SlideShare uma empresa Scribd logo
Crimes Sem Punicdo Contra Jornalistas
SOCIEDADE INTERAMERICANA DE IMPRENSA
liquilifido
NifilICA 11AIS
Crimes sem Punicao
contra Jornalistas
clamEditor e diretor do projeto
Ricardo Trotti
Colaboradores
Ernesto Sabato
Anthony Lewis
Gabriel Michi
Investigacao de casos
Ana Arana
Investigadores de apoio
Ignacio GOrnez
Maria Clara Prates Santos
Assistente do editor
Melba Jimenez
Colonial Press International, Inc.
3690 NW 50th Street, Miami, Florida 33142
Ilustracao da capa
Ricardo Trotti, da serie "Os labirintos da impunidade", 1999, acrilico e argila some
tela, 150 cm. x 120 cm.
Projeto grafico
Robertson Adams
Este livro foi composto corn o software Adobe InDesign.
©1999 Sociedade Interamericana de Imprensa. Todos os direitos reservados.
,111) r
NINA
idadc
RIS
Crimes sem Punicao
contra Jornalistas
Sociedade Interamericana de Imprensa
E-mail: info@sipiapa.org • Web: http://www.sipiapa.org
Em agradecimento a
j(PliN S N•11) JAME.'s L.
Knight Foundation
por seu sempre generoso apoio
a realizacao e a continuacao
do projeto Crimes sem
Punicao contra Jornalistas.
Homenagem
A todos os jornalistas assassinados
no exercicio de sua profissao.
6 Impunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Por -0o contra Jornatistas
RIME EllICANA 11.PlIENSA
Presidente 1998 —1999
Jorge E. Fascetto, El Dia, La Plata, Argentina
1° Vice-presidente
Tony Pederson, Houston Chronicle, Houston, Texas, Estados Unidos
2° Vice-presidente
Danilo Arbilla, Btisqueda, Monteyideu, Uruguai
Presidente — Comissao de Impunidade
Alberto lbarguen, The Miami Herald, Miami, Florida, Estados Unidos
Vice-presidente — Comissio de Impunidade
Luis Gabriel Cano, El Espectador, Santafe de Bogota, Colombia
Membros — Comissao de Impunidade
Claudio Escribano, La NaciOn, Buenos Aires, Argentina
Ricardo Troth, Miami, Florida, Estados Unidos
Paulo Cabral, Correio Braziliense, Brasilia, Brasil
Enrique Santos Calderon, El Tiempo, Santafe de Bogota, Colombia
Gonzalo Marroquin, Prensa Libre, Cidade da Guatemala, Guatemala
Jose Santiago Healy, El Impartial, Hermosillo, Sonora, Mexico
Presidente — Comissao de Liberdade de Imprensa e Informacfio
Robert Cox, The Post and Courier, Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos
Diretor Executivo
Julio Munoz, SIP, Miami, Florida, Estados Unidos
Coordenador de Liberdade de Imprensa
Carlos Molina, SIP, Miami, Florida, Estados Unidos
Ag radepimento especial ao The Miami Heraide El Nuevo Herald,
que teina-rampossiyel esta ublicacao
7
Prolog° 9
Introducho 11
Mensagem do presidente 15
Informe da Comissao 17
Novas Investigacaoes 19
Colombia
Caso Gerardo Bedoya Borrero 25
Caso Jairo Elias Marquez Gallego 40
Brasil 52
Caso Aristeu Guida da Silva 56
Caso Zaqueu de Oliviera 71
Investigacoes Pendentes 83
Irma Flaquer Azurdia 86
Jorge Carpio Nicolle 96
Hector Felix Miranda 103
Victor Manuel Oropeza 116
Carlos Lajud Catalan 122
Guillermo Cano Isaza 126
Bata lhas 130
Conferencia Hemisferica 150
Lista dos Convidados Ilustres 172
Resolucoes da Conferencia Hemisferica na Guatemala 174
Resolucao oficial adotada pela UNESCO 180
Resolucao adotada pela Organizacao dos Estados Americanos 182
Informe Especial: 0 crime contra Jose Luis Cabezas 184
Resolucoes da SIP 196
Encerramento 220
8 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas
Ernesto Sabato durante um momento de relaxamento em seu jardim em Buenos Aires.
P
Nunca Mais
aos Crimes
contra Jornalistas
Por Ernesto Sabato
S
ei que sao muitos os pronunciamentos sobre os direitos sagrados da
pessoa ao longo da historia e, em nosso tempo, estes vao dos direitos
consagrados pela Revolucao Francesa ate os estipulados nas Cartas
Universals de Direitos Humanos e nas grandes enciclicas desse seculo.
Todas as nacoes civilizadas, entre elas a nossa, estabeleceram em suas
constituicoes garantias que nunca podem ser suspensas nem mesmo nos
mais catastroficos estados de emergencia; o direito a integridade pessoal,
o direito a julgamento; o direito a nao sofrer condicOes inumanas de
prisao, negacao da justica ou execuedo sumaria, mas antes de tudo, e
principalmente, o direito a vida. Entretanto, o homem continua sendo
Ernesto Sabato
Nasceu em Rojas, provincia de Buenos Aires, Argentina, em 1911. Fez seu doutorado em fisica e cursos
de filosofia na Universidad de La Plata; trabalhou no Laboraterio Curie, e abandonou definitivamente
as ciencias em 1945 para dedicar-se a literatura. Escreveu varios livros de ensaios sabre a homem
na crise de nossos tempos e sabre o sentido da atividade literaria: Uno e o universo (1945), Homens e
engrenagens (1951), 0 escritor e seus fantasmas(1963) e Apologias y rechazos [Apologia e oposigiies]
(1979). E autor dos romances 0 tanel (1948), Sabre herais e tumbas (1961) e Abaddon, o exterminador
(1974). Em 1983 foi eleito presidente da Comissao Nacional do Desaparecimento de Pessoas, criada
par decisao do presidente da Republica Argentina, RaCil Alfonsin. Fruto das tarefas desta comissao
foi o intimidante volume Nunca Mais (1985), conhecido como "Relatorio Sabato". Em 1984 recebeu o
Prernio Cervantes, e em 1989, a Prernio Jerusalem. 0 volume Entre a tetra e o sangue (1989) reOne
sues converses coin Carlos Catania. 0 melhor de Ernesto Sabato (1989) é uma antologia cuja selecao,
prolog() a comentarios estiveram sob a responsabilidade do autor. Em 1998 publicou Antes del Fin
(memOrias).
9
10 Impunidade NUNCA MATS—Crimes sem Punicao contra Jornalistas
tragicamente o algoz do homem. E nenhum progresso tecnico ou cientifico
enfraquece essa conduta, porque a etica e a estetica do homem nao sao
construidas com os valores do cientificismo nem da tecnologia, que nao
impedem que continue destruindo o proprio planeta.
Mas atento ao que me solicita nessa ocasido a Sociedade Interamericana
de Imprensa, refiro-me ao direito a vida e, especificamente, aos crimes
cometidos contra jornalistas, cuja impunidade e quantidade — mais de
200 na Ultima decada — tao justificadamente alarmam a SIP, que as revela.
Considere-se, alem disso, que essa forma de "censura", a mais arcaica e
brutal, de coacao da liberdade de imprensa e da liberdade de expressao, nao
apenas constitui o desaparecimento fisico do mensageiro, mas tambern da
mensagem, o desaparecimento da informacao, ou seja, a eliminacdo total
do objetivo essencial do jornalismo.
Lutei durante toda a minha vida em favor dos direitos huma.nos e
da liberdade de expressao, porque nao tenho nenhuma dovida de que
sem liberdade de imprensa nao pode haver democracia. E se considero
execravel e inaceitavel que um jornalista seja assassinado pela simples
razdo de estar cumprindo seu Bever de inforrnar, tambem considero moral
e juridicamente inaceitavel que esse assassinato fique sem punicao. E por
isso que apoio fervorosamente a iniciativa da SIP dos "Crimes sem Punicao
Contra Jornalistas" que a Organizacdo dos Estados Americanos (OEA) e
a Organizacao das Nacoes Unidas para Educacdo, Ciencia e a Cultura
(UNESCO) assumiram como sua, projetando-a em escala mundial. E
comprometo-me, na modesta medida das minhas forcas, a contribuir para
tal projecdo, para poder dizer, em relacdo aos crimes contra jornalistas,
NUNCA MATS.
A impunidade
nao é uma Causa
so dos Jornalistas
Por Anthony Lewis
U
ma imprensa livre é como um candrio em uma mina. Assim
como a morte do candrio in forma aos mineiros sobre 0 perigo,
a morte da liberdade de imprensa significa que uma sociedade
esta em perigo.
Para a imprensa da America Latina, a morte nao e uma metafora. E
uma realidade. Na Ultima decada, 200 reporteres, fotografos, editores e
colunistas foram assassinados. Eles nao estavam cobrindo guerras ou algo
que pudesse ser considerado particularmente perigoso. Estavam apenas
fazendo seu trabalho regular: tentando divulgar a verdade. Por isso, foram
condenados a morte.
Anthony Lewis
E colunista do jornal The New York Times desde 1969. Em sua carreira,
recebeu dois premios Pulitzer: em 1955, por uma serie de artigos sobre a
demissao de urn funcionario da marinha norte-americana, a em 1963 por
sua cobertura do Supremo Tribunal de Justica. Trabalhou no escritorio do
New York Times em Londres. Durante 15 anos foi professor da Escola de
Direito da Universidade de Harvard. Escreveu tres livros: Gideonis Trumpet,
Retrato de uma Epoca e Nab Facam Leis: o Caso Sullivan e a Primeira
Emenda.
12 Impunidade NUNCA MAIS — Crimes sem Punicoo contra Jornalistas
Na maioria desses casos de assassinato, suspeita-se do envolvimento de
funcionarios do governo, elementos do Exercito e gangues de narcotraficos.
Isso porque as vitimas frequentemente haviam se manifestado contra
crimes e corrupcdo oficiais e sobre a perversao dos chefoes das drogas.
A suspeita da participacdo oficial nos assassinatos fica ainda mais
fortalecida corn o fato — alias, assustador —, de que os crimes tenham
ficado sem punicao. Os investigadores tiveram que enfrentar ameacas,
corrupcdo e indiferenca oficial.
Assassinato corn impunidade: e essa a realidade corn a qual se defrontam
os jornalistas latinos no exercicio de sua profissdo. Isso significa que o
governo nab tern vontade ou capacidade de desempenhar sua mais basica
funcao, que e manter a lei e a ordem.
Para urn jornalista como eu, que passou sua vida profissional temendo
tudo menos a ira dos politicos e de outros que tenha criticado, a ideia
de ser morto por proferir verdades criticas e algo que choca. Foi o que
senti quando ouvi as historias contadas pelos familiares dos jornalistas
assassinados durante a Conferencia da Sociedade Interamericana de
Imprensa realizada na Guatemala em 1997. Irma Flaquer Azurdia, uma
colunista guatemalteca, foi sequestrada e esta desaparecida ate hoje.
Uma chamada telefonica de urn militar avisou sua familia para que
ndo investigasse seu desaparecimento. Jorge Garcia Laguardia disse que
seu desaparecimento ilustrava o objetivo das autoridades guatemaltecas
na epoca: "eliminar a sociedade Varios governos autoritarios na
America Latina, acrescentou, tentaram, "sob o pretexto de combater
comunismo, eliminar toda a oposicao politica".
Urn amplo movimento em direcao a democracia na America Central e
do Sul tem substituido a maioria dos governos autoritarios nos tiltimos
anos. Mas a democracia e ainda fragil em alguns locais. As forcas que
dominaram os antigos regimes ainda impedem a solucao dos crimes
contra jornalistas.
Jorge Carpio Nicolle, urn importante editor guatemalteco, morreu em
1993, durante uma emboscada armada por 30 homens encapuzados que
pararam seu carro em uma estrada em local afastado. Sua vitiva, Marta
Arrivillado de Carpio, declarou durante a conferencia: "perguntaram se ele
era Jorge Carpio. Depois atiraram nele. Meu marido caiu em meus bravos".
A sra. Carpio, que assumiu o cargo do marido no jornal El Grcifico, disse
que o policial encarregado de investigar o crime tambem foi assassinado e
que houve eliminacao de provas. Tudo isso na epoca em que o primo de
Carpio, Romiro de Leon Carpio, era presidente da Guatemala.
Urn pouco antes da conferencia de 1997, urn editor mexicano que escrevia
sobre a colaboracao dos traficantes de drogas e oficiais corruptos, Benjamin
Na Guatemala, dois camponeses ergueram cruzes
no local onde foram assassinados Jorge Carpio
Nicolle e seus tras acompanhantes.
Introducao 13
Flores Gonzalez, morreu criva-
do de balas. Guillermo Cano,
da Colombia, que fez campa-
nha contra Pablo Escobar, foi
assassinado. Um corajoso foto-
grafo na Argentina, Jose Luiz
Cabezas, foi assassinado depois
de tirar uma foto de urn empre-
sari° cuja figura era mantida
em sigilo e que tinha conexoes
comerciais obscuras.
June Erlick, do David
Rockefeller Center for Latin
American Studies na Harvard
University, falou, tambem na
conferencia, sobre a investiga-
can realizada pela SIP para o
caso de Jorge Carpio. "Era como
se eu estivesse assistindo a urn
curso na faculdade", disse.
"Impunidade 101. Foi assim que
me senti ao ver testemunhas e
mais testemunhas na conferen-
cia de 1997 descrevendo os metodos usados para que nao houvesse
nenhuma investigacao real desses assassinatos: corrupcdo da policia,
destruicao de provas, ameacas contra os familiares das vitimas".
A Sociedade Interamericana de Imprensa esta lutando contra a impuni-
dade no assassinato de jornalistas. Este livro é parte dessa luta, e conta a
historia do que foi feito e do trabalho que ainda deve ser feito para revelar
a verdade dessas mortes e da impunidade.
Mas essa nao é uma causa restrita aos jornalistas. Esses homens e
mulheres foram assassinados para enviar uma mensagem a todos os
membros da sociedade: "Nan discordem dos poderosos; nao se oponham
ao mal". Deixar de rebater essa mensagem seria aceitar o resultado, uma
sociedade silenciosa — um preco terrivel a pagar.
Ha. muito mais em jogo do que apenas a liberdade de imprensa. Os
assassinatos flagrantes que ficam impunes contaminam uma sociedade,
destruindo a confianca na lei. Quando ficam sem punicao, esses assassina-
dos sao testemunho de uma cultura de intimidacao.
14 Impueidade NUNCA MAIS — Crimes sem Ptinicao contra Jornalistas
A Forma mais Arcaica
e Brutal de Suprimir
a Liberdade de Imprensa
Por Jorge Eduardo Fascetto
H
oje, as vesperas do seculo 21, centenas de colegas nossos continuam
sendo assassinados pelo simples fato de exercer o direito de
expressar sua opiniao ou cumprir completamente seu dever de
informar.
Na Ultima decada, mais de 200 jornalistas foram assassinados no
exercicio de sua profissao. Foram vitimados porque sua mensagem tornou-
se incomoda para Os inescrupulosos que executaram ou ordenaram seus
assassinatos. Desse modo, em uma epoca de rapido desenvolvimento
tecnologico, cientitico e institutional, subsiste a forma mais arcaica e
brutal de suprimir a liberdade de imprensa e de expressao. Infelizmente, a
Jorge Eduardo Fascetto
E presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa 1998 — 1999. Editor
do jornal Diario Popular, Buenos Aires, Argentina, e vice-presidente do
conselho de diretores do jornal El Dia, La Plata. Foi vice-presidente da
Associacao de Entidades Jornalisticas Argentinas (ADEPA), vice-presidente
do Comite Executivo da Associaceo de Jornais do Interior da RepOblica
Argentina e presidente do conselho de diretores da agencia de noticias
Noticias Argentinas. Formou-se em engenharia civil pela Universidade
Nacional de La Plata.
15
16 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas
experiencia demonstra que a eliminacao de jornalistas é uma das taticas
de encobrimento da verdade mais dificeis de erradicar.
A morte de urn jornalista representa nao apenas o desaparecimento
fisico do mensageiro, mas tambem a supressao da mensagem. Atraves
disco, impede-se o exercicio do direito de ser informado por parte daqueles
que poderiam ter se beneficiado corn a leitura do que esse colega tentava
comunicar. De certo modo, e o proprio futuro do jornalismo que se coloca
em risco tambem coin esses crimes, assim como o de leitores/ouvintes
frustrados, cujas vidas poderiam ter sido modificadas pelo conhecimento
que lhes foi negado.
Atraves do projeto Crimes sem Punicao contra Jornalistas, a SIP continua
chamando a atencao da opinido publica internacional, dos governos e das
entidades multilaterais para o grave problema que representa a pratica do
assassinato como forma de calar a voz dos homens e mulheres da imprensa,
fato que torna-se ainda mais grave por causa da reiterada impunidade dos
autores materiais e intelectuais desses crimes.
0 objetivo da campanha empreendida e, obviamente, conseguir que
os culpados materiais e intelectuais sejam punidos. Mas esta pretende
tambem obter o esclarecimento e a condenacao justa dos responsaveis, de
modo a dissuadir os potenciais assassinos e colocar urn ponto final nesse
terrivel movimento que pretende intimidar a imprensa e obstruir o direito
do publico a informacao.
(Trecho do discurso apresentado em Bogota, Colombia, em uma reuniao
da UNESCO, durante a comemoracao do Dia Mundial de Liberdade de
Imprensa, em 3 de maio de 1999. Nessa cerimonia, a UNESCO levou o
projeto Crimes sern Punka() da SIP a escala mundial, a outras entidades
dedicadas tambem a defesa e promocao da liherdade de imprensa.)
A Batalha Contra a
Impunidade Continua
Por Alberto lbargiien
C
om o passar dos anos, o projeto Crimes sem Punicao contra
Jornalistas foi-se convertendo em urn formidavel instrumento de
combate a impunidade.
Este livro e o fiel reflexo dessa luta, descrita nas investigacoes dos
assassinatos e no relato pormenorizado de como a SIP foi contagiando
outras organizacoes para se unirem a essa batalha contra a impunidade.
As frentes abertas silo muitas, e contundentes. A Comissao Interamericana
dos Direitos Humans pronunciou-se em varios casos denunciados pela
SIP, ao mesmo tempo que a UNESCO propagou esse projeto a diferentes
regiOes do mundo, atraves de outras instituicOes tambem promotoras da
Alberto lbargiien
E diretor do The Miami Herald e presidente da The Miami HeraidPublishing
Co. Foi diretor do El Nuevo Herald de 1995 a 1998. Atualmente, é presidente
da Comiss5o de Impunidade da SIP. Ocupou o cargo de vice-presidente
executivo de operacties do Newsday e do New York Newsday e uniu-se
a Times Mirror Company em 1984 como vice-presidente de finangas e
administra0o do The Hartford Courant. lbargiien exerceu advocacia em
Hartford, Connecticut. Foi diretor do Corpo da Paz dos Estados Unidos na
Colombia. E presidente da Orquestra Filarmitinica da Florida.
17
impundade AMA MATS — Crimes sem Pomona contra JorMistas
liberdade de expressao.
Toda essa gestao inestimavel da SIP nao teria sido possivel sem o
generoso apoio que a Fundacao John S. e James L. Knight tern prestado
durante tantos anos.
certo que existe agora uma maior consciencia sobre as conseqiiencias
nefastas que a impunidade acarreta para as redacOes, a liberdade de
imprensa e a democracia. Mas tambern é verdade que nao podernos
abandonar esse compromisso. Devemos continuar combatendo, porque,
tal como definido pela Premio Nobel da Paz, Rigoberta Menchti, "a
impunidade e uma responsabilidade que todos temos gue enfrentar".
Assumindo mais uma vez nossa obrigacao, e como uma inferencja
natural do projeto e de sua Conferencia Hemisferica realizada em 1997,
continuaremos nossa luta por meio de urn esforco de investigacao mais
profundo e sistematico atrave's das Unidades de Resposta Rapida.
Estamos convencidos de que a aca.o duradoura contra a impunidade
e a busca constante da justica sao Os unicos agentes persuasivos que
permitirdo dar fim a violencia contra os jornalistas.
ColOmbia:
Introducao
A
Colombia é o pais ma is perigoso para os jornalistas no hemisferio ocidental. E
tambem urn pais no qual se exerce constantemente urn jornalismo inovador.
Na verdade, nos illtimos tres anos, a imprensa colombiana tornou-se mais
ousada, publicando histOrias que expoem a corrupcao. Esse tipo de jornalismo é mais
comumente encontrado nos meios de comunicacao coin sede na capital, em Bogota.
Mas os jornalistas do interior comecaram mais recentemente a praticar urn jorna-
lismo contundente.
Os assassinatos, em 1997, de Gerardo Bedoya e Jairo Elias Marquez, refletem
as conseqUencias por vexes resultantes de urn jornalismo desse tipo. Trabalhando
rias cidades de Cali e Armenia, respectivamente, os dois desafiaram funcionarios
corruptos e, no caso de Bedoya, os traficantes de drogas. Bedoya e Marquez eram
bastante diferentes. Bedoya era urn escritor erudito, brilhante e refinado. Marquez
Ana Arana
Jornalista investigativa, Arana é membro do Center for War Peace and
the News Media na Universidade de Nova York. Tambem este trabalhando
em um projeto no Panos Institute em Washington, D.C., e tern trabalhado
como jornalista independente para a SIP. Em 1992, juntou-se ao San Jose
Mercury News, como jornalista contratada. Foi freelance do New York Daily
News e, de 1988 a 1991, trabalhou como correspondente estrangeira para
os jornais The Miami Herald, U.S. News and World Report, The Baltimore
Sane Sun Sentinel,fazendo reportagens sobre a America Central, Colombia
e Venezuela. No periodo 1994-1995, foi coordenadora de programas para
as Americas para o Comite de Protecao de Jornalistas.
19
20 imponidade NUNCA MA/S — Crimes sem Punicao contra Jornalistas
era urn jornalista irreverente, malfalado, cuja prosa tinha erros gramaticais e
revelava favoritismo politico. Os dois jornalistas tinham urn grande publico leitor
e tiveram influCncia em suas cidades, onde desafiaram as estruturas corruptas do
poder que ate entao eram consideradas intocaveis. E triste e grotesco que esses
jornalistas tcnham morrido durante sua missao. Mas deixar os crimes sem solucao
seria ainda pior.
Revelacifies do Processo 8000
Entre 1995 e 1997, reporteres e colunistas de Bogota realizaram uma grande
investigacao sobre acusacoes de que o cartel de Cali tinha penetrado nos mais
altos niveis dos circulos politicos, comerciais e sociais da Colombia. Conhecida
como processo 8000, a investigacao forncceu tantas revelaybes decisivas que os
principais reporteres e editores de meios influentes tomaram precaucoes, tais
como o use de guarda-costas e de carros blindados. As revelacOes da midia e das
investigacoes judiciais encurtaram as carreiras de varios funcionarios corruptor e
cidadaos comuns.
Entre os que se atreviam a apontar os nomes dos acusados, como se fazia em
Bogota, estavam Bedoya e Marquez. Bcdoya era escritor de editoriais e colunista do
jornal El Pais de Cali, uma cidade no oeste da ColOmbia. Marquez publicava uma
pequena revista em Armenia, na zona cafeeira. Mas sua situacao era diferente da de
seus colegas da capital porque "viviam nas entranhas da besta", coma a amiga de
Bedoya, Xi mena Palau, costumava dizer.
Bedoya foi assassinado em 20 de mat-co de 1997, aparentemente a mando do
cartel de narcnticos de Cali. No caso de Marquez, sua morte foi supostamente
ordenada pelo senador Carlos Alberto Oviedo, urn congressista que os investigadores
afirmavam ser corrupto e ligado a narcotraficantes poderosos.
Oviedo esta atualmente preso na Prisao Nacional Modelo, em Bogota, sob
acusacdo de ter sido a mandante de varios assassinatos. Na Ultima semana de abril
de 1999, o Supremo Tribunal de lustica confirmou sua sentenca de prisao. Apcsar
de ser o principal suspeito do assassinato de Marquez, existem poucas provas e
ele pode nao ser formalmente acusado de assassinato, segundo informaybes de
fontes judiciais. Oviedo esta sendo tambern acusado do assassinato de Ernesto Acero
Cadena, ocorrido em 1995. Jorge Ivan Obando, acusado de ser o autor material
desse assassinato, esta preso na Prisao Nacional Modelo desde que foi capturado,
em novembro de 1998.
O assassinato de Bedoya envolveu provavelmente nao apenas o cartel de drogas
de Cali mas tambem seus comparsas politicos de Cali e Bogota. 0 processo foi
transferido para a Unidade de Direitos Humanos da Procuradoria, em Bogota, mas
nao se tern noticias de progressos na investigacao.
0 cartel de Cali e seus cumplices
Todo o sistema investigativo sob o qual desenvolveram-se esses dois casos esta
"oscilando" porque a maioria dos crimes contra jornalistas foi entregue a juizes
regionais ("sem rosto") e atualmente o Congresso legisla para acabar corn o sistema
• Bogota
Novas Investigacdes na ColOmbia a no Brasil 21
0 A
JAIRO ELIAS
MARQUEZ GALLEGO
ASSASSINATO
ARMENIA, COLOMBIA
,-
.,,)
i
7
•
COLOMBIA
GERARDO BEDOYA
BORRERO
ASSASSINATO
Capital
Area
Idioma Oficial
Populacao
Densidade de Populacao (hab./Km2)
Populacao Urbana
Expectativa de Vida
Analfabetismo
Presidente
Bogota
1.138.914 Km2
Espanhol
35.886.280
29,3
73%
69 anos
18,3%
Andres Pastrana
22 Impunidade NUNCA MAIS — Crimes sem Puniceo contra Jornalistas
sem que seja ainda claro o futuro das provas obtidas ate agora.
Essas duas mortes violentas enfraqueceram a rede de seguranca dos jornalistas
colombianos, especialmente dos que trabalham nas provincias onde os cartels de
drogas e as autoridades corruptas tern mais poder. 0 assassinato de Bedoya afetou
circulos mais sensiveis. Bedoya, urn editor respeitado no jornal mais importante
de Cali, tinha rclacoes estreitas corn o Partido Conservador, e especialmente corn
Andres Pastrana, atual presidente da ColOmbia.
Rodrigo Lloreda, diretor do El Pais e amigo pessoal de Bedoya na epoca de seu
assassinato, foi Ministro da Defesa da Colombia nos primeiros meses do govern() de
Pastrana. A investigacao do assassinato de Bedoya sugerc encobrimento politico. Mas
foi vergonhosamente desviada por rumores de que Bedoya tenha sido assassinado
por ser homossexual enrustido.
Se fosse investigada da forma adequada, a morte de Bedoya poderia trazer proble-
mas serios para ex-membros do governo do presidente Ernesto Samper. Existem
suspeitas de que o assassinato de Bedoya tenha sido planejado e executado por
pistoleiros a scrvico do cartel de Cali, que ordenaram o assassinato enquanto estavam
negociando sua rendicao as autoridades colombianas ou enquanto cumpriam pena
de prisdo indulgente.
Mantendo as aparencias
Em 1997, ap6s o lancamento da primeira edicao de Crimes sem Punicao contra
Jornalistas, pela Sociedade Interamericana de Imprensa, o govern() de Ernesto Samper
criou urn departamento especial para monitorar os ataques a imprensa. Sediado
em urn ancxo do Palacio Presidencial, o Gabinete para Direitos Humanos nao
cumpriu seu papel no que concerne a investigacoes profundas sobre os assassinatos
de jornalistas. Seus representantes reuniram-se corn as familias das vitimas, mas
nunca apresentaram resultados importantes.
0 departamento dedicava-se mais as funcoes de relacoes pUblicas. "Estamos
em urn departamento que promove a actio", explicou Luis Manuel Lasso, o
advogado encarregado. Quando interrogado sobre os resultados obtidos quanto as
investigacOes dos assassinatos de jornalistas, Lasso defendeu dramaticamente "a
dignidade" de seu gabinete. 0 gabinete nao possuia informac-Oes atualizadas sobre
os casos investigados pela SIP em 1996 — os de Guillermo Cano, diretor do El
Espectador, assassinado em 1986, ou o de Carlos Lajud Catalan, urn comunicador
de radio de Barranquilla, assassinado em 1993. Segundo Lasso, a culpa nao era do
gabinete, mas da falta de interesse das associacOes de jornalismo colombianas que
se recusavam a trabalhar corn ele.
Lasso e seus superiores pareciam ser mais competentes em frustrar os esforcos
internacionais de levar os casos de Cano e Lajud perante a Comissao Interamericana
de Direitos Humanos. Em seus ultimos dois anon no poder, a administracao Samper
usou o gabinete para opor-se aos esforcos da SIP a esse respcito.
Impunidade
0 Poder Judiciario do govern() fez alguns progressos nas investigacOes sobre
Novas Investigaccles na Colombia e no Brasil 23
jornalistas assassinados. 0 gabinete do procurador-geral fez serios esforcos para
investigar os casos, mas suas acoes foram muito amplas em termos de enfoque e
limitadas em termos de resultados.
Uma Unidade de Direitos Humanos, criada cm 1995, esta encarregada de investigar
os assassinatos de jornalistas desde que se determine que foram resultado de seu
trabalho. A unidade tambem investiga todas as violacoes aos direitos humanos, que
sao centenas devido ao clima de guerra civil reinante na ColOmbia.
Ao hives de se concentrar nos assassinatos mais recentes de jornalistas, a unidade
tenta investigar mais de cem mortes violentas que ocorreram na decada de 80. Assim,
faz-se pouco progresso nos novos casos. Na verdadc, antes de a SIP reunir-se corn
o procurador-geral encarregado da unidade, os membros de sua equipe acreditavam
que o caso Bedoya estava tendo progressos.
A unidade reabriu o caso de Carlos Lajud, que a SIP investigou em 1996. Mas a
nova investigacao ignorou processos antigos, desconsidcrando testemunhos e provas
anteriores. 0 caso Lajud foi levado pela SIP ao procurador-geral Alfonso Valdivieso,
que nao ocupa mais esse cargo.
No aspect() positivo, cm 15 de dezembro de 1998, sete anos depois do assassinato
do correspondente do El Tiernpo em Arauca, Henry Rojas Monje, houve a primeira
condenacao de urn dos autores intelectuais do crime: o coroncl aposentado do
exercito, Diogenes Castellanos, que foi preso e intimado a depor pela Procuradoria-
geral do pais. Dois soldados sob suas ordens ja haviam sido condenados como
autores materiais do assassinato de Rojas Monje.
Em 27 de dezembro do mesmo ano, foram capturados em Medellin os autores
materiais da morte dos comunicadores e investigadores Elsa Alvarado e Mario
Calderon, assassinados em sua residencia de Bogota em maio de 1997. Os irmaos
Juan Carlos e Fernando Gonzalez Jaramillo foram presos em Medellin pelo corpo
tecnico da Procuradoria e investigados por esse crime. A autoria intelectual das
mortes, atribuida a grupos paramilitares, continua sem punicao.
Por que a impunidade continua?
A impunidade é uma realidade em urn pais em que ocorrem 36.000 mortes
violentas por ano. Um sistema judicial inadequado nao acompanhou o crescimento
das outras instituicoes do pais.
Em 1991, a Colombia deveria introduzir urn sistema mais persecutorio, instituindo
julgamentos publicos, mas criou apenas o gabinete do procurador-geral c o sistema
da "justica sem rosto", para proteger corn o anonimato os juizes e testcmunhas nos
casos de narcotrafico e de terrorismo.
A major parte dessas mudancas foi financiada pelos milhoes de &Mares fornecidos
pela Comunidade Europeia c pelos Estados Unidos. Grande parte do dinheiro
foi utilizada em treinamento c na construcao da sede do procurador-geral, urn
complexo de marmore multimilionario proximo a embaixada norte-americana, nos
arredores de Bogota. Construiu-se tambem um bunker completo, corn detectores de
metal para proteger os juizes c os investigadores.
Mas essa inovacao nao bcneficiou os dedicados funcionarios judiciais, que
trabalham em predios caindo aos pedacos nas cidades do interior da Colombia.
24 lmpunidade NUNCA MATS — Crimes sem Pimicao contra Jornalistas
"Aqui nos trabalhamos corn muito medo", disse urn funcionario na cidade de
Armenia, ao explicar o caso Marquez, que pediu para ficar no anonimato, visto estar
violando uma lei mordaca emitida pelo procurador-geral do pais. Urn investigador
designado para esse gabinete do procurador-geral regional foi morto ha alguns
mews.
O sistema judiciario colombiano nao tern metodos de verificacao c controle
adcquados, especialmente em seus escritorios regionais, onde a qualidade do
trabalho corresponde diretamente a qualidade das pessoas que ali trabalham. No
caso Bedoya, por exemplo, apos dois anos de investigacOes, ainda se esta na fase
prcliminar. Provas valiosas estao desaparecendo rapidamente, e as testemunhas
perdem a confianca nos investigadores. 0 caso foi transferido para Bogota, mas
nao teve progressos.
0 sistema da "justica sem rosto" é dirigido pelos escritorios regionais. Dentro
(Jesse sistema, as pessoas podem tcstemunhar e ficar no anonimato. "E como o
programa de protecao a testemunhas dos Estados Unidos", disse urn funcionario
do govern() norte-americano que conhece o programa. Nos EUA, o acusado sabe
quem esta fazendo as acusacoes. No sistema de "justica sem rosto", os acusados
nao o sabem.
Trabalho de detetive de baixa qualidade
Nada determina mais o fracasso de uma investigacao do que um trabalho de
detetive de baixa qualidade. As unidades policiais da Colombia receberam amplo
treinamento investigativo ao longo dos anos fornecido pelo FBI (Federal Bureau of
Investigation) norte-americano, pela Scotland Yard inglesa, e por outras unidades
policiais internacionais. Entretanto, a Colombia nao tem nenhum corpo policial
encarregado de investigacbes de assassinato. Os agentes da SIJIN e outras agencias
intervem no comeco de urn caso, mas depois que escrevem urn relatorio os casos
srao assumidos por investigadores do gabinete do procurador-geral. Como disse urn
policial envolvido no caso Bedoya, "perde-se o compromisso que se tern quando se
esta presente na cena do crime".
No caso Bedoya, por exemplo, a SIJIN, ou a policia local, chegou a cena do
crime prirneiro, mas a investigacao foi transferida para o Centro Tecnico de
Investigacao (CTI) especial do procurador-geral, onde urn grupo diferente de
investigadores seguiu as pistas. Devido a proeminencia de Bedoya, seu assassinato foi
