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A EDUCAÇÃO E O CIRCO SOCIAL
Cristina Alves de Macedo
Graduada em Pedagogia pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Mestre em Estudo de
Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Artigo apresentado durante o evento XIV
Semana de Mobilização Científica (SEMOC) – UCSal em 2011. ISSN: 2177-272X.

RESUMO: O presente artigo trata sobre a educação no Circo Social expondo como sujeitos da classe popular
são educados através da linguagem circense, demonstrando a existência de grupos distintos de formação.
Abordam-se sobre o desenvolvimento cognitivo, destacando que as técnicas circenses propiciam o
desenvolvimento de capacidades e habilidades que auxiliam na aprendizagem de conteúdos escolares. Por fim,
discute-se sobre o desenvolvimento integral evidenciando que os campos cognitivo, afetivo e motor encontram
no Circo Social espaço profícuo para o seu desenvolvimento em conjunto.

Palavras-chave: Circo Social; Educação; Desenvolvimento Integral.

INTRODUÇÃO
O mundo do circo sempre envolveu e fascinou as pessoas por suas demonstrações de
habilidosos artistas que, utilizando a linguagem circense, desafiam os próprios limites e levam o
público a experimentar as mais diversas emoções. Porém, atualmente, a utilização da linguagem
circense não se limita ao desenvolvimento da técnica para apresentação de um brilhante espetáculo,
mas se estende também a outros âmbitos, quais, o da educação e da busca de uma transformação
social, por meio do Circo Social.
O Circo Social, modalidade de circo que utiliza a linguagem circense como instrumento de
inclusão social, atua com uma pedagogia alternativa de educação, que se direciona a ajudar sujeitos da
classe popular a adquirirem a cidadania.
Neste artigo, trata-se sobre a educação no Circo Social, tecendo considerações sobre como
sujeitos da classe popular são educados através da linguagem circense e como esta contribui para o
desenvolvimento do indivíduo como ser integral, demonstrando, por fim, que a linguagem circense
contribui para o desenvolvimento de competências e habilidades que auxiliam na aprendizagem de
conteúdos escolares.

EDUCAÇÃO E LINGUAGEM CIRCENSE
A proposta do Circo Social de educar utilizando a linguagem circense se insere em um projeto
de educação não alfabetizante, que objetiva auxiliar sujeitos da classe popular na construção de sua
subjetividade e contribuir para a sua inserção na vida social. Com esse fim, são associados
fundamentos teóricos e práticos que visam incentivar crianças, adolescentes e jovens a reconhecerem
suas potencialidades para que assim possam criar novas perspectivas para o futuro.
Destarte, as teorias desenvolvidas por Paulo Freire, um educador pernambucano que estudou
profundamente assuntos referentes à educação popular, se tornam uma referência expressiva para os
projetos de educação que atuam na perspectiva de inclusão. No Circo Social, suas considerações sobre
a liberdade da opressão através de uma educação libertadora mediada pelo diálogo são pontos
importantes que colaboram com a proposta de auxiliar o sujeito na construção de sua autonomia.
Freire (1987) ao se referir à liberdade da opressão indica a necessidade de uma pedagogia que
possa proporcionar situações que levem o sujeito a libertar-se de sua condição de oprimido e que
contribua para a sua emancipação. Mas, como sinalizado pelo próprio Freire (1987), para poder
libertar-se, o sujeito precisa querer lutar para libertar-se e isso só acontece quando ele consegue
compreender a sua indigência e rebelar-se contra ela. Dito isto, é interessante evidenciar que os seres
humanos, como sujeitos sociais, precisam conhecer a si e ao seu próprio contexto para poder fazer
uma leitura consciente desse universo; assim, o Circo Social, utilizando a arte como elemento
mediador, busca inserir o sujeito na ação sócio-educativa criando situações que o levem a
compreender a sua realidade e sirvam de estímulo para que este venha a transformá-la.
Porém, é preciso destacar que a opressão vivenciada por muitos sujeitos nasce de uma situação
de violência advinda de um contexto de desigualdade social. Ademais, os homens são produtos e
produtores dessa realidade e, portanto, transformá-la é uma tarefa histórica dos homens, o que só
acontece após o indivíduo reconhecer quem é o seu opressor e se empenhar no sentido de uma
mudança.
No circo social essa busca por mudança acontece em todos os momentos, sendo visível
principalmente no momento do desenvolvimento das atividades, as quais se direcionam não apenas a
ensinar a técnica circense, mas também a fazer com que os seus atendidos reconheçam as suas
potencialidades. Com essa finalidade, são desenvolvidas atividades que, a partir do trabalho corporal,
propendem levar os indivíduos a criarem primeiramente uma compreensão política dos seus direitos,
individuais e coletivos, a qual gerará, por consequência, a compreensão dos próprios interesses
revelando a criatividade singular.
O homem pode mudar a realidade social, mas essa não se modifica por si só ou por
interferência do destino; o reconhecimento de suas necessidades e interesses, e o de uma coletividade,
o levará a trabalhar para que essa mudança aconteça.
Vygotsky (1999) relata que o comportamento dos homens é construído a partir da interação
entre o indivíduo e o ambiente, sendo ele produto e produtor destas interações, portanto, as diferentes
experiências derivadas do contexto em que os indivíduos estão inseridos influenciam na maneira com
que estes enxergam o mundo à sua volta. Assim sendo, o aprendizado advindo de práticas sociais, em
um trabalho coletivo que leva em consideração as experiências individuais, contribui para o
desenvolvimento do sujeito permitindo, também, a ajuda recíproca. Vale destacar que o trabalho
desenvolvido pelo Circo Social colabora para que o sujeito se desenvolva, proporcionando um âmbito
de mutua cooperação.
