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7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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7 dias cortando
as pontas dos dedos
Punhos cerrados no front
7 para alguns é um número cabalístico, mas nem todos
nascem com a graça da fé impregnada em cada célula do
corpo. Alguns apenas tentam sobreviver às agruras da vida, que
dia após dia faz florescer o que existe de mais animalesco em
cada um de nós. Porém se alguns fazem da violência contra os
mais fracos uma válvula de escape, outros sacolejam corpo e
alma para se livrar das imundícies disparadas por todos aqueles
que só veem felicidade na busca desenfreada pelo poder, e por
fim buscam na arte as armas necessárias para guerrear. Não
foram poucos os escritores que na História da Humanidade
tomaram esse caminho.
Os dias atuais não têm sido diferentes. Mais uma vez fomos
desafiados a recarregar nossos olhos, e punhos para produzir
poesias, charges, ilustrações, contos, crônica... E disparar nossa
RESISTÊNCIA contra a imbecilidade mal fundamentada, cega,
violenta e tola daqueles que não conseguem enxergar nada
além da bolha verde e amarela cada vez mais murcha.
E 7 permanecerá sendo nosso número de combate, e estamos
aqui no FRONT! Sejam bem-vindos! Este é o 7 DIAS CORTANDO
AS PONTAS DOS DEDOS!
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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© 7 dias cortando as pontas dos dedos – Punhos cerrados no Front - 2019
Organização
Rojefferson Moraes
Edição e diagramação
Dom Alencar
Revisão
Zemaria Pinto
Capa
Rakel Caminha
Contato
natora.producoes.eventos@gmail.com
dom.alencar@outlook.com
Licença
Todos os direitos reservados.
Sumário
Dinho Lascoski ǀ 6
Fabio da Silva Barbosa ǀ 7
Edivaldo Ferreira ǀ 8
Zemaria Pinto ǀ 9
Roge Weslen ǀ 12
Susy Freitas ǀ 14
Everton Luiz Cidade ǀ 16
Emmanuel 7Linhas ǀ 17
Flávio Antonini ǀ 19
Glauco Mattoso ǀ 20
Mauricio Braga ǀ 22
João Farias ǀ 24
Marciel Cordeiro ǀ 25
Wagner Nyhyhwh ǀ 27
HQ Gilmal ǀ 28
Daniel Fagundes ǀ 29
Dani Colares ǀ 31
Max Caracol ǀ 33
Daniel Amorim ǀ 35
João Batista de Morais Neto ǀ 37
Jalna Gordiano ǀ 38
Gigio Ferreira ǀ 40
Dom Alencar ǀ 41
Rojefferson Moraes ǀ 42
Dinho Lascoski ǀ Nasceu em Ponta Grossa – PR. Mora em Indaial – SC.
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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Fabio da Silva Barbosa ǀ É jornalista, escritor, educador social, entre outras coisas.
Já lançou e-books, livros e veículos de comunicação, impressos e virtuais, nos mais
diversos formatos. Algumas de suas poesias já foram musicadas (destaque para
Olhos Furiosos – Vida Torta, hard core de verdade – e Pessoas – Ivan Silva, voz e
violão).
CÉLULA MALIGNA
violência generalizada
mentes enlatadas
vidas arrasadas
terra devastada
essa é a herança
da civilização maldita
memória distorcida
na mentira acredita
amor – palavra ridicularizada
pelos que destroem nossa existência
semeiam a demência
sangue na estrada
a ignorância se prolifera
nos transformam em bestas
nos tornamos feras
traumas e sequelas
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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Edivaldo Ferreira ǀ São Paulo – SP.
O PATRIOTINHA
vestiu sua camisa verde-amarela e foi às ruas
matou negros por serem negros
matou índios por serem índios
na igreja com seus irmãos
disse crer num tal messias
pratica tiro ao alvo
mirando em livros de poesia
tem nojo de terreiro
de cachaça e samba
tesão só por dinheiro
poder e armas
quer morar em Brasília
e ser presidente um dia
acordando de sonhos intranquilos abriu os olhos assustado
e confirmou, ainda bem, estava a salvo em seu corpo de
barata e dormia no canto de uma caverna ao lado de outra
baratinha que gritava:
– Que foi? Outra vez sonhou que é um desses humanos? –
apontou para o bando em volta da fogueira.
O baratão respondeu, coçando suas antenas.
– Sim, quer dizer... NÃO, não! Aquilo ali tá longe de ser um
ser humano, viu? Ô bicho ruim. Se eu te contar cê não
acredita!
– Relaxa, eles acabaram de descobrir o fogo, o que é que
poderiam fazer de tão ruim nos próximos milhares de anos?
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Zemaria Pinto ǀ Nascido sob o governo socialdemocrata de JK, tem 20 livros
publicados, de poesia, ficção e ensaios. É eleitor-fundador do PT, desde 1982,
quando votou em Oswaldo Coelho, seu professor de História no Colégio Ruy
Araújo, em Manaus, que lhe ensinara que a vida que está nos livros é a vida que
vivemos, todos os dias – somos nós, o povo, que construímos a História.
O POVO E O POEMA
sobre um poema
que não seja propriedade particular
sobre um poema/canção de guerra
a clamar
por todos esses soldados
sobre um poema de operários
camponeses, guerrilheiros
sobre um poema em que a fome
tome sua verdadeira forma de fome
sobre um poema concreto
de aço e cimento e queda
sobre um poema de enchente
de seca, de lepra
sobre um poema mendigo
sobre um poema de grito
de espanto
sobre um poema de sangue
de bomba, de pus e de raça
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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sobre um poema menor
de índio, de puta e de dor
sobre um poema que cale
a voz do generalato
sobre um poema oprimido
espremido, pichado
sobre um poema sem classes
é sobre esse poema que marcha o meu povo.
(1977 – sob a ditadura de Geisel)
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Dinho Lascoski
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Roge Weslen ǀ vive em Belém/PA.
CARTA DE UM DESERTOR
Não estarei entre os defensores de um mundo podre.
Solidão, meus caminhos exigem teu amor impiedoso. Não
depositarei minha fé na militância revolucionária, que não
revolucionou nem mesmo seus protótipos de ética, de
moral, de crença cega numa verdade arcaica. Esta verdade
em que creem tanto nunca se revelou a eles, entretanto, sua
certeza heroica nega isso. Não leram com atenção nem
mesmo suas referências mais altas, e mesmo assim erguem
suas ideologias como espadas, rutilantes, certos de que
estão, sempre estiveram do lado certo de tudo. O curioso é
que nem esclarecer qual é este lado conseguem. Não
chorarei com seus contos, seus pesadelos, suas mazelas
intermediárias. Estou do lado dos que economizam no
almoço pra que sobre na janta. Seus olhos nunca viram
estes pequenos deuses famintos. Alegres. A verdade é que
nenhuma política nos alcançou, de fato. Nenhum deus no
amou incondicionalmente. Nenhuma fé moverá montanhas.
Nosso sangue ainda é moeda de troca entre os grandões do
capital. Escrevo isso, mas não tenho nenhuma esperança em
vocês, na luta de vocês. Minha mãe já jogou água em tantas
valas de sangue nesta passagem miranda, meu pai
descarrega baús de caminhão há mais de vinte anos. O
mundo já acabou há muito tempo para nós. Para meus pais,
meus avós, o mundo já era pior. Sua afetação não me
convence. Entretanto, sou apenas um menino da periferia
de Belém que leu alguns livros, viu algumas mortes, fez
umas merdas, teve um filho. Apesar disso, 17 anos é tão
pouco. Não espero que acreditem em mim, que concordem
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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comigo. Na verdade, não dou a mínima. Tenho mais a dizer,
mas a vida chama. Na rua, há brega e funk e churrasco na
brasa. Enquanto vocês se desmancham em dramas pós-
mundo, nossa rua de terra cria moleques na tradição da
luta, do foda-se e do ódio. Sua bondade e rebeldia nos faz
rir. Seus sonhos de uma pátria justa... Suas tramas
incendiárias se desmancham nessa realidade jocosa. Eu vou
pra rua. Fiquem com seus heróis, suas ideologias, seus
jovens sabichões que acham que a beleza de um momento
pode salvar o mundo, eu renego sua luta. Não é por nada
não. É que vocês nunca me convenceram...
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Susy Freitas ǀ Nasceu em Manaus (AM), em 1985. É jornalista, professora, crítica
de cinema e escritora.
ALERTA E SELVAGEM
Você vê aquela exata carta de navegação em chamas.
As cinzas dançam.
O eco – um reflexo
nas pupilas –
lento
dá a vez a pálpebras que represam
lágrimas que desfazem a imagem.
Você achava que tinha voz.
Você achava que tinha voto.
Mas os dias provaram ser uma
narrativa genocida na qual você
consegue golpear
apenas algumas palavras.
De certa forma você gosta disso –
Há pontes queimando.
Cartas jamais enviadas.
As apostas não são seguras.
O caminho está todo errado
como bem suspeitávamos.
Escolhas equivocadas –
chance zero de retomada.
Mas há pontes queimando.
Cartas jamais enviadas –
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de certa forma você gosta disso
já que os anos sob o guarda-chuva
de tantas expectativas
refinaram o paladar pra destruição.
