Disfarces

488 visualizações

Publicada em

Artigo Publicado na Iniciação Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística
Edição Temática de Cultura e Comportamento - Vol. 4, nº1, Ano 2014

Publicação Científica do Centro Universitário Senac - ISSN 2179-474X

Autores: Bruna Medina Dias Costa e Sabrina de Barros Conde

Acesse a edição na íntegra!

http://www1.sp.senac.br/hotsites/blogs/revistainiciacao/?page_id=13

Resumo
A presente pesquisa tem como objetivo estudar o caráter interdisciplinar entre design de moda e cultura brasileira, abordando em seguida a herança religiosa deixada pelos escravos africanos que foram trazidos para o Brasil. Dentro disso, o início do Sincretismo Religioso e a origem da expressão “Santo do Pau Oco” são ressaltadas para que posteriormente estabeleçamos o conceito de criação “disfarces”. Após a pesquisa teórica são apresentadas as etapas do projeto em todo o seu processo, desde o desenvolvimento do tema e o conceito de criação até a coleção de moda e as características do público alvo à qual se destina.
Palavras-chave: Design de Moda, Cultura Brasileira, Escravidão, Religião, Disfarces.

Publicada em: Educação
0 comentários
0 gostaram
Estatísticas
Notas
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Sem downloads
Visualizações
Visualizações totais
488
No SlideShare
0
A partir de incorporações
0
Número de incorporações
73
Ações
Compartilhamentos
0
Downloads
5
Comentários
0
Gostaram
0
Incorporações 0
Nenhuma incorporação

