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quot;A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não sabe nadaquot;:
          gravidez na adolescência, redes familiares e condições de vida das
                     jovens mães e de seus filhos em Belo Horizonte


                                                            Daisy Maria Xavier de ABREU1
                                                               Paula MIRANDA-RIBEIRO2
                                                                      Cibele Comini CÉSAR3


PALAVRAS-CHAVE: GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA, FAMÍLIA



                 quot;A fase da adolescência era quase desconhecida para as brasileiras, que
                          passavam do brevíssimo interregno da infância à maternidade.quot;
                                                            QUINTANEIRO, 1996: 105


1. Introdução

        Gravidez na adolescência nem sempre foi considerada um problema. Ao
contrário, o padrão de formação de família predominante no Brasil até o final do século
XIX mostra que as noivas, extremamente jovens, tinham entre 12 e 16 anos. Não estar
casada aos 20 anos era sinônimo de solteirona (QUINTANEIRO, 1996). A maternidade
precoce nada mais era do que um corolário desta situação. Assim, mães jovens não
eram tratadas como um “problema social” mas sim como norma.

        Entretanto, à medida em que a fecundidade foi caindo, a idade média ao casar foi
avançando e mudanças significativas ocorreram em relação ao papel da mulher na
família e no mercado de trabalho, observou-se uma transformação no enfoque dado à
questão da gravidez na adolescência. Neste aspecto, alguns indicadores ilustram as
mudanças observadas no cenário brasileiro. Entre 1960 e 1998, a taxa de fecundidade
total passou de 6,2 filhos para 2,4 filhos por mulher4. Em termos de tendências de

1
  Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva - NESCON/UFMG, Mestre em Demografia,
  CEDEPLAR/UFMG.
2
  Professora Adjunta do Departamento de Demografia e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG.
3
  Professora Adjunta do Departamento de Estatística/UFMG e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG.
4
  Conforme estimativas apresentadas na publicação do IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 99 (IBGE,
  2000).
                                                                                                  1
nupcialidade, a idade média ao casar vem crescendo no caso das mulheres: em 1940, a
idade média no ato do casamento legal era de 21,7 anos, passando a 24,1 anos em 1994.
Para os homens, entretanto a idade média ao casar permaneceu praticamente estável:
27,1 anos em 1940 e 27,6 anos em 1994 (BERQUÓ, 1998). Nesse mesmo período, a
participação feminina no mercado de trabalho brasileiro cresceu principalmente para as
mulheres em idade produtiva. Em 1990, a razão entre o número total de mulheres ativas
e a população feminina de 10 anos e mais era de 42,66 (RIOS-NETO & WAJNMAN,
1994). Em 1993, as mulheres já representavam quase 40% do total de trabalhadores
brasileiros (BRUSCHINI & LOMBARDI, 1996).

          Paralelamente a tudo isso, a contribuição relativa das mães adolescentes no total
de nascimentos vem crescendo5. Para o país como um todo, a participação do grupo de
jovens com idade entre 15 e 19 anos na fecundidade total era de 7,1% em 1970. Vinte
anos depois, cerca de 14% dos nascimentos eram de adolescentes, ao passo que os
grupos etários mais velhos reduziram sua participação relativa no período (MELO,
1996).

          Frente ao aumento do número de adolescentes grávidas, a questão tem sido
tratada sob a perspectiva dos custos e riscos tanto para a mãe adolescente quanto para o
seu filho (HENRIQUES ET AL., 1989; MELO, 1996; CAMARANO, 1998). Neste
aspecto, deve-se considerar que as conseqüências para a saúde das jovens mães e de
seus filhos dependem não somente de razões meramente biológicas relacionadas ao
peso, estatura, status nutricional e desenvolvimento do aparelho reprodutivo das
adolescentes, mas também de um componente social que influencia tanto o
comportamento reprodutivo quanto a morbi-mortalidade da mãe e da criança (CÉSAR
& MIRANDA-RIBEIRO & ABREU, 1999).

          As jovens mães enfrentam uma série de problemas em relação a uma gravidez
precoce (MELO, 1996). A magnitude destes problemas é tanto maior quanto mais
pobres forem estas jovens. Isto porque, na maioria das vezes, a gravidez precoce
acontece fora do casamento e não é resultado de uma opção deliberada. A chegada de

5
    O fenômeno da gravidez na adolescência não tem afetado apenas os países em desenvolvimento. Países
    desenvolvidos, como os EUA, França, Canadá também enfrentam situação semelhante, embora com
    magnitude distinta (JONES ET AL, 1985).
                                                                                                     2
um filho por vezes precipita uma união ou é absorvida como extensão das famílias de
seus parentes.   Além disso, estas adolescentes encontram maiores dificuldades em
conciliar os estudos com os cuidados com a criança, o que resulta em sua interrupção e
acabam por retardar o ingresso no mercado de trabalho. Contam também com uma
dificuldade adicional no que se refere ao seu preparo emocional e de ordem prática para
atender as demandas de um recém-nascido (ELSTER ET AL., 1983). Não menos
problemático é o acesso aos serviços de saúde, via de regra, limitado pela oferta e grau
de resolutividade dos mesmos, o que não é uma exclusividade de população jovem.
Esta realidade deve ser analisada à luz do modo como a relação entre a maturidade e a
idade é considerada em cada sociedade, uma vez que a adolescência é uma fase do
desenvolvimento humano que varia conforme o que é determinado, social e
culturalmente, como o comportamento esperado para esta idade (GERONIMUS ET
AL., 1994).

       Estes aspectos ressaltam a importância das práticas culturais relacionadas com
uma rede de apoio familiar no que se refere às condições de vida das jovens mães e de
seus filhos (WILLIAMS ET AL., 1986; CRAMER, 1987). Estudos demonstraram que
um dos mais importantes fatores que influenciam o comportamento das mães
adolescentes é o apoio emocional dado por sua família. Quando as jovens contam com
este apoio, adotam uma conduta mais adequada no cuidado de seus filhos (ELSTER ET
AL., 1983). Além disso, a constituição de arranjos intergeracionais de cuidados com a
criança tem um efeito positivo sobre o desenvolvimento infantil (GERONIMUS ET
AL., 1994). Filhos de mães jovens que vivem sozinhas apresentam piores condições de
saúde se comparados com filhos de mães adolescentes casadas ou que vivem com sua
família (BALDWIN & CAIN, 1980).

       Nesta perspectiva, o objetivo do estudo foi, através de uma pesquisa de base
qualitativa bastante preliminar, abordar questões sobre a percepção e o comportamento
das adolescentes frente à gravidez, o grau de conhecimento das jovens sobre métodos
contraceptivos e cuidados com a criança, e as condições sócio-demográficas das jovens,
de seus parceiros e de suas famílias, especialmente no que tange ao papel das redes
familiares na qualidade de vida das mães adolescentes e de seus filhos. Procurou-se
conhecer também como foi a atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto das jovens
                                                                                       3
pesquisadas. Foram realizadas onze entrevistas com adolescentes residentes em Belo
Horizonte/MG.

       A apresentação do trabalho segue a seguinte estrutura: primeiramente, são
descritos os aspectos relativos à metodologia adotada, em seguida discute-se os
principais resultados encontrados e, finalmente, apresenta-se os comentários finais. Os
achados da pesquisa sugerem que as adolescentes entrevistadas não estavam preparadas
para assumir a gravidez e a maternidade e que, portanto, a possibilidade de contar com o
apoio da família foi importante para garantir uma boa saúde para seus filhos e delas
próprias. Adiciona-se a isso o fato de que, na maioria dos casos, as adolescentes
tiveram um acompanhamento pré-natal adequado.



2. Metodologia

       Seguindo a tradição da Escola de Chicago, o objetivo deste trabalho é analisar a
gravidez na adolescência e as condições de vida das jovens mães e de seus filhos a partir
do ponto de vista das próprias mães adolescentes, a fim de conhecer e compreender
como cada uma delas experimenta, de fato, a gravidez, a maternidade e as mudanças
impostas às suas vidas.

       A principal vantagem da pesquisa qualitativa é o verstehen, ou a quot;compreensão
interpretativa das experiências dos indivíduos dentro do contexto em que elas foram
vivenciadasquot; (GOLDENBERG, 1997: 19). Assim sendo, a pesquisa qualitativa enfatiza
quot;as especificidades de um fenômeno em termos de suas origens e de sua razão de serquot;
(HAGUETTE, 1987: 63). Este é exatamente o objetivo da nossa pesquisa -- entender a
realidade das mães adolescentes através dos seus próprios olhos e amplificar certos
aspectos dessa realidade, a fim de compreendê-los mais profundamente. Desta forma,
optamos por fazer entrevistas em profundidade, definidas como quot;um processo de
interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo
a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistadoquot; (HAGUETTE, 1987: 86),
ou ainda como uma forma de quot;acesso às observações de outras pessoas a respeito de um
fato. Através da entrevista, você pode aprender sobre lugares onde você nunca esteve e
sobre experiências que você nunca viveuquot; (WEISS, 1994: 1). Em suma, a partir de uma
                                                                                           4
entrevista em profundidade, percebe-se a representação que o entrevistado tem a
respeito da sua experiência de vida. É exatamente isso que nos interessava.
          Apesar dessa escolha metodológica consciente, sabemos das limitações impostas
pelo método, não generalizável e com conclusões restritas apenas ao grupo estudado.
Também estamos atentas aos possíveis vieses, tanto pelo lado da
entrevistadora/pesquisadora -- que traz consigo sua bagagem, suas convicções teóricas e
ideológicas e seus pré-conceitos -- quanto por fatores externos a ela -- problemas com o
roteiro, falta de sintonia entre entrevistadora e entrevistada, constrangimentos e perda de
espontaneidade por parte da entrevistada, além do desejo desta em agradar a
entrevistadora.
          A pesquisa qualitativa consistiu em entrevistas realizadas com jovens
adolescentes que vivenciaram a experiência da maternidade.                Considerando as
dificuldades em encontrar mães jovens, o critério adotado para a escolha das
informantes foi o da seleção por conveniência, útil especialmente em grupos difíceis de
serem pesquisados (WEISS, 1994). Foram entrevistadas 11 mães adolescentes, nos
meses de julho e agosto de 1999, a partir de indicação de pessoas que atuam junto a
grupos de jovens e das próprias entrevistadas e, através delas, foi realizado um primeiro
contato para verificar o interesse e a disponibilidade das adolescentes em serem
entrevistadas6. A partir da concordância das jovens, as entrevistas foram agendadas,
sendo que todas foram realizadas na residência das mesmas.                  A seleção das
entrevistadas concentrou-se em jovens de camadas mais pobres da população,
considerando a importância que tem, para esse grupo, o suporte familiar nas condições
de vida das jovens mães e de seus filhos. Foram abordadas questões sobre a percepção
e o comportamento frente à gravidez, grau de conhecimento das jovens sobre métodos
contraceptivos e cuidados com a criança, a existência de uma rede familiar de suporte,
inclusive em relação aos cuidados com a criança e a disponibilidade e o acesso à
atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto.                Além disso, foram coletadas
informações sobre o perfil sócio-demográfico das jovens, de seus parceiros e de suas
famílias.




