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ANTROPOLOGIA
DA RELIGIÃO
OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM
>
> Sintetizar o desenvolvimento da antropologia no Brasil.
>
> Reconhecer os principais antropólogos brasileiros e suas contribuições na
construção da identidade brasileira.
>
> Explicar como se construiu a identidade brasileira na imensa diversidade
cultural e geográfica do País.
Introdução
O objeto de investigação da antropologia é o ser humano e, por isso, ela se cons-
titui como a área na qual investigador e objeto investigado coincidem. Por sua
especificidade e metodologia, a antropologia possibilita a compreensão de nós
mesmos pelo olhar do outro e que nos situemos diante dos diferentes mundos
culturais e sociais, compreendendo-os melhor.
A antropologia surgiu com o objetivo de resolver os problemas e encontrar
soluçõesparaaurbanização,aindustrializaçãoeaexpansãoeuropeia.Aocontrário
da sociologia, por exemplo, desenvolvida no séc. XVIII para compreender melhor
associedadeseuropeias,comoobjetivodeum“olharinterno”,paradentrodesua
sociedade, a antropologia foi desenvolvida com foco no “olhar externo”, visando
a melhor compreender os povos colonizados na África, na Ásia e na Américas.
Assim, floresceu por meio de pesquisas financiadas pelas elites europeias, pela
Antropologia no
Brasil: construção da
identidade brasileira
Adriane da Silva Machado Möbbs
necessidade de conhecer para dominar. Por outro lado, a antropologia brasileira
surgiu e se desenvolveu com o objetivo de compreender sua própria diversidade
social e cultural, com o foco em suas múltiplas culturas.
Neste capítulo, você vai descobrir como se deu o desenvolvimento da
antropologia no Brasil, o que permitirá a compreensão de nossa diversidade
cultural e, consequentemente, um melhor entendimento da coletividade
como povo.
O desenvolvimento da antropologia
no Brasil
No Brasil, a antropologia surgiu entre as décadas 1930 e 1940. Muitos aspectos
favoreceram seu surgimento e desenvolvimento no Brasil, e acabaram por
caracterizar o pensamento antropológico brasileiro por um longo período.
Podemos considerar o alemão Curt Nimuendajú (1883–1945), nascido
Curt Unckel, o “pai da Antropologia brasileira”. Tido como um expoente
em estudos indígenas no País, o etnólogo dedicou mais de 40 anos de sua
vida ao estudo dos povos indígenas brasileiros. Sem formação acadêmica,
mudou-se para o Brasil aos 20 anos e, dois anos depois, juntou-se aos
Apapokuva, povo guarani do interior de São Paulo (atualmente conhecido
como Nhandeva). A partir dessa imersão, que deu origem à obra As len-
das da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos
Apapocúva-Guarani, publicada em 1915, começa o desenvolvimento da
etnologia brasileira. Incialmente, a antropologia era reconhecida por sua
prática e, assim, considerada uma etnologia.
Desde seus primórdios, a antropologia brasileira esteve presa a seus
objetos reais de investigação, como afirma Cardoso de Oliveira (1988, p. 230):
Isso significa que o que se poderia chamar de modo de conhecimento — que
deveria marcar a natureza do saber antropológico — ficou historicamente su-
bordinado à natureza dos objetos reais (quer seja o índio, o negro ou o branco)
com todos os "equívocos que posições deste teor geram no desenvolvimento
da disciplina. E, em razão dessa mesma preponderância do objeto real sobre
objetos teoricamente construídos, surgiram duas tradições no campo da An-
tropologia Brasileira, ordenando a divisão de trabalho, seja na academia, seja
nas atividades profissionais não universitárias. A primeira tradição que aparece
com mais vigor é a da Etnologia Indígena, sendo a segunda a da Antropologia
da Sociedade Nacional.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
2
Podemos, portanto, considerar que, inicialmente, a antropologia se de-
senvolveu a partir de duas tradições:
1.	 a etnologia indígena, na qual o nome de Curt Nimuendajú é, sem dú-
vida, referência;
2.	 a Antropologia da Sociedade Nacional, cujo expoente é Gilberto Freyre.
Isso ocorreu entre as décadas de 1920 e 1930, quando a profissão de
antropólogo e o campo da antropologia ainda não estavam bem definidos
no Brasil.
Embora, nos anos 1930 e 1940, Lévi-Strauss e Radcliffe-Brown tenham
lecionado no Brasil, eles não são tidos como atores do desenvolvimento da
antropologia. Sabe-se, porém, que suas obras tiveram impacto nas décadas
seguintes, como afirma Cardoso de Oliveira (1988, p. 230–231): “[...] o certo é
que a absorção de suas ideias se daria nas gerações seguintes pela leitura
de seus livros. Nesse caso, destaca-se a influência de Lévi-Strauss a partir
dos anos 1960, enquanto a de Radcliffe-Brown (salvo engano) restringiu-se
aos anos 1940 e 1950”.
Desde os primórdios da antropologia no Brasil, vários pesquisadores
utilizaram o termo ‘etnologia’ como parte da antropologia cultural ou
social, o qual “[...] abrange os estudos em que o pesquisador entra em contato
direto, face a face, com os membros da sociedade, ou segmento social estu-
dado, contrastando-a com a arqueologia, que abarca as pesquisas apoiadas em
vestígios deixados por sociedades desaparecidas ou por períodos passados de
sociedades que continuam a existir” (MELATTI, 1983, p. 4). Contudo, confundem-se
os termos “etnologia” e “etnografia”; por isso é sempre importante observar a
época em que o termo é empregado.
Segundo Kottak (2013), antropólogo contemporâneo, há dois tipos de ati-
vidades realizadas pelos antropólogos: a etnografia (com base no trabalho
de campo) e a etnologia (com base na comparação intercultural). De acordo
com Kottak (2013, p. 33), “A etnografia fornece uma descrição de determinada
comunidade, sociedade ou cultura. [...] A etnologia examina, interpreta, analisa
e compara os resultados da etnografia — os dados coletados em diferentes
sociedades — e os usa para comparar, contrastar e fazer generalizações sobre
a sociedade e a cultura”.
No artigo Traficante do excêntrico: os antropólogos no Brasil dos anos 30
aos anos 60 (1988), Mariza Corrêa (1988, p. 79) destaca um aspecto importante
acerca do desenvolvimento da antropologia:
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 3
Talvez seja uma ironia adequada a esta disciplina que se quer uma ciência do outro
que ela tenha criado, em quase toda a parte, tradições antropológicas nacionais
fundadas por estrangeiros: Franz Boas nos Estados Unidos, Curt Nimuendajú no
Brasil, Bronislaw Malinowiski na Inglaterra.
A pesquisadora destaca, ainda, um certo descompasso em meio ao inter-
câmbio entre os pesquisadores nacionais e estrangeiros, e, sobretudo, acerca
de “como nos pensamos” e “como nos pensam” (1988, p. 79–80):
No caso brasileiro, se acrescenta ainda a esta ambiguidade, às vezes uma harmonia,
às vezes um descompasso, entre “como pensamos” e “como nos pensam”. A traje-
tória brasileira da disciplina é, mais do que costumamos registrar explicitamente,
parte tanto de seu percurso internacional, quanto do imaginário dos antropólogos
em geral: lembrando de novo o exemplo de Geertz, é de Lévi-Strauss que ele está
falando quando escreve “mito brasileiro” ao invés de seu nome (1983, p. 150).
Ao fazermos uma genealogia da antropologia no Brasil, deparamo-nos com
tradições também inventadas. Esse é um fato importante a ser considerado,
uma vez que o distanciamento do pesquisador nem sempre foi possível.
Percebe-se, muitas vezes, considerações um tanto distantes de nossa re-
alidade. Nesse sentido, podemos citar a percepção de nossos índios como
“selvagens”, de acordo com a interpretação de Lévi-Strauss. Acerca dessas
tradições-invenções, afirma Corrêa (1988, p. 80):
As tradições aqui inventadas, se não o foram apenas por estrangeiros, tiveram uma
forte participação deles nessa invenção: se olharmos atentamente o mapa etno-
lógico de Curt Nimuendaju, quase poderemos ver as sombras dos pesquisadores
que as estudaram projetando-se sobre os contornos das comunidades indígenas
por eles estudadas até a década de 40, projeção que nos ajudaria mais, entretanto,
a entender a distribuição deles, pesquisadores, num território disciplinar comum,
do que a de seus objetos de interesse.
Como sabemos, o trabalho etnográfico do antropólogo consiste em inserir-se
na comunidade e, com certo distanciamento, observar os hábitos e costumes
de determinada cultura. Observar e interpretar sem adjetivar, porém, talvez
seja bastante difícil depois de muitos anos inserido na mesma comunidade.
O início da caminhada da antropologia no Brasil
Até a década de 1930, aqueles que faziam antropologia no Brasil não eram
formados na área e, por isso, são referidos como cronistas, pois não realizavam
o trabalho etnográfico. Contudo, por meio de suas crônicas, forneceram-nos
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
4
bons registros de observações, ainda que sem controle ou orientação me-
todológica, pois não havia cientistas sociais na época. Nesse período, como
afirma Melatti (1983, p. 5):
[...] não existe a formação acadêmica de etnólogo no Brasil. Os estudiosos brasilei-
ros que dão contribuições nessa área são médicos, juristas, engenheiros, militares
ou de outras profissões. Mesmo os etnólogos que vêm do exterior são formados
em centros de pesquisa de criação recente, pois a Antropologia era então ramo
novo das ciências, mesmo na Europa. Alguns deles são também de outras áreas
acadêmicas e que, tendo-se interessado pela Etnologia, procuraram aperfeiçoar-se
nos centros que a cultivavam.
