estamos perante uma acção de cidadão jornalismo quando os indivíduos que
anteriormente eram conhecidos como audiência, empregam as ferramentas dos media tradicionais e


10
     http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/


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As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

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têm os instrumentos necessários para informar outros elementos da audiência (Rosen, 2008).
Todavia, Jay Rosen interroga-se se os blogs podem conter jornalismo. Segundo ele, por vezes, os
blogs contém materiais que podem ser considerados jornalismo (Rosen, 2005), mas isso vai
depender do seu autor, ou autores, e do objectivo do blog.
      Numa visão mais pessoal e menos técnica, Chris Carroll descreve o cidadão jornalista como
alguém novo e inocente que actua de forma independente. Tem muitas ideias novas face à
democracia e ao jornalismo e tem um verdadeiro respeito pela verdade (Carroll, 2006). Para Alzira
Abreu, este deve ser encarado como uma forma de os jornalistas exercerem uma função de activistas
políticos, cuja preocupação passa também pela «rejeição à corrupção, defesa dos direitos dos
cidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis...» (Abreu, 2003: 14). Munish Nagar por
sua vez diz que este fenómeno permite que tanto um amador como um jornalista possam trabalhar e
publicar o seu trabalho em igualdade de circunstâncias (Nagar, 2007). Segundo Axel Bruns, um dos
objectivos do cidadão jornalista é:
                   «contribuir para uma visão pública mais extensa e exacta em problemas
                   específicos. Este movimento vê, especialmente os jornais e os seus sites web
                   como peças instrumentais no desenvolvimento de uma nova forma de ‘povo cívico’
                   onde as soluções para os problemas existentes são encontradas através de
                   debates construtivos gerados e conduzidos por editores e jornalistas nas suas
                   páginas» (Bruns, 2005: 23).
      Apesar de o cidadão jornalista ser um amador, deve seguir regras, como por exemplo
entrevistar, ouvir os dois lados de um assunto, confirmar sempre a informação, ter cuidado com o que
escreve e com as acusações que faz, comparar os dados oficiais com os dados de outras fontes, e
lutar pela credibilização do que escreve (Foschini e Taddei, 2006). Tem também de respeitar o direito
à imagem, o direito de reprodução e os direitos autorais (Idem). Outra situação que se insurge neste
panorama é a tensão entre a lógica económica de construir plataformas de participação do cidadão
(de modo a atrair comunidades cada vez maiores de utilizadores), versus a lógica profissional que
respeita à autoridade no controlo dos fluxos de informação (Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009). Estes
podem constituir um perigo para os modelos de negócio que dominam a difusão de informação,
porque não estão ligados a nenhuma empresa, logo não estão sujeitos a pressões e políticas
empresariais. Serena Carpenter acrescenta que «os cidadãos jornalistas podem ser menos afectados
pelas forças do mercado […] porém podem ser mais afectados por constrangimentos extramedia (por
exemplo, as audiências, os anunciantes e fontes)» (Carpenter, 2008: 5). Note-se que, devido ao facto
dos cidadãos puderem gravar vídeos, tirar fotografias e escrever blogs, registou-se uma perda de
hegemonia dos media tradicionais (Meraz, 2006).
      De facto, continua a ser fulcral o controlo dos conteúdos publicados por estes indivíduos,
porque a sua actividade não é objectiva e não segue as normas deontológicas do jornalismo. É
necessário filtrar a informação produzida pelos cidadãos para que o público tenha acesso a uma
informação credível e bem redigida. Pode haver a propensão dos cidadãos para escreverem artigos
de entretenimento sem qualquer pesquisa porque a maioria dos cidadãos jornalistas não tem
qualquer formação pelo que não seguem as normas de objectividade, clareza e investigação


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(Gladney et al. 2007). Tal como diz Lillie Bush, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa, «os
acontecimentos não podem ser encarados como factos quando não existe nada que os suporte como
factos» (Bush in Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009: 12). Se as informações não forem confirmadas e
as normas profissionais não forem respeitadas, estes indivíduos apenas contribuem para uma
cacofonia geral da informação, porque muitas vezes ela é falsa e mistura-se com informações
verídicas, tornando-se difícil distinguir o que é verdadeiro e o que é falso, o que é importante e o que
é acessório. A questão da credibilidade impõe-se pelo que o cidadão jornalista tem de relevar «a
credibilidade tendo em conta o discurso jornalístico» (Salwen et al., 2009: 149).
      Contrariamente, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa (Lewis et al., 2009) podemos
observar que os editores dos jornais analisados discordam da existência de um cidadão jornalista. Os
editores fazem uma distinção clara entre os jornalistas profissionais e o público, e encaram a
actividade como uma actividade vedada a profissionais. Estes editores permitem, contudo, a
participação dos cidadãos embora não os deixem escrever artigos. No fundo, os editores alegam que
«todas as ideias de histórias são tratadas por escritores profissionais e não por cidadãos jornalistas»
(Lewis et al., 2009: 11).


   1.2. O cidadão jornalista e o conceito de cidadania da informação e para a informação


      A par do conceito de cidadão jornalista (citizen journalism), têm também sido usados outros
que descrevem o fenómeno. Eles são o conceito de jornalismo em rede ou networked journalism
(Jarvis, 2007), o jornalismo de raiz ou grassroots journalism (Brambilla, 2005), o jornalismo amador e
o jornalismo participativo (Bowman e Willis, 2003), o jornalismo colaborativo, e, finalmente, o
jornalismo open source ou de código aberto onde estão, por exemplo, as wikis- Wikipédia,
wikinotícias e outros (Gillmor, 2004). Note-se que, se nos blogs o único controlador da informação é o
próprio criador do mesmo, já nos sites de jornalismo colaborativo e de jornalismo open source há um
administrador ou editor que filtra a informação recebida e disponibilizada online. Há que atentar,
ainda, que o cidadão jornalista só se cruza com a cidadania, na medida em que os indivíduos
assumem o seu espaço na sociedade ao participar e colaborar na produção de informação através
dos novos media.
      Apesar de vários autores defenderem os conceitos acima mencionados, consideramos que
nenhum deles se enquadra verdadeiramente na essência do fenómeno, nem o exprime de forma
abrangente. O network journalism e o jornalismo open source prendem-se essencialmente com a
produção de conteúdos e partilha online. No entanto, não consagram os conteúdos, como fotografias
por exemplo, que são enviados directamente para as estações de televisão e que não são partilhados
online. Já o grassroots journalism prende-se com a participação na produção e publicação de
conteúdos na web de cidadãos que geralmente não participam nas decisões da sociedade, logo não
contemplam a produção de conteúdos de um político, por exemplo, que está no local certo à hora
certa. Neste sentido acaba por reduzir esta forma de exercício da cidadania aos indivíduos que não
têm poder decisório. Na realidade, qualquer pessoa, independentemente da sua influência e poder
económico, pode produzir conteúdos para os media. Finalmente, o jornalismo amador e o


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participativo, focam-se essencialmente nos blogs e no contributo de indivíduos que não têm qualquer
formação jornalística. Aqui há uma clara lacuna no que respeita aos indivíduos que têm formação
jornalística e que não exercem a profissão. Estes também podem produzir conteúdos. Não têm
carteira profissional, mas têm o know-how, logo não devem ser excluídos como produtores de
conteúdos para os media.
         O jornalismo colaborativo é mais abrangente, pois existe uma colaboração entre o indivíduo
que produz uma fotografia, por exemplo, e o jornalista que a trata e publica. Contudo, também
existem casos em que um indivíduo produz uma “publi-informação”, ou seja, uma informação que
invariavelmente defende um produto, uma ideia ou ideal. Nesse caso, o conceito torna-se um pouco
ambíguo. Finalmente, o uso da palavra “jornalismo” em todos os conceitos é de todo errado. O
jornalismo continua a ser feito por jornalistas e será sempre jornalismo. O que se modificou foram as
formas do público se exprimir e exercer os seus direitos de cidadania. Estamos perante uma nova
forma de participação dos cidadãos nos media e na sociedade, e não de uma nova forma de
jornalismo, pelo que usar o termo “jornalismo” pode confundir. De facto, o jornalismo «é uma coisa
um bocadinho diferente: é utilizar as técnicas jornalísticas para fazer uma notícia- confirmar a
informação, haver uma investigação própria, um tratamento próprio» (Granado in Coelho e Palhares,
2005).
         Exposto isto, é necessário descrever o carácter dessa colaboração, pelo que propomos um
novo conceito: cidadania da informação e para a informação. Este parte da informação para a
informação, ou seja, o facto (que é a base da informação) é captado e divulgado pelo indivíduo que
posteriormente a envia para os media. Por seu turno, estes divulgam-na contribuindo para a
informação do público em geral. O público sabe à partida que está a aceder a informação e não a
publicidade ou propaganda. Por outro lado, pelos mesmos motivos que deixámos o conceito geral de
cidadão jornalista, passamos a falar em cidadão da informação e para a informação. Esta designação
parece-nos ser mais realista também porque esta é uma nova forma de exercício da cidadania que
incide nas formas de produção e de difusão da informação e de conhecimento, e porque o cidadão
que envia imagens e outros documentos para uma redacção pode ser apenas uma testemunha ou
uma fonte de informação.
         O cidadão da informação e para a informação não é jornalista. Não tem carteira profissional,
não segue as normas legais e deontológicas, nem as regras formais na elaboração e difusão de
informação. Ressalve-se que, por vezes, também recorre à comunicação social para se informar e
para validar o que produz. Noutros casos fornece pistas para o jornalista desenvolver um dado
acontecimento. É alguém que tira uma fotografia ou faz um vídeo de um evento que testemunhou e
envia para uma redacção, completando o trabalho do jornalista. Na sua bandeira ergue ideais como o
pluralismo, a independência, a transparência ou a imparcialidade, pelo que enriquece o trabalho do
jornalista. Por outro lado, contribui para o aprofundamento da democracia e o alargamento do espaço
público, pois produz e faz chegar ao público informação que de outro modo não seria possível. Traz
para a esfera mediática assuntos que nunca teriam notoriedade ou espaço nos media tradicionais,
revitaliza a vida pública porque favorece o debate público, e contribui para a comunidade se conhecer
e agir em prol de uma efectiva cidadania. Acreditamos que neste fenómeno o que é relevante é o


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conteúdo (a imagem, o som ou a informação de um determinado texto). A pessoa que o produz é
apenas um cidadão que exerce o seu direito de cidadania fomentado pelos novos media. Estes
participam activamente na sociedade quando produzem vídeos e outros materiais, e expõem as suas
opiniões e visões sobre o que os rodeia.


     1.3. Cidadania da informação e para a informação no mundo


       1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional


       As ferramentas, sobretudo online, disponíveis para o cidadão da informação e para a
informação são fundamentais para a divulgação do seu trabalho. O material produzido por estes
indivíduos é tratado e publicado sobretudo através da Internet, pois é um meio simples, com baixo
custo e de fácil acesso a todos os cidadãos. Segundo Abreu (2003), é através de suportes como os
blogs, os flogs, os moblogs, os vlogs, os podcasts, a wiki, o e-mail e, finalmente, os fóruns, que o
cidadão da informação e para a informação publica o seu trabalho e se submete à opinião de outros.
       Um dos exemplos da sua participação é a Wikipédia. Fundada em 2001, este é um suporte que
vive da constante actualização da informação por parte das pessoas que consultam site e tem como
características a verificabilidade e o controlo (Lima, 2006). É um suporte que permite que quem
participa seja também guardião da veracidade das informações publicadas, uma vez que pode corrigir
os erros que encontra. Esta função dos participantes actua ainda como inibidor de actos de
vandalismo online pois os perpetradores desses actos sabem que caso publiquem uma informação
errada esta é corrigida dentro de minutos. Logo, estes perpetradores optam por procurar locais mais
                                                                           11                     12
vulneráveis (Gillmor, 2004). Outros exemplos são a wikinotícias , o Creative Reporter , o
           13
NowPublic , onde os cidadãos interessados podem inscrever-se e participar através do envio de
textos, imagens ou sons. O NowPublic permite aos cidadãos publicarem as suas próprias notícias e
links para as histórias mais relevantes nos media. No Creative Reporter, os cidadãos são,
inclusivamente, pagos segundo a quantidade de vezes que a sua página é vista, e o participante
pode ainda consultar as estatísticas referentes ao número de visitas que a sua página recebeu e os
comentários de que foi alvo.
       Mas foi no ano de 1997 que o projecto de Rob Malda marcou o início da era do jornalismo open
                    14
source. O Slashdot       situa-se entre a webzine e o fórum e vai «permitir que várias pessoas (além dos
jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a
proliferação de um pensamento único» (Moura, 2002: 1/2). Este suporte contribui para uma
diversificação de perspectivas face a um dado assunto, e ajuda a trazer a público assuntos que de
outro modo não seriam conhecidos. Assim é um fórum noticioso, diversificado e plural que «contribui
para a gestão dos factos, das ideias, das opiniões; não só tem voz, como dá voz» (Nogueira, 2002:
2). Neste site, o cidadão, que pode permanecer anónimo se assim o desejar, envia o material que

11
   http://pt.wikinews.org/wiki/P%C3%A1gina_principal
12
   http://www.creative-reporter.com/
13
   http://www.nowpublic.com/
14
   http://slashdot.org/

                                Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                            19
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                           Um Estudo de Casos

quer ver publicado e, se este for considerado pertinente e actual, é escolhido e posteriormente
publicado por um dos seus editores. Devido à qualidade de muitos dos comentários, criou-se ainda
neste site um sistema de pontuação dos comentadores, sendo que os mais pontuados são,
logicamente, os mais lidos.
      Conquanto, o projecto mais emblemático e bem sucedido do cidadão da informação e para a
                                                                          15
informação, é o projecto desenvolvido na Coreia do Sul. O OhMyNews             foi lançado a 22 de Fevereiro
de 2000, conta com mais de 50.000 repórteres, e trabalha sob o slogan “todo o cidadão é um
repórter”. Tem um formato mais tradicional, onde os cidadãos produzem notícias locais e são
remunerados sempre que o seu trabalho é publicado, logo transformam-se em jornalistas pois são
remunerados e seguem directrizes editoriais. Neste projecto, o trabalho é coordenado por editores
profissionais que também os ajudam a melhorar as capacidades do cidadão da informação e para a
informação. Quando adere ao OhMyNews, o cidadão compromete-se a respeitar a sua autoridade
nomeadamente no que respeita à gestão das notícias. Deve também comprometer-se a partilhar
todas as informações sobre os artigos que envia, deve comunicar se um artigo já foi publicado noutro
órgão de comunicação, deve revelar as fontes usadas no seu trabalho, e deve ser responsável por
eventuais casos de plágio ou uso indevido de algum material. Quando publica mentiras ou notícias de
carácter difamatório deve ainda ser legalmente responsabilizado (Brambilla, 2005). De facto, este
projecto tem tanta credibilidade que, em 2003, teve um papel fundamental na política. Apoiou
claramente Roh Moo Hyun, candidato à presidência da Coreia, pelo partido reformador. Este apoio
contribuiu para a sua eleição e como prova de apreço, Hyun «concedeu sua primeira entrevista ao
OhmyNews, em detrimento aos três maiores jornais coreanos que se filiavam a um viés conservador»
(Brambilla, 2005: 3).
      O sucesso do projecto do jornalista Oh Yeon Ho, ditou mesmo a sua expansão (com o
                          16
OhMyNews International ) e a abertura do OhMyNews Citizen Journalism School. O OhMyNews
International tem como editor Todd Thacker que é também responsável por confirmar as informações
das notícias enviadas pelos cidadãos, editar os textos, escrever os títulos, e analisar os pedidos de
adesão de novos indivíduos. Neste suporte internacional trabalham apenas cinco pessoas, sendo que
apenas duas delas são jornalistas (Brambilla, 2005). O cidadão é protagonista de uma acção criativa
na recolha, confirmação, análise e transmissão de uma informação, logo enquadra-se no jornalismo
participativo (Bowman e Willis, 2003). O OhMyNews contribui para a democratização da actividade
jornalística (Brambilla, 2005) e o envio do material faz-se com o auxílio do OMNI System, que é «um
sistema de publicação disponibilizado aos cidadãos-repórteres formalmente cadastrados no site»
(Brambilla, 2005: 4). Dentro desse sistema, os indivíduos encontram o Reporter Desk que tem os
formulários necessários à redacção dos artigos, as mensagens dos jornalistas, o código de ética e
                                                    17
ainda outras informações tais como o dinheiro            que vai receber com cada artigo. Quanto ao
OhMyNews Citizen Journalism School, este é um centro comunitário de educação dedicado ao
ensino da cidadania da informação e para a informação, sendo que as aulas incluem técnicas de

15
   www,ohmynews.com
16
   http://english.ohmynews.com/
17
   Essa quantia varia entre 2.000 e 20.000 Wons (a moeda oficial da Coreia) tendo em conta a importância da
    notícia e o local que ocupa no site. À data de 9 de Janeiro de 2010, 1 Won equivalia a 0,00062 euros.
    Consultar http://pt.exchange-rates.org/converter/KRW/EUR/1.