Você vê nossa carta de navegação em chamas
desenhada e consumida por forças imbatíveis.
Um fogo que ameaça mas conforta
machuca narinas que ressecam mas respiram realidade
para além da distorção que as luzes
projetam na profundeza.
Você é só um saco cheio de impurezas
mas cheio de ar.
Alerta e selvagem.
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Everton Luiz Cidade ǀ Natural de São Leopoldo/RS.
A FACA NÃO É FRANCA
Os sinais podres pátrios na ceia
Seu karma dissabor
Sua arma de vários vírus
Enfiada na boca de um professor
Com prantos e retransmissão de dados
Bozo Bazuca nos presenteia
Estamos mais mortos que vivos
Inseridos em teu produto regressivo
Obsessivo compulsivo
De mal e morte
Teu fascismo é leigo e perigoso
Teu autoritarismo jocoso é perigoso
Homúnculo ridículo com seus discípulos ridículos
Tens tua morada no tempo que deduz
Do nosso trabalho precioso
Tuas correntes de bijuteria cristã sem luz (só cruz)
Sangram nossas belas canelas com eucaristia negativa
Sem glamour e despreparada
Eu sigo minhas energias
Bozo Bazuca as suga como droga/sonho da periferia
Nos desvitalizando em tristeza imersiva
E generosidade tóxica ególica punitiva de
miséria e zombaria.
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Emmanuel 7Linhas ǀ Cantor, compositor, poeta, performance, pseudo-intelectual,
agitador, boêmio, sambista, bailarino, brigão, chorão, flamenguista, rabugento.
mítico, sensível, narcisista, ação do tempo.38 anos, nascido na baía de Vitória/es.
CANSAÇO
Disfarço o cansaço
Ser de aço o tempo inteiro
A farsa do sorriso fácil
Pois rir de tudo, tão somente é desespero
A realidade demonstra:
Espelho quebrado
Sadismo intermitente
Esperança ladeira abaixo
O conto da pressuposta racionalidade
Por entre análises de filósofos estatais
Vivaldinos colossais
O evangelho segundo o marxismo
Desprendo-me do kardecismo
Do messianismo pseudoprogressista
O personalismo autoritário
Com gotas de teologia da libertação
Ontem vi na tevê:
"Dotor, como um preso pode contribuir para libertar o
carcereiro?"
Sigo cansado de ser enganado por figuras beatificadas
O lobo em pele de cordeiro bebendo o sangue do negrinho
do pastoreio
Choro por dentro
Ao ver os poetas inúteis do meu povo preto, ao relento
Queria pagar-lhe os dez reais que lhe devo
Desejo que nossas crianças desenvolvam “outros talentos"
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Está tudo dentro do plano
O caixão do pobre aguardando o buraco
O coturno diurno
Subindo a rampa enquanto tirano
Esperando pelo tempo que a noite não vem
Vejo o pouco que me cabe
Nesta nave de um texto insólito que
Ecoa solitário, insípido e cético sobre a linha do trem
Da despedida.
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Flávio Antonini ǀ é artista plástico e poeta radicado em Tobias Barreto/SE. Seu
trabalho explora temas como sexualidade e absurdo. Tem no currículo algumas
exposições individuais realizadas em Aracaju, a exemplo de “Cenas da cidade
fábrica” realizada na galeria de arte do Sesc em 2016, e “Didática nada instrutiva
da educação sexual” na galeria J.Inácio em 2017.
O SONHO DO VENCEDOR
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Glauco Mattoso ǀ É poeta, profeta e paratleta da metrificação com barreiras.
#0131 MANIFESTO GOLPISTA (março/2019)
"Você não accredita, Glauco, nessa
hypothese? Eu, sim, nella apposto e creio,
pois da conspiração a theoria
funcciona neste caso! O que interessa
a muitos generaes é ver, no meio
do prazo de mandato, o que viria..."
Indago o que viria. Alguma peça
egual à que enscenaram quando o freio
puxaram do progresso que occorria?
Fariam tudo como na pregressa
comedia, quando, ao franco tiroteio,
um pacto preferiram, na coxia?
"Não, Glauco! O que rollou foi lento à bessa!
Agora accostumaram-se! Interveiu
o vice, e as calças logo o cara arria!
Vae tudo transcorrer bem mais depressa!
Ao próximo o Congresso, que está cheio
de cabos, corpo duro nem faria!"
Preoccupo-me. Esta terra ja attravessa
tamanha crise, e cada vez mais feio
o quadro ser promette todo dia!
Será que esse golpismo nunca cessa?
Será que nosso velho devaneio
utópico resiste? Quem confia?
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#0159 MANIFESTO IMMEDIATISTA (março/2019)
"Caracas! Não pensei que era p'ra ja!
O próprio Bolsonaro precipita
as coisas! O thermometro, que está
mais quente, deixa a scena bem bonita
praquelles que preveem o que virá!"
E então, o que virá? Por que será
que comptam com a crise? Ninguem cita,
mas acho que celebram, no sabbath,
um rapido desfecho. Quem evita
o "impeachment"? Moro? Maya? Mourão? Qua!
"Quem sabe, Glauco, o proprio cara tá
pedindo p'ra sahir? Assim, incita
os animos, depois desculpa dá
de terem sabotado essa bemdicta
politica à direita... Ah! Que ella va..."
Exacto. O que eu apposto é que estará
na moita alguem que "mytha" e que "tweeta"
discreto: o general. Que Jehovah,
Allah, Zeus, nos protejam! Accredita
em bruxas quem assiste do sofá?
///
...
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Mauricio Braga ǀ Natural de Manaus – Am.
INQUISIÇÃO
Proibido para todos os públicos!
Este é o lugar
que querem chamar
de sub-américa.
Mas é nas entrelinhas
que os galos brigam.
Deus seja comprado, amém.
Aquele ali
(aponta com o dedo)
Está vendo?
É o subversivo
que come versos
para cagar prosa.
É ele que, pela manhã,
publica livros em xerox;
à tarde, atua sem público;
e, à noite, é esquartejado
em um beco.
Imortal? Claro que não!
Posto que os imortais,
sendo imortais,
não morrem.
E, portanto, não vivem.
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P á g i n a | - 23 -
Viver é jogar xadrez com a morte.
Logo, esse sujeito vive.
Dorme sob pontes
erguidas por ele mesmo.
Dá de mamar às madames
no centro da cidade.
Cheira coca-cola
aos domingos
depois da missa.
E pretende queimar
cada palavra
em uma fogueira de vaias.
Palavra da salvação,
dólar a vós, senhor.
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João Farias ǀ Vive oscilando entre o sertão alagoano e o caos maceioense, 20
anos.
OS SERES MAIS INDEFESOS SÃO OS ESCRITORES
Ah, como tenho pressa de viver, Belchior. O mundo talvez
seja pouco para mim. Quero algo que está para além das
estrelas. Do fundo da alma. Fundido entre o Céu & a Terra.
Fora da capacidade de mentes minúsculas. Desinteressado
nas coisas mesquinhas. Só me interessa aquilo que queima
& grita. Repito como um mantra sagrado. E antes que eu
esqueça, há um tipo de beleza nas madrugadas que só
conhecem os que a vivem. Como Hunter S. Thompson em
seu delírio antes de explodir em cinzas desmanchando no
Céu em chama. Os seres mais indefesos são os escritores
acreditava Alejo Carpentier. O escritor cubano estava certo,
mesmo. E como Sylvia Plath fazendo da morte um tipo de
Arte. O espírito do poeta que escreveu seu último verso com
sangue. Que chorem os muros do Brasil, as lágrimas
escorram & transformem-se em riachos azuis para as
crianças pobres do Sertão. Pregando igual um profeta à
eternidade. Vou rosnar para Deus dançando com fúria, com
meu histerismo movido por drogas à beira de um Penhasco.
O arco dos astros cairá sobre nós esta noite. E eu roubarei o
Sol apenas para mim. Não me acompanhem pela jornada no
inferno.
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Marciel Cordeiro ǀ É escritor, estudante de Serviço social, morador da Serra no
Espirito Santo, onde realiza atividades com a juventude; realizando diversas
atividades como fotógrafo, poeta, palestrante e oficineiro. É um dos fundadores
do projeto RapcomoPoesia que atua na Grande Vitória há quase quatro anos.
MALHANDO O JUDAS
Era noite de São João e mataram um homem depois do
encerramento da quadrilha. O homem estava com
ferimentos na cabeça e pequenos cortes próximo das axilas.
Em meio ao tumulto dois senhores brincavam de atravessar
a fogueira descalços. Em noite de São João quem atravessa a
fogueira não queima os pés. Arrastaram o corpo do morto
para um salão, acenderam algumas velas e jogaram um
pano branco sobre o corpo. Ninguém sabia o que poderia ter
acontecido. A noite estava bonita, o céu estrelado, a
fogueira cuspia algumas faíscas para o alto e as crianças
brincavam incessantemente. A festa perdeu a grandeza com
a morte, mas não parou. Havia muitas pessoas bebendo e
dançando. Fincaram uma madeira próxima da barraca de
bebida, na madeira estava o Judas que havia sido malhado e
que na noite de São João seria queimado. Mas no bolso da
jaqueta do Judas havia os pasquins, os pasquins são feitos
por um anônimo, talvez vários, mas é o anonimato que mais
chama atenção nos escritos. Um jovem estava lendo quando
se assustou com um escrito, perguntou se podia ler e todos
que ali estavam disseram que sim, o rapaz começou a
leitura, “morreu mais um Judas”. Todos ficaram intrigados.