O trabalho no Circo Social compreende, fundamentalmente, a participação em três diferentes
grupos de formação, quais: Básico, Intermediário e Avançado. No grupo Básico, o ensino das técnicas
acontece de maneira lúdica, sendo ressaltado o aprendizado global do aluno, visualizando, sobretudo,
o processo vivenciado. A participação neste grupo implica o vínculo com a escola formal e para fazer
aula de circo os alunos têm que estar não apenas matriculados, mas também frequentando as aulas.
Com o intuito de orientar e ajudar os atendidos em questões referentes à escola, acompanhar o seu
desenvolvimento e dar suporte às eventuais dificuldades que porventura possam se apresentar, uma
equipe que integra o setor pedagógico realiza o Acompanhamento Escolar. Esse acompanhamento se
estende aos outros grupos.
No grupo Intermediário, direcionado aos alunos que já adquiriram os conhecimentos básicos
sobre as técnicas circenses, enfatiza-se o treino com a finalidade de preparação técnica e rendimento
individual, incluindo-se novas atividades como música, dança e teatro.
O curso Avançado, que pode ser denominado de curso de Instrutor, de Instrutor de Circo
Social, de Educador Social, visa à formação de multiplicadores da ação educativa através da “Artecirco-educação”. O sujeito formado neste curso recebe a instrumentalização necessária para inseri-se
no mercado de trabalho, sendo habilitado a trabalhar com Educador Social.
Vale ressaltar que no circo, o trabalho desenvolvido com escopo social através das técnicas
circenses também cumpre um papel importante no desenvolvimento de capacidades cognitivas.

ATIVIDADES CIRCENSES E DESENVOLVIMENTO COGNITIVO
As linguagens artísticas contribuem no processo de aprendizagem de crianças, adolescentes e
jovens, por estas incentivarem o desenvolvimento de várias capacidades, inclusive, capacidades
cognitivas. A arte estimula a interação entre os sujeitos propiciando a relação destes com o meio, o
que faz da arte um valioso instrumento para estimular as relações interpessoais e, em efeito, a
interação social.
No Circo Social os elementos da “metodologia triangular” sugeridos por Barbosa (2006)
encontram um espaço profícuo para o seu desenvolvimento, visto que o ensino das técnicas circenses
acontece unindo a prática, a contextualização e a apreciação de obras de arte.
No Circo, os sujeitos praticam as técnicas circenses seja de forma lúdica que como forma de
trabalho, mas no momento da preparação do espetáculo todos são convidados a trazer sugestões de
temas que podem ser usados para apresentar o espetáculo de final de ano. De tal modo, os alunos de
todos os grupos, e também os instrutores/educadores, contribuem com propostas de assuntos advindos
do seu cotidiano para desenvolver o tema escolhido, o que transforma o espetáculo por eles produzidos
em uma verdadeira performance.
Macedo (2008), no livro Educação no Circo, ressalta que a contextualização do espetáculo de
circo, envolvendo o desempenho artístico, faz de modo que todo o processo artístico propicie o
aprimoramento de sentidos ampliando a imaginação, esta que além de ser o substrato para criação de
uma obra de arte, auxilia os indivíduos na resolução de problemas cotidianos.
A apreciação de obras de arte pode acontecer tanto no momento dos ensaios para preparação
dos espetáculos, como em excursões a teatros e a outros circos; nestes momentos, a comparação entre
as diferentes técnicas, números e posturas, favorece a construção de um senso crítico, em relação ao
próprio desempenho artístico e ao do outro.
A interação nesse contexto torna-se um elemento importante, a qual, por se estabelecer de
maneira horizontal através da contraposição e integração de assuntos e do reconhecimento de que cada
um tem algo a contribuir para a aprendizagem do grupo, se caracteriza em um processo dialógico.
A linguagem, sendo a base da interação, se torna para o sujeito um instrumento que pode ser
usado como um meio para inserir-lo na sociedade, diminuindo, por consequência a desigualdade social
e a distância entre as várias culturas. Soares (1967, p. 16) a esse respeito relata que “[...] a linguagem é
o principal produto da cultura, e é o principal instrumento para a sua transmissão”.
No Circo Social, através da linguagem circense, expressada principalmente por meio da
linguagem não-verbal, o indivíduo pode explorar várias sensações e sentidos, experimentar as
possibilidades e os limites do seu corpo o que colabora para uma educação estética que abrange os
âmbitos da percepção e da cognição. Deve-se pensar que: “A arte é uma maneira de despertar o
indivíduo para que este dê maior atenção ao seu próprio processo de sentir. [...] A arte ainda é um fator
de agilização de nossa imaginação, pois na experiência estética a imaginação amplia os limites que lhe
impõe cotidianamente a intelecção” (DUARTE Jr. 1996 p 66-67).
A finalidade educacional com que é ensinada a linguagem circense, portanto, propicia a
geração de mudanças significativas no sujeito; entretanto o efeito benéfico da aprendizagem das
técnicas se expande a outros âmbitos e contribui também na aprendizagem de conteúdos escolares.
Barbosa (2005) aponta que os sujeitos que praticam atividades artísticas apresentam melhores
resultados na escola formal, pelo fato que a arte mobiliza os processos cognitivos.