tambem inicialmcnte investigado pela inteligencia do exercito e pelo Departamento
Administrativo de Seguranca (DAS), um tipo de FBI colombiano. No final, o CTI
ficou coin o controle da investigacao. As pistas que eram importantes no inicio
foram ignoradas ou perdidas. Urn exemplo é nao se saber ao certo se Bedoya foi
assassinado por um assassino professional e se havia dois assassinos. 0 gabinete
do procurador-geral ignorou urn retrato falado feito pelo primeiro policial que
chegou ao local do crime.
Novas Investigacties na Colombia e no Brasil 25
Caso: Gerardo Bedoya Borrero
G
erardo Bedoya aproximou-se da mesa de Isabella Prieto, sua colega c prote-
gida no El Pais. Levava sua coluna para o dia scguinte "Pense em um titulo",
disse corn sua voz grave.
"Estava satisfeito consigo mesmo", lembra-se Prieto. A coluna apoiava a extradicao
dos narcotraficantes, urn terra dclicado em Cali, onde o Cartel de Cali havia se
enraizado ha duas decadas.
Bedoya, um escritor refinado c urn pensador atrevido pouco conhecido fora de
Cali, era o entusiasmado dirctor das paginas editoriais do jornal El Pais. "Ha
meses escrevia agressivamente contra o narcotrafico", acrescentou Prieto. "Nos ja o
haviamos advertido que suavizassc o tom, mas ele nao mudou." Corn isso, Bedoya
violava uma regra nao escrita entre os jornalistas de Cali: nao escrever nada negativo
sobre o cartel das drogas.
Bedoya odiava os cinco chefiries do cartel. Em suas colunas, publicadas duas vezes
por semana, criticava duramente os chefes da droga, que se apresentavam como
cidadaos civis honrados. Criticava tambem os cidadaos de Cali que se dobravam
ante os desejos dos traficantes. Sua linguagem, ironica e chcia de desprezo, cortava
como urn fio de navalha. Mestre no use do idioma, Bedoya tornava-se mais atrevido
corn o passar do tempo.
0 artigo que the custou a vida foi publicado em 27 de fevereiro de 1997. Tres
semanas depois — em 21 de marco — um pistoleiro baleou-o em uma rua escura. Foi
a vinganca do Cartel de Cali. F. mais, parecia que a intenc5o do Cartel era assassinar
nao apenas o homem, mas tambem sua reputacao. A investigacao de homicidio esta
repleta de meias verdades e demoras provocadas por rumores. Os rumores fabricados
por seus assassinos que tentam desprcstigia-lo relacionando seu assassinato nao
a seu officio, mas as suas tendencias homossexuais. Urn rumor infundado, visto
que Bedoya tinha fama do que na Colombia e chamado de "pipi-loco", como
sao conhecidos os mulherengos. Entrctanto, o que é grave nesse caso é que a
Procuradoria aceitou a tese da homossexualismo por tanto tempo que outras provas
foram perdidas.
As insinuacOes afetaram diretamente a investigacao do governo, atrasando os
procedimentos c colocando o caso cm uma impunidade total dois anos depois
do crime.
Pouca tolerancia coin as drogas
A decisao de matar Bedoya foi provavelmente tomada em 1995. Nesse ano,
Bedoya comecou a cscrever seus artigos mais asperos contra o cartel. Os colombia-
26 Impunidade NUNCA MAIS —Crimes sem Punicdo contra Jornalistas
nos viviam seu pior pcsadelo: a corrupcao da
droga havia penetrado nas esferas mais altas da
politica, dos negOcios e da sociedade. Bcdoya
mostrava-se impaciente corn seus compatriotas
diante da indiferenca frente ao cartel. "Permitimos
que prosperem", queixava-se corn Os amigos.
Tinha pouca tolerancia corn as drogas. Chegou
a proibir sua cozinheira de fazer compras na
cadeia de farmacias "La Rebaja", cujos donos eram
Miguel e Gilberto Rodriguez Orejuela, chefoes do
cartel.
A Colombia foi abalada em 1995 corn a noticia
de que o presidente Ernesto Samper havia recebido
cinco milhaes de Mares em contribuicOes dos
narcotraficantes de Cali para sua campanha politi-
ca. As acusacoes foram reveladas inicialmente por
Andres Pastrana, que as revelou em sua primeira
apresentacao tclevisionada, em 24 de julho de
1994, depois de ser derrotado por Samper nas
eleicoes presidcnciais. Foi apresentada uma fita
que continha gravacoes de conversas nas quail
os irmaos Rodriguez Orejuela falavam de suas
contribuicnes monetarias para a campanha presidencial de Samper.
Isso foi o comeco de tudo. Entre 1995 e 1997, o procurador Alfonso Valdivieso
iniciou urn esforco titanico — conhecido como o Processo 8000 — para terminar
corn a corrupcao nos circulos politicos. Dezenas de politicos e empresarios acusados
de receher suborn() dos narcotraficantes foram julgados e presos. 0 processo quase
paralisou o governo, mas o presidente Samper recorreu a astdcia politica para manter-
se no poder, mesmo corn o profundo desgosto e reptidio do publico. 0 Congresso
colombiano absolveu-o das acusacCies de conduta impropria. Muitos membros do
Congresso temiam que tambem fossem investigados. povo colombiano entre os que
apoiavam Samper e seu Partido Liberal c os que exigiam uma responsabilidade total
e a remincia de Samper. 0 presidente Samper conseguiu terminar seu mandato e
passar o poder a seu sucessor, Andre's Pastrana, em agosto de 1998.
Samper conseguiu ficar no poder explorando a insatisfacao do povo colombiano
corn a politica norte-americana a respeito dos narcoticos. Os colombianos estao
cansados da pressao exercida pelos Estados Unidos em assuntos que, para eles,
sao de ordem interna. Muitos declararam que os Estados Unidos concentram
injustamente o major peso de sua politica anti-drogas nos paises produtores e pouco
nos consumidorcs norte-americanos.
Bedoya disse a seus amigos que o governo colombiano nunca havia investigado
o proprio governo, a nab ser pela pressao norte-americana e a tenacidade do
procurador Valdivieso, que levou a serio seu cargo. (Valdivieso é primo de Luis
Carlos Galan, o candidato presidencial do Partido Liberal, assassinado pelos
narcotraficantes cm 1989.)
Todos esses aspectos estavam presentes no comentario que custou a vida de
TreChos da=coluna "Textosn''
publicada por Gerardo Bedoya
no El Pale de Cali, Coloinbia
"0 que niais me indigna
na presenga insUltuosa dos
traficantes deArogas pm
Cali a indiferenga, a pusi-
lanimidade e a tolerancia
COm'asquais nos calenos,
suportamos esses persona-
gens durante vinte arms.
Plao fomos..capazes de nos
livrar de suas garras por
iniciativa propria; se nao
fosse o procurador e os
gringos; Continuariamos.
aceitando passivamente a
dominagao iniqua do nar-,.
cotrafico sobre nossa cida-
de. 4 de lamer° de 1996
Ficha Pessoal
Novas Investigacties na Colombia a no Brasil 27
(21 de Main de„1941 — 21 d.e Marco 1997)
"A verdadeira Origentdo poder na Colombieo Clientelis-
mo politico e o narcotifilico:;:esies dois poderosos fato-.
res de-poder. prendeut em suss redes.o Estado,:ou ieja,
quase todos os ramos Mr poder,i,publico, e impedem que
a domine sobre os interesses da:clientela
politica:"
Gerardo Bedoya, em seas comentariosda pagina de opiniao dO
El Pais, de Cali, departamento do Vale.
LoCallidelOSCimonto:
"Santiago deCali, departemento do
Vale do C6tiCa.
Idade'ao kleceri
55 anon'
Estado civil:,
Solteiro
Estudos:
'Graduado-em direito e economia pela
UniiierSidade Santiago de Cali.
PrObss-no/catbw..
.COOrdenador das pagipas:de opinjaO
de jocnal,'ElPaise`diretor do Centro
de Estudos'Coloinbianos; pertencem
to ao'Particlo NacionaLConservador.
Antecedentesjornaliiticos
eprofissionais:
Apes uma Idpga carreira potitica
ao lidodo presidente:conservador.
-Alvaro G,omez'llurtado, durante a
.qual,trabalhou'corriO secretario de'
Fazenda'da cidade de Cali, secreta-'
do:departamento do Valegover-.
nador encarregadcrdo mesmo, vice-
ministroda Fazenda., membro.
.Camara de Deputados (eleito duas
vezes) e ministro plenipotenciarici'
perante-a Uniao Europela em
Bnpielas, Vinculou-se aR,jornalismo
coma cd-cliretor do jornal,EINuevp
Siglb, de Bogota ao quo! foi charba-
ciwpar'a assumir a boordenagao daS
peginas de opiniao do El Pais, cargo
.
que ocupou durante cmco anos.
Atividade social:
Possuia cadeird cativa na praga de
touros..da cidade, era membro dO
coMite orgamiaclOr da'Feira,Taurifia
de. Cali ;e dos principais.Clubes'
sciciais da cidade.
Passatempos:
Falava e-lia pe'rfeitamente ingles, gos-
tava de viejar 6 conhacer novos luga-
.
res e gostava esPec(almente-de :visi
taros.Estados Unidos para cornprar
livros.
28 Impunidade NUNCA MATS—Crimes sem Punicao contra Jorna/istas
Bedoya, publicado em fevereiro de 1997.
Bedoya era urn dos poucos jornalistas e colunistas que cscreviam contra o
narcotrafico e Samper. A maioria desses jornalistas, entretanto, era radicado em
Bogota e, por isso, estava mcnos exposta ao perigo do cartel de Cali. Na verdade,
a imprensa national coin scde em Bogota publicou grande parte da investigacao
do Processo 8000, visto que o gabinete do procurador vazava grande parte
das descobertas da investigacao para evitar que o governo de Samper colocasse
obstaculos ao processo.
0 fato de Bedoya morar e escrever em Cali tornava sua situacdo quase suicida. A
maioria dos chefes do cartel de Cali estava presa em 1996, mas isso nao significava
que nao tinham mais controle sobre o trafico de drogas. Uma leitura das colunas e
dos editoriais de Bedoya deixava a impressao de que ele sabia disso.
Segundo antigos funcionarios norte-americanos, a organizacao de Cali planejou
reduzir o volume do cartel alguns anos antes de seus lideres se entregarem. "0 cartel
nunca foi dominado; simplesmente foram desmanteladas as operacOes maiores, que
foram divididas em celulas", declarou urn especialista no assunto.
Para Cali, a queda do cartel representou a perda de muitos investimentos
procedentes do trafico de drogas, que eram dirigidos as industrias de construcao e
servicos. A taxa de desemprego da cidade subiu para 18%.
Comecou tambem a se dissipar o poder civico
"Nao,scimos um pais seri°. que us narcotraficantes exerciam sobre a cidade. A
F'errnitimokque urn detail policia deixou de parar o transito nas ruas princi
do narcotrefico,.cuja fuga pais para dar passagem as caravanas motorizadas
era previsiyel deiridirao dos traficantes. Nab se viu mais o bloqueio das
imenso,podercurrOptor ruas por °ride Miguel Rodriguez Orejuela passava
dessa atividade, fugisse para visitar sua amante.
ern plenaluz dO,dia.para Bedoya exigiu medidas que assegurassem que os
vergonha dessi riaca o narcotraficantes nao voltariam a dominar sua cidac•
±perante imando. de. Apoiou propostas destinadas a criar leis rigidas
Terms demonStrado e con- para controlar a lavagem de dinheiro. Apoiava,
firinadwdrante do-niundo tambem, urn projeto controvertido para restaurar
u`m'fato quaberg repercus- retroativamente a extradicao de cidadaos colom-
OeSillegayerS::wEstado bianos acusados de crimes em outros paises, prin-
colonibiano incapa4 'de cipalmente nos Estados Unidos. Em seus editoriais,
manter enfOras priSoes Bcdoya favorecia claramente a posicao norte-ame-
pess9asacusadakde gra- ricana.
it defitirs e corn Um Em 18 de janeiro de 1996, escreveu: "0 nar-
grinde poder conacionalismo usou o patriotismo latente dos
o case de-Pablo,,,Eicobar colombianos para abolir a extradicao. Desfizeram-
o demonstrou: 0 cast, de se dela explodindo bombas, pagando subornos e
Jose,Santacruz o confirma. usando uma retorica populists. Nossa soberania!
12 deIaneiro
*
de 1996 As palavras helas que podem ter urn sentido estd-
Otiose San1acruz, lider do.
Cartel detati,'iscapar dit pri- pido. Nunca deviamos ter perdido essa chave. A
00) extradicao era uma forca persuasiva. Era a Ultima
opcao para um pais fraco e economicamente
pobre, que deve se defender dos criminosos mais
Supostos autores ou impItcadosi
Os autdi'dainvestiojaca'apiissuem
•apenas os'.re-tratog faladosIclp assas-
sine naofoi possivel determinar
sua'identificacao nem capiMa-lo. Os
''Situacio da ColOmbiana epoca do assassinato:
Prosidente:
-Ernesto Camper PILdr10
Partido no governO:
Partido Liberal NaciOnal.
Situagito politica do pais ou regipo:
PouClis dias antes do assassinato
de Bedbya,liavia sido reaberto-p
prOceSso judicial da procuradoria-
geral da'Nacao contra o'presidente
Ernesto SarnOerRizabo e:pssetores „
mats radiCais da riposicao'haviam se
manifestado em favor destituic5o
do:Mesidente'devidc:oas denUnCias
sobre a cloaca° de verbas ilegais
para sua campanha presidencial.
Ficha do Caso
Data do assassinato:
21de rnerOCCde1997
Forina e local diiatsassinato:'
Depoiscle,ficar meia„borLpsperando
por sua riariioroda,"ffante.,40:: eritFadar,
'de Mili.:MinjUrrto,reSidenCiale;:mO
momento em que'elpivoltiVa;On,
hOmeniarmado .apraiiirnou-se e, atreE
xes: dajarielolla,:pbrta:de, sap. carro,,
diSParou.;;Ihe,ijOatro tiTOSCle revolver
9mnitla cabeca'; para
-andando ate urn veicul.o,quo o espe-
, rava a afguns metros.
Possiveis motivos:
As colunas.de Bedoya contra as
,Organiloges driminois'e sua mfiltra ..
ctasse,politickde seu depar-
tanentd(ci Va!e-do CauCal ea do
4-Cartel de tali no governosde Ernesto
SarnOer.
principais'suspeitos sag membros
daS organiiatieS:de'n4reotiafican-.
teskdo:Vale'do Cauca.
Consequencias,violentas:
Desconhecidae.
Irregularidades'dO iiiOcesso:
-ApeSar das varias PiSta'S sobre a rela-,
gio,entret assassinatO:dTBerardo
BOOMiae,:seUs.Hesbritos ,, procC,_
radoriWregional de::',CaWdeditoU-se
durante doffs anos a provar um supos-
to crime passional para rt50
_pode.enctintrar nem in'ilicios:A inves
tigago:Contegott:e ser
coordenadOps:de
investigaiddogobinete,do-OrocUra-
dor,Oeral dalqa0o.
29
30 Impunidade NUNCA MAIS - Crimes sum Punicao contra Jornalistas
poderosos e ricos. Nunca pensei que a extradicao
violasse nossa soberania."
Ao mesmo tempo, o senador norte-americano
Jesse Helms, presidente da Comissao de RelacOes
Exteriores do Senado, pedia ao presidente Clinton
que negasse a certificacao da Colombia. John
Deutsch, diretor da Agencia Central de Inteligencia,
declarou que a crise colombiana e a cumplicidade
de Samper na narcocorrupcdo criavam urn seri°
desafio para a politica norte-arnericana. aca silen-
ciosa por parte dos narcotraficantes", afirmou
I.uis Canon, atual chefe de redacao do jornal El
Espectaclor, de Bogota. Bedoya obviamente calcu-
lou mal esse perigo.
Mesmo que tenham sido leves as penas recebidas
pelos chefOes de Cali — a pena maxima foi de nove
anos — eles temiam a extradicao.
Grafites a favor dos narcotraficantes apareceram
nas paredes da cidade. Os traficantes de drogas
estavam dispostos a cumprir suas sentencas na
Colombia e a devolver uma parte de sua con-
sideravel fortuna, calculada pela revista Forbes
entre as cem maiores do mundo. Mas jamais
aceitariam o que Bedoya defendia: a I:en-6116a
total das propriedades obtidas corn o dinheiro do
narcotrafico e a extradicao retroativa.
0 apoio de Bedoya a posicao norte-americana
— extraditar os traficantes de drogas para os Estados Unidos devido a inseguranca
das prisOes colombianas — determinou sua sentenca de morte. Colunas como as que
escreveu atlas a fuga de Jose Santacruz Londono, outro chefe de Cali, de uma prisao
de. pena maxima, colocaram mais lenha na fogueira.
"Na Colombia, as prisoes do seguranca maxima sao, na verdade, nrisOes de maxima
inseguranca", escreveu.
Sua predica contra Samper
E possivel que se tenha comecado a planejar a morte de Bedoya em dezembro
de 1995, mais ou menos quando os chefes do cartel de Cali comecaram a planejar
sua rendicao. A policia havia reforcado a protecao dada aos principais jornalistas de
Bogota, mas esquecera-se dos jornalistas do interior. Bedoya transitava por Cali em
urn simples Volkswagen Golf. Seu motorists, Leopoldo, era urn homem de 50 anos
que trahalhava corn ale ha muitos anos.
Bedoya dizia que Cali havia se transforrnado ern uma cidade civica e que respeitava
a lei. "Dizia constantemente — observou seu primo, Hugo Borrero — que as pessoas
devern ser lembradas do que é correto."
Em 6 de janeiro de 1996, Bedoya escreveu: "A cidade poderia ser melhor do que é.
Poderia ser o que deveria ser. Poderia recobrar sua tranqUilidade... poderia reafirmar
nosso sentido de comunidade. Poderia exilar os narcotraficantes. Tudo isso é facil,
."krendicao e subsequente
prisao de Helmer
Herrera serao:um triunfo
'das autoridades;desderque
iPrOCuradoria e os jnizes
possam ComproVar.os deli=
tos e que'o.supoito narco--
trafiCante,pague uma sari-
caticon,digni.:.'Apesar de
ser verdade que,osprin
cipaii chefes, pelo menos
os identificados pelas Outo-
ridades, estejam presos,
ainda nao se cornprovou
que as atividades do nar-
,cotrafico ,que dependem
dales tenham Cessado:..
oao seriaestranho,..como.
ocorreu que
alguns dOs..chefiles Conti-
nuassem no poder, mesmo
dentro da PrisaO.1
— 3'de setembro de.1996
(Poi ocasiao da rendicao
do (titan° chafe do..
'Cartel de Cali)
Novas Investigagoes na Coldinbia e no Brasil 31
inclusive o Ultimo item, se houver a vontade oficial e coletiva para faze-lo".
Sua coluna sobre Diego Maradona, o famoso jogador dc futebol argentino,
represcntou urn perseguicao ao trafico de drogas:
"Maradona presta urn grande servico a juventude. Por que? Porque diz a verdade.
As drogas sao ruins; o vicio da droga é um abismo e uma tragedia... Em (recente)
entrevista, Maradona disse que devia haver pena de morte para os narcotraficantes."
Bedoya chegou ao ponto de detestar o presidente Samper.
As primciras colunas de Bedoya sobre a cumplicidade de Samper corn o cartel de
Cali foram diretas, porem respeitosas.
"Ndo é facil renunciar. Ivlas seria urn ato de vontade que o povo colombiano e
futuras geracOcs agradeceriam a Ernesto Samper", escreveu em janciro de 1996.
Em pouco tempo suas colunas tornaram-se mordazes. Quando ficou claro
que Samper havia feito tratos corn congressistas influentes para enfraquecer a
investigacao do Congresso colombiano, em junho de 1996, Bedoya escreveu:
"E agora o que acontece? 0 presidente n5o quer sair... nao seria improvavel que
nos cansassemos desse confronto, que aceitassemos corn resignacao o que e melhor,
mesmo que tenha havido dinheiro do narcotrafico, que o presidente continue no
poder... Mas esta atitude é suicida para urn pais que tem diante de si a melhor
oportunidade para lavar sua democracia e fazer
urn profundo e sincero exame sobre Os perigos "0 futebor E, •
do narcotrafico." e Possivel:que a'paixdo
Em setembro de 1996 descobriu-se heroina no de urnpovo seja,manipula
avid° presidencial quc deveria levar Samper as da per interesses obscures.
Nacoes Unidas. 0 governo de Samper disse que Suponho que a maioria dos
a heroina era parte de uma conspiracao nortc- toicedores do .AMeriba nho
americana. Bedoya escreveu: "Chega de especula- Se'importe porn o,fato
floes; chega de inventar truques. A heroina no os narcotraficantes agora
avido presidencial foi apenas mais urn episOdio da confessos serem os donos
tragedia colombiana... foram os narcotraficantes de seu time ha qtiase vinte
que pretendiam enviar outra remessa para os anos.•..
Estados Unidos aproveitando a imunidade do A,paix:ee do torcedor do
avid() presidencial". America esta. abima de
Bedoya acreditava em sua missao: "Nossa fun- tudir-nao importa a cor
cao, dos pobres jornalistas, e reconstruir a esperan- dp'gato,contanto que pace
ca", escreveu. ratos.,Eesse tem side'o
problerria colornbiano dos
frithrios arms, tanto-na poll-
" tica quantopa ecenemia:
quase nrnguemiise !mule.
come cer,dO,gato,e que
importa4 qUe tenlia dinhei-
29 de junlio de1996
(Satire &America, time de
futebidAe Cali, de iiropriedaE
de do Carteide Calif
Seu ultimo trabalho jornalistico
Uma amiga de Bedoya, Ximena Palau, o advertia
quando considerava que ele estava se excedendo.
"Cale-se — repetia — porque voce vive nas entranhas
da besta", dizia-lhe. Bedoya ndo the avisou sobre a
coluna que seria publicada em fevereiro de 1997.
Rodrigo Lloreda, entao diretor do El Pais, assus-
tou-se quando leu o comentario. Havia pedido a
Bedoya que suavizasse seus artigos. Lloreda é urn
32 Impunidade NUNCA MATS— Comes sem Punicao contra Jornalistas
L V L Ap9.rtalro,ceie en el Magisteno 108
. • •:.
TEXTOS
zAl fin ahora si?
GERARocBEt: a. BORRERO
Despue:s de este los ministros de 3u.sticia y la
Cant:111er dieron declarations proextradi-
TATOS
graves los columnistas no podemos ser agues
tibias y debemos esumir posiciones, deb°
ime mi riesiciOn es la misma rpm le del
La herolna no heroica
Presidente sea simplemente una accidnaids
del narco: rofico, no importa a que cartel per-
tenesca. lii narcotrailco cods to compra y
contemioa: se metieron en el avian del
Presidente porque no bay puerto que los
norms no abran ni institurihn que no pene,
mitteen. Se Met:e en gra nde en la campana
Por codas estas rezones hay que decretar
la total intelerancia frente al narcotrafteo.
No nos ha heiho ningtin Bien si siquiera en
la economta, corns errenea e ingenuamente
se pienos.Fomento una emanate especula-
tiva, no pet duttiva, liesada mordialmen-
te en Is oainpra 1 inventories '
GLI,ARDO REF t'a BORRERO
o °memos 10 :I tea especulaciones
aventemos tantas. tlueulenciaa I.a
•na en el 'ericr premdencial simple.
teune.isedioma.i en . traood,q
Re6ortes des paginas kjonialEl Pais, .no .qua! Gerard° Bed* publicaira sua coluna de
opiniao "Teitos
0 processooitp mil foiformativo. Em primeirolugar,,o,pablico foi obrigado: ,
a,s0 ,cinicentrar.,ipela primeirovezem:moitOo,:arios,eMuM:teMaimpOrtante.
;AgOraidizem masse "aOim queideitja Om:4.
optocessrioitO p.OicaPdalosO,,laperiu,
:thria let necessaiia Os,alcrioriirieetreVadddemoCracia'!llattoltimbio,Ja
':'!0,Oritpoitovida,eici$tencia. detodoeSseetiisodiotde'!cptitpOgrii::polipea
e cWirifiltracaO.,4naroOtrOfico: Fteje„foiam:exiliidirs.com aterradora nitidez
diorite da Opini:ao pribliCaNinguem a,.politiCa,COIOrnbiana
esters corrOMOida,'ern grande eitendir, ate
.-1 de marce 0.1996.
homem tranqiiilo; conhecido por sua imparcialidade; sua familia fundou o El Pais.
0 jornal é moderno e bem redigido. Mas o estilo de Lloreda nao era atacar os
narcotraficantes.
Era tarde da noite quando Lloreda ligou para Bedoya para the avisar que iria editar
a coluna, segundo informacoes de funcionarios do jornal. Lloreda mudou o titulo e
retirou as referencias aos irmaos Rodriguez Orejuela.
Mesmo corn essas mudancas, o comentario foi o mais provocativo que saiu na
edicao do dia seguinte: "Mesmo que me chamem de pro-ianques". Assim cornecava
o primeiro paragrafo:
"Prefiro a pressao dos Estados Unidos a pressao dos narcotraficantes. Prefiro a
influencia dos norte-americanos sobre nosso govern() a influencia dos narcotrafican-
tes. Prefiro a intervencao dos Estados Unidos em nossos assuntos internos a do
cartel das drogas."
Novas Investipacaes na Colombia e no Brasil 33
"A pressao norte-americana tem os seguintes efeitos: 1) Uma lei contra a lavagem
de dinheiro. 2) Condenacnes maiores para os traficantes. 3) Major seguranca nas
prisoes para que os criminosos nao possam fazer o que tiverem vontade. 4) A
fumigacao de milhares de hectares de amapola e coca. 5) 0 ressurgimento do terra
da extradicao como assunto legitimo e nao como urn terna tabu, intocavel e proihido.
6) A formacao de uma consciencia prIblica que reconheya os danos que a droga
causa ao sistema politico c a sociedade em geral.
"A pressao dos narcotraficantes sobrc nosso governo e nossa sociedade teve
os seguintes efeitos: I) Urn codigo penal escrito sob a influencia de advogados
que trabalham para os traficantes. 2) As ridiculas penas carcerarias impostas
aos criminosos. 3) A ehminaczlo da extradicao (de colombianos) Como arma
para combater o crime internacional. 4) A corrupcao politica... 7) Contribuiceles
financeiras a uma campanha presidencial que ganhou as elcicOes."
Os amigos de Bedoya ainda sentem arrepios quando kern essa coluna.
Bedoya transformou-se na Onica voz forte de protesto em Cali. 0 Ultimo jornalista
de Cali que se atrevera a faze-lo tinha sido Rani Echavarria Barrientos, subdiretor
de outro jornal de Cali, o Occidente. Echavarria foi assassinado em 1986, dois dial
depois de seu jornal publicar urn editorial apoiando a proposta do presidente norte-
americano Ronald Reagan, que podia a pena de morte para os narcotraficantes.
Sua vida pessoal
Xirnena Palau disse que quase chorou na manha que leu a coluna pro-ianques.
"Sabia que ele havia assinado sua sentenca de morte", disse, corn voz emocionada. "So
quem estava em Cali sabia a gravidade do titulo e do contend° da coluna."
Entrevistada em Bogota, onde mora atualmente, Palau declara sua raiva diante
da falta de justica no caso Bedoya. Mostra uma foto sua corn Bedoya tirada diante
do Lincoln Center de Nova York quando seu romance estava no auge. Bedoya
era apaixonado por opera e milsica classica. Palau
lembra tambem sua predilecao por camisas da ...a vertladeira origern.do :.
marca Brooks Brothers, sapatos Bally e charutos poder na Columbia: o,Clien-
cubanos. Mas nao fala corn a mesma desenvoltura tellsMo politico e o nar-
sobre a paixao de Bedoya por mulheres bonitas. .dotraficp..Esses
O! faitores de poder.
dOis.pode-
iosEle supostamente tinha uma fraqueza por mulhc- , .
res bonitas, mas nunca se casou. Ern seu enterro prendeM emsuas redes
estavarn presentes "muitas vinvas", segundo seu o Estado, on-seja; qtnse'—• , ._ 4, e
primo Hugo. "Mantinha a amizade corn todas todos os ramos do poder
, publido, ejmpedent'que oas suas ex-amantes e todas compareceram ao . . .
enterro." bem geral, que.e o tim do,
No dia em que morreu, Bedoya estava acorn- Estado e da'ordemjuridice,
panhado de uma outra mulher, Maria Eugenia domine sobre os interesses
Arango, uma linda morena pouco conhecida nos da Olienteln,,politica e do
narcotrafico...circulos de Bedoya. Arango e divorciada e tern ,
- ,uma filha; gosta de jOias e de touradas. Os amigos 19de seterebro de1996
ISobie-a impaaidadi ea)
de Bedoya suspeitam que ela saiba todos os deta- anarquia tatolOmbi.
lhes do assassinato, mas Arango recusou-se a falar
34 Impunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Punicao contra Jornalistas
coin a SIP.
As suspeitas em torno de Arango aurnentaram quando os amigos de Bedoya
souberam que ela declarou a policia que ele era homossexual e que nao tinha
relacaes intimas corn as muiheres. DeclaracOes das ex-amantes de Bedoya, entre elas
Ximena Palau, contradizcm essa afirmacao.
Mas os investigadores de Cali aceitaram como autenticas as declaracOes de Arango.
Esses investigadores ainda Sao os responsaveis pela investigacao. Cali é uma cidade
tropical e conservadora onde a situacao de solteiro de Bedoya despertava suspeitas.
A insinuacao irrita Palau e o primo de Bedoya, Hugo Borrero. Elcs se recusam a falar
corn a policia se persistirem em manter essa linha de investigacao. A policia, por sua
vez, diz que a familia nao coopera c que esse e o motivo de o crime nao ter sido
solucionado. vulgar por parte de quem nunca o conheceu", afir,mou Borrero. "M.°
me importaria, mas o fato que esta atrasando a investigacao. E a tatica perfeita, o
que me faz crer que a assassinato foi parte de uma conspiracao major."
Palau, uma mulher elegante de 36 anos, disse que nunca teve urn amante tao
viril quanto Bedoya. E pergunta: "Atha que ocultariamos isso [essa fofocal se fosse
verdade e a chave para solucionar o assassinato?"
Um conhecido mulherengo, Bedoya nao pretendia se casar. "Gostava de viver
sozinho", explicou Borrero. "Na minha opiniao, etc tinha razao porque era neurotic°
e dificil de lidar; feria deixado qualquer mulher louca". Todos as anos Bedoya dizia
aos amigos que "este ano" se casaria, mas nunca o fez.
Bedoya vivia em uma cidade famosa por suas belas mulheres e clubes noturnos.
Mas nao era urn "homem tropical". Preferia a mUsica classica, a poesia e os livros.
Tinha uma das melhores bibliotccas pessoais de Cali. Viajava a Nova York em busca
de estimulo cultural. Tinha tuna viagem marcada na semana em que morreu.
Bedoya sempre se queixava da falta de companheiros intelectuais em Cali. Deixou
de ter corn quem conversar depois que Palau mudou-se para Bogota por motivos
profissiona is.
0 jornalista ocupou v-arios cargos politicos em
Cali e Bogota durante o period° em que o Partido
Conservador esteve no poder. Quando morreu,
era presidente do capitulo de Cali do Centro de
Estudos Colombianos, uma instituicdo conscrva-
dora. de Bedoya, que era urn romantic° invetcrado,
foi cunhada dentro de uma educacao rigida jcsuita
em urn internato de Rochester, Nova York. Passau
tres de seus quatro anos de escola secunciaria
nessa escola. Adorava Ruben Dario e Baudelaire e
recitava de memoria sonetos e poemas de outros
escritores franceses e ingleses. Gostava dc falar
sem parar sobre ciencia, politica e artes. Depois
que morreu, seus amigos acharam urn pcqueno
caderno no qual anotava pensamentos sobre a vida,
a cidadania, o casamento, a soliciao e a felicidade.
Na era dos computadores, Bedoya ainda usava
uma maquina de escrever Remington portatil,
"Na Colombia estao ocor-.
lendo,episodiOs tipicos de
urn regime pOlicialesco oil
de um estadm.totalitario:
Os servicos de segurarica
do Estado nam.deveni
dir terror nos cidadaos
neat poded perseguir,,por
raztoes politicas;fornaiis-,
tas llacionais e estranges-
' ros."
— 27 de fevereirci de 1996
(Depois que o'DAS,Prendeu
e revistou um jornalistanorte-
antericano e corifiscou e fez
copias de documentos
nadOs adesCandalo do dinhei
ro de narcoticoi.)
'ERNES
- 5 SE COC,NE S XXX: No. 12.656
ASESINADO
PERIODISTAje a
IJ
Gcra re;,) Borren, Tnc:?;:s
,71;V:',,,1 7r,r, y 0.. 1. el
0 Pai.;.. •
*ow
u. 0 1 fiA PROAZfir
Novas invostigacties na Colombia e no Brasil 35
como as que carregavam os correspondentes que viajavam antigamente. Tinha
insonia c tomava banhos de duas horas durante os quais montava seu piano de
trabalho e os temas sobre os quais escreveria, segundo Palau.
Bedoya n5o era aceito corn muita simpatia pelas pessoas. Era extrcmista em seus
gostos, gostava dos que o conheciam ou desprezava quem o desprezava. Muitas
pessoas o detestam mesmo depois de morto. Outros ficam corn os olhos cheios
d'agua ao lembrar-se de sua personalidade neurotica e de seu senso de humor.
Juanita, uma jovem negra, era sua cozinhei.ra. Bedoya tinha uma relacao especial
com cla e seus dois filhos. Essa era uma relacao pouco comurn em Cali, onde as
diferencas raciais sdo bem marcadas. "Rezo para ele quando algo ruim acontece,
porque sci que me ajudara", disse Juanita. "Ele foi urn grande patrao que nao merecia
morrer dcsse jeito", afirmou.
Bedoya tambem tinha seus favoritos no jornal. Um deles era Diego Martinez,
chefe de redayao. "Gerardo era assombroso. Gostava muito dele e fico triste ao
pensar em sua morte", disse Martinez, fechando os olhos enquanto via urn fume
com imagens do assassinato.
Bedoya saia corn varias mulheres. Mas, segundo scus amigos, nunca coin muiheres
que na-o fossem de classe alta. A excecao foi Maria Eugenia Arango, uma mulher
36 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicio contra Jornafistas
linda c misteriosa que conheceu em uma tourada
em Cali, em dezembro de 1995.
0 Crime
Pouco antes das 16 horas do dia 20 de marco,
Arango ligou para Bedoya em seu escritOrio. 0
escritorio tinha parcdes de vidro corn aberturas
na parte superior. Isabella Prieto e outros reporte-
res que se sentavam perto de sua mesa sempre
podiam escutar Bedoya conversar, pois sua voz era
muito alta. Arango pediu a Bedoya que a levasse
para ver urn apartamento porque scu carro estava
enguicado. Todo mundo lembrava-se dela. Depois
que Bedoya a havia levado ao jornal, pouco depois
dc conhece-la, havia se transformado em tema de
interesse entre os jornalistas.
"Ainda me lembro do dia em que entrou na
sala de redacao", disse Diego Martinez. "Todas
as cabecas voltaram-se para ve-la. Era jovem
deslumbrante." e amigos proximos de Bedoya conheceram Arango. Ela é amiga de
Clara, irma de Bedoya, mas este nao se dava bem corn suas irmas.
Alta, morcna e de olhos verdes, Arango atraiu a atencao de Bedoya na tourada. Ela
havia comprado em 1995 dois lugares ao lado do reservado a Bedoya. Bedoya estava
chateado corn a decisao de sua irma de vender dois lugares exclusivos destinados
a sua prestigiada familia, dc Cali. Eram cadeiras do tipo quc passam de geracao
a geracao. Sao poucos os novos ricos que podem compra-las. a raiva dissipou-se
quando viu Arango em urn desses lugares. Supostamente Arango nao tinha muito
dinheiro, mas diz-se que pagou US$2.000 pclas entradas para a temporada. Clara, a
irma de Bedoya, negou em uma entrevista que tenha silo ela quem decidiu vender
as cadeiras a Arango.