6
    As entrevistas foram feitas por ABREU e MIRANDA-RIBEIRO.
                                                                                          5
As entrevistas foram realizadas a partir de roteiro semi-estruturado, abordando
os temas de interesse da pesquisa, mas com um grau de flexibilidade que permitisse às
entrevistadas aprofundar em aspectos de sua história de vida e relacionados com a
gravidez que pudessem contribuir para a compreensão do objeto de estudo.                 Para
garantir o anonimato das entrevistadas, de seus bebês e dos pais das crianças, os nomes
que aparecem nas entrevistas são fictícios, sugeridos pelas próprias informantes7.



3. Resultados Encontrados

Caracterização sócio-demográfica das mães adolescentes

          A situação socioeconômica das 11 mães adolescentes entrevistadas aponta para
um quadro de precariedade, como pode ser visto pelos dados apresentados nos Gráficos
1 e 2.      Elas moram em bairros da periferia (nove meninas) ou em favelas (duas
meninas), a renda familiar, quando informada, não ultrapassa dois salários mínimos e é
baixa a escolaridade do chefe da família.          Há dois casos que não se enquadram
exatamente neste perfil e podem ser considerados como sendo de famílias de classe
média baixa, pois o chefe da família tem um nível de escolaridade mais elevado e, em
termos de condição sócio-econômica, os domicílios apresentam um maior número de
bens de consumo duráveis.
          A maioria das adolescentes entrevistadas é dependente da família e não
conseguiu ainda inserção no mercado de trabalho. A constituição de um novo núcleo
familiar, a partir da gravidez e nascimento da criança, quando aconteceu, se deu em
condições precárias, sendo que boa parte das que vivem com seus parceiros continua
morando com a família de origem, que nem sempre é pequena. Apenas em um caso a
adolescente assume o papel de chefe da família, vivendo somente com seu filho e uma
amiga que cuida da criança, enquanto a jovem trabalha. Das 11 jovens entrevistadas,
sete são solteiras e, destas, duas estavam noivas do pai da criança. Para aquelas que
vivem com seus parceiros, não foi encontrado nenhum caso de casamento legal. Em
geral, apresentam baixa escolaridade e apenas três continuam estudando.


7
    Somente em um caso a entrevistada optou por manter seu nome e o da criança, não chegando a
    mencionar o do pai.
                                                                                             6
Gráfico 1: Com o são as adolescentes

    T rabalham fora de               2
           cas a

     E s tão es tudando                  3

     E s tudaram até o                           5
    E ns . F undamental

             S olteiras                              7

                                                                      11
           1ª gravidez

   Grávidas entre 15 e                                                11
        17 anos

                          0                  5                   10        15

 Fonte: Entrevistas com as adolescentes




                              Gráfico 2: Com o vivem as adolescentes

   Vivem apenas com                  2
   o parceiro e o filho

     Vivem com 5 a 9                                     7
         pes s oas

    Chefe da familia =                               7
      pai ou mãe

         Vivem com a                                         8
            famí lia

                                                                  9
   Moram na periferia


                          0                  5               10            15

 Fonte: Entrevistas com as adolescentes




          Sobre o perfil do pai da criança, todos são mais velhos do que as adolescentes
entrevistadas e tinham acima de 20 anos (entre 21 e 28 anos) na ocasião da gravidez das
jovens.       Das informações obtidas, três deles estavam desempregados (dois eram
cobradores de ônibus e um trabalhava com telecomunicação).                      Para aqueles que
trabalhavam, as atividades variavam entre mecânico, porteiro, pedreiro, comerciante,
vigilante e cobrador de ônibus. A escolaridade do pai da criança também não é elevada:
somente em três casos, a escolaridade do pai é Ensino Médio incompleto. Os demais
têm escolaridade abaixo deste nível. Quanto à sua renda mensal, para o único caso que
dispõe desta informação, o valor é de R$ 180,00. No entanto, segundo as entrevistadas,
eles ajudam nas despesas com o filho (independente da situação marital que vivem). Há
                                                                                               7
um único caso em que o pai da criança vive em outra cidade e não ajuda e nem mantém
contato com o filho.



Como as adolescentes percebem e encaram a gravidez, o que muda em suas vidas e no
relacionamento com a família

       Para as mães adolescentes entrevistadas, foi sua primeira experiência de
gravidez e, com exceção de uma jovem, todas afirmaram que a gravidez não foi
planejada ou desejada. Neste aspecto, são unânimes em afirmar as dificuldades que
tiveram em assumir a gravidez, os conflitos pessoais, familiares e de relacionamento
com o pai da criança. As respostas das entrevistadas expressam o impacto que a notícia
da gravidez provocou nelas próprias.



       “Ah, eu fiquei sabendo, fiquei desesperada, queria sumir, queria tirar, queria
       fazer aborto, um pouco desesperada. Depois eu conversei muito com a pessoa
       que hoje em dia mora comigo, que é madrinha do neném e a gente ficou
       conversando e que não ia ter jeito de tirar e assumi. Eu falei assim, não, agora
       eu vou ter.” (Adriana, 19 anos, solteira e não vive com sua família)

       “(...) Eu pensei, lógico que eu pensei, pô 17 anos, eu engravidei com 17, eu
       fiquei louca, eu imaginei eu com 17 anos, meu pai morreu, né, o que que meus
       irmãos vão falar. Vai matar ele, vai me matar, minha mãe. Mas aí não, eu tive
       apoio de todo mundo.” (Regiane, 19 anos, solteira, noiva do pai da criança e
       vive com sua família )



       No relacionamento com os parceiros, a reação e as mudanças desencadeadas
pela gravidez nem sempre foram as mesmas. A grande maioria dos pais das crianças
receberam bem a notícia e acabaram assumindo a paternidade, ajudando as entrevistadas
no cuidado e nas despesas com a criança. Há situações em que, com a gravidez, o casal
passou a viver junto, seja com a família da adolescente, seja constituindo novo núcleo
familiar. Também ocorrem casos em que o relacionamento com o pai da criança foi
interrompido ou conflituoso. Há um único caso no qual o pai da criança não assumiu o
filho e este é registrado apenas com o nome da mãe.


                                                                                      8
A relação das jovens com a família sofreu mudanças ao longo da gravidez.
Primeiramente, quando os pais ficaram sabendo que suas filhas estavam grávidas,
reagiram negativamente -- os pais reprovam mais do que de as mães -- e houve até
situações de tensão familiar -- há um caso de violência do pai e irmãos por causa da
gravidez. No entanto, as entrevistadas argumentam que, com o passar do tempo e
especialmente com o nascimento das crianças, o comportamento de seus pais
modificou-se e eles tornaram-se afetuosos com os netos, ajudando nos cuidados com o
bebê e, em muitos casos, assumindo os cuidados com ele. Cabe lembrar que, em apenas
três casos, as adolescentes não são dependentes da família -- uma delas vive com uma
amiga e o filho e as outras duas vivem apenas com seus parceiros e filhos. Portanto, a
dependência da família é ainda muito significativa na vida das mães adolescentes, tanto
do ponto de vista financeiro, quanto em relação ao apoio psicológico e afetivo.

       As adolescentes entrevistadas consideram que a gravidez modificou suas vidas.
Em geral, reforçaram muito as mudanças que a maternidade trouxe em relação ao seu
momento de vida, sua socialização e a “liberdade” própria dos jovens (sair, dançar,
namorar). Elas ressaltaram, ainda, a maior responsabilidade que passaram a ter com a
chegada do filho e a dificuldade em conciliar as atividades de cuidado com o bebê,
escola, trabalho.   Muitas das jovens entrevistadas interromperam os estudos já na
gravidez e algumas que estavam trabalhando também pararam de trabalhar. As falas
das jovens são elucidativas e incisivas sobre as mudanças ocorridas em suas vidas.



       “Ah, mudou tudo, né, tipo assim. Solteira então cê sai, cê faz o que cê quiser e
       tal, quando casa não, cê cria suas responsabilidade, se tem filho, cê tem casa, cê
       tem marido, cê tem que arrumar a casa, fazer comida e tal. Quando cê tá na
       casa da sua mãe, cê enrola, cê não faz. (...) Ah, porque a coisa que mais
       gostava de fazer quando eu era adolescente, dançar, sair, dançar.” (Taís, 19
       anos, vive com o parceiro e com sua família)

       “Ah, eu acho que eu fiquei mais madura, né, mais, tive que ficar mais
       responsável. (...) Estudar, sair, porque eu passeava muito, né, saía se deixasse a
       semana toda pra dançar, essas coisas. Pra mim, isso não acontece mais, hoje
       em dia eu vivo mais por conta dele.” (Adriana, 19 anos, solteira e não vive com
       a sua família)



                                                                                        9
“Nossa, mudou tudo. Olha só, antes eu não tinha responsabilidade nenhuma,
       sabe, tudo pra mim era aventura, nossa era assim, só comia, bebia e dormia e
       mais nada. Agora não, minha fia, agora tenho que fazer comida primeiro, né,
       fazer tudo primeiro, pra depois poder, esse trem é um saco, né, nossa senhora,
       mudou muita coisa.” (Carolina, 17 anos, vive somente com o pai da criança)

       “Ah, eu saía, né, sexta, domingo, saindo, chegava meia noite, duas horas. Mas
       agora não dá. (...) Aí não dá pra fazer as coisas, agora eu tenho que levar ela
       sempre comigo. (...) eu estudo à noite. Nossa, é difícil demais, assim, eu já fiz
       prova, não dá mais para mim estudar. Eu tenho que chegar um pouquinho mais
       cedo na escola, estudar, prestar atenção na estória pra poder saber alguma
       coisa. Mas Deus me livre, não dá pra mim fazer as coisas que eu fazia antes,
       né. Muita coisa mesmo. (Regiane,19 anos, solteira, noiva do pai da criança e
       vive com sua família)



O grau de conhecimento das jovens sobre gravidez, métodos contraceptivos e cuidados
com a criança

       Uma questão importante em relação ao comportamento das mães adolescentes
pesquisadas frente à gravidez refere-se ao seu conhecimento sobre ciclo reprodutivo,
métodos contraceptivos e uso destes métodos. As entrevistadas apontam como canais
de informação e comunicação a escola, familiares (mãe e irmãs) e amigos. Entretanto,
não foi possível perceber como estas questões são repassadas e discutidas com as
adolescentes. Nas respostas, fica claro que as jovens conhecem muito pouco sobre o
funcionamento do ciclo reprodutivo da mulher, além de conhecerem mas usarem de
forma irregular e não permanente os métodos contraceptivos.        Muitas alegam que
usavam preservativo masculino (mas nem sempre) e assim engravidaram. Embora
praticamente todas elas não desejassem engravidar, acreditavam que isto não
aconteceria com elas. Tudo indica que o “pensamento mágico” de que “isso não vai
acontecer comigo” (Santos Júnior, 1999) é o que orienta o comportamento em relação
aos cuidados para não engravidar. Elas próprias expressam isso.

