mais pesado que o ar
Thais Lopes
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“Pais e filhos não foram feitos para serem amigos, mas para serem pais e filhos.” – Millôr Fernandes
PROLOGO
Atores ...
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Posso ir com você?
Sei lá, enquanto você tiver em reunião eu posso sair pra fazer umas
comprinhas e quem sabe.
GOMES...
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Pode ficar tranquila.
GOMES
Meu rapaz, meu rapaz! Eu tenho como bancar, fica tranquilo. A alta sociedade
me respeita...
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Pra que isso agora? Você nunca me ouviu, nunca prestou atenção no que eu
tinha pra lhe dizer. Nunca levou a sério os...
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Para de pegar no pé dele.
GOMES
Você sempre protegeu esse moleque. Aposto que chegou tarde. Aposto.
LUIZA
Não começa...
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JC CRIANÇA
Eu quero ser astronauta.
Ou veterinário.
PAULO CRIANÇA
Mãe olha só aquele avião. Que grande. E como é bon...
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Até o dia em que me falou o que era. No fundo, no fundo, eu sabia que você
procuraria a resposta.
JC CRIANÇA
Mãe eu ...
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E não é que ficou uma semana de cama. Com febre. Depois passou. Nunca
mais falou sobre o assunto.
O médico disse que...
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Ah, meu Deus. Você só perguntou isso? Só isso?
JC CRIANÇA
Acho que as irmãs não sabiam o que é homossexual… preferi...
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Como também não contaria porque na primeira pagina do “Irmãos
Karamazov” estava escrito:
“Caminhos para a sua liber...
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E tinha também Samanta. Dentes lindos. Andávamos de mãos dadas. Nos
conhecemos nas aulas de piano. Eram aulas tão.
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Passou a tarde toda lá fora, nem se lembrou de almoçar.
JC
Teve também aquela vez que Paulo ganhou a bola e a camis...
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Absurdo.
LUIZA
Você falou que cuidaria. O médico aconselhou, você esqueceu?
Trabalho manual. Bom pra combater o str...
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JC
Você está tão diferente. Sem aquele brilho nos olhos.
Quando foi que você ficou assim?
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Estagio é pouco. Ar...
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Por que você aceita? É vivido, experiente. Morou fora do país. Você sempre
foi mais prático do que eu.
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Não precisava ser daquele jeito.
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Parece que ainda sinto a pressão dos dedos no meu braço.
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Mas e...
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[Paulo pega uma carta escrita à mão de dentro do álbum]
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O que vale é a in-ten-ção.
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Acho que a melhor experiência que tive, foi visitar você. E você me levou em
lugares que nem seria capaz de imagina...
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Você tinha a vantagem de ter morado fora do país. Elas sempre lhe
admiraram.
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Sempre foi o preferido delas.
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Sem dúvidas... Ela tinha argumentos bem incisivos.
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Eu não sabia que era ela a dona dos seus sonhos. Só sou...
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Vai lá em cima ver que demora é essa. São quase 7h. Não gosto de me
atrasar, você sabe.
Hoje será um grande dia. E ...
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Onde? Com livros. Não aqueles. 13 anos. Livro e jantar.
Grande presente “A Arte da Guerra”. O que queria? Que ideia...
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Pro seu quarto. Agora. Você não é mais criança. Bolo é para criança. Saia,
agora.
JC AOS 13 ANOS
Tenham uma ótima n...
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Tinha planos: estudo em Paris ou Londres, como Paulo. Era bom para os
negócios.
Mas a Luiza.
[CORTE DE TEMPO]
LUIZA...
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Quem é Gomes? Responde. Não vou aceitar. Não vou ser como minha.
GOMES [segura Luiza]
Luiza cala a boca. Eu já fale...
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Aprenderia muita coisa lá no exterior. Talvez esquecesse esse negócio de
música, banda, amigos cabeludos.
Mas não. ...
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Assumir responsabilidades desde cedo.
O resto guarda-se num velho álbum de retratos.
Local para contemplação. Só is...
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Desculpe, o senhor não presta atenção em coisas fúteis. Gosta de saber
apenas o resumo de tudo. Isso, quando a mãe ...
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Essas mudanças que acontecem com a gente às vezes são bem
complicadas.
[Sai]
[Luiza não fala nada, senta-se apreens...