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entrevista, workshops de jornalismo online, e programas de reciclagem para jornalistas profissionais.
Esta é a primeira escola do cidadão da informação e para a informação e tem capacidade para
acolher 100 estudantes. O corpo docente é formado por jornalistas da imprensa, da rádio e da
televisão e outros especialistas da área da comunicação que diariamente incutem nos cidadãos o
espírito de participação na esfera mediática. O OhMyNews marcou definitivamente uma mudança na
relação entre o cidadão e a notícia, sendo que, apesar da existência de gatekeepers, dá voz aos
indivíduos que podem agora escrever sobre assuntos que de outro modo não teriam visibilidade nos
media tradicionais devido a contingências editoriais, económicas e políticas. De facto «o povo
coreano acolheu a ideia como em resposta à repressão sofrida no recente regime autoritário»
(Brambilla, 2005: 11).
      Mas há também serviços criados por cidadãos que competem directamente com os media
                                   18                 19                   20
tradicionais. Estes são o Craiglist , o Backfence          e o Chicagocrime . O primeiro foi criado em 1995
por um estudante universitário, e é uma ferramenta de classificados nos Estados Unidos da
        21
América . Já o Backfence é um projecto onde os indivíduos escrevem notícias sobre factos que
acontecem na sua área de residência. Finalmente, o Chicagocrime mistura informações do site da
polícia de Chicago com a informação da Câmara Municipal. Foi criado por um morador e tem como
cerne mostrar aos seus vizinhos os locais onde é mais frequente a ocorrência de crimes. Devido a
esta competição directa, os media tradicionais sentiram alguma pressão para se adaptarem. Logo,
tiveram que dar voz ao cidadão jornalista ao abrirem nos seus espaços online, canais para a
                                                                                              22
participação do cidadão. Ainda nos Estados Unidos da América no site Assignment Zero , Jay Rosen
apela à participação do leitor através da mensagem «Citizen Journalism wants you!».
      No Reino Unido, esta abertura verificou-se, sobretudo, em 2005. Durante os atentados de
Londres, a BBC publicou inúmeras fotos tiradas pelos cidadãos. Estas foram essenciais para contar
ao mundo a violência com que o Reino Unido foi atacado. Seria muito difícil um fotojornalista ter
captado estes momentos, pelo que o contributo do cidadão preencheu esse vazio. A BBC reconheceu
isso ao usar as suas fotografias e vídeos com o maior respeito e apreço.
      Com a crescente vontade de participação do indivíduo na esfera mediática, do outro lado do
                                                 23
oceano, surge o projecto da CNN- o iReport . Este projecto, que mereceu um momento humorístico
                                                 24
por parte de Jon Stewart em The Daily Show , dá espaço mediático ao cidadão comum, permite aos
indivíduos enviar material de áudio e vídeo digital para os noticiários das suas regiões, e permite que
esse material seja comentado. O envio é feito por e-mail ou directamente para o site da CNN, logo
                                         25
tem como base o modelo do YouTube , ou seja, o cidadão tem apenas de fazer o upload do vídeo,
ou outro material, que quer divulgar no site iReport. O iReport não tem qualquer intervenção dos

18
   http://www.craigslist.org/about/sites
19
   http://www.backfence.com/
20
   https://www.chicagocrimecommission.org/Default.aspx
21
   Esta ferramenta concorre com os classificados dos jornais americanos.
22
   http://zero.newassignment.net/
23
   http://www.ireport.com/recent-updates.jspa
24
   STEWART, Jon, “CNN iReport”, 27 de Setembro de 2006, em The Daily Show, disponível em http://www.the
    dailyshow.com/video/index.jhtml?videoId=127018&title=headlines-cnn-ireport , consultado em 10 de Janeiro
    de 2008.
25
   Surgiu em 2005, pertence ao Google e permite a divulgação de vídeos. Está disponível em: http://www.
    youtube.com/

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As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                                Um Estudo de Casos

editores da estação CNN, mas tem uma secção onde dá algumas informações para se fazer uma boa
reportagem. Devido ao sucesso deste projecto, a cadeia de notícias norte-americana criou ainda um
                                      26                                      27
novo website, o CNN Exchange , e alargou o iReport ao Second Life . Note-se que o Second Life
ou o YouTube podem desempenhar um papel relevante na democracia ao permitirem a divulgação de
informação por qualquer cidadão (Vollmer, 2007).
                                 28
           O YouTube e o Flickr , são os serviços mais relevantes no que concerne à publicação e
popularização de cidadãos da informação e para a informação. Um exemplo da importância do Flickr
foi o acontecimento de 11 de Outubro de 2006 em que o jogador de beisebol Cory Lidle colidiu com o
seu avião contra um prédio na cidade de Nova Iorque. O Yahoo usou, antes das agências de notícias
possuírem fotos do acidente, uma fotografia de um dos seus utilizadores, Jonathan Keller, em que
                                                    29
mostrava dois andares do prédio em chamas . Essa foto estava na página inicial de Jonathan Keller
que no espaço de dias foi visto mais de dez mil vezes (Felliti, 2008). Por outro lado, o YouTube
também é um exemplo do impacto das tecnologias no panorama informativo. A 16 de Abril de 2007, o
estudante Jamal Albarghouti gravou um filme do massacre da faculdade Virgínia Tech onde
                         30
morreram 33 pessoas . Nesse vídeo é possível ouvir os tiros que provocaram a morte do atirador
Cho Seung-Hui (Felitti, 2008). Assim, também as redes sociais que se geram na Internet permitem
que as pessoas estabeleçam relações através do uso de tecnologias (Royal, 2008). É através delas
                                                             31                           32               33
que os indivíduos participam em sites como o MySpace , o YouTube, o Facebook , o Friendster , o
      34            35
Hi5        ou o Bebo .
                                      36
           Em França, o CitizenSide        também assume o seu papel neste fenómeno da participação do
                               37
cidadão nos media. No FAQ           (Frequently Asked Questions) do CitizenSide, podemos ler que quando
as fotografias são exclusivas e retratam um furo jornalístico, podem ser vendidas para os media
tradicionais. Todavia, existe a preocupação de não vender as fotografias como exclusivos de modo a
poder vender-se a vários órgãos de comunicação social, pelo que quando as fotos são efectivamente
                                                                  38
publicadas, o autor da mesma é pago no espaço de 60 dias . Esta estratégia pode parecer inocente,
mas de facto integra uma estratégia económica que incentiva os cidadãos a voltarem a usar o
CitizenSide para vender o seu material.




26
     Este alberga os vídeos e materiais áudio enviados pelo cidadão e está disponível em
    http://edition.cnn.com/excha nge/ireports/spotlight.html
27
   O Second Life é uma espécie de planeta online onde os indivíduos são representados por avatares (pequenos
    bonecos virtuais), e onde existem tribunais, espectáculos ao vivo, lojas, negócios e quase tudo o que existe
    na vida real. Está disponível em: http://secondlife.com/
28
   Pertence ao Yahoo e permite a divulgação de fotografias. Está disponível em: http://www.flickr.com/
29
   http://www.flickr.com/photos/83369484@N00/267217431/in/photostream/
30
   http://edition.cnn.com/video/#/video/us/2007/04/16/sot.va.tech.shooting.barghouti.cnn
31
   Nasceu em 2003 com o intuito de divulgar as músicas de vários artistas desconhecidos. Está disponível em:
    http://www.myspace.com/
32
   Permite a partilha de fotografias, chat e outros, e está disponível em: http://www.facebook.com/
33
   http://www.friendster.com/
34
   Permite a partilha de fotografias e está disponível em: http://www.hi5.com/
35
   Permite a partilha de fotografias, vídeos e música e está disponível em: http://www.bebo.com/
36
   http://www.citizenside.com/
37
   http://www.citizenside.com/en/info/faq.html
38
   O cidadão que produziu a imagem ficam com 75% do valor do seu trabalho, sendo que o CitizenSide fica com
    uma pequena parte.

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      Já no Brasil, a situação repete-se através da Globo que considera que todo o contributo é bem
                                          39
visto. Têm um espaço denominado G1 , no qual o cidadão comum pode participar. Nesse espaço
qualquer internauta pode colaborar com as suas notícias, vídeos e fotos, e existe inclusivamente uma
                                                                                       40
listagem dos artigos mais lidos. Outro exemplo no Brasil é o FotoRepórter do Estadão        que diz ao
cidadão: «se você tem um celular com máquina fotográfica embutida, ou vive com uma câmara digital
                                           41
a tiracolo, abra os olhos e fique esperto» . Este projecto nasceu após os atentados de 7 de Julho em
Londres. De facto, as redacções de todo o mundo receberam inúmeras fotografias, o que fez os
profissionais do Estadão perceberem as potencialidades que a participação do cidadão tinha no
panorama informativo. A vantagem que este site oferece é a remuneração dada aos indivíduos pela
sua colaboração, podendo estes ver o seu material ser vendido a órgãos de comunicação social em
todo o mundo (Correia, 2008). Para participar basta enviar uma sms para o número 49700 ou enviar
um e-mail. Note-se que se as fotografias forem apenas publicadas no Estadão, não serão
remunerados.
      Ao longo dos tempos, tal como foi demonstrado, o fenómeno da cidadania da informação e
para a informação evoluiu, sendo que tem uma relevância ímpar no jornalismo. No dealbar do novo
século e em parte devido às TIC, o consumidor de notícias levantou-se e disse que quer participar na
sociedade. Quer ser os olhos e os ouvidos dos jornalistas quando estes, pelo imediatismo dos
acontecimentos, não estão presentes.


      1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo


      A participação dos cidadãos nos media contribui indubitavelmente para relatos emocionados. É
cada vez mais frequente vermos imagens amadoras nos nossos ecrãs. O cidadão está muitas vezes
no local certo à hora certa, acabando por dar ao jornalismo imagens que seriam muito difíceis para os
jornalistas obterem. A audiência começa a abandonar o seu papel de consumidor e a assumir
também o papel de produtor de conteúdos. Um exemplo bastante claro desse acesso de quem não é
profissional ao jornalismo é, tal como recorda Dan Gillmor, o caso do 11 de Setembro de 2001.
Segundo ele, «as notícias estavam a ser produzidas por pessoas comuns [...] e não apenas pelas
agências de notícias ‘oficiosas’ que, tradicionalmente, costumavam produzir a primeira versão da
história» (Gillmor, 2004: 12). Todavia, a participação dos cidadãos nos media não começou no 11 de
Setembro.
      Aquando do assassinato do presidente John Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, Abraham
         42                                                 43
Zapruder , também participou nos media com o vídeo . Este foi o autor das imagens com melhor
ângulo do momento em que a bala atirada por Lee Harvey Oswald entrou na parte de trás da cabeça
do presidente Kennedy. Esta gravação, embora não possuísse qualquer som, tornou-se na imagem




39
   http://g1.globo.com/
40
   http://www.estadao.com.br/
41
   http://www.estadao.com.br/fotoreporter/oquee.shtm
42
   Zapruder era um fabricante de roupas femininas nos Estados Unidos.
43
   http://www.youtube.com/watch?v=1G_Zxup7esU

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amadora mais valiosa da história, sendo que acabou por ser comprada pelo governo norte-americano
                                                      44
em 1999 pelo valor de dezasseis milhões de dólares         (Felitti, 2008).
      A participação do cidadão sempre se fez sentir, embora essa presença passe muitas vezes
despercebida. Em França, por exemplo, no ano 2000, as imagens do voo da Air France cujo tanque
de combustível rebentou na pista de aterragem do Aeroporto Internacional Charles de Gaulle foram
                         45
recolhidas por um amador . No ano seguinte, em 2001, os atentados de 11 de Setembro seriam uma
data marcante para todo o mundo.
      Os embates dos aviões nas duas torres do World Trade Center teriam sido invisíveis aos olhos
do mundo se o cidadão da informação e para a informação não estivesse lá. Em Nova Iorque as
pessoas nas ruas corriam, as que estavam no World Trade Center tentavam escapar do fogo
atirando-se das janelas, os bombeiros e a polícia faziam o que podiam e mostravam-se incrédulos
perante o que estavam a ver, e os cidadãos estavam lá prontos a filmar. Jamais nos esqueceremos
das imagens do embate dos aviões nas torres, as torres a caírem, e ainda das pessoas nas ruas a
correrem ensanguentadas ou cheias de pó no rosto. Pó esse que tapava como podia a tristeza de
quem naquele dia perdeu um familiar, um ente querido, e um compatriota. Estes foram as
testemunhas e os produtores dos testemunhos visuais do maior evento terrorista na história
contemporânea.
      Todavia, a 7 de Março de 2004, os atentados de Espanha iriam captar, mais uma vez, a
atenção do mundo para o contributo valioso dos cidadãos. Estes pintaram mais um quadro do
terrorismo. Pese embora o facto das bombas colocadas no metro terem sido activadas através de
telemóveis, foi também através deles que o mundo conheceu mais um dos rostos do terrorismo
(Meraz, 2006). Mas 2004, ficaria ainda marcado por outro evento que impulsionaria ainda mais o
fenómeno da participação dos cidadãos nos media.
      Em Dezembro de 2004, foi o Tsunami (que afectou a Tailândia, a Indonésia e outros), que
despertou a atenção dos indivíduos. Os turistas munidos de câmaras de filmar e telemóveis foram os
olhos e os ouvidos deste desastre. Foram eles que espelharam as consequências de uma natureza
imprevisível através da publicação de imagens na imprensa e através da publicação de fotografias de
pessoas desaparecidas em suportes como o Flickr (Meraz, 2006). Steve Outing recorda ainda que
jornais como o The Guardian (da Grã-Bretanha) reuniram o material produzido pelo cidadão da
informação e para a informação e publicaram no seu site (Outing, 2005). Muitos sites de cidadãos
(incluindo blogs), foram ainda utilizados como murais de desaparecidos e como forma de reunir
fundos para ajudar na reconstrução das zonas afectadas (Meraz, 2006).
      No ano seguinte, no dia 7 de Julho de 2005, os atentados no metro de Londres seriam o mote
da participação dos indivíduos nos media. Adam Stacey foi o responsável pela imagem mais
marcante dos atentados que vitimaram 52 pessoas. É uma imagem onde um homem cobre o nariz
com a blusa à saída de uma das carruagens do metro, com as portas semi-abertas. A foto de Stacey
                                    46
foi publicada na sua conta Moblog        e, por estar disponível sob uma licença da Creative Commons,
foi possível publicá-la em jornais de todo o mundo (Felitti, 2008). Segundo Mark Glaser, durante o

44
   http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9D0CE7D71730F936A3575BC0A96F958260
45
   http://www.youtube.com/watch?v=BEHoaYMsP9Q
46
   http/moblog.co.uk/view.php?id=77571

