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Atividades sobre os povos nativos da América
História/ 4º Bimestre – Professor José Knust
Estudante: _________________________________________ Turma:______
1. Existem inúmeras teorias sobre o povoamento da América,
que se baseiam em diferentes interpretações de diferentes tipos
dados. Observado a imagem ao lado, responda:
a) Explique a tese da rota terrestre pelo estreito de Bering e sua
relação com os achados arqueológicos na América do Norte
conhecidos por Cultura Clóvis.
b) Explique a relação entre as teses de rotas marítimas, pela
costa da Ásia e da América ou pelas ilhas do Pacífico, com os
achados de sítios arqueológicos conhecidos como Pré-Clóvis.
2. Nos últimos anos grandes avanços nos estudos
sobre migrações pré-históricas e povoamentos dos
continentes pelo ser humano têm sido possibilitados
pelos estudos de genética das populações. Os mapas
ao lado pretendem identificar a presença de dois
tipos de haplogrupos na população nativa da
América e sua comparação com o Velho Mundo. O
primeiro diz respeito ao Haplogrupo X no DNA
mitocondrial e o segundo diz respeito ao
Haplogrupo R no DNA do cromossomo Y. Sobre
isso, responda o que se pede:
a) Uma nova teoria sobre o povoamento da América
utiliza esses dados para sua fundamentação.
Explique essa teoria e sua fundamentação nos
estudos de genética e de arqueologia.
b) Qual é a principal crítica feita pelos estudiosos
que não aceitam os dados dessas pesquisas genéticas
para o estudo do povoamento da América?
3. Leia e compare os dois textos abaixo e depois faça o que se peça:
Texto 1
“No final dos séculos VIII e IX, as cidades maias nas terras baixas pararam, uma a uma, de erigir monumentos em
celebração de seus reinos divinos. As cidades entraram em declínio antes de serem finalmente abandonadas.
Historiadores acreditam que o declínio foi provocado por uma cadeia de eventos, iniciada na superpopulação da região,
que levou à intensificação da produção agrícola e à degradação do ambiente, e acentuada por uma selvagem guerra pela
busca de prestígio social e maior domínio territorial”
Charles Phillips, The everyday life of the Aztec & Maia. Londres: Anness Publishing, 2007, p.41 (tradução de Alves e Oliveira,
Conexões com a História. Vol.1, São Paulo: Moderna, 2010, p.262.)
Texto2
“A partir de 800 d.C., os centros cerimoniais maias foram abandonados um a um, havendo em certos casos sinais de
violência. As hipóteses a respeito incluem o esgotamento do solo devido à pressão demográfica e quiçá tributária sobre
a primitiva agricultura de coivara, provocando emigrações (...) e revoltas camponesas.”
Ciro Cardoso, América Pré-Colombiana. São Paulo: Brasiliense, 1982, p.71
a) Qual é a fonte histórica que sugere aos historiadores uma crise na sociedade maia a partir do final do século VIII?
b) Compare as duas explicações para a crise da sociedade maia presente nos dois textos: no que eles convergem? No
que eles divergem?
4. A imagem ao lado é uma página do Códice Mendoza, feito
por escribas astecas sob encomenda dos conquistadores
espanhóis. Nesse trecho, trata-se da criação das crianças.
Veja a imagem, leia sua explicação abaixo e depois faça o
que se pede.
Legenda:
1: Cada faixa do códice corresponde a uma idade da criança.
Observe as marcas circulares no alto de cada uma delas, com
o aumento progressivo da idade.
2: Na faixa superior (11 anos), crianças são forçadas a inalar
fumaça de pimentas queimando na fogueira.
3: Na segunda faixa (12 anos), o menino aparece sendo
punido e a menina realiza tarefa agrícola.
4: Na terceira faixa (13 anos), o menino transporta objetos
com a canoa e a menina rala milho para o preparo de
tortilhas, um tipo de pão feito com farinha de milho.
