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A Fúria de Gaia


CAPÍTULO II

          Um deles, o maior, falou:
          _Não interfiras num assunto que não lhe cabe, Mãe Terra! Rugiu._Viemos aqui para
cumprir nossas ordens e vamos cumpri-las, se te intrometeres seremos obrigados a ferir-te
também, e sabemos que passaste por uma provação muito grande. E mesmo que tentes não
poderás fazer nada, mas não nos irrite.
          _Se ousares tocar nela, vai ser comigo que terás que te entender! Bradou o Sol.
          _Não irá adiantar muito se nos destruíres, somos apenas avatares, continuação de
nossas mentes que vivem em corpos imóveis nesse plano. Iremos fazer outros.
          _Entendi, são apenas marionetes sem vida ou escolhas próprias. Não tem noção do que
é ter que ficar anos olhando o que ocorre no universo e não poder fazer nada.
          _Não somos marionetes, temos consciências, mas também sabemos o que é certo e o
que é errado, a Lua quebrou as regras e terá que pagar pelo que fez. Enquanto dizia isso
chegaram onde desejavam do outro lado da Terra.
          _Estás pronto? Perguntou a Lua.
          _Sempre! Respondeu a Lua._Não machuques a Gaia, ela e o Sol são apenas amigos
preocupados, suas palavras não devem ser levadas em consideração. Disse a Lua. _Façam o que
devem fazer.
          _Mas ele tem o direito de se defender!
          _Ela está certa, vocês nem ao menos perguntaram por que ele fez isso! Deixem-no
explicar. Suplicou o Sol.
          Os avatares ficaram em silêncio por um minuto como se estivessem considerando o que
foi dito. Depois falou novamente o maior deles:
          _A sua grande suplica, Astro Rei, foi ouvida e também a da Mãe Terra. Foi tomada uma
nova decisão. Disse._Nós sabemos os motivos da Lua, por isso não perguntamos nada, não
tínhamos motivos. Mas daremos outra chance a ele se vocês nos ajudarem a resgatar um objeto
de grande valor para nós, só assim a punição da Lua será cancelada. Aceitam?
          _Aceitaríamos com grande prazer, se pudéssemos, mas como iremos ajudar sendo
imóveis? Vocês podem ter isso que chamam de avatares, mas nós não. Disse Gaia.
          _Nós iremos dar corpos móveis a vocês dois. Lógico que serão diferentes dos nossos,
pois não podemos montar características que quiserem, pois não sabemos como são suas
mentes. E vocês terão suas mentes extraídas dos seus corpos.
          _E como ficam estes corpos em que estamos agora? Perguntou Gaia.
          _Sim, como ficam? Concordou o Sol.
          _Continuarão como estão, sem nenhuma alteração. A única diferença é que funcionarão
sem suas consciências, não terão vontade, apenas farão o que os instintos ordenarem.
Provavelmente vocês não terão como controlá-los, mas isso é apenas suposição.
          _Não importa como ficarão, eu não me importo em sair desse corpo imóvel. Falou o Sol,
que não esperava a hora de poder tocar Gaia pela primeira vez com suas mãos sem ter medo de
queimá-la com sua aproximação. Gaia também estava ansiosa, mas era muito mais discreta que
o Sol. Nesse momento ela estava muito preocupada com a Lua.
          _Está resolvido, então! Disse o avatar._Descerei até Gaia, lá darei início a fabricação dos
seus novos corpos.
          _Só uma pergunta mais. Poderemos voltar para nossos antigos corpos se quisermos?
          _Não sabemos ao certo, isso nunca foi feito antes, também será incerto o tempo de vida
dos dois. É provável que seus corpos móveis tenham o mesmo tempo de vida que os antigos.
Mas tudo isso são suposições, como a aparência de vocês, é certo que são humanóides, mas o
resto dependerá do acaso.
          _Talvez seja melhor eu também participar da fabricação, meu avatar estará mais
próximo de mim e terá um pouco de controle na fabricação. Disse a Lua.
          _Você tem razão, descerei e procurarei um lugar mais calmo, para que não nos
incomodem. Desça assim que puder.
          _Se está procurando um lugar tranqüilo é para o Médio Continente que deve ir, ele
migrou do extremo sul para ficar entre a antiga América do Sul e África, lá não tem vida
humana, eles ainda não começaram a exploração do planeta novamente. Falou Gaia.