                              Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                         24
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evento a Wikipédia foi actualizada mais de 5.000 vezes (Glaser, 2005), o que vem enfatizar o facto de
os cidadãos quererem efectivamente contribuir para a informação. Neste evento, foram as imagens
de indivíduos comuns que encheram as páginas dos jornais e ilustraram reportagens televisivas
durante dias. Embora a qualidade das imagens fosse reduzida, esta espelhava a visão das vítimas.
      Meses mais tarde, a 29 de Agosto, o cidadão empreenderia novos esforços. No Furacão
Katrina, muitos cidadãos que não estavam no local empreenderam esforços para encontrarem um
abrigo para os desalojados. Esta acção marcou, inevitavelmente, o fenómeno da cidadania da e para
a informação. O fenómeno ganhava novos contornos, pelo que além de participar nos media, o
indivíduo comum tinha também ambições de cariz humanitário e social. Dina Mehta, uma blogger da
Índia assegura que ficou surpreendida porque mesmo a kilómetros de distância pôde ajudar: «o que
me espanta é que posso despender o meu tempo, estando no Mumbar na Índia em casa sentada na
minha sala de estar, e estar a ajudar aqueles que procuram informações sobre os seus entes
queridos que estão desaparecidos no outro lado do mundo» (Mehta in Meraz, 2006: 23). Um
apontamento pertinente é que, devido ao acidente, Ethan Zuckerman, Zack Rosen e Jon Lebowsky,
                                           47                48
em conjunto com os sites Salesforce             e CivicSpace , desenvolveram um projecto denominado
                               49
KatrinaPeopleFinder Project         cujo objectivo era «combinar todas as bases de dados de pessoas
desaparecidas e de painéis de mensagens numa única base de dados» (Meraz, 2006: 27). Esta teve
como âmago servir como motor de busca e auxiliar na resolução do problema das pessoas
desaparecidas.
      No Brasil, no dia 4 de Março de 2007, foi o caso de Priscila Aprígio, a menina de 13 anos
baleada à saída de um banco no bairro de Ibirapuera, que fez as manchetes dos jornais. Mas, mais
                      50
uma vez, as imagens        eram amadoras. No horário nobre da televisão brasileira, em cerca de quatro
minutos, eram mostradas as imagens captadas pelos telemóveis de três testemunhas que gravaram
o momento da morte da menina de 13 anos. Embora fossem imagens de baixa qualidade, estas
prenderam milhões de espectadores às televisões. Outro caso marcante no Brasil foi o acidente com
                                                                        51
um jacto no dia 5 de Novembro de 2007. A Globo publicou um vídeo             de um leitor que mostrava uma
casa em chamas resultado do avião que caiu na região de Santana, na Grande São Paulo.
      Em 1975, Timor Leste foi vítima de um genocídio por parte das tropas indonésias. Este facto foi
ignorado pela imprensa mundial. Não havia Internet e os timorenses não tinham câmaras para
mostrar o que se estava a passar. Porém em Setembro de 2007, no Myanmar, a situação foi um
pouco diferente. O governo de Myanmar há muito que proibiu os jornalistas estrangeiros de
trabalharem no país, pelo que a única forma da informação relativa a protestos só pôde ser dada ao
mundo através de telemóveis, das câmaras de filmar, dos blogs, dos vídeos colocados no YouTube, e
outros. Quando se aperceberam das potencialidades da Internet no que respeita à divulgação das
atrocidades praticadas no país, as autoridades decidiram bloquear o acesso à Internet, espalharam
vírus, fecharam cybercafés, cortaram as ligações telefónicas e até mesmo a electricidade nas zonas

47
   http://www.salesforce.com
48
   http://www.civicspacelabs.org/
49
   http://www.katrinalist.net
50
   http://jornalnacional.globo.com/Jornalismo/JN/0,,AA1474593-3586-645975,00.html
51
   http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL169467-8491,00-VIDEO+LEITOR+FILMA+CASA+EM+CHAMAS+APOS +
    QUE DA+DE+JATO+EM+SP.HTML

                                Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                            25
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                            Um Estudo de Casos

de conflito. Este caso espelha a importância do cidadão como fonte do jornalismo, todavia este
apenas forneceu material aos media mundiais.
       Tal como foi demonstrado, o cidadão tem ao longo do tempo contribuído para pintar a história
da humanidade dando ao jornalismo imagens emocionantes, muitas de fraca qualidade é certo, mas
sem dúvida todas com uma enorme carga emocional que ajudam o jornalismo a contar a novidade.
Note-se ainda que em já no início de 2010, no dia 12 de Janeiro e 27 de Fevereiro, o cidadão da
informação e para a informação teve um papel preponderante ao retratar o momento dos sismos no
Haiti e no Chile, respectivamente. Através das suas imagens conseguimos ver a violência dos abalos
e as consequências dos mesmos. Estamos ainda no primeiro trimestre do ano e estes indivíduos já
contribuíram de forma massiva em dois eventos catastróficos. Basta-nos agora aguardar para ver se
o seu interesse de participação se mantém.


     1.4. Cidadania da informação e para a informação em Portugal


       1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em
         Portugal


       O fenómeno de participação não é de todo recente em Portugal. Durante o Estado Novo,
através das Cartas do Leitor, o cidadão participava. Apesar do ambiente de repressão, existia espaço
para o cidadão comum manifestar as suas opiniões e ideias, pese embora o facto de ser uma secção
sensível. Para os opressores da época deviam calar-se as vozes dos críticos de modo a que não se
reproduzissem (Paulouro in Teixeira, 2007). De facto, ainda hoje é comum a existência de um espaço
do leitor nos media portugueses. O espaço da Carta ao Leitor mantém-se, mas foram abertos
suportes online agregados aos media tradicionais (como os jornais, por exemplo) onde o cidadão
                                    52
pode também escrever as notícias .
       Todavia, o editor da versão online do jornal Público, embora reconheça que os jornalistas têm
de se adaptar à participação do público, discorda que exista um cidadão da informação e para a
informação em Portugal: «penso que não há ainda jornalismo participativo em Portugal» (Granado in
Gamela, 2007). Para António Granado «os jornalistas portugueses não estão preparados para os
novos media, porque os novos media estão a entrar muito devagar nas redacções e, às vezes, da
pior maneira» (Granado in Gamela, 2007). De facto, em Portugal, o fenómeno ainda está a dar os
                                                                                                          53
primeiros passos, mas em 2005, aquando do alegado arrastão no ano de 2005 em Carcavelos ,
muitas foram as imagens enviadas por testemunhas para a imprensa. Chegou-se à conclusão que
algumas imagens tinham sido manipuladas, pelo que o cidadão da informação e para a informação
perdeu alguma credibilidade. No entanto, não foram os únicos a errar. Os testemunhos recolhidos
pela imprensa também foram falsos. As pessoas descreveram um grupo de jovens a assaltar quem
estava na praia, todavia estes estavam apenas a correr.


52
   Veja-se o exemplo do Jornal de Notícias com o espaço Cidadão Repórter, que apela claramente à participação
    do cidadão ao dizer «envie-nos as suas notícias e fotografias». O mesmo está disponível em:
    http://jn.sapo.pt/cidada oreporter/
53
   http://www.youtube.com/watch?v=ZjXtTfnaams e http://www.youtube.com/watch?v=oOdvHLxam9A

                               Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                26
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                                             Um Estudo de Casos

      Posteriormente a este incidente jornais como, por exemplo, o Jornal de Notícias, a SIC, a TVI
decidiram abrir espaço ao cidadão, o que revela a importância deste evento para o surgimento da
cidadania da informação e para a informação em Portugal. O Público chega mesmo a agradecer e
incentivar os leitores, considerando-os «essenciais para melhorar o seu funcionamento e a qualidade
                    54
dos seus serviços» . Nos jornais, é hoje possível comentar as notícias publicadas pelos jornalistas e,
por outro lado, existem rubricas de participação onde estão disponíveis os materiais enviados por
este indivíduo. No caso das estações de televisão, estas fomentam mesmo a participação através de
rubricas como Nós por cá e EuRepórter (da SIC) e Eu Vi (da TVI), cujos conteúdos são enviados pelo
cidadão jornalista e passam por um processo de selecção e tratamento. Sobre a rubrica Nós por cá,
Eduardo Cintra Torres diz que:
                    « (…) as pessoas mostram um buraco na rua, um poste que está no meio da
                    estrada e aquilo é transformado numa espécie de jornalismo. Mas a verdade é que
                    quando os casos são extremamente chocantes, e a SIC considera de interesse
                    (que eu considero que a SIC considera de interesse), a SIC vai lá a seguir (...)
                    Portanto, aquela fotografia que a pessoa mandou, serviu apenas como material de
                    base e aquilo que espoletou o trabalho do jornalista» (Torres in Marques, 2008).
      Segundo o estudo de Rui Couceiro, o uso de tecnologias neste programa é pertinente. Em
2009, dos casos recebidos e guardados, 57% (142 e-mails num total de 249) tinham algum anexo.
Assim,
                    «o e-mail é, indubitavelmente, o meio preferido para o contacto com o Nós por cá.
                    Não surpreende, por isso, que muitas das mensagens transportem informação em
                    ficheiros de vários tipos: fotografias, vídeos, digitalizações de documentos…»
                    (Couceiro, 2009: 11).
      Este programa possui características que permitem o envolvimento da comunidade. Todavia,
os cidadãos não assumem o papel de jornalistas. Eles apenas colaboram. Alcides Vieira, director de
informação da SIC, diz que este programa permite aos cidadãos «exercer o seu direito de cidadania,
sabendo que a sua participação passará sempre pelo trabalho de rigor jornalístico, o que confere
confiança e credibilidade ao Nós por cá» (Vieira in Couceiro, 2009: 14/15). Por outro lado a rubrica
            55
Nós por cá , transformou-se num programa que apela à participação e pública todos os dias o
material enviado pelos cidadãos. Este é um programa diário onde se investigam as histórias e
imagens que possam ter interesse público. Há aqui um claro tratamento do material que é depois
apresentado no programa segundo moldes jornalísticos.
      Já o Eu vi e EuRepórter parecem-nos ir um pouco de encontro ao iReport da CNN, no sentido
em que apelam claramente, no seu site, à participação. A TVI diz «se você for o primeiro a chegar ao
                                                                                                        56
local, não hesite. Pare, veja e registe o momento. Os seus exclusivos poderão ser notícia TVI!» . No
caso da SIC, no EuRepórter o apelo é mais contido:



54
   http://static.publico.clix.pt/sites/feedback/
55
   http://sic.aeiou.pt/online/noticias/programas/nos+por+ca/
56
   TVI, “Eu Vi”, 2 de Abril de 2008, em TVI, disponível em http://www.tvi.iol.pt/informacao/noticia.php?id=9349
    51#, consultado em 27 de Abril de 2008.

                               Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                   27
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                               Um Estudo de Casos

                       «O mesmo acontecimento tem sempre vários ângulos, este é o dos
                       telespectadores e utilizadores da SIC que o testemunharam e viveram. Propomos-
                       lhe desafios temáticos, seguindo a actualidade, mas há espaço privilegiado para o
                                                                                               57
                       seu “exclusivo”. Participe e envie a sua história para eureporter@sic.pt» .
         Em Portugal, e se tivermos em linha de conta países como o Brasil ou os EUA, este tem sido
um fenómeno discreto. Porém, são notórios os esforços que a imprensa portuguesa está a
desenvolver diariamente (com os programas acima mencionados, por exemplo) para incentivar a
participação destes indivíduos na sociedade e nos media. No fundo, sabemos que ainda temos muito
que caminhar, pese embora o facto de já termos lançado algumas bases vitais para o seu
florescimento e amadurecimento.


         1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal


         Em terras lusas, este fenómeno tem passado mais despercebido, todavia o ano de 2005 foi
marcante no que respeita à cidadania da informação e para a informação. No dia 10 de Junho de
2005, o pseudo arrastão na praia de Carcavelos despertou a atenção dos portugueses para este
fenómeno e trouxe ainda a lume questões relacionadas com a importância e a credibilidade do
material dos cidadãos da informação e para a informação. O que inicialmente foi relatado como um
assalto perpetrado por 500 jovens negros de bairros degradados, não passou de um equívoco. O que
sucedeu foi uma manipulação dos factos com as fotografias que mostravam uma debandada geral.
De facto, as pessoas não fugiam dos assaltantes mas sim da chegada da polícia. A imprensa foi
induzida em erro tanto pelas fontes policiais como pelos populares. Esta situação enferma uma
questão relevante: a veracidade dos acontecimentos. Os media portugueses não confirmaram a
veracidade das imagens produzidas pelo cidadão que produziu e legendou as imagens como quis.
Por outro lado, também não desmentiram a notícia com o mesmo destaque que a divulgaram, logo
foram, de certo modo, contra o direito de rectificação da comunicação social. Note-se que este erro
mediático teve consequências nefastas pois enfatizou os preconceitos e desconfianças raciais e
contribuiu para a descredibilização do cidadão da informação e para a informação.
         No entanto, a participação do cidadão já apresenta algumas contribuições notórias em
Portugal, sobretudo no caso do nevão e das cheias ocorridas em Lisboa, em 2006 e 2008
respectivamente. A 18 de Fevereiro de 2008, as cheias que assolaram a zona da Grande Lisboa
serviram de mote à participação civil no jornalismo. Nesse dia, no rodapé do Jornal da Tarde da RTP
1, lia-se «Temporal em Lisboa. Envie as imagens e relatos do mau tempo para noticias@rtp.pt»
(Couceiro, 2009: 6). O resultado deste acidente natural foi catastrófico e de nada adiantava falar em
cheias sem mostrar as diferentes áreas afectadas pelos olhos dos seus moradores. Às redacções
portuguesas chegaram imagens e vídeos que ilustravam as palavras que os jornalistas iam
proferindo. Mais uma vez as imagens foram produzidas por amadores que além de darem um
testemunho emotivo, contribuíram também para criar um arquivo audiovisual do que aconteceu no
ano de 2008.

57
     http://sic.aeiou.pt/online/jornalismo%20do%20cidadao

                                  Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                        28
As Motivações da Participação do Cidadão nos Media:

                                           Um Estudo de Casos

         Foi através da gravação de um vídeo pelo telemóvel e através da sua posterior publicação no
YouTube, que ficámos a conhecer em 2008 a violência de uma aluna contra a sua professora de
                                      58
francês na escola Carolina Micaellis . Todavia, Eduardo Cintra Torres ressalva que
                    «aquela cena do Carolina Micaellis… não é do jornalismo…só passou a ser depois
                    quando passou para a comunicação social. Era fantástico!...era um material
                    interessante…que serviu de base a um debate muito interessante no país, mas foi
                    depois de ser transformado em notícia» (Torres in Marques, 2008).
         Por terras lusas, o ano de 2010 começou com saldo positivo no que respeita à participação do
cidadão. De facto, foram as imagens produzidas por estas pessoas das cheias na Madeira que
tocaram não só os portugueses, mas também o mundo. Através das imagens produzidas por
amadores, todo o mundo viu a violência e as consequências da chuva na ilha. Note-se que também
nas cheias de Lisboa no mesmo mês, a acção dos indivíduos foi notória.
         Em Portugal, parece-nos que a tendência deste fenómeno é para se intensificar, sobretudo
devido ao acesso, cada vez mais generalizado, da população à Internet e aos novos media. Todavia,
temos de atentar ao facto do nosso país não ser alvo de grandes catástrofes ou guerras, pelo que
face à ausência de um acontecimento de grande envergadura, os cidadãos participam menos.
Segundo o estudo de Rui Couceiro, a participação no programa Nós por cá é essencialmente
motivada por questões colectivas, ou seja, questões que afectam um grande conjunto de pessoas
(Couceiro, 2009). Se estas questões colectivas não sucederem, a participação do cidadão é menor.
         Em suma, a participação dos amadores na actividade jornalística pode ter consequências
positivas, pois estes dão ao mundo testemunhos verídicos e emotivos de situações que fazem
diariamente a história da humanidade. Porém, este cidadão deve ter ciente que não é um jornalista,
logo não deve, em situação alguma, colocar a sua vida em risco. Deve respeitar ainda os códigos
éticos e legais estabelecidos na sua sociedade, pois se tal não acontecer corre o risco de responder
legalmente pelas suas acções. No fundo deve ter sempre em mente que é um elemento da sociedade
com direito a participar, mas deve deixar que o jornalista faça o seu trabalho. Acreditamos que
futuramente nos livros de história figurem imagens produzidas por estes indivíduos, pois uma imagem
vale mais do que mil palavras. Mas afinal o que move estes indivíduos? Quais os motivos por detrás
da sua participação? Será que participam porque querem os seus cinco minutos de fama? Querem
influenciar os seus pares ou querem apenas integrar-se numa sociedade em constante mutação? No
Capítulo quatro vamos averiguar os motivos que podem estar no fundo da participação dos
indivíduos. Por agora, vamos centrar-nos na motivação.




