Filosofia 11 - Estatuto do conhecimento científico

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Filosofia 11 - Estatuto do conhecimento científico
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Filosofia 11 - Estatuto do conhecimento científico

  1. 1. 2. Estatuto do conhecimento científico
  2. 2. 2. A Filosofia na cidade 2.1. Conhecimento vulgar e conhecimento científico
  3. 3. 2.1.1. A reflexão filosófica sobre a ciência
  4. 4. CIÊNCIA Trouxe, ao longo dos tempos, inúmeras vantagens, comodidades e confortos. A maioria das pessoas valoriza a ciência e o conhecimento científico sob a crença de que são fiáveis e seguros, Mas o desenvolvimento da investigação científica e da tecnologia também trouxe a debate inúmeras questões que nos obrigam a refletir sobre o valor, os riscos e os limites da própria ciência. A ciência alcançou um estatuto superior ao de outras formas de conhecimento. TÉCNICA E TECNOLOGIA
  5. 5. FILOSOFIA DA CIÊNCIA OU EPISTEMOLOGIA «A investigação de problemas que surgem da reflexão sobre a ciência e a prática científica.» (Simon Blackburn) «O estudo crítico dos princípios, das hipóteses e dos resultados das diversas ciências, destinado a determinar a sua origem lógica (não psicológica), o seu valor e a sua importância objetiva.»(André Lalande) «O estudo sistemático da natureza da ciência, especialmente dos seus métodos, conceitos e pressuposições.» (Dagobert D. Runes) •O que é a ciência? •O que distingue uma boa teoria científica de uma má teoria? •Qual deve ser o método a adotar em ciência? •Como progride a ciência? •Será que o conhecimento científico é objetivo? •O contexto cultural e social tem alguma influência sobre a atividade científica? Área da filosofia que se ocupa do estudo das questões relativas à prática e ao conhecimento científicos. Algumas questões epistemológicas
  6. 6. 2.1.2. A especificidade do conhecimento científico – distinção entre senso comum e conhecimento científico
  7. 7. Realidade Pode ser explorada e compreendida de diferentes modos. Existência de diferentes níveis de conhecimento acerca da realidade. Senso comum ou conheciment o vulgar Conheciment o científico
  8. 8. SENSO COMUM (CONHECIMENTO VULGAR) Conhecimento essencialmente prático. Resulta da apreensão sensorial espontânea e imediata da realidade. É não disciplinar e imetódico (ao invés do conhecimento científico). É um tipo de conhecimento superficial e pouco ou nada aprofundado. Conjunto de crenças e opiniões subjetivas, suposições, pressentimentos, preconceitos e ideias feitas que se traduzem num conhecimento superficial e, por vezes, erróneo da realidade. Serve de alavanca à construção de tipos de conhecimento mais elaborados, como é o científico. Orienta a vida quotidiana.
  9. 9. DO SENSO COMUM AO CONHECIMENTO CIENTÍFICO O senso comum é o ponto de partida para qualquer conhecimento mais aprofundado do real – científico, filosófico ou outro. Gaston BachelardKarl Popper É necessário e suficiente corrigi-lo, reformulá-lo e criticá-lo. O senso comum é um obstáculo epistemológico, algo que impede a produção de conhecimento científico. Não basta criticá-lo: é preciso romper totalmente com ele.
  10. 10. CONHECIMENTO CIENTÍFICO Resulta de uma leitura dos fenómenos diferente da do conhecimento vulgar e de uma atitude diferente face ao real É um nível mais aprofundado do conhecimento da realidade. Baseia-se em pesquisas e apoiadas em procedimentos (métodos) coerentes e consistentes relativamente a um conjunto de pressupostos teóricos. Faz-se acompanhar de instrumentos de medida. Construção de conceitos e teorias. Recurso a uma linguagem específica e rigorosa, geralmente de carácter matemático, Procura descrever, explicar e prever os fenómenos e as suas relações, apontando as leis que presidem a tais fenómenos.
  11. 11. Conhecimento vulgar Conhecimento científico - Desconfia dos sentidos; - É problematizador e racional; - Manifesta-se numa atitude crítica; - É explicativo; - É metódico e sistemático. - Confia nos sentidos; - É sensitivo; - Manifesta-se numa atitude dogmática; - É prático; - É imetódico e assistemático. Tipo de conhecimento superficial, não especializado em qualquer domínio, mas que apresenta respostas imediatas e funcionais, visando a resolução dos problemas do dia a dia. Tipo de conhecimento aprofundado e especializado em diferentes domínios, construindo explicações dos fenómenos e tendo por base uma organização teórica e um método.