Como ainda não tínhamos a presença de cientistas sociais, alguns ter-
mos foram utilizados de forma diferente daquela compreendida hoje, como
acontece com a etnologia, por exemplo, cuja definição e classificação atuais
podem ser observadas no Quadro 1. Contudo, por um longo período no Brasil,
chamou-se de etnólogo aquele pesquisador que estudava as tribos indígenas.
Acerca dessa etnologia praticada na época, Melatti (1983, p. 5) afirma:
A partir de meados do século passado, alguns brasileiros se incumbem de tarefas
de caráter etnológico. Esses pesquisadores, quase todos autodidatas em Antro-
pologia, a par de seus levantamentos a respeito de índios, negros, sertanejos,
mostravam na maior parte dos casos um certo interesse no destino das popula-
ções que estudavam e seu lugar na formação do povo brasileiro, cujo futuro era
objeto de suas preocupações. Boa parte desses autores vivem um conflito entre a
simpatia que devotavam às minorias que estudavam e a situação de inferioridade
em que as colocavam na hierarquia biológica que supunham existir. Sobre as
idéias conflituosas a respeito da população nacional, mantidas pelos intelectuais
brasileiros no final do Império e da Primeira República, é muito útil a leitura de
Thomas Skidmore (1976). Por outro lado, esses autores já estavam atentos para o
problema do contato interétnico, tratado daí por diante por todas as gerações de
etnólogos brasileiros, naturalmente segundo os recursos teóricos de cada época.
Quadro 1. Etnografia e etnologia: duas dimensões da antropologia cultural
Etnografia Etnologia
Exige trabalho de campo para coletar
dados
Utiliza os dados coletados por uma
série de pesquisadores
Muitas vezes, descritiva Normalmente, sintética
Específica de um grupo ou de uma
comunidade
Comparativa/intercultural
Fonte: Adaptado de Kottak (2013).
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 5
A história do surgimento da antropologia no Brasil pode ser dividida em
três momentos, compreendidos entre as décadas de 1930 e 1960, segundo
Corrêa (1988, p. 80):
Os três momentos são, eles mesmos, exemplares: nas décadas de trinta e quaren-
ta, com a chegada do cinema falado (como lembra Almir de Castro, 1977), entrou
também no país a modernidade da língua inglesa — belas cartas de amigos de
Eduardo Galvão, dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, sugerem o impacto
do modo de vida norte-americano sobre os brasileiros, assim como o registram
os cronistas da época; na década de cinqüenta, o espírito de desenvolvimento
vigente no país se expressou também na institucionalização dás ciências sociais
e, na década seguinte, muitas das iniciativas dos anos anteriores amadureceram,
não obstante os obstáculos políticos conhecidos.
A seguir, abordaremos esses momentos a partir da história da antro-
pologia e com foco nas contribuições de alguns antropólogos, utilizando,
como exemplo, o trabalho de Melatti. Certamente, não poderemos abarcar
toda a história da antropologia brasileira. Então, destacaremos a etnologia,
pois há mais trabalhos e registros nessa área. Assim, cabe ressaltar que
começaremos pelo período anterior ao identificado como inicial por Corrêa
(1988), pois vamos considerar os cronistas e o período dedicado à etnologia
(como a compreendiam àquela época). Após, abordaremos a antropologia e
os antropólogos até os anos 1930, dos anos 1930 aos anos 1960 e, por fim,
dos anos 1960 em diante.
Os principais antropólogos brasileiros
e suas contribuições
A antropologia no Brasil, como comentamos, começa com pesquisadores
autodidatas, sem formação na área, uma vez que ainda não existia a pro-
fissão no Brasil. Contudo, mesmo sem formação acadêmica na área, esses
pesquisadores fizeram descobertas bastante relevantes, e seus registros nos
permitem compreender melhor os índios, os negros e os sertanejos.
Antigamente, os pesquisadores se mantinham atentos ao problema inte-
rétnico, que acabou sendo abordado por todas as gerações de antropólogos
brasileiros, considerando os recursos disponíveis em cada época (MELATTI,
1983). Entre esses pesquisadores, podemos citar, por exemplo, Antônio Gon-
çalves Dias.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
6
Antônio Gonçalves Dias integrou a Comissão das Borboletas, comissão
científica que participou de uma expedição exploradora às províncias do
Brasil setentrional projetada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
(IHGB). A expedição, que partiu em 1859, ficou mais tempo no Ceará, mas
Gonçalves Dias foi para a Amazônia, onde se dedicou aos estudos linguísticos
e a coleções etnográficas.
Embora tenha feito parte dessa comissão, Gonçalves Dias não possui
registros históricos nem publicações acerca de levantamentos da expedição.
Possui escritos que datam desse período, mas se trata de pesquisas de base
bibliográfica, entre as quais se destacam: “Amazonas”, trabalho publicado
na Revista do IHGB em que apresenta e discute o problema das mulheres
guerreiras que dão nome ao Rio Amazonas, e “Brasil e Oceania”, no qual
faz referência aos cronistas, apresenta uma descrição dos índios do litoral
brasileiro e das populações da Oceania e discute o problema da civilização
cristã. Sobre esse estudo, Melatti (1983, p. 6) afirma o seguinte:
“Brasil e Oceania”, longo texto em que, baseado nos cronistas, ainda que de modo
não exaustivo, apresenta uma descrição dos índios do litoral brasileiro, seguida
de uma descrição resumida das populações da Oceania, para finalmente discutir o
problema de qual das duas populações estava mais apta para receber a civilização
cristã. No fim do trabalho Gonçalves Dias propõe que, ao lado do incentivo à colo-
nização estrangeira, haja uma retomada da catequese dos índios. Gonçalves Dias
não estava à frente das idéias de seu tempo: aceitava uma hierarquia das raças e
admitia, como Martius, que os índios estavam em decadência, não motivada, mas
apenas acentuada pelo contato com os brancos.
Além de Gonçalves Dias, merece destaque José Vieira Couto de Magalhães,
militar e presidente das províncias de Goiás e de Mato Grosso. O político se
interessou pelo estudo dos indígenas durante sua empreitada acerca da
navegação regular a vapor do Araguaia ao Tocantins. Entre seus estudos, os
mais conhecidos são Viagem ao Araguaia (1863) e O selvagem (1876). Sobre
eles, Melatti (1983, p. 6) afirma, respectivamente:
O primeiro se refere a uma viagem que realizou em 1863 e contém dados sobre
índios das vizinhanças do Araguaia e Tocantins. No segundo apresenta esboços
de classificação das raças, que hierarquiza, e das línguas indígenas; lendas indí-
genas, sem dizer exatamente quem narrou cada uma, mas indicando que obteve
uma delas em Belém e que coligou outras entre soldados indígenas do Exército.
Defende a ideia de assimilar os índios, aprendendo-lhes a língua para se poder
ensinar-lhes o português, de modo a evitar seu extermínio futuro. Esse cuidado
estaria relacionado à sua previsão de que a seleção natural iria eliminar os índios,
mas aconselhava a se tomar o cuidado de misturá-los com os brancos antes que
isso acontecesse, a fim de que estes criassem resistências ao ambiente físico
do Brasil. O melhor mestiço seria o branco com um quinto de sangue indígena.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 7
Além das figuras já mencionadas, cabe destacar João Barbosa Rodrigues,
botânico e responsável pelas informações de diversos grupos indígenas
da Amazônia e pelo primeiro contato amistoso com os Krixaná, no ano de
1884. Rodrigues tinha interesse pelo curare, além de pelas lendas e cantigas
amazônicas em língua geral (língua Tupi que fora modificada e usada pelos
colonizadores) e pelos muiraquitãs.
Outra figura de destaque foi o engenheiro Antônio Manoel Gonçalves
Tocantins, que publicou, em 1877, Estudos sobre a tribo “Mundurucú”, pequena
monografia acerca dos vários aspectos do modo de vida dos Munduruku
(família, agricultura, guerra, conservação das cabeças dos inimigos, pintura
de corpo, feitiçaria, mitos etc.). Gonçalves Tocantins visitou essa tribo em
1875, o que o motivou a abordar também “[...] importantes problemas do
contato interétnico, como relações dos índios com os missionários, destes
com a população civilizada, o comércio com os regatões” (MELATTI, 1983, p. 6).
Destaca-se, também, o engenheiro, militar e jornalista Euclides da Cunha,
que relatou os sertanejos de Canudos e os do Sudoeste da Amazônia, uma
vez que os conheceu pessoalmente. Obviamente, sua obra não ficou isenta
de comentários e críticas. Entre seus críticos, estão Gilberto Freyre, Clovis
Moura, Dante Moreira Leite e Thomas Skidmore.
Além dos autores já mencionados, cabe acrescentar dois autores res-
ponsáveis pelos primeiros estudos sobre o negro no Brasil: o desenhista e
arquiteto Manuel Raimundo Querino e o médico Raimundo Nina Rodrigues.
Manuel Raimundo Querino, descendente de africanos, foi responsável por
minuciosas descrições das tradições de origem africana, enquanto Nina
Rodrigues deixou, em seu legado, contribuições acerca da diversidade de
culturas trazidas pelos escravos e seus locais de origem na África. Contudo,
aderiu às noções (comuns na época) de inferioridade e superioridade racial.
No período inicial da antropologia no Brasil, havia grande interesse de
pesquisadores alemães na população indígena. Houve vários, mas o primeiro
e mais famoso foi Karl von den Steinen, que deixou a psiquiatria para se
dedicar à etnologia por influência de Bastian. Karl von den Steinen, como
destaca Melatti (1983, p. 8): “[...] em sua expedição de 1884 descobriu os
grupos indígenas xinguanos e foi o primeiro a descer o rio Xingu desde seus
formadores até a foz. Numa segunda expedição, de 1887 a 1888, voltou a visitar
os xinguanos”. Há vários outros pesquisadores alemães, mas optamos por
mencionar apenas Steinen, por ser o primeiro e o mais famoso.