58
     http://www.youtube.com/watch?v=5jubEHdCzYI

                               Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                         29
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2. AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS NOS MEDIA EM PORTUGAL


     2.1. Motivação


        O comportamento tem sido ao longo dos tempos tema de debate para teóricos da filosofia,
psicologia, sociologia e até mesmo da biologia. Todos os dias nos questionamos sobre o que nos faz
sentir falta de algo ou gostar de alguém e é precisamente essa a resposta que procuramos
incessantemente. De facto, todas as acções do Homem dependem da sua motivação. O facto de
gostar de alguém, as suas carências, necessidades, e outros, dependem dos motivos e das
emoções.
        O conceito de motivação é deveras complexo, pois pode ser utilizado em sentidos díspares. No
entanto, uma das suas características basilares é o facto de ser um conjunto de forças internas que
impulsiona e mobiliza uma pessoa em direcção a um dado objectivo (Watkiss, 2004). Caracteriza-se
ainda por ser o mecanismo psicológico que orienta a direcção, a intensidade e a persistência do
comportamento (Kanfer, 1994 e Sage, 1977). Mas a motivação alberga outros factores que também
influem no comportamento, tais como «a experiência passada das pessoas, as suas capacidades
físicas e a situação ambiente em que se encontram» (Murray, 1983: 20). Esta está entranhada em
acções como a aprendizagem, a recordação, a atenção, o pensamento, a criatividade, o sentimento,
no nosso desempenho e comportamento. Para Iso-Ahola e St. Clair (2000), a motivação é o factor
mais importante e determinante no comportamento humano. De facto, «os conceitos de motivo e
motivação parecem apoiar-se em aspectos psíquicos ou biológicos. Dessa forma, os motivos não são
apenas parte do mundo interior de um ser humano, mas no seu mundo exterior estão somente
relacionados com parte da totalidade do indivíduo, ou seja, o seu comportamento» (Sievers, 1985:
106).
                                                                            59             60
        Os motivos dividem-se então em dois componentes: o impulso               e um motivo    (Murray, 1983).
Quando um impulso é satisfeito, este termina ou deixa de orientar o comportamento. Note-se que
este pode ser influenciado pelo ambiente externo embora seja interno. No caso da concretização do
objectivo ou da recompensa este pode incluir um objecto externo embora a cessação do impulso seja
                                                                                                     61
em si mesmo interno. A motivação pode ser então incentivada por factores intrínsecos , ou por
                      62                                             63                    64
factores extrínsecos . A motivação pode ainda ser a curto prazo           ou a longo prazo .
        O comportamento dos indivíduos é dirigido no sentido da satisfação de necessidades e desejos
materiais ou emocionais (Bergamini, 1997). Todavia, essas necessidades não são iguais para todos
os indivíduos pois os valores sociais são diferentes e a capacidade de um indivíduo alcançar um dado
fim também vai ser distinto entre pessoas. A motivação dos indivíduos envolve crenças e valores que

59
   Processo interno que incita um individuo à acção.
60
   Este determina quando se concretiza um determinado objectivo ou quando somos recompensados, reduzindo
    o impulso.
61
   São factores internos como por exemplo, o prazer de aprender.
62
   São factores externos que podem, por exemplo, ser incentivos para a aprendizagem tais como a avaliação, os
    elogios, as recompensas e outros.
63
   Por exemplo, conseguir ir ao teatro no próximo fim-de-semana.
64
   Por exemplo, conseguir um posto superior na empresa onde estamos a trabalhar.