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Mãe, eu… eu posso ler uma poesia que escrevi ontem?
MÃE - LUIZA
Claro meu filho, claro. Mas seja rápido que seu pai...
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MÃE - LUIZA
E você anda mexendo lá de novo. Já não lhe proibi de.
JC CRIANÇA
Preciso ler. Lá tem.
Bom. Vi uns quadr...
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Nem mais nem menos. Sobe. Eu dou um jeito de manda-los embora. Vai
moleque.
Turma? Um bando de meninos. Porque esco...
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Aposto que estava com aquela uma.
JC – 17ANOS
Ela tem nome. [Para Gomes] Eu avisei a sua esposa…
PAI
Minha esposa é...
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Eu não mato ninguém, moleque. Que desaforo! Luiza, o que esse moleque tá
falando. Me responde.
JC – 17ANOS
Mata sim...
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[TEMPO]
MÃE
Gomes, Gomes, calma. Paulo, corre aqui.
JC – 17ANOS
Pai… o que foi, fala comigo.
[Paulo entra correndo]...
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Ir ao sótão passou a ser frequente.
Na solidão desta casa. Sufoquei meus amores.
Aprisionei meus monstros.
[Música]...
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[Luz vai acendendo aos poucos, revelando a cena inicial]
[Cada ator-personagem com uma carta na mão, na mesma posiç...
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Sem o peso da culpa, herança…
Eu sonhei que estava lendo um livro. Um livro que amo profundamente.
Mas… Num determi...
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JC [Continua a carta]
Eu te falei, nunca seria o que você queria e determinou. Nunca.
Pai. Ouve. Ouve.
GOMES
Vocês ...
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Mãe deve estar difícil esse momento para você.
Tão difícil como foi para tomar a decisão que tomei, acredite.
Eu de...
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[Paulo, Gomes, Luiza e JC cantam, enquanto levantam-se e saem. Ficando apenas
JC]
JC
Eu tive um sonho há algum temp...
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Todo mundo já estava há muito tempo
E o que é que eu tenho a ver com isso?
Sou brasileiro errado
Vivendo em separad...
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  1. 1. mais pesado que o ar Thais Lopes
  2. 2. - 2 - “Pais e filhos não foram feitos para serem amigos, mas para serem pais e filhos.” – Millôr Fernandes PROLOGO Atores em torno da mesa, cada um para um lado. Mesa com álbum, jornal e revista. Cada um com uma carta na mão. Tudo em silêncio. [BLACK OUT] UM [ JC entra cantarolando uma música. Passa pela família que está sentada à mesa do café. Para e observa. Pai e filho mais velho leem jornal. Mãe está olhando um álbum de fotografias. Todos parecem aguardar alguma coisa.] GOMES [Fumando um charuto] Impressionante! A história se repete. Tem sempre algum espertinho tentando passar a perna na gente. Bom... Pra variar, terei de viajar e resolver os problemas da empresa pessoalmente. Onde já se viu? Querem pagar uma miséria pelo novo projeto. PAULO Estou preocupado. Parece que os conflitos na África diminuíram bastante. Acho que teremos um período difícil pela frente. Não sei. Acho que os nossos produtos vão desvalorizar, assim como. GOMES [Dá um tapa em Paulo] Não lhe eduquei pra isso rapaz! Não me venha com pessimismo no café da manhã. Não é o pessimismo que vai levar esse país pra frente. É a esperança e o trabalho sério. Lutei muito por isso. Pelo sucesso da empresa, pelo conforto da nossa família. Cuidado com o que fala! [TEMPO] [JC pega um violão. Dedilha uma musica dos Smiths] LUIZA [Fecha o álbum, pega uma revista]
  3. 3. - 3 - Posso ir com você? Sei lá, enquanto você tiver em reunião eu posso sair pra fazer umas comprinhas e quem sabe. GOMES [Levantando] Fazer umas comprinhas, Dona Luiza?!? Você não ouviu o que eu falei agora a pouco? Esse dinheiro que paga suas “comprinhas”, essa casa, seu carro de luxo e a empregada, tudo isso, meu bem, depende dessas viagens e das negociações. Bonito. Eu dou um duro danado trabalhando e a senhora quer fazer “comprinhas”. Faça-me o favor. LUIZA Não precisa ser grosso. Era só uma ideia. Esquece. [JC para de tocar] [TEMPO] GOMES Rapaz! Seu casamento vai ficar na historia! Já pensou nos jornalistas, nos convidados? Pensei em chamar alguns amigos de Brasília, sabe como é, todo bom negócio, principalmente com o Governo, começa com esses encontros eventuais e é sempre assim que funciona. PAULO Não quero jornalista, nem político. Será uma cerimônia simples. Já falei. LUIZA Precisamos providenciar sua roupa. Terno branco de preferência. Ah... e pensar também na lista de convidados especiais, buffet, músicos, fotógrafos, até pensei em. PAULO Obrigado mãe, não precisa se preocupar, os pais da Melissa já estão providenciando tudo.
