Guerrilha de Porecatu: a resistência camponesa na colonização do norte do
Paraná1
Osvaldo Heller da Silva
Emanuel Menim
Um...
classe”.
Ao bancar o aprendiz de feiticeiro, o PCB, até então confinado ao espaço
urbano, conseguiu penetrar nos sertões d...
profissionais dessa prática:
Malandros vindos de outros estados entram em fazendas, arbitrariamente, e
ali se localizam. A...
fim de solucionar o problema comum – a ausência de medidas concretas para a
obtenção do título de propriedade –, eles reso...
Eu era proprietário do lote 17 [...] com 66 alqueires. Cheguei ali no dia 1º de
setembro de 1942. Há um ano e oito meses o...
Os comunistas no centro da batalha
As relações iniciais entre posseiros e comunistas foram estabelecidas por meio
de conve...
escolha não era nada mais do que uma consequência prática da virada à esquerda,
conduzida pelos comunistas para combater o...
fazendeiros, as decisões do governo, os movimentos das tropas e ainda as novas ordens
dos dirigentes. O grupo era também c...
Em Londrina o jornal O Momento era editado, assim como todos os panfletos e
impressos necessários para os rebeldes. Aí mor...
em que ganhavam mais confiança, os rebeldes passavam à ofensiva mais ampla. O
objetivo era controlar a região. Daí a imple...
Essa medida foi percebida por muitos dirigentes comunistas locais como uma
ingerência externa. Mesmo que se admita que Cel...
Polícia Militar e até da Aeronáutica chegaram de todos os cantos do Paraná e de São
Paulo e ocuparam as cidades da região....
comandadas diretamente pelo coronel Albino Silva. O surpreendente foi que, como por
milagre, ele não encontrou nenhuma res...
agosto de 1951, dos 15 principais acusados no inquérito policial em Porecatu, ninguém
havia sido preso, com exceção de Cel...
presentes na região, podemos deduzir que muitos dentre eles, talvez milhares, não
receberam terra alguma. Então, para além...
ele „constata com alegria, que o problema está sendo conduzido pelas
autoridades com espírito de justiça e de humanidade e...
Graças aos estudos mais recentes sobre o conflito de Porecatu, foi possível
lançar luz sobre o fenômeno das ligas campones...
deliberação), uma diretoria, a contribuição financeira de seus associados e eleições
periódicas. Um lavrador, no entanto, ...
propagandista, mesmo oportunista, em relação ao meio rural, posição que tinha adotado
desde sua fundação, 20 anos antes. C...
ligas desde 1951 e também sobre o seu eventual desaparecimento. Provavelmente, a
repressão do movimento em Porecatu − com ...
apud LOPES, 1982; NASCIMENTO, 1962).
Outros comunistas não tiveram a mesma apreciação dos fatos. João Saldanha
mostrou-se ...
político do Paraná era monocórdio: uma sucessão infindável de brigas de famílias entre
os grupos políticos hegemônicos – f...
dotado de uma representação política, o PCB assentou a primeira pedra na edificação de
um novo espaço de luta social. A se...
BOURDIEU, Pierre. La représentation politique : eléments pour une théorie do champ
politique. Actes de la Recherche en Sci...
Paraná. 1982. 241 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política)–Universidade de São
Paulo, São Paulo, 1982.
MARTINS, José ...
SILVA, Osvaldo Heller da. A foice e a cruz: comunistas e católicos na história do
sindicalismo dos trabalhadores rurais do...
BARROS, Herculano Alves de. 1a. Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada.
Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito...
LIGA CAMPONESA DE CENTENÁRIO. A todos os colonos e volantes! [S.l.: s.n.,
s.d.]. (Panfleto).
LIGAS CAMPONESAS, COMMISSÕES ...
ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de
Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS).
...
Próximos SlideShares
Carregando em…5
×

Guerrilha de Porecatu

821 visualizações

Publicada em

Guerrilha de Porecatu

Publicada em: Educação
0 comentários
1 gostou
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
821
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
10
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
0
Comentários
0
Gostaram
1
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Guerrilha de Porecatu

  1. 1. Guerrilha de Porecatu: a resistência camponesa na colonização do norte do Paraná1 Osvaldo Heller da Silva Emanuel Menim Um conflito em gestação Do final dos anos 1940 ao início dos anos 50, o até então pacato município de Porecatu e seus arredores foram sacudidos por violentos conflitos sociais. Afrontavam- se, de um lado, fazendeiros, grileiros e seus jagunços apoiados por forças policiais dos estados do Paraná e de São Paulo; e de outro, camponeses posseiros, secundados por militantes comunistas. As hostilidades começaram quando o governo paranaense doou a grandes proprietários terras que já estavam ocupadas por posseiros. Alguns camponeses, encorajados pelo então Partido Comunista do Brasil (PCB), resistiram a essa decisão governamental. Dos enfrentamentos resultaram mortos e feridos. Com razão, o jornalista Pedro Felismino, do jornal Folha de Londrina, na data de 14 de julho de 1985, observou que esses combates, apesar da amnésia da historiografia oficial, traduzem uma importante fase da colonização do norte do Paraná, constituindo-se em um conflito armado sem precedentes na história do estado. A guerrilha de Porecatu inaugurou uma sequência de lutas sociais que eclodiram em diferentes áreas rurais brasileiras, ao longo da década de 1950. Esses conflitos no norte do Paraná, eventos de repercussão nacional, certamente foram tomados como referência ou como exemplo – a ser seguido ou não – por vários outros, em diferentes pontos do país. O PCB escolheu Porecatu para testar, na prática, sua virada ultra esquerdista, expressa no Manifesto de Agosto de 1950. Mediante palavras de ordem de enfrentamento direto ao aparelho de Estado e às oligarquias rurais, os comunistas lançaram um balão de ensaio de luta armada no campo. Provavelmente inspirado nas táticas de guerrilha utilizadas por Mao Tsé-Tung, o Partidão, pela primeira vez no Brasil, preparou e empurrou os camponeses ao combate aberto contra seus “inimigos de 1 Este texto foi elaborado, com modificações, a partir de um capítulo do livro de Osvaldo Heller da Silva, A foice e a cruz: comunistas e católicos na história do sindicalismo dos trabalhadores rurais do Paraná (Rosa de Bassi, 2006).
