7332358 alexandra-sellers-filhos-do-deserto-3-o-sheik-solitario

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7332358 alexandra-sellers-filhos-do-deserto-3-o-sheik-solitario

  1. 1. O SHEIK SOLITÁRIO Alexandra Sellers Série Filhos do deserto 2 Título original: The solitary sheikh. Autor: Alexandra Sellers. Colecção: Xeique, Nº 1 - 25. 4. 05. Género: Romance. Publicada originalmente por Silhouette Books Nota do Digitalizador: Esta obra foi publicada no mesmo volume de "A Jóia Mais Valiosa", da mesmaautora. Estes títulos foram publicados originalmente em português em 2000 e 2002
  2. 2. Prólogo O príncipe Omar tinha recebido o reino de Barakat Central,uma terra de desertos e montanhas de cumes brancos, com numerosose grandes vales. Também lhe tinha sido entregue a taça do seulongínquo ancestral Jalal, coberta de rubis, ouro e esmeraldas, quesegundo a lenda encheria de felicidade o seu dono. Mas Omar não tinhasido feliz. A partir do momento em que por vontade do pai lhe foi dada ataça, a sua vida tinha-lhe parecido uma amarga traição. Houve uma vez um rei de uma antiga e nobre dinastia quegovernou uma terra abençoada por Deus. Aquela terra, Barakat, aoestar no centro das antigas Rotas da Seda, tinha recebido influências demuitas culturas diferentes. A sua geografia também era variada. Estavarodeada de mar; e o deserto, salpicado de oásis, entrava váriosquilômetros para dentro da terra, e montanhas de neves perpétuasarrebatavam a chuva das nuvens distribuindo-a nos seus vales férteis.Era, enfim, uma terra rica e cheia de magia. Mas também era uma terra de rivalidades tribais e escaramuçasfreqüentes. Como o monarca tinha nas veias sangue dos reis Quraishi,ninguém desafiava o seu direito ao trono, mas muitos dos chefesnômades sobre os quais governava rivalizavam constantemente entre si. Um dia, o rei daquela terra apaixonou-se por uma mulherestrangeira. Depois de lhe prometer que nunca voltaria a ter outramulher, casou com ela e fê-la rainha. Aquela amada esposa deu-lhedois lindos filhos e o rei amou-os com adoração. O príncipe herdeiroZaid e o seu irmão foram uma autêntica bênção dos céus: lindos,nobres, bravos guerreiros, populares no seu país. Quando alcançaram amaioridade, o xeque já podia contemplar a perspectiva da sua mortesem recear pelo futuro do seu país; se alguma coisa acontecesse aopríncipe herdeiro, o seu irmão Aziz tê-lo-ia substituído imediatamente,já que gozava da mesma popularidade entre as tribos e do mesmorespeito entre os chefes nômades. Mas certo dia a tragédia abateu-se sobre o xeque e a sua esposa.Os seus dois filhos faleceram no mesmo acidente. Desta forma, a suaprópria morte transformou-se no grande inimigo do idoso, convencidode que os chefes tribais iniciariam uma guerra civil para assegurar aposse do trono. A sua amada esposa compreendia bem os seus receios, mas jáera demasiado velha para lhe proporcionar outro herdeiro. Um dia,quando finalizaram os rituais do duelo, a rainha disse ao seu marido: - Segundo a lei, tens direito a quatro esposas. Toma, então, meumarido, três novas mulheres e que Deus abençoe uma delas com umfilho a quem possas deixar o teu trono. O xeque agradeceu-lhe que o tivesse libertado da sua promessa.Semanas depois contraiu matrimônio com três lindas mulheres jovens enaquela noite, ainda forte apesar da sua idade, visitou-as uma a uma,sem que ninguém soubesse a ordem que tinha seguido. A cada esposa 1
  3. 3. prometeu-lhe que, se lhe desse um filho, esse filho herdaria o trono deBarakat. O xeque foi muito mais fecundo do que imaginava. Cada uma dassuas novas esposas concebeu, e deu à luz, nove meses depois, um lindomenino. E cada uma competiu com as outras para conseguir o tronopara o seu respectivo filho. A partir daquele momento a vida do xequecomplicou-se muito, já que cada uma das suas esposas tinha diferentesrazões para defender que o seu rebento fosse nomeado o legítimoherdeiro. A princesa Goldar, que tinha legado os seus lindos olhosesmeralda ao seu filho Omar, baseava a sua reclamação no fato de elaprópria descender de uma família antiga real na sua terra natal, Parval. A princesa Nargis, mãe de Rafi e descendente dos antigosimperadores da Índia, tinha dado à luz dois dias antes das outrasesposas, o que transformava o seu filho no primogênito. A princesa Noor, mãe de Karim, reclamava a herança para o seufilho por direito de sangue; de todas as esposas, ela era a única árabe,como o próprio xeque. Quem senão o seu filho poderia controlar osnômades do deserto? O xeque esperava que os seus próprios filhos resolvessem odilema por ele, de forma que um sobressaísse aos outros. Mas enquantocresciam, pôde ver que cada um deles se tornava, à sua maneira,merecedor do trono; que cada um possuía a nobreza que teria sido deesperar num monarca e o talento necessário para governar o seu povo. Quando os seus filhos fizeram dezoito anos, o xeque compreendeuque lhe restava pouco tempo de vida. Enquanto jazia no seu leito demorte, as suas esposas foram visitá-lo uma a uma. Depois viu os seustrês filhos juntos e fê-los participar da sua última vontade. Por último,viu a rainha e companheira da sua vida, com quem tanta felicidade etanta dor tinha partilhado. Ao seu cuidado deixou as suas jovensesposas e os seus filhos, com a ajuda do seu vizir, Nizam al Mulk, comquem partilharia a regência. À sua morte, foi revelado o último desejo do xeque: o reino seriadividido em três principados. Cada filho seu herdaria um, com o seupalácio. Além disso, também herdariam um dos três antigos símbolosda realeza. Foi vontade do seu pai que pedissem conselho ao Grande VizirNizam al Mulk enquanto vivesse e nomeou um sucessor seu, para queninguém contasse com um conselheiro particular. A sua última ordem foi a seguinte: que os seus filhos nuncatomassem as armas uns contra os outros nem contra os seusdescendentes e que se ajudassem entre si quando tivessem problemas.A maldição do xeque cairia sobre aquele que violasse aquela ordem esobre os seus descendentes até ao fim dos tempos. Assim, os três príncipes alcançaram a maturidade sob o vigilanteolhar da idosa rainha e do vizir que fez o possível para preparar ospríncipes para o futuro. Quando fizeram vinte e cinco anos, tomaramposse da herança. Depois cada príncipe pegou no símbolo da realeza 2
  4. 4. que lhe correspondia e dirigiu-se para o seu palácio e reino. E viveramem paz entre si, tal como o pai lhes tinha ordenado. Capítulo Um U m garanhão preto galopava pelo deserto. Os seus cascosressoavam na endurecida arena, anunciando a sua presença no arsilencioso e imóvel. O seu pêlo negro brilhava de suor e os enfeites deouro da sua sela refletiam os raios do primeiro sol da manhã que selevantava ao longe sobre as montanhas brancas. A alta e erguida figura do seu jóquei parecia fundir-se com oanimal enquanto se dirigia para o rio barulhento. O cabelo do homem,negro como a noite, ondulava ao vento; o seu corpo esbelto e bemconstituído mexia-se ao ritmo do cavalo, enquanto o urgia com osjoelhos para que galopasse mais depressa... até que parecia quedesejava saltar para a corrente impetuosa do rio. No último instante, precisamente quando se tornava inevitável aimersão no rio, o jóquei travou o seu cavalo. O cavalo levantou as patas,relinchando, apenas a uns centímetros da beira do rio. Visto mais deperto, o cabelo do homem não era completamente preto, estavasalpicado de madeixas prateadas. Sob a sua testa larga, inteligente, oseu olhar expressava uma profunda preocupação. Jóquei e cavalo permaneceram na margem do caudal. A julgarpelo seu sobrolho franzido, não parecia gozar da vista do desertodourada pelo sol, nem do tom azul profundo das frias águas quecorriam aos seus pés, nem do banco das montanhas distantes. O seuolhar perdia-se rio abaixo, no oceano que sabia que estava no fimdaquele rio, invisível e confuso com o céu do horizonte. A terra do seu irmão. O rio marcava a fronteira da terra que lhetinha sido legada pelo seu pai. Tudo o que via do outro lado, incluindo aextensa e longínqua costa, pertencia a um dos seus irmãos. Se optassepor cavalgar para oeste, muitos quilômetros mais à frente, encontrariaoutra fronteira que partilhava com o seu segundo irmão. Os seus irmãos: agora já não existiam para ele. O seu pai e a suamãe tinham morrido. O que é que lhe tinha restado no mundo? Umaterra de desertos e montanhas, grande parte dela inóspita, e além dissoo seu direito de a governar estava sendo disputado por um loucoansioso de maior poder. Duas filhas pequenas, que conhecia e nãopodia gostar. Naquele instante teve consciência de que não gostava deninguém. Tinha gostado do seu pai, mas o seu pai tinha morrido e,postumamente tinha-o traído ao legar-lhe aquela terra inóspita. Setivesse chegado a gostar da sua mãe, a sua própria ambição assassinouaquele amor ao desejar que se transformasse em rei acima de tudo, sempensar sequer no seu bem estar. Foi ela quem acabou com as suaspossibilidades de ser feliz, forçando-o a casar com uma mulher a quemjamais pôde amar. E as suas ambições explodiram-lhe na cara quando, 3
  5. 5. muito tempo depois da morte do seu pai, que lhe deixou a pior parte doreino, a sua esposa só lhe deu filhas. Outrora tinha chegado a gostar dos seus irmãos, mas elestraíram-no violando assim a última vontade do seu pai. Como resultadoa sua esposa morreu e, embora não a tivesse amado como mulher,tinha lamentado amargamente a sua perda. O seu coração tinha-setornado frio e duro, tão duro como o seu corpo. Exceto as básicasnecessidades sexuais que tantas mulheres se mostravam tão dispostasa satisfazer, já não sentia nem desejo nem amor; só a férreadeterminação de conservar aquela terra, por muito estéril que fosse, elegá-la às suas filhas. Já nem sequer desejava amar. Não queria quenada perturbasse aquela fria reserva, a sua capacidade para enfrentar,sem protestos, o que o mundo lhe tinha oferecido. Não tinha nenhum filho. Talvez as suas filhas fossem rejeitadaspelos nômades, talvez nunca chegassem a herdar o reino. Nesse caso osseus dois irmãos repartiriam as suas terras e o seu nome desapareceriada face da terra; mas não desejava esposa alguma, não teria nenhumamulher para conseguir ter um herdeiro. Já não desejava nem esperavanada da vida. Decorreram minutos. À sua esquerda o sol continuava a levantar-se no céu, iluminando as casas da povoação onde tinha descansadonaquela noite. De repente, o som de um cavalo tirou-o dos seuspróprios pensamentos, e praguejou entre dentes. Seis jóqueiscavalgavam até ele, com os seus turbantes brancos a ondularem aovento, gritando e levantando os seus revólveres. Omar tirou rapidamente o seu revólver. Esporeando o cavalo atéeles e guiando-o só com os joelhos, disparou três vezes sucessivas e trêshomens caíram ao chão. Ainda sobravam mais três para se atirarem aele. Não pretendia matá-los. Disparou novamente quando já quase ostinha em cima e mais dois jóqueis caíram ao chão. Passou ao lado doúltimo atacante e travou o seu cavalo para carregar contra ele. Era oúnico que continuava em cima do cavalo. - Voltamos a encontrar-nos, filho de Daud! - gritou o bandido. - Pela última vez - anuiu sombrio o príncipe Omar; levantou maisuma vez o seu revólver, mas o seu atacante apressou-se a lançar o seupara a frente. - A minha arma já não serve! - gritou mais uma vez. Por uns instantes os dois homens olharam-se frente a frente,açoitados pelo vento do deserto. Entre o povo, Omar pôde reconhecer ohomem que aspirava ao trono, cujos esforços por consegui-lo tinhamcausado a morte da sua mulher. O seu dedo indicador ficou tenso sobreo gatilho do revólver. - É um guerreiro, não um verdugo príncipe! Sem baixar a sua arma, o príncipe Omar levantou a cabeça eobservou-o. Estavam o suficientemente perto para se olharem nosolhos. - Jalal, filho de um bandido, tem cuidado! - gritou-lhe, baixandofinalmente o seu revólver. - No nosso próximo encontro, dependerá da 4