  12. 12. Conhecimento científico Procura ser objetivo. Resulta de um método específico. Resulta da formulação de hipóteses. É constituído por um conjunto de teorias. Procura leis. É preditivo. É revisível. É provisório. Tem em atenção o facto, excluindo as apreciações subjetivas. Tal método apoia-se, no caso das ciências empíricas, na verificação e no controlo experimentais. Elas procuram ordenar a diversidade empírica. As teorias são hipóteses já estabelecidas e comprovadas. As leis exprimem a invariância e a repetibilidade dos factos; muitas vezes, este conhecimento exprime os factos em termos estatísticos ou probabilísticos. Prevê a ocorrência de novos fenómenos. Encontra-se sujeito a correções e a alterações. Mantém-se como aceitável até surgir outra teoria mais eficaz e mais próxima da verdade. A ciência sempre procurou constituir-se como um conjunto de conhecimentos e procedimentos sistematizados e organizados, tendo em vista a produção de leis e teorias capazes de descrever, explicar e prever os fenómenos.
  13. 13. Classificação das ciências EmpíricasFormais (exatas) Naturais Estudam conceitos, estruturas e processos puramente lógicos, abstratos e simbólicos. Sociais e humanas Estudam factos e acontecimentos característicos da natureza. Estudam factos e acontecimentos característicos da vida social e humana. •biologia •química •física •astronomia •… •sociologia •psicologia •história •economia •… •lógica •matemática Há muitas situações em que as diferentes ciências cooperam umas com as outras.
  14. 14. 2.2. Ciência e construção – validade e verificabilidade das hipóteses
  15. 15. Conjunto de procedimentos, orientados por um conjunto de regras, que estabelecem a ordem das operações a realizar com vista a atingir um determinado resultado. Especificidade metodológica da ciência A escolha de um método está dependente do objeto de estudo. O método permite distinguir aquilo que é conhecimento científico do que não pode ser considerado como tal. MÉTODO Problema da demarcação Procura do critério de cientificidade •Quais são os procedimentos (o método) que o cientista deve adotar para obter resultados científicos? •Como podemos reconhecer uma teoria científica? •Qual o critério a adotar na validação das teorias científicas? •Será que o método é suficiente para garantir a cientificidade do conhecimento?
  16. 16. 2.2.1. A conceção indutivista do método científico
  17. 17. LeiExperimentação Formulação de hipóteses Perspetiva epistemológica que salienta a importância da indução para a ciência, quer ao nível das descobertas científicas, quer ao nível da justificação das teorias. INDUTIVISMO O conhecimento científico deve fundar-se na indução e na experimentação e não na metafísica e na especulação. Francis Bacon (1561-1626) A atividade científica obedece à seguinte lógica de procedimentos: Observação
  18. 18. Operações fundamentais do método indutivo O cientista observa os factos ou fenómenos e regista-os de forma sistematizada para procurar encontrar as suas causas. A observação, que precede a teoria, é neutra, objetiva e imparcial. A observação e o registo devem ser repetidos várias vezes, com rigor e método. Exemplo: Observo que o metal x conduz eletricidade. Observo que o metal y conduz eletricidade. 1. Observação dos fenómenos Por meio da comparação e classificação dos casos observados, o investigador procura aproximar os factos para descobrir a relação entre eles. Procede, assim, à formulação de hipóteses, explicações acerca dos fenómenos e das suas relações. Exemplo: Verifico a relação entre os metais x e y. 2. Descoberta da relação entre os fenómenos Recorrendo ao raciocínio indutivo, o cientista generaliza a relação encontrada entre os factos semelhantes, traduzindo-a em leis que expressam as relações constantes entre esses factos. Testada por experimentação, e confirmando-se o que ela propõe, a hipótese pode passar a lei científica. Exemplo: Todos os metais conduzem eletricidade. 3. Generalização da relação
  19. 19. EXPERIMENTAÇÃO Princípio da acumulação Princípio da indução Princípio de confirmação Enunciados do indutivismo É fundamental para que se possa verificar e confirmar se as relações estabelecidas são aplicáveis a fenómenos semelhantes. O conhecimento científico é o resultado de factos bem estabelecidos, a que progressivamente se acrescentaram outros sem alteração daqueles. Há uma forma de, a partir da acumulação de factos singulares, inferir enunciados universais. Articula a plausibilidade das leis com o número de instâncias a que o fenómeno a que se refere a lei foi submetido.
  20. 20. 2.2.2. O critério da verificabilidade
  21. 21. Passo necessário para assegurar os resultados da investigação. Qual o critério que permite demarcar o conhecimento científico de outros tipos de conhecimento? A verificação (empírica) é o critério para distinguir o que é científico do que não o é. Uma teoria é científica se for possível verificar empiricamente, isto é, através da experiência, aquilo que ela propõe. Critério da verificabilidade Problema da demarcação Filósofos neopositivistas Verificação da hipótese Mas será que isto é suficiente para garantir que determinada hipótese é de facto de uma (boa) hipótese ou teoria científica?
