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UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA
         DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV
                LICENCIATURA EM HISTÓRIA




 A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nas
manifestações culturais do município de São Domingos na década
                            de 1990.




        Campo de sisal, Fazenda Riacho do Cedro no município de São Domingos – BA.




                          Iracema Lopes Alves


                                 Conceição do Coité
                                       2010
2



                    Iracema Lopes Alves




 A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nas
manifestações culturais do município de São Domingos na década
                            de 1990.




                                     Monografia apresentada a Universidade
                                     do Estado da Bahia – Campus XIV como
                                     requisito parcial para obtenção do título
                                     de graduado em Licenciatura em História
                                     sob a orientação do professor Aldo José
                                     Morais Silva.




                        Conceição do Coité
                              2010
3



                                 AGRADECIMENTOS



     À minha família que contribui decisivamente na minha formação acadêmica e pelo
aprendizado que me ensinaram e que levo pra toda a vida.
     Ao meu noivo Edigenildo que esteve ao meu lado em todas as etapas da pesquisa de
campo, e pela força e incentivo dado nos momentos mais difíceis na realização do trabalho.
     Aos meus colegas da turma de Licenciatura em História de 2006.1 do campus XIV da
UNEB que contribuíram significativamente nessa longa jornada de estudos e aprendizados,
pela qual passamos nesse período em que estivemos juntos. Em especial, a Vera Lúcia, Iara e
Milene parceiras de todas as horas que iniciaram comigo o projeto de pesquisa, o qual
originou o presente estudo.
     Agradeço também a todos os professores que ao longo desses anos nos proporcionaram
aprendizados que serão levados por toda a vida. Em especial, a Aldo José Moraes pela
orientação e pela força dada para que esse trabalho viesse a ser concebido.
     Ainda sou grata a Milena e muitas outras pessoas que me estimularam, apoiaram e
encorajaram na realização desse trabalho.
     Por fim, agradeço a todas as pessoas que mediante seus depoimentos proporcionaram a
concretização desse trabalho com suas histórias de vida, compartilhadas e revividas nos
momentos da pesquisa.
4




                   Eu sou da região esquecida
    Onde homens de fibra sobrevivem da fibra
     Onde o signo de libra a balança não pesa
          Onde o arco-íris é do povo que reza
       A semente e a terra com rara harmonia
             O calor e seu uso uma arma letal
          O falo: divisor de fronteiras da ação
     Velhas de anágua e meninas de minissaia
Garotos de boné e homem de chapéu de palha
As tradições curvam-se agora mais que nunca
                 Mais o suor ainda é o mesmo
                                           (...)


          Moséis Neto, Poema “O sisaleiro”.
5



                                        RESUMO


Este estudo busca entender como a rotina de trabalho de sisaleiros se expressa em suas
manifestações culturais no município de São Domingos, cujas transformações e adaptações
foram mais acentuadas na década de 1990. Período este, que ocorreu várias mudanças na
sisalicultura e consequentemente causou um impacto nos costumes e modo de vida de muitos
trabalhadores e trabalhadoras rurais que sobreviviam dessa atividade econômica. Inicialmente,
exponho a chegada do agave no país até a sua introdução no semi-árido baiano. Após a
contextualização desse vegetal na região, abordo os diversos sentidos que foram atribuídos ao
termo sertão, bem como a construção de uma imaginada comunidade do sisal e a importância
que as canções populares possuem na vida dos sertanejos/nordestinos. E, finalizo o trabalho
com a análise de músicas, das manifestações em estudo, presentes tanto no local de trabalho
como nos ambientes de festas e lazer dos sisaleiros e sisaleiras são-dominguenses.

Palavras-chave: manifestações culturais – trabalho – sisal – São Domingos.
6



                                        ABSTRACT

This study search to understand as the routine of sisaleiros work it is expressed in your
cultural manifestation in the municipal district of São Domingos, whose transformations and
adaptations were more accentuated in the decade of 1990. Period this, that happened several
changes in the sisalicultura end consequently it caused an impact in the habits and way of
many workers that survived of that economical activity. Initially, I expose the arrival of the
agave in the country until your introduction in the semi-arid baiano. After a contextualização
on the plant of the area, I approach the several senses that were attributed to the term interior,
as well as an imagined community‟s of the sisal construction and the importance that the
popular songs possess in the life of the setanejos/nordetinos. I conclude the work with it
analyzes of music, of the manifestations in study, presents so much in the work places as in
the atmospheres of parties and leisure of the sisaleiros and sisaleiras sãodomiguense.

Key words: cultural manifestations – work – sisal – São Domingos.
7



                                                   SUMÁRIO



INTRODUÇÃO .......................................................................................................9

CAPÍTULO I – Panorama Socioeconômico da Sisalicultura
no Nordeste Baiano ................................................................................................14
1.1 Histórico sobre a cultura do sisal ......................................................................... 14
1.1 As relações sociais de produção no coração da sisalândia ........................................17
1.2 As influências do capital externo na economia sisaleira .......................................... 23
1.3 Fibras de agave: cordas do progresso ................................................................... 25


CAPÍTULO II – Manifestações artísticas e musicais ................................................ 28
no sertão nordestino.

1.1 Cultura popular nos sertões do Brasil .................................................................... 28
1.3 O sertão como lugar ........................................................................................... 33
1.4 As canções musicais na vida do sertanejo .............................................................. 37
1.5 Cultura e identidade regional no semi-árido baiano ................................................. 38
CAPÍTULO III – Sisal e Sociedade Rural:
Manifestações Culturais no Território do Sisal ........................................................ 45
1.1 A música popular no cotidiano do sisaleiro ........................................................... 45
1.2 Grupos de Reisados no município de São Domingos .............................................. 54
1.3 Cantadeiras de roda ...........................................................................................63
1.4 Entre rezas e brincadeiras ................................................................................... 69
1.5 Perdas ou permanências? ................................................................................... 72


CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 77

REFERÊNCIAS ....................................................................................................80

FONTES .............................................................................................................. 84

ANEXOS .............................................................................................................. 85
8



                                      INTRODUÇÃO


     O agave no Nordeste Baiano tornou-se símbolo de sobrevivência para muitas famílias
que não possuíam alternativa de emprego. A partir da década de 1940 com sua exuberância na
paisagem local, atraia muitos olhares e expectativas de dias melhores para a população de um
modo geral, pois o “verde do agave” seduzia, quebrando a rotina da paisagem local marcada
por vegetais acinzentados e retorcidos. Todavia, a sisalicultura não trouxe somente esperança
e prosperidade para a região, também se mostrou agressiva nas condições de trabalho e
alterou profundamente o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras rurais.
     Dessa forma, o propósito desse estudo consiste em compreender como a rotina de
trabalho dos sisaleiros se expressa em suas manifestações culturais no município de São
Domingos. Como teria originado essas manifestações no ambiente de trabalho? Por que os
lavradores tentavam veemente transmitir seus costumes nessas expressões culturais? Como
essas manifestações resistiram e/ou transformaram-se ao longo do tempo nos campos do
município? Enfim, como essas canções populares retratam os costumes de trabalhadores
rurais das comunidades em estudo?
     Para estudar os significados que os sisaleiros e sisaleiras atribuíram ás manifestações e às
experiências no trabalho com o agave, utilizei fontes impressas e orais. Com relação aos
documentos escritos consultei o jornal “Folha do sisal”, editado pela APAEB, a revista
“Territórios rurais” e as Atas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Agricultura Familiar
de São Domingos (SINTRAF). Assim, no primeiro momento procurei informações e dados
sobre as condições e relações de trabalho da sisalicultura no município.
     No que diz respeito às fontes orais, busquei conversar com pessoas que possuíam uma
experiência de muito tempo nos campos de sisal e que tivessem vivido na época do auge das
manifestações culturais no setor rural de São Domingos. Pois, este fator era primordial para
realização do estudo da temática referente à década de 1990.
     Usei principalmente os registros orais porque os considero fundamentais para a
elaboração do discurso historiográfico. Heródoto, considerado o pai da história, já reconhecia
a importância de ouvir as pessoas que vivenciaram os fatos narrados. Contudo, este
procedimento gerou críticas mesmo entre historiadores gregos e, no mundo moderno, os
positivistas denunciavam a subjetividade na construção do conhecimento.
     Essa discussão - objetividade/subjetividade – ainda permanece nos debates acadêmicos.
Para Nunes “a pretensa vontade de traduzir o passado para o presente, realimentada no mundo
9



moderno pelo mito da razão e da comprovação, possibilitou que as fontes orais fossem
desqualificadas enquanto documentos”. Ela ainda comenta que “delimitaram-se as fronteiras e
se     estabeleceram       as     dicotomias:       objetividade/subjetividade,         verdade/mentira,
ficção/realidade”.1
     Diante disso, foi a partir dos Annales que a noção tradicional de documento passou a ser
questionada, apontando para a inexistência de hierarquias entre as fontes, sejam escritas ou
orais, o que permitiu que a história oral readquirisse o status de documento no discurso
historiográfico.
     Além do interesse pessoal por este tema, percebe-se ainda a sua importância para a
historiografia local, pois existem poucos textos sobre este assunto no referido município e
região. Tais trabalhos, comumente, foram produzidos por economistas como Humberto
Miranda do Nascimento, cuja sua preocupação foi a de estudar a formação e atuação da
Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) e muito
particularmente as estratégias de convivência com o semi-árido baiano. 2
     Outra obra de grande significância para compreensão da agaveicultura no Nordeste
Baiano é o livro “O sisal baiano: entre a Natureza e Sociedade: uma visão multidisciplinar”,
organizado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, e o livro de José Filho Ramos,
“Sisal: sua história entre nós”, imprescindíveis para a realização de estudos sobre o sisal na
Bahia. Embora algumas dessas obras busquem um diálogo com a história social, nota-se que,
de um modo geral, estas abordagens enfatizam mais os aspectos produtivos, não priorizando
itens relacionados à cultura dos trabalhadores, ás suas experiências cotidianas, enfim, as
expressões culturais nesses ambientes. “Uma história de baixo para cima”, como escreveu
Eric Hobsbawm. 3 Ressaltando os costumes de sujeitos ocultos, cujas histórias não aparecem
apenas como fragmentos de vidas em si mesmas, mas em uma trama ampla: as histórias dos
homens e mulheres interligados às cordas do agave e ao grande emaranhado de costumes
expressos diariamente e perpetuados por gerações.
     Assim, realizo os estudos presentes neste trabalho dentro de uma perspectiva cultural da
história social. Desse modo, em uma área muito ampla fazem-se necessário expor alguns
teóricos que auxiliaram no desenvolvimento dessa investigação. Peter Burke, ao falar sobre


1
  NUNES, Mariângela de Vasconcelos. Entre o capa verde e a redenção: A cultura do trabalho com o agave no
Cariris Velhos (1937-1966, Paraíba). Universidade de Brasília – UNB. Programa de Pós-Graduação em História,
Brasília, 2006, p. 27.
2
  NASCIMENTO, Humberto Miranda do. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA.. São
Paulo: Annablume, 2003, p.35.
3
  HOBSBAWN, Eric. Sobre História. São Paulo; Companhia das Letras, 1998, p.216.
10



cultura, resume que esta por sua vez só pode ser definida em termos da nossa própria cultura. 4
O fato é que o conceito de cultura vem mudando ao longo do tempo. Para os historiadores, o
termo cultura, no século XIX, estava ligado à arte, à literatura, às idéias e aos sentimentos.
Tratava-se de uma definição extremamente elitista desta categoria. Portanto, a idéia de cultura
era extremamente restrita e baseada na noção de alta cultura, assim, sendo desprezada a
cultura dos grupos subalternos.
     No entanto, Nunes comenta que “esta corrente sofreu severas críticas, pois ela não só
ignorava a produção cultural dos segmentos sócio-economicamente mais frágeis como
também não dialogava com a cena econômica-política-social na qual estava inserida a
cultura”. 5 O historiador Edward Thompson, no século passado, apresentou outro conceito de
cultura, no qual a definiu como um conjunto de ações que constituem o cotidiano, as
experiências dos sujeitos, ressaltando o seu papel na história, as suas vivências. 6
     Nas últimas décadas do século XX, uma nova dimensão de história cultural foi
consolidada ficando conhecido como “nova história cultural”, cujo objetivo é compreender o
sentido que os homens, em diferentes momentos atribuíram, ao mundo, como disse o
historiador Roger Chartier: “A História Cultural, tal como a entendemos, tem como principal
objeto identificar no mundo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinada
realidade social é construída, pensada, dada a ler”.7 Esta vertente se aproxima da antropologia.
Tal aliança baseou-se na incorporação, por parte dos historiadores, da dimensão simbólica.
     Assim como os antropólogos, os historiadores começaram a se referir à cultura no plural,
atacando a noção de hierarquização cultural. Ademais, o contato com aqueles possibilitou
uma redefinição do significado de cultura, que passou a ser entendida de uma forma mais
ampla, como disse Peter Burke:


                            Em outras palavras, estendeu-se o sentido do termo para abranger uma variedade
                            muito ampla de atitudes do que antes não apenas a arte mas a cultura material, não
                            apenas a escrita, mas a oral, não apenas o drama mas o ritual, não apenas a filosofia
                                                                       8
                            mas as mentalidades das pessoas comuns.




4
  BURKE, Peter. Variedades da história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p.13.
5
  NUNES, op. cit.,2006, p. 18.
6
  THOMPSON apud NUNES, ibdem, p.18.
7
  CHARTIER, Roger. A história cultural, entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro:
Betrand, 1982.
8
  BURKE,. op. cit., 2000, p.13.
11



       Graças a este diálogo, os historiadores também aprenderam a valorizar o uso da memória
como interpretação do passado. O recurso da memória ainda nos permite ultrapassar as
fronteiras do individual, adentrando assim em um território amplo, como destacou Maurice
Halbawachs:


                           É necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou noções comuns
                           que se encontrem tanto no nosso espírito como nos dos outros, porque elas passam
                           incessantemente destes para aqueles e reciprocamente, o que só é possível se
                           fizerem e continuarem a fazer parte de uma mesma sociedade. Somente assim,
                           podemos compreender que uma lembrança passa a ser, ao mesmo tempo,
                           reconhecida e reconstruída. 9




       Nesta compreensão, foi possível, a partir das memórias individuais, entender como os
trabalhadores rurais se organizavam cotidianamente, como e quando realizavam as
manifestações culturais na comunidade, como viviam suas frustrações, alegrias, enfim, se
integravam às rodas da história.
       Sendo assim, proponho analisar a representação das experiências sociais dos sisaleiros
através das suas manifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990.
Este trabalho consta três capítulos.
       No primeiro, estudei a vida dos trabalhadores rurais no referido município, com a
introdução do sisal na região, mostrando como viviam os lavradores, como organizavam seu
trabalho e seu cotidiano, fornecendo assim, paisagens históricas da região sisaleira e da cidade
em estudo, que serviram para iluminar a compreensão dos capítulos seguintes.
       No segundo capítulo, trato do significado que ao longo do tempo foi sendo atribuído ao
termo sertão. E mais especificamente aos significados e olhares que se direcionavam para o
sertão nordestino. Além disso, abordo a imagem que foi construída por muito tempo a
respeito do semi-árido baiano e, após o desenvolvimento da agaveicultura e a conseqüente
construção de uma imaginada comunidade do sisal. Exponho, também, brevemente a
significância que as canções musicais possuem na vida do sertanejo.
       Já no terceiro capítulo, trabalhei com as manifestações culturais presentes na vida dos
sisaleiros e sisaleiras no Território do Sisal e, especialmente, em São Domingos. Nessa etapa,
pode-se entender o cotidiano dessas pessoas que expressam nas “rezas e brincadeiras”, os
costumes e o cotidiano de trabalho como forma de resistência à situação que lhes era imposta.



9
    HALBAWACHS apud NUNES, op. cit., 2006, p.20.
12



     Delimitei como marco temporal a década de 1990 em virtude das bruscas mudanças que
ocorreram no manejo com o sisal, bem como as constantes flutuações de preço no mercado
interno e externo. Todavia, o que mais pesou nessa escolha foram as intensas transformações
ocorridas nas manifestações, na área rural, nesse período em relação às décadas anteriores.
     Portanto, como afirma Ecléa Bosi: “feliz o pesquisador que se pode amparar em
                                                                                                    10
testemunhos vivos e reconstituir comportamentos e sensibilidades de uma época!”.                         Sendo
assim, o conhecimento pautado na oralidade nos proporciona hoje ter acesso às lembranças
destes indivíduos que em suas narrativas nos ensinam sobre os festejos que envolvem:
músicas, danças, trabalho, alegria, distração... Enfim, são costumes herdados de longas
gerações e/ou reelaborados dentro de um novo contexto histórico.




10
  BOSI, Ecléa. O Tempo vivo da Memória; ensaios de psicologia social. 2º ed. São Paulo: Ateliê editorial, 2004,
p.16-17.
13



CAPÍTULO                I       –       PANORAMA                    SOCIOECONÔMICO                             DA
SISALICULTURA NO NORDESTE BAIANO.

                                                                      O sisal representa um recurso perfeitamente
                                                             adaptado às condições climáticas do semi-árido e de
                                                               difícil substituição, já que a cultura se constitui na
                                                             maior fonte de produção e de subsistência da região.

                                                                                     Maria Auxiliadora da Silva


      Neste capítulo encontra-se um panorama geral da introdução da sisalicultura no Brasil e
na Bahia. Logo após, trato das relações de trabalho e as condições de vida dos sisaleiros, bem
como as crises cíclicas do agave e sua expansão na área de estudo, principalmente na década
de 1990. Posteriormente, retrato algumas possibilidades de convivência com o semi-árido e
transformações socioprodutivas na região sisaleira.