  6. 6. misericórdia de Deus, porque eu não terei nenhuma contigo! - e, dandomeia volta, afastou-se a galope. - Querida, leva o Rolls - pediu-lhe a sua mãe com voz cristalina. -Hoje vai estar muito calor e, de qualquer forma, será impossívelestacionar. Deixa que Michael conduza. - Michael vai ter tanto calor como eu - disse Jana. - Porque é que se haveria de sacrificar por mim? - Porque Michael é o motorista - a sua mãe ignorou aquelaresposta com a irritada calma de alguém que tinha que lhe explicar issomesmo pela milésima vez. - É o trabalho dele. Bom, era e não era. Durante os primeiros sete anos da sua vida,até os seus pais se separarem, as limusines com motorista tinham feitoparte da normal existência de Jana. Mas depois mudou-se paraCalgary, onde a sua mãe começou a trabalhar. Ali, para além de ir parauma escola privada, Jana teve uma vida perfeitamente normal. Quando,dez anos depois, os seus pais se reconciliaram, algo que Jana tinhadesejado durante todo aquele tempo, descobriu que o regresso à suaantiga vida na mansão escocesa dos seus antepassados paternos eramuito mais difícil do que tinha imaginado. Irritavam-na as rígidasnormas que de repente os seus pais pareciam desejar impor-lhe, deacordo com o seu novo status, de filha de viscondessa... e descendenteda casa real dos Stewart. Finalizados os seus estudos universitários e decidida a fazeralguma coisa pelos outros, Jana foi ensinar num colégio num bairroconflituoso de Londres. Os seus pais não puseram demasiadas objeçõesaté que descobriram que em vez de ela viver no seu apartamentofamiliar em Belgravia, onde continuavam a ter uma empregada e ummotorista, estava decidida a alugar um apartamento não muito longe docolégio e conduzir o seu próprio carro. Mas como foi passando o tempoe não aconteceu nenhuma desgraça, deixaram de protestar. Só na semana anterior é que tinha acabado o ano escolar e comele o trabalho de professora que tanto a tinha iludido e que finalmentetinha significado uma mistura indescritível de gozos e tristezas,frustrações e satisfações. Embora a frustração e as tristezas tivessemacabado por ganhar a partida. Naquele momento a sua mãe tinha-se juntado a ela para lhe falarsobre o seu futuro. E tinha ficado horrorizada ao descobrir que nessefuturo não estava absolutamente nada decidido e que Jana se dispunhaa ir a uma entrevista para um novo emprego: ensinar inglês a umafamília no estrangeiro. - De qualquer maneira, Michael não vai ter calor, porque o Rollstem ar condicionado. - Porque é que se preocupa tanto, mãe? - perguntou-lhe Jana,suspirando. - Tenho mesmo que me preocupar se decidir trabalhar para umdéspota oriental que não sabe quem você é na realidade... - Claro que sabe. Tenho a certeza que viu os meus antecedentesfamiliares até vários séculos atrás - replicou Jana, olhando para a sua 5
  7. 7. mãe com curiosidade. - Porque é que diz que é um déspota? Disseram-me que se trata de uma família influente, com interesses mineiros. - Querida, todas as famílias influentes do Médio Oriente estãoligadas a alguma casa governante, de reis e essas coisas. É assim tãosimples como isto. Jana absteve-se de dizer que as coisas também não eram assimtão diferentes ali na Inglaterra. - Ninguém me falou de ligações com a realeza. - Mesmo assim, surpreende-me que espere suportar menosnormas lá do que aqui, Jana. Em quase todos os países as mulheressão obrigadas a pôr o véu outra vez. - Preocupei-me em saber que tanto os princípios da família comodo país são liberais no que diz respeito aos direitos da mulher. E, afinal,trata-se de ensinar inglês a duas meninas de sete e nove anos. Porúltimo, qualquer coisa será menos restrita que o fato de que nãopermitam uma pessoa ensinar com um método que funcione -acrescentou Jana com amargura. - É tão impulsiva - a sua mãe olhou-a com o sobrolho franzido,preocupada. - Querida, pensa bem outra vez. Por favor, não vá. - Quero ir, mãe - repetiu, teimosa, porque não tinha mais nadapara dizer. A dor ainda continuava ali, presente na sua memória e no seucoração. - Não a proibimos de maneira nenhuma de utilizar esses métodosde ensino, senhorita Stewart - tinha-lhe dito a comissão inspetora, eJana já tinha previsto que o que aconteceria a seguir significaria o fimda sua carreira como professora, - mas não pode abandonar ocurriculum nacional. Primeiro e sobretudo deve ensinar segundo ométodo oficial. Pode usar os seus próprios métodos, se quiser, mas demodo suplementar. - Não é possível ensinar com os dois! – tinha protestado Jana. Já lhes tinha dito mil vezes que o seu método funcionava, querealmente estava a ensinar aquelas crianças a ler. Além disso, ascrianças estavam a alcançar resultados muito esperançadores. O método oficial de alfabetização aborrecia-os e gerava um grandefracasso escolar. Quando o tinha utilizado, Jana, como tantos outros dasua profissão, tinha ficado reduzida a uma mistura estranha de ama ecarcereira. A câmara tinha permanecido impassível enquanto ela osrecriminava pela sua ignorância e pelos prejuízos por continuarem adefender uma metodologia tão ineficaz, mas quando se demitiuapressaram-se a aceitar aliviados a sua demissão. Uma vez terminado o ano escolar, Jana ficou desempregada. Claro, os meios de comunicação tinham ficado do seu lado. Eraprecisamente o tipo de história que preferiam, mas Jana tinha-secansado muito depressa de servir de prato à indústria do espetáculoinformativo e, de qualquer maneira o seu interesse tinha durado muitopouco. Mal tinha conseguido mais do que dois artigos num jornal e umdebate sobre o ensino oficial, embora mais uma geração tivesse acabadoo ano escolar sem saber ler. 6
  8. 8. Devia ter lutado mais, mas Jana parecia ter perdidotemporariamente o lendário espírito de combate dos Stewart. Sentia-secomo o seu ancestral, Bonnie Prince Charlie, depois da batalha deCulloden: completamente derrotado. O seu pai animou-a a meter-se napolítica e no parlamento, um de tantos privilégios da sua família. Masacabaria por ter tempo para isso mais tarde; agora, só desejava fugir elamber as suas feridas. Dois meses antes tinha-lhe chamado a atenção um anúnciosolicitando um professor particular de inglês para uma importantefamília nos pequenos mas prósperos Emirados Barakat. O empregotinha uma duração mínima de um ano. Era a saída que precisava. - Há maneiras melhores de fugir do que aceitar um trabalho nosEmirados Barakat - disse a sua mãe naquele momento. Jana encolheu os ombros. A sugestão da sua mãe de percorrer asMaldivas num cruzeiro ou residir durante uma temporada numa vilagrega tinha-a tentado ao principio... até que descobriu o que planejavarealmente. Jana não tinha intenção nenhuma de ter umas fériassemelhantes na obrigada companhia de Peter. Peter, o homem que toda a sua família adorava. - Mãe, não comece outra vez. - Jana, a sério que passar várias semanas com... - Mãe, não vou casar com Peter - informou-a Jana de maneiracontundente. - Oh, querida, porque é que continua a dizer isso? Peter é tão...adequado... Jana não pôde evitar e desatou a rir-se. A sua mãe eracompletamente transparente. Peter era adequado para os seus pais eseria um grande cunhado para Julian e para Jessica, os seus irmãosmais novos. Suspirou, encolhendo os ombros: estava cansada de lutar. Porfavor, meu Deus, espero conseguir este emprego. Não deixe que acabepor casar com Peter, rezou em silêncio. A sua gargalhada acabou por dissuadir a sua mãe, que levantouas mãos com um gesto de resignação. - Ao menos, leva o Rolls. Jana acedeu. Sabia que a sua mãe tinha acabado por levar a suaavante, mas a sua resistência estava já a um nível muito baixo. Se afamília inteira decidisse pressioná-la a sério para que casasse comPeter... ficou com o queixo tenso. Se lhe dessem aquele emprego, iriaaceitá-lo mesmo que o seu ofertante fosse um déspota oriental. Capítulo Dois U ma hora depois, Jana saiu agilmente do Rolls e ficou acontemplar a fachada do hotel Dorchester. - Obrigada, Michael - murmurou para o seu motorista. - Boa sorte, senhorita. Espero que consiga o emprego. 7
  9. 9. - Obrigada mais uma vez. Eu também espero que sim. Pensou que tinha bastantes possibilidades de o conseguir. A suaexperiência era a adequada para aquele emprego. Tinha-se apresentadoa três entrevistas durante o último mês e meio, todas comintermediários, e sabia que o número de candidatas tinha ficadoreduzido a três ou quatro. Agora o pai das meninas estava na cidade eJana iria encontrar-se com ele pela primeira vez. Tinham-lhe dito que asua mulher tinha morrido. Lançou um fugaz sorriso para o porteiro do prédio que, muitoamavelmente, se apressou a abrir-lhe a porta. - Boa tarde, senhorita. Rapidamente chegou ao balcão da recepção, de atrás do qual saiuum árabe de traços atraentes e um ar severo que a acompanhou até oselevadores. - Desculpe, pode dar-me a sua bolsa? - perguntou-lhe quando sefecharam as portas. - O quê? - perguntou Jana, tensa. - É preciso revistar a sua bolsa, senhorita Stewart. - Claro que não! - exclamou, em perfeita imitação de uma dasexpressões favoritas da sua mãe. - Lamento, mas devo insistir. - Ninguém me avisou que tinham que me revistar! O elevador chegou ao andar e parou, mas o árabe fez girar umachave no painel de comandos e as portas não se abriram. - Estou falando a sério, senhorita. - Quem é você? - Ashraf Durran, primo e colega de Omar Durran ibn Daud ibnHassan al Quraishi - respondeu com tom majestoso. - Por favor,senhorita Stewart, permita-me revistar a sua bolsa. Ele está à suaespera. Jana não tinha estado evitando as normas da sua própria famíliadurante todos aqueles anos para acabar submetida a outras maisrígidas. Talvez a sua mãe tivesse razão, afinal. - Há muitos loucos no mundo, senhorita Stewart, e temos que termuito cuidado - insistiu o árabe. - Permita-me - e estendeu as mãoscom um gesto convidativo. Jana agarrou na sua bolsa com força; não estava disposta a cedernaquela situação. - Convidaram-me para uma entrevista e ninguém me disse nadasobre me terem que revistar. Acho que deve haver um engano -pronunciou com firmeza. Ashraf Durran olhou-a fixamente, encolheu os ombros e meteu amão no bolso. Por um estremecedor momento, Jana pensou que ia tiraruma arma e quase se riu de alívio quando viu que se tratava de umcelular. - Baleh, baleh - disse pelo aparelho e voltou a guardá-lo. - Devo revistar a bolsa e a senhorita. - Ou? - Ou terei de escoltá-la até à saída. 8