Hotier (2003), pesquisador que estudou o poder educacional das técnicas circenses, afirma que
as crianças egocêntricas, tímidas, apavoradas, inibidas, podem desbloquear a psique em conjunto com
as suas evoluções motoras. A título de exemplo do potencial das técnicas circenses far-se-á referência
aqui a algumas técnicas.
Para aprender malabarismo, o sujeito deve desenvolver habilidades motoras de coordenação
entre o lado direito e esquerdo do corpo e visão periférica. Após a ultrapassagem desse primeiro
desafio, o sujeito precisa desenvolver a capacidade de concentração e aprender a lançar os objetos em
diferentes velocidades, o que o levará a aprender a lidar com o ritmo. Neste contexto, a persistência se
torna elemento fundamental, pois nenhuma pessoa aprende a ser malabarista sem nunca deixar a clava
cair no chão, daí entra em jogo a questão do erro. O malabarista aprende com o erro, portanto cada
erro deve ser transformado em motivação para continuar a treinar, superar a dificuldade e aprender
novos truques.
No aprendizado da acrobacia o sujeito deve condicionar os músculos do corpo para a
realização de movimentos complexos que envolvem as capacidades de equilíbrio e de flexibilidade.
Ele deve adquirir noções de tempo e espaço, ser apto a tomar decisões de forma autônoma e imediata,
além de desenvolver uma consciência corporal e a capacidade de lidar com o imprevisto e com risco.
Sobre este ponto, Gallo (2009, p. 190) comenta pertinentemente que
[n]o Circo Social, confronta-se o risco real da vida cotidiana com o risco do
fazer circo. A diferença está no fato de que, através do circo, se arrisca para
ser melhor, para aprender, para educar, para se mostrar e se estupefazer;
atua-se, então, para transformar o risco em educação, formação, inclusão;
cria-se um lugar que estimula o corpo a superar o medo do novo e a procurar
novos perigos ligados a mudanças sociais.
A arte da palhaçaria ensina a lidar com o ridículo e ajuda o sujeito a conhecer a si mesmo e a
reconhecer os seus medos e desejos, por trabalhar a capacidade de colocar em exposição os seus erros
e defeitos.
Dito isto, é possível afirmar que as capacidades e habilidades desenvolvidas através da
linguagem circense contribuem para o desenvolvimento cognitivo do sujeito e auxiliam, por
conseguinte, na aprendizagem de conteúdos escolares, por nelas estarem envolvidos elementos que são
úteis e propiciam o aprendizado. Observa-se, portanto, que a linguagem circense revela-se uma prática
propiciadora de experiências que levam ao aprimoramento de capacidades relacionadas com o
desenvolvimento do indivíduo em seus múltiplos aspectos, ou seja, um desenvolvimento integral.

A LINGUAGEM CIRCENSE E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL
Ao tratar sobre o desenvolvimento integral é interessante considerar as pesquisas
desenvolvidas por Bloom (1973, 1976), um educador americano que visou compreender os processos
de aprendizagem e descrever os campos cognitivo, afetivo e motor.
Segundo os seus estudos, que foram realizados em conjunto com uma equipe de
colaboradores, a aquisição de competência em cada um desses campos parte do princípio que o
indivíduo começa a aprender a partir dos conhecimentos mais simples para depois aprender os
conceitos mais complexos.
No que se refere ao campo cognitivo ele elencou seis etapas a serem vivenciadas antes de o
indivíduo alcançar o completo domínio desse campo, quais: conhecimento, compreensão, aplicação,
análise, síntese e avaliação. Para o domínio afetivo, foram estabelecidas cinco categorias: percepção,
resposta, avaliação, organização de valores e internalização.
Segundo Marcos Telles (2005) a pesquisa realizada por Bloom e sua equipe, por fim, não foi
concluída, sendo a parte sobre o desenvolvimento motor explorada por outros pesquisadores, a
exemplo de A. Harrow, o qual propôs para este campo seis níveis de classificação: reflexos,
movimentos básicos, habilidades de percepção, habilidades físicas, movimentos aperfeiçoados e
comunicação não verbal.
Apesar de concordar com o princípio da proposta de Bloom a qual afirma que o indivíduo
possui três distintas áreas que precisam ser desenvolvidas, deve-se considerar que o conceito de ser
integral e, consequentemente de educação integral, parte do pressuposto que as esferas do domínio
afetivo, cognitivo e motor não encontram seu verdadeiro equilíbrio desenvolvendo-se de forma
separada, mas sim em conjunto.
Como sinalizado por Papalia (2000), o desenvolvimento cognitivo depende do
desenvolvimento físico, o qual por sua vez depende do desenvolvimento psicossocial, e as mudanças
nessas esferas podem afetar o desenvolvimento completo do sujeito por existir uma relação de
interdependência entre elas e, portanto, cada um delas afetar as outras.
Diferentemente de como estabelecido por Bloom (1973, 1976), que concebe o
desenvolvimento das capacidades do sujeito de forma separada, o Circo Social atua buscando
desenvolver todas as capacidades do indivíduo de maneira integrada, utilizando a arte como
propulsora da aprendizagem, neste caso a linguagem circense.
Pela arte e, portanto, pelo circo, o sujeito descobre a sua capacidade de sentir, criar e, em se
tratando da técnica circense, também as capacidades corporais. Assim, o circo permite explicitar a
capacidade criativa que faz parte do ser humano e traduzir aquilo que está escondido dentro do seu
íntimo. O sujeito aprende a exprimir-se e a interagir melhor com o mundo que o circunda.
