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A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês)
               EUCLIDES, A VISIONARY or WHAT IS THIS FILM? PEACE IS GOLDEN
                Luiz Rosemberg Filho / Rô Cineasta and Sindoval Aguiar - Writer

From its more backward period to the now "modern" Brazil of today, few truly transforming
modifications have taken place in the area of knowledge. One needs but take a look at the situation
of Brazilian cinema, which has little or no space in our own country. Space which, one might add, is
occupied by Hollywood trash. And this, if we confine ourselves just to cinema when discussing a
possible construction of an idea of a nation. We would dare say that culture in Brazil continues to be
the most efficient voice for backwardness. Ideas of originality, daring and revolt remain inadmissible.

Way in the past, Euclides da Cunha perceived the origins of our backwardness, and set out in search
of a less official story. But those times of the word-as-written were others. Today, as thought and
filmed by Noilton Nunes, the times are different -- a vast world of correspondences or possible
affinities, often as intertwined as vines. Now, cinema as a place for the eye and for modern thought
coexists with time and history in a constantly renewing reflection on knowledge. And both the
reflections of Euclides and of Noilton are in tune throughout this long odyssey from the "Backlands"
to the "Lost Paradise" – regions to which neither has gained access, although for quite different
reasons.

The feature film, Peace is Golden, is an unfinished bridge spanning a process wherein one learns
about Brazil. Noilton wanted to make another film. But he made the film that was possible. And this
should be our starting point: the reality imposed by conditions of production and the dream of two
visionaries. As we all are visionaries, characters playing out our many tragedies. Survivors. Each of us
is Euclides.

Noilton the director becomes involved with the film he is making, turning it into part of his life. Years
and years of pilgrimage, which lends life to the film about Euclides, transforming it into something
very Brazilian, Produced under the same precarious conditions that mark our cinema and the artistic
and cultural aspects of our Brazil. All of which makes this film a patrimony. And its director, yet
another of its characters. We hope this important film doesn't run the risk of a short shelf life:
released with a single copy and shown at unfeasible times. Thus our cinema and its public are killed
off. The Hollywood that dominates "our" marketplace releases a film in its country of origin with over
15 thousand copies, and repeats the same type of release in our country, occupying all our film
theatres. And so our films lose their lives, aborted at birth.

Euclides' great work, "The Backlands", is confounded with his own life through his idealization of
Brazil, clad in the trappings of reality, dreams and projections. Those of a tragic universe. And not
uncommon among exceptional men like Euclides da Cunha. Stripped of the common concepts of
dialectics, Euclides did not seek syntheses. He sought out the contradictory. Thesis and antithesis, a
construction accompanied by a visionary unable to deny himself. And defined in the final scenes of
the film, dominated by a symbolism and a projection defying all limits. That which only poetry can
aspire to, projecting all the joy found in the constructing of the world. In this case, the world of
Euclides. Whose verses begin thus: " I want to throw myself, impassioned, at the sweet light of pale
evening, amid the shadows of the forests..." And ending with: And my soul, tired of the merciless
weight of grief, Sleeps silent in the lap of solitude.

It is this dialectic pertaining to Euclides -- the endeavor and the performance of his own life -- that the
film brings to us in its entirety and without any rules. And lends it the dimension of a tragedy! Would
not Euclides' life also be "Land", "Man", and "The Struggle"? Like the narration of a novel revolving
around a hero? Would his own life not be confused with his own projections – those of a world he has


                                                                                                    1
A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês)
dreamed of and those of a reality so precarious that it manages to confound us all. Much like today, a
time we have never managed to define.

Noilton has not made a mere film about Euclides da Cunha. He has lived Euclides. In the same way
he has lived cinema, suffered and felt it in the making of this film. Nothing could be more Brazilian.
The world continues to advance against all odds. Nothing and no one can detain it. And Euclides knew
how to narrate the epic of his time. As a professional and as a visionary. His life, synthesized in the
film, gestates that which has been missing in Brazilian cinema: fundaments for our artistic, historic
and cultural memory.


The film on Euclides da Cunha gives us a more precise dimension of our times, with its impossibility
of living and loving this country without any notion of its history – projecting, like the film's final
poem, a better world, beyond anxiety, beyond the lack of perspectives and the despair of an
unprotected solitude. This, our reality and that of Brazilian cinema, has become part of the life of
Noilton Nunes' film. As it was part and parcel of the life of Euclides. Neither a conformist, nor an
opportunist, nor a submissive bureaucrat, he struck out against slavery and in defense of the
Republic, founding a subjective reality, manifest in his life and throughout all his work, be it in
literature, the press, poetry, and the movements to turn another culture into an objective reality for
another Brazil. That which Euclides the visionary proposes, and that Brazilian cinema can never
forget, is exactly the theme Noilton Nunes emphasizes in his film – a greater dream.