       “Ah eu não sei, eu nem lembro mais porque eu não usei (camisinha), eu acho
       que deu na telha, não vamos usar não, não usou e pronto.” (Franciane, 18 anos,
       solteira, noiva do pai da criança e vive com a família)

       “(...) O risco a gente sempre sabe que tem, a gente sabe que tem um risco, (...)
       talvez, igual fala a reportagem, adolescente acha que com ele nunca vai
       acontecer, sei lá.” (Taís, 19 anos, vive com o parceiro e sua família)

                                                                                      10
Apesar da pesquisa não ter como objetivo abordar a questão das doenças
sexualmente transmissíveis, AIDS e os seus métodos de prevenção, o fato de que muitas
das adolescentes não usam preservativo ou o fazem de forma irregular é um indicativo
da falta de preocupação e conscientização das jovens sobre os riscos destas doenças.

       Em relação aos cuidados com o bebê, as entrevistadas foram indagadas sobre
quem assumia os cuidados com a criança e práticas de cuidado como, por exemplo, a
amamentação. Primeiramente, observou-se que mesmo nos casos onde a adolescente
assume os cuidados com a criança, ela conta com o apoio e a ajuda da família, seja da
mãe, seja de tia, cunhada ou amiga, seja até do pai da criança, principalmente nos
primeiros dias de vida do recém-nascido. Verificou-se que as jovens parecem não ter
informação e preparo para realizar os primeiros cuidados como banho do bebê, cura do
umbigo e outros. O período de tempo máximo de amamentação foi de seis meses de
idade, sendo que sete delas amamentaram somente até os três meses. Destas, quatro
amamentaram menos de um mês. Embora a entrevista não tenha permitido verificar o
grau de conhecimento das jovens sobre a importância da amamentação para a saúde das
crianças, os depoimentos indicam que elas parecem não ter clareza sobre isto e, na
própria avaliação de uma delas, este aspecto é um indicador da falta de maturidade da
adolescente para assumir a gravidez e o filho. Na fala desta jovem, fica bem clara esta
questão.

       “Eu amamentei 20 dias e eu acho o pior da gravidez na adolescência é a falta,
       como se diz, de maturidade da mãe, né. (...) eu ficava muito nervosa, eu não
       queria saber de amamentar. (...) Aí eu falei com meu pai que o meu leite não
       tava sustentando mais a Daniele, ela queria mamar de novo, eu não aguentava,
       aí quando a Daniele fez 20 dias, não, 15 dias, eu falava ô pai, pelo amor de
       Deus, eu não aguento mais amamentar, a menina chora, chora (...) aí ele falou,
       tá, eu vou conversar com seu médico. Aí ele comprou Nestogen pra ela (...). Eu
       não tenho paciência e em uma semana meu leite secou e eu dei graças a Deus.
       (...) Eu acho que nessa parte eu fui imatura, né..” (Ana Clara, 18 anos, solteira
       e vive com a família).



       Os depoimentos prestados pelas jovens entrevistadas parecem indicar a
importância do apoio familiar no cuidado da criança.         Dado o elevado grau de

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dependência das jovens em relação às suas famílias, a responsabilidade sobre os
cuidados com o filho da adolescente passa a ser compartilhado com a família e também
depende dos arranjos intergeracionais existentes, tendo em vista que, na maioria dos
casos, as jovens vivem em famílias estendidas.

       Pelas entrevistas, é possível inferir ainda que não há, nem por parte da família e
nem dos serviços de atenção às adolescentes, sejam de saúde ou de orientação
educacional, uma atenção maior no sentido de preparar as jovens para o início da vida
sexual e, no caso de gravidez, para os cuidados com os filhos.



A atenção à saúde durante a gravidez, parto e pós-parto na visão das mães
adolescentes

       Os depoimentos das jovens mães indicam que, em maior ou menor grau, todas
tiveram acesso ao atendimento pré-natal, sendo que, em quase todos os casos, o pré-
natal foi realizado desde o início da gravidez. Seis entrevistadas afirmaram ter tido
problemas de saúde durante a gravidez, que vão desde ameaça de pré-eclâmpsia até
risco de nascimento prematuro, passando por problemas próprios do início de gestação.
Os casos em que a atenção pré-natal foi mais reduzida, com um número menor de
consultas médicas, parecem estar mais relacionados com a dificuldade da adolescente
em assumir a gravidez, ficando constrangida e envergonhada para procurar o
atendimento adequado e também para enfrentar a família.

       Entre as entrevistadas, foram sete partos normais e quatro cesarianas. Em um
caso de parto cesariano, a entrevistada afirma que o mesmo aconteceu porque ela
preferia este tipo de parto e fez tudo para que assim acontecesse. Duas entrevistadas
que tiveram parto normal afirmaram que o parto foi difícil e prolongado, o mesmo
acontecendo em dois casos de parto cesariano. Este fato pode estar associado à questão
da mudança de hospital na hora do parto -- em nenhum caso o parto aconteceu no
mesmo hospital no qual foi realizado o pré-natal. Como os locais onde elas pariram não
dispunham das informações sobre o acompanhamento pré-natal da jovem, o que poderia
auxiliar no atendimento prestado no parto, em alguns casos o parto acabpu endo mais
complicado. Por exemplo, uma das entrevistadas teve indicação de cesárea durante o

                                                                                       12
pré-natal mas passou por trabalho de parto demorado, que acabou resultando em
cesárea, porque o hospital desconhecia tal indicação.

       O principal motivo alegado pelas entrevistadas para a mudança de maternidade
refere-se à falta de vagas para internação no momento do parto, mas há também a
justificativa de que não havia tempo para procurar o serviço onde estava sendo atendida
durante a gravidez. Este aspecto pode ser um indicador de que o acesso aos serviços
apresenta limitação, pois não há nenhuma garantia de atendimento nos serviços onde se
realiza o pré-natal ou mesmo uma orientação quanto à oferta de serviços para as jovens.
Além disso, considerando que as jovens entrevistadas pertencem à população mais
pobre que, em geral, utiliza a rede pública de serviços de saúde, a observação sobre o
atendimento nas unidades de saúde pode ser indicativa de uma falta de integração entre
os serviços de atenção às gestantes para um encaminhamento devido na hora do parto --
o que possivelmente atinge a população como um todo e não apenas as jovens grávidas.
No caso das adolescentes entrevistadas, a situação complica-se devido à imaturidade e
ao fato de que todas eram primíparas.

       Quanto ao atendimento prestado pelos profissionais de saúde, em geral as
entrevistadas o consideraram de boa qualidade e não apresentaram nenhuma queixa.
Além disso, não destacaram nenhum problema na sua recuperação pós-parto, sendo que
apenas uma jovem reclamou de problemas de saúde (dores e infecção). Entretanto, nas
entrevistas não ficou claro se encontram alguma dificuldade de acesso ao atendimento
pós-parto.

       Por outro lado, fica explícito o fato de que seus filhos não têm um
acompanhamento pediátrico regular. Apenas em um caso, a visita ao pediatra foi
realizada com regularidade como medida de cuidado e controle da saúde da criança. As
jovens alegam que a procura pelo atendimento médico acontece quando a criança
apresenta algum problema de saúde, mas não afirmaram se há alguma dificuldade no
acesso e/ou na qualidade do atendimento prestado. Em geral, argumentam que os filhos
têm uma boa saúde, mas há casos em que a criança já esteve internada. Cabe ressaltar
que apenas uma criança nasceu com baixo peso (menos de 2500 gramas) e não houve
nenhum caso de prematuridade (todas as crianças nasceram com mais de 37 semanas).
Estes aspectos podem também ser indicadores de que o atendimento pré-natal realizado
                                                                                     13
pelas entrevistadas pode ter reduzido o risco de baixo peso e partos prematuros, fatores
de risco de morte neonatal, principalmente para filhos de mães adolescentes.



O que as jovens mães esperam do futuro

       Sobre as perspectivas para o futuro, as mães adolescentes entrevistadas
manifestaram um grande interesse em retomar os estudos, trabalhar e melhorar de vida.
Além disso, algumas esperam casar-se com o pai de seus filhos e constituir uma família.
Manifestam ainda o desejo de ter outros filhos, mas são firmes ao dizer que isto deve
acontecer mais tarde e em outras condições. A questão de melhoria das condições de
vida também aparece como um desejo em relação ao futuro de seus filhos, para que
possam dar a eles o que, muitas vezes, não tiveram, inclusive em relação ao afeto e ao
carinho. Este desejo fica bem explícito nas palavras das entrevistadas.




       “Olha, eu quero ter uma profissão, fazer o que eu gosto(...). Eu quero fazer
       química, eu vou tentar vestibular, vou me esforçar o máximo pra mim passar. E
       seja o que Deus quiser, se eu puder arrumar um emprego, me esforçar para um
       mundo melhor. Então eu quero que um dia a Daniele cresça e tenha orgulho da
       sua mãe (...) é isso que eu quero.” (Ana Clara, 18 anos, solteira e vive com a
       família)

       “Oh, no futuro eu quero sair, quero começar a trabalhar, pra fazer minha casa
       e morar junto pra poder criar ela.” (Lorraine, 15 anos, solteira, vive com o
       parceiro e vive com a família)
       “Assim, eu pretendo ter mais um (filho), mas primeiro eu quero dar pra
       Fernanda, sabe, um carinho que eu não tive com os meus pais direito.”
       (Michele, 18 anos, solteira e vive somente com o pai da criança)


       Nas declarações das entrevistadas, é possível observar que elas percebem as
limitações às quais estão sujeitas em termos de condições de vida, especialmente com o
nascimento de seus filhos, e que também são repassadas para as crianças. No entanto,
elas pretendem modificar esta situação e identificam como uma solução para isto a
inserção no mercado de trabalho e os estudos. Além disso, deixam clara a sua vontade

                                                                                      14
de ter mais filhos e, com isso, constituir sua própria família, porém em melhores
condições de vida.


Uma mensagem para as outras adolescentes sobre gravidez na adolescência

       As jovens entrevistadas são unânimes em aconselhar as outras adolescentes que
evitem uma gravidez.    Consideram que a adolescência não é o momento de vida
adequado para serem mães e que devem cuidar-se para que isso não aconteça. Como
percebem as mudanças que a maternidade provoca em suas vidas, utilizam isto como
justificativa para suas considerações. Os argumentos são bem enfáticos.