          _Seguirei seu conselho, Mãe Terra.
          Depois ele se direcionou para Gaia e para o Médio Continente, uma imensa floresta
tropical. Nesse momento algo saiu da Lua, um pó brilhante rodopiou no vácuo como se
houvesse uma pequena brisa, ficou sólido tomando o formato de um asteróide, se dirigiu para o
Médio continente como fez o outro avatar. Entrou em contato com a atmosfera terrestre e


                                                                                                   1
A Fúria de Gaia


tornou-se incandescente. Uma parte sua foi desgastada pelo fogo o bastante para deixá-lo com
uma altura de dois metros, ao colidir com Gaia, formou-se uma imensa cratera a alguns metros
da primeira. O meteoro ainda estava quente e aos poucos foi quebrando e dentro tinha um
humanóide. Estava em posição fetal, alguns animais curiosos se aproximaram da cratera e
quando o humanóide respirou fundo pela primeira vez eles correram assustados. Ele levantou-
se e saiu do lugar da colisão, subiu pelas bordas das crateras, ao chegar ao topo viu que o outro
estava sentado numa pedra observando o lugar. Sua aparência não era normal para aquele
planeta. Tinha uma pele cinza, olhos vermelhos, cabelos brancos que iam até os calcanhares,
vestia um tipo de armadura que saia de seu próprio corpo, era feira de pedra, cobria todo seu
tronco, o antebraço, pernas e pés como uma bota. Era também humanóide.
         Quando o recém chegado se aproximou ele disse:
         _É lindo aqui, não?
         _É, sim. Disse o avatar da Lua.
         _A propósito me chamo Frion. Disse o de pelo cinza.
         _Me chamo Lupus.
         _Um nome bem sugestivo para os habitantes daqui, não? E durante a Lua Cheia você se
transforma num lobisomem? Gargalhou Frion.
         _Muito engraçado. Desculpe não acompanhá-lo. Disse Lupus.
         Frion olhou pela primeira vez para Lupus, ele passaria sem nenhum problema por um
nativo desse planeta. Sua pele era morena, seus olhos negros como a noite e vestia não uma
armadura, mas um simples couro ao redor da cintura. Frion ficou de pé e percebeu que ambos
tinham a mesma altura. Mas o porte físico era diferente, ele, Frion, era mais robusto, seu tronco
muito maior, cochas largas e braços mais fortes; enquanto que Lupus era também forte, mas um
pouco mais magro, tinha pernas mais ágeis que fortes, enfim era um típico caçador de alguma
aldeia, mas seus olhos demonstravam o conhecimento e a experiência de um grande general que
um dia a Lua foi.
         _Vamos começar. Falou Lupus, tirando Frion de seu devaneio.
         _Comecemos, então. Disse Frion. _Tem uma clareira logo à frente onde eu senti uma
grande paz ao pisar o solo. Faremos lá.
         Seguiram para a clareira, apreciando o lugar como se estivessem de férias. Após dois
minutos, eles chegaram ao seu destino. Quando Lupus pisou no solo, ele entendeu o que Frion
quis dizer com sentir paz, era como se o solo ali tivesse sido abençoado por algum ser
maravilhoso, que até para eles era desconhecido e apenas uma lenda. Sua espécie existia desde
sempre, mas até eles tinham suas lendas sobres seus seres mágicos, superiores e benevolentes.
Andaram até o centro, Frion disse:
         _Fazer Gaia não será problema, mas o Sol é que será muito difícil.
         _Tens razão, material para ela temos de sobra, mas o Sol está longe e não existe meios
para nos aproximar dele, a única coisa que temos dele são seus raios. Vamos começar por ela,
guardaremos nossas energias para a tarefa mais difícil. Então, Lupus se abaixou e pegou um
pouco de terra na palma da sua mão. _O material é puro, nunca foi tocado por sentimentos
mesquinhos. Vou buscar meu casulo. E saiu.
         _ Eu começarei a recolher o material necessário. _Disse Frion. _Não demore. Temos
que terminar antes que o dia amanheça.
         Depois de alguns minutos Lupus voltou com seu casulo, o meteoro, em suas costas, não
parecia nem se incomodar com o peso. Colocando-o no chão e tirando a parte de cima dividi-o
em duas partes, uma foi reservada para o Sol e foi colocada de lado, a outra foi levada até o
centro onde Frion já havia recolhido tudo que precisaria para a primeira tarefa. Tinha pego um
pouco de terra, galhos, algumas flores, e colocado tudo no centro da clareira. Estavam em
completo silêncio. Aos poucos todo o som da floresta foi também sumindo, como se eles
entendessem o que estava acontecendo. Começaram pondo todos os materiais dentro do casulo,
distribuindo igualmente por todo comprimento. Depois, se postaram nas extremidades.