Houve um alvoroço. No meio da multidão alguém gritou,
“foi o Gringo!”. O Gringo na verdade era um espanhol que
morava há anos no vilarejo. A suspeita se levantou pelo fato
do espanhol ser homossexual. Na vila ninguém tolerava o
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
P á g i n a | - 26 -
fato de haver um espanhol gay entre eles. As mulheres
cuidaram das crianças que brincavam livremente. Depois
que ouviram o grito a multidão partiu em direção ao velho
espanhol. Homens com paus, outros com os punhos
fechados, alguns com cordas. O pobre espanhol não esboçou
sequer uma reação, foi morto sem defesa. O corpo ficou no
chão por um tempo, quando o sangue da multidão havia
esfriado, uma pessoa perguntou, “alguém tem certeza que
foi ele?”. Ninguém respondeu, ninguém realmente sabia.
Houve um grande silêncio. Surgiu alguns se eximindo da
culpa, diziam que não havia tocado as mãos no corpo do
espanhol, outros se orgulhavam de ter matado um
assassino, mesmo sem provas.
Alguém jogou o Judas na fogueira e as faíscas jorravam
como lavas para o alto.
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P á g i n a | - 27 -
Wagner Nyhyhwh ǀ Rio de Janeiro - RJ.
ALGUÉM ME EXPLIQUE: O LIBERAL-CONSERVADOR
Tá circulando por aí
Um tal de liberal-conservador
Alguém me explique por favor
Esse sujeito.
O cara é a favor da liberação das armas
Mas contra a liberação da maconha.
É a favor da pena de morte
Mas contra o aborto.
O cara se diz cristão
Mas prega o ódio e intolerância.
O cara se diz patriota
Mas quer a venda de todos os recursos naturais do país aos
gringos.
É a favor de ampliar presídios
Mas é contra punição para crimes ambientais ou de
trânsito.
Diz que é contra a politicagem
A favor da diminuição dos impostos
Da liberdade individual
Do estado mínimo
Mas quer endurecer a previdência social
Quer enquadrar movimentos sociais como terrorismo
Quer aumentar a repressão policial
Quer controlar o que é ensinado nas escolas.
O cara é cheio de contradições
Mas diz que os outros é que propagam mentiras.
Alguém faça um estudo
Desse tal liberal-conservador
E me explique por favor.
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P á g i n a | - 28 -
HQ Gilmal ǀ Natural de Manaus – Am.
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P á g i n a | - 29 -
Daniel Fagundes ǀ São Paulo - SP.
PAULISTRANHOS
Não conheço meu vizinho
também não conheço meu pai
sou samurai onde Vênus vende Demillus
cortei meus pulsos
Joana os mamilos
intranquilo verto o caos
e conto as pedras no rim
observando da janela
a solidão entre os jasmins
as ruas seguem sujas
a sua paz o meu pantin
Já não consigo pensar
já não consigo sonhar
já não amo ninguém
dentro dos meus olhos existe um refém.
Brilho encarcerado atrás do cinza opaco.
Me sinto longe, me sinto fraco, me sinto cego.
Ferido ego inflado em retidão
todos estão envaidecidos de tristeza nessa cidade
todos seguem se enganando de tanta verdade
No barraco mais ao fundo no Cantinho do céu ou na
cobertura mais alta da praça Princesa Isabel
Eu sei que o sorriso é carregado de abandono
e não há trono que sustente a pompa de metrópole mais rica
do país
SP sem CEP sem endereço pra ser feliz...
E não é que não exista amor sabe, não é que não exista a
felicidade,
é que tudo tá sempre por um triz
nesse lugar
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P á g i n a | - 30 -
é que tudo é sempre tão efêmero quanto um desenho de
giz...
talvez seja assim também em qualquer outra cidade desse
país
mas é que aqui parece q tudo se amplifica, tudo se esvai
nada fica...
Acho que a urbe que nunca dorme
deve ser na verdade cidade dormitório do Brasil
no cortiço, na favela, na mansão, nada vinga... tudo vaga.
Esquece aonde cruza a Ipiranga com a av São João e olha
pra onde cruza a Cantidio com a estrada do Sabão.
Vê quantos nordestes dormindo em pé as 6h no busão.
Vê quanto amor esmagado...
é Sampa tocando no iphone
é a fome renascendo do cinza
são os diretos que perdemos
são os direitos que nunca tivemos
As gotas cristalinas da garoa ressaltam a cárie obturada
com estanho na boca fria do concreto.
Nublado em mim
céu aberto
Hoje eu to me sentindo meio estranho...
to me sentindo mais deserto.
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P á g i n a | - 31 -
Dani Colares ǀ Manauara, mestranda em Antropologia Social pela Universidade
Federal do Amazonas, começou a escrever ainda na infância, seu trabalho aborda
temáticas do cotidiano e questões do universo feminino como protestos a
violência e visibilização da mulher. Participou em parcerias de zines de outros
escritores e uma parte de seu trabalho é encontrado nas redes sociais em
@dani_se_a_poesia.
A VOZ DO BRASIL
Brasil, como guia teu rebento?
Quem te traz mais alento?
Onde aprendeu mais? Na rua ou no convento?
Na beira ou na igreja?
Como ficarão teus filhos pródigos, Brasil?
Se um bom filho à casa retorna
Me explica como é voltar um corpo, num carrinho de mão
Ensanguentado em preconceito
Entregue à própria sorte
Apedrejado até à morte
Ou ainda chorando rios de lama
Ou ardendo em brasas, em chamas
Como os sem teto, os sem cama
O que é a comida?
É a vida resumida em uma marmita
Negada a quem precisa
Desfeita no lixo
Na rua estendido
Na rua estendida
Comida
Vencida
A água
É a vida em um copo
Negado a quem tem sede
Poluída pra geral
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P á g i n a | - 32 -
E ostentada na cascata real do Distrito Federal
A água que falta
Nas gargantas, com palavras entaladas
E sobra nos olhos
De quem vai dormir sem nada.
Ó pátria amada
Idolatrada, salve, salve!
Salve a bela
A Gabriela, a Rafaela
Salve as elles
Isabelle, Danielle, Marielle
Salve o moleque
Que brinca na rua, no passeio
Pé descalço, bola, bala, tiroteio.
Salve os trabalhadores resgatados
E na manchete: “Eram mantidos em regime de escravidão”
Me diz aí você
O que mudou desde a colonização?
Moça, que Deus te abençoe
E abençoe os imigrantes também
Os que morrem nas ruas
Nos muros, nas praias
Os que nunca vão chegar a falar:
“lar, doce lar”
E que abençoe
A indígena abusada
A negra sexualizada
Aquela que você chama de puta
Filha dessa pátria mãe gentil
Que assim por você é chamada
Julgada, explorada
A mesma puta que nos pariu.
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P á g i n a | - 33 -
Max Caracol ǀ É Filósofo, professor, produtor da tv UFAM, contista e editor da
revista.
O DIA
Acho que meus dias vão terminar entre essas paredes
brancas de um hospital público na pequena cidade que
moro. Não tenho nenhum parente vivo, e a única pessoa que
se importa comigo é uma enfermeira que canta músicas
antigas pela manhã. Aguardo esse canto todos os dias. É o
momento que me sinto vivo e visível.
Hoje é aniversário do meu nonagésimo segundo ano de vida,
acreditava que esses olhos consumidos não iriam ver mais
nada de relevante nesse país que está infestado de
intolerâncias e outras chagas que vi e senti no passado.
Passei pelo Getúlio e seu populismo fascistas, que criou o
DIP, impôs uma constituição a sociedade, do governo
acéfalo do Dutra e seu plano SALTE que gerou uma crise que
permitiu o primeiro mandato eletivo de Vargas e seu
retorno. Passei pelo assombro desenvolvimentista do JK e o
endividamento do país ao capital estrangeiro. Vi o alucinado
Jânio que renunciou, deixando o caminho livre para o golpe
militar. Presenciei o governo Goulart que foi sabotado até a
sua morte encomendada... Em seguida vieram os militares.
Conheci nas ruas e celas o seu poder de negar a liberdade e
tentar matar sonhos; mas os sonhos, como diz Beto Guedes
em sua canção, "sonhos não envelhecem". Veio a
Democracia e conseguimos sorrir novamente.
O mundo construiu seus líderes, aqueles comandantes de
multidões que fizeram parte, ao seu modo, na história desse
meteoro mediano chamado planeta terra. Vivi tudo isso,
mas a data de hoje é um presente que a vida me deu.
Hoje o último grande líder mundial vivo vai sair do cárcere
e interferir no cenário político do mundo. Luis Inácio Lula
da Silva estará entre nós novamente. Acusar, julgar e
condenar injustamente é uma prática antiga das elites
desde Sócrates de Atenas. Lula foi a vítima da vez, mas ele
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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enfrentou a prisão e agora isso é passado. Vejo na televisão
as multidões ocupando as ruas, avenidas, praças. Ouço os
fogos e risos de felicidades.