                                                                                  15
“Não duvide não porque acontece com a gente. Por mais que todo mundo
       conforme, o peso tá sempre nas costas da gente, um filho (...). Ela pode ter um
       monte de namorado, até marido, no fundo, no fundo, olha pra você ver, eu podia
       um dia colocar o pai dela na parede e falar pra ele, eu quero, eu exijo, eu quero
       isso (...) eu pra mim, eu quero que ele [o pai da criança] cresça, que seja
       alguém na vida e tem mais condições pra viver que eu. Apesar de eu ter ainda
       mais obrigação que ele, ele ainda acha que levo a vida mais fácil que ele. Ele
       acha que eu nunca peguei no tranco, sabe, e eu peguei, então, tipo assim, pra
       elas, tome cuidado, é difícil viu, é muito difícil.” (Ana Clara, 18 anos, solteira e
       vive com a família)

       “Oh, no meu caso, como eu quis, como eu sempre quis, eu tive. Agora eu peço
       pra evitar o máximo de não engravidar, porque, ainda mais que eu saía de
       segunda a segunda, pra mulher que gosta de fazer isso, não arruma menino não,
       porque prende mesmo. Na verdade, fala que não prende, mas prende. Pra
       mulher irresponsável é que não prende.(...) Eu aconselharia a não arrumar e se
       arrumar, não tirar, porque eu sou contra o aborto, eu falo que se eu engravidar
       de cinco meninos, cada um de um pai, eu cuido dos cinco, porque abortar eu
       não faço isso não. (...) Eu sou contra mesmo. Se arrumar, né, deixa na barriga
       e cria, vai ver o sofrimento que é, a dor de cabeça.” (Sirlene, 19 anos, solteira
       e vive com a família)
       “(...) Quem faz coisa errada, estão tudo aí, que tem um monte de método de se
       evitar um filho, diafragma, tem o DIU, tem a camisinha agora feminina, tem um
       monte de coisa, tem que prevenir que é melhor do que você arrumar uma
       gravidez indesejada, bem melhor (...)Eu fazia diferente (...), tanto conhecimento
       pra evitar ele agora, aí eu não engravidaria, não fazia besteira, ter filho só mais
       tarde, saber bem mais. A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não
       sabe nada, acha que é dono do mundo e não sabe nada, e é bem difícil na
       adolescência criar um filho e estudar e monte de coisa, complica bastante.”
       (Franciane, 18 anos, solteira, noiva do pai de seu filho e vive com a família)


       Fica, portanto, um recado importante das jovens mães para sua geração,
recomendando evitar uma gravidez precoce e salientando as mudanças que um filho
acarreta em suas vidas. Além disso, pelo fato de pertencerem a famílias mais pobres, as
dificuldades sentidas por estas jovens certamente são maiores pela sua própria condição
de classe.




                                                                                         16
4. Comentários Finais
       Os depoimentos das adolescentes entrevistadas são bem ilustrativos da
necessidade de serem considerados os vários aspectos que compõem a vida das mães
adolescentes. As informações prestadas reforçam a importância e o desafio que a
gravidez na adolescência coloca para os jovens e para todos os atores envolvidos com
adolescentes, seja a família, a escola, os serviços de saúde, a mídia ou as religiões.
Como ressalta o título deste trabalho, os adolescentes acham que sabem tudo mas no
fundo têm muito pouco preparo para enfrentar situações que exigem maior
responsabilidade, como o início da vida sexual, os cuidados para evitar doenças e a
maternidade. Em outras palavras, os jovens, sobretudo as do sexo feminino, necessitam
de ajuda e apoio para lidar com tanta mudança em suas vidas.

       As jovens entrevistadas demonstraram perceber o quanto suas vidas foram
afetadas com a maternidade precoce. Este aspecto foi muito salientado nas falas, que
não deixaram de mencionar as mudanças que viveram em relação ao seu momento de
vida, tendo que assumir um comportamento mais responsável e maduro frente aos seus
compromissos como mãe, ainda que contassem com a ajuda do pai da criança ou de
seus parentes mais próximos, especialmente de seus pais.

       A discussão sobre o papel da família nos cuidados dos filhos de mães
adolescentes salienta a importância do ambiente para a saúde tanto da mãe quanto da
criança (BALDWIN & CAIN, 1980). No caso das jovens entrevistadas, o fato de
contarem com uma rede familiar de apoio para os cuidados deve ter contribuído para
garantir a boa saúde de seus filhos. Especialmente tendo em vista que, pelas entrevistas,
parece claro que as jovens não estavam preparadas para assumir os cuidados com o bebê
e contavam com a ajuda de familiares nesta tarefa.

       A existência de arranjos intergeracionais nos quais a mãe, irmã ou outro parente
da jovem mãe assume os cuidados com o bebê também tem se mostrado importante para
as adolescentes à medida em que possibilita, em alguns casos, a continuidade dos
estudos. A interferência da gravidez precoce na educação das jovens é apontada como
um dos principais problemas que atinge especialmente as mais pobres, com
conseqüências sobre as suas possibilidades de mobilidade social e, portanto, melhores
condições de vida (MELO, 1996).
                                                                                       17
As entrevistas sugerem que os pais das crianças têm um papel secundário no
cuidado com seus filhos, exceto nos poucos casos em que moram com eles. Além disso,
a ajuda financeira e as eventuais visitas parecem ser as principais mudanças que
ocorreram na vida desses pais, ao contrário das transformações radicais ocorridas nas
vidas das jovens mães. Portanto, as conseqüências de uma gravidez na adolescência em
termos de impedir ou ao menos dificultar o acesso à educação e à melhoria das
condições de vida no futuro são maiores para as jovens do sexo feminino do que para
seus parceiros.

       Uma questão que claramente afeta as mães adolescentes e seus filhos refere-se à
realização de um acompanhamento pré-natal adequado. Pelas entrevistas com as jovens
mães, fica explícito que, quando a atenção pré-natal acontece precoce e adequadamente,
as chances de problemas de saúde, tanto nas gestantes quanto nas crianças, são bem
reduzidas. Isso também é verdade para todos os grupos etários. A importância da
atenção à gestante, principalmente entre as adolescentes, já foi bem tratada por outros
estudiosos (VICTORA ET AL., 1989; DIAS ET AL., 1995). No caso das adolescentes,
devido a possíveis problemas de saúde associados à idade e à imaturidade das jovens,
um pré-natal adequado torna-se ainda mais importante no sentido de garantir a saúde
física e psicológica dessas jovens mães.    Sabe-se que, uma vez tendo acesso aos
serviços de saúde para um acompanhamento pré-natal, no parto e, se possível, pós-
parto, as adolescentes apresentam os mesmos resultados obstétricos e perinatais de uma
paciente adulta que recebe a mesma atenção (GRIFFITHS ET AL., 1995).

       Finalmente, cabe ressaltar que a realidade das onze adolescentes entrevistadas é
marcada por uma precariedade de condições de vida e uma fragilidade da estrutura
familiar, especialmente nos casos em que a jovem mora apenas com o pai da criança.
Nesses casos, a gravidez precoce vai de encontro às aspirações que as jovens têm, no
sentido de melhores condições de vida no futuro. Ao contrário do esperado, a gravidez
na adolescência pode estar contribuindo para a reprodução desta situação de pobreza.



5. Bibliografia

BALDWIN, W. & CAIN, V.S. “The Children of Teenage Parents.” Familiy Planning
   Perspectives, 12(1): 34-43, 1980.
                                                                                       18
BERQUÓ, E. quot;Arranjos familiares no Brasil: uma visão demográficaquot;. In Schwarcz,
   L.M. (org.), História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade
   contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, vol. 4, p.411-37, 1998.

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   Primeiros Anos da Década de Noventa.” In: X Encontro Nacional de Estudos
   Populacionais, p.483-516. Anais... ABEP, 1996.

CAMARANO, A.A. “Fecundidade e anticoncepção da população jovem”. In: Jovens
  Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas, Brasília, vol 1, p.109-33. Anais…
  Brasília: CNPD, 1998.

CÉSAR, C.C., MIRANDA-RIBEIRO, P. & ABREU, D.M.X. “Efeito-idade ou efeito-
   pobreza? Mães adolescentes e mortalidade neonatal em Belo Horizonte”. 1999.
   (mimeo)

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   proximate causes”. Demography, 24(3): 299-322, Aug. 1987.

DIAS, M.A. ET AL.. Mortalidade neonatal em filhos de mães adolescentes no
   município de Belo Horizonte: uma análise de risco. Belo Horizonte, ESMIG-
   UFMG, 1995. (mimeo.)

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GERONIMUS, A. ET. AL. “Does Young Maternal Age Adversely Affect Child
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   Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Record, 2a edição, 1997.




                                                                                 19
GRIFFITHS, E.A., MARDONES, A.O., ZAMBRANO, J.R., SÁNCHEZ, J.S.,
   QUINTANA, J. C., MUÑOZ, L.C. Relación entre el estado nutricional de madres
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   Panamericana, 118(6): 488-498, 1995.

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  1987.

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   Guttmacher Institute: New York, 1989.

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RIOS-NETO, E.L.G. & WAJNMAN, S. “Participação Feminina no Mercado de
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VICTORA, C.G ET AL. Epidemiologia da desigualdade. São Paulo: Hucitec, 1989.

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                                                                                 20
quot;A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não sabe nadaquot;:
         gravidez na adolescência, redes familiares e condições de vida das
                   jovens mães e de seus filhos em Belo Horizonte


                                                       Daisy Maria Xavier de ABREU8
                                                         Paula MIRANDA-RIBEIRO9
                                                               Cibele Comini CÉSAR10



O objetivo do estudo foi, através de uma pesquisa de base qualitativa bastante
preliminar, abordar questões sobre a percepção e o comportamento das adolescentes
frente à gravidez, o grau de conhecimento das jovens sobre métodos contraceptivos e
cuidados com a criança, e as condições sócio-demográficas das jovens, de seus
parceiros e de suas famílias, especialmente no que tange ao papel das redes familiares
na qualidade de vida das mães adolescentes e de seus filhos. Procurou-se conhecer
também como foi a atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto das jovens
pesquisadas. Foram realizadas onze entrevistas em profundidade com adolescentes
mães de camadas populares, residentes em Belo Horizonte/MG.              Os achados da
pesquisa sugerem que as adolescentes entrevistadas, apesar de terem tido um
acompanhamento pré-natal adequado, não estavam preparadas para assumir a gravidez e
a maternidade. A possibilidade de contar com o apoio da família foi importante para
garantir uma boa saúde para seus filhos e delas próprias. Os pais das crianças têm um
papel secundário no cuidado com seus filhos, exceto nos poucos casos em que moram
com eles. A ajuda financeira e as eventuais visitas parecem ser as principais mudanças
que ocorreram na vida desses pais, ao contrário das transformações radicais ocorridas
nas vidas das jovens mães. Portanto, as conseqüências de uma gravidez na adolescência
em termos de impedir ou ao menos dificultar o acesso à educação e à melhoria das
condições de vida no futuro são maiores para as jovens do sexo feminino do que para
seus parceiros. A gravidez precoce vai de encontro às aspirações das jovens no sentido
de melhores condições de vida no futuro. Ao contrário do esperado, a gravidez na

8
  Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva - NESCON/UFMG, Mestre em Demografia,
  CEDEPLAR/UFMG.
9
  Professora Adjunta do Departamento de Demografia e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG.
                                                                                        21
adolescência pode estar contribuindo para a reprodução da situação de pobreza em que
elas vivem.