  10. 10. - Bom, então faça-o... - começou a dizer, mas imediatamenteinterrompeu-se. Pensou em Peter, nas férias que a sua mãe lhe tinha preparado...se não arranjasse o emprego. Finalmente deu a bolsa a Ashraf Durran e esperou que adevolvesse depois de a revistar. - Desculpe. Jana conteve a respiração enquanto o homem deslizavaligeiramente e de maneira fria e impessoal as mãos pelo seu corpo. - Obrigada - disse-lhe. - Lamento que isto tenha sido necessário -depois fez girar a chave e abriram-se as portas do elevador. Jana saiu para uma grande sala mobiliada. Havia vários homenstodos vestidos com as roupas ocidentais, embora alguns deles tivessemo turbante árabe, de pé ou sentados. Nem um só parou de olhar paraela enquanto Ashraf Durran a guiava para uma porta. Jana teve ahumilhante sensação de que todos sabiam que acabava de serrevistada. Ashraf Durran bateu à porta antes de abrir. Quando a mandouentrar para a elegante sala, os seus dois ocupantes viraram-se para ela,levantando-se. Atrás deles, por uma grande janela, podia ver-se umalinda vista panorâmica de Hyde Park. Um dos homens era o velhote de cabelo cinzento, alto e magro,com quem Jana tinha tido uma entrevista anterior. Os olhos escuros deHadi al Hatim revelaram um brilho de reconhecimento enquanto lhesorria em jeito de boas vindas. O outro era muito mais novo, de trinta e poucos anos, mais alto,esbelto e forte. Tinha os olhos verdes, da cor do mar, face saliente, umatesta larga e grande, espesso cabelo negro e uma barbinha bemrecortada. A sua expressão era fria e distante, como se tivesse sidoesculpida em pedra. - A senhorita Jana Stewart, Alteza - apresentou-a Hadi al Hatim. -Senhorita Stewart, tenho muito prazer em vê-la novamente - apertou-lhe a mão. - apresento-lhe sua Alteza, o xeque Omar ibn Daud, príncipede Barakat Central. - Príncipe? - repetiu horrorizada. - A minha mãe tinha razão! Oh,maldição... Evidentemente não devia ter dito aquilo. Sua Alteza, o príncipeOmar ibn Daud ficou visivelmente tenso e olhou-a com frieza. - Qual é o problema, senhorita Stewart? - perguntou-lhe com asua voz profunda. - Tinham-me dito que você pertencia a uma família influente deBarakat, com interesses mineiros! - Nós temos minas de ouro e esmeraldas das montanhas de Noor. - Parabéns! - disse secamente Jana. Ignorava como é que se deviacumprimentar um xeque. Devia fazer-lhe uma vênia? Tinha a certeza deque a vênia era uma tradição puramente ocidental, mas a genuflexãooriental diante dos príncipes, se não lhe falhava a memória, exigia aprostração até tocar com o nariz no chão. E isso parecia-lhe demasiadoincongruente, mesmo num hotel tão luxuoso como o Dorchester... 9
  11. 11. - Mas eu não quero trabalhar num palácio. E acho que podiamter-me... - Podiam ter-me avisado, ia dizer, mas o príncipe interrompeu-a. - Porque não? - a sua voz era cinzenta, sem emoção. Nem sequerparecia sentir curiosidade. Desgostosa com aquela interrupção, Jana disse: - Pois em parte por todas estas razões que o fazem pensar quepode interromper-me sempre que lhe apetecer. - Senhorita Stewart, não compreendo a sua hostilidade. Segundoo meu vizir, parecia muito disposta a aceitar este emprego - olhou paraHadi al Hatim, mas o velho, esboçando um leve sorriso, não dizia nada.- Qual é o motivo da sua atitude? - Acabam de me revistar nesse maldito elevador - explicou Jana,indignada. - Ali fora há um verdadeiro exército de guarda-costas e tudoporque você é um príncipe... aqui tem o motivo! - Eu não tenho um exército de guarda-costas - informou-a. - Evocê ainda não é um membro da minha comitiva. Quando for, já nãohaverá necessidade de a revistarem quando se aproximar de mim. - O problema não é esse. O problema é que ninguém me disse queera uma família real que estava pedindo um emprego. - Agora já sabe. Quer ou não quer o emprego? Confrontada com aquela súbita decisão, Jana refletiu. Uma coisaera certa: Peter e a sua mãe iriam apressar-se em aproveitarem-se dasituação se não aceitasse aquele emprego. - Bom, eu... - hesitou, mordendo o lábio. - Senhorita Stewart - interveio o vizir, - antes desta entrevista,sua Alteza e eu tínhamos decidido que você era a melhor candidatapara este emprego. Se não está decidida a aceitá-lo, então não há nadamais a dizer. Se hesita, sugiro que se sente para falar do assunto comsua Alteza. - Está bem - aceitou agradecida. O príncipe Omar apontou para o sofá e ele sentou-se numacadeira ao lado. Hadi al Hatim permaneceu de pé discretamente pertoda janela. - Na sua última entrevista, segundo creio, disseram-lhe que otrabalho exigiria que vivesse conosco, ensinando duas meninas -explicou-lhe Omar num inglês correto, embora fosse evidente que nãose sentia muito à vontade a usar aquela língua. - Já conhece as suasidades e o nível dos seus conhecimentos. A única coisa que não lhedisseram é que são princesas. Jana olhou-o nos olhos e rapidamente ficou cativada por umolhar que parecia atraí-la e repeli-la ao mesmo tempo. Sentiu entãouma mistura de sentimentos: surpresa, confusão, incomodo,nervosismo, irritação. - Então são suas filhas? - Sim, são - respondeu com indiferença. Tratava-se do anuimentopuro e frio de um fato no qual os sentimentos não pareciam existir. - Setiver mais perguntas, pode faze-las agora. 10
  12. 12. - De que margem de liberdade é que vou dispor face aos termosoficiais impostos? - Termos oficiais? - repetiu, franzindo ligeiramente o sobrolho. -Nós não temos isso. As princesas são educadas inteiramente porpreceptores dentro do palácio. A maior parte deles estão ausentesnestas datas de férias. Prefiro que você comece agora, porque asprincesas estão à vários meses sem ter lições de inglês. - Não, não - riu-se Jana. - Eu não me referia a... interrompeu-sede repente ao ver que a sua expressão endurecia e a olhava com frieza. - Sei que o meu inglês está muito longe de ser perfeito, senhoritaStewart. Espero que não se vá rir cada vez que cometer um erro... - Não me estava rindo de nenhum erro! - exclamou indignada,erguendo-se. - Ah, não? - o príncipe arqueou uma sobrancelha com um arincrédulo. - Então o que é que lhe causou tanta diversão? - A má interpretação das minhas palavras! Eu tinha usado ovocábulo termo no sentido de condição, imposição. - Percebo. - Por acaso proíbe o riso no seu palácio? O príncipe observou-a por um instante. Jana nunca tinha pensado ver tanta resignação num rostohumano. - Não, não proíbo - respondeu, mas ela podia perceberperfeitamente que o riso, no seu ambiente, devia ser algo raro. Estavacomeçando a compadecer-se das suas filhas. - Como é que se chamam as suas filhas? - perguntou-lhe sempensar. - Masha e Kamala. - São nomes muito bonitos - sorriu Jana. - Masha não é russo? - É o diminutivo de Mashouka, que quer dizer amada, emParvani, a língua da minha mãe. É verdade que passei muitos anos naRússia, lá utilizam-no como diminutivo de Maria. Mas eu não deiintencionalmente um nome russo à minha filha. Parecia como se isso fosse a última coisa que desejasse fazer nomundo. - Se lhe desagradou tanto, porque é que foi para lá? - perguntou-lhe Jana, seguindo um impulso. Quando se apercebeu, já erademasiado tarde. - Eu não disse que me desagradou. Eu... - Mas desagradou. O príncipe baixou o olhar disfarçando a sua reação e de repente,Jana pôde admirar com liberdade a beleza daqueles traços. Os seusolhos rasgados e os seus lábios cheios transbordavam sensualidade eaquela barbinha dava-lhe o aspecto de um pirata de Hollywood. Mas afrieza do seu gesto parecia atenuar aquele efeito. - Sim, desagradou-me - reconheceu finalmente, suspirando. -Porque é que insiste nisso, senhorita Stewart? É assim tão importantepara si? 11
  13. 13. - Lamento - desculpou-se, corada, e ele aproveitou aquelemomento para olhá-la com curiosidade. - Tem alguma relação com a Rússia? - Nenhuma - respondeu Jana, esperando que não insistissedemasiado: não podia revelar-lhe que tinha achado assustador oimpulso de fazê-lo confessar algum tipo de sentimento... De qualquerforma, isso não era assunto seu. - Tem alguma fotografia delas? - Das princesas? Não sei - virou-se para o seu vizir. - Temos alguma fotografia, Khwaja? Hadi al Hatim sorriu e tirou da secretária uma capa da qualextraiu uma fotografia ampliada a cores, que deu ao príncipe. Nesseinstante, apareceu à porta Ashraf Durran, e o vizir atravessou a salapara ir ter com ele, fechando a porta nas suas costas. - Baleh - replicou Omar a algo que lhe disse o vizir antes de seausentar. Mal olhou para a fotografia antes de a entregar a Jana. Impressionada pela sua falta de calor, Jana inclinou-se para afrente para pegar na fotografia. Por pura casualidade e como ambos setinham aproximado um pouco, as suas mãos tocaram-se. A jovemconteve a respiração e concentrou-se na sua imagem. Duas meninas pequenas sorriam para a câmara, abraçadas.Eram muito bonitas, de olhos escuros, sobrancelhas muito bemdelineadas, com os mesmos olhos rasgados e lábios cheios do pai.Lindas, mas carentes de confiança, tímidas e receosas. Jana sentiu umimediato impulso de as proteger, como tinha feito com as crianças doslares problemáticos a quem tinha ensinado na escola em Londres. Ariqueza não tinha conseguido vacinar aquelas meninas contra a tristezae além disso tinham perdido a sua mãe. Para cúmulo, e se sua Altezanão corrigisse a sua atitude, também não chegariam a ter um pai. - São lindas. Deve sentir-se muito orgulhoso delas. - São como a mãe. Dela dizia-se que era uma grande beleza. - O que é que quer dizer Kamala, - perguntou-lhe, levantando oolhar da fotografia para descobrir que a estava observando. - Quer dizer “perfeita”, senhorita Stewart - interrompeu-se eambos olharam-se fixamente. No meio daquele silêncio, de repenteforam conscientes que tinham ficado completamente sozinhos naquelasala. Jana não sabia o que dizer, era como se as palavras tivessemficado atravessadas na garganta. Contemplou a sua boca, sensual efirme ao mesmo tempo. Ao ver que os seus lábios começavam a mexer-se, conteve novamente o fôlego. - O seu próprio nome, Jahneh, tem um significado na nossalíngua. Quer dizer alma, mais exatamente alma de. Assim, Janam querdizer alma minha, por exemplo. Qual é o seu segundo nome? - Roxana. - Essa também é uma palavra Parvani. Roshan significa luz.Assim o seu nome fica “alma da luz”, ou “luz da alma". - Percebo - engoliu a saliva, nervosa. - Obrigada. Seguiu-se uma pausa durante a qual o príncipe desceu o olharpara o relatório que tinha na mão, escrito em árabe. 12
  14. 14. - Você descende da casa real da Escócia. - Perdemos essa batalha há muitos anos, Alteza. - Mas deve ter um conhecimento da vida de uma família real queas outras candidatas não têm. Esse é o problema do costume: osprofessores estrangeiros não podem compreender as normas. Você,espero, deve compreendê-las. Oh, sim, claro que as compreendo. Sempre lutei contra elas,pensou Jana enquanto olhava para baixo novamente para as fotografiasdas suas filhas. - Sim. - E o seu trabalho em colégios pobres indica-me que compreendeo sentido do dever. As princesas também aprenderão o significado dessapalavra. Jana não pôde compadecer-se menos daquelas meninas. Opríncipe ia oferecer-lhe aquele emprego e, apesar de tudo, ela percebiaque ainda o queria. Não só pelo bem-estar das princesinhas de olharperdido, mas também pelo dela própria. Por muito frio que fosse aquelexeque, por muito rígido que fosse o seu ambiente, só estaria ali um ano.Se acabasse por casar com Peter... aquele castigo duraria muito maistempo. - Percebo. - Esse método para alfabetizar as crianças... foi você que oinventou? - Em parte. Na verdade é uma variação do antigo sistemafonético, com o qual todas as pessoas com mais de quarenta anosaprenderam a ler. Mas foi descartado e agora ensinam inglês como sefosse chinês, embora nós não tivéssemos alfabeto, mas sim imagensque descreviam as palavras. É uma pena. - As princesas... - o príncipe ainda não se tinha referido a elascomo as minhas filhas, - falam inglês bastante bem, mas nãoconseguem ler. Lêem árabe, Parvani e francês bastante bem, sãointeligentes, mas dizem que não conseguem ler bem inglês. Sabe porquerazão? - Bom, sem saber quem foram os seus professores anteriores... -encolheu os ombros. - Essas crianças às quais ensinava... a sua língua materna nãoera o inglês? - ao ver que anuía, perguntou-lhe novamente. - Que línguaera? - Eram muitas, todas diferentes - Jana sorriu. Sou capaz de dizermuito bem em catorze idiomas diferentes. - Khayli Khoub - pronunciou o príncipe Omar e viu que Janaarqueava as sobrancelhas, surpreendida. - É assim que se diz muito bem, em Parvani, senhorita Stewart.Espero que o diga muitas vezes às princesas. 13