Fecharam os olhos e posicionaram os braços ao lado do corpo em perfeita sintonia. Logo após
viraram as palmas das mãos para cima, enquanto iam levantando os braços até a altura de seus
troncos, unindo-as logo em seguida. Começaram a friccioná-las aproximando-as da boca, então
abriram os olhos e sopraram nas mãos abertas e a inda unidas em direção ao casulo. Um pó
brilhante saiu de suas mãos encontrando-se com o material posto lá, ele percorreu desde a as
extremidades ao centro, se encontrando. Ficou estacionado a alguns milímetros acima do que
estava contido no casulo. Ficou reconhecendo tudo, até que começou a girar formando um
pequeno redemoinho, elevando tudo dentro do casulo. Tudo foi girando até uma altura de 1,70
metros, então o pó separou-se do material e o cobriu completamente. De repente tudo
desmoronou e forrou o casulo internamente. Um brilho tomou conta de toda clareira e cegou



                                                                                               2
A Fúria de Gaia


momentaneamente Lupus e Frion, que cobriram seus olhos e caíram no chão atordoados. Já era
noite alta quando a claridade começou a diminuir, eles levantaram e esperaram. Duas horas
depois, o amanhecer veio, coincidindo com o desaparecimento da luz vinda do casulo. Todos
puderam ver como Gaia havia ficado. Ela estava mais linda do que qualquer mulher nascida
neste ou noutro planeta. Lupus e Frion se aproximaram do casulo e encontraram Gaia
adormecida em posição fetal. Eles retiraram-na do casulo, e depositaram-na no chão.
         _Gaia! Chamou o Sol contente. Mas não houve resposta. _O que houve? Ela não acorda!
         _Calma, Astro Rei, talvez ela não tenha ido para o corpo. Disse Frion.
         _Mas se ela não estivesse no corpo ela teria respondido. Desesperou-se o Sol.
         _Espere um segundo. Pediu Lupus, aproximou-se do avatar ainda sem nome e tocou-lhe
a testa.
         _Ela está aqui, mas não consegue vir à superfície.
         _E o que faremos agora? Eu a quero de volta! Gritou o Sol.
         _Calma, amigo. Disse a Lua. _Ela precisa de tempo para acostumar-se ao novo corpo, só
isso.
         Dirigindo-se a Lua o Sol disse:
         _Achei que estivesses no avatar.
         _Bem, estou e não estou. Ele sou eu ou um tipo de clone meu.
         _E por que isso não aconteceu com Gaia?
         _Ela não é da mesma raça que nós, ela foi transferida, e não “clonada”, por assim dizer.
Respondeu a Lua. _Peço-te desculpas por tudo isso, é por minha causa que estás nessa situação
de desespero.
         _Não o culpo, amigo! De forma alguma o culpo, mas entenda que apenas imaginar ficar
sem ouvir a voz dela me deixa maluco.
         Continuaram conversando, Lupus, Frion e a Lua com o Sol para acalmá-lo, e não viram
quando cinco canoas aportaram na praia, cada uma delas com um homem e duas mulheres que
traziam flores, mantos, frutas e bebidas. Eles tinham vindo do continente que antes foi a
América do Sul, que estava agora a algumas horas de barco dali. Durante a noite passada eles
viram uma luz muito forte vinda do Médio Continente, a luz os deixou surpresos, pois era noite,
mas não foi só isso que os fez vir até ali. Fora o chamado que sentiram de Gaia. Lendas antigas,
do tempo da catástrofe, diziam que Ela viria, mas ficaria por pouco tempo, pois sairia numa
missão importante com seu prometido, o Sol. Como os humanos souberam disso há séculos
atrás, ninguém sabe dizer. Mas eles vieram ao local que seus corações mandaram, tinham
navegado a noite toda. Desceram das canoas, entraram na floresta e seguiram para a clareira.
