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A alimentação nas relações entre ocidente e oriente: Identidade e reflexos da relação entre Portugal e China em Macau

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Artigo publicado na Revista Contextos da Alimentação - edição Vol. 2, nº 2, Ano 2013
Publicação Científica do Centro Universitário Senac - ISSN 2238-4200

Acesse a edição na íntegra!

www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistacontextos/


Resumo

Durante o período das navegações portuguesas, foram observadas trocas e transformações durante as relações entre Ocidente e Oriente. Porém, no encontro com novos povos, as novas identidade étnicas formadas tiveram uma característica bastante diferente no Oriente se a comparação for feita com o Ocidente. Na criação dessas identidades, novas culturas surgiram e refletiram parte dessas identidades na alimentação.
O objetivo deste artigo é entender como a culinária de um local se transforma gradualmente com a ação da sociedade que a habita, e como a identidade e cultura estão em constante processo de mudança, uma vez que, com a globalização, seja ela marcada pelas navegações ou pela internet, cada vez mais diferentes culturas são apresentadas.

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A alimentação nas relações entre ocidente e oriente: Identidade e reflexos da relação entre Portugal e China em Macau

  1. 1. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 A alimentação nas relações entre ocidente e oriente: Identidade e reflexos da relação entre Portugal e China em Macau Feeding in relations between east and west: identity and reflections of the relationship between Portugal and china in Macau Paula Su1 RESUMO Durante o período das navegações portuguesas, foram observadas trocas e transformações durante as relações entre Ocidente e Oriente. Porém, no encontro com novos povos, as novas identidade étnicas formadas tiveram uma característica bastante diferente no Oriente se a comparação for feita com o Ocidente. Na criação dessas identidades, novas culturas surgiram e refletiram parte dessas identidades na alimentação. O objetivo deste artigo é entender como a culinária de um local se transforma gradualmente com a ação da sociedade que a habita, e como a identidade e cultura estão em constante processo de mudança, uma vez que, com a globalização, seja ela marcada pelas navegações ou pela internet, cada vez mais diferentes culturas são apresentadas. PALAVRAS-CHAVE: Alimentação, Mestiçagem, Macau, China, Portugal ABSTRACT During the period of the Portuguese discoveries, exchanges and transformations were observed during the relations between East and West. However, when those new folks met, new ethnic identities were formed and they had different characteristics in West if compared to what happened in the East. In the creation of these identities, new cultures emerged and part of 1 Aluna do curso de Pós – graduação Gastronomia, História e Cultura do Centro Universitário Senac. paula.su@yahoo.com.br 57
  2. 2. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 this identities are reflected in feeding. The purpose of this article is to understand how the local cuisine transforms itself gradually with the society that inhabit and how identity and culture are in the constant process of change, with the globalization, either made by ships or by internet, more new cultures are emerging. KEYWORDS: Feeding, Miscigenation, Macao, China, Portugal ENCONTRO PORTUGAL E CHINA O auge da aproximação entre Europa e Ásia se deu no primeiro quarto do século XIV, segundo Sabban (2009). Segundo Silva (1997), no século XVI, Portugal e Espanha cruzaram os mares com objetivos como conquistar, cristianizar, colonizar e criar comércio com as novas terras. Antes mesmo dos colonizadores portugueses viajarem em direção aos mares chineses, emissários do papa ou de soberanos, além de mercadores das cidades italianas visitavam o