  4. 4. - 4 - Pode ficar tranquila. GOMES Meu rapaz, meu rapaz! Eu tenho como bancar, fica tranquilo. A alta sociedade me respeita pelo poder que tenho. Você sabe. Consigo fazer uma festa e tanto. Pra ficar na história. Você vai ver. Vão me bajular, aquele bando de puxa-sacos. Vão implorar pra ter o nome na lista de convidados. Avisa os pais da menina. Eu banco esse casamento. PAULO Não quero! Não precisamos da sua ajuda, pai. Obrigado. [TEMPO] [Levanta] Vou para o escritório estudar aquelas estratégias de negociação para a reunião de hoje. GOMES [Seco] Senta. O café ainda não foi servido. JC Pensa bem, Paulo. Pensa! Se for isso mesmo que você quer. Você sabe, somos resultado das escolhas que fazemos. Você é melhor do que isso. [Dedilha outra música no violão] GOMES [Demonstrando entusiasmo] O que mais um pai pode querer? Sonhei com um futuro brilhante para vocês. Tudo planejado em detalhes. Vocês terão o que quiserem. Tudo o que fizerem por merecer. O mundo aos seus pés. JC [Para de tocar]
  5. 5. - 5 - Pra que isso agora? Você nunca me ouviu, nunca prestou atenção no que eu tinha pra lhe dizer. Nunca levou a sério os meus sonhos, e agora. LUIZA [Folheando a revista] Olha o coração. O médico falou que. GOMES Eu sei muito bem o que o médico falou. Não posso comentar nada sobre isso, que coisa. [Gomes levanta e vai até a janela] [TEMPO] LUIZA Acho que vou à igreja daqui a pouco. GOMES Há essa hora? Não é cedo demais? LUIZA Ação entre amigos, cestas básicas. Doação de roupas. Combinei de ajudar na organização. Já avisei o motorista. Precisa de alguma coisa? GOMES Mas a Igreja é logo ali. Três quarteirões. LUIZA Não posso chegar à Igreja andando, querido. Só quero saber se precisa de algo da cidade. Charuto. Uísque. [Gomes nega com a cabeça] GOMES Onde está o seu filho? Por que ele ainda não desceu? LUIZA O “seu” filho deve estar acordando, provavelmente estudou até tarde.
  6. 6. - 6 - Para de pegar no pé dele. GOMES Você sempre protegeu esse moleque. Aposto que chegou tarde. Aposto. LUIZA Não começa. PAULO Estava aqui pensando. Acredito que podemos negociar a margem de lucro. Não vai ser difícil. Aquela estratégia do ano retrasado pode dar certo. O que acha? GOMES [Com o olhar fixo na janela] Penso nisso mais tarde. DOIS [JC dedilhando uma música] LUIZA Já não se fazem empregadas como antigamente. Aquela menina, imprestável. Não tirou pó da estante. De novo. Aposto que fica pendurada no telefone ao invés de trabalhar. [Abre novamente o álbum de fotografias] Ele era tão pequeno. Tão sonhador. Lembra Gomes? Paulo também era, mas ele se parece tanto com você, sempre foi mais independente. LUIZA [Para Paulo] Lembro quando fomos pela primeira vez à empresa de seu pai. Você e seu irmão corriam admirados entre os aviões, no hangar. O chefe dele perguntou o que vocês queriam ser quando crescer. Você foi tão convicto na sua resposta. PAULO CRIANÇA Eu vou ser piloto. Piloto de avião.