Quinze pessoas passaram sem serem percebidas pelos visitantes, pelo Sol e pela Lua. Viram dois
homens, pelo menos um parecia um, mas o outro tinha uma pele cinza e olhos vermelhos, mas
apesar da aparência ele não os assustou. Eles estavam em silêncio, olhando para cima,
diretamente para o Sol e isso não os feria, pareciam aflitos, preocupados e não perceberam
quando as mulheres entraram na clareira e fizeram um leito improvisado para Gaia. Pondo um
dos mantos no chão, jogaram pétalas de flores exóticas e muito perfumadas sobre ele. Depois
transferiram Gaia para o colchão de flores. Por um minuto admiraram a beleza dela, sua pele era
morena quase dourada, seus cabelos volumosos, lisos e perfumados de uma cor diferente, ele
era azul como o firmamento. Suas feições eram delicadas, no entanto, quem a visse, veria uma
mulher forte quem já passara por muitas dificuldades e que as atravessou e sobreviveu. Suas
mãos eram delicadas, mas também fortes. Toda essa visão deixou a todos os presentes, homens
e mulheres, maravilhados com a beleza da Deusa da Terra. Foi assim que ela foi chamada desse
dia em diante, mesmo sento mortal. Então, saindo do devaneio, uma das mulheres percebeu a
nudez da sua Deusa e a cobriu com o último manto. Aos pés dela eles depositaram frutas e
bebida, foi separado um pouco para eles e para os guardiões da Deusa. Os homens pegaram essa
comida e se aproximaram deles, que continuavam imóveis, e ao serem tocados pelos homens
finalmente perceberam o que ocorrera ali, Gaia estava sendo cuidada, e humanos estavam lhes
oferecendo algo, eles viram com grande prazer que era um pouco de comida e água.
         _Obrigado. Disse Lupus, com um sorriso, e pegou a comida e a bebida que lhes era
oferecidos._Cuidem bem dela, voltaremos pela manhã. Fez sinal para que Frion o seguisse,
saíram da clareira, só então Frion falou.
         _Vamos deixá-la com eles?
         _Sim, vamos. Eles não farão mal, Ela é sua Deusa. Temos que comer um pouco e
começar o último trabalho. Andaram até uma grande pedra e subiram nela. Ali se alimentaram
pensando como trariam o Sol para o novo corpo. Aqui não tinha material suficiente para fazer
uma ligação do antigo para o novo, apenas sua luz chegava até aqui, e eles não podiam se
aproximar do Sol.



                                                                                               3
A Fúria de Gaia


         _Só tem um jeito. Disse de repente Frion. _Vamos ter que usar os restos de seu casulo.
Há muitos anos que você recebe os raios solares, terá armazenado energia suficiente, você é
mais antigo que a Terra. Vá pega-lo. Usaremos uma parte do meu para guardá-lo.
         Lupus saiu para pegar a outra metade do seu casulo. Enquanto Frion ia pegar o seu. Eles
voltaram com o que era necessário.
         _Temos que procurar um lugar com bastante luz. Disse Lupus. _Os humanos tinham
um pedaço de vidro em forma de prisma, servirá para incidirmos os raios para o casulo. Ah! E
trouxe também um pedaço de couro.
         _Boa idéia. Disse Frion. _Ele irá precisar de roupas quando vier.
         Lupus pegou metade de seu casulo e começou a quebrá-lo com os próprios punhos, ao
final restou apenas um pó, o qual foi depositado dentro da outra metade, e espalhado
uniformemente. Posicionaram-se nas extremidades como da outra vez, Lupus pegou o prisma e
o pôs contra a luz, ao passar por ele a luz branca se transformou em um arco-íris e incidiu sobre
pó. Os raios coloridos pareciam água quando o tocaram. Logo após eles repetiram o ritual feito
antes, e dessa vez um arco-íris saiu do casulo e foi se dissipando, até que sumiu em duas horas.
         Lupus e Frion esperaram até que depois de meia hora o Sol acordou. Ele não disse uma
palavra. Apenas seguiu para a clareira. Ainda era dia, mas logo anoiteceria. Lupus o seguiu e o
parou, pôs ao redor de sua cintura o couro que tinha pego dos humanos. Recebeu um sorriso
como agradecimento.