1.1 Histórico sobre a cultura do sisal


      O sisal (Agave Sisalana) 11 é uma planta originária de península de Yucatan, no México.
As várias espécies dessa planta foram usadas pelos índios em fabricação de objetos
domésticos e de bebidas alcoólicas, tais como a tequila, o pulque e o mexical. Dessa forma,
esse vegetal caracteriza-se como resistente à seca, e por isso que no Nordeste encontrou lugar
propicio para a sua implantação. Por ter sido bem adaptada à região semi-árida era
considerada como uma planta nativa.
                                       12
      Benedita Pereira Andrade              , em trabalho de síntese sobre a implantação do sisal na
Bahia informa que as primeiras mudas foram trazidas da Flórida (EUA) pelo industrial
Horácio Urpia Junior no começo do século, precisamente em 1903. Nesse mesmo ano,
algumas mudas foram levadas para a Bahia principalmente por sua beleza e sua utilidade para
fazer cercas que impedia o gado de alcançar as plantações. Das mudas que chegaram ao
território baiano, algumas foram enviadas para a Paraíba em 1911, e foi nesse estado que, a


11
   O agave (que vem do grego agavos = magnífico admirável) é um gênero de plantas de consistência herbácea e
escapo floral saliente, que dá origem a várias espécies fibrosas, entre elas o sisal, que é uma fibra dura foliar.
Alias, há somente o conhecimento de duas espécies de Agave com valor comercial: a sisalana e a foucroydes.
Quando menciono à denominação genérica “sisal”, estarei falando da espécie sisalana.
12
   ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e Sociedade Rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia. In: LAJES,
Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e
sociedade: uma visão interdisciplinar. Salvador: UFBA _ Instituto de Geociência, 2002, p. 71-74.
.
14



partir de 1937, o sisal passou a ser cultivado com finalidade econômica, enquanto na Bahia,
isso ocorreu em 1939/1940, trinta e seis anos após a iniciativa pioneira de Horácio Urpia.
      No nordeste baiano, o sisal obteve maior produtividade em virtude do clima e solo
favorável ao cultivo, distribuindo-se especialmente por 20 municípios que posteriormente
passam a integrar o Território do Sisal. Voltado, sobretudo para a exportação, após passar por
um beneficiamento, o sisal, pouco a pouco, tornou-se a atividade econômica da região.
“Disseminaram-se assim as primeiras sementeiras do „Agave Sisalana‟ sem que Pacífico e os
demais roceiros conhecessem as legítimas riquezas da variedade botânica que aparecia nos
sertões”. 13
      Esse vegetal começa a ser cultivado em Valente na década de 1920, sendo este município
pertencente, na época, a cidade de Conceição do Coité. O Sr. Pacifico José dos Santos foi o
pioneiro na plantação de agave na região, mas, inicialmente a sua utilidade era apenas como
adorno ou com finalidade de servir de cerca para separar as propriedade e guardar os
animais.14
      A partir disso, ocorre uma progressiva ampliação desse plantio na região e,
consequentemente o beneficiamento da fibra do sisal para a fabricação de diversos produtos,
sendo estes exportados até mesmo para fora do país. Diante da falta de emprego que atingia
grande parte da população, fazia-se necessário o cultivo de uma lavoura permanente e que
resistisse às inclemências das secas.
      No final da década de 1930 e início de 1940 houve por parte do governo estímulos
iniciais para o cultivo do sisal, o qual se espalhou pelas terras semi-áridas do país. O
Ministério da Agricultura e do governo do Estado ofereciam prêmios para os maiores
plantadores e beneficiadores, essas atitudes contribuíram significativamente para o aumento
das áreas plantadas. “Em poucos anos, as plantações chegaram até perto do rancho.
Expulsando a hortinha, as galinhas e a mandioca”. 15
     No entanto, com esses estímulos iniciais a produção ficou nas mãos de pequenos e médios
produtores, e o governo ausentou-se do apoio esperado para a experimentação e pesquisa com
a planta. Além disso, concessão de créditos para a lavoura era praticamente inexistente.
Nenhuma tecnologia foi oferecida aos agricultores para compensar o seu esforço. Para extrair
a fibra, o sertanejo recorreu a sua capacidade criativa: inventou o farracho, instrumento
rústico, rudimentar, que faz lembrar o tempo da pedra lascada, mas que serviu para os


13
   RAMOS, José Filho. Sisal: sua história entre nós. Salvador: S.A. Artes Gráficas, 1965, p. 11.
14
   GALVÃO, Almiro. Valente, estrela do Semi-Árido. Valente, abril, 2004, p. 15-16.
15
   LIMA, Jorge Pinto. Correio Rural. São Paulo, 1952, p. 50.
15



primeiros desfibramentos, até que foi substituída pelas máquinas atuais, apelidadas de
paraibanas, dada sua origem, as quais têm decepado dedos e mãos dos operadores, gerando a
triste multidão dos mutilados do sisal. Quanto à intervenção governamental Nonato Marques
comenta:


                           Tudo foi feito na base da improvisação, enquanto o Governo modorrava na sua
                           inércia, à espera dos tributos arrancados de um produto embebido do suor de
                           milhares de nordestinos espoliados pela especulação violenta dos intermediários
                           gananciosos. [...] Mas mesmo assim, produtores fizeram com que, a partir de 1946,
                           o sisal passasse a figurar nas estatísticas baianas para delas jamais sair. 16




     Mas, mesmo assim, produtores fizeram com que, A partir de 1946, as exportações
aumentassem substancialmente, favorecidas, após a II Guerra Mundial, pelo aumento de
mercados, devido às necessidades geradas pelo conflito e, sobretudo, devido ao incremento da
agricultura na América do Norte e nos novos mercados da Europa Oriental e Ocidental. Em
1946, o Brasil tornou-se exportador de sisal e, em 1951, assumiu a vice-liderança na produção
mundial. A Paraíba ocupava o lugar de maior exportadora do Brasil até a década de 60,
quando é superada pela Bahia. Nessa mesma década houve um período de alta de preços,
provocada pelos acontecimentos políticos que explodiram na África, mas logo em 1965, o
mercado mundial de fibra mergulhou em profunda crise, com a redução das colheitas e
“devido ao surgimento de sucedâneos sintéticos derivados do petróleo (...) o avanço da
indústria química e a produção de grande escala reduz substancialmente o preço da fibra
sintética, inviabilizando a indústria periférica do sisal”. 17
      Apesar da relevância econômica e social do sisal, a exploração da cultura, durante o
período em questão, foi realizada com baixo índice de modernização e capitalização,
resultando em acentuado declínio, tanto da área plantada quanto da produção. Um outro fator
limitante é o alto custo de produção, devido ao baixo aproveitamento da planta.
     Assim, diante da contextualização do sisal no Brasil e na Bahia fazem-se necessário
abordar brevemente a introdução desse vegetal na cidade em estudo. O território atual que se
configura no município de São Domingos, junto com Valente, pertencia primeiramente a
Conceição de Coité. Desse modo, quando Valente emancipa-se em 1958, o povoado de São
Domingos passa a pertencê-la. Mas, antes mesmo da passagem do território são-dominguense
para o município de Valente já havia evidências da sisalicultura nas terras dessa localidade,
16
     MARQUES, Nonato. Histórico sobre a cultura do sisal. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João
Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade, Salvador, 2002 p. 16.
17
   Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005.
16



aumentando sua produtividade nas décadas seguintes. Na Fazenda do Sr. Pacifico, localizada
em Valente, havia alguns trabalhadores da referida comunidade que já trabalhavam com o
sisal para fins econômicos. E assim, esses sisaleiros aprendiam as técnicas e o modo de
cultivar a planta para depois trazerem para os campos de sisal, do então povoado, em que
centenas de famílias passaram a depender fortemente dessa atividade econômica. 18




1.2 As relações sociais de produção no coração da sisalândia


      O semi-árido baiano ocupa a região central do estado, representando 60% da superfície
territorial, abrangendo 258 municípios. 33 destes municípios compunham a chamada região
do sisal, que recebe esta denominação devido a sua principal atividade econômica. Essa
região enfrentou um período de decadência após os anos 70 em que as pedreiras, a pecuária
extensiva e a agricultura familiar de subsistência, ficam sujeitas aos longos períodos de seca
que ciclicamente atingem a região, agravando os problemas sociais. 19
      No sertão da Bahia destaca-se um terreno de grande potencial para o cultivo desse
agave, conhecido como sisalândia. Esse território apresenta características peculiares em
relação às demais localidades do estado, diferenças estas referentes às relações sociais de
produção e intenso cultivo do sisal. Portanto, o termo sisalândia nas palavras de Jacques
Hubschmar caracteriza-se da seguinte forma:


                          Essa designação é, às vezes, aplicada ao coração do espaço sisaleiro, à área
                          sertaneja no qual se concentra o grosso da produção de fibra. Trata-se, de Serrinha,
                          particularmente da parte ocidental, que se estende entre os rios Itapicuru, ao Norte,
                          e Jacuípe, ao sul, onde se encontram os dois municípios vizinhos de Valente e
                          Santa Luz. Na verdade, essas terras de sisal são, também, arquétipos do sertão, que
                          se assemelham a um espaço relativamente limitado, mas com os mesmos traços
                          característicos do interior do Nordeste. 20




     Desse modo, o município de São Domingos encontra-se localizado nesse espaço de
grande produção do agave, o qual foi por muito tempo distrito da cidade de Valente

18
   Depoimento do Sr. Manuel Moséis de Oliveira, 69 anos, neto do Sr. Pacifico José dos Santos.
19
   RAMOS, Alba Regina; NASCIMENTO, Antonio Dias. Características culturais. Resgatando a infância. A
trajetória do PETI na Bahia. Salvador: MOC/OIT/UNICEF, 2001.
20
   HUBSCHMAR, Jacques. Olhar sobre o sisal: As pesquisas e a sociedade no sertão sisaleiro da Bahia. In:
LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre
natureza e sociedade, Salvador, 2002, p.2.
17



emancipando-se apenas em 1989, localizando-se numa distância de 261 km da capital do
estado – Salvador. Este município na década de 1990 possuía 10.276 habitantes, sendo sua
população rural correspondente a 66,5% deste total (IBGE, 1991). O Índice de
Desenvolvimento Humano (IDH) nesse período é considerado muito baixo – 0, 531, quando
comparado à média nacional.
     A região sisaleira é também denominada como Território do Sisal. E por essa
denominação entende-se que “território é o espaço que se estrutura em virtude de uma ação
social e que compreende os aspectos econômico, social e político. (...) os territórios são
                                                                      21
compreendidos por ações sócio-políticos regionalizadas”.                   Nesse sentido, Brandão em seu
livro “Território e Desenvolvimento” faz uma crítica e discute a questão do desenvolvimento
local e o “localismo” que muitas vezes posto como panacéia para o problema do
desenvolvimento nacional. Na sua concepção, a análise regional deve estar pautada numa
abordagem territorial. O grande desafio é encontrar uma maneira de tratar ao mesmo tempo e
numa perspectiva multiescalar as heterogeneidades estruturais de um país subdesenvolvido e
as diversas alternativas de avanço social, político e produtivo. E observa que:


                            Nunca as diversidades produtivas, sociais, culturais, espaciais (regionais, urbanas e
                            rurais) foram usadas no sentido positivo. Foram tratadas sempre como
                            desequilíbrios, assimetrias e problemas. A equação político-econômica imposta ao
                            país pelo pacto de dominação oligárquica das elites, cuja lógica aponto muito
                            sinteticamente neste texto, travou o exercício da criatividade “dos de baixo”,
                            procurando impedir sua politização. 22



     Brandão enfatiza, então, a necessidade de construção democrática de estratégias de
desenvolvimento e aponta para os limites teóricos que desafiam a noção de desenvolvimento
territorial. Dentro dessa idéia de território como local de redes socioespaciais, é que são
buscados pelas organizações, agentes públicos e atores sociais novas perspectivas de análise
para o Desenvolvimento Rural. Nesse contexto, destacam-se no território do sisal as ações da
Associação de Pequenos Agricultores do Estado da Bahia (APAEB/Valente) e o Movimento
de Organização Comunitária (MOC), ambos os mecanismos responsáveis por transformações
socioprodutivas nos municípios do nordeste baiano e na vida de muitos sisaleiros da região.
     A APAEB surge da luta contra a cobrança extorsiva do ICM aos pequenos produtores
rurais, com a atuação regional de defesa econômica e ação sócio-politica. Esse período


21
  Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005.
22
  BRANDÃO, A. C. Território e desenvolvimento: as múltiplas escalas entre o local e o global. Campinas, SP:
Editora da Unicamp, 2007, p.205.
18



também foi marcado por constantes crises e baixa do preço do sisal. Algumas das mudanças
promovidas pala instituição foi a introdução da batedeira comunitária, adoção de uso racional
do solo e da propriedade, visando o aumento da produtividade. Em 1993, a APAEB funda a
cooperativa de crédito que opera, além do significado econômico, produz um valor simbólico
                                       23
e pedagógico muito importante.              Dessa forma, após a sua estruturação, passa a atuar em
outros municípios circunvizinhos rompendo as fronteiras de Valente, onde encontra instalada
sua sede.
     Com as ações desse organismo na região sisaleira houve mudanças no modo de trabalhar
com o sisal. O sisaleiro Luís da Silva relata que “existe uma mudançinha sim, por que de um
certo dia pra cá a gente tá aprendendo até a trabalhar mais, inclusive, através de alguns
cursos que a gente tomou na APAEB espalhar o resíduo que ninguém espalhava. Hoje
também é... fazer a „silagem do sisal‟24 e utiliza pra gente ter um burrego de corte dar ração
no coxo”.
     As ações do MOC também se realizam com grande eficácia na região. Criado em 1967, a
partir do trabalho da Igreja Católica, esse organismo busca incentivar a emancipação social e
a criação de grupos organizados para o exercício da cidadania. O desenvolvimento de
atividades de apoio e fortalecimento de associações comunitárias rurais e urbanas, a
contribuição do desenvolvimento sustentável da região sisaleira e o auxilio para a atuação
qualificada na gestão de políticas publicas são algumas dos trabalhos do MOC. Na
perspectiva de convivência com o semi-árido, a instituição desenvolveu os programas de
“Água e segurança alimentar”, “Agricultura familiar”, “Comunicação”, “Crianças e
adolescentes”, “Educação do campo”, “Gênero”, e “Políticas publicas”. 25
     A região de Valente/São Domingos e Santa Luz a sisalicultura contribuiu decisivamente
para manter, nesses municípios, milhares de famílias sertanejas que, na ausência do sisal
engrossariam os fluxos migratórios em direção as grandes cidades. Alguns dados mostram de
que forma eram ocupadas as terras com o plantio do agave sisalana.




23
   SANTOS, Vilbégina Monteiro dos. A construção de uma comunidade imaginada do sisal. In: V ENECULT,
Faculdade de Comunicação/UFBA, maio de 2009, p.6.
24
   Consiste numa técnica denominada de ensilagem que utiliza o resíduo da fibra do sisal (mucilagem), que foi
anteriormente desfibrado no “motor”, para alimentar criações de gado caprino e ovino. A ensilagem pode ser
feita ma forma de monte, sobre o solo, coberto com lona; ou em silos do tipo trincheira; ou, ainda, em sacos
plásticos, caso em que é necessário que se faça a compressão do material ensilado, com vista a expulsar o ar
contido na massa. Ensilada em regiões semi-áridas, 10 dias são suficientes para completar o processo de
fermentação, sendo então, adicionado mais substâncias transformando-se numa ração nutritiva para alimentar os
animais da região sisaleira.
25
   MOC - Homepage. Disponível em: www. moc.org. br. Acesso em nov. - dez. de 2009.
19


                           Em 1975, o sisal foi uma das principais bases de sustentação da economia regional,
                           responsável pela subsistência de 50% a 60% da população e pela permanência do
                           homem no campo [...] A ocupação do solo com o sisal era de ordem 49,71% em
                           Valente/São Domingos e 21,08% em Santa Luz. 26



     A cadeia produtiva do sisal compreende uma numerosa quantidade de pessoas, no qual
abriga sisaleiros desde crianças, mulheres e homens que desempenham diversas funções no
manejo com este vegetal. O processo inicia-se com atividades de manutenção das lavouras,
colheitas, desfibramento e beneficiamento da fibra e termina com a industrialização e a
confecção de artesanatos. Para cada função há uma ou mais pessoas para desempenhá-la,
contudo no campo é realizado a plantação e o desfibramento do sisal. O sucesso do vegetal na
região deve-se a intensa procura do mercado interno e externo pela fibra dessa planta sendo
utilizada para a fabricação de cordas de todos os tipos (cabos marítimos, cordas, cordões e
outros produtos similares), diversos tipos de tapetes, sacolas e outros artigos domésticos.
     A pecuária é uma atividade econômica típica do interior brasileiro, no que se refere a
questão agrária, no entanto devido as condições climáticas adversas para a criação de gado em
larga escala no sertão baiano prevalece a agricultura de subsistência e predominantemente o
cultivo do sisal. Para Adaltina Araújo Santana27 é possível plantar outros tipos de vegetações
nas terras da região sisaleira, todavia salienta que “vem o plantio do milho, feijão, quiabo,
abóbora, mas quando tá chovendo... o que permanece mesmo é o sisal”. A escassez de chuva
na região reduz significativamente as alternativas de emprego oferecidas aos trabalhadores
rurais. Por isso, deve-se levar em conta um conjunto de fatores que influenciam no cotidiano
desta população, que por sua vez acarreta no desenvolvimento econômico, social e cultural da
região sisaleira.
     Nos minifúndios (áreas de 1 a 10 há), o fracionamento da propriedade é constante. Toda
a família ocupa-se dos trabalhos agrícolas e muitos trabalham em outras propriedades para
aumentar a renda familiar. O sisaleiro Luis da Silva relata que “o que realmente existe aqui é
o motô de sisal ou quando algum fazendeiro quer pagar uns dias de roça, mas é muito
pouco.” Diante disso, percebe-se que mesmo trabalhando no manejo com o agave a renda não
se torna suficiente para manter a família, sendo então necessário complementá-la com
atividades extras, até mesmo devido aos constantes períodos de seca nos quais os motores de



26
   MOREIRA, Maria Auxiliadora. Nova dinâmica de ocupação do solo no sertão sisaleiro da Bahia. In: LAJES,
Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e
sociedade., Salvador, 2002, p.21.
27
   Ex-trabalhadora do sisal, atualmente funcionária do Sindicato de Trabalhadores de São Domingos.
20



sisal param em virtude da escassez da planta e do seu baixo desenvolvimento e
aproveitamento na cadeia de produção.
     A cultura do sisal é uma atividade que exige uma grande aplicação de mão-de-obra. O
desfibramento é feito pelo motorzinho ou máquina paraibana, nas propriedades. Geralmente,
os sisaleiros trabalham nas terras de outras pessoas, no qual prestam serviços temporários e
não assalariados, ou seja, utilizados para as tarefas bem precisas e no tempo determinado. O
nível de emprego de mão-de-obra temporária é maior nas pequenas empresas rurais e
familiares, onde o sisal é a cultura dominante. Os trabalhadores são pagos por tarefa ou
quantidade produzida. Não existe contrato, e os acordos são feitos verbalmente. Os
proprietários preferem o trabalho temporário, porque permite reduzir sensivelmente os custos
de produção e as despesas exigidas pelos encargos sociais.


                           A primeira etapa do processo de colheita do sisal consiste no corte periódico de
                           determinados números de folha da planta, por meio de instrumentos adequados. (...)
                           O transporte das folhas colhidas para o local de desfibramento deve ser realizado na
                           menor distância possível. Na região sisaleira, esta operação é realizada com auxílio
                           de asininos e muares, dispondo as folhas colhidas sobre cangalhas com cambitos
                           (gancho, tipo V, de madeira) ao seu dorso. Um animal pode transportar em torno de
                           130 a 180 kg. 28




     As práticas utilizadas nesse tipo de agricultura são transmitidas de geração a geração. As
mulheres e as crianças representam uma força de trabalho importante, cuja participação é
constante durante uma longa jornada de trabalho, porém com pouco valor econômico. Estas
por sua vez, realizam todas as atividades, exceto as do “cortador”, do “cevador” (operador do
motorzinho) e do “bagaceiro” (encarregado de retirar as polpas residuais), que geralmente são
feitas pelos homens. As mulheres, geralmente, realizam o trabalho conhecido como “estender
fibras”, no qual consiste em colocar para secar as fibras do sisal que foram passadas
anteriormente na máquina no processo de desfibramento. Esse processo acontece da seguinte
forma:


                           O desfibramento consiste na eliminação da polpa das fibras mediante a raspagem
                           mecânica da folha, através de rotores raspadores acionados por um motor a diesel.
                           A principal desfibradora dos campos do sisal do Nordeste brasileiro é a máquina
                           denominada “motor de agave” ou “máquina paraibana”, que tem baixa capacidade
                           operacional.esta máquina desfibra em torno de 150 a 200kg de fibra seca em turno
                           de 10 horas de trabalho, desperdiçando em média, 20% a 30% da fibra; além disso,
                           envolve um número elevado de pessoas para sua operacionalização. A rusticidade

28
  ANDRADE, Wilson (org.). O sisal do Brasil. SINDIFIBRAS – Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais da
Bahia; Brasília: APEX – Brasil – Agência de Promoção de Exportações e Investimentos, 2006.
21


                           da máquina exige grande esforço do operador (puxador), que poderá ser uma ou
                           duas pessoas. Em operação normal desfibram-se, em média, 20 a 30 folhas/min, ou
                           1.200 a 1 800 folhas/h. A fadiga. Aliada à falta de segurança da máquina, expõe os
                           operadores a constantes riscos de acidentes, o que constitui um dos principais
                           problemas da máquina e da operação propriamente dita. 29




     O desgaste físico decorrido do trabalho no processo de desfibramento do sisal pode
acarretar também na questão das mutilações (mãos e braços) que ocorrem com freqüência em
                                                                                                           30
toda região sisaleira. Fato este provocado, em virtude do intenso trabalho que o Cevador
pratica na máquina chamada “paraíbana” para obter uma renda semanal maior, pois se ganha
por produção. Além disso, o baixo nível de capitalização da lavoura sisaleira, somada a falta
de recursos financeiros, cria um estado de vulnerabilidade perante os oligopólios comerciais,
industriais e exportadores, culminando, ao longo do tempo, com o entrave à modernização
tecnológica desta cultura.
      No município de São Domingos na década de 1990 as mutilações nos campos de sisal,
segundo os sisaleiros da localidade, foi reduzido bastante comparado-a com décadas
anteriores. Os motivos foram os mais diversos que vão desde as modificações realizadas na
máquina como pelo cuidado e atenção maior dada pelos trabalhadores no manejo com a
mesma. É importante salientar que as mutilações acontecem em sua grande maioria em
pessoas do sexo masculino, pois estes exercem a função mais perigosa no processo de
desfibramento. A ex-trabalhadora do sisal Adaltina Araújo Santana já presenciou o
acontecimento e relata que “o momento é muito difícil por que eu acho que a dor é tanta que
a pessoa adormece, ele nem geme, depois é que vem gemer, por que a velocidade da máquina
é tão rápida que ele perde a mão e nem vê.” Comenta ainda das mudanças ocorridas no
chamado “motor de sisal” sendo um fator da provável redução de acidentes no município “a
boca da máquina diminuiu mais, de primeiro era feita a machado, a boca da máquina
passava duas mãos se fosse possível.”.
     O trabalho infantil nos campos de sisal na década de 1990 foi bastante freqüente e
intenso, mas os sisaleiros do município relatam que com o surgimento do Programa de
Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) em 1997 e demais programas do governo reduziram
significativamente o trabalho de crianças na zona rural. Além disso, estimulou e aumentou a
freqüência nas escolas da localidade. Luís da Silva com 46 anos de idade, trabalhador do sisal,

29
 Idem. Ibdem.
30
 Cevador é homem responsável pelo desfibramento do sisal. Sendo este quem sofre com o problema de
mutilação ao manejar a fibra na máquina paraíbana.
22



tece o seguinte comentário sobre a questão do trabalho infantil fazendo analogia com o
trabalho na sua época de infância:




                           Naquele período eu estudei lá em Zazá era uma légua e meia, a gente ia e vinha de
                           péis e quando estudei na casa de vó Martim era uma légua e a gente não tinha a
                           chance que tem hoje. Hoje todos lugares os carros passam para pegarem as
                           crianças. Naquele tempo, a gente ia de péis, montando jegue... E hoje em dia tem
                           uma grande tranqüilidade dos meninos, até mesmo a bolsa escola que ajuda a
                           comprar uns materiais. E depois da escola vão pro PETI e aí os meninos hoje em
                           dia... qual o menino hoje em dia que quer aprender pegar uma fibra. Antigamente
                           começava pegando fibra depois ajudando os pais às vezes a cortar uma palha daí
                           com 15 e 16 anos já encarava. Eu quando comecei cevar tinha dezesseis anos, eu
                           não tinha interado dezessete anos, eu aprendi a cevar ai pronto tô até hoje. E graças
                           a Deus não tenho arrependimento não, peço a Deus que quero ter a saúde, tendo a
                           saúde o resto não tem pressa.