5: Na quarta faixa (14 anos), o menino pesca e a menina tece.
6: Observe a postura quase sempre curvada das crianças,
suas vestimentas e como eram disciplinadas por seus pais.
7: Note os escritos que acompanham os desenhos.
(Alves e Oliveira, Conexões com a História. Vol.1, São Paulo: Moderna,
2010, p.268)
a) Identifique as semelhanças e as diferenças na maneira
como meninos e meninas eram criados na cultura asteca
segundo o códice.
b) Identifique a língua das inscrições feitas no códice e
explique sua presença nesse texto.
5. Leia o texto abaixo e faça o que se pede:
“Há controvérsias em relação à presença de líderes definidos na organização sociopolítica dos Tupis no início do século
XVI. Tem sido muito combatida a ideia de se tratar essas populações a partir da organização de seus grupos
remanescentes. Essa tese é chamada de projeção etnográfica e afirma que no século XVI os Tupis teriam uma
prganização social hierarquizada, dominados por chefes com grande poder, imposição de tributos, aldeias fortificadas,
trabalhos forçados para empreendimentos coletivos. Essas nações seriam uma espécie de “quase-Estados”. Entre os
defensores dessa tese está a antropólogoa Anna Roosevelt.
No entanto, antropólogos como Carlos Fausto discordam de tais afirmativas. Embora as aldeias tupis fossem maiores
do que as atuais, cercadas por paliçadas, esses elementos não são suficientes para definir que houvesse uma chefia rígida
ou hierarquia. Para Fausto, a ideia de uma aldeia principal, originária, onde residia um chefe que se impusesse em toda
região era estranha aos Tupinambás.
O relato de Hans Staden, que viveu como prisioneiro entre os Tupis, é esclarecedor:
Os selvagens não têm governo, nem direitos estabelecidos. Cada cabana tem seu superior. Este é o principal. Todos os seus
principais são de linhagem idêntica e têm direito igual de ordenar e reger. Conclua-se daí o que quiser. Se um sobressaiu
dentro os outros por feitos de combate, ouve-se-lhe mais do que aos outros, quando empreendem uma arremetida guerreira
(...) Fora disso, nenhum privilégio observei entre eles.”
Carlos Fausto. Fragmentos de História Tupinambá – da Etnologia como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico.
In: Cunha, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p.389-390.
a) Identifique as duas teses antagônicas sobre a organização sociopolítica dos Tupis no início do século XVI.
b) Quais são os diferentes tipos de fontes utilizadas pelos estudiosos para defender seus pontos de vista sobre esse
assunto?
c) Com qual das duas teses o autor desse trecho concorda? Quais argumentos ele usa para defender esse ponto de vista?
6. Eduardo Viveiros de Castro é um antropólogo e professor da UFRJ. Construiu sua carreira estudando os povos
indígenas da Amazônia nos últimos 30 anos. Atualmente, é o intelectual brasileiro na área das ciências humanas e
filosofia mais renomado e aclamado fora do país. Dentro do país, tem tido uma influência política importante na luta
pelos direitos dos povos indígenas e da preservação ambiental. Leia abaixo uma reportagem sobre a obra de Viveiros
de Castro e depois faça o que se pede:
“Do ponto de vista intelectual, Viveiros de Castro é herdeiro de cientistas sociais que ajudaram a derrubar o senso
comum de que os povos indígenas são marcados pelo atraso em relação ao mundo ocidental. Essas sociedades sempre
foram descritas como “primitivas” por carecerem de instituições modernas – como o Estado e a ciência.
Foi [o antropólogo francês] Claude Lévi-Strauss quem aposentou definitivamente a ideia de que os povos sem escrita
seriam menos racionais do que os europeus. (...) O pesquisador francês argumentou que havia método e ordem nas
aparentemente caóticas associações que esses povos faziam (...). O “pensamento selvagem”, assim, é totalizante, e
procura, por meio de analogias, uma compreensão completa de todo o universo, estabelecendo relações entre os
diferentes tipos de fenômenos. (....)