Não conheço essas modernagens tecnológicas, nem vou
estar lá para ver o "torneiro mecânico" que ajudou o Brasil
mais que toda a história da república até hoje.
Vou pedir a enfermeira que leve meu bilhete e leia em voz
alta no ato público de hoje na praça da cidade. É hora de
tomar remédios e dormir no quarto de paredes brancas,
mas que em minha alma é colorido e ventilado hoje. Não
preciso acordar mais.
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Daniel Amorim ǀ Nasceu em Manaus (AM), em 1985. É jornalista e escritor, com
foco em contos. Seu livro "Zona de Sombra" (inédito) venceu o Prêmio Arthur
Engrácio, dedicado ao melhor livro de contos dos Prêmios Literários Cidade de
Manaus.
ATENTADO
Um poeta bebe sozinho no bar. É um rapaz tímido,
reflexivo, que detesta oferecer zines de péssima qualidade
aos cidadãos que se reúnem para conversar numa quarta-
feira à noite, por exemplo. Gosta de Mahler e de preparar
anchovas com cogumelos para os amigos em sua quitinete
alugada. Levemente homossexual, diria o seu amigo macho-
alfa ao vê-lo circulando pelos corredores da universidade.
No entanto, alguém o observa num apartamento do outro
lado da rua. As luzes da sala estão apagadas. O homem
segura um rifle CBC cujo alvo está apontado para a cabeça
do poeta. Há muito sonha em executar essa vingança.
Planejou tudo de forma obsessiva, apesar da aparente
simplicidade da operação. Não se sabe o motivo exato da
rixa. Alguns dizem que o bardo roubou sua namorada,
outros que o potencial atirador não aceitou perder o
concurso de redação no terceiro ano do ensino médio. De
modo que um ponto vermelho oscila na testa do rapaz, e
ninguém, exceto a surda-muda de tetas caídas que dança e
gesticula freneticamente a sua frente, é capaz de perceber a
ameaça.
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Flávio Antonini
SE VIRANDO NA ERA DOS SALVADORES
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João Batista de Morais Neto ǀ Natal-RN.
NUMA FALÉSIA EM CRISTÓVÃO
Nunca mais ouvi Tom Waits
Noites frias natalenses são como chuvas torrenciais no
deserto
Sem exagero nem bobagem nenhuma de poseur
Nenhuma canção no dial
Quem sabe, navegar toda a noite para Singapura
Mesmo que seja somente o prazer de olhar o mar de cima da
falésia em Cristóvão
E recitar sozinho versos nonsense improvisados na
madrugada insone
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Jalna Gordiano ǀ É escritora, poeta, co-fundadora do movimento de literatura
marginal SIRROSE, autora do livro ASMA, DENTRE OUTROS PRAZERES A DOR,
tendo publicado fanzines na cidade de Manaus. Revolucionária nata, amante das
loucuras e devota dos filhos, atualmente cursando o curso de Serviço Social.
Feminista, cotista e terrorista psicológica, acredita em mudar o mundo como
sonho possível.
O SERVO
Felizes os que dormem nos braços doces de um amor em
época de fascismo.
Felizes os que fingem não enxergar nada, e passam suaves
sobre o sangue estirado na calçada em plenas duas horas e
trinta e sete minutos de uma tarde de maio.
Felizes os que rastejam tão baixo quanto as lesmas mais
pegajosas que existem.
Eles são felizes.
Eu não.
Felizes os que baixam a cabeça e oferecem o pescoço
engordurado para que o senhor ceife suas vidas com
espadas de tétano importado.
E também os que cedem a sua noiva aos donos de ouro e
merda da terra.
Felizes os que fingem que a morte do filho não foi
assassinato. Foi coincidência. Quase que um milagre
necessário para a conversão.
Infeliz de mim que abri os olhos de uma só vez quando
nasci.
Refestelam-se os porcos na lama e chorume dos corpos de
crianças mortas de fome.
Satisfeitos estão os que bebem o veneno de Shiva
acreditando hidratar suas almas secas de ódio.
Completos se sentem os que sentam no dorso dos
trabalhadores, pobres rurais com solas de pés mais duras e
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ásperas que o solado dos coturnos que guardam os pezinhos
gordinhos, de unhas bem feitas dos militares.
Como festejam a festa dos mortos! Viva!
Como são grandes os sonhos de quem mata os sonhos
alheios!
E como são pequenas as gotinhas de remorso dos que batem
os beiços em frente a cruz (reze três ave marias e serás
perdoado). Não esqueça de fazer o sinal da cruz com os
dedos em forma de arma.
As pernas gordas da madame classe comédia passam sobre
o corpo esquálido do menino de rua jogado no chão frio,
esfomeado. Ele está sujando a minha calçada, diz ela ao
policial.
Policiais são felizes e não param de soltar fogos! Quem dera
de artifício! São alvos móveis as crianças que voltam da
escola. Elas não deveriam de se enfiar no meio do tiroteio...
Gordinhos estão os suínos roncando dentro das catedrais de
falsa fé. O meu deus é o teu dinheiro. Me compre a sua
condenação, proletário em desespero. Gargalhadas são
ouvidas a quilômetros dos cultos e ecoam aos ouvidos de
Belzebu. Que gargalha contente o seu sucesso.
Triste sou eu que vejo, e não sei o que é o certo. Que nasceu
de uma vez só e ao abrir os olhos, acabei postergando o
choro e os tapas para mais tarde. Triste sou eu que senti o
cheiro daquele sangue mesmo sem ter olfato. Como ser
feliz, com os sentidos tortos? Queria eu endireitar meus
olhos. Aprimorar os ouvidos. E ter os braços doces de um
amor qualquer para dormir em paz e esquecer o sentir do
outro.
“Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada,
mas dizei uma palavra e serei salvo.”
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Gigio Ferreira ǀ É de Belém-Pará, poeta, contista e crônista.
CRIPTOGRAFIA DOS ANIMAIS ASSUSTADOS
Que bom...
As penas que voam não sejam
Pesadas como os donos dos pássaros.
E os trens cruzando
Não levem nossas malas...
E os olhares lavem como fazem as lágrimas...
E nem as perguntas quando querem como angústias
Nossas desgraças!
Que bom...
Eternamente...
Que as melhores sensações sejam tão caras
Que o almoço se repita na janta
E o café da manhã seja lento...
Sem as despedidas amargas...
Que
Bom...
Que bom que as grandes amizades acabem na cama...
E mesmo na distância ainda haja a criança...
E que a lembrança seja mais que isso:
O ato de abrir o passado!
Sorrir...
E depois brincar até mais tarde...
Se possível que tudo se repita até como linguagem...
Que bom...
E que todo o amor possa atravessar
Os ofícios com a idade que há em toda coragem!
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Dom Alencar ǀ Nasceu em 1989 em Tapiramutá-Ba, vive em Manaus desde 2007.
É assistente social, poeta e comunista.
VALE DA SOMBRA DA MORTE
Escorpiões fazem morada em meu peito
Treme a tênue vila de Macondo
Aureliano Buendia brama
Blasfêmias e outras moneras
Contrarrevolucionários fincam
novamente a bandeira do ouro
Que te venham buscar
na primeira hora
da primeira noite sem lua
do mês de maio. Avança
a penumbra pelas
estradas vicinais
A polícia armada diz: cale-se
O poeta responde: afasta de mim
Os pés feridos são beijados pelas freiras
A virgem Maria
em silêncio geme
O eterno gosto da solidão hercúlea
Se não fosse o muro de Santiago
a antimatéria se ajoelharia
sufocada pela fé de Pedro
Bem-aventuradas as insólitas almas
que já em tempos longínquos
amaldiçoaram o dinheiro!
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Rojefferson Moraes ǀ É poeta, contista, e produtor cultural, natural de Manaus,
atualmente mora no Distrito do Purupuru onde é professor.
Há pouco tempo todos por aqui confraternizavam.
Tomavam cerveja, jogavam futebol aos sábados. Comiam
um churrasquinho aos domingos. Tudo na santa paz de
Oxalá. Mas tudo mudou. O bairro se dividiu. Pessoas
deixaram de se falar. As discussões passaram a ficar cada
vez mais violentas.
Eu havia sido contratado pra trabalhar em um novo
shopping do bairro. Uma construção enorme que soterrou o
igarapé onde tomei banho diversas vezes quando gazetava
aula. Era véspera do segundo turno das eleições. Decidi,
como bom brasileiro cachaceiro que sou, tomar umas com
alguns amigos pra comemorar o novo trampo, e conversar
sobre o possível resultado das eleições, infringindo a Lei
Seca que nunca funcionou, e nunca vai funcionar. Pelas
tantas, todos alegres, iniciou-se uma discussão fervorosa
sobre política. Do nada um estampido. Um grito abafado
pediu socorro. As pessoas se escondiam, e crianças
assustadas choravam. Quando o filho do proprietário de um
pequeno comércio começou a baixar as portas começamos
entender o que havia acontecido. O pequeno empresário não
gostou de ser contrariado, e deu um tiro no peito de um
vizinho que trabalhava como pedreiro. Um pequeno
empresário evangélico, que lucrava com a receptação de
produtos furtados, pai de um aviãozinho travestido de
estudante numa escola militar... Gente correndo pra
conseguir um carro pra levar o velho bebum para o SPA. Um
homem cuspindo sangue no rosto do filho mais novo
pedindo perdão por todos os erros.