  2. 2. classe”. Ao bancar o aprendiz de feiticeiro, o PCB, até então confinado ao espaço urbano, conseguiu penetrar nos sertões do norte do Paraná. Ao protagonizar o movimento armado de Porecatu, o partido ensaiou a constituição de organizações rurais com características associativas: as “ligas camponesas” do Paraná. De uma forma inédita, um ator político tentava enquadrar o campesinato desse estado. Essas organizações protossindicais, criadas pelos comunistas em diferentes pontos do território nacional, mais tarde transmitiriam a sua herança às famosas ligas camponesas do Nordeste e, em que pesem a forte oposição e repressão encontradas, as sementes da organização partidária comunista e da organização sindical germinaram nesse solo fértil. As terras disputadas na região dos municípios de Jaguapitã e de Porecatu faziam parte de uma concessão muito antiga, que o governo do estado do Paraná havia feito em favor da Companhia Colonizadora Alves de Almeida & Irmãos, sem que nenhuma obra de colonização tivesse sido efetivamente realizada. Por volta de 1942, o governador Manoel Ribas anulou essa concessão, loteando as terras para vendê-las a preços módicos para lavradores. Na realidade, o poder público lançou uma campanha cujo objetivo era atrair mão de obra de outros estados, visando ao desmatamento e à colonização de, aproximadamente, 120 mil hectares de terras da União. Em consequência, lavradores vindos de vários lugares, tanto aqueles que compraram seus lotes, quanto aqueles que simplesmente os ocuparam, foram atraídos para a região. Essa política do governo atraiu uma multidão de pessoas para a região. Segundo dados apresentados por Oikawa (2011), em 1940, eles eram 300 posseiros e, em 1951, no auge do conflito, já somavam cerca de 3 mil pessoas. No início, as terras eram abundantes, os lavradores podiam instalar-se, cultivar suas roças, alguns chegaram até a prosperar (WESTPHALEN, 1968). Porém, tais facilidades não duraram muito. Os anos passaram sem que o governo legalizasse as terras dos posseiros. A insatisfação aumentou e cresceu ainda mais sob a pressão de acontecimentos mais amplos. O aumento dos preços do café no mercado internacional, o descobrimento das qualidades fitoedáficas excepcionais das terras setentrionais do Paraná, superiores a qualquer região do país, acabaram por desencadear um afluxo de posseiros, vindos de todos os confins do Brasil, seduzidos pelo novo Eldorado. Mas isso provocou, paralelamente, a corrida para a região de fazendeiros, proprietários de terras e especuladores de todo o tipo. Os lavradores eram muitas vezes acusados de terem montado uma espécie de indústria da invasão, que teria transformado os posseiros em
  3. 3. profissionais dessa prática: Malandros vindos de outros estados entram em fazendas, arbitrariamente, e ali se localizam. Alguns fazendo plantações, outros simples choupanas, com o objetivo de, mais tarde, obter grossa indenização. Umas vez indenizados pelos proprietários, saem e vão intrusar outras fazendas, constituindo, assim, verdadeiro comércio ilícito e altamente lucrativo com a „intrusagem‟. (DIÁRIO DA TARDE, 22 jun. 1951). Estavam, portanto, reunidas as condições favoráveis para a eclosão de um conflito fundiário. À primeira vista, a luta social teria surgido das diferenças de interesses entre posseiros e fazendeiros. Entretanto, não se pode resumi-la a uma disputa pela terra entre camponeses e grandes proprietários, ainda que esse seja o centro do problema. O conflito se deu em torno de questões bem mais complexas: de um lado, posseiros, empurrados por militantes e instâncias do PCB, que desejavam se envolver no caso; de outro lado, fazendeiros, circundados por jagunços e pistoleiros, pelo aparelho do Estado – o governo federal, os sucessivos governos estaduais, as autoridades locais e os militares –; todos, em graus diferentes, tinham vontade ou alegavam necessidade de intervir. Por fim, o último protagonista do conflito: a imprensa – na maioria das vezes pronta a servir aos grupos dominantes –, que desempenhou muito mais um papel na formação da opinião do que na informação ao público. Cada um desses agentes tinha interesses econômicos imediatos e projetos políticos em longo prazo. Nessa atmosfera política tensa, conforme será visto, o Partido Comunista foi quem melhor compreendeu as peculiaridades da situação. Efetivamente, soube transformar um conflito fundiário, banal nos sertões brasileiros, em uma experiência ímpar de guerrilha rural. Com esse propósito, o partido tomou todas as disposições necessárias a intervenções rápidas e eficazes, tornando-se o agente mais ativo ao longo dos acontecimentos. Vale notar que o conflito eclodiu no perímetro formado pelos municípios de Jaguapitã, Guaraci, Centenário do Sul e Porecatu, localizados na região central do norte do Paraná, limítrofe ao estado de São Paulo. O epicentro da revolta situou-se em Porecatu, na área do “grilo” conhecida por Barra do Tibagi. A área media, aproximadamente, 4.000 hectares, estando delimitada pelos rios Paranapanema, Centenário e Ribeirão do Tenente e a rodovia Porecatu-Centenário do Sul (LOPES, 1982). Em 1944, os lavradores perderam a paciência pelo mutismo governamental. A
  4. 4. fim de solucionar o problema comum – a ausência de medidas concretas para a obtenção do título de propriedade –, eles resolveram se unir. Em Porecatu e em Guaraci, mais de 500 famílias de posseiros reuniram-se e, segundo as diretivas do Partido Comunista do Brasil, elegeram seus representantes. Já era perceptível “a ingerência ainda um pouco tímida” do PCB, sobretudo dos simpatizantes de Jaguapitã, nessas primeiras tentativas de mobilização dos lavradores. Entre os porta-vozes escolhidos, somente um não chegou a tornar-se membro do Partidão. Nomeando representantes, os agricultores procuravam ultrapassar a condição de posseiro isolado, disperso e atomizado, para alcançar o nível de grupo objetivado, isto é, de grupo político que deseja ser ouvido. Desde o início, os posseiros dotaram-se de mediadores influentes. Assim, um de seus representantes foi para o Rio de Janeiro, então capital do país, a fim de solicitar a intervenção favorável do presidente da República. Infelizmente, para eles, essa ação não obteve resultado imediato. Em 1945, o destino dos posseiros tornou-se ainda mais incerto: Manoel Ribas foi substituído por Moysés Lupion no governo do estado. Até então, os lavradores tinham como garantia apenas a palavra de Manoel Ribas e os documentos – pouco confiáveis – de demanda do título de propriedade à Comissão Mista de Terras, órgão do governo do estado encarregado de assuntos fundiários. Mas, com o novo governador, os posseiros já não estavam certos de que o compromisso assumido por Manoel Ribas seria respeitado, ainda mais se considerando que Moysés Lupion pertencia a uma tendência política diferente daquela de seu antecessor. O primeiro era do Partido Social Democrático (PSD), e o segundo, da União Democrática Nacional (UDN). Além disso, à medida que o interesse sobre o território aumentava, os preços das terras subiam e o mercado do setor se aquecia, favorecendo a agiotagem e a corrupção. Segundo comentários da época, o governador Moysés Lupion teria vendido “até o quinto andar” das terras do Paraná, e alguns funcionários teriam transformado o Departamento de Terras e Colonização em autêntico balcão para enriquecimento pessoal. Assim, os grupos que viviam à sombra do governo tinham o poder de mudar a geografia, falsificando mapas e documentos. Essas elites demandavam grandes extensões de terras devolutas, porém já ocupadas, desmatadas e exploradas por posseiros, que aguardavam o título de propriedade. Ora, as plantações mantidas pelos lavradores atiçavam a cupidez do pessoal da Rua Quinze, a avenida dos negócios da capital, Curitiba. O posseiro Izidro Garcia assim descreveu a desapropriação que sofreu:
  5. 5. Eu era proprietário do lote 17 [...] com 66 alqueires. Cheguei ali no dia 1º de setembro de 1942. Há um ano e oito meses o senhor José Climácio, com a proteção do governo Lupion, tomou o lote 17 e entregou-me o 19. Ora, acontece que este lote 19 era imaginário, ele media 22 alqueires e ficava sobre meu próprio terreno. Pois bem, agora também esses 22 alqueires esse sujeito me tirou. Não esperando mais pela promessa de ação imparcial do governo do estado, os posseiros pegaram em armas para defender aquilo que consideravam como seu por direito. Inevitavelmente, os conflitos começaram. Segundo Manoel Jacinto – liderança do PCB em Londrina –, desde 1945, o município de Guaraci foi sede das primeiras lutas pela posse das terras e lugar da organização inicial dos posseiros, cujo objetivo era combater a desapropriação, permanecendo nos lotes de terra. Durante muitos dias, 1.500 posseiros armados reuniram-se para reivindicar a legalização de suas posses. Eles conseguiram, com muitas dificuldades, reunir os lavradores para conhecer a opinião de cada um e saber se queriam ou não permanecer nas terras: “a maioria queria, e surgiu a luta” (WESTPHALEN, 1968) Um dos conflitos mais graves, que marcou o início dos acontecimentos, deu-se na posse dos Billar. Até aquele dia, a família Billar pagava regularmente os impostos, confiando na palavra das autoridades, esperando a regularização de seu direito à propriedade. Eles viviam “no reino de Deus”, como dizia Antônia Billar, a “mãezona” do grupo. Mas, em um dia de 1947, a polícia de Porecatu chegou para visitá-los: Chefiados pelo capitão Eusébio [...] eram doze homens. Eles bateram nas nossas filhas, espancaram nossos filhos - e prenderam eles em Porecatu. Meu velho foi chamado alguns dias mais tarde pelo juiz Luiz Carlos Valente [...]. Aí falaram que, se ele quisesse ver seus filhos livres - e isto foi dito com a ameaça dos fuzis - devia assinar uma declaração de renúncia às terras em troco de CR$ 18.000. [...] Mas o proprietário não quis pagar. Foi quando o José disse, então, que naquelas condições, só sairia dali morto. E ficamos na terra. (O CRUZEIRO, 14 jun. 1951). Depois de terem todas as suas tentativas de conciliação frustradas e devido às agressões sofridas, os posseiros reagiram. Dias mais tarde, os Billar, armados de escopetas, impediram os trabalhadores contratados pelos fazendeiros de desmatar a sua posse. Em seguida, essas iniciativas se tornaram corriqueiras e, aos poucos, foram se formando bandos armados, resistindo em suas posses.