então império mongol (1279-1368). Inicialmente, os portugueses encontraram os chineses pela primeira vez em Malaca, de acordo com Rangel (2010). Conhecidos como “chins”, viajavam para Malaca a fim de trocar suas mercadorias: As mercadorias que os Chineses traziam a Malaca eram principalmente almíscar, sedas, cânfora, ruibarbo, que trocavam por pimenta e cravo. Os comerciantes chineses costumavam ir a Malaca com a monção, entre Março e Abril, e voltavam à China entre Maio e Julho. Os Portugueses tentaram recolher o maior número de informações dos Chineses sobre o Império do Meio, com a intenção de penetrarem na rede comercial entre a China e o Sudeste Asiático (JIN e WU apud RANGEL, 2010, p.43). Em 1513, o português Jorge Álvares decide partir de Malaca chegando à China, e conforme coloca Rangel (2010), dando início a presença portuguesa na China e chegando 58
  3. 3. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 mais tarde ao Japão. Estas viagens permitiram estabelecer relações comerciais entre os dois mundos, porém este era o período da dinastia Ming, que exigia o pagamento de “tributos” dos estados vassalos da China. Se a condição do país ou povo não se encontrava dentro da vassalagem prestada à China, relações comerciais ou diplomáticas não eram permitidas, caso de Portugal. A China considerava os estrangeiros como “bárbaros do Ocidente”, dificultando o estabelecimento de comércio com o povo lusitano. Silva destaca que os documentos chineses consideravam o estrangeiro como: [...] uma figura que trazia maus agouros, maus costumes e instaurava a desordem devemos sempre considerar que qualquer abalo num gigante como este pode desencadear consequências desastrosas para milhões de pessoas.” (SILVA, 1997, p.146). Como resultado, naus portuguesas foram atacadas, portugueses foram feitos prisioneiros e a ideia de construir uma fortaleza portuguesa dentro da China foi descartada, uma vez que para os portugueses a “[…] manutenção do seu extenso império colonial que os levam a constituir um modelo cuja força concentrava-se na capacidade de deslocamento marítimo, ou seja, em dominar rotas comerciais e na boa negociação com as populações locais.” (SILVA, 1997, p.120) A autora levanta que, após o afastamento do pirata Lam Chin do litoral que os chineses concederam aos portugueses o território de Macau, com a condição do pagamento de 500 taéis anuais, impostos chamados de foro ou tributo aos vice reis do Cantão. Segundo Pires (apud RANGEL, 2010), para a mentalidade europeia, os títulos cobrados eram considerados um suborno ou um presente para ter domínio útil do território, afinal, o local era estrategicamente ideal: Situava-se na margem ocidental do rio das Pérolas e estava ligado por um istmo estreito ao distrito de Hsiang-shan, na província de Kuang-tung. A sua acessibilidade, a navegabilidade dos mares vizinhos, a proximidade de Cantão e a excelente posição estratégico 59
  4. 4. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 defensiva contra possíveis ataques provenientes do mar fizeram de Macau um lugar mais propício à prática de actividades mercantis. (FOK apud RANGEL, 2010, p. 50) Santos (2006) relata que os primeiro moradores de Macau no século XVI eram chineses de Fukien: pescadores que moravam nos tamancares, embarcação que simboliza a cidade. Os habitantes de Macau dependiam do comércio com a China para, por exemplo, comprar seda chinesa e vender aos japoneses. Para os chineses, o comércio com os japoneses era proibido, tornando a situação ainda mais atraente para os portugueses, que não tinham esse impedimento, recebendo o pagamento em barras de ouro e prata. De acordo com Lopes (2007), desta forma, os portugueses iniciaram sua fixação em 1552 e 1557. PORTUGUESES EM MACAU A postura adotada pelos portugueses, segundo Silva (1997), foi o de “aclimatação”, ou seja, assimilaram novos conhecimentos e deixaram parte de seus hábitos ancestrais. ”Integraram narrativas mais preocupadas em encontrar semelhanças do que catalogar diferenças” (SILVA, 1997, p.118). A atitude de mesclar-se foi frequentemente adotada no ultramar. A aproximação das culturas, no entanto, foi bastante diferente a comparação entre Brasil, Angola, Moçambique, Goa, Macau, etc. Silva levanta que no caso da América, a cultura indígena sofre a cristianização e colonização caracterizando um lado colonizador “vencedor” e o colonizado “vencido”. Macau, contudo, não fundiu sua cultura com Portugal. Afonso de Alburqueque percebeu que a colonização das novas terras pelo povoamento com portugueses seria uma boa estratégia. Por este motivo, incentivou os casamentos dos portugueses com locais a fim de criar novas gerações de portugueses com vínculo às novas terras, ou seja, um povo que possa defendê-las como suas (RANGEL, 2010). Apesar da estratégia, os chineses não permitiam que os portugueses se envolvessem com as chinesas. Porém, de acordo com a autora, isso não impediu que as relações se estabelecessem já que muitas mulheres eram vendidas por suas famílias miseráveis ou acompanhavam os piratas chineses, com quem os portugueses se encontravam. Entretanto, de acordo com Silva (1997), os chineses não 60
  5. 5. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 expulsaram os portugueses e os portugueses não afastaram os chineses. Era mais interessante estruturar uma vida coexistindo no mesmo território, mas, apesar de séculos de convívio, portugueses e chineses não formaram um cultura de síntese. NASCIMENTO DOS MACAENSES É fruto desta aproximação entre duas culturas em um mesmo território que nascem os macaenses, também chamados pelos chineses de “filhos da terra”, ou seja, como Santos se refere a Pina Cabral: “categoria que se tornou corrente no território e ‘etnicamente restritiva’ por excluir chineses” (2006, p.36). A comunidade macaense é o sonho concretizado de Afonso de Alburqueque: quase após três gerações de gestações, ou, 65 anos após o estabelecimento dos portugueses em Macau, surge uma comunidade que intermediou essa relação entre Ocidente e Oriente. A miscigenação, no entanto, não era exclusivamente de chineses e portugueses. Santos (2006) afirma que alguns autores consideram macaenses também indivíduos frutos da relação entre o homem português e a mulher goesa, siamesa, indo-chinesa, malaia ou japonesa. Levando-se em conta que os portugueses traziam de suas viagens marítimas a experiência de encontros com os povos citados acima, veremos ainda sua influência na cultura macaense. Estar entre duas culturas, no entanto, era difícil. Silva (1997) demonstra que os macaenses que possuíam relações familiares próximas da cultura chinesa agradavam os mandarins chineses de Cantão. E ao abordar os chineses, de acordo com a autora, trata-se de uma cultura que se isola, ao contrário dos americanos, por exemplo. “[…] o americano agrega porque é assim que ele concebe o mundo na sua linguagem. O chinês isola porque é assim que ele concebe o seu mundo na sua língua. […] A ruptura do seu universo cultural na dúvida levaria ao caos” (SILVA, 1997, p.132). O mesmo aconteceria com Macau, o país se isolaria criando uma comunidade virada para si. Os macaenses, ao longo da história, encontravam-se no conflito de buscar segurança por parte de um dos dois mundos: Portugal ou China. Porém, como demonstra Santos (2006), as relações políticas ou sociais entre ambos encontravam-se tumultuadas: se houvessem problemas, as autoridades chinesas ordenavam encerramento das portas do cerco, deixando 61
  6. 6. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 os portugueses sem água ou alimento. Ao mesmo tempo, os macaenses eram considerados estrangeiros aos olhos dos chineses já que muitos macaenses adotaram a religião cristã por influência ocidental. Desta forma, a comunidade macaense tinha acesso a dois códigos distintos, português e chinês assim como a suas culturas, sistemas de valores e éticas. Silva (1997) destaca que isso dá a estes indivíduos a habilidade se serem tradutores da cultura ocidental para o Oriente. A identificação de um macaense, de acordo com a referência de Pina Cabral, utilizado por Santos é “a língua portuguesa, a religião católica (identificação individual ou familiar como catolicismo) e a miscigenação entre europeus e malaios, indianos, japoneses, chineses…” (2006, p.42) CULTURA MACAENSE: A CULINÁRIA E A LÍNGUA “[b]y using food as a barometer of culture, it is therefore po ssible to show how a community asserts its identity […]”2 (LOUIS apud LEVI, 2009, p.4). Ou seja, ao utilizar a alimentação como referência é possível explicar algumas características da sua cultura e identidade. De acordo com Levi (2009), a comida é um indicador social e étnico onde a comida considerada macaense, isto é, de característica popular ou relacionada a classes mais baixas da sociedade era considerada oriental e não sofisticada se comparada aos padrões ocidentais como franceses ou mesmo portugueses. De qualquer forma, a busca da origem da comida macaense resulta, segundo Lopes (2007), na busca de um referencial estruturante e definidor da sua identidade cultural. A comida macaense, para o autor, é resultado de uma diversidade de influências: a cozinha portuguesa vinda com as navegações e comerciantes e já influenciada pelas relações e encontros com outros países; a cozinha chinesa, particularmente de Cantão, de acordo com Levi (2009), além de influências do subcontinente indiano, Japão e Sudeste Asiático, em especial, Malaca. Hamilton (2005) ainda dá uma hierarquia às influências, sendo a primeira portuguesa, seguida pela chinesa, goesa, japonesa, inglesa, africana e sul-americana. Lopes (2007) relata que na tentativa de recriar as comidas de origem da sua terra, o Louis Augustin-Jean. “Food Consumption, Food Perception and the Search for a Macanese Identity”, in The Globalization of Chinese Food . Eds. David Y. H. Wu e Sidney C. H. Cheung. Honolulu: U of Hawaii P, 2002. 113-127. 124. 2 62
  7. 7. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 português comerciante e marinheiro utiliza ingredientes e especiarias da nova terra. Com a presença da mulher de origem chinesa como cozinheira e, mais tarde, esposa, a cozinha macaense terá início através da elaboração de pratos portugueses, desconhecidos das chinesas, mas com incremento de técnicas, utensílios e ingredientes diferentes. O autor ainda destaca que também as criadas, a quem a tarefa de cozinhar era destinada, eram chinesas. Quanto a esse assunto, a influência chinesa é observada na seleção dos ingredientes, o corte dos alimentos, o uso de condimentos e temperos em diversas fases, o preciosismo dos métodos, tempo e temperatura. Além disso, a inserção de produtos trazidos pelos europeus como, por exemplo, o milho, tomate, amendoim, batata doce, agrião, etc , seriam agregados na formação da cultura alimentícia macaense, sendo eles, muitas vezes, indispensáveis. Outro exemplo de produtos cujo consumo era inexistente até a chegada lusitana eram os derivados lácteos como manteiga, tornando a criação de animais que produziam leite presentes na comunidade macaense. Amaro (apud RANGEL, 2010) coloca que as receitas dos macaenses variam de acordo com cada família, passadas por gerações, ganhando a carga de segredos de família. Dos pratos conhecidos como típicos macaenses, o acompanhamento principal é sempre o arroz. Rangel (2010) levanta como outro prato típico o tacho, conhecido também por chau-chau pele: parecido com um cozido português que leva presunto chinês e chouriço no lugar dos enchidos portugueses. Chau-chau na realidade, segundo Hamilton (2005), é um prato que possui muitas variações, já que se refere a pratos com um molho salteado, com mistura de carnes e verduras. No início do século XX, a influência dos ingleses aparece como hábitos de Hong Kong e da comunidade macaense radicada em Xangai, segundo Rangel (2010). Existe o cheese toast (torradas