Nos anos 70, o antropólogo francês Pierre Clastres argumentou que a falta de Estado nos povos das terras baixas sul-
americanas – em contraste com a forte centralização política de seus vizinhos andinos – não seria uma carência, mas
uma escolha deliberada, coletiva. Há entre eles, com frequência, alguma forma de chefia. (...) Por mais populares que
sejam, contudo, tais líderes não dispõem de nenhuma capacidade coercitiva. O chefe não manda. Tudo se passa como
se essas sociedades criassem uma posição privilegiada, o lugar exato onde o Estado poderia nascer, para então esvaziá-
la de poder, numa espécie de ação preventiva. Foi o que Clastres chamou de “sociedades contra o Estado”.
Naquela mesma década de 70, o norte-americano Marshall Sahlins se ocupou da dimensão econômica dessas sociedades.
Procurou analisar as mais “pobres” dentre elas, os grupos nômades de caçadores-coletores. Segundo a visão então
consagrada, tais sociedades mal conseguiriam assegurar a própria subsistência. (...) Ocorre que o tempo dedicado ao
trabalho também era pequeno. Esses estranhos “primitivos” pareciam ser ao mesmo tempo miseráveis e ociosos. O que
Sahlins argumentou é que não fazia sentido, para grupos nômades, acumular bens – quanto menos tivessem que carregar,
tanto melhor. Tampouco era lógico produzir estoques, quando esses estão ao redor, “na própria natureza”. Do ponto de
vista dos caçadores-coletores, não lhes faltava nada. Trabalhar pouco era uma escolha, e aqueles grupos constituiriam o
que o antropólogo chamou de primeira “sociedade de afluência” [isto é, de abundância].
Pedi que Viveiros de Castro falasse sobre a ideia que o projetou. A síntese da metafísica dos povos “exóticos”, a que se
referia Lévi-Strauss, surgiu em 1996. Ganhou o nome de “perspectivismo ameríndio”. Fazia já alguns anos, então, que
o antropólogo se ocupava de um traço específico do pensamento indígena nas Américas. (...) O pensamento ameríndio
dá muita importância às relações entre caça e caçador – que têm, para eles, um valor comparável ao que conferimos ao
trabalho e à fabricação de bens de consumo. Diferentes espécies animais são pensadas a partir da posição que ocupam
nessa relação. Gente, por exemplo, é ao mesmo tempo presa de onça e predadora de porcos.
Duas alunas suas, Aparecida Vilaça e Tânia Stolze Lima, preparavam, naquela ocasião, teses de doutorado que
chamavam a atenção para outra característica curiosa do pensamento de diferentes grupos indígenas. (...) de acordo com
os interlocutores de ambas, os animais podiam assumir a perspectiva humana. (...) Segundo diferentes etnias, os porcos,
por exemplo, se viam uns aos outros como gente. E enxergavam os humanos, seus predadores, como onça. As onças,
por sua vez, viam a si mesmas e às outras onças como gente. Para elas, contudo, os índios eram tapires ou pecaris –
eram presa. Essa lógica não se restringia aos animais. Aplicava-se aos espíritos, que veem os homens como caça, e
também aos deuses e aos mortos.
Ser gente parecia uma questão de ponto de vista. Gente é quem ocupa a posição de sujeito. No mundo amazônico,
escreveu o antropólogo, “há mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias”.
Tudo se passa, conforme Viveiros de Castro, como se os índios pensassem o mundo de maneira inversa à nossa, se
consideradas as noções de “natureza” e de “cultura”. Para nós, o que é dado, o universal, é a natureza, igual para todos
os povos do planeta. O que é construído é a cultura, que varia de uma sociedade para outra. Para os povos ameríndios,
ao contrário, o dado universal é a cultura, uma única cultura, que é sempre a mesma para todo sujeito. Ser gente, para
seres humanos, animais e espíritos, é viver segundo as regras de casamento do grupo, comer peixe, beber cauim, temer
onça, caçar porco. Mas se a cultura é igual para todos, algo precisa mudar. E o que muda, o que é construído, dependendo
do observador, é a natureza. Para o urubu, os vermes no corpo em decomposição são peixe assado. Para nós, são vermes.
