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a arte de
re ar
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Cãmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)
Marinho, Robson Moura
A arte de pregar: como alcançar o ouvinte pós-moderno
/ Robson Moura Marinho 2.' ed. rev. e ampl.
- São Paulo: Vida Nova, 2008.
Bibliografia.
ISBN 978-85-275-0391-4
1. Cristianismo 2. Pregação 3. Teologia pastoral
I. Título.
97-0494 CDD-149.9
Índices para catálogo sistemático:
1. Pregação: Cristianismo 251
2. Pregação: Homilética : Cristianismo 251
a arte de
re ar
edição revisado e ampliado
Como alcançar
o ouvinte
pós-moderno
Robson M. Marinho
o_
V1DANOVA
Copyright © 2007 Edições Vida Nova
1". edição: 1999
Reimpressões: 1999,2000,2001,2002,2004,2006,2007
2.a edição revisada e ampliada: 2008
Reimpressão: 2009
Publicado com a devida autorização e com todos os direitos reservados
por SOCIEDADE RELIGIOSA EDIÇÕES VIDA NOVA,
Caixa Postal 21266, São Paulo, SP, 04602-970
www.vidanova.com.br
Proibida a reprodução por quaisquer meios (mecânicos, eletrônicos,
xerográficos, fotográficos, gravação, estocagem em banco de
dados, etc.), a não ser em citações breves com indicação de fonte.
ISBN 978-85-275-0391-4
Impresso no Brasil
COORDENAÇÃO EDITORIAL
Marisa Lopes
REVISÃO
Mariú Lopes Madureira
REVISÃO DEPROVAS
Ubevaldo G. Sampaio
COORDENAÇÃO DEPRODUÇÃO E
PROJETO GRÃF1CO
Sérgio Siqueira Moura
DIAGRAMAÇÃO
Kel1yChristine Maynarte
CAPA
Osiris Rodrigues IOM Designers Gráficos
Sumário
Prefácio do autor à primeira edição 11
Prefácio do autor à segunda edição 13
Introdução 15
primeira parte
o ouvinte
Capítulo 1
Capítulo 2
Capítulo 3
Capítulo 4
Tipos de ouvintes e de pregadores 21
O ouvinte concreto-seqüencial ou "metódico" 26
O ouvinte concreto-randômico ou "prático" 30
O ouvinte abstrato-seqüencial ou
"intelectual-filosófico" 33
O ouvinte abstrato-randômico ou "emocional" 36
Visões de mundo do ouvinte Pós-moderno 41
Do Classicismo ao Pós-Modernismo 42
A pregação bíblica em diferentes Eras 47
Características do Pós-Modernismo 51
Temas bíblicos para o Pós-Modernismo 59
Senso de culpa versus amor 60
Autoridade versus experiência 64
Salvação versus pluralismo 67
Comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos .. 75
Interatividade mental e interatividade verbal 77
Pregação narrativa e o uso de histórias 79
Abordagem jornalística 85
Filmes. vídeos e videoclipes 86
Drama e arte 89
6 • o arte de pregar
segunda parte
o pregador
Capítulo5 Comopregar sem atrapalhar o culto............................ 95
Sermões que atrapalham o culto................................. 96
Capítulo6 Qualidades do pregador 103
Capítulo7 Aproveite o medo 109
Comolidar com o medo 110
A psicologia do medo 115
Capítulo8 O audiovisual do pregador 119
Expressãocorporal...................................................... 120
A importância da voz 121
terceira parte
a comunicação
Capítulo9 Oratória secular e oratória sacra 129
Elementosda oratória................................................. 131
Capítulo10 Comoevitar o sermão sem rumo 135
Características do corpo do sermão 137
A arte de esboçar 141
Capítulo 11 Comoescolher um tema atraente 145
Conheça seu objetivo 146
Conheça seus ouvintes 146
Conheça seu assunto 153
Capítulo 12 Sermõesvisíveise invisíveis 155
A necessidade de ilustrar 156
O efeito das ilustrações 158
Fontesde ilustração 158
sumório .7
Características da boa ilustração 160
Tipos de ilustração....................................................... 161
Capítulo 13 Uma questão de estilo................................................. 165
Segredos de um bom estilo 166
O treinamento do estilo 171
O estilo e a forma literária 172
O estilo no púlpito 174
quarta parte
a mensagem
Capítulo 14 O milagre da pregação 179
O milagre das palavras 180
Capítulo 15 Teologia da pregação 183
A palavra: essênciada pregação 183
O imperativo da pregação 186
Pregação e missão ao longo da história 187
Capítulo 16 Tipos de sermão 191
O sermão temático 193
O sermão textual........................................................ 197
O sermão expositivo 200
Capítulo 17 O poder do sermão expositivo 201
Diferenças entre o textual e o expositivo 202
Vantagens do método expositivo 202
Desvantagens do método 203
A importância da pregação expositiva 204
O falso sermão expositivo 205
Característicasdo sermão expositivo 206
Enfrentando a dificuldade do texto 207
Comoorganizar o sermão expositivo 209
8 • a arte de pregar
Capítulo 18 O tesouro escondido no texto 213
Ferramentas de trabalho 215
Princípios de interpretação 216
Como escolher um texto 218
Passos na interpretação do texto 220
Capítulo 19 Os primeiros cincominutos do sermão 225
Características da boa introdução 226
O que evitar na introdução 230
Tipos e formas de introdução 232
Capítulo20 Os últimos minutos do sermão 239
Partes da conclusão 240
Cuidados na conclusão 241
Sugestões sobre a forma de concluir 243
Capítulo21 Comoaplicar sem complicar 247
Características da boa aplicação 248
Passos para uma boa aplicação 250
Tiposde aplicação 251
O momento da aplicação 256
Epílogo 259
Apêndice 1 Exemplo de sermão expositivo missionário 261
Apêndice 2 Exemplo de sermão expositivo biográfico 267
Bibliografia 273
Dedico esse livro aos ouvintes de todas as idades, de todas as raças, de
todas as culturas, de todos os tipos de personalidade, de todas as religiões, e de
todas as ideologias filosóficas. A todos aqueles que honram e prestigiam os
pregadores com sua presença e audiência!
Prefácio do autor à primeira edição
D
izem os cientistas do humor, parafraseando Lavoisier, que "Nada se
perde, nada se cria, tudo se copia." Por isso, escrever um livro é quase
uma frustração, já que ninguém consegue ser original e apresentar idéias
completamente novas. Até mesmo quando achamos que tivemos uma idéia
brilhante, se pesquisarmos bem, acabamos descobrindo que alguém um dia já
pensou e escreveu sobre aquilo. Como diz um pensador: O problema é que
"Os antigos roubaram as nossas melhores idéias".
De fato, a nossa desvantagem é ter vivido depois de Sócrates, Platão e Aris-
tóteles, que já pensaram tudo que os seres humanos tinham direito de pensar no
campo da cultura geral. E no campo da Teologia, depois de Moisés, Salomão, Cris-
to, Paulo eJoão, sobra pouco ou nada para inovar. Aliás, foi o próprio Salomão
quem disse que "não existe nada novo debaixo do Sol" (Ec 1.9).
Mesmo assim, ainda nos damos ao trabalho exaustivo e desgastante de
escrever um livro. Como disse alguém se referindo à dolorosa obra de escrever:
"Um livro é um parto do espírito". Ou como disse Salomão: "Não há limite
para fazer livros, e o muito estudar é enfado da carne" (Ec 12.12).
Como não há muito de original a acrescentar, este livro é uma pesquisa
baseada no que se escreveu de bom no campo da comunicação e da pregação
bíblica. Nossa intenção é ajudar os amantes da pregação bíblica a terem uma
ferramenta a mais de trabalho nessa sublime tarefa, que é a exposição da Pala-
vra. A novidade fica por conta de umas poucas experiências pessoais vividas
em 18 anos de ministério pastoral, lidando com pregação e com ouvintes de
todos os tipos.
Nosso desejo é partilhar com os leitores algumas idéias práticas que deram
resultado em nosso trabalho, as quais esperamos que sejam úteis para outros. Foi
com essa intenção e com o fascínio causado pela beleza do texto bíblico que
surgiu este livro:AArte dePregar. Bom proveito!
Prefácio do autor à segunda edição
O
S tempos mudam, os costumes mudam, os ouvintes mudam. O ou-
vinte de hoje não é o mesmo de cinco ou dez anos atrás. Como resul-
tado do crescimento assustador no volume de informações e da rapi-
dez no desenrolar dos acontecimentos, ouvintes e auditórios hoje estão em
constante mutação.
Em 1998, Rowley' afirmou que o volume de informação disponível à
humanidade dobrava a cada setenta e três dias. Um recente estudo da IBM2
fez
uma projeção de que, no ano 2010, o volume de informação digital no mundo
duplicaria a cada onze horas. Qualquer que seja a margem de erro dessas pro-
jeções, esses dados ilustram a rapidez como as mudanças ocorrem hoje, o que
exige do comunicador uma atualização dinâmica e constante. Em decorrência
dessa avalanche de informações e acontecimentos, o mundo muda diariamente,
o conhecimento muda diariamente, a cultura social muda diariamente, o estilo
de vida muda diariamente, e, mesmo sem perceber, a cabeça das pessoas muda
quase que diariamente também.
Em virtude dessas mudanças quase supersônicas, o pregador não pode
mais se acomodar e buscar no arquivo um sermão que fez sucesso há cinco ou
dez anos, esperando que esse sermão cause hoje o mesmo impacto que causou
no passado. Pelo contrário, é muito provável que esse mesmo sermão seja total-
mente irrelevante hoje. Alguém poderia argumentar que a Bíblia permanece a
mesma sem ser afetada pelas mudanças. Com certeza, isso também é um fato.
Contudo, com a mudança de contexto, a maneira de as pessoas encararem a
Bíblia muda, o que, portanto, exige uma mudança na forma de comunicação
1 Rowley, D. J., Lujan, H. D., & Dolence, M. G. (1998). Strategic choicesfor the academy:
How demand for lifelong learning will re-create higher education, p. 63.
2 Cf. LaMonica, Martin, "IBM software boosts info on demand", em: http://
www.news.com/2100-7345_3-6159025.html?part=rss&tag=2547-1_3-0-20&subj=news,
acessado em 29 de novembro de 2007.
14• o arte de pregar
com aspessoas, na abordagem da mensagem bíblica, na aplicação prática da men-
sagem, bem como nos exemplos e ilustrações.
Diante de tantas mudanças, houve a necessidade de atualização do con-
teúdo da primeira edição deste livro a fim de analisar a pregação bíblica numa
perspectiva mais contemporânea. Embora muitos princípios básicos de comuni-
cação e pregação permaneçam válidos no decorrer do tempo, a forma de abor-
dagem do assunto e o contexto da pregação mudam completamente, exigindo
a revisão de alguns conceitos e a inclusão de novos exemplos. Foi por isso que
sentimos a necessidade de fazer um acréscimo ao conteúdo anterior, além de
atualizar e revisar os conceitos e idéias de todo o livro.
E foi assim, com a intenção de proporcionar ao leitor uma ferramenta
mais atual e mais eficiente na pregação da mensagem bíblica, que surgiu esta
segunda edição. Conservamos os princípios básicos e acrescentamos informa-
ções novas, com a revisão de cada capítulo e a inclusão de uma seção inteira de
análise dos diferentes tipos de ouvinte, da sua nova visão de mundo, da sua
mentalidade na Era Pós-Moderna e das estratégias para alcançá-los. Espera-
mos que o novo cardápio traga um sabor diferente, ajudando-o no preparo de
alimento bíblico nutritivo com o tempero da atualidade. É com alegria que
apresentamos a você, leitor, a nova edição de A Arte de Pregar, com um enfoque
especial sobre como alcançar o ouvinte pós-moderno. Bom apetite!
Introdução
E
m fevereiro de 2006, tive a alegria de participar do Seminário Avança-
do de Liderança do Instituto Haggai, em sua sede mundial em Cinga-
pura. Foram trinta dias de treinamento intensivo com representantes
de vários continentes do mundo inteiro. Éramos duas turmas com cerca de
quarenta participantes cada. Nosso grupo de brasileiros consistia de cinco cole-
gas.Juntos representávamos o Brasil e buscávamos aplicar ao contexto brasileiro
os conceitos aprendidos.
Na cerimônia de formatura, nossa turma teve o raro privilégio de ter como
paraninfo o próprio Dr.John Edmund Haggai, fundador e presidente do insti-
tuto. Foi inspirador perceber que os cabelos grisalhos e o corpo cansado não
diminuíam o entusiasmo e a vibração desse grande evangelista pela pregação
bíblica. Em seu discurso, Dr. Haggai partilhou um pouco da sua história pes-
soal. Desde a infância, ele sonhava em ser um missionário na China, inspirado
pela biografia de grandes missionários como Hudson Taylor e William Carey.
Com esse objetivo, começou sua carreira pastoral nos Estados Unidos, dedi-
cando-se em seguida a empreender cruzadas evangelísticas ao redor do país.
Mas quando estava pronto para começar seu projeto na China, o mundo
já era outro, bem diferente da sua infância ejuventude. O crescimento do Comu-
nismo em alguns países e o declínio do colonialismo ao redor do mundo fecha-
ram as portas aos missionários ocidentais, fazendo desmoronar o seu castelo
evangelístico. Outras mudanças políticas em diferentes países impuseram severas
restrições ao envio de missionários, limitando extremamente o trabalho dos
institutos de missões mundiais.
A princípio, ele ficou desolado, mas, em vez de se deixar abater pela frustra-
ção,John Haggai conseguiu enxergar que o mundo entrava numa nova era. Sur-
gia, então, uma nova visão de mundo, que exigia do ministério evangélico uma
nova mentalidade e um novo conceito de missão, com novas estratégicas para a
evangelização mundial. Movido por essa novavisão,John Haggai viajou ao redor
do mundo e, percebendo a necessidade de mudanças, fundou um instituto de trei-
namento. Seu objetivo não era enviar missionários estrangeiros, mas atrair líderes
16 • o arte de pregar
nacionais de diferentes países, treiná-los e enviá-los de volta a fim de que eles
treinassem os seus próprios conterrâneos para a pregação do Evangelho. E desde
1969, o Instituto Haggai tem treinado cerca de cinqüenta mil líderes e prega-
dores em 170 países da Ásia, África e América Latina.'
O Instituto Haggai é apenas um exemplo da necessidade de constante inovação
na forma de cumprir a missão de pregar o evangelho a todo o mundo. O campo
missionário tem mudado inúmeras vezes ao longo da história. Da mesma forma, a
pregação bíblica tem se adaptado às repetidas mudanças políticas e sociais de
diferentes épocas para continuar comunicando de maneira relevante a mensagem
de salvação a um mundo em constante mutação. A mesma mensagem bíblica,
pregada em praça pública na igreja primitiva e proclamada às escondidas na Era
Medieval, precisa hoje ser apresentada com igual relevância a ouvintes seculariza-
dos, mas igualmente carentes, que vivem bombardeados por uma infinidade de
estímulos característicos de nossa era digital!
Nesse contexto de mudanças, o pregador de hoje enfrenta os maiores desafios
da pregação bíblica em todos os tempos, à medida que desfruta de oportunidades e
recursos nunca vistos anteriormente. Os avanços da tecnologia proporcionam novos
veículos para a divulgação da mensagem bíblica. O acesso ao vídeo e à televisão
coloca a pregação bíblica facilmente disponível em diferentes canais de TV, acessí-
veisem qualquer ambiente residencial ou comercial. No entanto, ao mesmo tempo
que ampliam o espaço da pregação, essasoportunidades aumentam também a res-
ponsabilidade de primarpela qualidade na apresentação da mensagem bíblica a fim
de que esta cause impacto em todas as camadas sociais e culturais.
Além do vídeo, o pregador de hoje também dispõe de recursos eletrônicos
sem precedentes. A própria Bíblia, outrora monopolizada pelo formato impresso,
hoje seencontra disponível em formato digital e acessívelem programas de compu-
tador ou via on-line, podendo o leitor acessá-la em computadores portáteis como:
notebooks; minicomputadores de bolso como as avançadas agendas eletrônicas; os
pa!mtops;b!ackberries; e outros produtos mais avançados. Pregadores e ouvintes
hoje podem acessar a Bíblia on-line em qualquer idioma e fazer pesquisas on-line
1 Instituto Haggai do Brasil.
Website: http://haggai.com.brldrhaggai-biografia.php.
introduçõo _ 17
em concordâncias bíblicas,comentários bíblicos,dicionários e enciclopédiasbíblicas.
Além disso, também podem obter exemplos de esboços de sermões, ilustrações,
estudos bíblicos e muitos outros recursos, disponíveis gratuitamente.2
A conclusão é óbvia: embora o conteúdo da pregação seja o mesmo, o
pregador de hoje tem mais opções de apresentação e recursos de pesquisa que os
pregadores do passado. Contudo, nem por isso a pregação se torna mais fácil hoje.
Pelo contrário, é preciso lembrar que os mesmos recursos disponíveis ao pregador
estão disponíveis também ao ouvinte, o qual é hoje muito mais informado, mais
esclarecido e mais exigente que o ouvinte do passado. Isso requer do pregador
muito mais preparo e pesquisa a fim de apresentar sua mensagem de forma atra-
ente e relevante para seu ouvinte.
Os capítulos que se seguem pretendem ajudar o leitor a desenvolver essa
consciência dos desafios e das oportunidades da pregação bíblica nos dias
atuais, oferecendo algumas idéias para a apresentação de uma mensagem mais
relevante para o contexto em que vivemos. Os capítulos estão organizados em
quatro seções distintas. A primeira seção aborda o ouvinte de hoje no contexto
da Era Pós-Moderna e sua influência secular na mente e estilo de vida das
pessoas. A segunda seção é dedicada ao pregador e suas qualidades como pes-
soa e como profissional. Na terceira parte, o foco é a comunicação como fator
indispensável à transmissão da mensagem de forma clara, atraente e eficiente.
Finalmente, a quarta seção explora a mensagem em si, analisando o sermão
com sua estrutura e suas divisões principais, incluindo o método de preparo de
esboços e o desenvolvimento do tema em relação ao propósito do texto bíblico.
Esperamos que as idéias aqui discutidas possam ajudá-lo na apresentação
de uma pregação relevante, em meio ao secularismo e à pluralidade de idéias
que bombardeiam os diferentes tipos de ouvinte deste terceiro milênio!
2 Alguns websites de Bíblia on-line em português são: http://www.bibliaonline.net/; http:/
/www.bibliaworldnet-util.locaweb.com.br/biblia/; http://www.pregador.com.br/online.htm.
primeira parte
o ouvinte
Capítulo 1
Tipos de ouvintes e de pregadores
"Nuncapensoem meusouvintes como expectadores,
esim comoparceiros."
ATOR JIMl'v1Y STEWART
A
s pessoas são diferentes. Os ouvintes são diferentes. Os pregadores são
diferentes. Cada ouvinte tem um estilo diferente de aprender e de absorver
a mensagem. Por outro lado, cada pregador tem um jeito diferente de
apresentar a mensagem de acordo com seu tipo de personalidade e estilo pessoal.
Essa pluralidade de estilos e personalidades torna difícil e complicada a tarefa do
pregador e comunicador. Por isso, dificilmente um pregador vai atrair e causar
impacto em todos os ouvintes, assim como é praticamente impossível um ouvinte
apreciar todos os tipos de pregadores. Cada ouvinte tende a se sentir atraído pelos
pregadores cujo "tipo", ou "forma" de apresentar a mensagem "se encaixa" ou com-
bina com seu estilo de aprendizagem. Em outras palavras, para comunicar com
eficiência, precisamos ter uma compreensão das diferenças individuais dos ouvin-
tes e preparar a mensagem de tal maneira a atingir diferentes tipos de ouvintes.
Muito se tem escrito sobre os atributos de personalidade que distinguem
comunicadores e líderes. Algumas teorias no passado propunham que um certo
conjunto de características determinava o sucesso ou o fracasso da pessoa em
certas áreas específicas. Em liderança, por exemplo, a conhecida teoriados traços
22. o ouvinte
sustentava que a pessoa já nasce com um tipo físico, mental e psicológico que as
torna líderes ou liderados.1
Diversas teorias têm sido propostas para explicar os diferentes tipos de per-
sonalidade e estilos de aprendizagem. No entanto, devido à grande complexidade
do ser humano, não existe nenhuma teoria absoluta, mas diversas pesquisas em
psicologia sugerem diferentes modelos que descrevem os estilos de aprendizagem
e tipos de personalidade.
Ultimamente tem se tornado muito popular o teste de personalidade MBTI
(Myers-Briggs Type Indicator), que classifica a personalidade em quatro pares
opostos de características. De acordo com essa teoria, derivada da psicologia
de Jung, cada pessoa possui uma combinação peculiar dessas diferentes caracte-
rísticas que determinam sua personalidade. Em resumo, os quatro pares opostos
de características são:
Extrovertido
Sensorial
Racional
Julgador!Analista
ou
ou
ou
ou
Introvertido
Intuitivo
Sentimental
Perceptivo/Observador
Diferentes combinações dessas várias características resultam em 16 tipos
diferentes de personalidade, que descrevem como as pessoas se comportam em
diferentes situações, quer seja no trabalho, nos relacionamentos, na vida fami-
liar, no aspecto afetivo, na vida pessoal e assim por diante.'
O modelo de personalidade mais antigo foi proposto por Hipócrates (cerca
de 460 - 370 a.Cv), médico grego, considerado o pai da medicina, que classifi-
cava a personalidade humana em quatro temperamentos básicos conhecidos
como: sangüíneo, fleumático, colérico e melancólico. Como Hipócrates ba-
seou seu modelo em observação informal e imaginação de diferentes fluidos
circulando em cada pessoa sem nenhum critério de experimentação científica,
1 Marinho, Robson, e Oliveira, Jayr, Liderança: uma questão de competência, p. 4.
2 Kroeger, O., Tuesen,J., Rutledge, H, Type Talk ai Work.
tipos de ouvintes e de pregadores _ 23
sua teoria tem tido pouca receptividade nos meios acadêmicos e científicos. Mes-
mo assim, devido à sua natureza prática e simples, esse modelo tornou-se muito
popular até hoje, oferecendo uma descrição bastante informal do comportamento
das pessoas. Em resumo, essa teoria classifica os temperamentos de acordo com as
seguintes qualidades e defeitos dominantes, entre outros:
• Sangüíneo: comunicativo, alegre, falante, animado, carismático, extro-
vertido, instável, inseguro, explosivo, exagerado, altamente emotivo.
• Colérico: ativo, prático, decidido, produtivo, rápido, corajoso, controla-
dor, competitivo, impaciente, agressivo, intolerante.
• Fleumático: calmo, tranqüilo, pacífico, diplomático, paciente, gentil,
introvertido, frio, calculista, indeciso, passivo, desmotivado.
• Melancólico: intelectual, organizado, sensível, leal, perfeccionista, inse-
guro, vingativo, altamente sentimental.
Na realidade, todas essas teorias da personalidade descrevem diferentes
aspectos do comportamento humano. Todas as pessoas possuem traços e com-
portamentos que podem ser descritos em diferentes modelos, qualquer que
seja o nome da teoria. Em outras palavras, seria inconsistente dizer que uma
teoria é mais correta que a outra ou discutir qual delas é a melhor. Alguns
modelos são mais elaborados e possuem testes validados por pesquisa acadêmica.
Esta proporciona ao teste um resultado de maior credibilidade, de acordo com o
referido modelo. Contudo, isso não significa necessariamente uma superioridade
do modelo em si.
Em suma, todas essas teorias tentam retratar e explicar a realidade e complexi-
dade do comportamento humano. Diferentes teorias oferecem diferentes perspec-
tivas ou diferentes ângulos pelos quais a personalidade pode ser observada e analisada.
N o entanto, na prática, o verdadeiro teste de personalidade é a pessoa conhecer a si
mesma, analisando seu próprio comportamento e tornando-se consciente de sua
própria maneira de ser e de suas próprias tendências. A finalidade desse autoconhe-
cimento é levar a pessoa a assumir sua própria personalidade e a desenvolver-se o
máximo possível dentro de suas características pessoais, sem tentar imitar o compor-
tamento ou a "personalidade" de outra pessoa.
24. o ouvinte
Como a pregação tem a ver diretamente com comunicação e aprendizagem
da mensagem, julgo ser mais útil para o nosso propósito analisar apenas um
modelo de estilos de aprendizagem, que nada mais é do que um modelo de
personalidade aplicado à aprendizagem.