                               Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010                                  30
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  • 1. Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas Universidade Técnica de Lisboa AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO NOS MEDIA: Um Estudo de Casos Dissertação Apresentada para a Obtenção do Grau de Mestre em Comunicação Social Mestrando: Cheila Sofia Tomás Marques Orientadora: Professora Doutora Maria João Cunha Lisboa 2010
  • 2. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos ÍNDICE GERAL ÍNDICE DE FIGURAS .............................................................................................................................6 ÍNDICE DE TABELAS ............................................................................................................................6 ÍNDICE DE GRÁFICOS ..........................................................................................................................6 GLOSSÁRIO...........................................................................................................................................8 INTRODUÇÃO ........................................................................................................................................9 1. A CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO.......................................................11 1.1. NUANCES DE UM NOVO CONCEITO: CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO ....................11 1.2. O CIDADÃO JORNALISTA E O CONCEITO DE CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO .........17 1.3. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO NO MUNDO.......................................................19 1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional ....................................19 1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo...............................23 1.4. CIDADANIA DA INFORMAÇÃO E PARA A INFORMAÇÃO EM PORTUGAL .................................................26 1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em Portugal ......................................................................................................................................................26 1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal ...........................28 2. AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS NOS MEDIA EM PORTUGAL ...........30 2.1. MOTIVAÇÃO .................................................................................................................................30 2.1.1. O que é a motivação social ................................................................................................31 2.1.2. As principais teses da motivação .......................................................................................32 2.1.2.1. As teorias de Maslow, McClelland e Herzberg............................................................34 2.1.2.2. As teorias de Watson, Skinner, Adams e Vroom ........................................................38 2.2. A PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS..................................................................................................41 2.2.1. “Eu” e a sociedade..............................................................................................................41 2.2.2. “Eu” e os media ..................................................................................................................43 2.3. CONCEPTUALIZAÇÃO DA PARTICIPAÇÃO DO CIDADÃO NOS MEDIA .....................................................45 3. METODOLOGIA ...............................................................................................................................50 3.1. A ESCOLHA DO TEMA ....................................................................................................................50 3.2. A METODOLOGIA ADOPTADA..........................................................................................................51 3.2.1. Problemática e modelo de análise......................................................................................53 3.2.2. Objectivos, pergunta de partida, e perguntas de investigação...........................................55 3.2.3. O inquérito por questionário ...............................................................................................57 3.2.4. Análise de Conteúdo ..........................................................................................................61 4. ANÁLISE E DISCUSSÃO DOS RESULTADOS ..............................................................................63 4.1. CARACTERIZAÇÃO DOS INDIVÍDUOS QUE PARTICIPAM ......................................................................63 4.2. MOMENTOS E CONTEXTOS SUSCEPTÍVEIS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................67 4.3. LOCAIS DE PARTICIPAÇÃO DOS INDIVÍDUOS ....................................................................................73 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 4
  • 3. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 4.4. FORMAS DE PARTICIPAÇÃO ...........................................................................................................79 4.5. RAZÕES PELAS QUAIS OS CIDADÃOS PARTICIPAM ............................................................................84 CONCLUSÃO .......................................................................................................................................89 BIBLIOGRAFIA ....................................................................................................................................93 ANEXOS .............................................................................................................................................105 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 5
  • 4. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos ÍNDICE DE FIGURAS Figura nº 1. Pirâmide de Necessidades de Abraham Maslow .............................................................34 Figura nº 2. Modelo de Análise das motivações da participação do cidadão nos media.....................54 ÍNDICE DE TABELAS Tabela nº 1. Factores Motivação-Higiene apontados por Herzberg .....................................................37 Tabela nº 2. Jornais Online com Suporte de Participação do Cidadão em Portugal ...........................59 Tabela nº 3. Categorização efectuada na Análise de Conteúdo ..........................................................62 Tabela nº 4. Razões Mais Fortes da Participação dos Indivíduos de Esquerda ..................................75 ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico nº 1. Distribuição dos Suportes de Participação do cidadão por Distrito em Portugal ............59 Gráfico nº 2. Género dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário .........63 Gráfico nº 3. Habilitações Literárias dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ....................................................................................................................................64 Gráfico nº 4. Profissão dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ......65 Gráfico nº 5. Tendência Política dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ....................................................................................................................................65 Gráfico nº 6. Idade dos Indivíduos que Participam no Jornal i e no Jornal Póvoa Semanário ............68 Gráfico nº 7. Fluxo de Participação dos Indivíduos no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses ...................................................................................................................................69 Gráfico nº 8. Participação em Contextos de Situações Caricatas no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses ...............................................................................................................71 Gráfico nº 9. Comportamento Adoptado aquando da Participação face ao Motivo da Participação Segundo a Análise de Conteúdo ..................................................................................................72 Gráfico nº 10. Jornais em que os Indivíduos Participam Mais .............................................................74 Gráfico nº 11. Tipo de Programa Televisivo em os Indivíduos Participam Mais..................................76 Gráfico nº 12. Jornais Online onde os Indivíduos Participam Mais face à sua Idade ..........................77 Gráfico nº 13. Canais Televisivos em os Indivíduos Participam Mais com Texto................................78 Gráfico nº 14. Formas de Participação nos Media segundo os Indivíduos que Participam no Jornal i e no Póvoa Semanário ....................................................................................................................79 Gráfico nº 15. Elementos Presentes nas Fotografias das Notícias Analisadas nos Últimos Seis Meses ......................................................................................................................................................80 Gráfico nº 16. Elementos Presentes nos Textos Analisados nos Últimos Seis Meses .......................81 Gráfico nº 17. Caracteres com Espaço dos Textos Produzidos pelo Cidadão no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos seis Meses..............................................................................................81 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 6
  • 5. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Gráfico nº 18. Distribuição dos Motivos de Participação no Jornal i e no Póvoa Semanário nos Últimos Seis Meses face ao Uso de Fotografia e Texto como Material Preferencial de Participação ..................................................................................................................................82 Gráfico nº 19. Objectivos da Participação dos Indivíduos nos Media Segundo os Nossos Respondentes...............................................................................................................................84 Gráfico nº 20. Grau de Satisfação dos Indivíduos face aos Media Tradicionais segundo os Nossos Respondentes...............................................................................................................................85 Gráfico nº 21. Importância que os Indivíduos dão à sua Participação.................................................85 Gráfico nº 22. Motivos de Participação face ao Comportamento Adoptado quando Participam .........87 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 7
  • 6. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos GLOSSÁRIO Blog- trata-se de uma página pessoal ou uma espécie de diário online que é actualizada por uma pessoa ou por um grupo de pessoas com interesses comuns, e onde é possível deixar comentários. Fóruns- espaços de discussão e troca de conhecimentos online. Flogs- trata-se de um blog cujo conteúdo são as fotografias. Moblog- flogs actualizados por telemóvel. Podcasts- trata-se de uma forma de distribuição de arquivos- de som, vídeo ou imagem- digitais pela Internet. SMS- short message service, ou serviço de mensagem curta, é uma mensagem de texto trocada entre suportes de comunicação, sobretudo entre telemóveis. Vlogs- blogs feitos com vídeos. Webcam- Câmara de vídeo que transfere as imagens em simultâneo para o computador. É vulgarmente usada em serviços de mensagens instantâneas como o Skype ou o Messenger. Webzine- trata-se de um magazine, ou revista, online. Wiki- Suporte que torna possível adicionar, alterar, apagar ou reescrever conteúdos sem serem 1 exigidos grandes conhecimentos técnicos, sendo que o modelo mais conhecido é a Wikipédia . 1 http://pt.wikipedia.org/wiki/P%C3%A1gina_principal Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 8
  • 7. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos INTRODUÇÃO Esta dissertação foi realizada no âmbito do Mestrado em Comunicação Social do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, pertencente à Universidade Técnica de Lisboa. Trata-se de um estudo exploratório que surge devido à ausência de matérias e investigações em Portugal sobre o citizen journalism, que nós assumimos como sendo cidadania da informação e para a informação. Procuramos entender o fenómeno e apurar quais as motivações para um indivíduo comum participar nos órgãos de comunicação social. Incidimos especificamente no ponto de vista dos indivíduos que participam no Jornal i e no Póvoa Semanário, questionando-os directamente e analisando as suas notícias dos últimos seis meses. Vamos focar-nos nas novas tecnologias e no seu papel face à emergência do conceito de cidadão da informação e para a informação, conhecido vulgarmente como cidadão jornalista. O desenvolvimento da Internet e a vontade do cidadão participar activamente na sociedade, transporta-nos à realidade actual. De facto, a perda de credibilidade dos órgãos de comunicação tradicional, juntamente com as tecnologias e a vontade do cidadão em ser activo deixou um espaço em aberto entre os jornalistas e a sua audiência. Esse espaço veio então ser ocupado pelo cidadão da informação e para a informação, que embora não siga os procedimentos técnicos, éticos e legais da profissão, tem um papel relevante na imprensa actual. Trata-se de alguém que está no sítio certo à hora certa. Tira uma fotografia ou grava um vídeo porque o jornalista muitas vezes não consegue estar no local ou pelo inesperado do acontecimento. Com a cidadania da informação e para a informação, qualquer pessoa pode participar nos media. Se em 2008 foram as imagens (produzidas pelos cidadãos) da agressão de uma aluna a uma professora que abriram os telejornais em Portugal, este ano a situação repetiu-se com o Terramoto do Haiti ou as cheias na Madeira. As fotos e os textos destes cidadãos fizeram a imagem do momento uma vez que espelharam as consequências dos cataclismos nas suas residências e países. Esta temática surge com a necessidade de compreendermos os motivos que estão por detrás da participação destes cidadãos. Pretendemos aprofundar o conhecimento sobre a cidadania da informação e para a informação nos jornais online portugueses, diários e semanais, e saber quem participa, onde, quando, como e porque participa. Trata-se de conhecer quem é o cidadão da informação e para a informação, onde está e que suportes e materiais usa e envia. Pretendemos saber se a motivação da participação é de foro altruísta ou egoísta e ainda que tipo de consequências tem. Será que os motivos que suscitam a acção dos indivíduos provocam comportamentos pró- sociais, anti-sociais ou podem agir segundo instintos sociais?. Assim, a nossa pergunta de partida é sintetizada da seguinte forma: Quais as motivações da participação do cidadão nos media na perspectiva dos indivíduos que participam no Jornal de Notícias e no Póvoa Semanário? Quanto à estrutura da investigação, a mesma desenvolve-se em quatro capítulos. No primeiro temos a introdução ao fenómeno em estudo em Portugal e no mundo e a apresentação do conceito de cidadania da informação e para a informação. Em seguida, temos as questões inerentes ao Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 9
  • 8. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos conceito de motivação. Definimos a motivação, abordamos as principais teses do conceito, e ainda as relações e a participação dos indivíduos na sociedade e nos media. Na terceira parte, damos a conhecer a metodologia seguida para respondermos à nossa problemática e às nossas linhas de investigação. Finalmente, vamos analisar os resultados dos questionários e saber quem, quando, onde, porquê e como é que os indivíduos participam nos jornais online. Aquando do início desta dissertação, atentámos ao facto de um problema bem formulado ser o mais importante para o desenvolvimento da ciência, pois uma investigação pode ter um grande mérito se desobstruir ou construir um caminho, contribuindo para o seu desenvolvimento. Por seu turno os objectivos gerais que nos propomos concretizar vão ser: 1. Caracterizar o cidadão que participa. 2. Compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação. 3. Saber quais os locais onde o indivíduo participa. 4. Verificar de que forma os indivíduos participam. Para a prossecução dos objectivos traçados, nesta dissertação vamos aplicar duas técnicas de pesquisa quantitativa: a análise de conteúdo e o inquérito por questionário. A análise de conteúdo será fulcral para compreender quais os momentos e contextos susceptíveis de participação no Jornal i e no Póvoa Semanário. O inquérito por questionário será necessário para que possamos caracterizar o indivíduo que participa nos media (segundo o ponto de vista dos indivíduos que participam no i e no Póvoa Semanário), e para ouvirmos o cidadão dizer em que momentos e contextos participa, para sabermos quais os locais onde participa, e para sabermos de que forma participa. Finda a análise dos resultados, pretende-se ir ao encontro dos objectivos traçados e obter uma resposta face à nossa pergunta de partida. Resta então expor os factos e apresentar conclusões empíricas. Se a ideia que previamente havia sobre o assunto estiver deturpada, permanece a certeza da desmistificação de uma ideia infundada ou errónea. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 10
  • 9. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 1. A cidadania da informação e para a informação 1.1. Nuances de um novo conceito: cidadania da informação e para a informação A Internet tem um papel indiscutível nas sociedades contemporâneas. Há agora uma nova realidade onde o tempo e o espaço foram redefinidos. A nova democracia digital, mediada pelas tecnologias de informação e comunicação (vulgarmente conhecidas como TIC) e pelos computadores (Hacker e Dijk, 2001), permite-nos aceder à informação a qualquer hora e em qualquer lugar. De facto, é notória a capacidade que a Internet tem para aumentar a velocidade no fornecimento de informação, para facilitar a participação política, para permitir que novas comunidades políticas nasçam livres da intervenção do Estado, e para permitir aos cidadãos participarem na sociedade (Meraz, 2006). Para participar, os indivíduos recorrem então ao espaço (através do qual transmitem a informação) e ao conhecimento. Com estes recursos, o exercício da cidadania é mais dinâmico pois o indivíduo social tem a capacidade de criar fluxos de informação personalizada e de se expor apenas às fontes de informação que selecciona. As TIC permitem a existência de meios de expressão a quem não é profissional da comunicação, logo torna-se mais fácil ao indivíduo comum exercer a sua cidadania. Os media assumem cada vez mais um papel determinante no fomento de uma cidadania activa e o número de indivíduos que utiliza os espaços online dos media tradicionais tende a crescer, segundo um estudo das Nações Unidas (2005). Este novo fenómeno deve então ser encarado como um dos instrumentos dos quais o jornalista dispõe para preencher um papel de activista político e social caracterizado pela rejeição da corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis e outros. Recorde-se que a sua actividade primária é observar e descrever eventos pois «move-se no campo da realidade e não no da fantasia. […] Nem sempre escreve sobre o que gostaria de escrever mas sobre o que é preciso que escreva» (Araújo, 1988: 269). O jornalismo tem sido, indubitavelmente, «um dos principais instrumentos de construção da democracia e de conquista de direitos de cidadania» (Kucinski, 2000: 2). Por outro lado, é «uma força activa nos esforços conscientes para efectuar transformações históricas em benefício da humanidade» (Hudec, 1981: 68), pois é o jornalismo que tem de «informar, combater o segredo de Estado, levantar polémicas, denunciar abusos de poder, corrupção e violação dos direitos humanos» (Idem). Mas a Internet, além de causar uma revolução na produção de notícias, fez com que o jornalista tivesse de aliar conhecimentos técnicos a uma boa redacção pois o que diz ou escreve, determina, ou influencia o que o público pensa e sobre o que pensa. Assim, é premente que o jornalista escreva de forma clara e concisa e que domine os suportes de redacção e difusão da informação. A separação rígida entre os jornalistas e a audiência desaparece no mundo virtual pois «as TIC acarretam 4 tipos de consequências: a tecnicização das relações, a mercantilização da comunicação, a fragmentação dos públicos, a mundialização dos fluxos de informação» (Chambat in Rieffel, 2004: 48). Note-se que a tecnicização das relações diz respeito à grande diversidade de veículos de Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 11