  6. 6. Os comunistas no centro da batalha As relações iniciais entre posseiros e comunistas foram estabelecidas por meio de conversas, primeiramente ocasionais, com os militantes de Jaguapitã. Em 1947, segundo Manoel Jacinto, o PCB foi contatado pelos posseiros, fato que deixa subentendido que foram os camponeses que tomaram a iniciativa de ir à procura do partido, e não o contrário. Em seguida, o Comitê Municipal do PCB de Londrina e a Comissão Executiva do Paraná – por intermédio de Manoel Jacinto, enviado ao local – tomaram conhecimento da situação dos lavradores, sem, no entanto, intervir diretamente no conflito. Até aí, a ação dos comunistas resumia-se à fraca participação de alguns militantes locais. Após uma série de contatos preliminares, os dirigentes do Partidão tomaram a decisão de atuar mais efetivamente em apoio aos lavradores que resistiam no norte do Paraná. Mais que isso, como direção revolucionária das massas, o Partido Comunista visou a tomar a frente da mobilização. Não se tratava, portanto, de levar-lhes um apoio desinteressado, desempenhando um papel secundário. Os comunistas queriam liderar a ação. Em um ambiente político hostil às esquerdas e largamente dominado pelos conservadores, os comunistas eram socialmente malvistos e percebidos como indesejáveis e intrusos. No entanto, apesar de todo o preconceito de uma ideologia anticomunista em gestação, os posseiros se mostraram receptivos ao apoio do Partidão. Esses lavradores desconfiavam das autoridades públicas, enfrentavam uma marginalização política perante as instituições tradicionais e estavam sem esperança em relação ao futuro. Naquele momento, os militantes comunistas apareceram como os portadores de uma possibilidade de mudança, talvez de um futuro melhor. Contestando a ordem estabelecida e os dogmas oficiais, opondo uma representação do mundo social contrária à representação instituída, os militantes se apresentavam como os “profetas” anunciadores de uma nova ordem (BOURDIEU, 1974, 1981). Em novembro de 1948, após algumas reuniões e discussões, foi proposta pelo Partidão a constituição de bandos armados, “para tomarem a terra à força” e resistirem ao governo, “si possível fosse”. Dessa forma, foi adotada a luta armada, e aqueles lavradores do norte do Paraná tornaram-se camponeses rebeldes, preparados, armados e organizados pelos militantes do partido. Essa decisão audaz era surpreendente por parte do PCB, cujo exercício político fora relativamente moderado até então. No entanto, essa
  7. 7. escolha não era nada mais do que uma consequência prática da virada à esquerda, conduzida pelos comunistas para combater o que acreditavam ser o governo de traição nacional em um contexto de guerra fria. Uma das primeiras medidas dos rebeldes foi constituir duas equipes para realizar ações táticas. Essas equipes eram compostas por 12 homens, em média, liderados por Hilário Gonçalves Padilha Filho, vulgo Itagiba, e por Arildo Gajardone, conhecido por Strogoff. Um sinal revelador da liderança comunista do movimento é que, desde a constituição dos grupos, os dois chefes já tinham um status de quadros do partido. Os grupos estavam divididos em acampamentos de tipo militar, instalados na mata. Graças à experiência adquirida no exército por parte de alguns de seus membros e à própria estrutura rígida do PCB, o bando de rebeldes apresentava disciplina de ação e estrutura hierarquizada militarmente, agindo de forma centralizada. Os posseiros foram submetidos à dura preparação física, pois, às vezes, eram obrigados a marchar durante um dia e uma noite, cerca de 80 km, quando estavam cercados pela polícia. Algumas sessões de tiro foram também organizadas. Podemos dizer que os camponeses comandados pelo Partidão estavam bem armados. No início, cada novo adepto trazia o seu material de caça, geralmente uma espingarda Winchester. Mais tarde, à medida que o movimento se organizava, os camponeses recebiam diretamente armas de qualidade bem superior fornecidas pelo PCB de Londrina, de Curitiba e mesmo de Presidente Prudente, no estado de São Paulo (CHILCOTE, 1982). Durante um ano, os militantes do Partidão efetuaram um levantamento topográfico da região. Apesar das dificuldades que enfrentaram, souberam identificar os pontos estratégicos, que podiam servir de quartel-general, os locais que podiam oferecer uma resistência à polícia e aos jagunços e as trilhas secretas que permitiam a ligação entre os QG. De fato, José Ortiz, membro do partido, especialista em armas, chegou a Porecatu com o único objetivo de cumprir esta missão: organizar o sistema de defesa e os acampamentos. Graças ainda à habilidade de Ortiz, foi instalado um sistema eficaz de informação e comunicação entre os rebeldes no sertão e os militantes e os organismos do partido na cidade. Era “o SNI da pequena Coreia”, constituído por antigos posseiros, já idosos, que não despertavam suspeitas da polícia. Discretamente, nos bares, eles fumavam o seu palheiro, tomavam a sua pinga e escutavam atentos todas as conversas. E depois, eles passavam as informações. Dessa forma, o grupo rebelde sabia sempre o que acontecia em Porecatu, em Londrina e nos demais lugares: as reações dos
  8. 8. fazendeiros, as decisões do governo, os movimentos das tropas e ainda as novas ordens dos dirigentes. O grupo era também constantemente abastecido com medicamentos, alimentos, armas e roupas e informado sobre as notícias na imprensa e, sem dúvida, sobre a propaganda do partido. Londrina: a base logística O apoio essencial dos rebeldes encontrava-se em Londrina, pólo econômico e político do Paraná setentrional, cidade onde o Partidão apresentava um enraizamento significativo, sobretudo na classe média urbana. Graças ao prestígio do médico Newton Câmara, o partido havia conquistado respeitabilidade tanto na área de saúde quanto entre as elites locais. Conhecido, reconhecido e proclamado como o chefe do PCB dessa região, Newton Câmara era considerado por toda a imprensa como o responsável principal dos acontecimentos correntes. Além disso, o trabalho de apoio jurídico, prestado pelo advogado Flávio Ribeiro, oferecia-lhe um acesso privilegiado aos trabalhadores. Redator do Jornal do Povo, o advogado organizava reuniões com os lavradores simpatizantes do partido. Nessa época, o partido difundia a sua doutrina por meio do seu jornal local, O Momento – sendo seu secretário o discreto Nelson Galvão – e por meio de jornais comunistas vindos do resto do país. Igualmente discreto, o jornalista João Saldanha foi empregado, em Londrina, na sede local do semanário Hoje, editado pelo PCB de São Paulo. Mais que isso, Saldanha era o homem de ligação entre o norte do Paraná e o Comitê Central do Partidão. Enfim, os comunistas contavam com a tribuna da Câmara de Vereadores, na pessoa de Manoel Jacinto, eleito em 1947 pelo Partido Trabalhista Nacional (PTN). Estando na clandestinidade, o PCB tinha adotado a estratégia política de alçar seus quadros em cargos públicos, por meio de outro partido, um partido legal. Assim, o Partido Comunista conseguiu infiltrar-se de tal forma no PTN local, que o respectivo Comitê Municipal era quase que uma réplica do Comitê Regional daquele. Apesar de suas características marcadamente urbanas, nessa época o PCB de Londrina exercia uma intensa atividade de propaganda no meio rural. A partir desse trabalho obstinado, o partido pôde tomar contato com os posseiros de Porecatu desde o início da luta. Então, aos poucos, as ligações se fortaleceram, e o Comitê Regional tornou-se o principal fornecedor logístico e político dos combatentes na mata.