Novamente existem dezenas de modelos de estilos de aprendizagem pro-
postos por diferentes teóricos como Kolb, Gregorc, Gardner, Herrmann, Felder,
e assim por diante.? Em todos esses modelos, há vantagens e desvantagens, uns
são mais detalhados, outros mais gerais, uns mais simples, outros mais comple-
xos,uns mais práticos, outros menos práticos. Pela sua simplicidade e praticidade,
vamosimaginar um grupo de ouvintes epregadores e analisá-lossegundo aperspec-
tiva do modelo de Estilos de Aprendizagem proposta por Gregorc. Com certeza,
essaperspectiva nos ajudará a entender melhor como variar o estilo de pregação de
maneira a atingir e alcançar diferentes tipos de ouvintes.
Anthony F.Gregorc, um psicólogo da Universidade de Connecticut, desen-
volveuum modelo que descrevequatro tipos de funcionamento da mente humana
ou'tipos de pensamento. De acordo com ele, todos nós exibimos todos os quatro
tipos, mas normalmente temos um ou dois preferidos como sendo a nossa maneira
predominante de funcionamento intelectual.
Segundo Gregorc, para que ocorra a compreensão e aprendizagem de
uma mensagem, a mente humana tem de perceber e processar a informação.
Esta é percebida de duas maneiras opostas: concreta ou abstrata. Por outro lado,
nosso cérebro tende a processar a informação em dois formatos também opos-
tos: o formato seqüenciale o formato randômico ou aleatório. Para melhor enten-
der esses tipos de pensamento, podemos descrevê-los da seguinte maneira:
oPensamento Concreto - Essa qualidade capacita as pessoas a perceberem
a informação diretamente por meio dos cinco sentidos: visão, olfato, tato, pala-
dar e audição. Por causa disso, elas geralmente lidam com a realidade de maneira
prática e óbvia, preferindo fatos a idéias e conceitos. São mais interessadas no
momento presente, pois para elas o que mais importa é o aqui e o agora, o que
é palpável e visível.
3 Marinho, Robson, How Faculty Learn to UseInstructional Technology:An Exploration of
Personal Experiences.
tipos de ouvintes e de pregadores _ 25
oPensamentoAbstrato - Essa qualidade mental permite que as pessoas visua-
lizem a informação mesmo que ela não seja apresentada em dados claros e nítidos.
Pessoas com essa forma de pensar têm facilidade de conceber idéias e entender
temas que não são claramente visíveis, pois tendem a utilizar mais a imaginação e
a intuição para captar as idéias.
o Pensamento Seqüencial- Essa forma de pensar habilita as pessoas a pro-
cessarem e organizarem a informação recebida de maneira linear, passo a passo,
colocando em seqüência uma idéia após a outra. Essas pessoas tendem a seguir
uma ordem lógica para facilitar a compreensão e geralmente gostam de traçar um
plano em vez de agir por impulso.
oPensamento Randômico - O termo "randômico" é utilizado para descrever
o comportamento aleatório que ocorre por acaso e por impulso. Esse termo é novo
na língua portuguesa, e é uma palavra inglesa de origem francesa. O Novo Dicio-
nário da Língua Portuguesa, de Aurélio Ferreira, em sua primeira edição (1975),
define a palavra randômico com o significado de aleatório,ou seja, ao acaso, aciden-
tal." Em edições posteriores, acrescenta randomização como sinônimo de aci-
dentaiização? Houaiss, por sua vez, além dos dois termos citados, já registra o
verbo randomizar, incorporando, assim, à língua portuguesa esse anglicismo." Por-
tanto, para manter a semelhança com a terminologia original, vamos utilizar a
palavra randôrnico em vez de aleatório.
Esse tipo de pensamento faz a pessoa processar e organizar a informação em
blocos distintos, sem nenhuma ordem particular a ser seguida. Pessoas com essa
forma de pensar têm facilidade de pular vários passos de uma seqüência e ainda
assim chegar ao resultado desejado. Quando têm de ler ou estudar um tema, por
exemplo, elas podem começar pelo meio, ou ler diferentes partes do tema, ou até
mesmo começar pelo final e depois ler o início. Geralmente não têm muita paciência
para planejamentos detalhados e preferem seguir o impulso do momento.
4 Ferreira, A.B.H, Novo Dicionário da Língua Portuguesa, 1975.
5 Idem, 2.a edição, 1986; e 3.a edição, 1999.
6 Houaiss, A., VILLAR, M.S, Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa,2001.
26. o ouvinte
Comojá foi mencionado, em todas aspessoas, há pouco ou muito de cada um
desses tipos de pensamento. Distribuindo esses tipos e combinando a forma de
percepção com a forma de processamento da informação, Gregorc propôs o que
chamou de quatro estilos mentais de ouvintes diferentes que determinam o tipo de
pensamento dominante de cada pessoa: o ouvinte concreto-seqüencial ou "metó-
dico"; o ouvinte concreto-randômico ou "prático";o ouvinte abstrato-seqüencial ou
"intelectual-filosófico"; o ouvinte abstrato-randômico ou "emocional".
Com base nesse modelo de Gregorc, Kathleen Butler também desenvolveu
uma aplicação pedagógica dos quatro estilos mentais demonstrando como com-
binar diferentes abordagens de comunicação de modo a atender à necessidade de
diferentes estilos de ouvinte." O modelo de Gregorc e as idéias de Buttler forne-
cem uma ferramenta bastante útil para ajudar os pregadores a lidar com diferen-
tes tipos de ouvintes. Portanto, utilizando esse modelo, vamos tentar visualizar
como se comportam os ouvintes com diferentes estilos mentais, a fim de poder-
mos ajudá-los a obter uma melhor compreensão da mensagem.
o ouvinte concreto-seqüencial ou "metódico"
O primeiro estilo mental que queremos analisar é o concreto-seqüencial. Os pes-
quisadores calculam que esse tipo de ouvinte constitui em média 30% da
população. Trata-se do estilo "pé no chão", altamente realista, racional e orga-
nizado. Na vida pessoal, esse tipo de pessoa costuma dedicar-se ao trabalho
intenso e ser bastante confiável. Na área profissional, geralmente se dá bem
como administrador, gerente ou professor, pois gosta de rotina e de uma vida
mais metódica e estruturada, com regras definidas, planejamento de cada ati-
vidade, prazos e horários fixos, bem como um roteiro a ser seguido, passo a
passo, com começo, meio e fim.
Na igreja, esse tipo de pessoa não aparece muito, mas faz as coisas acontece-
rem executando o que foi planejado, geralmente mais nos bastidores e no anoni-
mato. Como ouvinte, prefere temas racionais com idéias bem realistas, geralmente
relacionados com a vida cotidiana e suas implicações para a vida cristã, tais como:
7 Butler, Kathleen, Learning and Teaching Style: In Theory and Practice, 1986.
tipos de ouvintes e de pregadores _ 27
o relacionamento cristão, as lutas espirituais, o conforto e a orientação espirituais,
todos ilustrados com exemplos da vida real. Geralmente gosta de idéias organiza-
das por assunto e por ordem de prioridade. Sermões puramente teóricos ou abstra-
tos geralmente não atraem a atenção desse ouvinte. Pelo contrário, facilmente ele
perde a concentração ao ouvir temas sem relevância clara para a vida real. Quando
o pregador começa a falar, ele espera ver com clareza qual é a idéia central do
sermão e qual a seqüência dos argumentos. O melhor sermão para ele é aquele
que tem uma boa estrutura em que facilmente se percebem os três ou quatro
pontos principais do sermão. Sermões que aparentam ter mais de um foco ou
cujos argumentos e idéias não têm uma seqüência clara são uma verdadeira tortura
para esse ouvinte. Na realidade, ele se desliga do sermão com facilidade para pro-
teger-se da falta de estrutura.
Sermões muito sentimentais em que o pregador chora ou se emociona
em excesso geralmente são vistos por esse ouvinte como exagero ou como algo
fora da realidade. Considerando a ação prática mais importante que promessas
pessoais, esse ouvinte não é muito suscetível a se levantar em apelos. O pregador
pode demorar uma hora fazendo um apelo supercomovente e não ter o menor
efeito nesse tipo de ouvinte, pois ele dificilmente é levado pela emoção. Em toda
congregação, aquele que mais demora a se levantar em apelos é o ouvinte concreto-
seqüencial E algumasvezes,quando selevanta, o fazpor um motivo bem prático, ou
seja, só para não ficar "chato", já que todo mundo selevantou!
Não há dúvida de que a resposta ao apelo de um sermão vem do Espírito
Santo, mas como pregadores precisamos entender que o Espírito Santo atua dife-
rentemente e produz diferentes respostas em diferentes tipos de personalidade. O
ouvinte concreto-seqüencialprefere tomar uma decisão baseada na razão e na infor-
mação, com idéias claras, e não num apelo emocional. Além disso, para ele, a
resposta pode ser particular e não necessariamente pública. É muito importante
que o pregador faça o apelo. Contudo, em relação a esse ouvinte, o Espírito Santo
pode agir de forma diferente, atuando no nível sensorial, estimulando a percepção
espiritual e produzindo uma resposta baseada na convicção. Essa decisão geral-
mente é tomada em particular, sem nenhuma demonstração pública, muitas vezes
por meio de uma simples oração silenciosa. Por outro lado, como se trata de uma
pessoa muito realista e prática, geralmente quando toma uma decisão, esta tende
a ser genuína e, portanto, duradoura.
28. o ouvinte
o pregador que possui o estilo mental concreto-seqüencial ou metódico tem
facilidade de alcançar esse tipo de ouvinte, pois é lógico que ele vai preparar
um sermão dentro do mesmo estilo. Geralmente esse pregador começa a pre-
parar o sermão pensando no esboço e na seqüência das idéias. Ele precisa visua-
lizar antes uma ordem de argumentos mesmo que essa seqüência mude depois.
Com o esboço em mente, vai pesquisar o seu material em vários livros, analisar
diferentes textos da Bíblia, escolher uma idéia central dominante, fazer uma
lista de argumentos, selecionar três argumentos mais fortes e optar por uma
ordem de prioridade desses argumentos. Baseado nisso, vai definir a estrutura
final do seu sermão. Somente depois vai buscar ilustrações da vida real para
ennquecer a mensagem.
Por possuir um estilo mental organizado e metódico, geralmente esse pre-
gador vai apresentar sermões mais didáticos, com idéias claras e raciocínio fácil
de entender e acompanhar. Por outro lado, apesar da vantagem da clareza,
esses sermões correm o risco de se tornar monótonos ou de parecer uma aula
expositiva. Por isso, o pregador metódico precisa aprender a dar mais vida a
seus sermões. Apresentar uma mensagem com entusiasmo é o grande desafio
do pregador concreto-seqüencial.
Geralmente esse tipo de pregador não gosta muito de fazer longos apelos,
pois o seu estilo é mais baseado na convicção. Contudo, precisa aprender a alcan-
çar outros estilos mentais. Por isso, é importante saber variar seu método para
atingir diferentes pessoas, analisando o comportamento de cada tipo de ouvinte.
Da mesma forma, os pregadores que possuem outros estilos mentais precisam
conhecer o comportamento do ouvinte concreto-seqüencialpara desenvolver uma
estrutura com certa ordem lógica em seu sermão, mesmo que o sermão possua um
método mais livre ou um tema mais teórico. O uso de audiovisual, como filmes,
dramas com enfoque prático, ou músicas, geralmente exerce um efeito poderoso
nesse tipo de ouvinte, já que este possui uma forte sensibilidade sensorial e gosta
de imagens concretas e cenas ou objetos palpáveis.
Dentre os personagens da Bíblia, podemos perceber vários estilos mentais
dominantes. Um exemplo típico do estilo concreto-seqüencialé Lucas, autor do
Evangelho de Lucas e do livro de Atos dos Apóstolos. Ele é o típico escritor que
segue um enfoque prático e seqüência lógica. Já na introdução de seu evangelho,
ele explica claramente a Teófilo, seu ouvinte e destinatário, qual o propósito e o
tipos de ouvintes e de pregadores • 29
método que ele usou, fazendo questão de afirmar que fez uma pesquisa metó-
dica, ou seja, "uma acurada investigação" para apresentar uma narração e "uma
exposição em ordem" dos fatos a respeito da vida de Jesus (Lc 1.3).
Como o próprio Lucas informa, sua preocupação está voltada para "os
fatos que entre nós se realizararn" (Lc 1.1), ou seja, os eventos concretos e
práticos do ministério de Cristo. De fato, com um enfoque extremamente prá-
tico, Lucas é o evangelho das pessoas, dos oprimidos, dos pobres e dos despre-
zados pela sociedade. Ele estava preocupado com a realidade prática dos
marginalizados pela elite judaica: gentios, publicanos, mulheres, pastores de
ovelhas e os pobres em geral. Mais interessado nos temas práticos da vida
cristã e no povo mais simples, Lucas é o único escritor que menciona em seu
evangelho a visita dos pastores, a conversão de Zaqueu, o contraste entre o
fariseu e o publicano, a ingratidão dos nove leprosos, a restauração do filho
pródigo e a caridade do bom samaritano em seu evangelho.
Além disso, Lucas faz questão de ter uma seqüência lógica e definida. Por
isso mesmo, seu relato segue uma ordem cronológica, começando com os pobres
da Galiléia, ao Norte, ondeJesus foi aceito, até chegar à elite em Jerusalém, ao
Sul, onde Ele foi rejeitado. Na seqüência, Lucas não esquece de mencionar a
região de Samaria, bem no meio, entre a Galiléia e a Judéia. Aliás, Lucas é o
único dos evangelhos em que se relata o ministério de Cristo nessa região discri-
minada pelos judeus.
Lucas começa seu evangelho com os fatos anteriores ao nascimento de
Cristo - incluindo a predição e nascimento de João Batista - e continua toda a
seqüência até a ascensão do Salvador. Mas achando que a seqüência ainda não
está completa, Lucas escreve outro "tratado" a Teófilo, ou seja, o livro de Atos
dos Apóstolos. No início, faz questão de informar que Atos é a continuação do
"primeiro tratado", um relato dos fatos após a ascensão (Atos 1.1-2). Isso evi-
dencia ainda mais a sua preocupação com a seqüência dos fatos.
No livro de Atos, mais uma vez Lucas organiza o relato em ordem crono-
lógica, começando com a recapitulação da ascensão, para estabelecer a seqüên-
cia. Em seguida, narra o ministério dos apóstolos, primeiro em Jerusalém, depois
na Palestina e na Síria, com a pregação de Filipe, Pedro e João, e após a primeira
perseguição à igreja. Prossegue a história relatando a expansão do evangelho aos
gentios nas três viagens missionárias de Paulo. Em uma clara seqüência, apresenta
30. o ouvinte
como resultado dessasviagens a fundação de várias igrejas.Por fim, Lucas conclui
com a prisão de Paulo em Roma, no final de seu ministério.
Lucas é o típico pensador concreto-seqüencial. Observe que ele trabalhou
sempre no anonimato, não sendo mencionado nem mesmo nos livros que escre-
veu. Em nenhum momento, ele é descrito pregando um sermão para grandes
multidões, fazendo apelos ou batizando milhares de pessoas. Em todo o Novo
Testamento, Lucas é mencionado apenas três vezes, nas quais aparece saudando
as igrejas em companhia do apóstolo Paulo (CI4.14; 2Tm 4.11; Fm 24). Con-
tudo, sua ação é planejada e continuada, tendo sido o único a presentear a igreja
com uma história detalhada da origem e do desenvolvimento da igreja cristã pri-
mitiva. Sem ele, não saberíamos nada do surgimento das várias igrejas da Ásia
Menor e muito pouco sobre as viagens missionárias dos apóstolos.
Quando se colocam nas mãos de Deus, ouvintes e pregadores concreto-
seqüenciais podem oferecer uma contribuição silenciosa, mas de inestimável valor
à causa de Deus.
o ouvinte concreto-randômico ou "prático"
O segundo estilo mental é o concreto-randômico ouprático. Segundo pesquisado-
res, esse é o estilo dominante de aproximadamente 22% da população. Trata-se
do estilo "mãos à obra", que apresenta uma alta capacidade de resolver problemas.
Geralmente em situações de emergência, é o concreto-randômico que toma inicia-
tiva e assume a liderança de imediato em busca de soluções. Se alguém tem uma
crise de saúde inesperada ou um acidente, por exemplo, é o primeiro a socorrer.
Rapidamente dá ordens para que alguém chame a ambulância, enquanto ele
mesmo se empenha em socorrer a vítima. Na vida pessoal, não gosta de receber
ordens, embora tenha muita facilidade de dar ordens. Além disso, detesta rotina e
está sempre disposto a correr riscos em busca de resultados práticos. Como profis-
sional, geralmente se sai bem como empresário, diretor, etc. Muitos dos grandes
inventores possuem esseestilo mental dominante, já que tendem a ser criativos na
solução de problemas e gostam de agir pelo método de tentativa e erro até encon-
trar uma solução satisfatória.
Na igreja, esseouvinte costuma estar sempre em evidência e parece ser o mais
ativo. Geralmente está envolvido na direção de alguma atividade, quer seja um
tipos de ouvintes e de pregadores _ 31
projeto missionário, uma construção, reformas ou reuniões. Como ouvinte, gosta de
ouvir uma grande variedade de temas, mas tende a ter preferência por sermões
dinâmicos e com enfoque prático que expressem ação, tais como sermões missioná-
rios ou sermões sobre assuntos como: dever cristão, mudança de vida, e assim por
diante. Gosta de fatos concretos e práticos, com ênfase no dever e na ação. Não está
tão preocupado com a ordem ou seqüência das idéias. Quando o pregador começa o
sermão, esse ouvinte espera uma posição firme sobre o certo e o errado, o bem e o
mal; prefere o preto no branco, tudo ou nada. Em geral, não costuma ter muita
tolerância para lidar com a chamada "área cinzenta" da vida cristã, em que as deci-
sões podem depender do contexto ou de fatores culturais. Nesse caso, tende a ser
inflexível quando alguém apresenta uma posição contrária.
Por possuir um raciocínio independente e competitivo, esse ouvinte adora
assumir uma posição em temas polêmicos e está sempre disposto a defendê-la até
a morte! Geralmente não faz a menor cerimônia para discordar e divergir de
quem quer que seja. Por isso, é fã de sermões polêmicos, quer a opinião dele seja
contra ou a favor do pregador. Em ambos os casos, ele vai se envolver diretamente
com o sermão tanto para concordar como para discordar.
Ao ouvir o apelo de um sermão, esse tipo de ouvinte não tem a menor
dificuldade de responder publicamente e atender ao convite de ir à frente. Se
concordar com o sermão, estará pronto a entrar em ação e responder ativamente
ao apelo. Prático e rápido, não precisa de muito tempo para tomar uma decisão.
Pelo contrário, é provável que tome a decisão já durante o sermão, no primeiro
argumento forte do pregador. O apelo apenas dará a ele a oportunidade de expressar
essa decisão. Geralmente é o primeiro a levantar-se num apelo e não tem a menor
cerimônia em atender ao convite do pregador. Com esse tipo de ouvinte, o Espírito
Santo pode trabalhar no nível "motor", ou seja, no sentido de levá-los à ação e à
atividade, pois suas decisões são rápidas, ativas e práticas.
O pregador concreto-randômico ou prático tende a agir da mesma maneira,
apresentando mensagens com forte ênfase no dever e assumindo posições polê-
micas. Contudo, é importante esse pregador desenvolver uma certa flexibilidade
para lidar com diferentes tipos de ouvintes. Conforme a situação, o pregador pode
estimular o debate sobre um tema polêmico, mas é sempre prudente concluir admi-
tindo a interferência de diferentes fatores que podem influenciar na posição final.
Flexibilidade é o grande desafio para esse tipo de pregador.
32. o ouvinte
Em geral, esse tipo começa a preparar o sermão pensando numa aplicação
prática, antes mesmo de saber qual será o tema do sermão. Muitas vezes o
tema do sermão surge da aplicação que o pregador quer fazer. Com base nela,
ele busca o tema, as ilustrações e assim por diante.
O uso de ilustrações e recursos audiovisuais, por sinal, sempre exerce um
bom efeito sobre o ouvinte concreto-randômico. Aliás, esse é sempre um recurso
poderoso para qualquer tipo de ouvinte.
Talvez o exemplo mais característico de um personagem bíblico concreto-
randômico seja o apóstolo Paulo. Prático, decidido e independente, Paulo não
esperava que ninguém dissesse a ele o que devia fazer. Sua capacidade de deci-
dir e partir para a ação em busca de resultados fez com que ele se tornasse um
gigante nas mãos de Deus, capaz de fundar inúmeras igrejas e propagar o cristia-
nismo pelo mundo conhecido da época. Assim como Deus precisou do metódico
Lucas para relatar a história da Igreja primitiva, também foi buscar Paulo, o con-
creto-randõmico, fora da igreja, no momento em que Ele precisou de alguém foca-
do em resultados para expandir o cristianismo rapidamente pelo mundo. A rapidez
de Paulo para tomar decisões aparece no próprio momento de sua conversão.
Paulo começou a viagem a Damasco perseguindo a igreja e, após um encontro
com Cristo no meio do caminho, terminou a mesma viagemjá como um apóstolo.
Ao ouvir a voz de Cristo, observe que Paulo não pediu um argumento doutriná-
rio ou uma explicação teológica. Pelo contrário, sua pergunta imediata evidencia
preocupação com a ação e com o dever:"Senhor, que queres que eu faça?" Quando
Cristo respondeu, Paulo não pediu tempo para pensar. Alimesmo elejá selevan-
tou com a decisão tomada e partiu para a ação.
Típico desse estilo mental, Paulo às vezes era muito combativo, o que o
levou a ser inflexível com Pedro, por considerá-lo "repreensível" (GI 2.11).
Também foi inflexível com Barnabé e com Marcos, a ponto de se desentende-
rem e se separarem na segunda viagem missionária (At 15.37-40). Paulo tinha
dificuldade em tolerar o meio-termo e, como Marcos tinha renunciado ao
ministério uma vez, Paulo o considerava indigno para o ministério. Em outras
palavras, "ou tudo ou nada", bem típico do concreto-randômico,
Muito ativo, Paulo não sabia ficar parado, nem na prisão. Normalmente, um
concreto-randômico não consegue ficarparado muito tempo para escrever, por exem-
plo. Mas foi justamente na inatividade da prisão em Roma, uma tortura para
tipos de ouvintes e de pregadores _ 33
alguém como Paulo, que ele canalizou toda a sua energia para escrever, aprovei-
tando o tempo parado na prisão. Quando decidiu escrever, a capacidade de pro-
dução de Paulo o levou aescrevero maior número de epístolas do Novo Testamento.
Os escritos de Paulo são típicos de um concreto-randômico. Várias de suas
epístolas demonstram o estilo polêmico, próprio de um pensador combativo. A
epístola aos Romanos, por exemplo, é uma polêmica sobre a fé e as obras. A
primeira epístola aos Coríntios inclui uma extensa seção polêmica sobre deveres e
conduta cristã relacionados ao casamento, à pureza moral e ao comportamento na
igreja. Gálatas, por sua vez, é uma polêmica do começo ao fim sobre a lei e a graça,
e assim por diante. As outras epístolas revelam o cuidado e a orientação pastoral,
típicos de um pastor ativo e prático, que também sabia ser carinhoso e paternal
com suas ovelhas. Em suma, quando pregadores concreto-randômicos se colocam
nas mãos de Deus, não há limites para a capacidade de produzir resultados e
abençoar ouvintes de diferentes estilos mentais.
o ouvinte abstrato-seqüencial ou "intelectual-filosófico"
Embora muitas pessoas tenham um pouco desse estilo mental em maior ou me-
nor escala, os pesquisadores dizem que as pessoas que possuem o tipo abstrato-
seqüencial como dominante constituem apenas 8% da população. Ao contrário
dos dois estilos anteriores mais voltados para fatos concretos e práticos, o ouvinte
abstrato-seqüencial vive mais no mundo das idéias, com muita facilidade para
lidar com temas teóricos. Como bom intelectual, gosta de filosofar, bem como de
analisar e elaborar idéias e pensamentos rebuscados.
Na vida pessoal, é uma pessoa extremamente organizada e minuciosa, muitas
vezes com tendência ao perfeccionismo. Na área profissional, geralmente esse é
o estilo mental dos cientistas, pesquisadores, escritores, compositores e poetas.
Talvez o pequeno percentual desse estilo na população explique o fato de esses
profissionais não serem tão comuns na sociedade.