  • 10. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos comunicação presentes no nosso dia-a-dia (que vão desde um simples telemóvel a um computador), e a fragmentação dos públicos resulta de uma oferta alargada de produtos que consegue satisfazer interesses particulares. De facto, no dealbar do novo século o jornalismo enfrenta novos desafios. Nos media tradicionais surgem novos suportes de difusão de informação. Por outro lado, os indivíduos que são diariamente bombardeados com informação podem agora, com a Internet, seleccionar a informação que querem receber e quando a querem receber. A sociedade tem agora novas necessidades e vai identificar os recursos que permitem alcançar os seus objectivos e satisfazer as suas necessidades. O principal recurso a que a sociedade civil vai ter acesso é a World Wide Web que fomenta a 2 3 4 participação devido ao: factor multimédia , à hipertextualidade , à comutação em pacote , à 5 6 sincronia , e, finalmente, à interactividade (Newhagen e Rafaeli, 1995). Note-se que, já em 1972, Dennis McQuail e outros autores defendiam que os media fomentavam um processo interactivo que relaciona os conteúdos de media, as necessidades individuais, as percepções, os papéis, os valores e o contexto social no qual uma pessoa se encontra (McQuail et al., 1972). Mas o significado de interactividade mudou bastante desde 1972. Hoje, quando se fala em interactividade, referimo-nos à comunicação bidireccional ou 7 multidireccional (Barbosa, 2001), e aos conteúdos gerados pelos utilizadores . Como tal, a interactividade torna-se «uma das características mais proeminentes que distingue os media online dos media tradicionais» (Kopper in Barbosa, 2001: 5). Estas características são de facto visíveis e fortalecem o reconhecimento da rede enquanto meio descentralizado e independente de comunicação para todos os indivíduos, permitindo a oponentes de várias esferas sociais confrontarem ideias directamente. Hoje, existem milhares de editores e autores que convivem em simultâneo num espaço virtual onde o computador esconde o rosto dos envergonhados e altera os processos de socialização tradicionais. Se antes as pessoas discutiam, em reuniões, os problemas de uma dada empresa, hoje podem fazê-lo a partir de casa com uma webcam. Assim, a tecnologia «dotou-nos de um conjunto de ferramentas de comunicação capaz de nos transformar a todos em jornalistas, com custos reduzidos e, em teoria, com acesso a um público global» (Gillmor, 2004:14). É precisamente neste contexto que nos vamos deparar com um novo fenómeno que envolve a participação do cidadão comum nos media tradicionais e ainda nos novos media. O conceito de cidadão jornalismo surgiu «num momento em que o jornalismo americano atravessava uma grave crise de credibilidade, com a consequente perda de leitores» (Gonçalves, 2005: 3). Os poderes económicos e políticos estavam a dominar cada vez mais os media, pelo que se tornou necessário combater esta realidade. Cientes deste poder na imprensa, os cidadãos começaram a desenvolver novas formas de exercício da sua cidadania, com maior e mais activa 2 Esta possibilita o envio simultâneo de ficheiros de texto, imagem, voz, animação e pintura. 3 É um código digital presente nos textos online que permite completar a informação dada. No fundo o leitor ao clicar numa hiperligação sobre a ONU, por exemplo, é redireccionado para o site da organização onde pode ter mais informação sobre a mesma. 4 Onde se percorre um caminho alternativo mais rápido quando está impedida a linha mais curta de contacto. 5 Onde o acesso do ponto receptor depende da vontade e disponibilidade deste em atender e responder, sendo simultânea ou diferida no tempo. 6 Esta permite aos indivíduos responder rapidamente a uma ideia publicada 7 Conhecido também como user-generated content cuja sigla é UGC. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 12
  • 11. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 8 participação. No fundo, houve uma síndrome de esvaziamento , na qual os editores de jornais e directores de estações de radiodifusão se aperceberam que, ao cortarem na quantidade e na qualidade dos trabalhos jornalísticos, podiam aumentar momentaneamente os lucros (Gillmor, 2004). Esta situação não se deteve nas questões de quantidade e qualidade. Agravou-se ainda mais pelas fusões dos órgãos de comunicação social, que à medida que cresceram negligenciaram o dever de informar e prestar um serviço público aos cidadãos. O serviço público foi, em parte, esquecido, pelo que houve um esvaziamento informativo que os cidadãos jornalistas vieram colmatar. Surge então a primeira forma de jornalismo nesta área: o public journalism, que emergiu devido à perda de audiência da imprensa escrita em prol da televisiva. Este tendia a combater a pressões políticas e «pretendia impor uma nova agenda de opinião e se tornar o intérprete dos cidadãos quanto à hierarquia dos problemas e à escolha das soluções pela comunidade» (Abreu, 2003: 6). Porém, foi na década de 70, que se evoluiu para o civic journalism (Abreu, 2003). Este tinha como cerne enaltecer os valores democráticos e era «orientado para mobilizar, dar a palavra aos cidadãos comuns e aos responsáveis por associações e comunidades» (Abreu, 2003: 6). O civic journalism acreditava que o confronto de ideias e opiniões auxiliava na edificação de uma sociedade democrática, sendo que o jornalista desempenhava a função de mediador desse confronto. É assim que nasce um movimento no qual se dá prioridade a uma democracia directa e participativa onde se fundamenta a base do cidadão jornalismo que hoje conhecemos. Na década de 90, com o aumento exponencial de espaços para a participação do cidadão nos meios de comunicação social, este conceito ganhou novos contornos. A participação do cidadão nos media foi facilitada e, por outro lado, a comunicação tornou-se «sóbria, directa e objectiva» (Abreu, 2003: 7). Pese embora o facto do seu desenvolvimento ter seguido fundamentos económicos e acompanhado a evolução das TIC, este «continua muito vulnerável às manipulações da indústria mediática» (Gonçalves, 2005:3), sendo que a palavra-chave deste fenómeno é colaboração. Há uma comunicação de um para um, de um para muitos, e de muitos para muitos (Dahlgren in Rieffel, 2004). Já não existe, no mundo virtual, uma fronteira que separa quem faz as notícias de quem as recebe. Os jornalistas têm agora milhares de cidadãos que os auxiliam na árdua tarefa de apurar, conhecer, reunir e até mesmo comentar informações – deu-se lugar à comunicação através de colaboração e da interactividade, tendo em conta a utilidade social. Este último conceito diz respeito ao facto de o jornalismo se dispor a servir «os interesses concretos dos cidadãos e a responder às preocupações dos leitores ou da audiência referentes a emprego, habitação, educação, segurança, e qualidade de vida» (Abreu, 2003: 5-6), associado à ideia de que o jornalismo trabalha para o público. Em linhas gerais, o cidadão jornalista é um indivíduo sem formação académica na área de jornalismo com uma vontade enorme de participação na esfera social. É alguém que usa os suportes tecnológicos para levar a informação directamente da fonte para a audiência sem passar obrigatoriamente pelos media (Vollmer, 2007). É alguém que participa activamente na sociedade através da recolha, análise e transmissão de notícias e informações. O âmago da sua acção é contribuir para a democracia através da publicação de informação independente, séria, verdadeira, 8 Esta diz respeito à mercantilização do jornalismo que deixa de se preocupar tanto com a qualidade do trabalho informativo e com a sua função social, e passa a preocupar-se com a rentabilização da actividade, sucumbindo a ideais capitalistas. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 13
  • 12. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos interessante e relevante (Bowman e Willis, 2003). Apresenta conteúdos informativos (de texto, imagem e som), onde exprime novas perspectivas e informação que, de outro modo, não teriam 9 visibilidade na esfera pública . Este não exclui o que é produzido pelos jornalistas. Contribui, através dos seus conteúdos e com uma maior liberdade na produção e veiculação de informação, para o jornalismo. Nesta nova participação social, podemos ouvir sistematicamente as histórias e ideias dos cidadãos, pelo que estes também são livres de escolher o assunto que vão cobrir. O cidadão procura também seleccionar livremente os suportes através dos quais dá a conhecer aos outros as histórias relativas a questões importantes da sua comunidade, procura enquadrar a informação de modo a que seja claramente perceptível, fomentar a discussão pública, e divulgar e propor soluções para eventuais problemas que existam na comunidade. Tende a apresentar novas perspectivas de um determinado problema, e presta sistemática e continuamente atenção à forma como os comunicam com o público (Lambeth, Meyer e Thorson, 1998). Segundo o estudo de Serena Carpenter (2008), os cidadãos jornalistas optam por citar fontes não oficiais (60.6%), ao passo que os jornalistas online geralmente usam fontes oficiais (75%). Isto sucede porque os jornalistas têm maior acesso a fontes oficiais. Segundo Gans, os jornalistas «têm maior acesso a fontes oficiais e as fontes não oficiais requerem mais tempo para serem localizadas» (Gans in Carpenter, 2008: 19). Em Portugal, por exemplo, o acesso a documentos administrativos (fonte oficial) é regulado pela Lei n.º 46/2007 de 24 de Agosto- Lei de Acesso aos Documentos da Administração. De acordo com o artigo 5.º, «todos, sem necessidade de enunciar qualquer interesse, têm direito de acesso aos documentos administrativos, o qual compreende os direitos de consulta, de reprodução e de informação sobre a sua existência e conteúdo». Quanto às restrições ao acesso, estão presentes no artigo 6.º da mesma Lei, e compreendem, por exemplo, o acesso a documentos que possam comprometer a segurança interna e externa do Estado, ou ainda documentos que respeitem a matérias que estão em segredo de justiça. Esta participação do cidadão no jornalismo depende da colaboração e permite um enriquecimento e democratização do trabalho do jornalista e da informação, pois pode produzir a informação sem as pressões económicas ou políticas a que os jornalistas estão, geralmente, sujeitos. Ana Carmen Foschini e Roberto Romano Taddei (Foschini e Taddei, 2006), dizem que os indivíduos que participam na imprensa podem ser: publicadores (os que têm páginas pessoais como blogs, flogs, vlogs, ou que produzem podcasts com notícias, independentemente do assunto abordado); observadores (quem está preparado para, a qualquer momento, registar um acontecimento inesperado); militantes (os que defendem uma causa ou se dedicam a um tema com grande fervor); comentadores (os cidadãos jornalistas que se manifestam na web através de comentários que inserem nos blogs, nos flogs, nos vlogs, nos fóruns, nas comunidades e nos websites da comunicação social); e, finalmente, podem ser editores (os que seleccionam as notícias e participam nas comunidades ou sites colaborativos, onde podem existir links, ou ligações, para outros sites). Note-se que um cidadão jornalista pode, por exemplo, ser publicador e comentador ao mesmo tempo. 9 O primeiro caso mediático a surgir deste jornalismo foi o caso Mónica Lewinsky, apresentado inicialmente num blogue, o Drudgereport, de Matt Drudge, sob a forma de notícia. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 14
  • 13. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos J.D. Lasica (2003) também desenvolveu uma divisão do fenómeno tendo em contas suportes usados para a publicação de informação. Este distingue: a participação do público (onde se integram os comentários feitos nos blogs, o uso de fotografias e filmes ou os textos feitos por moradores de um dado local ou por comunidades); os websites jornalísticos independentes, como o Drudge Report; os websites de notícias feitas por utilizadores (como o OhMyNews e o WikiNews); os websites de media colaborativos ou participativos (por exemplo o Slashdot e o Kuro5hin); e, finalmente, os websites de transmissão pessoal (onde se inserem os podcastings -de áudio ou vídeo -, os blogs, os fotologs e os vlogs). Tendo também em conta os suportes usados para publicação de informação, o autor Chris Carroll (2006) define quatro categorias de cidadão jornalista. Na primeira estão inseridos os cidadãos que possuem uma máquina fotográfica, ou que usam o seu telemóvel e tiram fotografias ou gravam vídeos de acontecimentos (sejam eles de grande envergadura ou eventos locais) para depois enviarem para os media. A segunda categoria respeita ao cidadão que quer cobrir as suas comunidades locais ou virtuais e produz conteúdos direccionados aos seus objectivos. Finalmente, temos os militantes que lutam por causas políticas. Estes são os cidadãos que participam num chat ou comentam as notícias de um jornal ou blog. Pese embora o facto de este autor dividir o cidadão jornalista em categorias e aceitar que este exista, não acredita que este venha a substituir o jornalismo tradicional (Idem). O conceito de cidadão jornalista tem sido analisado por diversos estudiosos, alguns com visões análogas e outros com visões antagónicas. Mas um conceito que é comum encontrarmos é o defendido por Bowman e Willis (2003). Segundo eles, este fenómeno consiste: «no acto de um cidadão, ou de um grupo de cidadãos que desempenham um papel activo no processo de recolha, no acto de informar, na análise e difusão das notícias e da informação. A intenção desta participação é fornecer a informação independente, credível, exacta, extensa e relevante que uma democracia necessita… é um fenómeno emergente no qual existe pouca ou nenhuma intervenção editorial e os constrangimentos formais das rotinas jornalísticas a ditarem as decisões dos colaboradores» (Bowman e Willis, 2003: 36). Um dos mais activos e fervorosos defensores do cidadão jornalista defende que a interacção do público com a produção de notícias é uma oportunidade e não uma ameaça ao jornalismo (Gillmor, 2004). Admite ainda que o seu público sabe mais sobre o seu quotidiano do que o próprio jornalista. Na obra Nós, os Media (Gillmor, 2004), o autor defende que o conceito de jornalismo open source está intimamente ligado com os novos media e com o facto de estes permitirem a actores heterogéneos o acesso à rede. Quem também é adepta deste conceito é Catarina Moura, que diz que o jornalismo open source permite a divulgação de pontos de vista díspares e isentos (Moura, 2002). Importa ressalvar a posição de Jay Rosen, outro defensor acérrimo da participação do cidadão 10 nos media. O autor do blog Pressthink , que dá particular enfoque às questões do jornalismo na “era da Internet”, diz que estamos perante uma acção de cidadão jornalismo quando os indivíduos que anteriormente eram conhecidos como audiência, empregam as ferramentas dos media tradicionais e 10 http://journalism.nyu.edu/pubzone/weblogs/pressthink/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 15
  • 14. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos têm os instrumentos necessários para informar outros elementos da audiência (Rosen, 2008). Todavia, Jay Rosen interroga-se se os blogs podem conter jornalismo. Segundo ele, por vezes, os blogs contém materiais que podem ser considerados jornalismo (Rosen, 2005), mas isso vai depender do seu autor, ou autores, e do objectivo do blog. Numa visão mais pessoal e menos técnica, Chris Carroll descreve o cidadão jornalista como alguém novo e inocente que actua de forma independente. Tem muitas ideias novas face à democracia e ao jornalismo e tem um verdadeiro respeito pela verdade (Carroll, 2006). Para Alzira Abreu, este deve ser encarado como uma forma de os jornalistas exercerem uma função de activistas políticos, cuja preocupação passa também pela «rejeição à corrupção, defesa dos direitos dos cidadãos, igualdade no tratamento e na aplicação das leis...» (Abreu, 2003: 14). Munish Nagar por sua vez diz que este fenómeno permite que tanto um amador como um jornalista possam trabalhar e publicar o seu trabalho em igualdade de circunstâncias (Nagar, 2007). Segundo Axel Bruns, um dos objectivos do cidadão jornalista é: «contribuir para uma visão pública mais extensa e exacta em problemas específicos. Este movimento vê, especialmente os jornais e os seus sites web como peças instrumentais no desenvolvimento de uma nova forma de ‘povo cívico’ onde as soluções para os problemas existentes são encontradas através de debates construtivos gerados e conduzidos por editores e jornalistas nas suas páginas» (Bruns, 2005: 23). Apesar de o cidadão jornalista ser um amador, deve seguir regras, como por exemplo entrevistar, ouvir os dois lados de um assunto, confirmar sempre a informação, ter cuidado com o que escreve e com as acusações que faz, comparar os dados oficiais com os dados de outras fontes, e lutar pela credibilização do que escreve (Foschini e Taddei, 2006). Tem também de respeitar o direito à imagem, o direito de reprodução e os direitos autorais (Idem). Outra situação que se insurge neste panorama é a tensão entre a lógica económica de construir plataformas de participação do cidadão (de modo a atrair comunidades cada vez maiores de utilizadores), versus a lógica profissional que respeita à autoridade no controlo dos fluxos de informação (Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009). Estes podem constituir um perigo para os modelos de negócio que dominam a difusão de informação, porque não estão ligados a nenhuma empresa, logo não estão sujeitos a pressões e políticas empresariais. Serena Carpenter acrescenta que «os cidadãos jornalistas podem ser menos afectados pelas forças do mercado […] porém podem ser mais afectados por constrangimentos extramedia (por exemplo, as audiências, os anunciantes e fontes)» (Carpenter, 2008: 5). Note-se que, devido ao facto dos cidadãos puderem gravar vídeos, tirar fotografias e escrever blogs, registou-se uma perda de hegemonia dos media tradicionais (Meraz, 2006). De facto, continua a ser fulcral o controlo dos conteúdos publicados por estes indivíduos, porque a sua actividade não é objectiva e não segue as normas deontológicas do jornalismo. É necessário filtrar a informação produzida pelos cidadãos para que o público tenha acesso a uma informação credível e bem redigida. Pode haver a propensão dos cidadãos para escreverem artigos de entretenimento sem qualquer pesquisa porque a maioria dos cidadãos jornalistas não tem qualquer formação pelo que não seguem as normas de objectividade, clareza e investigação Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 16
  • 15. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos (Gladney et al. 2007). Tal como diz Lillie Bush, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa, «os acontecimentos não podem ser encarados como factos quando não existe nada que os suporte como factos» (Bush in Lewis, Kaufhold e Lasorsa, 2009: 12). Se as informações não forem confirmadas e as normas profissionais não forem respeitadas, estes indivíduos apenas contribuem para uma cacofonia geral da informação, porque muitas vezes ela é falsa e mistura-se com informações verídicas, tornando-se difícil distinguir o que é verdadeiro e o que é falso, o que é importante e o que é acessório. A questão da credibilidade impõe-se pelo que o cidadão jornalista tem de relevar «a credibilidade tendo em conta o discurso jornalístico» (Salwen et al., 2009: 149). Contrariamente, no estudo de Lewis, Kaufhold e Lasorsa (Lewis et al., 2009) podemos observar que os editores dos jornais analisados discordam da existência de um cidadão jornalista. Os editores fazem uma distinção clara entre os jornalistas profissionais e o público, e encaram a actividade como uma actividade vedada a profissionais. Estes editores permitem, contudo, a participação dos cidadãos embora não os deixem escrever artigos. No fundo, os editores alegam que «todas as ideias de histórias são tratadas por escritores profissionais e não por cidadãos jornalistas» (Lewis et al., 2009: 11). 1.2. O cidadão jornalista e o conceito de cidadania da informação e para a informação A par do conceito de cidadão jornalista (citizen journalism), têm também sido usados outros que descrevem o fenómeno. Eles são o conceito de jornalismo em rede ou networked journalism (Jarvis, 2007), o jornalismo de raiz ou grassroots journalism (Brambilla, 2005), o jornalismo amador e o jornalismo participativo (Bowman e Willis, 2003), o jornalismo colaborativo, e, finalmente, o jornalismo open source ou de código aberto onde estão, por exemplo, as wikis- Wikipédia, wikinotícias e outros (Gillmor, 2004). Note-se que, se nos blogs o único controlador da informação é o próprio criador do mesmo, já nos sites de jornalismo colaborativo e de jornalismo open source há um administrador ou editor que filtra a informação recebida e disponibilizada online. Há que atentar, ainda, que o cidadão jornalista só se cruza com a cidadania, na medida em que os indivíduos assumem o seu espaço na sociedade ao participar e colaborar na produção de informação através dos novos media. Apesar de vários autores defenderem os conceitos acima mencionados, consideramos que nenhum deles se enquadra verdadeiramente na essência do fenómeno, nem o exprime de forma abrangente. O network journalism e o jornalismo open source prendem-se essencialmente com a produção de conteúdos e partilha online. No entanto, não consagram os conteúdos, como fotografias por exemplo, que são enviados directamente para as estações de televisão e que não são partilhados online. Já o grassroots journalism prende-se com a participação na produção e publicação de conteúdos na web de cidadãos que geralmente não participam nas decisões da sociedade, logo não contemplam a produção de conteúdos de um político, por exemplo, que está no local certo à hora certa. Neste sentido acaba por reduzir esta forma de exercício da cidadania aos indivíduos que não têm poder decisório. Na realidade, qualquer pessoa, independentemente da sua influência e poder económico, pode produzir conteúdos para os media. Finalmente, o jornalismo amador e o Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 17