1.3 As influências do capital externo na economia sisaleira

     A sisalicultura não depende apenas do mercado interno. As fibras que se produzem no
Brasil destinam-se a exportação, principalmente para os Estados Unidos e a Europa.
Consequentemente, o país torna-se dependente das decisões dos países consumidores e da
oferta dos países produtores no mercado internacional. As constantes flutuações dos preços
das fibras do sisal se refletem em toda a cadeia de produção, principalmente, na base desse
sistema, no qual se encontra o sisaleiro.


                    Em novembro de 1990, o sisal estava em crise. Inúmeras batedeiras em Valente e Santa
                    Luz pararam as suas atividades. Na tentativa de minorar a crise do sisal, os agricultores, os
                    trabalhadores e os representantes sindicais lançaram uma campanha intitulada os
                    sisaleiros pedem socorro, seguida de um desfile, de reuniões e de um conjunto de
                    reivindicações. 31


     O preço do sisal durante a década de 1990 oscilou bastante em virtude de dois fatores
principais: o panorama econômico internacional e os constantes períodos de seca que assolava
a região nessa década. Durante esse período, ocorreram várias reuniões envolvendo os
Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), associações e autoridades municipais objetivando
juntos encontrarem um saída para a crise que enfrentavam , no qual uma das alternativas
poderia advir de recursos governamentais destinados a região sisaleira.

31
  ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e sociedade rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia In: LAJES,
Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano entre natureza e
sociedade, Salvador, 2002, p.75.
23




                            A seca está provocando falta de sisal para as indústrias e batedeiras. Por isto, o
                            governo está colocando no mercado parte do sisal adquirido pelo Programa de
                            preços Mínimos. Para evitar desemprego na BATEDEIRA COMUNITÁRIA, a
                            APAEB/Valente comprou 460 toneladas de sisal em dois leilões realizados
                            recentemente pela bolsa de Mercadorias da Bahia. 32



     O município de São Domingos atravessou um período de dificuldades econômicas em
virtude da seca que afetava a região e, pelas constantes crises do preço do sisal na década de
1990. Durante todo o ano de 1993 foi buscado apoio governamental para amenizar a situação
de calamidade que o município enfrentava nesse período. Para isso, mobilizou-se o Sindicato
de Trabalhadores Rurais de São Domingos, autoridades municipais e membros da Igreja
Católica com o intuito de criar uma comissão municipal de assistência a seca, no qual
receberia uma verba enviada pelo governo estadual, em parceria com o poder federal, para
desenvolver o programa denominado de “Frente de Serviço ou Frente Produtivas”. 33
     Esse Projeto criado no governo de Itamar Franco consistia em amenizar a fome e o
desemprego gerado pela seca na região Nordeste, para tal finalidade eram disponibilizados
durante alguns meses desse ano recursos financeiros, que por sua vez, revestiam-se em
empregos para pessoas de baixa renda. Essas pessoas recebiam meio salário mínimo mensal
para trabalharem realizando serviços públicos e capinando estradas na localidade. É
importante salientar que a geração de empregos provisórios atendia a população rural e urbana
como medida de emergência nas cidades que mais sofriam com a seca naquele período, o
município de São Domingos empregou nessa época quatrocentos e cinqüentas habitantes no
referido programa. 34
     Em março de 1995 o jornal Folha do Sisal anuncia “Preço do sisal bate recorde histórico
no mercado mundial”. A reportagem aborda o melhor preço que o agave obteve nos últimos
10 anos. Isso em virtude do aumento do consumo do produto no mercado externo,
principalmente pela valorização da celulose e, também, por se tratar de um produto,
biologicamente degradável (Gráfico 02 e 03). Porém, mesmo com este aumento, a situação
dos trabalhadores do sisal continuou difícil, pois as constantes secas provocaram a paralisação
de motores e batedeiras em muitos municípios, inclusive, em São Domingos que a maior
geração de emprego advém da agaveicultura.



32
   Jornal BATEDEIRA COMUNITÁRIA, p. 01, nº. 13, Valente, Abril de 1993.
33
   Sindicato de Trabalhadores Rurais de São Domingos. Atas das reuniões realizadas durante o ano de 1993.
34
   Idem. ibdem.
24


                              O sisal sempre pára de vez em quando, todo mundo sabe é a seca né? Por que
                              sempre baixa o preço do sisal, mas se tiver chovendo sempre continua o motô
                              rodando, por que nesse município, nessa região sisaleira a renda é o sisal, mesmo,
                              ou seja, bom ou seja ruim de preço tem que rodar, só pára em tempo de seca. 35


     Gráfico 02 – Exportação de Fibras e Manufaturados      Gráfico 03 – Exportação de Tapetes




     Fonte: Sindifibras


        As crises periódicas na sisalicultura é uma característica constante no país, apesar do
dinamismo do Brasil nesse setor, os preços ficam a mercê das flutuações do mercado. Em
1995 a área plantada de agave sisalana reduziu-se a metade do que já havia sido cultivado em
anos anteriores. Nesse mesmo ano foram plantados 92. 807 hectares de sisal espalhados por
Campo Formoso, Conceição do Coité, Itiúba, Jacobina, Mirangaba, Ourolândia, Queimadas,
Retirolândia, Santa Luz, São Domingos, Valente, Várzea Nova e outros. 36



1.4 Fibras de agave: cordas do progresso

             O agave sisalana representa para a região do nordeste baiano um meio de
       sobrevivência e mais do que isso um progresso no setor econômico, social, político e
       cultural. O sisal pode ser a solução de muitos problemas do semi-árido nordestino, pois
       apresenta várias possibilidades de desenvolvimento sustentável para os municípios que
       realizam a sisalicultura e seu beneficiamento.
             A APAEB transforma as fibras produzidas na região sisaleira em fios, que através
       dos teares são transformados em tapetes e carpetes. Isso agrega valor ao produto e gera
       600 postos de emprego, no qual inclui pessoas de vários municípios vizinhos de Valente.
       Além disso, são desenvolvidos vários projetos e cooperativas que trabalham com a fibra
       do agave na confecção de diversos produtos artesanais. Dentre estes, se encontra a

35
     Depoimento de Adaltina Araújo Santana, ex-trabalhadora rural.
36
     Jornal FOLHA DO SISAL, Ano 8, nº. 40, Outubro de 1997, p.2.
25



       cooperativa “Mulheres de Fibra”, essas mulheres saíram do motor do sisal e constituíram
       com o apoio de sindicatos, sociedade civil e entidades públicas, a Cooperativa Regional de
       artesãs de fibras do sisal (Cooperafis), por isso a denominação bastante sugestiva
       mulheres de fibras. O trabalho delas realiza-se da seguinte forma:


                                São colchas bordadas, bolsas e chapéus de fibra fina de sisal, variados objetos de
                                decoração. O sucesso foi imediato e ultrapassou as fronteiras locais. Chegou a
                                Salvador, São Paulo e começa a ganhar o mundo. Dignidade e cidadania cresceram
                                frutos de trabalho e dedicação. Atualmente são 122 cooperadas distribuídas em
                                nove núcleos de produção, nos municípios de Araci, são Domingos e Valente. 37




        A agaveicultura pode também transformar a vida dos pequenos produtores e sisaleiros
que vivem no sertão baiano mediante ações e investimentos aplicados em instalações de
indústrias que utilizem a fibra do agave na fabricação de diversos produtos para exportação.
“A fibra do sisal pode ser utilizada na fabricação de pasta celulósica, empregada na fabricação
do papel Kraft, de alta resistência, e de outros tipos de papéis finos. Pode também ser
empregado na indústria automotiva, de móveis e eletrodomésticos e na construção civil.” 38
        As atividades econômicas e as associações existentes na região sisaleira, especialmente
no município de São Domingos, são desenvolvidas basicamente em torno do sisal. Esse fato
está intimamente relacionado à quantidade de pessoas que sobrevivem direta ou indiretamente
do: cultivo, desfibramento, beneficiamento, exportação ou atividade artesanal nos principais
centros produtores de agave da Bahia. Além do desenvolvimento e contribuição desse produto
no setor primário e secundário, nas últimas décadas nota-se uma crescente urbanização e
progresso no setor terciário, pois este por sua vez, depende consideravelmente do capital
movimentado nos município proveniente da sisalicultura.
        Na verdade, se o sisal é por um lado uma preciosidade e riqueza para muitos produtores,
por outro lado é visto pelos sisaleiros como meio de sobrevivência e esperança de um futuro
mais próspero com grandes plantações do agave nas suas pequenas propriedades. Sendo
assim, mesmo diante de precárias condições de trabalho, dos constantes períodos de seca e
das cíclicas crises no preço do sisal o sisaleiro acredita que as fibras do agave são cordas do
progresso. Todavia, para que isso ocorra é necessário um planejamento na questão do
desenvolvimento rural em regiões semi-áridas, posto que muitas estratégicas de sobrevivência
praticadas e propagadas, por guardarem relação de similaridade com formas de convivência

37
     RECENA, Luiz. Sisal o território da esperança. In: Territórios rurais, nº1, jan./jun., 2005, p.19.
38
     ANDRADE, Op. cit., 2006.
26



no semi-árido, não resultam em estratégias de convivência do semi-árido propriamente dita. A
distinção pode ser explicada da seguinte forma:


                            Para que fique claro a distinção, podemos dizer que as estratégias de sobrevivência
                            são práticas de valência social da população local, em geral, para conviver com as
                            privações infortúnios no(grifo do autor) Semi-Árido. Ao contrário, as estratégias de
                            (grifo do autor) Convivência com o Semi-Árido são modos de superar as mazelas
                            do subdesenvolvimento naquilo que têm de mais especifico no Semi-árido
                            brasileiro: o agravamento da dependência e da exploração, o aumento das
                            vulnerabilidades socioambientais e a situação de insustentabilidade de certos meios
                            e modos de vida. 39



     As estratégias de desenvolvimento rural no nordeste baiano são primordiais para se
efetivar verdadeiramente as ações governamentais e/ou privadas que alcancem e promova
progresso no âmbito social, econômico e cultural. Para isso, é de extrema importância que
esse sujeito, o sisaleiro, seja colocado no centro das discussões dessas estratégias de
planejamento rural no sertão da Bahia e, a partir disso, possa ser percebido as organizações e
atores locais que refletem contextos sócio-espaciais específicos e interesses em disputa em
torno da questão do desenvolvimento. Portanto, o ambiente cultural deste trabalhador do sisal,
antes de tudo um sertanejo, diz muito sobre seu cotidiano e sua vida de um modo geral.


                            A cultura é a parte importante do capital social porque os saberes acumulados, as
                            tradições, os modos de vínculos com a natureza e as capacidades naturais de auto-
                            organização são de grande valia para as populações pobres, pois são suas dotações
                            iniciais. A democratização cultural, com a criação de espaços de vivência e
                            convivência acessíveis aos setores mais desfavorecidos, pode abrir canais de
                            integração social. 40



      Ao longo dos últimos dez anos, houve um desenvolvimento nas associações das
comunidades rurais, o que propiciou o surgimento de formas e estratégias econômicas, sociais
e culturais de convivência na região sisaleira. Diante disso, o estereotipo em torno do semi-
árido baiano é visto de modo simplificado, como uma região problemática em que as soluções
estão distantes ou inacessíveis da população. No entanto, as alternativas muitas vezes, estão
tão próximas e não utilizadas como deveriam para beneficiar a região, procurando até mesmo
na revitalização da produção sisaleira e, em escala mais ampla, na revitalização do território.

39
    NASCIMENTO, Humberto Miranda. A convivência com o semi-árido e as transformações socioprodutivas na
região do sisal – Bahia: por uma perspectiva territorial no desenvolvimento rural. XLVI congresso da Sociedade
Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. UCSAL: Salvador. S.d., p. 4.
 40
    Idem. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA. São Paulo: Annablume, 2003, p.22.
.
27



Capítulo II – MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E MUSICAIS NO
SERTÃO NORDESTINO


                                                                   Em vez de pensar as culturas nacionais como
                                                             unificadas, deveríamos pensá-la como constituindo
                                                            um dispositivo discursivo que representa a diferença
                                                                                   como unidade ou identidade.
                                                                                                    Stuart Hall



     Este capítulo enfoca o significado que ao longo do tempo foi atribuído ao sertão
nordestino. A partir disso, discute a imagem que também foi conferida ao semi-árido baiano e
a importância das expressões culturais na vida dos sertanejos, os quais retratam seus costumes
nas manifestações artísticas existentes no seio de sua comunidade.


2.1 Cultura popular nos sertões do Brasil

     O termo cultura popular configura-se numa gama de definições e conceitos que lhes
foram atribuídos em diferentes épocas e contextos distintos, que envolvem disputas teóricas e
políticas na História. Para Martha Abreu o conceito de cultura popular não está engessado em
definições imutáveis. Na sua concepção “pode ser visto como uma perspectiva, no sentido de
ser mais um ponto (de vista) para se observar a sociedade e sua produção cultural”. 41
      Nesse sentido, a cultura popular é um instrumento da história que serve para evidenciar
diferenças e ajudar a pensar a realidade social e cultural de uma determinada sociedade. Nas
                                                                                42
palavras de Chartier “a cultura popular é uma categoria erudita”                     , devido a dificuldade ou
impossibilidade de detectar o que é genuinamente do povo, ou mesmo de se precisar a origem
social das manifestações culturais, em função da histórica relação e do intercâmbio entre os
mundos sociais, em qualquer período da história. Segundo Chartier correndo o risco de
simplificar ao extremo, é possível reduzir as diversas definições de cultura popular em dois
grandes modelos de descrição e interpretação.


                             O primeiro, no intuito de abolir toda forma de etnocentrismo cultural, concebe a
                             cultura popular como um sistema simbólico coerente e autônomo, que funciona
                             segundo uma lógica absolutamente alheia e irredutível à da cultura letrada. O
                             segundo, preocupado em lembrar a existência das relações de dominação que

41
   ABREU, Martha. Cultura Popular: um conceito e várias historias. In: ABREU, Martha, SOIHET, Rachel
(orgs.). Ensino de Historia: conceitos, temáticas e metodologias. Rio de Janeiro: Cada da Palavra, 2003, p.84.
42
   CHARTIER, Roger. “Cultura popular: revisitando um conceito historiográfico”. Revista Estudos Históricos
(Rio de Janeiro), vol. 8, n. 16 (1995), p. 179.
28


                            organizam o mundo social, percebe a cultura popular em suas dependências e
                            carências em relação à cultura dos dominantes. 43



      As idéias postas por Ginzburg em muito contribuíram para resgatar o mundo da cultura
na história como também promoveu estudos sobre uma “história vista de baixo”, no qual
passaram a ser discutidos questões como o de circularidades culturais e apropriações de
sujeitos históricos com uma variável e razoável autonomia. Dentro dessa perspectiva cultural
e das constantes interações e compartilhamento entre culturas, o historiador inglês Peter
Burke lança o termo “biculturalidade” para abordar o intercâmbio de práticas culturais
populares assimiladas por membros da elite, ao mesmo tempo em que preservavam a própria
cultura. Apresenta ainda várias contribuições significativas no campo da Nova História
Cultural e trás uma excelente discussão no seu livro “O que é história cultural?”. Na sua
perspectiva, qualquer definição de História Cultural passa pelo o campo interdisciplinar, local
e momento em que a noção de Cultura sofre modificações para oferecer aos historiadores
algum potencial analítico e explicativo.
      Na verdade, o termo “cultura” e “cultura popular” não possuem definições prontas e
estabelecidas, iguais aos verbetes em dicionários. Os conceitos foram sendo ampliados com o
passar do tempo e assim recebendo novas atribuições de significados. Para Peter Burke o
vocábulo “cultura” ainda é mais problemático do que o termo “cultura popular”, pois
caracterizar e definir o que não é cultura tornam-se uma tarefa mais difícil do que classificá-
lo. Sendo assim, o conceito em geral é usado para referir à “alta” e “baixa” cultura, as ciências
e artes, seus equivalentes populares (músicas folclóricas, medicina popular, e assim por
diante.), uma ampla gama de artefatos (imagens, ferramentas, etc.) e práticas (conversar, ler,
dentre outros). 44 Sobre “cultura popular” Burke comenta:




                            Os especialistas várias vezes sugeriram que as muitas interações entre cultura
                            erudita e popular eram uma razão para abandonar de vez os dois adjetivos. O
                            problema é que sem eles é impossível descrever as interações entre o erudito e o
                            popular. Talvez a melhor política seja empregar os dois termos sem tornar muito
                            rígida a posição binária, colocando tanto o erudito como o popular em uma
                            estrutura mais ampla. 45




43
   Idem, ibdem, p.179.
44
   BURKER, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p.42-43.
45
   Idem, ibdem, p.42.
29



     Enfim, essa discussão sobre a definição de “cultura” não é o foco deste trabalho, mas
como coloca Thompson “não podemos esquecer que a „cultura‟ é um termo emaranhado, que,
ao reunir tantas atividades e atributos em um só feixe, pode na verdade confundir ou ocultar
                                          46
distinções que precisam ser feitas”            . Então, conceitos a parte, a História de modo geral
sempre estará recebendo novas conceituações e inovações em seus campos de estudo, em
virtude dos constantes questionamentos e pesquisas suscitadas em contextos históricos
distintos.
     Diante disso, o conceito perpassa várias conjunturas e épocas históricas de maneira que a
partir das décadas de 1940-1950, a cultura popular é utilizada sob uma perspectiva mais
política associada ao populismo bastante difundido na América Latina. No Brasil, a partir do
final do século XIX a expressão cultura popular se difunde entre folcloristas, antropólogos e
sociólogos, entre outros intelectuais da época que discutiam a construção de uma determinada
identidade cultural para o país.
     A cultura popular brasileira possui uma estreita relação com a difusão das idéias
folclóricas no país, visto que, como na Europa e também na América Latina serviu para a
formação das novas nações do século XIX e XX, resgatando assim o passado e os sentimentos
populares do período. Dessa forma, atrelado a questão da valorização e exaltação da produção
artística nacional apropriou-se fortemente da produção dos sertanejos e dos caboclos do
interior, objetivando enfatizar o que permanecia como traços de uma identidade cultural e
étnica, pautada pela integração cultural sincrética das três raças. No entanto, a partir de 1960
severas criticas são feitas as produções folcloristas, no qual eram vistas como simplórias e não
detectavam a fundo os problemas das classes populares em foco e muito menos sobre o
processo de dominação presente na sociedade da época. Na verdade, após esse período
recebeu “significados negativos, assumindo até mesmo conotações ligadas ao anedótico e ao
ridículo”. 47


                           Se a discussão em torno da cultura dos setores não desapareceu, atrelou-se, em
                           grande parte, ás avaliações sobre os aspectos que levaram à sua alienação ou não
                           consciência de classe, o que possibilitou a consolidação de uma série de visões
                           preconceituosas sobre a cultura popular: cultura fragmentada, conservadora, presa
                           às tradições, obstáculos a mudanças sociais, conformista e supersticiosa. As
                           reflexões sobre as manifestações culturais dos homens e mulheres comuns
                           acabaram ficando, mais uma vez, prisioneiras das armaduras ideológicas de seu
                           próprio tempo. 48