Disse que foi o prOprio Bedoya quc se apresentou a Arango e pediu-lhe que
ficasse corn as cadeiras. Outros amigos c parentes, entretanto, garantem que Bedoya
conheceu Arango na praca de touros.
Bedoya participou de uma testa de aniversario para o gerente administrativo do
jornal na noite de 20 de marco de 1997. Saiu da cede do jornal as 19h30. Seus amigos
nunca mais o viram corn vida.
0 motorista de Bedoya levou o Volkswagen vermelho ate urn complexo residencial
no sul de Cali. Era ali que morava Arango, corn a mac e a filha. Arango demorou
alguns minutos para descer. Bedoya csperou em frente a entrada, uma area mal
iluminada na qual caminhou por dez minutos em circulos para se exercitar. Os
amigos de Bedoya perguntam por que o assassino nao o seguiu c o matou ali
mesmo.
Segundo informacoes fornecidas pelo motorista as autoridades, quando Arango
apareceu foram para outro condorninio a alguns minutos de distancia, o Multicentro,
na rua 87 corn 12.
''Ainda mantenholi sonho
da certifiCacho; mas'0 pre-
',siderite deve desistir dele.
As conseqiiencias econe-
rnicas,.serao muito graves...
Ainda niantenho;o sonho
poique sei que de alguma
fornia vira. Somos uma nar-
coclemocracia;,o.poder do
narcotrafiao continua em
vigor,na Colhmbia. Ainda,
temos quelefletir muito
sobre'oinalintrinseco que
narcOtrafico repreienta
corn suas,sequelas obriga-
Aeries de violencia e cor-
Fup0o."
7 30 de'maio de 1996
(Sobre` a des6ertificacao)
Novas Investigagoes na Colombia e no Brasil 37
Arango e Bedoya sairam do carro e passaram pela porta de entrada para ver
urn apartamento. A area cstava escura, visto que a iluminacao pablica havia se
apagado inexplicavelmente nesse dia. 0 guarda disse ao motorista que estacionasse
a alguns metros de distancia, de modo que ao voltar pelo portao alguns minutos
depois tivessem que caminhar apenas uma pequena extensdo ao lado de uma
fileira dc arvores. Urn homem surgiu repentinamcnte das sombras e disparou cinco
vezes diretamente em Bedoya. 0 assassino usava uma camisa branca e um bone
de heisebol.
Ao descarregar sua pistola, o assassino gritou: "Bedoya, maricas". (Essa e outra
insinuacao que levou a policia a seguir a teoria de urn encontro amoroso homosse-
xual.) Bedoya recebeu cinco tiros na parte inferior do abdomen e caiu no chao
gravementc ferido. Arango jogou-se no chao; o motorista tremia dentro do carro.
0 bandido aproximou-se do portao, caminhando tranquilamente ate a esquina.
Logo chegou uma moto. As versOcs da policia diferem sobre se havia urn ou doffs
assassinos. Os dctetives que estiveram no local afirmam que o crime foi obra de
assassinos profissionais.
"Dispararam corn a intencdo de matar", informou uma fonte. 0 assassino afastou-
se calmamente. Ninguem tentou dete-lo. Circundou o muro; as testemunham dizem
que ouviram uma moto se aproximar. A policia acha que havia outro homem
esperando na moto.
A investigacao
O assassinato de Bedoya causou protestos ira-
dos do publico de Cali e do recto da Colombia.
Centenas de pessoas vestindo luto compareceram
a seu enterro. A morte de Bedoya foi noticia de
primeira pagina nos principais jornais do pais.
Colunistas dedicaram cronicas inteiras para home-
naged-lo. A reacao imediata foi de apontar os
narcotraficantes de Cali como culpados do crime.
A comissao dos premios Maria Moors Cabot con-
cedeu uma distincao especial pOstuma a Bedoya.
Rodrigo Lloreda foi a Nova York receber o premio,
concedido anualmente pela escola de estudos de
pos-graduacao em jornalismo da Columbia
University. 0 certificado esta em exposicao no
Centro de Estudos Gerardo Bedoya, localizado no
sotao do predio do El Pais, em Cali.
Mais de dois anos dcpois do assassinato, a
investigacao ainda esta em seu estagio preliminar.
Muita gente simplesmentc quer que desapareca.
Alguns ex-colegas de Bedoya no El Pais quiscram
falar sobre o caso. Mas Lloreda negou-se a dar
entrevistas para a SIP. 0 chefe de seguranca do
jornal tambem ndo se mostrou disposto a colabo-
"A Cruzada pela Morai,se
refine... Ha;Muitotempo
nao seVia'uma convo-
'> cacao tao bem-sucedida...
Todos queriam altalor a
indiferencO
haviao interesse: de, um
grupo ou partido, mas uma
recusa direta da'Coriop0ao
o: e: uma democtocia enve-
lhecida... tu, pessOo)men
te, creio que os Objetivos
devem ser Ciards e taxati-
v0s... Derrubar o Regime...
Ate que,o.presiderite
:1 Vale do DaUca'ja 7
esta a meio caminho pato,
deixar de tolerar o narco-
trafiCo...
-104ejunho de 1996..,,.
(Sobre a cainpanha'os empre-
sarias-pap rejeitar Samper e o
narcotrafico11'
'Em posse meio reina a
cultura,da estabilidade pre-
sidencial. Mas a opiniap
nao pode contagiar-se por
essa doenca colombiana:
a resignacao... Corn essa
atitude temos tolerido e.
perdoado tudo. Os motives
dessa crise sae hem dife-
rentes dos demais:e a
consciencia frente ao nar-
cotrafico que esta em ques-
ta°. Esse e o momento deci-
sive para definir de uma
vez por todas se a socie-
dade colombiana aceita,ou
recusa o narcotrafico...
-20 de junho de 1996
(Apes :o julgamento do.
Congresso para detenninar se
Samper continuaria no poder.r
38 Impunidade NUNCA MANS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas
rar. Este, cuja responsahilidade era coordenar a
investigacao por parte do jornal, insinuou que
ainda ha muitos outros aspectos do caso a ser
explorados.
O Palacio da lustier' de Cali e urn predio verde,
urn pouco abandonado, construido nos anos 50 na
forma de labirinto. Os tribunais ordinarios estao
nos primeiros andares. E ai que fica o gabinete
do procurador regional para Cali, que representa
urn sistema judicial paralelo estabelecido em 1991
para tratar dos casos de narcotrafico e terrorismo.
E um dos seis gabinetes regionais da Colombia que
funciona dentro do sistema da justica "sem rosto",
criado para proteger os juizes e as testemunhas
em uma epoca cm que mais de 200 juizes foram
mortos pelos narcotraficantes.
O chefe do gabinete é Lucas Pulido, funciona-
rio pUblico que tem urn ar de intelectual. Para
entrar no escritOrio de Pulido, deve-se passar
por urn detector de metais c apresentar uma
identificacao aos guarda-costas. Esse gabinete é
responsavel pelos casos relacionados ao trafico de
drogas e o terrorismo no departamento de Valle,
na ColOmbia ocidental.
Pulido cuidou do caso de Bedoya desde o inicio, ate que o processo foi transferido
para a Unidade de Direitos Humanos, em Bogota, mas ainda nao se conhecem os
progressos da investigaeao.
0 sistema investigativo sob o qual o caso se desenvolveu esta "oscilando", porque a
maioria dos crimes contra jornalistas foi entregue a juizes regionais ("sem rosto").
Atualmente, o Congresso legisla para acahar corn o sistema, sem que estcja claro o
futuro das provas obtidas ate o momento.
Antes, urn juiz anonimo controlava o imenso arquivo do caso — cerca de 500
paginas — que era mantido longe do exame pdblico, como requer o sistema legal
colombiano.
No escritorio de Pulido, Esperanza Leal, encarregada de coordenar o trabalho
dos juizes sem rosto, defendia a falta de progresso no caso. "Nao lemos suspeitos
rcais", explicou. "Trabalhamos sobre quatro hiptiteses", acrescentou. E culpava a
familia pela estagnacao do caso.
"A familia nao quer falar conosco", explicou. "Sabem por que o matararn."
Os investigadores concentraram-se no angulo do homossexualismo sem ao menos
questionar a pista do narcotrafico. "0 que escrevia ndo era tdo importante", declarou
Leal. "Nao vemos razdo nenhuma para que fosse alvo dos traficantes."
O secretario de imprensa, Jorge Mahecha, afirmou que Bedoya "nao era urn
escritor de importancia. Seus editoriais nao mobilizavam a opiniao ptiblica. Nao
escrevia as piores coisas sobre o narcotrafico. Havia outros", declarou, quase em torn
vitorioso. Pulido e Leal mostravam-se desconfortaveis.
Novas Investigavdes na Colombia a no Brasil 39
Quem sao Os outros jornalistas de Cali? Mahecha olhou ao redor, confuso. "Born,
temos Rodrigo Lloreda", disse finalmente, fazcndo uma careta.
Devido a demora, as pistas foram perdidas e isso impediu o avanco de uma
investigacao justa e completa. Os investigadores seguiram as pistas fornecidas por
Maria Eugenia Arango.
Segundo o gabinete do procurador-geral especial de Cali, Arango apresentou-se
como uma das principais amigas de Bedoya. Disse a policia que Bedoya nao teve
rclacoes sexuais corn ela e que acreditava que nunca as tinha tido corn outras
mulheres. Como corroboracao mencionou outro amigo de Bedoya, cujas declaracOes
podem ser duvidosas, segundo o primo de Bedoya. Os investigadores negaram a
possibilidade de que Arango estivesse envolvida no assassinato porque, segundo tiles,
Bedoya queria dar-lhe urn apartamento. "Por que o levaria a morte se ele pcnsava
em sustenta-la?", perguntou Leal.
Hugo Borrero disse que o primo Bedoya jamais the ofereceria algo assim. "Era
muito mdo-fechada", afirmou.
Algumas irregularidades
Os atuais invcstigadores ignoraram ate os procedimentos policiais mais basicos.
Nao deram importancia ao retrato falado do possivel assassino, que foi tracado corn
a ajuda de testemunhas oculares. Tanto Pulido quanto a coordenadora declararam
que seu gabinete considera innteis retratos desse tipo.
"Na Colombia, sinceramente, isso de retratos falados corn base cm testemunhas
oculares nao funciona", disse a coordenadora. "Todos parecemos indios. Entdo,
como vamos encontrar os suspeitos?", disse corn urn sorriso forcado.
"SO em casos cxcepcionais os retratos falados sao Uteis", acrescentou o juiz Pulido.
Ha alguma esperanca para o caso Bedoya? "Veremos, mas temos centenas de casos
como esse", declarou a coordenadora, dando de ombros.
Hugo Borrero, urn homem alto de barba e cabelos brancos, era primo de Bedoya
e seu melhor amigo. Os dois compartilhavam segredos. Borrero acredita que a
investigacao demonstra que existe uma conspiracdo, provavelmentc por parte dos
narcotraficantes. "Primeiro o matam. Agora tentam assassinar sua reputacao", disse.
40 impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas
Caso: Jairo Elias Marquez
j
airo Elias Marquez teve uma morte tragica e muito comum entre os jornalistas da
Colombia: foi alvejado por dois pistoleiros que pegaram-no de surprcsa em uma
rua escura e suspeita de Armenia, em 20 de novembro de 1997.
Quando Marquez preparava-se para entrar em seu carro, estacionado na rua 22
corn 22, dois pistoleiros alvejaram-no pelas costas corn tres disparos e fugiram
em uma motocicleta.
Marquez 6 o segundo jornalista assassinado nos Ultimos tres anos em uma
cidade que 6 mais conhecida por seus abundantes cafezais e pelo clima temperado,
localizada no departamento de Quindio, a 300 km a oeste de Bogota, a capital.
Segundo a Fundacao para a Liberdade de Imprensa da Colombia, foram assassina-
dos em Armenia Uriel Rios Tamayo, da Cadena Stiper, em 30 de agosto de 1979;
Jose Eladio Arrcdondo, presidente do Circulo de Jornalistas, em 30 de fevereiro
de 1990, e Erncsto Accro Cadena, do Informador Socioeconomico del Quindio, em
12 de dezembro de 1995.
Como varios jornalistas do interior, Marquez era irreverente e partidario das
criticas politicas que publicava em sua revista, El Marques. Apresentava uma mistura
de noticias, fofocas e ataques contra muitos politicos locais. Grande parte da revista
era escrita por ele mesmo, corn a ajuda de varios amigos que identificava por
apelidos: 0 Monge, 0 Magro, 0 Camelo, 0 que nos tira dos Apuros.
Os exemplares de El Marques "voavam"
A revista de 20 paginas tinha urn material ironic() sobre temas politicos escrito
em linguagem regional e vulgar mais adequada a uma cantina do que a uma publi-
cacao. Entretanto, os 3.000 exemplares do El Marques distribuidos quinzenalmente
"voavam".
Marquez pensava em lancar uma segunda revista dedicada a politica regional,
obviamente corn o apoio de alguns politicos do Partido Liberal. No dia em que foi
morto, saia de uma grafica onde conversara sobre a nova publicacao.
"Conheco-o desde que nasceu", disse Hugo Forero, Bono da grafica Indusellos.
"Conversamos e ele me pediu ajuda para escolher o nome certo para o semandrio que
lancaria em alguns dias. Ficou na minha loja por alguns minutos. Depois ouvi tres
disparos, como de fogos de artificio. Sal e vi meu amigo no meio de uma poca de
sangue. Aproximei-me e segurei sua cabeca. Tentou falar, mas morreu."
Nos dltimos anos, Marquez estava abcecado corn a ideia de tirar do poder o
senador estadual Carlos Alberto Oviedo, urn influente politico local c advogado
que defendia narcotraficantes presos. Todos as ntimeros da revista tinham piadas,
41
Fiaha Pesioal
Novas Investigagdes na Colombia c no Brasil
IRO E~6
(12 de maio de 1956 2'20 de novembro de 1997)
Hkalguns,.anos'obseryamos no departamento,de
quindin urn raro fenomeno politico dentro do partido
liberal:AlgimS de 'Seas meinbros afirmarn ser liberais,
nias na kora de se posicionar em relicioaos aconteCi-
mentas,eicondem a cabeca na terra coma a aveitruz."
Editorial, El Marques, agoSto de 1997,
primeira quinzena (Jairo.Elias Marquez)
Jairo Elias-Marquez.Gillego
(12 de maio de 1956 — 20 de novei'n-
„Orb de 1997).
Local de nascimento:
Calarca, departamento de Quindio
Wade ao_falecer:
41.2 anon
Estado civil:
EstavU ha urn ano separado de
Marleni Moreno, corn guermestivera
casado por cinco anon.
Filhos:
,lairo Elias, :4 ahos;.Salome, 2 anos.
Estudos:,,
APrendeu jOrnalismo-trabalhando
comcii'autonorno para emissoras de
radio locals.
Profissio/cargo:
Editor, redatOr e•proOrietarid'il? yis-.
ta El Marques.
Antecedentes.jOrnalisticos
e profiesiOnals:m
Em 1980, comecou COFTIO:IdcuOr
para a:Radio Estrella, e, dePois foi
reporter e ccirreStiondente em
ArriiQnia dd(adeia de,noticias de
radio Super; delaois:da: tedeie:::.
TOr,nou.,TSe:clepois tepOrter
do jorn01:.E),MeridianO:de7Dulhdla (em
ArMenia) e fundou,sila propria revis-
ta.
Exercicio do jornalismo: •
17 anos
Passatempos:
TOcava;violao cantava musica
regional em verso (trmias).”
insinuacbes e boletins noticiosos sobre Oviedo e suas supostas atividades corruptas.
Algumas acusacoes eram tao serias que Marquez foi chamado para depor na
Procuradoria local.
Poucos meses depois da morte de Marquez, Oviedo foi preso e implicado cm
outros dois assassinatos.
0 Superior Tribunal de Justica esta investigando acusacOes contra Oviedo que
supostamente o envolvem como autor intelectual do assassinato de um agente da
Unidade Tecnica de Investigacao da Procuradoria-geral. Esta sendo tambem acusado
dos supostos crimes de Guillermo Acosta Botero e Fernando Celis Franco, em
42 linpunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Punicao contra Jornafistas
novembro passado, e do suposto sequestro e assassinato de Luis Javier Alzate.
Na Ultima semana de abril de 1.999, o Superior Tribunal de Justica ratificou o
mandato de prisao de Oviedo.
A negra histOria de Armenia ilustra o que ocorre em algumas cidades colombianas
do interior. Nelas, as obscuras aliancas entre os narcotraficantcs e os politicos locais
transformam o oficio do jornalismo em urn risco de vida. Os investigadores acham
que Marquez nao morreu porque atacou os narcotraficantes, como no caso de
Gerardo Bedoya, assassinado pelo cartel de Cali em 1997. Segundo sua hipotese,
Marquez foi eliminado por ter criticado a corrupcdo supostamente aprovada e
apoiada pelo senador Oviedo e seus cupinchas politicos. Marquez apoiou Oviedo
durante os anos iniciais de sua carreira como congressista. Mas eventualmente
deu-lhe as costas, deccpcionado corn a violencia associada ao politico.
Outros alegam que Marquez tinha suas proprias ambicoes politicas e usava a
revista para elogiar os amigos e criticar Os inimigos. Jairo Eliecer Orozco é urn
respeitado jornalista colombiano, afiliado a Radio Cadena Nacional, corn quern
Marquez teve descntendi mentos. Segundo Orozco, "Marquez dizia muitas verdadcs
sobre Oviedo em sua revista, mas tambern se equivocava devido a seus fortes
compromissos corn outros politicos que lutavam contra Oviedo". 0 jornalista havia
apoiado Belen Sanchez Caceres, governador do departamento de Quindio. Sanchez
ganhou o posto corn o apoio de Oviedo, mas postcriormente voltou-se contra ere.
Urn homem simples
Marquez, urn homem alto de 42 anos, corn profundos olhos castanhos, tinha
grandes sonhos. Escrevia e publicava sua revista quinzenal em sua grafica, chamada
Impactar. Era conhecido por seu pseudonimo, Marques, e havia poucos anos que
trabalhava em jornalismo. Quando jovcm, havia pensado em ser cantor, mas sua
voz abriu-lhe o caminho no radio. Tornou-se apresentador de programas musicais
em varias cmissoras locais.
Quando lancou a publicacao, a critica politica ja era sua paixao. "Gostava de
escrever tudo o que ouvia", explicou Marleny Moreno, sua esposa e mde de seus
dois filhos. Quando Marquez morreu, estava separado de Moreno e vivia corn uma
mulher mais jovem.
Moreno reprovou o descuido de Marquez. "Mesmo sabendo que tinha filhos, nao
queria ouvir os conselhos para moderar os artigos que escrevia."
Moreno continua publicando a El Marques, mas a revista ja nao tern o mesmo
impacto. Na edicao de comemoracao de seu vigesimo aniversario — distribulda
cinco meses depois da morte de Marquez — , Moreno escreveu: "Como é Natal, to
pedirnos, Senhor, que iluminc todos os jornalistas para que seus escritos sejam do
agrado de todos. Amem". Marquez, por sua vez, sempre dizia que sua funcao era
dizer o que nao agradava as pessoas.
0 escritorio de Marquez ficava no fundo da grafica, atras de grandes rolos de
papel. 0 local é urn espaco quadrado e pequeno, ocupado por uma escrivaninha e
duas cadeiras. Agora e usado por sua esposa e esta limpo c organizado, o oposto de
como Marquez o mantinha: pilhas de arquivos, folhas de papel e sua maquina de
escrever manual. Moreno instalou urn altar a direita da escrivaninha, para proteger
Novas InvastiosOes na Colombia a no Brasil
Situacao na Colombia nn.eflopa do assassinate
43
.Presidente da ColOmbia:
Ernesto Samper Pizano
Partidorui governo:
Particlo Liberal Nacional
Situacao politica do pais oil regiao:
Apds.as tentativas fradassadas da
oposicao de retitar o presidente
Ernesto Samper do cargo, corn base
nas invettigagoes da PrOcuradoria
,
geral Nag&o sobrea doagab de,
verbas do narcotrafico parasub'carri-
.
„
panha eleitoral; iniciavarn,Se,rid pais
as eleicoes pard rj rerioriagOo do
'Congress() da:Repalida, SerIdb que
TO de seus membros estavam preso&
ou respondiam a proceSso judicial
„pOr,enriOueCimento ilicito:
Ficha do Caso
Data 'do assassinato: esquadrab'da morte que aftfava sob
20 de novembro de 1997 suas ordens de assassinar o,jornalis,
ta.
Forma'e local do assassinato:
ApOS sair do escritorio da revista El COnseqiiencias violentas:
Marques,rie centre da'cidade de
Armenia (Quindio), quando.entrava
em seu oarro, foi interceptado ppr
dais motociclista'S armados que dis
pararam contra ele tres vezes.
Poihreis motivos:
SupoeSe que a deScoberta dos via-
culos'entre o senador Carlos Alberto.
OviedO a o asseSsinatci do jornalista
Ernefo A6eeb Cadena (eM,12
dezertibro,de,,1995),,juntO cormartigos
bastantejealistiebs hos:,quaiSqU'es,:
ticiriava a honea da''classepolitida,
laVaraMao Seu.as'Sassinato::
•Sopostos autores•e/ou implicados:
Segundo:testemunhas ouras pro-
vas em'poder, da procuradoria,..o
senador Carlos 4lberto Oviec1O havia
encarregado os menbrosde urn
NasAres Sernanas que sCicederarh o
assassinato derlY14rquei, OS demais
jornaliitas de Armenia receberam
chamadas ameadadoraS, nas quais
eramiadvehtidos que se continu,
aSsem;inveStigando o assassinato.:'
Aeriam o:mesm&destino:
Humberto:. Guzman Bernal; investiga-:,
dor da procuradoria encarregado do
caso contra:Oviedo, foi assaSsinado,
d1aS'deribis de ter aSsuniidO
flag-arida morte de Marddez.
Irregulifidades,do Processo:
kprOCuradoria admitei'que resistiu:
a agues de.,,preSsOoAnarf eSpedifiCa;
dasypor parte de:thitroSMembros
do COngressoi,,que desejam;median,
te.(uma'reforma legal; obter a liberda
!de de OViedo.
; Ultima
Uiur ar Commv.i
VIERNES
lln 5jernp_lo.d
-otlpA los
'Colombi
•VOlka a 17;as 4:1
esta -rama:
&cumina,an hasr r:er:r jyrnri
Arr..r.ai. - 414
romiro. iui.:
d dr •
ei
. . . .
44 Imptinidade NUNCA MA'S — Crimes sem Punicao contra Jorna/istas
espiritualmentc o local. Ha uma foto de Marquez corn Jairo, seu filho de cinco
anos. Por acidente, o pequeno Jairo viu as imagens televisionadas do corpo do pai.
Durante meses apOs o incidente, o meni no perguntava a mde por que nao curavam
os ferimentos de bala do pai para que pudesse voltar para casa.
Moreno ainda tern medo dos que mataram Marquez. Em resposta a uma pergunta
sobre quem poderia querer ve-lo morto, ela da de ombros e cruza os bracos sobre as
pernas. "Depois soubem.os que tinha sido ameacado", disse em voz baixa. A familia
fard algo para conseguir justica? "Todos temos medo — sua familia, meus filhos e Cu",
explicou. Sobre o altar havia uma Biblia aberta no Salmo 91: "Deus e meu reingio.
Ele me protcgera de todos os perigos."
Terreno perigoso
Marquez sabia que entrava em um terreno perigoso ao escrever sobre cellos
politicos, segundo observaram seus colegas. Nos ultimos tres anos, a medida
em quc crescia o poder do senador Oviedo, Armenia deixava de ser urn local
scguro para transformar-se
em uma cidade ameacada.
Escrever sobre politica tor-
nara-se perigoso. "Agora 6
crime ter uma opiniao", afir-
mou Orozco, que é membro
do RCN, enquanto caminha-
va corn dois guarda-costas
perto de seu escritorio.
As ruas movimentadas de
Armenia desafiam o perigo
que muitos policiais garan-
tem existir. Dizia-se que urn
esquadrao da morte suposta-
mente vinculado a Oviedo
dedicava-se exclusivamente
a manter longe os inimigos
do senador.
0 artigo que evidentemen-
te provocou a morte de
Marquez foi publicado na
semana anterior ao crime.
Corn o titulo de "0 matt-
soleu de El Marques", o
artigo ridicularizava varios
politicos que haviam per-
dido as eleicOes parlamen-
tares de outubro de 1997.
Os jornais da epoca, como o Diario de Colombia e La Cranica
Marquez p6s, ironicamente, de Cluindio (na pagina seguinte) fizeram uma ampla cobertura
uma pequena cruz ao lado do assassinato de Jairo Elias Marquez.
:my., •
Lute en el perioclismo regional •
Asesinado Jaw° Elias Marquez Galle
El director de la moist° El Marques flit' abcarolo
jar sirarios que se movilizoban en. uno mote.
nolo el prapOsito def :odor tut sernanario, quo
far cartado por las bake asesittas.
los aermseel
er qt.< <Ire n Ion ranee. innElias hr.,
re la,:
Novas investigacaes na Colombia e no Brasil 45
de cada nome. 0 artigo tambem apresentava uma lista de politicos que Marquez
condenava "ao purgatorio", ou seja, que nao seriam reeleitos na prOxima eleicao.
Entre eles constava o nome de Oviedo.
"Achavamos que nunca havia recebido ameacas de morte, mas foi advertido nas
semanas anteriores a de sua morte, e esse artigo contribuiu para seu assassinato",
disse Moreno. "Ha quem diga que decidiram dar-lhe uma pequena cruz."
Urn povo em apuros
Armenia ganhou ma fama no inicio da decada de 80 quando Carlos Lehder,
membro do cartel de Medellin, foi morar na cidade. Tentou entrar para a politica
local e criou um partido neonazista. 0 povo ficou fascinado coin a forma corn que
Lehder se promovia, gastando Mares cm uma ostentacao jamais vista cm Armenia.
Nessa etapa initial do narcotrafico na Colombia, poucos podiam imaginar o nivel
de dano que esse comercio traria para suas cidades. Lehder foi extraditado para os
Estados Unidos em 1982, acusado de trafico de drogas. Atualmente, cumpre pena de
prisao perpetua em uma prisao de alta seguranya.
Desdc entao, a boa sorte parece ter abandonado Armenia e outras cidadcs dos
departamentos cafeeiros de Quindio, Caldas e Risaralda. Armenia e o segundo
porto em importancia em questao de drogas e, na pratica, a totalidade do campo
esta em poder de organizacoes armadas (grupos paramilitares, guerrilheiros, grupos
de protecao a narcotraficantes ou exercito c/ou policia). A regiao enfrenta sua
nOrt rlO Or!.
LACRoNIC
46 Impunirlade NUNCA MATS— Crimes son, Punicao contra Jomalistas
pior crise economica devido a queda dos precos internacionais do cafe e a lima
praga de insetos que destruiu muitos cafezais. Varios camponeses venderam suas
terras para os traficantes ou seus representantes, segundo declaracoes do povo
local e da imprensa. As terras transformaram-se cm fazendas para gado, o negocio
predileto dos traficantes para a lavagem de clinheiro. Outros sobreviventes da crise
transformaram suas fazendas em locais turisticos que mostram o period° aureo
do café e vendem pacotes turisticos bastante atraentes corn seguranca garantida.
chegada dos traficantes multiplicou a violencia na regiao. Grupos gucrrilheiros de
esquerda tambeni se infiltraram no local. Outras pessoas comecararn a desaparecer.
0 senador Oviedo
A terrivel descoberta de dois corpos em chamas, perto de uma pequena estrada
de Armenia, charnou a atencao sobre o imperio sangrento que o senador Oviedo
supostamente erigiu em Armenia. Os corpos eram de Fernando Celis Franco, urn
conhecido mercenario, e Juan Guillermo Acosta, urn engenheiro de classe alta,
cuja esposa, diz-se, teve urn caso amoroso corn Oviedo. As autopsias revelaram
que os dois homens foram torturados e apunhalados no coracilo corn urn objeto
pontiagudo.
Logo correu o boato de que Oviedo havia mandado matar os dois homens. Pouco a
pouco surgiram novas alegacoes. Houve quem dissesse aos investigadores que Acosta,
ao saber do romance de sua esposa, havia contratado o mercenario para matar
Oviedo. Outros disseram que Acosta era socio de Oviedo em urn negocio rentavel,
porem ilegal. 0 politico ficou rico supostamente corn uma rede dc transporte ilicito
de narcoticos. Os investigadores disscram a SIP que o mercenario Celis, abordado
por Acosta, era empregado de Oviedo. Este, por sua vez, ordenou que Celis fizesse
uma armadilha para Acosta; depois, Oviedo matou Celis para nao ter que pagar
300.000 Mares pelo assassinato de Acosta.
As circunstancias da morte de Acosta ficariam facilmente sem solucao, como
ocorre corn muitos outros casos em Armenia. Mas Acosta era de familia rica e corn
boas relacoes political; a familia empenhou-se para cxigir justica. Pediu-se uma
investigacao ao Superior Tribunal, que tern jurisdica-o cm casos contra funcionarios
cleitos que tenham urn alto nivel de imunidade dentro da lei colombiana.
A confissao de urn mercenario foi anexada a ordem dc prisao emitida pelo Superior
Tribunal. Esse é apenas urn dos muitos documentos no grosso processo que esta
aparentemente sendo revisado pelos membros do Superior Tribunal antes que sejam
tomadas as decisoes legais sobre o caso.
A investigacao, a cargo da promotoria designada perante o Superior Tribunal de
Justica, implica diretamente o senador Oviedo. Esta é formada por promotores de
alto nivel, atraves dos quais o procurador-geral exerce seu mandato de investigar
diretamente os "afuerados" ou seja, os funcionarios especiais que so podem ser
julgados pelo procurador-geral. De modo que, no estado atual da investigacao, o
Procurador-geral esta cstudando a possibilidadc de denunciar por assassinato o
senador perante o Superior Tribunal de Justica.
Na Colombia, os arquivos dos tribunais nao estao disponiveis para o
Entretanto, a defesa e a Procuradoria frequentemente vazam os documentos internos.
Collur0 lir voz) 1?! rivil
jamas1),11..an othii •
EL MARQUES41:2MIL-21
Hr TU PFIESCOCIA PEROSEGUIMUS
I'll LA LUTHIL ITilLgl..ME,M1010111EllAJC U .TU (AMOK
EL
,j,ei cprp,in tddON dqu!
"mfr."'
,onexTry quereto <NperA ai
e r • s MC1;0co. prtfrei y n<Ma os.
Novas Investigagoes na Coltimbia c no Brasil 47
Esses revelam que Acosta c Cel is morreram de um ferimento corn objeto pontiagudo
no coracao e de estrangulamento corn uma corda.
Segundo declaracoes, Acosta rezou em voz alta durante a tortura. "Partia o coracao
ouvi-lo rezando", disse uma das testemunhas, supostamente urn assassino.
"0 problema para Oviedo foi o fato de Acosta ter matado alguem importante",
disse o jornalista Orozco, urn homem esperto dc sobrancelhas cheias e que pisca
os olhos freqtrentemente. "Sua Irma foi vice-ministry da Justica. Eles tem excclentes
conexOes. Nao sao pessoas de se calar diante de urn assassinato."
Foi entao que comecaram a ser publicados mais artigos na imprensa local
apontando Oviedo como chefe de urn esquadrao da morte dirigido por seu
irmao, Guillermo. Este tinha o habit.° de matar os pistoleiros responsaveis pelos
assassinatos para elimina-los como testemunhas. Oviedo ameacava qualquer um
que se apresentasse para testemunhar, segundo varias testemunhas. Os rumores e o
temor inundaram a cidade. Ate a policia fazia suas investigacoes corn mais cautela.
Evidentemente, Oviedo estava coin raiva de Marquez porque ele havia testemunhado
contra de no gabinete da Procuradoria de Armenia a respeito de urn outro crime.
As capas da revista El Marques, de propriedade de Jairo Elias Marquez, destacaram a tragedia
do jornalista e a posicao adotada por seus colegas e familiares para enfrentar a impunidade
que cerca o caso.
48 Impunidado NUNCA MA1S — Crimes sem Panicao contra Jornalistas
Pediu-se aos reporteres que fossem a cidade para fazer reportagens que se
registrassem corn nomes falsos e se expusessem pouco. "E muito perigoso", disse
urn investigador em Bogota. "0 homem é urn polvo que tern espioes por toda
parte. Frequentemente, quando falamos corn uma testemunha, somos informados
de que foi ameacada."
A historia pessoal de Oviedo, que circulava em Armenia, foi publicada eventual-
mente em urn jornal de Bogota. Urn homem corn passado humilde que se fez. Sua
mae foi prostituta que se esforcou muito para dar uma educacao universitaria a
um filho precoce. Apos formar-se, Oviedo uniu-se a urn grupo juvenil do Partido
Conservador e ganhou uma bolsa para estudar direito, formando-se corn louvor.
Sua carreira como advogado especializado em leis penais deslanchou quando
comecou a representar supostos narcotraficantes no Vale do Cauca nor te e membros
do cartel de Cali. Em pouco tempo comecou a dirigir carros caros e a ostentar
riqueza em locais pnblicos. os ser eleito para o Congresso, em 1994, supostamente
com o apoio dos narcotraficantes, Oviedo apoiou muitos dos projetos de lei
favorecidos pelos carteis de drogas. Votou a favor da absolvicao do presidente Samper
durante a investigacao do Congresso sobre a acusacao de que Samper havia aceitado
contribuicoes dos narcotraficantes para sua campanha presidential.
As conexCies politicas de Oviedo C sua nova riqueza, calculada em varios milhoes
de Mares, atraiam as mulheres. "Sempre tinha as melhores garotas da cidade",
comentou urn investigador. Usava frequentemente suas Iigacoes politicas para
conseguir emprego para as mocas que queria conquistar, segundo alguns moradores
da cidade.
Os investigadores implicaram Oviedo em nove assassinatos de cmpresarios,
cantorcs, estudantes, jornalistas e ate bandidos. John Jairo Duarte Valencia, cantor
e dono do bar El Zaguan de las Guitarras, foi supostamente assassinado porque
impediu que Oviedo e seus amigos entrassem no bar porque provocavam brigas
corn outros clientes.
Para alguns moradores mais pobres de Armenia, Oviedo foi uma especie de Robin
Hood. "Tinha seu lado born e seu lado de assassino", afirmou uma pessoa que nao
quis se identificar, como muitos em Armenia.
"0 que Oviedo fez cm Armenia foi criar uma cede atraves da qual muita gente
era responsavel diante dele", disse Orozco, da RCN. "Tinha muitas amigas. Se voce
fosse a qualquer ministerio e visse uma mulher Bonita, logo era informado de que
estava saindo corn Oviedo."
Oviedo tambem era dono de urn jornal, o Diario de Colombia, e de duas emissoras
de radio. 0 time de futebol local, o Deportes Quindio, c o de basquete, Cafeteros,
eram de sua propriedade. Todos esses negocios foram supostamente comprados corn
o salario de urn congressista, cerca de 8.000 Mares mensais.
0 assassinato de Ernesto Acero Cadena
Jairo Elias Marquez ainda estaria vivo se o assassinato de Ernesto Acero Cadena
tivesse sido solucionado. Ele foi o primeiro reporter assassinado a mando de Oviedo,
segundo informacOes fornecidas a SIP pelos investigadores. Acero, de 59 anos, foi
baleado na manila de 12 de dezembro de 1995. Um jovem assassino abordou-o a dois
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais
12 Impunidade Nunca Mais