de queijo e leite condensado), cake (inspirado no Christmas Cake inglês) e, um prato característico da cultura macaense, o minchi, apreciado tanto por locais quanto estrangeiros. No livro de Hamilton (2005), que contém receitas dos países cuja estadia portuguesa influenciou a cultura alimentar, o minchi com arroz “é para os macaenses o que o peixe salgado com arroz é para os povos de outras regiões da China e o que o feijão com arroz é para os brasileiros” (2005, p.230). Do minchi pode-se fazer diversos pratos, caracterizando sua versatilidade, assim como é o chau-chau. Para demonstrar a sua variedade, a autora destaca 63
  8. 8. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 que o prato pode ser servido na mesa do pobre ou do rico, simples ou enfeitado, como acompanhamento ou como prato principal, com pão ou arroz branco. No quesito doces, as origens diversas são observadas no muchi (bolinhos de massa de arroz glutinoso e feijão branco torrado, de influência japonesa) e a bebinca de leite de inspiração na Malásia (pudim de coco, leite evaporado e fécula de milho). Ressaltando a miscigenação de culturas refletida na alimentação: [...] o bacalhau não é feito nem à moda portuguesa e nem à chinesa; é um meio termo. É muito difícil explicar como é feito o bacalhau em Macau. O modo de preparo é o do chinês, os wok e tudo, que não tem forno, nunca teve forno em Macau, em Portugal se usava forno... então é diferente. Você tem que adaptar. [...] Isso é comida de Macau. Se você faz bacalhau ao forno, não é comida de Macau, é comida portuguesa. (DORÉ apud SANTOS, 2006, p.86) Não só ingredientes, técnicas e receitas eram bastante distintas, mas a forma de comer também era: come-se com a colher em Macau (SANTOS, 2006). Um hábito marcante de influência chinesa, de acordo com Dória (2009), é a forma coletiva de comer e a presença de vários pratos simultâneos na hora da refeição. Jorge (apud LOPES, 2007) reforça o conceito com a hospitalidade oferecida pelo macaense na mesa “variada, farta, informal e convivial” (p.65) Além da alimentação, Rangel cita a definição da UNESCO mostrando que os macaenses possuem também como “veículos de expressões culturais e de patrimônio cultural intangível, essenciais à identidade de indivíduos e de grupos” 3 (UNESCO apud Rangel, 2010, p.67), a língua. uma língua característica que os difere dos portugueses e chineses: o patuá. A autora define o patuá como um crioulo de base portuguesa, mas com pronúncia, ortografia, gramática Texto original em inglês: “Languages are humankind’s principle tools for interacting and for expressing ideas, emotions, knowledge, memories and values. Languages are also primary vehicles of cultural expressions and intagible cultural heritage, essential to the identity of individuals and groups” (UNESCO apud RANGEL, 2010, p.67) 3 64
  9. 9. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 e significados diferentes do português. O contexto multilíngue, no entanto, trouxe influências como o malaio, o cantonês, inglês, javanês, entre outros. De acordo com Santos (2006), o patuá teve impacto durante os séculos XVI e XIX, mas ao final do século, os portugueses exigiram a correção do português do patuá e a introdução do inglês foi iniciada por proximidade a Hong Kong, colônia inglesa, tomando o posto de segunda língua em Macau. O patuá, assim como a culinária demonstra reflexos da centrifugação de culturas. Do chinês, existem grande parte dos elementos lexicais em nomes de refeições, gêneros de alimentação, embarcações, jogos e utensílios. As nomenclaturas das comidas são, para o ouvido macaense, divertidas, sonoras e sinestésicas, pois estabelecem percepções que pertencem ao domínio dos sentidos: um cheiro que evoca uma cor, um som que evoca um perfume. (SANTOS, 2006, p. 85) De fato, no patuá, as palavras relacionadas a alimentação remetem dois mundos. Tomando como exemplo do já mencionado chau-chau, o termo é de origem chinesa e significa “mistura de ingredientes” (HAMILTON, 2005, p.223). Similar é o caso do minchi, também já citado, que de acordo com Rangel (2010), deriva da palavra inglesa minced meat, ou seja, da carne picada. CONCLUSÃO Assim como desenvolveu Levi (2009), a cozinha macaense é independente tanto da culinária chinesa quanto da portuguesa. Isso reflete também a cultura da comunidade macaense: “encontro de culturas e é reflexo da história de Macau” (MELO, 2007, p.26). A autora ainda cita Hugo Bandeira, que comenta que um consenso sobre o que é a comida macaense “é um conceito complicado que, com o passar do tempo, diluiu-se cada vez mais” (apud MELO, 2007, p.89). Afinal, se a língua, ou seja, o patuá é falado apenas por mulheres acima de 80 anos em Macau e Hong Kong, significa que a cultura modificou-se conforme o passar do tempo. A própria culinária chamada tradicional, de acordo com Lopes (2007), é do final do século XIX para a primeira metade do século XX, registrada e documentada por quem 65
  10. 10. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 as tem na memória, de formas diferentes e com versões inúmeras da mesma receita, pautada pela passagem de geração a geração dentro das diferentes famílias macaenses. [...] a comida macaense vive na sua memória, como vivem afinal a religião, para além da prática, ou a língua para além do uso. [...] É que comida, como o uso da língua, só sobrevivem quando usadas, por possíveis ou necessárias, caso contrário, passam a viver, apenas, nas memórias. (LOPES, 2007, p. 34) Ainda que muito da cultura macaense esteja tornando-se apenas um documento na história, como a substituição do patuá pela língua portuguesa e inglesa, é importante buscar as origens históricas da construção de uma identidade mestiça que misturou diversas etnias, sendo os portugueses e chineses de grande influência, para entender como os macaenses criaram uma identidade única e diferenciada, ainda que transitando duas culturas como Ocidente e Oriente. A alimentação macaense, como parte da cultura de uma comunidade é reflexo disso e que continua recebendo influências, agora com a entrega de Macau para a China em 1999, fortíssimas do continente chinês. REFERÊNCIAS DÓRIA, C.A. A culinária materialista: A construção racional do alimento e do prazer gastronômico. São Paulo: Editora Senac, 2009. HAMILTON, C.Y. Os Sabores da lusofonia: Encontro de culturas: Angola; Brasil; Cabo Verde; Goa; Guiné-Bissau; Macau; Moçambique; Portugal, Açores e Madeira; São Tomé e Príncipe; Timor Leste. São Paulo: Editora Senac, 2005. LEVI, J.A. Gastronomia macaense: Sinal de identidade entre dois mundos. In Food-Scape, Swiss Chinese Cultural Explorations. Eds. Margrit Manz e Martin Zeller. Hong-Kong: MCCM Creations, 2009. 112-114 SABBAN, F. A cozinha cosmopolita do imperador da China no século XIV. Uma nova 66
  11. 11. Artigo, Vol. 2, Nº 2, Ano 2013 abordagem. In: MONTANARI, M. O Mundo na cozinha: Histórias, identidade, trocas. São Paulo: Estação Liberdade: Senac, 2009. SILVA, J.T. Mestiçagens: Ocidente e Oriente. Os Macaenses entre dois mundos. In: ARES, Q. B.; GRUZINSKI, S. Entre dos Mundos: Fronteras Culturales Y Agentes Mediadores. Sevilla, 1997, p. 115 – 147. ARTIGOS EM REVISTA LOPES, F.S. Encontro de sabores e memórias. Revista Macau, Macau, n.6, p 28 – 37, mar. 2007 MELO, M. À Boa mesa macaense. Revista Macau, Macau, n. 6, p 26 – 27, mar. 2007 DISSERTAÇÕES E TESES RANGEL, A.S.d.S.F.H. Filhos da terra: A comunidade macaense, ontem e hoje. (2010) Dissertação (Mestrado em Ciências da Cultura – Especialização em Comunicação e Cultura) – Faculdade de Letras, Universidade de Lisboa, 2010 SANTOS, M.S.C.d. Macaenses em trânsito: o Império em fragmentos (São Paulo, Rio de Janeiro, Lisboa, Macau). 2006. Dissertação (Mestrado em Antropologia) – do Instituto e Filosofia e Ciências Humanas , Universidade Estadual de Campinas. 2006. Recebido em 31/10/2013 Aceito em 18/12/2013 67

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