         Os humanos, na clareira já não eram mais quinze, seu número ultrapassava 150 pessoas,
contando velhos e crianças. Tochas estavam sendo acesas por eles, na clareira e na praia,
quando um homem de pele clara como a manhã entrou na clareira. Seu cabelo era dourado
como o disco solar que agora se escondia no horizonte, seus olhos não tinham uma cor definida,
ela variava de acordo com a claridade. Iam do anil ao verde passando antes por um azul
perolado. Era alto e forte. Ele não deu muita atenção aos que estavam ali presente. Ia em direção
da Deusa no centro, não tirou seus olhos dela desde que tinham entrado.




                                                                                               4

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A Fúria de Gaia - Capítulo II

  • 1. A Fúria de Gaia CAPÍTULO II Um deles, o maior, falou: _Não interfiras num assunto que não lhe cabe, Mãe Terra! Rugiu._Viemos aqui para cumprir nossas ordens e vamos cumpri-las, se te intrometeres seremos obrigados a ferir-te também, e sabemos que passaste por uma provação muito grande. E mesmo que tentes não poderás fazer nada, mas não nos irrite. _Se ousares tocar nela, vai ser comigo que terás que te entender! Bradou o Sol. _Não irá adiantar muito se nos destruíres, somos apenas avatares, continuação de nossas mentes que vivem em corpos imóveis nesse plano. Iremos fazer outros. _Entendi, são apenas marionetes sem vida ou escolhas próprias. Não tem noção do que é ter que ficar anos olhando o que ocorre no universo e não poder fazer nada. _Não somos marionetes, temos consciências, mas também sabemos o que é certo e o que é errado, a Lua quebrou as regras e terá que pagar pelo que fez. Enquanto dizia isso chegaram onde desejavam do outro lado da Terra. _Estás pronto? Perguntou a Lua. _Sempre! Respondeu a Lua._Não machuques a Gaia, ela e o Sol são apenas amigos preocupados, suas palavras não devem ser levadas em consideração. Disse a Lua. _Façam o que devem fazer. _Mas ele tem o direito de se defender! _Ela está certa, vocês nem ao menos perguntaram por que ele fez isso! Deixem-no explicar. Suplicou o Sol. Os avatares ficaram em silêncio por um minuto como se estivessem considerando o que foi dito. Depois falou novamente o maior deles: _A sua grande suplica, Astro Rei, foi ouvida e também a da Mãe Terra. Foi tomada uma nova decisão. Disse._Nós sabemos os motivos da Lua, por isso não perguntamos nada, não tínhamos motivos. Mas daremos outra chance a ele se vocês nos ajudarem a resgatar um objeto de grande valor para nós, só assim a punição da Lua será cancelada. Aceitam? _Aceitaríamos com grande prazer, se pudéssemos, mas como iremos ajudar sendo imóveis? Vocês podem ter isso que chamam de avatares, mas nós não. Disse Gaia. _Nós iremos dar corpos móveis a vocês dois. Lógico que serão diferentes dos nossos, pois não podemos montar características que quiserem, pois não sabemos como são suas mentes. E vocês terão suas mentes extraídas dos seus corpos. _E como ficam estes corpos em que estamos agora? Perguntou Gaia. _Sim, como ficam? Concordou o Sol. _Continuarão como estão, sem nenhuma alteração. A única diferença é que funcionarão sem suas consciências, não terão vontade, apenas farão o que os instintos ordenarem. Provavelmente vocês não terão como controlá-los, mas isso é apenas suposição. _Não importa como ficarão, eu não me importo em sair desse corpo imóvel. Falou o Sol, que não esperava a hora de poder tocar Gaia pela primeira vez com suas mãos sem ter medo de queimá-la com sua aproximação. Gaia também estava ansiosa, mas era muito mais discreta que o Sol. Nesse momento ela estava muito preocupada com a Lua. _Está resolvido, então! Disse o avatar._Descerei até Gaia, lá darei início a fabricação dos seus novos corpos. _Só uma pergunta mais. Poderemos voltar para nossos antigos corpos se quisermos? _Não sabemos ao certo, isso nunca foi feito antes, também será incerto o tempo de vida dos dois. É provável que seus corpos móveis tenham o mesmo tempo de vida que os antigos. Mas tudo isso são suposições, como a aparência de vocês, é certo que são humanóides, mas o resto dependerá do acaso. _Talvez seja