Na igreja, esse ouvinte representa o idealista que sempre sonha com uma
igreja perfeita em todas as áreas. De vez em quando, procura o pastor para
apresentar uma grande idéia. Geralmente as idéias são excelentes, mas algu-
mas vezes difíceis de se colocar em prática diante da realidade econômica e
cultural. Na maioria dos casos, é o intelectual da igreja, capaz de oferecer uma
34. o ouvinte
grande contribuição em textos devocionais, por exemplo, ou dirigir seminários
sobre profecias e temas doutrinários.
Como ouvinte, geralmente é o mais exigente e não se satisfaz com qual-
quer tipo de mensagem. Sermões com pouco conteúdo e organização ou prepa-
rados de última hora são um verdadeiro tormento para esse tipo de ouvinte. Sua
grande preferência são os sermões teóricos, de cunho teológico como, por exem-
plo: a natureza divino-humana de Cristo; a personalidade do Espírito Santo; o
processo de justificação; e assim por diante. Ao mesmo tempo, é fã de temas
doutrinários ou de temas que explorem profundamente o contexto histórico e
cultural do texto bíblico. Também gosta de profecia e exegese, e valoriza muito o
sentido original das palavras no grego e no hebraico.
Sermões com apelo não são o lado forte desse tipo de ouvinte. Por ter um
pensamento mais teórico, reluta em tomar uma decisão pública de imediato.
Geralmente precisa de tempo para refletir e analisar todos os aspectos da men-
sagem antes de tomar uma decisão. Essa reflexão é lenta porque ele tem um
raciocínio tipicamente analítico e gosta de organizar as idéias na mente para
ter certeza de que essa é a decisão certa a ser tomada. Por outro lado, costuma
levar muito a sério suas convicções e, se o sermão for convincente o bastante,
pode eventualmente responder a um apelo público.
Nesse ouvinte, o Espírito Santo pode atuar diretamente no nívelintelectual,
produzindo a decisãopor meio do raciocíniológicoe da análisedas idéias.Éimpor-
tante o pregador entender isso para poder alcançar esse tipo de ouvinte.
O pregador abstrato-seqüencialou intelectual-jilosófico vai se comportar de
forma semelhante a esse tipo de ouvinte e, portanto, tem facilidade de alcançá-lo.
Com certeza, a biblioteca desse pregador vai estar repleta de diferentes comen-
tários e dicionários bíblicos, enciclopédias, livros de História do Antigo e do
Novo Testamentos, bem como dicionários de grego e hebraico.Todas essas fon-
tes serão consultadas ou pesquisadas antes de escrever a primeira palavra do
sermão. Sua primeira preocupação ao preparar o sermão é encontrar uma grande
idéia. Enquanto esta não surgir, ele não conseguirá começar a elaborar o sermão.
Encontrada a idéia, ele então desenvolve um esboço. Geralmente o sermão terá
uma extensa parte sobre o contexto histórico e cultural, com muita informação
teórica. Por isso, esse pregador precisa aprender a adaptar sua mensagem para
outros estilos, pesquisando também algumas ilustrações práticas e colocando
tipos de ouvintes e de pregadores _ 35
um pouco de emoção em suas mensagens. Praticidade é o grande desafio do
pregador abstrato-seqüencial. Para atender a esse desafio, é muito apropriado o
uso de audiovisuais, dramas que misturem raciocínio e ação, e histórias sobre
aspectos práticos da vida cristã.
O estilo mental abstrato-seqüencial tem características bem específicas que
podem ser evidenciadas na vida do apóstoloJoão. Esse estilo intelectual aparece
nitidamente em seus escritos. Seu evangelho é totalmente diferente dos outros
três, considerados semelhantes e, por isso mesmo, chamados de sinóticos, que
significa "vistos em conjunto". Mateus, Marcos e Lucas concentram seus relatos
em fatos e eventos concretos do ministério de Cristo, tais como seus milagres,
parábolas e ensinos. O apóstoloJoão, ao contrário, vivia no mundo das idéias, do
pensamento abstrato. Embora apresente vários eventos do ministério de Cristo,
ele está mais preocupado com o significado teológico por trás desses eventos.
A diferença aparece desde o início. Enquanto os outros evangelhos começam
contando os incidentes relacionados com o nascimento de Cristo, João não está
tão preocupado com os fatos e nem sequer menciona o próprio evento do nasci-
mento em si. Pelo contrário, elejá começa o seu livro com uma dissertação teoló-
gica sobre a encarnação do Verbo divino. Enquanto os outros descrevem as cenas
deJesus nascendo de uma virgem, como um bebê numa manjedoura,João discute
o significado do Verbo que se tornou carne para habitar entre nós e salvar a huma-
nidade. Isso é típico de um intelectual de pensamento abstrato.
Da mesma maneira, ele faz questão de relatar: a teologia do novo nasci-
mento no diálogo com Nicodemos; a pré-existência de Cristo no debate com
os fariseus; a teologia da ressurreição final ao ressuscitar Lázaro; a teologia do
Espírito Santo como consolador; e assim por diante.
Assim, quando Deus precisou comunicar a revelação do Apocalipse, Ele
escolheu João, um pensador abstrato-seqüencial que certamente teria facilidade
para dissertar sobre os grandes temas proféticos e descrever minuciosamente os
detalhes das visõesproféticas que revelam a trajetória da igreja na profecia. Mesmo
em suas epístolas pastorais, João mistura a sensibilidade pastoral de seus conselhos
com conceitos teológicos como: o Verbo da vida; o amor de fato e de verdade; o
Advogado junto ao Pai; o novo mandamento; e assim por diante. É dessa forma
que João dilui a teologia em conselhos práticos para alcançar todos os estilos de
ouvintes. Qpando o pregador abstrato-seqüencialse coloca nas mãos de Deus, ele
36. o ouvinte
aprende como João a aplicar conceitos teóricos e temas intelectuais sob a forma de
conselhos práticos para ajudar os diferentes estilosde ouvintes.
o ouvinte abstrato-randômico ou "emocional"
o quarto estilo mental é bem diferente dos anteriores e parece constituir um
grande percentual da população, ou seja, cerca de 40% das pessoas possuem
esse estilo mental como dominante. Se o abstrato-seqüencial vive no mundo
das idéias, o abstrato-randômico vive no mundo das emoções. Como as emo-
ções são o critério básico que motiva as ações, seu comportamento tende a oscilar
entre diferentes pólos de acordo com os sentimentos e com o humor do momento.
Isso faz com que a organização e o compromisso não sejam a sua primeira priori-
dade. Pelo contrário, tanto na vida pessoal como no trabalho, seu ambiente tende
mais para uma certa desordem do que para a ordem e a estabilidade. O impor-
tante é o impulso do momento, as oportunidades do momento, as pessoas do
momento. É comum esse tipo de pessoa marcar dois ou três compromissos ao
mesmo tempo, e a decisão de em qual deles comparecer vai depender do que
estiver sentindo no momento. Geralmente é uma pessoa alegre que facilmente faz
os outros sorrir e se divertir.
Esse foco nas emoções e no momento presente faz desse ouvinte uma
pessoa altamente criativa. E a pessoa criativa tende a criar também suas pró-
prias regras e horários. Na vida profissional, tende a ser bem-sucedido como
artista ou vendedor, pois é dono do seu próprio tempo e tem uma enorme
facilidade de agradar e cativar outras pessoas.
Na igreja, o abstrato-randômico é o mais carismático e sempre gosta de
fazer festa. Geralmente é líder de atividades dos jovens e apresentador de pro-
gramas sociais e confraternizações.
Como ouvinte, tem uma enorme dificuldade de concentrar-se do começo ao
fim, especialmente se o sermão for muito teórico, sério e sem emoção. Quando o
pregador começa o sermão, elejá espera uma história engraçada, dramática ou sen-
timental. Se ela não vem, pode desconcentrar-se facilmente. Gosta muito de ser-
mões sentimentais e sempre tem disposição para sorrir ou chorar durante o sermão.
Quando o sermão cria um clima emocional, um bom apelo facilmente o
atrai e o leva à decisão. Muito sensível a um contexto sentimental, esse ouvinte
tipos de ouvintes e de pregadores _ 37
se comove facilmente e se sente à vontade para expressar sua decisão publica-
mente. Geralmente não tem nenhum constrangimento em atender ao apelo e
se dirigir à frente, muitas vezes se desmanchando em lágrimas. Provavelmente,
a grande maioria dos que respondem ao apelo em lágrimas pertence a esse
estilo mental. Com esse tipo de ouvinte, o Espírito Santo pode atuar no nível
afetivo, levando-os da emoção à ação.
Geralmente o pregador abstrato-randômico ou emocionalé o mais carismático,
com uma grande facilidade de atrair e agradar o público com mensagens dinâmicas,
histórias bem-humoradas e frases coloridas. É extremamente criativo e nunca lhe
faltam palavras para expressar e transmitir suas idéias. Consegue lidar facilmente
com asemoções e ter a congregação nas mãos, a ponto de levaros ouvintes do sorriso
àslágrimas. É mestre em histórias comoventes e tocantes, causando forte impressão
nos ouvintes. Quando esse tipo de pregador começa a preparar seu sermão, a pri-
meira coisa que lhe vem à cabeça é uma ilustração. Primeiro ele é movido pela
ilustração, sem saber ainda qual será o tema do sermão. Com base na ilustração, é
que surgirão o tema, o esboço, a aplicação e assim por diante.
Por ter muita facilidade com as palavras, àsvezes não se preocupa tanto em
investir o tempo necessário no preparo de mensagens mais consistentes. Aliás, é
nessa área que o pregador abstrato-randômico precisa crescer para alcançar outros
tipos de ouvintes, muitos dos quais não se satisfazem apenas com mensagens
sentimentais. Por isso, esse pregador precisa dedicar mais tempo ao estudo, em
busca de uma consistência mais sólida, para que seus sermões alcancem aqueles
que apreciam o raciocínio lógico, o estudo mais profundo e as mensagens mais
concretas. Disciplina própria é o grande desafio do pregador abstrato-randômico.
Dentre as ilustrações mais ricas para o pregador usar com o ouvinte abstrato-
randômico verificam-se histórias comoventes, imagens coloridas, dramas que en-
volvam cenas emocionais, entrevistas, testemunhos e, sobretudo, um clima de
celebração e louvor na adoração.
Um personagem da Bíblia que retrata quase com perfeição o estilo mental
abstrato-randômico chama-se apóstolo Pedro. Sua personalidade impulsiva e ins-
tável o fazia com freqüência oscilar de um pólo a outro como, por exemplo,
negando a Cristo três vezes na mesma noite em que estava disposto a morrer
por Ele, ou andando fervorosamente sobre as águas minutos antes de se afundar
nas profundezas do Mar da Galiléia, por causa de dúvida e falta de fé.
38. o ouvinte
No ministério, o apóstolo Pedro era o típico pregador abstrato-randômico.
Impulsivo na vida pessoal, era também o primeiro a discursar, quando percebia
uma oportunidade de evangelização, como no caso do dia de Pentecostes quando
a multidão se dividia entre admiração e crítica diante do fenômeno do dom de
línguas (At 2.14). Carismático e eloqüente, conseguia atrair multidões e man-
tê-las eletrizadas em seus sermões, como nesse caso do dia de Pentecostes.
Também não tinha a menor dificuldade em apelar aos ouvintes. Seus apelos
comoventes convidavam a multidão diretamente para o batismo (At 2.38),
sendo capaz de num só apelo levar três mil ouvintes ao batismo sob o poder do
Espírito Santo (At 2.41).
Sempre disposto a atender à necessidade presente e a seguir o impulso do
momento, Pedro não tinha muita paciência para sentar e escreverlongas cartas ou
mensagens teológicas, até porque o raciocínio intelectual não era o seu lado mais
forte. Mesmo assim, sua preocupação pastoral levou-o a escrever duas epístolas
que refletem bem o seuestilo mental. Primeiro, não conseguia gastar tempo escre-
vendo uma carta para cada igreja, como fizeram Paulo e outros autores. Por isso,
escreveu uma carta circular para todo mundo de uma só vez, como ele mesmo
indica na introdução: "Aosforasteiros da Dispersão, no Ponto, Galácia, Capadó-
cia, Ásia e Bitínia" (lPe 1.1). Ou seja, de uma sentada só ele escreveu para meio
mundo. A segunda epístola seguiu exatamente o mesmo padrão e também foi
produzida como uma carta circular "aos que conosco obtiveram fé", ou seja, foi
endereçada a todo mundo que um dia aceitou a mensagem de sua pregação.
Alguns comentaristas acreditam que o público da segunda epístola é exatamente
o mesmo da primeira, pois Pedro se dirige aos leitores afirmando que escrevia a
eles pela segunda vez (2Pe 3.1).
Por serem cartas circulares, o conteúdo logicamente não poderia ser muito
específico.Por isso,suascartas não têm um tema central único. São uma coleçãode
conselhos pastorais, o que é bem típico desse estilo mental, que procura atender à
necessidade percebida sem se preocupar muito com a elaboração de uma estrutura
temática centralizada. Por isso, seus conselhos abrangem: a fé; o comportamento
cristão;a cidadania exemplar; a lealdade; e o preparo para avolta de Cristo. Ou seja,
são temas gerais que se aplicam a todos os leitores ao mesmo tempo.
Finalmente, a curta extensão das epístolas também evidencia que Pedro
era mais produtivo em outras áreas de atividade do que na área intelectual ou
tipos de ouvintes e de pregadores • 39
editorial, pois a primeira epístola contém apenas cinco capítulos e a segunda,
apenas três capítulos. Como um abstrato-randômico animado e falante, Pedro era
um pregador de grande público e de mensagens comoventes, e não necessaria-
mente um grande escritor. Da mesma maneira, pregadores e ouvintes abstrato-
randômicos podem colocar-se nas mãos de Deus para servi-lo de acordo com seu
próprio estilo mental, buscando dentro do possível alcançar outros ouvintes, as-
sim como Pedro o fez através de suas curtas epístolas destinadas a todos os tipos
de ouvintes.
Em suma, esses quatro estilos mentais de ouvintes constituem apenas uma
tentativa de visualizar como a maioria das pessoas se comporta ao ouvir ou pre-
gar um sermão. Na realidade, cada pessoa é um universo complexo e esses qua-
tro estilos básicos poderiam ser subdivididos em inúmeras outras categorias. No
entanto, essa síntese de estilos mentais nos ajuda a entender melhor o comporta-
mento de ouvintes e pregadores, para abordar melhor a mensagem para diferen-
tes tipos de pessoas.
Além desses estilos, também podemos verificar a existência de inúmeros
fatores culturais influenciando a cabeça de todos os ouvintes. Essas influências
mudam com o tempo e contexto de diferentes épocas.Um exemplo dessasinfluên-
cias culturais nos dias de hoje é a chamada mentalidade pós-moderna, com sua
pluralidade de idéias e pontos de vista. Entender o que se passa na cabeça do
ouvinte pós-moderno é um grande desafio para qualquer pregador. É justamente
esse desafio que será discutido no próximo capítulo.
Capítulo 2
Visões de mundo do
ouvinte pós-moderno
"Nâs não vemos as coisas como elas são, e sim como nós somos."
PROVÉRBIO JUDEU
I
magine alguém que uma pessoa se ausentou da igreja durante muito tempo.
Trinta anos depois, ela resolve retornar e visitar novamente a mesma igreja
que freqüentara antes. Ao entrar no momento do culto, o que ela vai ver e
ouvir? Com certeza, ela vai ver rostos novos, pessoas diferentes, talvez mudan-
ças na decoração interior. Contudo, provavelmente o programa do culto será
basicamente o mesmo. Ela vai ouvir muitos dos mesmos hinos, o som do órgão
ou do piano, o canto do coral, e na seqüência virá um sermão provavelmente
não muito diferente do estilo de vinte anos atrás. O que isso nos diz? Alguma
coisa deixou de mudar. De fato o conteúdo da adoração e da mensagem é
bíblico, e, portanto, não deve mudar. Mas será que se pode dizer o mesmo do
formato? Será que um formato de pregação que foi consagrado como uma
bênção poderosa na vida de uma geração deve por isso permanecer inalte-
rado para todas as gerações posteriores? Essas perguntas são oportunas e
exigem uma reflexão e análise mais profunda. Essa análise será o tema dos
próximos parágrafos.
42 • o ouvinte
Do Classicismo 00 Pós-Modernismo
Richard Tarnas organiza cronologicamente a História Ocidental de acordo
com três visões de mundo associadas às três maiores eras que tradicionalmente
distinguem o pensamento ocidental, ou seja, a Era Clássica, a Era Medieval e
a Era Moderna.'
A Era Clássica
A Era Clássica começa com Homero e com a visão de mundo baseada na mito-
logia grega, com todo o humanismo incluído nas tragédias dos mitos gregos.
Depois, a Grécia se torna o berço da Filosofia, no final do século VII e início do
século VI, com Tales de Mileto e sua cosmologia buscando uma explicação natu-
ral para a origem do mundo e para as transformações da Natureza por meio da
observação e do raciocínio. Os elementos da Natureza como terra, água, ar e
fogo se tornam as fontes primárias de conhecimento. Em seguida, aparece Pitá-
goras, com seus estudos de matemática, música e movimento dos planetas, ao
mesmo tempo que continuava atraído pelo mistério dos deuses. Nessa evolução
da filosofia, surgem os filósofos sofistas, professores itinerantes que ofereciam
instrução intelectual e orientação prática para o sucesso nas atividades pessoais e
profissionais. Propunham a aplicação do racionalismo aos negócios humanos, à
política e à ética, promovendo uma espécie de transição entre a era do mito e a
era da razão prática. Segundo eles, o homem era a medida de todas as coisas.
No meio dessa tensão entre a tradição olímpica e o intelectualismo, surge
Sócrates, o primeiro grande filósofo, que, em contraste com o conhecimento
mitológico, propôs o autoconhecimento como a base de todo conhecimento,
por meio de sua famosa expressão "conhece-te a ti mesmo". Para Sócrates, a
virtude é o conhecimento obtido pela razão, e Deus é a razão perfeita e o fim
último da felicidade suprema do sábio.
Platão parte dos conceitos de seu mestre Sócrates e propõe a existência do
mundo das idéias por trás do mundo material, ou seja, o mundo visível seria
1 Richard Tarnas, ,The Passion ofthe Western Mind, p. 1-2.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno _ 43
apenas uma cópia imperfeita da realidade absoluta que é a idéia, a verdadeira
essência das coisas materiais. Para Platão, a idéia como essência escapa à per-
cepção dos sentidos, e descobri-la é o fundamento de todo conhecimento. Nesse
contexto, Deus é a idéia do bem absoluto e fonte de todas as virtudes e da
felicidade humana.
O discípulo e admirador mais ilustre de Platão foi Aristóteles. Contudo,
ao contrário de seu mestre, Aristóteles desenvolve a filosofia da realidade mate-
rial, baseada na observação fiel e metódica da Natureza e na lógica do pensa-
mento organizado para explicar os fenômenos visíveis. Para Aristóteles, Deus
é a mente pura, sem componente material. A felicidade é o fim supremo do
homem. E a virtude é a bondade e a prática do bem, em contraste com o mero
conhecimento do bem proposto por Sócrates e Platão.
Finalmente a Era Clássicavai culminar com a ascensãodo Império Romano
e o desenvolvimento do pensamento legal dos romanos, também derivado da
filosofia grega, mas com aplicações práticas ao comércio, à política, e à legisla-
ção da propriedade privada. Considerada como um bloco único, a civilização
clássica greco-romana floresceu e declinou no curso de aproximadamente mil
anos, dando lugar ao surgimento de uma nova visão de mundo: o cristianismo,
oriundo dos ensinos de um jovem líder judeu, Jesus de Nazaréf
A Era Medieval
O Cristianismo trouxe para o mundo pagão um novo senso de santidade da
vida humana, do valor espiritual da família, da superioridade espiritual do
altruísmo sobre o egoísmo, da santidade sobre a ambição, da bondade sobre a
violência, e do perdão sobre a vingança. O cristianismo também presenteia o
mundo com a nova perspectiva do amor cristão, totalmente diferente da visão
passional de Afrodite, deusa grega do amor e da beleza, ou de seu filho Eros,
deus do desejo sexual, os quais foram adaptados na mitologia romana como
Vênus e Cupido, respectivamente. Ao contrário da paixão grega, o amor cris-
tão propõe a compaixão bíblica, associada aos ideais sublimes da caridade, do
2 Richard Tarnas, ,The Passion oftbe Western Mind, p. 89.
44 • o ouvinte
serviço e do sacrifício pelo bem da pessoa amada. Essa nova visão de mundo
foi uma das maiores revoluções no pensamento humano ao longo da história.
E, por isso mesmo, dividiu a história em dois blocos distintos - antes e depois
de Cristo - estabelecendo a Era Cristã, também conhecida historicamente
como Era Medieval.
Mas, longe dos princípios cristãos, a Era Cristã-Medieval também teve
seu lado negro, marcado por intolerância, perseguição, violência, e disputas
pelo poder. Serve de exemplo a inquisição com a tortura dos dissidentes. Outro
exemplo desse lado sombrio são as famosas Cruzadas que começaram em 1096
d.C., na tentativa de libertar a cidade santa de Jerusalém do controle islâmico.
Ao todo foram oito cruzadas que, após batalhas sangrentas, terminaram ou
com sucesso parcial ou com derrota e completo caos. Segundo Black, é uma
das ironias da história o fato de mais de quatro séculos de guerra terem sido
dedicados a promover pretensamente os ensinos do Príncipe da Paz!'
Num sentido mais filosófico e cultural, pode-se dizer que a Era Medieval
parte do monoteísmo judaico com a divinização da História e se cristaliza com
a visão de mundo do cristianismo - incluindo os ensinos dos pais da igreja e
indo até o apogeu da Igreja Católica Romana, com o predomínio e a suprema-
cia do papado e dos dogmas da Igreja sobre a cultura e a ciência.
A cultura medieval foi marcada inicialmente pela filosofia patrística, ou
seja, pelos ensinos dos padres da igreja que buscavam disseminar o cristianismo
e defendê-lo dos ataques pagãos. Vivendo num ambiente profundamente influen-
ciado pela cultura grega, os padres serviram-se da filosofia e do raciocínio gregos
para esclarecer as verdades evangélicas e refutar, com as mesmas armas filosófi-
cas, as críticas dos pensadores pagãos. O maior filósofo desse período foi Agos-
tinho (354-430 d.C.), que seinspirou em Platão para afirmar: o dualismo cósmico
entre matéria e espírito; a existência do ego na alma humana; a predestinação
universal; e o pecado original como explicação para o sofrimento humano.
Após a queda do Império Romano em 476 d.C., com a deposição do
último imperador pelos bárbaros, pouco a pouco diminuem as guerras e invasões
e começa um período de maior estabilidade política e social na Europa. Isso
3 Jeremy Black, Encyclopedia ofWorld History, p. 286.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno .45
possibilitou que as escolas saíssem dos mosteiros, catedrais e palácios para flores-
cer nas cidades junto a escolas públicas e corporativas, chamadas escolas monás-
ticas que posteriormente deram origem à universidade no século XII. Todas
permaneciam sob o controle da igreja. Com essa expansão, surge a filosofia
escolástica, um movimento intelectual que cresceu nas escolas monásticas e
universidades. O maior filósofo escolástico foi Tomás de Aquino (1225-1274
d.C.), que, com base na filosofia e método de Aristóteles, buscou harmonizar
a razão com a fé, combinando a lógica com a tradição e valorizando a experiên-
cia sensorial na busca de evidências do mundo espiritual.