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
EntulhoLamaVianna
 
O AnôNimo No Jornalismo LiteráRio
O AnôNimo No Jornalismo LiteráRioO AnôNimo No Jornalismo LiteráRio
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
Hideumi Sekiguchi
 
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
HENRIQUE FIGUEIRO
 
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a DitaduraHistória - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
Adriana Andrade
 
O terrorista de 1968 (1)
O terrorista de 1968 (1)O terrorista de 1968 (1)
O terrorista de 1968!
O terrorista de 1968!O terrorista de 1968!
O terrorista de 1968!
Dilmene Rodrigues
 
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
Professor Belinaso
 
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
zpizarro
 

Mais procurados (9)

Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
Desarmamento Civil - Brasil - Parte 5.
 
O AnôNimo No Jornalismo LiteráRio
O AnôNimo No Jornalismo LiteráRioO AnôNimo No Jornalismo LiteráRio
O AnôNimo No Jornalismo LiteráRio
 
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
 
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
 
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a DitaduraHistória - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
História - Manifestações Culturais no Brasil durante a Ditadura
 
O terrorista de 1968 (1)
O terrorista de 1968 (1)O terrorista de 1968 (1)
O terrorista de 1968 (1)
 
O terrorista de 1968!
O terrorista de 1968!O terrorista de 1968!
O terrorista de 1968!
 
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
White Zombie e o Crioulo: O livro de William Seabrook The Magic Island e o im...
 
O terrorista de 1968
O terrorista de 1968O terrorista de 1968
O terrorista de 1968
 

Semelhante a 12 Impunidade Nunca Mais

24 Mapa de riscos para jornalistas
24 Mapa de riscos para jornalistas24 Mapa de riscos para jornalistas
24 Mapa de riscos para jornalistas
Horacio Ruiz
 
O lodo
O lodo O lodo
O lodo
reflecaoacao
 
Governança Mundial
Governança MundialGovernança Mundial
Governança Mundial
Guy Valerio Barros dos Santos
 
Chomsky: as pessoas não acreditam mais
Chomsky: as pessoas não acreditam maisChomsky: as pessoas não acreditam mais
Chomsky: as pessoas não acreditam mais
Giba Canto
 
Aula 3 declaratorio, dossie e investigativo
Aula 3   declaratorio, dossie e investigativoAula 3   declaratorio, dossie e investigativo
Aula 3 declaratorio, dossie e investigativo
Ed Marcos
 
A esquerda e o crime organizado
A esquerda e o crime organizadoA esquerda e o crime organizado
A esquerda e o crime organizado
Giba Canto
 
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
Umberto Neves
 
Diz Jornal - Edição 212
Diz Jornal - Edição 212Diz Jornal - Edição 212
Diz Jornal - Edição 212
dizjornal jornal
 
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
Lucio Borges
 
1984 george orwell
1984 george orwell1984 george orwell
1984 george orwell
Allan Smaniotto
 
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin LadenTerrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
JadiVentin
 
Jutorides 2011 janeiro-4
Jutorides 2011 janeiro-4Jutorides 2011 janeiro-4
Jutorides 2011 janeiro-4
uaivirgula
 
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o GolpeMaterial de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
Miguel Rosario
 
Jornalismo investigativo
Jornalismo investigativoJornalismo investigativo
Jornalismo investigativo
aulasdejornalismo
 
Powerpopint
PowerpopintPowerpopint
468 an 26_março_2014.ok
468 an 26_março_2014.ok468 an 26_março_2014.ok
468 an 26_março_2014.ok
Roberto Rabat Chame
 
Apresentação perguntas
Apresentação perguntasApresentação perguntas
Apresentação perguntas
inscricaocases
 
Inconfidência nº 228‏
Inconfidência nº 228‏Inconfidência nº 228‏
Inconfidência nº 228‏
Lucio Borges
 
A cabala secreta
A cabala secretaA cabala secreta
Expresso n5
Expresso n5Expresso n5
Expresso n5
Professor
 

Semelhante a 12 Impunidade Nunca Mais (20)

24 Mapa de riscos para jornalistas
24 Mapa de riscos para jornalistas24 Mapa de riscos para jornalistas
24 Mapa de riscos para jornalistas
 
O lodo
O lodo O lodo
O lodo
 
Governança Mundial
Governança MundialGovernança Mundial
Governança Mundial
 
Chomsky: as pessoas não acreditam mais
Chomsky: as pessoas não acreditam maisChomsky: as pessoas não acreditam mais
Chomsky: as pessoas não acreditam mais
 
Aula 3 declaratorio, dossie e investigativo
Aula 3   declaratorio, dossie e investigativoAula 3   declaratorio, dossie e investigativo
Aula 3 declaratorio, dossie e investigativo
 
A esquerda e o crime organizado
A esquerda e o crime organizadoA esquerda e o crime organizado
A esquerda e o crime organizado
 
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
Destaques Enciclopédia 15-12-2014 a 21-12-2014
 
Diz Jornal - Edição 212
Diz Jornal - Edição 212Diz Jornal - Edição 212
Diz Jornal - Edição 212
 
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
O CONTROVERSO E FORJADO MEMORANDO DA CIA - artigo do historiador coronel Cláu...
 