melhor eu também participar da fabricação, meu avatar estará mais próximo de mim e terá um pouco de controle na fabricação. Disse a Lua. _Você tem razão, descerei e procurarei um lugar mais calmo, para que não nos incomodem. Desça assim que puder. _Se está procurando um lugar tranqüilo é para o Médio Continente que deve ir, ele migrou do extremo sul para ficar entre a antiga América do Sul e África, lá não tem vida humana, eles ainda não começaram a exploração do planeta novamente. Falou Gaia. _Seguirei seu conselho, Mãe Terra. Depois ele se direcionou para Gaia e para o Médio Continente, uma imensa floresta tropical. Nesse momento algo saiu da Lua, um pó brilhante rodopiou no vácuo como se houvesse uma pequena brisa, ficou sólido tomando o formato de um asteróide, se dirigiu para o Médio continente como fez o outro avatar. Entrou em contato com a atmosfera terrestre e 1
  • 2. A Fúria de Gaia tornou-se incandescente. Uma parte sua foi desgastada pelo fogo o bastante para deixá-lo com uma altura de dois metros, ao colidir com Gaia, formou-se uma imensa cratera a alguns metros da primeira. O meteoro ainda estava quente e aos poucos foi quebrando e dentro tinha um humanóide. Estava em posição fetal, alguns animais curiosos se aproximaram da cratera e quando o humanóide respirou fundo pela primeira vez eles correram assustados. Ele levantou- se e saiu do lugar da colisão, subiu pelas bordas das crateras, ao chegar ao topo viu que o outro estava sentado numa pedra observando o lugar. Sua aparência não era normal para aquele planeta. Tinha uma pele cinza, olhos vermelhos, cabelos brancos que iam até os calcanhares, vestia um tipo de armadura que saia de seu próprio corpo, era feira de pedra, cobria todo seu tronco, o antebraço, pernas e pés como uma bota. Era também humanóide. Quando o recém chegado se aproximou ele disse: _É lindo aqui, não? _É, sim. Disse o avatar da Lua. _A propósito me chamo Frion. Disse o de pelo cinza. _Me chamo Lupus. _Um nome bem sugestivo para os habitantes daqui, não? E durante a Lua Cheia você se transforma num lobisomem? Gargalhou Frion. _Muito engraçado. Desculpe não acompanhá-lo. Disse Lupus. Frion olhou pela primeira vez para Lupus, ele passaria sem nenhum problema por um nativo desse planeta. Sua pele era morena, seus olhos negros como a noite e vestia não uma armadura, mas um simples couro ao redor da cintura. Frion ficou de pé e percebeu que ambos tinham a mesma altura. Mas o porte físico era diferente, ele, Frion, era mais robusto, seu tronco muito maior, cochas largas e braços mais fortes; enquanto que Lupus era também forte, mas um pouco mais magro, tinha pernas mais ágeis que fortes, enfim era um típico caçador de alguma aldeia, mas seus olhos demonstravam o conhecimento e a experiência de um grande general que um dia a Lua foi. _Vamos começar. Falou Lupus, tirando Frion de seu devaneio. _Comecemos, então. Disse Frion. _Tem uma clareira logo à frente onde eu senti uma grande paz ao pisar o solo. Faremos lá. Seguiram para a clareira, apreciando o lugar como se estivessem de férias. Após dois minutos, eles chegaram ao seu destino. Quando Lupus pisou no solo, ele entendeu o que Frion quis dizer com sentir paz, era como se o solo ali tivesse sido abençoado por algum ser maravilhoso, que até para eles era desconhecido e apenas uma lenda. Sua espécie existia desde sempre, mas até eles tinham suas lendas sobres seus seres mágicos, superiores e benevolentes. Andaram até o centro, Frion disse: _Fazer Gaia não será problema, mas o Sol é que será muito difícil. _Tens razão, material para ela temos de sobra, mas o Sol está longe e não existe meios para nos aproximar dele, a única coisa que temos dele são seus raios. Vamos começar por ela, guardaremos nossas energias para a tarefa mais difícil. Então, Lupus se abaixou e pegou um pouco de terra na palma da sua mão. _O material é puro, nunca foi tocado por sentimentos mesquinhos. Vou buscar meu casulo. E saiu. _ Eu começarei a recolher o material necessário. _Disse Frion. _Não demore. Temos que terminar antes que o dia amanheça. Depois de alguns minutos Lupus voltou com seu casulo, o meteoro, em suas costas, não parecia nem se incomodar