  9. 9. Em Londrina o jornal O Momento era editado, assim como todos os panfletos e impressos necessários para os rebeldes. Aí moravam e chegavam todas as figuras de proa, os cabeças do partido, como os famosos Agildo Barata e Gregório Bezerra, que, segundo algumas fontes, estavam presentes no teatro das operações. De Londrina, saíam também alguns emissários, como Manoel Jacinto, rumo à região insurgida. No outro sentido, os dirigentes dos posseiros vinham à cidade, para garantir a ligação. A força política responsável pelo impulso da luta de resistência dos posseiros foi, indubitavelmente, o Partido Comunista do Brasil; e a cidade de Londrina transformou-se no centro nervoso e irradiador da implantação do Partido Comunista no estado do Paraná, tornando-se mais importante, desse ponto de vista, do que a capital, Curitiba. Como escreveu um jornalista, Londrina tornou-se a matriz da crença vermelha. Os comunistas endurecem sua posição Na região do conflito, na medida em que a luta se espalhava, os rebeldes executavam operações sempre mais espetaculares, de tipo comando. A proibição do trabalho agrícola era uma tática utilizada amplamente. Eles impediam, sob ameaça das armas, toda atividade agrícola nas fazendas, como o plantio, o desmatamento, a capina, a colheita etc. Dessa forma, queriam mostrar sua força e organização, amedrontar os proprietários fundiários e seus jagunços e, enfim, fazerem-se ouvir. Na realidade, com o passar dos meses, o medo e o terror tornavam-se uma prática claramente utilizada pelos rebeldes para, ao mesmo tempo, desorientar e paralisar o adversário e infligir-lhe derrotas, e então ganhar cada vez mais a confiança dos posseiros. Em agosto de 1947, em consequência de uma ação desse gênero, ocorreu um violento combate em Guaraci, cujo saldo foi quatro mortos e incontáveis feridos. Em 1950, a direção nacional do PCB lançou o Manifesto de Agosto − aliás, muito controverso −, tendo, com isso, empreendido uma brusca guinada política à esquerda. Pregando a constituição de um exército popular de libertação nacional, esse programa revolucionário conclamava “todos os trabalhadores da cidade e da lavoura, braçais e intelectuais, homens e mulheres à ação e à luta”, para constituir uma “Frente Democrática de Libertação Nacional” (PCB, 1980). Respondendo positivamente ao Manifesto de Agosto, os camponeses liderados pelo PCB intensificaram suas ações beligerantes. Assim, invadiram a fazenda Centenário, expulsando o administrador, sua família e demais empregados. Na medida
  10. 10. em que ganhavam mais confiança, os rebeldes passavam à ofensiva mais ampla. O objetivo era controlar a região. Daí a implementação de uma tática de ação bem peculiar e original por parte dos posseiros. Um dos chefes rebeldes, Strogoff, cercou a sede da fazenda e, acompanhado apenas de Hilarinho e Lazão, todos armados, apresentou-se dizendo que no mato havia mais de 150 homens aguardando ordem para atacar. Invariavelmente Strogoff ordenava a seus homens, bem espalhados, que atirassem para o alto seguidamente, o que de fato dava a impressão de serem dezenas de combatentes [...] bastava três homens surgirem num descampado para intimidar até mesmo 60 trabalhadores... Cenas de violência sucederam-se até o dia 10 de outubro de 1950, quando aconteceu o mais grave enfrentamento. As tropas militares, comandadas pelo tenente Paredes, chegaram para despejar os posseiros da fazenda Palmeira. Como resultado de três violentos combates, houve seis mortos − quatro posseiros, um garoto de 14 anos e um jagunço, guia da tropa militar − e entre seis e oito feridos, alguns muito gravemente. Depois desse dia, as forças policiais começaram a ter medo de entrar nas posses. Nos povoados, como o de Vila Progresso, os rebeldes podiam até passear pelas ruas, indiferentes, sem risco de enfrentar os militares. Como consequência, mais de 20 soldados desertaram – inclusive o tenente João André Paredes. Uns “covardes”, segundo os rebeldes. Paralelamente, os jagunços começaram a abandonar a região, sobretudo após a eliminação do impiedoso José Celestino, lendário pistoleiro contratado pelos Lunardelli. Os comunistas reforçavam suas posições. Em dezembro de 1950, o Comitê Central, no Rio de Janeiro, quis estudar a situação mais de perto. Enviou Celso Cabral de Mello, quadro do PCB, para o norte do Paraná, a fim de preparar um relatório sobre a questão. Em 15 dias, ele coletou os dados para o Comitê Central. Em consequência, a direção do partido decidiu intervir diretamente e, para tanto, enviou novamente “o homem do CC” − como foi chamado pelos posseiros − para a região (CHILCOTE, 1982). Segundo João Saldanha, a decisão de enviá-lo ao Paraná veio de Luiz Carlos Prestes, que na época representava uma tendência esquerdista no seio do Comitê Central. No dia 20 de fevereiro de 1951, depois do carnaval, Celso Mello voltou a Porecatu, mas, dessa vez, de forma definitiva a fim de assumir o comando geral das operações. Paralelamente às suas tarefas de direção, dava cursos de guerrilha, de autodefesa, sobre explosivos e ainda garantia a ligação entre a cidade e o campo.
  11. 11. Essa medida foi percebida por muitos dirigentes comunistas locais como uma ingerência externa. Mesmo que se admita que Celso Mello teve uma grande ascendência sobre todo o pessoal na mata, mais tarde ele foi duramente criticado pelos comunistas de então. Manoel Jacinto expressou suas queixas: Ele abandonava sua tarefa lá no mato e vinha para os prostíbulos em Londrina, gastar todo o dinheiro adquirido com tanto sacrifício. Ele se julgava acima de todos nós, [...] me chamava de caboclo provinciano [...] violou os estatutos segundo os quais ninguém poderia sair do acampamento. Com isso, alguns elementos saíam dos Q.Gs. para beber pinga [...]. Houve então um desmoronamento, um relaxamento, uma indisciplina imposta por este elemento do Comitê Central [...]. [No Rio de Janeiro] eles achavam que nós, crioulos da região, os pernas de pau, não éramos capazes de nada, por isso mandaram aquele sujeito que era o „tal‟, completamente ignorante no trato com os camponeses e que aqui fez a sua lei, indispondo-se, inclusive, contra nós, que tínhamos outras intenções na luta. (FOLHA DE LONDRINA, 23 e 27. jul. 1985). Apesar das querelas entre comunistas, o dirigente conseguiu dar um ritmo novo à ação dos camponeses rebeldes. Assim, a proibição do trabalho, as invasões das fazendas, as ameaças, os métodos de persuasão e as demais táticas mais ou menos violentas multiplicaram-se consideravelmente. A caçada final A conjunção de vários fatores acabou empurrando o governo do Paraná a prescrever o tratamento profilático tradicionalmente utilizado: o uso puro e simples da força. A existência de um território, dentro do estado, praticamente sob controle de um grupo de camponeses filiados ao Partido Comunista, amplificado pela publicidade que lhe foi dada, tornou-se intolerável aos olhos da administração pública. No início, o governo ensaiou métodos pacíficos para solucionar o conflito: decreto de desapropriação, formação de uma comissão de mais alto nível, tentativa de acordo com os posseiros etc. As bases regionais do partido do governo, a grande imprensa e as autoridades de Porecatu cobravam de Bento Munhoz uma solução urgente ao conflito, porque a situação era muito feia e havia riscos de calamidade. Por sua vez, não podendo mais cumprir com seu mandato, o presidente da Comissão de Terras pediu ajuda para o chefe da polícia do Paraná. Assim, no dia 1º de junho de 1951, o governo do Paraná desencadeou uma grande operação militar, cercando inteiramente o perímetro sublevado. Tropas da
  12. 12. Polícia Militar e até da Aeronáutica chegaram de todos os cantos do Paraná e de São Paulo e ocuparam as cidades da região. Ergueram-se barreiras em todas as estradas. O secretário de Segurança Pública de São Paulo bloqueou a fronteira do Paraná para impedir a fuga dos grupos armados. No dia 20 de junho, o coronel Albino Silva, chefe da polícia do Paraná, acompanhado pelo comandante Hugo Bethlem, diretor de Segurança Política e Social do Rio de Janeiro, chegou a Porecatu para pessoalmente dirigir as operações. A fim de constituir um cerco completo, visando especialmente à cidade de Londrina – ponto estratégico da logística −, o comissário especial da Delegacia de Ordem Política e Social (DOPS) de São Paulo, Louzada da Rocha, foi deslocado para a região junto com uma dúzia de agentes. Em uma operação policial bem-sucedida, de um só golpe, todos os dirigentes do partido em Londrina foram presos, sem mandado judicial. Eram tantos que a polícia teve que utilizar um ônibus para levá-los à prisão. Lá, foram amontoados como uns porcos. Permaneceram 15 dias sequestrados, incomunicáveis, sofrendo humilhações. O inquérito policial que deveria buscar as provas criminais a partir das quais o juiz poderia expedir os mandados de prisão, bizarramente começou quatro dias mais tarde. Com o mandado judicial, as prisões dos comunistas foram “legalizadas”. Segundo um chefe da polícia, eles tiveram que agir precipitadamente porque estimavam que esse seria “um risco que valia a pena correr”. Mas o governo falava apenas em três ou quatro capturas, como medida preventiva. O sequestro de cidadãos democráticos, de pessoas honestas e prezadas, a invasão de seus lares, enfim, esse crime contra a democracia e os direitos do cidadão foi, evidentemente, objeto de grandes protestos por parte dos comunistas. Mais do que um sério revés para o movimento rebelde, foi o golpe mortal. Desde então, os camponeses e seus companheiros comunistas de Porecatu não só se encontravam isolados na mata, privados de seus chefes, mas também viram integralmente cortados os laços com o seu centro político-logístico. Foi o início do fim da resistência camponesa. Daí por diante, as forças da ordem controlaram plenamente a situação. Tinham o poder de decidir o momento em que os insurgidos, cercados em um canto da floresta e isolados do mundo, seriam caçados. O dia escolhido foi 21 de junho. Um comboio militar de mais de dez veículos se dirigiu rumo à Vila Progresso, espécie de república livre dos rebeldes. Pelo caminho, os posseiros tinham derrubado muitas árvores. Não adiantou nada. Ao meio-dia, o povoado-símbolo dos camponeses foi cercado pelas tropas,