  • 16. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos participativo, focam-se essencialmente nos blogs e no contributo de indivíduos que não têm qualquer formação jornalística. Aqui há uma clara lacuna no que respeita aos indivíduos que têm formação jornalística e que não exercem a profissão. Estes também podem produzir conteúdos. Não têm carteira profissional, mas têm o know-how, logo não devem ser excluídos como produtores de conteúdos para os media. O jornalismo colaborativo é mais abrangente, pois existe uma colaboração entre o indivíduo que produz uma fotografia, por exemplo, e o jornalista que a trata e publica. Contudo, também existem casos em que um indivíduo produz uma “publi-informação”, ou seja, uma informação que invariavelmente defende um produto, uma ideia ou ideal. Nesse caso, o conceito torna-se um pouco ambíguo. Finalmente, o uso da palavra “jornalismo” em todos os conceitos é de todo errado. O jornalismo continua a ser feito por jornalistas e será sempre jornalismo. O que se modificou foram as formas do público se exprimir e exercer os seus direitos de cidadania. Estamos perante uma nova forma de participação dos cidadãos nos media e na sociedade, e não de uma nova forma de jornalismo, pelo que usar o termo “jornalismo” pode confundir. De facto, o jornalismo «é uma coisa um bocadinho diferente: é utilizar as técnicas jornalísticas para fazer uma notícia- confirmar a informação, haver uma investigação própria, um tratamento próprio» (Granado in Coelho e Palhares, 2005). Exposto isto, é necessário descrever o carácter dessa colaboração, pelo que propomos um novo conceito: cidadania da informação e para a informação. Este parte da informação para a informação, ou seja, o facto (que é a base da informação) é captado e divulgado pelo indivíduo que posteriormente a envia para os media. Por seu turno, estes divulgam-na contribuindo para a informação do público em geral. O público sabe à partida que está a aceder a informação e não a publicidade ou propaganda. Por outro lado, pelos mesmos motivos que deixámos o conceito geral de cidadão jornalista, passamos a falar em cidadão da informação e para a informação. Esta designação parece-nos ser mais realista também porque esta é uma nova forma de exercício da cidadania que incide nas formas de produção e de difusão da informação e de conhecimento, e porque o cidadão que envia imagens e outros documentos para uma redacção pode ser apenas uma testemunha ou uma fonte de informação. O cidadão da informação e para a informação não é jornalista. Não tem carteira profissional, não segue as normas legais e deontológicas, nem as regras formais na elaboração e difusão de informação. Ressalve-se que, por vezes, também recorre à comunicação social para se informar e para validar o que produz. Noutros casos fornece pistas para o jornalista desenvolver um dado acontecimento. É alguém que tira uma fotografia ou faz um vídeo de um evento que testemunhou e envia para uma redacção, completando o trabalho do jornalista. Na sua bandeira ergue ideais como o pluralismo, a independência, a transparência ou a imparcialidade, pelo que enriquece o trabalho do jornalista. Por outro lado, contribui para o aprofundamento da democracia e o alargamento do espaço público, pois produz e faz chegar ao público informação que de outro modo não seria possível. Traz para a esfera mediática assuntos que nunca teriam notoriedade ou espaço nos media tradicionais, revitaliza a vida pública porque favorece o debate público, e contribui para a comunidade se conhecer e agir em prol de uma efectiva cidadania. Acreditamos que neste fenómeno o que é relevante é o Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 18
  • 17. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos conteúdo (a imagem, o som ou a informação de um determinado texto). A pessoa que o produz é apenas um cidadão que exerce o seu direito de cidadania fomentado pelos novos media. Estes participam activamente na sociedade quando produzem vídeos e outros materiais, e expõem as suas opiniões e visões sobre o que os rodeia. 1.3. Cidadania da informação e para a informação no mundo 1.3.1. A importância e evolução do conceito no jornalismo internacional As ferramentas, sobretudo online, disponíveis para o cidadão da informação e para a informação são fundamentais para a divulgação do seu trabalho. O material produzido por estes indivíduos é tratado e publicado sobretudo através da Internet, pois é um meio simples, com baixo custo e de fácil acesso a todos os cidadãos. Segundo Abreu (2003), é através de suportes como os blogs, os flogs, os moblogs, os vlogs, os podcasts, a wiki, o e-mail e, finalmente, os fóruns, que o cidadão da informação e para a informação publica o seu trabalho e se submete à opinião de outros. Um dos exemplos da sua participação é a Wikipédia. Fundada em 2001, este é um suporte que vive da constante actualização da informação por parte das pessoas que consultam site e tem como características a verificabilidade e o controlo (Lima, 2006). É um suporte que permite que quem participa seja também guardião da veracidade das informações publicadas, uma vez que pode corrigir os erros que encontra. Esta função dos participantes actua ainda como inibidor de actos de vandalismo online pois os perpetradores desses actos sabem que caso publiquem uma informação errada esta é corrigida dentro de minutos. Logo, estes perpetradores optam por procurar locais mais 11 12 vulneráveis (Gillmor, 2004). Outros exemplos são a wikinotícias , o Creative Reporter , o 13 NowPublic , onde os cidadãos interessados podem inscrever-se e participar através do envio de textos, imagens ou sons. O NowPublic permite aos cidadãos publicarem as suas próprias notícias e links para as histórias mais relevantes nos media. No Creative Reporter, os cidadãos são, inclusivamente, pagos segundo a quantidade de vezes que a sua página é vista, e o participante pode ainda consultar as estatísticas referentes ao número de visitas que a sua página recebeu e os comentários de que foi alvo. Mas foi no ano de 1997 que o projecto de Rob Malda marcou o início da era do jornalismo open 14 source. O Slashdot situa-se entre a webzine e o fórum e vai «permitir que várias pessoas (além dos jornalistas) escrevam e, sem a castração da imparcialidade, dêem a sua opinião, impedindo assim a proliferação de um pensamento único» (Moura, 2002: 1/2). Este suporte contribui para uma diversificação de perspectivas face a um dado assunto, e ajuda a trazer a público assuntos que de outro modo não seriam conhecidos. Assim é um fórum noticioso, diversificado e plural que «contribui para a gestão dos factos, das ideias, das opiniões; não só tem voz, como dá voz» (Nogueira, 2002: 2). Neste site, o cidadão, que pode permanecer anónimo se assim o desejar, envia o material que 11 http://pt.wikinews.org/wiki/P%C3%A1gina_principal 12 http://www.creative-reporter.com/ 13 http://www.nowpublic.com/ 14 http://slashdot.org/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 19
  • 18. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos quer ver publicado e, se este for considerado pertinente e actual, é escolhido e posteriormente publicado por um dos seus editores. Devido à qualidade de muitos dos comentários, criou-se ainda neste site um sistema de pontuação dos comentadores, sendo que os mais pontuados são, logicamente, os mais lidos. Conquanto, o projecto mais emblemático e bem sucedido do cidadão da informação e para a 15 informação, é o projecto desenvolvido na Coreia do Sul. O OhMyNews foi lançado a 22 de Fevereiro de 2000, conta com mais de 50.000 repórteres, e trabalha sob o slogan “todo o cidadão é um repórter”. Tem um formato mais tradicional, onde os cidadãos produzem notícias locais e são remunerados sempre que o seu trabalho é publicado, logo transformam-se em jornalistas pois são remunerados e seguem directrizes editoriais. Neste projecto, o trabalho é coordenado por editores profissionais que também os ajudam a melhorar as capacidades do cidadão da informação e para a informação. Quando adere ao OhMyNews, o cidadão compromete-se a respeitar a sua autoridade nomeadamente no que respeita à gestão das notícias. Deve também comprometer-se a partilhar todas as informações sobre os artigos que envia, deve comunicar se um artigo já foi publicado noutro órgão de comunicação, deve revelar as fontes usadas no seu trabalho, e deve ser responsável por eventuais casos de plágio ou uso indevido de algum material. Quando publica mentiras ou notícias de carácter difamatório deve ainda ser legalmente responsabilizado (Brambilla, 2005). De facto, este projecto tem tanta credibilidade que, em 2003, teve um papel fundamental na política. Apoiou claramente Roh Moo Hyun, candidato à presidência da Coreia, pelo partido reformador. Este apoio contribuiu para a sua eleição e como prova de apreço, Hyun «concedeu sua primeira entrevista ao OhmyNews, em detrimento aos três maiores jornais coreanos que se filiavam a um viés conservador» (Brambilla, 2005: 3). O sucesso do projecto do jornalista Oh Yeon Ho, ditou mesmo a sua expansão (com o 16 OhMyNews International ) e a abertura do OhMyNews Citizen Journalism School. O OhMyNews International tem como editor Todd Thacker que é também responsável por confirmar as informações das notícias enviadas pelos cidadãos, editar os textos, escrever os títulos, e analisar os pedidos de adesão de novos indivíduos. Neste suporte internacional trabalham apenas cinco pessoas, sendo que apenas duas delas são jornalistas (Brambilla, 2005). O cidadão é protagonista de uma acção criativa na recolha, confirmação, análise e transmissão de uma informação, logo enquadra-se no jornalismo participativo (Bowman e Willis, 2003). O OhMyNews contribui para a democratização da actividade jornalística (Brambilla, 2005) e o envio do material faz-se com o auxílio do OMNI System, que é «um sistema de publicação disponibilizado aos cidadãos-repórteres formalmente cadastrados no site» (Brambilla, 2005: 4). Dentro desse sistema, os indivíduos encontram o Reporter Desk que tem os formulários necessários à redacção dos artigos, as mensagens dos jornalistas, o código de ética e 17 ainda outras informações tais como o dinheiro que vai receber com cada artigo. Quanto ao OhMyNews Citizen Journalism School, este é um centro comunitário de educação dedicado ao ensino da cidadania da informação e para a informação, sendo que as aulas incluem técnicas de 15 www,ohmynews.com 16 http://english.ohmynews.com/ 17 Essa quantia varia entre 2.000 e 20.000 Wons (a moeda oficial da Coreia) tendo em conta a importância da notícia e o local que ocupa no site. À data de 9 de Janeiro de 2010, 1 Won equivalia a 0,00062 euros. Consultar http://pt.exchange-rates.org/converter/KRW/EUR/1. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 20
  • 19. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos entrevista, workshops de jornalismo online, e programas de reciclagem para jornalistas profissionais. Esta é a primeira escola do cidadão da informação e para a informação e tem capacidade para acolher 100 estudantes. O corpo docente é formado por jornalistas da imprensa, da rádio e da televisão e outros especialistas da área da comunicação que diariamente incutem nos cidadãos o espírito de participação na esfera mediática. O OhMyNews marcou definitivamente uma mudança na relação entre o cidadão e a notícia, sendo que, apesar da existência de gatekeepers, dá voz aos indivíduos que podem agora escrever sobre assuntos que de outro modo não teriam visibilidade nos media tradicionais devido a contingências editoriais, económicas e políticas. De facto «o povo coreano acolheu a ideia como em resposta à repressão sofrida no recente regime autoritário» (Brambilla, 2005: 11). Mas há também serviços criados por cidadãos que competem directamente com os media 18 19 20 tradicionais. Estes são o Craiglist , o Backfence e o Chicagocrime . O primeiro foi criado em 1995 por um estudante universitário, e é uma ferramenta de classificados nos Estados Unidos da 21 América . Já o Backfence é um projecto onde os indivíduos escrevem notícias sobre factos que acontecem na sua área de residência. Finalmente, o Chicagocrime mistura informações do site da polícia de Chicago com a informação da Câmara Municipal. Foi criado por um morador e tem como cerne mostrar aos seus vizinhos os locais onde é mais frequente a ocorrência de crimes. Devido a esta competição directa, os media tradicionais sentiram alguma pressão para se adaptarem. Logo, tiveram que dar voz ao cidadão jornalista ao abrirem nos seus espaços online, canais para a 22 participação do cidadão. Ainda nos Estados Unidos da América no site Assignment Zero , Jay Rosen apela à participação do leitor através da mensagem «Citizen Journalism wants you!». No Reino Unido, esta abertura verificou-se, sobretudo, em 2005. Durante os atentados de Londres, a BBC publicou inúmeras fotos tiradas pelos cidadãos. Estas foram essenciais para contar ao mundo a violência com que o Reino Unido foi atacado. Seria muito difícil um fotojornalista ter captado estes momentos, pelo que o contributo do cidadão preencheu esse vazio. A BBC reconheceu isso ao usar as suas fotografias e vídeos com o maior respeito e apreço. Com a crescente vontade de participação do indivíduo na esfera mediática, do outro lado do 23 oceano, surge o projecto da CNN- o iReport . Este projecto, que mereceu um momento humorístico 24 por parte de Jon Stewart em The Daily Show , dá espaço mediático ao cidadão comum, permite aos indivíduos enviar material de áudio e vídeo digital para os noticiários das suas regiões, e permite que esse material seja comentado. O envio é feito por e-mail ou directamente para o site da CNN, logo 25 tem como base o modelo do YouTube , ou seja, o cidadão tem apenas de fazer o upload do vídeo, ou outro material, que quer divulgar no site iReport. O iReport não tem qualquer intervenção dos 18 http://www.craigslist.org/about/sites 19 http://www.backfence.com/ 20 https://www.chicagocrimecommission.org/Default.aspx 21 Esta ferramenta concorre com os classificados dos jornais americanos. 22 http://zero.newassignment.net/ 23 http://www.ireport.com/recent-updates.jspa 24 STEWART, Jon, “CNN iReport”, 27 de Setembro de 2006, em The Daily Show, disponível em http://www.the dailyshow.com/video/index.jhtml?videoId=127018&title=headlines-cnn-ireport , consultado em 10 de Janeiro de 2008. 25 Surgiu em 2005, pertence ao Google e permite a divulgação de vídeos. Está disponível em: http://www. youtube.com/ Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 21
  • 20. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos editores da estação CNN, mas tem uma secção onde dá algumas informações para se fazer uma boa reportagem. Devido ao sucesso deste projecto, a cadeia de notícias norte-americana criou ainda um 26 27 novo website, o CNN Exchange , e alargou o iReport ao Second Life . Note-se que o Second Life ou o YouTube podem desempenhar um papel relevante na democracia ao permitirem a divulgação de informação por qualquer cidadão (Vollmer, 2007). 28 O YouTube e o Flickr , são os serviços mais relevantes no que concerne à publicação e popularização de cidadãos da informação e para a informação. Um exemplo da importância do Flickr foi o acontecimento de 11 de Outubro de 2006 em que o jogador de beisebol Cory Lidle colidiu com o seu avião contra um prédio na cidade de Nova Iorque. O Yahoo usou, antes das agências de notícias possuírem fotos do acidente, uma fotografia de um dos seus utilizadores, Jonathan Keller, em que 29 mostrava dois andares do prédio em chamas . Essa foto estava na página inicial de Jonathan Keller que no espaço de dias foi visto mais de dez mil vezes (Felliti, 2008). Por outro lado, o YouTube também é um exemplo do impacto das tecnologias no panorama informativo. A 16 de Abril de 2007, o estudante Jamal Albarghouti gravou um filme do massacre da faculdade Virgínia Tech onde 30 morreram 33 pessoas . Nesse vídeo é possível ouvir os tiros que provocaram a morte do atirador Cho Seung-Hui (Felitti, 2008). Assim, também as redes sociais que se geram na Internet permitem que as pessoas estabeleçam relações através do uso de tecnologias (Royal, 2008). É através delas 31 32 33 que os indivíduos participam em sites como o MySpace , o YouTube, o Facebook , o Friendster , o 34 35 Hi5 ou o Bebo . 36 Em França, o CitizenSide também assume o seu papel neste fenómeno da participação do 37 cidadão nos media. No FAQ (Frequently Asked Questions) do CitizenSide, podemos ler que quando as fotografias são exclusivas e retratam um furo jornalístico, podem ser vendidas para os media tradicionais. Todavia, existe a preocupação de não vender as fotografias como exclusivos de modo a poder vender-se a vários órgãos de comunicação social, pelo que quando as fotos são efectivamente 38 publicadas, o autor da mesma é pago no espaço de 60 dias . Esta estratégia pode parecer inocente, mas de facto integra uma estratégia económica que incentiva os cidadãos a voltarem a usar o CitizenSide para vender o seu material. 26 Este alberga os vídeos e materiais áudio enviados pelo cidadão e está disponível em http://edition.cnn.com/excha nge/ireports/spotlight.html 27 O Second Life é uma espécie de planeta online onde os indivíduos são representados por avatares (pequenos bonecos virtuais), e onde existem tribunais, espectáculos ao vivo, lojas, negócios e quase tudo o que existe na vida real. Está disponível em: http://secondlife.com/ 28 Pertence ao Yahoo e permite a divulgação de fotografias. Está disponível em: http://www.flickr.com/ 29 http://www.flickr.com/photos/83369484@N00/267217431/in/photostream/ 30 http://edition.cnn.com/video/#/video/us/2007/04/16/sot.va.tech.shooting.barghouti.cnn 31 Nasceu em 2003 com o intuito de divulgar as músicas de vários artistas desconhecidos. Está disponível em: http://www.myspace.com/ 32 Permite a partilha de fotografias, chat e outros, e está disponível em: http://www.facebook.com/ 33 http://www.friendster.com/ 34 Permite a partilha de fotografias e está disponível em: http://www.hi5.com/ 35 Permite a partilha de fotografias, vídeos e música e está disponível em: http://www.bebo.com/ 36 http://www.citizenside.com/ 37 http://www.citizenside.com/en/info/faq.html 38 O cidadão que produziu a imagem ficam com 75% do valor do seu trabalho, sendo que o CitizenSide fica com uma pequena parte. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 22
  • 21. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Já no Brasil, a situação repete-se através da Globo que considera que todo o contributo é bem 39 visto. Têm um espaço denominado G1 , no qual o cidadão comum pode participar. Nesse espaço qualquer internauta pode colaborar com as suas notícias, vídeos e fotos, e existe inclusivamente uma 40 listagem dos artigos mais lidos. Outro exemplo no Brasil é o FotoRepórter do Estadão que diz ao cidadão: «se você tem um celular com máquina fotográfica embutida, ou vive com uma câmara digital 41 a tiracolo, abra os olhos e fique esperto» . Este projecto nasceu após os atentados de 7 de Julho em Londres. De facto, as redacções de todo o mundo receberam inúmeras fotografias, o que fez os profissionais do Estadão perceberem as potencialidades que a participação do cidadão tinha no panorama informativo. A vantagem que este site oferece é a remuneração dada aos indivíduos pela sua colaboração, podendo estes ver o seu material ser vendido a órgãos de comunicação social em todo o mundo (Correia, 2008). Para participar basta enviar uma sms para o número 49700 ou enviar um e-mail. Note-se que se as fotografias forem apenas publicadas no Estadão, não serão remunerados. Ao longo dos tempos, tal como foi demonstrado, o fenómeno da cidadania da informação e para a informação evoluiu, sendo que tem uma relevância ímpar no jornalismo. No dealbar do novo século e em parte devido às TIC, o consumidor de notícias levantou-se e disse que quer participar na sociedade. Quer ser os olhos e os ouvidos dos jornalistas quando estes, pelo imediatismo dos acontecimentos, não estão presentes. 1.3.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media no mundo A participação dos cidadãos nos media contribui indubitavelmente para relatos emocionados. É cada vez mais frequente vermos imagens amadoras nos nossos ecrãs. O cidadão está muitas vezes no local certo à hora certa, acabando por dar ao jornalismo imagens que seriam muito difíceis para os jornalistas obterem. A audiência começa a abandonar o seu papel de consumidor e a assumir também o papel de produtor de conteúdos. Um exemplo bastante claro desse acesso de quem não é profissional ao jornalismo é, tal como recorda Dan Gillmor, o caso do 11 de Setembro de 2001. Segundo ele, «as notícias estavam a ser produzidas por pessoas comuns [...] e não apenas pelas agências de notícias ‘oficiosas’ que, tradicionalmente, costumavam produzir a primeira versão da história» (Gillmor, 2004: 12). Todavia, a participação dos cidadãos nos media não começou no 11 de Setembro. Aquando do assassinato do presidente John Kennedy, a 22 de Novembro de 1963, Abraham 42 43 Zapruder , também participou nos media com o vídeo . Este foi o autor das imagens com melhor ângulo do momento em que a bala atirada por Lee Harvey Oswald entrou na parte de trás da cabeça do presidente Kennedy. Esta gravação, embora não possuísse qualquer som, tornou-se na imagem 39 http://g1.globo.com/ 40 http://www.estadao.com.br/ 41 http://www.estadao.com.br/fotoreporter/oquee.shtm 42 Zapruder era um fabricante de roupas femininas nos Estados Unidos. 43 http://www.youtube.com/watch?v=1G_Zxup7esU Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 23