46
   THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo; Companhias
das Letras, 1998, p.22.
47
   ABREU, Martha. Op. cit., p.87.
48
   Idem, ibdem, p.88.
30



     Os primeiros estudos no Brasil relativos à cultura popular voltaram-se para o campo da
poesia. As pesquisas foram inicialmente conduzidas por correntes filosóficas e científicas
vigente na Europa e que marcaram época entre os intelectuais brasileiros como, por exemplo,
o positivismo que foi bastante significativo nos estudos dos fatos folclóricos no país.
      No que tange ao papel da cultura popular idealizada por muitos pesquisadores na
construção da identidade nacional, deve-se atentar para as possíveis homogeneizações feitas
em todo o território brasileiro com relação ao valor que determinadas práticas e
representações culturais significam para população do país. Pois, a diversidade cultural
precisa ser levada em conta no que se refere à idéia de regionalidade e, acima de tudo, aos
aspectos econômicos, sociais e culturais que marcam a identidade e o modo de vida de uma
determinada população de uma região ou território brasileiro dentro de um marco histórico.
Essa questão é detectada por Fressato quando menciona que “a cultura popular em que se
baseiam os intelectuais para formulação da identidade nacional é típica dos centros urbanos
do sudeste, notadamente de São Paulo e do Rio de Janeiro, não considerando as
especificidades das culturas regionais”. 49
     Dentre tanta diversidade cultural existente no território nacional encontra-se uma que
está profundamente arraigada na cultura brasileira, seja na arte e literatura popular ou ainda no
imaginário do povo, no qual está presente a idéia de “sertão”. A etimologia da palavra ainda
não possui uma definição única e limitada. Segundo Janaína Amado o vocábulo deriva de
deserto (deserto, desertão, sertão), atrelado a essa hipótese e dando-lhe maior ênfase estão as
características naturais e humanas ligadas aos termos: aridez, despovoamento, travessia.
Segundo outros autores, o termo suscitaria do latim clássico serere, sertanum (traçado,
entrelaçado, embrulhado), desertum (desertor, aquele que sai da fileira e da ordem) e
desertanum (lugar desconhecido para onde foi o desertor). 50
         No Brasil, desde o período colonial, a palavra sertão recebeu a conotação de interior
do território brasileiro e por isso foi empregado para representar as mais diversas áreas
dependendo da localização do qual fala enunciante.              Dessa forma, em virtude de sua
abrangência e imprecisa definição de delimitação territorial segundo a história brasileira pode,
então, ser denominado de sertão o interior de São Paulo e da Bahia, os estados de Minas
Gerais, Goiás e Mato Grosso, além do sertão nordestino, o qual é conhecido e popularmente



49
   FRESSATO, Soleni Biscouto. Cultura popular: reflexões sobre um conceito complexo. Oficina Cinema-
História. Núcleo de Produção e Pesquisas da Relação Imagem-história. S. d., p.5.
50
   AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 4.
31



assim denominado devido a condições morfoclimáticas e características peculiares fortemente
presente na região. A designação de sertão pode ser caracterizada da seguinte forma:


                           Marcado pela baixa densidade populacional e, em alguns lugares, pela aridez da
                           vegetação e do clima, o sertão assinala a fronteira entre dois mundos, o atrasado e
                           o civilizado. Marcha imprecisa que recobre o interior do Brasil, melhor seria a
                           referência a “sertões”, no plural. Pode-se afirmar que relativo ao espaço geográfico
                           ou ao imaginário social, sertão é sempre plural. 51



     No período de colonização, o sertão foi, de modo geral, visto com significados negativos
como espaços distantes povoado por indígenas, animais e mitos. Tornou-se também refúgio
para os expulsos da sociedade colonial, incluíam-se degredados, criminosos, fugitivos que
                                                          52
buscavam um local para reconstruir suas vidas.                 O movimento bandeirante, em fins do
século XVII e inicio do XVIII, suscita dois fatores fundamentais no povoamento do sertão: a
exploração das minas e o desenvolvimento da pecuária bovina, cuja conseqüência, dentre
outras, foi a ocupação de vários territórios que se estendiam do estado de Minas Gerais ao
oeste da Bahia.
     Além de todos esses estereótipos que foram ao longo do tempo inseridos na imagem
popular, o sertão também recebe características pejorativas como “uma terra sem lei, lugar da
violência, do indistinto e da desordem. O perfil do sertanejo surgia em comportamentos
                                                                                 53
condizentes com o meio social, distante as autoridades régias”.                       Outro traço bastante
característico dessas regiões diz respeito ao ideário de pobreza, atestada nas casas simples e
humildes com poucos móveis. Parte dessa população era composta de trabalhadores volantes,
que buscavam moradia de favor junto a algum grande proprietário ou que optavam vagar
pelos campos desertos, fazendo roçados para sobrevivência com suas famílias. 54 É importante
salientar que muitas dessas características permanecem posteriormente ao período de
colonização e povoamento do interior do país e se estende pelos séculos seguintes.
       A cultura dos sertões manifesta-se na religiosidade popular; na literatura de cordel, que
transmite lendas, contos e “causos”; nos rodeios e vaquejadas; na comida; na poesia; na
maneira de vestir; nas danças e na música, com semelhanças e peculiaridades por todo o país.

51
   ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. Cultura e identidade nos sertões do Brasil: representações na música
popular. S.d., Disponível em: http://www.hist.puc.cl/historia/iaspmla.html. Acessado em nov. de 2009.
52
   SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII, Ed. Graal, 2ª ed.,
Rio de Janeiro, 1986, p. 85.
53
   ALENCAR, Op.cit. p. 2.
54
   ARAÚJO, Emanuel. Tão vasto, Tão Ermo, Tão Longe: o sertão e o sertanejo nos tempos coloniais. In: DEL
PRIORI, Mary (org.). Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro:
Campus, 2000, p.145.
32



Todas essas representações da cultura popular sertaneja trazem, sobretudo, o seu modo de
vida expressando o cotidiano e o contexto socioeconômico ao qual está inserido.
        No século XX, apesar do rápido avanço das frentes de expansão e do progresso de
modernização que atingiu o sertão brasileiro, o sentimento de inferioridade ainda mantinha-se
em relação ao litoral. Os atributos pejorativos foram assim carregados pela população dessas
regiões como uma identidade negativa e inferior no que diz respeito às outras regiões do
Brasil por serem considerados do interior, caipira e sertanejo. Como já foi mencionada
anteriormente essa visão preconceituosa com relação ao sertão brasileiro passa a ser utilizada
de maneira inversa quanto à significância que o termo é atribuído. No final do século XIX,
mais propriamente na década de 1870, a cultura sertaneja torna-se um elemento de relevância
no contexto identitário da nação em processo de construção.


                             A oposição á dicotomia litoral-sertão fez surgir uma produção intelectual que,
                            expressando a preocupação com a construção de uma nação unificada, procurava
                            superar aquela dicotomia. Sertão se tornou, então, categoria essência do
                            pensamento brasileiro. Na cultura do interior do país, esses autores encontravam as
                            fontes mais puras da racionalidade. 55



       As manifestações culturais expressas na música saem das ruas para os salões junto com
uma maior valorização das danças rurais postas como componentes da música popular. Mário
de Andrade escreveu sobre esse período: “A música popular cresce e se define com uma
rapidez incrível, tornando-se violentamente a criação mais forte e a caracterização mais bela
                   56
da nossa raça”.         Esse fato pode ser constatado no período Vargas (1930-1945), no qual o
Estado brasileiro se fez presente, de forma enfática, na direção da incorporação do sertão
como forma de construção da nação e a ideologia nacionalista atingiram momentos de
euforia.




2.2 O sertão como lugar


        Os conceitos, definições e abordagens do termo sertão ao longo da história brasileira foi
permeada por expressões pejorativas, ou então, serviu de elemento inerente em determinadas
conjunturas políticas para finalidades identitárias. Desse modo, os dados apresentados nos

55
     ALENCAR, op.cit., p. 5.
56
     ANDRADE apud ALENCAR, ibdem, p 4.
33



permitem evidenciar a existência de sertões diferenciados, com peculiaridades, dinâmicas e
relações sociais diferenciadas umas das outras. Nesse caso, o sertão nordestino, bem como
todas as demais regiões assim denominadas, não pode ser enquadrado nessa visão
generalizante de sertão, apesar da característica marcante ligado ao desenvolvimento da
atividade agropecuária, cada sertão brasileiro possui aspectos econômicos, geográficos,
sociais, culturais e políticos distintos e de interações diferenciados em escala nacional.
     O vocábulo “sertão” também em alguns casos recebe uma conotação institucionalizada
referente ao espaço no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas
(IBGE), esse termo pode ser designado oficialmente como uma das subáreas nordestinas,
árida e pobre, situada a oeste das duas outras, a saber: “agreste” e “zona da mata”. Nesse
sentido, comumente no imaginário popular relaciona-se o termo a região mais sofrida e seca
do Nordeste. Esse estereótipo, muitas vezes, é construído quando se considera essa parte do
território brasileiro como marginalizado do “progresso” ou desenvolvimento cultural e
econômico do país.
     Por muito tempo na história brasileira relacionou-se o conceito de caipira ao universo
pertencente ao sertanejo. E assim, ganharam espaços no país personagens como Jeca Tatu, de
Monteiro Lobato, como uma figura que deixava o espaço rural que era personificação do
atraso, do caipirismo sertanejo, emperrando o desenvolvimento nacional. Como se o homem
do campo, do interior (sertão) devesse ser adaptado a conjuntura urbana e sulista do país.
Todavia, o sertanejo/nordestino apresenta características diferenciadas dessa concepção
difundida do caipira na sociedade brasileira. Isso não significa que especulações e estenótipos
sejam amenizados, O historiador Durval Muniz Alburquerque Jr. no seu livro “A Invenção do
Nordeste e outras artes” comenta sobre a imagem construída do nordestino e o necessário
deslocamento dos lugares fixos de opressor/oprimido e inventor/inventado, promovendo
assim um questionamento em torno da produção imagético-discursiva criada em torno dos
Nordeste. 57
     Desse modo, nota-se a discrepância entre o “Brasil de cima” - Norte/Nordeste - e o
                                   58
Brasil de baxo” - Sul/Sudeste.          Essa diferença é fundamentada na sobreposição de uma
região sobre outras, no qual baseia e propaga-se a imagem de um povo nordestino carregado
de estigmas como: tabaréu, miserável, agressivo, anti-social, intelectualmente inferior, dentre

57
   ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009, p.
153.
58
   Patativa do Assaré apud VASCONCELOS, Claudia Pereira. A construção da imagem do nordestino/sertanejo
na construção da identidade nacional. II ENECULT, Faculdade de Comunicação /UFBA, Salvador, maio de
2006, p.7.
34



outras caracterizações. Enquanto, exalta e afirma um Sul como o espaço concentrador de
desenvolvimento, moderno, educado e altamente superior no que se refere a “cultura”
brasileira.
        Alburquerque Jr. retrata também essa imagem construída historicamente do Norte, que
englobava o Nordeste, e do Sul visto como centro político, econômico e cultural do país. Esse
discurso-imagético é exposto no subcapítulo “Norte versus Sul”, na sua obra já mencionada,
no qual expõe o discurso construído e disseminado por décadas de um Norte atrasado,
marcado pelo barbarismo, pela miséria e pela seca que se tornava o ponto de discussão para
atrair investimentos. Além disso, o cangaço e o messianismo também eram concebidos
pejorativamente como elementos próprios da natureza da região. Por outro lado, o Sul seria o
fundamento da nação onde toda a alta cultura se formava e permanecia. De acordo com os
parâmetros naturalistas as questões do meio e da raça eram responsáveis pelo distanciamento
entre ambas as divisões regionais do país.
        Esse mesmo autor aborda ainda a imagem que o sertão passa a possuir quando
relacionado ao Nordeste. “O sertão deixa de ser aquele espaço abstrato que se definia a partir
da „fronteira da civilização‟, como todo o espaço interior do país, para ser apropriado pelo
Nordeste. Só o Nordeste passa a ter o sertão e este passa a ser apropriado pelo nordeste”.
Então, o sertão era sinônimo de péssimas condições de vida e um local atribuído,
principalmente, a uma região desfavorecida e marcada pelos estereótipos excludentes e, assim
marginalizada do restante do país. Na verdade, “o espaço nordestino vai sendo dotado de uma
visibilidade e dizibilidade; desenhado por um agrupamento de imagens rurais ou urbanas, do
litoral ou do sertão, domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas e
escritores”. 59
        Diante disso, o homem que retrataria o Nordeste, segundo o movimento regionalista,
seria o sertanejo como um ser forte, acima de tudo, revestido de coragem, um herói como
coloca Euclides da Cunha que para sobreviver precisa enfrentar rotineiramente as mais
adversas situações no ambiente em que vive. Segundo Alburqueque Jr.,


                            O tipo nordestino vai se definindo como um tipo tradicional voltado para a
                            preservação de um passado regional que estaria desaparecendo... Se situa na
                            contramão do mundo moderno, rejeita as suas especificidades, sua vida delicada e
                            histérica. Um homem de costumes conservadores, rústicos, ásperos, masculinos:
                            um macho capaz de resgatar aquele patriarcalismo em crise; um ser viril, capaz de
                            retirar a sua região da situação de passividade e subserviência em que se
                            encontrava. 60

59
     ALBUQUERQUE Jr., Op. cit., p. 134.
60
     Idem, ibdem, p. 162.
35



      Outra diferenciação de sertões caracteriza-se pela vertente cultural, que apresenta
aspectos peculiares de perceber o sertão e o modo de vida sertanejo. Para este ponto
convergem fundamentalmente expressões como a literatura e a música. Segundo Janaína
Amado “„sertão‟ ocupa ainda lugar extremamente importante na literatura brasileira,
representado tema central na literatura popular, especialmente na oral e de cordel, além de
correntes e obras literárias cultas”. 61
      A denominada “geração de 1930” composta essencialmente por Graciliano Ramos,
Raquel de Queirós, José de Lins Rego, Jorge Amado e muitos outros consagrados literatos
foram, por sua vez, responsáveis pela construção de conturbados e desafiadores sertões
nordestinos, de forte significado social. No entanto, muitos historiadores destacam João
Guimarães Rosa como um dos mais renomados autores ligado ao tema, o qual aponta um
sertão singular, marcado por conflitos e contradições humanas que aparecem de forma mais
intensa sobre a proteção da crueza do território geralmente áspero. E assim, “[...] com
Guimarães o sertão deixa de ser o indesejável para se converter no inevitável. [...], o sertão é o
espaço privilegiado do entendimento do ser humano”. 62
         A importância de Guimarães Rosa é incontestável quanto à ressignificação do
imaginário do sertão em nível nacional. Todavia, deve-se acrescentar autores como Antonio
Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré, o guardião de saberes e sensibilidade do povo
nordestino. Recebeu tal apelido por ter nascido no município de Assaré (Ceará) e por
desenvolver uma poesia comparada, pela espontaneidade, com o canto sonoro da patativa.
Aprendeu a tocar viola, desenvolveu o gosto pela arte cantando e versejando com famosos
cantadores do Nordeste.
     Uma das obras mais conhecidas “Cante lá que eu canto cá” publicada em 1978, o poeta
fica conhecido nacionalmente e tem seu nome registrado na história da cultura popular
brasileira. Os fatos que sucedem em sua carreira são marcas do reconhecimento oriundo da
sua maneira ímpar de fazer poesia. Isso ocorre porque a figura de Patativa traz em si
características da oralidade. Os poetas formais escrevem seus versos, o recurso utilizado era
disposto pela memória e pela fala; o que dizia ou cantava era transcrito por outras pessoas
para o papel, porém seu texto permaneceu na história através de uma manifestação fiel aos
códigos da expressão oral. Característica esta bastante comum entre os nordestinos,
trabalhadores na roça, que mal sabem escrever seu próprio nome, mas carregam consigo a arte


61
  AMADO, Op. cit., 1995, p.3.
62
 PIMENTEL, Sidney Valadares. O chão é o limite: a festa de Peão de Boiadeiro e a domesticação do sertão.
Editora UFG. Goiás, 1997, p.19.
36



e as cantorias expressas em versos sobre um sertão carregado de estigmas e esperanças de
uma vida melhor.
       Na verdade Patativa retratava na sua fala a vida simples no sertão, a coragem de falar das
coisas erradas e a poesia engajada a esses aspectos são objetos de estudos para muitas
pesquisas que envolvem o sertanejo. Outro autor que aborda essa temática é Graciliano
Ramos, no qual inscreve o sertão nordestino no imaginário nacional. Em “Vidas seca”,
emerge um sertão árido, difícil, onde homens e mulheres lutam contra a seca e contra a
exploração social. A opressão da seca ao lado da opressão apresentada pelos fazendeiros e
pelo Estado. Já na obra Os Sertões de Euclides da cunha o nordestino é representa da seguinte
maneira na visão de Cláudia Vasconcelos:


                           É neste cenário de organização de imagem opostas do nordeste e nordestino que a
                           celebre obra de Euclides da Cunha Os Sertões, publicada em 1902, pode servir
                           como uma das fundamentações para ambos os argumentos, completamente dispares
                           entre si. O seu discurso ambíguo e contrastante oferece substrato suficiente para
                           produzir tanto uma estereotipia negativa em que se inferioriza o sertão/nordeste,
                           quanto uma estereotipia positiva em que se enaltece esta região e o seu povo. 63




       Dessa forma, os discursos sobre o sertanejo/nordestino nem sempre é posto na literatura
brasileira como genuinamente positivo e enaltecedor. Essas características, sejam elas
exaltadoras ou preconceituosas, estão presentes também em outras artes como a pintura, o
teatro, o cinema e, em especial, a música e em diversos meios de comunicação e programas
humorísticos. A difusão desse ideário posto, muitas vezes, como inerente a cultura brasileira
encontra sua significância quando Guimarães Rosa (1965) comenta: “o sertão está em toda
parte; o sertão está dentro da gente”. Contudo, isso não significa que a cultura nordestina seja
aceita e respeitada, de modo geral, como identidade nacional e igualada ao centro sul do país,
apesar das diversas tentativas, outrora ou mais recentemente, para sua inserção como parte
integrante da unidade brasileira ainda precisa romper obstáculos e ser reconhecida e
valorizada em âmbito nacional.
       O historiador Alburquerque Jr. também problematiza esse nordestino tão difundido e
esboçado no “romance de trinta” que se institui com “temas regionais”. Ele discute justamente
essa imagem disseminada de um Nordeste vitimizado pelas condições climáticas, onde a seca
passa a ser o fator causador de um meio homogêneo que, portanto, teria também originado
uma sociedade homogênea. Tudo isso, na concepção do referido historiador, gerou uma série

63
     VASCONCELOS, Op. cit., 2006, p.5.
37



de imagens em torno da seca e, produziram por sua vez uma visibilidade e dizibilidade que as
a produção cultural posterior não conseguiu fugir e perpetuarão ao longo do tempo.
     Para Alburquerque Jr. não se trata de buscar uma identidade na cultural nacional ou
regional, mas afirmar as diferenças culturais. Dessa forma, as diversas expressões artísticas
que se voltaram constantemente para a reprodução dessas imagens pejorativas,
preconceituosas e homogeneizantes a cerca do Nordeste, na verdade, buscava no passado uma
reposta para as necessidades do período e conseqüentemente uma invenção de tradições
explicitadas nessas obras artísticas, como lembranças de uma região, que não mais expressa a
pluralidade, mas a singularidade de cada indivíduo. Assim, os estereótipos e discursos
produzidos também na literatura regionalista pautaram-se nas busca incessante pela
manutenção de uma sociedade, muitas vezes, patriarcal, escravista e vitimizada pela seca.
Sendo assim, ele afirma que:



                           A busca das verdadeiras raízes regionais, no campo da cultura, leva à necessidade
                           de inventar uma tradição. Inventando tradições tenta-se estabelecer um equilíbrio
                           entre a nova ordem e a anterior; busca-se conciliar a nova territorialidade com
                           antigos territórios sociais e existenciais. A manutenção de tradições é, na verdade,
                           sua invenção para novos fins, ou seja, a garantia da perpetuação de privilégios e
                           lugares sociais ameaçados. 64