  13. 13. comandadas diretamente pelo coronel Albino Silva. O surpreendente foi que, como por milagre, ele não encontrou nenhuma resistência. Satisfeito pelo êxito da operação, enviou imediatamente um telegrama ao governador Bento Munhoz. Um pouco mais tarde, todo o polígono do conflito estava cercado pelas forças policiais. A população local assistia passiva e impotente às manobras militares. Os testemunhos são unânimes: a população estava mergulhada no medo e no terror. Muitos deixaram a região. Alguns jornais insistiam que esse clima devia-se às ameaças dos posseiros e não à ocupação militar. A situação tornou-se verdadeiramente dramática para os posseiros e suas lideranças comunistas. Encurralados, isolados, também desgastados pelos meses passados na mata, aos poucos eles foram desistindo pelo cansaço de uma luta que, segundo entendiam, não levou a nada. Sobre essa terra maldita, vivendo como animais, esperando morrer ou serem mortos, eles não tinham muitas escolhas: ou enfrentar as tropas militares, continuando as ações de comando, o que seria talvez heróico, mas certamente suicida, ou procurar fugir o mais rapidamente possível. Na falta de um milagre, optaram pela segunda solução. Os posseiros, explica Manoel Jacinto, já não lutavam mais para manter suas áreas, mas para fugir da polícia [...]. Os homens mais idosos, sem forças, tiveram que ser arrastados e carregados nas costas e a primeira coisa que comeram foi uma abóbora podre, que dividiram entre si. Então, muitos deixaram as armas e sumiram, debandaram. (FOLHA DE LONDRINA, 27.jul. 1985). Pelo menos nessa empreitada, os resistentes alcançaram 100% de sucesso. Apesar de o cerco militar parecer total, os camponeses rebeldes encontraram uma saída. José Billar e Hilário Padilha foram os primeiros a deixar a luta armada. O jornalista Pedro Felismino afirmou que os posseiros dispunham de um plano militar de retirada para escapar. A eficácia do esquema e também a debilidade – talvez proposital – do cerco policial são, no mínimo, surpreendentes. Tudo leva a pensar que não houve um campo de batalha nem a menor resistência por parte dos rebeldes. Apesar disso, ironizando ou desconhecendo absolutamente o que havia acontecido, um jornal estampava a manchete: entrincheirados e fortemente armados os rebeldes ameaçavam as forças policiais”. Mais do que isso, ao contrário das fontes oficiais e oficiosas que difundiram a notícia da prisão de vários rebeldes (nove “agitadores” e José Sem Medo, “nove caboclos grevistas” ou, ainda, “14 detidos em Porecatu”), a prisão de quem quer que seja – sobretudo dos líderes – simplesmente não aconteceu. Na verdade, até 9 de
  14. 14. agosto de 1951, dos 15 principais acusados no inquérito policial em Porecatu, ninguém havia sido preso, com exceção de Celso Mello e Newton Câmara, capturados em Londrina. Somente dois rebeldes da base, Alcides Ferreira da Silva e Mario Verone, apresentaram-se “espontaneamente” à delegacia de polícia, mas não se sabe em que condições. Repentinamente, tornaram-se informantes e serviram às autoridades, fosse denunciando os recalcitrantes e suas ações, fosse guiando os agentes nas batidas policiais. Esses camponeses que o aparelho repressivo conseguiu cooptar desculparam- se, apresentando o pretexto de que foram enrolados e que, contra vontade, tinham aderido ao grupo. Fazendo-se de ingênuos, esses indivíduos procuraram se escapar de todas as responsabilidades relacionadas ao conflito. A imagem do posseiro manobrado pelos comunistas foi, aliás, muito bem aceita e reproduzida pela polícia e pela imprensa. Considerando que não se tratava dos dirigentes, a polícia não tinha qualquer interesse em incriminá-los. Ao mesmo tempo, essa imagem encaixava-se na representação social negativa dos comunistas, que as elites se esforçavam por instituir. Porém, é possível que, finalmente, em um clima de desespero e pânico, a coação física tenha sido utilizada no campo rebelde para conter a hemorragia das deserções. Aliviados, a mídia, o governo, os fazendeiros misericordiosos, em suma, todos os filantropos se alegraram pela ausência de sangue derramado, o “sangue generoso de brasileiros que tinham sido enganados”. A habilidade do coronel Albino Silva, “brilhante oficial”, tinha permitido um “trabalho limpo”. Com o mesmo entusiasmo, o Estado Maior das forças militares felicitou-se pelo desempenho. O presidente da República foi também mantido informado do êxito da operação de Porecatu. No entanto, em meio à harmonia geral, levantaram-se algumas vozes dissonantes, como a de José Hoffmann, deputado do Partido Trabalhista Brasileiro, que exigia explicações sobre os acontecimentos e ameaçava romper com a maioria governista. Afastados os rebeldes, a Comissão de Terras retomou suas atividades. Dando crédito aos informes oficiais do governo e às declarações oficiosas do PCB, o problema fundiário teria sido solucionado graças ao deslocamento e assentamento dos posseiros em uma outra região do Paraná. Segundo as autoridades, após o conflito, 380 famílias de posseiros, cerca de 1.520 pessoas, foram reassentadas. Segundo o Partido Comunista, o movimento foi vitorioso porque os posseiros ganharam seus lotes. De qualquer forma, comparando essas reações otimistas com as estimativas do número de posseiros
  15. 15. presentes na região, podemos deduzir que muitos dentre eles, talvez milhares, não receberam terra alguma. Então, para além dos desejos governamentais e comunistas, é muito provável que inúmeros lavradores não tenham sido beneficiados por essas medidas de reassentamento. Milhares de homens e mulheres continuaram vivendo na condição de posseiros, ocupando as terras de outros ou em litígio, reativando os conflitos e, mais recentemente, acampando à beira das estradas (COSTA, 1977; FERREIRA, 1984; WESTPHALEN, 1968). A polícia abriu inquéritos em Porecatu e em Londrina, acusando 16 e 9 pessoas, respectivamente. Contudo, a justiça não demonstrou muito zelo. O juiz de Londrina soltou imediatamente o médico Newton Câmara, considerado o principal culpado do processo judiciário de Londrina, animador da operação de apoio aos posseiros rebeldes. Alguns dias depois, todos os demais militantes do PCB de Londrina foram libertados. Por que tal complacência com os comunistas? Com certeza, o Partidão não era um partido que tinha a simpatia das elites locais. Ele guardava a sua independência em relação aos grupos dominantes. Mas, paralelamente, reparava-se sua dificuldade de penetração nas camadas populares. Nessa época, era antes de tudo um partido radical ligado às classes médias. No entanto, como já foi observado, o PCB do norte do Paraná, especialmente em Londrina, dispunha de um conjunto de quadros, proprietários de um capital acadêmico e de um capital social não desprezíveis. A condição de médico, advogado ou professor, em resumo, de profissional liberal, permitia a esses militantes comunistas serem aceitos não só no seio da população em geral, mas também entre as elites políticas. Os médicos, além do fácil acesso ao capital econômico, tendem a constituir um grupo de pressão poderoso e apresentar um corporativismo muito acentuado. Aliás, um comissário de polícia tinha reparado que a “camarilha criptocomunista” ligada ao poder havia se infiltrado no “meio respeitável dos médicos” de Londrina, de tal forma que tinha podido influenciar a apreciação judiciária. Em seguida, a polícia foi submetida a uma espécie de pressão moral, e o juiz local abreviou todas as prisões dos acusados. Na noite do dia 24 de agosto de 1951, o “capitão” Carlos, o apologista do Manifesto de Agosto, considerado como o mais importante dos acusados, escapou misteriosamente da cadeia de Porecatu, ainda que “fortemente vigiada”. Antes de sumir sem deixar pistas, revelou muita coisa à polícia. Surpreendente para um revolucionário da sua envergadura, ele pronunciou o seu mea-culpa no depoimento às autoridades:
  16. 16. ele „constata com alegria, que o problema está sendo conduzido pelas autoridades com espírito de justiça e de humanidade e está disposto a receber a punição que lhe cabe, se incidiu em alguma infração [...] que o partido havia ditado para a questão de Porecatu, não representava senão uma linha de interesse partidário [...] linha que reconhece errada que depois de madura reflexão, está disposto a abandonar. Esclarece ter prestado as presentes declarações de livre e espontânea vontade.‟ (MELLO, 1951). As delações feitas pelo temido homem do CC provocaram a ira de seus antigos camaradas. Manoel Jacinto, furioso, procurou por Celso Mello nas matas, a fim de que ele tivesse uma conversa com seus companheiros. Mas ele fugiu e voltou para o Rio e, curiosamente, nem a polícia nem os comunistas, ninguém jamais o reencontrou. Finalmente, no dia 29 de maio de 1953, foi pronunciada oficialmente a sentença a respeito dos principais acusados: Celso Mello, Hilarinho, Strogoff e os demais foram condenados, respectivamente, a penas de 14, 9, 7 e 3 anos de prisão (BANDEIRA, 1978). Mas, tão surpreendente quanto possa parecer, ninguém foi posto na cadeia. Esse desfecho inesperado do conflito não pode ser explicado senão pelas ligações que o PCB londrinense mantinha com certos setores das elites locais (MARTINS, 1986). As ligas camponesas do Paraná Quando se fala das ligas camponesas no Brasil, pensa-se automaticamente naquelas do nordeste, animadas pelo deputado socialista Francisco Julião (MARTINS, 1986; IANNI, 1979). Raramente se indicam que as ligas fundadas pelo PCB as antecederam, inclusive aquelas do nordeste. Ainda mais raras são as referências feitas sobre organizações semelhantes em outras regiões, notadamente as dos estados de São Paulo e do Paraná, também criadas pelos comunistas (ANDRADE, 1969; LOPES, 1982). Entre as organizações não mencionadas, ao final da década de 1940 e início de 50, assiste-se ao florescimento de ligas camponesas no interior do Paraná, antes daquelas de Julião. Muitas publicações editadas pelas ligas, vários documentos da polícia e de militantes do Partidão o confirmam. Os primeiros indícios das ligas camponesas no Paraná são de 1945, logo depois da legalização do partido. Em 1946, o PCB apontava que existiam três delas. Durante os acontecimentos de Porecatu, elas alcançaram seu apogeu, chegando ao número de 12. Mais tarde, em meados de 1951, uma vez findo o conflito, nunca mais se ouviu falar das ligas camponesas paranaenses.