Although faced with many impossibilities, lack of comprehension and the "triumphant imbecility" of a
sterile bureaucracy, Nunes made the film it was possible to make. Unfinished, incomplete, dirty,
tragic – and yet obsessed with the dream of a Euclidian cinematographic Brazilian. In other words, a
Brazil for all. Not to be confused with the current publicity campaign which pays lip service to the
slogan "Brazil, a country for all". As yet an untruth. We are not there yet. Unfortunately.

Rio de Janeiro, August 22, 2007




                                      Tradução em Português

             EUCLIDES, UM VISIONÁRIO ou QUE FILME É ESSE? A PAZ É DOURADA
               Luiz Rosemberg Filho / Rô Cineasta e Sindoval Aguiar - Escritor

Do país retrógrado ao Brasil 'moderno' poucas foram as modificações transformadoras no universo
do saber. Basta que se veja a situação do cinema brasileiro sem espaço algum em nosso próprio
país. Aliás, um espaço ocupado pelo lixo de Hollywood. Isso para nos limitarmos ao cinema numa
possível construção de uma idéia de nação. Ousaríamos dizer que na cultura o Brasil continua sendo
o mais eficiente porta-voz do atraso. Segue sendo inadmissível originalidade, ousadia ou revolta.

Euclides da Cunha lá no passado percebeu as origens do nosso atraso e saiu em busca de uma outra
história menos oficial. Mas o instante da palavra-escrita era um. Hoje, pensada e filmada por Noilton
Nunes, é outra. E o vasto mundo das correspondências ou afinidades possíveis muitas vezes torna-se
enroscado, como um cipó. Ora, o cinema é um espaço do olhar e do pensamento moderno sem abrir
mão do tempo e da história numa espécie de atualização e reflexão sobre o saber. E tanto a reflexão


                                                                                                  2
A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês)
de Euclides como a de Noilton se afinam na longa odisséia dos 'Sertôes' para 'Um Paraiso Perdido'
onde ambos não conseguem chegar por motivos diferentes .

O longa 'A Paz é Dourada' é uma ponte inconclusa de aprendizagem de Brasil. Noilton queria ter feito
um outro filme. Mas fez o filme possível. E é daí que devemos partir: da realidade das condições de
produção e do sonho de dois visionários. E mais, visionários somos todos nós personagens de nossas
muitas tragédias. E sobreviventes. Somos todos Euclides.

Noilton o diretor, entrelaça-se bastante com o filme que realiza. Como parte de sua própria vida.
Anos e anos de peregrinação. O que dá vida ao filme sobre Euclides. Tornando-o um filme bem
brasileiro. Produzido na precariedade de nosso cinema e de nosso Brasil em seus aspectos artísticos
e culturais. O que acaba fazendo do filme um patrimônio. E de seu diretor um personagem.

Esperamos que este filme importante não arrisque a sua vida, submetendo-se a uma sobrevida: ser
lançado com uma única cópia e em horário inviável de exibição. E assim vão matando o nosso
cinema e o púiblico do filme nacional. Hollywood que domina o 'nosso' mercado lança 'um filme' no
país de origem com mais de 15 mil cópias; repetindo em nosso país o mesmo tipo de lançamento,
cobrindo todos os nossos cinemas. E desse modo nossos filmes perdem a vida no nascedouro;
abortados.

A obra máxima de Euclides 'Os Sertões', confunde-se com a extensão de sua vida, por sua
idealização de Brasil, revestida de realidade, sonhos e projeções. O de um universo bem trágico.
Muito comum em homens excepcionais como Euclides da Cunha. Desvestido dos conceitos comuns
da dialética. Euclides não andava atrás de sínteses. Buscava os contraditórios. Teses e antíteses,
uma construção, acompanhada de um visionarismo incapaz de se negar. E definido em dos planos
finais do filme, o de um simbolismo e projeção que o fez arriscar, empenhando todos os limites, para
atendê-lo. O que somente a poesia pode pretender e definir projetando toda felicidade na construção
do mundo. No caso, o mundo de Euclides: Versos que começam assim: 'Eu quero à doce luz dos
vespertinos pálidos, Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas...'. E que terminam
assim:'E minh'alma cansada ao peso atroz das mágoas, Silente adormecer no colo da solidão'.