Quando se pensa em uma educação propiciadora do desenvolvimento integral, é interessante
marcar que esta precisa criar situações que estimulem o sujeito a ter uma nova visão da sociedade, do
outro e de si mesmo, oportunizando, desta maneira, uma visão do todo.
Uma educação integral busca despertar no sujeito entusiasmo em fazer continuamente novas
experiências junto aos outros e, portanto, de aprender de forma colaborativa, sendo a contribuição de
todos os integrantes de grande valia para o crescimento do grupo. Como apontado por Di Nubila
(2005), grupo e indivíduo não são polaridades incompatíveis entre si, existindo uma osmose contínua
onde o sujeito constrói a sua identidade pessoal, a sua autonomia, a partir do confronto com os grupos
sociais. Por assim dizer, cada singular indivíduo dentro de um grupo encontra nos outros um suporte
para a própria individualidade e a razão para a sua existência, pois, deles deriva a construção da sua
subjetividade.
A construção da subjetividade pelo indivíduo é um processo que requere constante interação
com o mundo exterior, e é essa interação que o levará à descoberta de suas necessidades e
possibilidades, o que se constitui em uma autodescoberta.
Neste ponto encontra-se uma ligação com os quatro pilares da educação descritos por Delors
(2001): aprender a fazer, aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a viver juntos, esses que no
Circo Social tornam-se suporte teórico de sua atuação.
Muitos dos sujeitos atendidos pelo Circo Social vieram de um contexto de rua, onde a
convivência com o sentimento de não fazer parte da sociedade é evidente e deteriora, dia após dia, a
sua autoestima. Como apontado por Freire (1987) a autodesvalia é uma das características dos
oprimidos, esses que por terem ouvido repetidamente que não são capazes e que nada podem fazer,
acabam se convencendo de sua incapacidade.
No Circo Social as atividades desenvolvidas se direcionam a desconstruir essa crença no
indivíduo e a estimulá-lo a criar uma consciência de suas potencialidades e do seu papel político frente
à sociedade para que ele possa aprender a ser.
Através da linguagem circense o sujeito descobre que é capaz de aprender:
Gente criativa, talentosa, corajosa. Algumas delas nunca estiveram em
situação formal de aprendizagem do que quer que fosse, não sabem nem
aprender. Porque, para aprender, tem que aquietar o corpo, prestar atenção,
parar de agredir quem está por perto; tem que esperar sua vez; tem que evitar
acidentes; tem que tomar banho. Tem que se sentir confiante e respeitado – e
aprender a aprender. (CADERNO DE SISTEMATIZAÇÃO, 2003, p. 41)
Porém no Circo Social não basta aprender a aprender, é necessário também aprender a fazer,
pois é a partir da prática que o processo de aprendizagem é construído, e fazer numa coletividade onde
a interdependência entre todos do grupo se torna importante.
Assim sendo, é possível afirmar que, através da linguagem circense, o Circo Social, contribui
para o desenvolvimento integral do indivíduo, pois ao propiciar a aprendizagem de várias capacidades,
estes além de reconhecerem as suas possibilidades individuais, aprendem a refletir e a trabalhar em
grupo para superar mais facilmente os desafios.

CONCLUSÃO
O presente artigo buscou indicar elementos que contribuem na educação dos sujeitos atendidos
pelo Circo Social. Inicialmente, corrobora-se que o Circo Social auxilia sujeitos da classe popular a
reconhecerem as suas potencialidades e a criarem novas perspectivas para futuro, utilizando o circo
como pedagogia alternativa.
Demonstrou-se que no Ciro Social, o trabalho por meio da arte inclui a participação em três
grupos distintos quais: Básico, Intermediário e Avançado e marcou-se que a linguagem circense
propicia o desenvolvimento capacidades e habilidades, tais como, atenção, concentração, autonomia,
que auxiliam na aprendizagem de conteúdos escolares.
Sucessivamente, asseverando que a linguagem circense propicia o desenvolvimento de
aspectos seja físicos, sociais, emocionais que cognitivos no sujeito, afirmou-se que essa leva ao
desenvolvimento do ser integral. Por fim, evidenciou-se que o desenvolvimento integral é um
complexo que envolve os campos afetivo, físico e cognitivo numa relação de interdependência e que
no Circo Social existe um espaço profícuo para o desenvolvimento todos esses aspectos.
REFERÊNCIAS
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BARBOSA, Ana Mae. Perspectiva para o novo milênio: ver, fazer, contextualizar. Revista Viver
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DELORS, Jaques (Org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão
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GALLO, Fabio Dal. Da rua ao picadeiro: Escola Picolino, arte e educação na performance do
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HOTIER, Hugues. La fonction educative du cirque. Paris: armattan, 2003.
MACEDO, Cristina Alves de. Educação no circo: crianças e adolescentes no contexto itinerante.
Salvador: Editora Quarteto, 2008.