10
     Professora Adjunta do Departamento de Estatística/UFMG e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG.
                                                                                               22

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A gente na adolescencia acha que sabe tudo mas não sabe nada

  • 1. quot;A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não sabe nadaquot;: gravidez na adolescência, redes familiares e condições de vida das jovens mães e de seus filhos em Belo Horizonte Daisy Maria Xavier de ABREU1 Paula MIRANDA-RIBEIRO2 Cibele Comini CÉSAR3 PALAVRAS-CHAVE: GRAVIDEZ NA ADOLESCÊNCIA, FAMÍLIA quot;A fase da adolescência era quase desconhecida para as brasileiras, que passavam do brevíssimo interregno da infância à maternidade.quot; QUINTANEIRO, 1996: 105 1. Introdução Gravidez na adolescência nem sempre foi considerada um problema. Ao contrário, o padrão de formação de família predominante no Brasil até o final do século XIX mostra que as noivas, extremamente jovens, tinham entre 12 e 16 anos. Não estar casada aos 20 anos era sinônimo de solteirona (QUINTANEIRO, 1996). A maternidade precoce nada mais era do que um corolário desta situação. Assim, mães jovens não eram tratadas como um “problema social” mas sim como norma. Entretanto, à medida em que a fecundidade foi caindo, a idade média ao casar foi avançando e mudanças significativas ocorreram em relação ao papel da mulher na família e no mercado de trabalho, observou-se uma transformação no enfoque dado à questão da gravidez na adolescência. Neste aspecto, alguns indicadores ilustram as mudanças observadas no cenário brasileiro. Entre 1960 e 1998, a taxa de fecundidade total passou de 6,2 filhos para 2,4 filhos por mulher4. Em termos de tendências de 1 Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva - NESCON/UFMG, Mestre em Demografia, CEDEPLAR/UFMG. 2 Professora Adjunta do Departamento de Demografia e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG. 3 Professora Adjunta do Departamento de Estatística/UFMG e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG. 4 Conforme estimativas apresentadas na publicação do IBGE, Síntese de Indicadores Sociais 99 (IBGE, 2000). 1
  • 2. nupcialidade, a idade média ao casar vem crescendo no caso das mulheres: em 1940, a idade média no ato do casamento legal era de 21,7 anos, passando a 24,1 anos em 1994. Para os homens, entretanto a idade média ao casar permaneceu praticamente estável: 27,1 anos em 1940 e 27,6 anos em 1994 (BERQUÓ, 1998). Nesse mesmo período, a participação feminina no mercado de trabalho brasileiro cresceu principalmente para as mulheres em idade produtiva. Em 1990, a razão entre o número total de mulheres ativas e a população feminina de 10 anos e mais era de 42,66 (RIOS-NETO & WAJNMAN, 1994). Em 1993, as mulheres já representavam quase 40% do total de trabalhadores brasileiros (BRUSCHINI & LOMBARDI, 1996). Paralelamente a tudo isso, a contribuição relativa das mães adolescentes no total de nascimentos vem crescendo5. Para o país como um todo, a participação do grupo de jovens com idade entre 15 e 19 anos na fecundidade total era de 7,1% em 1970. Vinte anos depois, cerca de 14% dos nascimentos eram de adolescentes, ao passo que os grupos etários mais velhos reduziram sua participação relativa no período (MELO, 1996). Frente ao aumento do número de adolescentes grávidas, a questão tem sido tratada sob a perspectiva dos custos e riscos tanto para a mãe adolescente quanto para o seu filho (HENRIQUES ET AL., 1989; MELO, 1996; CAMARANO, 1998). Neste aspecto, deve-se considerar que as conseqüências para a saúde das jovens mães e de seus filhos dependem não somente de razões meramente biológicas relacionadas ao peso, estatura, status nutricional e desenvolvimento do aparelho reprodutivo das adolescentes, mas também de um componente social que influencia tanto o comportamento reprodutivo quanto a morbi-mortalidade da mãe e da criança (CÉSAR & MIRANDA-RIBEIRO & ABREU, 1999). As jovens mães enfrentam uma série de problemas em relação a uma gravidez precoce (MELO, 1996). A magnitude destes problemas é tanto maior quanto mais pobres forem estas jovens. Isto porque, na maioria das vezes, a gravidez precoce acontece fora do casamento e não é resultado de uma opção deliberada. A chegada de 5 O fenômeno da gravidez na adolescência não tem afetado apenas os países em desenvolvimento. Países desenvolvidos, como os EUA, França, Canadá também enfrentam situação semelhante, embora com magnitude distinta (JONES ET AL, 1985). 2
  • 3. um filho por vezes precipita uma união ou é absorvida como extensão das famílias de seus parentes. Além disso, estas adolescentes encontram maiores dificuldades em conciliar os estudos com os cuidados com a criança, o que resulta em sua interrupção e acabam por retardar o ingresso no mercado de trabalho. Contam também com uma dificuldade adicional no que se refere ao seu preparo emocional e de ordem prática para atender as demandas de um recém-nascido (ELSTER ET AL., 1983). Não menos problemático é o acesso aos serviços de saúde, via de regra, limitado pela oferta e grau de resolutividade dos mesmos, o que não é uma exclusividade de população jovem. Esta realidade deve ser analisada à luz do modo como a relação entre a maturidade e a idade é considerada em cada sociedade, uma vez que a adolescência é uma fase do desenvolvimento humano que varia conforme o que é determinado, social e culturalmente, como o comportamento esperado para esta idade (GERONIMUS ET AL., 1994). Estes aspectos ressaltam a importância das práticas culturais relacionadas com uma rede de apoio familiar no que se refere às condições de vida das jovens mães e de seus filhos (WILLIAMS ET AL., 1986; CRAMER, 1987). Estudos demonstraram que um dos mais importantes fatores que influenciam o comportamento das mães adolescentes é o apoio emocional dado por sua família. Quando as jovens contam com este apoio, adotam uma conduta mais adequada no cuidado de seus filhos (ELSTER ET AL., 1983). Além disso, a constituição de arranjos intergeracionais de cuidados com a criança tem um efeito positivo sobre o desenvolvimento infantil (GERONIMUS ET AL., 1994). Filhos de mães jovens que vivem sozinhas apresentam piores condições de saúde se comparados com filhos de mães adolescentes casadas ou que vivem com sua família (BALDWIN & CAIN, 1980). Nesta perspectiva, o objetivo do estudo foi, através de uma pesquisa de base qualitativa bastante preliminar, abordar questões sobre a percepção e o comportamento das adolescentes frente à gravidez, o grau de conhecimento das jovens sobre métodos contraceptivos e cuidados com a criança, e as condições sócio-demográficas das jovens, de seus parceiros e de suas famílias, especialmente no que tange ao papel das redes familiares na qualidade de vida das mães adolescentes e de seus filhos. Procurou-se conhecer também como foi a atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto das jovens 3
  • 4. pesquisadas. Foram realizadas onze entrevistas com adolescentes residentes em Belo Horizonte/MG. A apresentação do trabalho segue a seguinte estrutura: primeiramente, são descritos os aspectos relativos à metodologia adotada, em seguida discute-se os principais resultados encontrados e, finalmente, apresenta-se os comentários finais. Os achados da pesquisa sugerem que as adolescentes entrevistadas não estavam preparadas para assumir a gravidez e a maternidade e que, portanto, a possibilidade de contar com o apoio da família foi importante para garantir uma boa saúde para seus filhos e delas próprias. Adiciona-se a isso o fato de que, na maioria dos casos, as adolescentes tiveram um acompanhamento pré-natal adequado. 2. Metodologia Seguindo a tradição da Escola de Chicago, o objetivo deste trabalho é analisar a gravidez na adolescência e as condições de vida das jovens mães e de seus filhos a partir do ponto de vista das próprias mães adolescentes, a fim de conhecer e compreender como cada uma delas experimenta, de fato, a gravidez, a maternidade e as mudanças impostas às suas vidas. A principal vantagem da pesquisa qualitativa é o verstehen, ou a quot;compreensão interpretativa das experiências dos indivíduos dentro do contexto em que elas foram vivenciadasquot; (GOLDENBERG, 1997: 19). Assim sendo, a pesquisa qualitativa enfatiza quot;as especificidades de um fenômeno em termos de suas origens e de sua razão de serquot; (HAGUETTE, 1987: 63). Este é exatamente o objetivo da nossa pesquisa -- entender a realidade das mães adolescentes através dos seus próprios olhos e amplificar certos aspectos dessa realidade, a fim de compreendê-los mais profundamente. Desta forma, optamos por fazer entrevistas em profundidade, definidas como quot;um processo de interação social entre duas pessoas na qual uma delas, o entrevistador, tem por objetivo a obtenção de informações por parte do outro, o entrevistadoquot; (HAGUETTE, 1987: 86), ou ainda como uma forma de quot;acesso às observações de outras pessoas a respeito de um fato. Através da entrevista, você pode aprender sobre lugares onde você nunca esteve e sobre experiências que você nunca viveuquot; (WEISS, 1994: 1). Em suma, a partir de uma 4
  • 5. entrevista em profundidade, percebe-se a representação que o entrevistado tem a respeito da sua experiência de vida. É exatamente isso que nos interessava. Apesar dessa escolha metodológica consciente, sabemos das limitações impostas pelo método, não generalizável e com conclusões restritas apenas ao grupo estudado. Também estamos atentas aos possíveis vieses, tanto pelo lado da entrevistadora/pesquisadora -- que traz consigo sua bagagem, suas convicções teóricas e ideológicas e seus pré-conceitos -- quanto por fatores externos a ela -- problemas com o roteiro, falta de sintonia entre entrevistadora e entrevistada, constrangimentos e perda de espontaneidade por parte da entrevistada, além do desejo desta em agradar a entrevistadora. A pesquisa qualitativa consistiu em entrevistas realizadas com jovens adolescentes que vivenciaram a experiência da maternidade. Considerando as dificuldades em encontrar mães jovens, o critério adotado para a escolha das informantes foi o da seleção por conveniência, útil especialmente em grupos difíceis de serem pesquisados (WEISS, 1994). Foram entrevistadas 11 mães adolescentes, nos meses de julho e agosto de 1999, a partir de indicação de pessoas que atuam junto a grupos de jovens e das próprias entrevistadas e, através delas, foi realizado um primeiro contato para verificar o interesse e a disponibilidade das adolescentes em serem entrevistadas6. A partir da concordância das jovens, as entrevistas foram agendadas, sendo que todas foram realizadas na residência das mesmas. A seleção das entrevistadas concentrou-se em jovens de camadas mais pobres da população, considerando a importância que tem, para esse grupo, o suporte familiar nas condições de vida das jovens mães e de seus filhos. Foram abordadas questões sobre a percepção e o comportamento frente à gravidez, grau de conhecimento das jovens sobre métodos contraceptivos e cuidados com a criança, a existência de uma rede familiar de suporte, inclusive em relação aos cuidados com a criança e a disponibilidade e o acesso à atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto. Além disso, foram coletadas informações sobre o perfil sócio-demográfico das jovens, de seus parceiros e de suas famílias. 6 As entrevistas foram feitas por ABREU e MIRANDA-RIBEIRO. 5
