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A pesquisa qualitativa
Fundamentos teóricos e metodológicos da pesquisa
em educação em ciências e matemática
Objetivos
● Captar o conceito de pesquisa qualitativa dos discentes
● Apresentar alguns elementos históricos e
epistemológicos da pesquisa qualitativa
● Discutir textos específicos do campo da pesquisa
qualitativa em educação
Quantos de vocês propuseram métodos
qualitativos no projeto?
O que vocês entendem por método qualitativo?
A Nova Filosofia da Ciência e a pesquisa
qualitativa
● “Theory-ladeness”: toda observação está impregnada de teoria
– “Isto quer dizer que, ao realizar o teste empírico de uma teoria, esta própria teoria influencia o
‘fato’ a ser observado, na medida em que impõe o recorte, definindo as categorias relevantes e
selecionando os aspectos e relações a serem observados. Mas não só a teoria que está sendo
testada impregna a observação, também os instrumentos utilizados nesse processo supõem
teorias: o microscópio utiliza as leis da refração, o termômetro as leis da dilatação.”
● Sub-determinação (tese de Duhem-Quine): várias teorias podem explicar os mesmos
dados; somada à versão forte da tese da incomensurabilidade (Kuhn), sugere que é
impossível basear uma teoria somente na observação, porque “frente a duas ou mais
teorias rivais, é impossível justificar racionalmente a preferência por uma delas”
O “programa forte” da sociologia da
ciência e a pesquisa qualitativa
●
“O relativista, como qualquer outro, tem necessidade de escolher as crenças, aceitando
algumas, rejeitando outras. Terá naturalmente suas preferências, e elas coincidirão
caracteristicamente com as das outras pessoas que moram no mesmo lugar. As palavras
‘verdadeiro’ e ‘falso’ municiam o idioma em que estas avaliações são expressas, e as
palavras ‘racional’ e ‘irracional’ exercerão função semelhante (Barnes e Bloor 1981, p. 27)
● Bruno Latour: as representações da natureza (i.e., teorias) são construções sociais,
sujeitas às relações de poder e jogo de interesses da comunidade de cientistas, entre
outros fatores históricos, culturais, sociais e pessoais
A teoria crítica e a pesquisa qualitativa
● O valor de uma teoria depende de sua relação com a práxis
● Horkheimer: a teoria tradicional aborda uma concepção de ciência que remonta ao cartesianismo, que aponta a
formulação de um sistema lógico dedutivo
● O conhecimento advém da análise de dados obtidos pela experiência controlada e que são traduzidos
matematicamente, livres de contradições, com precisão e generalização indepentemente de particularidades ou
aspectos externos ao fenômeno observado (“invariabilidade social da relação sujeito-teoria-objeto”)
● “Ao seguir esse modelo, a ciência tradicional teria se tornado abstrata e afastada da realidade, não se ocupando da
gênese social dos problemas nem das situações concretas nas quais os conhecimentos da ciência são aplicados.
Essa alienação se expressaria também na separação ilusória entre ciência e valor e entre o saber e o agir do
cientista, o que o preserva de assumir as contradições. O pensamento crítico, ao contrário, procura a superação das
dicotomias entre saber e agir, sujeito e objeto, e ciência e sociedade, enfatizando os determinantes sócio-históricos
da produção do conhecimento científico e o papel da ciência na divisão social do trabalho. O sujeito do
conhecimento é um sujeito histórico que se encontra inserido em um processo igualmente histórico que o influencia.
O teórico crítico assume essa condição e procura intervir no processo histórico visando a emancipação do homem
através de uma ordem social mais justa.”
Quadro comparativo
“Teoria tradicional” Teoria crítica
Objetivos da ciência Desenvolvimento
do conhecimento / formulação
de teorias
Transformação da sociedade / emancipação do
homem
Recorte Molecular: Os fenômenos complexos
precisam ser decompostos em aspectos
testáveis
Molar: Os fenômenos complexos só podem ser
entendidos se vistos como totalidades
Ciência e sociedade Produtos e teorias científicas são vistos
como um sistema independente das
relações sociais
Ciência e sociedade são vistos como um
sistema global
Ênfase No método No problema
Objetividade Buscada através de mecanismos de controle
embutidos no delineamento da pesquisa e
no método crítico
Atacada como um “mito” que encobre
estratégias de dominação
Relação sujeito-objeto Sujeito e objeto são elementos
independentes no processo de pesquisa
Sujeito e objeto são elementos integrados e co-
participantes do processo
Neutralidade Os valores do pesquisador não interferem no
processo de pesquisa
O julgamento de valor é considerado como
parte essencial do processo
A “guerra dos paradigmas”
● Nas décadas de 1970 e 1980, frente a uma suposta “crise” instaurada pela
Nova Filosofia da Ciência, pela sociologia do conhecimento, e pela teoria
crítica, falou-se em “guerra de paradigmas”
– Quantitativo vs. Qualitativo, como se esses métodos fossem paradigmas no sentido
kuhniano!
● Os quantitativos eram criticados como “positivistas” (uma “vasta, amorfa e
mal definida categoria filosófica”; Oldroyd, 1986, p. 169); os qualitativos,
como pouco rigorosos, e incapazes de determinar relações causais.
● A tendência atual é misturar essas duas abordagens, sugerindo fortemente
que não se tratam de paradigmas
Construtivismo social
● Ontologia relativista - “As realidades existem sob a forma de múltiplas
construções mentais, locais e específicas, fundadas na experiência social de
quem as formula”
● Epistemologia subjetivista - “se as realidades existem apenas nas mentes
dos sujeitos, a subjetividade é a única forma de fazer vir à luz as
construções mantidas pelos indivíduos”
● Metodologia hermenêutica-dialética - “as construções individuais são
provocadas e refinadas através da hermenêutica e confrontadas
dialeticamente, com o objetivo de gerar uma ou mais construções sobre as
quais haja um significativo consenso entre os respondentes.”
Pós-positivismo
● Rejeição do fundacionismo, admissão da sub-determinação fraca e da influência da teoria
sobre a observação
● “A objetividade da ciência não se refere à objetividade de cientistas individuais e sim à
tradição crítica, à crítica mútua exercida entre os cientistas”
● Ontologia crítico-realista - assume a existência de uma realidade externa ao sujeito que é
regida por leis naturais
● Epistemologia objetivista modificada - mantém a objetividade como um “ideal regulatório”,
mas admite que o pesquisador dela pode apenas se aproximar
● Metodologia experimental modificada - enfatiza o “multiplismo crítico”