As preocupações evolucionistas e difusionistas foram abandonadas so-
mente nas décadas de 1920 e 1930, no que se refere às pesquisas com índios.
O número de pesquisadores alemães também vai diminuindo, mas a maioria
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
8
dos pesquisadores continua sendo estrangeira, embora alguns acabem se
estabelecendo no Brasil ou em países vizinhos. Entre esses pesquisadores de
origem alemã e que se radicaram no Brasil, destaca-se Curt Nimuendajú, como
mencionamos anteriormente, considerado o “pai da antropologia no Brasil”.
Nimuendajú se destaca no estudo das sociedades indígenas devido à
extensão de seu trabalho e, também, pela dedicação com que o realizou.
Sua produção vai desde obras mais extensas sobre os Guarani, os Xerênte,
os Canelas, os Apinayé e os Tukúna, até outros trabalhos acerca da língua,
da mitologia, da história, de diversos grupos indígenas, além de um mapa
etno-histórico dos índios do Brasil, com uma enorme lista de referências aos
materiais consultados.
A contribuição de Nimuendajú não ficou restrita à teoria. Quando era
funcionário do Serviço de Proteção aos Índios (então recentemente
criado), garantiu a fixação dos Guarani em reservas, no estado de São Paulo. Sua
atuação como funcionário do Serviço lhe permitiu, ainda, atuar junto à atração
dos índios Parintintin, sobre os quais elaborou um importante relatório — que,
inclusive, foi tema do romance de Ferreira de Castro intitulado O instinto supremo.
Nimuendajú se correspondia com o antropólogo Robert Lowie, nascido
em Viena, mas radicado nos Estados Unidos. O diálogo com Lowie preencheu,
em parte, as lacunas de sua formação acadêmica, mas a contribuição não
foi apenas por meio da correspondência: Lowie traduziu e providenciou tra-
duções para o inglês das principais monografias de Nimuendajú, chamando
a atenção para a importância do estudo das sociedades Jê. Em sua autobio-
grafia, mencionou a correspondência e intitulou o capítulo 9º de “Trabalho
de campo realizado A distância”, o que talvez demostre sua influência no
trabalho realizado por Nimuendajú.
Além disso, é importante salientar a contribuição do trabalho etnográ-
fico dos missionários salesianos nesse período: Antônio Colbacchini, César
Albisetti e Ângelo Jayme Venturelli. Guardadas as devidas proporções, os
trabalhos dos salesianos se aproximam daquele realizado por Nimuendajú,
uma vez que demostram certo cuidado na descrição, preocupam-se com a
organização social e evitam os antigos temas evolucionistas e difusionistas,
ainda que não tivessem orientação teórica. Contudo, diferentemente de
Nimuendajú, eles se concentraram no estudo dos Borôro e, por conta de
seu trabalho confessional, por meio da catequese, eram atores de mudança
social, intervindo e alterando crenças e costumes.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 9
Antropologia no Brasil: dos anos 1930 aos anos 1960
Esse período tem seu início marcado pela criação da primeira Faculdade de
Filosofia, Ciências e Letras do Brasil, na também recém-criada Universidade
de São Paulo (1934). Na mesma época, nasce a primeira Escola de Sociologia
e Política. A partir da criação da Universidade, houve a necessidade de con-
tratação de professores da área, até então não existente no Brasil, motivo
pelo qual foram contratados professores estrangeiros. Nesse sentido, Melatti
(1983, p. 11) afirma:
Para fazer frente à necessidade de professores, foram contratados vários mestres
estrangeiros. Desse modo, Roger Bastide, Emílio Willems, Claude Lévi-Strauss
passaram a trabalhar na primeira, enquanto Herbert Baldus, Donald Pierson,
na segunda, onde esteve como professor visitante, por breve período durante a
Segunda Guerra Mundial, Radcliffe-Brown. Também no Rio de Janeiro criava-se a
Universidade do Distrito Federal, onde Gilberto Freyre assumiu em 1935, como seu
primeiro professor, a cátedra de Antropologia Social e Cultural; ocupou também a
cátedra de Sociologia, enquanto Arthur Ramos ficava com a de Psicologia Social.
Segundo Mariza Corrêa (2013, p. 43), é importante considerar que:
Fora do eixo central do país, em regiões onde as Faculdades de Filosofia se instala-
riam mais tarde, seguindo aqueles modelos, e dependendo da região, a concentração
daqueles que seriam depois definidos ou reconhecidos como antropólogos estava
em torno de um museu (caso do Museu Paraense Emilio Goeldi, por exemplo, de
tradição antiga), de um personagem (como Gilberto Freyre, já nessa época perso-
nagem nacional em Pernambuco), ou de um “movimento” (o da defesa do folclore,
de Câmara Cascudo, em Natal, ou os Congressos Afro-Brasileiros, no Recife, em
1934, organizado por Gilberto Freyre, e na Bahia, em 1937, organizado por Édison
Carneiro). Que essas instituições, pessoas ou grupos eram os pontos de referência
de uma território antropológico implicitamente reconhecido são testemunhos os
depoimentos daqueles que vinham de fora dele, como os antropólogos estrangeiros,
ou os antropólogos nativos em sua circulação interna: esses pontos, mencionados
por todos, vão assim desenhando o perfil de um grupo que se reconhecia, ainda
que não se definisse explicitamente como tal, nos anos trinta e quarenta.
A maioria dos professores de São Paulo vinha da Europa, mas a maior
influência nas pesquisas e nos estudos era norte-americana. Nesse período,
havia um profundo interesse norte-americano pelos países da América Latina,
entre eles o Brasil. Tal influência se dava não apenas pelos docentes que
aqui ministravam, mas também pela presença dos primeiros pesquisadores
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
10
norte-americanos, cujo objeto de estudo eram as sociedades indígenas, as
religiões afro-brasileiras ou pequenas comunidades, e por conta dos jovens
brasileiros que iam estudar nos Estados Unidos.
Em 1941, foi fundada a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etno-
logia, cujo primeiro presidente foi Arthur Ramos. Em 1942, publicou um
Manifesto contra o racismo. Em 1955, a Sociedade deu lugar à Associação
Brasileira de Antropologia (ABA). Florestan Fernandes (1956) nos apresenta
uma excelente avaliação acerca do desenvolvimento da etnologia durante
este período.
Para conhecer a obra e a contribuição de Florestan Fernandes,
sociólogo e educador brasileiro, autor de duas excelentes mono-
grafias sobre os Tupinambás, povo indígena extinto no século XVII, e de um
relato sobre a importância social dos relatos dos cronistas, acesse o volume
da Coleção Educadores cujo título leva seu nome e está disponível no site
Domínio Público.
Segundo Cardoso de Oliveira (1988), Nimuendajú (na etnologia indígena)
e Gilberto Freyre (na Antropologia da Sociedade Nacional) desempenharam
seus papéis como “heróis civilizadores”:
Tanto um quanto o outro se utilizaram amplamente do conceito de Cultura: Curt
Nimuendajú pela importância que teve, em seu trabalho, Robert Lowie; Gilberto
Freyre por seus estudos de pós-graduação na Columbia University. Embora exis-
tam, com certeza, outros nomes nesses períodos, nenhum deixou uma obra com o
impacto das obras de Nimuendajú e Freyre. O impacto deixado pelas obras destes
autores, nos permite dizer que "a partir delas a disciplina antropológica entre
nós, nas duas tradições que me referi, teria se firmado de maneira irreversível
(CARDOSO DE OLIVEIRA, 1988, p. 112).
Contudo, se o período no qual se inserem Nimuendajú e Freyre, segundo
Cardoso de Oliveira (1988) pode ser considerado o que ele chama de “Período
Heroico”, o período em que se insere Darcy Ribeiro é chamado de “Período
Carismático”. É importante esclarecer que a divisão e a classificação da his-
tória da antropologia do Brasil são realizadas por Cardoso de Oliveira (1988),
segundo as categorias de cultura e estrutura (Quadro 2).
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 11
Quadro 2. Fases históricas da disciplina (1920–1950)
Categorias/
tradições Etnologia indígena
Antropologia da
Sociedade Nacional
Cultura „
„ Período Heroico:
Nimuendajú
„
„ Período Carismático:
Darcy Ribeiro
(Cultural funcionalismo)
„
„ Período Heroico: Gilberto
Freyre
„
„ Período Carismático:
Charles Wagley
(Cultural histórico)
Estrutura Período Carismático:
Florestan Fernandes
(Estrutural funcionalismo)
Período Carismático: D.
Pierson
(Sociologismo funcionalista)
Fonte: Adaptado de Cardoso de Oliveira (1988).
Foi entre os anos 1930 e 1960 que se desenvolveram os estudos acerca das
interpretações gerais do Brasil e os estudos de mudança social, cultural e/ou
aculturação, e quando houve a predominância do funcionalismo no estudo
das culturas e sociedades indígenas. Durante as décadas de 1940 e 1950,
foram realizados os chamados estudos de comunidade, nos quais se realiza
a observação direta de pequenas cidades ou vilas, utilizando as técnicas
desenvolvidas pela etnologia no estudo das sociedades tribais.
Houve, ainda, a abordagem funcionalista do folclore. Entre os vários
trabalhos, destacam-se aqueles realizados por Florestan Fernandes e a pes-
quisa de Cristina Argenton Colonelli, cuja bibliografia arrolou cerca de 4.919
trabalhos sobre o folclore brasileiro (MELATTI, 1983).
Salienta-se a importância de Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Sérgio
Buarque de Holanda e Roberto DaMatta para a antropologia no Brasil, mas
suas contribuições serão abordadas na seção seguinte, em que vamos falar
da identidade brasileira e da antropologia a partir dos anos 1960.