  • 6. As entrevistas foram realizadas a partir de roteiro semi-estruturado, abordando os temas de interesse da pesquisa, mas com um grau de flexibilidade que permitisse às entrevistadas aprofundar em aspectos de sua história de vida e relacionados com a gravidez que pudessem contribuir para a compreensão do objeto de estudo. Para garantir o anonimato das entrevistadas, de seus bebês e dos pais das crianças, os nomes que aparecem nas entrevistas são fictícios, sugeridos pelas próprias informantes7. 3. Resultados Encontrados Caracterização sócio-demográfica das mães adolescentes A situação socioeconômica das 11 mães adolescentes entrevistadas aponta para um quadro de precariedade, como pode ser visto pelos dados apresentados nos Gráficos 1 e 2. Elas moram em bairros da periferia (nove meninas) ou em favelas (duas meninas), a renda familiar, quando informada, não ultrapassa dois salários mínimos e é baixa a escolaridade do chefe da família. Há dois casos que não se enquadram exatamente neste perfil e podem ser considerados como sendo de famílias de classe média baixa, pois o chefe da família tem um nível de escolaridade mais elevado e, em termos de condição sócio-econômica, os domicílios apresentam um maior número de bens de consumo duráveis. A maioria das adolescentes entrevistadas é dependente da família e não conseguiu ainda inserção no mercado de trabalho. A constituição de um novo núcleo familiar, a partir da gravidez e nascimento da criança, quando aconteceu, se deu em condições precárias, sendo que boa parte das que vivem com seus parceiros continua morando com a família de origem, que nem sempre é pequena. Apenas em um caso a adolescente assume o papel de chefe da família, vivendo somente com seu filho e uma amiga que cuida da criança, enquanto a jovem trabalha. Das 11 jovens entrevistadas, sete são solteiras e, destas, duas estavam noivas do pai da criança. Para aquelas que vivem com seus parceiros, não foi encontrado nenhum caso de casamento legal. Em geral, apresentam baixa escolaridade e apenas três continuam estudando. 7 Somente em um caso a entrevistada optou por manter seu nome e o da criança, não chegando a mencionar o do pai. 6
  • 7. Gráfico 1: Com o são as adolescentes T rabalham fora de 2 cas a E s tão es tudando 3 E s tudaram até o 5 E ns . F undamental S olteiras 7 11 1ª gravidez Grávidas entre 15 e 11 17 anos 0 5 10 15 Fonte: Entrevistas com as adolescentes Gráfico 2: Com o vivem as adolescentes Vivem apenas com 2 o parceiro e o filho Vivem com 5 a 9 7 pes s oas Chefe da familia = 7 pai ou mãe Vivem com a 8 famí lia 9 Moram na periferia 0 5 10 15 Fonte: Entrevistas com as adolescentes Sobre o perfil do pai da criança, todos são mais velhos do que as adolescentes entrevistadas e tinham acima de 20 anos (entre 21 e 28 anos) na ocasião da gravidez das jovens. Das informações obtidas, três deles estavam desempregados (dois eram cobradores de ônibus e um trabalhava com telecomunicação). Para aqueles que trabalhavam, as atividades variavam entre mecânico, porteiro, pedreiro, comerciante, vigilante e cobrador de ônibus. A escolaridade do pai da criança também não é elevada: somente em três casos, a escolaridade do pai é Ensino Médio incompleto. Os demais têm escolaridade abaixo deste nível. Quanto à sua renda mensal, para o único caso que dispõe desta informação, o valor é de R$ 180,00. No entanto, segundo as entrevistadas, eles ajudam nas despesas com o filho (independente da situação marital que vivem). Há 7
  • 8. um único caso em que o pai da criança vive em outra cidade e não ajuda e nem mantém contato com o filho. Como as adolescentes percebem e encaram a gravidez, o que muda em suas vidas e no relacionamento com a família Para as mães adolescentes entrevistadas, foi sua primeira experiência de gravidez e, com exceção de uma jovem, todas afirmaram que a gravidez não foi planejada ou desejada. Neste aspecto, são unânimes em afirmar as dificuldades que tiveram em assumir a gravidez, os conflitos pessoais, familiares e de relacionamento com o pai da criança. As respostas das entrevistadas expressam o impacto que a notícia da gravidez provocou nelas próprias. “Ah, eu fiquei sabendo, fiquei desesperada, queria sumir, queria tirar, queria fazer aborto, um pouco desesperada. Depois eu conversei muito com a pessoa que hoje em dia mora comigo, que é madrinha do neném e a gente ficou conversando e que não ia ter jeito de tirar e assumi. Eu falei assim, não, agora eu vou ter.” (Adriana, 19 anos, solteira e não vive com sua família) “(...) Eu pensei, lógico que eu pensei, pô 17 anos, eu engravidei com 17, eu fiquei louca, eu imaginei eu com 17 anos, meu pai morreu, né, o que que meus irmãos vão falar. Vai matar ele, vai me matar, minha mãe. Mas aí não, eu tive apoio de todo mundo.” (Regiane, 19 anos, solteira, noiva do pai da criança e vive com sua família ) No relacionamento com os parceiros, a reação e as mudanças desencadeadas pela gravidez nem sempre foram as mesmas. A grande maioria dos pais das crianças receberam bem a notícia e acabaram assumindo a paternidade, ajudando as entrevistadas no cuidado e nas despesas com a criança. Há situações em que, com a gravidez, o casal passou a viver junto, seja com a família da adolescente, seja constituindo novo núcleo familiar. Também ocorrem casos em que o relacionamento com o pai da criança foi interrompido ou conflituoso. Há um único caso no qual o pai da criança não assumiu o filho e este é registrado apenas com o nome da mãe. 8
  • 9. A relação das jovens com a família sofreu mudanças ao longo da gravidez. Primeiramente, quando os pais ficaram sabendo que suas filhas estavam grávidas, reagiram negativamente -- os pais reprovam mais do que de as mães -- e houve até situações de tensão familiar -- há um caso de violência do pai e irmãos por causa da gravidez. No entanto, as entrevistadas argumentam que, com o passar do tempo e especialmente com o nascimento das crianças, o comportamento de seus pais modificou-se e eles tornaram-se afetuosos com os netos, ajudando nos cuidados com o bebê e, em muitos casos, assumindo os cuidados com ele. Cabe lembrar que, em apenas três casos, as adolescentes não são dependentes da família -- uma delas vive com uma amiga e o filho e as outras duas vivem apenas com seus parceiros e filhos. Portanto, a dependência da família é ainda muito significativa na vida das mães adolescentes, tanto do ponto de vista financeiro, quanto em relação ao apoio psicológico e afetivo. As adolescentes entrevistadas consideram que a gravidez modificou suas vidas. Em geral, reforçaram muito as mudanças que a maternidade trouxe em relação ao seu momento de vida, sua socialização e a “liberdade” própria dos jovens (sair, dançar, namorar). Elas ressaltaram, ainda, a maior responsabilidade que passaram a ter com a chegada do filho e a dificuldade em conciliar as atividades de cuidado com o bebê, escola, trabalho. Muitas das jovens entrevistadas interromperam os estudos já na gravidez e algumas que estavam trabalhando também pararam de trabalhar. As falas das jovens são elucidativas e incisivas sobre as mudanças ocorridas em suas vidas. “Ah, mudou tudo, né, tipo assim. Solteira então cê sai, cê faz o que cê quiser e tal, quando casa não, cê cria suas responsabilidade, se tem filho, cê tem casa, cê tem marido, cê tem que arrumar a casa, fazer comida e tal. Quando cê tá na casa da sua mãe, cê enrola, cê não faz. (...) Ah, porque a coisa que mais gostava de fazer quando eu era adolescente, dançar, sair, dançar.” (Taís, 19 anos, vive com o parceiro e com sua família) “Ah, eu acho que eu fiquei mais madura, né, mais, tive que ficar mais responsável. (...) Estudar, sair, porque eu passeava muito, né, saía se deixasse a semana toda pra dançar, essas coisas. Pra mim, isso não acontece mais, hoje em dia eu vivo mais por conta dele.” (Adriana, 19 anos, solteira e não vive com a sua família) 9
  • 10. “Nossa, mudou tudo. Olha só, antes eu não tinha responsabilidade nenhuma, sabe, tudo pra mim era aventura, nossa era assim, só comia, bebia e dormia e mais nada. Agora não, minha fia, agora tenho que fazer comida primeiro, né, fazer tudo primeiro, pra depois poder, esse trem é um saco, né, nossa senhora, mudou muita coisa.” (Carolina, 17 anos, vive somente com o pai da criança) “Ah, eu saía, né, sexta, domingo, saindo, chegava meia noite, duas horas. Mas agora não dá. (...) Aí não dá pra fazer as coisas, agora eu tenho que levar ela sempre comigo. (...) eu estudo à noite. Nossa, é difícil demais, assim, eu já fiz prova, não dá mais para mim estudar. Eu tenho que chegar um pouquinho mais cedo na escola, estudar, prestar atenção na estória pra poder saber alguma coisa. Mas Deus me livre, não dá pra mim fazer as coisas que eu fazia antes, né. Muita coisa mesmo. (Regiane,19 anos, solteira, noiva do pai da criança e vive com sua família) O grau de conhecimento das jovens sobre gravidez, métodos contraceptivos e cuidados com a criança Uma questão importante em relação ao comportamento das mães adolescentes pesquisadas frente à gravidez refere-se ao seu conhecimento sobre ciclo reprodutivo, métodos contraceptivos e uso destes métodos. As entrevistadas apontam como canais de informação e comunicação a escola, familiares (mãe e irmãs) e amigos. Entretanto, não foi possível perceber como estas questões são repassadas e discutidas com as adolescentes. Nas respostas, fica claro que as jovens conhecem muito pouco sobre o funcionamento do ciclo reprodutivo da mulher, além de conhecerem mas usarem de forma irregular e não permanente os métodos contraceptivos. Muitas alegam que usavam preservativo masculino (mas nem sempre) e assim engravidaram. Embora praticamente todas elas não desejassem engravidar, acreditavam que isto não aconteceria com elas. Tudo indica que o “pensamento mágico” de que “isso não vai acontecer comigo” (Santos Júnior, 1999) é o que orienta o comportamento em relação aos cuidados para não engravidar. Elas próprias expressam isso. “Ah eu não sei, eu nem lembro mais porque eu não usei (camisinha), eu acho que deu na telha, não vamos usar não, não usou e pronto.” (Franciane, 18 anos, solteira, noiva do pai da criança e vive com a família) “(...) O risco a gente sempre sabe que tem, a gente sabe que tem um risco, (...) talvez, igual fala a reportagem, adolescente acha que com ele nunca vai acontecer, sei lá.” (Taís, 19 anos, vive com o parceiro e sua família) 10