Hoje o pequeno comércio mudou de proprietário.
Gente se olha desconfiado, e ninguém ousa convidar mais
ninguém pra comer um churras na sua casa. Só eu continuo
aumentando meu som, tomando minha inseparável vodca
Skarloff, com o peito exposto sem colete à prova de balas.
7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front
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7 Dias Cortando as Pontas dos Dedos - Punhos Cerrados no Front

  • 1.
  • 2. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 2 -
  • 3. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 3 - 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no front 7 para alguns é um número cabalístico, mas nem todos nascem com a graça da fé impregnada em cada célula do corpo. Alguns apenas tentam sobreviver às agruras da vida, que dia após dia faz florescer o que existe de mais animalesco em cada um de nós. Porém se alguns fazem da violência contra os mais fracos uma válvula de escape, outros sacolejam corpo e alma para se livrar das imundícies disparadas por todos aqueles que só veem felicidade na busca desenfreada pelo poder, e por fim buscam na arte as armas necessárias para guerrear. Não foram poucos os escritores que na História da Humanidade tomaram esse caminho. Os dias atuais não têm sido diferentes. Mais uma vez fomos desafiados a recarregar nossos olhos, e punhos para produzir poesias, charges, ilustrações, contos, crônica... E disparar nossa RESISTÊNCIA contra a imbecilidade mal fundamentada, cega, violenta e tola daqueles que não conseguem enxergar nada além da bolha verde e amarela cada vez mais murcha. E 7 permanecerá sendo nosso número de combate, e estamos aqui no FRONT! Sejam bem-vindos! Este é o 7 DIAS CORTANDO AS PONTAS DOS DEDOS!
  • 4. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 4 - © 7 dias cortando as pontas dos dedos – Punhos cerrados no Front - 2019 Organização Rojefferson Moraes Edição e diagramação Dom Alencar Revisão Zemaria Pinto Capa Rakel Caminha Contato natora.producoes.eventos@gmail.com dom.alencar@outlook.com Licença Todos os direitos reservados.
  • 5. Sumário Dinho Lascoski ǀ 6 Fabio da Silva Barbosa ǀ 7 Edivaldo Ferreira ǀ 8 Zemaria Pinto ǀ 9 Roge Weslen ǀ 12 Susy Freitas ǀ 14 Everton Luiz Cidade ǀ 16 Emmanuel 7Linhas ǀ 17 Flávio Antonini ǀ 19 Glauco Mattoso ǀ 20 Mauricio Braga ǀ 22 João Farias ǀ 24 Marciel Cordeiro ǀ 25 Wagner Nyhyhwh ǀ 27 HQ Gilmal ǀ 28 Daniel Fagundes ǀ 29 Dani Colares ǀ 31 Max Caracol ǀ 33 Daniel Amorim ǀ 35 João Batista de Morais Neto ǀ 37 Jalna Gordiano ǀ 38 Gigio Ferreira ǀ 40 Dom Alencar ǀ 41 Rojefferson Moraes ǀ 42
  • 6. Dinho Lascoski ǀ Nasceu em Ponta Grossa – PR. Mora em Indaial – SC.
  • 7. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 7 - Fabio da Silva Barbosa ǀ É jornalista, escritor, educador social, entre outras coisas. Já lançou e-books, livros e veículos de comunicação, impressos e virtuais, nos mais diversos formatos. Algumas de suas poesias já foram musicadas (destaque para Olhos Furiosos – Vida Torta, hard core de verdade – e Pessoas – Ivan Silva, voz e violão). CÉLULA MALIGNA violência generalizada mentes enlatadas vidas arrasadas terra devastada essa é a herança da civilização maldita memória distorcida na mentira acredita amor – palavra ridicularizada pelos que destroem nossa existência semeiam a demência sangue na estrada a ignorância se prolifera nos transformam em bestas nos tornamos feras traumas e sequelas
  • 8. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 8 - Edivaldo Ferreira ǀ São Paulo – SP. O PATRIOTINHA vestiu sua camisa verde-amarela e foi às ruas matou negros por serem negros matou índios por serem índios na igreja com seus irmãos disse crer num tal messias pratica tiro ao alvo mirando em livros de poesia tem nojo de terreiro de cachaça e samba tesão só por dinheiro poder e armas quer morar em Brasília e ser presidente um dia acordando de sonhos intranquilos abriu os olhos assustado e confirmou, ainda bem, estava a salvo em seu corpo de barata e dormia no canto de uma caverna ao lado de outra baratinha que gritava: – Que foi? Outra vez sonhou que é um desses humanos? – apontou para o bando em volta da fogueira. O baratão respondeu, coçando suas antenas. – Sim, quer dizer... NÃO, não! Aquilo ali tá longe de ser um ser humano, viu? Ô bicho ruim. Se eu te contar cê não acredita! – Relaxa, eles acabaram de descobrir o fogo, o que é que poderiam fazer de tão ruim nos próximos milhares de anos?
  • 9. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 9 - Zemaria Pinto ǀ Nascido sob o governo socialdemocrata de JK, tem 20 livros publicados, de poesia, ficção e ensaios. É eleitor-fundador do PT, desde 1982, quando votou em Oswaldo Coelho, seu professor de História no Colégio Ruy Araújo, em Manaus, que lhe ensinara que a vida que está nos livros é a vida que vivemos, todos os dias – somos nós, o povo, que construímos a História. O POVO E O POEMA sobre um poema que não seja propriedade particular sobre um poema/canção de guerra a clamar por todos esses soldados sobre um poema de operários camponeses, guerrilheiros sobre um poema em que a fome tome sua verdadeira forma de fome sobre um poema concreto de aço e cimento e queda sobre um poema de enchente de seca, de lepra sobre um poema mendigo sobre um poema de grito de espanto sobre um poema de sangue de bomba, de pus e de raça
  • 10. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 10 - sobre um poema menor de índio, de puta e de dor sobre um poema que cale a voz do generalato sobre um poema oprimido espremido, pichado sobre um poema sem classes é sobre esse poema que marcha o meu povo. (1977 – sob a ditadura de Geisel)
  • 11. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 11 - Dinho Lascoski
  • 12. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 12 - Roge Weslen ǀ vive em Belém/PA. CARTA DE UM DESERTOR Não estarei entre os defensores de um mundo podre. Solidão, meus caminhos exigem teu amor impiedoso. Não depositarei minha fé na militância revolucionária, que não revolucionou nem mesmo seus protótipos de ética, de moral, de crença cega numa verdade arcaica. Esta verdade em que creem tanto nunca se revelou a eles, entretanto, sua certeza heroica nega isso. Não leram com atenção nem mesmo suas referências mais altas, e mesmo assim erguem suas ideologias como espadas, rutilantes, certos de que estão, sempre estiveram do lado certo de tudo. O curioso é que nem esclarecer qual é este lado conseguem. Não chorarei com seus contos, seus pesadelos, suas mazelas intermediárias. Estou do lado dos que economizam no almoço pra que sobre na janta. Seus olhos nunca viram estes pequenos deuses famintos. Alegres. A verdade é que nenhuma política nos alcançou, de fato. Nenhum deus no amou incondicionalmente. Nenhuma fé moverá montanhas. Nosso sangue ainda é moeda de troca entre os grandões do capital. Escrevo isso, mas não tenho nenhuma esperança em vocês, na luta de vocês. Minha mãe já jogou água em tantas valas de sangue nesta passagem miranda, meu pai descarrega baús de caminhão há mais de vinte anos. O mundo já acabou há muito tempo para nós. Para meus pais, meus avós, o mundo já era pior. Sua afetação não me convence. Entretanto, sou apenas um menino da periferia de Belém que leu alguns livros, viu algumas mortes, fez umas merdas, teve um filho. Apesar disso, 17 anos é tão pouco. Não espero que acreditem em mim, que concordem
  • 13. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 13 - comigo. Na verdade, não dou a mínima. Tenho mais a dizer, mas a vida chama. Na rua, há brega e funk e churrasco na brasa. Enquanto vocês se desmancham em dramas pós- mundo, nossa rua de terra cria moleques na tradição da luta, do foda-se e do ódio. Sua bondade e rebeldia nos faz rir. Seus sonhos de uma pátria justa... Suas tramas incendiárias se desmancham nessa realidade jocosa. Eu vou pra rua. Fiquem com seus heróis, suas ideologias, seus jovens sabichões que acham que a beleza de um momento pode salvar o mundo, eu renego sua luta. Não é por nada não. É que vocês nunca me convenceram...