A Era Moderna
Finalmente, a Era Moderna começa com a Renascença e sua mudança radical no
campo da religião, da ciência, da filosofia, das artes e da literatura. Parece que tudo
começou ao mesmo tempo. Por um lado, a Reforma Protestante desafia a autorida-
de papal, com as 95 teses de Lutero em 1517, e lança as bases para o pensamento
independente e para a rejeição da autoridade religiosa absoluta. Por outro lado, na
mesma época, ao divulgar seus manuscritos em 1514, Copérnico começa a revolu-
ção científica com sua hipótese do heliocentrismo, ou seja, de que aTerra gira em
torno do Sol. Quase um século depois, em 1609, Kepler confirma a hipótese de
Copérnico ao estabelecer matemática e geometricamente a estrutura do sistema
planetário. No mesmo ano, o telescópio de Galileu amplia a compreensão do uni-
verso ao descobrir a existência da Via Láctea com sua incrível infinidade de astros
individuais. Faltava entender como é que todos essesastros se mantêm organizados
no universo. É aí que Isaac Newton descobre que a lei da gravitação universal sus-
tenta os astros fixosem suas órbitas ao redor de outros corpos celestes, completando
assim a revolução científica com a publicação de seus princípios pela Sociedade Real
de Londres em 1687.4
A Era Moderna também presencia a revolução filosófica, com o empirismo
e experimentalismo de Bacon e o racionalismo de Descartes, que forneceram
uma contribuição filosófica para o método científico como forma de adquirir
4 Richard Tarnas, op.cit, p. 248-271.
46 • o ouvinte
conhecimento por meio da observação experimental e soberania da razão. O
primeiro grande filósofo do período moderno foi René Descartes (1596-1650),
com seu conhecido método da dúvida. Segundo ele, duvidar de tudo e de todos
é o caminho para fazer o homem pensar. Assim, a única coisa de que a pessoa
não deve duvidar é a de estar constantemente duvidando, o que, na opinião dele,
é a mesma coisa que pensando. Esse raciocínio o levou à conclusão que gerou
sua famosa frase: "Penso, logo existo!" Ou seja, a única certeza de uma pessoa é
a existência de si próprio, e, para ter essa certeza, a pessoa deve pensar. Do con-
trário, a sua existência não será real. É evidente que Descartes ressaltou o grande
valor do pensamento humano. Contudo, levado a um extremo, esse raciocínio o
levou a definir a si mesmo como nada mais nada menos que uma mera "coisa
pensante", qualquer que seja essa coisa." Embora tenha o mérito de valorizar o
pensamento humano, esse conceito despreza outros atributos da pessoa humana,
tais como origem, destino, responsabilidade moral e natureza espiritual. O
Modernismo culmina com a visão de mundo do secularismo científico, entro-
nizando a razão acima da religião.
Depois de fazer a descrição dessas três eras, Tarnas conclui a sua abor-
dagem apresentando o que ele chama de transformação da Era Moderna, que
inclui a nova visão do ser humano e a influência do inconsciente desenvolvida
por Freud. Além disso, a autocrítica do próprio Modernismo representada
pelos filósofos como Locke, Hume e Kant, os questionamentos científicos
de Goethe, Hegel e Jung, e a visão existencialista de Sartre também abriram
caminho para essa transformação, isto é, para o desenvolvimento da menta-
lidade pós-moderna.
É importante ressaltar que qualquer divisão da História em "eras" ou
"visões de mundo" não é completa e não pode em si fazer jus à complexidade e
diversidade do pensamento ocidental ao longo de todos esses séculos. Por isso,
qualquer classificação tem principalmente uma função didática, tendo em vista a
organização do relato. Mas uma coisa parece clara: O pensamento grego influen-
ciou todas as eras posteriores, e os valores intelectuais gregos permanecem tão
relevantes hoje como no quinto século antes de Cristo. Em outras palavras,
5 James W. Sire, O Universo ao Lado, 2001.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno .47
nossa maneira de pensar até hoje ainda é profundamente grega em sua lógica
subjacente. Assim, para entender nossa própria mentalidade, precisamos levar
em consideração a maneira grega de pensar que revela: uma tendência ao estilo
curioso, inovador, crítico e cético ao que é convencional; uma busca de ordem
e significado; e, sobretudo, um dualismo no sentido da preocupação com os
opostos - vida e morte; matéria e espírito, e assim por diante." Esse pano de
fundo grego está por trás do pensamento humano em diferentes eras.
A pregação bíblica em diferentes eras
Analisando o pensamento religioso ao longo dos séculos, Ronald Allen divide a
cultura ocidental em trêserasdistintas que elechama de Pré-Modernismo, Moder-
nismo, e Pós-Modernismo." Allen começa sua abordagem após o surgimento da
Igreja Cristã, chamando de Pré-Modernismo todo o período da Idade Média
anterior à Era Moderna e discutindo o contexto religioso de cada período. Nos
tópicos abaixo, fazemos uma breve reflexão sobre os desafios da pregação bíblica
diante da realidade de cada época.
A pregação na Era Pré-Moderna
o Pré-Modernismo, no sentido religioso e filosófico, compreende o período
anterior ao Iluminismo que floresceu na Europa na metade do século XVIII.
No contexto do pensamento filosófico num sentido mais amplo, pode-se consi-
derar como Pré-Modernismo todo o período coberto pela Idade Média até a
Renascença. Trata-se de uma época caracterizada por um respeito incondi-
cional à tradição como principal fonte de autoridade e significado, a ponto
de o próprio pensamento científico ter de se submeter à aprovação da Igreja e
da tradição. Qualquer dissidência da autoridade da Igreja nesse período era
punida pela Inquisição, como foram os casos do cientista Galileu Galilei,
6 James W. Sire, O Universo aoLado, p.2.
7 R.J. Al1en,B. S. Blaisdell,& S. B.johnston. Theologyfor Preaching: Authority, Truth and
knowledge ofGod in a Postmodern Ethos, 1997.
48 • o ouvinte
condenado pela igreja por ensinar que aTerra girava em torno do Sol, e do refor-
mador Martinho Lutero, condenado por ensinar que a salvaçãoera obtida unica-
mente pela fé.
O autoritarismo desse período se refletia também na pregação bíblica. O
pregador pré-moderno simplesmente assumia a autoridade da Bíblia e da dou-
trina cristã como norma de vida, o que raramente seria questionado por alguém.
Os fiéis pautavam sua vida pelos ensinos da igreja e das autoridades religiosas.
O pregador não tinha de convencer as pessoas a aceitarem a Bíblia. Sua missão
era ensinar a Bíblia, e cabia ao ouvinte obedecer o que era ensinado. Autori-
dade era o foco da pregação bíblica.
A pregação na Era Moderna
Diferente do Modernismo artístico e literário do século XX, a chamada Era
Moderna começou com a Renascença e com o Iluminismo dos séculos XV11 e
XV1II, culminando com a Revolução Francesa em 1789, como reação ao tradicio-
nalismo da Era Pré-Moderna. Em contraste com o respeito à tradição, a Era
Moderna exaltou a ciência e a razão como fonte suprema de autoridade e único
caminho para o conhecimento da realidade. Em vez de a autoridade eclesiástica
ser o centro do universo, o homem passou a sê-lo. A fé e a razão tornaram-se
domínios opostos, separados e considerados incompatíveis.
Nesse contexto racionalista, qualquer informação para ser consideradaverda-
deira tinha de ser testada pela experimentação científica e comprovada pela
observação sensorial. O que não pudesse ser observado pelos sentidos não mere-
cia crédito. Conseqüentemente, como a Bíblia não podia ser testada em laborató-
rio, e suas histórias e milagres não eram observáveis, a Bíblia passou a ser tratada
com descrédito e desprezo pelo mundo intelectual e pela sociedade materialista
desse período. Era vista como um mero produto de superstição. Assim, o grande
desafio para o pregador na Era Moderna era ajudar o ouvinte a aceitar a credi-
bilidade da revelação bíblica e a crer: nos eventos sobrenaturais - como criação,
encarnação, ressurreição e ascensão -; e nas doutrinas - como salvação, fé, novo
nascimento, etc. A fé e a lógica doutrinária eram o foco da pregação bíblica, na
tentativa de unir a fé com a razão. Para conseguir essa combinação, a fé devia ser
apoiada por evidências da historicidade, veracidade dos eventos bíblicos e lógica
visões de mundo do ouvinte pós-moderno • 49
da argumentação doutrinária. Foi nesse período que se tornaram famosas asesca-
vações arqueológicas, com a finalidade de documentar e comprovar as evidências
científicas sobre a historicidade da Bíblia e do relato evangélico.
A pregação na Era Pós-Moderna
Mas o mundo cansou da lógica, do racionalismo e do materialismo científico da
Era Moderna. Pouco a pouco, a humanidade desencantou-se com a ciência ao
perceber que a lógica, a razão e o pensamento científico, em vez de resolverem os
problemas da humanidade, em certo sentido os agravaram. As pessoas parecem
estar cada vez mais inseguras, desditosas, ansiosas, violentas, infelizes e muitas
vezesdeprimidas diante de problemas insolúveis.A ciência e a tecnologia aumen-
taram o progresso material, mas o materialismo e o progresso não tornaram as
pessoas melhores ou mais felizes. Frustrada, a humanidade começou a perder a
crença nas promessas da ciência e parece estar perdendo a esperança de encontrar
algo seguro em que confiar. Com esse sentimento de desilusão, as pessoas se de-
cepcionaram com a ciência, a sociedade, as instituições, as regras e convenções
sociais. Começaram a voltar-se para dentro de si mesmas em busca de algo que
pudesse satisfazê-las de alguma maneira. E já que os fatores externos falharam,
provavelmente a própria pessoa é que tem condições de saber ou descobrir o que
é melhor para si mesma. Assim, cada um torna-se o ponto de referência para seu
próprio padrão de conduta ou crença.
Esse sentimento de vazio deixa as pessoas apáticas com relação a qual-
quer instituição ou tradição da sociedade. Essa atitude de não comprometi-
mento com tudo e com todos tem se refletido na literatura, na música, na
mídia, nos filmes, nos divertimentos, na vida social, na educação, na cultura e
na religião. Como essa é uma tendência social recente, os autores de diversas
áreas chamam esse movimento de Pós-Modernismo, numa tentativa de expli-
car esse fenômeno que tem mudado totalmente o estilo de vida das pessoas.
Claramente cresce cada vez mais o consenso de que o mundo já entrou numa
nova era cultural e social.
Mas o que é o Pós-Modernismo? O que significa tudo isso?Desde quando
surgiu o Pós-Modernismo? Essas sãoboas perguntas que não possuem respostas
claras.Segundo alguns autores, a origem do termo remonta aoinício do séculoXX,
so • o ouvinte
quando foiusado como referênciaàsnovastendências da época. Contudo, sópassa-
ria a descreveruma mudança no pensamento humano algumas décadas mais tarde.8
Allen afirma que vários elementos do Pós-Modernismo se formaram pouco
a pouco dentro do período moderno. Segundo ele, porém, o Pós-Modernismo
somente passou a seramplamente reconhecido como um novofenômeno cultural a
partir da década de 1970.9
james Sire oferece uma explicação sobre a origem do
termo nas seguintes palavras:
Considera-se que o termo Pós-Modernismo surgiu primeiro como uma referên-
cia à arquitetura, quando os arquitetos se distanciaram das formas simples e
sem adorno, das caixas de concreto impessoais, dos vidros e do aço para formas
complexas, esboçando motivos do passado sem relação com a sua proposta ou
função original. Porém, quando o sociólogo francês Jean François Lyotard utili-
zou o termo pós-moderno para sinalizar uma mudança na legitimação cultural, o
termo tornou-se uma palavra-chave na análise cultural. Em resumo, Lyotard
definiu pós-moderno como "a incredulidade voltada às metanarrativas."1O
Metanarrativa é um termo que Lyotard usa para se referir ao conceito de
história, quer seja regional ou universal, secular ou religiosa. Nesse contexto, o
Pós-Modernismo entende que não existe uma história única ou uma visão de
mundo única, mas cada pessoa ou cultura possui a sua própria versão da história e
da realidade, escolhendo a sua própria cosmovisão ou maneira de ver o mundo.
Em outras palavras, cada povo tem a sua própria história ou metanarrativa que
reflete a maneira como esse povo vê o mundo ou se vê perante o mundo. Da
mesma forma, cada religião ou denominação tem a sua própria visão da realidade,
construindo assim uma metanarrativa que reflete a sua cultura religiosa e preserva
os interesses do seugrupo religioso.Nesse sentido, como um produto cultural, toda
religião é igualmente boa e apropriada para a sua própria cultura, não havendo
8 Stanley Grenz, A Primer on Postmodernism, p. 15-16.
9 R.J. Allen, B. S.What does Postmodernism has to do with Preaching? In R. J. Allen, B.
S. Blaisdell, & S. B.Johnston, Theologyfor Preaching:Authority, Truth and knowledge rfGod in
a Postmodern Ethos, p. 17.
10 James Sire, W. op. cit., p. 214.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno _ 51
nenhuma religião que seja melhor ou superior a qualquer outra. Em outras pala-
vras, as chamadas metanarrativas podem ter um valor cultural e local, mas não têm
nenhuma validade universal e nenhuma credibilidade absoluta.
É nesse contexto que a Pregação Bíblica seencontra hoje. É esseo público que
ela busca alcançar. O grande desafio hoje é entender a mentalidade dessa geração e
apresentar mensagens relevantes para esseouvinte desencantado, apático, relativista,
subjetivo e independente de qualquer ideologia ou instituição. O grande problema
da pregação hoje é que muitos pregadores ainda continuam se posicionando no
autoritarismo do Pré-Modernismo, ou defendendo a lógica doutrinária do Moder-
nismo, enquanto o ouvinte pós-moderno não está "nem aí"para uma coisa ou outra.
A preocupação principal desse ouvinte é o seu sentimento interior. Portanto, é pre-
ciso muita sabedoria e iluminação do Espírito Santo para que a pregação de hoje
faça sentido para essageração. Para entender melhor esse ouvinte, o tópico seguinte
discute algumas das principais características do pensamento pós-moderno.
Características do Pós-Modernismo
É difícil entender o Pós-Modernismo porque ele não é uma filosofia, doutrina ou
conceito, mas uma mistura de tudo isso e muito mais, variando de pessoa para
pessoa, segundo a perspectiva de cada um. Para obter uma compreensão mais
ampla do termo, é importante conhecer algumas de suas raízes filosóficas. Dentre
os expoentes que mais influenciaram o Pós-Modernismo está o filósofo alemão
Friedrich Nietzsche (1844-1900), com suafamosa declaração sobre a 'a morte de
Deus. "Diferente do que muitos pensam, Nietzsche não se referia à morte literal
ou à inexistência de Deus, mas sim à rejeição da crença numa ordem cósmica e da
crença numa lei moral universal com valores absolutos impostos aos seres huma-
nos. Em outras palavras, eliminando os mandamentos e as proibições do Deus
cristão, os seres humanos seriam capazes de desviar os olhos do mundo sobrenatu-
ral e reconhecer os valores deste mundo natural. Isso daria ao homem a liberdade
de tornar-se algo novo, diferente e criativo, sem depender da bagagem do passado."
11 Cf. God is Dead. Wilkipedia, lhe Free Encyclopedia, em: http://en.wikipedia.org/wiki/
God_is_dead, acessado em 10 de fevereiro de 2005.
52 • o ouvinte
As idéias de Nietzsche iriam influenciar também o conceito niilista de Jean-Paul
Sartre (1905-1980), que propunha a "crença no nada." Assim, com a ausência de
um Deus com propósito para os humanos, nós chegamos a este mundo com nada,
a não ser com a nossa própria existência. Não temos outra escolha na vida a não ser
decidir quem somos e inventar nossa própria essência, pois não somos uma enti-
dade, mas apenas um projeto constantemente se tornando alguma coisa.F
Essas idéias filosóficasajudam-nos a entender por que o Pós-Modernismo é
tão complexo e confuso. De fato, não existe uma visão da realidade ou visão de
mundo pós-moderna que possa ser comparada com a cosmovisão cristã ou qual-
quer outra, tendo em vista que, na era pós-moderna, cada pessoa pode escolher
sua própria visão de mundo diferente de qualquer outra, sendo todas elas válidas
e aceitas. O que determina a realidade é o sentimento interior de cada pessoa. A
era de a razão determinar a realidade já ficou no passado. Agora é o sentimento
individual que determina a realidade que cada pessoa quer viver e em que deseja
acreditar. Essas idéias influenciam a literatura, a cultura e o pensamento atual de
tal forma que aospoucos setornam presentes na mídia e no dia-a-dia das pessoas.
Um exemplo prático talvez ajude a ilustrar a influência do Pós-Modernis-
mo na vida diária da geração atual. Ao assistir a um videoclipe musical da maioria
dos cantores populares de hoje, tente, por exemplo, organizar numa seqüência a
história contada pelas imagens apresentadas no videoclipe. Qual é o sentido lógi-
co expresso pelas imagens apresentadas? Na grande maioria dos casos não existe
nenhuma lógica nas imagens. Isso é exatamente o que os autores querem, pois o
que interessa não é a lógica que está na mente do autor ou do cantor, e sim o
sentimento pessoal que está na mente do telespectador. Cada um construirá uma
história que faz sentido para si próprio a partir daquelas imagens. Isso leva à
reprodução de significados diferentes para cada ouvinte. Em outras palavras, a era
da lógica e da razãojá passou, agora o que interessa é o sentimento pessoal de cada
ouvinte, individualmente.
Dessa forma, não existe uma definição única e precisa de Pós-Moder-
nismo, visto que não se trata de uma filosofia ou conceito, e sim de uma plurali-
dade de idéias, experiências e estilos de vida determinados pela preferência e
12 Jeremy Black, Encyclopedia 0/World History, p. 307.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno • S3
pelo gosto individuaL Portanto, sem pretender definir, mas numa tentativa de
descrever diferentes aspectos do Pós-Modernismo, vamos resumir a seguir uma
lista de características gerais e implicações práticas do Pós-Modernismo para o
estilo de vida das pessoas.
Cada pessoa escolhe o sua próprio verdade
Como diz Sire, o Pós-Modernismo assume que "averdade sobre a realidade está
para sempre oculta de nós. Tudo o que podemos fazer é contar histórias."13 Em
outras palavras, se é que existe uma verdade única, não nos é possível conhecê-la.
Portanto, a verdade depende da percepção de cada pessoa, e cada um faz a sua
própria verdade. Isso coloca a opinião pessoal em pé de igualdade com qualquer
outra opinião, inclusive com a opinião da Bíblia. Esta pode passar a ter um valor
igual ao de qualquer outro livro sobre religião, dependendo do ouvinte.
Ninguém tem autoridade sobre ninguém
Considerando que a autoridade vem de dentro e não de fora das pessoas, qualquer
tentativa de impor a autoridade de alguém sobre outros é vista como uma atitude
arrogante, suspeita e manipuladora. Nesse contexto, a geração pós-moderna rece-
be a orientação dos pais, professores, líderes religiosos e da própria Bíblia como
mera opinião pessoal, que pode ser respeitada como tal, mas sem nenhum direito
de imposição. Cadapessoa começa então a decidir o que é recomendável e aceitá-
vel para si próprio.
Moralidade é questão de gosto
Tendo em vista que o indivíduo determina o que é bom para si próprio, não
existem padrões morais absolutos. Tudo se torna relativo. As noções de certo ou
errado dependem do contexto e da opinião de cada um, sem designar nenhum
significado universal ou absoluto. Como afirma Johnston, o bem e o mal, e o
13 James Sire, W. op. cit., p. 219.
54 • o ouvinte
certo e o errado são meras construções sociais. Cada indivíduo formula o que é
moralmente aceitável para si próprio. De fato, para a mentalidade pós-moderna
não existe nada mais detestável do que alguém querer impor seu padrão de mora-
lidade sobre outras pessoas." Afinal, tanto a moralidade quanto a religião são
questões de gosto, e gosto não se discute. Nesse contexto, desmoronam todas as
barreiras éticas e comportamentais defendidas pela religião, inclusive as tradicio-
nais distinções entre os sexos. De fato, cada vez mais a opção entre heterossexua-
lidade, homossexualidade e bissexualidade passa a ser vista como assunto de mera
preferência sexual de acordo com a diversidade cultural das pessoas, sem nenhu-
ma implicação moral ou espiritual. O mesmo ocorre com a opção de usar drogas,
o que é visto como uma mera opção pessoal.
Busca por espiritualidade sem religiosidade
A geração pós-moderna é aberta a diferentes experiências espirituais, desde que
estas não sejam regidas ou governadas por imposições ou regras religiosas.
Para a mentalidade pós-moderna, espiritualidade e religiosidade são coisas opos-
tas. Ou seja, espiritualidade é uma experiência informal altamente individual,
enquanto religiosidade envolve um compromisso formal com uma instituição
religiosa, o que não faz sentido algum na visão pós-moderna.
É curioso que, ao mesmo tempo que a influência da religião institucional
vem declinando desde a Era Moderna, a sensibilidade espiritual e religiosa em
si parece ser revitalizada pela nova ambigüidade da Era Pós-Moderna. A reli-
gião contemporânea, influenciada pelo pluralismo, busca novas formas de ex-
pressão e novas fontes de inspiração e iluminação, variando desde o misticismo
oriental e a auto-exploração psicodélica até a teologia da libertação e a espi-
ritualidade da ecologia. Em outras palavras, o mesmo individualismo secular
que decreta o declínio da religião tradicional desenvolve também uma nova
orientação religiosa e uma maior autonomia espiritual, fazendo com que as
14 Craham Johnston, Preaching to a Postmodern World: A Cuide to Reaching Twenty-first
Century Listeners, p. 40.
visões de mundo do ouvinte pós-moderno • SS
pessoas se sintam livrespara elaborar o seu próprio relacionamento com as ques-
tões íntimas da existência humana.15
Portanto, longe de ser uma geração incrédula, a geração pós-moderna é sus-
cetível a crer em tudo e a experimentar tudo que ofereça uma experiência pessoal
envolvente e gratificante. Tudo que promete uma sensação de bem-estar, ainda
que momentânea, ou que funciona bem para a experiência de outras pessoas é
bem-vindo e desejáveL Nesse contexto, as experiências místicas oferecidas por
religiões orientais ou pelo ocultismo são vistas como uma boa idéia. Da mesma
forma, se o uso de horóscopo, tarô, bem como consultas a cartomantes e bolas de
cristal produzem bons resultados para algumas pessoas, é sinal de que podem ser
experiências válidas para outros também.
Um exemplo dessa curiosidade mística do Pós-Modernismo foi a recente
conversão da celebridade norte-americana, Madona, à Kabala, um ramo mile-
nar do ocultismo judeu. De acordo com a revista eletrônica Entertainment
Magazine.net, em setembro de 2004, Madona participou de uma peregrinação
à Terra Santa de Israel para confirmar sua nova fé na Kabala apesar de esta ser
uma crença tradicionalmente adotada por homens. Nascida e criada como uma
católica romana, Madona optou pelo nome hebreu de Ester ao aderir à nova fé
e, como parte de seu novo estilo de vida, também adotou o uso de uma pulseira
vermelha para servir de proteção contra os maus espíritos. Além disso, passou
a considerar o sábado como dia de repouso, seguindo, à sua maneira, a tradição
e o costume judaicos." Esse é apenas um exemplo da vasta popularidade das
idéias e tendências espiritualistas do Pós-Modernismo.
Busca por comunidade e relacionamento
Um elemento fortíssimo na mentalidade pós-moderna é uma profunda neces-
sidade de relacionamento e vida em comunidade. De uma maneira geral, a gera-
ção de hoje vivedesiludida com a sociedade, frustrada com problemas familiares,
15 Richard Tarnas, opo cito, p. 4030
16 Cf. Madonna: Search for Kabbalah, em: http://emol.org/musidartists/madonna, aces-
sado em 10 de fevereiro de 2005o
56 • o ouvinte
revoltada com a corrupção e falsidade dos políticos em geral, e desconfiada de qual-
quer forma de instituição social.Isso resulta em um grande vazio interior e desperta
um desejo profundo de pertencer a algum grupo ou encontrar pessoas em quem
possa confiar e se relacionar sem restrições. Como uma geração desconfiada, as
pessoas sentem necessidade de confiar em algo ou em alguém e buscam pertencer a
alguma comunidade que lhes preencha as necessidades sociaise emocionais.
N a realidade, esse senso de comunidade é uma característica natural de
todos os seres humanos, que normalmente preenchem essa necessidade com vín-
culos sociais e tradicionais como: família, trabalho, igreja, clube de lazer, amigos e
assim por diante. O que torna o senso de comunidade mais intenso na geração
pós-moderna é o fato de as pessoas terem perdido a força do vínculo com as
instituições tradicionais, buscando preencher essevazio exclusivamente no relacio-
namento pessoal com seus amigos e com sua turma. Por ser a geração da tecnolo-
gia, esse senso de comunidade estende-se também para o ambiente virtual da
Internet, em que são comuns as comunidades eletrônica: sitescomo o Orkut, salas
de chat,blogs, etc, Com esses recursos, os jovens e adolescentes formam comuni-
dades de qualquer tipo. Cada um se une a essas diversas comunidades diferentes
desde que correspondam aos seus interesses pessoais ou façam sentido para eles
em qualquer área. Por exemplo, outro dia acompanhei minha filha num passeio
virtual pelo Orkute diverti-me vendo algumas comunidades meio exóticas como:
"d .. "" ddl"" dd deia";"
a oro VIajar ; estou no mun o a ua ; a namora a o meu ex me o ela; estou
sempre atrasado"; "chocólatras"; "fãs de Tom Cruise", etc. Ou seja, qualquer in-
ternauta do Orkut que se identifique com uma dessas comunidades pode entrar e
compartilhar suas experiências, sentimentos, idéias e imaginações sobre o tema,
num verdadeiro clima de amizade. Nesse ambiente de comunidade, todas as opi-
niões são igualmente válidas, e todos se sentem à vontade para partilhar a sua
própria visão da realidade, tanto sobre assuntos triviais como sobre temas mais
polêmicos ou filosóficos.