2.3 As canções na vida do sertanejo

     Esse processo de “ressignificação” ocorre também no campo da produção musical, com
o surgimento e a afirmação de um novo gênero ligado diretamente ás tradições culturais e ao
cotidiano do sertão brasileiro. Por volta de 1930 surgem no cenário nacional a música caipira
representando as tradições, o modo de vida, o trabalho e o cotidiano do caipira das regiões sul,
sudeste e centro-oeste. Sendo assim, esse novo gênero musical é utilizado também para
construir uma imagem do caipira dissociado da imagem do “mau sertão” brutalizado, e como
uma tentativa de conduzir a um imaginário da sociedade caipira, rural e agrícola. 65
     No que tange as manifestações musicais populares no sertão nordestino, estas por sua
vez, apresentam peculiaridades quanto a seu modo de criação e estilo nas cantorias quando
comparadas com o gênero caipira. Até mesmo devido às condições geográficas, culturais e

64
  ALBUQUERQUE JR, op. cit. 2009, p. 90.
65
 VIEIRA, Natã Silva. Cultura de vaqueiros: o sertão e a música dos vaqueiros nordestinos. III ENECULT,
Faculdade de Comunicação/UFBA, Salvador, maio de 2007, p. 6.
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A representação sócio cultural do cotidiano dos sisaleiros nas manifestações culturais do município de são domingos na década de 1990