com o peso. Colocando-o no chão e tirando a parte de cima dividi-o em duas partes, uma foi reservada para o Sol e foi colocada de lado, a outra foi levada até o centro onde Frion já havia recolhido tudo que precisaria para a primeira tarefa. Tinha pego um pouco de terra, galhos, algumas flores, e colocado tudo no centro da clareira. Estavam em completo silêncio. Aos poucos todo o som da floresta foi também sumindo, como se eles entendessem o que estava acontecendo. Começaram pondo todos os materiais dentro do casulo, distribuindo igualmente por todo comprimento. Depois, se postaram nas extremidades. Fecharam os olhos e posicionaram os braços ao lado do corpo em perfeita sintonia. Logo após viraram as palmas das mãos para cima, enquanto iam levantando os braços até a altura de seus troncos, unindo-as logo em seguida. Começaram a friccioná-las aproximando-as da boca, então abriram os olhos e sopraram nas mãos abertas e a inda unidas em direção ao casulo. Um pó brilhante saiu de suas mãos encontrando-se com o material posto lá, ele percorreu desde a as extremidades ao centro, se encontrando. Ficou estacionado a alguns milímetros acima do que estava contido no casulo. Ficou reconhecendo tudo, até que começou a girar formando um pequeno redemoinho, elevando tudo dentro do casulo. Tudo foi girando até uma altura de 1,70 metros, então o pó separou-se do material e o cobriu completamente. De repente tudo desmoronou e forrou o casulo internamente. Um brilho tomou conta de toda clareira e cegou 2
  • 3. A Fúria de Gaia momentaneamente Lupus e Frion, que cobriram seus olhos e caíram no chão atordoados. Já era noite alta quando a claridade começou a diminuir, eles levantaram e esperaram. Duas horas depois, o amanhecer veio, coincidindo com o desaparecimento da luz vinda do casulo. Todos puderam ver como Gaia havia ficado. Ela estava mais linda do que qualquer mulher nascida neste ou noutro planeta. Lupus e Frion se aproximaram do casulo e encontraram Gaia adormecida em posição fetal. Eles retiraram-na do casulo, e depositaram-na no chão. _Gaia! Chamou o Sol contente. Mas não houve resposta. _O que houve? Ela não acorda! _Calma, Astro Rei, talvez ela não tenha ido para o corpo. Disse Frion. _Mas se ela não estivesse no corpo ela teria respondido. Desesperou-se o Sol. _Espere um segundo. Pediu Lupus, aproximou-se do avatar ainda sem nome e tocou-lhe a testa. _Ela está aqui, mas não consegue vir à superfície. _E o que faremos agora? Eu a quero de volta! Gritou o Sol. _Calma, amigo. Disse a Lua. _Ela precisa de tempo para acostumar-se ao novo corpo, só isso. Dirigindo-se a Lua o Sol disse: _Achei que estivesses no avatar. _Bem, estou e não estou. Ele sou eu ou um tipo de clone meu. _E por que isso não aconteceu com Gaia? _Ela não é da mesma raça que nós, ela foi transferida, e não “clonada”, por assim dizer. Respondeu a Lua. _Peço-te desculpas por tudo isso, é por minha causa que estás nessa situação de desespero. _Não o culpo, amigo! De forma alguma o culpo, mas entenda que apenas imaginar ficar sem ouvir a voz dela me deixa maluco. Continuaram conversando, Lupus, Frion e a Lua com o Sol para acalmá-lo, e não viram quando cinco canoas aportaram na praia, cada uma delas com um homem e duas mulheres que traziam flores, mantos, frutas e bebidas. Eles tinham vindo do continente que antes foi a América do Sul, que estava agora a algumas horas de barco dali. Durante a noite passada eles viram uma luz muito forte vinda do Médio Continente, a luz os deixou surpresos, pois era noite, mas não foi só isso que os fez vir até ali. Fora o chamado que sentiram de Gaia. Lendas antigas, do tempo da catástrofe, diziam que Ela viria, mas ficaria por pouco tempo, pois sairia numa missão importante com seu prometido, o Sol. Como os humanos souberam disso há séculos atrás, ninguém sabe dizer. Mas eles vieram ao local que seus corações mandaram, tinham navegado a noite toda. Desceram das canoas, entraram na floresta e seguiram para a clareira. Quinze pessoas passaram sem serem percebidas pelos visitantes, pelo Sol e pela Lua. Viram dois homens, pelo menos um parecia um, mas o outro tinha uma pele cinza e olhos vermelhos, mas apesar da