  17. 17. Graças aos estudos mais recentes sobre o conflito de Porecatu, foi possível lançar luz sobre o fenômeno das ligas camponesas no Paraná. Ora, a estrutura inicial e mais importante para os rebeldes de Porecatu foi, como já realçado, a formação dos grupos armados. No entanto, em uma segunda etapa esses grupos armados foram organizados e/ou favoreceram a constituição das ligas camponesas. Um dos dirigentes dos posseiros de Porecatu fazia o seguinte apelo: “organizemo-nos em ligas camponesas e em comissões de reivindicação em todas as águas, fazendas e patrimônios!” Já os chefes comunistas de Londrina repetiam o leitmotiv: “os camponeses devem se organizar em ligas ou associações”. A formação das ligas camponesas era, portanto, uma estratégia política dos comunistas durante o conflito no norte do Paraná. Apesar de ser difícil discernir exatamente as fronteiras, as ligações e as tarefas particulares dos grupos armados de um lado e das ligas de outro, é possível, no entanto, detectar alguns traços específicos para estas últimas. Aparentemente, as ligas não praticavam a luta armada; eram organizações reivindicativas, que se batiam pelos camponeses “junto às autoridades municipais, estaduais e federais”. Todavia, durante a guerrilha de Porecatu, é possível que tenha havido alguma confusão ou fusão entre os grupos armados e as ligas. Por exemplo, em encontro da liga da Água do Monjolo, os participantes fizeram algumas intervenções enérgicas a favor da resistência por todos os meios contra os “ladrões de terra”. Segundo Hilário Pinha, depois de graves enfrentamentos entre policiais e posseiros, as ligas camponesas começaram a organizar, uma após a outra, várias emboscadas contra os soldados. Segundo seus princípios estatutários, as ligas tinham o objetivo de lutar pela melhoria das condições de vida da massa camponesa e pela elevação de seu nível educativo para lhes oferecer assistência social, econômica, jurídica e beneficente. Elas queriam reunir todos os camponeses, meeiros, terceiros, arrendatários, pequenos e médios sitiantes. As ligas não estavam interessadas nos assalariados agrícolas, cujas demandas eram julgadas como dotadas de outra natureza. Para essa categoria, em 1946, a direção do PCB estava estudando um projeto de estatuto específico. Em teoria, a adesão à liga era livre. Porém, as anotações de um militante comunista de Londrina revelam que os posseiros às vezes eram constrangidos a se integrar à liga: para ocupar uma posse na região controlada pelos combatentes, era preciso trazer uma carabina, aceitar as diretivas do comando e, evidentemente, aderir à liga camponesa local. Formalmente, essas organizações possuíam uma estrutura clássica de tipo democrático, funcionando com assembleias gerais (como órgão máximo de
  18. 18. deliberação), uma diretoria, a contribuição financeira de seus associados e eleições periódicas. Um lavrador, no entanto, tinha passado por uma experiência distinta na reunião de uma liga: Então, Strogoff falou que Mario Billar tinha sido escolhido como primeiro secretário [da liga], e que todos nós devíamos aprovar. Em seguida, para segundo secretário e outras coisas, até tesoureiro, ele falou que a companheira Zefa, filha do José Billar, tinha sido escolhida. (ALVES, 1951). As ligas se dedicavam a tarefas associativas, mesmo sindicais, de defesa dos interesses imediatos e das demandas da classe camponesa. No plano imediato, reclamavam para os assalariados uma remuneração melhor, férias remuneradas e oito horas de trabalho diário; para os colonos, também uma melhor remuneração, contrato de trabalho, direito de manter seus próprios cultivos e criações e liberdade de vender os seus produtos; para os trabalhadores por empreitada, um melhor contrato de trabalho; para os arrendatários, diminuição do preço do arrendamento e redução dos impostos; para os pequenos proprietários, isenção de impostos, crédito bancário acessível, garantia de preço para os produtos, redução do preço de compra dos implementos e estradas em boas condições; enfim, para todos os filiados, escolas de alfabetização e cursos de aperfeiçoamento para a mão de obra agrícola, transporte para os alunos mais jovens, habitação, cooperativas de produtores e de consumidores e também postos de saúde. No plano político, exigiam o reconhecimento e o direito de criar ligas, clubes ou comissões camponesas. Durante o conflito de Porecatu, lançaram um apelo de solidariedade aos posseiros, demandaram uma reforma agrária e a punição das autoridades, fazendeiros e jagunços envolvidos; encorajaram a resistência armada contra a expulsão das terras, alertaram contra as ilusões nas eleições governamentais, em suma, as ligas pediam pão, terra, paz e liberdade. Por fim, as ligas defendiam ações práticas de cooperação entre os associados, na produção, no trabalho de ajuda mútua e também nas atividades lúdicas, reuniões recreativas e esportivas, exceto os jogos de azar. Muitas razões explicam a aparição das ligas camponesas no estado do Paraná. A interpretação corrente seria o desinteresse até então do PCB pelas massas camponesas, sendo que somente nesse momento o partido resolveu implantar-se concretamente na região. Assim, a organização abandonou sua posição passiva, ideológica e
  19. 19. propagandista, mesmo oportunista, em relação ao meio rural, posição que tinha adotado desde sua fundação, 20 anos antes. Considerando que na época os dispositivos de legislação sindical excluíam os lavradores e trabalhadores rurais, os comunistas adotaram uma fórmula de enquadramento desses grupos sociais relativamente flexível e simples de ser constituída. Esta poderia ser aceita pelo Código Civil e então, teoricamente, poderia legalizar-se e legitimar-se socialmente (LOPES, 1982). Em tais condições, o norte do Paraná foi escolhido como um campo privilegiado para o desenvolvimento desses organismos. A conjuntura política e social favorecia essa escolha. Os sonhos de enriquecimento fácil, a ocupação caótica e precipitada do espaço, a ausência de direções políticas reconhecidas e a desconfiança em relação às autoridades formavam um caldo de cultura favorável à organização dos posseiros como grupo político, munido de um porta-voz e uma estrutura de enquadramento. Desde o início do conflito de Porecatu, as ligas teriam sido criadas com o objetivo de denunciar a violência exercida contra os posseiros. Essas ligas eram propostas, animadas e dirigidas por militantes do PCB, ainda que a sua vocação fosse ser organizações do campesinato. Teoricamente, todos os camponeses podiam fazer parte, independentemente de sexo, nacionalidade, cor, crença política e religião. O Partidão propunha a liga aos lavradores, fornecia os dirigentes, dava o impulso inicial e, evidentemente, mantinha vinculação político-ideológica com elas, ainda que continuassem formalmente independentes enquanto uma organização camponesa. Contudo, não se dispõe de informações suficientes sobre a abrangência da atividade e sobre o grau de interconexão dessas entidades entre os lavradores, os posseiros e os trabalhadores rurais, salvo alguns dados fornecidos seja por meio das inquietudes expressas pelos fazendeiros e pela polícia, seja pelas narrações dos militantes da época. Entre estes últimos, há os que defendem – como Hilário Pinha e Nelson Galvão – e os que negam − como Celso Mello − a existência de um movimento forte. Hoje, tem-se mais conhecimento graças às informações disponíveis sobre as ligas camponesas, sobretudo a respeito daquelas que surgiram nas seguintes localidades: Água de Pelotas, Centenário do Sul, Água do Palmitalzinho, Guaraci, Maringá, Água do Monjolo, Água de Mandacaru, Colombo, Cambará, Andirá, Bandeirantes e Xapecó. Segundo os dados disponíveis, essa primeira conjunção comunista no interior do Paraná, por meio da criação das ligas camponesas, durou, aproximadamente, seis anos, de 1945 a 1951. Seu auge coincidiu com o movimento de guerrilha orquestrado pelos comunistas no setentrião do estado. Pode-se questionar sobre o silêncio em relação às
  20. 20. ligas desde 1951 e também sobre o seu eventual desaparecimento. Provavelmente, a repressão do movimento em Porecatu − com o cerco da região, as prisões em Londrina etc. − atingiu também as ligas camponesas em toda a zona, uma vez que estavam interligadas entre si, com o conflito de Porecatu e com o Partido Comunista. Também é possível que a linha política do partido seja a resposta a esse mutismo. As diretivas do Manifesto de Agosto de 1950, o radicalismo, que pregava o enfrentamento contra o Estado e os grupos dominantes, parece ser o fundamento mesmo da constituição de organizações como as ligas camponesas − não legalizadas, não enquadradas pelo Estado, não reconhecidas pelas elites. De fato, desde 1952, os comunistas enfrentaram um processo de discussão interna e de autocrítica que levou a uma nova virada política, dessa vez, rumo a posições mais moderadas e conciliadoras. O PCB não abandonou sua intervenção no campo, mas optou por uma ação mais tranquilizadora para a sociedade, quer dizer, para os elementos dirigentes (no limite, para os dominantes). Graças a esse tipo de abordagem política, os militantes comunistas trataram de construir novas formas de enquadramento e de representação das camadas sociais deserdadas do campo, por exemplo, por meio das uniões gerais de trabalhadores e também com os sindicatos. Assim, é legítimo compreender o desaparecimento das ligas do Paraná, seja em razão da sua inoperância, seja por sua metamorfose em outro tipo de organização realmente sindical. Porecatu: gênese da organização camponesa Todavia, essa sucessão de acontecimentos em torno da posse da terra permanece muito pouco conhecida para as gerações mais jovens. Esquecida, ela caiu na categoria dos fatos que não se deve lembrar. A história oficial ditada pelas elites nada registrou. Assim, a dita opinião pública a desconhece. Mas, fato surpreendente, o principal protagonista, o Partido Comunista, que acabava de encarar uma guinada rumo à ortodoxia, acompanhado pelos seus quadros e militantes igualmente abafou o assunto. O PCB quis simplesmente enterrar o ocorrido. Até hoje nenhuma análise, nenhum balanço do partido foi publicado. Podem-se ouvir apenas algumas vozes isoladas manifestando algum interesse pelo acontecimento. Oficiosamente para o partido as “condições históricas para a luta armada ainda não estavam maduras”; e, no entanto, esse foi “o único movimento de luta armada vitorioso no Brasil”, considerando que, no final, posseiros receberam lotes, ainda que em outra região, em Campo Mourão (MORAES
  21. 21. apud LOPES, 1982; NASCIMENTO, 1962). Outros comunistas não tiveram a mesma apreciação dos fatos. João Saldanha mostrou-se muito crítico: “os posseiros tornaram-se grileiros”; seus camaradas rebeldes, uma espécie de soldados do “exército de Brancaleone”, que combatiam moinhos de vento; o Manifesto de Agosto, uma resolução que “caiu no ridículo”. Tudo isso sem fazer a mínima autocrítica, como se ele não tivesse participado diretamente dos acontecimentos, como um de seus dirigentes (SIQUEIRA, 2007; CORRÊA, 1980). Contudo, as vozes verdadeiramente discordantes abandonaram o partido, muitas vezes por divergências políticas. O “cavaleiro da esperança”, Luís Carlos Prestes, sem querer gastar muitas palavras sobre o assunto, declarou que Porecatu tinha sido um dos grandes erros do PCB, não suficientemente analisado e discutido. Para a direção da agremiação, o movimento foi mais que um erro, um fracasso. Mané Jacinto acusava o partido: o sectarismo e a estupidez de seus chefes tinham causado a derrota da guerrilha (PRIORI, 2000). Para os dirigentes, mudar de posição era tão fácil como trocar de camisa: de repente acharam pejorativamente que o movimento era esquerdista, sem fundamentação, e os rebeldes, uns aventureiros. O partido fugia em zigue-zague, como sempre, passando de uma orientação política colaboracionista a uma orientação esquerdista, sem nenhum respeito pelos que lutaram e morreram. Com certeza, todas as críticas dos ex-dirigentes do PCB são compreensíveis, facilitadas pela distância em relação à agremiação política e talvez pelo desejo ou necessidade de falar sobre o assunto. De fato, estabeleceu-se uma cumplicidade objetiva entre todas as forças políticas envolvidas no conflito. Uma cortina de silêncio caiu sobre Porecatu, como uma espécie de pacto do esquecimento, que irmanou o aparelho de Estado, passando pelas elites, inclusive intelectuais, até os grupos de esquerda. Apesar disso, este esforço de pesquisa, ao lado de outros poucos pesquisadores, permitiu reunir um leque importante de documentos e “refrescar” algumas memórias, demonstrando que a guerrilha de Porecatu não foi apagada da consciência dos seus protagonistas. Se ela ainda está viva, isso se deve ao fato de a orquestração do esquecimento não ter conseguido apagar as pegadas que Porecatu deixou para os posteriores processos de lutas sociais e de representação do campesinato. Porecatu constitui-se no ponto de partida de uma série de lutas rurais que eclodiram no Paraná e mesmo em outros estados ao longo dos anos 1950. O objetivo principal dessas lutas foi, e ainda é, o acesso à terra. Antes da guerrilha, o cenário
  22. 22. político do Paraná era monocórdio: uma sucessão infindável de brigas de famílias entre os grupos políticos hegemônicos – fosse de produtores de café, fosse de especuladores de terra; fosse a UDN, fosse o PSD. A entrada em cena de um grupo comunista no campo político fez oscilar as relações de força. A partir de então, todas as tendências dominantes se uniram contra esse indesejável recém-chegado. As oligarquias rurais sentiram-se ameaçadas nas suas relações de dominação e de clientelismo político, consecutivamente estabelecidas no campo. O seu monopólio de representação política estava sendo questionado. Ao polarizar o espaço social, os comunistas incentivaram uma reaproximação entre os dominantes. Os senhores das terras, o governo do Estado, a grande imprensa, isto é, o conjunto das elites se reuniu para reafirmar uma imagem social negativa do Comunismo e do seu partido. A estratégia adotada foi a de reforçar uma ideologia anticomunista já existente na sociedade, mas que não conseguiu impedir a implantação dos comunistas no meio rural. Esse combate, ao mesmo tempo ideológico e simbólico, iria provocar a chegada de um velho ator, mas ainda muito poderoso: a Igreja Católica, preocupada com a perda de confiança de seus fiéis da lavoura. O desdobramento disso viria a ser a constituição de organizações de combate contra a esquerda, em sua maioria empurradas pelos católicos, entre elas a Frente Agrária Paranaense. Preparando o terreno, a cruzada anticomunista desembocaria no Golpe Militar de 1964. O conflito de Porecatu desencadeou uma nova dinâmica no jogo político: outra linguagem, novos conceitos, novas reivindicações, enfim, nesse contexto, foi introduzida uma representação social inovadora. Diferentes camadas do campesinato conheceram pela primeira vez práticas de luta social, de reuniões coletivas, de direito à palavra. Antes, os camponeses eram indivíduos espalhados, pulverizados e atomizados. Naquele cenário, tornaram-se um grupo político dotado de representação, munido de instâncias de consagração, de ritos de deliberações coletivas e de mandatários legitimados. A prova do enfrentamento ideológico, mas também físico, com os fazendeiros e seus jagunços, ultrapassando o medo da crueldade repressiva, foi um aprendizado inédito de contestação do poder absoluto das oligarquias rurais. Naquela época no Paraná ainda não havia qualquer forma de representação das camadas sociais marginalizadas do campo. O movimento social dos posseiros de Porecatu teve o mérito de dar o primeiro passo concreto na organização do campesinato do Paraná. Baseando-se na sua experiência positiva de mobilização dos posseiros como um grupo político, assim
  23. 23. dotado de uma representação política, o PCB assentou a primeira pedra na edificação de um novo espaço de luta social. A seguir, essa experiência viria a contribuir para a deflagração do processo de sindicalização agrícola, conduzido pelos comunistas. Alguns anos depois, constituir-se-ia uma rede de sindicatos camponeses e de assalariados agrícolas, no início, nos municípios; em seguida, no estado; e, depois, no país. Porecatu marca, assim, o ancoramento do PCB – e da esquerda, em um sentido mais amplo – no Paraná rural. Enfim, Porecatu ficou igualmente marcada como a primeira e única tentativa de guerrilha camponesa que foi levada a cabo no território nacional pelo Partido Comunista durante toda sua existência. A região tinha sido escolhida pela direção comunista como um lugar privilegiado para a “fecundação do embrião revolucionário”. Segundo o Manifesto de Agosto, a revolução seria iminente. Em Porecatu, tomou-se a decisão de pôr à prova a “fibra revolucionária” do campesinato brasileiro. Depois e em consequência dos acontecimentos, o partido aplicou uma nova orientação política, dessa vez rumo ao centro. O Manifesto foi abandonado, o “capitão Carlos” desapareceu, e o PCB procuraria constituir sindicatos bem mais dóceis, enquadrados e reconhecidos oficialmente pelo Ministério do Trabalho. Referências ALVES, Miguel Roque. 6a Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). ANDRADE, Manuel Correa de. A terra e o homem do Nordeste. 2. ed. São Paulo: Brasiliense, 1969. 267 p. BANDEIRA, Moniz. O governo João Goulart: as lutas sociais no Brasil (1961-1964). 5. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978. 187 p. BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 1974. 367 p.