  7. 7. - 7 - JC CRIANÇA Eu quero ser astronauta. Ou veterinário. PAULO CRIANÇA Mãe olha só aquele avião. Que grande. E como é bonito. JC CRIANÇA Mãe ele tem um desenho na ponta. É um. Mãe o que é aquilo embaixo do avião? PAULO CRIANÇA É mãe, para que serve aquilo? MÃE [Desconcertada] Ah... aquilo é. Bom, isso deve ser um avião militar. Serve para proteger as pessoas. Deve ser isso. JC CRIANÇA Proteger do que mamãe? MÃE Olha aqui vocês dois! Vocês não tem idade para esse tipo de conversa. Vamos embora, já está tarde. JC Naquela época você não podia dizer a verdade, éramos muito novos. Aquele avião passou a habitar os meus sonhos. E isso não era nada bom. A certeza de Paulo passou a ser uma duvida pra mim. Já não achava que ser astronauta era uma boa ideia. LUIZA [Com uma foto nas mãos] Toda vez você me perguntava a mesma coisa. E eu tinha que inventar outros assuntos pra mudar o rumo da conversa.
  8. 8. - 8 - Até o dia em que me falou o que era. No fundo, no fundo, eu sabia que você procuraria a resposta. JC CRIANÇA Mãe eu já sei de tudo. Sei a resposta. MÃE Resposta? Que resposta? JC CRIANÇA Aquele avião que vimos lá no galpão. É um avião de guerra. MÃE E quem foi que disse um absurdo desses? Que besteira, menino. Seu pai não trabalha com essas coisas. Imagina só. JC CRIANÇA Mamãe já sou um homem. Tenho sete anos. Eu vi nos livros, e depois um… um professor me falou. Então eu perguntei para o papai. Ele confirmou. Falou que são aviões de guerra. O desenho de tubarão no bico serve pra. São aviões que... que... MÃE São aviões que nos protegem dos inimigos do país, dos comunistas. Seu pai também lhe falou sobre isso? JC CRIANÇA Mamãe, meu professor falou que ele mata as pessoas. Aí eu fui perguntar para o papai e ele disse que o avião tubarão só mata pessoas ruins. Mas como é que o piloto, lá em cima pode saber quem é bom e quem é ruim? [TEMPO] LUIZA [Ainda com a foto nas mãos]
  9. 9. - 9 - E não é que ficou uma semana de cama. Com febre. Depois passou. Nunca mais falou sobre o assunto. O médico disse que com o tempo esqueceria. Espero que tenha esquecido mesmo. [JC dedilha a música “Two of Us” dos Beatles] LUIZA Lembra Gomes? Quando João entrou na escola, era tão questionador, sempre colocou seus professores em “saia justa”. Mas você não suportava tanta reclamação. Levamos ao psicólogo, que besteira. Diagnosticou como Transtorno de Déficit de Atenção. E a gente nem fazia ideia do que era isso. TDA. JC A escola foi uma fuga. Temporária, venhamos e convenhamos. Perguntava tudo, sobre política e até medicina. As irmãs queriam morrer comigo. Eu perguntava as coisas de forma séria, porque tinha curiosidade. Meus colegas é que riam. JC CRIANÇA Professora como o homem chegou à Lua? Professora como as crianças nascem? … o que é sexo? …por que os ingleses não descobriram o Brasil? Professora? O que é homossexual? MÃE João, eu não acredito. Que vergonha! Expulso da escola. Seu pai vai te matar. JC CRIANÇA Mas mãe, não foi nada de mais, juro. Eu só perguntei o que era homossexual. MÃE
  10. 10. - 10 - Ah, meu Deus. Você só perguntou isso? Só isso? JC CRIANÇA Acho que as irmãs não sabiam o que é homossexual… preferiram me expulsar. MÃE Você vai ficar de castigo, João. Não quero saber, as professora são freiras, elas têm razão de não querer você lá. Mas que vergonha. E agora?O que é que eu vou falar para as minhas amigas? JC CRIANÇA Mas a senhora também não sabe o que é homo. MÃE Pare de me questionar, garoto. Era isso que fazia com elas. Você retrucava tudo, não é? JC CRIANÇA Mas a. MÃE Nem mais uma palavra, não adianta se justificar, sobe, agora. JC Não durei muito na escola particular, na natação, judô, futebol. Quando fui expulso da escola, meu pai me tirou de tudo. Menos do inglês. Ele dizia que eu usaria muito o inglês. E ele tinha razão. Ser expulso não foi ruim. Passei mais de uma semana de castigo no sótão. Descia para comer, tomar banho e dormir. Encontrei meu mundo, vários livros e outras coisas interessantes. E depois veio o período de férias e passei um bom tempo lendo livros que mudariam minha visão de mundo para sempre. [Para Luiza] Quem será que te deu Dostoievski, Victor Hugo e Kafka de presente? Acho que você não me contaria, nunca.