  22. 22. Proposição “Há cisnes negros.” É científica, porque pode ser verificada pela observação. “Há anjos negros.” Não é científica, porque não se pode verificar empiricamente o que ela afirma. É empiricamente verificável se for possível determinar, através da observação, o seu valor de verdade.
  23. 23. Mas será que as teorias e as leis propostas pelos cientistas podem ser realmente verificadas? “Há corvos negros.” Esta proposição é verificável: podemos verificar aquilo que ela afirma de cada vez que se vê um corvo. Se o corvo for negro, a proposição é verdadeira.. “Todos os corvos são negros.” Aquilo que nesta proposição se afirma não pode ser estritamente verificado de forma universal, pois é impossível saber a cor de todos os corvos que existiram no passado, que existem e que existirão no futuro. Problema da indução Alguns filósofos neopositivistas afirmam, porém, que basta que os enunciados sejam empiricamente confirmáveis. Se todos e cada um dos corvos observados até ao momento forem negros, o enunciado «Todos os corvos são negros» traduz uma proposição verdadeira. Assim, o enunciado confirma-se, o que é suficiente para que seja reconhecido como científico..
  24. 24. 2.2.3. Críticas ao indutivismo
  25. 25. Críticas ao indutivismo A observação não é ponto de partida do método científico e, ainda que o cientista recorra à observação, ela não é totalmente neutra e isenta. A observação dos fenómenos ocorre num determinado contexto. A observação do cientista é afetada por pressupostos teóricos, teorias, conceitos e expectativas desenvolvidas face à investigação. O raciocínio indutivo não confere o rigor lógico necessário às teorias científicas. A indução constitui, em termos lógicos, uma operação que obriga a um salto do conhecido (de proposições particulares) para o desconhecido (para proposições gerais).
  26. 26. Como podemos justificar a indução? Problema da indução (levantado por David Hume) Segundo Hume, para conhecermos os fenómenos que encontramos na natureza recorremos à indução. Existe uma regularidade no modo como os fenómenos ocorrem, como se obedecessem a um princípio de uniformidade não constitui uma verdade necessária (a priori), pois não pode ser justificado pelo pensamento não pode ser provado empiricamente: ele decorre do hábito A generalização é uma mera crença ou expectativa de que os factos se repitam daquele modo.
  27. 27. Princípio da uniformidade da natureza Decorre do hábito. Nenhum raciocínio que se baseie em tal princípio pode garantir rigorosamente a verdade da sua conclusão. A couve portuguesa é rica em cálcio. Os brócolos são ricos em cálcio. A couve lombarda é rica em cálcio. Logo, todos os legumes são ricos em cálcio. Esta generalização indutiva não invalida a hipótese de alguns legumes não serem ricos em cálcio. Exemplo Não é possível justificar, com rigor, aquilo que é proposto numa teoria ou lei científica que decorra da generalização indutiva. O rigor e a verdade do conhecimento científico ficam comprometidos.
  28. 28. David Hume sublinha o carácter ilusório do indutivismo Apesar de admitir que o conhecimento científico se constrói por indução, reconhece que ela não serve para justificar esse conhecimento. Como podemos então garantir a cientificidade do conhecimento? Karl Popper Propõe outro critério de cientificidade – falsificabilidade. Propõe outro método – conjeturas e refutações. Mostra que o problema da indução não tem o peso que Hume lhe atribui.
  29. 29. 2.2.4. A conceção de ciência de Popper – o método conjetural
  30. 30. Karl Popper Considera que a especificidade metodológica da ciência não pode assentar na indução. Rejeita o critério da verificabilidade e da confirmação das hipóteses e teorias científicas tal como proposto pelo positivismo lógico. A construção do conhecimento científico faz- se através de conjeturas e refutações. O critério que garante a cientificidade das teorias é o da sua falsificabilidade.