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A educação e o circo social Cristina Macedo

  • 1. A EDUCAÇÃO E O CIRCO SOCIAL Cristina Alves de Macedo Graduada em Pedagogia pela Universidade Católica do Salvador (UCSal). Mestre em Estudo de Linguagens pela Universidade do Estado da Bahia (UNEB). Artigo apresentado durante o evento XIV Semana de Mobilização Científica (SEMOC) – UCSal em 2011. ISSN: 2177-272X. RESUMO: O presente artigo trata sobre a educação no Circo Social expondo como sujeitos da classe popular são educados através da linguagem circense, demonstrando a existência de grupos distintos de formação. Abordam-se sobre o desenvolvimento cognitivo, destacando que as técnicas circenses propiciam o desenvolvimento de capacidades e habilidades que auxiliam na aprendizagem de conteúdos escolares. Por fim, discute-se sobre o desenvolvimento integral evidenciando que os campos cognitivo, afetivo e motor encontram no Circo Social espaço profícuo para o seu desenvolvimento em conjunto. Palavras-chave: Circo Social; Educação; Desenvolvimento Integral. INTRODUÇÃO O mundo do circo sempre envolveu e fascinou as pessoas por suas demonstrações de habilidosos artistas que, utilizando a linguagem circense, desafiam os próprios limites e levam o público a experimentar as mais diversas emoções. Porém, atualmente, a utilização da linguagem circense não se limita ao desenvolvimento da técnica para apresentação de um brilhante espetáculo, mas se estende também a outros âmbitos, quais, o da educação e da busca de uma transformação social, por meio do Circo Social. O Circo Social, modalidade de circo que utiliza a linguagem circense como instrumento de inclusão social, atua com uma pedagogia alternativa de educação, que se direciona a ajudar sujeitos da classe popular a adquirirem a cidadania. Neste artigo, trata-se sobre a educação no Circo Social, tecendo considerações sobre como sujeitos da classe popular são educados através da linguagem circense e como esta contribui para o desenvolvimento do indivíduo como ser integral, demonstrando, por fim, que a linguagem circense contribui para o desenvolvimento de competências e habilidades que auxiliam na aprendizagem de conteúdos escolares. EDUCAÇÃO E LINGUAGEM CIRCENSE A proposta do Circo Social de educar utilizando a linguagem circense se insere em um projeto de educação não alfabetizante, que objetiva auxiliar sujeitos da classe popular na construção de sua subjetividade e contribuir para a sua inserção na vida social. Com esse fim, são associados fundamentos teóricos e práticos que visam incentivar crianças, adolescentes e jovens a reconhecerem suas potencialidades para que assim possam criar novas perspectivas para o futuro. Destarte, as teorias desenvolvidas por Paulo Freire, um educador pernambucano que estudou profundamente assuntos referentes à educação popular, se tornam uma referência expressiva para os projetos de educação que atuam na perspectiva de inclusão. No Circo Social, suas considerações sobre
  • 2. a liberdade da opressão através de uma educação libertadora mediada pelo diálogo são pontos importantes que colaboram com a proposta de auxiliar o sujeito na construção de sua autonomia. Freire (1987) ao se referir à liberdade da opressão indica a necessidade de uma pedagogia que possa proporcionar situações que levem o sujeito a libertar-se de sua condição de oprimido e que contribua para a sua emancipação. Mas, como sinalizado pelo próprio Freire (1987), para poder libertar-se, o sujeito precisa querer lutar para libertar-se e isso só acontece quando ele consegue compreender a sua indigência e rebelar-se contra ela. Dito isto, é interessante evidenciar que os seres humanos, como sujeitos sociais, precisam conhecer a si e ao seu próprio contexto para poder fazer uma leitura consciente desse universo; assim, o Circo Social, utilizando a arte como elemento mediador, busca inserir o sujeito na ação sócio-educativa criando situações que o levem a compreender a sua realidade e sirvam de estímulo para que este venha a transformá-la. Porém, é preciso destacar que a opressão vivenciada por muitos sujeitos nasce de uma situação de violência advinda de um contexto de desigualdade social. Ademais, os homens são produtos e produtores dessa realidade e, portanto, transformá-la é uma tarefa histórica dos homens, o que só acontece após o indivíduo reconhecer quem é o seu opressor e se empenhar no sentido de uma mudança. No circo social essa busca por mudança acontece em todos os momentos, sendo visível principalmente no momento do desenvolvimento das atividades, as quais se direcionam não apenas a ensinar a técnica circense, mas também a fazer com que os seus atendidos reconheçam as suas potencialidades. Com essa finalidade, são desenvolvidas atividades que, a partir do trabalho corporal, propendem levar os indivíduos a criarem primeiramente uma compreensão política dos seus direitos, individuais e coletivos, a qual gerará, por consequência, a compreensão dos próprios interesses revelando a criatividade singular. O homem pode mudar a realidade social, mas essa não se modifica por si só ou por interferência do destino; o reconhecimento de suas necessidades e interesses, e o de uma coletividade, o levará a trabalhar para que essa mudança aconteça. Vygotsky (1999) relata que o comportamento dos homens é construído a partir da interação entre o indivíduo e o ambiente, sendo ele produto e produtor destas interações, portanto, as diferentes experiências derivadas do contexto em que os indivíduos estão inseridos influenciam na maneira com que estes enxergam o mundo à sua volta. Assim sendo, o aprendizado advindo de práticas sociais, em um trabalho coletivo que leva em consideração as experiências individuais, contribui para o desenvolvimento do sujeito permitindo, também, a ajuda recíproca. Vale destacar que o trabalho desenvolvido pelo Circo Social colabora para que o sujeito se desenvolva, proporcionando um âmbito de mutua cooperação. O trabalho no Circo Social compreende, fundamentalmente, a participação em três diferentes grupos de formação, quais: Básico, Intermediário e Avançado. No grupo Básico, o ensino das técnicas acontece de maneira lúdica, sendo ressaltado o aprendizado global do aluno, visualizando, sobretudo, o processo vivenciado. A participação neste grupo implica o vínculo com a escola formal e para fazer aula de circo os alunos têm que estar não apenas matriculados, mas também frequentando as aulas. Com o intuito de orientar e ajudar os atendidos em questões referentes à escola, acompanhar o seu desenvolvimento e dar suporte às eventuais dificuldades que porventura possam se apresentar, uma equipe que integra o setor pedagógico realiza o Acompanhamento Escolar. Esse acompanhamento se estende aos outros grupos. No grupo Intermediário, direcionado aos alunos que já adquiriram os conhecimentos básicos sobre as técnicas circenses, enfatiza-se o treino com a finalidade de preparação técnica e rendimento individual, incluindo-se novas atividades como música, dança e teatro.