aparência ele não os assustou. Eles estavam em silêncio, olhando para cima, diretamente para o Sol e isso não os feria, pareciam aflitos, preocupados e não perceberam quando as mulheres entraram na clareira e fizeram um leito improvisado para Gaia. Pondo um dos mantos no chão, jogaram pétalas de flores exóticas e muito perfumadas sobre ele. Depois transferiram Gaia para o colchão de flores. Por um minuto admiraram a beleza dela, sua pele era morena quase dourada, seus cabelos volumosos, lisos e perfumados de uma cor diferente, ele era azul como o firmamento. Suas feições eram delicadas, no entanto, quem a visse, veria uma mulher forte quem já passara por muitas dificuldades e que as atravessou e sobreviveu. Suas mãos eram delicadas, mas também fortes. Toda essa visão deixou a todos os presentes, homens e mulheres, maravilhados com a beleza da Deusa da Terra. Foi assim que ela foi chamada desse dia em diante, mesmo sento mortal. Então, saindo do devaneio, uma das mulheres percebeu a nudez da sua Deusa e a cobriu com o último manto. Aos pés dela eles depositaram frutas e bebida, foi separado um pouco para eles e para os guardiões da Deusa. Os homens pegaram essa comida e se aproximaram deles, que continuavam imóveis, e ao serem tocados pelos homens finalmente perceberam o que ocorrera ali, Gaia estava sendo cuidada, e humanos estavam lhes oferecendo algo, eles viram com grande prazer que era um pouco de comida e água. _Obrigado. Disse Lupus, com um sorriso, e pegou a comida e a bebida que lhes era oferecidos._Cuidem bem dela, voltaremos pela manhã. Fez sinal para que Frion o seguisse, saíram da clareira, só então Frion falou. _Vamos deixá-la com eles? _Sim, vamos. Eles não farão mal, Ela é sua Deusa. Temos que comer um pouco e começar o último trabalho. Andaram até uma grande pedra e subiram nela. Ali se alimentaram pensando como trariam o Sol para o novo corpo. Aqui não tinha material suficiente para fazer uma ligação do antigo para o novo, apenas sua luz chegava até aqui, e eles não podiam se aproximar do Sol. 3
  • 4. A Fúria de Gaia _Só tem um jeito. Disse de repente Frion. _Vamos ter que usar os restos de seu casulo. Há muitos anos que você recebe os raios solares, terá armazenado energia suficiente, você é mais antigo que a Terra. Vá pega-lo. Usaremos uma parte do meu para guardá-lo. Lupus saiu para pegar a outra metade do seu casulo. Enquanto Frion ia pegar o seu. Eles voltaram com o que era necessário. _Temos que procurar um lugar com bastante luz. Disse Lupus. _Os humanos tinham um pedaço de vidro em forma de prisma, servirá para incidirmos os raios para o casulo. Ah! E trouxe também um pedaço de couro. _Boa idéia. Disse Frion. _Ele irá precisar de roupas quando vier. Lupus pegou metade de seu casulo e começou a quebrá-lo com os próprios punhos, ao final restou apenas um pó, o qual foi depositado dentro da outra metade, e espalhado uniformemente. Posicionaram-se nas extremidades como da outra vez, Lupus pegou o prisma e o pôs contra a luz, ao passar por ele a luz branca se transformou em um arco-íris e incidiu sobre pó. Os raios coloridos pareciam água quando o tocaram. Logo após eles repetiram o ritual feito antes, e dessa vez um arco-íris saiu do casulo e foi se dissipando, até que sumiu em duas horas. Lupus e Frion esperaram até que depois de meia hora o Sol acordou. Ele não disse uma palavra. Apenas seguiu para a clareira. Ainda era dia, mas logo anoiteceria. Lupus o seguiu e o parou, pôs ao redor de sua cintura o couro que tinha pego dos humanos. Recebeu um sorriso como agradecimento. Os humanos, na clareira já não eram mais quinze, seu número ultrapassava 150 pessoas, contando velhos e crianças. Tochas estavam sendo acesas por eles, na clareira e na praia, quando um homem de pele clara como a manhã entrou na clareira. Seu cabelo era dourado como o disco solar que agora se escondia no horizonte, seus olhos não tinham uma cor definida, ela variava de acordo com a claridade. Iam do anil ao verde passando antes por um azul perolado. Era alto e forte. Ele não deu muita atenção aos que estavam ali presente. Ia em direção da Deusa no centro, não tirou seus olhos dela desde que tinham entrado. 4