Ida ao show da ivete

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adaptação de texto de Karl Valentin

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Ida ao show da ivete

  1. 1. Ida ao show da Ivete De Karl Valentin tradução e adaptação de Silvio Selva Personagens As irmãs ATO ÚNICO Uma, na mesa arrumando coisas da casa, chega a outra. 1- Adivinha só, quando eu tava chegando, eis que a nossa vizinha deu de cara comigo e me ofereceu uma coisa que ganhou na rádio. Adivinha o que ela me ofereceu? 2- Deixe de ser criança. Diz logo. 1- Toma, olha. Dois ingressos da Expo pra ver a Ivete. O que você me diz? 2- Muito obrigado, mas por que não vai ela mesma, essa velha rabugenta? 1- Ah, sem dúvida ela não tem tempo. 2- Ah, é? Ela não tem tempo e nós temos de ter tempo? 1 Não seja mal agradecida. 2 Você sabe muito bem que essa mulher tem uma bronca com a gente, senão, não teria oferecido os ingressos justamente pra nós. 1 Mas ela só queria nos fazer uma gentileza. 2 Ela? Para nós? E por acaso nós já lhe fizemos alguma gentileza? Nunca. 1 Então, você vai comigo? Sim ou não? 2 E quando é que isso começa? 1 Eu não sei. Vou descer e perguntar pra ela. 2 Tá bom, começa às nove e meia. 1 Já são quinze pras oito. A sete e meia a gente nunca vai estar pronta, mas, geralmente, os shows da Expo só começam mais tarde, às nove horas. 2 Começam entre sete e meia e oito horas. 1 Antes das nove horas, certamente não. Começam sempre mais tarde. 2 Bom, então, o que a gente faz? 1 Não tem o que ficar pensando, vamos. 2 Mas nós ainda não jantamos. 1 A janta está pronta. 2 Eu me apronto rápido. É só o tempo de me pentea. 1 Você pode fazer isso depois, primeiro vamos comer. (Ela sai, a outra pega um espelho e o põe à mesa: o espelho cai sempre. A outra chega com pratos e talheres). Bom, agora não vamos mais perder tempo. (Vê o espelho caindo.) Ah, mais essa! Põe ele direito! (Ela consegue fazer o espelho ficar em pé, mas ao contrário.) 2 Mas eu não posso olhar nele assim. 1 Pois bem, vire ele. (ela vira o espelho, mas ele continua caindo. A outra conserta, ela se penteia). Eu gostaria de saber o que você tem pra pentear? Você não consegue nem repartir esse cabelinho que você tem. 2 É um hábito que eu tenho e mantenho. 1 Como você pode ser tão vaidosa? Pra quem que você quer ficar bonita? Você não precisa agradar ninguém. 2 Pode ser que na Expo, um moço bonito fica do meu lado. 1 E você acha que ele vai te olhar? É pra Ivete que ela vai olhar que ela vai olhar. 2 Eu quis dizer antes de começar, ué. (Ela sai e volta com um jantar: um prato de linguiça frita, arroz, farofa). 2 Prato feito novamente. 1 Mas aqui nunca teve outra coisa. Tem uma linguiça para cada uma. Ele pega as duas, mede, escolhe e dá a outra pra irmã. Depois os dois enfiam os garfos e ficam brigando com as linguiça, tentando cortar com garfo. Durante esse vai e vem, uma olha o relógio na parede. 1 Pronto, agora entorto tudo. Olha a hora. Vamos comer depressa, vai. 2 Comer com pressa faz mal a saúde. 1 (Ela se levanta e tenta por um resto de comida no prato da outra.) Toma, come este restinho. 2: (Furiosa tenta impedir que ela coloque.) Eu posso muito bem me servir! Ela se serve e depois se olha no espelho. 1 Chega de ficar fazendo caretas, não precisa ficar se olhando no espelho enquanto come, dá congestão.