  • 3. O curso Avançado, que pode ser denominado de curso de Instrutor, de Instrutor de Circo Social, de Educador Social, visa à formação de multiplicadores da ação educativa através da “Artecirco-educação”. O sujeito formado neste curso recebe a instrumentalização necessária para inseri-se no mercado de trabalho, sendo habilitado a trabalhar com Educador Social. Vale ressaltar que no circo, o trabalho desenvolvido com escopo social através das técnicas circenses também cumpre um papel importante no desenvolvimento de capacidades cognitivas. ATIVIDADES CIRCENSES E DESENVOLVIMENTO COGNITIVO As linguagens artísticas contribuem no processo de aprendizagem de crianças, adolescentes e jovens, por estas incentivarem o desenvolvimento de várias capacidades, inclusive, capacidades cognitivas. A arte estimula a interação entre os sujeitos propiciando a relação destes com o meio, o que faz da arte um valioso instrumento para estimular as relações interpessoais e, em efeito, a interação social. No Circo Social os elementos da “metodologia triangular” sugeridos por Barbosa (2006) encontram um espaço profícuo para o seu desenvolvimento, visto que o ensino das técnicas circenses acontece unindo a prática, a contextualização e a apreciação de obras de arte. No Circo, os sujeitos praticam as técnicas circenses seja de forma lúdica que como forma de trabalho, mas no momento da preparação do espetáculo todos são convidados a trazer sugestões de temas que podem ser usados para apresentar o espetáculo de final de ano. De tal modo, os alunos de todos os grupos, e também os instrutores/educadores, contribuem com propostas de assuntos advindos do seu cotidiano para desenvolver o tema escolhido, o que transforma o espetáculo por eles produzidos em uma verdadeira performance. Macedo (2008), no livro Educação no Circo, ressalta que a contextualização do espetáculo de circo, envolvendo o desempenho artístico, faz de modo que todo o processo artístico propicie o aprimoramento de sentidos ampliando a imaginação, esta que além de ser o substrato para criação de uma obra de arte, auxilia os indivíduos na resolução de problemas cotidianos. A apreciação de obras de arte pode acontecer tanto no momento dos ensaios para preparação dos espetáculos, como em excursões a teatros e a outros circos; nestes momentos, a comparação entre as diferentes técnicas, números e posturas, favorece a construção de um senso crítico, em relação ao próprio desempenho artístico e ao do outro. A interação nesse contexto torna-se um elemento importante, a qual, por se estabelecer de maneira horizontal através da contraposição e integração de assuntos e do reconhecimento de que cada um tem algo a contribuir para a aprendizagem do grupo, se caracteriza em um processo dialógico. A linguagem, sendo a base da interação, se torna para o sujeito um instrumento que pode ser usado como um meio para inserir-lo na sociedade, diminuindo, por consequência a desigualdade social e a distância entre as várias culturas. Soares (1967, p. 16) a esse respeito relata que “[...] a linguagem é o principal produto da cultura, e é o principal instrumento para a sua transmissão”. No Circo Social, através da linguagem circense, expressada principalmente por meio da linguagem não-verbal, o indivíduo pode explorar várias sensações e sentidos, experimentar as possibilidades e os limites do seu corpo o que colabora para uma educação estética que abrange os âmbitos da percepção e da cognição. Deve-se pensar que: “A arte é uma maneira de despertar o indivíduo para que este dê maior atenção ao seu próprio processo de sentir. [...] A arte ainda é um fator de agilização de nossa imaginação, pois na experiência estética a imaginação amplia os limites que lhe impõe cotidianamente a intelecção” (DUARTE Jr. 1996 p 66-67).