1984 george orwell
1984 george orwell1984 george orwell
1984 george orwell
 
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin LadenTerrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
Terrorismo - De Nelson Mandela a Osama Bin Laden
 
Jutorides 2011 janeiro-4
Jutorides 2011 janeiro-4Jutorides 2011 janeiro-4
Jutorides 2011 janeiro-4
 
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o GolpeMaterial de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
Material de divulgação do volume 2 da Enciclopédia do Golpe: A Mídia e o Golpe
 
Jornalismo investigativo
Jornalismo investigativoJornalismo investigativo
Jornalismo investigativo
 
Powerpopint
PowerpopintPowerpopint
Powerpopint
 
468 an 26_março_2014.ok
468 an 26_março_2014.ok468 an 26_março_2014.ok
468 an 26_março_2014.ok
 
Apresentação perguntas
Apresentação perguntasApresentação perguntas
Apresentação perguntas
 
Inconfidência nº 228‏
Inconfidência nº 228‏Inconfidência nº 228‏
Inconfidência nº 228‏
 
A cabala secreta
A cabala secretaA cabala secreta
A cabala secreta
 
Expresso n5
Expresso n5Expresso n5
Expresso n5
 

Mais de Horacio Ruiz

New code words for censorship
New code words for censorshipNew code words for censorship
New code words for censorship
Horacio Ruiz
 
16 New Code Words for Censorship
16 New Code Words for Censorship16 New Code Words for Censorship
16 New Code Words for Censorship
Horacio Ruiz
 
23 Risk Map for Journalists
23 Risk Map for Journalists23 Risk Map for Journalists
23 Risk Map for Journalists
Horacio Ruiz
 
19 The Story of the lAPA
19 The Story of the lAPA19 The Story of the lAPA
19 The Story of the lAPA
Horacio Ruiz
 
14 Impunity NO MORE
14 Impunity NO MORE14 Impunity NO MORE
14 Impunity NO MORE
Horacio Ruiz
 
07 Freedom of thought and expression
07 Freedom of thought and expression07 Freedom of thought and expression
07 Freedom of thought and expression
Horacio Ruiz
 
17 Gestión periodística
17 Gestión periodística17 Gestión periodística
17 Gestión periodística
Horacio Ruiz
 
15 areopagítica
15 areopagítica15 areopagítica
15 areopagítica
Horacio Ruiz
 
20 Reporte sobre a historia da SIP
20 Reporte sobre a historia  da SIP20 Reporte sobre a historia  da SIP
20 Reporte sobre a historia da SIP
Horacio Ruiz
 
09 La libertad de expressao
09 La libertad de expressao09 La libertad de expressao
09 La libertad de expressao
Horacio Ruiz
 
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
Horacio Ruiz
 
26 Valores Periodísticos
26 Valores Periodísticos26 Valores Periodísticos
26 Valores Periodísticos
Horacio Ruiz
 
22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas
Horacio Ruiz
 
22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas
Horacio Ruiz
 
21 Oradores Invitados
21 Oradores Invitados21 Oradores Invitados
21 Oradores Invitados
Horacio Ruiz
 
18 Manual de Estilo
18 Manual de Estilo18 Manual de Estilo
18 Manual de Estilo
Horacio Ruiz
 
17 Gestión periodística
17 Gestión periodística17 Gestión periodística
17 Gestión periodística
Horacio Ruiz
 
13 Impunidad nunca más
13 Impunidad nunca más13 Impunidad nunca más
13 Impunidad nunca más
Horacio Ruiz
 
11 La libertad de Expresión y Prensa
11 La libertad de Expresión y Prensa11 La libertad de Expresión y Prensa
11 La libertad de Expresión y Prensa
Horacio Ruiz
 
10 la Libertad de Expresión
10 la Libertad de Expresión10 la Libertad de Expresión
10 la Libertad de Expresión
Horacio Ruiz
 

Mais de Horacio Ruiz (20)

New code words for censorship
New code words for censorshipNew code words for censorship
New code words for censorship
 
16 New Code Words for Censorship
16 New Code Words for Censorship16 New Code Words for Censorship
16 New Code Words for Censorship
 
23 Risk Map for Journalists
23 Risk Map for Journalists23 Risk Map for Journalists
23 Risk Map for Journalists
 
19 The Story of the lAPA
19 The Story of the lAPA19 The Story of the lAPA
19 The Story of the lAPA
 
14 Impunity NO MORE
14 Impunity NO MORE14 Impunity NO MORE
14 Impunity NO MORE
 
07 Freedom of thought and expression
07 Freedom of thought and expression07 Freedom of thought and expression
07 Freedom of thought and expression
 
17 Gestión periodística
17 Gestión periodística17 Gestión periodística
17 Gestión periodística
 
15 areopagítica
15 areopagítica15 areopagítica
15 areopagítica
 
20 Reporte sobre a historia da SIP
20 Reporte sobre a historia  da SIP20 Reporte sobre a historia  da SIP
20 Reporte sobre a historia da SIP
 
09 La libertad de expressao
09 La libertad de expressao09 La libertad de expressao
09 La libertad de expressao
 
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
32 Crímenes sin Castigo contra Periodistas
 
26 Valores Periodísticos
26 Valores Periodísticos26 Valores Periodísticos
26 Valores Periodísticos
 
22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas
 
22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas22 Mapa de Riesgo para periodistas
22 Mapa de Riesgo para periodistas
 
21 Oradores Invitados
21 Oradores Invitados21 Oradores Invitados
21 Oradores Invitados
 
18 Manual de Estilo
18 Manual de Estilo18 Manual de Estilo
18 Manual de Estilo
 
17 Gestión periodística
17 Gestión periodística17 Gestión periodística
17 Gestión periodística
 
13 Impunidad nunca más
13 Impunidad nunca más13 Impunidad nunca más
13 Impunidad nunca más
 
11 La libertad de Expresión y Prensa
11 La libertad de Expresión y Prensa11 La libertad de Expresión y Prensa
11 La libertad de Expresión y Prensa
 
10 la Libertad de Expresión
10 la Libertad de Expresión10 la Libertad de Expresión
10 la Libertad de Expresión
 