Nenhuma nota no slide

Disfarces

  1. 1. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística Edição Temática: Cultura e Comportamento Vol. 4 nº 1 – Abril de 2014, São Paulo: Centro Universitário Senac ISSN 2179-474X © 2014 todos os direitos reservados - reprodução total ou parcial permitida, desde que citada a fonte portal de revistas científicas do Centro Universitário Senac: http://www.revistas.sp.senac.br e-mail: revistaic@sp.senac.br Disfarces Disguises Bruna Medina Dias Costa, Sabrina de Barros Conde Universidade Anhembi Morumbi - UAM Escola de Artes, Arquitetura, Design e Moda. bruh.medina@gmail.com, saa_conde@hotmail.com Resumo. A presente pesquisa tem como objetivo estudar o caráter interdisciplinar entre design de moda e cultura brasileira, abordando em seguida a herança religiosa deixada pelos escravos africanos que foram trazidos para o Brasil. Dentro disso, o início do Sincretismo Religioso e a origem da expressão “Santo do Pau Oco” são ressaltadas para que posteriormente estabeleçamos o conceito de criação “disfarces”. Após a pesquisa teórica são apresentadas as etapas do projeto em todo o seu processo, desde o desenvolvimento do tema e o conceito de criação até a coleção de moda e as características do público alvo à qual se destina. Palavras-chave: Design de Moda, Cultura Brasileira, Escravidão, Religião, Disfarces. Abstract. This research aims to study the interdisciplinary nature of fashion design and Brazilian culture, focusing on the religious legacy left by African slaves who were brought to Brazil. In addition, the beginning of the Religious Syncretism and the origin of the expression "Santo do Pau Oco" are highlighted. After that, we establish the creation concept "disguises". After the theoretical study we describe the stages of the project in its entire process, since it’s theme and concept development until the fashion collection and the characteristics of the target audience to which it is addressed. Key words: Fashion Design, Brazilian Culture, Slavery, Religion, Disguises.
  2. 2. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 2 1. Introdução O presente artigo, que teve origem a partir de uma monografia de TCC do curso de Design de Moda, tem como objetivo o entendimento da inter-relação do design e da moda e o desenvolvimento de uma coleção de moda com dezesseis looks seguindo o eixo temático “Design de Moda e Cultura”, aprofundando-se mais na cultura brasileira. Para que consigamos entender a ligação entre design de moda e cultura brasileira, primeiramente é necessário saber sobre interdisciplinaridade, que segundo Ivani Fazenda (apud CARLOS, 2008, pg. 1) é a relação entre duas ou mais disciplinas. De acordo com a autora, a interdisciplinaridade como disciplina surgiu na França e na Itália em meados da década de 1960, em um período em que os estudantes reivindicavam um ensino mais sintonizado e seu surgimento teria sido uma resposta a tal reivindicação, pois os problemas da época não poderiam ser resolvidos por uma única disciplina ou área do saber. Pode-se dizer também que na interdisciplinaridade há cooperação e diálogo entre as disciplinas do conhecimento, como cita Carlos (2008). “O design tem uma vocação interdisciplinar, mas é preciso explicitar essa interdisciplinaridade, pois na maioria das vezes ela acontece de forma intuitiva e desordenada. Isto significa que tal vocação permanece obscura e carente de elucidação e há uma necessidade de esclarecê-la. A interação/integração intencional gera projetos mais ricos e consistentes” (HALUCH, 2005). A interação/integração citada por Haluch será feita aqui entre design de moda e cultura brasileira. O foco da pesquisa se dá mais especificamente sobre cultura brasileira, trazendo à tona a junção da herança religiosa deixada pelos povos colonizadores do Brasil, como os rituais dos escravos africanos que foram trazidos para o nosso país, se encontrando com o catolicismo que lhes era imposto pelos senhores de engenho. A seguir temos a abordagem do sincretismo religioso e do surgimento da expressão “Santo do Pau Oco” que aparece a partir da procura dos negros em não trair suas raízes culturais. Seguindo essa lógica, chega-se ao conceito de criação Disfarces, baseado na ideia dos escravos em esconder o objeto de culto ao seu Orixá dentro de imagens dos santos católicos, que seus senhores de engenho os obrigavam a cultuar, para que assim não traíssem suas próprias crenças, mas ao mesmo tempo não fossem punidos