Em outras palavras, o Pós-Modernismo possui visões de mundo na mesma
proporção da quantidade de pessoas que partilha essa maneira de ser, pois cada
pessoa pode ter a sua própria visão de mundo. Em termos espirituais, isso tem
implicações complexas para a pregação bíblica, tendo em vista que as pessoas
estão acostumadas a viver sem um ponto de referência único pelo qual se guiar.
N esse contexto, a Bíblia pode representar apenas a visão de mundo de seus
visões de mundo do ouvinte pós-moderno • S7
autores, válida para eles, mas não necessariamente para as pessoas do século XXI.
A Tabela 1 faz uma comparação resumida das principais características do pensa-
mento moderno com o pensamento pós-moderno.
Tabela 1: Comparação entre o pensamento moderno e o pós-moderno
Ênfase do Modernismo f~nfase do Pós-Modernismo
Fatos, observação e lógica Sentimentos e especulação
Verdade absoluta Verdade relativa - cada um constrói a sua
Monoteísmo bíblico Pluralismo espiritual- toda religião é boa
Relacionamento pessoal Comunidade espiritual
Padrões morais bíblicos Relativismo moral baseado em sentimentos
Comportamento sexual definido na Bíblia Identidade sexual opcional
Conhecimento objetivo Desejo subjetivo
Valorestradicionais Valorespróprios, sem certo ou errado
Perspectiva científica Misticismo e espiritualismo
Argumentação doutrinária Descoberta pessoal
Igreja: povo de Deus Igreja: comunidade cultural
Em suma, como diz o pensamento no início deste capítulo, as pessoas não
vêem o mundo como ele é, e sim como elas são. Na Era Pós-Moderna, o ser
humano tende a ser pluralista e, portanto, vê o mundo de maneira múltipla, cada
um à sua maneira, com sua visão de mundo própria e pessoal. No entanto, para
cada visão de mundo diferente, a Bíblia tem uma mensagem diferente, com um
enfoque relevante capaz de tocar o coração. O próximo capítulo analisa alguns
temas bíblicos que são mais significativos e relevantes para essa visão de mundo
pluralista do ouvinte pós-moderno.
Capítulo 3
Temas bíblicos para o
Pós-Modernismo
/J.pregação quetransformanãofala àspessoas acerca
daBíblia, esim acerca delas mesmas - suasdúvidas,
feridas, temores elutas- apartir daBíblia."
HADDON ROBINSON
O
pregador de hoje nem sempre está consciente do desafio que enfrenta ao
pregar.Dificilmente o pregador encontra um auditório exclusivamente
de ouvintes pós-modernos. Há uma nova geração cujo público geral-
mente é composto de: ouvintes modernos que tendem a preferir o estilo mais
argumentativo de sua era; e ouvintes pós-modernos que esperam um estilo dife-
rente de apresentação da mensagem. Além disso, o próprio Pós-Modernismo em
si inclui uma pluralidade de preferências e atitudes com relação à pregação. É aí
que está o grande desafio do pregador: Alimentar o ouvinte pós-moderno sem
ignorar o ouvinte tradicional que também precisa ser alimentado. O pregador,
portanto, precisa dosar abordagem, ilustrações e mensagem de tal maneira que
façam sentido para duas gerações de ouvintes. Isso é mais do que uma arte, pois
exige sintonia absoluta com o pensamento de ambas asgerações, e sintonia abso-
luta com o Autor da mensagem.
60. o ouvinte
Talvez não exista uma fórmula perfeita para atender a essa mistura de
ouvintes, mas com certeza existem meios de atingir esse objetivo. Se o pregador
falar apenas no estilo mais tradicional, o ouvinte pós-moderno simplesmente
vai se desconectar e não receber nada da mensagem. Contudo, se o pregador
ftrmatar sua mensagem mais direcionada à realidade dele, provavelmente o ouvinte
tradicional vai entender e acompanhar a mensagem, mesmo que não seja o esti-
lo de sua preferência. Isso ocorre pois todo ouvinte tradicional de hoje vive num
mundo pós-moderno, bombardeado pela mídia pós-moderna e linguagem pós-
moderna. Assim, já está habituado ao estilo de vida pós-moderno. Com um
pouco de sabedoria e sintonia, o pregador pode ajustar sua mensagem para alcan-
çar o coração de ambas as gerações de ouvintes.
Talvez o maior obstáculo à adequação da comunicação no Pós-Modernismo
não esteja no ouvinte, mas no próprio pregador. De fato, a maioria dos pregadores
tende a ser muito presa ao estilo tradicional, que é a forma mais comum de apre-
sentar temas religiosos. Nesse formato tradicional, a mensagem tem sido pregada
há milênios. Pela própria lei da inércia, parece mais fácil continuar do jeito que
está. Contudo, esse raciocínio ignora um fato fundamental: A comissão evangéli-
ca inclui o ouvinte pós-moderno, e a salvação precisa alcançá-lo onde ele estiver!
Existe um conteúdo sagrado do evangelho, mas não existe nenhum formato sa-
grado para sua apresentação. Pelo contrário, o formato deve ser adaptado à neces-
sidade e à linguagem do ouvinte.
E para saber falar a linguagem do ouvinte pós-moderno, é preciso saber
quais os temas que mais o preocupam e atraem sua atenção neste mundo pós-
moderno. O que eles pensam? O que eles anseiam? O que faz sentido para
eles? Nos próximos parágrafos, vamos considerar como o Pós-Modernismo
encara diferentes temas do evangelho e da pregação.
Senso de culpa versus amor
Por séculos e milênios, o grande argumento da mensagem evangélica tem sido o
alívio ao senso de culpa. Apresentar uma salvação de graça para um pecador de-
gradado e impotente é o próprio coração da mensagem bíblica; é a mais sublime
verdade que pode ser apresentada a um mundo caído. Contudo, a forma como
esse argumento é exposto pode não ser eficaz para o ouvinte pós-moderno.
temos bíblicos poro o pás-modernismo _ á 1
Johnston comenta que o senso de culpa está quase desaparecendo no mundo pós-
moderno! A razão é simples: Não existe um padrão único de moralidade para a
mentalidade pós-moderna.' A geração de hoje tende a pensar que a distinção
entre certo e errado depende do contexto e da opinião de cada um. Cada pessoa
decide o que é moralmente aceitável ou não para si próprio. Isso implica a exis-
tência de múltiplos padrões de moralidade. Cada pessoa pode escolher ou criar o
seu próprio padrão de acordo com o que é conveniente para ela. Portanto, não há
muitos motivos para se sentir culpado. Em vez de se afligir por causa de senso de
culpa, o ser humano hoje está muito mais preocupado em manter uma auto-
imagem positiva e em sentir-se bem com si mesmo, sendo ele próprio o ponto de
referência para o bem-estar pessoal.
Em outras palavras, se o pregador diz que algo é moralmente errado, o
ouvinte de hoje respeita o que foi dito como uma opinião do pregador, sem que
isso se aplique necessariamente à sua experiência. A pior coisa que alguém
pode fazer, segundo a mentalidade pós-moderna, é impor a sua idéia de mora-
lidade sobre os outros. Afinal, pensam que ninguém tem o direito de criticar os
desejos e escolhas de outras pessoas. Moralidade e religião são vistas como
uma questão de gosto, e gosto não se discute! Um exemplo claro disso é a natu-
ralidade com que o homossexualismo é visto na sociedade de hoje. Ao contrário
de algumas décadas atrás, o homossexualismo hoje é aceito meramente como uma
opção individual que deve ser respeitada tanto quanto a opção heterossexual, sem
nenhuma implicação moral. A geração de hoje nascee crescevendo e ouvindo isso
nos programas de TV, em artigos de revistas populares, no ambiente da escola ou
entre os amigos, o que torna natural esse clima de sociedade amoral em todos os
aspectos. Como resultado, não se pode esperar que a geração de hoje pense de
maneira diferente.
A estratégia de causar senso de culpa também não faz efeito. O velho hábito
de denunciar um determinado estilo de vida, condenar uma linha de conduta ou
censurar determinados comportamentos hoje não funciona mais - seé que algum
1 Graham Johnston, Preaching to a Postmodern World: A Guide to Reaching Twenty-
first-Century Listeners, 2001.
62. o ouvinte
dia isso funcionou. Condenar tipos de vestuário, adorno, estilos de música, ou
censurar o baixo nível de freqüência e participação na igreja não faz mais efeito. O
ouvinte pós-moderno, especialmente o mais esclarecido, tende a ouvir isso como
uma opinião pessoal do pregador e, portanto, não vai se sentir mais culpado a
ponto de arrepender-se e desejar mudar de atitude. A grande maioria, inclusive,
não vai argumentar com o pregador sobre suas posições porque acha que ele tem
direito de pensar assim. Isso pode dar ao pregador a ilusão de que sua orientação
é ouvida e atendida, quando, no fundo, a reação do ouvinte não passa de indife-
rença. O pregador que não entende essarealidade e não compreende a mentalida-
de de hoje corre o risco de continuar falando totalmente fora de contexto sem
perceber. Prega como se tivesse vindo de outro planeta e como se falasse uma
língua totalmente estranha ao ouvinte. De fato, em certo sentido, muitos prega-
dores se isolam tanto da realidade do ouvinte, que passam a viver diariamente
num mundo chamado "planeta igreja", ao mesmo tempo que seu ouvinte tem
vivido diariamente no "planeta vida real." Quanto mais distância houver entre
esses dois planetas, menos o pregador fará sentido para sua congregação, e, por-
tanto, menos será ouvido e menos será entendido.
Nesse contexto, o pregador entra em cena, tentando entender o mundo do
ouvinte refletindo uma ou duas vezes por semana sobre a mentalidade desse
homem pós-moderno. Assim, para diminuir a distância entre esses dois plane-
tas, o que ele deve dizer para essa geração "amoral"? Simplesmente dizer que
algo é errado vai fazer um efeito zero para essa geração. Dizer que o ouvinte
precisa se arrepender sem que ele veja nada de errado na sua maneira de viver ou
pensar não vai sensibilizar ou tocar seu coração. O que fazer?
Vejaque a mentalidade pós-moderna ignora o próprio coração do evange-
lho, que é a consciência de pecado e a necessidade de um Salvador, distanciando-
seda mensagem do evangelho e da salvação.Isso requer um enfoque mais positivo
do evangelho, em busca de um caminho mais eficaz para ajudar o ouvinte de hoje.
É por isso que precisamos conhecer as características da mentalidade atual, a fim
de estabelecermos com o ouvinte uma relaçãode proximidade, levando-lhe a men-
sagem de forma relevante.
Uma das características marcantes da mentalidade pós-moderna é a sua ca-
rência de afeto e ênfase em bons relacionamentos. Esta é uma geração totalmente
voltada para o valordo relacionamento e do convíviosocialentre aspessoas.Quanto
temas bíblicos para o pós-modernismo _ 63
mais amizade e relacionamento, mais feliz a pessoa tende a sentir-se. Cansada das
imposições impostas pela busca do sucesso material e desiludida com a promessa
dos avanços tecnológicos para solucionar os problemas da humanidade, esta gera-
ção sevolta para as pessoas. Por isso,cada um procuraviver em comunidade a fim
de sentir-se compreendido, amado e aceito como pessoa.
Aqui está uma das chaves para alcançar o coração pós-moderno. Em vez da
ênfase negativa no senso de culpa e na pecaminosidade humana como motivo
para buscar o Salvador, esta geração será melhor alcançada pela via inversa. Ou
seja, o ouvinte pós-moderno se sente altamente atraído pela mensagem positiva
do amor de Deus e pela certeza de que Cristo o aceita como pessoa, entende as
suas lutas e dores, e está disposto a ajudá-lo em suas necessidades e anseios mais
profundos. Depois de se sentir aceito e compreendido por Deus, é mais provável
que esse ouvinte perceba suas próprias imperfeições e desenvolva um relaciona-
mento pessoal com o Salvador aceitando o crescimento pessoal e espiritual que o
evangelho traz. Em outras palavras, o mesmo caminho percorrido de maneira
inversa pode chegar ao coração pós-moderno, já que a visão oposta do senso de
culpa não faz sentido para ele.
Da mesma maneira, o ouvinte busca uma igreja que, em vez de pressioná-los
a um formato de comportamento estabelecido por regras e normas, lhe ofereça
um senso de comunidade, em que todos se interessem mais pelo bem-estar e pela
paz do que pelo comportamento das pessoas. Mais do que normas e padrões de
conduta que têm sido a ênfase tradicional, o ouvinte pós-moderno busca ser acei-
to, compreendido e amado pelos companheiros da congregação. Uma vez que se
sinta amado, pouco a pouco passará a aceitar os padrões de conduta que tenham a
ver com a essência da religião, como a integridade moral e espiritual, por exemplo.
Nesse caso, não estão envolvidosnecessariamente padrões relacionados apenas com
a forma, tais como aparência pessoal ou meros costumes tradicionais. Mais uma
vez, o caminho é inverso.
O mesmo raciocínio se aplica ao relacionamento do ouvinte com o pregador.
O ouvinte tende a aceitar e dar mais ouvido ao pregador que demonstra uma
atitude de simpatia, amizade e amor, do que àquele que demonstra apenas muito
conhecimento ou mantém uma postura formal de superioridade espiritual pela
posição que ocupa. Como diz Johnston, "no pós-modernismo as pessoas não se
importam sobre o quanto a gente sabe até que elas saibam o quanto a gente se
64. o ouvinte
importa com elas."?Em outras palavras, relacionamento e senso de comunidade
são o grande segredo para abrir o coração do ouvinte pós-moderno.
Na realidade, o ser humano não muda na essência. Num sentido mais amplo,
o que o Pós-Modernismo anseia é o que todo ser humano sempre ansiou em todas
as gerações: ser aceito e entendido; e sentir-se amado. Todo ser humano também
sempre foi receptivo a uma mensagem de amor, que provenha de um pregador que
também demonstre amor e simpatia. Aliás, essa era a essência e o método da prega-
ção de Cristo. Éjustamente por isso que a mensagem de Cristo é tão relevante hoje
ao ouvinte pós-moderno como o era há dois mil anos para o ouvinte antigo. Ou seja,
na essência, as necessidades humanas são as mesmas. Talvez a grande diferença seja
que o ouvinte tradicional aceitava diferentes padrões e formatos de abordagem espi-
ritual, bem como osvalores impostos pela sociedade.Já a mentalidade pós-moderna
assume abertamente a sua desilusão com os padrões sociais e tradicionais. Assim, o
ouvinte rejeita aquilo que não satisfaz suas necessidades imediatas e busca ser autên-
tico em relação ao que realmente sente e deseja.
Autoridade versus experiência
Durante muito tempo as pessoas aceitaram as instituições sociais, a sabedoria do
passado, as afirmações e os documentos científicos ou eclesiásticos como fonte de
autoridade. Para a mentalidade pós-moderna, esse tempo já passou. As tradicio-
nais fontes de autoridade como: igreja, ordenação ministerial, credo, doutrina,
tradição e normas já não podem ser citadas como fontes inquestionáveis de auto-
ridade e como bases para aceitação do ouvinte. Para a mentalidade pós-moderna,
a autoridade não é externa, mas interna, ou seja, não provém de fora, mas de
dentro de cada pessoa. Em outras palavras, o significado e a autoridade da mensa-
gem não estão na intenção do pregador ou na fonte que ele cita, mas na maneira
como o ouvinte recebe a mensagem e tira suas próprias conclusões.' A própria
2 Idem, p. 67.
3 Scott Blackjohnston, Authority in the Pulpit in a Postmodern Ethos, in: R.J. Allen, B.
S. Blaisdell, & S. B.Johnston (1997). Theologyfor Preaching: Authority, Truth and knowledge
of God in a Postmodern Ethos.
temas bíblicos para o pós-modernismo • 65
Bíblia se torna passível de diferentes interpretações para ele. Portanto, o fato de o
pregador citá-la como autoridade não passa de uma interpretação pessoal dele, o
que tem tanto valor quanto a interpretação pessoal de cada ouvinte.
Johnston narra a seguinte conversa pessoal que ele teve com um homem de
uns trinta e poucos anos que não tinha hábito de freqüentar a igreja. Na conversa,
ele perguntou:
- Você visita alguma igreja de vez em quando?
- Praticamente nunca - ele respondeu.
- Você alguma vez já teve dúvidas e questionamentos sobre assuntos
espirituais?
- Oh sim, quem não tem?
- Se você tem dúvidas e questionamentos espirituais, você não acha que
a igreja poderia abordar alguns desses assuntos?
- A igreja é para aqueles que já crêem, e não para pessoas como eu!"
Geralmente a própria igreja cria essa imagem de que nela não há lugar
para dúvidas e questionamentos, quando deveria ser exatamente o contrário.
De fato, se quisermos alcançar o ouvinte pós-moderno, temos de estar abertos
para aceitar que as pessoas questionem a nossa posição e a nossa fonte de auto-
ridade. Embora a autoridade bíblica seja suprema para nós, temos de entender
que as pessoas de hoje não vêem dessa maneira e não aceitam o que nós aceita-
mos como autoridade.
Pelo contrário, qualquer forma de autoridade externa é vista como opressão e
imposição de idéias. Essa mentalidade deixa o pregador atual totalmente desar-
mado, uma vez que a autoridade da Bíblia sempre foi a arma infalível com a qual
os pregadores enfrentavam qualquer engano ou oposição à verdade nela revelada.
Para o Pós-Modernismo, contudo, a verdade é totalmente relativa. Cada pessoa
cria e escolhe a sua própria verdade. Isso altera completamente a maneira de o
pregador abordar a mensagem bíblica se quiser alcançar o ouvinte pós-moderno.
O poderoso argumento "Assim diz o Senhor"já não tem mais a mesma força que
4 Graham Johnston, op. cit., p. 91.
66. o ouvinte
tinha anteriormente, pois isso também se torna relativo e dependente da interpre-
tação individual.
Por mais que o pregador pense diferente, ele precisa encontrar um caminho
eficiente para ajudar o ouvinte pós-moderno. Considerando que a autoridade e a
verdade sãovistas como algo interior e inerente ao indivíduo, a maneira de alcan-
çá-lo hoje é fazer com que a mensagem bíblica repercuta de forma significativa
em sua experiência pessoal, pois esta é vista como a maior fonte autêntica de
autoridade interior. Nesse contexto, não existemais mensagem divorciada da expe-
riência pessoal. Apresentar um argumento intelectual sem causar um impacto
significativo na experiência do ouvinte não produz nenhum efeito positivo. Em
outras palavras, na pregação atual, a mensagem bíblica tem de ser parceira perma-
nente da experiência individual e da experiência de outras pessoas.'
Já que a mentalidade pós-moderna não aceita naturalmente a autoridade da
Bíblia ou do pregador, é preciso levar o ouvinte a experimentar a Bíblia e sua
autoridade. Como fazer isso?Talvez não haja uma resposta fácil,mas as seguintes
idéias podem ajudar:
1. Respeite oquestionamento dosouvintes - Q1Iemprimeiro precisa mudar é o
pregador, a fim de aceitar o questionamento de seus ouvintes com naturalidade,
descer do pedestal de autoridade e usar uma abordagem de quem respeita a opi-
nião contrária. O pregador deve partir do princípio de que ambos, pregador e
ouvinte, buscam a verdade, convidando o ouvinte a testar a Bíblia como uma
opção relevante a ser considerada, e não necessariamente como a única opção.
2. Desenvolva a confiança do ouvinte - Mais do que em qualquer tipo de
autoridade, o ouvinte de hoje ouve aquele em quem ele confia e crê naquilo que
pode ser confiável. Confiança é uma palavra-chave. Por isso, o ouvinte pós-
moderno, que não tem muito contato com a Bíblia, precisa de tempo para fami-
liarizar-se com ela e testá-la, a fim de experimentar a confiabilidade da Escritura
5 Barbara Shires Blaisdell, Authority in the Pulpit in a Postmodern Ethos, in: R. ].
Allen, B. S. Blaisdell, & S. B. johnston (1997). Theologyfor Preaching:Authority, Truth and
knowledge of God in a Postmodern Ethos, P: 48.
temas bíblicos para o pós-modernismo • 67
para a sua vida pessoal. Muitos pregadores tendem a pensar que suas congrega-
ções não possuem esse tipo de ouvinte. Por isso, continuam pregando sem fazer
sentido para muitas pessoas. Mas não se iluda, pois a geração de jovens que fre-
qüenta as igrejas de hoje, mesmo aparentemente familiarizada com a Bíblia e a
igreja, está acostumada a pensar de maneira pós-moderna. Diferentemente do
que pensamos, tende a não ter tanta familiaridade com a religião.
3. Use temasbíblicos relevantespara aexperiênciapessoal- Temas doutrinários
e teológicos geralmente não são tidos como os mais relevantes para o ouvinte de
hoje, a menos que sejam ricos em exemplos práticos relacionados com a experiên-
cia do dia-a-dia. O pregador que deseja chegar ao coração do ouvinte atual pode
explorar profundamente as promessas da Bíblia que falam diretamente àexperiên-
cia humana recorrendo a mensagens de: conforto para a dor e o sofrimento; paz e
alívio em momentos de estresse; segurança em meio à incerteza da vida; saúde
para os enfermos; proteção para os desamparados; fartura e abundância na hora
da privação e dificuldade. Os milagres e as parábolas de Jesus também são ricos
em fatos da experiência humana, sendo, portanto, atraentes à maioria dos ouvin-
tes. Esses temas darão ao ouvinte maior familiaridade com a Bíblia, predispondo-o
a aceitar pouco a pouco os demais temas da Escritura.
Salvação versus pluralismo
O plano de salvação é a essência e a razão de ser do cristianismo. Sem salvação não
haveria igrejacristã e nem mensagem cristã. No entanto, asimplicações religiosasdo
Pós-Modernismo tentam diluir e ofuscar o conceito de salvação.Primeiro, porque
negam a culpa pelo pecado, não havendo, portanto, necessidade de salvaçãoou Sal-
vador. Segundo, porque a única fonte de informação sobre a história da salvaçãoé a
revelação bíblica, que não é considerada como autoridade em termos espirituais.
Terceiro, porque o Pós-Modernismo não adota uma visão de mundo única, mas
considera qualquer visão da realidade como válida e apropriada para a cultura que a
produziu, e nunca como algo de validade universal. Em outras palavras, toda His-
tória, quer seja política, social ou religiosa, não passa de uma narrativa de interesse
cultural para uma determinada comunidade, como produto de uma cultura
específica. Dessa forma, o Pós-Modernismo rejeita qualquer "metanarrativa" ou
68. o ouvinte
cosmovisão com aplicação universal e admite a pluralidade de visõesda realidade,
entendendo que cada povo tem a suavisãode mundo, e nenhuma visãode mundo
é melhor do que a outra. Nesse contexto, o plano de salvaçãoé nada mais do que
uma metanarrativa apropriada para a cultura cristã e indispensável para a preserva-
çãodo cristianismo, não sendo melhor nem pior que budismo, confueionismo, hin-
duísmo, islamismo, ateísmo, ou qualquer outravisãoda realidade.
Naturalmente, isso tudo é muito sutil, pois a geração que freqüenta a igreja
hoje não está preocupada com essas idéias nem argumenta a favor de uma ou
outra idéia pós-moderna. As pessoas de hoje, e isso inclui jovens e adultos, sim-
plesmente pensam assim porque essapluralidade de idéias está presente na mídia,
nas músicas que elas cantam, nos filmes que assistem, nas revistas que lêem e
assim por diante. Elas ouvem diariamente que toda idéia é válida e que cada um
crê naquilo que lhe é mais conveniente. Por exemplo, qualquer idéia que faça
sucesso, quer seja de um artista, cantor, ou de um colega, é uma ótima idéia por-
que funcionou bem para o propósito daquela pessoa. Assim, a opinião pessoal é a
autoridade máxima para decidir o que é bom e verdadeiro para cada pessoa.