12 Impunidade Nunca Mais

  • 1. Crimes Sem Punicdo Contra Jornalistas SOCIEDADE INTERAMERICANA DE IMPRENSA
  • 2. liquilifido NifilICA 11AIS Crimes sem Punicao contra Jornalistas
  • 3. clamEditor e diretor do projeto Ricardo Trotti Colaboradores Ernesto Sabato Anthony Lewis Gabriel Michi Investigacao de casos Ana Arana Investigadores de apoio Ignacio GOrnez Maria Clara Prates Santos Assistente do editor Melba Jimenez Colonial Press International, Inc. 3690 NW 50th Street, Miami, Florida 33142 Ilustracao da capa Ricardo Trotti, da serie "Os labirintos da impunidade", 1999, acrilico e argila some tela, 150 cm. x 120 cm. Projeto grafico Robertson Adams Este livro foi composto corn o software Adobe InDesign. ©1999 Sociedade Interamericana de Imprensa. Todos os direitos reservados.
  • 4. ,111) r NINA idadc RIS Crimes sem Punicao contra Jornalistas Sociedade Interamericana de Imprensa E-mail: info@sipiapa.org • Web: http://www.sipiapa.org
  • 5. Em agradecimento a j(PliN S N•11) JAME.'s L. Knight Foundation por seu sempre generoso apoio a realizacao e a continuacao do projeto Crimes sem Punicao contra Jornalistas.
  • 6. Homenagem A todos os jornalistas assassinados no exercicio de sua profissao.
  • 7. 6 Impunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Por -0o contra Jornatistas RIME EllICANA 11.PlIENSA Presidente 1998 —1999 Jorge E. Fascetto, El Dia, La Plata, Argentina 1° Vice-presidente Tony Pederson, Houston Chronicle, Houston, Texas, Estados Unidos 2° Vice-presidente Danilo Arbilla, Btisqueda, Monteyideu, Uruguai Presidente — Comissao de Impunidade Alberto lbarguen, The Miami Herald, Miami, Florida, Estados Unidos Vice-presidente — Comissio de Impunidade Luis Gabriel Cano, El Espectador, Santafe de Bogota, Colombia Membros — Comissao de Impunidade Claudio Escribano, La NaciOn, Buenos Aires, Argentina Ricardo Troth, Miami, Florida, Estados Unidos Paulo Cabral, Correio Braziliense, Brasilia, Brasil Enrique Santos Calderon, El Tiempo, Santafe de Bogota, Colombia Gonzalo Marroquin, Prensa Libre, Cidade da Guatemala, Guatemala Jose Santiago Healy, El Impartial, Hermosillo, Sonora, Mexico Presidente — Comissao de Liberdade de Imprensa e Informacfio Robert Cox, The Post and Courier, Charleston, Carolina do Sul, Estados Unidos Diretor Executivo Julio Munoz, SIP, Miami, Florida, Estados Unidos Coordenador de Liberdade de Imprensa Carlos Molina, SIP, Miami, Florida, Estados Unidos Ag radepimento especial ao The Miami Heraide El Nuevo Herald, que teina-rampossiyel esta ublicacao
  • 8. 7 Prolog° 9 Introducho 11 Mensagem do presidente 15 Informe da Comissao 17 Novas Investigacaoes 19 Colombia Caso Gerardo Bedoya Borrero 25 Caso Jairo Elias Marquez Gallego 40 Brasil 52 Caso Aristeu Guida da Silva 56 Caso Zaqueu de Oliviera 71 Investigacoes Pendentes 83 Irma Flaquer Azurdia 86 Jorge Carpio Nicolle 96 Hector Felix Miranda 103 Victor Manuel Oropeza 116 Carlos Lajud Catalan 122 Guillermo Cano Isaza 126 Bata lhas 130 Conferencia Hemisferica 150 Lista dos Convidados Ilustres 172 Resolucoes da Conferencia Hemisferica na Guatemala 174 Resolucao oficial adotada pela UNESCO 180 Resolucao adotada pela Organizacao dos Estados Americanos 182 Informe Especial: 0 crime contra Jose Luis Cabezas 184 Resolucoes da SIP 196 Encerramento 220
  • 9. 8 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas Ernesto Sabato durante um momento de relaxamento em seu jardim em Buenos Aires.
  • 10. P Nunca Mais aos Crimes contra Jornalistas Por Ernesto Sabato S ei que sao muitos os pronunciamentos sobre os direitos sagrados da pessoa ao longo da historia e, em nosso tempo, estes vao dos direitos consagrados pela Revolucao Francesa ate os estipulados nas Cartas Universals de Direitos Humanos e nas grandes enciclicas desse seculo. Todas as nacoes civilizadas, entre elas a nossa, estabeleceram em suas constituicoes garantias que nunca podem ser suspensas nem mesmo nos mais catastroficos estados de emergencia; o direito a integridade pessoal, o direito a julgamento; o direito a nao sofrer condicOes inumanas de prisao, negacao da justica ou execuedo sumaria, mas antes de tudo, e principalmente, o direito a vida. Entretanto, o homem continua sendo Ernesto Sabato Nasceu em Rojas, provincia de Buenos Aires, Argentina, em 1911. Fez seu doutorado em fisica e cursos de filosofia na Universidad de La Plata; trabalhou no Laboraterio Curie, e abandonou definitivamente as ciencias em 1945 para dedicar-se a literatura. Escreveu varios livros de ensaios sabre a homem na crise de nossos tempos e sabre o sentido da atividade literaria: Uno e o universo (1945), Homens e engrenagens (1951), 0 escritor e seus fantasmas(1963) e Apologias y rechazos [Apologia e oposigiies] (1979). E autor dos romances 0 tanel (1948), Sabre herais e tumbas (1961) e Abaddon, o exterminador (1974). Em 1983 foi eleito presidente da Comissao Nacional do Desaparecimento de Pessoas, criada par decisao do presidente da Republica Argentina, RaCil Alfonsin. Fruto das tarefas desta comissao foi o intimidante volume Nunca Mais (1985), conhecido como "Relatorio Sabato". Em 1984 recebeu o Prernio Cervantes, e em 1989, a Prernio Jerusalem. 0 volume Entre a tetra e o sangue (1989) reOne sues converses coin Carlos Catania. 0 melhor de Ernesto Sabato (1989) é uma antologia cuja selecao, prolog() a comentarios estiveram sob a responsabilidade do autor. Em 1998 publicou Antes del Fin (memOrias). 9
  • 11. 10 Impunidade NUNCA MATS—Crimes sem Punicao contra Jornalistas tragicamente o algoz do homem. E nenhum progresso tecnico ou cientifico enfraquece essa conduta, porque a etica e a estetica do homem nao sao construidas com os valores do cientificismo nem da tecnologia, que nao impedem que continue destruindo o proprio planeta. Mas atento ao que me solicita nessa ocasido a Sociedade Interamericana de Imprensa, refiro-me ao direito a vida e, especificamente, aos crimes cometidos contra jornalistas, cuja impunidade e quantidade — mais de 200 na Ultima decada — tao justificadamente alarmam a SIP, que as revela. Considere-se, alem disso, que essa forma de "censura", a mais arcaica e brutal, de coacao da liberdade de imprensa e da liberdade de expressao, nao apenas constitui o desaparecimento fisico do mensageiro, mas tambern da mensagem, o desaparecimento da informacao, ou seja, a eliminacdo total do objetivo essencial do jornalismo. Lutei durante toda a minha vida em favor dos direitos huma.nos e da liberdade de expressao, porque nao tenho nenhuma dovida de que sem liberdade de imprensa nao pode haver democracia. E se considero execravel e inaceitavel que um jornalista seja assassinado pela simples razdo de estar cumprindo seu Bever de inforrnar, tambem considero moral e juridicamente inaceitavel que esse assassinato fique sem punicao. E por isso que apoio fervorosamente a iniciativa da SIP dos "Crimes sem Punicao Contra Jornalistas" que a Organizacdo dos Estados Americanos (OEA) e a Organizacao das Nacoes Unidas para Educacdo, Ciencia e a Cultura (UNESCO) assumiram como sua, projetando-a em escala mundial. E comprometo-me, na modesta medida das minhas forcas, a contribuir para tal projecdo, para poder dizer, em relacdo aos crimes contra jornalistas, NUNCA MATS.
  • 12. A impunidade nao é uma Causa so dos Jornalistas Por Anthony Lewis U ma imprensa livre é como um candrio em uma mina. Assim como a morte do candrio in forma aos mineiros sobre 0 perigo, a morte da liberdade de imprensa significa que uma sociedade esta em perigo. Para a imprensa da America Latina, a morte nao e uma metafora. E uma realidade. Na Ultima decada, 200 reporteres, fotografos, editores e colunistas foram assassinados. Eles nao estavam cobrindo guerras ou algo que pudesse ser considerado particularmente perigoso. Estavam apenas fazendo seu trabalho regular: tentando divulgar a verdade. Por isso, foram condenados a morte. Anthony Lewis E colunista do jornal The New York Times desde 1969. Em sua carreira, recebeu dois premios Pulitzer: em 1955, por uma serie de artigos sobre a demissao de urn funcionario da marinha norte-americana, a em 1963 por sua cobertura do Supremo Tribunal de Justica. Trabalhou no escritorio do New York Times em Londres. Durante 15 anos foi professor da Escola de Direito da Universidade de Harvard. Escreveu tres livros: Gideonis Trumpet, Retrato de uma Epoca e Nab Facam Leis: o Caso Sullivan e a Primeira Emenda.
  • 13. 12 Impunidade NUNCA MAIS — Crimes sem Punicoo contra Jornalistas Na maioria desses casos de assassinato, suspeita-se do envolvimento de funcionarios do governo, elementos do Exercito e gangues de narcotraficos. Isso porque as vitimas frequentemente haviam se manifestado contra crimes e corrupcdo oficiais e sobre a perversao dos chefoes das drogas. A suspeita da participacdo oficial nos assassinatos fica ainda mais fortalecida corn o fato — alias, assustador —, de que os crimes tenham ficado sem punicao. Os investigadores tiveram que enfrentar ameacas, corrupcdo e indiferenca oficial. Assassinato corn impunidade: e essa a realidade corn a qual se defrontam os jornalistas latinos no exercicio de sua profissdo. Isso significa que o governo nab tern vontade ou capacidade de desempenhar sua mais basica funcao, que e manter a lei e a ordem. Para urn jornalista como eu, que passou sua vida profissional temendo tudo menos a ira dos politicos e de outros que tenha criticado, a ideia de ser morto por proferir verdades criticas e algo que choca. Foi o que senti quando ouvi as historias contadas pelos familiares dos jornalistas assassinados durante a Conferencia da Sociedade Interamericana de Imprensa realizada na Guatemala em 1997. Irma Flaquer Azurdia, uma colunista guatemalteca, foi sequestrada e esta desaparecida ate hoje. Uma chamada telefonica de urn militar avisou sua familia para que ndo investigasse seu desaparecimento. Jorge Garcia Laguardia disse que seu desaparecimento ilustrava o objetivo das autoridades guatemaltecas na epoca: "eliminar a sociedade Varios governos autoritarios na America Latina, acrescentou, tentaram, "sob o pretexto de combater comunismo, eliminar toda a oposicao politica". Urn amplo movimento em direcao a democracia na America Central e do Sul tem substituido a maioria dos governos autoritarios nos tiltimos anos. Mas a democracia e ainda fragil em alguns locais. As forcas que dominaram os antigos regimes ainda impedem a solucao dos crimes contra jornalistas. Jorge Carpio Nicolle, urn importante editor guatemalteco, morreu em 1993, durante uma emboscada armada por 30 homens encapuzados que pararam seu carro em uma estrada em local afastado. Sua vitiva, Marta Arrivillado de Carpio, declarou durante a conferencia: "perguntaram se ele era Jorge Carpio. Depois atiraram nele. Meu marido caiu em meus bravos". A sra. Carpio, que assumiu o cargo do marido no jornal El Grcifico, disse que o policial encarregado de investigar o crime tambem foi assassinado e que houve eliminacao de provas. Tudo isso na epoca em que o primo de Carpio, Romiro de Leon Carpio, era presidente da Guatemala. Urn pouco antes da conferencia de 1997, urn editor mexicano que escrevia sobre a colaboracao dos traficantes de drogas e oficiais corruptos, Benjamin
  • 14. Na Guatemala, dois camponeses ergueram cruzes no local onde foram assassinados Jorge Carpio Nicolle e seus tras acompanhantes. Introducao 13 Flores Gonzalez, morreu criva- do de balas. Guillermo Cano, da Colombia, que fez campa- nha contra Pablo Escobar, foi assassinado. Um corajoso foto- grafo na Argentina, Jose Luiz Cabezas, foi assassinado depois de tirar uma foto de urn empre- sari° cuja figura era mantida em sigilo e que tinha conexoes comerciais obscuras. June Erlick, do David Rockefeller Center for Latin American Studies na Harvard University, falou, tambem na conferencia, sobre a investiga- can realizada pela SIP para o caso de Jorge Carpio. "Era como se eu estivesse assistindo a urn curso na faculdade", disse. "Impunidade 101. Foi assim que me senti ao ver testemunhas e mais testemunhas na conferen- cia de 1997 descrevendo os metodos usados para que nao houvesse nenhuma investigacao real desses assassinatos: corrupcdo da policia, destruicao de provas, ameacas contra os familiares das vitimas". A Sociedade Interamericana de Imprensa esta lutando contra a impuni- dade no assassinato de jornalistas. Este livro é parte dessa luta, e conta a historia do que foi feito e do trabalho que ainda deve ser feito para revelar a verdade dessas mortes e da impunidade. Mas essa nao é uma causa restrita aos jornalistas. Esses homens e mulheres foram assassinados para enviar uma mensagem a todos os membros da sociedade: "Nan discordem dos poderosos; nao se oponham ao mal". Deixar de rebater essa mensagem seria aceitar o resultado, uma sociedade silenciosa — um preco terrivel a pagar. Ha. muito mais em jogo do que apenas a liberdade de imprensa. Os assassinatos flagrantes que ficam impunes contaminam uma sociedade, destruindo a confianca na lei. Quando ficam sem punicao, esses assassina- dos sao testemunho de uma cultura de intimidacao.
  • 15. 14 Impueidade NUNCA MAIS — Crimes sem Ptinicao contra Jornalistas
  • 16. A Forma mais Arcaica e Brutal de Suprimir a Liberdade de Imprensa Por Jorge Eduardo Fascetto H oje, as vesperas do seculo 21, centenas de colegas nossos continuam sendo assassinados pelo simples fato de exercer o direito de expressar sua opiniao ou cumprir completamente seu dever de informar. Na Ultima decada, mais de 200 jornalistas foram assassinados no exercicio de sua profissao. Foram vitimados porque sua mensagem tornou- se incomoda para Os inescrupulosos que executaram ou ordenaram seus assassinatos. Desse modo, em uma epoca de rapido desenvolvimento tecnologico, cientitico e institutional, subsiste a forma mais arcaica e brutal de suprimir a liberdade de imprensa e de expressao. Infelizmente, a Jorge Eduardo Fascetto E presidente da Sociedade Interamericana de Imprensa 1998 — 1999. Editor do jornal Diario Popular, Buenos Aires, Argentina, e vice-presidente do conselho de diretores do jornal El Dia, La Plata. Foi vice-presidente da Associacao de Entidades Jornalisticas Argentinas (ADEPA), vice-presidente do Comite Executivo da Associaceo de Jornais do Interior da RepOblica Argentina e presidente do conselho de diretores da agencia de noticias Noticias Argentinas. Formou-se em engenharia civil pela Universidade Nacional de La Plata. 15
  • 17. 16 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas experiencia demonstra que a eliminacao de jornalistas é uma das taticas de encobrimento da verdade mais dificeis de erradicar. A morte de urn jornalista representa nao apenas o desaparecimento fisico do mensageiro, mas tambem a supressao da mensagem. Atraves disco, impede-se o exercicio do direito de ser informado por parte daqueles que poderiam ter se beneficiado corn a leitura do que esse colega tentava comunicar. De certo modo, e o proprio futuro do jornalismo que se coloca em risco tambem coin esses crimes, assim como o de leitores/ouvintes frustrados, cujas vidas poderiam ter sido modificadas pelo conhecimento que lhes foi negado. Atraves do projeto Crimes sem Punicao contra Jornalistas, a SIP continua chamando a atencao da opinido publica internacional, dos governos e das entidades multilaterais para o grave problema que representa a pratica do assassinato como forma de calar a voz dos homens e mulheres da imprensa, fato que torna-se ainda mais grave por causa da reiterada impunidade dos autores materiais e intelectuais desses crimes. 0 objetivo da campanha empreendida e, obviamente, conseguir que os culpados materiais e intelectuais sejam punidos. Mas esta pretende tambem obter o esclarecimento e a condenacao justa dos responsaveis, de modo a dissuadir os potenciais assassinos e colocar urn ponto final nesse terrivel movimento que pretende intimidar a imprensa e obstruir o direito do publico a informacao. (Trecho do discurso apresentado em Bogota, Colombia, em uma reuniao da UNESCO, durante a comemoracao do Dia Mundial de Liberdade de Imprensa, em 3 de maio de 1999. Nessa cerimonia, a UNESCO levou o projeto Crimes sern Punka() da SIP a escala mundial, a outras entidades dedicadas tambem a defesa e promocao da liherdade de imprensa.)
  • 18. A Batalha Contra a Impunidade Continua Por Alberto lbargiien C om o passar dos anos, o projeto Crimes sem Punicao contra Jornalistas foi-se convertendo em urn formidavel instrumento de combate a impunidade. Este livro e o fiel reflexo dessa luta, descrita nas investigacoes dos assassinatos e no relato pormenorizado de como a SIP foi contagiando outras organizacoes para se unirem a essa batalha contra a impunidade. As frentes abertas silo muitas, e contundentes. A Comissao Interamericana dos Direitos Humans pronunciou-se em varios casos denunciados pela SIP, ao mesmo tempo que a UNESCO propagou esse projeto a diferentes regiOes do mundo, atraves de outras instituicOes tambem promotoras da Alberto lbargiien E diretor do The Miami Herald e presidente da The Miami HeraidPublishing Co. Foi diretor do El Nuevo Herald de 1995 a 1998. Atualmente, é presidente da Comiss5o de Impunidade da SIP. Ocupou o cargo de vice-presidente executivo de operacties do Newsday e do New York Newsday e uniu-se a Times Mirror Company em 1984 como vice-presidente de finangas e administra0o do The Hartford Courant. lbargiien exerceu advocacia em Hartford, Connecticut. Foi diretor do Corpo da Paz dos Estados Unidos na Colombia. E presidente da Orquestra Filarmitinica da Florida. 17
  • 19. impundade AMA MATS — Crimes sem Pomona contra JorMistas liberdade de expressao. Toda essa gestao inestimavel da SIP nao teria sido possivel sem o generoso apoio que a Fundacao John S. e James L. Knight tern prestado durante tantos anos. certo que existe agora uma maior consciencia sobre as conseqiiencias nefastas que a impunidade acarreta para as redacOes, a liberdade de imprensa e a democracia. Mas tambern é verdade que nao podernos abandonar esse compromisso. Devemos continuar combatendo, porque, tal como definido pela Premio Nobel da Paz, Rigoberta Menchti, "a impunidade e uma responsabilidade que todos temos gue enfrentar". Assumindo mais uma vez nossa obrigacao, e como uma inferencja natural do projeto e de sua Conferencia Hemisferica realizada em 1997, continuaremos nossa luta por meio de urn esforco de investigacao mais profundo e sistematico atrave's das Unidades de Resposta Rapida. Estamos convencidos de que a aca.o duradoura contra a impunidade e a busca constante da justica sao Os unicos agentes persuasivos que permitirdo dar fim a violencia contra os jornalistas.
  • 20. ColOmbia: Introducao A Colombia é o pais ma is perigoso para os jornalistas no hemisferio ocidental. E tambem urn pais no qual se exerce constantemente urn jornalismo inovador. Na verdade, nos illtimos tres anos, a imprensa colombiana tornou-se mais ousada, publicando histOrias que expoem a corrupcao. Esse tipo de jornalismo é mais comumente encontrado nos meios de comunicacao coin sede na capital, em Bogota. Mas os jornalistas do interior comecaram mais recentemente a praticar urn jorna- lismo contundente. Os assassinatos, em 1997, de Gerardo Bedoya e Jairo Elias Marquez, refletem as conseqUencias por vexes resultantes de urn jornalismo desse tipo. Trabalhando rias cidades de Cali e Armenia, respectivamente, os dois desafiaram funcionarios corruptos e, no caso de Bedoya, os traficantes de drogas. Bedoya e Marquez eram bastante diferentes. Bedoya era urn escritor erudito, brilhante e refinado. Marquez Ana Arana Jornalista investigativa, Arana é membro do Center for War Peace and the News Media na Universidade de Nova York. Tambem este trabalhando em um projeto no Panos Institute em Washington, D.C., e tern trabalhado como jornalista independente para a SIP. Em 1992, juntou-se ao San Jose Mercury News, como jornalista contratada. Foi freelance do New York Daily News e, de 1988 a 1991, trabalhou como correspondente estrangeira para os jornais The Miami Herald, U.S. News and World Report, The Baltimore Sane Sun Sentinel,fazendo reportagens sobre a America Central, Colombia e Venezuela. No periodo 1994-1995, foi coordenadora de programas para as Americas para o Comite de Protecao de Jornalistas. 19
  • 21. 20 imponidade NUNCA MA/S — Crimes sem Punicao contra Jornalistas era urn jornalista irreverente, malfalado, cuja prosa tinha erros gramaticais e revelava favoritismo politico. Os dois jornalistas tinham urn grande publico leitor e tiveram influCncia em suas cidades, onde desafiaram as estruturas corruptas do poder que ate entao eram consideradas intocaveis. E triste e grotesco que esses jornalistas tcnham morrido durante sua missao. Mas deixar os crimes sem solucao seria ainda pior. Revelacifies do Processo 8000 Entre 1995 e 1997, reporteres e colunistas de Bogota realizaram uma grande investigacao sobre acusacoes de que o cartel de Cali tinha penetrado nos mais altos niveis dos circulos politicos, comerciais e sociais da Colombia. Conhecida como processo 8000, a investigacao forncceu tantas revelaybes decisivas que os principais reporteres e editores de meios influentes tomaram precaucoes, tais como o use de guarda-costas e de carros blindados. As revelacOes da midia e das investigacoes judiciais encurtaram as carreiras de varios funcionarios corruptor e cidadaos comuns. Entre os que se atreviam a apontar os nomes dos acusados, como se fazia em Bogota, estavam Bedoya e Marquez. Bcdoya era escritor de editoriais e colunista do jornal El Pais de Cali, uma cidade no oeste da ColOmbia. Marquez publicava uma pequena revista em Armenia, na zona cafeeira. Mas sua situacao era diferente da de seus colegas da capital porque "viviam nas entranhas da besta", coma a amiga de Bedoya, Xi mena Palau, costumava dizer. Bedoya foi assassinado em 20 de mat-co de 1997, aparentemente a mando do cartel de narcnticos de Cali. No caso de Marquez, sua morte foi supostamente ordenada pelo senador Carlos Alberto Oviedo, urn congressista que os investigadores afirmavam ser corrupto e ligado a narcotraficantes poderosos. Oviedo esta atualmente preso na Prisao Nacional Modelo, em Bogota, sob acusacdo de ter sido a mandante de varios assassinatos. Na Ultima semana de abril de 1999, o Supremo Tribunal de lustica confirmou sua sentenca de prisao. Apcsar de ser o principal suspeito do assassinato de Marquez, existem poucas provas e ele pode nao ser formalmente acusado de assassinato, segundo informaybes de fontes judiciais. Oviedo esta sendo tambern acusado do assassinato de Ernesto Acero Cadena, ocorrido em 1995. Jorge Ivan Obando, acusado de ser o autor material desse assassinato, esta preso na Prisao Nacional Modelo desde que foi capturado, em novembro de 1998. O assassinato de Bedoya envolveu provavelmente nao apenas o cartel de drogas de Cali mas tambem seus comparsas politicos de Cali e Bogota. 0 processo foi transferido para a Unidade de Direitos Humanos da Procuradoria, em Bogota, mas nao se tern noticias de progressos na investigacao. 0 cartel de Cali e seus cumplices Todo o sistema investigativo sob o qual desenvolveram-se esses dois casos esta "oscilando" porque a maioria dos crimes contra jornalistas foi entregue a juizes regionais ("sem rosto") e atualmente o Congresso legisla para acabar corn o sistema
  • 22. • Bogota Novas Investigacdes na ColOmbia a no Brasil 21 0 A JAIRO ELIAS MARQUEZ GALLEGO ASSASSINATO ARMENIA, COLOMBIA ,- .,,) i 7 • COLOMBIA GERARDO BEDOYA BORRERO ASSASSINATO Capital Area Idioma Oficial Populacao Densidade de Populacao (hab./Km2) Populacao Urbana Expectativa de Vida Analfabetismo Presidente Bogota 1.138.914 Km2 Espanhol 35.886.280 29,3 73% 69 anos 18,3% Andres Pastrana
  • 23. 22 Impunidade NUNCA MAIS — Crimes sem Puniceo contra Jornalistas sem que seja ainda claro o futuro das provas obtidas ate agora. Essas duas mortes violentas enfraqueceram a rede de seguranca dos jornalistas colombianos, especialmente dos que trabalham nas provincias onde os cartels de drogas e as autoridades corruptas tern mais poder. 0 assassinato de Bedoya afetou circulos mais sensiveis. Bedoya, urn editor respeitado no jornal mais importante de Cali, tinha rclacoes estreitas corn o Partido Conservador, e especialmente corn Andres Pastrana, atual presidente da ColOmbia. Rodrigo Lloreda, diretor do El Pais e amigo pessoal de Bedoya na epoca de seu assassinato, foi Ministro da Defesa da Colombia nos primeiros meses do govern() de Pastrana. A investigacao do assassinato de Bedoya sugerc encobrimento politico. Mas foi vergonhosamente desviada por rumores de que Bedoya tenha sido assassinado por ser homossexual enrustido. Se fosse investigada da forma adequada, a morte de Bedoya poderia trazer proble- mas serios para ex-membros do governo do presidente Ernesto Samper. Existem suspeitas de que o assassinato de Bedoya tenha sido planejado e executado por pistoleiros a scrvico do cartel de Cali, que ordenaram o assassinato enquanto estavam negociando sua rendicao as autoridades colombianas ou enquanto cumpriam pena de prisdo indulgente. Mantendo as aparencias Em 1997, ap6s o lancamento da primeira edicao de Crimes sem Punicao contra Jornalistas, pela Sociedade Interamericana de Imprensa, o govern() de Ernesto Samper criou urn departamento especial para monitorar os ataques a imprensa. Sediado em urn ancxo do Palacio Presidencial, o Gabinete para Direitos Humanos nao cumpriu seu papel no que concerne a investigacoes profundas sobre os assassinatos de jornalistas. Seus representantes reuniram-se corn as familias das vitimas, mas nunca apresentaram resultados importantes. 0 departamento dedicava-se mais as funcoes de relacoes pUblicas. "Estamos em urn departamento que promove a actio", explicou Luis Manuel Lasso, o advogado encarregado. Quando interrogado sobre os resultados obtidos quanto as investigacOes dos assassinatos de jornalistas, Lasso defendeu dramaticamente "a dignidade" de seu gabinete. 0 gabinete nao possuia informac-Oes atualizadas sobre os casos investigados pela SIP em 1996 — os de Guillermo Cano, diretor do El Espectador, assassinado em 1986, ou o de Carlos Lajud Catalan, urn comunicador de radio de Barranquilla, assassinado em 1993. Segundo Lasso, a culpa nao era do gabinete, mas da falta de interesse das associacOes de jornalismo colombianas que se recusavam a trabalhar corn ele. Lasso e seus superiores pareciam ser mais competentes em frustrar os esforcos internacionais de levar os casos de Cano e Lajud perante a Comissao Interamericana de Direitos Humanos. Em seus ultimos dois anon no poder, a administracao Samper usou o gabinete para opor-se aos esforcos da SIP a esse respcito. Impunidade 0 Poder Judiciario do govern() fez alguns progressos nas investigacOes sobre
  • 24. Novas Investigaccles na Colombia e no Brasil 23 jornalistas assassinados. 0 gabinete do procurador-geral fez serios esforcos para investigar os casos, mas suas acoes foram muito amplas em termos de enfoque e limitadas em termos de resultados. Uma Unidade de Direitos Humanos, criada cm 1995, esta encarregada de investigar os assassinatos de jornalistas desde que se determine que foram resultado de seu trabalho. A unidade tambem investiga todas as violacoes aos direitos humanos, que sao centenas devido ao clima de guerra civil reinante na ColOmbia. Ao hives de se concentrar nos assassinatos mais recentes de jornalistas, a unidade tenta investigar mais de cem mortes violentas que ocorreram na decada de 80. Assim, faz-se pouco progresso nos novos casos. Na verdadc, antes de a SIP reunir-se corn o procurador-geral encarregado da unidade, os membros de sua equipe acreditavam que o caso Bedoya estava tendo progressos. A unidade reabriu o caso de Carlos Lajud, que a SIP investigou em 1996. Mas a nova investigacao ignorou processos antigos, desconsidcrando testemunhos e provas anteriores. 0 caso Lajud foi levado pela SIP ao procurador-geral Alfonso Valdivieso, que nao ocupa mais esse cargo. No aspect() positivo, cm 15 de dezembro de 1998, sete anos depois do assassinato do correspondente do El Tiernpo em Arauca, Henry Rojas Monje, houve a primeira condenacao de urn dos autores intelectuais do crime: o coroncl aposentado do exercito, Diogenes Castellanos, que foi preso e intimado a depor pela Procuradoria- geral do pais. Dois soldados sob suas ordens ja haviam sido condenados como autores materiais do assassinato de Rojas Monje. Em 27 de dezembro do mesmo ano, foram capturados em Medellin os autores materiais da morte dos comunicadores e investigadores Elsa Alvarado e Mario Calderon, assassinados em sua residencia de Bogota em maio de 1997. Os irmaos Juan Carlos e Fernando Gonzalez Jaramillo foram presos em Medellin pelo corpo tecnico da Procuradoria e investigados por esse crime. A autoria intelectual das mortes, atribuida a grupos paramilitares, continua sem punicao. Por que a impunidade continua? A impunidade é uma realidade em urn pais em que ocorrem 36.000 mortes violentas por ano. Um sistema judicial inadequado nao acompanhou o crescimento das outras instituicoes do pais. Em 1991, a Colombia deveria introduzir urn sistema mais persecutorio, instituindo julgamentos publicos, mas criou apenas o gabinete do procurador-geral c o sistema da "justica sem rosto", para proteger corn o anonimato os juizes e testcmunhas nos casos de narcotrafico e de terrorismo. A major parte dessas mudancas foi financiada pelos milhoes de &Mares fornecidos pela Comunidade Europeia c pelos Estados Unidos. Grande parte do dinheiro foi utilizada em treinamento c na construcao da sede do procurador-geral, urn complexo de marmore multimilionario proximo a embaixada norte-americana, nos arredores de Bogota. Construiu-se tambem um bunker completo, corn detectores de metal para proteger os juizes c os investigadores. Mas essa inovacao nao bcneficiou os dedicados funcionarios judiciais, que trabalham em predios caindo aos pedacos nas cidades do interior da Colombia.
  • 25. 24 lmpunidade NUNCA MATS — Crimes sem Pimicao contra Jornalistas "Aqui nos trabalhamos corn muito medo", disse urn funcionario na cidade de Armenia, ao explicar o caso Marquez, que pediu para ficar no anonimato, visto estar violando uma lei mordaca emitida pelo procurador-geral do pais. Urn investigador designado para esse gabinete do procurador-geral regional foi morto ha alguns mews. O sistema judiciario colombiano nao tern metodos de verificacao c controle adcquados, especialmente em seus escritorios regionais, onde a qualidade do trabalho corresponde diretamente a qualidade das pessoas que ali trabalham. No caso Bedoya, por exemplo, apos dois anos de investigacOes, ainda se esta na fase prcliminar. Provas valiosas estao desaparecendo rapidamente, e as testemunhas perdem a confianca nos investigadores. 0 caso foi transferido para Bogota, mas nao teve progressos. 0 sistema da "justica sem rosto" é dirigido pelos escritorios regionais. Dentro (Jesse sistema, as pessoas podem tcstemunhar e ficar no anonimato. "E como o programa de protecao a testemunhas dos Estados Unidos", disse urn funcionario do govern() norte-americano que conhece o programa. Nos EUA, o acusado sabe quem esta fazendo as acusacoes. No sistema de "justica sem rosto", os acusados nao o sabem. Trabalho de detetive de baixa qualidade Nada determina mais o fracasso de uma investigacao do que um trabalho de detetive de baixa qualidade. As unidades policiais da Colombia receberam amplo treinamento investigativo ao longo dos anos fornecido pelo FBI (Federal Bureau of Investigation) norte-americano, pela Scotland Yard inglesa, e por outras unidades policiais internacionais. Entretanto, a Colombia nao tem nenhum corpo policial encarregado de investigacbes de assassinato. Os agentes da SIJIN e outras agencias intervem no comeco de urn caso, mas depois que escrevem urn relatorio os casos srao assumidos por investigadores do gabinete do procurador-geral. Como disse urn policial envolvido no caso Bedoya, "perde-se o compromisso que se tern quando se esta presente na cena do crime". No caso Bedoya, por exemplo, a SIJIN, ou a policia local, chegou a cena do crime prirneiro, mas a investigacao foi transferida para o Centro Tecnico de Investigacao (CTI) especial do procurador-geral, onde urn grupo diferente de investigadores seguiu as pistas. Devido a proeminencia de Bedoya, seu assassinato foi tambem inicialmcnte investigado pela inteligencia do exercito e pelo Departamento Administrativo de Seguranca (DAS), um tipo de FBI colombiano. No final, o CTI ficou coin o controle da investigacao. As pistas que eram importantes no inicio foram ignoradas ou perdidas. Urn exemplo é nao se saber ao certo se Bedoya foi assassinado por um assassino professional e se havia dois assassinos. 0 gabinete do procurador-geral ignorou urn retrato falado feito pelo primeiro policial que chegou ao local do crime.