por não obedeceram às ordens dos seus senhores. Sendo assim, toda a coleção de moda a ser desenvolvida baseia-se em uma cartela de cores, de materiais e estudo de formas para que mantenha sempre uma relação com o conceito proposto e um público alvo, aquele que deve aprovar e usar o produto final, que tem como objetivo o disfarce de algo, seja ele uma parte do corpo, uma técnica utilizada na construção das peças ou até uma textura e aplicações presentes na coleção desenvolvida. O estudo e entendimento da história do santo do pau oco e do sincretismo religioso no Brasil nesta pesquisa têm como proposta final gerar subsídios para o desenvolvimento do conceito de criação “Disfarces” em Design de Moda. 2. Herança Cultural Religiosa O Brasil não comeria o que come, não rezaria como reza, não dançaria e cantaria como agora canta, dança, reza e come se não fosse a riquíssima herança deixada pelos 4,5 milhões de escravos trazidos da África [...]. (BUENO, 1997, p. 78).
  3. 3. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 3 Darcy Ribeiro nos traz em “O Povo Brasileiro” (2006) três matrizes culturais que são apontadas como responsáveis pela formação da cultura de nosso país: Matriz Lusa, Matriz Afro e Matriz Tupi. A matriz Lusa é a mais influente até os dias de hoje devido à colonização portuguesa, como podemos perceber na língua falada e no predomínio do catolicismo e ainda afirma que “a sociedade e a cultura brasileiras são conformadas como variantes da versão lusitana da tradição civilizatória europeia ocidental, diferenciadas por coloridos herdados dos índios americanos e dos negros africanos” (RIBEIRO, 2006). Os portugueses que colonizaram o Brasil trouxeram os negros da África para servirem como mão de obra para o novo empreendimento a ser investido em nossa terra: o engenho açucareiro. Como relata Ribeiro (2006), com o crescimento da nova economia, por volta de 1570, os senhores de engenhos passaram a necessitar cada vez mais da mão de obra escrava e, com isso, traziam aos montes os africanos para o Brasil. Por isso, a sociedade brasileira em sua feição crioula, nasce em torno do complexo formado pela economia do açúcar. Ainda de acordo com o autor, nas senzalas brasileiras existia uma grande diversidade cultural, pois os negros escravizados eram trazidos de partes distintas da África com línguas e culturas diferentes com o intuito de dificultar a comunicação e a união entre eles contra os seus senhores. Porém, tal manobra não foi suficiente para evitar essa junção, pois os negros encontraram a religião e a crença nos Orixás como ponto comum entre todas as culturas e nações africanas. Segundo Linares et al. (2012, p. 58), a crença nesses Orixás, foi o que fortaleceu a união entre os negros fazendo com que eles tivessem cada vez mais motivações para acreditar que um dia sairiam dali e viveriam uma vida de liberdade. Tarde da noite, enquanto seus senhores dormiam, os escravos se embrenhavam nas matas para adorar a seus Orixás, os quais são ligados a aspectos da Natureza e iniciar os que não tinham o conhecimento desses rituais, muitas vezes por já terem nascido no Brasil. Depois de iniciados, os escravos davam suas obrigações a esses Orixás e então retiravam uma pedra do lugar sagrado – aonde a iniciação e obrigação foram realizadas -, que é denominada “otá” e era cultuada como objeto sagrado por toda sua vida. Desse modo, surgia um culto não exatamente igual àqueles existentes na África de várias nações, mas agora com influências de todas elas e também do catolicismo, que era imposto aos escravos pelos senhores brancos. Quando a Lei Áurea foi proclamada e os negros recebiam muito desprezo da nação já brasileira, eles saíram dos campos e se dirigiram às cidades onde podiam conviver em um ambiente menos hostil, dando origem assim aos bairros africanos, muitas vezes já encontravam uma comunidade negra naquele local que havia construído uma cultura própria. Ribeiro (2006) afirma que é “uma cultura feita de retalhos do que o africano guardara no peito dos longos anos de escravidão, como sentimentos musicais, ritmos, sabores e religiosidade” e, a partir dessa base, o negro - agora urbano -, veio a ser um dos alicerces da chamada cultura brasileira, pois “embora o Nordeste tenha sido a área que recebeu maior influência dos povos africanos, não há um só lugar do Brasil [...] que não tenha sido transformado pelo legado negro” (BUENO, 1997, p. 78), e é nessa cultura primeira em que se estrutura, por exemplo, o nosso Carnaval, a capoeira e inúmeras outras manifestações culturais. A religiosidade foi uma das muitas heranças provindas dos negros africanos trazidos como escravos para o Brasil, porém por exigência do homem branco que os seus escravos cultuassem a religião católica, os rituais africanos sofreram muita influência católica e, mais tarde, de outras religiões como o espiritismo. A partir dessa mistura de crenças nasceram as religiões afro-brasileiras como a Umbanda e o Candomblé e também deu-se o início do sincretismo religioso no Brasil como veremos a seguir.
  4. 4. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 4 3. O Sincretismo Religioso Assim como relata Cumino (2011, p. 33), as “religiões são formadas de cultos e culturas anteriores”, o sincretismo religioso consiste na fusão de concepções diferentes, seja ela religiosa ou de qualquer natureza. Segundo Linares et al (2012, p. 73), o sincretismo se deu nas diferentes regiões do país segundo a crença ou devoção das figuras mais importantes e representativas de várias localidades. Os negros procuravam as mínimas semelhanças dentre os santos católicos e o Orixá que cultuava para que não houvesse muita disparidade entre eles e para que não levantasse qualquer suspeita, pois na maioria das vezes os escravos eram obrigados a cultuar os santos de devoção pessoal dos donos da fazenda fazendo com que atualmente haja diferenças sincréticas por todo o país como, por exemplo, Ogum ser sincretizado com Santo Antonio apenas em Salvador e não com São Jorge como no resto do Brasil. O negro via em Ogum o Orixá da guerra, o espírito que representa a força, escolhido para combater as forças do mal, que luta contra as magias dos espíritos negativos, daí a alusão a São Jorge, que é a representação católica do santo guerreiro que luta contra o mal, na imagem sendo representado pelo dragão. Yemanjá, a mãe de todos os deuses, a rainha do mar, também sofre com a divergência sincrética nas diferentes regiões do país. O mais comum é ser cultuada como Maria, mãe de Jesus - que também pode representar Oxum, a menina doce e virgem -, mas podemos encontrá-la como Nossa Senhora dos Navegantes na Bahia, Nossa Senhora da Glória no Rio Grande do Sul e Nossa Senhora da Conceição no Rio de Janeiro, por exemplo (LINARES ET AL, 2012, p.73). Iansã é encontrada à imagem de Santa Bárbara por exercer poder sobre o fogo, os raios e chuvas e ser considerada justiceira, assim como a santa católica que puniu o próprio pai quando estava prestes a decapitá-la. Como Xangô é considerado como um rei pelos negros foi na imagem de São Jerônimo, também encontrado como Moisés, que encontraram as semelhanças necessárias, pois era a representação do homem maduro e sábio que leva os ensinamentos divinos até os seres humanos. Já Oxalá, que é considerado o Orixá supremo, aquele que tudo criou, pode ser encontrada a associação tanto a Deus quanto a Jesus Cristo, pois o negro ouvia constantemente nas igrejas o nome de Jesus e muito poucas menções a Deus Pai (LINARES ET AL, 2012, p. 74). Podemos então observar uma atitude de bravura por parte dos escravos para que suas crenças não se percam. Muitas foram as formas que eles utilizaram para preservar sua cultura religiosa, daremos ênfase à mais conhecida delas, a do “santo do pau oco”, em seguida. 4. O Santo do Pau Oco Segundo Vieira e Cardoso (2000, p. 10), assim que as minas de ouro foram descobertas no Brasil no Período Colonial, o rei de Portugal logo tratou de tirar proveito da maior quantidade de ouro possível. Impostos de todos os tipos foram sendo criados para que o ouro extraído das minas não fosse comercializado sem que Portugal obtivesse uma parcela. O “quinto”, por exemplo, era um imposto de 20% em cima do valor de todos os metais preciosos garimpados no Brasil e os donos das minas só poderiam sair com o minério arrecadado depois que um funcionário do rei desse um documento comprobatório do pagamento. Devido à dificuldade de controlar o pagamento do “quinto” outro imposto foi criado, chamado “finta”. A “finta” consistia na obrigação da população das Minas Gerais de enviar 25 arrobas (em torno de 370 kg) anuais de ouro à Portugal independente da quantidade produzida. A partir de então, muitos outros impostos surgiram e com isso