A construção da identidade brasileira na
imensa diversidade cultural e geográfica
do País
Anteriormente, a cultura foi mencionada como uma das categorias inves-
tigadas pelos antropólogos, ou seja, como um dos objetos de estudo da
antropologia. Antes de falarmos da identidade brasileira e de sua diversidade
cultural, cabe aclarar o conceito de cultura.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
12
A cultura engloba o comportamento habitual e as crenças que são passadas
por meio da enculturação. É baseada na capacidade humana de aprendiza-
gem cultural e inclui regras de conduta internalizadas pelos seres humanos.
Outros animais aprendem, mas somente os seres humanos têm aprendizagem
cultural, que depende de símbolos. Ela possui aspectos tangíveis (objetos
e símbolos) e intangíveis (ideias e normas), e é uma das principais, se não a
principal, característica da identidade de um povo (KOTTAK, 2013).
Pode haver diferença entre as culturas? Sim, a diferença entre culturas se
dá pelos elementos que a constituem e compõem o conceito de identidade
cultural.
A enculturação é o processo pelo qual uma criança aprende sua
cultura. A enculturação informal vem da família e de amigos, en-
quanto a enculturação formal vem da escola. A cultura é apreendida por meio
dos processos de socialização, com agentes de socialização, e os processos
primários são realizados pelas instituições: família, escola e instituição religiosa.
Por sua vez, a endoculturação é um processo de aprendizagem no meio
da cultura em que se vive, de modo que, consciente ou inconscientemente,
o indivíduo (ou grupo social) apreende e incorpora os elementos culturais
pertinentes (MARCONI, 2010).
Compreendido o conceito de cultura e sua importância, cabe definir iden-
tidade. Acerca da identidade, Barroso (2017a, p. 70–71, grifo nosso) afirma o
seguinte:
A identidade se refere a como você é identificado em uma determinada cultura, ou
seja, apresenta suas características em termos do seu relacionamento no mundo.
Deste modo, você é percebido pelos outros a partir dos elementos culturais que
manifesta ao mundo, e, por isso, você é reconhecido. Assim, não é sempre que
temos o controle sobre como as pessoas nos rotulam. Podemos dizer que esses
rótulos são dados a partir de características as quais os outros reconhecem em nós.
Muitos antropólogos brasileiros contribuíram para a compreensão e a
caracterização da identidade brasileira, tanto para a forma como é compre-
endida no Brasil quanto para a forma como é vista por estrangeiros. Seus
estudos acabam, muitas vezes, por abordar a nossa identidade. Nesse sentido,
destaca-se o estudo de Roberto DaMatta intitulado “O que faz o brasil, Brasil?”
(1986). Nessa obra, DaMatta nos apresenta a nós mesmos e aos outros por
meio de nossas festas populares, nossas manifestações religiosas, nossa
literatura e arte, enfim: tudo aquilo que nos é próprio e capaz de definir
nossa identidade nacional, apesar da absurda diversidade cultural do Brasil.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 13
Vejamos um pequeno excerto de sua obra, em que menciona como sabe que é
brasileiro, reunindo várias características de nosso povo e retratando nossa
diversidade cultural (DAMATTA, 1986, p. 16):
Sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer
feijoada e não hamburguer; porque sou menos receptivo a coisas de outros pa-
íses, sobretudo costumes e ideias; porque tenho um agudo sentido de ridículo
para roupas, gestos e relações sociais; porque vivo no Rio de Janeiro e não em
Nova York; porque falo português e não inglês; porque, ouvindo música popular,
sei distinguir imediatamente um frevo de um samba; porque futebol para mim é
um jogo que se pratica com os pés e não com as mãos; porque vou à praia para
ver e conversar com os amigos, ver as mulheres e tomar sol, jamais para praticar
um esporte; porque sei que no carnaval trago à tona minhas fantasias sociais e
sexuais; porque sei que não existe jamais um “não” diante de situações formais
e que todas admitem um “jeitinho” pela relação pessoal e pela amizade; porque
entendo que ficar malandramente “em cima do muro” é algo honesto, necessário
e prático no caso do meu sistema; porque acredito em santos católicos e também
nos orixás africanos; porque sei que existe destino e, no entanto, tenho fé no
estudo, na instrução e no futuro do Brasil; porque sou leal a meus amigos e nada
posso negar a minha família; porque, finalmente, sei que tenho relações que não
me deixam caminhar sozinho neste mundo, como fazem meus amigos americanos,
que sempre se veem e existem como indivíduos!
Quando um índio utiliza elementos linguísticos e culturais de outra
cultura para se expressar, por qual processo cultural podemos dizer
que ele passou? Sem dúvida, é possível afirmar que ele passou por um processo
de mudança cultural, que ocorre a partir da difusão (empréstimo) de traços entre
culturas. Ela pode ser direta (espontânea) ou forçada, dependendo da situação.
Esse processo é chamado, pelos antropólogos, de aculturação, e se trata do
intercâmbio permanente de traços culturais entre grupos em contato contínuo.
Cabe observar, porém, que os olhares dos antropólogos se voltaram para
a sociedade brasileira muito antes de DaMatta. Uma das mais famosas obras
de interpretação do Brasil é Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre (embora
tenha sido responsável por disseminar a falsa ideia de que havia democracia
racial no Brasil). Além desse livro, outras importantes obras publicadas foram
Sobrados e mocambos (1936) e Ordem e progresso (1959), fora uma série de
trabalhos paralelos. Entre os temas abordados em suas obras, estão a família
patriarcal e o Nordeste.
Sobre Casa grande e senzala e o mito da democracia racial, cabe ressaltar
que:
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
14
Como o povo brasileiro era composto por povos oriundos de três origens distintas
— indígenas, europeus e africanos —, muitos estrangeiros acessavam informações
da relação entre esses povos a partir da produção da literatura brasileira sobre
o assunto. E um dos livros de referência foi a obra Casa Grande e senzala, do
sociólogo Gilberto Freyre. Ali, ele apresentou o negro escravizado desfrutando de
certo conforto material, beneficiando-se de regalias e até sendo visto como pessoa
de confiança dos senhores e das sinhás. Portanto, esse livro deixou de lado os
horrores do trabalho compulsório e da relação de submissão dos escravizados,
fazendo crer que houvesse uma miscigenação generalizada, tranquila e natural
entre os índios, brancos e negros. Assim, foi interpretado que, no Brasil, havia uma
democracia racial. ainda que o autor não tenha dito com essas palavras, como se
as pessoas de diferentes origens fossem tratadas e percebidas da mesma forma
(BARROSO, 2017a, p. 82).
Segundo Melatti (1983, p. 12-13, grifo nosso), “[...] como interpretação do
Brasil, também é de grande importância o pequeno livro de Sérgio Buarque
de Holanda, Raízes do Brasil [...], de âmbito mais vasto e publicado original-
mente em francês em 1960”.
Ainda no que se refere à diversidade cultural do povo brasileiro, é ne-
cessário mencionar que os processos culturais são vivenciados em todos os
âmbitos sociais, são dinâmicos, possibilitam trocas sociais e podem ocorrer
de modo concomitante. Sobre isso:
O antropólogo Roberto Da Matta (1987) nos lembra que a sociedade brasileira é
relacional, pois nela se concretiza a síntese de modelos advindos de diferentes
sociedades. A tríade majoritária que compôs a base da sociedade brasileira — os
indígenas, os europeus e os africanos — compartilhou, de forma mais tensa ou me-
nos tensa, crenças, valores, hábitos, gostos, sentidos, pensamentos que resultaram
em novas manifestações culturais. Um deles é o candomblé. Essa é uma religião
que foi trazida com os negros escravizados no Brasil, e, sendo o país colonizado
por portugueses católicos, as práticas religiosas do Candomblé eram reprimidas.
Assim, seus praticantes, em seus ritos religiosos, disfarçavam a devoção aos seus
deuses se direcionando aos santos da religião católica. Com o tempo, essa reli-
gião foi contraindo características próprias e seus elementos rituais englobaram
aspectos da cultura caipira e da cultura indígena (BARROSO et al., 2017b, p. 64).
Portanto, no Brasil, a fé também ocupa um importante papel identitário.
Assim, o processo descrito por Barroso et al. (2017b) é um processo cultural
bastante comum em nosso País e que, em certa medida, acaba por nos definir
como sociedade brasileira: o sincretismo, ou seja, a reunião de doutrinas
diferentes, com a manutenção de traços perceptíveis das doutrinas origi-
nais. Esse processo cultural se dá a partir do imbricamento de diferentes
elementos culturais no âmbito religioso e se torna característico no Brasil,
por sua diversidade cultural.
Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 15
Referências
BARROSO, P. F. Cultura e identidade brasileira. In: BARROSO, P. F.; BONETE, W. J.; QUEIROZ,
R. Q. de M. Antropologia e cultura. Porto Alegre: Sagah, 2017a. p. 69–78.
BARROSO, P. F.; BONETE, W. J.; QUEIROZ, R. Q. de M. Antropologia e cultura. Porto Alegre:
Sagah, 2017b.
CARDOSO DE OLIVEIRA, R. O que é isso que chamamos de antropologia brasileira? In:
________________. Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo
Brasileiro/CNPQ, 1988. p. 109–129. (Biblioteca Tempo Universidade, 83).
CORRÊA, M. Traficantes do excêntrico. In: ___________. Traficantes do simbólico &
outros ensaios sobre a história da antropologia. Campinas: Unicamp, 2013. p. 15–34.
DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986.
KOTTAK, C. P. Um espelho para a humanidade: uma introdução à antropologia cultural.
8. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013.