Navisão até mesmo de alguns cristãos pós-modernos, portanto, restringir a
salvaçãoapenas aos cristãos tornaria o plano de salvaçãoestreito e limitado. Afinal,
para eles, um Deus de amor não excluiria da salvação os não-cristãos simples-
mente porque não são cristãos, uma vez que a graça de Deus está disponível em
todas as culturas, evangelizadas ou não. Entendem ainda que a salvaçãovem com
base em diferentes revelações de Deus, e não somente por meio de Cristo. Para
esses pluralistas, o fato de a salvação estar disponível apenas por meio de Jesus
Cristo implicaria o privilégio de alguns povos em relação a outros, o que não
condiz com o caráter justo e amoroso de Deus. Os cristãos, para eles, deveriam ser
mais otimistas a respeito da graça salvadora de Deus, sem limitá-la exclusiva-
mente aos que aceitem o cristianismo.
Como então pregar sobre a salvação para uma audiência que vê a salvação
dessa maneira diluída e pluralista? Esse é um desafio difícil, mas alguns prin-
cípios são muito úteis em ajudar os pós-modernos a compreenderem o plano
da salvação. Consideremos alguns desses princípios:
1.Assuma a visão bíblica da realidade - Não há como contornar, enfeitar ou
disfarçar o plano de salvaçãosem comprometê-lo. A salvaçãode fato é oferecida a
temos bíblicos poro o pós-modernismo • 69
toda a humanidade e a qualquer povo ou cultura sem exceção, mas ela só se torna
possível por meio da fé e do relacionamento comJesus Cristo, o Salvador. Por mais
que o Pós-Modernismo não aceite, nós cristãos temos de assumir que temos uma
visão bíblica do mundo e da realidade, e que estamos abertos para entender e dialo-
gar sobre qualquer outravisão de mundo, de maneira simpática e sem preconceitos.
Podemos ouvir e respeitar outros pontos de vista e, ao mesmo tempo, apresentar e
explicar o ponto de vista bíblico e a visão de mundo cristã.
2. Apresenteasalvação como uma experiência atraente- Em vez de apresentar
a salvação apenas como dever ou meio de escape da condenação do inferno, a
salvação deve ser apresentada como um relacionamento atraente e irresistível para
aqueles que o experimentam. Embora indiferente quanto à religiosidade, a gera-
ção pós-moderna tem um profundo senso de espiritualidade e pode sentir-se
atraída por uma experiência diferente, capaz de trazer paz, aceitação, companhei-
rismo e amor. É preciso mostrar a experiência positiva do Cristianismo para enri-
quecer a vida já no momento presente, e não apenas no futuro distante.
3. Sejaclaro sobreasprioridades doEvangelho- Escolha cuidadosamente o que
dizer. Não tente dar às regras, aos costumes e aos comportamentos o mesmo peso
das verdades eternas da Bíblia. Não iguale a salvaçãoa um determinado estilo musi-
cal, a uma determinada categoria de filmes que podem ser assistidos, ou a determi-
nados tipos de divertimento ou vestuário. Afinal, salvação é muito mais que uma
lista de coisasque podem ou não podem ser feitas. Para colocar isso de maneira bem
direta, use as prioridades que Cristo definiu: "Amarás o Senhor teu Deus de todo o
teu coração e... o teu próximo como a ti mesmo. Desses dois mandamentos depen-
dem toda a lei e os profetas" (Mt 22.37-40). Ou seja, foi Cristo quem definiu as
prioridades do evangelho, independente de nossa opinião própria a respeito. Para
Cristo, a experiência da salvaçãoresume-se em amor a Deus e ao próximo. Assim, é
a experiência de salvaçãoque determina o comportamento cristão, e não o compor-
tamento que determina a salvação. Essa abordagem é poderosa, irrefutável e irresis-
tível para qualquer ouvinte, seja ele pós-moderno ou não.
4. Sejaum cristão realista-Johnston aconselha o pregador a admitir aberta-
mente os diferentes níveis e categorias de certo e errado. Ou seja, o cristão não vive
70. o ouvinte
num mundo preto no branco, em que qualquer coisa pode ser definida de um
lado ou do outro: certo ou errado. Vivemos num mundo cheio de áreas cinzentas,
onde nem todas as respostas aos problemas da vida são absolutas ou claras. O
cristão deve ser encorajado a usar o discernimento espiritual para entender avida,
fazer escolhas responsáveis e tomar decisões sábias,levando em conta os inúmeros
fatores envolvidos em cada escolha.
5. Seja vulnerável- Poucas coisaspodem tornar um pregador mais confiável
perante os ouvintes de hoje, dentre elas encontramos: a atitude de humildade e
disposição de admitir as próprias lutas pessoais, as próprias fraquezas e batalhas
espirituais; e o reconhecimento de que pregadores e ouvintes são companheiros
da mesmajornada de fé, na qual ninguém chegou ao estágio final de crescimento
cristão. Essa postura de vulnerabilidade e semelhança com a experiência do
ouvinte aproxima o pregador dele de maneira altamente positiva.
6. Nunca ataque outras religiões - Um dos maiores erros que um pregador
pode cometer no púlpito de hoje é assumir uma atitude de superioridade em
relação a outras religiões ou denominações, criticando doutrinas ou métodos
de outras igrejas. Por sua natureza pluralista, o ouvinte de hoje é totalmente
aberto a diferentes pontos de vista e extremamente sensível ao que pode ser
visto como partidarismo religioso. Qualquer disputa, denúncia ou referência
pejorativa ou de desprezo para com outras crenças vai soar como arrogância
religiosa e vai automaticamente despertar a rejeição do ouvinte pós-moderno,
fechando a porta de acesso ao seu coração.
Há algum tempo uma amiga me contou que convidou um casal de pro-
fessores universitários, ambos católicos, para visitarem pela primeira vez a igreja
dela num culto de adoração. Por uma infelicidade, segundo ela conta, naquele
dia o pregador desenvolveu um tema em que denunciava as doutrinas e o sis-
tema religioso do catolicismo, provocando um verdadeiro constrangimento
para o casal de convidados. Ao sair da igreja, ela tentou desculpar-se perante o
casal, explicando que aquele tipo de abordagem não era comum em sua igreja.
Com uma polidez típica de uma mente erudita, aquele visitante educadamente
aceitou o pedido de desculpas e comentou que, quando jovem, havia freqüentado
temas bíblicos para o pós-modernismo .71
um seminário para padres e recordava ter ouvido de um teólogo uma exposição
sobre diferentes tipos de política. Segundo o referido teólogo, existem diferentes
tipos negativos de partidarismo: o partidarismo político, que não raro é contami-
nado por corrupção e disputas pessoais; o partidarismo profissional, que muitas
vezes inclui elementos de traição como "puxar o tapete" dos colegas; e finalmente
o partidarismo religioso, que pretende superioridade sobre outros. Das três for-
mas, dizia o teólogo, a pior é o partidarismo religioso, por disputar um status
espiritual perante Deus e os homens. Em outras palavras, a abordagem do prega-
dor naquele dia, no mínimo, provocou um sentimento de desprezo no visitante,
predispondo-o à rejeição da mensagem. Desnecessário é dizer que aquele visi-
tante nunca mais voltou a visitar a igreja de minha amiga.
Mais uma vez o pregador de hoje precisa aprender com o Mestre dos mes-
tres sobre a arte de alcançar o coração do ouvinte. Em sua pregação, Cristojamais
criticou ou denunciou outras crenças, denominações ou religiões. Jamais Cristo
levantou sua voz para denunciar o fanatismo dos essênios, por exemplo, ou criti-
car a religião dos fenícios, gregos, ou romanos. O Mestre sabia que essa não era a
maneira de alcançar e salvar as pessoas dessas religiões. Com veemência, Jesus
denunciou sim o orgulho e a arrogância dos líderes de sua própria religião, o
judaísmo, por ofuscarem a verdade perante as pessoas. O sermão do monte, o
maior sermão de Cristo de que se tem registro, foi essencialmente uma reinter-
pretação de velhas doutrinas e conceitos do própriojudaísmo, sem nenhuma crí-
tica às doutrinas de outras religiões. Mesmo com relação ao imperador romano,
que era venerado e adorado como deus por seus súditos, Cristo jamais usou a
pregação para criticá-lo ou desprezá-lo. Pelo contrário, quando interrogado pelas
autoridades, respondeu com extrema sabedoria: "Dai a César o que é de César, e a
Deus o que é de Deus." (Mt 22.21, Mc 12.17, Lc 20.25)
Seguindo o exemplo de Cristo, os apóstolos também se lançaram para pregar
o evangelho no meio do paganismo e, com sabedoria divina,jamais pregaram contra
a religião dos pagãos. Destemidamente apontaram os erros e abusos do judaísmo,
denunciando a pretensa superioridade espiritual de seus líderes. Isso a custo da
própria vida, muitas vezes. Contudo, a pregação dos apóstolos era respeitosa para
com a religião de qualquer pessoa com quem entravam em contato. De fato,
quando chegou a Atenas, a própria sede do politeísmo grego, Paulo não usou a
pregação para criticar a crença nas divindades gregas ou mitológicas. Pelo contrário,
72. o ouvinte
utilizou a própria crença e doutrina dos atenienses como recurso para expor o
conceito de monoteísmo e a crença no Deus verdadeiro. Veja quanto respeito e
habilidade na pregação de Paulo: "Senhores atenienses! Em tudo vos vejo acen-
tuadamente religiosos: porque passando e observando os objetos de vosso culto,
encontrei também um altar no qual está inscrito: AO DEUS DESCONHECIDO.
Pois esse que adorais sem conhecer, é precisamente aquele que eu vos anuncio"
(At 17.22-23).
O mesmo ocorre em Éfeso, quando os apóstolos enfrentaram uma verdadeira
manifestação popular em defesa da deusa Diana. Em coro, por quase duas horas, a
multidão protestou gritando: "Grande é a Diana dos Efésios." Observe que a revol-
ta popularveio em decorrência de uma falsa acusação contra os apóstolos, e não em
reação à pregação contra Diana, pois os apóstolos não criticaram a doutrina dos
efésios. O próprio escrivãoda cidade os defendeu dizendo: "Estes homens que aqui
trouxestes não são sacrílegos, nem blasfemam contra a nossa deusa" (At 19. 34-37).
Em outras palavras, para ajudar e salvar as pessoas, a pregação cristã não precisa
utilizar o recurso pobre da crítica e da censura, nem agredir as outras religiões.
O princípio é claro: Em vez de fazer um discurso sobre o que julgamos ser
errado, devemos fazer uma pregação sobre o que entendemos ser a verdade bíblica.
Ou seja, falar sobre a verdade tem mais poder que falar sobre o erro. Se esse
princípio foi válido há dois mil anos para Cristo e para os apóstolos, quanto mais
hoje, numa época de pluralismo e relativismo religioso. Época em que as pessoas
convivem pacificamente com os mais diferentes pontos de vista, respeitando a
todas as idéias, sem necessariamente aceitar nenhuma delas, e reagindo vigorosa-
mente contra qualquer pretensão de superioridade ou autoridade espiritual de
alguém ou de algum sistema religioso sobre qualquer outro.
Em resumo, a atitude de denunciar ou desprezar outras religiões é um
recurso de qualidade inferior utilizado por aqueles que não possuem sabedoria
suficiente para apresentar a mensagem de maneira positiva e eloqüente. Pregar
o evangelho a uma audiência pós-moderna exige um nível mais elevado de conhe-
cimento e habilidade do pregador, além de muita sintonia com o público. Para
isso, é preciso conhecer os temas que fazem sentido para as pessoas e asformas de
expressão que atraem as pessoas em vez de afastá-las. Essa habilidade superior
pode ser alcançada através do estudo e da comunhão com o Espírito Santo, além
do desejo profundo de alcançar as pessoas onde elas estiverem.
temos bíblicos poro o pós-modernismo • 73
Resumindo o pensamento religiosopós-moderno, aTabela 2 fazuma compa-
ração dos principais temas religiosos do Pós-Modernismo com a posição bíblica.
Tabela 2: Implicações Religiosas do Pós-Modernismo
Tema Pós-Modernismo Posição Bíblica
Relacionamento Pessoal Grupo ou comunidade Amor a Deus e ao próximo
Moralidade Definida pelo indivíduo Definida pela Lei de Deus
Verdade Relativa, subjetiva, mutável, Cristo é a verdade absoluta
definida pelo grupo
Pluralismo Todas as religiões são iguais Salvação pela fé em Cristo
e levam ao mesmo lugar,
a salvação
Autoridade Sentimento subjetivo e Inspiração da Bíblia
consenso do grupo
Fé Baseada em sentimentos Baseada na Bíblia
e imaginação
Espiritualidade Energia interior e universal Relacionamento pessoal
com Deus.
Em síntese, na Bíblia, há sempre temas relevantes para qualquer tipo de
ouvinte e para qualquer visão de mundo. Como pregadores, precisamos nos esfor-
çar para que nosso sermão seja relevante e transmita a relevância da Bíblia ao
ouvinte de hoje. É aqui que entra o valor das estratégias de comunicação para
ressaltar a relevância da Bíblia numa cultura secular como a nossa. A escolha das
melhores estratégias de comunicação é exatamente o tema do próximo capítulo.
Capítulo 4
Comunicando a mensagem a
ouvintes pós-modernos
"Serumapessoa éter uma históriapara contar. "
ISAK DINESEN
Q
al o melhor estilo de pregação para alcançar o coração do ouvinte
ós-moderno? Essa pergunta talvez não tenha uma resposta simples.
Considerando o pluralismo de idéias e estilos de vida da geração pós-
moderna, não existe um modelo único de pregação capaz de atender a essa
grande variedade de gostos, opiniões e estilos. Existem sim estilos de pregação
mais eficazes, que levam em conta as características da mentalidade pós-
moderna, e estilos totalmente ineficazes, que ignoram essas características. Um
exemplo de estilo ineficaz é o tradicional estilo autoritário, em que o pregador
apresenta a mensagem pressupondo que os ouvintes vão concordar e obedecer
a tudo que o orador expõe. Outro exemplo seria o estilo discursivo, tão comum
entre nós. Nesse estilo, o pregador exibe seu tema e argumentação como um
monólogo, apresentando suas próprias idéias sem perceber que muitas vezes
tem falado a uma audiência passiva, distante e desinteressada.
Embora não exista um modelo único ou uma fórmula mágica para con-
quistar o ouvinte atual, existem princípios que regem a comunicação no contexto
pós-moderno. Esses princípios levamem consideraçãoascaracterísticasbásicas do
76. o ouvinte
Pós-Modernismo, conforme discutidas no capítulo anterior. Em vez de repetir
essascaracterísticas para abstrair princípios de comunicação, vamos focalizar nossa
discussão em um critério básico do Pós-Modernismo, que eu chamaria de o crité-
rio múltiplo dapreftrência individual. De acordo com ele, cada pessoa pensa o que
quer, acredita no que quer, adota o estilo de vida que quer, faz o que quer, vê o
mundo da maneira que mais faz sentido para si e decide o que é bom para si. Em
outras palavras, cada pessoa é o juiz de sua própria realidade. Concordemos ou
não, este é o mundo em que vivemos. Essa tendência, longe de ser produto de
uma cultura localizada, está espalhada pelo mundo inteiro graças à velocidade
espantosa com que a TV e a Internet alcançam e influenciam a mente das pessoas.
Essa diversidade de preferências individuais nos impõe um problema quase
irresolúvel: Se os gostos, opiniões e crenças são múltiplos, qual seria o segredo
para atender a essa pluralidade de preferências? Qpal seria o método de pregação
mais eficaz para alcançar uma congregação com tanta diversidade de gostos e
idéias? Novamente, o segredo não está no método, mas nos princípios que regem
o método. Só existe um segredo para se alcançar o ouvinte com essa vasta plura-
lidade de idéias e preferências. Esse segredo é interagir com ele.Portanto, em vez de
discutir uma listade princípios,vamos focalizarnossa abordagem no que eu chamaria
de o princípio dominante da interatividade.Todos os outros princípios de comuni-
caçãopermanecem igualmente válidos, importantes e necessários, mas, no contexto
pós-moderno, o princípio da interatividade na comunicação reveste-se de um cará-
ter prioritário, inclusive para permitir que outros princípios produzam um efeito
significativo. Em outras palavras, a única maneira de alcançar uma audiência diver-
sificada e pluralizada é permitir que todos tenham a oportunidade de interagir com
a mensagem. Ou seja,se supusermos que numa congregação com trezentas pessoas
você tenha trezentas preferências diferentes, a única maneira de uma mensagem ter
sentido para essapluralidade de gostos seria criar um contexto em que todos pudes-
sem interagir a seu modo com o conteúdo da mensagem. O princípio é simples:
Interatividade pressupõe um processo de troca entre orador e ouvinte. Num pro-
cessode troca, ambas aspartes têm algo diferente a oferecer,uma vez que não existe
troca de produtos iguais.
Há muito tempo, a televisão e a mídia descobriram e exploram o poder da
comunicação interativa. Nos telejornais, quase nenhuma notícia é apresentada
sem entrevistar a população, perguntando sua opinião. Cresce cada vez mais o
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 77
número de programas de TV em que a opinião dos telespectadores determina o
desenlace do programa. Um exemplo típico é o programa Big Brother Brasil,
adaptado de produções estrangeiras e irradiado pela Rede Globo. Nesse pro-
grama, o telespectador literalmente vota para decidir quem serão os vencedo-
res e os perdedores por meio de um número telefônico. Atualmente até autor de
telenovelas vai às ruas entrevistar as pessoas e perguntar a opinião delas sobre
qual deveria ser o final da trama. Com base nessas opiniões, o autor escreve os
últimos capítulos do programa.
Na pregação, embora o conteúdo e o formato sejam diferentes, o princí-
pio é semelhante. Nesse processo de troca, o pregador entra com a mensagem,
e o ouvinte entra com a experiência pessoal. Quanto mais o pregador interagir
com a experiência dos ouvintes e permitir que eles participem do processo,
maior será o impacto positivo da mensagem. Isso significa que o sermão deve
se transformar num debate acalorado com toda a congregação? Não necessaria-
mente, embora essa seja uma possibilidade dependendo da ocasião.
Para entendermos melhor o princípio da interatividade, eu faria uma dis-
tinção entre o que eu chamo de interatividade mental e emocional ou interativi-
dade verbal efísica. Essas duas formas de interatividade permitem ao ouvinte
interagir com a mensagem e com o pregador de maneira diferente, mas com
resultado semelhante, uma vez que em ambos os casos o ouvinte é envolvido
no processo de comunicação da mensagem. Na interatividade mental e emocio-
nal, o pregador dá ao ouvinte a oportunidade de reagir com o pensamento, ou
seja, o pregador faz o ouvinte pensar e sentir a mensagem. Na interatividade
verbal efísica, o ouvinte pode participar audivelmente respondendo ao prega-
dor ou mesmo se movimentando em uma ilustração interativa. A fim de explorar
melhor esse potencial da interatividade na pregação, os tópicos abaixo apre-
sentam algumas idéias sobre ambos os tipos de interatividade.
Interatividade mental e interatividade verbal
Considerado o maior mestre do diálogo, o filósofo Sócrates desenvolveuo método
didático que ele chamou de maiêutica,termo grego que significa"parto das idéias",
inspirado na profissão de sua mãe que era parteira. Sócrates envolvia seus alunos
num exercíciointenso de perguntas e respostas até que o próprio aluno descobrisse
78. o ouvinte
a verdade sobre um determinado assunto, dando assim ocasião ao nascimento de
uma idéia. Da mesma maneira, Sócrates fazia com seus adversários intelectuais,
bombardeando-os com perguntas até que os adversárioscaíssem em contradição e
fossem derrotados por suas próprias idéias desencontradas. O método funcionava
com eficiência na Era Pré-Moderna, milênios atrás, e, por incrível que pareça,
continua a ser um método poderoso de ensino também na Era Pós-Moderna, que
mais do que nunca é a era do diálogo e da interatividade. Embora não sejamos
Sócrates, podemos aprender com seu método e utilizá-lo com poder na comuni-
cação com o ouvinte pós-moderno.
Mas o maior Mestre de todos os tempos foi um passo além e utilizou o
método socrático com maestria tanto no plano verbal como no plano mental. Se
Sócrates foi o rei do diálogo, Jesus Cristo foi o rei da interatividade em todos os
sentidos. Toda a sua mensagem consistia em uma constante troca com seu ouvinte,
quer o auditório fosse uma grande multidão, um pequeno grupo como os discípu-
los,ou mesmo um ouvinte individual. Por issoera comum ouvi-lo fazer perguntas à
sua audiência, interagindo com pensamentos, opiniões e sentimentos do ouvinte.
Por exemplo, ao aguçar a lembrança de seusouvintes com a expressão"ouvistesque
foi dito" (Mt 5.43), Ele interagia diretamente com a memória e com a bagagem
cultural do ouvinte, para então levá-lo a pensar e enxergar um novo ângulo da
verdade. Ao perguntar "quem dizem as multidões que sou Eu?" (Lc 9.18), Ele
interagia com a opinião pessoal e com as idéias de cada ouvinte. Ou seja, qualquer
que fosse o número de ouvintes e de opiniões, Cristo interagia com todos eles ao
mesmo tempo, porque cada ouvinte era estimulado apensar em suaprópria opinião
e na opinião de pessoasconhecidas.
Mas acima de tudo, Cristo sabia interagir com as mais profundas emo-
ções de seu ouvinte. Sabendo que em todo auditório havia pessoas torturadas
por preocupações, angústia e estresse, Ele atingia o coração das pessoas ao per-
guntar "por que andais ansiosos?" (Mt 6.28), ou ainda "qual de vós, por ansioso
que esteja, pode acrescentar um côvado ao curso de sua vida?" (Mt 6.27). Através
dessa interação, Cristo ajudava seu ouvinte a reavaliar seus valores e a reorganizar
sua vida emocional. Muitas vezes Cristo interagia diretamente com o comporta-
mento' com o relacionamento e com a sensibilidade de seu ouvinte. Após contar
a parábola do bom samaritano, ele disparou uma pergunta no mínimo desconcer-
tante para ouvintes insensíveis: "qual destes três te parece ter sido o próximo do
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos _ 79
homem que caiu nas mãos dos salteadores?" (Lc 10.36). A força da pergunta
levou cada ouvinte a encontrar ele mesmo a resposta e a conclusão.
Por incrível que pareça, o método que Cristo usou há dois mil anos ainda nos
forneceum modelo de método para atingir o ouvinte pós-moderno. A interatividade
em diferentes formatos parece ser o caminho mais adequado para alcançaro coração
da nova geração. Dentro desse conceito de interatividade, os tópicos abaixo discu-
tem algumas estratégias sugeridas por diferentes autores para a apresentação da
mensagem bíblica de forma relevante ao contexto pós-moderno.
Pregação narrativa e o uso de histórias
Contar histórias tem sido o método por excelência através dos tempos. Foi assim
no AntigoTestamento, continuou assim nos dias de Cristo,e ainda hoje esseé um
dos métodos mais poderosos para apresentação da mensagem bíblica. Talvez seja
esse o único método que transcende os limites de tempo e espaço, pois, indepen-
dente de época, região ou cultura, esse método narrativo fascinava o ouvinte antes
do Pré-Modernismo e tudo indica que vaicontinuar fascinando as pessoas além do
Pós-Modernismo. Existe um poder mágico numa história bem contada, que é
capaz de absorver a atenção e a concentração de ouvintes de qualquer idade, raça,
nível cultural ou posição social.
Mas qual é essa mágica e encanto existente na apresentação de uma his-
tória? Aparentemente as histórias são capazes de atingir cada faceta de um ser
humano, afetando as emoções, desafiando o intelecto, motivando o coração e
influenciando o comportamento das pessoas. Não é por acaso que as lendas, as
fábulas e os mitos de povos antigos, apesar de terem atravessado milênios, per-
manecem vivos na literatura universal. Muitas vezes são o único registro de
um determinado povo ou cultura que conseguiu sobreviver ao tempo, às guer-
ras e às catástrofes. Isso nos diz muito sobre o poder das histórias.
Inúmeros livros têm sido escritos sobre o poder das histórias. Annette Sim-
mons fala sobre a psicologia das histórias e ressalta alguns elementos fundamen-
tais sobre essa magia que as toma tão poderosas na mente e na vida das pessoas.
