Revista InterfacEHS edição completa Vol. 4 n. 1

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A InterfacEHS é uma Publicação Científica do Centro Universitário Senac que publica artigos científicos originais e inéditos, resenhas, relatos de estudos de caso, de experiências e de pesquisas em andamento na área de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente.

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Revista InterfacEHS edição completa Vol. 4 n. 1

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  2. 2. www.interfacehs.sp.senac.br http://www.interfacehs.sp.senac.br/br/artigos.asp?ed=10&cod_artigo=181 ©Copyright, 2006. Todos os direitos são reservados.Será permitida a reprodução integral ou parcial dos artigos, ocasião em que deverá ser observada a obrigatoriedade de indicação da propriedade dos seus direitos autorais pela INTERFACEHS, com a citação completa da fonte. Em caso de dúvidas, consulte a secretaria: interfacehs@interfacehs.com.br ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO Ildeberto Muniz de Almeida 1 ; Anastácio Pinto Gonçalves Filho 2 1 Professor Assistente Doutor do Departamento de Saúde Pública da Faculdade de Medicina de Botucatu – Unesp. Depto. de Saúde Pública, FMB. ialmeida@fmb.unesp.br 2 Auditor Fiscal do Trabalho da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Estado da Bahia. Doutorando do Programa de Pós-Graduação em Engenharia Industrial (PEI) da Escola Politécnica da Universidade Federal da Bahia. RESUMO O artigo critica a análise tradicional de acidentes, apresentando um caso de acidente do trabalho com máquina injetora em empresa que culpava a vítima e deixava intocada a situação de trabalho, com perigo e riscos evidentes. Com a ajuda de conceitos como análise de mudanças, análise de barreiras e alça de controle da segurança, além de conceitos da ergonomia e da clínica da atividade, os autores reanalisam o caso. Exploram as contribuições do comportamento do trabalhador para as origens de acidentes, de modo pouco comum entre nós e radicalmente diferente daquele adotado no paradigma tradicional. O estudo mostra que os comportamentos em situação de trabalho têm suas origens associadas a decisões gerenciais relacionadas à gestão de produção, à gestão de segurança e às práticas coletivas e individuais historicamente desenvolvidas para trabalhar, entre as quais, lidar com situações de mudanças não antecipadas em regras vigentes.
  3. 3. Palavras-chave: análise de acidentes; análise de mudanças; análise de barreiras; alça de controle; ergonomia; clínica da atividade.
  4. 4. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS A maioria das análises de acidentes ainda apresenta conclusões centradas em aspectos individuais e que atribuem culpa ao operador envolvido na atividade. Denúncias na literatura nacional (VILELA et al., 2004; DWYER, 2006) e internacional (REASON; HOBBS, 2003) sugerem que esse é um problema de difusão mundial. Porém, já é relativamente extensa a lista de autores e estudos que, nos últimos trinta anos, se contrapõem a esse enfoque simplista e reducionista apresentando conceitos, teorias, técnicas e abordagens alternativas a serem utilizadas em substituição ao “velho” olhar (DWYER, 2006; DINIZ et al., 2005; ASSUNÇÃO; LIMA, 2003; WOODS; COOK, 2002). Ganham força as ideias de que a notificação e a análise de eventos adversos ou circunstâncias indesejadas, como os acidentes, só fazem sentido se adequadamente exploradas como janelas de oportunidades para o aprendizado organizacional. Nas palavras de Llory (1999) o acidente é um fenômeno revelador. A análise de acidentes é uma das ferramentas capazes de contribuir nesse processo de aprendizagem. Para isso, é importante sua condução de forma sistematizada, com apoio em conceitos ou técnicas que explorem as redes de fatores envolvidas nas origens desses eventos, sem descuidar de aspectos incubados há anos na história do sistema (ALMEIDA, 2006). A técnica de árvore de causas é apontada como uma das ferramentas de apoio a essa busca. Isso se dá porque sua utilização associa orientações dos princípios de análise de mudanças e de barreiras e, também, porque já é relativamente difundida no país, tendo sido apontada como possível fonte de identificação de demandas de análises ergonômicas da atividade (ALMEIDA, 2001). No Brasil, os acidentes de maior gravidade tendem a ser analisados por auditores fiscais do trabalho (AFT) da Superintendência Estadual de Trabalho e Emprego (antiga Delegacia Regional do Trabalho) ou por integrantes das áreas de vigilância sanitária ou de Saúde do Trabalhador, de serviços vinculados ao SUS. O fulcro dessas intervenções costuma ser o interesse no desenvolvimento de ações de prevenção formuladas a partir das conclusões da análise, influenciado por demandas relacionadas à adequação ou não da situação de trabalho às normas vigentes de segurança e saúde do trabalhador, mas não só. A influência de fatores organizacionais sobre os acidentes do trabalho é estudada há mais de duas décadas. No entanto, novos instrumentos para detectar, descrever e classificar estes fatores continuam sendo necessários (VUUREN, 2000). 2 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  5. 5. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS Este estudo explora potencialidades do uso de análise de acidente conduzida por AFT do MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), como fonte de informações sobre as origens do evento e como material capaz de subsidiar o aprendizado organizacional. Para isso, os achados preliminares de análise considerada concluída no âmbito da auditoria foram utilizados em reanálise incluindo aspectos do método de árvore de causas (ADC) e indicações dos conceitos de análises de mudanças e de barreiras na exploração dos achados. Além disso, novos 1 conceitos relacionados à gestão de segurança, como as noções de variabilidade do trabalho, regulações ou adaptações locais, gestão cognitiva da atividade e outros foram usados para sugerir ou discutir caminhos para a discussão de pontos polêmicos como: a) comportamentos da vítima apontados como “irracionais” ou “incompreensíveis”; b) decisões antigas sobre escolhas tecnológicas; c) práticas adotadas na produção que introduziram perigos e riscos à saúde dos trabalhadores. Essa exploração permitiu evidenciar aspectos não valorizados nas conclusões da análise inicial e, simultaneamente, ressaltar pontos que merecem exploração adicional. OBJETIVOS O principal objetivo deste texto é mostrar que é possível desenvolver análise de acidente em profundidade com base em informações coletadas em práticas rotineiras de auditoria fiscal do trabalho ou vigilância em Saúde do Trabalhador, desde que a coleta e interpretação dos dados identificados se apoie em conceitos de uso já consagrado, em especial, aqueles adotados em abordagens sociossistêmicas de acidentes. Além disso, o estudo pretende mostrar que a exploração dos dados coletados, com o uso de técnicas como a ADC para a organização dos fatores identificados, ajuda a revelar lacunas ou pontos que não foram alvo de exploração mais detalhada. Embora a maioria desses aspectos se refira à dimensão gerencial ou à organização do trabalho adotada no sistema, outros se referem às discussões de origens de comportamentos de trabalhadores e até à descrição de aspectos técnicos do sistema. Outro aspecto que o estudo se propôs a destacar trata da contribuição específica da gestão de segurança e saúde do trabalhador para a ocorrência de acidentes. As abordagens tradicionais costumam interromper a coleta de dados tão logo identificam 1 Alguns dos conceitos citados são usados na literatura de gestão do trabalho e mesmo da segurança há mais de vinte anos; no entanto, neste último campo, entre nós, sua utilização ainda é novidade. 3 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  6. 6. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS problemas de segurança como, por exemplo, a falta de proteções em máquinas. Desse modo, perdem a oportunidade de mostrar que acidentes assemelhados já aconteceram várias vezes no passado sem que a equipe de segurança apontasse algo mais que suposta falha do operador como causa do evento. A análise de acidente precisa explorar as razões associadas a essas práticas e considerá-las na intervenção de prevenção a ser desencadeada. Por fim, outro aspecto associado à escolha do acidente a ser apresentado é o fato de que a descrição realizada permite mostrar que, em suas origens remotas, há contribuição direta de escolhas estratégicas relacionadas à tecnologia a ser usada para a produção e das práticas de ajustes a serem usadas para correção da variabilidade do processo. A discussão desse aspecto ganha maior relevância por estar diretamente associada à prática de transferência de tecnologia para estado do Nordeste do país, de modo que recebe benefícios e apoio do próprio poder público desconsiderando custos sociais associados à iniciativa. MATERIAL E MÉTODOS O material analisado consistiu no conjunto de informações coletadas por auditor fiscal do Trabalho (AFT) do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) sobre acidente do trabalho típico ocorrido em indústria de calçados instalada no interior do estado da Bahia. Além de cópia do relatório da análise foram consultados filmes, fotografias e documentos relacionados ao acidente obtidos na ação fiscal conduzida in loco. A coleta dos dados originais foi feita por um dos autores no local da ocorrência, incluindo observações diretas e entrevistas com o acidentado, colegas de trabalho, chefe imediato e profissionais de segurança do trabalho da empresa. Nessa ocasião, foram requisitadas cópias de documentos à empresa, realizados filmes e fotografias das máquinas, das posições de trabalho e das instalações onde o acidente ocorreu. No segundo momento, os dados foram sistematizados pelo AFT ensejando a redação do relatório de análise do acidente de modo que encerrava preliminarmente a ação fiscal. Passada essa fase, os dados foram reanalisados com elaboração de árvore de causas e exploração do esquema elaborado em conformidade com as recomendações de Binder (1997) e Binder & Almeida (2003). A escolha da árvore de causas se deveu a duas razões principais: a experiência prévia de um dos autores com a técnica, e o fato de 4 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  7. 7. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS a técnica ter sido desenvolvida de modo que associa orientações dos princípios de análise de mudanças e de barreiras considerados úteis para a discussão dos achados da análise. A discussão dos comportamentos apontados como relacionados ao acidente se apoia em conceitos da ergonomia da atividade, em particular nas noções de variabilidade, estratégias, modos operatórios habituais e ajustes desses modos operatórios em face de variabilidades. RESULTADOS E DISCUSSÃO Descrição resumida do acidente O acidente aconteceu durante a operação de máquina injetora de plástico usada para moldar “solado” de sapato. Habitualmente a injetora é operada por dois trabalhadores, um ao lado do outro, em posto de trabalho fixo, localizado ao lado de robô que atua na injeção de produto na máquina e representa obstáculo ao deslocamento lateral dos trabalhadores, uma vez que o carrossel gira na direção do robô. Cada operador cuida de uma das matrizes de moldagem. A máquina tem formato de carrossel (ver Figura 1) e funciona de modo temporizado. Após a injeção do material e o fechamento do molde, em todos os ciclos, além de moldar a “sola” do calçado (Figura 2), a máquina produz restos que ficam aderidos às matrizes (Figura 3) e precisam ser limpos (Figura 4) para evitar perda do solado na injeção seguinte. O tempo que o carrossel permanece parado foi calculado considerando a retirada do solado pronto, a duração da limpeza das matrizes e o fato de que cada operador cuida da tarefa em “sua” matriz. O posto de trabalho permite o acesso das mãos dos operadores às zonas de operação – ZO (fechamento ou prensagem) – da máquina, e, findo o tempo programado para o ciclo de trabalho, o carrossel gira com a ZO aberta. A injetora não é dotada de dispositivos que impeçam o fechamento das ZOs durante a permanência de partes do corpo do operador em seu interior, nem de dispositivos de parada de emergência. Em outras palavras, na operação habitual da injetora, enquanto as mãos do operador estão na zona de prensagem a segurança do 5 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  8. 8. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS processo depende apenas da confiabilidade da máquina e do tempo de permanência das mãos do trabalhador dentro dessa zona de operação. Figura 1 – Injetora com prensas em Figura 2 – Zona de prensagem aberta, formato de carrossel. com o solado injetado. De acordo com as normas da empresa o líder do setor é encarregado de substituir operadores que se ausentam e, dessa forma, manter a dupla de operadores na máquina. No dia do acidente o Sr. X, contratado há cinco meses, líder de setor, 2 substituiu o Sr. Y, que estava em horário de almoço, e formou dupla com o Sr. Z que, pouco depois, ausentou-se de seu posto de trabalho para ir ao banheiro. Sozinho, o Sr. X continua operando a máquina, não consegue terminar a limpeza das duas matrizes antes do giro do carrossel e, contornando o robô, desloca-se lateralmente – até a nova posição assumida pelas matrizes – para continuar limpando a matriz. Antes que consiga terminar o trabalho, decorrido o tempo programado para fechamento da ZO, a injetora fecha e esmaga a mão direita do trabalhador. 2 A função é descrita como trazendo apenas ônus para os trabalhadores, e, por isso, o pessoal com mais tempo de casa a rejeita. Contratado há poucos meses, o Sr. X informa que aceitou a função esperando que a empresa reconhecesse sua boa vontade para com ela. 6 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  9. 9. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS Figura 3 – Zona de prensagem aberta, Figura 4 – Prensa aberta e limpa (sem sem o solado, mas com restos de restos de material). material. Quando lhe perguntaram por que continuou a limpeza da matriz, o Sr. X afirmou que estava com medo de provocar a perda de material. Afinal, recentemente fora advertido pelo supervisor de que na “próxima vez” que isso acontecesse ele (Sr. X) seria punido. Essa informação foi coletada em frente ao supervisor, sem discordância deste. A análise mostrou que esse não era o primeiro acidente ocorrido na operação daquele tipo de injetora na empresa, tendo havido outros tipos de acidentes – diferentes das amputações – na operação da máquina. Revelou ainda que a situação era de reiterado descumprimento da legislação, uma vez que a empresa já fora orientada, notificada e autuada, tendo recebido até mesmo sentença judicial relacionada ao fato. A empresa fora notificada e autuada por irregularidades relativas à sua situação de Segurança e Saúde no Trabalho, também por problemas específicos relacionados a “Instalação e funcionamento de máquinas e equipamentos em desacordo com a Norma Regulamentadora NR-12”, “Falta de treinamento, qualificação dos trabalhadores” e “SESMT – Serviço de Especializado em Engenharia de Segurança e em Medicina do Trabalho, dimensionado em desacordo com a Norma Regulamentadora NR-04, e sem autonomia”. A explicação tradicional A análise desse acidente, conduzida no âmbito da empresa, concluiu tratar-se de ato inseguro do operador. Essa conclusão baseava-se em afirmações de que ele não deveria ter continuado a operar a injetora sozinho e não deveria ter se deslocado para 7 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  10. 10. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS continuar a limpeza da matriz. Ou seja, o comportamento do trabalhador seria desconhecido pela empresa e teria origens em escolha pessoal, livre e consciente, sem que ninguém lhe tivesse ordenado fazer o que fez. Como consequência, a principal recomendação de prevenção incluída na análise foi a de reforço do treinamento dos operadores para que não agissem da mesma maneira que o acidentado. A árvore de causas e a reanálise do acidente Partindo da descrição do acontecido, os fatores identificados foram usados para a montagem da árvore de causas do acidente (Figura 5). A exploração do esquema é apresentada a seguir, juntamente com comentários inspirados pelas noções de análise de barreiras e análise de mudanças. A árvore mostra acidente envolvendo amputação de mão de líder de setor. A lesão aconteceu quando ele substituía operadores de injetora e tentava completar limpeza de matriz situada na zona de prensagem da máquina. O acidente teve origens em interações de múltiplos fatores, entre os quais se destacam: • Os encarregados da gestão de produção da empresa colocam em operação injetora com zona de prensagem (ZP) desprotegida (perigo). • Dois fatos se destacam na operação normal dessa injetora. A operação de retirada do solado pronto é sempre manual, com entrada das mãos dos operadores em zona de operação desprotegida (situação de risco de amputações); e a injeção gera restos de materiais nas matrizes da ZP em todos os ciclos da operação da máquina, exigindo limpeza destas antes da injeção seguinte. • A gestão de produção decidiu gerir a situação com limpeza manual das matrizes a ser feita pelos operadores da injetora, ou seja, dois trabalhadores com mãos em ZP – situação de risco de amputações. É importante salientar que os dois trabalhadores colocavam suas mãos dentro de zona de prensagem desprotegida em todos os ciclos da operação da injetora, ou seja, de modo habitual e permanente, e não apenas para a correção eventual de incidentes. • A análise preliminar do acidente não esclareceu se o perigo e o risco aqui citados foram descritos em documentos de segurança da empresa (PPRA, 8 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  11. 11. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS PCMSO, atas de reuniões de CIPA etc.), ensejando a devida solicitação de correção. Caso não tenham sido identificados, a situação configura falha da equipe de gestão de segurança da empresa. As razões dessa falha devem ser exploradas junto à equipe. Caso tenham sido identificados e o pedido de correções tenha sido desconsiderado por outra gerência, caberia à equipe de análise explorar as razões da não adoção das medidas cabíveis, esclarecendo as razões dessa prática de gerir a produção desconsiderando a lógica da segurança. Essa situação é agravada por dois fatos: 1. Constatação de acidentes anteriores na operação da injetora que, a exemplo do caso descrito, foram tratados pela empresa com a abordagem tradicional culminando em conclusão de atribuição de culpa à vítima e deixando de identificar ausência de proteções definidas em normas regulamentadoras brasileiras como obrigatórias. 2. Constatação de registros de intervenções de organismos de auditoria fiscal ensejando determinações de adoção de proteção das máquinas, sem que a empresa tenha tomado as providências cabíveis. A esse cenário de produção administrada de modo que fragiliza a segurança, ou seja, sem a adoção das medidas de segurança definidas em lei e recomendações de organismos afins, nacionais e internacionais, somam-se mudanças que contribuem para as origens do acidente. Dentre elas, destacam-se: • O Sr. X é deixado sozinho em injetora habitualmente operada por dois trabalhadores e continua a operar a máquina. A coleta preliminar de dados não esclarece: a) se o equipamento permitiria reprogramar o tempo estipulado para giro do carrossel nessa nova situação e, tampouco, b) se, nesse caso, esse seria o comportamento habitual dos operadores deixados nessa mesma situação. Também não foram coletadas informações, tão ao gosto da gestão tradicional de segurança, sobre a existência ou não de procedimento de segurança relativo à operação da injetora ou similar que considerasse 9 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  12. 12. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS expressamente a possibilidade de um operador ser deixado sozinho com a máquina e definisse a conduta a ser seguida nessa eventualidade. • Fazendo sozinho o trabalho de dois operadores experientes, o líder que os substituía não consegue limpar as duas matrizes antes de concluído o tempo programado para o giro do carrossel e, após esse giro, desloca-se lateralmente por trás do robô de injeção da máquina e continua a limpeza não concluída. Decorrido o tempo programado para o fechamento da ZP da injetora, e ainda antes de concluída a limpeza das matrizes, a mão direita do Sr. X é prensada na máquina. Ao explorar as origens do comportamento do Sr. X de continuar operando sozinho a injetora, a coleta inicial de dados ouviu do trabalhador referência direta a “medo de punição caso agisse de modo diferente”, uma vez que já fora ameaçado por seu supervisor direto caso voltasse a ocorrer perda do material injetado pela máquina. Revendo a contribuição dos comportamentos do líder no acidente Integrantes da equipe de segurança da empresa insistiram na defesa de sua opinião inicial, culpando o Sr. X pelo acidente. Nos últimos anos é crescente o número de contribuições ao tema da análise de acidentes que criticam os enfoques que insistem em explicações para essas ocorrências com argumentos centrados em características da pessoa do trabalhador. Essas críticas ressaltam o fato de que os comportamentos no trabalho têm origem, por exemplo, em aspectos da situação de trabalho, sendo determinados por conjunto de influências dos materiais; dos meios de trabalho; da organização do trabalho; das características estruturais do sistema, com ênfase nos tipos de interações existentes entre seus componentes; da história do grupo específico de trabalhadores; das estratégias desenvolvidas para lidar com variabilidades desses elementos. Esse novo olhar sobre o tema dos acidentes de trabalho destaca que a segurança e o risco no trabalho não resultam apenas de fatores técnicos, ou perigos potenciais presentes no sistema. Ganha ênfase a necessidade de compreender a atividade do homem no sistema, o trabalho normal. Ao identificar as variabilidades mais frequentes e as estratégias e mudanças adotadas em modos operatórios para ajustar a atividade aos 10 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  13. 13. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS seus objetivos, essa abordagem passa a compreender risco e segurança como propriedades emergentes do sistema. A análise ergonômica do trabalho (AET) permite visualizar as razões do comportamento do trabalhador com base em seu ponto de vista na situação de trabalho. Aos poucos, vai se demonstrando que o comportamento no trabalho não se origina de suposta vontade do trabalhador de expor-se desnecessariamente a perigos, nem do fato de que o trabalhador tenha personalidade descuidada, ou relapsa. As mudanças adotadas pelos trabalhadores em seus modos operatórios são, via de regra, necessárias ao funcionamento do sistema, mas podem representar fontes permanentes de possíveis riscos à sua segurança. A análise de acidentes permite identificar atividades em cuja realização surgem comportamentos dos trabalhadores que desencadeiam acidentes ou deles participam. Essa nova forma de compreender a segurança entende que essas atividades devem ser alvo de demandas de análises ergonômicas e que, uma vez realizada, a AET pode esclarecer determinantes – ligados à atividade – dos comportamentos em questão. A análise de mudanças ilustrada na árvore de causas mostra parte desses determinantes, mas também deixa sem resposta perguntas relacionadas às origens dos comportamentos do trabalhador no acidente. Depois de discutir os aspectos mostrados na árvore o tema das lacunas será retomado, indicando aspectos que poderiam se beneficiar da realização da AET como complemento da análise desse acidente. A árvore de causas, os comportamentos do trabalhador e caminhos para a análise A árvore mostra que as ações do trabalhador associam-se o tempo todo: a) com sua intenção de continuar trabalhando ou concluir a limpeza das matrizes que havia iniciado; b) com características da injetora cujo carrossel girou e em cujas matrizes persistiam restos de materiais que o Sr. X não conseguiu retirar no tempo programado para o giro do carrossel. Não bastassem esses aspectos, todos referidos ao trabalho do Sr. X, a árvore ainda mostra como possíveis fatores das origens da persistência de restos de materiais na matriz da injetora o fato de que o Sr. X, que originalmente não era operador de injetora, operava sozinho máquina habitualmente conduzida por dois colegas experientes. Além disso, deixou de reprogramar os tempos do funcionamento de seus componentes. 11 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  14. 14. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS Ou seja, na origem do atraso na realização da limpeza estão aspectos objetivos do trabalho real do Sr. X. A temporização programada de “ações” realizadas pela máquina é apontada na literatura de segurança como prática que retira do trabalhador o controle do desenvolvimento das ações e, por isso mesmo, como fator não desejado na concepção de dispositivos automáticos (AMALBERTI, 1993). Os automatismos que funcionam desse modo podem desconsiderar tanto aspectos da variabilidade do trabalho desenvolvido por ocasião do acidente como características físicas e psíquicas do ser humano, em especial nos momentos em que podem manifestar variabilidades, como o cansaço, as emoções, as flutuações no nível de atenção etc. A argumentação apresentada na análise dos integrantes da empresa sustenta-se na ideia que o Sr. X não agiu do “jeito certo”, não fez o que deveria ter feito. Desse modo, abandona o comportamento em si do operador, passando a valorizar o julgamento dessa ação. O pressuposto embutido no julgamento desses profissionais é o de que nas origens desse comportamento do Sr. X estariam escolhas livres e conscientes, associadas apenas a características da pessoa do trabalhador, sem relação com o trabalho que ele realizava no sistema em questão. Em si, os fatos aqui apontados já desmascaram a falácia do argumento de integrantes da equipe do SESMT da empresa, os quais buscavam culpar a vítima. No entanto, conhecimentos adicionais já utilizados em análises de acidentes permitem explorar outros aspectos relativos aos comportamentos do Sr. X nas proximidades do desfecho do acidente que sofreu. Como seria o olhar da ergonomia sobre os dois comportamentos citados do Sr. X, “continuar operando a máquina sozinho” e “deslocar-se do seu posto de trabalho para continuar limpando a matriz depois do giro do carrossel”? De modo resumido, a resposta a essa questão está no estudo do trabalho normal do Sr. X e de seus colegas que realizam a atividade em questão. Assim, solicitada a análise ergonômica do trabalho (AET) do Sr. X como complemento da análise do acidente, a condução do estudo tentaria responder, entre outras, às seguintes questões, iniciando por aspecto relacionado às origens da operação de limpeza das matrizes, que era realizada por ocasião do acidente: a) Há variações nas quantidades de restos formados em cada injeção e em sua distribuição nas matrizes nos diferentes ciclos ao longo de uma jornada de 12 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  15. 15. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS trabalho? Há variações nas quantidades e na distribuição de materiais entre as diferentes matrizes do carrossel? Em caso afirmativo, quais as diferenças existentes na forma como essa variabilidade é percebida e interpretada por trabalhadores experientes e novatos? b) Em caso de resposta afirmativa às questões do item anterior, há aumento de dificuldades na limpeza das matrizes associado a algumas das diferenças identificadas em quantidade e ou distribuição dos restos de materiais nas matrizes? Há diferenças em estratégias e modos operatórios usados por trabalhadores experientes e novatos para limpar as matrizes “mais difíceis”? c) No trabalho normal há (havia) situações em que a injetora operada por duas pessoas fique (ficasse) temporariamente sob o comando de apenas um trabalhador, por exemplo, quando um dos integrantes da dupla se afasta por qualquer razão? d) Caso a resposta seja positiva, quais as estratégias que adota para concluir a limpeza das matrizes no tempo programado para o giro do carrossel? Quais os resultados obtidos com o uso dessas estratégias: há registro de casos em que até mesmo trabalhador experiente não tenha conseguido completar a limpeza? Quais as condições de origem dessas situações? Nesses casos, havia uso da prática de deslocar-se para a nova posição da matriz a fim de concluir a limpeza ou de interromper a produção com base em norma ou prática de prevenção de acidentes reconhecida e valorizada na empresa? e) Em caso de resposta afirmativa às últimas perguntas dos itens c e d, há (havia) algum tipo de controle da perda de material? E de responsáveis por essas perdas? Há rotina de punições financeiras, administrativas, disciplinares, simbólicas ou de outra natureza para os supostos responsáveis? f) Há indícios de contribuições da falta de competências (desenvolvimento de habilidades, saberes tácitos etc.) de trabalhadores não experientes em casos de atrasos na conclusão da limpeza das matrizes? g) Como o Sr. X, líder havia cinco meses, que operava máquinas apenas de modo eventual, se situa em relação a essas questões? Discutindo situação assemelhada, Kletz (2006) afirma que as pessoas não atuam no vácuo. As escolhas feitas pelos trabalhadores são influenciadas pela avaliação que fazem sobre: a) as reações de seus chefes; b) as atitudes e os comportamentos em 13 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  16. 16. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS relação à segurança na empresa; c) ao que conhecem sobre as ações já realizadas ou observações feitas em outras situações. Declarações sobre políticas oficiais têm pouca influência! Nós julgamos as pessoas pelo que elas fazem, não pelo que elas dizem! Por isso mesmo, os superiores hierárquicos têm grande carga de responsabilidade pelo estabelecimento da sensação percebida entre os trabalhadores de que correr risco é algo legítimo. A lista de questões poderia ser prolongada, mas já é suficiente para ilustrar que, diferentemente do mundo idealizado presente no discurso normativo característico da segurança tradicional, no trabalho como ele é deparamos com variabilidades e também com imprevistos que, na maioria das situações, não resultam em acidentes graças à sua pronta detecção, interpretação e correção por parte dos trabalhadores. E que as estratégias adotadas no passado por colegas mais experientes em situações similares são transmitidas no “exercício das atividades e pelo enfrentamento das dificuldades” como “instrumento coletivo da atividade individual” (LIMA, 2007). Isso não significa que as escolhas do Sr. X estejam presas em camisa de força. E sim, que as escolhas feitas pelo operador entre o aceitável e o inaceitável tendem a situar-se no universo das variantes presentes nas práticas do grupo em que se insere. Em outras palavras, o comportamento de adesão a suposta regra de segurança só tende a ocorrer ou ser considerado como uma possibilidade se já estiver incorporado no repertório de estratégias usadas pelos trabalhadores. E não quando essa regra é mero álibi. E já reconhecida como tal no cotidiano dos trabalhadores. No caso específico do Sr. X, também estaria indicada a exploração específica da sua condição de trabalhador substituto, que assumiu função rejeitada pelos operadores experientes e que, por isso mesmo, poderia ser interpretada pelos colegas membros do coletivo como sinal de adesão às tentativas de empresa em busca da cooptação dos trabalhadores. Essa prática de gestão pode representar ameaça efetiva à construção e consolidação do gênero do trabalho (CLOT, 2006) nessa empresa, dificultando, em especial aos novatos, o acesso a conhecimentos e habilidades relativos ao que os trabalhadores denominam de “os jeitos usados para fazer as coisas por aqui” com segurança e eficiência. A contribuição da clínica da atividade desenvolvida por Yves Clot (2006) também poderia ser usada para discutir a eventual contribuição da limpeza não concluída das matrizes da máquina no comportamento do Sr. X em mudar de posto de trabalho e tentar concluir a limpeza. Para Clot, aquilo que o operador queria fazer e não faz, a atividade 14 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  17. 17. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS contrariada, passa a ser parte da carga de trabalho e pode continuar a influenciar o desenvolvimento da atividade. Vistos dessa perspectiva os comportamentos do Sr. X, ou dos operadores em situação de trabalho, refletem o que fariam seus colegas de profissão ou coletivo de trabalhadores em situação semelhante. Infelizmente, a conclusão da análise do acidente apresentada pela empresa mostra que a sua equipe de segurança não é reconhecida técnica e politicamente como interlocutor válido para discutir as práticas adotadas no mundo real da produção. Tal análise adota, assim, o caminho da prática ficcional, reproduzida em torno de discurso burocrático e sem sentido para a prevenção como revelado pelo passado de punições recebidas pela empresa em função do seu histórico de segurança. De modo submisso, a equipe de segurança da empresa assume a condição de segurança formal, para quem os perigos e riscos emergentes no sistema passam a ser “coisas da produção”. Se, no sistema, inexiste precedente de colega que diante do risco de acidente interrompe a produção e tem o seu gesto reconhecido, como levar a sério a frase-álibi da empresa de que esse deveria ter sido o comportamento do Sr. X? Em geral, análises em profundidade mostram que esse tipo de afirmação por parte de representantes da empresa não passa de tentativa de manipulação e ocultação da verdade. São álibis montados na esperança de “limpar a barra” da empresa, ao mesmo tempo em que revelam que a própria equipe “de prevenção” age como cúmplice, compactua com práticas que desqualificam a função segurança para os públicos interno e externo à empresa. Desrespeito à norma de segurança No campo da segurança os comportamentos do acidentado também estão sendo discutidos com a ajuda de outros conceitos que dialogam com a noção de variabilidade do trabalho já discutida anteriormente. Os dados colhidos não permitem afirmar se havia ou não regra de segurança que definisse explicitamente qual deveria ser o comportamento do Sr. X quando o seu parceiro de operação de máquina vai ao banheiro ou quando o carrossel gira antes que tenha concluído a limpeza das matrizes. Em grande número de casos, quando existe regra formal sobre o comportamento na situação em questão, ela desconsidera as 15 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  18. 18. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS variabilidades possíveis. Por isso mesmo, caberia ao trabalhador, em tempo real, decidir “o que fazer” e “como fazer”, e agir prontamente. Sem retomar aqui os aspectos da citada influência da “vida como ela é” e sem questionar se essa não seria apenas mais uma regra do tipo “para inglês ver” ou, melhor dizendo, a ser utilizada apenas como álibi em caso de acidente do trabalho, cabe registrar como a contribuição dessa norma seria discutida à luz da teoria da alça de controle da segurança (LEVESON, 2002). A regra de segurança é medida escolhida por determinado controlador, neste caso, visando garantir a segurança do sistema. A conclusão da análise atribuindo o acidente a “ato inseguro” do trabalhador que “não cumpriu a regra” assume pressuposto de que a única atribuição que caberia ao controlador seria a da emissão da regra. A noção de alça de controle da segurança amplia o perímetro dessa discussão. Assim, a eficácia da norma diz respeito: ao seu conteúdo; aos constrangimentos adotados visando sua efetiva implantação; às medidas tomadas e aos meios usados para monitorar tanto a adesão por parte dos trabalhadores quanto a eficácia dessa adesão em relação aos objetivos do sistema. Isso quer dizer que caso existisse norma de segurança relativa a comportamentos como os do Sr. X no acidente, o seu descumprimento não poderia ser interpretado e nem aceito como equivalente de responsabilidade única e exclusiva desse operador. De acordo com Leveson (2002), o controle proposto para a segurança do sistema pode apresentar falhas: • Na concepção das medidas: a) Não identificando perigo e risco existentes; b) Propondo medidas inadequadas para o controle de riscos; • Na execução das medidas, por exemplo: c) Por falhas de comunicação; d) Por falhas do dispositivo ou “atuador” propriamente dito; • Na retroalimentação (feedback) relativa à implantação e ao funcionamento dos controles propostos: e) Por não ter sido incluído no desenho; f) Por falha de operação do dispositivo (por exemplo, sensor). 16 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  19. 19. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS Assim, tão logo a equipe se perguntasse qual o risco que o sistema pretendia controlar com a norma em questão, constataria a existência de zona de prensagem desprotegida e a inadequação da medida proposta. Mas, se ela fizesse parte de elenco avaliado como adequado, caberia ainda questionar o que era feito na empresa de modo a estimular que a regra fosse utilizada, e ainda monitorar seu uso e eficácia. A análise do acidente do Sr. X se beneficiaria da descrição dos componentes da alça de controle da segurança no funcionamento (operação e manutenção) da injetora na atividade. Afinal, se nada foi feito para incentivar a adesão dos operadores ao comportamento prescrito, a desobediência em questão poderia ser descrita como previsível, e a gestão de segurança, como frágil. De modo geral, as “regras-álibi” só existem no papel, no discurso de alguém. Vale acrescentar que diferentemente do pressuposto da abordagem comportamentalista, a repetição não leva à perfeição. Como bem afirmam Reason & Hobbs (2003), o melhor, o mais bem treinado dos operadores, pode cometer o pior dos erros. Aspectos que agravam a conduta da empresa Um aspecto que chama a atenção na análise desse acidente é o fato de a explicação centrada na ideia de atribuição de culpa ser utilizada numa situação em que se somam evidências de problemas de segurança nos meios técnicos disponibilizados para a produção, na estratégia escolhida para a limpeza de restos do processo na máquina e na gestão de segurança do sistema. A injetora envolvida no acidente foi colocada em operação com zona de prensagem desprotegida. A operação da máquina exige a colocação de mãos dos operadores na zona de prensagem para a retirada do solado pronto. Como agravante, a injeção gera sobras que extravasam nas matrizes, em todos os ciclos de operação, e precisam ser limpas. Nessa empresa, a limpeza é feita manualmente, com nova exigência de colocação de mãos de operadores na zona de prensagem da máquina. O reconhecimento do perigo e dos riscos à saúde dos operadores de injetora presentes no relato aqui exposto não tem nenhuma dificuldade de natureza técnica. Mas não é só. A análise do acidente sofrido pelo Sr. X mostra a ocorrência prévia de outros casos também analisados da mesma forma pela equipe de segurança da 17 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  20. 20. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS empresa. Aparentemente, mais um exemplo prático de que atribuir culpa também implica inibir a prevenção. Revendo, com a ajuda da noção de análises de barreiras, a situação de segurança encontrada na operação da injetora, é possível afirmar que ela não dispunha de nenhuma barreira ou medida de prevenção pensada com vistas à prevenção de acidente como o sofrido pelo Sr. X. Talvez, um profissional de segurança caracterizado pelo excesso de otimismo e ou cinismo pudesse ainda afirmar que na operação da máquina a segurança real do trabalhador dependia da sua atenção e cuidado para retirar “a tempo” as mãos da zona de prensagem. Os conhecimentos relativos ao uso de critérios de seleção de medidas de prevenção nos ensinam que quando há risco de lesão grave num acidente a equipe de segurança deve considerar inaceitável que a prevenção seja baseada exclusivamente em medidas ditas “ativas”, ou seja, dependentes de comportamentos do trabalhador. Em outras palavras, a injetora em que o Sr. X sofreu o acidente deveria ter sido provida de proteções passivas, como as definidas nas normas de segurança do país (BINDER; ALMEIDA, 2003). No caso, a situação é ainda mais grave. A empresa foi formalmente notificada, autuada e até alvo de sentença judicial determinando a instalação das proteções que insistiu em não instalar. Diante desses fatos cabe até perguntar: será mesmo “acidental” o acidente sofrido pelo Sr. X? Será que podemos considerar acidental a ocorrência de amputação de mão de trabalhador que operasse a injetora em questão? CONSIDERAÇÕES FINAIS Este estudo denuncia a prática de análise de acidentes conduzida de modo a culpar a vítima e inibir a prevenção. O caso apresentado mostra aspectos da fragilidade técnica da abordagem tradicional conduzida no âmbito da empresa e evidências de que o uso dessa prática se dá com o conluio e a contribuição ativa da equipe de segurança do sistema, uma vez que ela deixa de registrar em sua “investigação” fatores de risco definidos nas normas de segurança do país e facilmente identificáveis. Ou seja, não se trata de caso em que o reconhecimento do perigo e do risco de amputação envolvam dificuldade técnica ou exijam competências não incluídas na formação básica de 18 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  21. 21. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS profissionais de segurança. Com o agravante de os fatores em questão já terem contribuído em acidentes anteriores e sido alvo de punições em ações fiscais. Com os dados coletados na análise conduzida por AFT, profissional externo à empresa, foi possível ir além do reconhecimento das falhas técnicas de segurança e apontar falhas na gestão de segurança do sistema que precisam ser consideradas no elenco de recomendações de prevenção a serem apresentadas à empresa no desfecho da intervenção de vigilância. Mesmo diante dos argumentos aqui apresentados a equipe de segurança da empresa pode continuar afirmando que os comportamentos da vítima seriam as causas desse acidente. Ou seja: continuar a operar a injetora sozinho, quando seu colega vai ao banheiro, e continuar a limpeza da matriz depois do giro do carrossel. Na abordagem tradicional, uma vez julgados esses comportamentos como “atos inseguros” da vítima, estaria encerrada a análise do acidente. O uso da árvore de causas ajuda a discutir esses comportamentos do Sr. X, revelando explicação para o acidente diferente daquela apresentada pela empresa. No novo olhar, não basta identificar e classificar o comportamento do trabalhador. O fundamental é explicar por que, para o trabalhador, fazia sentido agir daquela forma na situação do acidente (DEKKER, 2002). Os achados da árvore mostram que os comportamentos da vítima, inicialmente apontados como supostamente inexplicáveis, ou produtos de decisões “pessoais” do operador, têm, na verdade, origens em aspectos do próprio trabalho, em especial, nas estratégias e modos operatórios adotados pelo trabalhador diante de variabilidades do seu trabalho e do compromisso construído na situação de trabalho com as ideias de manter a produção e evitar perdas de materiais. É preciso acrescentar que essas mesmas estratégias e esses modos operatórios foram usados antes e com sucesso no sistema. Logo, o desafio que se abre à equipe de análise de acidentes é o de explicar as razões do fracasso dessas estratégias na situação que evoluiu para o acidente. O caso apresentado aponta caminhos a serem seguidos visando responder a essa questão. A leitura da árvore de causas já revela que os comportamentos do trabalhador não são produtos de suposta característica de sua personalidade como a vontade de “correr riscos”, ou desleixo com a segurança, ou equivalente. Pelo contrário, mostra que o comportamento está claramente associado a aspectos da situação de trabalho. A interpretação dos achados da árvore com a ajuda de conceitos de análise de mudanças, análise de barreiras e, sobretudo, da ergonomia e da clínica da atividade 19 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  22. 22. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS permite apontar caminhos complementares à análise de acidente de modo a revelar como se deu no trabalho normal, nas situações anteriores ao acidente, a construção da negociação que resulta na adoção da estratégia e dos modos operatórios usados pela vítima e por seus colegas naquele tipo de situação de trabalho em que acaba ocorrendo o acidente. Embora a coleta de dados na empresa não tenha explorado a construção do “compromisso cognitivo” em questão, ela evidencia a atividade em que essa negociação foi forjada e permite explicitar demanda de análise ergonômica visando esclarecer “os termos” desse compromisso. Nesse caso, a discussão apresentada se dá em concordância com a proposta de ampliação da AET nos termos sugeridos por Clot (2006). Os conceitos citados em suporte à condução da análise do caso apresentado mostram possibilidades de explicação dos comportamentos da vítima radicalmente diferente daquela da abordagem tradicional ou paradigma burocrático da análise de acidentes. Essa explicação sugere novos caminhos para os interessados na prevenção de acidentes. Nos caminhos aqui indicados a segurança real do trabalhador não é prisioneira de “jeitos certos”, normas e regras a serem seguidas de modo servil e obediente, como receita invariável que levaria ao porto da segurança em todas as situações. Sem desmerecer as contribuições da gestão de segurança baseada na adesão a normas, sobretudo nas situações de trabalho que mostram perigos clássicos e baixa variabilidade, registra-se a necessidade de compreender que a segurança real é propriedade emergente do sistema, produto de construção coletiva que se dá na convivência com múltiplas variabilidades da situação real de trabalho, com as dificuldades que elas ensejam e com as estratégias a serem adotadas visando manter o desenvolvimento da atividade do sistema. Por fim, a análise desse caso mostra que as características da injetora, com zona de prensagem aberta, produção de restos em todos os ciclos de operação e retirada manual da peça pronta e das sobras de materiais representam condições latentes associadas às origens do acidente e a serem abordadas como alvos prioritários da prevenção. Em outras palavras, o acidente tem origens em: a) escolhas estratégicas feitas na empresa acerca da tecnologia de produção com zona de operação aberta; b) decisões sobre as práticas de retirada – manual – do solado pronto; c) decisões sobre o uso da limpeza manual dos restos de materiais deixados nas matrizes após cada injeção. Afinal, 20 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  23. 23. ANÁLISE DE ACIDENTES DO TRABALHO, GESTÃO DE SEGURANÇA DO TRABALHO E GESTÃO DE PRODUÇÃO ldeberto Muniz de Almeida; Anastácio Pinto Gonçalves Filho INTERFACEHS foram essas escolhas que introduziram no sistema o perigo e o risco da lesão que acabou acontecendo. Só mesmo em realidades de segurança muito precárias riscos dessa natureza são deixados intocados. A contribuição da gestão de (in)segurança do sistema para o acidente é flagrante. Este estudo não mostra as razões associadas às origens dessas práticas, mas mostra que a equipe de segurança do sistema foi incapaz de aproveitar as janelas de oportunidade abertas pelo acidente estudado e pelos anteriores. Seria esse um sinal de despreparo técnico? De submissão a interesses da lógica de produção? Novos estudos são necessários para aportar respostas a essas questões. Por fim, o caso analisado mostra que a segurança real não pode ser construída sem a participação das equipes de segurança e dos próprios trabalhadores nas discussões relativas às escolhas estratégicas do sistema sobre as formas a serem adotadas para a produção. A construção técnica e social da segurança exige a abertura de diálogo que considere as diferentes lógicas presentes no sistema com destaques para uma segurança qualificada e a participação dos trabalhadores. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALMEIDA, I. M. Construindo a culpa e evitando a prevenção: caminhos da investigação de acidentes do trabalho em empresas de município de porte médio. Botucatu, São Paulo, 1997. São Paulo, 2001. 222p. Tese (Doutorado em Saúde Pública) – Departamento de Saúde Ambiental, Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo. _______. Trajetória da análise de acidentes: o paradigma tradicional e os primórdios da ampliação da análise. Interface, Comunic, Saúde, Educ, Botucatu, v.9, n.18, p.185-202, 2006. Disponível em: www.scielo.br. AMALBERTI, R. Safety in flight operations (Chapter 10). In: WILPERT, B.; QVALE, T. (Ed.). Reliability and safety in hazardous work systems. Hillsdale: Lawrence Erlbaum Associate Publishers, 1993. p.171-194. ASSUNÇÃO, A. A.; LIMA F. P. A. A contribuição da ergonomia para a identificação, redução e eliminação da nocividade do trabalho. In: MENDES, R. Patologia do trabalho. 2.ed. São Paulo: Atheneu, 2003. p.1767-1789. 21 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.1, Artigo 1, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
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  26. 26. www.interfacehs.sp.senac.br http://www.interfacehs.sp.senac.br/br/artigos.asp?ed=10&cod_artigo=180 ©Copyright, 2006. Todos os direitos são reservados.Será permitida a reprodução integral ou parcial dos artigos, ocasião em que deverá ser observada a obrigatoriedade de indicação da propriedade dos seus direitos autorais pela INTERFACEHS, com a citação completa da fonte. Em caso de dúvidas, consulte a secretaria: interfacehs@interfacehs.com.br AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD 1 ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD 2 ; Beatriz GonzálezFlecha PhD 3 1 PhD, Molecular and Integrative Physiological Sciences, Department of Environmental Health, Harvard School of Public Health, Boston, MA 02115; Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental, Faculdade de Medicina da USP – Av. Dr. Arnaldo 455. 01246-903 São Paulo – SP – Brasil. mmacchione@lim05.fm.usp.br. 2 PhD, Laboratório de Poluição Atmosférica Experimental, Faculdade de Medicina da USP. 3 PhD, Molecular and Integrative Physiological Sciences, Department of Environmental Health, Harvard School of Public Health, Boston, MA 02115. RESUMO Graças à sua habilidade para sentir e responder aos aumentos intracelulares nos peróxidos ou ânions superóxido, a bactéria tem sido considerada um biossensor específico, potencialmente útil para detectar mudanças em níveis de oxidantes do meio ambiente. O presente estudo testa o possível uso de Escherichia coli abrigando um gene repórter katG’::lacZ como sensor de aumentos de peróxido de hidrogênio por partículas aéreas urbanas (UAP). Essa cepa abriga a fusão katG’::lacZ dentro do ADN cromossômico e consequentemente expressa β-galactosidade abaixo de um controle de um promotor de catalase hidroperoxidase (katG). katG é um membro do regulon OxyR, isto é, ele é regulado transcripcionalmente em resposta ao aumento no peróxido de
  27. 27. hidrogênio. Nossos dados mostraram que mudanças no peróxido de hidrogênio intracelular induzido por relevantes concentrações de partículas do ar urbano estão abaixo dos níveis requeridos para detecção pelo OxyR. Entretanto, cotratamentos com partículas (100 μg/ml) e peróxido de hidrogênio (75 μM) levaram a uma significante ativação de OxyR, resposta dependente (17%) (p < 0,001, comparado com H2O2 sozinho), sugerindo um importante papel de metal catalisando reação de Fenton no mecanismo de produção de peróxido de hidrogênio por partículas do ar ambiente. Palavras-chave: Escherichia coli; H2O2; partículas aéreas urbanas; metal; OxyR; biossensores.
  28. 28. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Níveis ambientais de partículas urbanas têm sido consistentemente associados ao aumento da morbidade (ATKINSON et al., 1999; SCHWELA, 2000) e mortalidade (LADEN et al., 2007; ELLIOTT et al., 2007; RUIZ-GODOY et al., 2007; KAISER, 2000) em doenças respiratórias e cardiovasculares. Além disso, recentes evidências apontam que a exposição a partículas desencadeia inflamação respiratória e sistêmica (GODLESKI, 2006), tanto quanto mudanças no tono vascular (MARTINS et al., 2006; BROOK et al., 2004). Por causa da complexidade química do aerossol urbano, ainda não se tem uma determinação precisa dos mecanismos patogênicos das partículas associadas aos efeitos adversos na saúde. O material particulado (PM) exibe propriedades oxidantes que podem causar dano tecidual e celular (TAO; GONZÁLEZ-FLECHA; KOBZIK, 2003). A capacidade oxidativa do PM tem sido atribuída à produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) dentro da célula através de reações tipo Fenton catalisada por metais e também quinonas que sofrem reações redox presentes na superfície do PM (STOHS; BAGCHI, 1995). Um recente estudo do nosso laboratório conseguiu evidenciar que a inalação com PM de fato aumenta a produção de espécies reativas de oxigênio (ERO) intracelulares in vivo (GURGUEIRA et al., 2002). A habilidade de diferentes PM em produzir ERO e a resposta biológica que essas partículas produzem variam consideravelmente dependendo da composição e das características físicas das partículas, e, em menor escala, da massa total das partículas (GURGUEIRA et al., 2002; GODLESKI et al., 2002). Vários métodos têm sido desenvolvidos para medir a capacidade oxidante de amostras de PM em uma tentativa de promover e estimar o potencial de diferentes amostras de PM e identificar respostas oxidantes mediadas por ERO em sistemas biológicos. Aust e colaboradores (AUST et al., 2002) propuseram um ensaio celular in vitro para quantificar a produção de ERO através de metais de transição e assim determinar o potencial de PM gerar ERO, baseado na detecção espectrofotométrica de metal de transição catalisando produção de radical hidroxil (AUST et al., 2002). Sugerimos uma estratégia que consiste em utilizar um 2 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  29. 29. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS bioensaio enzimático que poderia ser usado para acessar o potencial das partículas para gerar ERO (HATZIS et al., 2006), com base em achados indicando que diferentes composições inibem Cu/Zn superóxido dismutase, Mn superóxido dismutase, glutationa peroxitase e glutationa redutase in vitro e que os modelos de inibição formam enzimas e partículas específicas. Entretanto, ambos os ensaios podem subestimar a habilidade de PM gerar ERO por mecanismos outros que reação tipo Fenton ou interações diretas entre proteínas e PM que também ocorrem em sistemas celulares. As bactérias estão envolvidas com a resposta genética específica no intuito de adaptar-se a mudanças nos níveis de oxidantes no seu meio ambiente. A proteína OxyR (34 kDa) é um sensor redox e regulador transcripcional codificado pela oxyR (AUST et al., 2002). O locus oxyR foi identificado na E. coli (CHRISTMAN et al., 1985) como o sítio de mutação que confere aumento de resistência ao H2O2 hidroperóxidos orgânicos, mas para nenhum ânion superóxido gerado no sistema. A proteína reguladora oxyR inclui catalase-hydroperoxidase I (HP-I), o produto do gene katG uma alquilhidroperoxidase redutase, glutatione reductase, e Dps uma proteína ligada ao ADN (CHRISTMAN et al., 1985; ALTUVIA et al., 1994). A habilidade de OxyR acessar mudanças nos níveis de H2O2 in vivo tem sido mostrada em estudos que seguem a expressão da oxyR regulando o gene katG (codificando catalase-hidroperoxidase I) após o tratamento com H2O2. A expressão do gene foi monitorada pela medida de níveis de ARNm ou atividade de β-galactosidase da fusão do operon katG’::lacZ usado como um sistema “repórter”. A ideia do uso da bactéria como biossensor peróxido sensível já foi explorada anteriormente (BELKIN et al., 1996). Esses autores mostraram uma modesta porém promissora resposta ao fumo de cigarro e etanol em E. coli abrigando uma fusão katG’::luxA,B (BELKIN et al., 1996). Nós argumentamos que a bactéria carregando o “repórter” katG’::lacZ poderia ser usada para testar a hipótese de que PM tem habilidade para aumentar oxidantes intracelulares e especificamente quantificar aumentos de H2O2 intracelular induzido por PM. 3 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  30. 30. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Escolhemos a cepa BGF931 porque ela abriga uma simples cópia do “repórter” em seu cromossomo e consequentemente seleciona a atividade basal da βgalactosidase que é reduzida tanto quanto aquela obtida com o plasmídeo, dando uma especificidade alta para a resposta. A cepa BGF933 abriga a mesma fusão, embora seja oxyR- deficiente; por esta razão ela é utilizada como controle negativo do estudo (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995; GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1997). Neste estudo utilizamos partículas do ar urbano (UAP) da cidade de Washington (DC), para avaliar seus efeitos em BGF931. MATERIAIS E MÉTODOS Reagentes. Ampicilina; tetraciclina; estreptomicina; peróxido hidrogênio e ONPG (o-nitrofenil-β-D-galactosideo) foram utilizados da Sigma Chem. Co. Caldo de cultura Luria-Bertani (LB) foi utilizado da VWR. Cepas de bactéria. As cepas de E. coli utilizadas neste estudo foram BGF931 (como RK4936, mas λ[Φ(katG’::lacZ)]) e BGF933 (como TA4112(ΔoxyR), mas λ[Φ(KatG’::lacZ)]). Estas foram inseridas em uma cópia simples da fusão katG’::lacZ dentro do ADN cromossômico de um competente oxyR (RK4936) e uma cepa deficiente (TA4112), respectivamente. A pureza das cepas foi verificada pelos seus fenótipos Lac+ Amps (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995). Condições de Crescimento. As células foram inoculadas em caldo de cultura Luria-Bertani (LB) (MILLER, 1992) contendo quantidades apropriadas de antibiótico e incubadas durante a noite a uma temperatura de 37°C sob suave agitação (200 rpm). Para as medidas experimentais, as culturas saturadas foram diluídas cem vezes em caldo de cultura LB e incubada a 37°C por 3 horas com agitação de 200 rpm. Antibióticos foram usados com as seguintes concentrações (em µg/ml): tetraciclina, 12,5; estreptomicina, 50; ampicilina: 100. 4 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  31. 31. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Tratamento com H2O2. Culturas de células em fase exponencial foram tratadas com 50 μM de H2O2 e incubadas por 1 hora a 37 °C sob agitação de 200 rpm. Para os tempos indicados, 1 ml de amostra da cultura foi tomado e analisado para a atividade de β-galactosidase. Tratamento com Partículas de Ar Urbano (UAP). Material Padrão de Referência 1649 foi obtido da NIST (Urban Dust, NIST, Washington, USA). A composição elementar do UAP está descrita na Tabela 1. Estoques de trabalho foram preparados em solução salina estéril, sonicadas por 30 seg e guardadas a -20°C até o uso. As suspensões foram novamente sonicadas por 10 seg imediatamente antes do uso no ensaio. Culturas na fase exponencial das células foram tratadas com 10, 25, 50, 75, 100 ou 500 μg/ml UAP e incubadas por um ou dois dias com agitação. Preparação e tratamento de protoplasto. 50 ml da cultura exponencial foram centrifugadas a 3.000 x g por 10 min a 4°C. Precipitados das células foram ressuspensos em 2,5 ml de 50 mM Tris-HCl (pH 8,0), contendo 20% de sacarose em gelo. Na ressuspensão das células, foi então adicionado 0,5 ml lisozima (5 mg/ml em 250 mM Tris-Hcl, pH 8,0) incubado por 5 min a 4°C, adicionado 1 ml de 0,25 M EDTA (pH 8,0) gelado, e incubados por 5 min a 0-4°C. 50 mM Tris-HCl foram então adicionados lentamente, e a suspensão foi incubada por 15 min a 37°C para quebrar a parede da célula bacteriana. Protoplastos foram ressuspensos em 20 ml de 10% (p/v) de sacarose e adicionados ao meio de cultura Dulbecco’s modified Eagle’s (DMEM) contendo 10 mM MgCl2 a 37°C. As suspensões foram gentilmente agitadas e incubadas por 15 min em temperatura ambiente. As suspensões de protoplastos foram tratadas com 100 μM H2O2 ou 500 ou 1000 μg/ml UAP e incubadas a 37°C. A atividade da β-galactosidase foi medida após 60, 120 e 180 min de incubação. 5 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  32. 32. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Atividade da β-galactosidase. A atividade da β-galactosidase (β-gal) foi obtida através do tratamento das células com sulfato dodecil sódico-CHCl4, como descrito por Miller. Resumidamente, 0,1 ml da cultura foi misturado com 0,9 ml tampão Z adicionado com 15 μl 1% SDS e 15 μl Cl3CH, agitado por 15 seg e adicionado 0,2 ml 4mg/ml ONPG (o-nitrofenil-β-D-galactoside) em 0,1M de tampão fosfato (pH 7,0). Acúmulo de o-nitrofenol foi medido a 420-550 nm. Densidade celular foi medida como absorvância a 660 nm. Estatística. Valores na Tabela 2 são expressos como média ± DP dos quatro experimentos. Diferenças entre os valores médios foram analisados usando o método Two Way ANOVA/Holm-Sidak. O nível de significância é 0,05. RESULTADOS Tratamento com UAP em cepa de Escherichia coli que contém o gene repórter dependente OxyR. A regulação transcripcional do oxyR-dependente da fusão katG::lacZ em resposta ao tratamento com oxidantes particulados ou solúveis foi inicialmente avaliada em culturas em fase exponencial de cepas E. coli BGF931 e BGF933. Estas cepas abrigam a fusão katG’::lacZ dentro de seus ADN cromossômicos (GONZÁLEZFLECHA; DEMPLE, 1995) e além disso expressam β-galactosidase sob o controle transcripcional do promotor da catalase hidroperoxidase I (katG). katG é um membro do regulon OxyR, isto é, ele é regulado em resposta ao aumento de peróxido de hidrogênio intracelular. Argumentamos que esta bactéria, carregando este sistema repórter, poderia ser usada para testar a hipótese de que o material particulado tem a habilidade de aumentar oxidantes intracelulares, e para quantificar se PM poderia aumentar H2O2 intracelular. Escolhemos a cepa BGF931 porque ela abriga a simples cópia do repórter em seu cromossomo e, além disso, a atividade basal da β-galactosidase é reduzida tanto quanto aquela obtida com o plasmídeo, dando uma especificidade alta para a resposta. A cepa BGF933 abriga a mesma fusão, só que é oxyR- deficiente, por esta razão ela é utilizada como controle negativo do estudo (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995; 6 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  33. 33. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1997). A indução da β-galactosidase por H2O2 em BGF931 mas não por BGF933 foi confirmada na Figura 1. Tratamos, então, culturas de células em fase exponencial com 10, 25, 50, 75 e 100 μg/ml de UAP, e medimos β-galactosidase para 0-60 min (Figura 2). Nossos dados não apontaram nenhuma indução significante de katG::lacZ em resposta ao tratamento com UAP. Para confirmar que a falta de resposta não se deveu a concentração de partículas insuficiente ou tempo insuficiente, usamos altas doses, 100 μg/ml (dados não mostrados) ou 500 μg/ml, e seguimos a atividade da β-galactosidase por período de dois dias (Figura 3). As amostras foram coletadas a cada 30 min por 6 horas no primeiro dia (Figura 3A) e a cada 30 min por 6 horas no segundo dia (Figura 3B). Culturas saturadas foram diluídas 1100 vezes em LB fresco na manhã do segundo dia. Achamos que a atividade de β-galactosidase foi indistinguível nas células tratadas e não tratadas (Figura 3). Tratamento de UAP em protoplastos de Escherichia coli. Testamos o possível efeito de a parede bacteriana servir como uma barreira física para a internalização do PM. Para isto, preparamos protoplastos de E. coli e os tratamos com diferentes quantidades de UAP em suspensão (Figura 4). Achamos um pequeno aumento na atividade da β-galactosidase nos protoplastos tratados com UAP por 180 min, entretanto esse aumento não foi estatisticamente significante (Figura 4). Efeito sinergístico do H2O2 e UAP. Finalmente, testamos a possível potencialização do efeito do UAP pelo co-tratamento com H2O2. UAP foram ministrados às células bacterianas para concentrações fixas de 100 µg/ml e adicionadas com 75 µM H2O2 (Tabela 2). Os tratamentos controles incluem UAP sozinho e H2O2 sozinho. As diferenças nos valores médios entre os diferentes níveis dos grupos são maiores que o esperado pelas mudanças admitidas por efeitos nas diferenças dos tempos. Existe uma diferença estatisticamente significante (p = <0,001). Para isolar quais grupos diferem de outros foi utilizado o teste de comparação múltipla. As diferenças nos valores médios entre os 7 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  34. 34. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS diferentes níveis de tempo são maiores do que seria esperado pelas mudanças admitidas por efeitos de diferenças no grupo. Existe uma diferença estatisticamente significante (p = <0,001). O efeito de diferentes níveis de grupo depende do nível de tempo presente. Existe uma interação estatisticamente significante entre grupo e tempo (p = <0,001). Nossos dados mostram um aumento significativo na atividade da β-galactosidase após ambos os tratamentos H2O2 e H2O2 + UAP com ativação transcripcional máxima para 15 min. Indução de katG::lacZ foi significativamente mais alta nas células tratadas com H2O2 e UAP que em células tratadas com H2O2 sozinha (Tabela 2). DISCUSSÃO A habilidade de OxyR para perceber mudanças nos níveis de H2O2 in vivo tem sido mostrada em estudos que seguem a expressão de oxyR regulando o gene katG (codificando catalase-hydroperoxidase I) após o tratamento com H2O2. A expressão do gene foi monitorada medindo níveis de ARNm ou a atividade de βgalactosidase da fusão do operon katG’::lacZ. Uma larga variedade de estímulos foi ensaiada entre a administração da simples dose padrão de 5-100 µM H2O2 (HATZIS et al., 2006; CHRISTMAN et al., 1985; DEMPLE; HALBROOK, 1983; MORGAN et al., 1986; TAO et al., 1989) para uso do sistema de geração de H2O2 no compartimento extracelular (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995). Esse experimento tem mostrado que a magnitude da resposta depende do tipo de estímulo tanto quanto da sua intensidade. Estímulos tipo pulso dão um aumento transiente na atividade dependente de oxyR que responde após 10 min de tratamento (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995). O estímulo tipo rampa (aumento gradual) produz respostas muito mais altas para a mesma razão H2O2/catalase (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1995), indicando uma interação dinâmica entre as taxas de produção e eliminação do H2O2, por um lado, e as taxas de ativação e inativação de OxyR, por outro lado. 8 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  35. 35. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS No presente estudo testamos o possível uso de E. coli abrigando um repórter katG’::lacZ para monitorar aumentos no H2O2 intracelular através da exposição com partículas de ar urbanas (PM). Usamos o padrão NIST como partículas de ar ambiente, para ter uma amostra de composição homogênea e bem caracterizada (Tabela 1), uma vantagem técnica sobre partículas ambientes “do mundo real” ou partículas ambientes concentradas (CAPs). A composição média de metal do UAP é comparável aquela observada para amostras de CAPs obtidos em nosso laboratório (GURGUEIRA et al., 2002; RHODEN et al., 2005). Entretanto, partículas de UAP são ricas em Fe, Br e Pb (Tabela 1). As partículas de UAP têm mostrado efeitos biológicos similares aos CAPs em sistemas in vivo (RHODEN et al., 2004) e in vitro (IMRICH et al., 1999). Nós testamos UAP para concentrações entre 10 µg/ml to 1 mg/ml. Oberdorster & Yu (OBERDORSTER; YU, 1999) calcularam que a dose alveolar do PM depositado em ratos respirando 10-1000 µg PM/m3 durante 24 horas seria de 0,33-33 µg (OBERDORSTER; YU, 1999). Assumindo um número total de células alveolares de ~ 120x106 por pulmão (CRAPO et al., 1980), a dose estimada por célula seria 0,003-0,280 µg CAPs/106 células alveolares. Mais recentemente, cálculos feitos por Nel at al. indicam uma deposição de 4 µg/cm2/24 horas de partículas ambientes finas em humanos expostos ao meio ambiente poluído da Califórnia (NEL, comunicação pessoal). Essa concentração estimada alcança concentrações reais do meio ambiente de PM, e está na mesma ordem de grandeza que as usadas nesses estudos e em muitos experimentos in vitro (50 µg/106 células = 7,6 µg/cm2). UAP tomados sozinhos e para baixas e altas doses não demonstraram nenhuma indução significativa de katG como se percebe pela falta de mudanças na atividade de β-galactosidase após 60 min (Figura 2), 360 min (Figura 3 A), ou 2 dias (Figura 3 B). Entretanto, uma ativação significante foi observada quando células foram tratadas com UAP na presença de H2O2 (Tabela 2). O poluente induzindo estresse oxidativo poderia ser derivado da ação direta de oxidantes ou da liberação de mediadores inflamatórios associados com células inflamatórias ativadas. Realmente, estudos epidemiológicos têm demonstrado que 9 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  36. 36. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS indivíduos com condições inflamatórias pulmonares crônicas, como DPOC, são mais suscetíveis aos efeitos adversos dos níveis ambientes de PM. Nossos resultados promovem plausibilidade biológica para os achados epidemiológicos (MARTINS et al., 2002). Buscando verificar a falta de resposta do OxyR para as partículas sozinhas, fizemos experimentos com protoplastos, onde a parede bacteriana é removida mas a parte bioquímica da célula permanece intacta. Nossos dados mostram que o protoplasto de BGF931 responde ao H2O2 com um aumento de três vezes na atividade da β-galactosidase, mas permanece não responsivo para UAP (Figura 4). Recentemente relatamos que 100 µg/ml CAPs aumenta H2O2 intracelular por duas vezes em cultura primária de célula epitelial alveolar (GURGUEIRA et al., no prelo). Se assumirmos um aumento similar na célula bacteriana, conhecendo que a concentração “steady-state” de H2O2 em fase exponencial de E. coli é 0,25 µM (GONZÁLEZ-FLECHA; DEMPLE, 1997), terminaríamos com concentrações de H2O2 em intervalos submicromolares, para menos que 10-50 vezes abaixo dos níveis relatados para ativar o regulon OxyR. Para recorrer essa possibilidade, tratamos as células com UAP na presença de 50, 75 ou 100 µM H2O2 (Tabela 2), que está dentro do intervalo de níveis oxidantes presentes nos sítios inflamatórios (FELDMAN et al., 1994). UAP significativamente aumenta a resposta bacteriana para 75 e 100 µM H2O2. De fato, o efeito do UAP e H2O2 foi sinergístico, sugerindo uma interação entre componentes das partículas e H2O2. Reação tipo Fenton catalisada por metais adsorvidos na superfície das partículas poderia somar-se a isto. Vários estudos sugerem que metais de transmissão seriam possíveis mediadores de PM, induzindo dano de via aérea e inflamação (HETLAND et al., 2000; JIMENEZ et al., 2000; KENNEDY et al., 1998; PRAHALAD et al., 1999). Partículas urbanas contêm quantidades traços de metais de transição, que têm produzido ERO em sistemas livres de células (DONALDSON et al., 1997; WU et 10 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  37. 37. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS al., 2001; GILMOUR et al., 1996). Suspensão de PM também ativa vias de sinalização dependentes de oxidantes em células epiteliais do pulmão, via mecanismos dependentes de metais de transição (JIMENEZ et al., 2000; KENNEDY et al., 1998; WU et al., 2001). Finalmente, estudos com animais também indicam que respostas inflamatórias dirigidas por instilação de PM são proporcionais ao conteúdo de metais ionizáveis solúveis (PRITCHARD et al., 1996). Nossos resultados mostram clara ativação de OxyR-dependente katG pela UAP e H2O2, indicando um importante papel para metal catalisando reação tipo Fenton em mecanismo de produção de H2O2 pelo PM. Nossos resultados sustentam o conceito segundo o qual a ativação de OxyR pelo UAP é potencializada pelo meio ambiente preexistente. 11 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  38. 38. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS AGRADECIMENTOS Este trabalho foi apoiado por NIH (RO1 HL/ES68073) e por EPA (R827353). REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTUVIA, S. et al. The dps promoter is activated by OxyR during growth and by IHF and sigma S stationary phase. Mol. Microbiol., v.13, n.2, p.265-272, July 1994. ATKINSON, R. W. et al. Short-term associations between outdoor air pollution and visits to accident and emergency departments in London for respiratory complaints. Eur. Respir. J., UK, v.13, p.257-265, Feb. 1999. AUST, A. E. et al. Particle characteristics responsible for effects on human lung epithelial cells. Boston (MA): Health Effects Institute, 2002. BELKIN, S. et al. Oxidative stress detection with Escherichia coli harboring a katG’ ::lux dusion. Appl. Environ. Microbiol., v.62, p.2252-2256, July 1996. BROOK, R. D. et al. Air pollution and cardiovascular disease: a statement for health care profissionals from the expert panel on population and prevention science of the American Heart Association. Circulation, v.109, n.21, p.2655-2671, June 2004. CHRISTMAN, M. F. et al. Positive control of a regulon for defenses against oxidative stress and some heat-shock proteins in Salmonella typhimurium. Cell, v.41, p.753-762, July 1985. CRAPO, J. D. et al. Structural and biochemical changes in rat lungs occurring during exposures to lethal and adaptive doses of oxygen. Am. Review of Respiratory Disease, v.122, p.123-143, 1980. DEMPLE, B.; HALBROOK, J. Inducible repair of oxidative DNA damage in Escherichia coli. Nature, v.304, p.466-468, Aug. 1983. DONALDSON, K. et al. Free radical activity of PM10: iron-mediated generation of hydroxyl radicals. Environmental Health Perspectives, v.105, Suppl 5, p.1285-1289, Sep. 1997. 