  • 14. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 14 - Susy Freitas ǀ Nasceu em Manaus (AM), em 1985. É jornalista, professora, crítica de cinema e escritora. ALERTA E SELVAGEM Você vê aquela exata carta de navegação em chamas. As cinzas dançam. O eco – um reflexo nas pupilas – lento dá a vez a pálpebras que represam lágrimas que desfazem a imagem. Você achava que tinha voz. Você achava que tinha voto. Mas os dias provaram ser uma narrativa genocida na qual você consegue golpear apenas algumas palavras. De certa forma você gosta disso – Há pontes queimando. Cartas jamais enviadas. As apostas não são seguras. O caminho está todo errado como bem suspeitávamos. Escolhas equivocadas – chance zero de retomada. Mas há pontes queimando. Cartas jamais enviadas –
  • 15. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 15 - de certa forma você gosta disso já que os anos sob o guarda-chuva de tantas expectativas refinaram o paladar pra destruição. Você vê nossa carta de navegação em chamas desenhada e consumida por forças imbatíveis. Um fogo que ameaça mas conforta machuca narinas que ressecam mas respiram realidade para além da distorção que as luzes projetam na profundeza. Você é só um saco cheio de impurezas mas cheio de ar. Alerta e selvagem.
  • 16. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 16 - Everton Luiz Cidade ǀ Natural de São Leopoldo/RS. A FACA NÃO É FRANCA Os sinais podres pátrios na ceia Seu karma dissabor Sua arma de vários vírus Enfiada na boca de um professor Com prantos e retransmissão de dados Bozo Bazuca nos presenteia Estamos mais mortos que vivos Inseridos em teu produto regressivo Obsessivo compulsivo De mal e morte Teu fascismo é leigo e perigoso Teu autoritarismo jocoso é perigoso Homúnculo ridículo com seus discípulos ridículos Tens tua morada no tempo que deduz Do nosso trabalho precioso Tuas correntes de bijuteria cristã sem luz (só cruz) Sangram nossas belas canelas com eucaristia negativa Sem glamour e despreparada Eu sigo minhas energias Bozo Bazuca as suga como droga/sonho da periferia Nos desvitalizando em tristeza imersiva E generosidade tóxica ególica punitiva de miséria e zombaria.
  • 17. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 17 - Emmanuel 7Linhas ǀ Cantor, compositor, poeta, performance, pseudo-intelectual, agitador, boêmio, sambista, bailarino, brigão, chorão, flamenguista, rabugento. mítico, sensível, narcisista, ação do tempo.38 anos, nascido na baía de Vitória/es. CANSAÇO Disfarço o cansaço Ser de aço o tempo inteiro A farsa do sorriso fácil Pois rir de tudo, tão somente é desespero A realidade demonstra: Espelho quebrado Sadismo intermitente Esperança ladeira abaixo O conto da pressuposta racionalidade Por entre análises de filósofos estatais Vivaldinos colossais O evangelho segundo o marxismo Desprendo-me do kardecismo Do messianismo pseudoprogressista O personalismo autoritário Com gotas de teologia da libertação Ontem vi na tevê: "Dotor, como um preso pode contribuir para libertar o carcereiro?" Sigo cansado de ser enganado por figuras beatificadas O lobo em pele de cordeiro bebendo o sangue do negrinho do pastoreio Choro por dentro Ao ver os poetas inúteis do meu povo preto, ao relento Queria pagar-lhe os dez reais que lhe devo Desejo que nossas crianças desenvolvam “outros talentos"
  • 18. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 18 - Está tudo dentro do plano O caixão do pobre aguardando o buraco O coturno diurno Subindo a rampa enquanto tirano Esperando pelo tempo que a noite não vem Vejo o pouco que me cabe Nesta nave de um texto insólito que Ecoa solitário, insípido e cético sobre a linha do trem Da despedida.
  • 19. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 19 - Flávio Antonini ǀ é artista plástico e poeta radicado em Tobias Barreto/SE. Seu trabalho explora temas como sexualidade e absurdo. Tem no currículo algumas exposições individuais realizadas em Aracaju, a exemplo de “Cenas da cidade fábrica” realizada na galeria de arte do Sesc em 2016, e “Didática nada instrutiva da educação sexual” na galeria J.Inácio em 2017. O SONHO DO VENCEDOR
  • 20. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 20 - Glauco Mattoso ǀ É poeta, profeta e paratleta da metrificação com barreiras. #0131 MANIFESTO GOLPISTA (março/2019) "Você não accredita, Glauco, nessa hypothese? Eu, sim, nella apposto e creio, pois da conspiração a theoria funcciona neste caso! O que interessa a muitos generaes é ver, no meio do prazo de mandato, o que viria..." Indago o que viria. Alguma peça egual à que enscenaram quando o freio puxaram do progresso que occorria? Fariam tudo como na pregressa comedia, quando, ao franco tiroteio, um pacto preferiram, na coxia? "Não, Glauco! O que rollou foi lento à bessa! Agora accostumaram-se! Interveiu o vice, e as calças logo o cara arria! Vae tudo transcorrer bem mais depressa! Ao próximo o Congresso, que está cheio de cabos, corpo duro nem faria!" Preoccupo-me. Esta terra ja attravessa tamanha crise, e cada vez mais feio o quadro ser promette todo dia! Será que esse golpismo nunca cessa? Será que nosso velho devaneio utópico resiste? Quem confia?
  • 21. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 21 - #0159 MANIFESTO IMMEDIATISTA (março/2019) "Caracas! Não pensei que era p'ra ja! O próprio Bolsonaro precipita as coisas! O thermometro, que está mais quente, deixa a scena bem bonita praquelles que preveem o que virá!" E então, o que virá? Por que será que comptam com a crise? Ninguem cita, mas acho que celebram, no sabbath, um rapido desfecho. Quem evita o "impeachment"? Moro? Maya? Mourão? Qua! "Quem sabe, Glauco, o proprio cara tá pedindo p'ra sahir? Assim, incita os animos, depois desculpa dá de terem sabotado essa bemdicta politica à direita... Ah! Que ella va..." Exacto. O que eu apposto é que estará na moita alguem que "mytha" e que "tweeta" discreto: o general. Que Jehovah, Allah, Zeus, nos protejam! Accredita em bruxas quem assiste do sofá? /// ...
  • 22. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 22 - Mauricio Braga ǀ Natural de Manaus – Am. INQUISIÇÃO Proibido para todos os públicos! Este é o lugar que querem chamar de sub-américa. Mas é nas entrelinhas que os galos brigam. Deus seja comprado, amém. Aquele ali (aponta com o dedo) Está vendo? É o subversivo que come versos para cagar prosa. É ele que, pela manhã, publica livros em xerox; à tarde, atua sem público; e, à noite, é esquartejado em um beco. Imortal? Claro que não! Posto que os imortais, sendo imortais, não morrem. E, portanto, não vivem.
  • 23. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 23 - Viver é jogar xadrez com a morte. Logo, esse sujeito vive. Dorme sob pontes erguidas por ele mesmo. Dá de mamar às madames no centro da cidade. Cheira coca-cola aos domingos depois da missa. E pretende queimar cada palavra em uma fogueira de vaias. Palavra da salvação, dólar a vós, senhor.
  • 24. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 24 - João Farias ǀ Vive oscilando entre o sertão alagoano e o caos maceioense, 20 anos. OS SERES MAIS INDEFESOS SÃO OS ESCRITORES Ah, como tenho pressa de viver, Belchior. O mundo talvez seja pouco para mim. Quero algo que está para além das estrelas. Do fundo da alma. Fundido entre o Céu & a Terra. Fora da capacidade de mentes minúsculas. Desinteressado nas coisas mesquinhas. Só me interessa aquilo que queima & grita. Repito como um mantra sagrado. E antes que eu esqueça, há um tipo de beleza nas madrugadas que só conhecem os que a vivem. Como Hunter S. Thompson em seu delírio antes de explodir em cinzas desmanchando no Céu em chama. Os seres mais indefesos são os escritores acreditava Alejo Carpentier. O escritor cubano estava certo, mesmo. E como Sylvia Plath fazendo da morte um tipo de Arte. O espírito do poeta que escreveu seu último verso com sangue. Que chorem os muros do Brasil, as lágrimas escorram & transformem-se em riachos azuis para as crianças pobres do Sertão. Pregando igual um profeta à eternidade. Vou rosnar para Deus dançando com fúria, com meu histerismo movido por drogas à beira de um Penhasco. O arco dos astros cairá sobre nós esta noite. E eu roubarei o Sol apenas para mim. Não me acompanhem pela jornada no inferno.