  31. 31. CIÊNCIA Faz-se por um processo de construção criativa de hipóteses– conjeturas – para responder a problemas. Ao contrário do indutivismo, Popper entende que a observação não é o ponto de partida do cientista, nem as teorias resultam de inferências indutivas. A ciência parte de problemas (ou factos- problemas) e as teorias começam por ser hipóteses explicativas e criativas (conjeturas) que terão de ser submetidas a testes rigorosos, tendo em vista a sua refutação. Problema Hipótese (conjetura)) Testes (refutação)
  32. 32. Etapas do método hipotético-dedutivo (ou conjetural) “Facto-problema” Exemplo: Constata-se que algumas crianças, mesmo quando bem alimentadas e sem problema de foro genético diagnosticado, revelam um crescimento abaixo da média. Procura-se explicar a razão pela qual estas crianças revelam um baixo crescimento. Exemplo: Hipótese 1 – A presença em excesso da hormona X no organismo impede o crescimento. O ponto de partida da investigação científica são os problemas ou factos-problemas . Um facto-problema surge, em geral, de conflitos decorrentes das nossas expectativas ou das teorias já existentes. Para o resolver, o cientista terá de propor uma explicação provisória – hipótese (ou conjetura): momento criativo da atividade científica, associado à intuição, à imaginação, ao raciocínio abdutivo (raciocínio criativo) e não à indução. 1 – Formulação da hipótese ou conjetura 1 – Formulação da hipótese ou conjetura a partir de um facto-problema. Hipótese Explicação provisória de um dado fenómeno que exige comprovação; suposição que se expressa num enunciado antecipado sobre a natureza das relações entre dois ou mais fenómenos.
  33. 33. Exemplo: Dedução das consequências da hipótese 1 – Se a hipótese 1 for verdadeira, a redução ou a inibição da produção da hormona X promoverá o crescimento. Depois de a hipótese ter sido formulada, são deduzidas as suas principais consequências. Ou seja, na prática o cientista procura prever o que pode acontecer se a sua hipótese ou conjetura for verdadeira. 2 – Dedução das consequências 2 – Dedução das consequências
  34. 34. Exemplo: Experiências realizadas com ratinhos revelam que, nos grupos em que a hormona X foi administrada em doses sucessivamente superiores, os ratinhos apresentaram um crescimento mais ou menos lento e pouco significativo, mesmo quando bem alimentados; já nos grupos de ratinhos que não sofreram essa administração, o seu crescimento foi normal. Este resultado validou a hipótese. Caso não tivesse validado a hipótese, teríamos de a reformular ou apresentar uma nova hipótese. Agora será necessário descobrir se as previsões que o cientista fez estão ou não corretas: a hipótese será testada, confrontada com a experiência. Os resultados podem, então, mostrar o “sucesso” ou o fracasso da conjetura proposta. • Se for validada pela experiência, a hipótese é considerada como credível e passará a ser reconhecida na comunidade científica – teoria corroborada. • Se não for validada, teremos de a abandonar ou de a reformular – teoria refutada. 3 – Experimentação 3 – Experimentação
  35. 35. Validade das hipóteses ou conjeturas Condições exigidas para a garantir: É preciso criticá-las, tentar refutá-las, procurar os seus pontos fracos, submetê-las a testes rigorosos, proceder a várias tentativas de falsificação.. Só assim é possível o desenvolvimento do conhecimento científico. O crescimento do conhecimento avança de velhos para novos problemas mediante conjeturas e refutações (K. P.).
  36. 36. 2.2.5. O critério da falsificabilidade
  37. 37. POPPER rejeita o critério da verificabilidade Segundo Popper, as teorias científicas não são empiricamente verificáveis. Para que uma hipótese venha a ser considerada credível, é preciso procurar refutá-la ou falsificá- la. Critério da falsificabilidade Uma hipótese é científica se, e só se, for falsificável.
  38. 38. Confrontação da hipótese com a experiência Não visa confirmar a hipótese, mas permitir testar a resistência que ela tem face às tentativas empreendidas para a enfraquecer, refutar ou falsificar. O teste experimental é visto como a procura de fenómenos que possam infirmar a hipótese. Uma teoria científica é válida enquanto for resistindo à tentativa de a falsificar empiricamente e é tanto mais forte quanto mais resistir. O enunciado «Todos os cisnes são brancos» é científico, porque é empiricamente falsificável – para o falsificar, basta encontrar um cisne de outra cor. A atitude do cientista deve ser a de procurar cisnes de outra cor (para falsificar) e não a de procurar cisnes brancos (para confirmar). Se se encontrar um cisne de outra cor, teremos de abandonar e/ou reformular o enunciado: este não resistiu à falsificação e foi, efetivamente, falsificado.
  39. 39. “Surgirá no Céu uma bola de fogo.” Enunciado não falsificável. “O cometa Halley aparecerá no ano de 1986.” Enunciado falsificável. Uma teoria que não é falsificável nada diz de significativo sobre os factos. Quanto mais uma teoria é falsificável, mais possibilidades o cientista tem de descobrir falhas na sua investigação e de propor uma nova explicação. Mais possibilidades de a ciência progredir. Enunciados
  40. 40. Critério da falsificabilidade Permite a Popper responder ao problema da demarcação. As teorias científicas são diferentes das não-científicas (ou das pseudocientíficas), na medida em que são falsificáveis. Não pode ser falsificado. “Todos os cisnes são brancos.” “Deus existe.” Não constitui um enunciado de carácter científico. Pode ser falsificado. Constitui um enunciado de carácter científico.