  2. 2. 2 Me olho porque assim eu como duas vezes.. Elas comem. Uma se lembra da afilhada 2 E a menina? O que a gente faz com o menino quando ela voltar da escola? 1 Já pensei nisso. A gente já deixa o jantar quente e antes de sair escrevemos um bilhete. Você continua só a comer; eu vou escrever (Pega papel e lápis). Bem, vou escrever que nós não estamos em casa. 2 Não precisa escrever isso; ela vai ver. Tem que escrever que nós saímos. 1 Mas é isso que eu queria dizer. Eu vou escrever que nós não estamos aqui, porque saímos. 2 Escreva: “Bauru 24 de julho...” 1 Não, eu vou escrever: “Querida...” Os dois – Mas como é que ela se chama mesmo? 1 Você, devia saber como é que se chama a menina, você que é madrinha dela. 2 Você é a minha irmã e é mais esperta e também é madrinha. Você é que deveria saber. 1 É que a gente sempre chama ela de “minina”, minha filha. Mas, como é que ela se chama? 2 Espera, eu vou perguntar à vizinha. 1 Não. Nós vamos conseguir lembrar (faz uma pequena oração); Jesus... Maria...José...Ah. é lembrei, é Maria José de Jesus. Bom... (Volta escrever) “Minha cara Maria...” 2 Você não pode escrever isso porque ela é minha também. 1 Nesse caso eu vou escrever: “Nossa querida Maria José...” para que você nos deixe em paz... 2 “Muito honrada senhora nossa querida Maria José” 1 “Sua janta está na cozinha, no forno. Aqueça novamente porque pode esfriar.” 2 Pode esfriar porque já estamos no inverno. 1 Mas eu estou falando do jantar, que pode esfriar e que nós temos de ir na Ivete. 2 Mas se não temos vontade não temos de ir. 1 Então eu vou escrever: que nós podemos... Temos a oportunidade... Queremos... Devemos... 2 Escreve; nós vamos. 1 Mas quando ela ler esse bilhete nós já teremos saído. 2 Então escreve: “nós fomos...” 1 “No caso da expo não abrir estar fechado, nós voltaremos, talvez certamente, pra casa. Receba as saudações...” 2 “As mais respeitosas...” 1 “... das suas madrinha que saíram, assim como as minha” 2 Você já está incluída nas madrinha. 1 E agora eu vou botar um ponto final, senão aquela tonta vai continuar lendo. 2 Acrescente: “ No caso de você preferir sua janta fria, você não precisa esquenta” 1 “Porque senão ele ficará muito quente.” Agora vamos deixar o bilhete na mesa... Mas, pode ser que na mesa ela não veja, normalmente, ele entra pela porta... Bem, vamos deixar o bilhete no chão... Mas se ela estiver com os sapatos sujos ele não vai poder mais ler. (Ela põe o bilhete na mesa e coloca o vaso por cima). Ai, não pode. Com o jarro de flores ele vai pensar que é o aniversário dela. 2 Mas não é o aniversário dela. 1 Mas isso vai confundi ela. Ela é lesadinha (põe a carta no espelho). 2 É sensacional, olha: ela entra, vai até ali, se olha no espelho pra se pentia e diz: o que será esse bilhete? E então o vê. 1 Nós, é claro, vemos porque nós sabemos que ali tem um bilhete, mas ela não tem a menor ideia. E se ela não olhar no espelho? 2 Mas é absolutamente necessário que ele olhe. 1 Mas se ela não olhar, você terá posto o bilhete à toa. 2 Bem, espera... Eu continuo... Agora você escreve outro bilhete: “Quando você chegar olha logo no espelho” 1 Eu vou escrever: “Quando você chegar, olhe logo no espelho que você vai ver uma coisa.” Bem, agora que nós perdemos tanto tempo com esses bilhetes, já vão dar quase oito e meia horas. Felizmente o a Ivete só começa às nove horas. 2 Começa às sete e meia. 1 Eu acho que vou lavar a louça só amanhã de manhã, senão vai ficar muito tarde. (Tira a mesa. A outra procura por todos os lugares, abre as gavetas, procura por todos os lugares.) Pronto vai começar a caçada na presilha de cabelo, eu já dei mil presilha procê. 2 É muito mil presilha. Eu só preciso de duas.
  3. 3. Acha uma presilha e mostra feliz para outra 1 Bem, então eu vou me preparar. Ah, eu preciso ir de novo à cozinha. (Ela sai.) 2 (Gritando para fora.) Onde você colocou a outra presilha? 1 (Off.) No mesmo lugar que você deixou ontem. tenta desesperadamente colocar a presilha, mas não se acerta 2 (Para fora.) Irmã, me ajuda a por minhas presilha, pelo amor de Deus, antes que eu fique louca. A outra volta. 1 (Apertando as presilhas) Eu vou me vestir. Assim pelo menos uma vai ficar pronto na hora. Ponho meu vestido preto? 2 Pode ser. 1 Ou será que eu boto o marrom? 2 Pode ser. 1 Eu não posso botar os dois ao mesmo tempo. É perda de tempo lhe perguntar alguma coisa. Bem eu vou botar o marrom mesmo. Numa outra oportunidade eu uso o preto. (Ela sai. E volta com o vestido marrom). Será que dava pra você fechar meu vestido que eu não posso fazer isso sozinha. 2 Ah, meu Deus, de novo os quinhentos botão. Quando a gente consegue botar um maldito botão, o outro solta. 1 Para de resmungar e acaba logo com isso. 2 Isso não é roupa que se faça. (com dois chapéus de caubói na mão, experimenta um). 