12 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  39. 39. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS ELLIOTT, P. et al. Long-term associations of outdoor air pollution with mortality in Great Britain. Thorax, v.62, n.12, p.1088-1094, Dec. 2007. FELDMAN, C. et al. Oxidant-mediated ciliary dysfunction in human respiratory epithelium. Free Rad Biol & Med., v.17, n.1, p.1-10, July 1994. GILMOUR, P. S. et al. Adverse health effects of PM10 particles: involvement of iron in generation of hydroxyl radical. Occup. Environ. Med., v.53, n.12, p.817-822, Dec. 1996. GODLESKI, J. J. et al. Composition of inhaled urban air particles determines acute pulmonary responses. Ann. Occup. Hyg., v.46, p.419-424, 2002. GODLESKI, J. J. Responses of the heart to ambient particle inhalation. Clin. Occup. Environ. Med., v.5, n.4, p.849-864, Review, 2006. GONZÁLEZ-FLECHA, B.; DEMPLE, B. Homeostatic regulation of intracellular hydrogen peroxide concentration in aerobically growing Escherichia coli. Journal of Bacteriology, v.179, p.382-388, Jan. 1997. GONZÁLEZ-FLECHA, B.; DEMPLE, B. Metabolic sources of hydrogen peroxide in aerobically growing Escherichia coli. Journal of Biological Chemistry, v.270, p.1368113687, June 1995. GURGUEIRA, S. A. et al. Rapid increases in the steady-state concentration of reactive oxygen species in the lungs and heart after particulate air pollution inhalation. Environm. Health Perspect., v.110, p.749-755, Aug. 2002. GURGUEIRA, S. et al. H2O2-mediated proinflammatory and toxic responses to ambient air particles in primary alveolar type II cells. In: _______. Air Pollution Research Trends. New York: Nova Science Publishers, 2008. (no prelo). HATZIS, C. et al. Ambient particulate matter exhibits direct and selective inhibitory effects on oxidative stress enzymes. Environ. Sci. Technol., v.40, p.2805-2811, Apr. 2006. HETLAND, R. B. et al. Mineral and/or metal content as critical determinants of particleinduced release of IL-6 and IL-8 from A549 cells. Journal of Toxicology & Environmental Health, v.60, p.47-65, May 2000. 13 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  40. 40. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS IMRICH, A. et al. Lipopolysaccharide priming amplifies lung macrophage tumor necrosis factor production in response to air particles. Toxicol Appl Pharmacol., v.159, p.117-124, Sep. 1999. JIMENEZ, L. A. et al. Activation of NF-kappaB by PM(10) occurs via an iron-mediated mechanism in the absence of IkappaB degradation. Toxicology & Applied Pharmacology, v.166, p.101-110, July 2000. KAISER, J. Evidence mounts that tiny particles can kill, Science, v.289, p.22-23, July 2000. KENNEDY, T. et al. Copper-dependent inflammation and nuclear factor-kappaB activation by particulate air pollution. American Journal of Respiratory Cell & Molecular Biology, v.19, p.366-378, Sep. 1998. LADEN, F. et al. Cause-specific mortality in the Unionized U. S. trucking industry. Environ. Health Perspect., v.115, n.8, p.1192-1196, Aug. 2007. MARTINS, L. C. et al. Air pollution and emergency room visits due to chronic lower respiratory diseases in the elderly: an ecological time-series in São Paulo, Brazil. J Occup. Environ. Med., v.44, n.7, p.622-627, July 2002. MARTINS, L. C. et al. The effects of air pollution on cardiovascular diseases: lag structures. Rev. Saúde Pública, v.40, n.4, p.677-683, Aug. 2006. MILLER, J. H. Experiments in molecular genetics. Cold Spring Harbor (NY): Cold Spring Harbor Laboratory, 1992. MORGAN, R. W. et al. Hydrogen peroxide-inducible proteins in Salmonella typhimurium overlap with heat shock and other stress proteins. Proceedings of the National Academy of Sciences of the United States of America, v.83, p.8059-8063, Nov. 1986. OBERDORSTER, G.; YU, C. P. Lung dosimetry–considerations for non inhalation studies. Exp. Lung Res., v.25, p.1-6, Jan.-Feb. 1999. PRAHALAD, A. K. et al. Ambient air particles: effects on cellular oxidant radical generation in relation to particulate elemental chemistry. Toxicology & Applied Pharmacology, v.158, p.81-91, July 1999. 14 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  41. 41. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS PRITCHARD, R. J. et al. Oxidants generation and lung injury after particulate air pollutant exposure increases with the concentrations of associated metals. Inhal. Toxicol., v.8, p.457-477, 1996. RHODEN, C. R. et al. N-acetylcysteine prevents lung inflammation after short-term inhalation exposure to concentrated ambient particles. Toxicol. Sci, v.79, p.209-303, June 2004. RHODEN, C. R. et al. PM-Induced Cardiac Oxidative Stress Is Mediated by Autonomic Stimulation. Biochem Biophys Acta, v.1725, p.305-313, Oct. 2005. RUIZ-GODOY, L. et al. Mortality due to lung cancer in Mexico. Lung Cancer, v.58, n.2, p.184-190, Nov. 2007. SCHWELA, D. Air pollution and health in urban areas. Reviews on Environmental Health, v.15, p.13-42, Jan.-June 2000. STOHS, S. J.; BAGCHI, D. Oxidative mechanisms in the toxicity of metal ions. Free Radic. Biol. Med., v.18, p.321-336, Feb. 1995. TAO, F.; GONZÁLEZ-FLECHA, B.; KOBZIK, L. Reactive oxygen species in pulmonary inflammation by ambient particulates. Free Radic. Biol. & Med., v.35, p.327-340, Aug. 2003. TAO, K. et al. Molecular cloning and nucleotide sequencing of oxyR, the positive regulatory gene of a regulon for an adaptive response to oxidative stress in Escherichia coli: homologies between OxyR protein and a family of bacterial activator proteins. Molecular & General Genetics, v.218, p.371-376, Sep. 1989. WU, W. et al. Activation of the EGF receptor signaling pathway in airway epithelial cells exposed to Utah Valley PM. American Journal of Physiology – Lung Cellular & Molecular Physiology, v.281, p.1483-1489, Aug. 2001. Artigo recebido em 17.10.2008. Aprovado em 09.02.2009 15 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  42. 42. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS [LEGENDAS DAS FIGURAS] Figura 1 – Atividade da β-Galactosidase em BGF931 e BGF933 tratados com 50 μM H2O2 e incubados por 60 min a 37°C sob agitação. Eles foram inseridos em uma cópia simples da fusão katG’::lacZ dentro de um ADN cromossômico da cepa do oxyR competente (RK4936) (BGF931) e deficiente (TA4112) (BGF933). O primeiro apresenta aumento da transcrição do OxyR dependente do promotor katG’, uma ativação transcripcional de katG’::lacZ pelo peróxido de hidrogênio. Figura 2 – A atividade de β-Galactosidase em BGF931 tratado com partículas do ar ambiente. Partículas de UAP (10, 25, 50, 75 e 100 μg/ml) foram adicionadas para o tempo 0. Para os tempos indicados, amostras de cultura foram retiradas e ensaiadas para atividade de β-Galactosidase. Figura 3 – Atividade de β-Galactosidase em BGF931 tratados com partículas de ar ambiente. Culturas em fase exponencial de BGF931 foram tratadas com 500 μg/ml UAP e incubadas por dois dias a 37°C sob agitação. As Figuras 3A e B mostram os primeiros 360 min do primeiro e do segundo dia de tratamento, respectivamente. Figura 4 – Atividade da β-Galactosidase em protoplastos de BGF931 tratados com H2O2 ou UAP. Protoplastos preparados recentemente foram tratados com 100 μM H2O2, 500 μg/ml ou 1 mg/ml UAP e incubados por 180 min. Para os tempos indicados, amostras foram retiradas e ensaiadas para atividade de β-Galactosidase. 16 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  43. 43. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Tabela 1 – Composição média de UAP Fração em massa (μg/g) Na ND 9,2 ± 0,3 Al 0,06 ± 0,01 Si ND S 32,7 ± 9 Cl 2,8 ± 0,1 K ND Ca ND Ti ND V 0,34 ± 0,01 Cr 0,21 ± 0,01 Mn 0,24 ± 0,08 Fe 29,8 ± 0,7 Ni 0,17 ± 0,01 Cu 0,22 ± 0,01 Zn 1,68 ± 0,04 Br 11,9 ± 0,01 Cd 0,02 Ba 0,57 ± 0,02 Pb 12,4 ± 0,4 Fonte: Instituto Nacional de Padrões e Tecnologia. Material de Referência Padrão 1649a. 17 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  44. 44. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS Tabela 2 – Potencialização do efeito do UAP pelo cotratamento com H2O2 através da ativação transcripcional de oxyR::lacZ Tempo Controle H2O2 (100 μg/ml) (min) UAP (75 μM) H2O2 + UAP 0 165 ± 64 172 ± 32 276 ± 66 241 ± 63 15 188 ± 37 196 ± 36 623 ± 41a 731 ± 44 b,c 30 164 ±17 177 ±18 521 ± 40 a 540 ± 46 b 45 191 ± 21 195 ± 25 497 ± 37 a 505 ± 28 b 60 184 ± 25 219 ± 25 448 ± 22 a 472 ± 41 b a e b p < 0,001 comparado com controle e UAP. c p < 0,01 comparado com H2O2. As medidas foram determinadas em β-galactosidase (U/l). 18 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  45. 45. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS β-Galactosidase (U/l) 1000 800 BGF933 BGF933 H2O2 BGF931 BGF931 H2O2 600 400 200 0 15 30 45 60 Tempo (min) Figura 1 19 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  46. 46. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ β-Galactosidase (U/l) Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS 150 120 Control 10 ug/ml UAP 90 25 ug/ml UAP 50 ug/ml UAP 60 75 ug/ml UAP 100 ug/ml UAP 30 0 0 15 30 45 60 Tempo (min) Figura 2 20 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  47. 47. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS β-Galactosidase (U/l) control UAP 500 ug/ml 400 300 200 100 0 0 60 120 180 240 300 360 Tempo (min) Figura 3 A 21 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  48. 48. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ β-Galactosidase (U/l) Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS 800 control UAP500ug/ml 600 400 200 0 0 60 120 180 240 300 360 Tempo (min) Figura 3 B 22 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  49. 49. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS 23 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br
  50. 50. AVALIAÇÃO DO ESTRESSE OXIDATIVO INDUZIDO POR PARTÍCULAS DO AR AMBIENTE COM ESCHERICHIA COLI ABRIGANDO UMA FUSÃO katG’::lacZ β-Galactosidase (U/l) Mariangela Macchione PhD ; Paulo Hilário Nascimento Saldiva PhD ; Beatriz González-Flecha PhD INTERFACEHS 400 350 300 H202 250 UAP 500 ug/ml 200 UAP 1mg/ml 150 100 50 0 30 60 90 120 150 180 Tempo (min) Figura 4 24 ©INTERFACEHS – Revista de Gestão Integrada em Saúde do Trabalho e Meio Ambiente - v.4, n.2, Artigo 2, abr./ ago 2009 www.interfacehs.sp.senac.br

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