  • 1. UNIVERSIDADE DO ESTADO DA BAHIA DEPARTAMENTO DE EDUCAÇÃO – CAMPUS XIV LICENCIATURA EM HISTÓRIA A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nas manifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990. Campo de sisal, Fazenda Riacho do Cedro no município de São Domingos – BA. Iracema Lopes Alves Conceição do Coité 2010
  • 2. 2 Iracema Lopes Alves A representação sócio-cultural do cotidiano dos sisaleiros nas manifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990. Monografia apresentada a Universidade do Estado da Bahia – Campus XIV como requisito parcial para obtenção do título de graduado em Licenciatura em História sob a orientação do professor Aldo José Morais Silva. Conceição do Coité 2010
  • 3. 3 AGRADECIMENTOS À minha família que contribui decisivamente na minha formação acadêmica e pelo aprendizado que me ensinaram e que levo pra toda a vida. Ao meu noivo Edigenildo que esteve ao meu lado em todas as etapas da pesquisa de campo, e pela força e incentivo dado nos momentos mais difíceis na realização do trabalho. Aos meus colegas da turma de Licenciatura em História de 2006.1 do campus XIV da UNEB que contribuíram significativamente nessa longa jornada de estudos e aprendizados, pela qual passamos nesse período em que estivemos juntos. Em especial, a Vera Lúcia, Iara e Milene parceiras de todas as horas que iniciaram comigo o projeto de pesquisa, o qual originou o presente estudo. Agradeço também a todos os professores que ao longo desses anos nos proporcionaram aprendizados que serão levados por toda a vida. Em especial, a Aldo José Moraes pela orientação e pela força dada para que esse trabalho viesse a ser concebido. Ainda sou grata a Milena e muitas outras pessoas que me estimularam, apoiaram e encorajaram na realização desse trabalho. Por fim, agradeço a todas as pessoas que mediante seus depoimentos proporcionaram a concretização desse trabalho com suas histórias de vida, compartilhadas e revividas nos momentos da pesquisa.
  • 4. 4 Eu sou da região esquecida Onde homens de fibra sobrevivem da fibra Onde o signo de libra a balança não pesa Onde o arco-íris é do povo que reza A semente e a terra com rara harmonia O calor e seu uso uma arma letal O falo: divisor de fronteiras da ação Velhas de anágua e meninas de minissaia Garotos de boné e homem de chapéu de palha As tradições curvam-se agora mais que nunca Mais o suor ainda é o mesmo (...) Moséis Neto, Poema “O sisaleiro”.
  • 5. 5 RESUMO Este estudo busca entender como a rotina de trabalho de sisaleiros se expressa em suas manifestações culturais no município de São Domingos, cujas transformações e adaptações foram mais acentuadas na década de 1990. Período este, que ocorreu várias mudanças na sisalicultura e consequentemente causou um impacto nos costumes e modo de vida de muitos trabalhadores e trabalhadoras rurais que sobreviviam dessa atividade econômica. Inicialmente, exponho a chegada do agave no país até a sua introdução no semi-árido baiano. Após a contextualização desse vegetal na região, abordo os diversos sentidos que foram atribuídos ao termo sertão, bem como a construção de uma imaginada comunidade do sisal e a importância que as canções populares possuem na vida dos sertanejos/nordestinos. E, finalizo o trabalho com a análise de músicas, das manifestações em estudo, presentes tanto no local de trabalho como nos ambientes de festas e lazer dos sisaleiros e sisaleiras são-dominguenses. Palavras-chave: manifestações culturais – trabalho – sisal – São Domingos.
  • 6. 6 ABSTRACT This study search to understand as the routine of sisaleiros work it is expressed in your cultural manifestation in the municipal district of São Domingos, whose transformations and adaptations were more accentuated in the decade of 1990. Period this, that happened several changes in the sisalicultura end consequently it caused an impact in the habits and way of many workers that survived of that economical activity. Initially, I expose the arrival of the agave in the country until your introduction in the semi-arid baiano. After a contextualização on the plant of the area, I approach the several senses that were attributed to the term interior, as well as an imagined community‟s of the sisal construction and the importance that the popular songs possess in the life of the setanejos/nordetinos. I conclude the work with it analyzes of music, of the manifestations in study, presents so much in the work places as in the atmospheres of parties and leisure of the sisaleiros and sisaleiras sãodomiguense. Key words: cultural manifestations – work – sisal – São Domingos.
  • 7. 7 SUMÁRIO INTRODUÇÃO .......................................................................................................9 CAPÍTULO I – Panorama Socioeconômico da Sisalicultura no Nordeste Baiano ................................................................................................14 1.1 Histórico sobre a cultura do sisal ......................................................................... 14 1.1 As relações sociais de produção no coração da sisalândia ........................................17 1.2 As influências do capital externo na economia sisaleira .......................................... 23 1.3 Fibras de agave: cordas do progresso ................................................................... 25 CAPÍTULO II – Manifestações artísticas e musicais ................................................ 28 no sertão nordestino. 1.1 Cultura popular nos sertões do Brasil .................................................................... 28 1.3 O sertão como lugar ........................................................................................... 33 1.4 As canções musicais na vida do sertanejo .............................................................. 37 1.5 Cultura e identidade regional no semi-árido baiano ................................................. 38 CAPÍTULO III – Sisal e Sociedade Rural: Manifestações Culturais no Território do Sisal ........................................................ 45 1.1 A música popular no cotidiano do sisaleiro ........................................................... 45 1.2 Grupos de Reisados no município de São Domingos .............................................. 54 1.3 Cantadeiras de roda ...........................................................................................63 1.4 Entre rezas e brincadeiras ................................................................................... 69 1.5 Perdas ou permanências? ................................................................................... 72 CONSIDERAÇÕES FINAIS .................................................................................. 77 REFERÊNCIAS ....................................................................................................80 FONTES .............................................................................................................. 84 ANEXOS .............................................................................................................. 85
  • 8. 8 INTRODUÇÃO O agave no Nordeste Baiano tornou-se símbolo de sobrevivência para muitas famílias que não possuíam alternativa de emprego. A partir da década de 1940 com sua exuberância na paisagem local, atraia muitos olhares e expectativas de dias melhores para a população de um modo geral, pois o “verde do agave” seduzia, quebrando a rotina da paisagem local marcada por vegetais acinzentados e retorcidos. Todavia, a sisalicultura não trouxe somente esperança e prosperidade para a região, também se mostrou agressiva nas condições de trabalho e alterou profundamente o cotidiano de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Dessa forma, o propósito desse estudo consiste em compreender como a rotina de trabalho dos sisaleiros se expressa em suas manifestações culturais no município de São Domingos. Como teria originado essas manifestações no ambiente de trabalho? Por que os lavradores tentavam veemente transmitir seus costumes nessas expressões culturais? Como essas manifestações resistiram e/ou transformaram-se ao longo do tempo nos campos do município? Enfim, como essas canções populares retratam os costumes de trabalhadores rurais das comunidades em estudo? Para estudar os significados que os sisaleiros e sisaleiras atribuíram ás manifestações e às experiências no trabalho com o agave, utilizei fontes impressas e orais. Com relação aos documentos escritos consultei o jornal “Folha do sisal”, editado pela APAEB, a revista “Territórios rurais” e as Atas do Sindicato dos Trabalhadores Rurais da Agricultura Familiar de São Domingos (SINTRAF). Assim, no primeiro momento procurei informações e dados sobre as condições e relações de trabalho da sisalicultura no município. No que diz respeito às fontes orais, busquei conversar com pessoas que possuíam uma experiência de muito tempo nos campos de sisal e que tivessem vivido na época do auge das manifestações culturais no setor rural de São Domingos. Pois, este fator era primordial para realização do estudo da temática referente à década de 1990. Usei principalmente os registros orais porque os considero fundamentais para a elaboração do discurso historiográfico. Heródoto, considerado o pai da história, já reconhecia a importância de ouvir as pessoas que vivenciaram os fatos narrados. Contudo, este procedimento gerou críticas mesmo entre historiadores gregos e, no mundo moderno, os positivistas denunciavam a subjetividade na construção do conhecimento. Essa discussão - objetividade/subjetividade – ainda permanece nos debates acadêmicos. Para Nunes “a pretensa vontade de traduzir o passado para o presente, realimentada no mundo
  • 9. 9 moderno pelo mito da razão e da comprovação, possibilitou que as fontes orais fossem desqualificadas enquanto documentos”. Ela ainda comenta que “delimitaram-se as fronteiras e se estabeleceram as dicotomias: objetividade/subjetividade, verdade/mentira, ficção/realidade”.1 Diante disso, foi a partir dos Annales que a noção tradicional de documento passou a ser questionada, apontando para a inexistência de hierarquias entre as fontes, sejam escritas ou orais, o que permitiu que a história oral readquirisse o status de documento no discurso historiográfico. Além do interesse pessoal por este tema, percebe-se ainda a sua importância para a historiografia local, pois existem poucos textos sobre este assunto no referido município e região. Tais trabalhos, comumente, foram produzidos por economistas como Humberto Miranda do Nascimento, cuja sua preocupação foi a de estudar a formação e atuação da Associação de Pequenos Agricultores do Município de Valente (APAEB) e muito particularmente as estratégias de convivência com o semi-árido baiano. 2 Outra obra de grande significância para compreensão da agaveicultura no Nordeste Baiano é o livro “O sisal baiano: entre a Natureza e Sociedade: uma visão multidisciplinar”, organizado pela Universidade Federal da Bahia – UFBA, e o livro de José Filho Ramos, “Sisal: sua história entre nós”, imprescindíveis para a realização de estudos sobre o sisal na Bahia. Embora algumas dessas obras busquem um diálogo com a história social, nota-se que, de um modo geral, estas abordagens enfatizam mais os aspectos produtivos, não priorizando itens relacionados à cultura dos trabalhadores, ás suas experiências cotidianas, enfim, as expressões culturais nesses ambientes. “Uma história de baixo para cima”, como escreveu Eric Hobsbawm. 3 Ressaltando os costumes de sujeitos ocultos, cujas histórias não aparecem apenas como fragmentos de vidas em si mesmas, mas em uma trama ampla: as histórias dos homens e mulheres interligados às cordas do agave e ao grande emaranhado de costumes expressos diariamente e perpetuados por gerações. Assim, realizo os estudos presentes neste trabalho dentro de uma perspectiva cultural da história social. Desse modo, em uma área muito ampla fazem-se necessário expor alguns teóricos que auxiliaram no desenvolvimento dessa investigação. Peter Burke, ao falar sobre 1 NUNES, Mariângela de Vasconcelos. Entre o capa verde e a redenção: A cultura do trabalho com o agave no Cariris Velhos (1937-1966, Paraíba). Universidade de Brasília – UNB. Programa de Pós-Graduação em História, Brasília, 2006, p. 27. 2 NASCIMENTO, Humberto Miranda do. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA.. São Paulo: Annablume, 2003, p.35. 3 HOBSBAWN, Eric. Sobre História. São Paulo; Companhia das Letras, 1998, p.216.
  • 10. 10 cultura, resume que esta por sua vez só pode ser definida em termos da nossa própria cultura. 4 O fato é que o conceito de cultura vem mudando ao longo do tempo. Para os historiadores, o termo cultura, no século XIX, estava ligado à arte, à literatura, às idéias e aos sentimentos. Tratava-se de uma definição extremamente elitista desta categoria. Portanto, a idéia de cultura era extremamente restrita e baseada na noção de alta cultura, assim, sendo desprezada a cultura dos grupos subalternos. No entanto, Nunes comenta que “esta corrente sofreu severas críticas, pois ela não só ignorava a produção cultural dos segmentos sócio-economicamente mais frágeis como também não dialogava com a cena econômica-política-social na qual estava inserida a cultura”. 5 O historiador Edward Thompson, no século passado, apresentou outro conceito de cultura, no qual a definiu como um conjunto de ações que constituem o cotidiano, as experiências dos sujeitos, ressaltando o seu papel na história, as suas vivências. 6 Nas últimas décadas do século XX, uma nova dimensão de história cultural foi consolidada ficando conhecido como “nova história cultural”, cujo objetivo é compreender o sentido que os homens, em diferentes momentos atribuíram, ao mundo, como disse o historiador Roger Chartier: “A História Cultural, tal como a entendemos, tem como principal objeto identificar no mundo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler”.7 Esta vertente se aproxima da antropologia. Tal aliança baseou-se na incorporação, por parte dos historiadores, da dimensão simbólica. Assim como os antropólogos, os historiadores começaram a se referir à cultura no plural, atacando a noção de hierarquização cultural. Ademais, o contato com aqueles possibilitou uma redefinição do significado de cultura, que passou a ser entendida de uma forma mais ampla, como disse Peter Burke: Em outras palavras, estendeu-se o sentido do termo para abranger uma variedade muito ampla de atitudes do que antes não apenas a arte mas a cultura material, não apenas a escrita, mas a oral, não apenas o drama mas o ritual, não apenas a filosofia 8 mas as mentalidades das pessoas comuns. 4 BURKE, Peter. Variedades da história cultural. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000, p.13. 5 NUNES, op. cit.,2006, p. 18. 6 THOMPSON apud NUNES, ibdem, p.18. 7 CHARTIER, Roger. A história cultural, entre práticas e representações. Lisboa: Difel; Rio de Janeiro: Betrand, 1982. 8 BURKE,. op. cit., 2000, p.13.
  • 11. 11 Graças a este diálogo, os historiadores também aprenderam a valorizar o uso da memória como interpretação do passado. O recurso da memória ainda nos permite ultrapassar as fronteiras do individual, adentrando assim em um território amplo, como destacou Maurice Halbawachs: É necessário que esta reconstrução se opere a partir de dados ou noções comuns que se encontrem tanto no nosso espírito como nos dos outros, porque elas passam incessantemente destes para aqueles e reciprocamente, o que só é possível se fizerem e continuarem a fazer parte de uma mesma sociedade. Somente assim, podemos compreender que uma lembrança passa a ser, ao mesmo tempo, reconhecida e reconstruída. 9 Nesta compreensão, foi possível, a partir das memórias individuais, entender como os trabalhadores rurais se organizavam cotidianamente, como e quando realizavam as manifestações culturais na comunidade, como viviam suas frustrações, alegrias, enfim, se integravam às rodas da história. Sendo assim, proponho analisar a representação das experiências sociais dos sisaleiros através das suas manifestações culturais do município de São Domingos na década de 1990. Este trabalho consta três capítulos. No primeiro, estudei a vida dos trabalhadores rurais no referido município, com a introdução do sisal na região, mostrando como viviam os lavradores, como organizavam seu trabalho e seu cotidiano, fornecendo assim, paisagens históricas da região sisaleira e da cidade em estudo, que serviram para iluminar a compreensão dos capítulos seguintes. No segundo capítulo, trato do significado que ao longo do tempo foi sendo atribuído ao termo sertão. E mais especificamente aos significados e olhares que se direcionavam para o sertão nordestino. Além disso, abordo a imagem que foi construída por muito tempo a respeito do semi-árido baiano e, após o desenvolvimento da agaveicultura e a conseqüente construção de uma imaginada comunidade do sisal. Exponho, também, brevemente a significância que as canções musicais possuem na vida do sertanejo. Já no terceiro capítulo, trabalhei com as manifestações culturais presentes na vida dos sisaleiros e sisaleiras no Território do Sisal e, especialmente, em São Domingos. Nessa etapa, pode-se entender o cotidiano dessas pessoas que expressam nas “rezas e brincadeiras”, os costumes e o cotidiano de trabalho como forma de resistência à situação que lhes era imposta. 9 HALBAWACHS apud NUNES, op. cit., 2006, p.20.
  • 12. 12 Delimitei como marco temporal a década de 1990 em virtude das bruscas mudanças que ocorreram no manejo com o sisal, bem como as constantes flutuações de preço no mercado interno e externo. Todavia, o que mais pesou nessa escolha foram as intensas transformações ocorridas nas manifestações, na área rural, nesse período em relação às décadas anteriores. Portanto, como afirma Ecléa Bosi: “feliz o pesquisador que se pode amparar em 10 testemunhos vivos e reconstituir comportamentos e sensibilidades de uma época!”. Sendo assim, o conhecimento pautado na oralidade nos proporciona hoje ter acesso às lembranças destes indivíduos que em suas narrativas nos ensinam sobre os festejos que envolvem: músicas, danças, trabalho, alegria, distração... Enfim, são costumes herdados de longas gerações e/ou reelaborados dentro de um novo contexto histórico. 10 BOSI, Ecléa. O Tempo vivo da Memória; ensaios de psicologia social. 2º ed. São Paulo: Ateliê editorial, 2004, p.16-17.
  • 13. 13 CAPÍTULO I – PANORAMA SOCIOECONÔMICO DA SISALICULTURA NO NORDESTE BAIANO. O sisal representa um recurso perfeitamente adaptado às condições climáticas do semi-árido e de difícil substituição, já que a cultura se constitui na maior fonte de produção e de subsistência da região. Maria Auxiliadora da Silva Neste capítulo encontra-se um panorama geral da introdução da sisalicultura no Brasil e na Bahia. Logo após, trato das relações de trabalho e as condições de vida dos sisaleiros, bem como as crises cíclicas do agave e sua expansão na área de estudo, principalmente na década de 1990. Posteriormente, retrato algumas possibilidades de convivência com o semi-árido e transformações socioprodutivas na região sisaleira. 1.1 Histórico sobre a cultura do sisal O sisal (Agave Sisalana) 11 é uma planta originária de península de Yucatan, no México. As várias espécies dessa planta foram usadas pelos índios em fabricação de objetos domésticos e de bebidas alcoólicas, tais como a tequila, o pulque e o mexical. Dessa forma, esse vegetal caracteriza-se como resistente à seca, e por isso que no Nordeste encontrou lugar propicio para a sua implantação. Por ter sido bem adaptada à região semi-árida era considerada como uma planta nativa. 12 Benedita Pereira Andrade , em trabalho de síntese sobre a implantação do sisal na Bahia informa que as primeiras mudas foram trazidas da Flórida (EUA) pelo industrial Horácio Urpia Junior no começo do século, precisamente em 1903. Nesse mesmo ano, algumas mudas foram levadas para a Bahia principalmente por sua beleza e sua utilidade para fazer cercas que impedia o gado de alcançar as plantações. Das mudas que chegaram ao território baiano, algumas foram enviadas para a Paraíba em 1911, e foi nesse estado que, a 11 O agave (que vem do grego agavos = magnífico admirável) é um gênero de plantas de consistência herbácea e escapo floral saliente, que dá origem a várias espécies fibrosas, entre elas o sisal, que é uma fibra dura foliar. Alias, há somente o conhecimento de duas espécies de Agave com valor comercial: a sisalana e a foucroydes. Quando menciono à denominação genérica “sisal”, estarei falando da espécie sisalana. 12 ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e Sociedade Rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade: uma visão interdisciplinar. Salvador: UFBA _ Instituto de Geociência, 2002, p. 71-74. .
  • 14. 14 partir de 1937, o sisal passou a ser cultivado com finalidade econômica, enquanto na Bahia, isso ocorreu em 1939/1940, trinta e seis anos após a iniciativa pioneira de Horácio Urpia. No nordeste baiano, o sisal obteve maior produtividade em virtude do clima e solo favorável ao cultivo, distribuindo-se especialmente por 20 municípios que posteriormente passam a integrar o Território do Sisal. Voltado, sobretudo para a exportação, após passar por um beneficiamento, o sisal, pouco a pouco, tornou-se a atividade econômica da região. “Disseminaram-se assim as primeiras sementeiras do „Agave Sisalana‟ sem que Pacífico e os demais roceiros conhecessem as legítimas riquezas da variedade botânica que aparecia nos sertões”. 13 Esse vegetal começa a ser cultivado em Valente na década de 1920, sendo este município pertencente, na época, a cidade de Conceição do Coité. O Sr. Pacifico José dos Santos foi o pioneiro na plantação de agave na região, mas, inicialmente a sua utilidade era apenas como adorno ou com finalidade de servir de cerca para separar as propriedade e guardar os animais.14 A partir disso, ocorre uma progressiva ampliação desse plantio na região e, consequentemente o beneficiamento da fibra do sisal para a fabricação de diversos produtos, sendo estes exportados até mesmo para fora do país. Diante da falta de emprego que atingia grande parte da população, fazia-se necessário o cultivo de uma lavoura permanente e que resistisse às inclemências das secas. No final da década de 1930 e início de 1940 houve por parte do governo estímulos iniciais para o cultivo do sisal, o qual se espalhou pelas terras semi-áridas do país. O Ministério da Agricultura e do governo do Estado ofereciam prêmios para os maiores plantadores e beneficiadores, essas atitudes contribuíram significativamente para o aumento das áreas plantadas. “Em poucos anos, as plantações chegaram até perto do rancho. Expulsando a hortinha, as galinhas e a mandioca”. 15 No entanto, com esses estímulos iniciais a produção ficou nas mãos de pequenos e médios produtores, e o governo ausentou-se do apoio esperado para a experimentação e pesquisa com a planta. Além disso, concessão de créditos para a lavoura era praticamente inexistente. Nenhuma tecnologia foi oferecida aos agricultores para compensar o seu esforço. Para extrair a fibra, o sertanejo recorreu a sua capacidade criativa: inventou o farracho, instrumento rústico, rudimentar, que faz lembrar o tempo da pedra lascada, mas que serviu para os 13 RAMOS, José Filho. Sisal: sua história entre nós. Salvador: S.A. Artes Gráficas, 1965, p. 11. 14 GALVÃO, Almiro. Valente, estrela do Semi-Árido. Valente, abril, 2004, p. 15-16. 15 LIMA, Jorge Pinto. Correio Rural. São Paulo, 1952, p. 50.
  • 15. 15 primeiros desfibramentos, até que foi substituída pelas máquinas atuais, apelidadas de paraibanas, dada sua origem, as quais têm decepado dedos e mãos dos operadores, gerando a triste multidão dos mutilados do sisal. Quanto à intervenção governamental Nonato Marques comenta: Tudo foi feito na base da improvisação, enquanto o Governo modorrava na sua inércia, à espera dos tributos arrancados de um produto embebido do suor de milhares de nordestinos espoliados pela especulação violenta dos intermediários gananciosos. [...] Mas mesmo assim, produtores fizeram com que, a partir de 1946, o sisal passasse a figurar nas estatísticas baianas para delas jamais sair. 16 Mas, mesmo assim, produtores fizeram com que, A partir de 1946, as exportações aumentassem substancialmente, favorecidas, após a II Guerra Mundial, pelo aumento de mercados, devido às necessidades geradas pelo conflito e, sobretudo, devido ao incremento da agricultura na América do Norte e nos novos mercados da Europa Oriental e Ocidental. Em 1946, o Brasil tornou-se exportador de sisal e, em 1951, assumiu a vice-liderança na produção mundial. A Paraíba ocupava o lugar de maior exportadora do Brasil até a década de 60, quando é superada pela Bahia. Nessa mesma década houve um período de alta de preços, provocada pelos acontecimentos políticos que explodiram na África, mas logo em 1965, o mercado mundial de fibra mergulhou em profunda crise, com a redução das colheitas e “devido ao surgimento de sucedâneos sintéticos derivados do petróleo (...) o avanço da indústria química e a produção de grande escala reduz substancialmente o preço da fibra sintética, inviabilizando a indústria periférica do sisal”. 17 Apesar da relevância econômica e social do sisal, a exploração da cultura, durante o período em questão, foi realizada com baixo índice de modernização e capitalização, resultando em acentuado declínio, tanto da área plantada quanto da produção. Um outro fator limitante é o alto custo de produção, devido ao baixo aproveitamento da planta. Assim, diante da contextualização do sisal no Brasil e na Bahia fazem-se necessário abordar brevemente a introdução desse vegetal na cidade em estudo. O território atual que se configura no município de São Domingos, junto com Valente, pertencia primeiramente a Conceição de Coité. Desse modo, quando Valente emancipa-se em 1958, o povoado de São Domingos passa a pertencê-la. Mas, antes mesmo da passagem do território são-dominguense para o município de Valente já havia evidências da sisalicultura nas terras dessa localidade, 16 MARQUES, Nonato. Histórico sobre a cultura do sisal. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade, Salvador, 2002 p. 16. 17 Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005.
  • 16. 16 aumentando sua produtividade nas décadas seguintes. Na Fazenda do Sr. Pacifico, localizada em Valente, havia alguns trabalhadores da referida comunidade que já trabalhavam com o sisal para fins econômicos. E assim, esses sisaleiros aprendiam as técnicas e o modo de cultivar a planta para depois trazerem para os campos de sisal, do então povoado, em que centenas de famílias passaram a depender fortemente dessa atividade econômica. 18 1.2 As relações sociais de produção no coração da sisalândia O semi-árido baiano ocupa a região central do estado, representando 60% da superfície territorial, abrangendo 258 municípios. 33 destes municípios compunham a chamada região do sisal, que recebe esta denominação devido a sua principal atividade econômica. Essa região enfrentou um período de decadência após os anos 70 em que as pedreiras, a pecuária extensiva e a agricultura familiar de subsistência, ficam sujeitas aos longos períodos de seca que ciclicamente atingem a região, agravando os problemas sociais. 19 No sertão da Bahia destaca-se um terreno de grande potencial para o cultivo desse agave, conhecido como sisalândia. Esse território apresenta características peculiares em relação às demais localidades do estado, diferenças estas referentes às relações sociais de produção e intenso cultivo do sisal. Portanto, o termo sisalândia nas palavras de Jacques Hubschmar caracteriza-se da seguinte forma: Essa designação é, às vezes, aplicada ao coração do espaço sisaleiro, à área sertaneja no qual se concentra o grosso da produção de fibra. Trata-se, de Serrinha, particularmente da parte ocidental, que se estende entre os rios Itapicuru, ao Norte, e Jacuípe, ao sul, onde se encontram os dois municípios vizinhos de Valente e Santa Luz. Na verdade, essas terras de sisal são, também, arquétipos do sertão, que se assemelham a um espaço relativamente limitado, mas com os mesmos traços característicos do interior do Nordeste. 20 Desse modo, o município de São Domingos encontra-se localizado nesse espaço de grande produção do agave, o qual foi por muito tempo distrito da cidade de Valente 18 Depoimento do Sr. Manuel Moséis de Oliveira, 69 anos, neto do Sr. Pacifico José dos Santos. 19 RAMOS, Alba Regina; NASCIMENTO, Antonio Dias. Características culturais. Resgatando a infância. A trajetória do PETI na Bahia. Salvador: MOC/OIT/UNICEF, 2001. 20 HUBSCHMAR, Jacques. Olhar sobre o sisal: As pesquisas e a sociedade no sertão sisaleiro da Bahia. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade, Salvador, 2002, p.2.