E essa dialética de Euclides é o empenho e o desempenho de sua própria vida de que o filme nos dá
inteira dimensão e sem nenhum regulamento. O que lhe dá a dimensão de uma tragédia! E a vida de
Euclides não seria 'A Terra', 'O Homem' e 'A Luta'? Como a narração de um romance girando em
torno de um herói? Seria a própria vida de Euclides confundindo-se com suas projeções; as de um
mundo sonhado e as de uma realidade tão precária que chega a nos confundir. Como a realidade de
nosso tempo que nunca conseguimos definir.

Noilton não fez somente um filme sobre Euclides da Cunha. Viveu Euclides. Como viveu o cinema,
para sofrer e sentir, o fazer deste seu filme. Mais brasileiro, impossível. De qualquer forma o mundo
avança. E ninguém pode detê-lo. E Euclides soube narrar a epopéia de seu tempo. Como profissional
e visionário. E sua vida sintetizada no filme gestou o que nos tem faltado no cinema brasileiro;
fundamentos para nossa memória. Artística, histórica e cultural.

O filme sobre Euclides da Cunha acaba nos dando uma precisa dimensão do nosso tempo, o de ser
impossível viver e gostar deste país sem qualquer noção de sua história; e projetando, como no
poema final do filme, um mundo melhor, além da angustia, da falta de perspectivas e o desespero
de uma solidão desprotegida. Esta nossa realidade, a realidade do cinema brasileiro, acabou sendo
parte da vida deste filme de Noilton Nunes. Como foi uma totalidade na vida de Euclides. Nunca um
conformista, um oportunista, um burocrata submisso. Insurgindo contra a escravidão e defendendo a
República, já fundava uma realidade subjetiva, manifestando em sua vida, em todo o seu trabalho,

                                                                                               3
A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês)
na literatura, na imprensa, na poesia, os movimentos de uma outra cultura como realidade objetiva
para outro Brasil. Que Euclides visionário projeta e que o cinema brasileiro não pode esquecer: o que
Noilton Nunes tematiza em seu filme.

Em seu longa metragem idealizou um sonho maior. Mas se deparou com muitas impossibilidades,
incompreensões e a 'imbecilidade triunfante' da burocracia estéril. Fez o filme possível. Inacabado,
incompleto, sujo, trágico e ainda assim obcecado pelo sonho de um cinema-Brasil Euclidiano. Ou
seja, um Brasil para todos. Não confundir com o baixo uso publicitário que diz 'Brasil um país de
todos', que não é verdade. Ainda não se chegou a isso. O que convenhamos é uma pena.

Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2007




                                                                                               4

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  • 1. A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês) EUCLIDES, A VISIONARY or WHAT IS THIS FILM? PEACE IS GOLDEN Luiz Rosemberg Filho / Rô Cineasta and Sindoval Aguiar - Writer From its more backward period to the now "modern" Brazil of today, few truly transforming modifications have taken place in the area of knowledge. One needs but take a look at the situation of Brazilian cinema, which has little or no space in our own country. Space which, one might add, is occupied by Hollywood trash. And this, if we confine ourselves just to cinema when discussing a possible construction of an idea of a nation. We would dare say that culture in Brazil continues to be the most efficient voice for backwardness. Ideas of originality, daring and revolt remain inadmissible. Way in the past, Euclides da Cunha perceived the origins of our backwardness, and set out in search of a less official story. But those times of the word-as-written were others. Today, as thought and filmed by Noilton Nunes, the times are different -- a vast world of correspondences or possible affinities, often as intertwined as vines. Now, cinema as a place for the eye and for modern thought coexists with time and history in a constantly renewing reflection on knowledge. And both the reflections of Euclides and of Noilton are in tune throughout this long odyssey from the "Backlands" to the "Lost Paradise" – regions to which neither has gained access, although for quite different reasons. The feature film, Peace is Golden, is an unfinished bridge spanning a process wherein one learns about Brazil. Noilton wanted to make another film. But he made the film that was possible. And this should be our starting point: the reality imposed by conditions of production and the dream of two visionaries. As we all are visionaries, characters playing out our many tragedies. Survivors. Each of us is Euclides. Noilton the director becomes involved with the film he is making, turning it into part of his life. Years and years of pilgrimage, which lends life to the film about Euclides, transforming it into something very Brazilian, Produced under the same precarious conditions that mark our cinema and the artistic and cultural aspects of our Brazil. All of which makes this film a patrimony. And its director, yet another of its characters. We hope this important film doesn't run the risk of a short shelf life: released with a single copy and shown at unfeasible times. Thus our cinema and its public are killed off. The Hollywood that dominates "our" marketplace releases a film in its country of origin with over 15 thousand copies, and repeats the same type of release in our country, occupying all our film theatres. And so our films lose their lives, aborted at birth. Euclides' great work, "The Backlands", is confounded with his own life through his idealization of Brazil, clad in the trappings of reality, dreams and projections. Those of a tragic universe. And not uncommon among exceptional men like Euclides da Cunha. Stripped of the common concepts of dialectics, Euclides did not seek syntheses. He sought out the contradictory. Thesis and antithesis, a construction accompanied by a visionary unable to deny himself. And defined in the final scenes of the film, dominated by a symbolism and a projection defying all limits. That which only poetry can aspire to, projecting all the joy found in the constructing of the world. In this case, the world of Euclides. Whose verses begin thus: " I want to throw myself, impassioned, at the sweet light of pale evening, amid the shadows of the forests..." And ending with: And my soul, tired of the merciless weight of grief, Sleeps silent in the lap of solitude. It is this dialectic pertaining to Euclides -- the endeavor and the performance of his own life -- that the film brings to us in its entirety and without any rules. And lends it the dimension of a tragedy! Would not Euclides' life also be "Land", "Man", and "The Struggle"? Like the narration of a novel revolving around a hero? Would his own life not be confused with his own projections – those of a world he has 1
  • 2. A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês) dreamed of and those of a reality so precarious that it manages to confound us all. Much like today, a time we have never managed to define. Noilton has not made a mere film about Euclides da Cunha. He has lived Euclides. In the same way he has lived cinema, suffered and felt it in the making of this film. Nothing could be more Brazilian. The world continues to advance against all odds. Nothing and no one can detain it. And Euclides knew how to narrate the epic of his time. As a professional and as a visionary. His life, synthesized in the film, gestates that which has been missing in Brazilian cinema: fundaments for our artistic, historic and cultural memory. The film on Euclides da Cunha gives us a more precise dimension of our times, with its impossibility of living and loving this country without any notion of its history – projecting, like the film's final poem, a better world, beyond anxiety, beyond the lack of perspectives and the despair of an unprotected solitude. This, our reality and that of Brazilian cinema, has become part of the life of Noilton Nunes' film. As it was part and parcel of the life of Euclides. Neither a conformist, nor an opportunist, nor a submissive bureaucrat, he struck out against slavery and in defense of the Republic, founding a subjective reality, manifest in his life and throughout all his work, be it in literature, the press, poetry, and the movements to turn another culture into an objective reality for another Brazil. That which Euclides the visionary proposes, and that Brazilian cinema can never forget, is exactly the theme Noilton Nunes emphasizes in his film – a greater dream. Although faced with many impossibilities, lack of comprehension and the "triumphant imbecility" of a sterile bureaucracy, Nunes made the film it was possible to make. Unfinished, incomplete, dirty, tragic – and yet