  • 22. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos amadora mais valiosa da história, sendo que acabou por ser comprada pelo governo norte-americano 44 em 1999 pelo valor de dezasseis milhões de dólares (Felitti, 2008). A participação do cidadão sempre se fez sentir, embora essa presença passe muitas vezes despercebida. Em França, por exemplo, no ano 2000, as imagens do voo da Air France cujo tanque de combustível rebentou na pista de aterragem do Aeroporto Internacional Charles de Gaulle foram 45 recolhidas por um amador . No ano seguinte, em 2001, os atentados de 11 de Setembro seriam uma data marcante para todo o mundo. Os embates dos aviões nas duas torres do World Trade Center teriam sido invisíveis aos olhos do mundo se o cidadão da informação e para a informação não estivesse lá. Em Nova Iorque as pessoas nas ruas corriam, as que estavam no World Trade Center tentavam escapar do fogo atirando-se das janelas, os bombeiros e a polícia faziam o que podiam e mostravam-se incrédulos perante o que estavam a ver, e os cidadãos estavam lá prontos a filmar. Jamais nos esqueceremos das imagens do embate dos aviões nas torres, as torres a caírem, e ainda das pessoas nas ruas a correrem ensanguentadas ou cheias de pó no rosto. Pó esse que tapava como podia a tristeza de quem naquele dia perdeu um familiar, um ente querido, e um compatriota. Estes foram as testemunhas e os produtores dos testemunhos visuais do maior evento terrorista na história contemporânea. Todavia, a 7 de Março de 2004, os atentados de Espanha iriam captar, mais uma vez, a atenção do mundo para o contributo valioso dos cidadãos. Estes pintaram mais um quadro do terrorismo. Pese embora o facto das bombas colocadas no metro terem sido activadas através de telemóveis, foi também através deles que o mundo conheceu mais um dos rostos do terrorismo (Meraz, 2006). Mas 2004, ficaria ainda marcado por outro evento que impulsionaria ainda mais o fenómeno da participação dos cidadãos nos media. Em Dezembro de 2004, foi o Tsunami (que afectou a Tailândia, a Indonésia e outros), que despertou a atenção dos indivíduos. Os turistas munidos de câmaras de filmar e telemóveis foram os olhos e os ouvidos deste desastre. Foram eles que espelharam as consequências de uma natureza imprevisível através da publicação de imagens na imprensa e através da publicação de fotografias de pessoas desaparecidas em suportes como o Flickr (Meraz, 2006). Steve Outing recorda ainda que jornais como o The Guardian (da Grã-Bretanha) reuniram o material produzido pelo cidadão da informação e para a informação e publicaram no seu site (Outing, 2005). Muitos sites de cidadãos (incluindo blogs), foram ainda utilizados como murais de desaparecidos e como forma de reunir fundos para ajudar na reconstrução das zonas afectadas (Meraz, 2006). No ano seguinte, no dia 7 de Julho de 2005, os atentados no metro de Londres seriam o mote da participação dos indivíduos nos media. Adam Stacey foi o responsável pela imagem mais marcante dos atentados que vitimaram 52 pessoas. É uma imagem onde um homem cobre o nariz com a blusa à saída de uma das carruagens do metro, com as portas semi-abertas. A foto de Stacey 46 foi publicada na sua conta Moblog e, por estar disponível sob uma licença da Creative Commons, foi possível publicá-la em jornais de todo o mundo (Felitti, 2008). Segundo Mark Glaser, durante o 44 http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9D0CE7D71730F936A3575BC0A96F958260 45 http://www.youtube.com/watch?v=BEHoaYMsP9Q 46 http/moblog.co.uk/view.php?id=77571 Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 24
  • 23. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos evento a Wikipédia foi actualizada mais de 5.000 vezes (Glaser, 2005), o que vem enfatizar o facto de os cidadãos quererem efectivamente contribuir para a informação. Neste evento, foram as imagens de indivíduos comuns que encheram as páginas dos jornais e ilustraram reportagens televisivas durante dias. Embora a qualidade das imagens fosse reduzida, esta espelhava a visão das vítimas. Meses mais tarde, a 29 de Agosto, o cidadão empreenderia novos esforços. No Furacão Katrina, muitos cidadãos que não estavam no local empreenderam esforços para encontrarem um abrigo para os desalojados. Esta acção marcou, inevitavelmente, o fenómeno da cidadania da e para a informação. O fenómeno ganhava novos contornos, pelo que além de participar nos media, o indivíduo comum tinha também ambições de cariz humanitário e social. Dina Mehta, uma blogger da Índia assegura que ficou surpreendida porque mesmo a kilómetros de distância pôde ajudar: «o que me espanta é que posso despender o meu tempo, estando no Mumbar na Índia em casa sentada na minha sala de estar, e estar a ajudar aqueles que procuram informações sobre os seus entes queridos que estão desaparecidos no outro lado do mundo» (Mehta in Meraz, 2006: 23). Um apontamento pertinente é que, devido ao acidente, Ethan Zuckerman, Zack Rosen e Jon Lebowsky, 47 48 em conjunto com os sites Salesforce e CivicSpace , desenvolveram um projecto denominado 49 KatrinaPeopleFinder Project cujo objectivo era «combinar todas as bases de dados de pessoas desaparecidas e de painéis de mensagens numa única base de dados» (Meraz, 2006: 27). Esta teve como âmago servir como motor de busca e auxiliar na resolução do problema das pessoas desaparecidas. No Brasil, no dia 4 de Março de 2007, foi o caso de Priscila Aprígio, a menina de 13 anos baleada à saída de um banco no bairro de Ibirapuera, que fez as manchetes dos jornais. Mas, mais 50 uma vez, as imagens eram amadoras. No horário nobre da televisão brasileira, em cerca de quatro minutos, eram mostradas as imagens captadas pelos telemóveis de três testemunhas que gravaram o momento da morte da menina de 13 anos. Embora fossem imagens de baixa qualidade, estas prenderam milhões de espectadores às televisões. Outro caso marcante no Brasil foi o acidente com 51 um jacto no dia 5 de Novembro de 2007. A Globo publicou um vídeo de um leitor que mostrava uma casa em chamas resultado do avião que caiu na região de Santana, na Grande São Paulo. Em 1975, Timor Leste foi vítima de um genocídio por parte das tropas indonésias. Este facto foi ignorado pela imprensa mundial. Não havia Internet e os timorenses não tinham câmaras para mostrar o que se estava a passar. Porém em Setembro de 2007, no Myanmar, a situação foi um pouco diferente. O governo de Myanmar há muito que proibiu os jornalistas estrangeiros de trabalharem no país, pelo que a única forma da informação relativa a protestos só pôde ser dada ao mundo através de telemóveis, das câmaras de filmar, dos blogs, dos vídeos colocados no YouTube, e outros. Quando se aperceberam das potencialidades da Internet no que respeita à divulgação das atrocidades praticadas no país, as autoridades decidiram bloquear o acesso à Internet, espalharam vírus, fecharam cybercafés, cortaram as ligações telefónicas e até mesmo a electricidade nas zonas 47 http://www.salesforce.com 48 http://www.civicspacelabs.org/ 49 http://www.katrinalist.net 50 http://jornalnacional.globo.com/Jornalismo/JN/0,,AA1474593-3586-645975,00.html 51 http://g1.globo.com/VCnoG1/0,,MUL169467-8491,00-VIDEO+LEITOR+FILMA+CASA+EM+CHAMAS+APOS + QUE DA+DE+JATO+EM+SP.HTML Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 25
  • 24. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos de conflito. Este caso espelha a importância do cidadão como fonte do jornalismo, todavia este apenas forneceu material aos media mundiais. Tal como foi demonstrado, o cidadão tem ao longo do tempo contribuído para pintar a história da humanidade dando ao jornalismo imagens emocionantes, muitas de fraca qualidade é certo, mas sem dúvida todas com uma enorme carga emocional que ajudam o jornalismo a contar a novidade. Note-se ainda que em já no início de 2010, no dia 12 de Janeiro e 27 de Fevereiro, o cidadão da informação e para a informação teve um papel preponderante ao retratar o momento dos sismos no Haiti e no Chile, respectivamente. Através das suas imagens conseguimos ver a violência dos abalos e as consequências dos mesmos. Estamos ainda no primeiro trimestre do ano e estes indivíduos já contribuíram de forma massiva em dois eventos catastróficos. Basta-nos agora aguardar para ver se o seu interesse de participação se mantém. 1.4. Cidadania da informação e para a informação em Portugal 1.4.1. A importância e a evolução da cidadania da informação e para a informação em Portugal O fenómeno de participação não é de todo recente em Portugal. Durante o Estado Novo, através das Cartas do Leitor, o cidadão participava. Apesar do ambiente de repressão, existia espaço para o cidadão comum manifestar as suas opiniões e ideias, pese embora o facto de ser uma secção sensível. Para os opressores da época deviam calar-se as vozes dos críticos de modo a que não se reproduzissem (Paulouro in Teixeira, 2007). De facto, ainda hoje é comum a existência de um espaço do leitor nos media portugueses. O espaço da Carta ao Leitor mantém-se, mas foram abertos suportes online agregados aos media tradicionais (como os jornais, por exemplo) onde o cidadão 52 pode também escrever as notícias . Todavia, o editor da versão online do jornal Público, embora reconheça que os jornalistas têm de se adaptar à participação do público, discorda que exista um cidadão da informação e para a informação em Portugal: «penso que não há ainda jornalismo participativo em Portugal» (Granado in Gamela, 2007). Para António Granado «os jornalistas portugueses não estão preparados para os novos media, porque os novos media estão a entrar muito devagar nas redacções e, às vezes, da pior maneira» (Granado in Gamela, 2007). De facto, em Portugal, o fenómeno ainda está a dar os 53 primeiros passos, mas em 2005, aquando do alegado arrastão no ano de 2005 em Carcavelos , muitas foram as imagens enviadas por testemunhas para a imprensa. Chegou-se à conclusão que algumas imagens tinham sido manipuladas, pelo que o cidadão da informação e para a informação perdeu alguma credibilidade. No entanto, não foram os únicos a errar. Os testemunhos recolhidos pela imprensa também foram falsos. As pessoas descreveram um grupo de jovens a assaltar quem estava na praia, todavia estes estavam apenas a correr. 52 Veja-se o exemplo do Jornal de Notícias com o espaço Cidadão Repórter, que apela claramente à participação do cidadão ao dizer «envie-nos as suas notícias e fotografias». O mesmo está disponível em: http://jn.sapo.pt/cidada oreporter/ 53 http://www.youtube.com/watch?v=ZjXtTfnaams e http://www.youtube.com/watch?v=oOdvHLxam9A Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 26
  • 25. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Posteriormente a este incidente jornais como, por exemplo, o Jornal de Notícias, a SIC, a TVI decidiram abrir espaço ao cidadão, o que revela a importância deste evento para o surgimento da cidadania da informação e para a informação em Portugal. O Público chega mesmo a agradecer e incentivar os leitores, considerando-os «essenciais para melhorar o seu funcionamento e a qualidade 54 dos seus serviços» . Nos jornais, é hoje possível comentar as notícias publicadas pelos jornalistas e, por outro lado, existem rubricas de participação onde estão disponíveis os materiais enviados por este indivíduo. No caso das estações de televisão, estas fomentam mesmo a participação através de rubricas como Nós por cá e EuRepórter (da SIC) e Eu Vi (da TVI), cujos conteúdos são enviados pelo cidadão jornalista e passam por um processo de selecção e tratamento. Sobre a rubrica Nós por cá, Eduardo Cintra Torres diz que: « (…) as pessoas mostram um buraco na rua, um poste que está no meio da estrada e aquilo é transformado numa espécie de jornalismo. Mas a verdade é que quando os casos são extremamente chocantes, e a SIC considera de interesse (que eu considero que a SIC considera de interesse), a SIC vai lá a seguir (...) Portanto, aquela fotografia que a pessoa mandou, serviu apenas como material de base e aquilo que espoletou o trabalho do jornalista» (Torres in Marques, 2008). Segundo o estudo de Rui Couceiro, o uso de tecnologias neste programa é pertinente. Em 2009, dos casos recebidos e guardados, 57% (142 e-mails num total de 249) tinham algum anexo. Assim, «o e-mail é, indubitavelmente, o meio preferido para o contacto com o Nós por cá. Não surpreende, por isso, que muitas das mensagens transportem informação em ficheiros de vários tipos: fotografias, vídeos, digitalizações de documentos…» (Couceiro, 2009: 11). Este programa possui características que permitem o envolvimento da comunidade. Todavia, os cidadãos não assumem o papel de jornalistas. Eles apenas colaboram. Alcides Vieira, director de informação da SIC, diz que este programa permite aos cidadãos «exercer o seu direito de cidadania, sabendo que a sua participação passará sempre pelo trabalho de rigor jornalístico, o que confere confiança e credibilidade ao Nós por cá» (Vieira in Couceiro, 2009: 14/15). Por outro lado a rubrica 55 Nós por cá , transformou-se num programa que apela à participação e pública todos os dias o material enviado pelos cidadãos. Este é um programa diário onde se investigam as histórias e imagens que possam ter interesse público. Há aqui um claro tratamento do material que é depois apresentado no programa segundo moldes jornalísticos. Já o Eu vi e EuRepórter parecem-nos ir um pouco de encontro ao iReport da CNN, no sentido em que apelam claramente, no seu site, à participação. A TVI diz «se você for o primeiro a chegar ao 56 local, não hesite. Pare, veja e registe o momento. Os seus exclusivos poderão ser notícia TVI!» . No caso da SIC, no EuRepórter o apelo é mais contido: 54 http://static.publico.clix.pt/sites/feedback/ 55 http://sic.aeiou.pt/online/noticias/programas/nos+por+ca/ 56 TVI, “Eu Vi”, 2 de Abril de 2008, em TVI, disponível em http://www.tvi.iol.pt/informacao/noticia.php?id=9349 51#, consultado em 27 de Abril de 2008. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 27
  • 26. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos «O mesmo acontecimento tem sempre vários ângulos, este é o dos telespectadores e utilizadores da SIC que o testemunharam e viveram. Propomos- lhe desafios temáticos, seguindo a actualidade, mas há espaço privilegiado para o 57 seu “exclusivo”. Participe e envie a sua história para eureporter@sic.pt» . Em Portugal, e se tivermos em linha de conta países como o Brasil ou os EUA, este tem sido um fenómeno discreto. Porém, são notórios os esforços que a imprensa portuguesa está a desenvolver diariamente (com os programas acima mencionados, por exemplo) para incentivar a participação destes indivíduos na sociedade e nos media. No fundo, sabemos que ainda temos muito que caminhar, pese embora o facto de já termos lançado algumas bases vitais para o seu florescimento e amadurecimento. 1.4.2. Casos concretos da participação dos cidadãos nos media em Portugal Em terras lusas, este fenómeno tem passado mais despercebido, todavia o ano de 2005 foi marcante no que respeita à cidadania da informação e para a informação. No dia 10 de Junho de 2005, o pseudo arrastão na praia de Carcavelos despertou a atenção dos portugueses para este fenómeno e trouxe ainda a lume questões relacionadas com a importância e a credibilidade do material dos cidadãos da informação e para a informação. O que inicialmente foi relatado como um assalto perpetrado por 500 jovens negros de bairros degradados, não passou de um equívoco. O que sucedeu foi uma manipulação dos factos com as fotografias que mostravam uma debandada geral. De facto, as pessoas não fugiam dos assaltantes mas sim da chegada da polícia. A imprensa foi induzida em erro tanto pelas fontes policiais como pelos populares. Esta situação enferma uma questão relevante: a veracidade dos acontecimentos. Os media portugueses não confirmaram a veracidade das imagens produzidas pelo cidadão que produziu e legendou as imagens como quis. Por outro lado, também não desmentiram a notícia com o mesmo destaque que a divulgaram, logo foram, de certo modo, contra o direito de rectificação da comunicação social. Note-se que este erro mediático teve consequências nefastas pois enfatizou os preconceitos e desconfianças raciais e contribuiu para a descredibilização do cidadão da informação e para a informação. No entanto, a participação do cidadão já apresenta algumas contribuições notórias em Portugal, sobretudo no caso do nevão e das cheias ocorridas em Lisboa, em 2006 e 2008 respectivamente. A 18 de Fevereiro de 2008, as cheias que assolaram a zona da Grande Lisboa serviram de mote à participação civil no jornalismo. Nesse dia, no rodapé do Jornal da Tarde da RTP 1, lia-se «Temporal em Lisboa. Envie as imagens e relatos do mau tempo para noticias@rtp.pt» (Couceiro, 2009: 6). O resultado deste acidente natural foi catastrófico e de nada adiantava falar em cheias sem mostrar as diferentes áreas afectadas pelos olhos dos seus moradores. Às redacções portuguesas chegaram imagens e vídeos que ilustravam as palavras que os jornalistas iam proferindo. Mais uma vez as imagens foram produzidas por amadores que além de darem um testemunho emotivo, contribuíram também para criar um arquivo audiovisual do que aconteceu no ano de 2008. 57 http://sic.aeiou.pt/online/jornalismo%20do%20cidadao Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 28
  • 27. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos Foi através da gravação de um vídeo pelo telemóvel e através da sua posterior publicação no YouTube, que ficámos a conhecer em 2008 a violência de uma aluna contra a sua professora de 58 francês na escola Carolina Micaellis . Todavia, Eduardo Cintra Torres ressalva que «aquela cena do Carolina Micaellis… não é do jornalismo…só passou a ser depois quando passou para a comunicação social. Era fantástico!...era um material interessante…que serviu de base a um debate muito interessante no país, mas foi depois de ser transformado em notícia» (Torres in Marques, 2008). Por terras lusas, o ano de 2010 começou com saldo positivo no que respeita à participação do cidadão. De facto, foram as imagens produzidas por estas pessoas das cheias na Madeira que tocaram não só os portugueses, mas também o mundo. Através das imagens produzidas por amadores, todo o mundo viu a violência e as consequências da chuva na ilha. Note-se que também nas cheias de Lisboa no mesmo mês, a acção dos indivíduos foi notória. Em Portugal, parece-nos que a tendência deste fenómeno é para se intensificar, sobretudo devido ao acesso, cada vez mais generalizado, da população à Internet e aos novos media. Todavia, temos de atentar ao facto do nosso país não ser alvo de grandes catástrofes ou guerras, pelo que face à ausência de um acontecimento de grande envergadura, os cidadãos participam menos. Segundo o estudo de Rui Couceiro, a participação no programa Nós por cá é essencialmente motivada por questões colectivas, ou seja, questões que afectam um grande conjunto de pessoas (Couceiro, 2009). Se estas questões colectivas não sucederem, a participação do cidadão é menor. Em suma, a participação dos amadores na actividade jornalística pode ter consequências positivas, pois estes dão ao mundo testemunhos verídicos e emotivos de situações que fazem diariamente a história da humanidade. Porém, este cidadão deve ter ciente que não é um jornalista, logo não deve, em situação alguma, colocar a sua vida em risco. Deve respeitar ainda os códigos éticos e legais estabelecidos na sua sociedade, pois se tal não acontecer corre o risco de responder legalmente pelas suas acções. No fundo deve ter sempre em mente que é um elemento da sociedade com direito a participar, mas deve deixar que o jornalista faça o seu trabalho. Acreditamos que futuramente nos livros de história figurem imagens produzidas por estes indivíduos, pois uma imagem vale mais do que mil palavras. Mas afinal o que move estes indivíduos? Quais os motivos por detrás da sua participação? Será que participam porque querem os seus cinco minutos de fama? Querem influenciar os seus pares ou querem apenas integrar-se numa sociedade em constante mutação? No Capítulo quatro vamos averiguar os motivos que podem estar no fundo da participação dos indivíduos. Por agora, vamos centrar-nos na motivação. 58 http://www.youtube.com/watch?v=5jubEHdCzYI Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 29
  • 28. As Motivações da Participação do Cidadão nos Media: Um Estudo de Casos 2. AS MOTIVAÇÕES DA PARTICIPAÇÃO DOS CIDADÃOS NOS MEDIA EM PORTUGAL 2.1. Motivação O comportamento tem sido ao longo dos tempos tema de debate para teóricos da filosofia, psicologia, sociologia e até mesmo da biologia. Todos os dias nos questionamos sobre o que nos faz sentir falta de algo ou gostar de alguém e é precisamente essa a resposta que procuramos incessantemente. De facto, todas as acções do Homem dependem da sua motivação. O facto de gostar de alguém, as suas carências, necessidades, e outros, dependem dos motivos e das emoções. O conceito de motivação é deveras complexo, pois pode ser utilizado em sentidos díspares. No entanto, uma das suas características basilares é o facto de ser um conjunto de forças internas que impulsiona e mobiliza uma pessoa em direcção a um dado objectivo (Watkiss, 2004). Caracteriza-se ainda por ser o mecanismo psicológico que orienta a direcção, a intensidade e a persistência do comportamento (Kanfer, 1994 e Sage, 1977). Mas a motivação alberga outros factores que também influem no comportamento, tais como «a experiência passada das pessoas, as suas capacidades físicas e a situação ambiente em que se encontram» (Murray, 1983: 20). Esta está entranhada em acções como a aprendizagem, a recordação, a atenção, o pensamento, a criatividade, o sentimento, no nosso desempenho e comportamento. Para Iso-Ahola e St. Clair (2000), a motivação é o factor mais importante e determinante no comportamento humano. De facto, «os conceitos de motivo e motivação parecem apoiar-se em aspectos psíquicos ou biológicos. Dessa forma, os motivos não são apenas parte do mundo interior de um ser humano, mas no seu mundo exterior estão somente relacionados com parte da totalidade do indivíduo, ou seja, o seu comportamento» (Sievers, 1985: 106). 59 60 Os motivos dividem-se então em dois componentes: o impulso e um motivo (Murray, 1983). Quando um impulso é satisfeito, este termina ou deixa de orientar o comportamento. Note-se que este pode ser influenciado pelo ambiente externo embora seja interno. No caso da concretização do objectivo ou da recompensa este pode incluir um objecto externo embora a cessação do impulso seja 61 em si mesmo interno. A motivação pode ser então incentivada por factores intrínsecos , ou por 62 63 64 factores extrínsecos . A motivação pode ainda ser a curto prazo ou a longo prazo . O comportamento dos indivíduos é dirigido no sentido da satisfação de necessidades e desejos materiais ou emocionais (Bergamini, 1997). Todavia, essas necessidades não são iguais para todos os indivíduos pois os valores sociais são diferentes e a capacidade de um indivíduo alcançar um dado fim também vai ser distinto entre pessoas. A motivação dos indivíduos envolve crenças e valores que 59 Processo interno que incita um individuo à acção. 60 Este determina quando se concretiza um determinado objectivo ou quando somos recompensados, reduzindo o impulso. 61 São factores internos como por exemplo, o prazer de aprender. 62 São factores externos que podem, por exemplo, ser incentivos para a aprendizagem tais como a avaliação, os elogios, as recompensas e outros. 63 Por exemplo, conseguir ir ao teatro no próximo fim-de-semana. 64 Por exemplo, conseguir um posto superior na empresa onde estamos a trabalhar. Cheila Sofia Tomás Marques | ISCSP-UTL 2010 30