MARCONI, M. de A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma introdução. 7. ed. São Paulo:
Atlas, 2010.
MELATTI, J. C. A antropologia no Brasil: um roteiro. Brasília: UNB, 1983. (Série
Antropologia).
Leitura recomendada
OLIVEIRA, M. M. de. Florestan Fernandes. Recife: Massangana, 2010. (Coleção Educadores).
Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos
testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da
publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas
páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores
declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou
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Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira
16
Antropologia da religião 5 - antropologia no brasil

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Antropologia da religião 5 - antropologia no brasil

  • 2. OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM > > Sintetizar o desenvolvimento da antropologia no Brasil. > > Reconhecer os principais antropólogos brasileiros e suas contribuições na construção da identidade brasileira. > > Explicar como se construiu a identidade brasileira na imensa diversidade cultural e geográfica do País. Introdução O objeto de investigação da antropologia é o ser humano e, por isso, ela se cons- titui como a área na qual investigador e objeto investigado coincidem. Por sua especificidade e metodologia, a antropologia possibilita a compreensão de nós mesmos pelo olhar do outro e que nos situemos diante dos diferentes mundos culturais e sociais, compreendendo-os melhor. A antropologia surgiu com o objetivo de resolver os problemas e encontrar soluçõesparaaurbanização,aindustrializaçãoeaexpansãoeuropeia.Aocontrário da sociologia, por exemplo, desenvolvida no séc. XVIII para compreender melhor associedadeseuropeias,comoobjetivodeum“olharinterno”,paradentrodesua sociedade, a antropologia foi desenvolvida com foco no “olhar externo”, visando a melhor compreender os povos colonizados na África, na Ásia e na Américas. Assim, floresceu por meio de pesquisas financiadas pelas elites europeias, pela Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira Adriane da Silva Machado Möbbs
  • 3. necessidade de conhecer para dominar. Por outro lado, a antropologia brasileira surgiu e se desenvolveu com o objetivo de compreender sua própria diversidade social e cultural, com o foco em suas múltiplas culturas. Neste capítulo, você vai descobrir como se deu o desenvolvimento da antropologia no Brasil, o que permitirá a compreensão de nossa diversidade cultural e, consequentemente, um melhor entendimento da coletividade como povo. O desenvolvimento da antropologia no Brasil No Brasil, a antropologia surgiu entre as décadas 1930 e 1940. Muitos aspectos favoreceram seu surgimento e desenvolvimento no Brasil, e acabaram por caracterizar o pensamento antropológico brasileiro por um longo período. Podemos considerar o alemão Curt Nimuendajú (1883–1945), nascido Curt Unckel, o “pai da Antropologia brasileira”. Tido como um expoente em estudos indígenas no País, o etnólogo dedicou mais de 40 anos de sua vida ao estudo dos povos indígenas brasileiros. Sem formação acadêmica, mudou-se para o Brasil aos 20 anos e, dois anos depois, juntou-se aos Apapokuva, povo guarani do interior de São Paulo (atualmente conhecido como Nhandeva). A partir dessa imersão, que deu origem à obra As len- das da criação e destruição do mundo como fundamentos da religião dos Apapocúva-Guarani, publicada em 1915, começa o desenvolvimento da etnologia brasileira. Incialmente, a antropologia era reconhecida por sua prática e, assim, considerada uma etnologia. Desde seus primórdios, a antropologia brasileira esteve presa a seus objetos reais de investigação, como afirma Cardoso de Oliveira (1988, p. 230): Isso significa que o que se poderia chamar de modo de conhecimento — que deveria marcar a natureza do saber antropológico — ficou historicamente su- bordinado à natureza dos objetos reais (quer seja o índio, o negro ou o branco) com todos os "equívocos que posições deste teor geram no desenvolvimento da disciplina. E, em razão dessa mesma preponderância do objeto real sobre objetos teoricamente construídos, surgiram duas tradições no campo da An- tropologia Brasileira, ordenando a divisão de trabalho, seja na academia, seja nas atividades profissionais não universitárias. A primeira tradição que aparece com mais vigor é a da Etnologia Indígena, sendo a segunda a da Antropologia da Sociedade Nacional. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 2
  • 4. Podemos, portanto, considerar que, inicialmente, a antropologia se de- senvolveu a partir de duas tradições: 1. a etnologia indígena, na qual o nome de Curt Nimuendajú é, sem dú- vida, referência; 2. a Antropologia da Sociedade Nacional, cujo expoente é Gilberto Freyre. Isso ocorreu entre as décadas de 1920 e 1930, quando a profissão de antropólogo e o campo da antropologia ainda não estavam bem definidos no Brasil. Embora, nos anos 1930 e 1940, Lévi-Strauss e Radcliffe-Brown tenham lecionado no Brasil, eles não são tidos como atores do desenvolvimento da antropologia. Sabe-se, porém, que suas obras tiveram impacto nas décadas seguintes, como afirma Cardoso de Oliveira (1988, p. 230–231): “[...] o certo é que a absorção de suas ideias se daria nas gerações seguintes pela leitura de seus livros. Nesse caso, destaca-se a influência de Lévi-Strauss a partir dos anos 1960, enquanto a de Radcliffe-Brown (salvo engano) restringiu-se aos anos 1940 e 1950”. Desde os primórdios da antropologia no Brasil, vários pesquisadores utilizaram o termo ‘etnologia’ como parte da antropologia cultural ou social, o qual “[...] abrange os estudos em que o pesquisador entra em contato direto, face a face, com os membros da sociedade, ou segmento social estu- dado, contrastando-a com a arqueologia, que abarca as pesquisas apoiadas em vestígios deixados por sociedades desaparecidas ou por períodos passados de sociedades que continuam a existir” (MELATTI, 1983, p. 4). Contudo, confundem-se os termos “etnologia” e “etnografia”; por isso é sempre importante observar a época em que o termo é empregado. Segundo Kottak (2013), antropólogo contemporâneo, há dois tipos de ati- vidades realizadas pelos antropólogos: a etnografia (com base no trabalho de campo) e a etnologia (com base na comparação intercultural). De acordo com Kottak (2013, p. 33), “A etnografia fornece uma descrição de determinada comunidade, sociedade ou cultura. [...] A etnologia examina, interpreta, analisa e compara os resultados da etnografia — os dados coletados em diferentes sociedades — e os usa para comparar, contrastar e fazer generalizações sobre a sociedade e a cultura”. No artigo Traficante do excêntrico: os antropólogos no Brasil dos anos 30 aos anos 60 (1988), Mariza Corrêa (1988, p. 79) destaca um aspecto importante acerca do desenvolvimento da antropologia: Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 3
  • 5. Talvez seja uma ironia adequada a esta disciplina que se quer uma ciência do outro que ela tenha criado, em quase toda a parte, tradições antropológicas nacionais fundadas por estrangeiros: Franz Boas nos Estados Unidos, Curt Nimuendajú no Brasil, Bronislaw Malinowiski na Inglaterra. A pesquisadora destaca, ainda, um certo descompasso em meio ao inter- câmbio entre os pesquisadores nacionais e estrangeiros, e, sobretudo, acerca de “como nos pensamos” e “como nos pensam” (1988, p. 79–80): No caso brasileiro, se acrescenta ainda a esta ambiguidade, às vezes uma harmonia, às vezes um descompasso, entre “como pensamos” e “como nos pensam”. A traje- tória brasileira da disciplina é, mais do que costumamos registrar explicitamente, parte tanto de seu percurso internacional, quanto do imaginário dos antropólogos em geral: lembrando de novo o exemplo de Geertz, é de Lévi-Strauss que ele está falando quando escreve “mito brasileiro” ao invés de seu nome (1983, p. 150). Ao fazermos uma genealogia da antropologia no Brasil, deparamo-nos com tradições também inventadas. Esse é um fato importante a ser considerado, uma vez que o distanciamento do pesquisador nem sempre foi possível. Percebe-se, muitas vezes, considerações um tanto distantes de nossa re- alidade. Nesse sentido, podemos citar a percepção de nossos índios como “selvagens”, de acordo com a interpretação de Lévi-Strauss. Acerca dessas tradições-invenções, afirma Corrêa (1988, p. 80): As tradições aqui inventadas, se não o foram apenas por estrangeiros, tiveram uma forte participação deles nessa invenção: se olharmos atentamente o mapa etno- lógico de Curt Nimuendaju, quase poderemos ver as sombras dos pesquisadores que as estudaram projetando-se sobre os contornos das comunidades indígenas por eles estudadas até a década de 40, projeção que nos ajudaria mais, entretanto, a entender a distribuição deles, pesquisadores, num território disciplinar comum, do que a de seus objetos de interesse. Como sabemos, o trabalho etnográfico do antropólogo consiste em inserir-se na comunidade e, com certo distanciamento, observar os hábitos e costumes de determinada cultura. Observar e interpretar sem adjetivar, porém, talvez seja bastante difícil depois de muitos anos inserido na mesma comunidade. O início da caminhada da antropologia no Brasil Até a década de 1930, aqueles que faziam antropologia no Brasil não eram formados na área e, por isso, são referidos como cronistas, pois não realizavam o trabalho etnográfico. Contudo, por meio de suas crônicas, forneceram-nos Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 4