obsessed with the dream of a Euclidian cinematographic Brazilian. In other words, a Brazil for all. Not to be confused with the current publicity campaign which pays lip service to the slogan "Brazil, a country for all". As yet an untruth. We are not there yet. Unfortunately. Rio de Janeiro, August 22, 2007 Tradução em Português EUCLIDES, UM VISIONÁRIO ou QUE FILME É ESSE? A PAZ É DOURADA Luiz Rosemberg Filho / Rô Cineasta e Sindoval Aguiar - Escritor Do país retrógrado ao Brasil 'moderno' poucas foram as modificações transformadoras no universo do saber. Basta que se veja a situação do cinema brasileiro sem espaço algum em nosso próprio país. Aliás, um espaço ocupado pelo lixo de Hollywood. Isso para nos limitarmos ao cinema numa possível construção de uma idéia de nação. Ousaríamos dizer que na cultura o Brasil continua sendo o mais eficiente porta-voz do atraso. Segue sendo inadmissível originalidade, ousadia ou revolta. Euclides da Cunha lá no passado percebeu as origens do nosso atraso e saiu em busca de uma outra história menos oficial. Mas o instante da palavra-escrita era um. Hoje, pensada e filmada por Noilton Nunes, é outra. E o vasto mundo das correspondências ou afinidades possíveis muitas vezes torna-se enroscado, como um cipó. Ora, o cinema é um espaço do olhar e do pensamento moderno sem abrir mão do tempo e da história numa espécie de atualização e reflexão sobre o saber. E tanto a reflexão 2
  • 3. A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês) de Euclides como a de Noilton se afinam na longa odisséia dos 'Sertôes' para 'Um Paraiso Perdido' onde ambos não conseguem chegar por motivos diferentes . O longa 'A Paz é Dourada' é uma ponte inconclusa de aprendizagem de Brasil. Noilton queria ter feito um outro filme. Mas fez o filme possível. E é daí que devemos partir: da realidade das condições de produção e do sonho de dois visionários. E mais, visionários somos todos nós personagens de nossas muitas tragédias. E sobreviventes. Somos todos Euclides. Noilton o diretor, entrelaça-se bastante com o filme que realiza. Como parte de sua própria vida. Anos e anos de peregrinação. O que dá vida ao filme sobre Euclides. Tornando-o um filme bem brasileiro. Produzido na precariedade de nosso cinema e de nosso Brasil em seus aspectos artísticos e culturais. O que acaba fazendo do filme um patrimônio. E de seu diretor um personagem. Esperamos que este filme importante não arrisque a sua vida, submetendo-se a uma sobrevida: ser lançado com uma única cópia e em horário inviável de exibição. E assim vão matando o nosso cinema e o púiblico do filme nacional. Hollywood que domina o 'nosso' mercado lança 'um filme' no país de origem com mais de 15 mil cópias; repetindo em nosso país o mesmo tipo de lançamento, cobrindo todos os nossos cinemas. E desse modo nossos filmes perdem a vida no nascedouro; abortados. A obra máxima de Euclides 'Os Sertões', confunde-se com a extensão de sua vida, por sua idealização de Brasil, revestida de realidade, sonhos e projeções. O de um universo bem trágico. Muito comum em homens excepcionais como Euclides da Cunha. Desvestido dos conceitos comuns da dialética. Euclides não andava atrás de sínteses. Buscava os contraditórios. Teses e antíteses, uma construção, acompanhada de um visionarismo incapaz de se negar. E definido em dos planos finais do filme, o de um simbolismo e projeção que o fez arriscar, empenhando todos os limites, para atendê-lo. O que somente a poesia pode pretender e definir projetando toda felicidade na construção do mundo. No caso, o mundo de Euclides: Versos que começam assim: 'Eu quero à doce luz dos vespertinos pálidos, Lançar-me, apaixonado, entre as sombras das matas...'. E que terminam assim:'E minh'alma cansada ao peso atroz das mágoas, Silente adormecer no colo da solidão'. E essa dialética de Euclides é o empenho e o desempenho de sua própria vida de que o filme nos dá inteira dimensão e sem nenhum regulamento. O que lhe dá a dimensão de uma tragédia! E a vida de Euclides não seria 'A Terra', 'O Homem' e 'A Luta'? Como a narração de um romance girando em torno de um herói? Seria a própria vida de Euclides confundindo-se com suas projeções; as de um mundo sonhado e as de uma realidade tão precária que chega a nos confundir. Como a realidade de nosso tempo que nunca conseguimos definir. Noilton não fez somente um filme sobre Euclides da Cunha. Viveu Euclides. Como viveu o cinema, para sofrer e sentir, o fazer deste seu filme. Mais brasileiro, impossível. De qualquer forma o mundo avança. E ninguém pode detê-lo. E Euclides soube narrar a epopéia de seu tempo. Como profissional e visionário. E sua vida sintetizada no filme gestou o que nos tem faltado no cinema brasileiro; fundamentos para nossa memória. Artística, histórica e cultural. O filme sobre Euclides da Cunha acaba nos dando uma precisa dimensão do nosso tempo, o de ser impossível viver e gostar deste país sem qualquer noção de sua história; e projetando, como no poema final do filme, um mundo melhor, além da angustia, da falta de perspectivas e o desespero de uma solidão desprotegida. Esta nossa realidade, a realidade do cinema brasileiro, acabou sendo parte da vida deste filme de Noilton Nunes. Como foi uma totalidade na vida de Euclides. Nunca um conformista, um oportunista, um burocrata submisso. Insurgindo contra a escravidão e defendendo a República, já fundava uma realidade subjetiva, manifestando em sua vida, em todo o seu trabalho, 3
  • 4. A Paz é Dourada – Primeira crítica (em inglês) na literatura, na imprensa, na poesia, os movimentos de uma outra cultura como realidade objetiva para outro Brasil. Que Euclides visionário projeta e que o cinema brasileiro não pode esquecer: o que Noilton Nunes tematiza em seu filme. Em seu longa metragem idealizou um sonho maior. Mas se deparou com muitas impossibilidades, incompreensões e a 'imbecilidade triunfante' da burocracia estéril. Fez o filme possível. Inacabado, incompleto, sujo, trágico e ainda assim obcecado pelo sonho de um cinema-Brasil Euclidiano. Ou seja, um Brasil para todos. Não confundir com o baixo uso publicitário que diz 'Brasil um país de todos', que não é verdade. Ainda não se chegou a isso. O que convenhamos é uma pena. Rio de Janeiro, 22 de agosto de 2007 4