  5. 5. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 5 os colonos, mineradores e donos de minas começaram a contrabandear suas mercadorias para não ter de dar nada ao rei. Uma das práticas mais utilizadas para despistar a Coroa Portuguesa da cobrança de impostos era a escavação de imagens de santos, que em sua maioria eram feitas de madeira maciça, para que assim conseguissem esconder ali dentro ouro, moedas, joias e pedras preciosas sem serem descobertos (BUENO, 1997, p. 69). Foi com base nessa atividade do contrabando em imagens de santos que surgiu a tão conhecida expressão “santo do pau oco” e por isso é utilizada para se referir a pessoas dissimuladas, falsas, hipócritas e também conhecidas como “duas caras”. Porém, essa técnica foi inventada pelos escravos para enganar o homem branco quanto à exigência deste para que os negros cultuassem a religião católica. Para não trair a cultura africana, os escravos então acharam uma maneira de homenagear o seu Orixá, mesmo diante de uma imagem de santo católico, utilizando a técnica de escavação para deixar a imagem oca e assim introduzir ali o seu “otá” e continuar cultuando seu Orixá sem que os seus senhores descobrissem que não estavam seguindo o catolicismo. No dia seguinte à iniciação daqueles que não tinham conhecimento prévio da religião, os escravos se apresentavam na Igreja do Bonfim para assistir a uma missa e assim não levantar nenhuma suspeita. Desta forma a maneira encontrada de esconder a sua verdadeira devoção aos Orixás e não aos santos católicos foi a do disfarce, sendo tanto do otá dentro das imagens quanto do comparecimento à igreja após sua iniciação que originou o conceito de criação desta pesquisa. 5. Disfarces O que eu te falo nunca é o que te falo e sim outra coisa. Capta essa coisa que me escapa e, no entanto, vivo dela e estou à tona de brilhante escuridão. (LISPECTOR, 1998, p. 14). O disfarce pode ser uma ação oculta, dificilmente percebida, pois quem pretende disfarçar-se muitas vezes não deseja que seu disfarce seja descoberto, ou deseja exatamente o contrário, que o disfarce seja descoberto para que possam saber quem ele/ela realmente é. Porém este disfarce pode ser involuntário, pois muitas pessoas se disfarçam para encaixar-se em um ambiente onde naturalmente não fazem parte devido à classe social, etnia e/ou opção sexual. É possível dizer que o disfarce é uma característica do ser humano, ele não é característico apenas por ocultar ou esconder, mas pode significar uma parte da interiorização do nosso ser. Todos alguma vez na vida já disfarçaram tanto propositalmente ou involuntariamente sem ao menos perceber que o estão fazendo, muitas vezes por costume de se adaptar a situações diferentes ou mesmo por vergonha e necessidade de se encaixar naquele universo. 6. Público-Alvo O público alvo a quem se destina a coleção de moda a ser desenvolvida é composto por jovens do sexo masculino que estão concluindo a vida acadêmica (graduação) e dando início à vida profissional. Encaixam-se na geração “Y” que, segundo Rita Loiola na Revista Galileu (2009), são jovens nascidos a partir da década de 1980 até meados de 1993, chamados também de “geração da internet”. Por compartilharem sua fase de crescimento com a era do avanço tecnológico, estão sempre em sintonia com as novidades do mercado, com os últimos lançamentos e procuram obter os modelos mais recentes de dispositivos móveis. Com base em pesquisas da Fundação Instituto
  6. 6. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 6 de Administração (FIA/USP) e da Rainmaker Thinking1 relatadas por Loiola (2009), na área profissional esses jovens dão valor à ética, à honestidade e à clareza e esperam ser desafiados constantemente provando que são capazes para conseguir crescer rapidamente, e quando sentem que não estão conseguindo se desenvolver em alguma área, logo procuram outra que lhes dê essa oportunidade. Ainda segundo Loiola (2009), se mostram menos politizados do que seus antepassados por possuírem um número de informações muito alto, não conseguindo assim focar-se em apenas um assunto. De acordo com as três entrevistas realizadas por email na cidade de São Paulo (em anexo) e baseado nos estudos realizados pela FIA e pela Rainmaker Thinking, esses jovens consideram o modo de se vestir tão importante quanto seu gosto musical. Idolatram músicos que se revelaram em épocas distintas e viraram referência, dentre eles podemos citar o cantor David Bowie e a cantora Madonna. Não podemos deixar de acrescentar o folk, o indie e o rock como favoritos na hora de apreciar um “som de qualidade”, na opinião dos entrevistados. Foi percebido que estes jovens