  • 25. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 25 - Marciel Cordeiro ǀ É escritor, estudante de Serviço social, morador da Serra no Espirito Santo, onde realiza atividades com a juventude; realizando diversas atividades como fotógrafo, poeta, palestrante e oficineiro. É um dos fundadores do projeto RapcomoPoesia que atua na Grande Vitória há quase quatro anos. MALHANDO O JUDAS Era noite de São João e mataram um homem depois do encerramento da quadrilha. O homem estava com ferimentos na cabeça e pequenos cortes próximo das axilas. Em meio ao tumulto dois senhores brincavam de atravessar a fogueira descalços. Em noite de São João quem atravessa a fogueira não queima os pés. Arrastaram o corpo do morto para um salão, acenderam algumas velas e jogaram um pano branco sobre o corpo. Ninguém sabia o que poderia ter acontecido. A noite estava bonita, o céu estrelado, a fogueira cuspia algumas faíscas para o alto e as crianças brincavam incessantemente. A festa perdeu a grandeza com a morte, mas não parou. Havia muitas pessoas bebendo e dançando. Fincaram uma madeira próxima da barraca de bebida, na madeira estava o Judas que havia sido malhado e que na noite de São João seria queimado. Mas no bolso da jaqueta do Judas havia os pasquins, os pasquins são feitos por um anônimo, talvez vários, mas é o anonimato que mais chama atenção nos escritos. Um jovem estava lendo quando se assustou com um escrito, perguntou se podia ler e todos que ali estavam disseram que sim, o rapaz começou a leitura, “morreu mais um Judas”. Todos ficaram intrigados. Houve um alvoroço. No meio da multidão alguém gritou, “foi o Gringo!”. O Gringo na verdade era um espanhol que morava há anos no vilarejo. A suspeita se levantou pelo fato do espanhol ser homossexual. Na vila ninguém tolerava o
  • 26. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 26 - fato de haver um espanhol gay entre eles. As mulheres cuidaram das crianças que brincavam livremente. Depois que ouviram o grito a multidão partiu em direção ao velho espanhol. Homens com paus, outros com os punhos fechados, alguns com cordas. O pobre espanhol não esboçou sequer uma reação, foi morto sem defesa. O corpo ficou no chão por um tempo, quando o sangue da multidão havia esfriado, uma pessoa perguntou, “alguém tem certeza que foi ele?”. Ninguém respondeu, ninguém realmente sabia. Houve um grande silêncio. Surgiu alguns se eximindo da culpa, diziam que não havia tocado as mãos no corpo do espanhol, outros se orgulhavam de ter matado um assassino, mesmo sem provas. Alguém jogou o Judas na fogueira e as faíscas jorravam como lavas para o alto.
  • 27. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 27 - Wagner Nyhyhwh ǀ Rio de Janeiro - RJ. ALGUÉM ME EXPLIQUE: O LIBERAL-CONSERVADOR Tá circulando por aí Um tal de liberal-conservador Alguém me explique por favor Esse sujeito. O cara é a favor da liberação das armas Mas contra a liberação da maconha. É a favor da pena de morte Mas contra o aborto. O cara se diz cristão Mas prega o ódio e intolerância. O cara se diz patriota Mas quer a venda de todos os recursos naturais do país aos gringos. É a favor de ampliar presídios Mas é contra punição para crimes ambientais ou de trânsito. Diz que é contra a politicagem A favor da diminuição dos impostos Da liberdade individual Do estado mínimo Mas quer endurecer a previdência social Quer enquadrar movimentos sociais como terrorismo Quer aumentar a repressão policial Quer controlar o que é ensinado nas escolas. O cara é cheio de contradições Mas diz que os outros é que propagam mentiras. Alguém faça um estudo Desse tal liberal-conservador E me explique por favor.
  • 28. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 28 - HQ Gilmal ǀ Natural de Manaus – Am.
  • 29. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 29 - Daniel Fagundes ǀ São Paulo - SP. PAULISTRANHOS Não conheço meu vizinho também não conheço meu pai sou samurai onde Vênus vende Demillus cortei meus pulsos Joana os mamilos intranquilo verto o caos e conto as pedras no rim observando da janela a solidão entre os jasmins as ruas seguem sujas a sua paz o meu pantin Já não consigo pensar já não consigo sonhar já não amo ninguém dentro dos meus olhos existe um refém. Brilho encarcerado atrás do cinza opaco. Me sinto longe, me sinto fraco, me sinto cego. Ferido ego inflado em retidão todos estão envaidecidos de tristeza nessa cidade todos seguem se enganando de tanta verdade No barraco mais ao fundo no Cantinho do céu ou na cobertura mais alta da praça Princesa Isabel Eu sei que o sorriso é carregado de abandono e não há trono que sustente a pompa de metrópole mais rica do país SP sem CEP sem endereço pra ser feliz... E não é que não exista amor sabe, não é que não exista a felicidade, é que tudo tá sempre por um triz nesse lugar
  • 30. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 30 - é que tudo é sempre tão efêmero quanto um desenho de giz... talvez seja assim também em qualquer outra cidade desse país mas é que aqui parece q tudo se amplifica, tudo se esvai nada fica... Acho que a urbe que nunca dorme deve ser na verdade cidade dormitório do Brasil no cortiço, na favela, na mansão, nada vinga... tudo vaga. Esquece aonde cruza a Ipiranga com a av São João e olha pra onde cruza a Cantidio com a estrada do Sabão. Vê quantos nordestes dormindo em pé as 6h no busão. Vê quanto amor esmagado... é Sampa tocando no iphone é a fome renascendo do cinza são os diretos que perdemos são os direitos que nunca tivemos As gotas cristalinas da garoa ressaltam a cárie obturada com estanho na boca fria do concreto. Nublado em mim céu aberto Hoje eu to me sentindo meio estranho... to me sentindo mais deserto.
  • 31. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 31 - Dani Colares ǀ Manauara, mestranda em Antropologia Social pela Universidade Federal do Amazonas, começou a escrever ainda na infância, seu trabalho aborda temáticas do cotidiano e questões do universo feminino como protestos a violência e visibilização da mulher. Participou em parcerias de zines de outros escritores e uma parte de seu trabalho é encontrado nas redes sociais em @dani_se_a_poesia. A VOZ DO BRASIL Brasil, como guia teu rebento? Quem te traz mais alento? Onde aprendeu mais? Na rua ou no convento? Na beira ou na igreja? Como ficarão teus filhos pródigos, Brasil? Se um bom filho à casa retorna Me explica como é voltar um corpo, num carrinho de mão Ensanguentado em preconceito Entregue à própria sorte Apedrejado até à morte Ou ainda chorando rios de lama Ou ardendo em brasas, em chamas Como os sem teto, os sem cama O que é a comida? É a vida resumida em uma marmita Negada a quem precisa Desfeita no lixo Na rua estendido Na rua estendida Comida Vencida A água É a vida em um copo Negado a quem tem sede Poluída pra geral
  • 32. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 32 - E ostentada na cascata real do Distrito Federal A água que falta Nas gargantas, com palavras entaladas E sobra nos olhos De quem vai dormir sem nada. Ó pátria amada Idolatrada, salve, salve! Salve a bela A Gabriela, a Rafaela Salve as elles Isabelle, Danielle, Marielle Salve o moleque Que brinca na rua, no passeio Pé descalço, bola, bala, tiroteio. Salve os trabalhadores resgatados E na manchete: “Eram mantidos em regime de escravidão” Me diz aí você O que mudou desde a colonização? Moça, que Deus te abençoe E abençoe os imigrantes também Os que morrem nas ruas Nos muros, nas praias Os que nunca vão chegar a falar: “lar, doce lar” E que abençoe A indígena abusada A negra sexualizada Aquela que você chama de puta Filha dessa pátria mãe gentil Que assim por você é chamada Julgada, explorada A mesma puta que nos pariu.
  • 33. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 33 - Max Caracol ǀ É Filósofo, professor, produtor da tv UFAM, contista e editor da revista. O DIA Acho que meus dias vão terminar entre essas paredes brancas de um hospital público na pequena cidade que moro. Não tenho nenhum parente vivo, e a única pessoa que se importa comigo é uma enfermeira que canta músicas antigas pela manhã. Aguardo esse canto todos os dias. É o momento que me sinto vivo e visível. Hoje é aniversário do meu nonagésimo segundo ano de vida, acreditava que esses olhos consumidos não iriam ver mais nada de relevante nesse país que está infestado de intolerâncias e outras chagas que vi e senti no passado. Passei pelo Getúlio e seu populismo fascistas, que criou o DIP, impôs uma constituição a sociedade, do governo acéfalo do Dutra e seu plano SALTE que gerou uma crise que permitiu o primeiro mandato eletivo de Vargas e seu retorno. Passei pelo assombro desenvolvimentista do JK e o endividamento do país ao capital estrangeiro. Vi o alucinado Jânio que renunciou, deixando o caminho livre para o golpe militar. Presenciei o governo Goulart que foi sabotado até a sua morte encomendada... Em seguida vieram os militares. Conheci nas ruas e celas o seu poder de negar a liberdade e tentar matar sonhos; mas os sonhos, como diz Beto Guedes em sua canção, "sonhos não envelhecem". Veio a Democracia e conseguimos sorrir novamente. O mundo construiu seus líderes, aqueles comandantes de multidões que fizeram parte, ao seu modo, na história desse meteoro mediano chamado planeta terra. Vivi tudo isso, mas a data de hoje é um presente que a vida me deu. Hoje o último grande líder mundial vivo vai sair do cárcere e interferir no cenário político do mundo. Luis Inácio Lula da Silva estará entre nós novamente. Acusar, julgar e condenar injustamente é uma prática antiga das elites desde Sócrates de Atenas. Lula foi a vítima da vez, mas ele
  • 34. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 34 - enfrentou a prisão e agora isso é passado. Vejo na televisão as multidões ocupando as ruas, avenidas, praças. Ouço os fogos e risos de felicidades. Não conheço essas modernagens tecnológicas, nem vou estar lá para ver o "torneiro mecânico" que ajudou o Brasil mais que toda a história da república até hoje. Vou pedir a enfermeira que leve meu bilhete e leia em voz alta no ato público de hoje na praça da cidade. É hora de tomar remédios e dormir no quarto de paredes brancas, mas que em minha alma é colorido e ventilado hoje. Não preciso acordar mais.