Não há uma terceira posição, superior e fundadora das outras duas. Ao passarmos de um observador a outro, para que a
cultura permaneça a mesma, toda a natureza em volta precisa mudar. (...)
A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, avalia que as ideias desenvolvidas
por Viveiros de Castro a partir do perspectivismo ameríndio dialogam diretamente com boa parte da tradição filosófica
ocidental. Ao mesmo tempo, a síntese que ele propôs do pensamento indígena é uma crítica a essa tradição, ao colocar
em questão as noções de “natureza” e “cultura” da “vulgata metafísica ocidental”. (...)
Viveiros de Castro promoveu, em relação à filosofia, algo análogo ao que Pierre Clastres e Marshall Sahlins haviam
feito em relação ao Estado e à economia de mercado: mostrou que um outro mundo é possível. A ideia recebeu enorme
atenção, dentro e fora do país, quase imediatamente após sua formulação. “Na França e na Inglaterra, o Eduardo é
altamente respeitado”, declarou a professora da Universidade de Chicago; “basta dizer que na livraria Gibert, em Paris,
há uma seção de prateleira com o nome dele.”
Rafael Cariello, “O Antropólogo Contra O Estado.” Revista Piauí, Edição 88, Janeiro de 2014.
http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-88/vultos-das-humanidades/o-antropologo-contra-o-estado.
a) Como as ideias de Levi-Strauss, Clastres, Sahlins e Viveiros de Castro se contrapõem à noção de “índios atrasados”.
b) Explique como o “Perspectivismo ameríndio”, identificado por Viveiros de Castro entre povos nativos americanos,
pode fundamentar um teoria filosófica divergente da percepção antropocêntrica do mundo.

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  • 1. Atividades sobre os povos nativos da América História/ 4º Bimestre – Professor José Knust Estudante: _________________________________________ Turma:______ 1. Existem inúmeras teorias sobre o povoamento da América, que se baseiam em diferentes interpretações de diferentes tipos dados. Observado a imagem ao lado, responda: a) Explique a tese da rota terrestre pelo estreito de Bering e sua relação com os achados arqueológicos na América do Norte conhecidos por Cultura Clóvis. b) Explique a relação entre as teses de rotas marítimas, pela costa da Ásia e da América ou pelas ilhas do Pacífico, com os achados de sítios arqueológicos conhecidos como Pré-Clóvis. 2. Nos últimos anos grandes avanços nos estudos sobre migrações pré-históricas e povoamentos dos continentes pelo ser humano têm sido possibilitados pelos estudos de genética das populações. Os mapas ao lado pretendem identificar a presença de dois tipos de haplogrupos na população nativa da América e sua comparação com o Velho Mundo. O primeiro diz respeito ao Haplogrupo X no DNA mitocondrial e o segundo diz respeito ao Haplogrupo R no DNA do cromossomo Y. Sobre isso, responda o que se pede: a) Uma nova teoria sobre o povoamento da América utiliza esses dados para sua fundamentação. Explique essa teoria e sua fundamentação nos estudos de genética e de arqueologia. b) Qual é a principal crítica feita pelos estudiosos que não aceitam os dados dessas pesquisas genéticas para o estudo do povoamento da América? 3. Leia e compare os dois textos abaixo e depois faça o que se peça: Texto 1 “No final dos séculos VIII e IX, as cidades maias nas terras baixas pararam, uma a uma, de erigir monumentos em celebração de seus reinos divinos. As cidades entraram em declínio antes de serem finalmente abandonadas. Historiadores acreditam que o declínio foi provocado por uma cadeia de eventos, iniciada na superpopulação da região, que levou à intensificação da produção agrícola e à degradação do ambiente, e acentuada por uma selvagem guerra pela busca de prestígio social e maior domínio territorial” Charles Phillips, The everyday life of the Aztec & Maia. Londres: Anness Publishing, 2007, p.41 (tradução de Alves e Oliveira, Conexões com a História. Vol.1, São Paulo: Moderna, 2010, p.262.) Texto2 “A partir de 800 d.C., os centros cerimoniais maias foram abandonados um a um, havendo em certos casos sinais de violência. As hipóteses a respeito incluem o esgotamento do solo devido à pressão demográfica e quiçá tributária sobre a primitiva agricultura de coivara, provocando emigrações (...) e revoltas camponesas.” Ciro Cardoso, América Pré-Colombiana. São Paulo: Brasiliense, 1982, p.71 a) Qual é a fonte histórica que sugere aos historiadores uma crise na sociedade maia a partir do final do século VIII? b) Compare as duas explicações para a crise da sociedade maia presente nos dois textos: no que eles convergem? No que eles divergem?
  • 2. 4. A imagem ao lado é uma página do Códice Mendoza, feito por escribas astecas sob encomenda dos conquistadores espanhóis. Nesse trecho, trata-se da criação das crianças. Veja a imagem, leia sua explicação abaixo e depois faça o que se pede. Legenda: 1: Cada faixa do códice corresponde a uma idade da criança. Observe as marcas circulares no alto de cada uma delas, com o aumento progressivo da idade. 2: Na faixa superior (11 anos), crianças são forçadas a inalar fumaça de pimentas queimando na fogueira. 3: Na segunda faixa (12 anos), o menino aparece sendo punido e a menina realiza tarefa agrícola. 4: Na terceira faixa (13 anos), o menino transporta objetos com a canoa e a menina rala milho para o preparo de tortilhas, um tipo de pão feito com farinha de milho. 5: Na quarta faixa (14 anos), o menino pesca e a menina tece. 6: Observe a postura quase sempre curvada das crianças, suas vestimentas e como eram disciplinadas por seus pais. 7: Note os escritos que acompanham os desenhos. (Alves e Oliveira, Conexões com a História. Vol.1, São Paulo: Moderna, 2010, p.268) a) Identifique as semelhanças e as diferenças na maneira como meninos e meninas eram criados na cultura asteca segundo o códice. b) Identifique a língua das inscrições feitas no códice e explique sua presença nesse texto. 5. Leia o texto abaixo e faça o que se pede: “Há controvérsias em relação à presença de líderes definidos na organização sociopolítica dos Tupis no início do século XVI. Tem sido muito combatida a ideia de se tratar essas populações a partir da organização de seus grupos remanescentes. Essa tese é chamada de projeção etnográfica e afirma que no século XVI os Tupis teriam uma prganização social hierarquizada, dominados por chefes com grande poder, imposição de tributos, aldeias fortificadas, trabalhos forçados para empreendimentos coletivos. Essas nações seriam uma espécie de “quase-Estados”. Entre os defensores dessa tese está a antropólogoa Anna Roosevelt. No entanto, antropólogos como Carlos Fausto discordam de tais afirmativas. Embora as aldeias tupis fossem maiores do que as atuais, cercadas por paliçadas, esses elementos não são suficientes para definir que houvesse uma chefia rígida ou hierarquia. Para Fausto, a ideia de uma aldeia principal, originária, onde residia um chefe que se impusesse em toda região era estranha aos Tupinambás. O relato de Hans Staden, que viveu como prisioneiro entre os Tupis, é esclarecedor: Os selvagens não têm governo, nem direitos estabelecidos. Cada cabana tem seu superior. Este é o principal. Todos os seus principais são de linhagem idêntica e têm direito igual de ordenar e reger. Conclua-se daí o que quiser. Se um sobressaiu dentro os outros por feitos de combate, ouve-se-lhe mais do que aos outros, quando empreendem uma arremetida guerreira (...) Fora disso, nenhum privilégio observei entre eles.” Carlos Fausto. Fragmentos de História Tupinambá – da Etnologia como instrumento crítico de conhecimento etno-histórico. In: Cunha, Manuela Carneiro da (org.). História dos índios do Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1992, p.389-390. a) Identifique as duas teses antagônicas sobre a organização sociopolítica dos Tupis no início do século XVI. b) Quais são os diferentes tipos de fontes utilizadas pelos estudiosos para defender seus pontos de vista sobre esse assunto? c) Com qual das duas teses o autor desse trecho concorda? Quais argumentos ele usa para defender esse ponto de vista? 6. Eduardo Viveiros de Castro é um antropólogo e professor da UFRJ. Construiu sua carreira estudando os povos indígenas da Amazônia nos últimos 30 anos. Atualmente, é o intelectual brasileiro na área das ciências humanas e filosofia mais renomado e aclamado fora do país. Dentro do país, tem tido uma influência política importante na luta pelos direitos dos povos indígenas e da preservação ambiental. Leia abaixo uma reportagem sobre a obra de Viveiros de Castro e depois faça o que se pede:
  • 3. “Do ponto de vista intelectual, Viveiros de Castro é herdeiro de cientistas sociais que ajudaram a derrubar o senso comum de que os povos indígenas são marcados pelo atraso em relação ao mundo ocidental. Essas sociedades sempre foram descritas como “primitivas” por carecerem de instituições modernas – como o Estado e a ciência. Foi [o antropólogo francês] Claude Lévi-Strauss quem aposentou definitivamente a ideia de que os povos sem escrita seriam menos racionais do que os europeus. (...) O pesquisador francês argumentou que havia método e ordem nas aparentemente caóticas associações que esses povos faziam (...). O “pensamento selvagem”, assim, é totalizante, e procura, por meio de analogias, uma compreensão completa de todo o universo, estabelecendo relações entre os diferentes tipos de fenômenos. (....) Nos anos 70, o antropólogo francês Pierre Clastres argumentou que a falta de Estado nos povos das terras baixas sul- americanas – em contraste com a forte centralização política de seus vizinhos andinos – não seria uma carência, mas uma escolha deliberada, coletiva. Há entre eles, com frequência, alguma forma de chefia. (...) Por mais populares que sejam, contudo, tais líderes não dispõem de nenhuma capacidade coercitiva. O chefe não manda. Tudo se passa como se essas sociedades criassem uma posição privilegiada, o lugar exato onde o Estado poderia nascer, para então esvaziá- la de poder, numa espécie de ação preventiva. Foi o que Clastres chamou de “sociedades contra o Estado”. Naquela mesma década de 70, o norte-americano Marshall Sahlins se ocupou da dimensão econômica dessas sociedades. Procurou analisar as mais “pobres” dentre elas, os grupos nômades de caçadores-coletores. Segundo a visão então consagrada, tais sociedades mal conseguiriam assegurar a própria subsistência. (...) Ocorre que o tempo dedicado ao trabalho também era pequeno. Esses estranhos “primitivos” pareciam ser ao mesmo tempo miseráveis e ociosos. O que Sahlins argumentou é que não fazia sentido, para grupos nômades, acumular bens – quanto menos tivessem que carregar, tanto melhor. Tampouco era lógico produzir estoques, quando esses estão ao redor, “na própria natureza”. Do ponto de vista dos caçadores-coletores, não lhes faltava nada. Trabalhar pouco era uma escolha, e aqueles grupos constituiriam o que o antropólogo chamou de primeira “sociedade de afluência” [isto é, de abundância]. Pedi que Viveiros de Castro falasse sobre a ideia que o projetou. A síntese da metafísica dos povos “exóticos”, a que se referia Lévi-Strauss, surgiu em 1996. Ganhou o nome de “perspectivismo ameríndio”. Fazia já alguns anos, então, que o antropólogo se ocupava de um traço específico do pensamento indígena nas Américas. (...) O pensamento ameríndio dá muita importância às relações entre caça e caçador – que têm, para eles, um valor comparável ao que conferimos ao trabalho e à fabricação de bens de consumo. Diferentes espécies animais são pensadas a partir da posição que ocupam nessa