  • 26. Novas Investigacties na Colombia e no Brasil 25 Caso: Gerardo Bedoya Borrero G erardo Bedoya aproximou-se da mesa de Isabella Prieto, sua colega c prote- gida no El Pais. Levava sua coluna para o dia scguinte "Pense em um titulo", disse corn sua voz grave. "Estava satisfeito consigo mesmo", lembra-se Prieto. A coluna apoiava a extradicao dos narcotraficantes, urn terra dclicado em Cali, onde o Cartel de Cali havia se enraizado ha duas decadas. Bedoya, um escritor refinado c urn pensador atrevido pouco conhecido fora de Cali, era o entusiasmado dirctor das paginas editoriais do jornal El Pais. "Ha meses escrevia agressivamente contra o narcotrafico", acrescentou Prieto. "Nos ja o haviamos advertido que suavizassc o tom, mas ele nao mudou." Corn isso, Bedoya violava uma regra nao escrita entre os jornalistas de Cali: nao escrever nada negativo sobre o cartel das drogas. Bedoya odiava os cinco chefiries do cartel. Em suas colunas, publicadas duas vezes por semana, criticava duramente os chefes da droga, que se apresentavam como cidadaos civis honrados. Criticava tambem os cidadaos de Cali que se dobravam ante os desejos dos traficantes. Sua linguagem, ironica e chcia de desprezo, cortava como urn fio de navalha. Mestre no use do idioma, Bedoya tornava-se mais atrevido corn o passar do tempo. 0 artigo que the custou a vida foi publicado em 27 de fevereiro de 1997. Tres semanas depois — em 21 de marco — um pistoleiro baleou-o em uma rua escura. Foi a vinganca do Cartel de Cali. F. mais, parecia que a intenc5o do Cartel era assassinar nao apenas o homem, mas tambem sua reputacao. A investigacao de homicidio esta repleta de meias verdades e demoras provocadas por rumores. Os rumores fabricados por seus assassinos que tentam desprcstigia-lo relacionando seu assassinato nao a seu officio, mas as suas tendencias homossexuais. Urn rumor infundado, visto que Bedoya tinha fama do que na Colombia e chamado de "pipi-loco", como sao conhecidos os mulherengos. Entrctanto, o que é grave nesse caso é que a Procuradoria aceitou a tese da homossexualismo por tanto tempo que outras provas foram perdidas. As insinuacOes afetaram diretamente a investigacao do governo, atrasando os procedimentos c colocando o caso cm uma impunidade total dois anos depois do crime. Pouca tolerancia coin as drogas A decisao de matar Bedoya foi provavelmente tomada em 1995. Nesse ano, Bedoya comecou a cscrever seus artigos mais asperos contra o cartel. Os colombia-
  • 27. 26 Impunidade NUNCA MAIS —Crimes sem Punicdo contra Jornalistas nos viviam seu pior pcsadelo: a corrupcao da droga havia penetrado nas esferas mais altas da politica, dos negOcios e da sociedade. Bcdoya mostrava-se impaciente corn seus compatriotas diante da indiferenca frente ao cartel. "Permitimos que prosperem", queixava-se corn Os amigos. Tinha pouca tolerancia corn as drogas. Chegou a proibir sua cozinheira de fazer compras na cadeia de farmacias "La Rebaja", cujos donos eram Miguel e Gilberto Rodriguez Orejuela, chefoes do cartel. A Colombia foi abalada em 1995 corn a noticia de que o presidente Ernesto Samper havia recebido cinco milhaes de Mares em contribuicOes dos narcotraficantes de Cali para sua campanha politi- ca. As acusacoes foram reveladas inicialmente por Andres Pastrana, que as revelou em sua primeira apresentacao tclevisionada, em 24 de julho de 1994, depois de ser derrotado por Samper nas eleicoes presidcnciais. Foi apresentada uma fita que continha gravacoes de conversas nas quail os irmaos Rodriguez Orejuela falavam de suas contribuicnes monetarias para a campanha presidencial de Samper. Isso foi o comeco de tudo. Entre 1995 e 1997, o procurador Alfonso Valdivieso iniciou urn esforco titanico — conhecido como o Processo 8000 — para terminar corn a corrupcao nos circulos politicos. Dezenas de politicos e empresarios acusados de receher suborn() dos narcotraficantes foram julgados e presos. 0 processo quase paralisou o governo, mas o presidente Samper recorreu a astdcia politica para manter- se no poder, mesmo corn o profundo desgosto e reptidio do publico. 0 Congresso colombiano absolveu-o das acusacCies de conduta impropria. Muitos membros do Congresso temiam que tambem fossem investigados. povo colombiano entre os que apoiavam Samper e seu Partido Liberal c os que exigiam uma responsabilidade total e a remincia de Samper. 0 presidente Samper conseguiu terminar seu mandato e passar o poder a seu sucessor, Andre's Pastrana, em agosto de 1998. Samper conseguiu ficar no poder explorando a insatisfacao do povo colombiano corn a politica norte-americana a respeito dos narcoticos. Os colombianos estao cansados da pressao exercida pelos Estados Unidos em assuntos que, para eles, sao de ordem interna. Muitos declararam que os Estados Unidos concentram injustamente o major peso de sua politica anti-drogas nos paises produtores e pouco nos consumidorcs norte-americanos. Bedoya disse a seus amigos que o governo colombiano nunca havia investigado o proprio governo, a nab ser pela pressao norte-americana e a tenacidade do procurador Valdivieso, que levou a serio seu cargo. (Valdivieso é primo de Luis Carlos Galan, o candidato presidencial do Partido Liberal, assassinado pelos narcotraficantes cm 1989.) Todos esses aspectos estavam presentes no comentario que custou a vida de TreChos da=coluna "Textosn'' publicada por Gerardo Bedoya no El Pale de Cali, Coloinbia "0 que niais me indigna na presenga insUltuosa dos traficantes deArogas pm Cali a indiferenga, a pusi- lanimidade e a tolerancia COm'asquais nos calenos, suportamos esses persona- gens durante vinte arms. Plao fomos..capazes de nos livrar de suas garras por iniciativa propria; se nao fosse o procurador e os gringos; Continuariamos. aceitando passivamente a dominagao iniqua do nar-,. cotrafico sobre nossa cida- de. 4 de lamer° de 1996
  • 28. Ficha Pessoal Novas Investigacties na Colombia a no Brasil 27 (21 de Main de„1941 — 21 d.e Marco 1997) "A verdadeira Origentdo poder na Colombieo Clientelis- mo politico e o narcotifilico:;:esies dois poderosos fato-. res de-poder. prendeut em suss redes.o Estado,:ou ieja, quase todos os ramos Mr poder,i,publico, e impedem que a domine sobre os interesses da:clientela politica:" Gerardo Bedoya, em seas comentariosda pagina de opiniao dO El Pais, de Cali, departamento do Vale. LoCallidelOSCimonto: "Santiago deCali, departemento do Vale do C6tiCa. Idade'ao kleceri 55 anon' Estado civil:, Solteiro Estudos: 'Graduado-em direito e economia pela UniiierSidade Santiago de Cali. PrObss-no/catbw.. .COOrdenador das pagipas:de opinjaO de jocnal,'ElPaise`diretor do Centro de Estudos'Coloinbianos; pertencem to ao'Particlo NacionaLConservador. Antecedentesjornaliiticos eprofissionais: Apes uma Idpga carreira potitica ao lidodo presidente:conservador. -Alvaro G,omez'llurtado, durante a .qual,trabalhou'corriO secretario de' Fazenda'da cidade de Cali, secreta-' do:departamento do Valegover-. nador encarregadcrdo mesmo, vice- ministroda Fazenda., membro. .Camara de Deputados (eleito duas vezes) e ministro plenipotenciarici' perante-a Uniao Europela em Bnpielas, Vinculou-se aR,jornalismo coma cd-cliretor do jornal,EINuevp Siglb, de Bogota ao quo! foi charba- ciwpar'a assumir a boordenagao daS peginas de opiniao do El Pais, cargo . que ocupou durante cmco anos. Atividade social: Possuia cadeird cativa na praga de touros..da cidade, era membro dO coMite orgamiaclOr da'Feira,Taurifia de. Cali ;e dos principais.Clubes' sciciais da cidade. Passatempos: Falava e-lia pe'rfeitamente ingles, gos- tava de viejar 6 conhacer novos luga- . res e gostava esPec(almente-de :visi taros.Estados Unidos para cornprar livros.
  • 29. 28 Impunidade NUNCA MATS—Crimes sem Punicao contra Jorna/istas Bedoya, publicado em fevereiro de 1997. Bedoya era urn dos poucos jornalistas e colunistas que cscreviam contra o narcotrafico e Samper. A maioria desses jornalistas, entretanto, era radicado em Bogota e, por isso, estava mcnos exposta ao perigo do cartel de Cali. Na verdade, a imprensa national coin scde em Bogota publicou grande parte da investigacao do Processo 8000, visto que o gabinete do procurador vazava grande parte das descobertas da investigacao para evitar que o governo de Samper colocasse obstaculos ao processo. 0 fato de Bedoya morar e escrever em Cali tornava sua situacdo quase suicida. A maioria dos chefes do cartel de Cali estava presa em 1996, mas isso nao significava que nao tinham mais controle sobre o trafico de drogas. Uma leitura das colunas e dos editoriais de Bedoya deixava a impressao de que ele sabia disso. Segundo antigos funcionarios norte-americanos, a organizacao de Cali planejou reduzir o volume do cartel alguns anos antes de seus lideres se entregarem. "0 cartel nunca foi dominado; simplesmente foram desmanteladas as operacOes maiores, que foram divididas em celulas", declarou urn especialista no assunto. Para Cali, a queda do cartel representou a perda de muitos investimentos procedentes do trafico de drogas, que eram dirigidos as industrias de construcao e servicos. A taxa de desemprego da cidade subiu para 18%. Comecou tambem a se dissipar o poder civico "Nao,scimos um pais seri°. que us narcotraficantes exerciam sobre a cidade. A F'errnitimokque urn detail policia deixou de parar o transito nas ruas princi do narcotrefico,.cuja fuga pais para dar passagem as caravanas motorizadas era previsiyel deiridirao dos traficantes. Nab se viu mais o bloqueio das imenso,podercurrOptor ruas por °ride Miguel Rodriguez Orejuela passava dessa atividade, fugisse para visitar sua amante. ern plenaluz dO,dia.para Bedoya exigiu medidas que assegurassem que os vergonha dessi riaca o narcotraficantes nao voltariam a dominar sua cidac• ±perante imando. de. Apoiou propostas destinadas a criar leis rigidas Terms demonStrado e con- para controlar a lavagem de dinheiro. Apoiava, firinadwdrante do-niundo tambem, urn projeto controvertido para restaurar u`m'fato quaberg repercus- retroativamente a extradicao de cidadaos colom- OeSillegayerS::wEstado bianos acusados de crimes em outros paises, prin- colonibiano incapa4 'de cipalmente nos Estados Unidos. Em seus editoriais, manter enfOras priSoes Bcdoya favorecia claramente a posicao norte-ame- pess9asacusadakde gra- ricana. it defitirs e corn Um Em 18 de janeiro de 1996, escreveu: "0 nar- grinde poder conacionalismo usou o patriotismo latente dos o case de-Pablo,,,Eicobar colombianos para abolir a extradicao. Desfizeram- o demonstrou: 0 cast, de se dela explodindo bombas, pagando subornos e Jose,Santacruz o confirma. usando uma retorica populists. Nossa soberania! 12 deIaneiro * de 1996 As palavras helas que podem ter urn sentido estd- Otiose San1acruz, lider do. Cartel detati,'iscapar dit pri- pido. Nunca deviamos ter perdido essa chave. A 00) extradicao era uma forca persuasiva. Era a Ultima opcao para um pais fraco e economicamente pobre, que deve se defender dos criminosos mais
  • 30. Supostos autores ou impItcadosi Os autdi'dainvestiojaca'apiissuem •apenas os'.re-tratog faladosIclp assas- sine naofoi possivel determinar sua'identificacao nem capiMa-lo. Os ''Situacio da ColOmbiana epoca do assassinato: Prosidente: -Ernesto Camper PILdr10 Partido no governO: Partido Liberal NaciOnal. Situagito politica do pais ou regipo: PouClis dias antes do assassinato de Bedbya,liavia sido reaberto-p prOceSso judicial da procuradoria- geral da'Nacao contra o'presidente Ernesto SarnOerRizabo e:pssetores „ mats radiCais da riposicao'haviam se manifestado em favor destituic5o do:Mesidente'devidc:oas denUnCias sobre a cloaca° de verbas ilegais para sua campanha presidencial. Ficha do Caso Data do assassinato: 21de rnerOCCde1997 Forina e local diiatsassinato:' Depoiscle,ficar meia„borLpsperando por sua riariioroda,"ffante.,40:: eritFadar, 'de Mili.:MinjUrrto,reSidenCiale;:mO momento em que'elpivoltiVa;On, hOmeniarmado .apraiiirnou-se e, atreE xes: dajarielolla,:pbrta:de, sap. carro,, diSParou.;;Ihe,ijOatro tiTOSCle revolver 9mnitla cabeca'; para -andando ate urn veicul.o,quo o espe- , rava a afguns metros. Possiveis motivos: As colunas.de Bedoya contra as ,Organiloges driminois'e sua mfiltra .. ctasse,politickde seu depar- tanentd(ci Va!e-do CauCal ea do 4-Cartel de tali no governosde Ernesto SarnOer. principais'suspeitos sag membros daS organiiatieS:de'n4reotiafican-. teskdo:Vale'do Cauca. Consequencias,violentas: Desconhecidae. Irregularidades'dO iiiOcesso: -ApeSar das varias PiSta'S sobre a rela-, gio,entret assassinatO:dTBerardo BOOMiae,:seUs.Hesbritos ,, procC,_ radoriWregional de::',CaWdeditoU-se durante doffs anos a provar um supos- to crime passional para rt50 _pode.enctintrar nem in'ilicios:A inves tigago:Contegott:e ser coordenadOps:de investigaiddogobinete,do-OrocUra- dor,Oeral dalqa0o. 29
  • 31. 30 Impunidade NUNCA MAIS - Crimes sum Punicao contra Jornalistas poderosos e ricos. Nunca pensei que a extradicao violasse nossa soberania." Ao mesmo tempo, o senador norte-americano Jesse Helms, presidente da Comissao de RelacOes Exteriores do Senado, pedia ao presidente Clinton que negasse a certificacao da Colombia. John Deutsch, diretor da Agencia Central de Inteligencia, declarou que a crise colombiana e a cumplicidade de Samper na narcocorrupcdo criavam urn seri° desafio para a politica norte-arnericana. aca silen- ciosa por parte dos narcotraficantes", afirmou I.uis Canon, atual chefe de redacao do jornal El Espectaclor, de Bogota. Bedoya obviamente calcu- lou mal esse perigo. Mesmo que tenham sido leves as penas recebidas pelos chefOes de Cali — a pena maxima foi de nove anos — eles temiam a extradicao. Grafites a favor dos narcotraficantes apareceram nas paredes da cidade. Os traficantes de drogas estavam dispostos a cumprir suas sentencas na Colombia e a devolver uma parte de sua con- sideravel fortuna, calculada pela revista Forbes entre as cem maiores do mundo. Mas jamais aceitariam o que Bedoya defendia: a I:en-6116a total das propriedades obtidas corn o dinheiro do narcotrafico e a extradicao retroativa. 0 apoio de Bedoya a posicao norte-americana — extraditar os traficantes de drogas para os Estados Unidos devido a inseguranca das prisOes colombianas — determinou sua sentenca de morte. Colunas como as que escreveu atlas a fuga de Jose Santacruz Londono, outro chefe de Cali, de uma prisao de. pena maxima, colocaram mais lenha na fogueira. "Na Colombia, as prisoes do seguranca maxima sao, na verdade, nrisOes de maxima inseguranca", escreveu. Sua predica contra Samper E possivel que se tenha comecado a planejar a morte de Bedoya em dezembro de 1995, mais ou menos quando os chefes do cartel de Cali comecaram a planejar sua rendicao. A policia havia reforcado a protecao dada aos principais jornalistas de Bogota, mas esquecera-se dos jornalistas do interior. Bedoya transitava por Cali em urn simples Volkswagen Golf. Seu motorists, Leopoldo, era urn homem de 50 anos que trahalhava corn ale ha muitos anos. Bedoya dizia que Cali havia se transforrnado ern uma cidade civica e que respeitava a lei. "Dizia constantemente — observou seu primo, Hugo Borrero — que as pessoas devern ser lembradas do que é correto." Em 6 de janeiro de 1996, Bedoya escreveu: "A cidade poderia ser melhor do que é. Poderia ser o que deveria ser. Poderia recobrar sua tranqUilidade... poderia reafirmar nosso sentido de comunidade. Poderia exilar os narcotraficantes. Tudo isso é facil, ."krendicao e subsequente prisao de Helmer Herrera serao:um triunfo 'das autoridades;desderque iPrOCuradoria e os jnizes possam ComproVar.os deli= tos e que'o.supoito narco-- trafiCante,pague uma sari- caticon,digni.:.'Apesar de ser verdade que,osprin cipaii chefes, pelo menos os identificados pelas Outo- ridades, estejam presos, ainda nao se cornprovou que as atividades do nar- ,cotrafico ,que dependem dales tenham Cessado:.. oao seriaestranho,..como. ocorreu que alguns dOs..chefiles Conti- nuassem no poder, mesmo dentro da PrisaO.1 — 3'de setembro de.1996 (Poi ocasiao da rendicao do (titan° chafe do.. 'Cartel de Cali)
  • 32. Novas Investigagoes na Coldinbia e no Brasil 31 inclusive o Ultimo item, se houver a vontade oficial e coletiva para faze-lo". Sua coluna sobre Diego Maradona, o famoso jogador dc futebol argentino, represcntou urn perseguicao ao trafico de drogas: "Maradona presta urn grande servico a juventude. Por que? Porque diz a verdade. As drogas sao ruins; o vicio da droga é um abismo e uma tragedia... Em (recente) entrevista, Maradona disse que devia haver pena de morte para os narcotraficantes." Bedoya chegou ao ponto de detestar o presidente Samper. As primciras colunas de Bedoya sobre a cumplicidade de Samper corn o cartel de Cali foram diretas, porem respeitosas. "Ndo é facil renunciar. Ivlas seria urn ato de vontade que o povo colombiano e futuras geracOcs agradeceriam a Ernesto Samper", escreveu em janciro de 1996. Em pouco tempo suas colunas tornaram-se mordazes. Quando ficou claro que Samper havia feito tratos corn congressistas influentes para enfraquecer a investigacao do Congresso colombiano, em junho de 1996, Bedoya escreveu: "E agora o que acontece? 0 presidente n5o quer sair... nao seria improvavel que nos cansassemos desse confronto, que aceitassemos corn resignacao o que e melhor, mesmo que tenha havido dinheiro do narcotrafico, que o presidente continue no poder... Mas esta atitude é suicida para urn pais que tem diante de si a melhor oportunidade para lavar sua democracia e fazer urn profundo e sincero exame sobre Os perigos "0 futebor E, • do narcotrafico." e Possivel:que a'paixdo Em setembro de 1996 descobriu-se heroina no de urnpovo seja,manipula avid° presidencial quc deveria levar Samper as da per interesses obscures. Nacoes Unidas. 0 governo de Samper disse que Suponho que a maioria dos a heroina era parte de uma conspiracao nortc- toicedores do .AMeriba nho americana. Bedoya escreveu: "Chega de especula- Se'importe porn o,fato floes; chega de inventar truques. A heroina no os narcotraficantes agora avido presidencial foi apenas mais urn episOdio da confessos serem os donos tragedia colombiana... foram os narcotraficantes de seu time ha qtiase vinte que pretendiam enviar outra remessa para os anos.•.. Estados Unidos aproveitando a imunidade do A,paix:ee do torcedor do avid() presidencial". America esta. abima de Bedoya acreditava em sua missao: "Nossa fun- tudir-nao importa a cor cao, dos pobres jornalistas, e reconstruir a esperan- dp'gato,contanto que pace ca", escreveu. ratos.,Eesse tem side'o problerria colornbiano dos frithrios arms, tanto-na poll- " tica quantopa ecenemia: quase nrnguemiise !mule. come cer,dO,gato,e que importa4 qUe tenlia dinhei- 29 de junlio de1996 (Satire &America, time de futebidAe Cali, de iiropriedaE de do Carteide Calif Seu ultimo trabalho jornalistico Uma amiga de Bedoya, Ximena Palau, o advertia quando considerava que ele estava se excedendo. "Cale-se — repetia — porque voce vive nas entranhas da besta", dizia-lhe. Bedoya ndo the avisou sobre a coluna que seria publicada em fevereiro de 1997. Rodrigo Lloreda, entao diretor do El Pais, assus- tou-se quando leu o comentario. Havia pedido a Bedoya que suavizasse seus artigos. Lloreda é urn
  • 33. 32 Impunidade NUNCA MATS— Comes sem Punicao contra Jornalistas L V L Ap9.rtalro,ceie en el Magisteno 108 . • •:. TEXTOS zAl fin ahora si? GERARocBEt: a. BORRERO Despue:s de este los ministros de 3u.sticia y la Cant:111er dieron declarations proextradi- TATOS graves los columnistas no podemos ser agues tibias y debemos esumir posiciones, deb° ime mi riesiciOn es la misma rpm le del La herolna no heroica Presidente sea simplemente una accidnaids del narco: rofico, no importa a que cartel per- tenesca. lii narcotrailco cods to compra y contemioa: se metieron en el avian del Presidente porque no bay puerto que los norms no abran ni institurihn que no pene, mitteen. Se Met:e en gra nde en la campana Por codas estas rezones hay que decretar la total intelerancia frente al narcotrafteo. No nos ha heiho ningtin Bien si siquiera en la economta, corns errenea e ingenuamente se pienos.Fomento una emanate especula- tiva, no pet duttiva, liesada mordialmen- te en Is oainpra 1 inventories ' GLI,ARDO REF t'a BORRERO o °memos 10 :I tea especulaciones aventemos tantas. tlueulenciaa I.a •na en el 'ericr premdencial simple. teune.isedioma.i en . traood,q Re6ortes des paginas kjonialEl Pais, .no .qua! Gerard° Bed* publicaira sua coluna de opiniao "Teitos 0 processooitp mil foiformativo. Em primeirolugar,,o,pablico foi obrigado: , a,s0 ,cinicentrar.,ipela primeirovezem:moitOo,:arios,eMuM:teMaimpOrtante. ;AgOraidizem masse "aOim queideitja Om:4. optocessrioitO p.OicaPdalosO,,laperiu, :thria let necessaiia Os,alcrioriirieetreVadddemoCracia'!llattoltimbio,Ja ':'!0,Oritpoitovida,eici$tencia. detodoeSseetiisodiotde'!cptitpOgrii::polipea e cWirifiltracaO.,4naroOtrOfico: Fteje„foiam:exiliidirs.com aterradora nitidez diorite da Opini:ao pribliCaNinguem a,.politiCa,COIOrnbiana esters corrOMOida,'ern grande eitendir, ate .-1 de marce 0.1996. homem tranqiiilo; conhecido por sua imparcialidade; sua familia fundou o El Pais. 0 jornal é moderno e bem redigido. Mas o estilo de Lloreda nao era atacar os narcotraficantes. Era tarde da noite quando Lloreda ligou para Bedoya para the avisar que iria editar a coluna, segundo informacoes de funcionarios do jornal. Lloreda mudou o titulo e retirou as referencias aos irmaos Rodriguez Orejuela. Mesmo corn essas mudancas, o comentario foi o mais provocativo que saiu na edicao do dia seguinte: "Mesmo que me chamem de pro-ianques". Assim cornecava o primeiro paragrafo: "Prefiro a pressao dos Estados Unidos a pressao dos narcotraficantes. Prefiro a influencia dos norte-americanos sobre nosso govern() a influencia dos narcotrafican- tes. Prefiro a intervencao dos Estados Unidos em nossos assuntos internos a do cartel das drogas."
  • 34. Novas Investipacaes na Colombia e no Brasil 33 "A pressao norte-americana tem os seguintes efeitos: 1) Uma lei contra a lavagem de dinheiro. 2) Condenacnes maiores para os traficantes. 3) Major seguranca nas prisoes para que os criminosos nao possam fazer o que tiverem vontade. 4) A fumigacao de milhares de hectares de amapola e coca. 5) 0 ressurgimento do terra da extradicao como assunto legitimo e nao como urn terna tabu, intocavel e proihido. 6) A formacao de uma consciencia prIblica que reconheya os danos que a droga causa ao sistema politico c a sociedade em geral. "A pressao dos narcotraficantes sobrc nosso governo e nossa sociedade teve os seguintes efeitos: I) Urn codigo penal escrito sob a influencia de advogados que trabalham para os traficantes. 2) As ridiculas penas carcerarias impostas aos criminosos. 3) A ehminaczlo da extradicao (de colombianos) Como arma para combater o crime internacional. 4) A corrupcao politica... 7) Contribuiceles financeiras a uma campanha presidencial que ganhou as elcicOes." Os amigos de Bedoya ainda sentem arrepios quando kern essa coluna. Bedoya transformou-se na Onica voz forte de protesto em Cali. 0 Ultimo jornalista de Cali que se atrevera a faze-lo tinha sido Rani Echavarria Barrientos, subdiretor de outro jornal de Cali, o Occidente. Echavarria foi assassinado em 1986, dois dial depois de seu jornal publicar urn editorial apoiando a proposta do presidente norte- americano Ronald Reagan, que podia a pena de morte para os narcotraficantes. Sua vida pessoal Xirnena Palau disse que quase chorou na manha que leu a coluna pro-ianques. "Sabia que ele havia assinado sua sentenca de morte", disse, corn voz emocionada. "So quem estava em Cali sabia a gravidade do titulo e do contend° da coluna." Entrevistada em Bogota, onde mora atualmente, Palau declara sua raiva diante da falta de justica no caso Bedoya. Mostra uma foto sua corn Bedoya tirada diante do Lincoln Center de Nova York quando seu romance estava no auge. Bedoya era apaixonado por opera e milsica classica. Palau lembra tambem sua predilecao por camisas da ...a vertladeira origern.do :. marca Brooks Brothers, sapatos Bally e charutos poder na Columbia: o,Clien- cubanos. Mas nao fala corn a mesma desenvoltura tellsMo politico e o nar- sobre a paixao de Bedoya por mulheres bonitas. .dotraficp..Esses O! faitores de poder. dOis.pode- iosEle supostamente tinha uma fraqueza por mulhc- , . res bonitas, mas nunca se casou. Ern seu enterro prendeM emsuas redes estavarn presentes "muitas vinvas", segundo seu o Estado, on-seja; qtnse'—• , ._ 4, e primo Hugo. "Mantinha a amizade corn todas todos os ramos do poder , publido, ejmpedent'que oas suas ex-amantes e todas compareceram ao . . . enterro." bem geral, que.e o tim do, No dia em que morreu, Bedoya estava acorn- Estado e da'ordemjuridice, panhado de uma outra mulher, Maria Eugenia domine sobre os interesses Arango, uma linda morena pouco conhecida nos da Olienteln,,politica e do narcotrafico...circulos de Bedoya. Arango e divorciada e tern , - ,uma filha; gosta de jOias e de touradas. Os amigos 19de seterebro de1996 ISobie-a impaaidadi ea) de Bedoya suspeitam que ela saiba todos os deta- anarquia tatolOmbi. lhes do assassinato, mas Arango recusou-se a falar
  • 35. 34 Impunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Punicao contra Jornalistas coin a SIP. As suspeitas em torno de Arango aurnentaram quando os amigos de Bedoya souberam que ela declarou a policia que ele era homossexual e que nao tinha relacaes intimas corn as muiheres. DeclaracOes das ex-amantes de Bedoya, entre elas Ximena Palau, contradizcm essa afirmacao. Mas os investigadores de Cali aceitaram como autenticas as declaracOes de Arango. Esses investigadores ainda Sao os responsaveis pela investigacao. Cali é uma cidade tropical e conservadora onde a situacao de solteiro de Bedoya despertava suspeitas. A insinuacao irrita Palau e o primo de Bedoya, Hugo Borrero. Elcs se recusam a falar corn a policia se persistirem em manter essa linha de investigacao. A policia, por sua vez, diz que a familia nao coopera c que esse e o motivo de o crime nao ter sido solucionado. vulgar por parte de quem nunca o conheceu", afir,mou Borrero. "M.° me importaria, mas o fato que esta atrasando a investigacao. E a tatica perfeita, o que me faz crer que a assassinato foi parte de uma conspiracao major." Palau, uma mulher elegante de 36 anos, disse que nunca teve urn amante tao viril quanto Bedoya. E pergunta: "Atha que ocultariamos isso [essa fofocal se fosse verdade e a chave para solucionar o assassinato?" Um conhecido mulherengo, Bedoya nao pretendia se casar. "Gostava de viver sozinho", explicou Borrero. "Na minha opiniao, etc tinha razao porque era neurotic° e dificil de lidar; feria deixado qualquer mulher louca". Todos as anos Bedoya dizia aos amigos que "este ano" se casaria, mas nunca o fez. Bedoya vivia em uma cidade famosa por suas belas mulheres e clubes noturnos. Mas nao era urn "homem tropical". Preferia a mUsica classica, a poesia e os livros. Tinha uma das melhores bibliotccas pessoais de Cali. Viajava a Nova York em busca de estimulo cultural. Tinha tuna viagem marcada na semana em que morreu. Bedoya sempre se queixava da falta de companheiros intelectuais em Cali. Deixou de ter corn quem conversar depois que Palau mudou-se para Bogota por motivos profissiona is. 0 jornalista ocupou v-arios cargos politicos em Cali e Bogota durante o period° em que o Partido Conservador esteve no poder. Quando morreu, era presidente do capitulo de Cali do Centro de Estudos Colombianos, uma instituicdo conscrva- dora. de Bedoya, que era urn romantic° invetcrado, foi cunhada dentro de uma educacao rigida jcsuita em urn internato de Rochester, Nova York. Passau tres de seus quatro anos de escola secunciaria nessa escola. Adorava Ruben Dario e Baudelaire e recitava de memoria sonetos e poemas de outros escritores franceses e ingleses. Gostava dc falar sem parar sobre ciencia, politica e artes. Depois que morreu, seus amigos acharam urn pcqueno caderno no qual anotava pensamentos sobre a vida, a cidadania, o casamento, a soliciao e a felicidade. Na era dos computadores, Bedoya ainda usava uma maquina de escrever Remington portatil, "Na Colombia estao ocor-. lendo,episodiOs tipicos de urn regime pOlicialesco oil de um estadm.totalitario: Os servicos de segurarica do Estado nam.deveni dir terror nos cidadaos neat poded perseguir,,por raztoes politicas;fornaiis-, tas llacionais e estranges- ' ros." — 27 de fevereirci de 1996 (Depois que o'DAS,Prendeu e revistou um jornalistanorte- antericano e corifiscou e fez copias de documentos nadOs adesCandalo do dinhei ro de narcoticoi.)
  • 36. 'ERNES - 5 SE COC,NE S XXX: No. 12.656 ASESINADO PERIODISTAje a IJ Gcra re;,) Borren, Tnc:?;:s ,71;V:',,,1 7r,r, y 0.. 1. el 0 Pai.;.. • *ow u. 0 1 fiA PROAZfir Novas invostigacties na Colombia e no Brasil 35 como as que carregavam os correspondentes que viajavam antigamente. Tinha insonia c tomava banhos de duas horas durante os quais montava seu piano de trabalho e os temas sobre os quais escreveria, segundo Palau. Bedoya n5o era aceito corn muita simpatia pelas pessoas. Era extrcmista em seus gostos, gostava dos que o conheciam ou desprezava quem o desprezava. Muitas pessoas o detestam mesmo depois de morto. Outros ficam corn os olhos cheios d'agua ao lembrar-se de sua personalidade neurotica e de seu senso de humor. Juanita, uma jovem negra, era sua cozinhei.ra. Bedoya tinha uma relacao especial com cla e seus dois filhos. Essa era uma relacao pouco comurn em Cali, onde as diferencas raciais sdo bem marcadas. "Rezo para ele quando algo ruim acontece, porque sci que me ajudara", disse Juanita. "Ele foi urn grande patrao que nao merecia morrer dcsse jeito", afirmou. Bedoya tambem tinha seus favoritos no jornal. Um deles era Diego Martinez, chefe de redayao. "Gerardo era assombroso. Gostava muito dele e fico triste ao pensar em sua morte", disse Martinez, fechando os olhos enquanto via urn fume com imagens do assassinato. Bedoya saia corn varias mulheres. Mas, segundo scus amigos, nunca coin muiheres que na-o fossem de classe alta. A excecao foi Maria Eugenia Arango, uma mulher
  • 37. 36 Impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicio contra Jornafistas linda c misteriosa que conheceu em uma tourada em Cali, em dezembro de 1995. 0 Crime Pouco antes das 16 horas do dia 20 de marco, Arango ligou para Bedoya em seu escritOrio. 0 escritorio tinha parcdes de vidro corn aberturas na parte superior. Isabella Prieto e outros reporte- res que se sentavam perto de sua mesa sempre podiam escutar Bedoya conversar, pois sua voz era muito alta. Arango pediu a Bedoya que a levasse para ver urn apartamento porque scu carro estava enguicado. Todo mundo lembrava-se dela. Depois que Bedoya a havia levado ao jornal, pouco depois dc conhece-la, havia se transformado em tema de interesse entre os jornalistas. "Ainda me lembro do dia em que entrou na sala de redacao", disse Diego Martinez. "Todas as cabecas voltaram-se para ve-la. Era jovem deslumbrante." e amigos proximos de Bedoya conheceram Arango. Ela é amiga de Clara, irma de Bedoya, mas este nao se dava bem corn suas irmas. Alta, morcna e de olhos verdes, Arango atraiu a atencao de Bedoya na tourada. Ela havia comprado em 1995 dois lugares ao lado do reservado a Bedoya. Bedoya estava chateado corn a decisao de sua irma de vender dois lugares exclusivos destinados a sua prestigiada familia, dc Cali. Eram cadeiras do tipo quc passam de geracao a geracao. Sao poucos os novos ricos que podem compra-las. a raiva dissipou-se quando viu Arango em urn desses lugares. Supostamente Arango nao tinha muito dinheiro, mas diz-se que pagou US$2.000 pclas entradas para a temporada. Clara, a irma de Bedoya, negou em uma entrevista que tenha silo ela quem decidiu vender as cadeiras a Arango. Disse que foi o prOprio Bedoya quc se apresentou a Arango e pediu-lhe que ficasse corn as cadeiras. Outros amigos c parentes, entretanto, garantem que Bedoya conheceu Arango na praca de touros. Bedoya participou de uma testa de aniversario para o gerente administrativo do jornal na noite de 20 de marco de 1997. Saiu da cede do jornal as 19h30. Seus amigos nunca mais o viram corn vida. 0 motorista de Bedoya levou o Volkswagen vermelho ate urn complexo residencial no sul de Cali. Era ali que morava Arango, corn a mac e a filha. Arango demorou alguns minutos para descer. Bedoya csperou em frente a entrada, uma area mal iluminada na qual caminhou por dez minutos em circulos para se exercitar. Os amigos de Bedoya perguntam por que o assassino nao o seguiu c o matou ali mesmo. Segundo informacoes fornecidas pelo motorista as autoridades, quando Arango apareceu foram para outro condorninio a alguns minutos de distancia, o Multicentro, na rua 87 corn 12. ''Ainda mantenholi sonho da certifiCacho; mas'0 pre- ',siderite deve desistir dele. As conseqiiencias econe- rnicas,.serao muito graves... Ainda niantenho;o sonho poique sei que de alguma fornia vira. Somos uma nar- coclemocracia;,o.poder do narcotrafiao continua em vigor,na Colhmbia. Ainda, temos quelefletir muito sobre'oinalintrinseco que narcOtrafico repreienta corn suas,sequelas obriga- Aeries de violencia e cor- Fup0o." 7 30 de'maio de 1996 (Sobre` a des6ertificacao)