  • 35. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 35 - Daniel Amorim ǀ Nasceu em Manaus (AM), em 1985. É jornalista e escritor, com foco em contos. Seu livro "Zona de Sombra" (inédito) venceu o Prêmio Arthur Engrácio, dedicado ao melhor livro de contos dos Prêmios Literários Cidade de Manaus. ATENTADO Um poeta bebe sozinho no bar. É um rapaz tímido, reflexivo, que detesta oferecer zines de péssima qualidade aos cidadãos que se reúnem para conversar numa quarta- feira à noite, por exemplo. Gosta de Mahler e de preparar anchovas com cogumelos para os amigos em sua quitinete alugada. Levemente homossexual, diria o seu amigo macho- alfa ao vê-lo circulando pelos corredores da universidade. No entanto, alguém o observa num apartamento do outro lado da rua. As luzes da sala estão apagadas. O homem segura um rifle CBC cujo alvo está apontado para a cabeça do poeta. Há muito sonha em executar essa vingança. Planejou tudo de forma obsessiva, apesar da aparente simplicidade da operação. Não se sabe o motivo exato da rixa. Alguns dizem que o bardo roubou sua namorada, outros que o potencial atirador não aceitou perder o concurso de redação no terceiro ano do ensino médio. De modo que um ponto vermelho oscila na testa do rapaz, e ninguém, exceto a surda-muda de tetas caídas que dança e gesticula freneticamente a sua frente, é capaz de perceber a ameaça.
  • 36. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 36 - Flávio Antonini SE VIRANDO NA ERA DOS SALVADORES
  • 37. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 37 - João Batista de Morais Neto ǀ Natal-RN. NUMA FALÉSIA EM CRISTÓVÃO Nunca mais ouvi Tom Waits Noites frias natalenses são como chuvas torrenciais no deserto Sem exagero nem bobagem nenhuma de poseur Nenhuma canção no dial Quem sabe, navegar toda a noite para Singapura Mesmo que seja somente o prazer de olhar o mar de cima da falésia em Cristóvão E recitar sozinho versos nonsense improvisados na madrugada insone
  • 38. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 38 - Jalna Gordiano ǀ É escritora, poeta, co-fundadora do movimento de literatura marginal SIRROSE, autora do livro ASMA, DENTRE OUTROS PRAZERES A DOR, tendo publicado fanzines na cidade de Manaus. Revolucionária nata, amante das loucuras e devota dos filhos, atualmente cursando o curso de Serviço Social. Feminista, cotista e terrorista psicológica, acredita em mudar o mundo como sonho possível. O SERVO Felizes os que dormem nos braços doces de um amor em época de fascismo. Felizes os que fingem não enxergar nada, e passam suaves sobre o sangue estirado na calçada em plenas duas horas e trinta e sete minutos de uma tarde de maio. Felizes os que rastejam tão baixo quanto as lesmas mais pegajosas que existem. Eles são felizes. Eu não. Felizes os que baixam a cabeça e oferecem o pescoço engordurado para que o senhor ceife suas vidas com espadas de tétano importado. E também os que cedem a sua noiva aos donos de ouro e merda da terra. Felizes os que fingem que a morte do filho não foi assassinato. Foi coincidência. Quase que um milagre necessário para a conversão. Infeliz de mim que abri os olhos de uma só vez quando nasci. Refestelam-se os porcos na lama e chorume dos corpos de crianças mortas de fome. Satisfeitos estão os que bebem o veneno de Shiva acreditando hidratar suas almas secas de ódio. Completos se sentem os que sentam no dorso dos trabalhadores, pobres rurais com solas de pés mais duras e
  • 39. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 39 - ásperas que o solado dos coturnos que guardam os pezinhos gordinhos, de unhas bem feitas dos militares. Como festejam a festa dos mortos! Viva! Como são grandes os sonhos de quem mata os sonhos alheios! E como são pequenas as gotinhas de remorso dos que batem os beiços em frente a cruz (reze três ave marias e serás perdoado). Não esqueça de fazer o sinal da cruz com os dedos em forma de arma. As pernas gordas da madame classe comédia passam sobre o corpo esquálido do menino de rua jogado no chão frio, esfomeado. Ele está sujando a minha calçada, diz ela ao policial. Policiais são felizes e não param de soltar fogos! Quem dera de artifício! São alvos móveis as crianças que voltam da escola. Elas não deveriam de se enfiar no meio do tiroteio... Gordinhos estão os suínos roncando dentro das catedrais de falsa fé. O meu deus é o teu dinheiro. Me compre a sua condenação, proletário em desespero. Gargalhadas são ouvidas a quilômetros dos cultos e ecoam aos ouvidos de Belzebu. Que gargalha contente o seu sucesso. Triste sou eu que vejo, e não sei o que é o certo. Que nasceu de uma vez só e ao abrir os olhos, acabei postergando o choro e os tapas para mais tarde. Triste sou eu que senti o cheiro daquele sangue mesmo sem ter olfato. Como ser feliz, com os sentidos tortos? Queria eu endireitar meus olhos. Aprimorar os ouvidos. E ter os braços doces de um amor qualquer para dormir em paz e esquecer o sentir do outro. “Senhor, eu não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo.”
  • 40. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 40 - Gigio Ferreira ǀ É de Belém-Pará, poeta, contista e crônista. CRIPTOGRAFIA DOS ANIMAIS ASSUSTADOS Que bom... As penas que voam não sejam Pesadas como os donos dos pássaros. E os trens cruzando Não levem nossas malas... E os olhares lavem como fazem as lágrimas... E nem as perguntas quando querem como angústias Nossas desgraças! Que bom... Eternamente... Que as melhores sensações sejam tão caras Que o almoço se repita na janta E o café da manhã seja lento... Sem as despedidas amargas... Que Bom... Que bom que as grandes amizades acabem na cama... E mesmo na distância ainda haja a criança... E que a lembrança seja mais que isso: O ato de abrir o passado! Sorrir... E depois brincar até mais tarde... Se possível que tudo se repita até como linguagem... Que bom... E que todo o amor possa atravessar Os ofícios com a idade que há em toda coragem!
  • 41. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 41 - Dom Alencar ǀ Nasceu em 1989 em Tapiramutá-Ba, vive em Manaus desde 2007. É assistente social, poeta e comunista. VALE DA SOMBRA DA MORTE Escorpiões fazem morada em meu peito Treme a tênue vila de Macondo Aureliano Buendia brama Blasfêmias e outras moneras Contrarrevolucionários fincam novamente a bandeira do ouro Que te venham buscar na primeira hora da primeira noite sem lua do mês de maio. Avança a penumbra pelas estradas vicinais A polícia armada diz: cale-se O poeta responde: afasta de mim Os pés feridos são beijados pelas freiras A virgem Maria em silêncio geme O eterno gosto da solidão hercúlea Se não fosse o muro de Santiago a antimatéria se ajoelharia sufocada pela fé de Pedro Bem-aventuradas as insólitas almas que já em tempos longínquos amaldiçoaram o dinheiro!
  • 42. 7 dias cortando as pontas dos dedos Punhos cerrados no Front P á g i n a | - 42 - Rojefferson Moraes ǀ É poeta, contista, e produtor cultural, natural de Manaus, atualmente mora no Distrito do Purupuru onde é professor. Há pouco tempo todos por aqui confraternizavam. Tomavam cerveja, jogavam futebol aos sábados. Comiam um churrasquinho aos domingos. Tudo na santa paz de Oxalá. Mas tudo mudou. O bairro se dividiu. Pessoas deixaram de se falar. As discussões passaram a ficar cada vez mais violentas. Eu havia sido contratado pra trabalhar em um novo shopping do bairro. Uma construção enorme que soterrou o igarapé onde tomei banho diversas vezes quando gazetava aula. Era véspera do segundo turno das eleições. Decidi, como bom brasileiro cachaceiro que sou, tomar umas com alguns amigos pra comemorar o novo trampo, e conversar sobre o possível resultado das eleições, infringindo a Lei Seca que nunca funcionou, e nunca vai funcionar. Pelas tantas, todos alegres, iniciou-se uma discussão fervorosa sobre política. Do nada um estampido. Um grito abafado pediu socorro. As pessoas se escondiam, e crianças assustadas choravam. Quando o filho do proprietário de um pequeno comércio começou a baixar as portas começamos entender o que havia acontecido. O pequeno empresário não gostou de ser contrariado, e deu um tiro no peito de um vizinho que trabalhava como pedreiro. Um pequeno empresário evangélico, que lucrava com a receptação de produtos furtados, pai de um aviãozinho travestido de estudante numa escola militar... Gente correndo pra conseguir um carro pra levar o velho bebum para o SPA. Um homem cuspindo sangue no rosto do filho mais novo pedindo perdão por todos os erros. Hoje o pequeno comércio mudou de proprietário. Gente se olha desconfiado, e ninguém ousa convidar mais ninguém pra comer um churras na sua casa. Só eu continuo aumentando meu som, tomando minha inseparável vodca Skarloff, com o peito exposto sem colete à prova de balas.
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