  15. 15. Capítulo Três U ma semana depois, o séqüito real ocupava quase por inteiroa sala de primeira classe do pequeno reator das linhas aéreas RoyalBarakat. Só meia dúzia de lugares ficavam vazios, um deles ao lado deJana que, enquanto lia, refletia de vez em quando sobre o gigantescopasso que estava dando na sua vida. Em rigor, os seus pais tinham-se oposto à decisão que tinhatomado embora se tivessem sentido impressionados pelo fato de ela irtrabalhar para a realeza de Barakat. E a sua oposição tinha cedidotendo em conta a determinação da sua filha. De repente, alguém se sentou ao pé dela, distraindo-a dos seuspensamentos. Era o idoso vizir. Estiveram conversando durante algunsminutos. Desde o início Jana tinha ficado muito impressionada comaquele homem mais velho, com o seu inveterado ar humilde. Aquelesolhos pretos de olhar tranqüilo pareciam saber muito sobre a almahumana, o que a amedrontava um pouco. Falou-lhe das suas novas pupilas, Masha e Kamala e dadesnecessária tragédia que foi a morte da sua mãe há dois anos atrás.Se a tivessem levado para o hospital... Mas o príncipe Omar estavanaquela altura viajando e ninguém na sua ausência se tinha atrevido acarregar tamanha responsabilidade sobre os ombros. Jana franziu o sobrolho: - Não é preciso ser muito decidido para levar uma mulher doentepara o hospital! - Ela não queria ir. E ninguém tinha autoridade suficiente para aobrigar. - Quer dizer que ninguém se atreveu a assumir esse risco paralhe salvar a vida? - perguntou-lhe, incrédula. - Você teria feito isso? - Bom, espero que sim! Meu Deus, é assim tão rígido o vossoprotocolo? Qual é que foi a reação do príncipe Omar quando regressou?Deve ter ficado furioso. - Ficou consternado. Mas não se podia culpar ninguém... Jana perguntou-se porque é que o vizir lhe estaria contandoaquela história. Para a ajudar a compreender as princesas... ou opróprio príncipe? - Estava... estava muito apaixonado pela sua esposa? - Num assunto assim, quem é que pode chegar ao coração de umhomem? - sorriu o vizir, levantando as mãos e Jana pensou que decerteza ele faria isso logo a seguir. - Declarou que nunca mais secasaria. - Está a... - começou a dizer, mas Hadi al Hatim já se tinhalevantado do banco e despedia-se dela com um abanar de cabeça. Esteve quase a perguntar-lhe se, com aquelas palavras, tinhaquerido avisá-la que não se interessasse demasiado pelo príncipe... masera simplesmente ridículo que alguém pudesse imaginá-la a elainteressada por aquele homem! Era tão frio como um... Então porque é 14
  16. 16. que lhe tinha contado tudo aquilo? Definitivamente, o vizir não era umhomem que falasse por falar. E, de qualquer forma, ela não tinha que seimportar que o coração do príncipe Omar tivesse morrido com a suaesposa. O príncipe Omar estava na cabine do piloto. As pessoas iam evinham, sempre à sua volta, fazendo-lhe reverências, entregando-lhedocumentos, conversando com ele. Jana levantou-se para ir aobanheiro. Passou ao lado do banco do príncipe num dos rarosmomentos em que estava sozinho, folheando alguns papéis. Devia terpercebido a sua presença, porque quando Jana saiu do banheiro,levantou o olhar e chamou-a pelo nome. Obediente parou à sua frente. - Alteza - murmurou. Era a primeira vez que o via desde a sua entrevista no hotelDorchester. Agora já estava mais tranqüila e atrás da frieza do seuolhar existia alguma coisa que antes lhe tinha passado despercebido.Ou talvez fosse um efeito do que Hadi al Hatim lhe tinha contado sobrea morte da sua esposa. - Só estou à três horas fora de Inglaterra e já não ouço falar inglês- comentou. - Sente-se e fale comigo, por favor. Jana pensou que aquela ordem teria sido muito mais agradável sea tivesse acompanhado com um sorriso. Sentou-se ao seu lado,hesitando ainda sobre o protocolo a seguir estando tão perto domonarca. - Porque é que quer ouvir falar em inglês? - Bom - olhou-a um pouco surpreendido, - é uma língua quesempre quis falar bem. - A mim parece-me que a fala com muita fluência. - Não. O meu inglês é bastante medíocre comparado com o dosmeus irmãos. - Então devem ser falantes nativos – replicou Jana com umsorriso. - Um estudou na Universidade dos Estados Unidos e o outro naFrança. Em ambos os lugares tiveram a oportunidade de aperfeiçoar oseu inglês. - Enquanto você aprendia russo? - adivinhou ela, lembrando-sedo que lhe tinha dito sobre o tempo que tinha passado naquele país. - Sim, aprendi russo. O meu pai pensava que um pequeno paíscomo o nosso devia ser capaz de comunicar com todos os líderes dasnações poderosas no seu próprio idioma e compreender a sua cultura. - Onde é que aprendeu a falar inglês? - apressou-se a perguntarJana. - Foi a primeira esposa do meu pai que me ensinou, que eraestrangeira. Ela aprendeu o árabe depois de casar com o meu pai. Masdizia que o inglês era o idioma mais útil e só falava conosco em inglês.Foi desejo do meu pai que passássemos muito tempo com ela. - Não me admira que o fale com tanta fluência. - Não. Quando várias pessoas estão falando, é difícil segui-las. 15
  17. 17. - Só precisa de prática... - Jana encolheu os ombros, -... tereimuito gosto em falar consigo sempre que quiser - tinha esperado umanegativa da sua parte, por isso a sua reação surpreendeu-a. - Terá tempo para isso? - Claro. Tudo depende do tempo que o senhor tiver livre. Teríamosque planificar sessões de conversação quando as princesas estivessemrecebendo aulas com outros professores, por exemplo. - Sim - pronunciou lentamente o príncipe Omar. - Sim, é umaidéia interessante. Obrigado. - Nunca chegou a acordos deste tipo com os outros professores deinglês? - perguntou-lhe então Jana, admirada. - Não. - Quer dizer que se negaram? - Nunca pensei em perguntar-lhes. Só consigo é que surgiu. Aquelas palavras pareciam carregadas de um estranhosignificado. O silêncio que se seguiu só foi quebrado pelo estrondo dosmotores do avião, que iria levantar vôo dali a uns minutos. Naqueleinstante Ashraf aproximou-se do príncipe e, segundos depois, Janaestava no seu lugar, pondo o cinto de segurança. No aeroporto de Barakat al Barakat, o séqüito foi recebido poruma comitiva de limusines. Enquanto Jana esperava o carro que lhetinha sido destinado, percebeu que o príncipe Omar se desviava dogrupo afastando-se sozinho pela pista. Observou-o por uns momentosaté que chegou o helicóptero estacionado um pouco mais longe deles. Enquanto a fila de carros se afastava, Jana conseguiu ouvir obarulho do motor do helicóptero e ao espreitar pela janela viu-o asobrevoar as suas cabeças dirigindo-se para o deserto. O palácio era simplesmente mágico, de conto de fadas oriental.Arcos, retorcidos, terraços, cúpulas, tudo em cores brancas e azuis,pareciam espalhar-se em cascata na ladeira do cerro que dominava acidade. O último sol da tarde cobria com o seu manto dourado ohorizonte do deserto. Para leste, como se protegesse o palácio e acidade, levantavam- se impressionantes montanhas de cumes brancos. Jana esfregou os olhos e olhou novamente. Quase pareciaimpossível que aquele fosse o seu lar durante o próximo ano... ou maistempo até. Viu uma pista de aterragem diante do palácio, frente ao qualpararam, mas nenhum sinal do helicóptero preto. Ashraf Durranaproximou-se para lhe pedir que identificasse a sua bagagem; eminutos depois os dois seguiam uma empregada que os conduziu aoseu quarto. Jana aproveitou aquela oportunidade para lhe perguntar: - O príncipe Omar não voltou para o palácio? - Ah, não. Ele tinha... outros negócios para tratar. Talvez seausente durante uns dias. Então nem sequer se tinha incomodado em ficar para aapresentar às suas filhas, pensou Jana. Sabia que era ridículo que sesentisse decepcionada. O seu quarto era um lindo apartamento com um grande terraçoque dava para leste. À sua esquerda, ao longe, as montanhas erguiam- 16
  18. 18. se atrás do deserto; à direita via-se grande parte da cidade e de um riocom uma corrente impetuosa. Os quartos estavam decorados com o que Jana pensou seremmagníficas obras da arte oriental: tapetes, jarras de bronze, miniaturaspintadas e móveis de madeira muito bem trabalhados. Ashraf Durranapresentou-lhe a mulher que estava à espera dela. - Esta é a sua empregada pessoal, Salimah. Fala inglês. Salimah,a senhorita Stewart. - Olá - disse Jana quando a jovem murmurou um cumprimentoformal. - Salimah vai ajudá-la a desfazer as malas. Há mais alguma coisaque precise por agora? - Gostaria de conhecer as princesas. Ashraf levantou uma mão sorrindo. - Salimah também vai se encarregar disso. Se desejar, ela própriavai mostrar-lhe o palácio. Mas primeiro talvez gostasse de beber umcafé ou um chá, ou alguma bebida. Deixo-a nas suas mãos, senhoritaStewart. Quando a porta se fechou atrás dele, Salimah sorriu. - Posso ajudá-la a desfazer as malas? - perguntou-lhe, solícita,fazendo-a entrar num amplo quarto dominado por uma enorme camade dossel, com um armário decorado com os mosaicos mais bonitos queJana alguma vez tinha visto. Uma hora mais tarde, desfeitas as malas, depois de tomar umbanho e ter tomado um delicioso sumo de frutas, Jana disse a Salimah: - Agora gostaria de conhecer Masha e Kamala. - Claro, senhorita. Vou levá-la à ama delas. E guiou-a através deuma interminável série de corredores e salas. Pelo caminho descobriuque bastantes vitrinas e armários pareciam ter sido esvaziados dasantiguidades e tesouros que noutros tempos tinham contido. Emmuitas das casas dos seus amigos tinha visto coisas parecidas. Na Grã-Bretanha a causa era sempre a mesma: dívidas que obrigavam asfamílias a venderem o seu patrimônio artístico. Perguntou-se o que éque teria acontecido ao príncipe Omar para se ver naquela penosasituação. - Mas onde é que são os quartos das princesas? - perguntou-lhequando foram por outro corredor. - Ao lado do quarto da sua ama, claro. Ao lado do quarto da ama, mas a vários quilômetros do da suaprofessora de inglês, pensou ironicamente Jana. Umm Hamzah, amulher que segundo lhe explicou Salimah, tinha sido empregadapessoal da mãe das princesas e agora era a sua ama, era uma mulhercorpulenta, de baixa estatura, face morena e expressão nada afável. Cumprimentou Jana em árabe e explicou logo a Salimah quenaquele momento não era possível ver as princesas. Mais tarde seriamais conveniente. Jana anuiu e perguntou logo: - Onde é que estão agora? - Acho que estão tomando banho, senhorita - respondeu Salimah,incomodada. 17