  41. 41. 2.2.6. Críticas a Popper
  42. 42. Críticas a Popper Alguns autores defendem que a atitude falsificacionista não corresponde exatamente àquela que os cientistas demonstram na atividade científica. Considerando a história da ciência, não parece que ela possa evoluir por um processo assente nas refutações. O processo de refutação ou falsificação não é o procedimento mais comum entre os cientistas. Ao nível da história da ciência encontramos episódios que parecem pôr em causa a perspetiva falsificacionista e a ideia de que a ciência progride por meio de conjeturas e refutações. Copérnico, Galileu ou Newton, por exemplo, não abandonaram as suas teorias na presença de factos que aparentemente as poderiam falsificar. Geralmente, os cientistas procuram confirmar aquilo que as teorias científicas propõem e, mesmo que dada observação implique a rejeição de uma previsão, isso não os demove de investigar no mesmo sentido.
  43. 43. 2. A Filosofia na cidade 2.3. A racionalidade científica e a questão da objetividade
  44. 44. História da ciência Mostra-nos um conjunto de leis, teorias e modelos científicos sucessivamente revistos ou rejeitados e substituídos por outros mais eficazes, mais aptos a explicar os fenómenos. •O facto de quase todas as teorias da história da ciência terem sido substituídas constituirá um indício de que as que atualmente vigoram serão também um dia dadas como falsas ou inadequadas? •Como podemos estar certos de que a ciência nos oferece um conjunto de conhecimentos verdadeiros? •Para onde nos leva o conhecimento científico? •Como podemos ter a certeza de que a ciência evolui no sentido da verdade? Karl Popper Thomas Kuhn Defende o valor da ciência enquanto conhecimento que resulta de um processo progressivo de construção de conjeturas e refutações. Destaca o papel que a história, a sociedade e o modo de ver e de fazer ciência segundo determinado contexto têm sobre a própria atividade científica.
  45. 45. 2.3.1. A evolução da ciência
  46. 46. VERDADE Correspondência das proposições científicas à realidade dos factos. Meta para a qual a ciência avança. O progresso científico deve ser entendido como o desenvolvimento da ciência em direção a um fim que, podendo não ser alcançável, não deixa de ser pressuposto. O critério da falsificabilidade pressupõe que a todo o momento as teorias possam ser refutadas.. Nenhuma teoria, mesmo aquela que é corroborada, é completamente definitiva e verdadeira. Karl Popper
  47. 47. A ciência avança por meio de tentativas e erros: P1Parte de problemas. TT Propõe hipóteses ou conjeturas, ou novas teorias- tentativas (TT) de explicação do mundo, que são provisórias. EE Vai eliminando os erros (EE), submetendo as teorias à refutação. P2… Conduz, neste processo, à descoberta de novos problemas (P2), e assim por diante.
  48. 48. Evolução da ciência: é comparável à evolução das espécies. Conceção darwinista da evolução das espécies Processo de construção da ciência As espécies que melhor respondem aos desafios que o ambiente e a natureza propõem são as que mais probabilidades têm de sobreviver. As teorias mais fortes – as que resistem às várias tentativas de refutação – são as melhores, isto é, as que oferecem uma (boa) explicação dos factos. As hipóteses sofrem uma espécie de processo de “seleção natural”. As teorias menos aptas – as que não resistem aos testes experimentais – são eliminadas e dadas como erros.
  49. 49. ERROS Obrigam o cientista a procurar novas explicações dos factos ou problemas. A crítica permitirá a eliminação dos erros e, consequentemente, o avanço da ciência em direção à verdade.. O cientista encontra falhas ou erros nas teorias já existentes e empenha-se na procura de novas respostas. Importância da crítica: critério racional de progresso científico. Isso impede que a ciência estagne ou se fixe a qualquer tipo de dogma.
  50. 50. Atitude crítica Sendo contrária à atitude dogmática, ela permite ao cientista avançar. As teorias científicas nunca são categóricas, mas conjeturais. A ciência nunca pode afirmar-se como detentora da verdade: as teorias são sempre falsificáveis. O objetivo do cientista é encontrar a verdade, ainda que essa tarefa corresponda apenas a uma aproximação da verdade por intermédio de teorias cada vez melhores. Mesmo no caso das teorias corroboradas, há sempre a hipótese de virem a ser refutadas no futuro.. Podemos mostrar apenas que dada teoria é verosímil. Grau com que uma teoria capta a verdade. VEROSIMILHANÇA
  51. 51. Thomas S. Kuhn Destaca o papel que a história da ciência tem na construção da própria ciência. Reflete sobre o processo de produção da ciência. Ao contrário da tradição positivista, Kuhn não vê o cientista como um sujeito neutro ou isolado, mas sim condicionado e contextualizado. A construção de teorias científicas está sempre dependente de um conjunto de factos, de crenças e conhecimentos, regras, técnicas e valores compartilhados e aceites pela maioria dos cientistas. A produção científica depende de um paradigma científico. O paradigma funciona como um modelo de referência na descoberta e resolução de problemas, no interior da comunidade científica.