  11. 11. - 11 - Como também não contaria porque na primeira pagina do “Irmãos Karamazov” estava escrito: “Caminhos para a sua liberdade. Com carinho, sempre seu, TJ” LUIZA Depois da expulsão do João, você veio com aquela conversa de mandá-lo para a Europa. Você queria tirar ele de mim, isso sim! GOMES [Olhando pela janela] Pelo menos ele não seria tão mimado e arredio. LUIZA Ainda bem que uma amiga do clube me aconselhou a coloca-lo nas aulas de piano. Não imaginei que montaria uma banda. Mas melhorou muito na nova escola. GOMES Já não era tempo. Rebeldia na idade dele era falta de. LUIZA Não começa Gomes! João sempre foi cortês e gentil, você sabe. Mas precisamos coloca-lo naquela escola? GOMES Foi a única que o aceitou. Ainda tivemos que inventar uma. LUIZA Gomes, não foi à toa. Ele não podia ficar sem estudos. Você sabe. Mas poderíamos ter escolhida outra. Com o dinheiro que tínhamos. GOMES Nem todo dinheiro resolve. Todos sabiam. A única foi a. JC Escola Pública. Lá conheci muita gente. Até mais que Paulo. Meus amigos. Minhas ideias foram tomando forma.
  12. 12. - 12 - E tinha também Samanta. Dentes lindos. Andávamos de mãos dadas. Nos conhecemos nas aulas de piano. Eram aulas tão. LUIZA Namorada. Tive ciúmes. Coisa de criança. Estava indo bem nas aulas de piano. E no inglês também. Passou a ler livros em inglês. Você Paulo, nunca gostou de ler, nunca se interessou por aprender outra língua. Mas sempre foi um ótimo aluno em Matemática. Pelo menos isso. PAULO [Lendo o jornal] Tinha que ser bom em alguma coisa. Pelo menos em matemática. LUIZA [Pra si] Por que será que ele está demorando tanto pra descer? Deve ter ficado até tarde acordado. [Muda o tom] Quando não estava estudando, adorava ficar na rua com outros meninos. Voltava imundo. Que horror. Não suportava isso! [Para Gomes] Lembra quando você deu a ele uma bicicleta? João correu pela casa toda, transbordando felicidade, e eu ficando neurótica. MÃE Não corre tanto, menino! Cuidado com as plantas! Cuidado pra não riscar os móveis! Presta atenção, menino. Você ainda vai se machucar. JC CRIANÇA Eu tomo cuidado, mãe. Prometo. MÃE [Acompanhando o filho girando com a bicicleta] Aqui dentro não, menino, aqui dentro não. Que coisa! Aí também não. Olha o vaso da sua avó! JC CRIANÇA Tá bom, mãe. Tá bom. Vou pro quintal. LUIZA
  13. 13. - 13 - Passou a tarde toda lá fora, nem se lembrou de almoçar. JC Teve também aquela vez que Paulo ganhou a bola e a camisa oficial da seleção de 78. Um coronel, amigo do pai tinha ido assistir um jogo e trouxe a camisa autografada. Depois Paulo disse que era nosso. Que eu podia usar quando quisesse. Vivíamos trocando os presentes. Apesar de tudo. LUIZA [Para si] Apesar de tudo. Menino de ouro. Eu sabia que conseguiria. Sempre foi o melhor. JC Nunca fui o melhor. Eu só queria agrada-lo, pai. Só isso. Mas nós nunca tivemos os mesmos ideais, não é mesmo? Talvez a palavra “ideal” esteja fora de uso. Eu é que demorei pra entender. GOMES [Para Luiza] O que você disse? [Luiza balança a cabeça. Gomes se impacienta] E por que essa demora? [Consulta as horas] A gente ainda vai se atrasar. Sei que hoje é dia de. LUIZA Já deve estar descendo. Que coisa. Não faz nem dois minutos que perguntou por ele. Não seja ansioso. [JC cantarola uma música] GOMES [Olhando fixamente pela janela] Tem que lembrar de chamar o jardineiro. Daqui a poucos todos vão começar a falar que o jardim está abandonado, que a gente não cuida da casa.