  • 17. 17 emancipando-se apenas em 1989, localizando-se numa distância de 261 km da capital do estado – Salvador. Este município na década de 1990 possuía 10.276 habitantes, sendo sua população rural correspondente a 66,5% deste total (IBGE, 1991). O Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) nesse período é considerado muito baixo – 0, 531, quando comparado à média nacional. A região sisaleira é também denominada como Território do Sisal. E por essa denominação entende-se que “território é o espaço que se estrutura em virtude de uma ação social e que compreende os aspectos econômico, social e político. (...) os territórios são 21 compreendidos por ações sócio-políticos regionalizadas”. Nesse sentido, Brandão em seu livro “Território e Desenvolvimento” faz uma crítica e discute a questão do desenvolvimento local e o “localismo” que muitas vezes posto como panacéia para o problema do desenvolvimento nacional. Na sua concepção, a análise regional deve estar pautada numa abordagem territorial. O grande desafio é encontrar uma maneira de tratar ao mesmo tempo e numa perspectiva multiescalar as heterogeneidades estruturais de um país subdesenvolvido e as diversas alternativas de avanço social, político e produtivo. E observa que: Nunca as diversidades produtivas, sociais, culturais, espaciais (regionais, urbanas e rurais) foram usadas no sentido positivo. Foram tratadas sempre como desequilíbrios, assimetrias e problemas. A equação político-econômica imposta ao país pelo pacto de dominação oligárquica das elites, cuja lógica aponto muito sinteticamente neste texto, travou o exercício da criatividade “dos de baixo”, procurando impedir sua politização. 22 Brandão enfatiza, então, a necessidade de construção democrática de estratégias de desenvolvimento e aponta para os limites teóricos que desafiam a noção de desenvolvimento territorial. Dentro dessa idéia de território como local de redes socioespaciais, é que são buscados pelas organizações, agentes públicos e atores sociais novas perspectivas de análise para o Desenvolvimento Rural. Nesse contexto, destacam-se no território do sisal as ações da Associação de Pequenos Agricultores do Estado da Bahia (APAEB/Valente) e o Movimento de Organização Comunitária (MOC), ambos os mecanismos responsáveis por transformações socioprodutivas nos municípios do nordeste baiano e na vida de muitos sisaleiros da região. A APAEB surge da luta contra a cobrança extorsiva do ICM aos pequenos produtores rurais, com a atuação regional de defesa econômica e ação sócio-politica. Esse período 21 Estudo da Base Econômica Territorial: Território sisal, Bahia, Jun./2005. 22 BRANDÃO, A. C. Território e desenvolvimento: as múltiplas escalas entre o local e o global. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2007, p.205.
  • 18. 18 também foi marcado por constantes crises e baixa do preço do sisal. Algumas das mudanças promovidas pala instituição foi a introdução da batedeira comunitária, adoção de uso racional do solo e da propriedade, visando o aumento da produtividade. Em 1993, a APAEB funda a cooperativa de crédito que opera, além do significado econômico, produz um valor simbólico 23 e pedagógico muito importante. Dessa forma, após a sua estruturação, passa a atuar em outros municípios circunvizinhos rompendo as fronteiras de Valente, onde encontra instalada sua sede. Com as ações desse organismo na região sisaleira houve mudanças no modo de trabalhar com o sisal. O sisaleiro Luís da Silva relata que “existe uma mudançinha sim, por que de um certo dia pra cá a gente tá aprendendo até a trabalhar mais, inclusive, através de alguns cursos que a gente tomou na APAEB espalhar o resíduo que ninguém espalhava. Hoje também é... fazer a „silagem do sisal‟24 e utiliza pra gente ter um burrego de corte dar ração no coxo”. As ações do MOC também se realizam com grande eficácia na região. Criado em 1967, a partir do trabalho da Igreja Católica, esse organismo busca incentivar a emancipação social e a criação de grupos organizados para o exercício da cidadania. O desenvolvimento de atividades de apoio e fortalecimento de associações comunitárias rurais e urbanas, a contribuição do desenvolvimento sustentável da região sisaleira e o auxilio para a atuação qualificada na gestão de políticas publicas são algumas dos trabalhos do MOC. Na perspectiva de convivência com o semi-árido, a instituição desenvolveu os programas de “Água e segurança alimentar”, “Agricultura familiar”, “Comunicação”, “Crianças e adolescentes”, “Educação do campo”, “Gênero”, e “Políticas publicas”. 25 A região de Valente/São Domingos e Santa Luz a sisalicultura contribuiu decisivamente para manter, nesses municípios, milhares de famílias sertanejas que, na ausência do sisal engrossariam os fluxos migratórios em direção as grandes cidades. Alguns dados mostram de que forma eram ocupadas as terras com o plantio do agave sisalana. 23 SANTOS, Vilbégina Monteiro dos. A construção de uma comunidade imaginada do sisal. In: V ENECULT, Faculdade de Comunicação/UFBA, maio de 2009, p.6. 24 Consiste numa técnica denominada de ensilagem que utiliza o resíduo da fibra do sisal (mucilagem), que foi anteriormente desfibrado no “motor”, para alimentar criações de gado caprino e ovino. A ensilagem pode ser feita ma forma de monte, sobre o solo, coberto com lona; ou em silos do tipo trincheira; ou, ainda, em sacos plásticos, caso em que é necessário que se faça a compressão do material ensilado, com vista a expulsar o ar contido na massa. Ensilada em regiões semi-áridas, 10 dias são suficientes para completar o processo de fermentação, sendo então, adicionado mais substâncias transformando-se numa ração nutritiva para alimentar os animais da região sisaleira. 25 MOC - Homepage. Disponível em: www. moc.org. br. Acesso em nov. - dez. de 2009.
  • 19. 19 Em 1975, o sisal foi uma das principais bases de sustentação da economia regional, responsável pela subsistência de 50% a 60% da população e pela permanência do homem no campo [...] A ocupação do solo com o sisal era de ordem 49,71% em Valente/São Domingos e 21,08% em Santa Luz. 26 A cadeia produtiva do sisal compreende uma numerosa quantidade de pessoas, no qual abriga sisaleiros desde crianças, mulheres e homens que desempenham diversas funções no manejo com este vegetal. O processo inicia-se com atividades de manutenção das lavouras, colheitas, desfibramento e beneficiamento da fibra e termina com a industrialização e a confecção de artesanatos. Para cada função há uma ou mais pessoas para desempenhá-la, contudo no campo é realizado a plantação e o desfibramento do sisal. O sucesso do vegetal na região deve-se a intensa procura do mercado interno e externo pela fibra dessa planta sendo utilizada para a fabricação de cordas de todos os tipos (cabos marítimos, cordas, cordões e outros produtos similares), diversos tipos de tapetes, sacolas e outros artigos domésticos. A pecuária é uma atividade econômica típica do interior brasileiro, no que se refere a questão agrária, no entanto devido as condições climáticas adversas para a criação de gado em larga escala no sertão baiano prevalece a agricultura de subsistência e predominantemente o cultivo do sisal. Para Adaltina Araújo Santana27 é possível plantar outros tipos de vegetações nas terras da região sisaleira, todavia salienta que “vem o plantio do milho, feijão, quiabo, abóbora, mas quando tá chovendo... o que permanece mesmo é o sisal”. A escassez de chuva na região reduz significativamente as alternativas de emprego oferecidas aos trabalhadores rurais. Por isso, deve-se levar em conta um conjunto de fatores que influenciam no cotidiano desta população, que por sua vez acarreta no desenvolvimento econômico, social e cultural da região sisaleira. Nos minifúndios (áreas de 1 a 10 há), o fracionamento da propriedade é constante. Toda a família ocupa-se dos trabalhos agrícolas e muitos trabalham em outras propriedades para aumentar a renda familiar. O sisaleiro Luis da Silva relata que “o que realmente existe aqui é o motô de sisal ou quando algum fazendeiro quer pagar uns dias de roça, mas é muito pouco.” Diante disso, percebe-se que mesmo trabalhando no manejo com o agave a renda não se torna suficiente para manter a família, sendo então necessário complementá-la com atividades extras, até mesmo devido aos constantes períodos de seca nos quais os motores de 26 MOREIRA, Maria Auxiliadora. Nova dinâmica de ocupação do solo no sertão sisaleiro da Bahia. In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano: entre natureza e sociedade., Salvador, 2002, p.21. 27 Ex-trabalhadora do sisal, atualmente funcionária do Sindicato de Trabalhadores de São Domingos.
  • 20. 20 sisal param em virtude da escassez da planta e do seu baixo desenvolvimento e aproveitamento na cadeia de produção. A cultura do sisal é uma atividade que exige uma grande aplicação de mão-de-obra. O desfibramento é feito pelo motorzinho ou máquina paraibana, nas propriedades. Geralmente, os sisaleiros trabalham nas terras de outras pessoas, no qual prestam serviços temporários e não assalariados, ou seja, utilizados para as tarefas bem precisas e no tempo determinado. O nível de emprego de mão-de-obra temporária é maior nas pequenas empresas rurais e familiares, onde o sisal é a cultura dominante. Os trabalhadores são pagos por tarefa ou quantidade produzida. Não existe contrato, e os acordos são feitos verbalmente. Os proprietários preferem o trabalho temporário, porque permite reduzir sensivelmente os custos de produção e as despesas exigidas pelos encargos sociais. A primeira etapa do processo de colheita do sisal consiste no corte periódico de determinados números de folha da planta, por meio de instrumentos adequados. (...) O transporte das folhas colhidas para o local de desfibramento deve ser realizado na menor distância possível. Na região sisaleira, esta operação é realizada com auxílio de asininos e muares, dispondo as folhas colhidas sobre cangalhas com cambitos (gancho, tipo V, de madeira) ao seu dorso. Um animal pode transportar em torno de 130 a 180 kg. 28 As práticas utilizadas nesse tipo de agricultura são transmitidas de geração a geração. As mulheres e as crianças representam uma força de trabalho importante, cuja participação é constante durante uma longa jornada de trabalho, porém com pouco valor econômico. Estas por sua vez, realizam todas as atividades, exceto as do “cortador”, do “cevador” (operador do motorzinho) e do “bagaceiro” (encarregado de retirar as polpas residuais), que geralmente são feitas pelos homens. As mulheres, geralmente, realizam o trabalho conhecido como “estender fibras”, no qual consiste em colocar para secar as fibras do sisal que foram passadas anteriormente na máquina no processo de desfibramento. Esse processo acontece da seguinte forma: O desfibramento consiste na eliminação da polpa das fibras mediante a raspagem mecânica da folha, através de rotores raspadores acionados por um motor a diesel. A principal desfibradora dos campos do sisal do Nordeste brasileiro é a máquina denominada “motor de agave” ou “máquina paraibana”, que tem baixa capacidade operacional.esta máquina desfibra em torno de 150 a 200kg de fibra seca em turno de 10 horas de trabalho, desperdiçando em média, 20% a 30% da fibra; além disso, envolve um número elevado de pessoas para sua operacionalização. A rusticidade 28 ANDRADE, Wilson (org.). O sisal do Brasil. SINDIFIBRAS – Sindicato das Indústrias de Fibras Vegetais da Bahia; Brasília: APEX – Brasil – Agência de Promoção de Exportações e Investimentos, 2006.
  • 21. 21 da máquina exige grande esforço do operador (puxador), que poderá ser uma ou duas pessoas. Em operação normal desfibram-se, em média, 20 a 30 folhas/min, ou 1.200 a 1 800 folhas/h. A fadiga. Aliada à falta de segurança da máquina, expõe os operadores a constantes riscos de acidentes, o que constitui um dos principais problemas da máquina e da operação propriamente dita. 29 O desgaste físico decorrido do trabalho no processo de desfibramento do sisal pode acarretar também na questão das mutilações (mãos e braços) que ocorrem com freqüência em 30 toda região sisaleira. Fato este provocado, em virtude do intenso trabalho que o Cevador pratica na máquina chamada “paraíbana” para obter uma renda semanal maior, pois se ganha por produção. Além disso, o baixo nível de capitalização da lavoura sisaleira, somada a falta de recursos financeiros, cria um estado de vulnerabilidade perante os oligopólios comerciais, industriais e exportadores, culminando, ao longo do tempo, com o entrave à modernização tecnológica desta cultura. No município de São Domingos na década de 1990 as mutilações nos campos de sisal, segundo os sisaleiros da localidade, foi reduzido bastante comparado-a com décadas anteriores. Os motivos foram os mais diversos que vão desde as modificações realizadas na máquina como pelo cuidado e atenção maior dada pelos trabalhadores no manejo com a mesma. É importante salientar que as mutilações acontecem em sua grande maioria em pessoas do sexo masculino, pois estes exercem a função mais perigosa no processo de desfibramento. A ex-trabalhadora do sisal Adaltina Araújo Santana já presenciou o acontecimento e relata que “o momento é muito difícil por que eu acho que a dor é tanta que a pessoa adormece, ele nem geme, depois é que vem gemer, por que a velocidade da máquina é tão rápida que ele perde a mão e nem vê.” Comenta ainda das mudanças ocorridas no chamado “motor de sisal” sendo um fator da provável redução de acidentes no município “a boca da máquina diminuiu mais, de primeiro era feita a machado, a boca da máquina passava duas mãos se fosse possível.”. O trabalho infantil nos campos de sisal na década de 1990 foi bastante freqüente e intenso, mas os sisaleiros do município relatam que com o surgimento do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI) em 1997 e demais programas do governo reduziram significativamente o trabalho de crianças na zona rural. Além disso, estimulou e aumentou a freqüência nas escolas da localidade. Luís da Silva com 46 anos de idade, trabalhador do sisal, 29 Idem. Ibdem. 30 Cevador é homem responsável pelo desfibramento do sisal. Sendo este quem sofre com o problema de mutilação ao manejar a fibra na máquina paraíbana.
  • 22. 22 tece o seguinte comentário sobre a questão do trabalho infantil fazendo analogia com o trabalho na sua época de infância: Naquele período eu estudei lá em Zazá era uma légua e meia, a gente ia e vinha de péis e quando estudei na casa de vó Martim era uma légua e a gente não tinha a chance que tem hoje. Hoje todos lugares os carros passam para pegarem as crianças. Naquele tempo, a gente ia de péis, montando jegue... E hoje em dia tem uma grande tranqüilidade dos meninos, até mesmo a bolsa escola que ajuda a comprar uns materiais. E depois da escola vão pro PETI e aí os meninos hoje em dia... qual o menino hoje em dia que quer aprender pegar uma fibra. Antigamente começava pegando fibra depois ajudando os pais às vezes a cortar uma palha daí com 15 e 16 anos já encarava. Eu quando comecei cevar tinha dezesseis anos, eu não tinha interado dezessete anos, eu aprendi a cevar ai pronto tô até hoje. E graças a Deus não tenho arrependimento não, peço a Deus que quero ter a saúde, tendo a saúde o resto não tem pressa. 1.3 As influências do capital externo na economia sisaleira A sisalicultura não depende apenas do mercado interno. As fibras que se produzem no Brasil destinam-se a exportação, principalmente para os Estados Unidos e a Europa. Consequentemente, o país torna-se dependente das decisões dos países consumidores e da oferta dos países produtores no mercado internacional. As constantes flutuações dos preços das fibras do sisal se refletem em toda a cadeia de produção, principalmente, na base desse sistema, no qual se encontra o sisaleiro. Em novembro de 1990, o sisal estava em crise. Inúmeras batedeiras em Valente e Santa Luz pararam as suas atividades. Na tentativa de minorar a crise do sisal, os agricultores, os trabalhadores e os representantes sindicais lançaram uma campanha intitulada os sisaleiros pedem socorro, seguida de um desfile, de reuniões e de um conjunto de reivindicações. 31 O preço do sisal durante a década de 1990 oscilou bastante em virtude de dois fatores principais: o panorama econômico internacional e os constantes períodos de seca que assolava a região nessa década. Durante esse período, ocorreram várias reuniões envolvendo os Sindicatos de Trabalhadores Rurais (STRs), associações e autoridades municipais objetivando juntos encontrarem um saída para a crise que enfrentavam , no qual uma das alternativas poderia advir de recursos governamentais destinados a região sisaleira. 31 ANDRADE, Benedita Pereira. Sisal e sociedade rural: o caso de Valente e Santa Luz - Bahia In: LAJES, Creuza Santos; ARGOLO João Almarque; SILVA, Maria Auxiliadora (org.). O sisal baiano entre natureza e sociedade, Salvador, 2002, p.75.
  • 23. 23 A seca está provocando falta de sisal para as indústrias e batedeiras. Por isto, o governo está colocando no mercado parte do sisal adquirido pelo Programa de preços Mínimos. Para evitar desemprego na BATEDEIRA COMUNITÁRIA, a APAEB/Valente comprou 460 toneladas de sisal em dois leilões realizados recentemente pela bolsa de Mercadorias da Bahia. 32 O município de São Domingos atravessou um período de dificuldades econômicas em virtude da seca que afetava a região e, pelas constantes crises do preço do sisal na década de 1990. Durante todo o ano de 1993 foi buscado apoio governamental para amenizar a situação de calamidade que o município enfrentava nesse período. Para isso, mobilizou-se o Sindicato de Trabalhadores Rurais de São Domingos, autoridades municipais e membros da Igreja Católica com o intuito de criar uma comissão municipal de assistência a seca, no qual receberia uma verba enviada pelo governo estadual, em parceria com o poder federal, para desenvolver o programa denominado de “Frente de Serviço ou Frente Produtivas”. 33 Esse Projeto criado no governo de Itamar Franco consistia em amenizar a fome e o desemprego gerado pela seca na região Nordeste, para tal finalidade eram disponibilizados durante alguns meses desse ano recursos financeiros, que por sua vez, revestiam-se em empregos para pessoas de baixa renda. Essas pessoas recebiam meio salário mínimo mensal para trabalharem realizando serviços públicos e capinando estradas na localidade. É importante salientar que a geração de empregos provisórios atendia a população rural e urbana como medida de emergência nas cidades que mais sofriam com a seca naquele período, o município de São Domingos empregou nessa época quatrocentos e cinqüentas habitantes no referido programa. 34 Em março de 1995 o jornal Folha do Sisal anuncia “Preço do sisal bate recorde histórico no mercado mundial”. A reportagem aborda o melhor preço que o agave obteve nos últimos 10 anos. Isso em virtude do aumento do consumo do produto no mercado externo, principalmente pela valorização da celulose e, também, por se tratar de um produto, biologicamente degradável (Gráfico 02 e 03). Porém, mesmo com este aumento, a situação dos trabalhadores do sisal continuou difícil, pois as constantes secas provocaram a paralisação de motores e batedeiras em muitos municípios, inclusive, em São Domingos que a maior geração de emprego advém da agaveicultura. 32 Jornal BATEDEIRA COMUNITÁRIA, p. 01, nº. 13, Valente, Abril de 1993. 33 Sindicato de Trabalhadores Rurais de São Domingos. Atas das reuniões realizadas durante o ano de 1993. 34 Idem. ibdem.
  • 24. 24 O sisal sempre pára de vez em quando, todo mundo sabe é a seca né? Por que sempre baixa o preço do sisal, mas se tiver chovendo sempre continua o motô rodando, por que nesse município, nessa região sisaleira a renda é o sisal, mesmo, ou seja, bom ou seja ruim de preço tem que rodar, só pára em tempo de seca. 35 Gráfico 02 – Exportação de Fibras e Manufaturados Gráfico 03 – Exportação de Tapetes Fonte: Sindifibras As crises periódicas na sisalicultura é uma característica constante no país, apesar do dinamismo do Brasil nesse setor, os preços ficam a mercê das flutuações do mercado. Em 1995 a área plantada de agave sisalana reduziu-se a metade do que já havia sido cultivado em anos anteriores. Nesse mesmo ano foram plantados 92. 807 hectares de sisal espalhados por Campo Formoso, Conceição do Coité, Itiúba, Jacobina, Mirangaba, Ourolândia, Queimadas, Retirolândia, Santa Luz, São Domingos, Valente, Várzea Nova e outros. 36 1.4 Fibras de agave: cordas do progresso O agave sisalana representa para a região do nordeste baiano um meio de sobrevivência e mais do que isso um progresso no setor econômico, social, político e cultural. O sisal pode ser a solução de muitos problemas do semi-árido nordestino, pois apresenta várias possibilidades de desenvolvimento sustentável para os municípios que realizam a sisalicultura e seu beneficiamento. A APAEB transforma as fibras produzidas na região sisaleira em fios, que através dos teares são transformados em tapetes e carpetes. Isso agrega valor ao produto e gera 600 postos de emprego, no qual inclui pessoas de vários municípios vizinhos de Valente. Além disso, são desenvolvidos vários projetos e cooperativas que trabalham com a fibra do agave na confecção de diversos produtos artesanais. Dentre estes, se encontra a 35 Depoimento de Adaltina Araújo Santana, ex-trabalhadora rural. 36 Jornal FOLHA DO SISAL, Ano 8, nº. 40, Outubro de 1997, p.2.
  • 25. 25 cooperativa “Mulheres de Fibra”, essas mulheres saíram do motor do sisal e constituíram com o apoio de sindicatos, sociedade civil e entidades públicas, a Cooperativa Regional de artesãs de fibras do sisal (Cooperafis), por isso a denominação bastante sugestiva mulheres de fibras. O trabalho delas realiza-se da seguinte forma: São colchas bordadas, bolsas e chapéus de fibra fina de sisal, variados objetos de decoração. O sucesso foi imediato e ultrapassou as fronteiras locais. Chegou a Salvador, São Paulo e começa a ganhar o mundo. Dignidade e cidadania cresceram frutos de trabalho e dedicação. Atualmente são 122 cooperadas distribuídas em nove núcleos de produção, nos municípios de Araci, são Domingos e Valente. 37 A agaveicultura pode também transformar a vida dos pequenos produtores e sisaleiros que vivem no sertão baiano mediante ações e investimentos aplicados em instalações de indústrias que utilizem a fibra do agave na fabricação de diversos produtos para exportação. “A fibra do sisal pode ser utilizada na fabricação de pasta celulósica, empregada na fabricação do papel Kraft, de alta resistência, e de outros tipos de papéis finos. Pode também ser empregado na indústria automotiva, de móveis e eletrodomésticos e na construção civil.” 38 As atividades econômicas e as associações existentes na região sisaleira, especialmente no município de São Domingos, são desenvolvidas basicamente em torno do sisal. Esse fato está intimamente relacionado à quantidade de pessoas que sobrevivem direta ou indiretamente do: cultivo, desfibramento, beneficiamento, exportação ou atividade artesanal nos principais centros produtores de agave da Bahia. Além do desenvolvimento e contribuição desse produto no setor primário e secundário, nas últimas décadas nota-se uma crescente urbanização e progresso no setor terciário, pois este por sua vez, depende consideravelmente do capital movimentado nos município proveniente da sisalicultura. Na verdade, se o sisal é por um lado uma preciosidade e riqueza para muitos produtores, por outro lado é visto pelos sisaleiros como meio de sobrevivência e esperança de um futuro mais próspero com grandes plantações do agave nas suas pequenas propriedades. Sendo assim, mesmo diante de precárias condições de trabalho, dos constantes períodos de seca e das cíclicas crises no preço do sisal o sisaleiro acredita que as fibras do agave são cordas do progresso. Todavia, para que isso ocorra é necessário um planejamento na questão do desenvolvimento rural em regiões semi-áridas, posto que muitas estratégicas de sobrevivência praticadas e propagadas, por guardarem relação de similaridade com formas de convivência 37 RECENA, Luiz. Sisal o território da esperança. In: Territórios rurais, nº1, jan./jun., 2005, p.19. 38 ANDRADE, Op. cit., 2006.
  • 26. 26 no semi-árido, não resultam em estratégias de convivência do semi-árido propriamente dita. A distinção pode ser explicada da seguinte forma: Para que fique claro a distinção, podemos dizer que as estratégias de sobrevivência são práticas de valência social da população local, em geral, para conviver com as privações infortúnios no(grifo do autor) Semi-Árido. Ao contrário, as estratégias de (grifo do autor) Convivência com o Semi-Árido são modos de superar as mazelas do subdesenvolvimento naquilo que têm de mais especifico no Semi-árido brasileiro: o agravamento da dependência e da exploração, o aumento das vulnerabilidades socioambientais e a situação de insustentabilidade de certos meios e modos de vida. 39 As estratégias de desenvolvimento rural no nordeste baiano são primordiais para se efetivar verdadeiramente as ações governamentais e/ou privadas que alcancem e promova progresso no âmbito social, econômico e cultural. Para isso, é de extrema importância que esse sujeito, o sisaleiro, seja colocado no centro das discussões dessas estratégias de planejamento rural no sertão da Bahia e, a partir disso, possa ser percebido as organizações e atores locais que refletem contextos sócio-espaciais específicos e interesses em disputa em torno da questão do desenvolvimento. Portanto, o ambiente cultural deste trabalhador do sisal, antes de tudo um sertanejo, diz muito sobre seu cotidiano e sua vida de um modo geral. A cultura é a parte importante do capital social porque os saberes acumulados, as tradições, os modos de vínculos com a natureza e as capacidades naturais de auto- organização são de grande valia para as populações pobres, pois são suas dotações iniciais. A democratização cultural, com a criação de espaços de vivência e convivência acessíveis aos setores mais desfavorecidos, pode abrir canais de integração social. 40 Ao longo dos últimos dez anos, houve um desenvolvimento nas associações das comunidades rurais, o que propiciou o surgimento de formas e estratégias econômicas, sociais e culturais de convivência na região sisaleira. Diante disso, o estereotipo em torno do semi- árido baiano é visto de modo simplificado, como uma região problemática em que as soluções estão distantes ou inacessíveis da população. No entanto, as alternativas muitas vezes, estão tão próximas e não utilizadas como deveriam para beneficiar a região, procurando até mesmo na revitalização da produção sisaleira e, em escala mais ampla, na revitalização do território. 39 NASCIMENTO, Humberto Miranda. A convivência com o semi-árido e as transformações socioprodutivas na região do sisal – Bahia: por uma perspectiva territorial no desenvolvimento rural. XLVI congresso da Sociedade Brasileira de Economia, Administração e Sociologia Rural. UCSAL: Salvador. S.d., p. 4. 40 Idem. Conviver o sertão: origem e evolução do capital em Valente/BA. São Paulo: Annablume, 2003, p.22. .