  • 11. Apesar da pesquisa não ter como objetivo abordar a questão das doenças sexualmente transmissíveis, AIDS e os seus métodos de prevenção, o fato de que muitas das adolescentes não usam preservativo ou o fazem de forma irregular é um indicativo da falta de preocupação e conscientização das jovens sobre os riscos destas doenças. Em relação aos cuidados com o bebê, as entrevistadas foram indagadas sobre quem assumia os cuidados com a criança e práticas de cuidado como, por exemplo, a amamentação. Primeiramente, observou-se que mesmo nos casos onde a adolescente assume os cuidados com a criança, ela conta com o apoio e a ajuda da família, seja da mãe, seja de tia, cunhada ou amiga, seja até do pai da criança, principalmente nos primeiros dias de vida do recém-nascido. Verificou-se que as jovens parecem não ter informação e preparo para realizar os primeiros cuidados como banho do bebê, cura do umbigo e outros. O período de tempo máximo de amamentação foi de seis meses de idade, sendo que sete delas amamentaram somente até os três meses. Destas, quatro amamentaram menos de um mês. Embora a entrevista não tenha permitido verificar o grau de conhecimento das jovens sobre a importância da amamentação para a saúde das crianças, os depoimentos indicam que elas parecem não ter clareza sobre isto e, na própria avaliação de uma delas, este aspecto é um indicador da falta de maturidade da adolescente para assumir a gravidez e o filho. Na fala desta jovem, fica bem clara esta questão. “Eu amamentei 20 dias e eu acho o pior da gravidez na adolescência é a falta, como se diz, de maturidade da mãe, né. (...) eu ficava muito nervosa, eu não queria saber de amamentar. (...) Aí eu falei com meu pai que o meu leite não tava sustentando mais a Daniele, ela queria mamar de novo, eu não aguentava, aí quando a Daniele fez 20 dias, não, 15 dias, eu falava ô pai, pelo amor de Deus, eu não aguento mais amamentar, a menina chora, chora (...) aí ele falou, tá, eu vou conversar com seu médico. Aí ele comprou Nestogen pra ela (...). Eu não tenho paciência e em uma semana meu leite secou e eu dei graças a Deus. (...) Eu acho que nessa parte eu fui imatura, né..” (Ana Clara, 18 anos, solteira e vive com a família). Os depoimentos prestados pelas jovens entrevistadas parecem indicar a importância do apoio familiar no cuidado da criança. Dado o elevado grau de 11
  • 12. dependência das jovens em relação às suas famílias, a responsabilidade sobre os cuidados com o filho da adolescente passa a ser compartilhado com a família e também depende dos arranjos intergeracionais existentes, tendo em vista que, na maioria dos casos, as jovens vivem em famílias estendidas. Pelas entrevistas, é possível inferir ainda que não há, nem por parte da família e nem dos serviços de atenção às adolescentes, sejam de saúde ou de orientação educacional, uma atenção maior no sentido de preparar as jovens para o início da vida sexual e, no caso de gravidez, para os cuidados com os filhos. A atenção à saúde durante a gravidez, parto e pós-parto na visão das mães adolescentes Os depoimentos das jovens mães indicam que, em maior ou menor grau, todas tiveram acesso ao atendimento pré-natal, sendo que, em quase todos os casos, o pré- natal foi realizado desde o início da gravidez. Seis entrevistadas afirmaram ter tido problemas de saúde durante a gravidez, que vão desde ameaça de pré-eclâmpsia até risco de nascimento prematuro, passando por problemas próprios do início de gestação. Os casos em que a atenção pré-natal foi mais reduzida, com um número menor de consultas médicas, parecem estar mais relacionados com a dificuldade da adolescente em assumir a gravidez, ficando constrangida e envergonhada para procurar o atendimento adequado e também para enfrentar a família. Entre as entrevistadas, foram sete partos normais e quatro cesarianas. Em um caso de parto cesariano, a entrevistada afirma que o mesmo aconteceu porque ela preferia este tipo de parto e fez tudo para que assim acontecesse. Duas entrevistadas que tiveram parto normal afirmaram que o parto foi difícil e prolongado, o mesmo acontecendo em dois casos de parto cesariano. Este fato pode estar associado à questão da mudança de hospital na hora do parto -- em nenhum caso o parto aconteceu no mesmo hospital no qual foi realizado o pré-natal. Como os locais onde elas pariram não dispunham das informações sobre o acompanhamento pré-natal da jovem, o que poderia auxiliar no atendimento prestado no parto, em alguns casos o parto acabpu endo mais complicado. Por exemplo, uma das entrevistadas teve indicação de cesárea durante o 12
  • 13. pré-natal mas passou por trabalho de parto demorado, que acabou resultando em cesárea, porque o hospital desconhecia tal indicação. O principal motivo alegado pelas entrevistadas para a mudança de maternidade refere-se à falta de vagas para internação no momento do parto, mas há também a justificativa de que não havia tempo para procurar o serviço onde estava sendo atendida durante a gravidez. Este aspecto pode ser um indicador de que o acesso aos serviços apresenta limitação, pois não há nenhuma garantia de atendimento nos serviços onde se realiza o pré-natal ou mesmo uma orientação quanto à oferta de serviços para as jovens. Além disso, considerando que as jovens entrevistadas pertencem à população mais pobre que, em geral, utiliza a rede pública de serviços de saúde, a observação sobre o atendimento nas unidades de saúde pode ser indicativa de uma falta de integração entre os serviços de atenção às gestantes para um encaminhamento devido na hora do parto -- o que possivelmente atinge a população como um todo e não apenas as jovens grávidas. No caso das adolescentes entrevistadas, a situação complica-se devido à imaturidade e ao fato de que todas eram primíparas. Quanto ao atendimento prestado pelos profissionais de saúde, em geral as entrevistadas o consideraram de boa qualidade e não apresentaram nenhuma queixa. Além disso, não destacaram nenhum problema na sua recuperação pós-parto, sendo que apenas uma jovem reclamou de problemas de saúde (dores e infecção). Entretanto, nas entrevistas não ficou claro se encontram alguma dificuldade de acesso ao atendimento pós-parto. Por outro lado, fica explícito o fato de que seus filhos não têm um acompanhamento pediátrico regular. Apenas em um caso, a visita ao pediatra foi realizada com regularidade como medida de cuidado e controle da saúde da criança. As jovens alegam que a procura pelo atendimento médico acontece quando a criança apresenta algum problema de saúde, mas não afirmaram se há alguma dificuldade no acesso e/ou na qualidade do atendimento prestado. Em geral, argumentam que os filhos têm uma boa saúde, mas há casos em que a criança já esteve internada. Cabe ressaltar que apenas uma criança nasceu com baixo peso (menos de 2500 gramas) e não houve nenhum caso de prematuridade (todas as crianças nasceram com mais de 37 semanas). Estes aspectos podem também ser indicadores de que o atendimento pré-natal realizado 13
  • 14. pelas entrevistadas pode ter reduzido o risco de baixo peso e partos prematuros, fatores de risco de morte neonatal, principalmente para filhos de mães adolescentes. O que as jovens mães esperam do futuro Sobre as perspectivas para o futuro, as mães adolescentes entrevistadas manifestaram um grande interesse em retomar os estudos, trabalhar e melhorar de vida. Além disso, algumas esperam casar-se com o pai de seus filhos e constituir uma família. Manifestam ainda o desejo de ter outros filhos, mas são firmes ao dizer que isto deve acontecer mais tarde e em outras condições. A questão de melhoria das condições de vida também aparece como um desejo em relação ao futuro de seus filhos, para que possam dar a eles o que, muitas vezes, não tiveram, inclusive em relação ao afeto e ao carinho. Este desejo fica bem explícito nas palavras das entrevistadas. “Olha, eu quero ter uma profissão, fazer o que eu gosto(...). Eu quero fazer química, eu vou tentar vestibular, vou me esforçar o máximo pra mim passar. E seja o que Deus quiser, se eu puder arrumar um emprego, me esforçar para um mundo melhor. Então eu quero que um dia a Daniele cresça e tenha orgulho da sua mãe (...) é isso que eu quero.” (Ana Clara, 18 anos, solteira e vive com a família) “Oh, no futuro eu quero sair, quero começar a trabalhar, pra fazer minha casa e morar junto pra poder criar ela.” (Lorraine, 15 anos, solteira, vive com o parceiro e vive com a família) “Assim, eu pretendo ter mais um (filho), mas primeiro eu quero dar pra Fernanda, sabe, um carinho que eu não tive com os meus pais direito.” (Michele, 18 anos, solteira e vive somente com o pai da criança) Nas declarações das entrevistadas, é possível observar que elas percebem as limitações às quais estão sujeitas em termos de condições de vida, especialmente com o nascimento de seus filhos, e que também são repassadas para as crianças. No entanto, elas pretendem modificar esta situação e identificam como uma solução para isto a inserção no mercado de trabalho e os estudos. Além disso, deixam clara a sua vontade 14
  • 15. de ter mais filhos e, com isso, constituir sua própria família, porém em melhores condições de vida. Uma mensagem para as outras adolescentes sobre gravidez na adolescência As jovens entrevistadas são unânimes em aconselhar as outras adolescentes que evitem uma gravidez. Consideram que a adolescência não é o momento de vida adequado para serem mães e que devem cuidar-se para que isso não aconteça. Como percebem as mudanças que a maternidade provoca em suas vidas, utilizam isto como justificativa para suas considerações. Os argumentos são bem enfáticos. 15
  • 16. “Não duvide não porque acontece com a gente. Por mais que todo mundo conforme, o peso tá sempre nas costas da gente, um filho (...). Ela pode ter um monte de namorado, até marido, no fundo, no fundo, olha pra você ver, eu podia um dia colocar o pai dela na parede e falar pra ele, eu quero, eu exijo, eu quero isso (...) eu pra mim, eu quero que ele [o pai da criança] cresça, que seja alguém na vida e tem mais condições pra viver que eu. Apesar de eu ter ainda mais obrigação que ele, ele ainda acha que levo a vida mais fácil que ele. Ele acha que eu nunca peguei no tranco, sabe, e eu peguei, então, tipo assim, pra elas, tome cuidado, é difícil viu, é muito difícil.” (Ana Clara, 18 anos, solteira e vive com a família) “Oh, no meu caso, como eu quis, como eu sempre quis, eu tive. Agora eu peço pra evitar o máximo de não engravidar, porque, ainda mais que eu saía de segunda a segunda, pra mulher que gosta de fazer isso, não arruma menino não, porque prende mesmo. Na verdade, fala que não prende, mas prende. Pra mulher irresponsável é que não prende.(...) Eu aconselharia a não arrumar e se arrumar, não tirar, porque eu sou contra o aborto, eu falo que se eu engravidar de cinco meninos, cada um de um pai, eu cuido dos cinco, porque abortar eu não faço isso não. (...) Eu sou contra mesmo. Se arrumar, né, deixa na barriga e cria, vai ver o sofrimento que é, a dor de cabeça.” (Sirlene, 19 anos, solteira e vive com a família) “(...) Quem faz coisa errada, estão tudo aí, que tem um monte de método de se evitar um filho, diafragma, tem o DIU, tem a camisinha agora feminina, tem um monte de coisa, tem que prevenir que é melhor do que você arrumar uma gravidez indesejada, bem melhor (...)Eu fazia diferente (...), tanto conhecimento pra evitar ele agora, aí eu não engravidaria, não fazia besteira, ter filho só mais tarde, saber bem mais. A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não sabe nada, acha que é dono do mundo e não sabe nada, e é bem difícil na adolescência criar um filho e estudar e monte de coisa, complica bastante.” (Franciane, 18 anos, solteira, noiva do pai de seu filho e vive com a família) Fica, portanto, um recado importante das jovens mães para sua geração, recomendando evitar uma gravidez precoce e salientando as mudanças que um filho acarreta em suas vidas. Além disso, pelo fato de pertencerem a famílias mais pobres, as dificuldades sentidas por estas jovens certamente são maiores pela sua própria condição de classe. 16