  52. 52. Processo de desenvolvimento da ciência Ciência normal Anomalias Crise Ciência extraordinári a Revolução científica Novo paradigma Fase da atividade científica que ocorre no âmbito de um dado paradigma aceite pela comunidade científica. Consiste essencialmente na resolução de enigmas (quebra- cabeças) de acordo com a aplicação dos princípios, regras, conceitos do paradigma vigente. Enigmas persistentes, factos a que o paradigma não é capaz de responder. Fase de tomada de consciência da insuficiência do paradigma vigente para explicar todos os factos ou anomalias. Vive-se um clima de insatisfação e insegurança. Fase de questionamento dos pressupostos e fundamentos do paradigma vigente. Gera-se o debate sobre a manutenção do paradigma (velho) ou a escolha de um novo paradigma. Fase de mudança e aceitação de um novo paradigma pela comunidade científica. Paradigma: conjunto de crenças, regras, técnicas e valores compartilhados e aceites por uma comunidade científica e que orientam a sua atividade. Corresponde a um modo de fazer ciência, de perceber, abordar e resolver problemas, que se institui no seio dessa comunidade.
  53. 53. Dois momentos fundamentais de progresso no interior da ciência No período das revoluções científicas Durante o período de ciência normal O cientista, sem se desviar do paradigma de referência, faz um estudo cada vez mais específico e aprofundado dos fenómenos. A resolução de novos enigmas significa a possibilidade de validar novos resultados sem pôr em causa as teorias do paradigma vigente. Nesta altura, ocorrem novas descobertas, que obrigam a mudanças revolucionárias, porque não se ajustam ao paradigma anterior.
  54. 54. Kuhn exemplifica com as imagens da psicologia da forma (Gestalt): estas imagens ilustram a inesperada e total mutação de formas que ocorre de um paradigma para outro. Ora se vê uma jovem, ora se vê uma idosa. Ora se vê um pato, ora se vê um coelho. A mudança de um paradigma para outro não é cumulativa, antes corresponde a um modo qualitativamente diferente de olhar o real.
  55. 55. Três conceções de espaço que suportam três geometrias diferentes: todas podem ser verdadeiras, pois funcionam em paradigmas distintos (a de Euclides é a que está subjacente à física newtoniana; a de Riemann está subjacente à física einsteiniana). Conceção de espaço de Euclides. A verdade das teorias científicas está sempre dependente do paradigma em que se inserem: aquilo que é verdadeiro num paradigma pode não o ser noutro. Conceção de espaço de Riemann. Conceção de espaço de Lobachevsky-Bolyai..
  56. 56. Interpretação diferente do progresso da ciência Os paradigmas são incomensuráveis, isto é, são incomparáveis e incompatíveis. Não podemos comparar objetivamente aquilo que cada paradigma defende, pois correspondem a formas totalmente diferentes de explicar e prever os fenómenos. O progresso científico não pode ser entendido como um processo contínuo e cumulativo de teorias ou paradigmas cada vez melhores em direção a uma meta ou fim. Se não podemos afirmar que um paradigma é melhor que o antecessor, também não podemos afirmar que, ao ocorrer uma mudança de paradigma, há uma evolução da ciência para melhor: não podemos dizer que o novo paradigma descreve melhor a realidade que o antecessor. As mudanças de paradigmas não implicam a aproximação à verdade. A ciência não progride de forma cumulativa e contínua. Recusa da ideia de que a ciência é o único meio para alcançar a verdade (cientifismo Ingénuo). Recusa da visão teleológica da evolução da ciência: a verdade não é a meta para a qual ela se orienta.
  57. 57. Quando a comunidade científica tem de escolher entre dois paradigmas rivais, gera-se o debate. A escolha de um novo paradigma é marcada por fatores de ordem histórica, sociológica e psicológica. A atividade do cientista não se reduz à resolução de enigmas, ao recurso à lógica e à experimentação, mas está dependente da argumentação. Na obra A Tensão Essencial, Kuhn define os critérios a partir dos quais, regra geral, os cientistas escolhem determinadas teorias e abandonam outras.
  58. 58. A escolha entre teorias rivais obedece a critérios objetivos e subjetivos. CRITÉRIOS SubjetivosObjetivos São partilhados por toda a comunidade científica, sendo dependentes de fatores objetivos, isto é, princípios, regras e até valores comummente adotados. São individuais, dependentes de fatores subjetivos, relativos ao que individualmente cada cientista sente e pensa – de acordo com a sua história de vida e a sua personalidade – em relação à teoria que elege.