1.Poderdeconexão - Histórias criam um elo de conexão entre quem conta e
quem ouve a história, independente das diferenças raciais, sociais ou culturais.
80. o ouvinte
Por mais diferentes que sejamos,ashistórias têm o poder de conectar aspessoaspor
meio de um vínculo que é comum a todos: somos todos humanos - com tudo que
isso tem de bom e de ruim. Isso significa que todos nós vivenciamos experiências
semelhantes, como: sucessose fracassos; surpresase decepções; amor e ódio; alegria
e tristeza; amizades e inimizades; vida familiar e profissional. Contar uma história
que envolva qualquer aspecto da vida conecta o orador e o ouvinte no reconheci-
mento de que juntos partilham a mesma humanidade.' Esse poder de conexão faz
toda a diferença no impacto da pregação a qualquer ouvinte, e particularmente ao
ouvinte pós-moderno. Pregadores que desejam influenciar pessoasjamais podem
subestimar o poder das histórias.
2.Tocar oinconsciente - Histórias têm o poder de impressionar a mente cons-
ciente e inspirar o inconsciente. Ao tocar o inconsciente das pessoas, as histórias
deixam marcas que podem durar para o resto da vida, pois ele armazena essas
impressões no íntimo do ser. Com certeza, todos nós nos lembramos de alguma
história do passado que até hoje influencia nossos pensamentos e idéias. Isso con-
cede ao pregador um enorme poder de influência, o que também implica uma
pesada responsabilidade. Histórias sempre tiveram essepoder, mas o que as torna
altamente estratégicas hoje é o fato de que a geração pós-moderna irá ouvir a
qualquer pessoa que conte a história mais relevante para ela, quer seja a mídia, um
artista, um livro oriental ou um pregador.
3. Dar atenção às carências emocionais - Além de tocar o inconsciente, as
histórias também tocam profundamente as emoções. Pelas pressões e correrias
de nossa sociedade tecnológica, praticamente o ouvinte de qualquer auditório
tem estado carente de atenção. Por ela, pagaria qualquer preço. Devido a essa
falta de atenção, mesmo daqueles a quem ama, o ouvinte pós-moderno quer se
sentir tocado, percebido, notado. Q1Ier sentir que pertence a alguém. Ele não
precisa de mais informação, pois isso já tem de sobra. O que quer é encontrar
algum sentido para tudo isso. Quando conta uma história que toca alguém, você
1 Annette Simmons, The Story Factor:Inspiration, Influence, and Persuasion through the
Art of Storytelling, 2001.
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 81
oferecea essapessoao dom da atenção humana, satisfazendo uma carência,tocan-
do o coração e fazendo com que a pessoa se sinta mais viva. Isso não tem preço, e
o ouvinte vai corresponder a essa atenção emocional. É isso que torna as histórias
tão ricas e poderosas.
4. Enriquecerjàtos everdades- Além de conectar o orador com os ouvintes e
tocar o inconsciente, as histórias também têm o poder de tornar atraente qualquer
verdade ou tema que de outra forma poderiam ser rejeitados como inconvenientes
ou indesejáveis. Veja como uma fábula judaica ilustra com maestria esse efeito
embe1ezador e enriquecedor que as histórias são capazes de produzir:
Verdade, nua e sem agasalhos, tinha sido lançada fora de todas as casas da aldeia.
Sua nudez espantava e repelia as pessoas. Quando Parábola a encontrou, Verdade
estava jogada numa esquina, com frio e faminta. Sentindo piedade dela, Parábola
a tomou pela mão e a levou para casa. Ali, Verdade foi agasalhada com roupas
tecidas em história, aquecida e enviada de volta à aldeia. Agora, vestida de tecido
história, Verdade bateu novamente na porta dos moradores da aldeia e foi pron-
tamente recebida e bem-vinda em todas as casas. As pessoas a convidaram para
jantar à mesa e se aquecer ao pé da lareira. (História didática judaicaj.?
Não há dúvida, as histórias possuem um poder encantador capaz de abrir
as portas do coração e da vida das pessoas. De fato, ainda que a verdade seja
difícil de aceitar ou impopular, uma boa história consegue quebrar as barreiras
do preconceito e da rejeição, pavimentando o caminho da simpatia e da aceita-
ção da mensagem. Esse revestimento da verdade explica a superioridade das
histórias sobre a mera apresentação de fatos.
5. Perspectiva multidimensional- Os fatos narram ocorrências numa dimen-
são cronológica, como uma mera seqüência de eventos. Uma história tem a
vantagem de explorar diferentes dimensões de um fato ou ocorrência, como: as
emoções sentidas; as pessoas envolvidas; o significado de cada evento; e as con-
seqüências do fato para a vida das pessoas. Por exemplo, uma coisa é narrar um
2 Idem, p. 27.
82. o ouvinte
incêndio numa casa que resultou na morte de uma criança. Outra coisa é descre-
ver a angústia de uma mãe desesperada para salvar o filho preso num cômodo da
casa em chamas. Essa é a diferença entre fatos e histórias.
N a prática, os fatos não têm nenhuma influência sobre a pessoa a menos
que eles tenham um significado para ela. Por isso, a interpretação dos fatos e das
experiências da vida é feita com base nas histórias que a pessoa viveu ou conhe-
ce. Qualquer que seja a mensagem, o ouvinte vai buscar histórias conhecidas
como referência para que os fatos façam sentido para ele. É aqui que entra o
poder das histórias. Elas proporcionam um contexto para que os fatos se encai-
xem na mente do ouvinte.
Lembro-me da única ocasião em que tive o privilégio de assistir pessoalmente
a um sermão do grande pregador Billy Graham. Eujá o conhecia muito através de
livrose vídeos, mas tinha curiosidade de ouvi-lo pessoalmente. Erajunho de 2003,
e eu morava em Indianápolis, Estados Unidos, onde concluía meus estudos douto-
rais. As famosas cruzadas evangelísticas que marcaram a vida de Billy Graham, ao
longo de 50 anos de ministério, estavam agora muito escassas devido à sua saúde
debilitada e idade avançada, 85 anos. Num final de semana, resolvi procurar na
Internet a programação de eventos do grande evangelista e descobri que em 2003
ele tinha na agenda apenas duas grandes cruzadas, uma em San Diego, na Califór-
nia, e a outra em Oklahoma City, Oklahoma. Para minha surpresa, percebi que o
evento de Oklahoma City ocorreria exatamente dali a uma semana, ou seja,nos dias
12 a 15 de junho. Consultei um mapa e vi que a distância era de 740 milhas, cerca
de 1200 quilômetros. Não tive dúvida. No final de semana seguinte, aluguei um
carro, para maior segurança e conforto na estrada, levantei bem cedo e viajei doze
horas de Indianápolis a Oklahoma City. Quando cheguei, o evento daquela noite já
tinha começado e assisti apenas à parte final. Mesmo assim permaneci na cidade
para assistir ao encerramento da Cruzada no dia seguinte.
Entrei no grande ginásio coberto e acomodei-me num dos assentos da arqui-
bancada. Cerca de 100 mil pessoas estavam presentes. Eu sabia que vivia ali um
momento histórico, pois não haveria muitas oportunidades daquelas no futuro.
De fato, só houve mais duas cruzadas em 2004 e, depois disso, não foram agenda-
dos mais esses grandes eventos, que certamente exigiam muita energia para uma
pessoa idosa.
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 83
o programa começou com um concerto musical da cantora gospel CeCe
Winans e outros artistas evangélicos. Depois o público se uniu aos artistas cantando
com vibração cânticos e corinhos no estilo gospel bem contemporâneo. Após o
testemunho de um líder político de Oklahoma, veio o maestro CliffBarrows, inse-
parável ministro da música de Billy Graham, saudando o público e convidando
todos a entoar sob sua regência alguns hinos tradicionais como, por exemplo, "Gló-
rias ao Rei de Amor." Logo em seguida, CliffBarrows volta-se para o grande coral
de três mil vozes, atrás do palco, e rege com solenidade o hino tradicional "Santo!
Santo! Santo!" Depois foi a vez de George Bever1yShea, o idoso companheiro e
cantor oficial de Billy Graham, dirigir-se ao público, com sua voz grave, e apresen-
tarum solo do hino tradicional"Vestido em LinhoJesus Desceu". Eu fiquei impres-
sionado com a variedade de estilos, combinando o contemporâneo com o tradicional
e oferecendo um cardápio musical com sabores para todos os gostos.
Eu aguardava a mensagem com muita expectativa e realmente esperava ouvir
um show de oratória no mais puro estilo tradicional, com toda a eloqüência que eu
já tinha visto nas fitas de vídeo. Por outro lado, eu me perguntava como um prega-
dor idoso, de estilo antigo e linha tradicional, poderia atrair um público de todas as
idades, estranhamente composto de maioriajovem da era pós-moderna, incluindo
muitos adolescentes. Seria o mito? A música gospel somente? Ou o que mais?
De repente chegou o momento tão esperado. O velho pregador se levanta,
com a imponência de sua estatura acima da média e sua vasta cabeleira branca, e
caminha lentamente para o púlpito. Estava nitidamente cansado pelos anos, mas
conservava o mesmo porte nobre que sempre o caracterizou. Sua introdução foi
bem simples. Primeiro agradeceu os aplausos e dedicou-os ao Senhorjesus Cristo,
atraindo ainda mais aplausos. Contou algumas experiências missionárias e falou
das bênçãos de Deus ao longo de seu ministério, fazendo uma referência carinhosa
à sua esposa Ruth, que não estava presente por causa da saúde debilitada, mas a
quem agradeceu o apoio incondicional ao seu ministério. Em seguida dirigiu-se
ao público em tom de despedida, afirmando que possivelmente aquela seria a
última vez que os visitava e, bem-humorado, brincou dizendo que não se preocu-
passem, que ele não tinha medo da morte.
Seu sermão foi direto ao ponto. Leu a parábola do filho pródigo e fez
uma rápida aplicação sobre o amor de Deus, sempre de braços abertos para rece-
ber os pecadores. O resto do sermão foi uma única história, a de sua conversão.
84. o ouvinte
Aos 16 anos de idade, não tinha nenhuma simpatia pela igreja nem vontade de
freqüentá-la. Naquela ocasião,um polêmico evangelistaitinerante fez uma sériede
conferências bíblicas durante quase três meses em sua cidade natal, o que dividiu a
cidade em contra ou a favor do pregador. Billy não tinha a menor intenção de ir
assistir,até que seu melhor amigo o convidou para irem juntos, com uma turma de
amigos, ouviro pregador"briguento", como eleso chamavam. O convitefoi melhor
ainda porque o amigo disse que Billypoderia dirigir seu automóvel. Chegando lá,
sentaram no fundo do auditório como meros observadores. Apesar de sua indife-
rença, Billy Graham contou que, de alguma maneira inexplicável, a mensagem
daquele pregador tocou profundamente o seu coração, e elevoltou para casaimerso
em profundos pensamentos. Dali em diante não perdeu mais nenhuma noite. No
final da série de pregações, tomou a decisão de consagrar a vida a Jesus Cristo e
tornar-se um evangelista, uma decisão que o acompanhou para o resto da vida.
Ao terminar de contar a história de sua vida, Billy Graham voltou-se para o
público e, de maneira simples e direta, perguntou quantos gostariam de tomar uma
decisão semelhante e consagrar avida a Cristo naquele momento. Imediatamente,
enquanto o coral cantava o hino "Tal Qual Estou", milhares de jovens e adultos
atenderam ao apelo, descendo das arquibancadas para conversar e orar com ins-
trutores bíblicos que os aguardavam na frente do palco.
Naquela noite aprendi uma grande lição de pregação bíblica e entendi por
que o ministério de Bi1ly Graham foi tão fecundo e bem-sucedido. Mesmo
tendo iniciado seu ministério meio século antes, o idoso pregador demonstrou
profunda sensibilidade e discernimento para adaptar-se ao estilo de sucessivas
gerações de ouvintes, variando desde a oratória clássica dos anos 50 até o estilo
narrativo que atrai a geração pós-moderna.
Em suma, as histórias são poderosas porque cada pessoa tem uma histó-
ria, cada vida é uma história, e cada cristão tem uma história de salvação pes-
soal, diferente da história de qualquer outra pessoa. Cada uma dessas histórias
é única em si e riquíssima em fatos, eventos, relacionamentos, emoções e signi-
ficados. Por isso, o colorido de uma história sempre fará eco na vida das pessoas
e dará riqueza à mensagem de um sermão.
Falando ainda sobre o princípio geral da interatividade com o ouvinte, o
pregador é livre para usar uma variedade infinita de recursos, além das histórias,
e até mesmo criar diferentes métodos e abordagens para apresentação da mensa-
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 85
gem bíblica. A seguir apresentamos mais algumas idéias que podem ser explora-
das e desenvolvidas pelo pregador, dependendo do gosto, da experiência e do
estilo pessoal de cada um.
Abordagem jornalística
o bomjornalismo nada mais é do que a arte de transformar a notícia em história e
dar à informação um colorido rico. Da mesma forma, uma boa maneira de enrique-
cer a pregação é transformar a mensagem em história e dar um brilho inspirador à
informação e aos fatos bíblicos. Propondo uma abordagem jornalística à pregação,
Galli e Larson (1994)3 apresentam diferentes estratégias que podem tornar a men-
sagem mais atraente para o ouvinte pós-moderno, conforme esboçado abaixo.
1. Caracterização dospersonagens - As pessoas são curiosas a respeito de
outras pessoas e isso é muito bem explorado pela mídia e pelo jornalismo. Aliás,
a mídia está sempre fabricando personagens, quer sejam heróis ou vilões, por-
que sabe que as pessoas são atraídas para tudo que se relacione com outras pes-
soas. Como a Bíblia é rica em heróis e personagens fascinantes, uma abordagem
jornalística à pregação seria explorar os traços dominantes da personalidade desses
personagens. Elementos como a coragem de Davi, a ousadia de Daniel, a insta-
bilidade de Pedro, o romance de Isaque e Rebeca, o temperamento explosivo de
Saul e outros traços ou episódios de diferentes personagens criam quadros vivos
na mente e na imaginação do ouvinte.
2. Entrevistas- Aproveitando a curiosidade do ouvinte sobre outras pessoas,
as entrevistas são um meio poderoso de atrair a atenção e ilustrar diferentes con-
ceitos. Essa é uma estratégia clássica do jornalismo, não apenas para atrair atenção,
mas sobretudo para citar e demonstrar fontes ao vivo. Isso confere autenticidade à
informação além de apresentar uma fonte viva e atual no momento presente. No
caso do ouvinte pós-moderno, a entrevista reveste-se de uma relevância muito
3 Galli, Mark, e Larson, Craig B. Preaching that Connects: Using journalistic Techniques
to Add Impact, p. 81-84.
86. o ouvinte
especial por uma razão muito simples. Considerando a tendência pós-moderna
de rejeitar as metanarrativas históricas e valorizar a opinião pessoal, o ouvinte de
hoje tende a dar preferência e maior credibilidade a uma pequena história indivi-
dual contada numa entrevista a aceitar a autoridade de um teólogo ou autor de
renome, até porque a cultura pós-moderna tende a rejeitar qualquer forma de
autoridade. Uma entrevista faz sentido imediato para o ouvinte porque a fonte da
informação está ali presente, diante de seus olhos, falando do que experimentou e
afirmando aquilo que sente ou pensa interiormente. Para a mentalidade pós-
moderna, o que mais importa é aquilo que cada pessoa sente e pensa. Em outras
palavras, se algo faz sentido para uma pessoa, isso deve ser importante para outros
também e muito mais relevante do que qualquer documento histórico escrito no
passado por pessoas cuja experiência é totalmente desconhecida do ouvinte.
Para um ouvinte pós-moderno, não existe argumento mais forte sobre o poder
da salvação do que uma pessoa contar a sua história pessoal de salvação e transfor-
mação. O pregador pode, por exemplo, entrevistar uma pessoa sobre a sua experiên-
cia e depois aplicar os conceitos bíblicos relacionados com aquela experiência. Para
um sermão sobre a fé, não existe abordagem mais convincente do que uma pessoa
contar uma conquista que obteve pela fé. Para falar sobre o poder da oração, não
existe argumento mais forte do que uma pessoa contar uma bênção recebida por
meio da oração insistente e perseverante. Em outras palavras, a entrevista possui o
poder de um testemunho pessoal, que é real, atual, autêntico e significativo.
A estratégia de realizar entrevistas pode ser utilizada com diferentes tipos de
pessoas. Dependendo do tema, o pregadorpode entrevistar crianças,jovens, adultos,
pais e filhos, professores e alunos, recém-convertidos ou pessoas nascidas no seio da
igreja, e assim por diante. Em todos esses casos, a entrevista pode dar o formato da
mensagem, enquanto o conteúdo deve ser cuidadosamente preparado com sólida
base bíblica relacionada com as perguntas da entrevista.
Filmes, vídeos e videoclipes
Considerando que as circunstâncias culturais da geração atual valorizam cada vez
mais o fator visual, o uso de vídeo torna-se cada vez mais um recurso poderoso na
comunicação. Devido ao intenso contato com telas de TV e computadores ao longo
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 87
davida, estudiosose pesquisadoresafirmam que o cérebro da geraçãoatual processa
ainformação de maneira diferente do que ocorriacom asgeraçõesanteriores.Como
disse um pregador, a geração atual vivecom uma tela na frente dos olhos, e a única
questão relevante a ser discutida é qual o conteúdo que será exposto nessa tela."
Cada vez que chega perante uma congregação, portanto, o pregador tem
diante de si um grupo de ouvintes ávidos por imagens visuais. Isso constitui
uma oportunidade de ouro para encher a tela visual dos ouvintes com imagens
que motivem a reflexão espiritual de modo a produzir uma experiência espiri-
tual relevante. Assim, os videoclipes e filmes, quando sabiamente empregados,
tornam-se poderosas ilustrações na pregação.
Trechos de filmes que contenham uma história marcante podem consti-
tuir uma ilustração vívida de um determinado tema. Com cautela e sabedoria,
o pregador pode escolher algumas cenas de impacto positivo. Certa ocasião,
por exemplo, preguei um sermão sobre "A Responsabilidade da Escolha Indivi-
dual". Depois de comentar as escolhas diferentes de filhos criados na mesma
família, tais como Caim e Abel, Esaú eJacó, desenvolvi o argumento de que
Deus não viola o nosso direito de escolha, e, portanto, a responsabilidade per-
tence a cada um. Para ilustrar esse conceito, no meio do sermão usei um exem-
plo visual e projetei um trecho do filme "Voltando a Viver", baseado na história
verídica de Antwone Fisher, interpretado pelo ator Derek Luke, tendo como
coadjuvante DenzelWashington. O filme conta a história de um menino negro
que foi rejeitado pela mãe e acabou sendo criado por alguns parentes em meio à
pobreza e à miséria da periferia de uma grande cidade. Ao longo da vida, foi
maltratado e abusado em casa, discriminado na escola, perseguido e humilhado
pelos colegas de rua que viviam mergulhados no tráfico de drogas. Nunca conhe-
ceu o pai nem a mãe. Finalmente entrou para a Marinha americana e, já adulto,
resolveu procurar a mãe. Com a ajuda de um parente, finalmente a encontrou.
Depois de contar essa história, projetei na tela a cena emocionante do encontro
dele com a mãe, em que ele diz a ela o seguinte: "Por que você não veio me ver?
Todos os dias na escola eu esperava até a última hora, achando que você viria me
4 Graham Johnston, Preaching to a Postmodern World: A Guide to Reaching Twenty-
first-Century Listeners, p. 164.
88. o ouvinte
buscar e me levar para casa! A minha vida foi muito difícil, mas quero que
você saiba que eu sou um homem de bem, sou formado, tenho uma profissão,
falo três idiomas, nunca fumei, nunca bebi, nunca usei drogas!" Depois do
sermão, algumas pessoas mais jovens vieram comentar comigo sobre como a
mensagem as ajudou a refletir sobre as suas escolhas pessoais. Percebi que o
efeito foi positivo.
Outro recurso poderoso que pode ser utilizado em vídeo é a produção de
entrevistas filmadas com os membros da igreja ou com outras pessoas de dife-
rentes idades e atividades. Aliás, esse recurso pode ser considerado uma exten-
são da abordagem jornalística discutida no tópico anterior. Numa das igrejas
em que fui pastor, a liderança de jovens organizou uma equipe de produção
que preparava vídeos que iam ao "ar" semanalmente na hora do culto jovem. Os
vídeos eram projetados em telão e continham entrevistas feitas com os jovens
sobre o tema da mensagem a ser apresentada naquele final de semana. É uma
atividade que exige muito trabalho e dedicação, pois envolve uma produção real,
com preparo de roteiro, captação de imagens, edição de imagens e apresentação
final. Mas osjovens gostam desses desafios e fazem todo esforço para participar.
O efeito desse programa tem sido altamente positivo, e o programa continua ativo
por quase duas décadas!
Noutra ocasião fui nomeado conselheiro dos jovens da igreja que eu fre-
qüentava e passei a participar das comissões de planejamento de todas as ativida-
des dos jovens naquela igreja. Numa dessas reuniões, surgiu a mesma idéia de
produzirmos um programa de vídeo entrevistando osjovens da igreja.Rapidamente
o grupo implantou a nova idéia. O programa foi batizado com o nome de "Vídeo
Jovem" e também era projetado semanalmente no culto de jovens. A equipe de
produção era composta de um roteirista, um cameraman, três apresentadores, que
serevezavam entrevistando os "personagens", e dois produtores que selecionavam
a cada semana osjovens que seriam entrevistados. O programa era projetado ime-
diatamente antes do sermão, entrevistando jovens sobre a experiência deles em
relação ao tema que seria apresentado pelo pregador. O resultado era uma ilustra-
ção viva do tema bíblico, com base em experiências sempre atuais coletadas com
pessoas da comunidade a cada semana. Para a geração pós-moderna, essa é uma
atividade altamente atraente que produz um impacto poderoso na compreensão
da mensagem, fazendo diferença real na vida das pessoas.
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 89
Drama e arte
Outra forma de ilustração visual que já se tornou muito popular é a dramatização.
Como ocorre com toda inovação, ainda existe certa polêmica sobre o uso de drama
e encenações na pregação e no serviço de adoração. Sem querer entrar na polêmica
e no debate ideológico, prefiro ater-me a um princípio que me parece muito
claro: a essência da pregação é de natureza espiritual e imutável, enquanto a forma
e o método são de natureza cultural e mudam com o tempo e com as circunstân-
cias. Partindo desse princípio, é totalmente válido fazer inovações e explorar novos
métodos, desde que a essência da mensagem não seja comprometida.
Algumas igrejas já possuem o ministério do drama, que tem envolvido um
número cada vez maior de jovens e artistas cristãos. Longe de ser uma brincadeira
ou uma mera encenação improvisada, o ministério do drama é desenvolvido em
caráter altamente profissional e espirituaL Tive oportunidade de visitar algumas
vezes aWillow Creek Community Church, nas cercanias de Chicago, EUA, uma
igreja cristã interdenominacional que começou no início da década de 70 com a
proposta de atingir adolescentes e alunos de Segundo Grau por meio de música
contemporânea, drama e cursos bíblicos. Em pouco tempo a igreja cresceu de um
punhado de garotos e garotas para alguns milhares de jovens. Em 1975, a igreja
abriu suas portas para o público adulto, despertando pouco interesse e muita
oposição. Iniciaram com um grupo de apenas 125 adultos que diminuía a cada
semana. Aos poucos, porém, o novo ministério foi se estabelecendo. Hoje essa
igreja é a pioneira das megaigrejas evangélicas nos Estados Unidos, com 6.500
membros batizados e uma freqüência semanal de 17 mil pessoas, que assistem aos
seus três horários de culto, sendo um aos sábados e dois aos domingos. A nave
principal, onde se realiza o culto tradicional, acomoda cerca de 6 mil pessoas, mas
o complexo da igreja inclui um segundo auditório para o culto contemporâneo
dos jovens, além de uma grande livraria, vários balcões para os diversos ministé-
rios, uma creche, uma praça de alimentação e quadras de esporte.
Tanto no culto tradicional como no contemporâneo, a pregação é antecedida
por uma dramatização relacionada ao tema da mensagem. No desenrolar do drama,
alguns fatores que chamam a atenção são: o alto nível de profissionalismo; o con-
teúdo espiritual; e a solenidade da apresentação, causando uma impressão espiritual
positiva.Depois que conheci melhor a igrejaevisiteiseu site (www.willowcreek.org),
90. o ouvinte
tomei conhecimento de que o ministério do drama inclui cursos de treinamento
com aulas de teatro e estudo dos princípios bíblicos de reverência e adoração.