1 Acho que esse chapéu não combina com meu vestido marrom. 2 Põe um outro, anda logo, vai se fantasiar de vaqueira? 1 (Faz que vai, mas não vai) Ai, antes de sair ainda tenho que dar um jeito na casa. 2 No seu lugar eu ainda levaria a escada e limparia o chão da cozinha para bancar a empregadinha caprichosa! 1 Não seja mal agradecida. Na próxima vez, que essa vizinha vá ela mesma na Ivete e não venha encher o saco dos outros. É assim... Toda vez que aparece alguma coisa que pode me dar um pouco de distração, é assim. Eu só sirvo para trabalhar o ano inteiro. 2 E eu para trabalhar pra fora. 1 Pronto! Vai começar tudo de novo... Já conheço essa história... Você não vai mais parar por nada... Vamos discutir até a Ivete... Na Ivete vamos continuar discutindo... Até o fim da noite não vamos fazer outra coisas a não ser discutir. Quer saber de uma coisa, eu fico em casa e você vai sozinha na Ivete. senta e chora. 2 Como é que vou sozinha com dois ingressos? 1 Que culpa eu tenho, meu Deus, se me deram dois ingressos? 2 Eu já esperava por essa. Vamos! 1 Eu estou irritada... Não suporto essas discussões. Eu não quero mais sair... Não posso mais sair. Você pode ir na Ivete com quem você quiser. Agora eu vou tirar minha roupa e vou para a cama. Ai, que enxaqueca infernal. 2 (Dando um remédio para ela) Ora, toma esse comprimido pra dor de cabeça. 1 Para isso não preciso de você. (Pega o comprimido.) Vai embora, já que você quer ir. Ela toma o comprimido e sai. A irmã vê que comprimido deu. 2 Você já tomou o comprimido? Cospe ele de volta! 1 Já tomei. Você não me deu comprimido certo? 2 Você engole qualquer coisa que a gente dá para você. 1 Pelo amor de Deus, o que você me deu? 2 Remédio de prisão de ventre, mas essas homeopatia tem tudo vidrinho igual 1 Você me deu purgante? Deixa eu ver essa porcaria. Está escrito: efeito imediato. Ação em uma hora. Agora são oito e meia e às nove e meia a gente vai estar exatamente na Ivete. Aí, então vai começar dor de barriga. 2 Não começa às nove e meia. Vamos logo. 1 Mas ainda você está vestida dessa maneira. Quando é que você vai perder essa mania de andar todo desarrumada. Que roupa é essa? 2 É roupa de trabalhar. 1 Você não vai na Ivete com essa roupa de jeito nenhum. É a mais velha que você tem. Tem mais de quinze dias que você não tira. 2 Mas isso ninguém vai notar.
  4. 4. 1 Mas eu não saio com você com essa camisa de forma alguma. O que as pessoas vão pensar de nós... Que somos pobres?. 2 Ah, não tem importância. Nóis é pobre mesmo 1 Não senhora, você vai tirar essa roupa já e botar outra. Eu vou lá pegar (Sai). 2 Eu nunca vou esquecer essa noite... Nunca mais, nunca mais vou na Expo. Ela volta com um vestido 2 (Pega. Ao pegar vê que é tamanho pequeno) – Aí, meu Deus... Aí, meu Deus... 1 Mas é um vestido da menina. É a única que havia dentro do guarda-roupa. Você é engraçada, deixa suas roupas sujas e não bota pra lavar. Faz o seguinte: um casaco por cima, tá frio mesmo. Olhe, aqui tem um limpo. 2 Mas esse é muito grande. 1 Bem, então faz uma barra (começa dobrar a barra) 2 Anda logo senão vamos perder a hora. (A irmã continua dobrando). 1 Desse jeito a gente vai chegar atrasado. Vamos ter de pegar dois mototaxi se quisermos pegar o começo da Ivete.. Ih, a gente ia esquecer os binóculos que eu comprei no brchó. (Ela pára de ajudá-la e vai pegar o binóculo. Bota na mão da irmã e volta a ajudar. O binóculo cai). 2 Quebrou... 1 Pra mim é o chega. (Abre a caixa, está vazia). Ainda bem que eles não estão aqui, senão estariam em pedaços. Vamos assim mesmo. Você pegou as chaves da casa? Ah, não se esqueça de fechar as janelas, nunca se sabe quando vai cair um temporal. 2 Anda, anda. 1 Apague as luzes. 2(No escuro) - Os ingressos estão com você? 1 Não, estão com você. 2 Comigo? Deixa eu acender as luzes. (Começa a procurar). 1 Eu dei pra você logo que eu vim da rua. 2 Vai ver que caíram no chão. 1 Eu vou dizer uma coisa: na próxima vez que alguém me convidar para ir na Ivete, vou ter um chilique. Se ao menos a gente achasse os ingressos... Como vamos entrar sem eles? 2 Estão aqui. 1 Até que enfim. Vou botá-los na minha bolsa senão é capaz de você perde-los de novo. Eu só queria saber se as outras pessoas, quando saem, é exatamente como nós. 2 Exatamente igual. 1 Eu não acredito que possa ser assim em nenhum lugar do mundo. 2 É que ninguém diz, só isso. 1 Deixa eu conferir a hora que começa. Está aqui: começa oito em ponto. Quem tinha razão, mas uma vez? Eu sempre tenho razão. Está escrito aqui no ingresso: o espetáculo tem início as nove em ponto. 2 (Conferindo.) É, você tem razão. Início às nove em ponto, sexta-feira, 25 de julho. 1 Como? Sexta-feira? Mas hoje é quinta!!! (Os dois se entreolham petrificados, começa tocar “A festa” de Ivete Sangalo). FIM

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