  59. 59. Princípios ou critérios objetivos de escolha das teorias Consistênci a Exatidão Alcance Simplicidade Fecundidade Ausência de contradições internas e compatibilidad e da teoria com outras teorias aceites dentro do paradigma vigente. Característica segundo a qual uma teoria é capaz de fazer previsões corretas. Quanto mais exata for uma teoria, mais perto ela está do que é possível observar ou dos resultados da experimentaçã o. Abrangência da teoria relativamente à diversidade de fenómenos que é capaz de explicar. Sobriedade e elegância na forma como a teoria explica os fenómenos; uma teoria é simples se não depende de muitas leis para explicar os fenómenos observados. Capacidade da teoria para impulsionar a investigação científica em direção a novas descobertas.
  60. 60. Indicam as propriedades ou características que as teorias devem ter para serem escolhidas.. Mas, quando duas teorias competem entre si, nem sempre a comunicação entre cientistas é fácil. É possível que uns valorizem mais determinados critérios do que outros e isso reflete-se na argumentação que desenvolvem.. Só é possível compreender a ciência tendo em conta o contexto em que ela se desenvolve: valores e convicções da comunidade científica. A ideia de ciência como conhecimento objetivo, certo e indubitável da realidade é posta em causa.. Critérios subjetivos Critérios objetivos
  61. 61. O facto de os paradigmas serem incomensuráveis implica a impossibilidade de os comparar e avaliar objetivamente. Cada paradigma representa um modo totalmente diferente de encarar os problemas e propor soluções, não havendo hipótese de partilha, cooperação ou diálogo entre eles.. Assim, alguns críticos acusam Kuhn de ser relativista. Incomensurabilida de dos paradigmas Críticas à conceção kuhniana de ciência O critério para justificar a adoção de um novo paradigma é considerado «irracional» por alguns autores. A adesão a um novo paradigma ocorre por conversão (quase religiosa) de todos os cientistas – como se se tratasse de uma questão de fé – ao novo paradigma. Este processo traduz a ideia de que a atividade científica é irracional (o que põe em causa o valor da ciência). Adoção de um novo paradigma
  62. 62. 2.3.2. A questão da objetividade científica
  63. 63. O computador é leve. O computador é pesado. O computador pesa 20 quilos. A informação «pesado» ou «leve» depende do sujeito que a afirma, mais do que do objeto. A proposição dá-nos mais informações sobre as características do sujeito (ser forte ou não) do que sobre as características do objeto. Proposições subjetivas. Dá-nos informações do objeto e não do sujeito: o computador pesa 20 quilos independentemente dos sujeitos e pesa o mesmo para todos os sujeitos. Proposição objetiva. Objetividade do conhecimento científico
  64. 64. Conhecimento objetivo Para o atingir, o cientista terá de se abstrair da sua subjetividade: da sua forma pessoal de entender o objeto, da sua afetividade, dos seus valores, dos seus interesses, das suas crenças ideológicas e políticas, dos seus gostos estéticos, etc. Refere-se exclusivamente ao objeto de estudo, independentemente do sujeito que realizou a investigação. A repetição de uma mesma experiência científica, sob determinadas condições, deve proporcionar os mesmos resultados.
  65. 65. Prática científica (nas ciências empíricas) Eles permitem quantificar e exprimir grandezas, o que é determinante para conseguir a descrição objetiva e rigorosa do mundo que habitamos. Recurso a instrumentos de observação e medida. A história das ciências revela-nos uma sucessão de instrumentos que, por serem menos rigorosos, foram substituídos por outros mais sensíveis e complexos, permitindo o avanço das pesquisas científicas. Mas a objetividade não parece ser assegurada pela criação de instrumentos de medida, por causa dos efeitos que eles podem ter na observação.
  66. 66. Fatores que influenciam o cientista Económicos EstéticosIdeológicos O interesse que o cientista demonstra por determinados factos, em vez de outros, pode ser o resultado da sua ideologia. A investigação científica está dependente de financiamento: determinadas investigações podem ser patrocinadas porque interessam e outras não. A escolha dos modelos e teorias científicas pode ser orientada por critérios estéticos enraizados na respetiva tradição cultural. O cientista move-se num determinado contexto histórico e cultural: a sua atividade é situada e interessada. Mas ele tem necessariamente incorporada a “objetividade” no seu sistema de valores.
  67. 67. PROBLEMA DA OBJETIVIDADE Será que a ciência representa uma leitura objetiva dos factos? Será que a ciência é apenas uma leitura que reflete as crenças dos cientistas? A ciência obedece a determinadas regras, aplica métodos de pesquisa e critérios racionais de escolha e validação de teorias. A ciência é apenas uma leitura que reflete aquilo que os cientistas, integrados numa comunidade científica, pensam, os seus valores e as suas crenças.