  • 27. 27 Capítulo II – MANIFESTAÇÕES ARTÍSTICAS E MUSICAIS NO SERTÃO NORDESTINO Em vez de pensar as culturas nacionais como unificadas, deveríamos pensá-la como constituindo um dispositivo discursivo que representa a diferença como unidade ou identidade. Stuart Hall Este capítulo enfoca o significado que ao longo do tempo foi atribuído ao sertão nordestino. A partir disso, discute a imagem que também foi conferida ao semi-árido baiano e a importância das expressões culturais na vida dos sertanejos, os quais retratam seus costumes nas manifestações artísticas existentes no seio de sua comunidade. 2.1 Cultura popular nos sertões do Brasil O termo cultura popular configura-se numa gama de definições e conceitos que lhes foram atribuídos em diferentes épocas e contextos distintos, que envolvem disputas teóricas e políticas na História. Para Martha Abreu o conceito de cultura popular não está engessado em definições imutáveis. Na sua concepção “pode ser visto como uma perspectiva, no sentido de ser mais um ponto (de vista) para se observar a sociedade e sua produção cultural”. 41 Nesse sentido, a cultura popular é um instrumento da história que serve para evidenciar diferenças e ajudar a pensar a realidade social e cultural de uma determinada sociedade. Nas 42 palavras de Chartier “a cultura popular é uma categoria erudita” , devido a dificuldade ou impossibilidade de detectar o que é genuinamente do povo, ou mesmo de se precisar a origem social das manifestações culturais, em função da histórica relação e do intercâmbio entre os mundos sociais, em qualquer período da história. Segundo Chartier correndo o risco de simplificar ao extremo, é possível reduzir as diversas definições de cultura popular em dois grandes modelos de descrição e interpretação. O primeiro, no intuito de abolir toda forma de etnocentrismo cultural, concebe a cultura popular como um sistema simbólico coerente e autônomo, que funciona segundo uma lógica absolutamente alheia e irredutível à da cultura letrada. O segundo, preocupado em lembrar a existência das relações de dominação que 41 ABREU, Martha. Cultura Popular: um conceito e várias historias. In: ABREU, Martha, SOIHET, Rachel (orgs.). Ensino de Historia: conceitos, temáticas e metodologias. Rio de Janeiro: Cada da Palavra, 2003, p.84. 42 CHARTIER, Roger. “Cultura popular: revisitando um conceito historiográfico”. Revista Estudos Históricos (Rio de Janeiro), vol. 8, n. 16 (1995), p. 179.
  • 28. 28 organizam o mundo social, percebe a cultura popular em suas dependências e carências em relação à cultura dos dominantes. 43 As idéias postas por Ginzburg em muito contribuíram para resgatar o mundo da cultura na história como também promoveu estudos sobre uma “história vista de baixo”, no qual passaram a ser discutidos questões como o de circularidades culturais e apropriações de sujeitos históricos com uma variável e razoável autonomia. Dentro dessa perspectiva cultural e das constantes interações e compartilhamento entre culturas, o historiador inglês Peter Burke lança o termo “biculturalidade” para abordar o intercâmbio de práticas culturais populares assimiladas por membros da elite, ao mesmo tempo em que preservavam a própria cultura. Apresenta ainda várias contribuições significativas no campo da Nova História Cultural e trás uma excelente discussão no seu livro “O que é história cultural?”. Na sua perspectiva, qualquer definição de História Cultural passa pelo o campo interdisciplinar, local e momento em que a noção de Cultura sofre modificações para oferecer aos historiadores algum potencial analítico e explicativo. Na verdade, o termo “cultura” e “cultura popular” não possuem definições prontas e estabelecidas, iguais aos verbetes em dicionários. Os conceitos foram sendo ampliados com o passar do tempo e assim recebendo novas atribuições de significados. Para Peter Burke o vocábulo “cultura” ainda é mais problemático do que o termo “cultura popular”, pois caracterizar e definir o que não é cultura tornam-se uma tarefa mais difícil do que classificá- lo. Sendo assim, o conceito em geral é usado para referir à “alta” e “baixa” cultura, as ciências e artes, seus equivalentes populares (músicas folclóricas, medicina popular, e assim por diante.), uma ampla gama de artefatos (imagens, ferramentas, etc.) e práticas (conversar, ler, dentre outros). 44 Sobre “cultura popular” Burke comenta: Os especialistas várias vezes sugeriram que as muitas interações entre cultura erudita e popular eram uma razão para abandonar de vez os dois adjetivos. O problema é que sem eles é impossível descrever as interações entre o erudito e o popular. Talvez a melhor política seja empregar os dois termos sem tornar muito rígida a posição binária, colocando tanto o erudito como o popular em uma estrutura mais ampla. 45 43 Idem, ibdem, p.179. 44 BURKER, Peter. O que é História Cultural? Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 2005, p.42-43. 45 Idem, ibdem, p.42.
  • 29. 29 Enfim, essa discussão sobre a definição de “cultura” não é o foco deste trabalho, mas como coloca Thompson “não podemos esquecer que a „cultura‟ é um termo emaranhado, que, ao reunir tantas atividades e atributos em um só feixe, pode na verdade confundir ou ocultar 46 distinções que precisam ser feitas” . Então, conceitos a parte, a História de modo geral sempre estará recebendo novas conceituações e inovações em seus campos de estudo, em virtude dos constantes questionamentos e pesquisas suscitadas em contextos históricos distintos. Diante disso, o conceito perpassa várias conjunturas e épocas históricas de maneira que a partir das décadas de 1940-1950, a cultura popular é utilizada sob uma perspectiva mais política associada ao populismo bastante difundido na América Latina. No Brasil, a partir do final do século XIX a expressão cultura popular se difunde entre folcloristas, antropólogos e sociólogos, entre outros intelectuais da época que discutiam a construção de uma determinada identidade cultural para o país. A cultura popular brasileira possui uma estreita relação com a difusão das idéias folclóricas no país, visto que, como na Europa e também na América Latina serviu para a formação das novas nações do século XIX e XX, resgatando assim o passado e os sentimentos populares do período. Dessa forma, atrelado a questão da valorização e exaltação da produção artística nacional apropriou-se fortemente da produção dos sertanejos e dos caboclos do interior, objetivando enfatizar o que permanecia como traços de uma identidade cultural e étnica, pautada pela integração cultural sincrética das três raças. No entanto, a partir de 1960 severas criticas são feitas as produções folcloristas, no qual eram vistas como simplórias e não detectavam a fundo os problemas das classes populares em foco e muito menos sobre o processo de dominação presente na sociedade da época. Na verdade, após esse período recebeu “significados negativos, assumindo até mesmo conotações ligadas ao anedótico e ao ridículo”. 47 Se a discussão em torno da cultura dos setores não desapareceu, atrelou-se, em grande parte, ás avaliações sobre os aspectos que levaram à sua alienação ou não consciência de classe, o que possibilitou a consolidação de uma série de visões preconceituosas sobre a cultura popular: cultura fragmentada, conservadora, presa às tradições, obstáculos a mudanças sociais, conformista e supersticiosa. As reflexões sobre as manifestações culturais dos homens e mulheres comuns acabaram ficando, mais uma vez, prisioneiras das armaduras ideológicas de seu próprio tempo. 48 46 THOMPSON, E. P. Costumes em comum: estudos sobre a cultura popular tradicional. São Paulo; Companhias das Letras, 1998, p.22. 47 ABREU, Martha. Op. cit., p.87. 48 Idem, ibdem, p.88.
  • 30. 30 Os primeiros estudos no Brasil relativos à cultura popular voltaram-se para o campo da poesia. As pesquisas foram inicialmente conduzidas por correntes filosóficas e científicas vigente na Europa e que marcaram época entre os intelectuais brasileiros como, por exemplo, o positivismo que foi bastante significativo nos estudos dos fatos folclóricos no país. No que tange ao papel da cultura popular idealizada por muitos pesquisadores na construção da identidade nacional, deve-se atentar para as possíveis homogeneizações feitas em todo o território brasileiro com relação ao valor que determinadas práticas e representações culturais significam para população do país. Pois, a diversidade cultural precisa ser levada em conta no que se refere à idéia de regionalidade e, acima de tudo, aos aspectos econômicos, sociais e culturais que marcam a identidade e o modo de vida de uma determinada população de uma região ou território brasileiro dentro de um marco histórico. Essa questão é detectada por Fressato quando menciona que “a cultura popular em que se baseiam os intelectuais para formulação da identidade nacional é típica dos centros urbanos do sudeste, notadamente de São Paulo e do Rio de Janeiro, não considerando as especificidades das culturas regionais”. 49 Dentre tanta diversidade cultural existente no território nacional encontra-se uma que está profundamente arraigada na cultura brasileira, seja na arte e literatura popular ou ainda no imaginário do povo, no qual está presente a idéia de “sertão”. A etimologia da palavra ainda não possui uma definição única e limitada. Segundo Janaína Amado o vocábulo deriva de deserto (deserto, desertão, sertão), atrelado a essa hipótese e dando-lhe maior ênfase estão as características naturais e humanas ligadas aos termos: aridez, despovoamento, travessia. Segundo outros autores, o termo suscitaria do latim clássico serere, sertanum (traçado, entrelaçado, embrulhado), desertum (desertor, aquele que sai da fileira e da ordem) e desertanum (lugar desconhecido para onde foi o desertor). 50 No Brasil, desde o período colonial, a palavra sertão recebeu a conotação de interior do território brasileiro e por isso foi empregado para representar as mais diversas áreas dependendo da localização do qual fala enunciante. Dessa forma, em virtude de sua abrangência e imprecisa definição de delimitação territorial segundo a história brasileira pode, então, ser denominado de sertão o interior de São Paulo e da Bahia, os estados de Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso, além do sertão nordestino, o qual é conhecido e popularmente 49 FRESSATO, Soleni Biscouto. Cultura popular: reflexões sobre um conceito complexo. Oficina Cinema- História. Núcleo de Produção e Pesquisas da Relação Imagem-história. S. d., p.5. 50 AMADO, Janaína. Região, Sertão, Nação. Estudos históricos, Rio de Janeiro, vol. 8, n. 15, 1995, p. 4.
  • 31. 31 assim denominado devido a condições morfoclimáticas e características peculiares fortemente presente na região. A designação de sertão pode ser caracterizada da seguinte forma: Marcado pela baixa densidade populacional e, em alguns lugares, pela aridez da vegetação e do clima, o sertão assinala a fronteira entre dois mundos, o atrasado e o civilizado. Marcha imprecisa que recobre o interior do Brasil, melhor seria a referência a “sertões”, no plural. Pode-se afirmar que relativo ao espaço geográfico ou ao imaginário social, sertão é sempre plural. 51 No período de colonização, o sertão foi, de modo geral, visto com significados negativos como espaços distantes povoado por indígenas, animais e mitos. Tornou-se também refúgio para os expulsos da sociedade colonial, incluíam-se degredados, criminosos, fugitivos que 52 buscavam um local para reconstruir suas vidas. O movimento bandeirante, em fins do século XVII e inicio do XVIII, suscita dois fatores fundamentais no povoamento do sertão: a exploração das minas e o desenvolvimento da pecuária bovina, cuja conseqüência, dentre outras, foi a ocupação de vários territórios que se estendiam do estado de Minas Gerais ao oeste da Bahia. Além de todos esses estereótipos que foram ao longo do tempo inseridos na imagem popular, o sertão também recebe características pejorativas como “uma terra sem lei, lugar da violência, do indistinto e da desordem. O perfil do sertanejo surgia em comportamentos 53 condizentes com o meio social, distante as autoridades régias”. Outro traço bastante característico dessas regiões diz respeito ao ideário de pobreza, atestada nas casas simples e humildes com poucos móveis. Parte dessa população era composta de trabalhadores volantes, que buscavam moradia de favor junto a algum grande proprietário ou que optavam vagar pelos campos desertos, fazendo roçados para sobrevivência com suas famílias. 54 É importante salientar que muitas dessas características permanecem posteriormente ao período de colonização e povoamento do interior do país e se estende pelos séculos seguintes. A cultura dos sertões manifesta-se na religiosidade popular; na literatura de cordel, que transmite lendas, contos e “causos”; nos rodeios e vaquejadas; na comida; na poesia; na maneira de vestir; nas danças e na música, com semelhanças e peculiaridades por todo o país. 51 ALENCAR, Maria Amélia Garcia de. Cultura e identidade nos sertões do Brasil: representações na música popular. S.d., Disponível em: http://www.hist.puc.cl/historia/iaspmla.html. Acessado em nov. de 2009. 52 SOUZA, Laura de Mello e. Desclassificados do ouro: a pobreza mineira no século XVIII, Ed. Graal, 2ª ed., Rio de Janeiro, 1986, p. 85. 53 ALENCAR, Op.cit. p. 2. 54 ARAÚJO, Emanuel. Tão vasto, Tão Ermo, Tão Longe: o sertão e o sertanejo nos tempos coloniais. In: DEL PRIORI, Mary (org.). Revisão do Paraíso: os brasileiros e o Estado em 500 anos de história. Rio de Janeiro: Campus, 2000, p.145.
  • 32. 32 Todas essas representações da cultura popular sertaneja trazem, sobretudo, o seu modo de vida expressando o cotidiano e o contexto socioeconômico ao qual está inserido. No século XX, apesar do rápido avanço das frentes de expansão e do progresso de modernização que atingiu o sertão brasileiro, o sentimento de inferioridade ainda mantinha-se em relação ao litoral. Os atributos pejorativos foram assim carregados pela população dessas regiões como uma identidade negativa e inferior no que diz respeito às outras regiões do Brasil por serem considerados do interior, caipira e sertanejo. Como já foi mencionada anteriormente essa visão preconceituosa com relação ao sertão brasileiro passa a ser utilizada de maneira inversa quanto à significância que o termo é atribuído. No final do século XIX, mais propriamente na década de 1870, a cultura sertaneja torna-se um elemento de relevância no contexto identitário da nação em processo de construção. A oposição á dicotomia litoral-sertão fez surgir uma produção intelectual que, expressando a preocupação com a construção de uma nação unificada, procurava superar aquela dicotomia. Sertão se tornou, então, categoria essência do pensamento brasileiro. Na cultura do interior do país, esses autores encontravam as fontes mais puras da racionalidade. 55 As manifestações culturais expressas na música saem das ruas para os salões junto com uma maior valorização das danças rurais postas como componentes da música popular. Mário de Andrade escreveu sobre esse período: “A música popular cresce e se define com uma rapidez incrível, tornando-se violentamente a criação mais forte e a caracterização mais bela 56 da nossa raça”. Esse fato pode ser constatado no período Vargas (1930-1945), no qual o Estado brasileiro se fez presente, de forma enfática, na direção da incorporação do sertão como forma de construção da nação e a ideologia nacionalista atingiram momentos de euforia. 2.2 O sertão como lugar Os conceitos, definições e abordagens do termo sertão ao longo da história brasileira foi permeada por expressões pejorativas, ou então, serviu de elemento inerente em determinadas conjunturas políticas para finalidades identitárias. Desse modo, os dados apresentados nos 55 ALENCAR, op.cit., p. 5. 56 ANDRADE apud ALENCAR, ibdem, p 4.
  • 33. 33 permitem evidenciar a existência de sertões diferenciados, com peculiaridades, dinâmicas e relações sociais diferenciadas umas das outras. Nesse caso, o sertão nordestino, bem como todas as demais regiões assim denominadas, não pode ser enquadrado nessa visão generalizante de sertão, apesar da característica marcante ligado ao desenvolvimento da atividade agropecuária, cada sertão brasileiro possui aspectos econômicos, geográficos, sociais, culturais e políticos distintos e de interações diferenciados em escala nacional. O vocábulo “sertão” também em alguns casos recebe uma conotação institucionalizada referente ao espaço no Brasil. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas (IBGE), esse termo pode ser designado oficialmente como uma das subáreas nordestinas, árida e pobre, situada a oeste das duas outras, a saber: “agreste” e “zona da mata”. Nesse sentido, comumente no imaginário popular relaciona-se o termo a região mais sofrida e seca do Nordeste. Esse estereótipo, muitas vezes, é construído quando se considera essa parte do território brasileiro como marginalizado do “progresso” ou desenvolvimento cultural e econômico do país. Por muito tempo na história brasileira relacionou-se o conceito de caipira ao universo pertencente ao sertanejo. E assim, ganharam espaços no país personagens como Jeca Tatu, de Monteiro Lobato, como uma figura que deixava o espaço rural que era personificação do atraso, do caipirismo sertanejo, emperrando o desenvolvimento nacional. Como se o homem do campo, do interior (sertão) devesse ser adaptado a conjuntura urbana e sulista do país. Todavia, o sertanejo/nordestino apresenta características diferenciadas dessa concepção difundida do caipira na sociedade brasileira. Isso não significa que especulações e estenótipos sejam amenizados, O historiador Durval Muniz Alburquerque Jr. no seu livro “A Invenção do Nordeste e outras artes” comenta sobre a imagem construída do nordestino e o necessário deslocamento dos lugares fixos de opressor/oprimido e inventor/inventado, promovendo assim um questionamento em torno da produção imagético-discursiva criada em torno dos Nordeste. 57 Desse modo, nota-se a discrepância entre o “Brasil de cima” - Norte/Nordeste - e o 58 Brasil de baxo” - Sul/Sudeste. Essa diferença é fundamentada na sobreposição de uma região sobre outras, no qual baseia e propaga-se a imagem de um povo nordestino carregado de estigmas como: tabaréu, miserável, agressivo, anti-social, intelectualmente inferior, dentre 57 ALBUQUERQUE Jr., Durval Muniz de. A invenção do Nordeste e outras artes. São Paulo: Cortez, 2009, p. 153. 58 Patativa do Assaré apud VASCONCELOS, Claudia Pereira. A construção da imagem do nordestino/sertanejo na construção da identidade nacional. II ENECULT, Faculdade de Comunicação /UFBA, Salvador, maio de 2006, p.7.
  • 34. 34 outras caracterizações. Enquanto, exalta e afirma um Sul como o espaço concentrador de desenvolvimento, moderno, educado e altamente superior no que se refere a “cultura” brasileira. Alburquerque Jr. retrata também essa imagem construída historicamente do Norte, que englobava o Nordeste, e do Sul visto como centro político, econômico e cultural do país. Esse discurso-imagético é exposto no subcapítulo “Norte versus Sul”, na sua obra já mencionada, no qual expõe o discurso construído e disseminado por décadas de um Norte atrasado, marcado pelo barbarismo, pela miséria e pela seca que se tornava o ponto de discussão para atrair investimentos. Além disso, o cangaço e o messianismo também eram concebidos pejorativamente como elementos próprios da natureza da região. Por outro lado, o Sul seria o fundamento da nação onde toda a alta cultura se formava e permanecia. De acordo com os parâmetros naturalistas as questões do meio e da raça eram responsáveis pelo distanciamento entre ambas as divisões regionais do país. Esse mesmo autor aborda ainda a imagem que o sertão passa a possuir quando relacionado ao Nordeste. “O sertão deixa de ser aquele espaço abstrato que se definia a partir da „fronteira da civilização‟, como todo o espaço interior do país, para ser apropriado pelo Nordeste. Só o Nordeste passa a ter o sertão e este passa a ser apropriado pelo nordeste”. Então, o sertão era sinônimo de péssimas condições de vida e um local atribuído, principalmente, a uma região desfavorecida e marcada pelos estereótipos excludentes e, assim marginalizada do restante do país. Na verdade, “o espaço nordestino vai sendo dotado de uma visibilidade e dizibilidade; desenhado por um agrupamento de imagens rurais ou urbanas, do litoral ou do sertão, domadas em sua diversidade pelo trabalho integrativo de poetas e escritores”. 59 Diante disso, o homem que retrataria o Nordeste, segundo o movimento regionalista, seria o sertanejo como um ser forte, acima de tudo, revestido de coragem, um herói como coloca Euclides da Cunha que para sobreviver precisa enfrentar rotineiramente as mais adversas situações no ambiente em que vive. Segundo Alburqueque Jr., O tipo nordestino vai se definindo como um tipo tradicional voltado para a preservação de um passado regional que estaria desaparecendo... Se situa na contramão do mundo moderno, rejeita as suas especificidades, sua vida delicada e histérica. Um homem de costumes conservadores, rústicos, ásperos, masculinos: um macho capaz de resgatar aquele patriarcalismo em crise; um ser viril, capaz de retirar a sua região da situação de passividade e subserviência em que se encontrava. 60 59 ALBUQUERQUE Jr., Op. cit., p. 134. 60 Idem, ibdem, p. 162.
  • 35. 35 Outra diferenciação de sertões caracteriza-se pela vertente cultural, que apresenta aspectos peculiares de perceber o sertão e o modo de vida sertanejo. Para este ponto convergem fundamentalmente expressões como a literatura e a música. Segundo Janaína Amado “„sertão‟ ocupa ainda lugar extremamente importante na literatura brasileira, representado tema central na literatura popular, especialmente na oral e de cordel, além de correntes e obras literárias cultas”. 61 A denominada “geração de 1930” composta essencialmente por Graciliano Ramos, Raquel de Queirós, José de Lins Rego, Jorge Amado e muitos outros consagrados literatos foram, por sua vez, responsáveis pela construção de conturbados e desafiadores sertões nordestinos, de forte significado social. No entanto, muitos historiadores destacam João Guimarães Rosa como um dos mais renomados autores ligado ao tema, o qual aponta um sertão singular, marcado por conflitos e contradições humanas que aparecem de forma mais intensa sobre a proteção da crueza do território geralmente áspero. E assim, “[...] com Guimarães o sertão deixa de ser o indesejável para se converter no inevitável. [...], o sertão é o espaço privilegiado do entendimento do ser humano”. 62 A importância de Guimarães Rosa é incontestável quanto à ressignificação do imaginário do sertão em nível nacional. Todavia, deve-se acrescentar autores como Antonio Gonçalves da Silva, Patativa do Assaré, o guardião de saberes e sensibilidade do povo nordestino. Recebeu tal apelido por ter nascido no município de Assaré (Ceará) e por desenvolver uma poesia comparada, pela espontaneidade, com o canto sonoro da patativa. Aprendeu a tocar viola, desenvolveu o gosto pela arte cantando e versejando com famosos cantadores do Nordeste. Uma das obras mais conhecidas “Cante lá que eu canto cá” publicada em 1978, o poeta fica conhecido nacionalmente e tem seu nome registrado na história da cultura popular brasileira. Os fatos que sucedem em sua carreira são marcas do reconhecimento oriundo da sua maneira ímpar de fazer poesia. Isso ocorre porque a figura de Patativa traz em si características da oralidade. Os poetas formais escrevem seus versos, o recurso utilizado era disposto pela memória e pela fala; o que dizia ou cantava era transcrito por outras pessoas para o papel, porém seu texto permaneceu na história através de uma manifestação fiel aos códigos da expressão oral. Característica esta bastante comum entre os nordestinos, trabalhadores na roça, que mal sabem escrever seu próprio nome, mas carregam consigo a arte 61 AMADO, Op. cit., 1995, p.3. 62 PIMENTEL, Sidney Valadares. O chão é o limite: a festa de Peão de Boiadeiro e a domesticação do sertão. Editora UFG. Goiás, 1997, p.19.
  • 36. 36 e as cantorias expressas em versos sobre um sertão carregado de estigmas e esperanças de uma vida melhor. Na verdade Patativa retratava na sua fala a vida simples no sertão, a coragem de falar das coisas erradas e a poesia engajada a esses aspectos são objetos de estudos para muitas pesquisas que envolvem o sertanejo. Outro autor que aborda essa temática é Graciliano Ramos, no qual inscreve o sertão nordestino no imaginário nacional. Em “Vidas seca”, emerge um sertão árido, difícil, onde homens e mulheres lutam contra a seca e contra a exploração social. A opressão da seca ao lado da opressão apresentada pelos fazendeiros e pelo Estado. Já na obra Os Sertões de Euclides da cunha o nordestino é representa da seguinte maneira na visão de Cláudia Vasconcelos: É neste cenário de organização de imagem opostas do nordeste e nordestino que a celebre obra de Euclides da Cunha Os Sertões, publicada em 1902, pode servir como uma das fundamentações para ambos os argumentos, completamente dispares entre si. O seu discurso ambíguo e contrastante oferece substrato suficiente para produzir tanto uma estereotipia negativa em que se inferioriza o sertão/nordeste, quanto uma estereotipia positiva em que se enaltece esta região e o seu povo. 63 Dessa forma, os discursos sobre o sertanejo/nordestino nem sempre é posto na literatura brasileira como genuinamente positivo e enaltecedor. Essas características, sejam elas exaltadoras ou preconceituosas, estão presentes também em outras artes como a pintura, o teatro, o cinema e, em especial, a música e em diversos meios de comunicação e programas humorísticos. A difusão desse ideário posto, muitas vezes, como inerente a cultura brasileira encontra sua significância quando Guimarães Rosa (1965) comenta: “o sertão está em toda parte; o sertão está dentro da gente”. Contudo, isso não significa que a cultura nordestina seja aceita e respeitada, de modo geral, como identidade nacional e igualada ao centro sul do país, apesar das diversas tentativas, outrora ou mais recentemente, para sua inserção como parte integrante da unidade brasileira ainda precisa romper obstáculos e ser reconhecida e valorizada em âmbito nacional. O historiador Alburquerque Jr. também problematiza esse nordestino tão difundido e esboçado no “romance de trinta” que se institui com “temas regionais”. Ele discute justamente essa imagem disseminada de um Nordeste vitimizado pelas condições climáticas, onde a seca passa a ser o fator causador de um meio homogêneo que, portanto, teria também originado uma sociedade homogênea. Tudo isso, na concepção do referido historiador, gerou uma série 63 VASCONCELOS, Op. cit., 2006, p.5.
  • 37. 37 de imagens em torno da seca e, produziram por sua vez uma visibilidade e dizibilidade que as a produção cultural posterior não conseguiu fugir e perpetuarão ao longo do tempo. Para Alburquerque Jr. não se trata de buscar uma identidade na cultural nacional ou regional, mas afirmar as diferenças culturais. Dessa forma, as diversas expressões artísticas que se voltaram constantemente para a reprodução dessas imagens pejorativas, preconceituosas e homogeneizantes a cerca do Nordeste, na verdade, buscava no passado uma reposta para as necessidades do período e conseqüentemente uma invenção de tradições explicitadas nessas obras artísticas, como lembranças de uma região, que não mais expressa a pluralidade, mas a singularidade de cada indivíduo. Assim, os estereótipos e discursos produzidos também na literatura regionalista pautaram-se nas busca incessante pela manutenção de uma sociedade, muitas vezes, patriarcal, escravista e vitimizada pela seca. Sendo assim, ele afirma que: A busca das verdadeiras raízes regionais, no campo da cultura, leva à necessidade de inventar uma tradição. Inventando tradições tenta-se estabelecer um equilíbrio entre a nova ordem e a anterior; busca-se conciliar a nova territorialidade com antigos territórios sociais e existenciais. A manutenção de tradições é, na verdade, sua invenção para novos fins, ou seja, a garantia da perpetuação de privilégios e lugares sociais ameaçados. 64 2.3 As canções na vida do sertanejo Esse processo de “ressignificação” ocorre também no campo da produção musical, com o surgimento e a afirmação de um novo gênero ligado diretamente ás tradições culturais e ao cotidiano do sertão brasileiro. Por volta de 1930 surgem no cenário nacional a música caipira representando as tradições, o modo de vida, o trabalho e o cotidiano do caipira das regiões sul, sudeste e centro-oeste. Sendo assim, esse novo gênero musical é utilizado também para construir uma imagem do caipira dissociado da imagem do “mau sertão” brutalizado, e como uma tentativa de conduzir a um imaginário da sociedade caipira, rural e agrícola. 65 No que tange as manifestações musicais populares no sertão nordestino, estas por sua vez, apresentam peculiaridades quanto a seu modo de criação e estilo nas cantorias quando comparadas com o gênero caipira. Até mesmo devido às condições geográficas, culturais e 64 ALBUQUERQUE JR, op. cit. 2009, p. 90. 65 VIEIRA, Natã Silva. Cultura de vaqueiros: o sertão e a música dos vaqueiros nordestinos. III ENECULT, Faculdade de Comunicação/UFBA, Salvador, maio de 2007, p. 6.