  • 38. Novas Investigagoes na Colombia e no Brasil 37 Arango e Bedoya sairam do carro e passaram pela porta de entrada para ver urn apartamento. A area cstava escura, visto que a iluminacao pablica havia se apagado inexplicavelmente nesse dia. 0 guarda disse ao motorista que estacionasse a alguns metros de distancia, de modo que ao voltar pelo portao alguns minutos depois tivessem que caminhar apenas uma pequena extensdo ao lado de uma fileira dc arvores. Urn homem surgiu repentinamcnte das sombras e disparou cinco vezes diretamente em Bedoya. 0 assassino usava uma camisa branca e um bone de heisebol. Ao descarregar sua pistola, o assassino gritou: "Bedoya, maricas". (Essa e outra insinuacao que levou a policia a seguir a teoria de urn encontro amoroso homosse- xual.) Bedoya recebeu cinco tiros na parte inferior do abdomen e caiu no chao gravementc ferido. Arango jogou-se no chao; o motorista tremia dentro do carro. 0 bandido aproximou-se do portao, caminhando tranquilamente ate a esquina. Logo chegou uma moto. As versOcs da policia diferem sobre se havia urn ou doffs assassinos. Os dctetives que estiveram no local afirmam que o crime foi obra de assassinos profissionais. "Dispararam corn a intencdo de matar", informou uma fonte. 0 assassino afastou- se calmamente. Ninguem tentou dete-lo. Circundou o muro; as testemunham dizem que ouviram uma moto se aproximar. A policia acha que havia outro homem esperando na moto. A investigacao O assassinato de Bedoya causou protestos ira- dos do publico de Cali e do recto da Colombia. Centenas de pessoas vestindo luto compareceram a seu enterro. A morte de Bedoya foi noticia de primeira pagina nos principais jornais do pais. Colunistas dedicaram cronicas inteiras para home- naged-lo. A reacao imediata foi de apontar os narcotraficantes de Cali como culpados do crime. A comissao dos premios Maria Moors Cabot con- cedeu uma distincao especial pOstuma a Bedoya. Rodrigo Lloreda foi a Nova York receber o premio, concedido anualmente pela escola de estudos de pos-graduacao em jornalismo da Columbia University. 0 certificado esta em exposicao no Centro de Estudos Gerardo Bedoya, localizado no sotao do predio do El Pais, em Cali. Mais de dois anos dcpois do assassinato, a investigacao ainda esta em seu estagio preliminar. Muita gente simplesmentc quer que desapareca. Alguns ex-colegas de Bedoya no El Pais quiscram falar sobre o caso. Mas Lloreda negou-se a dar entrevistas para a SIP. 0 chefe de seguranca do jornal tambem ndo se mostrou disposto a colabo- "A Cruzada pela Morai,se refine... Ha;Muitotempo nao seVia'uma convo- '> cacao tao bem-sucedida... Todos queriam altalor a indiferencO haviao interesse: de, um grupo ou partido, mas uma recusa direta da'Coriop0ao o: e: uma democtocia enve- lhecida... tu, pessOo)men te, creio que os Objetivos devem ser Ciards e taxati- v0s... Derrubar o Regime... Ate que,o.presiderite :1 Vale do DaUca'ja 7 esta a meio caminho pato, deixar de tolerar o narco- trafiCo... -104ejunho de 1996..,,. (Sobre a cainpanha'os empre- sarias-pap rejeitar Samper e o narcotrafico11'
  • 39. 'Em posse meio reina a cultura,da estabilidade pre- sidencial. Mas a opiniap nao pode contagiar-se por essa doenca colombiana: a resignacao... Corn essa atitude temos tolerido e. perdoado tudo. Os motives dessa crise sae hem dife- rentes dos demais:e a consciencia frente ao nar- cotrafico que esta em ques- ta°. Esse e o momento deci- sive para definir de uma vez por todas se a socie- dade colombiana aceita,ou recusa o narcotrafico... -20 de junho de 1996 (Apes :o julgamento do. Congresso para detenninar se Samper continuaria no poder.r 38 Impunidade NUNCA MANS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas rar. Este, cuja responsahilidade era coordenar a investigacao por parte do jornal, insinuou que ainda ha muitos outros aspectos do caso a ser explorados. O Palacio da lustier' de Cali e urn predio verde, urn pouco abandonado, construido nos anos 50 na forma de labirinto. Os tribunais ordinarios estao nos primeiros andares. E ai que fica o gabinete do procurador regional para Cali, que representa urn sistema judicial paralelo estabelecido em 1991 para tratar dos casos de narcotrafico e terrorismo. E um dos seis gabinetes regionais da Colombia que funciona dentro do sistema da justica "sem rosto", criado para proteger os juizes e as testemunhas em uma epoca cm que mais de 200 juizes foram mortos pelos narcotraficantes. O chefe do gabinete é Lucas Pulido, funciona- rio pUblico que tem urn ar de intelectual. Para entrar no escritOrio de Pulido, deve-se passar por urn detector de metais c apresentar uma identificacao aos guarda-costas. Esse gabinete é responsavel pelos casos relacionados ao trafico de drogas e o terrorismo no departamento de Valle, na ColOmbia ocidental. Pulido cuidou do caso de Bedoya desde o inicio, ate que o processo foi transferido para a Unidade de Direitos Humanos, em Bogota, mas ainda nao se conhecem os progressos da investigaeao. 0 sistema investigativo sob o qual o caso se desenvolveu esta "oscilando", porque a maioria dos crimes contra jornalistas foi entregue a juizes regionais ("sem rosto"). Atualmente, o Congresso legisla para acahar corn o sistema, sem que estcja claro o futuro das provas obtidas ate o momento. Antes, urn juiz anonimo controlava o imenso arquivo do caso — cerca de 500 paginas — que era mantido longe do exame pdblico, como requer o sistema legal colombiano. No escritorio de Pulido, Esperanza Leal, encarregada de coordenar o trabalho dos juizes sem rosto, defendia a falta de progresso no caso. "Nao lemos suspeitos rcais", explicou. "Trabalhamos sobre quatro hiptiteses", acrescentou. E culpava a familia pela estagnacao do caso. "A familia nao quer falar conosco", explicou. "Sabem por que o matararn." Os investigadores concentraram-se no angulo do homossexualismo sem ao menos questionar a pista do narcotrafico. "0 que escrevia ndo era tdo importante", declarou Leal. "Nao vemos razdo nenhuma para que fosse alvo dos traficantes." O secretario de imprensa, Jorge Mahecha, afirmou que Bedoya "nao era urn escritor de importancia. Seus editoriais nao mobilizavam a opiniao ptiblica. Nao escrevia as piores coisas sobre o narcotrafico. Havia outros", declarou, quase em torn vitorioso. Pulido e Leal mostravam-se desconfortaveis.
  • 40. Novas Investigavdes na Colombia a no Brasil 39 Quem sao Os outros jornalistas de Cali? Mahecha olhou ao redor, confuso. "Born, temos Rodrigo Lloreda", disse finalmente, fazcndo uma careta. Devido a demora, as pistas foram perdidas e isso impediu o avanco de uma investigacao justa e completa. Os investigadores seguiram as pistas fornecidas por Maria Eugenia Arango. Segundo o gabinete do procurador-geral especial de Cali, Arango apresentou-se como uma das principais amigas de Bedoya. Disse a policia que Bedoya nao teve rclacoes sexuais corn ela e que acreditava que nunca as tinha tido corn outras mulheres. Como corroboracao mencionou outro amigo de Bedoya, cujas declaracOes podem ser duvidosas, segundo o primo de Bedoya. Os investigadores negaram a possibilidade de que Arango estivesse envolvida no assassinato porque, segundo tiles, Bedoya queria dar-lhe urn apartamento. "Por que o levaria a morte se ele pcnsava em sustenta-la?", perguntou Leal. Hugo Borrero disse que o primo Bedoya jamais the ofereceria algo assim. "Era muito mdo-fechada", afirmou. Algumas irregularidades Os atuais invcstigadores ignoraram ate os procedimentos policiais mais basicos. Nao deram importancia ao retrato falado do possivel assassino, que foi tracado corn a ajuda de testemunhas oculares. Tanto Pulido quanto a coordenadora declararam que seu gabinete considera innteis retratos desse tipo. "Na Colombia, sinceramente, isso de retratos falados corn base cm testemunhas oculares nao funciona", disse a coordenadora. "Todos parecemos indios. Entdo, como vamos encontrar os suspeitos?", disse corn urn sorriso forcado. "SO em casos cxcepcionais os retratos falados sao Uteis", acrescentou o juiz Pulido. Ha alguma esperanca para o caso Bedoya? "Veremos, mas temos centenas de casos como esse", declarou a coordenadora, dando de ombros. Hugo Borrero, urn homem alto de barba e cabelos brancos, era primo de Bedoya e seu melhor amigo. Os dois compartilhavam segredos. Borrero acredita que a investigacao demonstra que existe uma conspiracdo, provavelmentc por parte dos narcotraficantes. "Primeiro o matam. Agora tentam assassinar sua reputacao", disse.
  • 41. 40 impunidade NUNCA MATS — Crimes sem Punicao contra Jornalistas Caso: Jairo Elias Marquez j airo Elias Marquez teve uma morte tragica e muito comum entre os jornalistas da Colombia: foi alvejado por dois pistoleiros que pegaram-no de surprcsa em uma rua escura e suspeita de Armenia, em 20 de novembro de 1997. Quando Marquez preparava-se para entrar em seu carro, estacionado na rua 22 corn 22, dois pistoleiros alvejaram-no pelas costas corn tres disparos e fugiram em uma motocicleta. Marquez 6 o segundo jornalista assassinado nos Ultimos tres anos em uma cidade que 6 mais conhecida por seus abundantes cafezais e pelo clima temperado, localizada no departamento de Quindio, a 300 km a oeste de Bogota, a capital. Segundo a Fundacao para a Liberdade de Imprensa da Colombia, foram assassina- dos em Armenia Uriel Rios Tamayo, da Cadena Stiper, em 30 de agosto de 1979; Jose Eladio Arrcdondo, presidente do Circulo de Jornalistas, em 30 de fevereiro de 1990, e Erncsto Accro Cadena, do Informador Socioeconomico del Quindio, em 12 de dezembro de 1995. Como varios jornalistas do interior, Marquez era irreverente e partidario das criticas politicas que publicava em sua revista, El Marques. Apresentava uma mistura de noticias, fofocas e ataques contra muitos politicos locais. Grande parte da revista era escrita por ele mesmo, corn a ajuda de varios amigos que identificava por apelidos: 0 Monge, 0 Magro, 0 Camelo, 0 que nos tira dos Apuros. Os exemplares de El Marques "voavam" A revista de 20 paginas tinha urn material ironic() sobre temas politicos escrito em linguagem regional e vulgar mais adequada a uma cantina do que a uma publi- cacao. Entretanto, os 3.000 exemplares do El Marques distribuidos quinzenalmente "voavam". Marquez pensava em lancar uma segunda revista dedicada a politica regional, obviamente corn o apoio de alguns politicos do Partido Liberal. No dia em que foi morto, saia de uma grafica onde conversara sobre a nova publicacao. "Conheco-o desde que nasceu", disse Hugo Forero, Bono da grafica Indusellos. "Conversamos e ele me pediu ajuda para escolher o nome certo para o semandrio que lancaria em alguns dias. Ficou na minha loja por alguns minutos. Depois ouvi tres disparos, como de fogos de artificio. Sal e vi meu amigo no meio de uma poca de sangue. Aproximei-me e segurei sua cabeca. Tentou falar, mas morreu." Nos dltimos anos, Marquez estava abcecado corn a ideia de tirar do poder o senador estadual Carlos Alberto Oviedo, urn influente politico local c advogado que defendia narcotraficantes presos. Todos as ntimeros da revista tinham piadas,
  • 42. 41 Fiaha Pesioal Novas Investigagdes na Colombia c no Brasil IRO E~6 (12 de maio de 1956 2'20 de novembro de 1997) Hkalguns,.anos'obseryamos no departamento,de quindin urn raro fenomeno politico dentro do partido liberal:AlgimS de 'Seas meinbros afirmarn ser liberais, nias na kora de se posicionar em relicioaos aconteCi- mentas,eicondem a cabeca na terra coma a aveitruz." Editorial, El Marques, agoSto de 1997, primeira quinzena (Jairo.Elias Marquez) Jairo Elias-Marquez.Gillego (12 de maio de 1956 — 20 de novei'n- „Orb de 1997). Local de nascimento: Calarca, departamento de Quindio Wade ao_falecer: 41.2 anon Estado civil: EstavU ha urn ano separado de Marleni Moreno, corn guermestivera casado por cinco anon. Filhos: ,lairo Elias, :4 ahos;.Salome, 2 anos. Estudos:,, APrendeu jOrnalismo-trabalhando comcii'autonorno para emissoras de radio locals. Profissio/cargo: Editor, redatOr e•proOrietarid'il? yis-. ta El Marques. Antecedentes.jOrnalisticos e profiesiOnals:m Em 1980, comecou COFTIO:IdcuOr para a:Radio Estrella, e, dePois foi reporter e ccirreStiondente em ArriiQnia dd(adeia de,noticias de radio Super; delaois:da: tedeie:::. TOr,nou.,TSe:clepois tepOrter do jorn01:.E),MeridianO:de7Dulhdla (em ArMenia) e fundou,sila propria revis- ta. Exercicio do jornalismo: • 17 anos Passatempos: TOcava;violao cantava musica regional em verso (trmias).” insinuacbes e boletins noticiosos sobre Oviedo e suas supostas atividades corruptas. Algumas acusacoes eram tao serias que Marquez foi chamado para depor na Procuradoria local. Poucos meses depois da morte de Marquez, Oviedo foi preso e implicado cm outros dois assassinatos. 0 Superior Tribunal de Justica esta investigando acusacOes contra Oviedo que supostamente o envolvem como autor intelectual do assassinato de um agente da Unidade Tecnica de Investigacao da Procuradoria-geral. Esta sendo tambem acusado dos supostos crimes de Guillermo Acosta Botero e Fernando Celis Franco, em
  • 43. 42 linpunidade NUNCA MA'S— Crimes sem Punicao contra Jornafistas novembro passado, e do suposto sequestro e assassinato de Luis Javier Alzate. Na Ultima semana de abril de 1.999, o Superior Tribunal de Justica ratificou o mandato de prisao de Oviedo. A negra histOria de Armenia ilustra o que ocorre em algumas cidades colombianas do interior. Nelas, as obscuras aliancas entre os narcotraficantcs e os politicos locais transformam o oficio do jornalismo em urn risco de vida. Os investigadores acham que Marquez nao morreu porque atacou os narcotraficantes, como no caso de Gerardo Bedoya, assassinado pelo cartel de Cali em 1997. Segundo sua hipotese, Marquez foi eliminado por ter criticado a corrupcdo supostamente aprovada e apoiada pelo senador Oviedo e seus cupinchas politicos. Marquez apoiou Oviedo durante os anos iniciais de sua carreira como congressista. Mas eventualmente deu-lhe as costas, deccpcionado corn a violencia associada ao politico. Outros alegam que Marquez tinha suas proprias ambicoes politicas e usava a revista para elogiar os amigos e criticar Os inimigos. Jairo Eliecer Orozco é urn respeitado jornalista colombiano, afiliado a Radio Cadena Nacional, corn quern Marquez teve descntendi mentos. Segundo Orozco, "Marquez dizia muitas verdadcs sobre Oviedo em sua revista, mas tambern se equivocava devido a seus fortes compromissos corn outros politicos que lutavam contra Oviedo". 0 jornalista havia apoiado Belen Sanchez Caceres, governador do departamento de Quindio. Sanchez ganhou o posto corn o apoio de Oviedo, mas postcriormente voltou-se contra ere. Urn homem simples Marquez, urn homem alto de 42 anos, corn profundos olhos castanhos, tinha grandes sonhos. Escrevia e publicava sua revista quinzenal em sua grafica, chamada Impactar. Era conhecido por seu pseudonimo, Marques, e havia poucos anos que trabalhava em jornalismo. Quando jovcm, havia pensado em ser cantor, mas sua voz abriu-lhe o caminho no radio. Tornou-se apresentador de programas musicais em varias cmissoras locais. Quando lancou a publicacao, a critica politica ja era sua paixao. "Gostava de escrever tudo o que ouvia", explicou Marleny Moreno, sua esposa e mde de seus dois filhos. Quando Marquez morreu, estava separado de Moreno e vivia corn uma mulher mais jovem. Moreno reprovou o descuido de Marquez. "Mesmo sabendo que tinha filhos, nao queria ouvir os conselhos para moderar os artigos que escrevia." Moreno continua publicando a El Marques, mas a revista ja nao tern o mesmo impacto. Na edicao de comemoracao de seu vigesimo aniversario — distribulda cinco meses depois da morte de Marquez — , Moreno escreveu: "Como é Natal, to pedirnos, Senhor, que iluminc todos os jornalistas para que seus escritos sejam do agrado de todos. Amem". Marquez, por sua vez, sempre dizia que sua funcao era dizer o que nao agradava as pessoas. 0 escritorio de Marquez ficava no fundo da grafica, atras de grandes rolos de papel. 0 local é urn espaco quadrado e pequeno, ocupado por uma escrivaninha e duas cadeiras. Agora e usado por sua esposa e esta limpo c organizado, o oposto de como Marquez o mantinha: pilhas de arquivos, folhas de papel e sua maquina de escrever manual. Moreno instalou urn altar a direita da escrivaninha, para proteger
  • 44. Novas InvastiosOes na Colombia a no Brasil Situacao na Colombia nn.eflopa do assassinate 43 .Presidente da ColOmbia: Ernesto Samper Pizano Partidorui governo: Particlo Liberal Nacional Situacao politica do pais oil regiao: Apds.as tentativas fradassadas da oposicao de retitar o presidente Ernesto Samper do cargo, corn base nas invettigagoes da PrOcuradoria , geral Nag&o sobrea doagab de, verbas do narcotrafico parasub'carri- . „ panha eleitoral; iniciavarn,Se,rid pais as eleicoes pard rj rerioriagOo do 'Congress() da:Repalida, SerIdb que TO de seus membros estavam preso& ou respondiam a proceSso judicial „pOr,enriOueCimento ilicito: Ficha do Caso Data 'do assassinato: esquadrab'da morte que aftfava sob 20 de novembro de 1997 suas ordens de assassinar o,jornalis, ta. Forma'e local do assassinato: ApOS sair do escritorio da revista El COnseqiiencias violentas: Marques,rie centre da'cidade de Armenia (Quindio), quando.entrava em seu oarro, foi interceptado ppr dais motociclista'S armados que dis pararam contra ele tres vezes. Poihreis motivos: SupoeSe que a deScoberta dos via- culos'entre o senador Carlos Alberto. OviedO a o asseSsinatci do jornalista Ernefo A6eeb Cadena (eM,12 dezertibro,de,,1995),,juntO cormartigos bastantejealistiebs hos:,quaiSqU'es,: ticiriava a honea da''classepolitida, laVaraMao Seu.as'Sassinato:: •Sopostos autores•e/ou implicados: Segundo:testemunhas ouras pro- vas em'poder, da procuradoria,..o senador Carlos 4lberto Oviec1O havia encarregado os menbrosde urn NasAres Sernanas que sCicederarh o assassinato derlY14rquei, OS demais jornaliitas de Armenia receberam chamadas ameadadoraS, nas quais eramiadvehtidos que se continu, aSsem;inveStigando o assassinato.:' Aeriam o:mesm&destino: Humberto:. Guzman Bernal; investiga-:, dor da procuradoria encarregado do caso contra:Oviedo, foi assaSsinado, d1aS'deribis de ter aSsuniidO flag-arida morte de Marddez. Irregulifidades,do Processo: kprOCuradoria admitei'que resistiu: a agues de.,,preSsOoAnarf eSpedifiCa; dasypor parte de:thitroSMembros do COngressoi,,que desejam;median, te.(uma'reforma legal; obter a liberda !de de OViedo.
  • 45. ; Ultima Uiur ar Commv.i VIERNES lln 5jernp_lo.d -otlpA los 'Colombi •VOlka a 17;as 4:1 esta -rama: &cumina,an hasr r:er:r jyrnri Arr..r.ai. - 414 romiro. iui.: d dr • ei . . . . 44 Imptinidade NUNCA MA'S — Crimes sem Punicao contra Jorna/istas espiritualmentc o local. Ha uma foto de Marquez corn Jairo, seu filho de cinco anos. Por acidente, o pequeno Jairo viu as imagens televisionadas do corpo do pai. Durante meses apOs o incidente, o meni no perguntava a mde por que nao curavam os ferimentos de bala do pai para que pudesse voltar para casa. Moreno ainda tern medo dos que mataram Marquez. Em resposta a uma pergunta sobre quem poderia querer ve-lo morto, ela da de ombros e cruza os bracos sobre as pernas. "Depois soubem.os que tinha sido ameacado", disse em voz baixa. A familia fard algo para conseguir justica? "Todos temos medo — sua familia, meus filhos e Cu", explicou. Sobre o altar havia uma Biblia aberta no Salmo 91: "Deus e meu reingio. Ele me protcgera de todos os perigos." Terreno perigoso Marquez sabia que entrava em um terreno perigoso ao escrever sobre cellos politicos, segundo observaram seus colegas. Nos ultimos tres anos, a medida em quc crescia o poder do senador Oviedo, Armenia deixava de ser urn local scguro para transformar-se em uma cidade ameacada. Escrever sobre politica tor- nara-se perigoso. "Agora 6 crime ter uma opiniao", afir- mou Orozco, que é membro do RCN, enquanto caminha- va corn dois guarda-costas perto de seu escritorio. As ruas movimentadas de Armenia desafiam o perigo que muitos policiais garan- tem existir. Dizia-se que urn esquadrao da morte suposta- mente vinculado a Oviedo dedicava-se exclusivamente a manter longe os inimigos do senador. 0 artigo que evidentemen- te provocou a morte de Marquez foi publicado na semana anterior ao crime. Corn o titulo de "0 matt- soleu de El Marques", o artigo ridicularizava varios politicos que haviam per- dido as eleicOes parlamen- tares de outubro de 1997. Os jornais da epoca, como o Diario de Colombia e La Cranica Marquez p6s, ironicamente, de Cluindio (na pagina seguinte) fizeram uma ampla cobertura uma pequena cruz ao lado do assassinato de Jairo Elias Marquez.
  • 46. :my., • Lute en el perioclismo regional • Asesinado Jaw° Elias Marquez Galle El director de la moist° El Marques flit' abcarolo jar sirarios que se movilizoban en. uno mote. nolo el prapOsito def :odor tut sernanario, quo far cartado por las bake asesittas. los aermseel er qt.< <Ire n Ion ranee. innElias hr., re la,: Novas investigacaes na Colombia e no Brasil 45 de cada nome. 0 artigo tambem apresentava uma lista de politicos que Marquez condenava "ao purgatorio", ou seja, que nao seriam reeleitos na prOxima eleicao. Entre eles constava o nome de Oviedo. "Achavamos que nunca havia recebido ameacas de morte, mas foi advertido nas semanas anteriores a de sua morte, e esse artigo contribuiu para seu assassinato", disse Moreno. "Ha quem diga que decidiram dar-lhe uma pequena cruz." Urn povo em apuros Armenia ganhou ma fama no inicio da decada de 80 quando Carlos Lehder, membro do cartel de Medellin, foi morar na cidade. Tentou entrar para a politica local e criou um partido neonazista. 0 povo ficou fascinado coin a forma corn que Lehder se promovia, gastando Mares cm uma ostentacao jamais vista cm Armenia. Nessa etapa initial do narcotrafico na Colombia, poucos podiam imaginar o nivel de dano que esse comercio traria para suas cidades. Lehder foi extraditado para os Estados Unidos em 1982, acusado de trafico de drogas. Atualmente, cumpre pena de prisao perpetua em uma prisao de alta seguranya. Desdc entao, a boa sorte parece ter abandonado Armenia e outras cidadcs dos departamentos cafeeiros de Quindio, Caldas e Risaralda. Armenia e o segundo porto em importancia em questao de drogas e, na pratica, a totalidade do campo esta em poder de organizacoes armadas (grupos paramilitares, guerrilheiros, grupos de protecao a narcotraficantes ou exercito c/ou policia). A regiao enfrenta sua nOrt rlO Or!. LACRoNIC
  • 47. 46 Impunirlade NUNCA MATS— Crimes son, Punicao contra Jomalistas pior crise economica devido a queda dos precos internacionais do cafe e a lima praga de insetos que destruiu muitos cafezais. Varios camponeses venderam suas terras para os traficantes ou seus representantes, segundo declaracoes do povo local e da imprensa. As terras transformaram-se cm fazendas para gado, o negocio predileto dos traficantes para a lavagem de clinheiro. Outros sobreviventes da crise transformaram suas fazendas em locais turisticos que mostram o period° aureo do café e vendem pacotes turisticos bastante atraentes corn seguranca garantida. chegada dos traficantes multiplicou a violencia na regiao. Grupos gucrrilheiros de esquerda tambeni se infiltraram no local. Outras pessoas comecararn a desaparecer. 0 senador Oviedo A terrivel descoberta de dois corpos em chamas, perto de uma pequena estrada de Armenia, charnou a atencao sobre o imperio sangrento que o senador Oviedo supostamente erigiu em Armenia. Os corpos eram de Fernando Celis Franco, urn conhecido mercenario, e Juan Guillermo Acosta, urn engenheiro de classe alta, cuja esposa, diz-se, teve urn caso amoroso corn Oviedo. As autopsias revelaram que os dois homens foram torturados e apunhalados no coracilo corn urn objeto pontiagudo. Logo correu o boato de que Oviedo havia mandado matar os dois homens. Pouco a pouco surgiram novas alegacoes. Houve quem dissesse aos investigadores que Acosta, ao saber do romance de sua esposa, havia contratado o mercenario para matar Oviedo. Outros disseram que Acosta era socio de Oviedo em urn negocio rentavel, porem ilegal. 0 politico ficou rico supostamente corn uma rede dc transporte ilicito de narcoticos. Os investigadores disscram a SIP que o mercenario Celis, abordado por Acosta, era empregado de Oviedo. Este, por sua vez, ordenou que Celis fizesse uma armadilha para Acosta; depois, Oviedo matou Celis para nao ter que pagar 300.000 Mares pelo assassinato de Acosta. As circunstancias da morte de Acosta ficariam facilmente sem solucao, como ocorre corn muitos outros casos em Armenia. Mas Acosta era de familia rica e corn boas relacoes political; a familia empenhou-se para cxigir justica. Pediu-se uma investigacao ao Superior Tribunal, que tern jurisdica-o cm casos contra funcionarios cleitos que tenham urn alto nivel de imunidade dentro da lei colombiana. A confissao de urn mercenario foi anexada a ordem dc prisao emitida pelo Superior Tribunal. Esse é apenas urn dos muitos documentos no grosso processo que esta aparentemente sendo revisado pelos membros do Superior Tribunal antes que sejam tomadas as decisoes legais sobre o caso. A investigacao, a cargo da promotoria designada perante o Superior Tribunal de Justica, implica diretamente o senador Oviedo. Esta é formada por promotores de alto nivel, atraves dos quais o procurador-geral exerce seu mandato de investigar diretamente os "afuerados" ou seja, os funcionarios especiais que so podem ser julgados pelo procurador-geral. De modo que, no estado atual da investigacao, o Procurador-geral esta cstudando a possibilidadc de denunciar por assassinato o senador perante o Superior Tribunal de Justica. Na Colombia, os arquivos dos tribunais nao estao disponiveis para o Entretanto, a defesa e a Procuradoria frequentemente vazam os documentos internos.
  • 48. Collur0 lir voz) 1?! rivil jamas1),11..an othii • EL MARQUES41:2MIL-21 Hr TU PFIESCOCIA PEROSEGUIMUS I'll LA LUTHIL ITilLgl..ME,M1010111EllAJC U .TU (AMOK EL ,j,ei cprp,in tddON dqu! "mfr."' ,onexTry quereto <NperA ai e r • s MC1;0co. prtfrei y n<Ma os. Novas Investigagoes na Coltimbia c no Brasil 47 Esses revelam que Acosta c Cel is morreram de um ferimento corn objeto pontiagudo no coracao e de estrangulamento corn uma corda. Segundo declaracoes, Acosta rezou em voz alta durante a tortura. "Partia o coracao ouvi-lo rezando", disse uma das testemunhas, supostamente urn assassino. "0 problema para Oviedo foi o fato de Acosta ter matado alguem importante", disse o jornalista Orozco, urn homem esperto dc sobrancelhas cheias e que pisca os olhos freqtrentemente. "Sua Irma foi vice-ministry da Justica. Eles tem excclentes conexOes. Nao sao pessoas de se calar diante de urn assassinato." Foi entao que comecaram a ser publicados mais artigos na imprensa local apontando Oviedo como chefe de urn esquadrao da morte dirigido por seu irmao, Guillermo. Este tinha o habit.° de matar os pistoleiros responsaveis pelos assassinatos para elimina-los como testemunhas. Oviedo ameacava qualquer um que se apresentasse para testemunhar, segundo varias testemunhas. Os rumores e o temor inundaram a cidade. Ate a policia fazia suas investigacoes corn mais cautela. Evidentemente, Oviedo estava coin raiva de Marquez porque ele havia testemunhado contra de no gabinete da Procuradoria de Armenia a respeito de urn outro crime. As capas da revista El Marques, de propriedade de Jairo Elias Marquez, destacaram a tragedia do jornalista e a posicao adotada por seus colegas e familiares para enfrentar a impunidade que cerca o caso.
  • 49. 48 Impunidado NUNCA MA1S — Crimes sem Panicao contra Jornalistas Pediu-se aos reporteres que fossem a cidade para fazer reportagens que se registrassem corn nomes falsos e se expusessem pouco. "E muito perigoso", disse urn investigador em Bogota. "0 homem é urn polvo que tern espioes por toda parte. Frequentemente, quando falamos corn uma testemunha, somos informados de que foi ameacada." A historia pessoal de Oviedo, que circulava em Armenia, foi publicada eventual- mente em urn jornal de Bogota. Urn homem corn passado humilde que se fez. Sua mae foi prostituta que se esforcou muito para dar uma educacao universitaria a um filho precoce. Apos formar-se, Oviedo uniu-se a urn grupo juvenil do Partido Conservador e ganhou uma bolsa para estudar direito, formando-se corn louvor. Sua carreira como advogado especializado em leis penais deslanchou quando comecou a representar supostos narcotraficantes no Vale do Cauca nor te e membros do cartel de Cali. Em pouco tempo comecou a dirigir carros caros e a ostentar riqueza em locais pnblicos. os ser eleito para o Congresso, em 1994, supostamente com o apoio dos narcotraficantes, Oviedo apoiou muitos dos projetos de lei favorecidos pelos carteis de drogas. Votou a favor da absolvicao do presidente Samper durante a investigacao do Congresso sobre a acusacao de que Samper havia aceitado contribuicoes dos narcotraficantes para sua campanha presidential. As conexCies politicas de Oviedo C sua nova riqueza, calculada em varios milhoes de Mares, atraiam as mulheres. "Sempre tinha as melhores garotas da cidade", comentou urn investigador. Usava frequentemente suas Iigacoes politicas para conseguir emprego para as mocas que queria conquistar, segundo alguns moradores da cidade. Os investigadores implicaram Oviedo em nove assassinatos de cmpresarios, cantorcs, estudantes, jornalistas e ate bandidos. John Jairo Duarte Valencia, cantor e dono do bar El Zaguan de las Guitarras, foi supostamente assassinado porque impediu que Oviedo e seus amigos entrassem no bar porque provocavam brigas corn outros clientes. Para alguns moradores mais pobres de Armenia, Oviedo foi uma especie de Robin Hood. "Tinha seu lado born e seu lado de assassino", afirmou uma pessoa que nao quis se identificar, como muitos em Armenia. "0 que Oviedo fez cm Armenia foi criar uma cede atraves da qual muita gente era responsavel diante dele", disse Orozco, da RCN. "Tinha muitas amigas. Se voce fosse a qualquer ministerio e visse uma mulher Bonita, logo era informado de que estava saindo corn Oviedo." Oviedo tambem era dono de urn jornal, o Diario de Colombia, e de duas emissoras de radio. 0 time de futebol local, o Deportes Quindio, c o de basquete, Cafeteros, eram de sua propriedade. Todos esses negocios foram supostamente comprados corn o salario de urn congressista, cerca de 8.000 Mares mensais. 0 assassinato de Ernesto Acero Cadena Jairo Elias Marquez ainda estaria vivo se o assassinato de Ernesto Acero Cadena tivesse sido solucionado. Ele foi o primeiro reporter assassinado a mando de Oviedo, segundo informacOes fornecidas a SIP pelos investigadores. Acero, de 59 anos, foi baleado na manila de 12 de dezembro de 1995. Um jovem assassino abordou-o a dois