  68. 68. Respostas de Popper e Kuhn ao problema da objetividade Mas as teorias científicas, sendo corroboradas, correspondem a uma leitura objetiva da realidade. Destaca o papel que os cientistas, inseridos na comunidade científica, partilhando valores e crenças, têm sobre a construção do conhecimento. O cientista é um sujeito ativo, criativo e crítico, mas comprometido com ideias, valores e princípios que funcionam como um quadro teórico de referência. A ciência e o conhecimento que dela resulta só podem ser compreendidos em função do paradigma que orienta a atividade científica. Rejeita o critério falsificacionista O cientista não põe em causa o paradigma, a não ser num período de crise, se se esgotarem todas as possibilidades de o paradigma responder a anomalias persistentes. Uma teoria objetiva propõe uma explicação dos fenómenos que pode ser confrontada com a experiência, sendo falsificável e testável universalmente. POPPER KUHN
  69. 69. O conheciment o científico é objetivo? O conhecimento científico não se confunde com o sujeito que o produz; é independente do sujeito e do contexto. A validação das teorias obedece ao critério da falsificabilidade, que garante a cientificidade. O conteúdo das teorias ou conjeturas, obedecendo a princípios lógicos, garante o rigor e a objetividade com que o conhecimento científico descreve e explica a realidade. A ciência é conjetural, ela não atinge a verdade; aproxima-se da verdade. A verdade é a meta da ciência (verdade como correspondência aos factos). Tanto Popper como Kuhn compreendem que a ciência não é o tipo de conhecimento absolutamente certo e indubitável. Segundo Popper, a ciência evolui progressivamente em direção à verdade, através da eliminação de erros ou da refutação de teorias; para Kuhn, ela evolui dentro de cada paradigma e também nas mudanças de paradigma. No entanto, não podemos dizer que se aproxima da verdade. O conhecimento é dependente do sujeito integrado numa comunidade científica. A escolha e avaliação das teorias dependem de fatores objetivos e subjetivos. A verdade é relativa ao paradigma vigente; só pode ser entendida dentro dos limites que ele impõe. A verdade é definida no interior de cada paradigma. Com a mudança de paradigma, não podemos dizer que nos aproximamos da verdade. POPPE R KUHN
  70. 70. Noções tradicionalmente associadas: NeutralidadeObjetividade Verdade certa, necessária e universal Demonstração As correntes positivista e neopositivista atribuíram à ciência o estatuto de conhecimento verdadeiro e objetivo. RACIONALIDADE CIENTÍFICA A matéria do trabalho científico – os factos – é suscetível de uma descrição exata e de uma explicação rigorosa. A objetividade científica é assegurada pelo rigor da medição e da matematização. A verdade a que a ciência chega é indubitável.
  71. 71. Cientista (imagem tradicional) isolado do mundo perfeitamente objetivo e imparcial nas suas conclusões puramente racional Esta imagem demarcava a racionalidade científica de outras atividades racionais. Fez da ciência o modelo cultural por excelência. Este modo de entender a ciência deu origem ao chamado mito do CIENTISMO Uma espécie de nova religião, com a sua ideologia própria. O cientismo leva o grande público a depositar na ciência toda a sua confiança e esperança, mesmo sem compreender muitas das suas teorias.
  72. 72. Evolução da ciência moderna para a ciência pós-moderna (associada à teoria da relatividade de Einstein e ao princípio da incerteza de Heisenberg). Esgotamento da conceção positivista e neopositivista de ciência. A ciência desviou-se do modelo de conhecimento certo, absolutamente objetivo e verdadeiro. Redefinição da racionalidade científica e das suas principais noções: O cientista não apresenta uma racionalidade pura e neutral. Não existe uma verdade absolutamente certa, universal e necessária. A objetividade passa a ser entendida como intersubjetividade. A sua racionalidade é condicionada e relativa à sua circunstância histórica, cultural, social, económica e psicológica. Existem apenas verdades dependentes dos diferentes quadros paradigmáticos em que são produzidas e/ou teorias mais ou menos verosímeis e mais ou menos plausíveis. As teorias científicas estão dependentes da aceitação dos pares constituintes de uma comunidade científica.
  73. 73. Perde o carácter de modelo de todas as outras formas de racionalidade. O conhecimento científico é um dos modos possíveis de ler e interpretar o real. Contém o risco do erro, inerente a todas as leituras e interpretações da realidade. RACIONALIDADE CIENTÍFICA Conhecimento Não é o reflexo do real. É uma interpretação e leitura do real.

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