relação. Gente, por exemplo, é ao mesmo tempo presa de onça e predadora de porcos. Duas alunas suas, Aparecida Vilaça e Tânia Stolze Lima, preparavam, naquela ocasião, teses de doutorado que chamavam a atenção para outra característica curiosa do pensamento de diferentes grupos indígenas. (...) de acordo com os interlocutores de ambas, os animais podiam assumir a perspectiva humana. (...) Segundo diferentes etnias, os porcos, por exemplo, se viam uns aos outros como gente. E enxergavam os humanos, seus predadores, como onça. As onças, por sua vez, viam a si mesmas e às outras onças como gente. Para elas, contudo, os índios eram tapires ou pecaris – eram presa. Essa lógica não se restringia aos animais. Aplicava-se aos espíritos, que veem os homens como caça, e também aos deuses e aos mortos. Ser gente parecia uma questão de ponto de vista. Gente é quem ocupa a posição de sujeito. No mundo amazônico, escreveu o antropólogo, “há mais pessoas no céu e na terra do que sonham nossas antropologias”. Tudo se passa, conforme Viveiros de Castro, como se os índios pensassem o mundo de maneira inversa à nossa, se consideradas as noções de “natureza” e de “cultura”. Para nós, o que é dado, o universal, é a natureza, igual para todos os povos do planeta. O que é construído é a cultura, que varia de uma sociedade para outra. Para os povos ameríndios, ao contrário, o dado universal é a cultura, uma única cultura, que é sempre a mesma para todo sujeito. Ser gente, para seres humanos, animais e espíritos, é viver segundo as regras de casamento do grupo, comer peixe, beber cauim, temer onça, caçar porco. Mas se a cultura é igual para todos, algo precisa mudar. E o que muda, o que é construído, dependendo do observador, é a natureza. Para o urubu, os vermes no corpo em decomposição são peixe assado. Para nós, são vermes. Não há uma terceira posição, superior e fundadora das outras duas. Ao passarmos de um observador a outro, para que a cultura permaneça a mesma, toda a natureza em volta precisa mudar. (...) A antropóloga Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago, avalia que as ideias desenvolvidas por Viveiros de Castro a partir do perspectivismo ameríndio dialogam diretamente com boa parte da tradição filosófica ocidental. Ao mesmo tempo, a síntese que ele propôs do pensamento indígena é uma crítica a essa tradição, ao colocar em questão as noções de “natureza” e “cultura” da “vulgata metafísica ocidental”. (...) Viveiros de Castro promoveu, em relação à filosofia, algo análogo ao que Pierre Clastres e Marshall Sahlins haviam feito em relação ao Estado e à economia de mercado: mostrou que um outro mundo é possível. A ideia recebeu enorme atenção, dentro e fora do país, quase imediatamente após sua formulação. “Na França e na Inglaterra, o Eduardo é altamente respeitado”, declarou a professora da Universidade de Chicago; “basta dizer que na livraria Gibert, em Paris, há uma seção de prateleira com o nome dele.” Rafael Cariello, “O Antropólogo Contra O Estado.” Revista Piauí, Edição 88, Janeiro de 2014. http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-88/vultos-das-humanidades/o-antropologo-contra-o-estado. a) Como as ideias de Levi-Strauss, Clastres, Sahlins e Viveiros de Castro se contrapõem à noção de “índios atrasados”. b) Explique como o “Perspectivismo ameríndio”, identificado por Viveiros de Castro entre povos nativos americanos, pode fundamentar um teoria filosófica divergente da percepção antropocêntrica do mundo.