  19. 19. Jana sorriu para Umm Hanzah e perguntou-lhe a que horas é queestariam despachadas. - Alguém levará as princesas ao seu quarto mais tarde, senhorita- traduziu Salimah. Mas isso não aconteceu. Foi servida uma deliciosa refeição nosseus aposentos, e depois de contemplar o pôr-do-sol no terraço,admirando a lua cheia que refletia a sua luz no escuro frio, Jana foipara a cama com um livro. Durante dois dias nunca foi conveniente, para Jana conhecer asprincesas. E Salimah corava e ficava cada vez mais atordoada com asexplicações da ama. - As princesas estão doentes, senhorita Stewart - explicou-lheSalimah com o olhar baixo, traduzindo as palavras da mulher. - Estãode cama. - Está bem, então vou eu vê-las. - La, la! - gritou a velhota, agitando as mãos quando Salimah lhefez a sugestão. - Diz que não, que pode ser contagioso. - Não importa - Jana tinha mostrado estar a par da situação, masnão encontrava nenhuma explicação para a hostilidade daquela mulher.- Nunca me contagio com a gripe. Quero vê-las. Acolheram as palavras de Salimah outros tantos gritos e gestosexagerados. - Estão demasiada doentes para poderem ver alguém, senhorita. - Bom, nesse caso... - pronunciou com um tom tranqüilo, apesarde estar a ferver por dentro. - Vou telefonar imediatamente para ocelular do príncipe Omar para que regresse imediatamente ao palácio.De certeza que tem coisas urgentes para fazer, mas não gostaria deestar fora num momento tão perigoso, quando as suas filhas estão tãodoentes. Vou telefonar-lhe agora mesmo. Depois perguntou-se se a velhota engoliria aquela isca. Nemsequer sabia se o príncipe tinha um celular e muito menos conhecia onúmero. Mas viu que Umm Hamzah ficava com o queixo tenso e abriaos olhos alarmada enquanto Salimah lhe traduzia as suas palavras ecompreendeu que tinha ganho. Meia hora depois, a empregada fez entrar as princesas, cheias deboa saúde, nos aposentos de Jana. Durante o tempo todo que duraramas apresentações, as pequenas não pararam de olhá-la com apreensão. Assim que ficaram a sós, Jana perguntou-lhes: - O que é que se passa? - Você é a serva do demônio? 18
  20. 20. Capítulo Quarto -N ão - respondeu Jana, tentando ficar calma. - Alguémlhes disse que eu era isso? Masha anuiu sem falar, olhando-a com os seus enormes olhosescuros. Jana sabia que só tinha ano e meio de diferença da sua irmã e,se não fosse pela pequena diferença de estaturas, as duas quasepareciam gêmeas. - Pois enganou-se - declarou Jana, sabendo perfeitamente quemera a culpada de tudo aquilo. Não sabem o que é que significa o meunome? O meu nome completo é Jahn-eh Rosharc - disse-lhes, imitandoa pronúncia do príncipe Omar. - Alma de luz! - gritou Masha e Kamala repetiu as palavras comuma expressão de gozo, como se ela mesma as tivesse descoberto. - Exato. Então, como é que eu podia ser a serva do demônio? Não era um argumento muito convincente, mas pareceu exercer oseu efeito sobre as princesinhas, que sorriram de puro alívio. - Mas o teu nome é Parvani - comentou Masha com voz gravepassados uns instantes. - E Nana não fala Parvani, só árabe. Jana deduziu que Nana era Umm Hamzah. - Oh, bom, então foi por isso que se enganou. Coitada da UmmHamzah. Não sabia... As meninas ficaram satisfeitas com aquela explicação e Janadecidiu deixar as coisas assim. Mas sabia que a velhota lhe tinhadeclarado guerra, por isso teria de estar alerta. A partir daquele momento, Jana dedicou todo o seu tempo paraconhecer melhor as princesas. Umm Hamzah continuou a esforçar-separa lhe restringir o acesso, mas com Salimah a interpretar que Janasimplesmente repetia as ordens do príncipe Omar, não voltou a tergraves problemas. Jana não demorou em mostrar-se tão decidida a separar asmeninas da sua sombria ama como a própria Umm Hamzah de afastá-la daquela diabólica estrangeira. Era uma mulher inculta esupersticiosa, que contava a Masha e Kamala histórias terríveis que aqualquer pessoa deixaria os cabelos em pé. Estava convencida de que aobsessiva preocupação da velhota pelo pecado, a morte e o demônio nãoera nada bom para as meninas e esforçava-se o mais possível paradiminuir a sua influência. As duas princesinhas já falavam um bom inglês básico e, emboralhes desse aulas formais de leitura, o fato de estar falando com elaspodia considerar-se como uma lição da língua. Por isso brincavamjuntas, iam passear, davam de comer aos cavalos do xeque,contemplavam as mulheres nômades enquanto lavavam a roupa no rio,nadavam na piscina do palácio. - A água aqui não é tão... boa como a do lugar especial do meupai - comentou Kamala com um tom nostálgico na primeira vez queforam para a piscina. 19
  21. 21. - Ah, não? - perguntou Jana, corrigindo-lhe a pronúncia. - E ondeé que fica esse lugar? As meninas suspiraram ao mesmo tempo, com uma expressãosonhadora. - A casa fica nas montanhas de Noor - explicou Masha apontandopara os montes que se viam ao longe. - Vão para lá no verão? Ambas as princesas negaram gravemente com a cabeça. - Não - pronunciou Masha, suspirando novamente. - Fomos láduas vezes. É muito bonito, Jana. Muito bonito. Divertimo-nos muito. - Víamos o nosso pai todos os dias. Não é como aqui, no palácio.Aqui não vemos o Baba. - Falava conosco e levava-nos a montar a cavalo. Ensinava-nosmuitas coisas. - Ele não se ia embora e não nos deixava sozinhas o tempo todo. Mostravam-se tão pateticamente dispostas a recordar aquelesdias que Jana sentia o coração partido. Pobres princesinhas que nuncatinham podido desfrutar da companhia do pai... - Talvez o vosso pai vos volte a levar lá um dia destes - sugeriuJana numa tentativa de as reconfortar. As meninas sorriram, encolhendo os ombros. - Ainda lá têm a casa? - Oh, sim. - O Baba está lá agora. - A sério? - perguntou surpreendida. - Vimos o halikuptar. Quando o halikuptar sobe é porque vai parao lago - disse Masha. - Mas nós não vamos. - Talvez eu possa dizer-lhe para vos levar - disse Jana. Sentiacuriosidade por aquele lugar e também por saber porque é que nuncatinha voltado a repetir aquelas férias que as meninas recordavam comtanto prazer. Olharam-na como se se tivesse metamorfoseado numa fada. - Pode fazer isso? - perguntou Kamala. - Oh, Jana! - exclamou Masha. - Posso tentar. Vou mencionar o assunto na primeiraoportunidade que tiver - prometeu-lhes. O príncipe Omar regressou dois dias depois. Jana viu-odesembarcar do helicóptero num dos terraços do palácio e o coraçãosaltou-lhe de alegria. Tanto para ela como para as princesas, aquelelugar era incompleto e vazio sem ele. Lembrou-se da sua conversa noavião e esperou que a convocasse à sua presença. Mas as horas e osdias foram passando e não recebeu nenhum chamamento desse gênero. Numa tarde de calor, quando as princesas já estavam deitadas,Jana tinha descido até à piscina com a intenção de tomar um últimobanho, como era seu hábito, quando encontrou o príncipe Omar.Estava sozinho, nadando com rapidez o estilo crawl. Depois de unsinstantes de hesitação, Jana tirou o roupão e meteu-se na água. Depois de nadar uns metros parou na parte mais profunda e viuo príncipe sentado na beira da piscina, não muito longe dela. 20
  22. 22. - Boa tarde, Alteza - cumprimentou-o. - Boa tarde, senhorita Stewart. - Espero não o ter incomodado por ter vindo para a piscina.Venho nadar sempre a esta hora e ninguém me disse... - Está bem, não se preocupe. O seu tom de voz era distante e Jana pensou que estariapreocupado. De repente, o príncipe levantou-se agilmente, disposto a ir-se embora. - Alteza - chamou-o ela. - Sim? Jana descobriu então, à luz da lua, que tinha um corpomagnífico. Era alto e esbelto, de braços e pernas fortes e musculosas.Tinha uma ou duas cicatrizes. - Há vários dias que está no palácio, mas ainda não me pediu quepraticássemos a conversa em inglês. - Oh, sim! Tinha-me esquecido... Jana tinha a certeza de que não se tinha esquecido, mas quetinha mudado de idéia por algum motivo. - Bom, se estiver livre agora, eu tenho tempo. Talvez gostasse... Interrompendo-se, Jana saiu da água e olhou-o, permanecendoem frente a ele. Tinha um corpo fino e esbelto e tinha uma roupa-de-banho branco, que lhe ficava muito bem. Mesmo na penumbrareinante, podiam distinguir-se os seus mamilos pressionando contra otecido úmido. Omar pensou naquele seu antepassado que se tinha sentido tãoorgulhoso da beleza da sua esposa, que escondeu o seu melhor amigonum armário para que pudesse ver como se despia fazendo-o assimparticipante da sua felicidade. Sempre tinha pensado que aqueleantepassado era louco e que tinha merecido a cólera da mulher quandodescobriu o engano. Mas naquele instante só pôde pensar se aquela suaantepassada teria sido tão bela como a mulher que tinha à sua frente.Se assim fosse, não estranhava nada que o seu pobre marido tivesseenlouquecido até esse ponto. Mas teve que lembrar-se que não tinha intenção alguma de irpara a cama com a professora das suas filhas, por muito bela que fosse.Omar nunca deixaria que o sexo lhe complicasse a vida; escolhiacuidadosamente as suas companheiras sexuais e assegurava-se quesoubessem exatamente qual era o seu lugar. Aquela mulher era muitomais valiosa, como professora das suas filhas, do que alguma vez podiaser como sua amante, um papel que demasiadas mulheres podiamexercer. Percebeu que a sua pele brilhava à luz da lua, que naquelemomento se elevava sobre o céu negro. O seu cabelo vermelho pareciamuito suave, sedoso e contrastava com a sua roupa-de-banhorefulgente, os seus lábios cheios sorriam-lhe. Olharam-se sem falardurante uns instantes, e por fim, Jana pareceu corar. Virou-se para pegar no seu roupão, que vestiu rapidamenteenquanto ele não parava de observá-la. Depois dedicou-se a contemplaro deserto à luz da lua, com um ar ausente. Aquele mundo parecia cheio 21
  23. 23. de sombras e de magia; nunca tinha visto um céu com tantas e tãobrilhantes estrelas. - Que lindo que isto é - sussurrou, suspirando. - É mágico, não é?Não me admira que as pessoas se apaixonem pelo deserto. Omar também vestiu o seu roupão. Ficou com o queixo tenso aoouvir aquelas palavras, mas ela continuava a contemplar as longínquasdunas e não se apercebeu disso. - Ah, sim? O tom da sua voz sobressaltou-a. Destilava um cinismo tãoamargo que Jana se virou para ele, pestanejando admirada. - Você não o ama? - Nunca amei o deserto. Jana estava muito surpreendida, sempre tinha imaginado quetodos os que nasciam no deserto o amassem. - O que é que ama então? - As montanhas, por exemplo. Só sou meio árabe, senhoritaStewart. A aldeia da minha mãe era nas montanhas; o amor pelasmontanhas late no meu sangue. Até preferia o mar ao deserto. Noentanto, isso não impediu que o meu pai me legasse a terceira parte doreino... que é, sobretudo, deserto. - Porquê? - Nunca soube. - O seu território... não tem costa, algum acesso ao mar. Não temmontanhas? - A serra do norte é minha. Mas aquelas que vê ao longe fazemparte de Barakat Leste. A fronteira entre Barakat Central e Leste passapor aquele desfiladeiro... - colocou-se ao lado dela para apontar paraum sombrio e gigantesco corte nas montanhas. - Por ali circula o rioSa-adat, linha divisória dos dois principados. Através desse rio a minhaaldeia tem acesso ao mar, mas não temos costa. Jana podia sentir o calor que o seu corpo desprendia, tão perto doseu, enquanto ele lhe apontava o longínquo curso do rio. - Sem o Sa-adat, esta terra não seria nada. - No outro dia vimos as mulheres lavando a roupa no rio -comentou. - Foi como uma cena bíblica. Aposto que as mulheres fazemisso há milhares de anos. - Grande parte da minha gente vive em condições primitivas -explicou-lhe o príncipe com um tom de amargura na voz. - O desafio domeu reinado radica em mudar essa situação. - As máquinas de lavar não são a civilização, Alteza - observouJana com um tom suave. - Só são tecnologia. Há uma diferença. O príncipe olhou-a fixamente, com o rosto muito perto do seu. - Acredita nisso? - As mulheres que vimos pareciam trabalhar com alegria. Parauma forasteira como eu, os seus súbditos parecem-me tão felizes comomuitos dos ocidentais que possuem os maiores avanços da tecnologia.Masha disse-me que algumas dessas mulheres contam aos seus filhoshistórias enquanto trabalham, histórias do seu passado de tribos e dereis, de animais mágicos, de mitologias. Se você levar a eletricidade a 22