  • 4. A finalidade educacional com que é ensinada a linguagem circense, portanto, propicia a geração de mudanças significativas no sujeito; entretanto o efeito benéfico da aprendizagem das técnicas se expande a outros âmbitos e contribui também na aprendizagem de conteúdos escolares. Barbosa (2005) aponta que os sujeitos que praticam atividades artísticas apresentam melhores resultados na escola formal, pelo fato que a arte mobiliza os processos cognitivos. Hotier (2003), pesquisador que estudou o poder educacional das técnicas circenses, afirma que as crianças egocêntricas, tímidas, apavoradas, inibidas, podem desbloquear a psique em conjunto com as suas evoluções motoras. A título de exemplo do potencial das técnicas circenses far-se-á referência aqui a algumas técnicas. Para aprender malabarismo, o sujeito deve desenvolver habilidades motoras de coordenação entre o lado direito e esquerdo do corpo e visão periférica. Após a ultrapassagem desse primeiro desafio, o sujeito precisa desenvolver a capacidade de concentração e aprender a lançar os objetos em diferentes velocidades, o que o levará a aprender a lidar com o ritmo. Neste contexto, a persistência se torna elemento fundamental, pois nenhuma pessoa aprende a ser malabarista sem nunca deixar a clava cair no chão, daí entra em jogo a questão do erro. O malabarista aprende com o erro, portanto cada erro deve ser transformado em motivação para continuar a treinar, superar a dificuldade e aprender novos truques. No aprendizado da acrobacia o sujeito deve condicionar os músculos do corpo para a realização de movimentos complexos que envolvem as capacidades de equilíbrio e de flexibilidade. Ele deve adquirir noções de tempo e espaço, ser apto a tomar decisões de forma autônoma e imediata, além de desenvolver uma consciência corporal e a capacidade de lidar com o imprevisto e com risco. Sobre este ponto, Gallo (2009, p. 190) comenta pertinentemente que [n]o Circo Social, confronta-se o risco real da vida cotidiana com o risco do fazer circo. A diferença está no fato de que, através do circo, se arrisca para ser melhor, para aprender, para educar, para se mostrar e se estupefazer; atua-se, então, para transformar o risco em educação, formação, inclusão; cria-se um lugar que estimula o corpo a superar o medo do novo e a procurar novos perigos ligados a mudanças sociais. A arte da palhaçaria ensina a lidar com o ridículo e ajuda o sujeito a conhecer a si mesmo e a reconhecer os seus medos e desejos, por trabalhar a capacidade de colocar em exposição os seus erros e defeitos. Dito isto, é possível afirmar que as capacidades e habilidades desenvolvidas através da linguagem circense contribuem para o desenvolvimento cognitivo do sujeito e auxiliam, por conseguinte, na aprendizagem de conteúdos escolares, por nelas estarem envolvidos elementos que são úteis e propiciam o aprendizado. Observa-se, portanto, que a linguagem circense revela-se uma prática propiciadora de experiências que levam ao aprimoramento de capacidades relacionadas com o desenvolvimento do indivíduo em seus múltiplos aspectos, ou seja, um desenvolvimento integral. A LINGUAGEM CIRCENSE E O DESENVOLVIMENTO INTEGRAL Ao tratar sobre o desenvolvimento integral é interessante considerar as pesquisas desenvolvidas por Bloom (1973, 1976), um educador americano que visou compreender os processos de aprendizagem e descrever os campos cognitivo, afetivo e motor.
  • 5. Segundo os seus estudos, que foram realizados em conjunto com uma equipe de colaboradores, a aquisição de competência em cada um desses campos parte do princípio que o indivíduo começa a aprender a partir dos conhecimentos mais simples para depois aprender os conceitos mais complexos. No que se refere ao campo cognitivo ele elencou seis etapas a serem vivenciadas antes de o indivíduo alcançar o completo domínio desse campo, quais: conhecimento, compreensão, aplicação, análise, síntese e avaliação. Para o domínio afetivo, foram estabelecidas cinco categorias: percepção, resposta, avaliação, organização de valores e internalização. Segundo Marcos Telles (2005) a pesquisa realizada por Bloom e sua equipe, por fim, não foi concluída, sendo a parte sobre o desenvolvimento motor explorada por outros pesquisadores, a exemplo de A. Harrow, o qual propôs para este campo seis níveis de classificação: reflexos, movimentos básicos, habilidades de percepção, habilidades físicas, movimentos aperfeiçoados e comunicação não verbal. Apesar de concordar com o princípio da proposta de Bloom a qual afirma que o indivíduo possui três distintas áreas que precisam ser desenvolvidas, deve-se considerar que o conceito de ser integral e, consequentemente de educação integral, parte do pressuposto que as esferas do domínio afetivo, cognitivo e motor não encontram seu verdadeiro equilíbrio desenvolvendo-se de forma separada, mas sim em conjunto. Como sinalizado por Papalia (2000), o desenvolvimento cognitivo depende do desenvolvimento físico, o qual por sua vez depende do desenvolvimento psicossocial, e as mudanças nessas esferas podem afetar o desenvolvimento completo do sujeito por existir uma relação de interdependência entre elas e, portanto, cada um delas afetar as outras. Diferentemente de como estabelecido por Bloom (1973, 1976), que concebe o desenvolvimento das capacidades do sujeito de forma separada, o Circo Social atua buscando desenvolver todas as capacidades do indivíduo de maneira integrada, utilizando a arte como propulsora da aprendizagem, neste caso a linguagem circense. Pela arte e, portanto, pelo circo, o sujeito descobre a sua capacidade de sentir, criar e, em se tratando da técnica circense, também as capacidades corporais. Assim, o circo permite explicitar a capacidade criativa que faz parte do ser humano e traduzir aquilo que está escondido dentro do seu íntimo. O sujeito aprende a exprimir-se e a interagir melhor com o mundo que o circunda. Quando se pensa em uma educação propiciadora do desenvolvimento integral, é interessante marcar que esta precisa criar situações que estimulem o sujeito a ter uma nova visão da sociedade, do outro e de si mesmo, oportunizando, desta maneira, uma visão do todo. Uma educação integral busca despertar no sujeito entusiasmo em fazer continuamente novas experiências junto aos outros e, portanto, de aprender de forma colaborativa, sendo a contribuição de todos os integrantes de grande valia para o crescimento do grupo. Como apontado por Di Nubila (2005), grupo e indivíduo não são polaridades incompatíveis entre si, existindo uma osmose contínua onde o sujeito constrói a sua identidade pessoal, a sua autonomia, a partir do confronto com os grupos sociais. Por assim dizer, cada singular indivíduo dentro de um grupo encontra nos outros um suporte para a própria individualidade e a razão para a sua existência, pois, deles deriva a construção da sua subjetividade. A construção da subjetividade pelo indivíduo é um processo que requere constante interação com o mundo exterior, e é essa interação que o levará à descoberta de suas necessidades e possibilidades, o que se constitui em uma autodescoberta.