  • 17. 4. Comentários Finais Os depoimentos das adolescentes entrevistadas são bem ilustrativos da necessidade de serem considerados os vários aspectos que compõem a vida das mães adolescentes. As informações prestadas reforçam a importância e o desafio que a gravidez na adolescência coloca para os jovens e para todos os atores envolvidos com adolescentes, seja a família, a escola, os serviços de saúde, a mídia ou as religiões. Como ressalta o título deste trabalho, os adolescentes acham que sabem tudo mas no fundo têm muito pouco preparo para enfrentar situações que exigem maior responsabilidade, como o início da vida sexual, os cuidados para evitar doenças e a maternidade. Em outras palavras, os jovens, sobretudo as do sexo feminino, necessitam de ajuda e apoio para lidar com tanta mudança em suas vidas. As jovens entrevistadas demonstraram perceber o quanto suas vidas foram afetadas com a maternidade precoce. Este aspecto foi muito salientado nas falas, que não deixaram de mencionar as mudanças que viveram em relação ao seu momento de vida, tendo que assumir um comportamento mais responsável e maduro frente aos seus compromissos como mãe, ainda que contassem com a ajuda do pai da criança ou de seus parentes mais próximos, especialmente de seus pais. A discussão sobre o papel da família nos cuidados dos filhos de mães adolescentes salienta a importância do ambiente para a saúde tanto da mãe quanto da criança (BALDWIN & CAIN, 1980). No caso das jovens entrevistadas, o fato de contarem com uma rede familiar de apoio para os cuidados deve ter contribuído para garantir a boa saúde de seus filhos. Especialmente tendo em vista que, pelas entrevistas, parece claro que as jovens não estavam preparadas para assumir os cuidados com o bebê e contavam com a ajuda de familiares nesta tarefa. A existência de arranjos intergeracionais nos quais a mãe, irmã ou outro parente da jovem mãe assume os cuidados com o bebê também tem se mostrado importante para as adolescentes à medida em que possibilita, em alguns casos, a continuidade dos estudos. A interferência da gravidez precoce na educação das jovens é apontada como um dos principais problemas que atinge especialmente as mais pobres, com conseqüências sobre as suas possibilidades de mobilidade social e, portanto, melhores condições de vida (MELO, 1996). 17
  • 18. As entrevistas sugerem que os pais das crianças têm um papel secundário no cuidado com seus filhos, exceto nos poucos casos em que moram com eles. Além disso, a ajuda financeira e as eventuais visitas parecem ser as principais mudanças que ocorreram na vida desses pais, ao contrário das transformações radicais ocorridas nas vidas das jovens mães. Portanto, as conseqüências de uma gravidez na adolescência em termos de impedir ou ao menos dificultar o acesso à educação e à melhoria das condições de vida no futuro são maiores para as jovens do sexo feminino do que para seus parceiros. Uma questão que claramente afeta as mães adolescentes e seus filhos refere-se à realização de um acompanhamento pré-natal adequado. Pelas entrevistas com as jovens mães, fica explícito que, quando a atenção pré-natal acontece precoce e adequadamente, as chances de problemas de saúde, tanto nas gestantes quanto nas crianças, são bem reduzidas. Isso também é verdade para todos os grupos etários. A importância da atenção à gestante, principalmente entre as adolescentes, já foi bem tratada por outros estudiosos (VICTORA ET AL., 1989; DIAS ET AL., 1995). No caso das adolescentes, devido a possíveis problemas de saúde associados à idade e à imaturidade das jovens, um pré-natal adequado torna-se ainda mais importante no sentido de garantir a saúde física e psicológica dessas jovens mães. Sabe-se que, uma vez tendo acesso aos serviços de saúde para um acompanhamento pré-natal, no parto e, se possível, pós- parto, as adolescentes apresentam os mesmos resultados obstétricos e perinatais de uma paciente adulta que recebe a mesma atenção (GRIFFITHS ET AL., 1995). Finalmente, cabe ressaltar que a realidade das onze adolescentes entrevistadas é marcada por uma precariedade de condições de vida e uma fragilidade da estrutura familiar, especialmente nos casos em que a jovem mora apenas com o pai da criança. Nesses casos, a gravidez precoce vai de encontro às aspirações que as jovens têm, no sentido de melhores condições de vida no futuro. Ao contrário do esperado, a gravidez na adolescência pode estar contribuindo para a reprodução desta situação de pobreza. 5. Bibliografia BALDWIN, W. & CAIN, V.S. “The Children of Teenage Parents.” Familiy Planning Perspectives, 12(1): 34-43, 1980. 18
  • 19. BERQUÓ, E. quot;Arranjos familiares no Brasil: uma visão demográficaquot;. In Schwarcz, L.M. (org.), História da vida privada no Brasil: contrastes da intimidade contemporânea. São Paulo: Companhia das Letras, vol. 4, p.411-37, 1998. BRUSCHINI, C. & LOMBARDI, M.R. “O Trabalho da Mulher Brasileira nos Primeiros Anos da Década de Noventa.” In: X Encontro Nacional de Estudos Populacionais, p.483-516. Anais... ABEP, 1996. CAMARANO, A.A. “Fecundidade e anticoncepção da população jovem”. In: Jovens Acontecendo na Trilha das Políticas Públicas, Brasília, vol 1, p.109-33. Anais… Brasília: CNPD, 1998. CÉSAR, C.C., MIRANDA-RIBEIRO, P. & ABREU, D.M.X. “Efeito-idade ou efeito- pobreza? Mães adolescentes e mortalidade neonatal em Belo Horizonte”. 1999. (mimeo) CRAMER, J.C. “Social factors and infant mortality: identifying high-risk groups and proximate causes”. Demography, 24(3): 299-322, Aug. 1987. DIAS, M.A. ET AL.. Mortalidade neonatal em filhos de mães adolescentes no município de Belo Horizonte: uma análise de risco. Belo Horizonte, ESMIG- UFMG, 1995. (mimeo.) ELSTER, A.B. ET AL. “Parental Behavior of Adolescent Mothers.” Pediatrics, 71: 494-503, 1983. GERONIMUS, A. ET. AL. “Does Young Maternal Age Adversely Affect Child Development? Evidence from Cousin Comparisions in the United States. Population and Development Review, 20(3): 585-609. GOLDENBERG, M. A arte de pesquisar. Como fazer pesquisa qualitativa em Ciências Sociais. Rio de Janeiro: Record, 2a edição, 1997. 19
  • 20. GRIFFITHS, E.A., MARDONES, A.O., ZAMBRANO, J.R., SÁNCHEZ, J.S., QUINTANA, J. C., MUÑOZ, L.C. Relación entre el estado nutricional de madres adolescentes y el desarrollo neonatal. Boletin de la Oficina Sanitaria Panamericana, 118(6): 488-498, 1995. HAGUETTE, T.M.F. Metodologias Qualitativas na Sociologia. Petrópolis: Vozes, 1987. HENRIQUES, M.H. ET AL. Adolescentes de hoje, pais do amanhã: Brasil. The Alan Guttmacher Institute: New York, 1989. IBGE, 2000. (www.ibge.gov.br) JONES, E.F. ET AL. “Teenage pregnancy in developed countries: determinants and policy implications.” Family Planning Perspectives, 17(2): 53-62, 1985. MELO, A.V. “Gravidez na Adolescência: uma Nova Tendência na Transição da Fecundidade no Brasil.” In: X Encontro Nacional de Estudos Populacionais, p.1439-54. Anais... ABEP, 1996. QUINTANEIRO, T. Retratos de Mulher: o Cotidiano Feminino no Brasil sob o Olhar de Viageiros do Século XIX. Petrópolis: Vozes, 1996. RIOS-NETO, E.L.G. & WAJNMAN, S. “Participação Feminina no Mercado de Trabalho no Brasil: Elementos para Projeção de Níveis e Tendências.” In: IX Encontro Nacional de Estudos Populacionais, p.445-64. Anais... ABEP, 1994. SANTOS JÚNIOR, J. D. quot;Fatores etiológicos relacionados à gravidez na adolescência: vulnerabilidade à maternidadequot;. In: CADERNOS juventude, saúde e desenvolvimento. Brasília: Ministério da Saúde, Secretaria de Políticas de Saúde, p.223-229, 1999. VICTORA, C.G ET AL. Epidemiologia da desigualdade. São Paulo: Hucitec, 1989. WEISS, R.S. Learning from Strangers: The art and method of qualitative interview studies. New York: The Free Press, 1994. WILLIAMS, R.L ET AL. “Pregnancy outcomes among spanish-surname women in California.” American Journal of Public Health, 76(4): 387-391, 1986. 20
  • 21. quot;A gente na adolescência acha que sabe tudo mas não sabe nadaquot;: gravidez na adolescência, redes familiares e condições de vida das jovens mães e de seus filhos em Belo Horizonte Daisy Maria Xavier de ABREU8 Paula MIRANDA-RIBEIRO9 Cibele Comini CÉSAR10 O objetivo do estudo foi, através de uma pesquisa de base qualitativa bastante preliminar, abordar questões sobre a percepção e o comportamento das adolescentes frente à gravidez, o grau de conhecimento das jovens sobre métodos contraceptivos e cuidados com a criança, e as condições sócio-demográficas das jovens, de seus parceiros e de suas famílias, especialmente no que tange ao papel das redes familiares na qualidade de vida das mães adolescentes e de seus filhos. Procurou-se conhecer também como foi a atenção médica no pré-natal, parto e pós-parto das jovens pesquisadas. Foram realizadas onze entrevistas em profundidade com adolescentes mães de camadas populares, residentes em Belo Horizonte/MG. Os achados da pesquisa sugerem que as adolescentes entrevistadas, apesar de terem tido um acompanhamento pré-natal adequado, não estavam preparadas para assumir a gravidez e a maternidade. A possibilidade de contar com o apoio da família foi importante para garantir uma boa saúde para seus filhos e delas próprias. Os pais das crianças têm um papel secundário no cuidado com seus filhos, exceto nos poucos casos em que moram com eles. A ajuda financeira e as eventuais visitas parecem ser as principais mudanças que ocorreram na vida desses pais, ao contrário das transformações radicais ocorridas nas vidas das jovens mães. Portanto, as conseqüências de uma gravidez na adolescência em termos de impedir ou ao menos dificultar o acesso à educação e à melhoria das condições de vida no futuro são maiores para as jovens do sexo feminino do que para seus parceiros. A gravidez precoce vai de encontro às aspirações das jovens no sentido de melhores condições de vida no futuro. Ao contrário do esperado, a gravidez na 8 Pesquisadora do Núcleo de Estudos em Saúde Coletiva - NESCON/UFMG, Mestre em Demografia, CEDEPLAR/UFMG. 9 Professora Adjunta do Departamento de Demografia e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG. 21
  • 22. adolescência pode estar contribuindo para a reprodução da situação de pobreza em que elas vivem. 10 Professora Adjunta do Departamento de Estatística/UFMG e pesquisadora do CEDEPLAR/UFMG. 22