  24. 24. cada casa, talvez substituam tudo isso pela televisão. Acha realmenteque isso será uma melhoria? O príncipe agarrou-a pelos ombros suavemente, obrigando-a avirar-se para ele. Podia sentir com quanta rapidez o desejo sexual seestava apoderando do seu ser naquela noite... E algo mais que não pôdeidentificar. - O que é que está dizendo? - perguntou-lhe, olhando-a com umaestranha intensidade. Jana não tinha a certeza. Estava demasiado enfeitiçada peloencanto do príncipe Omar e daquela noite mágica, demasiada cativadapelo seu escuro olhar. Engoliu a saliva. Sentindo como os dedos nosseus ombros ficavam tensos. Naquele instante um empregado entrou na área da piscina e dissealguma coisa. O príncipe largou-a imediatamente e virou-se para ele. - Buleh - ordenou-lhe. Quando o criado desapareceu, perguntou aJana: - Já jantou, senhorita Stewart? - Geralmente costumo comer alguma coisa no meu quarto umpouco mais tarde. - Seria conveniente que jantasse comigo. Assim poderia praticar omeu inglês. - Claro, Alteza. - Peça à sua empregada que a leve ao meu salão privado dentrode meia hora - ordenou-lhe. Jana cerrou os lábios perante aquele tom autoritário. Aquilo erademais. - Ainda tenho o cabelo úmido, Alteza. Vou ter consigo daqui aquarenta minutos. O príncipe levantou o queixo, surpreendido. As pessoas nãocostumavam desafiar os seus desejos mas teve que lembrar-se que elatinha direito a fazê-lo. - Quarenta minutos, está bem - fez-lhe uma graciosa inclinaçãoem jeito de despedida. - Até logo, então - respondeu Jana e desapareceu da sua vista. Capítulo Cinco -B oa noite. O salão privado do príncipe consistia num terraço semi-coberto,com vista para o deserto e para as montanhas. O chão era de mosaico,com intrincados desenhos geométricos e as paredes brancas, tal comoas colunas que sustinham o telhado. Heras e flores trepavam pelas colunas e no centro havia umamesa redonda de prata e cristal, iluminada por uma vela. O príncipe Omar encontrava-se de pé em frente à balaustrada depedra, fumando. Tinha um casaco branco, muito elegante, e tinha umaspecto misterioso. Estava contemplando a paisagem com expressão 23
  25. 25. pensativa quando ouviu a porta abrir e se virou rapidamente paracumprimentar Jana. - Boa noite - e aproximou-se dela. Jana tinha escolhido um vestido de seda verde, do tipo oriental,com um longo lenço da mesma cor. Tinha apanhado o cabelo numsofisticado coque de onde lhe caíam uns caracóis e calçava umas finassandálias de couro. O príncipe Omar anuiu com a cabeça enquanto aobservava com expressão aprovadora, em silêncio. Jana parou nabalaustrada, ao seu lado, muito consciente da sua presença. Uma empregada aproximou-se com uma bandeja de bebidas eJana hesitou ao escolher. - Se preferir um coquetel, pode preparar-se - comentou o príncipeOmar. Estava fumando um cigarro preto, russo, e tirou uma cigarreiradourada para lhe oferecer um. - Não, obrigada. Prefiro um martini com vodka, bem seco - nãoestava muito habituada a fumar, mas aceitou um daqueles elegantescigarros. Inclinou-se levemente para que o príncipe pudesse acendê-lo,protegendo o fogo da brisa com a outra mão. De repente, foi intensamente consciente do erotismo daqueleritual; aspirou o fumo, nervosa, e começou a tossir sem poder evitá-lo. - Vão parecer-lhe um pouco forte se estiver habituada ao tabacoinglês ou americano - murmurou Omar enquanto guardava o isqueiro ese virava para contemplar o deserto. - E além disso não tenho o hábito de fumar - Jana sorriu. - Não? Então porque é que aceitou o cigarro? Jana recebeu o martini das mãos do empregado e murmurouumas palavras de agradecimento. - Suponho que... - riu entre dentes, - porque sempre me pergunteicomo é que seriam estes cigarros russos, mas nunca tinha tido aoportunidade de saborear um. - E que tal lhe parece o sabor? - perguntou o príncipe, emborapelo seu tom parecesse estar a referir-se a algo completamentediferente. - Muito forte. Gosto do aroma, mas não me atreveria a engolir ofumo. As suas palavras também pareciam carregadas de um duplosignificado. O príncipe Omar desatou a rir-se. Era um som atraente,profundamente sensual, que Jana nunca tinha ouvido antes. - Fuma habitualmente este tabaco? - perguntou-lhe. - Um homem que fuma com regularidade renunciou à suacapacidade de auto-domínio. E eu prefiro exercitar essa capacidade comos meus prazeres. Sem poder evitar, Jana corou. Não sabendo o que responder,virou-se para olhar para a paisagem. Durante uns instantes os doispermaneceram em silêncio contemplando a lua, as montanhas e ointerminável deserto. Jana suspirou profundamente. Diante daquelapaisagem podia sentir como o seu espírito se expandia por momentos. - Terá que admitir que há algo de hipnótico nisto - pronunciounum tom suave. - Exerce um terrível fascínio. 24
  26. 26. Referia-se ao deserto. O príncipe Omar virou a cabeça enovamente ficou cativado pelo seu olhar. Um terrível fascínio. Era isso oque sentia?, perguntou-se. E se assim fosse, quando é que acabariaaquela atração? Devia despedi-la e expulsá-la da sua vida antes que sesentisse ainda mais tentado por ela? Nesse momento entrou outro criado e pediu autorização paracomeçar a servir o jantar. Omar guiou Jana para a mesa. Quando ficaram sentados, o empregado serviu primeiro Jana edepois o príncipe, um primeiro prato que pareciam berinjelasrecheadas. - Hum. Isto está delicioso - comentou ela assim que provou. - Oque é? - Imam Bayaldz - respondeu Omar. - Quer dizer o Imamdesmaiou, Já tinha comido disto? - Certamente comi algo com esse nome nos restaurantes orientaisde Londres, mas não sabia tão bem como isto! - disse Jana. - Agorapercebo porque é que tem esse nome. O príncipe informou-a, sorrindo: - Há quem diga que o Imam não desmaiou de prazer por saboreareste prato mas sim porque a sua esposa lhe revelou a quantidade deazeite que tinha utilizado para o fazer. Talvez não fosse um homemmuito rico. Jana riu deleitada. - É assim tão caro o azeite? - Para mim não. Os olivais do meu irmão satisfazem toda a nossaprocura - respondeu secamente. O empregado abriu naquele instante uma garrafa, e Jana sorriu. - Champanhe? - Para dar as boas-vindas à nova professora inglesa - explicou opríncipe. Quando tiveram os seus copos cheios, levantou o seu. -Espero que desfrute da sua estadia aqui, senhorita Stewart. De repente tinha adotado um tom frio e isso lembrou a Jana queaquele não era um jantar romântico, mas sim uma lição de conversaçãoem inglês. A jovem levantou o seu copo para brindar. - Espero que as minhas aulas de inglês sejam satisfatórias, suaAlteza. - Vamos praticar o idioma falando de assuntos econômicos, porfavor - pediu-lhe Omar, deixando claro que o que lhe interessavarealmente eram os negócios. - Dentro de uns meses terei que assistir aumas reuniões financeiras e o meu vocabulário deixa muito a desejarneste assunto. - Provavelmente deve ser mais extenso do que o meu, Alteza –murmurou Jana secamente. Omar parou com o garfo a meio caminho da boca. - Porque é que disse isso? - Porque não creio que lhe possa ensinar muito. A não ser quetenha um Financial Times à mão e queira que o leia em voz alta. - O que é que quer dizer? - olhou-a arqueando as sobrancelhas. 25
  27. 27. - Não me interessam os assuntos econômicos; eu dou aulas acrianças. E o seu inglês é muito melhor do que pensa - viu que adotavauma atitude distante, altiva. - No entanto, se tiver alguma agendaespecífica de discussão, será melhor que me diga. De que é que se vaifalar exatamente nessas reuniões? - Uns acordos comerciais dos Emirados Barakat vão serrenegociados no princípio do Outono. - O que é que exportam? - Petróleo, pedras preciosas, tecidos, cristal ornamental,cerâmicas, carvão... - começou a enumerar. - Móveis, manufaturaseletrônicas... - Não é nada mau para um país pequeno - comentou Jana,surpreendida. - Durante os anos setenta, o meu pai utilizou os benefícios dasvendas de petróleo para criar pequenas indústrias locais dirigidas porcada um dos chefes do clã. Insistia muito em que, no futuro, nãovendêssemos para o exterior nenhuma matéria prima exceto petróleo.Embora muitos o julgassem um louco, a sua estratégia foieconomicamente muito rentável. O nosso nível de contaminação é baixoe temos uma alta população empregada, ao mesmo tempo quemantemos o equilíbrio de forças dos clãs... É por isso que as cidadessão pequenas: não temos as tribos desenraizadas do seu meioambiente. Jana achava aquilo muito interessante. Durante meia hora estevea escutar as suas explicações sobre a situação econômica do seu reino.De repente, o príncipe interrompeu-se. - Mas isto não está bem! - exclamou. - Não me corrigiu emnenhum momento! Jana, absorvida pelo que lhe tinha estado a dizer sobre asmulheres de uma das tribos, pestanejou admirada. - Não o corrigi? - O meu inglês, o meu uso do idioma! - Alteza, tudo o que disse foi perfeitamente compreensível. - Mas nem sempre foi correto! - Não de um modo absoluto. - E então? O príncipe estava a olhá-la fixamente e Jana, sem que pudesseevitá-lo, desatou a rir-se. - Qual é o objetivo de uma língua, Alteza? Ser correta em simesma, ou comunicar as idéias das pessoas? - A linguagem tem que ser correta. - Segundo esse modo de pensar, uma roda de forma quadrada eperfeita seria melhor que uma roda redonda imperfeita. - Dedica-se a ensinar às princesas esse ponto de vista? -perguntou-lhe o príncipe Omar depois de um longo silêncio. - As princesas... não falam de negociações e comércio. - Corrige os seus erros, senhorita Stewart? Jana tentou acalmar-se e explicou-lhe depois a técnica queutilizava com os erros gramaticais que as princesas faziam. 26