Centenas de jovens participam do ministério do drama, e todos que desejarem
podem se inscrever no programa de treinamento. Embora haja opiniões contro-
vertidas a respeito, trata-se de um ministério como qualquer outro na igreja, que
tem exercido um efeito poderoso na ampliação da compreensão da mensagem
bíblica para a geração pós-moderna.
Em princípio, o conceito de drama litúrgico tem sua inspiração nos temas
bíblicos que envolvem encenação de grandes verdades ou mensagens espirituais,
tais como: os sacrifíciosdo santuário do AntigoTestamento, que representavam o
plano da salvação(Lv 1); a experiência do profeta Oséias com a prostituta Gõmer,
que encenou o amor de Deus para com um povo infiel (Os 1); a experiência de
Ezequiel profetizando no vale de ossos secos,representando restauração espiritual
(Ez 37); as encenações teatrais deJeremias com o cinto de linho (Jr 13.1-11) ou
com o vaso do oleiro (Jr 18.1-10), representando respectivamente a quebra do
orgulho de Israel e o domínio de Deus sobre as nações; as profecias simbólicas de
Daniel e do Apocalipse, com animais representando poderes políticos e religiosos
(Dn 7 e Ap. 13); a instituição do Batismo (Rm 6.3-5) e da Santa Ceia (Lc 22.14-
20), como ritos simbólicos da salvação;e assim por diante.Todos essesexemplos e
tantos outros falam eloqüentemente em favor do uso de encenações como recurso
didático e método de ensino das grandes verdades bíblicas.
De fato, não foi por acaso que Jesus instituiu o batismo e a santa ceia. Como
criador do ser humano, Cristo sabia o impacto duradouro que a experiência de
uma encenação solene teria sobre a vida das pessoas. É por isso que Ele, além de
instituir, decretou: "Fazei isto em memória de mim". E o apóstolo Paulo fez
questão de explicar ejustificar o propósito didático e evangelístico da encenação
sagrada: "Porque todas asvezes que comerdes este pão e beberdes o cálice, anun-
ciais a morte do Senhor, até que ele venha" (lCo 11.24 e 26). Portanto, se o
próprio Criador e Salvador fez uso da encenação sacra como método didático,
com certeza ele espera que o pregador tenha sabedoria para utilizar esse recurso
de modo a causar um impacto positivo em seus ouvintes.
Além disso, nesse episódio bíblico, também está embutido um princípio
norteador na encenação sacra. Não se deve esquecer que o propósito de todo dra-
ma na adoração é o mesmo apresentado pelo apóstolo Paulo: anunciar a morte do
comunicando a mensagem a ouvintes pós-modernos • 91
Senhor e o plano da salvação. Esse princípio deve ser o critério fundamental para
fazer distinção entre o ministério do drama e o teatro popular. Enquanto o teatro
popular tem como propósito divertir a audiência, o drama sacro tem como propó-
sito ensinar e anunciar a salvação. Partindo desse princípio, não é apropriado na
adoração o uso de alguns elementos básicos do teatro popular, tais como o diver-
timento e a exibição pessoal. A fim de cumprir o seu propósito didático, o drama
sacro deve ser preparado e ensaiado com cuidado, buscando evitar todo elemento
de vulgaridade, humor pobre, piadas, gestos grosseiros ou cenas que visem apenas
à exibição pessoal dos artistas. Com oração, bom senso, foco espiritual, profissio-
nalismo e bom gosto, o ministério do drama pode ser uma ferramenta poderosa
para a ilustração de temas bíblicos na pregação e na adoração.
Em suma, diferentes estratégias de comunicação produzem diferentes efei-
tos em diferentes ouvintes, e uma boa comunicação tem o poder de transmitir a
beleza da mensagem e alcançar o ouvinte do terceiro milênio. Contudo, o tipo
de comunicação adotado está diretamente relacionado com o estilo e com a
pessoa do pregador em si. Por isso, a próxima seção explora os recursos do pre-
gador e suas qualificações para melhor comunicar a mensagem divina por meio
da pregação bíblica.
segunda parte
o pregador
Capítulo 5
Como pregar sem atrapalhar o culto
"Seja suafala melhordoqueosilêncio - ouentãofíque calado. "
DIONÍSIO
A
lguns sermões têm a capacidade de atrapalhar o culto. Você pode achar
estranho, mas é isso mesmo que quero dizer: algumas vezes o culto
seria melhor se não houvesse o sermão! Aliás, sempre que a pregação for
vazia e sem poder, atrapalhará o culto. Às vezes o culto começa bem, com um
poderoso hino congregacional, orações fervorosas e uma inspiradora mensagem
musical. Tudo vai muito bem até o momento em que começa o sermão. Nesse
ponto, algumas vezes, um sermão mal preparado e sem conteúdo começa a tor-
turar os adoradores com frases repetitivas e de pouco sentido, destruindo todo o
clima espiritual criado pelo louvor. E, o que é pior, o pregador não se contenta
em ativar essa câmara de tortura por apenas meia hora - não raro se estende por
uma hora ou mais.
Talvez pareça exagero dizer que o sermão prejudica o culto, mas a Bíblia
adverte contra pastores que apascentam tão mal que fazem as ovelhas fugir:
"Portanto assim diz o Senhor, o Deus de Israel, acerca dos pastores que apas-
centam o meu povo: Vós dispersastes as minhas ovelhas, e as afugentastes..."
(Jr 23.2). Segundo Buttrick, citado ria revista Ministry, "as pessoas abando-
nam a igreja não tanto por uma verdade rigorosa que as torne incomodadas,
mas pelas fracas ninharias que as tornam desinteressadas".
96 • o pregador
Em outras palavras, sermões vazios não só atrapalham o culto como podem
acabar afastando as pessoas da igreja, criando nelas um total desinteresse pela
adoração. Pode até ser que Deus faça o milagre de ajudar alguém com um sermão
desses, mas isso não justifica o despreparo do pregador.
Particularmente os ouvintes do terceiro milênio, ou da chamada era pós-
moderna, são extremamente sensíveisà comunicação sem relevânciae aos comen-
tários com julgamentos, em que a congregação fica procurando um significado
prático ou um objetivo consistente e não encontra. Se no passado esses sermões
sempre incomodaram os ouvintes, hoje, mais do que nunca, eles devem ser evita-
dos a todo custo.
Sermões que atrapalham o culto
Apenas para ilustrar, vamos fazer uma rápida classificação dos sermões que mais
atrapalham o culto. Se você freqüenta igreja há vários anos, é provável que já se
deparou com alguns desses sermões mais de uma vez. Vejaa seguir um "catálogo"
desses sermões que mais atrapalham o culto.
o sermão comédia
Esse é um tipo de sermão que parece ter a finalidade de apenas divertir e entreter,
pois geralmente consiste numa seqüência de piadas e histórias engraçadas. Talvez
seria mais apropriado para uma peça cômica de teatro, uma vez que lhe falta um
conteúdo bíblico consistente. Histórias bem-humoradas podem ser apropriadas
para o púlpito, desde que sejam apresentadas como ilustração,e não como a essência
do sermão. A Bíblia acima de tudo deve ser a essência do sermão, e qualquer
ilustração só seráválida se ajudar a esclarecere reforçar a mensagem bíblica dentro
do contexto da adoração.
o sermão de terror
Alguns sermões parecem flimes de terror, como sea motivação para ser um cristão
fosse o medo da punição e do castigo divino, ou mesmo o pavor do inferno.
Esses sermões muitas vezes pintam a imagem de um Deus-polícia, constante-
mente fiscalizando os erros dos cristãos. Talvez fossem mais apropriados para
como pregar sem atrapalhar o culto • 97
um treinamento policial. O ouvinte precisa entender que a motivação genuína
para a vida cristã é o amor que Deus derrama sobre nós por meio da salvação. A
única resposta que Deus espera de nós é uma vida de lealdade por amor a Cristo,
e não o medo do castigo eterno. Em outras palavras, a obediência e a lealdade
devem ser fruto do amor e não do medo ou do terror.
o sermão drama
Peças ou histórias dramáticas podem ser uma boa fonte de ilustração, desde que
usadas sem exagero ou excesso. Agora, fazer do sermão inteiro um discurso dra-
mático com o mero fim de manipular as emoções dos ouvintes e levá-los às lágri-
mas não condiz com o propósito de um sermão relevante. Sermões baseados
inteiramente em histórias de acidentes trágicos, doenças terminais ou casos de
depressão e suicídio criam um clima emocional impróprio para a mensagem e não
produzem um efeito espiritual positivo. O clima emocional pode ser útil quando
usado discretamente com um claro propósito espiritual.
o sermão "reality show"
São comuns hoje os programas de TV em forma de show da realidade, cujo pro-
pósito é prender a atenção do ouvinte através da expectativa de fatos curiosos
numa situação real filmada para um show de TV Esses programas incluem seria-
dos explorando a vida de celebridades, competição entre candidatos disputando
uma oportunidade profissional ou artística, grupos de pessoas em aventuras radi-
cais, e assim por diante. Alguns sermões se demoram tanto em explorar a vida de
artistas e celebridades ou em comentar resultados dos shows de TV que mais
parecem do tipo "reality show", carecendo assim de consistência bíblica e produ-
zindo pouco ou nenhum efeito espiritual para inspirar uma vida cristã mais ele-
vada. Esse tipo de sermão não é relevante para as necessidades dos ouvintes.
o sermão virtual
Esse tipo de sermão existe na imaginação do pregador e na expectativa dos ouvin-
tes, mas na realidade ele está longe de ser um sermão consistente. Ou seja, parece
sermão, mas na realidade não é. Geralmente entram nessa categoria os sermões
98 • o pregador
improvisados, sem uma linha de pensamento, que mais parecem um amontoado
de frases e idéias sem conexão umas com as outras. As informações surgem de
acordo com a imaginação imediata do pregador, claramente evidenciando falta de
preparo e propósito. O sermão precisar ser real e não virtual, possuir uma estrutu-
ra real, seguir uma linha de pensamento real, transmitir um conteúdo real, e ser
aplicado às necessidades reais dos ouvintes.
o sermão anestésico
É aquele que parece anestesia geral. Mal o pregador começou a falar e a congre-
gação já está quase roncando. Caracteriza-se pelo tom de voz monótono, arras-
tado, e pelo linguajar pesado, típico do começo do século, com expressões arcaicas
e carregadas de chavõesdeste tipo: "Prezados irmãos, estamos chegando aos derra-
deiros meandros desta senda". Por que não dizer: "Irmãos, estamos chegando às
últimas curvas do caminho"? Seria tão mais fácil de entender. Ficar acordado
num sermão desse tipo é quase uma prova de resistência física. Como dizia
Spurgeon: "Há colegas de ministério que pregam de modo intolerável: ou nos
provocam raiva ou nos dão sono. Nenhum anestésico pode igualar-se a alguns
discursos nas propriedades soníferas. Nenhum ser humano que não seja dotado
de infinita paciência poderia suportar ouvi-los, e bem faz a natureza em liber-
tá-lo por meio do sono".'
o sermãoinsípido
Esse sermão pode até ter uma linguagem mais moderna e um tom de voz melhor,
mas não tem gosto e é duro de engolir. As idéias são pálidas, sem nenhum
brilho que as torne interessantes. Muitas vezes é um sermão sobre temas profun-
dos, porém sem o sabor de uma aplicação contemporânea, ou sem o bom gosto
de uma ilustração. É como se fosse comida sem sal. É como pregar sobre as
profecias de Apocalipse, por exemplo, sem mostrar a importância disso para a
vida prática. O pregador não tem o direito de apresentar uma mensagem insípida,
1 C. H. Spurgeon, Lições aos Meus Alunos, v. 1, p. 32.
como pregar sem atrapalhar o culto • 99
porque a Bíblia não é insípida. O pregador tem o dever de explorar as belezas da
Bíblia, selecioná-las, pois são tantas, e esbanjá-las perante a congregação.
o sermõo óbvio
É o tipo de sermão que diz apenas o que todo mundo já sabe e está cansado de
ouvir. O ouvinte é quase capaz de adivinhar o final de cada frase de tanto que
já a ouviu. É como ficar dizendo que roubar é pecado ou que quem se perder
não vai se salvar (é óbvio). Isso é uma verdade, mas tudo o que se fala no
púlpito é verdade. Com raras exceções, ninguém diz inverdades no púlpito. O
que falta é apenas revestir essa verdade de um interesse presente e imediato.
o sermão indiscreto
É aquele que fala de coisas apropriadas para qualquer ambiente menos para uma
igreja, onde as pessoasestão famintas do pão da vida. Às vezes,o assunto é impró-
prio até para outros ambientes. Certa ocasião,ouvi um pregador descrevero peca-
do de Davi com Bate-Seba com tantos detalhes que quase criou um clima erótico
na congregação. Noutra ocasião, uma senhora que costumava visitar a igreja con-
fessou-me que perdeu o interesse porque ouviu um sermão em que noventa por
cento do assunto girava em torno dos casos de prostituição da Bíblia, descritos
com detalhes. E acrescentou: ''Achei repugnante. Se eu quiser ouvir sobre prosti-
tuição, ligo a TV".
De outra vez, um amigo me contou de um sermão que o fez sair trauma-
tizado da igreja, pois o pregador gastou metade do tempo relatando as cenas
horrorosas de um caso de estupro. Por favor, pregadores: o púlpito não é para
isso. Para esse tipo de matéria existem os noticiários policiais.
o sermõo-reportagem
Esse sermão fala de tudo, menos da Bíblia. Inspira-se nas notícias de jornais,
manchetes de revistase reportagens da televisão.Parece uma compilação das notí-
cias de maior impacto da semana. É um sermão totalmente desprovido do poder
100 • o pregador
do Espírito Santo e da beleza de Jesus Cristo. É uma tentativa de aproveitar o
interesse despertado pela mídia para substituir a falta de estudo da Palavra de
Deus. Com certeza existem notícias relevantes que merecem ser abordadas numa
introdução ou que podem despertar interesse para o tema do sermão. Contudo,
notícias devem ser usadas esporadicamente para rápidas ilustrações, nunca como
base de um sermão.
o sermão de marketing
É o sermão usado para promover e divulgar os projetos da igreja ou as atividades
dos diversosdepartamentos. Usar o púlpito, por exemplo, para promover congres-
sos, divulgar literatura, prestar relatórios financeiros ou estatísticos, ou fazer cam-
panhas para angariar fundos, sejaqual for a finalidade, destrói o verdadeiro espírito
da adoração e, portanto, atrapalha o culto. A igreja precisa de marketing, e deve
haver um espaço para isso, mas nunca no púlpito. Isso deve ser feito preferivel-
mente em reuniões administrativas.
o sermão-metralhadora
É usado para disparar, machucar e ferir. Às vezes, a crítica é contra um grupo
com idéias opostas, contra administradores da igreja, contra uma pessoa peca-
dora ou rival, ou mesmo contra toda a congregação. Seja qual for o destino, o
púlpito não é uma arma para disparar contra ninguém. Às vezes, o pregador não
tem a coragem cristã de ir pessoalmente falar com um membro faltoso. Assim
se protege atrás de um microfone, onde ninguém vai refutá-lo, e dispara contra
uma única pessoa, sob o pretexto de "chamar o pecado pelo nome". Resultado:
aquela pessoa fica ferida e todas as outras famintas, enquanto o sermão perde o
seu poder e objetivo.
Às vezes, o disparo é contra um grupo de adultos ou de jovens suposta-
mente em pecado. Não é essa a maneira de ajudá-los. Convém ressaltar que
chamar opecado pelo nome não é chamar opecador pelo nome. Chamar o peca-
do pelo nome significa orar com o pecador e, se preciso, chorar com ele na luta
pela vitória. A congregação passa a semana machucando-se nas batalhas de um
como pregar sem atrapalhar o culto • 101
mundo pecaminoso e de uma vida difícil e chega ao culto precisando de remédio
para as feridas espirituais, não de condenação por estar ferida. Em vez de chumbá-
la com uma lista de reprovações e obrigações, o pregador tem o dever santo de
oferecer o bálsamo de Gileade, o perdão de Cristo como esperança de restauração.
As obrigações, todo mundo conhece. Nenhum cristão desconhece os deveres do
evangelho. Em vez de apenas dizer que o cristão tem de ser honesto, por exemplo,
mostre-lhe como ser honesto pelo poder de Cristo. Isso é pregação com poder.
Todos esses sermões mencionados acima atrapalham o culto mais do que
ajudam. Prejudicam o adorador, prejudicam a adoração. São vazios de poder.
Se você quer ser um pregador de poder, busque a Deus, gaste dezenas de horas
no estudo da Bíblia antes de pregá-la, experimente o perdão de Cristo e estude
os recursos da comunicação que ajudam a chegar ao coração das pessoas. Esse
é o assunto dos próximos capítulos.
Capítulo 6
Qualidades do pregador
~ bocafala doqueocoração estácheio. "
JESUS CRISTO
J
esus Cristo resumiu numa frase todo o segredo do poder de um orador: o
coração! No caso do orador, como de qualquer outro profissional, o que dá
poder e autoridade é o que a pessoa é, não o que ela faz ou como o faz.
Aqui está a razão por que tantas pessoas talentosas não conseguem ir muito
longe no sucesso pessoal. Muitos profissionais fazem treinamento e mais trei-
namento, cursos de qualidade total, cursos de técnicas para o sucesso, mas aca-
bam não mudando muito na prática, porque não adianta mudar a forma sem
mudar o conteúdo, não adianta enfeitar o exterior se o interior está vazio.
O bom orador, especialmente o pregador, precisa ter qualidades técnicas e
um estilo de vida elevado. Juntas, essas qualidades lhe darão estrutura pessoal.
Vejamos algumas dessas qualidades.
Caráter
O orador precisa "ser dotado, principalmente, de qualidades morais, de hones-
tidade, critério e integridade a fim de que suas palavras e ações mereçam crédito
104. o pregador
e possam comunicar, com sinceridade, ao auditório, a verdade, o bem e o belo".'
Ninguém quer ouvir um orador mentiroso e desonesto. Para ser cativante, ele
precisa ter um caráter atraente e respeitáveL Mesmo no mundo dos negócios, os
profissionais de maior sucesso não são os que conhecem melhor a técnica de con-
quistar os clientes, mas os que respeitam de verdade e se interessam realmente
pelo bem-estar dos clientes. No caso do pregador, isso é ainda mais verdadeiro,
pois ele tem de viver aquilo que prega. Para falar de maneira cativante, ele tem de
viver de maneira atraente e conquistar o respeito e a aprovação dos ouvintes.
Entusiasmo
o entusiasmo é o combustível da expressão verbal. O orador precisa vibrar em
cada afirmação e empolgar-se com cada idéia. Se a idéia não empolgar o ora-
dor, não merece ser dita, e nunca irá empolgar o auditório. Para falar com
entusiasmo, é preciso viver com entusiasmo. Para vibrar com as idéias, é preciso
vibrarcom avida.Talvezsejaessaarazãopor que há tão poucos oradores entusiastas.
Ou seja, sevocê se deixa arrastar por uma vida sem vibração, é difícil vibrar como
orador ou pregador. Os gregos chamavam ao entusiasmo "Deus interior'? ou Deus
dentro, segundo a etimologia da palavra.Talvez não hajamaneira melhorde descre-
ver o pregador, que, mais do que ninguém, precisa ter Deus dentro de si. Somente
com entusiasmo consegue-se realizar grandes coisas. Ele é o responsável pelas
grandes façanhas da humanidade.
Determinação
Determinação é a vontade indomável de conseguir o que se pretende. Resolva
falar bem e tire tempo para sepreparar até conseguir.Thomas Edison, inventor da
lâmpada elétrica, atribuía seu sucesso a 1 por cento de inspiração e 99 por cento
de transpiração. É preciso lutar pelo que se deseja. Mais uma vez, porém, se não
houver determinação na vida, não vai haver determinação no púlpito.
1 Ignez B. C. D'Araújo, Oratória Eficiente de Hoje, p. 26.
2 Reinaldo Palito, Como Falar Corretamente e sem Inibições, P: 46.
qualidades do pregador • lOS
Inspiração
Inspiração é abusca de melhores idéias. É a forma como o orador cria o discurso. No
discurso secular, a inspiração é natural No sermão, é sobrenatural. No discurso, é
uma espécie de luz que brilha com o surgimento de uma idéia rica. No sermão, é a
iluminação que brilha da comunhão com Deus, do estudo intenso da Bíblia, do
senso de ser um porta-voz da Divindade, da sensação de ter uma idéia de origem
divina. Também é importante que a vida do pregador seja uma inspiração para os
outros, pois isso contribuirá para que suas idéias sejam uma inspiração.
Sensibilidade
É a capacidade de adaptar a mensagem ao interesse e à necessidade do ouvinte. A
sensibilidade só será desenvolvida pelo contato com as pessoas e pelo interesse real
no bem-estar de cada uma. Não se trata de inteligência para decidir o que é
melhor para o ouvinte, mas é antes um envolvimento com o ouvinte, uma empatia
que faz o pregador sentir o problema das pessoas. No caso do pastor, muito disso
pode ser conseguido com visitação aos lares e envolvimento em atividades com a
juventude. Essa sensibilidade se consegue ouvindo as pessoas, sorrindo com elas e
às vezes chorando e orando com elas.
Observação
A observação pode ser desenvolvida pela prática. O orador deve estar sempre atento
para captar fatos interessantes e diferentes nas diversas situações da vida. Conheci
um pregador que costumava andar com uma caderneta só para anotar suas obser-
vações do dia-a-dia. O hábito de observar dará ao orador a habilidade de perceber
também pequenos incidentes relevantes no auditório e a reação dos ouvintes, a
fim de orientar a atuação no discurso.
No mundo acadêmico, a técnica de observação tem sido desenvolvida como
um método de coleta de dados para a pesquisa qualitativa, em que o pesquisador
observa e descreve fatos e comportamentos relacionados com o tema da pesquisa.
Em certo sentido, o pregador é um pesquisador que pode estar constantemente
investigando avida ao seu redor e coletando dados que podem se aplicar a diferentes
temas de sermão. Essa prática da observação dará ao pregador os recursos para
106. o pregador
tomar o seu sermão mais atual e com um sabor mais realista, refletindo asexperiên-
cias que as pessoas vivem no dia-a-dia.
Capacidade de síntese
Conheci um pregador que escrevia todo o seu sermão após a pesquisa e a refle-
xão. Em seguida, fazia uma primeira leitura, cortando todas as frases e palavras
que julgava supérfluas ou desnecessárias, às vezes substituindo-as por expres-
sões menores. Finalmente, fazia uma segunda leitura, cortando mais algumas
palavras que haviam escapado à primeira leitura. Quando subia ao púlpito, apre-
sentava uma mensagem breve, em que cada palavra ou expressão era rica em
significado e beleza. Essa é uma boa maneira de exercitar a capacidade de síntese,
tão necessária ao orador.
A capacidade de síntese habilita o orador a dizer tudo o que for preciso,
somente o que for preciso, e nada mais do que preciso. Como é cansativo ouvir
discursos e sermões cheios de longas expressões que não acrescentam quase nada
ao conteúdo. Se você vai contar uma experiência, elimine os detalhes que não
contribuem para o propósito da ilustração. Sevai fazer uma aplicação, vá direto ao
ponto. Se tudo que você falar for consistente e objetivo, o ouvinte terá menos
oportunidade de desviar a atenção. A melhor comunicação é a que expressa mais
idéias com menos palavras.Observe os comerciais de televisão:veja quantas idéias
eles expressam em 10 ou 15 segundos! Aprenda com os comerciais de TV.
Imaginação e criatividade
A imaginação é a ferramenta da criatividade. É a capacidade de criarimagens agra-
dáveis para tomar os argumentos mais vivos e convincentes. Em vez de dizer as
coisas do mesmo jeito que todo mundo diz, imagine uma forma diferente para
tomá-las interessantes. Alejandro Bullón, pastor e evangelista, num de seus ser-
mões, descreve"Moisés sonhando com a terra prometida, onde pretendia desfrutar
a aposentadoria sentado numa cadeira de balanço e brincando com os netinhos".
Observe a imagem rica que foi criada com um texto bíblico tão conhecido.
A maior fonte de imaginação é a própria Bíblia. Cristo era um artista na
capacidade de imaginar. Analise como ele contou, por exemplo, a parábola da