frequentam bares específicos como o Naive2 , o Exquisito3 e o Bar Secreto4 . Museus e exposições, como o Museu de Imagem e Som (MIS), o Museu de Arte Moderna (MAM) e a Pinacoteca são também visitados sempre que possível. No dia a dia, os bares e lojas da Rua Augusta e da Rua dos Pinheiros são os lugares escolhidos para relaxar. São muito ligados às artes e gostam de ler, principalmente poesia e drama. O interesse pela política é variado dentre este público, enquanto alguns se interessam e impõem opiniões, outros afirmam não se importar. Em relação à alimentação não possuem preferências, porém gostam de saborear o melhor e seguir uma dieta balanceada. Estão sempre acompanhados por amigos ou pessoas que possuem um vínculo forte. Constantemente vão ao cinema preferindo filmes com a temática independente e cult, mas musicais e dramas também fazem parte de seu repertório. São apaixonados por cafés e uma boa companhia. São meninos que ainda dependem financeiramente da família, porém consideram-se independentes pela forma de agir e pensar. Em relação à tecnologia, utilizam todas as redes sociais disponíveis pela internet, dentre elas: o Facebook, o Twitter, o Tumblr, o Pinterest, o Whatsapp e o Instagram. Do ponto de vista estético, trata-se de jovens com gosto extravagante, que estão abertos a novas propostas e combinações, estão dispostos a mudanças e as desejam prontamente. Na hora de se vestir, muitas vezes preferem a estética da vestimenta ao invés do conforto. Preferem botas e sapatos como calçados. O interesse pelos acessórios é elevado, onde anéis e pulseiras vintage são usados diariamente. Por ter essa característica independente e autentica de se vestir, o público não se mostrou preocupado com a sustentabilidade na produção do vestuário, algo incomum na atual situação mundial onde a preocupação com ações sustentáveis está crescendo mais e mais e muitas vezes se mostrando mais frequentes nas atitudes de jovens do que de adultos da geração X. Na moda masculina afirmam faltar marcas acessíveis com variedades de peças estampadas e acessórios diferenciados. 1 Consultoria americana de gestão no ambiente de trabalho. 2 Localizado à rua Mato Grosso, bairro Higienópolis. 3 Localizado à rua Bela Cintra, bairro Consolação. 4 Localizado à rua Álvaro Anes, bairro Pinheiros.
  7. 7. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 7 Figura 1 – Painel referencial do público alvo. Imagem autoral por Sabrina Conde (2013). 7. Processo de Desenvolvimento Todo o processo de desenvolvimento foi focado no desdobramento do conceito Disfarces resultando na materialização de uma coleção de moda que transmitisse claramente esta ideia. Portanto, foi pensando nisso e nas preferências do público alvo pesquisado que a coleção criada traz peças com cortes modernos e diferentes contendo elementos que podem disfarçar tanto uma parte da vestimenta quanto algo no corpo do usuário. Cartela de Cores A cartela de cores escolhida para o desenvolvimento da coleção é composta pelos tons neutros, o preto, o branco e o cinza, por terem infinitas possibilidades de utilização na construção da coleção e também pelo vinho e o roxo, pois por se tratar de uma coleção Outono/Inverno, as cores encontradas nessa estação são mais fechadas e sóbrias e são condizentes com a preferência do público alvo quando se trata da relação destes com a adição de cores às vestimentas. 11-0107 TP 18-4027 TP 19-0508 TP 19-1530 TP 19-3220 TP
  8. 8. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 8 Estudo de Formas As formas encontradas no estudo são compostas por linhas retas nas formas geométricas como o triângulo e o quadrado e também formas mais orgânicas como o círculo e linhas curvilíneas por representarem elementos relacionados à escravidão, à religiosidade e, consequentemente, ao conceito Disfarce. Figura 2 – Estudo de Formas. Imagem autoral por Bruna Medina e Sabrina Conde (2013). Silhuetas Foi decidido utilizar as formas que transmitissem com mais coerência o conceito Disfarces, portanto as silhuetas escolhidas para a composição da coleção foram as triangulares e retangulares por terem aparecido com abundância no estudo de formas e por julgarmos ser a melhor representação da proposta oferecida ao público alvo.
  9. 9. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 9 Figuras 3 e 4 – Silhuetas. Imagens autorais por Sabrina Conde (2013). Cartela de Materiais Os materiais escolhidos para a composição da coleção foram a gabardine de lã composta por 100% lã e a sintética composta por 100% poliéster, o tropical 65% poliéster 35% lã, o moletom 100% algodão e o brim acetinado (“cotton satin”) 97% algodão 3% elastano, para que assim haja uma mistura entre clássico e casual oferecendo ao público alvo uma nova maneira de se vestir para as mais diversas ocasiões e que ainda expressasse o conceito Disfarce. Figura 5 – Materiais utilizados. Fotos autorais (2013).
  10. 10. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 10 8. Apresentação da coleção Toda moda é vestimenta, mas evidentemente nem toda vestimenta é moda... Precisamos mais da moda do que das roupas, não para cobrir nossa nudez, mas para vestir nossa autoestima (MCDOWELL apud JONES, 2005, p. 28). A coleção desenvolvida teve como base o conceito Disfarces. Procurando suprir as necessidades do público alvo que foram encontradas através de pesquisas, as peças misturam conforto e estética num padrão elevado, cores neutras com fortes e peças casuais com conceituais. Detalhes ocultos, vazados e recortados expressam o conceito de disfarce. Figura 6 – Visão geral da coleção. Imagem autoral por Bruna Medina e Sabrina Conde (2013). 9. Conclusão O presente artigo, originado a partir de uma monografia de TCC, apresentou a relação entre design de moda e cultura brasileira, além de pontuar a importância da interdisciplinaridade para o design. Foi também bastante esclarecedor quanto à
  11. 11. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 11 origem da expressão “santo do pau oco” que antes era atribuída aos portugueses quando, na verdade, foram esses que aprenderam a técnica que deu origem à expressão com os escravos africanos que foram traficados para o Brasil na época da colonização. Através da pesquisa teórica realizada para tal, foi possível desenvolver uma coleção de moda totalmente embasada na cultura brasileira sem que se transformasse em algo caricato e clichê. Por fim, para que o aprendizado fosse concretizado, foi fundamental a interação entre diversas áreas do conhecimento estimulando assim a capacidade de pesquisa e criação para que sejam formados profissionais mais completos. Referências ALVARES, M. R.; GONTIJO, L. A interdisciplinaridade no Ensino do Design. In: Revista Design em Foco, v. III n.2, jul/dez 2006. Salvador: EDUNEB, 2006, p. 49-66. BUENO, Eduardo. História do Brasil. Os 500 anos do país em uma obra completa, ilustrada e atualizada. São Paulo: Publifolha, 1997. CUMINO, Alexandre. História da Umbanda. Uma Religião Brasileira. São Paulo: Editora Madras, 2011. FREYRE, Gilberto. Modos de Homem e Modas de Mulher. São Paulo: Global Editora, 2009. HOUAISS, Antônio; VILLAR, Mauro de Salles. Dicionário Houaiss de Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2001. JONES, Sue Jenkin. Fashion Design: Manual do Estilista. São Paulo: Cosac Naify, 2005. LINARES, Ronaldo; TRINDADE, Diamantino Fernandes; COSTA, Wagner Veneziani. Iniciação à Umbanda. São Paulo: Editora Madras, 2012. LINARES, Ronaldo; TRINDADE, Diamantino Fernandes; COSTA, Wagner Veneziani. Orixás na Umbanda e no Candomblé. São Paulo: Editora Madras, 2010. LISPECTOR, Clarice. Água Viva. Rio de Janeiro: Editora Rocco, 1998. RIBEIRO, Darcy. O povo brasileiro. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. VIEIRA, Adriana; CARDOSO, Oldimar Pontes. 500 Anos de Brasil. Coleção Disney Explora. São Paulo: Folha de S. Paulo, 2000. Meios eletrônicos ARAÚJO, Felipe. Geração Y. Disponível em: <http://www.infoescola.com/sociedade/geracao-y/> Acesso em 20 de Agosto de 2013, 20:40. CARLOS, Jairo Gonçalves. Interdisciplinaridade no Ensino Médio: desafios e potencialidades. Tese de mestrado. 2008. Disponível em: <http://cursos.unipampa.edu.br/cursos/ppge/files/2010/11/interdiscipllinarida de1.pdf> Acesso em 04 de Março de 2013, 21:10. HALUCH, Aline. Pesquisa histórica em design essencialmente interdisciplinar. 2005. Disponível em: < http://www.designbrasil.org.br/artigo/pesquisa-historica-em-design- essencialmente-interdisciplinar> Acesso em 04 de Março de 2013, 21:30.
  12. 12. Iniciação - Revista de Iniciação Científica, Tecnológica e Artística - Vol. 4 no 1 – Abril de 2014 Edição Temática: Cultura e Comportamento 12 LOIOLA, Rita. Geração Y. Revista Galileu, 2009. Disponível em: <http://revistagalileu.globo.com/Revista/Galileu/0,,EDG87165-7943-219,00- GERACAO+Y.html> Acesso em 20 de Agosto de 2013, 20:30. Orixás. Disponível em: <http://santuariodaumbanda.com.br> Acesso em 04 de Março de 2013, 23:00.

×