  28. 28. - Os erros orais devem ser corrigidos - declarou Omar, decidido. -Se não, como é que elas podem... Jana deixou cair com força o garfo no prato. Provavelmente nãofigurava dentro do protocolo interromper um príncipe, mas estavademasiado zangada para o evitar. - Lembro-lhe que se comprometeu diante de mim a não interferirno meu método de ensino! - Não corrigir os erros não é nenhum método. Como é que vãomelhorar o seu inglês se não... - As princesas ainda têm muitos anos até chegarem à puberdadee terão tempo suficiente para adquirir experiência no idioma. Não sepodem corrigir os erros numa segunda língua! É contraproducente. Omar olhou para ela durante um bom bocado, surpreendido. - Porque é que mencionou a palavra puberdade? - Porque antes da puberdade as crianças têm uma capacidade deaprendizagem de outras línguas que os adultos não têm. Podem chegara ser tão bons como os falantes nativos. - E eu não posso? - Você comete erros mínimos, que talvez nunca possa chegar acorrigi-los completamente. Mas isso não afeta o significado das suasfrases, por isso... - Que erros? Pelos vistos, voltavam ao ponto de partida, pensou Jana.Apercebia-se que aquilo era um assunto fundamental para ele. - Às vezes esquece-se de utilizar os determinantes the ou a, antesdos nomes - respondeu, suspirando. - Tem que me explicar as regras. Que mais? - Às vezes engana-se nos tempos verbais. - O que é que me sugere então? - Sugiro-lhe, Alteza, que pare de se preocupar com esses erros,que acabará por corrigir com o tempo e dedique-se a ampliar o seuvocabulário. E também lhe sugiro que utilize o inglês para falar deoutros assuntos que não sejam os negócios: pratique com as suasfilhas, por exemplo. Quando se sentir à vontade a falar inglês emprivado, vai sentir se muito melhor fazendo-o em público. - Acha? - o príncipe Omar olhava-a surpreendido, sem rasto deceticismo na sua expressão. - Sim - com um sorriso, Jana continuou a comer. - As suas filhascomentaram várias vezes... que em certa altura você levou-as parapassar umas férias num lago, nas montanhas. - Ah, sim? - disse com os olhos semicerrados. - Já pensou em voltar a fazê-lo? - Ir a esse lugar não, senhorita Stewart. Porque é que pergunta? - Porque as princesas divertiram-se muito e acho que lhes fariamuito bem. O príncipe Omar ficou tão admirado pela sua resposta que Janaesteve quase a pedir-lhe desculpa por ter falado naquele assunto.Evidentemente não estava nada habituado a que o desafiassem. - É psicóloga, senhorita Stewart? 27
  29. 29. Jana podia perceber a sua fúria, disfarçada sob uma máscara defrieza e arrogância. - Sou um ser humano, Alteza! Até que ponto se deixou levar pelamentalidade ocidental... que pensa que ninguém pode saber algumacoisa sobre as pessoas a não ser que esteja licenciado em psicologia? -perguntou-lhe encalorada. - Depois de eu lhe ter pedido, agora não me posso queixar de mecorrigir... Jana levou o guardanapo aos lábios, olhando-o com divertimento.O próprio príncipe tinha reconhecido a sua derrota naquela discussão. - De qualquer modo, o deserto é perigoso, senhorita Stewart, e olago Parvaneh é muito longe daqui. Jana não podia acreditar que essa fosse a razão pela qual nãolevava lá as princesas. Estava convencida de que havia outro motivomais profundo, mas não insistiu. Continuaram a jantar enquanto conversavam de outros assuntosmais informais. Quando lhes serviram o jantar, o príncipe comentou: - Espero que volte a acompanhar-me no jantar noutra ocasião. - Sim, claro. Quando? - Amanhã à noite - respondeu Omar, mesmo sabendo quecometia uma estupidez. - Dá-me jeito esforçar-me por falar inglês todosos dias - e acrescentou em silêncio: e também me servirá para provar aminha capacidade de auto-domínio na sua presença. - Quer que venha aqui todas as noites? - Todas as noites em que eu estiver no palácio, sim - mesmosabendo que se ausentaria muito menos do que antes. Capítulo Seis -D eve ter tido a oportunidade de observar de perto osdiferentes sistemas políticos do Canadá, dos Estados Unidos e da Grã-Bretanha... - observou o príncipe Omar. - Pois sim. - Explique-os, por favor. - Não são assim tão diferentes, na verdade. O Canadá e osEstados Unidos têm sistemas derivados do parlamentarismo inglês -descreveu-lhe as diferentes instituições, lamentando não teraprofundado mais a disciplina de Ciências Políticas que estudou nauniversidade. - Quer descrever-me o sistema russo? - perguntou-lhe,desejando ouvi-lo falar a ele. - O sistema que eu aprendi foi o soviético. Não é muitointeressante. Gostaria de ver alguma sessão parlamentaria noCongresso de Barakat al Barakat? Jana tinha-se habituado àqueles deliciosos jantares servidos noterraço do príncipe Omar, acompanhados de conversas que, a pedido desua Alteza, tocavam nos mais variados assuntos... exceto os pessoais.Desejava falar de economia, de política, de história, de literatura... mas 28
  30. 30. não queria de modo algum falar das suas filhas nem da obsessão daspequenas em voltarem ao lago Parvaneh. E também não, claro, da curiosa mistura de prazer e dor quesentia na companhia de Jana, ou de como, quase contra a sua vontade,a observava a nadar todas as noites desde o seu terraço, lutandoconsigo mesmo para não se juntar a ela. Sabia que muitas das suas conversas eram tensas e incomodas,mas não pensava sequer que talvez isso fosse porque não estavadizendo a Jana o que verdadeiramente desejava dizer-lhe. Jana sorriu-lhe naquele instante. Quando lhe sorria daquelamaneira, Omar pensava que uma mulher assim podia minar a vontadedo homem mais decidido. - Receio que será um pouco difícil seguir as discussões -respondeu ela. Nessa noite tinha um simples vestido de verão, amarelo com alçasque deixavam a descoberto os seus ombros bronzeados. - Claro, designaria um intérprete para que a acompanhasse.Acho que vai achar interessante e iria sugerir-lhe mais temas de quefalar. Assim ampliarei o meu vocabulário em termos políticos. De repente, Jana baixou o garfo. - Alteza... O príncipe Omar olhou-a arqueando as sobrancelhas, solícito, eJana cerrou os dentes. Depois daquela primeira noite, quandoaparentemente tinha baixado a guarda estando com ela na piscina,tinha mantido uma relação fria e estritamente profissional com oaparentemente único objetivo de melhorar o seu inglês. Às vezes tinhasentido o irresistível impulso de desafiá-lo, de dizer algo que o afetasse,que o fizesse reagir a alguma coisa com espontaneidade. De alguma forma, aquela noite tinha acabado de esgotar a suapaciência. - Senhorita Stewart? - Neste momento, o assunto das suas filhas parece-me muitomais interessante do que o do Congresso. Poderíamos falar delas? O seuvocabulário também pode aumentar muito quanto aos sentimentos ereações humanas. - Senhorita Stewart, você deve falar do bem-estar das princesascom a sua ama, Umm Hamzah. - É precisamente dela que lhe quero falar - replicou firmementeJana. A ciosa possessividade da velhota estava a transformar-se numsério problema. Kamala e Masha gostavam cada vez mais de Jana,debilitando-se assim a posição da ama, que se sentia menos querida e,portanto, reagia mal. A velhota estava decidida a garantir o controle dasmeninas por todos os meios. Todos os dias inventava um rol dedesculpas para que as meninas não fossem às aulas de inglês. E Janasabia que lhes dizia coisas horríveis dela. De fato, estava convencida deque as princesas fantasiavam com a casa do lago Parvaneh como umavia de escape ao tenso ambiente que estavam vivendo. 29
  31. 31. - São simples ciúmes - declarou Omar quando ela tentou fazer-lhe ver a gravidade da situação. Vão desaparecer com o tempo. - Umm Hamzah fala com os guardas para que eu não possa levaras princesas à cidade, ir às compras com elas, por exemplo. Hoje passeiuma hora discutindo para que nos deixassem sair. - O trabalho dos guardas é proteger as princesas. Naturalmentequerem saber... - Olhe, Alteza, Umm Hamzah está dizendo a Kamala e Masha, e anão sei mais quem, que eu sou a serva do demônio! Enche-lhes acabeça de horríveis histórias de bandidos que as vão raptar se nãofizerem o que ela lhes diz, ou se saírem do palácio na minhacompanhia! Quanto tempo é que acha que as crianças poderãoagüentar esta situação? As suas lealdades estão divididas e isso é muitoduro para elas. E para mim! - É uma mulher ignorante - replicou o príncipe, impaciente. -Acha que qualquer estrangeiro está ao serviço do demônio e fala emurmura porque isso proporciona interesse na sua vida. É a maldiçãodas mulheres da sua geração. Não posso fazer nada a Umm Hamzah,ela é como é. E não quero saber nada de discussões entre mulheres!Você está aqui para procurar que as princesas possam ser educadaspor cima das estúpidas rivalidades de harém, não para entrar emdiscussões com as mulheres do palácio. O seu trabalho consistesimplesmente em educar as meninas. - O meu trabalho... - protestou furiosa, - não consiste emdefender-me de constantes acusações sobre o fato de estar associada aodemônio! Pode ser uma situação ridícula e, tenho a certeza de que osassuntos das simples mulheres estão mais além do seu masculino ereal interesse, mas isto é muito duro de suportar! As suas filhas estãosofrendo uma grande tensão! E eu também! O príncipe Omar tinha o sangue a ferver. Sabia que era um erromostrar-se furioso na presença de Jana. Mas já era demasiado tardepara evitá-lo. - As minhas filhas terão que suportar essa tensão! Haverá maistensão quando chegar o dia em que tiverem que convencer as tribos deque são elas que vão governá-las! - exclamou, colérico. Era a primeira vez que se referia a Masha e Kamala como as suasfilhas em vez de as princesas, Jana permaneceu em silêncio duranteum instante, apercebendo-se de que tinha adotado uma expressãohermética, distante. - Por acaso espera que esse dia chegue em breve? - Desculpe? - Omar pestanejou admirado. - Você ainda nem tem quarenta anos! - disse-lhe. - Espera cair docavalo amanhã? As princesas são umas meninas e ao longo da suacurta vida já padeceram demasiada infelicidade! Não precisam de mais! - Tenho trinta anos, senhorita Stewart. Mas um homem podemorrer a qualquer momento. Por isso é que dizemos mash-allah:quando for a vontade de Deus. 30
  32. 32. Trinta anos! Jana olhou para os cabelos brancos e perguntou-sese seriam um efeito da dor que lhe causou a morte da sua esposa. Ocoração saltou-lhe no peito. - Se você morresse amanhã, realmente acha que a infelicidadeque Umm Hamzah está causando a Masha e a Kamala lhes daria maisforça para se imporem às tribos? - Senhorita Stewart, a felicidade ou infelicidade das princesas nãoé um assunto seu. Talvez se se limitasse a dar aulas de inglês, tivessemenos problemas com Umm Hamzah. - Está bem - replicou imediatamente, rejeitando que o empregadolhe servisse mais café. - Demito-me a partir deste momento. O rosto de Omar permaneceu impassível, mas um brilho agudoapareceu nos seus olhos. - Você não está em posição de se demitir. Assinou um contrato deum ano. - Salvo incidências. Não me pode manter aqui contra a minhavontade. Inclusive enquanto proferia aquelas palavras, sentiu um tremorde horror. Não sabia o que é que aquele homem tão poderoso podiafazer. O príncipe Omar não parava de olhar para ela e, pela primeiravez, Jana acreditou distinguir nos seus olhos o primeiro raio desentimento desde aquela noite em que nadaram juntos. Viu o fulgor,mas não soube identificá-lo. - Farei com que fique aqui - prometeu-lhe num tom suave. - Atéque acabe o contrato. Jana voltou a estremecer. Se ele decidisse fazê-la sua prisioneira,apagá-la da face da terra... quem é que saberia? - Nem pensar! - levantou-se bruscamente, atirando a cadeira aochão. Imediatamente um empregado adiantou-se no meio das sombras,mas o príncipe despediu-o rapidamente com um gesto. Estavamcompletamente sozinhos. Omar deu a volta à mesa e levantou a cadeira: - Sente-se, senhorita Stewart - grunhiu. O ar vibrava de expectativa à sua volta quando, de repente eobedecendo a um forte impulso, o príncipe pousou suavemente ambasas mãos sobre os seus ombros nus. - Por favor, sente-se. Nunca tinha sentido um contato semelhante, como se lhetivessem aplicado uma descarga elétrica na pele. Sentou-se. Passadosuns minutos, Omar retirou as mãos dos seus ombros e inspirouprofundamente, como se até àquele instante tivesse estado contendo arespiração. Voltou para o seu lugar, adotando a remota expressão docostume. - No harém nenhum homem tem poder algum e um rei serialouco se acreditasse no contrário. No entanto, com os meus guardas oassunto é outro. Ordenou ao empregado que voltasse à sala. Conseqüência da suarápida ordem foi a chegada de um luxuosíssimo bloco de apontamentos 31