  • 6. Neste ponto encontra-se uma ligação com os quatro pilares da educação descritos por Delors (2001): aprender a fazer, aprender a conhecer, aprender a ser, aprender a viver juntos, esses que no Circo Social tornam-se suporte teórico de sua atuação. Muitos dos sujeitos atendidos pelo Circo Social vieram de um contexto de rua, onde a convivência com o sentimento de não fazer parte da sociedade é evidente e deteriora, dia após dia, a sua autoestima. Como apontado por Freire (1987) a autodesvalia é uma das características dos oprimidos, esses que por terem ouvido repetidamente que não são capazes e que nada podem fazer, acabam se convencendo de sua incapacidade. No Circo Social as atividades desenvolvidas se direcionam a desconstruir essa crença no indivíduo e a estimulá-lo a criar uma consciência de suas potencialidades e do seu papel político frente à sociedade para que ele possa aprender a ser. Através da linguagem circense o sujeito descobre que é capaz de aprender: Gente criativa, talentosa, corajosa. Algumas delas nunca estiveram em situação formal de aprendizagem do que quer que fosse, não sabem nem aprender. Porque, para aprender, tem que aquietar o corpo, prestar atenção, parar de agredir quem está por perto; tem que esperar sua vez; tem que evitar acidentes; tem que tomar banho. Tem que se sentir confiante e respeitado – e aprender a aprender. (CADERNO DE SISTEMATIZAÇÃO, 2003, p. 41) Porém no Circo Social não basta aprender a aprender, é necessário também aprender a fazer, pois é a partir da prática que o processo de aprendizagem é construído, e fazer numa coletividade onde a interdependência entre todos do grupo se torna importante. Assim sendo, é possível afirmar que, através da linguagem circense, o Circo Social, contribui para o desenvolvimento integral do indivíduo, pois ao propiciar a aprendizagem de várias capacidades, estes além de reconhecerem as suas possibilidades individuais, aprendem a refletir e a trabalhar em grupo para superar mais facilmente os desafios. CONCLUSÃO O presente artigo buscou indicar elementos que contribuem na educação dos sujeitos atendidos pelo Circo Social. Inicialmente, corrobora-se que o Circo Social auxilia sujeitos da classe popular a reconhecerem as suas potencialidades e a criarem novas perspectivas para futuro, utilizando o circo como pedagogia alternativa. Demonstrou-se que no Ciro Social, o trabalho por meio da arte inclui a participação em três grupos distintos quais: Básico, Intermediário e Avançado e marcou-se que a linguagem circense propicia o desenvolvimento capacidades e habilidades, tais como, atenção, concentração, autonomia, que auxiliam na aprendizagem de conteúdos escolares. Sucessivamente, asseverando que a linguagem circense propicia o desenvolvimento de aspectos seja físicos, sociais, emocionais que cognitivos no sujeito, afirmou-se que essa leva ao desenvolvimento do ser integral. Por fim, evidenciou-se que o desenvolvimento integral é um complexo que envolve os campos afetivo, físico e cognitivo numa relação de interdependência e que no Circo Social existe um espaço profícuo para o desenvolvimento todos esses aspectos.
  • 7. REFERÊNCIAS BARBOSA Ana, Mãe. Arte/Educação Contemporânea: consonâncias internacionais. São Paulo: Cortez, 2005. BARBOSA, Ana Mae. Perspectiva para o novo milênio: ver, fazer, contextualizar. Revista Viver Mente e Cérebro, São Paulo, Segmento-Dueto, n.6, p.16-21, 2006. BLOOM, Benjamin S. Taxonomia de objetivos educacionais; domínio cognitivo. Porto Alegre: Globo, 1973. BLOOM, Benjamin S. Taxonomia de objetivos educacionais; domínio afetivo. Porto Alegre: Globo, 1976. Caderno de sistematização do Almanaque Picolino. Salvador, BA. Escola Picolino de Artes do Circo, 2003. DELORS, Jaques (Org.). Educação: um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI. Tradução: José Carlos Eufrázio. São Paulo: Cortez; Brasília: MEC; Unesco, 2001. DI NUBILA, Renato Domenico. Dal Gruppo Al gruppo di Lavoro. Padova, Itália: Ed. Multimediale, 2005. DUARTE JR., João Francisco. Por que arte-educação? São Paulo: Papirus, 1996. FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. GALLO, Fabio, Dal; Macedo Cristina Alves de. Il Circo Sociale. Macerata: Edizioni Simples. 2008. GALLO, Fabio Dal. Da rua ao picadeiro: Escola Picolino, arte e educação na performance do circo social. 2009. 336 f. Tese (Doutorado em Artes Cênicas), Programa de Pós-Graduação em Artes Cênicas, Universidade Federal da Bahia, Salvador. HOTIER, Hugues. La fonction educative du cirque. Paris: armattan, 2003. MACEDO, Cristina Alves de. Educação no circo: crianças e adolescentes no contexto itinerante. Salvador: Editora Quarteto, 2008. PAPALIA, Diane E.; OLDS, Sally Wendkos; FELDMAN, Ruth Duskin. Desenvolvimento humano. Porto Alegre: Artmed, 2000. SOARES, Magda. Linguagem e escola: Uma perspectiva social. São Paulo: Ática, 1986. TELLES, Marcos. A Taxonomia de Bloom. 2005. Disponível http://www.dynamiclab.com/moodle/mod/forum/discuss.php?d=436. Acesso em: 23 dez. 2009. VIGOTSKY, Lev Semenovich. Psicologia da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1999. em: