SlideShare uma empresa Scribd logo

Ubu rei

1 de 31
Baixar para ler offline
UBU REI
                        texto de Alfred Jarry (1873-1907)

1. O início oficial do teatro de vanguarda deu-se em 10 de dezembro de 1896, com a estréia
   de Ubu Rei, de Alfred Jarry, no “Teatro de l’Oeuvre” (Teatro da Obra) em Paris. Estréia
   equivalente à batalha do Hernani, peça de Vitor Hugo, em 1830, pela Comédie Française,
   que contestava os princípios clássicos do teatro francês, instaurando o romantismo.

2. Apesar de Ubu Rei ter estreado no “Teatro de l’Oeuvre”, que era o teatro dos simbolistas,
   a peça não tem nada de simbolismo. Jarry mostra uma concepção de teatro bem mais
   radical que os simbolistas. Os simbolistas libertaram a cena do compromisso com o
   realismo mas, é Jarry quem funda a estética da cena moderna.

3. O título, lembrando vagamente “Édipo Rei”, parecia anunciar uma tragédia
   clássica. Realmente, ao levantar-se o pano, os espectadores viram as colunas de
   um templo grego, embora com a palavra École (escola) na arquitrave, e um coro
   de figurantes mascarados. Acostumados ao estilo declamatório do teatro francês,
   esperavam ver o ator principal avançar para a ribalta, pronunciando versos de
   Racine (um dos maiores autores clássicos francês). Mas em vez disso, o ator Firmin
   Gémier, que interpretava o personagem título, avançou até a ribalta, dirigindo-se à
   platéia, e pronunciou a palavra que nunca até então se tinha ouvido num palco:
   merdre!. Além do palavrão, um ‘r’ sonoro, mais um sinal de protesto contra a
   grafia rotineira. Foi um escândalo!

4. Alfred Jarry nasceu em 1873 e viveu sempre pobre. Recusou todas as
   oportunidades, por incapacidade inata de fazer concessões aos hábitos da vida
   burguesa e às convenções da vida literária parisiense. Pode-se dizer que Jarry se
   suicidou, bebendo sistematicamente, até a idade de 34 anos, quando morreu (1907)
   na mesma solidão em que sempre vivera. É indiscutível a importância profunda
   que exerceu sobre toda a vanguarda francesa. Desde então, o antiliterato Jarry
   tem, paradoxalmente, garantido seu lugar na história da literatura moderna.

5. “Da inutilidade do teatro no teatro” é o título de um artigo escrito por Jarry e
   publicado no “Le Mercure de France” em setembro de 1896 (três meses antes da
   estréia de Ubu). Este título é uma provocação ao artigo chamado “Da inutilidade
   absoluta da cena exata” (exata = realista), escrito pelo simbolista Pierre Quillard.

6. Jarry compôs o texto da peça aos 15 anos de idade, como uma brincadeira escolar,
   destinada a ridicularizar um professor de matemática, Heber, que os garotos
   costumavam chamar de Père Hébé. O professor/personagem é burlesco, cruel,
   covarde, estúpido, infernal. Tiraniza os alunos, assim como é tirânico qualquer
   pequeno burguês, quando dispõe de poder sobre outros. É um símbolo social e
   uma profecia política. Ubu é o arquétipo dos ditadores cruéis e estúpidos do
   século XX. Ubu torna-se rei graças à sua tremenda estupidez, à bestialidade sem
   limites, desligada de qualquer vislumbre de consciência.
1

7. Mas quem é esse Pai Ubu, capitão dos dragões, oficial de confiança do Rei
   Venceslau, condecorado com a Ordem da Águia Vermelha da Polônia e antigo rei
   de Aragão? Pai Ubu, instigado pela mulher, Mãe Ubu, assassina o rei da Polônia e
   assume o poder. Usurpado o trono, consente em que o povo deixe de pagar
   impostos. Sentindo-se já seguro, permite-se não cumprir a promessa feita ao
   amigo fiel, Capitão Bordadura, dizendo: “Agora que não preciso mais dele, ele
   pode bem ficar coçando a barriga, que não terá seu ducado”. E passa apenas a
   usufruir as vantagens do poder, liquidando a oposição. Mas apesar de todas essas
   características, Ubu é contagiante de simpatia, comunicativo , extremamente
   “popular”.

8. A genialidade de Jarry faz com que consiga resumir em Ubu Rei toda a literatura
   anterior, lançando-o em direção do futuro. Encontram-se na peça, conciliadas, a
   epopéia e a paródia, a farsa e a tragédia, o sério e o grotesco, numa espantosa
   antevisão de todos os caminhos do teatro moderno.

9. O palco moderno deve essencialmente ao espetáculo simbolista a redescoberta da
   teatralidade. A tendência ilusionista, que prevalecia desde o século XVIII,
   preocupava-se em antes de mais nada camuflar os instrumentos de produção da
   teatralidade, para tornar sua magia mais eficaz. Com a montagem de Ubu Rei
   dirigida por Lugné-Poe (1896) a encenação engaja-se numa direção
   diametralmente oposta.

10.     Para os simbolistas o signo teatral deveria sugerir, fazer sonhar, suscitar uma
   participação imaginária do espectador. Mesmo abrindo mão da precisão mimética
   do espetáculo naturalista, esse signo não deixava de conservar um significado.
   Exemplo: cenários e figurinos que evoquem a Idade Média. Jarry irá muito mais
   longe na ruptura com a tradição figurativa ao propor a volta da tabuleta
   indicadora do teatro elizabetano, o que significa levar até as últimas conseqüências
   a teoria sugestionista da corrente simbolista: a palavra escrita, embora não-
   figurativa, tem o mesmo poder de evocação que qualquer tela pintada. Dizer:
   “um campo coberto de neve” ou mostrar um cartaz com estas mesmas palavras
   escritas, corresponde a oferecer ao espectador o mesmo impulso do imaginário
   que ele receberia vendo, por meio de uma tela, da pintura e da iluminação, um
   panorama cheio de neve. Mas corresponde a algo mais quando mostra o próprio
   instrumento (o cartaz) gerador de seu devaneio. Ou seja, lembrar ao espectador
   que mesmo se na sua imaginação ele se transporta para “um campo coberto de
   neve”, ele não deixa de assistir a uma representação teatral e de participar dela.

11.    O cenário de Ubu Rei foi um precursor do surrealismo: cenário que “pretende
   representar o Lugar Algum, com árvores ao pé das camas, com neve branca no céu
   azul. Apresentando lareiras dotadas de pêndulos a fim de servir de portas, e
   palmeiras no pé das camas, para serem comidas por pequenos elefantes trepados
   nas estantes”. Esse cenário resulta de um desejo de provocação, de negação e de
   destruição do teatro. Teatro destruído pelo próprio teatro. E quando não existe
   mais nada no palco que tenha vestígio da figuração, da verossimilhança, da
   coerência, ainda assim existe algo para ser visto: a teatralidade.
2



12.    Jarry inaugura desse modo uma tradição fundamental na história da
   encenação moderna. Desde então, o teatro ousa mostrar-se nu. O que lhe garantirá
   uma grande flexibilidade e liberdade de movimentos. O espaço cênico vai tornar-
   se uma área de atuação, onde o ator é um puro instrumento da representação,
   renunciando à sua personalidade de ator ou à identidade do seu personagem.

                  Para substituir a porta da prisão, um ator ficava
                  parado no palco, com o braço esquerdo estendido.
                  Eu colocava a chave na sua mão, como se fosse uma
                  fechadura. Fazia o barulho na lingüeta, crique,
                  craque, e girava o braço como se estivesse abrindo a
                  porta. (Firmin Gémier, intérprete de Ubu)




Bibliografia


CARVALHO, Ana Maria Bulhões de. As vanguardas teatrais do século XX. IN, O
   teatro através da história. Rio de Janeiro: CCBB, 1994, volume I.

MAGALDI, Sábato. O texto no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1989.

ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral 1880-1980. Rio de
   Janeiro: Zahar Editores, 1997.
3


                                                                1o ATO
             UBU REI
          ou Os Poloneses
                                                               CENA 1
        Drama em cinco atos
                                                         Pai Ubu, Mãe Ubu
              (1896)
                    de Alfred JARRY
                                          PAI UBU – Merdra!
               tradução Ferreira Gullar
                                          MÃE UBU – Que coisa mais engraçada, Pai
                                          Ubu. Tu és um grosso!
PERSONAGENS
Pai Ubu                                   PAI UBU – Mãe Ubu, Mãe Ubu, ainda te
Mãe Ubu                                   mato de pancada!
Capitão Bordadura
Rei Venceslau                             MÃE UBU – Não é a mim que deves matar,
Rainha Rosamunda                          mas a outra pessoa.
Boleslau
Ladislau                                  PAI UBU – Juro pelos meus chifres1 que não
Bugrelau                                  estou entendendo!
General Lascy
                                          MÃE UBU – Vais me dizer, agora, que te
Stanislau Sobieski                        consideras um homem realizado.
Imperador Alexis
Girão                                     PAI UBU – Por meus chifres, merdra
Pila                                      madame, claro que me considero. Ou pelo
Cotica                                    menos, poderia me considerar: capitão de
Conjurados e Soldados                     Dragões, oficial de confiança do rei
Povo                                      Venceslau, condecorado com a Ordem da
Miguel Federovitch                        Águia Vermelha da Polônia e antigo rei de
Nobres                                    Aragão, que queres mais?
Magistrados
                                          MÃE UBU – O que?! Depois de teres sido rei
Conselheiros
                                          de Aragão, te dás agora por satisfeito em
Financistas
                                          passar em revista cinco dezenas de lacaios
Guardas de Finanças                       armados de facão de cozinha? Isso quando
Camponeses                                poderias por em cima da cuca, depois da coroa
Exército Russo                            de Aragão, a coroa da Polônia!
Exército Polonês
Os Guardas de Mãe Ubu                     PAI UBU – Não sei aonde pretendes chegar.
Um Capitão
Um Urso                                   MÃE UBU – De burro que és!
O Cavalo de Finanças
A Máquina de Decapitar                    PAI UBU – Mas por meus chifres, Mãe Ubu,
A Equipagem                               o rei Venceslau ainda está aí vivinho da silva!
                                          E, mesmo que morra, tem filhos, uma legião
O Comandante
                                          de filhos.


                                          1
                                             De par ma chandelle verte é a expressão de Jarry,
                                          intraduzível, referência a uma peça escrita por ele
                                          quando estudante. Essa expressão aparecerá várias
                                          vezes na peça. como uma espécie de idiossincrasia de
                                          Ubu. Pode-se admitir outras intenções de Jarry, como
                                          referência a tenir la chandelle: agir como corno manso.
4

                                                      MÃE UBU – E a capelina, Pai Ubu? E o
MÃE UBU – E quem te impede de trucidar                guarda chuva? E a japona?
toda a família e usurpar o trono?                      PAI UBU – Ora, não enche, Mãe Ubu! (Sai
                                                      batendo a porta)
PAI UBU – Escuta aqui, Mãe Ubu: mais um
insulto desses e te visto um pijama de madeira.       MÃE UBU – Vôtre, merdra, não está fácil
                                                      dobrá-lo, merdra, mas tenho certeza que o
MÃE UBU – Infeliz, se me vestes um pijama             conseguirei. Graças a Deus e a mim mesma,
de madeira, quem é que vai remendar teus              dentro talvez de uns oito dias, serei a rainha da
fundilhos?                                            Polônia.

PAI UBU – Ih, é mesmo! Mas e daí? Minha                                    CENA 2
bunda não é melhor que a dos outros.                             Pai Ubu, Mãe Ubu
                                                      A cena se passa numa sala da casa de Pai
MÃE UBU – Pois se essa bunda fosse minha,             Ubu onde a mesa está posta para um
trataria de sentá-la num trono. Poderias              banquete.
aumentar infinitamente tuas posses, comer
lingüiça quando te desse vontade e passar de          MÃE UBU – Nossos convidados estão
coche pelas ruas...                                   demorando muito.

PAI UBU – Se eu fosse rei de novo, mandaria           PAI UBU – É mesmo, por meus chifres!
fazer para mim uma enorme capelina2 igual             Morro de fome. Estás horrenda, Mãe Ubu.
àquela que tinha em Aragão e que os vigaristas        Será que é por que vamos receber visitas hoje?
dos espanhóis me roubaram descaradamente.
                                                      MÃE UBU (Dando de ombros) – Merdra!
MÃE UBU – Poderias comprar um guarda-
chuva e uma japona comprida até os                    PAI UBU (Pegando um frango assado) –
calcanhares.                                          Puxa, que fome! Vou dar uma dentada nesse
                                                      bicho. Parece frango. Não está mal.
PAI UBU – Entrego os pontos, não resisto à
tentação. Aquele velhaco de merdra, merdra de         MÃE UBU – Que estás fazendo, desgraçado?
velhaco, se o pegasse sozinho num bosque, ah,         Que é que os convidados vão comer?
ele passaria um mau quarto de hora!
                                                      PAI UBU – Sobrará bastante para eles. Não
MÃE UBU – Isso sim, Pai Ubu, agora falas              tocarei em mais nada. Mãe Ubu, dá uma
como um homem de verdade!                             espiada pela janela, vê se já estão chegando.

PAI UBU – Não, não dá pé! Eu, capitão de              MÃE UBU (Chegando à janela) – Nem sinal.
Dragões, matar o rei da Polônia? Antes a              (Enquanto isso, Pai Ubu rouba um pedaço de
morte!                                                vitela) Enfim o capitão Bordadura3 e seus
                                                      companheiros! Que estás comendo aí, Pai
MÃE UBU (à parte) – Que merdra! (alto)                Ubu?
Desse jeito vais continuar miserável como um
rato.                                                 PAI UBU – Eu? Nada, um pedacinho de
                                                      vitela.
PAI UBU - Pela pança de Deus, por meus
chifres, prefiro ser um miserável rato, magro         MÃE UBU – Meu Deus, a vitela! A vitela!
mas bonzinho, do que ser rico como um rato            Ele comeu a vitela! Socorro!
gordo e malvado.



2
  Capelina – peça da armadura usada para proteger a   3
                                                       Bordadura, Bordure. Termo de Heráldica: faixa estreita
cabeça na Idade Média.                                que contorna o escudo.
5

PAI UBU – Juro por meus chifres, que vou te              MÃE UBU – Come primeiro, Pai Ubu. É a
arrancar os olhos!                                       sopa.

                 (Abre-se a porta)                       PAI UBU – Ai, velhaca! Que troço ruim!
                     CENA 3
Pai Ubu, Mãe Ubu, Capitão Bordadura e                    BORDADURA – Realmente, não está bom.
seus companheiros
                                                         MÃE UBU – Cambada de judeus, que querem
MÃE UBU – Bom dia, senhores, já estávamos                mais?
impacientes. Sentem-se por favor.
                                                         PAI UBU (Batendo na testa) – Tenho uma
BORDADURA – Bom dia, madame. Mas                         idéia. Volto já. (Sai)
onde está Pai Ubu?
                                                         MÃE UBU – Senhores, vamos à vitela.
PAI UBU – Aqui mesmo, meu caro. Credo em
cruz, por meus chifres, até que não sou tão              BORDADURA – Deliciosa, já terminei.
magro assim.
                                                         MÃE UBU – Agora, aos sobrecus.
BORDADURA – Bom dia, Pai Ubu. Sentem-
se, rapazes. (Sentam-se todos)                           BORDADURA – Um sabor requintado! Viva
                                                         Mãe Ubu!
PAI UBU – Êta, um pouco mais e a cadeira
desmanchava.                                             TODOS – Viva Mãe Ubu!

BORDADURA – Mas, Mãe Ubu, o que é que                    PAI UBU (de volta) – Daqui a pouco, estarão
você tem de bom pra nós?                                 gritando viva Pai Ubu. (Traz uma enorme
                                                         vassoura que sacode sobre a mesa do
MÃE UBU – Ouçam o menu.                                  banquete)

PAI UBU – Oba, isso me interessa.                        MÃE UBU – Que está fazendo, miserável?

MÃE UBU – Sopa polonesa, costelas de                     PAI UBU – Provem, provem. (Vários provam
ratrão4, vitela, frango, pâté de cachorro,               e caem envenenados) Mãe Ubu, passe-me as
sobrecu de peru, compota russa...                        costeletas de ratrão, que eu mesmo sirvo.

PAI UBU – Suponho que seja o bastante. Ou                MÃE UBU – Toma.
ainda há mais?
                                                         PAI UBU – Pra fora, todo mundo! Capitão
MÃE UBU – Bomba, salada, frutas, carne                   Bordadura, quero falar com você.
cozida, topinambor, couve-flor à la merdra.
                                                         OS OUTROS – Mas ainda não comemos.
PAI UBU – Ei, você pensa que eu sou um
paxá para arcar com tamanha despesa?                     PAI UBU – Como não comeram?! Pra fora
                                                         todos! Bordadura, você fica. (Ninguém se
MÃE UBU – Não liguem, ele é um imbecil.                  move)

PAI UBU – Espera aí que eu vou afiar meus                PAI UBU – Não vão embora, é? Juro por
dentes nas tuas canelas.                                 meus chifres que vou rebentá-los a golpes de
                                                         costeleta de ratrão (Começa a jogar as
                                                         costeletas neles)

4
  Côtes de rastron. Nossa tradução é arbitrária em sua   TODOS – Pára com isso! Socorro! Ajudem-
referência a rato. A expressão de Jarry alude            nos! Desgraça! Ele me mata!
possivelmente a um colega de ginásio.

Recomendados

O figurino como elemento da narrativa
O figurino como elemento da narrativaO figurino como elemento da narrativa
O figurino como elemento da narrativaLuara Schamó
 
A linguagem cenográfia
A linguagem cenográfiaA linguagem cenográfia
A linguagem cenográfiaLuara Schamó
 
Aula 02 definição para figurino - figurino histórico - espaço, tempo e pers...
Aula 02   definição para figurino - figurino histórico - espaço, tempo e pers...Aula 02   definição para figurino - figurino histórico - espaço, tempo e pers...
Aula 02 definição para figurino - figurino histórico - espaço, tempo e pers...Gisele Santos
 
Enquadramento - teorias da comunicação
Enquadramento - teorias da comunicaçãoEnquadramento - teorias da comunicação
Enquadramento - teorias da comunicaçãoLaércio Góes
 
Quadro Comparativo - Vanguardas Europeias
Quadro Comparativo - Vanguardas Europeias Quadro Comparativo - Vanguardas Europeias
Quadro Comparativo - Vanguardas Europeias Prof Palmito Rocha
 

Mais conteúdo relacionado

Mais procurados

Introdução ao Audiovisual
Introdução ao Audiovisual Introdução ao Audiovisual
Introdução ao Audiovisual Vinícius Souza
 
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)Juliana Lofego
 
Comedia dell’arte
Comedia dell’arteComedia dell’arte
Comedia dell’arteprofar
 
Aula 06 Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalli
Aula 06  Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalliAula 06  Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalli
Aula 06 Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalliGisele Santos
 
Documentário: historia e linguagem
Documentário: historia e linguagemDocumentário: historia e linguagem
Documentário: historia e linguagemrichard_romancini
 
Teoria Da Imagem
Teoria Da ImagemTeoria Da Imagem
Teoria Da Imagemmartha
 
Curso mediação judicial slides
Curso mediação judicial slidesCurso mediação judicial slides
Curso mediação judicial slidesDébora Bastos
 
Gêneros e formatos televisivos
Gêneros e formatos televisivosGêneros e formatos televisivos
Gêneros e formatos televisivossergioborgato
 
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitário
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitárioAula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitário
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitárioElizeu Nascimento Silva
 
07. Narrativa clássica no cinema
07. Narrativa clássica no cinema07. Narrativa clássica no cinema
07. Narrativa clássica no cinemaCristiano Canguçu
 
O império do grotesco
O império do grotescoO império do grotesco
O império do grotescoTamelaG
 

Mais procurados (20)

Introdução ao Audiovisual
Introdução ao Audiovisual Introdução ao Audiovisual
Introdução ao Audiovisual
 
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)
Introdução à analise da Imagem (Joly, Martine)
 
Comedia dell’arte
Comedia dell’arteComedia dell’arte
Comedia dell’arte
 
Aula 06 Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalli
Aula 06  Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalliAula 06  Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalli
Aula 06 Figurinos: o grande gatsby e roberto cavalli
 
Documentário: historia e linguagem
Documentário: historia e linguagemDocumentário: historia e linguagem
Documentário: historia e linguagem
 
2. Cinematografia
2. Cinematografia2. Cinematografia
2. Cinematografia
 
Teoria Da Imagem
Teoria Da ImagemTeoria Da Imagem
Teoria Da Imagem
 
Cinema Brasileiro
Cinema BrasileiroCinema Brasileiro
Cinema Brasileiro
 
Curso mediação judicial slides
Curso mediação judicial slidesCurso mediação judicial slides
Curso mediação judicial slides
 
Gêneros e formatos televisivos
Gêneros e formatos televisivosGêneros e formatos televisivos
Gêneros e formatos televisivos
 
Teatro grego
Teatro gregoTeatro grego
Teatro grego
 
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitário
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitárioAula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitário
Aula linguagem audiovisual 03 roteiro publicitário
 
Béla Balázs
Béla BalázsBéla Balázs
Béla Balázs
 
07. Narrativa clássica no cinema
07. Narrativa clássica no cinema07. Narrativa clássica no cinema
07. Narrativa clássica no cinema
 
O império do grotesco
O império do grotescoO império do grotesco
O império do grotesco
 
Escrita guiao
Escrita guiaoEscrita guiao
Escrita guiao
 
Produção cinematógrafiaca
Produção cinematógrafiacaProdução cinematógrafiaca
Produção cinematógrafiaca
 
Gêneros cinematográficos
Gêneros cinematográficosGêneros cinematográficos
Gêneros cinematográficos
 
Fotografia
FotografiaFotografia
Fotografia
 
Semiótica del cine
Semiótica del cineSemiótica del cine
Semiótica del cine
 

Semelhante a Ubu rei

A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...
A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...
A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...Hca Faro
 
Pág.Crianças10Abril2010
Pág.Crianças10Abril2010Pág.Crianças10Abril2010
Pág.Crianças10Abril2010mrvpimenta
 
Gênero Dramático 8º ano
Gênero Dramático 8º anoGênero Dramático 8º ano
Gênero Dramático 8º anoKássia Mendes
 
O céu de suely, ao rés-do-chão
O céu de suely, ao rés-do-chãoO céu de suely, ao rés-do-chão
O céu de suely, ao rés-do-chãoLeandro Saraiva
 
Pag.criancas190211
Pag.criancas190211Pag.criancas190211
Pag.criancas190211mrvpimenta
 
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinho
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinhoMachado assis e_shakespeare_ou_bentinho
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinhoTatiane Bovolato
 
Miro.baia.arte.da.expressao.teatro
Miro.baia.arte.da.expressao.teatroMiro.baia.arte.da.expressao.teatro
Miro.baia.arte.da.expressao.teatroAriane Mafra
 
Panorama do teatro brasileiro
Panorama do teatro brasileiroPanorama do teatro brasileiro
Panorama do teatro brasileiroMaristela Cardoso
 
Pág.crianças28 01-12
Pág.crianças28 01-12Pág.crianças28 01-12
Pág.crianças28 01-12mrvpimenta
 
Pág.crianças 5 novembro2011
Pág.crianças 5 novembro2011Pág.crianças 5 novembro2011
Pág.crianças 5 novembro2011mrvpimenta
 
Um homem sem medo não morre 2011
Um homem sem medo não morre 2011Um homem sem medo não morre 2011
Um homem sem medo não morre 2011Maria Franco
 
Apresentação comparada
 Apresentação comparada Apresentação comparada
Apresentação comparadaMara Júnia
 
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...studio silvio selva
 

Semelhante a Ubu rei (20)

Ubu rei
Ubu  reiUbu  rei
Ubu rei
 
Ubu rei
Ubu reiUbu rei
Ubu rei
 
A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...
A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...
A Cerimónia turca na obra “O burguês gentil-homem” (1670) de Molière (1622-16...
 
Pág.Crianças10Abril2010
Pág.Crianças10Abril2010Pág.Crianças10Abril2010
Pág.Crianças10Abril2010
 
Gênero Dramático 8º ano
Gênero Dramático 8º anoGênero Dramático 8º ano
Gênero Dramático 8º ano
 
O céu de suely, ao rés-do-chão
O céu de suely, ao rés-do-chãoO céu de suely, ao rés-do-chão
O céu de suely, ao rés-do-chão
 
A galeria dos serui plautinos
A galeria dos serui plautinosA galeria dos serui plautinos
A galeria dos serui plautinos
 
Pag.criancas190211
Pag.criancas190211Pag.criancas190211
Pag.criancas190211
 
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinho
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinhoMachado assis e_shakespeare_ou_bentinho
Machado assis e_shakespeare_ou_bentinho
 
Teatro contemporâneo
Teatro contemporâneoTeatro contemporâneo
Teatro contemporâneo
 
Miro.baia.arte.da.expressao.teatro
Miro.baia.arte.da.expressao.teatroMiro.baia.arte.da.expressao.teatro
Miro.baia.arte.da.expressao.teatro
 
Exposição: Dia Mundial do Teatro
Exposição: Dia Mundial do TeatroExposição: Dia Mundial do Teatro
Exposição: Dia Mundial do Teatro
 
Panorama do teatro brasileiro
Panorama do teatro brasileiroPanorama do teatro brasileiro
Panorama do teatro brasileiro
 
Pág.crianças28 01-12
Pág.crianças28 01-12Pág.crianças28 01-12
Pág.crianças28 01-12
 
Pág.crianças 5 novembro2011
Pág.crianças 5 novembro2011Pág.crianças 5 novembro2011
Pág.crianças 5 novembro2011
 
Um homem sem medo não morre 2011
Um homem sem medo não morre 2011Um homem sem medo não morre 2011
Um homem sem medo não morre 2011
 
Apresentação comparada
 Apresentação comparada Apresentação comparada
Apresentação comparada
 
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...
A commedia dell'arte: máscaras, duplicidade e o riso diabólico do Arlequim, N...
 
Trabalho final feb - leite derramado
Trabalho final   feb - leite derramadoTrabalho final   feb - leite derramado
Trabalho final feb - leite derramado
 
Revista literatas edição 7
Revista literatas   edição 7Revista literatas   edição 7
Revista literatas edição 7
 

Mais de studio silvio selva

Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Bauru
Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de BauruLei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Bauru
Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Baurustudio silvio selva
 
Vamos sair da chuva quando a bomba cair mario bortolotto
Vamos sair da chuva quando a bomba cair  mario bortolotto Vamos sair da chuva quando a bomba cair  mario bortolotto
Vamos sair da chuva quando a bomba cair mario bortolotto studio silvio selva
 
Gabriel garcia marques ninguém escreve ao coronel
Gabriel garcia marques   ninguém escreve ao coronelGabriel garcia marques   ninguém escreve ao coronel
Gabriel garcia marques ninguém escreve ao coronelstudio silvio selva
 
As alegres matronas de windsor W. Shakespeare
As alegres matronas de windsor W. ShakespeareAs alegres matronas de windsor W. Shakespeare
As alegres matronas de windsor W. Shakespearestudio silvio selva
 
"Alegres senhoras de Windsor" William Shakespeare,
"Alegres senhoras de Windsor"  William Shakespeare, "Alegres senhoras de Windsor"  William Shakespeare,
"Alegres senhoras de Windsor" William Shakespeare, studio silvio selva
 
'O casamento do pequeno burgues' bertolt brecht
'O casamento do pequeno burgues'   bertolt brecht'O casamento do pequeno burgues'   bertolt brecht
'O casamento do pequeno burgues' bertolt brechtstudio silvio selva
 
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassy
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo SacaldassyFulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassy
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassystudio silvio selva
 
máscara cinematográfica de látex
máscara cinematográfica de látexmáscara cinematográfica de látex
máscara cinematográfica de látexstudio silvio selva
 
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
O 18 de Brumário de Luís BonaparteO 18 de Brumário de Luís Bonaparte
O 18 de Brumário de Luís Bonapartestudio silvio selva
 
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"studio silvio selva
 
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"studio silvio selva
 
Gonçalves dias leonor de mendonça
Gonçalves dias leonor de mendonçaGonçalves dias leonor de mendonça
Gonçalves dias leonor de mendonçastudio silvio selva
 
Anton tchekov os maleficios do tabaco
Anton tchekov os maleficios do tabacoAnton tchekov os maleficios do tabaco
Anton tchekov os maleficios do tabacostudio silvio selva
 

Mais de studio silvio selva (20)

Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Bauru
Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de BauruLei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Bauru
Lei 1574 71- Estatuto dos Servidores Municipais de Bauru
 
Cenotécnicos do Brasil
Cenotécnicos do BrasilCenotécnicos do Brasil
Cenotécnicos do Brasil
 
Vamos sair da chuva quando a bomba cair mario bortolotto
Vamos sair da chuva quando a bomba cair  mario bortolotto Vamos sair da chuva quando a bomba cair  mario bortolotto
Vamos sair da chuva quando a bomba cair mario bortolotto
 
Gabriel garcia marques ninguém escreve ao coronel
Gabriel garcia marques   ninguém escreve ao coronelGabriel garcia marques   ninguém escreve ao coronel
Gabriel garcia marques ninguém escreve ao coronel
 
As alegres matronas de windsor W. Shakespeare
As alegres matronas de windsor W. ShakespeareAs alegres matronas de windsor W. Shakespeare
As alegres matronas de windsor W. Shakespeare
 
"Alegres senhoras de Windsor" William Shakespeare,
"Alegres senhoras de Windsor"  William Shakespeare, "Alegres senhoras de Windsor"  William Shakespeare,
"Alegres senhoras de Windsor" William Shakespeare,
 
'O casamento do pequeno burgues' bertolt brecht
'O casamento do pequeno burgues'   bertolt brecht'O casamento do pequeno burgues'   bertolt brecht
'O casamento do pequeno burgues' bertolt brecht
 
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassy
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo SacaldassyFulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassy
Fulana, Sicrana e Beltrana- Paulo Sacaldassy
 
Pastelão 1
Pastelão 1Pastelão 1
Pastelão 1
 
O pastel e a torta
O pastel e a tortaO pastel e a torta
O pastel e a torta
 
O pastelao e a torta
O pastelao e a tortaO pastelao e a torta
O pastelao e a torta
 
máscara cinematográfica de látex
máscara cinematográfica de látexmáscara cinematográfica de látex
máscara cinematográfica de látex
 
"Esperando godot" de Beckett
"Esperando godot" de Beckett"Esperando godot" de Beckett
"Esperando godot" de Beckett
 
Molière o tartufo
Molière o tartufoMolière o tartufo
Molière o tartufo
 
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
O 18 de Brumário de Luís BonaparteO 18 de Brumário de Luís Bonaparte
O 18 de Brumário de Luís Bonaparte
 
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"
Mário Bortolotto "HOMENS, SANTOS E DESERTORES"
 
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"
Luigi pirandello "O Homem da Flor na Boca"
 
Luigi pirandello
Luigi pirandello Luigi pirandello
Luigi pirandello
 
Gonçalves dias leonor de mendonça
Gonçalves dias leonor de mendonçaGonçalves dias leonor de mendonça
Gonçalves dias leonor de mendonça
 
Anton tchekov os maleficios do tabaco
Anton tchekov os maleficios do tabacoAnton tchekov os maleficios do tabaco
Anton tchekov os maleficios do tabaco
 

Ubu rei

  • 1. UBU REI texto de Alfred Jarry (1873-1907) 1. O início oficial do teatro de vanguarda deu-se em 10 de dezembro de 1896, com a estréia de Ubu Rei, de Alfred Jarry, no “Teatro de l’Oeuvre” (Teatro da Obra) em Paris. Estréia equivalente à batalha do Hernani, peça de Vitor Hugo, em 1830, pela Comédie Française, que contestava os princípios clássicos do teatro francês, instaurando o romantismo. 2. Apesar de Ubu Rei ter estreado no “Teatro de l’Oeuvre”, que era o teatro dos simbolistas, a peça não tem nada de simbolismo. Jarry mostra uma concepção de teatro bem mais radical que os simbolistas. Os simbolistas libertaram a cena do compromisso com o realismo mas, é Jarry quem funda a estética da cena moderna. 3. O título, lembrando vagamente “Édipo Rei”, parecia anunciar uma tragédia clássica. Realmente, ao levantar-se o pano, os espectadores viram as colunas de um templo grego, embora com a palavra École (escola) na arquitrave, e um coro de figurantes mascarados. Acostumados ao estilo declamatório do teatro francês, esperavam ver o ator principal avançar para a ribalta, pronunciando versos de Racine (um dos maiores autores clássicos francês). Mas em vez disso, o ator Firmin Gémier, que interpretava o personagem título, avançou até a ribalta, dirigindo-se à platéia, e pronunciou a palavra que nunca até então se tinha ouvido num palco: merdre!. Além do palavrão, um ‘r’ sonoro, mais um sinal de protesto contra a grafia rotineira. Foi um escândalo! 4. Alfred Jarry nasceu em 1873 e viveu sempre pobre. Recusou todas as oportunidades, por incapacidade inata de fazer concessões aos hábitos da vida burguesa e às convenções da vida literária parisiense. Pode-se dizer que Jarry se suicidou, bebendo sistematicamente, até a idade de 34 anos, quando morreu (1907) na mesma solidão em que sempre vivera. É indiscutível a importância profunda que exerceu sobre toda a vanguarda francesa. Desde então, o antiliterato Jarry tem, paradoxalmente, garantido seu lugar na história da literatura moderna. 5. “Da inutilidade do teatro no teatro” é o título de um artigo escrito por Jarry e publicado no “Le Mercure de France” em setembro de 1896 (três meses antes da estréia de Ubu). Este título é uma provocação ao artigo chamado “Da inutilidade absoluta da cena exata” (exata = realista), escrito pelo simbolista Pierre Quillard. 6. Jarry compôs o texto da peça aos 15 anos de idade, como uma brincadeira escolar, destinada a ridicularizar um professor de matemática, Heber, que os garotos costumavam chamar de Père Hébé. O professor/personagem é burlesco, cruel, covarde, estúpido, infernal. Tiraniza os alunos, assim como é tirânico qualquer pequeno burguês, quando dispõe de poder sobre outros. É um símbolo social e uma profecia política. Ubu é o arquétipo dos ditadores cruéis e estúpidos do século XX. Ubu torna-se rei graças à sua tremenda estupidez, à bestialidade sem limites, desligada de qualquer vislumbre de consciência.
  • 2. 1 7. Mas quem é esse Pai Ubu, capitão dos dragões, oficial de confiança do Rei Venceslau, condecorado com a Ordem da Águia Vermelha da Polônia e antigo rei de Aragão? Pai Ubu, instigado pela mulher, Mãe Ubu, assassina o rei da Polônia e assume o poder. Usurpado o trono, consente em que o povo deixe de pagar impostos. Sentindo-se já seguro, permite-se não cumprir a promessa feita ao amigo fiel, Capitão Bordadura, dizendo: “Agora que não preciso mais dele, ele pode bem ficar coçando a barriga, que não terá seu ducado”. E passa apenas a usufruir as vantagens do poder, liquidando a oposição. Mas apesar de todas essas características, Ubu é contagiante de simpatia, comunicativo , extremamente “popular”. 8. A genialidade de Jarry faz com que consiga resumir em Ubu Rei toda a literatura anterior, lançando-o em direção do futuro. Encontram-se na peça, conciliadas, a epopéia e a paródia, a farsa e a tragédia, o sério e o grotesco, numa espantosa antevisão de todos os caminhos do teatro moderno. 9. O palco moderno deve essencialmente ao espetáculo simbolista a redescoberta da teatralidade. A tendência ilusionista, que prevalecia desde o século XVIII, preocupava-se em antes de mais nada camuflar os instrumentos de produção da teatralidade, para tornar sua magia mais eficaz. Com a montagem de Ubu Rei dirigida por Lugné-Poe (1896) a encenação engaja-se numa direção diametralmente oposta. 10. Para os simbolistas o signo teatral deveria sugerir, fazer sonhar, suscitar uma participação imaginária do espectador. Mesmo abrindo mão da precisão mimética do espetáculo naturalista, esse signo não deixava de conservar um significado. Exemplo: cenários e figurinos que evoquem a Idade Média. Jarry irá muito mais longe na ruptura com a tradição figurativa ao propor a volta da tabuleta indicadora do teatro elizabetano, o que significa levar até as últimas conseqüências a teoria sugestionista da corrente simbolista: a palavra escrita, embora não- figurativa, tem o mesmo poder de evocação que qualquer tela pintada. Dizer: “um campo coberto de neve” ou mostrar um cartaz com estas mesmas palavras escritas, corresponde a oferecer ao espectador o mesmo impulso do imaginário que ele receberia vendo, por meio de uma tela, da pintura e da iluminação, um panorama cheio de neve. Mas corresponde a algo mais quando mostra o próprio instrumento (o cartaz) gerador de seu devaneio. Ou seja, lembrar ao espectador que mesmo se na sua imaginação ele se transporta para “um campo coberto de neve”, ele não deixa de assistir a uma representação teatral e de participar dela. 11. O cenário de Ubu Rei foi um precursor do surrealismo: cenário que “pretende representar o Lugar Algum, com árvores ao pé das camas, com neve branca no céu azul. Apresentando lareiras dotadas de pêndulos a fim de servir de portas, e palmeiras no pé das camas, para serem comidas por pequenos elefantes trepados nas estantes”. Esse cenário resulta de um desejo de provocação, de negação e de destruição do teatro. Teatro destruído pelo próprio teatro. E quando não existe mais nada no palco que tenha vestígio da figuração, da verossimilhança, da coerência, ainda assim existe algo para ser visto: a teatralidade.
  • 3. 2 12. Jarry inaugura desse modo uma tradição fundamental na história da encenação moderna. Desde então, o teatro ousa mostrar-se nu. O que lhe garantirá uma grande flexibilidade e liberdade de movimentos. O espaço cênico vai tornar- se uma área de atuação, onde o ator é um puro instrumento da representação, renunciando à sua personalidade de ator ou à identidade do seu personagem. Para substituir a porta da prisão, um ator ficava parado no palco, com o braço esquerdo estendido. Eu colocava a chave na sua mão, como se fosse uma fechadura. Fazia o barulho na lingüeta, crique, craque, e girava o braço como se estivesse abrindo a porta. (Firmin Gémier, intérprete de Ubu) Bibliografia CARVALHO, Ana Maria Bulhões de. As vanguardas teatrais do século XX. IN, O teatro através da história. Rio de Janeiro: CCBB, 1994, volume I. MAGALDI, Sábato. O texto no teatro. São Paulo: Perspectiva, 1989. ROUBINE, Jean-Jacques. A linguagem da encenação teatral 1880-1980. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1997.
  • 4. 3 1o ATO UBU REI ou Os Poloneses CENA 1 Drama em cinco atos Pai Ubu, Mãe Ubu (1896) de Alfred JARRY PAI UBU – Merdra! tradução Ferreira Gullar MÃE UBU – Que coisa mais engraçada, Pai Ubu. Tu és um grosso! PERSONAGENS Pai Ubu PAI UBU – Mãe Ubu, Mãe Ubu, ainda te Mãe Ubu mato de pancada! Capitão Bordadura Rei Venceslau MÃE UBU – Não é a mim que deves matar, Rainha Rosamunda mas a outra pessoa. Boleslau Ladislau PAI UBU – Juro pelos meus chifres1 que não Bugrelau estou entendendo! General Lascy MÃE UBU – Vais me dizer, agora, que te Stanislau Sobieski consideras um homem realizado. Imperador Alexis Girão PAI UBU – Por meus chifres, merdra Pila madame, claro que me considero. Ou pelo Cotica menos, poderia me considerar: capitão de Conjurados e Soldados Dragões, oficial de confiança do rei Povo Venceslau, condecorado com a Ordem da Miguel Federovitch Águia Vermelha da Polônia e antigo rei de Nobres Aragão, que queres mais? Magistrados MÃE UBU – O que?! Depois de teres sido rei Conselheiros de Aragão, te dás agora por satisfeito em Financistas passar em revista cinco dezenas de lacaios Guardas de Finanças armados de facão de cozinha? Isso quando Camponeses poderias por em cima da cuca, depois da coroa Exército Russo de Aragão, a coroa da Polônia! Exército Polonês Os Guardas de Mãe Ubu PAI UBU – Não sei aonde pretendes chegar. Um Capitão Um Urso MÃE UBU – De burro que és! O Cavalo de Finanças A Máquina de Decapitar PAI UBU – Mas por meus chifres, Mãe Ubu, A Equipagem o rei Venceslau ainda está aí vivinho da silva! E, mesmo que morra, tem filhos, uma legião O Comandante de filhos. 1 De par ma chandelle verte é a expressão de Jarry, intraduzível, referência a uma peça escrita por ele quando estudante. Essa expressão aparecerá várias vezes na peça. como uma espécie de idiossincrasia de Ubu. Pode-se admitir outras intenções de Jarry, como referência a tenir la chandelle: agir como corno manso.
  • 5. 4 MÃE UBU – E a capelina, Pai Ubu? E o MÃE UBU – E quem te impede de trucidar guarda chuva? E a japona? toda a família e usurpar o trono? PAI UBU – Ora, não enche, Mãe Ubu! (Sai batendo a porta) PAI UBU – Escuta aqui, Mãe Ubu: mais um insulto desses e te visto um pijama de madeira. MÃE UBU – Vôtre, merdra, não está fácil dobrá-lo, merdra, mas tenho certeza que o MÃE UBU – Infeliz, se me vestes um pijama conseguirei. Graças a Deus e a mim mesma, de madeira, quem é que vai remendar teus dentro talvez de uns oito dias, serei a rainha da fundilhos? Polônia. PAI UBU – Ih, é mesmo! Mas e daí? Minha CENA 2 bunda não é melhor que a dos outros. Pai Ubu, Mãe Ubu A cena se passa numa sala da casa de Pai MÃE UBU – Pois se essa bunda fosse minha, Ubu onde a mesa está posta para um trataria de sentá-la num trono. Poderias banquete. aumentar infinitamente tuas posses, comer lingüiça quando te desse vontade e passar de MÃE UBU – Nossos convidados estão coche pelas ruas... demorando muito. PAI UBU – Se eu fosse rei de novo, mandaria PAI UBU – É mesmo, por meus chifres! fazer para mim uma enorme capelina2 igual Morro de fome. Estás horrenda, Mãe Ubu. àquela que tinha em Aragão e que os vigaristas Será que é por que vamos receber visitas hoje? dos espanhóis me roubaram descaradamente. MÃE UBU (Dando de ombros) – Merdra! MÃE UBU – Poderias comprar um guarda- chuva e uma japona comprida até os PAI UBU (Pegando um frango assado) – calcanhares. Puxa, que fome! Vou dar uma dentada nesse bicho. Parece frango. Não está mal. PAI UBU – Entrego os pontos, não resisto à tentação. Aquele velhaco de merdra, merdra de MÃE UBU – Que estás fazendo, desgraçado? velhaco, se o pegasse sozinho num bosque, ah, Que é que os convidados vão comer? ele passaria um mau quarto de hora! PAI UBU – Sobrará bastante para eles. Não MÃE UBU – Isso sim, Pai Ubu, agora falas tocarei em mais nada. Mãe Ubu, dá uma como um homem de verdade! espiada pela janela, vê se já estão chegando. PAI UBU – Não, não dá pé! Eu, capitão de MÃE UBU (Chegando à janela) – Nem sinal. Dragões, matar o rei da Polônia? Antes a (Enquanto isso, Pai Ubu rouba um pedaço de morte! vitela) Enfim o capitão Bordadura3 e seus companheiros! Que estás comendo aí, Pai MÃE UBU (à parte) – Que merdra! (alto) Ubu? Desse jeito vais continuar miserável como um rato. PAI UBU – Eu? Nada, um pedacinho de vitela. PAI UBU - Pela pança de Deus, por meus chifres, prefiro ser um miserável rato, magro MÃE UBU – Meu Deus, a vitela! A vitela! mas bonzinho, do que ser rico como um rato Ele comeu a vitela! Socorro! gordo e malvado. 2 Capelina – peça da armadura usada para proteger a 3 Bordadura, Bordure. Termo de Heráldica: faixa estreita cabeça na Idade Média. que contorna o escudo.
  • 6. 5 PAI UBU – Juro por meus chifres, que vou te MÃE UBU – Come primeiro, Pai Ubu. É a arrancar os olhos! sopa. (Abre-se a porta) PAI UBU – Ai, velhaca! Que troço ruim! CENA 3 Pai Ubu, Mãe Ubu, Capitão Bordadura e BORDADURA – Realmente, não está bom. seus companheiros MÃE UBU – Cambada de judeus, que querem MÃE UBU – Bom dia, senhores, já estávamos mais? impacientes. Sentem-se por favor. PAI UBU (Batendo na testa) – Tenho uma BORDADURA – Bom dia, madame. Mas idéia. Volto já. (Sai) onde está Pai Ubu? MÃE UBU – Senhores, vamos à vitela. PAI UBU – Aqui mesmo, meu caro. Credo em cruz, por meus chifres, até que não sou tão BORDADURA – Deliciosa, já terminei. magro assim. MÃE UBU – Agora, aos sobrecus. BORDADURA – Bom dia, Pai Ubu. Sentem- se, rapazes. (Sentam-se todos) BORDADURA – Um sabor requintado! Viva Mãe Ubu! PAI UBU – Êta, um pouco mais e a cadeira desmanchava. TODOS – Viva Mãe Ubu! BORDADURA – Mas, Mãe Ubu, o que é que PAI UBU (de volta) – Daqui a pouco, estarão você tem de bom pra nós? gritando viva Pai Ubu. (Traz uma enorme vassoura que sacode sobre a mesa do MÃE UBU – Ouçam o menu. banquete) PAI UBU – Oba, isso me interessa. MÃE UBU – Que está fazendo, miserável? MÃE UBU – Sopa polonesa, costelas de PAI UBU – Provem, provem. (Vários provam ratrão4, vitela, frango, pâté de cachorro, e caem envenenados) Mãe Ubu, passe-me as sobrecu de peru, compota russa... costeletas de ratrão, que eu mesmo sirvo. PAI UBU – Suponho que seja o bastante. Ou MÃE UBU – Toma. ainda há mais? PAI UBU – Pra fora, todo mundo! Capitão MÃE UBU – Bomba, salada, frutas, carne Bordadura, quero falar com você. cozida, topinambor, couve-flor à la merdra. OS OUTROS – Mas ainda não comemos. PAI UBU – Ei, você pensa que eu sou um paxá para arcar com tamanha despesa? PAI UBU – Como não comeram?! Pra fora todos! Bordadura, você fica. (Ninguém se MÃE UBU – Não liguem, ele é um imbecil. move) PAI UBU – Espera aí que eu vou afiar meus PAI UBU – Não vão embora, é? Juro por dentes nas tuas canelas. meus chifres que vou rebentá-los a golpes de costeleta de ratrão (Começa a jogar as costeletas neles) 4 Côtes de rastron. Nossa tradução é arbitrária em sua TODOS – Pára com isso! Socorro! Ajudem- referência a rato. A expressão de Jarry alude nos! Desgraça! Ele me mata! possivelmente a um colega de ginásio.
  • 7. 6 PAI UBU – Merdra, merdra, merdra. Rua! PAI UBU – Bem, Bordadura, estamos Estou no meu papel. acertados. Pode ir. Juro por meus chifres, pela Mãe Ubu, que farei de você Duque de TODOS – Salve-se quem puder! Pai Ubu Lituânia. miserável! Tarado! Traidor! Tratante! PAI UBU – Enfim, se foram! Agora posso MÃE UBU – Mas... respirar, mas comi muito mal. Vem cá, Bordadura. (Saem os dois com Mãe Ubu) PAI UBU – Cala essa boca, meu anjo... (Saem) CENA 4 Pai Ubu, Mãe Ubu, Capitão Bordadura CENA 5 Pai Ubu, Mãe Ubu, um mensageiro PAI UBU – E então capitão, comeu bem? PAI UBU – Que deseja o senhor? Vá-se BORDADURA – Sim, bem, menos a merdra. embora e não chateie. PAI UBU – Ué, até que a merdra não estava MENSAGEIRO – Senhor, o rei manda ruim. chamá-lo. (Sai) BORDADURA – Gosto não se discute. PAI UBU – Que merdra! Jarnicotonbleu5, por meus chifres, fui descoberto, vou ser PAI UBU – Capitão Bordadura, estou disposto decapitado, ai meu Deus, coitado de mim! a fazê-lo Duque de Lituânia. MÃE UBU – Que homem frouxo! E o tempo BORDADURA – Mas como? Julgava que o urge. senhor estivesse na... merdra, Pai Ubu. PAI UBU – Ah, já sei: vou dizer que foi coisa PAI UBU – Modéstia à parte, capitão, dentro de Mãe Ubu e de Bordadura. de alguns dias reinarei sobre a Polônia. MÃE UBU – Ah, seu grande PU, se tu te BORDADURA – Vai matar Venceslau? atreveres... PAI UBU – Até que esse velhaco não é de PAI UBU – Se me atrevo? Eu vou agora todo burro, adivinhou. mesmo. (Sai) BORDADURA – Se se trata de matar MÃE UBU (Correndo atrás dele) – Pai Ubu, Venceslau, pode contar comigo. Sou seu Pai Ubu, vem cá! Te dou lingüiça, Pai Ubu inimigo mortal e respondo por seus homens. (Ela sai) PAI UBU (Jogando-se sobre ele para abraçá- PAI UBU (Fora de cena) – Vai à merdra! Não lo) – Ah, como gosto de você, Bordadura! vai mais botar banca comigo, sua lingüiça! BORDADURA – Não, Pai Ubu, você fede demais. Nossa mãe! Nunca toma banho? 5 Jarnicotonbleu – jarni, espécie de juramento que os autores cômicos franceses punham na boca dos PAI UBU – Raramente. camponeses, corruptela da expressão je rénie (eu renego) acrescida da palavra bleu por dieu. Henrique IV MÃE UBU – Nunca. tinha a mania de exclamar a todo momento jarnidieu (renego Deus). Seu professor, o Padre Coton, mostrou- lhe a inconveniência da expressão, pedindo-lhe que PAI UBU – Piso teu pé, ouviu? passasse a exclamar jarnicoton (renego Coton). Jarry coloca ao final a palavra bleu – jarnicotonbleu – MÃE UBU – Merdralhão! reafirmando a heresia que o padre Coton quis evitar e fazendo alusão a Cordon Bleu, célebre ordem de Cavalaria.
  • 8. 7 CENA 6 PAI UBU – Sois a bondade em pessoa. Palácio do Rei (Venceslau sai) É, rei Venceslau, mas nem por Rei Venceslau, rodeado de oficiais, isso escaparás da morte. Bordadura, os filhos do rei: Boleslau, Ladislau e Bugrelau. Depois Pai Ubu. PAI UBU (Entrando) – Sabeis muito bem que não tenho nada a ver com isso. Foi Mãe Ubu e Bordadura. REI – Que há contigo, Pai Ubu? BORDADURA – Bebeu demais. REI – Como eu, esta manhã. PAI UBU – É, estou um pouco tonto, abusei do vinho francês. REI – Pai Ubu, quero recompensar-te pelos incontáveis serviços que prestaste como capitão de Dragões, fazendo-te hoje mesmo conde Sendomir. PAI UBU – Majestade, não sei como agradecer-vos. REI – Nada tens que agradecer, Pai Ubu, e estejas amanhã de manhã na solenidade de revista às tropas. PAI UBU – Lá estarei, mas aceite, por favor, esta flautinha de presente. (Mostra ao rei uma flauta) REI - Que vou fazer com uma flauta, Pai Ubu? Darei a Bugrelau. BUGRELAU – Esse Pai Ubu é um boboca. PAI UBU – E agora me arranco... (Cai, ao se voltar) Ui, ai! Socorro! Por meus chifres! Acho que rompi os intestinos e quebrei a bunda! REI (Levantando-o) – Estás machucado, Pai Ubu? PAI UBU – Creio que sim, majestade, vou morrer na certa. Que vai ser de Mãe Ubu? REI – Não se preocupe, o sustento dela está assegurado, Pai Ubu.
  • 9. 8 CENA 7 consinto em me expor a todos os riscos por Casa de Pai Ubu vocês. Sendo assim, Bordadura, tu te Girão, Pila, Cotica, Pai Ubu, Mãe Ubu, encarregas de abrir o rei ao meio. conspiradores e soldados, Capitão Bordadura. BORDADURA – Não seria melhor nos jogarmos todos ao mesmo tempo em cima PAI UBU – Caros amigos, já é tempo de dele, berrando e lhe dando dentadas? Assim, estabelecermos o plano da conspiração. Cada seria mais fácil de arrastar conosco as tropas. um deve dar sua opinião. Darei a minha primeiro, se os senhores permitirem. PAI UBU – Está bem. Eu me encarrego de pisar o pé dele. Vai achar ruim e então eu lhe BORDADURA – Fale, Pai Ubu. responderei: MERDRA – e essa será a senha para que vocês ataquem. PAI UBU – Pois bem, meus amigos, sou de opinião que se deve simplesmente envenenar o MÃE UBU – Sim, e logo que ele esteja morto, rei, misturando-lhe arsênico na comida. pegarás o cetro e a coroa. Quando se empanturrar, cairá morto, e eu me tornarei rei da Polônia. BORDADURA – E eu então sairei com meus homens em perseguição à família real. TODOS – Assim também não, é muita sordidez! PAI UBU – Certo, e te recomendo especialmente o jovem Bugrelau. (Saem) PAI UBU – Ué, não gostaram? Então que opine o Bordadura. PAI UBU (Correndo atrás deles e fazendo-os voltar) – Senhores, esquecemos uma BORDADURA – Na minha opinião, devemos cerimônia indispensável. Temos de jurar que matá-lo com um golpe de espada que o abra ao todos nós lutaremos com desprendimento. meio, da cabeça à cintura. BORDADURA – Como vamos fazer o TODOS – Muito bem! Isso é agir com juramento se não há um padre aqui? nobreza e bravura. PAI UBU – Mãe Ubu farás as vezes do padre. PAI UBU – E se ele cair de pontapés em vocês? Estou me lembrando agora que para TODOS – Bem, vá lá. passar em revista as tropas, ele usa uns sapatos de ferro que podem fazer estrago na canela PAI UBU – Juram que matarão o rei? dum. Eu devia era denunciar vocês todos para me safar desse negócio sujo, e estou certo de TODOS – Juramos. Viva Pai Ubu! que o rei ainda me daria dinheiro por isso. 2º ATO MÃE UBU – Traidor, covarde, vilão, sórdido interesseiro! CENA 1 Palácio do Rei. TODOS – Vamos cuspir nele, pessoal! Venceslau, a rainha Rosamunda, Ladislau e Bugrelau. PAI UBU – Calma, senhores, muita calma, se não queren visitar meu papo6. Está bem, REI – Senhor Bugrelau, foi muito impertinente a maneira como vos comportastes 6 Traduzimos mes poches por meu papo, que é uma das esta manhã com o senhor Ubu, cavaleiro de acepções da palavra. É preciso ter sempre em mente minhas Ordens e conde de Sendomir. Por essa que Pai Ubu não é propriamente um homem, mas um se monstruoso, pré-humano (Ubu vem de Ybex, morcego, e de Hibou, mocho). A palavra poche (bolso, papo) guarda sempre seu “bastão de física” metido no bolso, conforme na língua original sua dupla significação já que Ubu traz as indicações e os desenhos de Jarry.
  • 10. 9 razão, proíbo-vos de comparecer, hoje, à cerimônia de revista às tropas. RAINHA – Em compensação, Venceslau, não tereis lá bastante gente de vossa família para vos defender. REI – Senhora, jamais volto atrás em minha palavra. Vossas tolices me aborrecem. BUGRELAU – Senhor meu pai, submeto-me às vossas ordens. RAINHA – Quer dizer, Senhor, que estais mesmo disposto a ir a essa cerimônia? REI – Por que não? RAINHA – Não vos contei o outro sonho que tive em que éreis trucidado e jogado no Vístula? E que uma águia igual à que figura nas armas da Polônia colocava a coroa na cabeça dele? REI – Dele quem? RAINHA – Pai Ubu. REI – Que loucura! O senhor Ubu é um fidalgo muito digno que obedece cegamente às minhas ordens. RAINHA e BUGRELAU – Quanto equívoco! REI – Cala essa boca, jovem porcalhão. Quanto à senhora, para vos mostrar quão pouco temo o senhor Ubu, irei à revista das tropas como estou aqui, sem armas e sem espada. RAINHA – Fatal imprudência, não tornarei a vê-lo vivo. REI – Ladislau, Boleslau, vinde comigo. (Saem. A Rainha e Bugrelau vão até a janela) RAINHA E BUGRELAU – Que Deus os guarde e o grande São Nicolau. RAINHA – Bugrelau, vem comigo à capela. Vamos rezar por teu pai e teus irmãos.
  • 11. 10 CENA 2 RAINHA – Vejo que meus temores eram Pátio de revistas. infundados. Exército polonês, Rei, Boleslau, Ladislau, Pai Ubu, Capitão Bordadura e seus homens, BUGRELAU – Claro. A senhora não tinha Girão, Pila, Cotica7 motivo algum para preocupar-se. REI – Nobre Pai Ubu, acompanhai-me com (Vem de fora uma zoada assustadora) vossa comitiva para inspecionarmos as tropas. BUGRELAU – Veja! Pai Ubu e seus homens PAI UBU - (aos seus) Atenção, vocês aí. (ao perseguem meus dois irmãos. Rei) Vamos, majestade, vamos. (Os homens de Ubu cercam o Rei) RAINHA – Deus do Céu! Virgem Santa, vão alcançá-los! REI – Este é o regimento de guardas montados de Dantzick. Uma tropa exemplar, BUGRELAU – O exército inteiro acompanha na minha opinião. Pai Ubu. O rei não está mais lá. Que desgraça! Socorro! PAI UBU – O senhor acha? Pois me parecem mendigos. Olhe aquele ali. (ao soldado) Seu RAINHA – Mataram Boleslau! Uma bala o tratante, há quanto tempo não fazes a barba? atingiu. REI – Mas esse soldado está impecável. Que BUGRELAU – Ladislau! (Ele se volta) há com o senhor, Pai Ubu? Coragem, defende-te! PAI UBU – Isto! (Pisa-lhe o pé) RAINHA – Oh! Ele está cercado. REI – Miserável! BUGRELAU – Veja! Bordadura acaba de cortá-lo em dois feito uma salsicha. PAI UBU – MERDRA! Soldados, comigo! RAINHA – Pobre de mim! Os rebeldes BORDADURA – Hurrah! Avançar! (Todos invadem o palácio, sobem as escadas. atacam o rei, um Palhadino8 se exalta) (O tumulto aumenta) REI – Ai, Socorro! Santa Virgem, estou morrendo. RAINHA e BUGRELAU – Deus do céu, defendei-nos! BOLESLAU – (a Ladislau) Que se passa? Lutemos. BUGRELAU – Arre, Pai Ubu! Se eu pegasse esse miserável... PAI UBU – É minha, a coroa! Agora, os outros! CENA 4 Os mesmos. A porta é arrombada. Pai Ubu BORDADURA – Abaixo os traidores! (Os entra seguido dos sublevados. filhos fogem, todos os perseguem) PAI UBU – Bugrelau, que pretendes fazer CENA 3 agora? A Rainha e Bugrelau. BUGRELAU – Juro que defenderei minha mãe até à morte! O primeiro que der um passo à frente morrerá! 7 Giron, Pile, Cotice são termos de Heráldica. PAI UBU – Bordadura, Bordadura, estou com 8 Palotin. Montagem jarriniana da palavra palatin medo! Quero ir embora. (paladino) com palot (boçal).
  • 12. 11 UM SOLDADO (Avança) – Entrega-te, RAINHA – Como queres que eu resista a Bugrelau! tantos golpes? O rei assassinado, nossa família BUGRELAU – Toma, atrevido! É o que destruída, e tu, representante da mais nobre mereces! (Parte-lhe o crânio) raça que já empunhou uma espada, forçado a se esconder nas montanhas como um bandido. RAINHA – Boa, Bugrelau, isso mesmo! BUGRELAU – É por culpa de quem, meu VÁRIOS AVANÇAM – Bugrelau, Deus? De quem? Desse abjeto Pai Ubu, prometemos poupar-te a vida. aventureiro saído não se sabe de onde, crápula dos mais vis, mísero vagabundo! E quando BUGRELAU – Bandidos, beberrões, penso que meu pai o condecorou e fez dele mercenários sórdidos! conde e que, no dia seguinte, esse bandido não teve pejo de erguer o braço contra ele. (Gira a espada em torno, provocando um massacre) RAINHA – Oh, Bugrelau! Quando me lembro o quanto éramos felizes antes da chegada de PAI UBU – Nossa! Vou me arrancar daqui de Pai Ubu! Mas agora, ai de mim, tudo mudou! qualquer jeito. BUGRELAU – Calma. Tenhamos esperança e BUGRELAU – Foge, mãe, sai pela escada não renunciemos jamais aos nossos direitos. secreta. RAINHA – É o que deves fazer, meu caro RAINHA – E tu, meu filho, e tu? filho, mas para mim está tudo terminado, não verei um novo dia de felicidade. BUGRELAU – Irei já. BUGRELAU – Mãe, que tens? Ela PAI UBU – Peguem a rainha, ela está fugindo. empalidece, desmaia, socorro! Mas estou num Quanto a ti, miserável! (Avança para deserto! Oh, meu Deus, o coração dela parou Bugrelau) de bater. Está morta. Será possível? Mais uma vítima de Pai Ubu. (Esconde o rosto nas mãos BUGRELAU – Deus é grande! Agora me e chora) Oh, Deus, como é terrível se ver vingo! (Descose-lhe a barriga com terrível sozinho aos quatorze anos e tendo sobre os golpe de espada) Estou indo, mãe! ombros o encargo de uma terrível vingança! (Desaparece pela escada secreta) (Cai em profunda prostração. Enquanto isso, CENA 5 as almas de Venceslau, Boleslau, Ladislau e Uma caverna nas montanhas. Rosamunda, seguidas de seus ancestrais, Bugrelau entra seguido da rainha. entram na caverna. O mais velho se aproxima de Bugrelau e o chama docemente) BUGRELAU – Aqui estaremos seguros. BUGRELAU – Que vejo? Minha família RAINHA – Creio que sim. Bugrelau, ajuda- inteira, meus ancestrais... É um milagre! me. (Ela cai na neve) SOMBRA – Bugrelau, quando vivo fui o BUGRELAU – Mãe, estás te sentindo mal? Senhor Mathias de Konigsberg, o primeiro rei e o fundador de nossa Casa. Confio-te a RAINHA – Estou muito doente. Não terei missão de nos vingar. (Entrega-lhe uma mais que duas horas de vida. enorme espada) E que esta espada que te entrego não tenha repouso enquanto viver o BUGRELAU – Que estás sentindo, mãe? Terá usurpador. sido o frio? (Todos desaparecem e Bugrelau fica só em atitude de transe)
  • 13. 12 CENA 6 Palácio do Rei. PAI UBU (Jogando ouro) – Tomem, é pra Pai Ubu, Mãe Ubu e Capitão Bordadura todos. Não acho nenhuma graça em dar meu ouro a vocês mas, sabem como é, Mãe Ubu PAI UBU – Não, nem um tostão! Queres me quis dar. Prometam, pelo menos, que pagarão arruinar por causa desses idiotas? os impostos. BORDADURA – Entenda, Pai Ubu, o povo TODOS – Pagaremos! Pagaremos! espera algo de bom, um gesto generoso. BORDADURA – Mãe Ubu, veja como eles MÃE UBU - Ou mandas dar carne e ouro ao disputam o ouro. É uma verdadeira batalha. povo, agora, ou estarás deposto em menos de duas horas. MÃE UBU - Coisa horrível. Veja aquele lá com o crânio partido. PAI UBU – Carne, sim! Ouro não! Abatam três cavalos velhos, e esses berdas-merdras PAI UBU – Que espetáculo maravilhoso! que se dêem por muito satisfeitos. Tragam mais caixas de ouro, tragam. MÃE UBU - O principal berda-merdra aqui BORDADURA – E se promovêssemos uma és tu mesmo. Como pode existir, meu Deus, disputa? semelhante besta? PAI UBU – Boa idéia. Uma corrida. (Ao povo) PAI UBU – Escutem mais uma vez: quero Amigos, aqui está uma caixa cheia de ouro. ficar rico, entenderam? Não soltarei um Ela contém trezentos mil nobres-da-rosa em vintém. ouro, moeda polonesa de bom quilate. Os que desejarem participar da disputa coloquem-se MÃE UBU - Isso quando temos nas mãos no fim do pátio. Quando eu der o sinal com o todos os tesouros da Polônia. lenço, comecem a correr, e quem chegar primeiro ganhará a caixa de ouro. Quanto aos BORDADURA – É verdade. Sei de um demais, terão como consolação esta outra imenso tesouro que há na capela. Vamos caixa que será dividida entre todos. distribuí-lo ao povo. TODOS – Viva Pai Ubu! Rei bom está aí! No PAI UBU – Ah, miserável, se fizeres isso! tempo de Venceslau, a gente não ganhava tanto dinheiro. BORDADURA – Mas, Pai Ubu, se não dás nada ao povo, ele não pagará os impostos. PAI UBU (à Mãe Ubu, entusiasmado) – Ouve PAI UBU – Isso é verdade? o que eles dizem! (Todo o povo vai se colocar no fundo do pátio) MÃE UBU - Mas claro! PAI UBU – Um, dois, três. Todos a postos? PAI UBU – Neste caso, topo tudo. Tragam quatro milhões em moeda, cozinhem cento e TODOS – Sim, sim! cinqüenta bois e carneiros. Quanto mais comida melhor, sobrará pra mim também. PAI UBU – Já! (Saem) (Partem uns tentando derrubar os outros. CENA 7 Gritos e tumulto) Pátio do palácio cheio de gente do povo. Pai Ubu coroado, Mãe Ubu, Bordadura, criados BORDADURA – Estão chegando! Estão carregados de carne. chegando! POVO – Olha lá o rei! Viva o rei! Vivaaaa! PAI UBU – Ei! O primeiro homem está perdendo terreno.
  • 14. 13 MÃE UBU – Deve ficar bonito, mas nada é MÃE UBU – Não, ele reage agora. mais bonito do que a gente ser rei! BORDADURA – Ih, vai perder, vai perder! PAI UBU - Tinhas toda a razão, Mãe Ubu. Pronto, venceu o outro! MÃE UBU – Temos uma dívida de gratidão para com o Duque de Lituânia. (O que estava em segundo lugar vence a corrida) PAI UBU – Com quem? TODOS – Viva Miguel Federóvitch! Viva MÃE UBU – Ué, com o capitão Bordadura. Miguel Federóvitch! PAI UBU – Por favor, não me fales desse MIGUEL – Senhor, não sei como agradecer a idiota. Já não preciso dele pra nada, vai ficar Vossa Majestade... chupando o dedo, não lhe darei ducado algum. PAI UBU – Ora, meu amigo, não tem de que. MÃE UBU – Cometes um erro, Pai Ubu. Ele Leva tua caixa de ouro pra casa, Miguel. E se voltará contra ti. vocês, dividam esta outra, cada um tira uma moeda de cada vez, até acabar. PAI UBU – E eu vou chorar por isso! Esse pobre diabo me preocupa tanto quanto TODOS - Viva Miguel Federóvitch! Viva Pai Bugrelau. Ubu! MÃE UBU – E pensas que já liquidaste PAI UBU – E agora, meus amigos, vamos Bugrelau? comer! Abro-lhes as portas do palácio, façam o favor de ocupar seus lugares à minha mesa! PAI UBU – Claro que sim, espada-de- finanças! Que poderá fazer contra mim um POVO – Entra, pessoal, entra! Viva Pai Ubu! bostinha de quatorze anos? Viva o mais nobre dos soberanos! MÃE UBU – Ouve o que te digo. Trata de (Entram no palácio. Ouve-se o barulho da atrair Bugrelau para o teu lado. orgia que se prolonga até o dia seguinte. Cai o pano) PAI UBU – Dar mais dinheiro ainda? Essa não. Basta os vinte e dois milhões que me 3º ATO fizeste desperdiçar. MÃE UBU – Bem, faz o que te der na veneta, CENA 1 mas ele acabará te jantando, Pai Ubu. No Palácio. Pai Ubu, Mãe Ubu. PAI UBU – Ótimo! Estarás comigo na mesma PAI UBU – Pelos meus chifres, assim como panela. me vês, sou o rei deste país! Já me permiti uma indigestão e estou esperando chegar minha MÃE UBU – Escutas uma vez mais: estou grande capelina. convencida de que Bugrelau vai terminar ganhando a parada, pois tem de seu lado o MÃE UBU – De que mandaste fazê-la? Não é direito legítimo. por sermos reis, que vamos agora esbanjar dinheiro. PAI UBU – Ah, vigarice! E o direito ilegítimo não vale o legítimo? Tu me insultas, Mãe Ubu, PAI UBU – Minha cara senhora, mandei fazer vou te fazer em pedaços. (Mãe Ubu foge a capelina em couro de carneiro com presilha perseguida por Pai Ubu.) e bridas em couro de cão. CENA 2
  • 15. 14 Salão do palácio PAI UBU – Excelente! Excelente! Não Pai Ubu, Mãe Ubu, oficiais e soldados, percamos tempo. Alçapão com ele. Terceiro Girão cotica, nobres algemados, financistas, nobre, quem és? Tens uma cara desonesta. magistrados, tabeliões. NOBRE – Duque de Courlande, das cidades PAI UBU – Tragam o tambor-dos-nobres e o de Riga, Revel e Mitau. gancho-dos-nobres e o cutelo-dos-nobres e o PAI UBU – Muito bem! Muito bem! Possuis livro-dos-nobres!9 Em seguida, façam entrar os mais alguma coisa? nobres. NOBRE – Nada. MÃE UBU – Moderação, Pai Ubu, por favor. PAI UBU – Para o alçapão, então. Quarto PAI UBU – Tenho a honra de vos anunciar nobre, quem és? que, para enriquecer o reino, vou mandar liquidar todos os nobres e confiscar-lhes os NOBRE – Príncipe de Podolia. bens. PAI UBU – Quais são tuas rendas? NOBRES – Horror! Povo, soldados, sublevemo-nos! NOBRE – Estou arruinado. PAI UBU – Tragam o primeiro nobre e me PAI UBU – Por causa dessa frase passem aqui o gancho-dos-nobres. Os que desagradável irás para o alçapão, vá! Quinto forem condenados à morte serão jogados no nobre, quem és tu? alçapão, cairão no subsolo do Chucha-Porco e no Tribunal dos Vinténs, onde se lhes NOBRE – Margrave de Thorn, paladino de rebentarão os miolos. (Ao nobre) Quem és tu Polock. idiota? PAI UBU – É muito pouco. Não tens mais NOBRE – Conde de Vitepsk. nada? PAI UBU – A quanto montam tuas rendas? NOBRE – Isso me bastava. NOBRE – Três milhões de rixdales. PAI UBU – Claro, antes pouco do que nada. Alçapão! Estás querendo tirar uma casquinha, PAI UBU – Condenado! (Prende-o no gancho Mãe Ubu? e puxa-o para o alçapão) MÃE UBU – És cruel demais, Pai Ubu. MÃE UBU – Que ferocidade bestial! PAI UBU – Oba! Estou rico. Vou mandar ler a PAI UBU – Segundo nobre, quem és tu? (O lista de Meus bens. Tabelião, a lista de Meus nobre não responde). Não vais responder, bens. idiotra? TABELIÃO – Condado de Sendomir. NOBRE – Grão-Duque de Posen. PAI UBU – Comece pelos principados, seu estúpido! 9 Uma das “violências” do universo verbal de Jarry é TABELIÃO – Principado de Podolia, grão- essa sarcástica atribuição de especialidade a cada ducado de Posen, ducado de Courlande, instrumento. Assim, se o tambor que anuncia os nobres condado de Sendomir, condado de Vitepsky, é o tambor-dos-nobres, o gancho que Pai Ubu usará para arrastá-los até o alçapão é o gancho-dos-nobres e palatinado de Polock, margraviato de Thorn. o cutelo que os decapitará é o cutelo-dos-nobres. Adiante teremos a espada-de-cortar-merdra, a tesoura- PAI UBU – E que mais? de-cortar-orrelhas, a faca-de-cortar-cara etc.
  • 16. 15 TABELIÃO – Acabou FINANCISTAS – Não há o que mudar. PAI UBU – Como acabou?! Bem, então, avancem os nobres, e como não vou mesmo PAI UBU – Como não há, se eu quero mudar parar de enriquecer, mandarei executar todos tudo? De saída, reservarei para mim a metade os nobres, e assim ficarei com seus bens. dos impostos. Vamos joguem os nobres no alçapão. (Os FINANCISTAS - Ora, não se acanhe! nobres são empilhados no alçapão) PAI UBU – Senhores, estabeleceremos um PAI UBU – Depressa, que eu agora quero imposto de dez por cento sobre a propriedade, legislar. outro sobre o comércio, um terceiro sobre os casamentos e um quarto sobre os óbitos, de VÁRIOS – Vamos ver isso. quinze francos cada um. PAI UBU – Vou primeiro reforçar a Justiça, PRIMEIRO FINANCISTA – Mas isso não após o que cuidaremos das finanças. faz sentido, Pai Ubu. VÁRIOS JUÍZES – Somos contra qualquer SEGUNDO FINANCISTA – É um absurdo. modificação. TERCEIRO FINANCISTA – Não tem pé PAI UBU – Merdra. Primeiro ponto: os juizes nem cabeça. não receberão mais nenhum provento. PAI UBU – Vocês estão querendo me gozar. JUÍZES – E de que vamos viver? Somos Ao alçapão, todos os financistas! (Agarram os pobres. financistas). PAI UBU – Recebereis as multas que MÃE UBU – Afinal de contas que espécie de impuserdes e herdareis os bens dos rei és tu, Pai Ubu, que só sabes matar todo condenados à morte. mundo! UM JUIZ – Ignomínia! PAI UBU – À merdra! SEGUNDO JUIZ – Infâmia! MÃE UBU – Quanto mais justiça, mais dinheiro. TERCEIRO JUIZ - Escândalo! PAI UBU – Não te preocupes, meu anjo, que QUARTO JUIZ – Indignidade! eu mesmo irei recolher os impostos, de povoado em povoado. TODOS – Recusamo-nos a julgar em semelhantes condições. CENA 3 Casa de camponeses nas cercanias de PAI UBU – Joguem os juizes no alçapão. Varsóvia.Vários camponeses reunidos. (Eles se debatem inutilmente) UM CAMPONÊS - Ouçam o que aconteceu. MÃE UBU – Que diabos estás fazendo, Pai O rei está morto, os duques também e o jovem Ubu? Quem vai agora ministrar a justiça? Bugrelau fugiu com a mãe para as montanhas. Pai Ubu se apossou do trono. PAI UBU – Ora, quem! Eu. E verás como tudo caminhará bem. OUTRO CAMPONÊS – Tenho mais notícias. Venho de Cracovia, onde vi MÃE UBU – Sim, com isenção total! transportarem os corpos de trezentos nobres e quinhentos juizes que foram executados. PAI UBU – Vamos, cala-te, idiotra. Agora, senhores, trataremos das finanças.
  • 17. 16 Parece que vão dobrar os impostos e que Pai senhores porcalhinos das finanças, carrocem Ubu virá recolhê-los pessoalmente. para cá a carroça-das-finanças. TODOS – Deus do céu! Que vai ser de nós? (Trazem a carroça) Pai Ubu é um crápula e dizem que sua mulher é realmente abominável. STANISLAU – Sire, nossa inscrição no registro nos obriga a pagar apenas cento e UM CAMPONÊS – Escutem: parece que cinqüenta e dois rixdales, que já pagamos faz estão batendo. seis semanas em Saint Mathieu. UMA VOZ (De fora) – Cornupapança10! PAI UBU – É bem possível, mas mudei o Abram em nome de minha merdra, por São regime e avisei pelo jornal que todos os João, São Pedro e São Nicolau! Abram, pela impostos serão pagos duas vezes, e três vezes espada das finanças, côrnotutu, venho aqueles que assim determinarmos arrecadar os impostos! posteriormente. Com esse sistema de arrecadação, ficarei rico rapidamente, matarei (A porta é arrombada, Ubu entra seguido de em seguida todo mundo e irei embora. uma legião de coletores de impostos) CAMPONESES – Senhor Ubu, tenha piedade CENA 4 de nós. Somos gente pobre. PAI UBU – Qual é o mais velho de vocês? PAI UBU – E daí? Paguem. (Um camponês se apresenta) Como te chamas? CAMPONESES – Não temos com que pagar, Pai Ubu, já pagamos. CAMPONÊS – Stanislau Leczinski. PAI UBU – Paguem! Ou ponho vocês no PAI UBU – Pois bem, cornupapança, presta papo, depois de torturá-los, com degolação do atenção ao que vou dizer, senão estes senhores pescoço e da cabeça! Cornupapança, parece aqui te cortarão as orrelhas. Mas, afinal de que o rei aqui sou eu! contas, vais ou não vais me escutar? TODOS – Ah, é assim? Às armas, pessoal! STANISLAU – Mas Vossa Excelência ainda Viva Bugrelau, pela graça de Deus rei da não disse nada. Polônia e da Lituânia! PAI UBU – Como não disse nada! Falo há PAI UBU – Senhores das finanças, atacar, mais de uma hora. Ou pensas que vim aqui cumpri com o vosso dever! para pregar no deserto? (Lutam entre si, a casa é destruída e o velho Stanislau foge pelo campo. Ubu fica a STANISLAU – Longe de mim tal recolher o dinheiro) pensamento. CENA 5 PAI UBU – Pois muito que bem, estou aqui Uma casamata das fortificações de Thorn. para te dizer, te ordenar e te intimidar a Bordadura preso, Pai Ubu declarar e pagar imediatamente teu imposto de renda, sob pena de seres trucidado. Vamos, PAI UBU – Patriota, eis o que é um patriota: querias que eu te pagasse o que te prometera. Como não quis pagar, te revoltaste, conspiraste 10 Cornegidouille, palavra inventada por Jarry para e terminaste engaiolado. Bem feito, expressar as três partes do poder de Ubu: cabeça, cornufinança e deves reconhecer que o golpe coração e ventre, sendo que, nele, só o ventre não se que te dei foi de mestre. encontra em estado embrionário. Gidouille, denominação do ventre monstruoso de Ubu: “o poder dos apetites inferiores”. BORDADURA – Toma cuidado, Pai Ubu. És rei há cinco dias e já mataste mais gente do
  • 18. 17 que seria necessário para condenar ao inferno BORDADURA – Eu comandava o Quinto todos os santos do paraíso. O sangue do rei e Regimento dos Dragões de Wilna e uma dos nobres clama por vingança e esse clamor companhia de voluntários a serviço de Pai será ouvido. Ubu. PAI UBU – Meu bom rapaz, até que és um ALEXIS – Muito bem, nomeio-te subtenente cara bem falante. Não tenho dúvida que se do 10º Regimento de Cossacos, e ai de ti se me consegues escapar daqui me criarás muitas traíres. Se fores bravo, serás recompensado. dificuldades. Mas não sei de ninguém que tenha burlado a vigilância das casamatas de BORDADURA – Coragem não me falta, Thorn. Por isso, boa noite, e trata de dormir o Senhor. melhor que possas pois os ratos fazem aqui uma sarabanda infernal a noite toda. (Sai) ALEXIS – Está bem, some da minha vista. (Os guardas vêm trancar a porta) (Sai Bordadura) CENA 6 Palácio de Moscou CENA 7 O Imperador Alexis e sua corte; Bordadura Sala do Conselho de Ubu Pai Ubu, Mãe Ubu, Conselheiros de CZAR ALEXIS – Aventureiro infame, Finanças participaste do massacre de nosso primo Venceslau? PAI UBU – Senhores, esta aberta a sessão. Estejam atentos para o que vou dizer e BORDADURA – Perdoai-me, Senhor, Pai mantenham-se tranqüilos. Primeiro, trataremos Ubu me arrastou a isso contra a minha do capítulo das finanças e em seguida vontade. falaremos dum pequeno sistema que bolei para evitar as chuvas e preservar o bom tempo. ALEXIS – És um sórdido mentiroso! Mas, afinal de contas, que desejas? UM CONSELHEIRO – Muito bem, Senhor Ubu. BORDADURA – Pai Ubu mandou-me prender acusando-me de conspiração. MÃE UBU – Que idiota! Consegui fugir e, durante cinco dias e cinco noites, corri através das estepes para vir PAI UBU – Senhora merdra minha, tome implorar vossa graça misericordiosa. cuidado porque não tolerarei mais suas tolices. Dizia eu, senhores, que as finanças vão mais ALEXIS – Que trazes como garantia de tua ou menos. Um considerável número de cães lealdade? miseráveis se espalha toda manhã pelas ruas e os porcalhinhos fazem maravilhas. Por todos BORDADURA – Minha espada de os lados há casas incendiadas e gente aventureiro e um mapa da cidade de Thorn. dobrando-se ao peso de novos impostos. ALEXIS – Aceito a espada mas, por São CONSELHEIRO – E os novos impostos, Jorge, queima esse mapa. Não quero dever Senhor Ubu, estão dando resultado? minha vitória a uma traição. MÃE UBU – Vão de mal a pior. O imposto BORDADURA – Um filho de Venceslau, o sobre casamentos rendeu até agora apenas jovem Bugrelau, continua vivo, e eu tudo farei onze sous, e assim mesmo porque Pai Ubu para reconduzi-lo ao trono. persegue as pessoas por toda parte para obrigá- las a se casarem. ALEXIS – Qual era teu posto no exército polonês? PAI UBU – Espada das finanças, corna de minha pança, senhora financista, eu tenho orrelhas para falar e tu tens boca para escutar.
  • 19. 18 (Risos) Aliás, não é isso! Tu me atrapalhas e às minhas custas. Pelos meus chifres, façam a me fazer parecer idiotra. Mas, corno de Ubu! guerra mas porque vocês estão com raiva. (Entra um mensageiro) Bem, vamos, que quer Nada de gastar dinheiro. Viva a guerra! aquele ali? Vai-te embora, porcalhão, ou te bato, te degolo e te torço as pernas. CENA 8 Campo de batalha, exército de Varsóvia. MÃE UBU – Bem, já se foi, mas deixou uma carta. SOLDADOS E PALHADINOS – Viva a Polônia! Viva Pai Ubu! PAI UBU – Lê. Até parece que estou PAI UBU – Mãe Ubu, me dá aqui a couraça e perdendo o juízo ou que não sei ler. Vamos, meu bastão. Vou ficar tão pesado que não vai idiotra, lê, deve ser de Bordadura. dar pra correr se eles me perseguirem. MÃE UBU – É dele mesmo. Diz que o czar o MÃE UBU – Covardão! acolheu muito bem, que vai invadir teus domínios para restaurar o poder de Bugrelau e PAI UBU – Onde estão a espada-de-cortar que serás executado. merdra e o gancho-das-finanças que eu não acho?! Nunca vou me aprontar, e os russos PAI UBU – Não! Tenho medo! Tenho medo! avançam e vão me matar. Acho que vou morrer. Coitadinho de mim! Que vai me acontecer, meu Deus? Esse UM SOLDADO – Senhor Ubu, a tesoura-de- homem malvado vai me matar. Santo Antônio cortar-orrelhas vai cair. e todos os santos, protegei-me, prometo dar esmolas e acender velas a todos vós. Senhor, o PAI UBU – Te mato com o gancho-de-puxar- que me espera ainda? (Chora e soluça) merdra e a faca-de-cortar-cara. MÃE UBU – Só há um caminho a seguir, Pai MÃE UBU – Como ele está bonito de Ubu. capacete e couraça, parece uma abóbora blindada. PAI UBU – Qual é, meu amor? PAI UBU – Bem, agora vou montar no cavalo. MÃE UBU – A guerra! Senhores, tragam-me o cavalo-de-finanças. TODOS – Graças a Deus! Eis uma atitude MÃE UBU – Pai Ubu, esse cavalo não tem digna! forças para te agüentar, faz cinco dias que ele não come nada, está quase morto. PAI UBU – É, e quem vai levar novas estocadas sou eu. PAI UBU – Que ótima babá ela é! Então gasto doze sous por dia com esse animal e ele não PRIMEIRO CONSELHEIRO – Apressemo- tem forças para me carregar? Será que te nos, vamos organizar o exército. enganaram, corna d’Ubu, ou estás me roubando? (Mãe Ubu enrubesce e baixa os SEGUNDO CONSELHEIRO – E estocar olhos) Me tragam, então, outro cavalo. A pé é víveres. que não vou, cornupapança! TERCEIRO CONSELHEIRO – E preparar a (Trazem-lhe um enorme cavalo) artilharia e as fortalezas. PAI UBU – Vou montar nele. Oh! Aliás, acho QUARTO CONSELHEIRO – E arranjar que vou cair. (O cavalo anda) Pára, pára esse dinheiro para as tropas. bicho, meu Deus, vou cair, vou morrer!!! PAI UBU – Ah, isso é que não! Eu te mato! MÃE UBU – É um imbecil, sem dúvida Não vou dar dinheiro algum. Tomem de outro! alguma. Ah, conseguiu montar. Mas já caiu no A guerra já está paga e ninguém vai guerrear chão.
  • 20. 19 Depois venho buscar o resto do ouro, volto PAI UBU – Cornofísico, estou meio morto! amanhã. Mas não faz diferença, vou pra guerra e matarei todo mundo. Ai de quem não marchar UMA VOZ (Saindo do túmulo de João direito! Será rebentado de pancada com torção Sigismundo) – Jamais, Mãe Ubu! do nariz e dos dentes e extração da língua. (Mãe Ubu foge apavorada, pela porta secreta, MÃE UBU – Boa sorte, Senhor Ubu. levando o ouro roubado) PAI UBU – Esqueci de te dizer que te confio o governo. Mas levo comigo o livro de Finanças. Se me roubares pagarás caro. O Palhadino Girão fica aqui para te ajudar. Adeus, Mãe Ubu. MÃE UBU – Adeus, Pai Ubu. Não deixa de matar o Czar. PAI UBU – Não te preocupes. Torção do nariz e dos dentes, extração da língua, e introdução do bastão orrelhas a dentro. (O exército se afasta ao som das fanfarras) MÃE UBU (sozinha) - Agora que esse bonecão de engonço foi embora, tratemos de nossos interesses: matar Bugrelau e nos apossar do tesouro. 4º ATO CENA 1 Cripta dos antigos reis da Polônia na catedral de Varsóvia. MÃE UBU – Mas onde está o tesouro? Pelo som, nenhuma dessas lousas parece oca. No entanto, contei treze pedras a partir do túmulo de Ladislau, o Grande, ao longo da parede, e nada. Devo ter me enganado. Não, aqui parece oco. Mãos à obra, Mãe Ubu. Coragem, vamos arrancar esta pedra. Está muito presa. A ponta do gancho-das-finanças cumprirá sua finalidade. Achei! Aqui está o ouro misturado aos ossos dos reis. Vamos, tudo dentro do saco!... Que barulho é esse? Quem poderia estar aqui, sob essas velhas cúpulas? Não, não é ninguém, apressemo-nos. Levemos tudo. Esta riqueza toda é mais útil à luz do dia do que enterrada no túmulo de velhos príncipes. Recoloquemos a pedra. Ei, o barulho de novo. Esses lugares sempre me causaram pavor.
  • 21. 20 CENA 2 GIRÃO – Vou morrer! Praça de Varsóvia. Bugrelau e seus guerrilheiros. BUGRELAU – Vencemos, companheiros! Povo e Soldados. Abaixo Mãe Ubu! Avante! (Ouvem-se clarins) Estão chegando os nobres. Vamos, pessoal, BUGRELAU – Para frente, amigos! Viva agarremos essa maldita harpia! Venceslau e a Polônia! O patife do Rei Ubu partiu. Só ficou a bruxa da Mãe Ubu com o TODOS – A vez daquele velho bandido seu Palhadino. Estou disposto a marchar à também chegará! frente de vocês e a restaurar no trono a estirpe de meus pais. (Mãe Ubu escapa perseguida por todos os poloneses. Tiros de fuzil e chuva de pedras) TODOS – Viva Bugrelau! CENA 3 BUGRELAU – Derrubaremos todos os O exército polonês em marcha na Ucrânia impostos decretados pelo abominável Pai Ubu. PAI UBU – Cornão-bleu, vôte, cabeça de TODOS – Bravos! Avante! Ataquemos o vaca! A sede e o cansaço vão nos matar. palácio e acabemos com esse canalha! Senhor soldado, tenha a gentileza de segurar nosso capacete-de-finanças e, tu aí, senhor BUGRELAU – Pessoal, Mãe Ubu está saindo lanceiro, cuida da tesoura-de-cortar-orrelhas e com seus guardas pela escadaria. do bastão-de-física, pra me dar um pouco de folga. Repito que estamos muito cansados. MÃE UBU – Que querem comigo? Oh, é Bugrelau. (Os soldados obedecem) (A multidão joga pedras) PILA – Ei, Senhore! É supriendente que os russos não apaireçam. PRIMEIRO GUARDA – Todos os carros estão quebrados PAI UBU – Lamentável é que a situação financeira não nos permita possuir uma viatura SEGUNDO GUARDA – Vão acabar comigo, digna de nós; com medo de demolir nossa meu São Jorge. montaria, fizemos todo o caminho a pé, puxando o cavalo pela brida. Mas quando TERCEIRO GUARDA – Cornão-bleu vou voltarmos à Polônia, inventaremos, graças aos morrer11. nossos conhecimentos de física e às luzes de nossos conselheiros, uma viatura movida a BUGRELAU – Pedra neles, pessoal. vento para transportar todo o Exército. GIRÃO – Ah, é assim!? (Desembainha a COTICA – Nicolau Rensky acaba de chegar e espada e avança provocando verdadeira parece aflito. carnificina) PAI UBU – Que é que tem esse rapaz? BUGRELAU – Deixem por minha conta. (A Girão) Defende-te, covarde! RENSKY – Está tudo perdido, Senhor, os poloneses se revoltaram. Mataram Girão, e (Lutam os dois) Mãe Ubu fugiu para as montanhas. PAI UBU – Ave agoureira, coruja de polainas, 11 Corneblue, palavra inventada por Jarry partindo da donde tiras tantas asneiras? E mais essa agora! expressão ventrebleu (ventredieu, ventre de deus). Corne, corne physique, alusão ao “bastão de Física” do Quem fez tudo isso? Aposto que foi Bugrelau. professor Hébert; alude ainda a Cordon Bleu e a corno, Donde estás vindo? traído.
  • 22. 21 RENSKY – De Varsóvia, senhor. SOLDADO E PALHADINOS – Viva Pai PAI UBU – Rapazola de merdra, se acredito Ubu, nosso grande Financista! Ting, ting, ting; no que dizes terei de ordenar o retorno de todo ting, ting, ting; ting, ting, ting, tating! o Exército. Mas, senhor rapazola, como vejo PAI UBU – Ah, gente boa, adoro vocês todos. que tens acima dos ombros mais plumas que (Um petardo russo atinge e quebra a pá do miolos, creio que imaginaste bobagens. Vai moinho) Estou com medo, senhor Deus, estou para a linha de frente, os russos estão perto e morrendo! Ah, não estou, não é nada. teremos de usar contra eles todas as nossas armas, tanto as de merdra, como as de finanças CENA 4 e as de física. Os mesmos, um capitão. Depois o exército russo. GENERAL LASCY – Pai Ubu, não estais vendo os russos na planície? CAPITÃO (chegando) – Senhor Ubu, os russos atacam. PAI UBU – É verdade, os russos! Estou metido em boa. Se ao menos houvesse um PAI UBU – E daí, que é que você quer que eu jeito de me arrancar, mas não dá pé: estamos faça? Não fui eu quem os mandou atacar. Mas, numa colina e ficaríamos expostos ao fogo senhores das Finanças, preparemo-nos para o inimigo. combate. EXÉRCITO – Os russos! O inimigo! GENERAL LASCY – Outro projétil. PAI UBU – Vamos, senhores, preparemo-nos PAI UBU – Não fico mais aqui. Chove para a batalha. Ficaremos nesta colina e não chumbo e ferro em cima da gente e podemos cometeremos a besteira de descer daqui. Vou até prejudicar nossa preciosa pessoa. ficar no centro como uma cidadela viva e Desçamos. (Descem todos correndo. A batalha vocês à minha volta. Recomendo-lhes carregar começou. Eles desaparecem em meio à fumaça os fuzis com o máximo de balas, pois oito ao pé da colina) balas podem matar oito russos e serão menos oito a me atacar. Mandaremos a infantaria lá UM RUSSO (atacando) – Por Deus e pelo para baixo a fim de que recebam os russos e Czar! matem alguns deles; a cavalaria irá logo atrás para entrar na confusão e a artilharia ficará em RENSKY – Ai, eu morro! torno do moinho aqui presente para atirar em cima do bolo. Quanto a nós, ficaremos dentro PAI UBU – Avante, camaradas! Ah, tu me do moinho e atiraremos com a pistola-de- machucaste; vou acabar contigo, seu bêbado, finanças pela janela, colocaremos de través na contigo e com essa tua espingarda que não porta o bastão-de-física, e se alguém tenta atira. entrar, gancho-de-merdra nele!!! UM RUSSO – Experimenta isso! (Dá-lhe um OFICIAIS – Senhor Ubu, Vossas ordens tiro de revólver) serão executadas. PAI UBU – Ai, ui! Estou baleado, estou PAI UBU – Ótimo. Tudo corre bem, furado, perfurado, encomendado, enterrado. venceremos. Que hora são? Oh, mas ainda assim! Vou pegá-lo. Toma! Me provoca de novo! GENERAL LASCY – Onze horas da manhã. GENERAL LASCY – Avancemos, todo PAI UBU – Vamos então, almoçar porque os vigor, pessoal, atravessemos o fosso. A vitória russos não atacarão antes do meio-dia. é nossa! General, diga aos soldados que façam suas necessidades e entoem a Canção das Finanças.
  • 23. 22 PAI UBU – Acha mesmo, general? Até o momento, sinto na fronte mais “galos” que GENERAL LASCY – Toma o do Czar, Pai lauréis. Ubu. CAVALEIROS RUSSOS – Afastem-se! PAI UBU – É pra já. Vamos! Sabre-de-cortar- Abram passagem para o Czar! merdra, cumpre tua função, e tu, gancho-de- (Chega o Czar acompanhado de Bordadura, finanças, não fiques atrás. Que o bastão-de- disfarçado) física trabalhe com generosa emulação e divida com o bastãozinho a honra de UM POLONÊS – Nossa mãe! Chegou o Czar, massacrar, varar e rebentar o Imperador salve-se quem puder! moscovita. Avante, senhor nosso cavalo-de- finanças! (Atira-se sobre o Czar) OUTRO POLONÊS – Deus do céu! Ele transpôs o fosso. UM OFICIAL RUSSO – Cuidado, Majestade! TERCEIRO POLONÊS – Pif! Paf! O velhaco do tenente já desancou quatro. PAI UBU – Toma! Oh! Ah! Deu em nada. Ui, perdão, senhor, deixe-me em paz. Ai, mas não BORDADURA – Ah, ainda não acabaram fiz por querer! com vocês?! Pois toma o que mereces, Jean (Pai Ubu escapa, o Czar o persegue) Sobiesky. (Bordadura o abate) Agora, os outros! (Mata uma porção de poloneses) PAI UBU – Santa Virgem; esse danado me persegue! Que fiz eu, meu Deus! Felizmente, PAI UBU – Avante, camaradas. Peguem esse ele ainda tem de transpor de volta o fosso. Ih, biltre! Compota de moscovitas! A vitória é sinto-o atrás de mim e à minha frente o buraco. nossa. Viva a águia vermelha. Coragem, fechemos os olhos! TODOS – Avançar! Hurra! Cáspite! CZAR – Nossa! Caí no fosso! Peguemos o safadão! POLONÊS – Oba! O Czar caiu lá embaixo! BORDADURA – Meu São Jorge, caí no chão. PAI UBU – Nem ouso olhar pra trás! Ele está PAI UBU (Reconhecendo-o) – Ah, és tu, lá dentro. Ótimo, pau nele! Vamos polonês, Bordadura! Estamos todos felizes de te rever, com toda força, ele tem costas largas, o meu caro amigo. Vou te cozinhar em fogo miserável! Nem quero ver. E enquanto isso lento. Senhores das Finanças, acendam o fogo! nossa predição se realizou plenamente: o Oh! Ai! Ui! Estou morto. Devo ter recebido bastão-de-física fez maravilhas e não resta pelo menos um tiro de canhão. Oh, meu Deus, dúvida alguma de que eu estaria morto a esta perdoai meus pecados. É, foi mesmo um tiro hora se um inexplicável terror não tivesse de canhão. combatido e anulado em nós os efeitos de nossa bravura. Mas tivemos que, subitamente, BORDADURA – Foi um tiro de pistola com virar casaca, e devemos nossa salvação à nossa pólvora seca. habilidez de cavaleiro assim como à solidez das pernas de nosso cavalo-de-finanças, cuja PAI UBU – Ah, e ainda me gozando! Estás no rapidez só se iguala àquela solidez e à sua já papo (Joga-se sobre ele e o dilacera) famosa ligerez assim como à profundez do fosso que se abriu muito cortês sob os passos GENRAL LASCY – Pai Ubu, estamos do inimigo soez do aqui presente Mestre das avançando em toda a linha. Finanças, como o vês. É, tudo isso é muito bonito mas ninguém me escuta. Vamos, a PAI UBU – Estou vendo, não agüento mais, guerra continua! crivaram-me de pontapés. Gostaria de me (Os dragões russos dão uma carga e salvam o sentar um pouco, mesmo no chão. E meu Czar) cantil?
  • 24. 23 GENERAL LASCY – Desta vez é a PAI UBU – Assim como a papoula e o debandada. taraxaco, que à flor da idade são ceifados pelo ferro e pelo erro de arrado, nosso pequeno PAI UBU – Chegou a hora de baixar o cacete. Rensky foi ceifado pela guerra e assim foi-se, Portanto, senhores poloneses. avançar, ou emborra tenha lutado bravamente. Mas havia melhor, botar o galho dentro. russos demais! POLONESES – Salve-se quem puder! PILA E COTICA – Uh! Senhoire! PAI UBU – Vamos, em marcha! Que UM ECO – Rhomrrr! cambada, que fuga, que multidão, como vou sair deste lodaçal? (É empurrado) Ah, mas és PILA – Que será isso? Nossos binóculos! tu! Presta atenção se não queres experimentar o ardente valor do Mestre das Finanças. Bem, PAI UBU – Essa não! Aposto que são os foi-se embora, vamos nos arrancar daqui russos outra vez! Já é demais! E depois a coisa enquanto Lascy não está vendo. (Sai. Em é simples, se eles me pegam, estarão no papo. seguida, vê-se passar o Czar com o exército russo perseguindo os poloneses) CENA 6 Os mesmos. Entra um urso. CENA 5 Uma caverna da Lituânia. Neva. COTICA – Ai, senhoire das Finanças! Pai Ubu, Pila, Cotica. PAI UBU - Ora, veja, o totozinho. Que PAI UBU – Que tempo maldito, faz um frio gracinha! de rachar e a pessoa do Mestre das Finanças está bastante estropiada. PILA – Cuidado! Nossa, que urso enorme! Cadê minha cartucheira? PILA – Como é, Senhoire Ubu, já se recuperou do medo e da fuga? PAI UBU – Um urso! Ui! Que fera! Pobre de mim, vou ser comido. Deus que me proteja. PAI UBU – Claro! Do medo já, mas a fuga Ele vem me pegar. Não, vai pegar Cotica. continua. Ainda bem! COTICA (à parte) – Porco! (O Urso agarra Cotica. Pila ataca-o a golpes de punhal. Ubu se refugia em cima de uma PAI UBU – Ei, senhor Cotica, como vai sua pedra) orrelha? COTICA – Me ajuda, Pila! Me ajuda! COTICA – Vai tão bem como pode, indo mal Socorro, Senhoire Ubu! como vai. Em conseqüência de que o chumbo faz ela pender para o chão e não posso extrair PAI UBU – Aqui oh! Te safa, meu caro, agora a bala. estou rezando o Padre Nosso. Cada um tem sua vez de ser comido. PAI UBU – Bem feito. Não estavas a fim de bater nos outros? Dei prova total de bravura, e PILA – Peguei, está seguro! sem me expor matei quatro inimigos com minha própria mão, sem contar todos aqueles COTICA – Agüenta, Pila, ele começa a me que já estavam mortos e que acabamos de soltar. matar. PAI UBU – Santificatur nomen tuum COTICA – Pila, sabes que fim levou o COTICA – Velhaco covarde! pequeno Rensky? PILA – Ai, ele está me mordendo! Meu Deus, PILA – Recebeu uma bala na cabeça. salvai-me, vou morrer.
  • 25. 24 pessoalmente a capacidade interior dessa PAI UBU – Fiat voluntas tua! pança. COTICA – Consegui feri-lo. PILA – Morro de fome. Que vamos comer? PILA – Bravos! Ele está sangrando. COTICA – O urso! PAI UBU – Mas, seus bobocas, como é que (Em meio aos gritos dos Palhadinos, o urso vão comê-lo cru? Não temos com que acender berra de dor e Ubu continua a resmungar) uma fogueira. COTICA – Agarra firme, enquanto pego meu PILA – E as espoletas? soco explosivo. PAI UBU – Isso mesmo! Parece que há aqui PAI UBU – Panem nostrum quotidianum da por perto um pequeno bosque onde podemos nobis hodie. achar alguns galhos secos. Vá buscá-los, senhor Cotica. PILA – Conseguiste? Não posso segurá-lo mais. (Cotica se afasta pela neve) PAI UBU – Sicut et nos dimittimus PILA – E, enquanto isso, senhor Ubu, vá debitoribus nostris. esfolando o bicho. COTICA – Consegui! (Uma explosão e o urso PAI UBU – Eu não! Pode ser que ele ainda cai morto) não esteja morto. É melhor te encarregares disso, um vez que já estás meio comido e PILA E COTICA – Vitória! mordido por ele. Eu fico acendendo a fogueira enquanto Cotica vai buscar a lenha. PAI UBU – Sed libera nos a malo. Amen. Enfim, morreu mesmo? Já posso descer daqui? (Pila começa a esfolar o urso) PILA (com desprezo) – Quando quiser. PAI UBU – Ôi cuidado! Ele se mexeu. PAI UBU (descendo) – Podem se orgulhar de PILA – Mas, senhor Ubu, ele já está gelado. que, se ainda estão vivos e ainda pisam a neve da Lituânia, devem isso à virtude magnânima PAI UBU – Isso é ruim, seria melhor comê-lo do Mestre das Finanças, que se esforçou, quente. O Mestre das Finanças vai ter uma largou a pele, se matou a recitar padres-nossos indigestão. por vossa salvação, e com tanta coragem empunhou a espada espiritual da prece quanto PILA (à parte) - É revoltante. (Alto) Me vocês manejaram o temporal soco explosivo ajude um pouco, senhor Ubu, não posso fazer do aqui presente Palhadino Cotica. Tão longe tudo sozinho. levamos nosso devotamento, que não hesitamos em subir num pedra bem alta para PAI UBU – Não, não quero fazer nada! Estou que mais depressa nossas preces chegassem ao muito cansado! céu. COTICA (voltando) – Que frio, amigos, PILA – Asno asqueroso! parece até Castilha ou o Pólo Norte. Começa a anoitecer. Numa hora estará escuro. Vamos PAI UBU – Aqui está um enorme animal. nos apressar enquanto ainda há claridade. Graças a mim vocês terão o que comer. Que barriga tem o bicho, gente! Os gregos aí teriam PAI UBU – Correto. Ouviste, Pila, apressa-te. ficado bem mais à vontade do que no ventre do Andem vocês dois! Metam o bicho no espeto e cavalo de Tróia, e por pouco, caros amigos, tratem de assá-lo, que eu estou com fome! íamos ter a oportunidade de verificar
  • 26. 25 PILA – Ah, isso já é demais! Vem trabalhar, faz muito tempo, foi Bugrelau quem me matou guloso, do contrário não vais comer coisa e fui enterrado em Varsóvia perto de alguma! Vladislau, o Grande, também em Cracovia perto de João Sigismundo, e também em PAI UBU – Pra mim dá na mesma. Como cru. Thorn na casamata com Bordadura! Ei-lo de Pior pra vocês. Além do mais estou com muito novo. Vai-te embora, urso maldito! Tu te sono! pareces com Bordadura. Escutou, demônio? Não, ele não escuta. Os porcalhinos12 COTICA – Que achas Pila? Comemos tudo cortaram-lhe as orrelhas. sozinhos. Não damos nada a ele, tá? Ou lhe Rebentais o cérebro, matrai13,cortai as damos os ossos. orrelhas, arrancai a finança e bebei até morrer, é a vida dos porcalhinos, é a alegria do Mestre PILA – Certo. O fogo está acendendo. de Finanças. (Cala-se e dorme) PAI UBU – Que bom, já começa a esquentar. Mas vejo russos por toda parte. Como 5º ATO corremos, meu Deus! Ah... (Adormece). CENA 1 COTICA – Gostaria de saber se é verdade o Noite. Pai Ubu dorme. Entra Mãe Ubu. que disse Rensky, se Mãe Ubu foi deposta A escuridão é total. realmente. Não me parece difícil. MÃE UBU – Até que enfim um refúgio. Aqui PILA – Vamos terminar de fazer a comida. estarei sozinha, o que não é mau, mas que corrida desenfreada: atravessar toda a Polônia COTICA – Não, temos de falar coisas em quatro dias! Todas as desgraças caíram importantes. Seria bom que nos inteirássemos sobre mim de uma só vez. Assim que aquela da veracidade dessas notícias. besta partiu, fui à cripta apanhar o tesouro. Logo depois, Bugrelau e seu grupo enfurecido PILA – Tens razão. Devemos abandonar Pai quase me matam a pedradas. Perco meu Ubu ou ficar com ele aqui? cavaleiro, o Palhadino Girão, que era tão fascinado por meus encantos que desmaiava só COTICA – A noite é boa conselheira. de me ver e, segundo alguns, mesmo sem me Durmamos. Amanhã a gente vê o que se deve ver, o que é o cúmulo da ternura. Por minha fazer. causa, seria capaz de se deixar cortar ao meio, o pobre rapaz. A prova disso é que foi cortado PILA – Acho melhor aproveitar a noite pra em quatro por Bugrelau. Pif paf pan! Puxa, nos mandarmos. pensei que ia morrer! Em seguida, fugi perseguida pela multidão enfurecida. Deixo o COTICA – Vamos, então. (Partem) palácio, chego ao Vístula, todas as pontes vigiadas. Atravesso o rio a nado, na esperança CENA 7 de fazer meus perseguidores desistirem. Dissimulada entre poloneses dispostos a PAI UBU (fala dormindo) – Ah, Senhor acabar comigo, estive mil vezes a um passo da Dragão russo, presta atenção, não venha pra morte. Mas terminei escapando-lhes à fúria, e cá, tem gente. Ah! Lá está Bordadura, ele é depois de quatro dias de caminhadas pela neve malvado, parece um urso. Bugrelau avança do que fora meu reino, consigo me esconder contra mim! O urso, o urso! Ai! Olha ele lá! aqui. Não bebi nem comi nada durante todos Ele é duro de roer, meu Deus! Não quero fazer esses dias. Bugrelau, no meu rastro, o tempo nada, nada! Vai embora, Bugrelau! Estás ouvindo, palhaço? Agora é Rensky e o Czar! 12 Salopin (salop, sujo), alusão a palotin, que traduzimos Oh! Eles vão me bater. E Donabu? Onde por palhadino. achaste tanto ouro? Ficaste com meu ouro, 13 Tuder: palavra inventada possivelmente com a miserável, foste remexer no meu túmulo na montagem da expressão tudieu – exclamação de catedral de Varsóvia, perto da Lua. Já morri comédia antiga – e tuer, matar
  • 27. 26 todo... Enfim, estou salva. Ai, estou quase morta de frio e de cansaço. Mas gostaria de PAI UBU – Ai, minha pança! Não digo mais saber que fim levou meu gordo polichinelo, uma palavra. Continue, senhora aparição! isto é, meu respeitável esposo. Tomei muito dinheiro dele. Roubei-lhe rixdales. Enganei-o MÃE UBU – Dizíamos, senhor Ubu, que éreis com mentiras. E seu cavalo de finanças morreu um pateta tamanho família! de fome: não via comida com muita freqüência. A história de sempre! Mas coitada PAI UBU – Muito família, não resta dúvida. de mim que perdi meu tesouro. Ficou em Varsóvia, e quem se arriscaria a ir buscá-lo? MÃE UBU – Calai-vos, por Deus! PAI UBU (começando a acordar) – Agarrem PAI UBU – Uai, nunca vi anjo se exaltar. a Mãe Ubu, cortem-lhe as orrelhas! MÃE UBU – Merdra! (continuando) Sois MÃE UBU – Deus do céu! Onde estou? casado, senhor Ubu? Enlouqueço. Ah, não Senhor! Graças a Deus entrevejo Senhor Pai Ubu que dorme perto de PAI UBU – Exato, com a última das megeras. mim. MÃE UBU – Quereis dizer com uma mulher PAI UBU – Muito mal! Esse danado desse encantadora. urso não é mole! Combate dos vorácios com os curiácios, mas os vorácios comeram e PAI UBU – Um monstro. Tem esporões por devoraram os curiácios, como verás ao todo o corpo, não há por onde pegá-la. amanhecer. Entendestes, nobres palhadinos? MÃE UBU – Pela doçura, senhor Ubu. Se MÃE UBU – Quem é que ele está gozando fordes carinhoso, vereis que, na pior das assim? Ficou mais idiota do que era antes de hipóteses, ela é igual à Vênus de Cápua. partir. Que será que ele tem? PAI UBU – Caspa? Quem tem caspa? PAI UBU – Cotica, Pila, respondam, sacos de merdra! Onde estão vocês? Ai, tenho medo. MÃE UBU – Não me escutastes bem, senhor Mas ouvi alguém falar aí. Que foi? O urso não Ubu. Prestai melhor atenção. (à parte) Tenho pode ser. Merdra! Meus fósforos, onde estão? de me apressar pois já amanhece. (Alto) Ah, perdi-os na guerra. Senhor Ubu, vossa mulher é adorável e deliciosa, ela não tem um só defeito. MÃE UBU (à parte) – Aproveitemos a situação e a noite, simulemos uma aparição PAI UBU – Estais enganada, não há um só sobrenatural e façamos com que ele nos defeito que ela não tenha. perdoe os furtos. MÃE UBU – Silêncio! Vossa mulher é fiel! PAI UBU – Meu Santo Antônio, quem fala aí? Cruz credo! Vão me enforcar! PAI UBU – Seria difícil aquela gralha me trair. Não ia achar com quem. MÃE UBU (engrossando a voz) - Sim, senhor Ubu, alguém realmente está falando aqui, e a MÃE UBU – Ela não bebe. trombeta do arcanjo que ergue os mortos da cinza e do pó final não falaria de outra PAI UBU – Sim, depois que lhe tomei a chave maneira! Escutai esta voz grave. É a voz de da adega. Antigamente, às sete da manhã já São Gabriel que só dá bons conselhos. estava bêbada, recendendo a cachaça. Agora se perfuma com heliotropo, não cheira mal. Pra PAI UBU – Só faltava essa! mim tanto faz. Quem se embebeda agora sou eu. MÃE UBU – Não me interrompei, Pai Ubu, ou eu me calo e será pior para você!