  • 6. bons registros de observações, ainda que sem controle ou orientação me- todológica, pois não havia cientistas sociais na época. Nesse período, como afirma Melatti (1983, p. 5): [...] não existe a formação acadêmica de etnólogo no Brasil. Os estudiosos brasilei- ros que dão contribuições nessa área são médicos, juristas, engenheiros, militares ou de outras profissões. Mesmo os etnólogos que vêm do exterior são formados em centros de pesquisa de criação recente, pois a Antropologia era então ramo novo das ciências, mesmo na Europa. Alguns deles são também de outras áreas acadêmicas e que, tendo-se interessado pela Etnologia, procuraram aperfeiçoar-se nos centros que a cultivavam. Como ainda não tínhamos a presença de cientistas sociais, alguns ter- mos foram utilizados de forma diferente daquela compreendida hoje, como acontece com a etnologia, por exemplo, cuja definição e classificação atuais podem ser observadas no Quadro 1. Contudo, por um longo período no Brasil, chamou-se de etnólogo aquele pesquisador que estudava as tribos indígenas. Acerca dessa etnologia praticada na época, Melatti (1983, p. 5) afirma: A partir de meados do século passado, alguns brasileiros se incumbem de tarefas de caráter etnológico. Esses pesquisadores, quase todos autodidatas em Antro- pologia, a par de seus levantamentos a respeito de índios, negros, sertanejos, mostravam na maior parte dos casos um certo interesse no destino das popula- ções que estudavam e seu lugar na formação do povo brasileiro, cujo futuro era objeto de suas preocupações. Boa parte desses autores vivem um conflito entre a simpatia que devotavam às minorias que estudavam e a situação de inferioridade em que as colocavam na hierarquia biológica que supunham existir. Sobre as idéias conflituosas a respeito da população nacional, mantidas pelos intelectuais brasileiros no final do Império e da Primeira República, é muito útil a leitura de Thomas Skidmore (1976). Por outro lado, esses autores já estavam atentos para o problema do contato interétnico, tratado daí por diante por todas as gerações de etnólogos brasileiros, naturalmente segundo os recursos teóricos de cada época. Quadro 1. Etnografia e etnologia: duas dimensões da antropologia cultural Etnografia Etnologia Exige trabalho de campo para coletar dados Utiliza os dados coletados por uma série de pesquisadores Muitas vezes, descritiva Normalmente, sintética Específica de um grupo ou de uma comunidade Comparativa/intercultural Fonte: Adaptado de Kottak (2013). Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 5
  • 7. A história do surgimento da antropologia no Brasil pode ser dividida em três momentos, compreendidos entre as décadas de 1930 e 1960, segundo Corrêa (1988, p. 80): Os três momentos são, eles mesmos, exemplares: nas décadas de trinta e quaren- ta, com a chegada do cinema falado (como lembra Almir de Castro, 1977), entrou também no país a modernidade da língua inglesa — belas cartas de amigos de Eduardo Galvão, dos Estados Unidos durante a Segunda Guerra, sugerem o impacto do modo de vida norte-americano sobre os brasileiros, assim como o registram os cronistas da época; na década de cinqüenta, o espírito de desenvolvimento vigente no país se expressou também na institucionalização dás ciências sociais e, na década seguinte, muitas das iniciativas dos anos anteriores amadureceram, não obstante os obstáculos políticos conhecidos. A seguir, abordaremos esses momentos a partir da história da antro- pologia e com foco nas contribuições de alguns antropólogos, utilizando, como exemplo, o trabalho de Melatti. Certamente, não poderemos abarcar toda a história da antropologia brasileira. Então, destacaremos a etnologia, pois há mais trabalhos e registros nessa área. Assim, cabe ressaltar que começaremos pelo período anterior ao identificado como inicial por Corrêa (1988), pois vamos considerar os cronistas e o período dedicado à etnologia (como a compreendiam àquela época). Após, abordaremos a antropologia e os antropólogos até os anos 1930, dos anos 1930 aos anos 1960 e, por fim, dos anos 1960 em diante. Os principais antropólogos brasileiros e suas contribuições A antropologia no Brasil, como comentamos, começa com pesquisadores autodidatas, sem formação na área, uma vez que ainda não existia a pro- fissão no Brasil. Contudo, mesmo sem formação acadêmica na área, esses pesquisadores fizeram descobertas bastante relevantes, e seus registros nos permitem compreender melhor os índios, os negros e os sertanejos. Antigamente, os pesquisadores se mantinham atentos ao problema inte- rétnico, que acabou sendo abordado por todas as gerações de antropólogos brasileiros, considerando os recursos disponíveis em cada época (MELATTI, 1983). Entre esses pesquisadores, podemos citar, por exemplo, Antônio Gon- çalves Dias. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 6
  • 8. Antônio Gonçalves Dias integrou a Comissão das Borboletas, comissão científica que participou de uma expedição exploradora às províncias do Brasil setentrional projetada pelo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB). A expedição, que partiu em 1859, ficou mais tempo no Ceará, mas Gonçalves Dias foi para a Amazônia, onde se dedicou aos estudos linguísticos e a coleções etnográficas. Embora tenha feito parte dessa comissão, Gonçalves Dias não possui registros históricos nem publicações acerca de levantamentos da expedição. Possui escritos que datam desse período, mas se trata de pesquisas de base bibliográfica, entre as quais se destacam: “Amazonas”, trabalho publicado na Revista do IHGB em que apresenta e discute o problema das mulheres guerreiras que dão nome ao Rio Amazonas, e “Brasil e Oceania”, no qual faz referência aos cronistas, apresenta uma descrição dos índios do litoral brasileiro e das populações da Oceania e discute o problema da civilização cristã. Sobre esse estudo, Melatti (1983, p. 6) afirma o seguinte: “Brasil e Oceania”, longo texto em que, baseado nos cronistas, ainda que de modo não exaustivo, apresenta uma descrição dos índios do litoral brasileiro, seguida de uma descrição resumida das populações da Oceania, para finalmente discutir o problema de qual das duas populações estava mais apta para receber a civilização cristã. No fim do trabalho Gonçalves Dias propõe que, ao lado do incentivo à colo- nização estrangeira, haja uma retomada da catequese dos índios. Gonçalves Dias não estava à frente das idéias de seu tempo: aceitava uma hierarquia das raças e admitia, como Martius, que os índios estavam em decadência, não motivada, mas apenas acentuada pelo contato com os brancos. Além de Gonçalves Dias, merece destaque José Vieira Couto de Magalhães, militar e presidente das províncias de Goiás e de Mato Grosso. O político se interessou pelo estudo dos indígenas durante sua empreitada acerca da navegação regular a vapor do Araguaia ao Tocantins. Entre seus estudos, os mais conhecidos são Viagem ao Araguaia (1863) e O selvagem (1876). Sobre eles, Melatti (1983, p. 6) afirma, respectivamente: O primeiro se refere a uma viagem que realizou em 1863 e contém dados sobre índios das vizinhanças do Araguaia e Tocantins. No segundo apresenta esboços de classificação das raças, que hierarquiza, e das línguas indígenas; lendas indí- genas, sem dizer exatamente quem narrou cada uma, mas indicando que obteve uma delas em Belém e que coligou outras entre soldados indígenas do Exército. Defende a ideia de assimilar os índios, aprendendo-lhes a língua para se poder ensinar-lhes o português, de modo a evitar seu extermínio futuro. Esse cuidado estaria relacionado à sua previsão de que a seleção natural iria eliminar os índios, mas aconselhava a se tomar o cuidado de misturá-los com os brancos antes que isso acontecesse, a fim de que estes criassem resistências ao ambiente físico do Brasil. O melhor mestiço seria o branco com um quinto de sangue indígena. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 7
  • 9. Além das figuras já mencionadas, cabe destacar João Barbosa Rodrigues, botânico e responsável pelas informações de diversos grupos indígenas da Amazônia e pelo primeiro contato amistoso com os Krixaná, no ano de 1884. Rodrigues tinha interesse pelo curare, além de pelas lendas e cantigas amazônicas em língua geral (língua Tupi que fora modificada e usada pelos colonizadores) e pelos muiraquitãs. Outra figura de destaque foi o engenheiro Antônio Manoel Gonçalves Tocantins, que publicou, em 1877, Estudos sobre a tribo “Mundurucú”, pequena monografia acerca dos vários aspectos do modo de vida dos Munduruku (família, agricultura, guerra, conservação das cabeças dos inimigos, pintura de corpo, feitiçaria, mitos etc.). Gonçalves Tocantins visitou essa tribo em 1875, o que o motivou a abordar também “[...] importantes problemas do contato interétnico, como relações dos índios com os missionários, destes com a população civilizada, o comércio com os regatões” (MELATTI, 1983, p. 6). Destaca-se, também, o engenheiro, militar e jornalista Euclides da Cunha, que relatou os sertanejos de Canudos e os do Sudoeste da Amazônia, uma vez que os conheceu pessoalmente. Obviamente, sua obra não ficou isenta de comentários e críticas. Entre seus críticos, estão Gilberto Freyre, Clovis Moura, Dante Moreira Leite e Thomas Skidmore. Além dos autores já mencionados, cabe acrescentar dois autores res- ponsáveis pelos primeiros estudos sobre o negro no Brasil: o desenhista e arquiteto Manuel Raimundo Querino e o médico Raimundo Nina Rodrigues. Manuel Raimundo Querino, descendente de africanos, foi responsável por minuciosas descrições das tradições de origem africana, enquanto Nina Rodrigues deixou, em seu legado, contribuições acerca da diversidade de culturas trazidas pelos escravos e seus locais de origem na África. Contudo, aderiu às noções (comuns na época) de inferioridade e superioridade racial. No período inicial da antropologia no Brasil, havia grande interesse de pesquisadores alemães na população indígena. Houve vários, mas o primeiro e mais famoso foi Karl von den Steinen, que deixou a psiquiatria para se dedicar à etnologia por influência de Bastian. Karl von den Steinen, como destaca Melatti (1983, p. 8): “[...] em sua expedição de 1884 descobriu os grupos indígenas xinguanos e foi o primeiro a descer o rio Xingu desde seus formadores até a foz. Numa segunda expedição, de 1887 a 1888, voltou a visitar os xinguanos”. Há vários outros pesquisadores alemães, mas optamos por mencionar apenas Steinen, por ser o primeiro e o mais famoso. As preocupações evolucionistas e difusionistas foram abandonadas so- mente nas décadas de 1920 e 1930, no que se refere às pesquisas com índios. O número de pesquisadores alemães também vai diminuindo, mas a maioria Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 8
  • 10. dos pesquisadores continua sendo estrangeira, embora alguns acabem se estabelecendo no Brasil ou em países vizinhos. Entre esses pesquisadores de origem alemã e que se radicaram no Brasil, destaca-se Curt Nimuendajú, como mencionamos anteriormente, considerado o “pai da antropologia no Brasil”. Nimuendajú se destaca no estudo das sociedades indígenas devido à extensão de seu trabalho e, também, pela dedicação com que o realizou. Sua produção vai desde obras mais extensas sobre os Guarani, os Xerênte, os Canelas, os Apinayé e os Tukúna, até outros trabalhos acerca da língua, da mitologia, da história, de diversos grupos indígenas, além de um mapa etno-histórico dos índios do Brasil, com uma enorme lista de referências aos materiais consultados. A contribuição de Nimuendajú não ficou restrita à teoria. Quando era funcionário do Serviço de Proteção aos Índios (então recentemente criado), garantiu a fixação dos Guarani em reservas, no estado de São Paulo. Sua atuação como funcionário do Serviço lhe permitiu, ainda, atuar junto à atração dos índios Parintintin, sobre os quais elaborou um importante relatório — que, inclusive, foi tema do romance de Ferreira de Castro intitulado O instinto supremo. Nimuendajú se correspondia com o antropólogo Robert Lowie, nascido em Viena, mas radicado nos Estados Unidos. O diálogo com Lowie preencheu, em parte, as lacunas de sua formação acadêmica, mas a contribuição não foi apenas por meio da correspondência: Lowie traduziu e providenciou tra- duções para o inglês das principais monografias de Nimuendajú, chamando a atenção para a importância do estudo das sociedades Jê. Em sua autobio- grafia, mencionou a correspondência e intitulou o capítulo 9º de “Trabalho de campo realizado A distância”, o que talvez demostre sua influência no trabalho realizado por Nimuendajú. Além disso, é importante salientar a contribuição do trabalho etnográ- fico dos missionários salesianos nesse período: Antônio Colbacchini, César Albisetti e Ângelo Jayme Venturelli. Guardadas as devidas proporções, os trabalhos dos salesianos se aproximam daquele realizado por Nimuendajú, uma vez que demostram certo cuidado na descrição, preocupam-se com a organização social e evitam os antigos temas evolucionistas e difusionistas, ainda que não tivessem orientação teórica. Contudo, diferentemente de Nimuendajú, eles se concentraram no estudo dos Borôro e, por conta de seu trabalho confessional, por meio da catequese, eram atores de mudança social, intervindo e alterando crenças e costumes. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 9
  • 11. Antropologia no Brasil: dos anos 1930 aos anos 1960 Esse período tem seu início marcado pela criação da primeira Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Brasil, na também recém-criada Universidade de São Paulo (1934). Na mesma época, nasce a primeira Escola de Sociologia e Política. A partir da criação da Universidade, houve a necessidade de con- tratação de professores da área, até então não existente no Brasil, motivo pelo qual foram contratados professores estrangeiros. Nesse sentido, Melatti (1983, p. 11) afirma: Para fazer frente à necessidade de professores, foram contratados vários mestres estrangeiros. Desse modo, Roger Bastide, Emílio Willems, Claude Lévi-Strauss passaram a trabalhar na primeira, enquanto Herbert Baldus, Donald Pierson, na segunda, onde esteve como professor visitante, por breve período durante a Segunda Guerra Mundial, Radcliffe-Brown. Também no Rio de Janeiro criava-se a Universidade do Distrito Federal, onde Gilberto Freyre assumiu em 1935, como seu primeiro professor, a cátedra de Antropologia Social e Cultural; ocupou também a cátedra de Sociologia, enquanto Arthur Ramos ficava com a de Psicologia Social. Segundo Mariza Corrêa (2013, p. 43), é importante considerar que: Fora do eixo central do país, em regiões onde as Faculdades de Filosofia se instala- riam mais tarde, seguindo aqueles modelos, e dependendo da região, a concentração daqueles que seriam depois definidos ou reconhecidos como antropólogos estava em torno de um museu (caso do Museu Paraense Emilio Goeldi, por exemplo, de tradição antiga), de um personagem (como Gilberto Freyre, já nessa época perso- nagem nacional em Pernambuco), ou de um “movimento” (o da defesa do folclore, de Câmara Cascudo, em Natal, ou os Congressos Afro-Brasileiros, no Recife, em 1934, organizado por Gilberto Freyre, e na Bahia, em 1937, organizado por Édison Carneiro). Que essas instituições, pessoas ou grupos eram os pontos de referência de uma território antropológico implicitamente reconhecido são testemunhos os depoimentos daqueles que vinham de fora dele, como os antropólogos estrangeiros, ou os antropólogos nativos em sua circulação interna: esses pontos, mencionados por todos, vão assim desenhando o perfil de um grupo que se reconhecia, ainda que não se definisse explicitamente como tal, nos anos trinta e quarenta. A maioria dos professores de São Paulo vinha da Europa, mas a maior influência nas pesquisas e nos estudos era norte-americana. Nesse período, havia um profundo interesse norte-americano pelos países da América Latina, entre eles o Brasil. Tal influência se dava não apenas pelos docentes que aqui ministravam, mas também pela presença dos primeiros pesquisadores Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 10
  • 12. norte-americanos, cujo objeto de estudo eram as sociedades indígenas, as religiões afro-brasileiras ou pequenas comunidades, e por conta dos jovens brasileiros que iam estudar nos Estados Unidos. Em 1941, foi fundada a Sociedade Brasileira de Antropologia e Etno- logia, cujo primeiro presidente foi Arthur Ramos. Em 1942, publicou um Manifesto contra o racismo. Em 1955, a Sociedade deu lugar à Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Florestan Fernandes (1956) nos apresenta uma excelente avaliação acerca do desenvolvimento da etnologia durante este período. Para conhecer a obra e a contribuição de Florestan Fernandes, sociólogo e educador brasileiro, autor de duas excelentes mono- grafias sobre os Tupinambás, povo indígena extinto no século XVII, e de um relato sobre a importância social dos relatos dos cronistas, acesse o volume da Coleção Educadores cujo título leva seu nome e está disponível no site Domínio Público. Segundo Cardoso de Oliveira (1988), Nimuendajú (na etnologia indígena) e Gilberto Freyre (na Antropologia da Sociedade Nacional) desempenharam seus papéis como “heróis civilizadores”: Tanto um quanto o outro se utilizaram amplamente do conceito de Cultura: Curt Nimuendajú pela importância que teve, em seu trabalho, Robert Lowie; Gilberto Freyre por seus estudos de pós-graduação na Columbia University. Embora exis- tam, com certeza, outros nomes nesses períodos, nenhum deixou uma obra com o impacto das obras de Nimuendajú e Freyre. O impacto deixado pelas obras destes autores, nos permite dizer que "a partir delas a disciplina antropológica entre nós, nas duas tradições que me referi, teria se firmado de maneira irreversível (CARDOSO DE OLIVEIRA, 1988, p. 112). Contudo, se o período no qual se inserem Nimuendajú e Freyre, segundo Cardoso de Oliveira (1988) pode ser considerado o que ele chama de “Período Heroico”, o período em que se insere Darcy Ribeiro é chamado de “Período Carismático”. É importante esclarecer que a divisão e a classificação da his- tória da antropologia do Brasil são realizadas por Cardoso de Oliveira (1988), segundo as categorias de cultura e estrutura (Quadro 2). Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 11
  • 13. Quadro 2. Fases históricas da disciplina (1920–1950) Categorias/ tradições Etnologia indígena Antropologia da Sociedade Nacional Cultura „ „ Período Heroico: Nimuendajú „ „ Período Carismático: Darcy Ribeiro (Cultural funcionalismo) „ „ Período Heroico: Gilberto Freyre „ „ Período Carismático: Charles Wagley (Cultural histórico) Estrutura Período Carismático: Florestan Fernandes (Estrutural funcionalismo) Período Carismático: D. Pierson (Sociologismo funcionalista) Fonte: Adaptado de Cardoso de Oliveira (1988). Foi entre os anos 1930 e 1960 que se desenvolveram os estudos acerca das interpretações gerais do Brasil e os estudos de mudança social, cultural e/ou aculturação, e quando houve a predominância do funcionalismo no estudo das culturas e sociedades indígenas. Durante as décadas de 1940 e 1950, foram realizados os chamados estudos de comunidade, nos quais se realiza a observação direta de pequenas cidades ou vilas, utilizando as técnicas desenvolvidas pela etnologia no estudo das sociedades tribais. Houve, ainda, a abordagem funcionalista do folclore. Entre os vários trabalhos, destacam-se aqueles realizados por Florestan Fernandes e a pes- quisa de Cristina Argenton Colonelli, cuja bibliografia arrolou cerca de 4.919 trabalhos sobre o folclore brasileiro (MELATTI, 1983). Salienta-se a importância de Gilberto Freyre, Florestan Fernandes, Sérgio Buarque de Holanda e Roberto DaMatta para a antropologia no Brasil, mas suas contribuições serão abordadas na seção seguinte, em que vamos falar da identidade brasileira e da antropologia a partir dos anos 1960. A construção da identidade brasileira na imensa diversidade cultural e geográfica do País Anteriormente, a cultura foi mencionada como uma das categorias inves- tigadas pelos antropólogos, ou seja, como um dos objetos de estudo da antropologia. Antes de falarmos da identidade brasileira e de sua diversidade cultural, cabe aclarar o conceito de cultura. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 12
  • 14. A cultura engloba o comportamento habitual e as crenças que são passadas por meio da enculturação. É baseada na capacidade humana de aprendiza- gem cultural e inclui regras de conduta internalizadas pelos seres humanos. Outros animais aprendem, mas somente os seres humanos têm aprendizagem cultural, que depende de símbolos. Ela possui aspectos tangíveis (objetos e símbolos) e intangíveis (ideias e normas), e é uma das principais, se não a principal, característica da identidade de um povo (KOTTAK, 2013). Pode haver diferença entre as culturas? Sim, a diferença entre culturas se dá pelos elementos que a constituem e compõem o conceito de identidade cultural. A enculturação é o processo pelo qual uma criança aprende sua cultura. A enculturação informal vem da família e de amigos, en- quanto a enculturação formal vem da escola. A cultura é apreendida por meio dos processos de socialização, com agentes de socialização, e os processos primários são realizados pelas instituições: família, escola e instituição religiosa. Por sua vez, a endoculturação é um processo de aprendizagem no meio da cultura em que se vive, de modo que, consciente ou inconscientemente, o indivíduo (ou grupo social) apreende e incorpora os elementos culturais pertinentes (MARCONI, 2010). Compreendido o conceito de cultura e sua importância, cabe definir iden- tidade. Acerca da identidade, Barroso (2017a, p. 70–71, grifo nosso) afirma o seguinte: A identidade se refere a como você é identificado em uma determinada cultura, ou seja, apresenta suas características em termos do seu relacionamento no mundo. Deste modo, você é percebido pelos outros a partir dos elementos culturais que manifesta ao mundo, e, por isso, você é reconhecido. Assim, não é sempre que temos o controle sobre como as pessoas nos rotulam. Podemos dizer que esses rótulos são dados a partir de características as quais os outros reconhecem em nós. Muitos antropólogos brasileiros contribuíram para a compreensão e a caracterização da identidade brasileira, tanto para a forma como é compre- endida no Brasil quanto para a forma como é vista por estrangeiros. Seus estudos acabam, muitas vezes, por abordar a nossa identidade. Nesse sentido, destaca-se o estudo de Roberto DaMatta intitulado “O que faz o brasil, Brasil?” (1986). Nessa obra, DaMatta nos apresenta a nós mesmos e aos outros por meio de nossas festas populares, nossas manifestações religiosas, nossa literatura e arte, enfim: tudo aquilo que nos é próprio e capaz de definir nossa identidade nacional, apesar da absurda diversidade cultural do Brasil. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 13
  • 15. Vejamos um pequeno excerto de sua obra, em que menciona como sabe que é brasileiro, reunindo várias características de nosso povo e retratando nossa diversidade cultural (DAMATTA, 1986, p. 16): Sei, então, que sou brasileiro e não norte-americano, porque gosto de comer feijoada e não hamburguer; porque sou menos receptivo a coisas de outros pa- íses, sobretudo costumes e ideias; porque tenho um agudo sentido de ridículo para roupas, gestos e relações sociais; porque vivo no Rio de Janeiro e não em Nova York; porque falo português e não inglês; porque, ouvindo música popular, sei distinguir imediatamente um frevo de um samba; porque futebol para mim é um jogo que se pratica com os pés e não com as mãos; porque vou à praia para ver e conversar com os amigos, ver as mulheres e tomar sol, jamais para praticar um esporte; porque sei que no carnaval trago à tona minhas fantasias sociais e sexuais; porque sei que não existe jamais um “não” diante de situações formais e que todas admitem um “jeitinho” pela relação pessoal e pela amizade; porque entendo que ficar malandramente “em cima do muro” é algo honesto, necessário e prático no caso do meu sistema; porque acredito em santos católicos e também nos orixás africanos; porque sei que existe destino e, no entanto, tenho fé no estudo, na instrução e no futuro do Brasil; porque sou leal a meus amigos e nada posso negar a minha família; porque, finalmente, sei que tenho relações que não me deixam caminhar sozinho neste mundo, como fazem meus amigos americanos, que sempre se veem e existem como indivíduos! Quando um índio utiliza elementos linguísticos e culturais de outra cultura para se expressar, por qual processo cultural podemos dizer que ele passou? Sem dúvida, é possível afirmar que ele passou por um processo de mudança cultural, que ocorre a partir da difusão (empréstimo) de traços entre culturas. Ela pode ser direta (espontânea) ou forçada, dependendo da situação. Esse processo é chamado, pelos antropólogos, de aculturação, e se trata do intercâmbio permanente de traços culturais entre grupos em contato contínuo. Cabe observar, porém, que os olhares dos antropólogos se voltaram para a sociedade brasileira muito antes de DaMatta. Uma das mais famosas obras de interpretação do Brasil é Casa grande e senzala, de Gilberto Freyre (embora tenha sido responsável por disseminar a falsa ideia de que havia democracia racial no Brasil). Além desse livro, outras importantes obras publicadas foram Sobrados e mocambos (1936) e Ordem e progresso (1959), fora uma série de trabalhos paralelos. Entre os temas abordados em suas obras, estão a família patriarcal e o Nordeste. Sobre Casa grande e senzala e o mito da democracia racial, cabe ressaltar que: Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 14
  • 16. Como o povo brasileiro era composto por povos oriundos de três origens distintas — indígenas, europeus e africanos —, muitos estrangeiros acessavam informações da relação entre esses povos a partir da produção da literatura brasileira sobre o assunto. E um dos livros de referência foi a obra Casa Grande e senzala, do sociólogo Gilberto Freyre. Ali, ele apresentou o negro escravizado desfrutando de certo conforto material, beneficiando-se de regalias e até sendo visto como pessoa de confiança dos senhores e das sinhás. Portanto, esse livro deixou de lado os horrores do trabalho compulsório e da relação de submissão dos escravizados, fazendo crer que houvesse uma miscigenação generalizada, tranquila e natural entre os índios, brancos e negros. Assim, foi interpretado que, no Brasil, havia uma democracia racial. ainda que o autor não tenha dito com essas palavras, como se as pessoas de diferentes origens fossem tratadas e percebidas da mesma forma (BARROSO, 2017a, p. 82). Segundo Melatti (1983, p. 12-13, grifo nosso), “[...] como interpretação do Brasil, também é de grande importância o pequeno livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil [...], de âmbito mais vasto e publicado original- mente em francês em 1960”. Ainda no que se refere à diversidade cultural do povo brasileiro, é ne- cessário mencionar que os processos culturais são vivenciados em todos os âmbitos sociais, são dinâmicos, possibilitam trocas sociais e podem ocorrer de modo concomitante. Sobre isso: O antropólogo Roberto Da Matta (1987) nos lembra que a sociedade brasileira é relacional, pois nela se concretiza a síntese de modelos advindos de diferentes sociedades. A tríade majoritária que compôs a base da sociedade brasileira — os indígenas, os europeus e os africanos — compartilhou, de forma mais tensa ou me- nos tensa, crenças, valores, hábitos, gostos, sentidos, pensamentos que resultaram em novas manifestações culturais. Um deles é o candomblé. Essa é uma religião que foi trazida com os negros escravizados no Brasil, e, sendo o país colonizado por portugueses católicos, as práticas religiosas do Candomblé eram reprimidas. Assim, seus praticantes, em seus ritos religiosos, disfarçavam a devoção aos seus deuses se direcionando aos santos da religião católica. Com o tempo, essa reli- gião foi contraindo características próprias e seus elementos rituais englobaram aspectos da cultura caipira e da cultura indígena (BARROSO et al., 2017b, p. 64). Portanto, no Brasil, a fé também ocupa um importante papel identitário. Assim, o processo descrito por Barroso et al. (2017b) é um processo cultural bastante comum em nosso País e que, em certa medida, acaba por nos definir como sociedade brasileira: o sincretismo, ou seja, a reunião de doutrinas diferentes, com a manutenção de traços perceptíveis das doutrinas origi- nais. Esse processo cultural se dá a partir do imbricamento de diferentes elementos culturais no âmbito religioso e se torna característico no Brasil, por sua diversidade cultural. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 15
  • 17. Referências BARROSO, P. F. Cultura e identidade brasileira. In: BARROSO, P. F.; BONETE, W. J.; QUEIROZ, R. Q. de M. Antropologia e cultura. Porto Alegre: Sagah, 2017a. p. 69–78. BARROSO, P. F.; BONETE, W. J.; QUEIROZ, R. Q. de M. Antropologia e cultura. Porto Alegre: Sagah, 2017b. CARDOSO DE OLIVEIRA, R. O que é isso que chamamos de antropologia brasileira? In: ________________. Sobre o pensamento antropológico. Rio de Janeiro/Brasília: Tempo Brasileiro/CNPQ, 1988. p. 109–129. (Biblioteca Tempo Universidade, 83). CORRÊA, M. Traficantes do excêntrico. In: ___________. Traficantes do simbólico & outros ensaios sobre a história da antropologia. Campinas: Unicamp, 2013. p. 15–34. DAMATTA, R. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro: Rocco, 1986. KOTTAK, C. P. Um espelho para a humanidade: uma introdução à antropologia cultural. 8. ed. Porto Alegre: AMGH, 2013. MARCONI, M. de A.; PRESOTTO, Z. M. N. Antropologia: uma introdução. 7. ed. São Paulo: Atlas, 2010. MELATTI, J. C. A antropologia no Brasil: um roteiro. Brasília: UNB, 1983. (Série Antropologia). Leitura recomendada OLIVEIRA, M. M. de. Florestan Fernandes. Recife: Massangana, 2010. (Coleção Educadores). Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu funcionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Antropologia no Brasil: construção da identidade brasileira 16