  24. 24. BOURDIEU, Pierre. La représentation politique : eléments pour une théorie do champ politique. Actes de la Recherche en Sciences Sociales, n. 36-37, p. 3-24, fev./mar. 1981. CHILCOTE, Ronald H. Partido Comunista Brasileiro: conflito e integração - 1922- 1972. Rio de Janeiro: Graal, 1982. 413 p. CORRÊA, Hercules. A classe operária e seu partido. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1980. 247 p. COSTA, Odah Regina G. A reforma agrária no Paraná. 1977. 318 f. Tese (Doutorado em História)−Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1977. DIÁRIO DA TARDE, Curitiba, 22 jun. 1951. FERREIRA, Angela Duarte Damaceno. Agricultura capitalista e campesinato no norte do Paraná: Região de Porecatu 1940-1952. 1984. 243 f. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 1984. FOLHA DE LONDRINA, Londrina, 27 jul. 1985. IANNI, Octávio. Relações de produção e proletariado rural. In: SZMRECSANYI, Tamás; QUEDA, Oriowaldo. Vida rural e mudança social. 3. ed. São Paulo: Ed. Nacional, 1979. p. 148-159. LOPES, Ana Yara Dania Paulino. Pioneiros do capital: a colonização do norte novo do
  25. 25. Paraná. 1982. 241 f. Dissertação (Mestrado em Ciência Política)–Universidade de São Paulo, São Paulo, 1982. MARTINS, José de Souza. Os camponeses e a política no Brasil. 3. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 1986. 185 p. MELLO, Celso Cabral de. Auto de Qualificação e Interrogatorio. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS) NASCIMENTO, Noel. O camponês no norte do Paraná. Revista Brasiliense, São Paulo, nº 41, p. 124-125, mai./jun. 1962. O CRUZEIRO, Rio de Janeiro , 14 jun. 1951. OIKAWA, Marcelo. Porecatu: a guerrilha que os comunistas esqueceram. São Paulo: Expressão Popular, 2011. 311 p. PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. PCB. Processo de cassação do registro (1947). Belo Horizonte: Aldeia Global, 1980. 140 p. PRIORI, Angelo Aparecido. A revolta camponesa de Porecatú: a luta pela defesa da terra camponesa e a atuação do Partido Comunista Brasileiro (PCB) no campo (1942- 1952). 2000. 337 f. Tese (Doutorado em História e Sociedade)–Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho, Assis, 2000.
  26. 26. SILVA, Osvaldo Heller da. A foice e a cruz: comunistas e católicos na história do sindicalismo dos trabalhadores rurais do Paraná. Curitiba: Rosa de Bassi, 2006. SIQUEIRA, André Iki. João Saldanha, uma vida em jogo. São Paulo: Ed. Nacional, 2007. 551 p. WESTPHALEN, Cecília Maria et al. Nota prévia ao estudo da ocupação da terra no Paraná moderno. Boletim da Universidade Federal do Paraná, Curitiba, n. 7, 1968. Fontes ACHY, Antonio. 3a. Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (Arquivo DOPS). ANGELO, Augusto et al. Abaixo-assinado ao governador do Paraná. [s.d.] (ADOPS). ARRUDA, Clemente Vilela de. 2a. Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). ARRUDA, Clemente Vilela de. Telegrama ao governador do Paraná. Porecatu, 24 maio 1951. ASSY, Del. Walfredo de Miranda. Relatório. Curitiba, 10 jan. 1951. (ADOPS). A TARDE, Salvador, 22 jun. 1951. BARBOSA, Licinio. Auto de exibição e apreensão. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS).
  27. 27. BARROS, Herculano Alves de. 1a. Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). BRANCO, Del. Otacílio F. Ofício 33. Porecatu, 21 mar. 1955. (ADOPS). CÂMARA, Newton; CORREA, Manoel Jacinto. Ao povo de Londrina. [S.l.: s.n., s.d.]. (Panfleto). CUNHA, Dr. Renato. Telegrama 67. Londrina, 22 maio 1951. (ADOPS). DELEGACIA DE ORDEM POLÍTICA E SOCIAL. DOPS-PR. Observações preliminares procedidas no norte do Paraná. Curitiba, 14 jun. 1951. (ADOPS). DELEGACIA DE ORDEM POLÍTICA E SOCIAL. DOPS-PR. Material aprendido no inquérito de Londrina. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). DELEGACIA DE POLÍCIA DE ROLÂNDIA. Auto de declarações de Segundo Gonçalves. Rolândia, 30 jun. 1948. (ADOPS). DIÁRIO DA TARDE, Curitiba, 21, 22 e 27 jun. 1951; 2 e 6 jul. 1951. DOURADO, Misael Caires. Inquérito de Porecatu: Relatório. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). FOLHA DE LONDRINA, Londrina, 14, 16, 18, 20, 23, 24, 25, 26 e 27 jul. 1985. GAZETA DO POVO, Curitiba, 24 jun. 1951. ITAGIBA. Aos posseantes, colonos e peões de Porecatu, Jaguapitã e Arapongas! [S.l.: s.n.], 1951. (Panfleto).
  28. 28. LIGA CAMPONESA DE CENTENÁRIO. A todos os colonos e volantes! [S.l.: s.n., s.d.]. (Panfleto). LIGAS CAMPONESAS, COMMISSÕES CAMPONESAS. Aos camponezes do Paraná. [S.l.: s.n., s.d.]. (Panfleto). MARQUES JR., José. Relatório reservado ao DOPS. Curitiba, 10 dez. 1950. (ADOPS). NINNO, Angelo; ACHY, Antonio. Telegrama ao governador. Londrina, 24 maio 1951. (ADOPS). NINNO, Angelo. 4a Testemunha. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). O DIA, Rio de Janeiro, 21 jun. 1951 e 26 jun. 1951. PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO. PCB. Estatuto da liga camponesa. [S.l.: s.n.], 23 jan. 1946. (Projeto). POSSEIROS e ”Zangões”. [S.l.: s.n.], 9 jun. 1951. (Panfleto). (ADOPS). PRESTES, Luiz Carlos. Carta à comissão executiva do PCB do Paraná. 14 ago. 1946. (ADOPS). REALI, Elpiodio. Telegrama 626. São Paulo, 28 set. 1949. (ADOPS). RESENDE, Cyro. Telegrama 1890. Rio de Janeiro, 3 jul. 1951. (ADOPS). ROCHA, B. Munhoz da. Telegrama ao presidente da Câmara Municipal de Porecatu. Curitiba, 25 maio. 1951. (ADOPS). ROCHA, Eduardo Lousada. Observações preliminares em torno da policia civil do Paraná. São Paulo, 14 jun. 1951. (ADOPS).
  29. 29. ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). ROCHA, Eduardo Lousada. Telegrama 66. Londrina, 22 jun. 1951. (ADOPS). SANTOS, O. et al. Relatório ao governador. Curitiba, 14 maio 1951. (ADOPS). SANTOS, Celso Nicolau. Inquérito policial. Londrina, 21 jun. 1951. (ADOPS). SIGAUD, Lygia. Congressos camponeses (1953-1964). Reforma agrária, v. 11, n. 6, p. 3-8, nov./dez. 1981. SILVA, Alcides Ferreira da. Termo de Declarações. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS). SOUZA, Ana Ferreira; MOCHEL, M. Carta ao governador do Paraná. Curitiba, 5 dez. 1950. (ADOPS). TRIBUNA DO POVO, 24 mar. 1951; e 16 jun. 1951. VERONE, Mario. Termo de Declarações. In: ROCHA, Eduardo Lousada. Relatório ao chefe da polícia do Paraná: inquérito de Porecatu. São Paulo, 26 ago. 1951. (ADOPS).

×