  33. 33. composto de papel, caneta, tinteiro e uma caixa prateada contendolacre. Com uma caligrafia que a deixou admirada, o príncipe escreveuvárias linhas em árabe e assinou. Quando acabou, acendeu um cigarroe deixou cair no papel uma gota de lacre, sobre a qual estampou o seloreal que tinha no seu anel dourado. Finalmente, entregou o documento a Jana. A jovem leu-o admirada. Tinha nas mãos o que podia ser umaautorização real, assinada com o selo do rei! - O que é que diz? - Que não haverá travões no seu dever de ensinar às princesas alíngua inglesa - informou-a, lacônico. - Obrigada, Alteza. - Deve ir sempre acompanhada de um guarda armado quandosair com as princesas das muralhas do palácio. - Claro - deixou cuidadosamente o documento em cima da mesa,ao lado da sua bolsa. E de repente teve uma idéia engenhosa. O plano consistia em ir com as princesas à casa do lago Parvanehe passar uns dias de férias lá. Cumpririam assim uma parte do seusonho: visitar o lago, embora sem desfrutar da companhia do seu pai.Deixaria uma mensagem ao príncipe Omar dizendo-lhe para onde é quetinham ido e suplicando-lhe que não enviasse ninguém para as irbuscar. Claro que era um plano maluco e impulsivo. Se ficasse furioso oupensasse que ela tinha seqüestrado suas filhas, podia enviar a polícia àsua procura... ela receberia um bom castigo. Mas Jana ainda não tinhaaprendido a dominar a sua impetuosa natureza; Aquele plano era aúnica solução para resolver o problema da tristeza das meninas. Masha e Kamala tinham uma antiga fotografia da casa do lagoParvaneh onde tinham passado uns dias tão felizes. A preto e branco, aimagem continha a mansão e parte do lago, com as montanhas comofundo. Aquela casa não era como as outras; a própria Jana, sem a tervisto, acabou por sucumbir ao seu encanto mágico. Preparou cuidadosamente o seu plano. A primeira coisa erarecolher as melhores informações com o maior sigilo possível e a suaprimeira fonte era Salimah. Agora já eram muito íntimas e tinhamdeixado de lado as formalidades. As duas tratavam-se como duasverdadeiras amigas. Foi Salimah quem lhe revelou que o príncipe Omar se tinhadistanciado dos seus irmãos depois da morte da sua esposa, emboraninguém soubesse porquê. Foi nessa altura, também, que morreuNizam a Mulk, o grande vizir regente que tinha assegurado paz nosEmirados. Desde então, e por causa da ruptura não tinha sido nomeadonenhum novo vizir para os três principados. Salimah já estava habituada a satisfazer a constante curiosidadeque Jana sentia por tudo. Por isso não estranhou que a arrastasse parauma conversa aparentemente casual onde acabou por a informar que aestrada que seguia o percurso do rio ia para as montanhas e que o lagoParvaneh fazia parte disso. 32
  34. 34. Evidentemente, não podia confiar o seu plano a Salimah, emborativesse quase a certeza de que seria digna de confiança; no caso de aajudar, iria meter-se em problemas e não seria justo que sofresse ocastigo do príncipe Omar. Por isso, em nenhum momento lhe falou dacasa do lago, nem do desejo das princesas de lá irem. Jana arranjou um bom mapa e começou a utilizar com freqüênciaum dos todo-o-terreno do palácio, não só para se habituar às estradasdo deserto, como também para os empregados da garagem sehabituarem à sua presença. E também fez várias saídas de noite,apresentando sempre a sua autorização real quando algum guarda adetinha. Levou durante vários dias as princesas a almoçar na ribeira dorio, ou no deserto, numas antigas ruínas da época de Alexandre. Emtais ocasiões ia sempre com elas algum guarda e Jana pensava muitosobre a possibilidade de levar consigo algum deles quando aoportunidade chegasse. Mas como é que podia confiar em qualquer umdaqueles homens tão fiéis ao príncipe? Numa das suas expedições de compras na cidade, Jana fez umaboa provisão de alimentos e equipamento de campismo. Como nãopodia levar roupa para as meninas sem despertar as suspeitas de UmmHamzah, teve que comprar-lhes roupa ligeira e cômoda: calções, calçasde ganga e camisolas. Guardou tudo nas malas que escondeucuidadosamente nos seus aposentos fechados à chave. Quando teve tudo pronto, à hora do almoço comentou com asmeninas que tinha uma surpresa para elas. - Que surpresa, Jana Khanum? Khanum, era o título que o príncipe Omar tinha insistido queusasse, quando ela lhe disse que não gostava que as meninas lhechamassem professora Stewart e ele também não concordava que atratassem pelo seu primeiro nome. Aquela expressão dava certaformalidade, mas tinha uma sonoridade poética, carregada de afetoespecial. - Esta noite vamos dormir no meu terraço e vamos observar asestrelas. Aquilo alegrou-as muito, mas o seu maior gozo foi quando,enquanto admiravam os astros e as constelações, lhes revelou o seuplano. - Vais levar-nos ao lago? - perguntou-lhe Kamala, excitada. - Oh,Jana Khanum! Quando é que vamos? - Daqui a umas horas. Por isso, devem dormir agora, porquevamos ter de dirigir durante toda a noite. - Para que o bandido Jalal não nos descubra - anuiu Masha,prudente. O bandido Jalal era a figura lendária que Umm Hamzah utilizavapara as assustar e fazer com que obedecessem às suas ordens. Jananão tinha conseguido convencê-las de que não existia e tinha chegado àconclusão de que quanto menos pensassem nele, melhor. - Vamos de noite porque de dia está muito calor para dirigir. Euacordo-vos quando for hora. E lembrem-se que teremos que fazer muito 33
  35. 35. silêncio; porque toda a gente está dormindo e não vão gostar que osacordemos. Teremos que falar em murmúrios, está bem? - Está bem, Jana Khanum - anuíram ao mesmo tempo. Apesar da sua excitação, ficaram rapidamente a dormir. E Janafechou sigilosamente a porta corrediça para que o barulho dos seuspreparativos não as incomodasse. Capítulo Sete -A cha que a tentativa terá êxito? Jana, que tinha estado absorvida nos seus pensamentos, acordoucomo se lhe tivessem atirado um balde de água fria. Horrorizada,encontrou-se frente a frente com o príncipe Omar. - Desculpe? - sussurrou. Como é que tinha sabido? O que é quefaria para o evitar?, pensava. Omar olhou-a com as sobrancelhas levemente arqueadas desurpresa e de repente Jana quase se riu de alívio. Não tinha a certeza aque tentativa é que se referia, ou de quem o estava a fazer, mas de umacoisa estava certa: não se referia à sua fuga daquela noite. Mesmoassim, não tinha a certeza absoluta. - Oh... não sei - respondeu. - O que é que você pensa? Fez girar o seu copo de vinho entre os dedos, nervosa. A lua cheiaelevava-se sobre as montanhas, banhando o terraço. Jana tinhaescolhido aquela noite para ter luz quando conduzisse o todo-o-terrenopelos caminhos do deserto. Desviou o olhar com um ar ausente para aestrada do rio. Se algo perturbasse o sono do príncipe, iria para oterraço e poderia talvez descobrir ao longe as luzes do jipe. - Não está se concentrando, senhorita Stewart - comentou comum tom seco. - Acabei de lhe dizer que penso. O que é que a preocupa? - Nada. Só que esta noite estou muito cansada - mentiu e bebeuum gole de vinho. Enquanto olhava para o príncipe Omar, pensou queprovavelmente a despediria pela fuga daquela noite. E percebia quelamentaria não voltar a vê-lo mais. Tinha desfrutado muito daquelasnoites na sua companhia, mesmo quando as suas conversas nuncaroçaram os assuntos pessoais. Iria sentir a falta delas, tal como dasnoites no deserto, da vista das montanhas, das gentes de BarakatCentral. Apesar do pouco tempo que ali estava, tinha ganho carinhopelo país. - Esteve muito calor - murmurou Omar. Um pouco antes tinhaestado a observá-la enquanto nadava, sabendo que aquele calor estavaa encher o seu corpo, como fazia com o seu, de uma sensual energiaque não tinha escapatória alguma. Jana tinha permanecido de pé àbeira da água, pondo o cabelo para trás e, ao abrir os olhos, tinha-odescoberto a observá-la do seu terraço. Não lhe tinha feito sinalnenhum, nem lhe tinha sorrido: simplesmente tinha-se virado comrapidez. Omar conhecia as mulheres. Não se enganava com a reação 34
  36. 36. que percebia nela. E tinha sido um estúpido ao não aceitar a suademissão quando lhe pôs em cima da mesa. Devia expulsá-la o quantoantes... mas ainda não. - Muito - disse ela. - Salimah contou-me que há anos, quando oseu pai ainda era vivo, este palácio nunca era habitado no verão e que acorte inteira se mudava para as montanhas. Porque é que não se fazisso agora? O príncipe sorriu sombrio e Jana compreendeu que tinhaabordado um assunto delicado. - Porque o palácio de verão pertence agora ao meu irmão Rafi. Eletem que viver lá no inverno, como eu tenho que o fazer aqui no Verão.Uma conseqüência da vontade do meu pai ao dividir o reino. - E a casa do lago Parvaneh? - Não é suficientemente grande para albergar toda a corte. - Mas poderia ir sozinho ou levar consigo as princesas. Tenho acerteza que tanto calor não é bom para elas. - Senhorita Stewart, já me expôs antes essa mesma opinião deoutra maneira. E eu respondi-lhe. Se o calor é demais para asprincesas, que não saiam para o exterior durante o dia. Dentro dopalácio está fresco. Mas não para mim, acrescentou em silêncio. Eu sofro do tipo decalor que pode enlouquecer um homem. Sobretudo se já estiver loucode desejo... - O Baba vem buscar-nos? - sussurrou Masha umas horas depoisenquanto vestiam as calças de ganga e as camisolas que Jana lhestinha comprado. - Não - respondeu, porque se passassem a semana toda à esperaque o pai as fosse buscar e depois ele não aparecesse, iriam sentir-semuito decepcionadas. Ela também ficaria muito decepcionada. Há cinco minutos tinhadeslizado sigilosamente até ao seu gabinete para lhe deixar uma carta,avisando-o da sua ida. Iria pessoalmente à sua procura? Lentamenteabriu a porta e as três caminharam descalças pelo corredor escuro, atéàs garagens. Não encontraram ninguém. As duas princesas deitaram-se naparte detrás do jipe e Jana pôs-lhes por cima uma manta leve. - E agora silêncio! Durmam. Não quero ouvir nem um só barulho. Quatro ou cinco vezes durante as últimas semana Jana tinhasaído à meia noite no todo-o-terreno. Ao princípio o guarda tinha ficadosurpreendido ao vê-la, mas voltava sempre passado uma hora e ohomem acabou por se habituar. Naquela noite o sentinela nem sequer se levantou do seu lugarquando a viu sair, simplesmente levantou a barreira e cumprimentou-acom a mão. E Enquanto entrava na cidade, Jana perguntou-se quandoé que o príncipe Omar veria a sua mensagem. “Levo as princesas para olago. Sei que gostariam que as visitasse. Voltaremos dentro de umasemana.” A estrada, depois de atravessar a cidade, virava para leste ecomeçava a correr paralela ao rio. Lá para o amanhecer contava teralcançado já as colinas. Por um instante virou-se para contemplar o 35

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