  14. 14. - 14 - Absurdo. LUIZA Você falou que cuidaria. O médico aconselhou, você esqueceu? Trabalho manual. Bom pra combater o stress. [Gomes olha com reprovação para Luiza] TRÊS [Luiza passa a tirar poeira da mesa e das cadeiras, Gomes passa o tempo todo olhando o jardim] PAULO Podemos negociar… Com certeza. Uma hora eles abrem as pernas e aceitam o acordo! LUIZA Paulo, isso é jeito de falar? GOMES Bom, muito bom. E não se esqueça de negociar as contratações para o casamento. PAULO De novo essa conversa, pai? Que saco! Está tudo encaminhado. Fica tranquilo. GOMES [Olhar de reprovação] Lembre-se de pensar numa função para o seu irmão. Precisamos de organização. Estagio apenas é pouco. Ele tem que aprender tudo. [TEMPO] Vou telefonar para o jardineiro. Definitivamente, não vou ter tempo para arrumar esse jardim. [Sai]
  15. 15. - 15 - JC Você está tão diferente. Sem aquele brilho nos olhos. Quando foi que você ficou assim? PAULO Estagio é pouco. Arrogância. Responsabilidades. Responsabilidades. Negócios da empresa, casamento. Comemoração. Será que terá comemoração? Calma. Vai dar tudo certo. JC Você esta feliz? PAULO Bom, cada coisa a seu tempo. Acho que sou um homem de sorte. Ela é boa. Trabalhadora. Inteligente. Vou ser feliz. Apesar de tudo. Vou ser feliz. [Mudando o tom] Mãe, para com isso. A gente tem empregada pra que? LUIZA A menina fez de qualquer jeito. E eu não vou chama-la agora. Porque, porque ela está preparando o café. Pra fazer malfeito, eu mesma faço. [Sai] PAULO Um dia, sonhei em ser piloto. E olha só o que eu me tornei. Engenheiro. Seguindo os passos dele. Como ele tanto sonhou.
  16. 16. - 16 - JC Por que você aceita? É vivido, experiente. Morou fora do país. Você sempre foi mais prático do que eu. PAULO Quando ele chegou com a bicicleta, quando ele trouxe o vídeo game. Ele já sabia que eu lutaria para ser o melhor. Melhor que. JC Não… ele não sabia da nossa relação. Sempre fomos amigos. Às vezes brigávamos, mas é coisa de criança, de irmão. PAULO CRIANÇA Claro que o meu presente é melhor que o seu. O pai falou que é pra exercitar estratégia e raciocínio. E pra que serve isso que você ganhou? Diz, diz. JC CRIANÇA Ah... serve pra, serve pra. Serve pra ser feliz! Então o meu presente é muito mais especial que o seu! PAULO CRIANÇA Ah, tá bom então, espertalhão. Vamos ser feliz. Vamos brincar de. JC CRIANÇA Eu topo, eu topo! Tenta me pegar, tá com você! [Correria] PAULO CRIANÇA Ei, assim não vale. Eu nem falei qual era a brincadeira. Vou te pegar. Você vai ver só. [Brincam de pega-pega. Mãe entra e segura Paulo] MÃE [Entra] Parem com isso. Agora! [Sai]
  17. 17. - 17 - [TEMPO] JC Não precisava ser daquele jeito. PAULO Parece que ainda sinto a pressão dos dedos no meu braço. JC Mas era apenas. PAULO Maldito vaso! Herança da vovó. Feio que doía. Um trambolho no meio da casa. Ela adorava aquele maldito vaso. JC Foi presente de casamento. Mas era só um vaso. E outra, corríamos juntos, então... PAULO No fim, a responsabilidade é sempre do irmão mais velho. JC Eu também tinha minhas responsabilidades. Pensei até em. Sempre tive ideias, você sabe. Escrever. Escrever foi um caminho. PAULO [Abrindo o álbum de fotografias] ... me lembro. Eu era o responsável e ele tinha sempre as melhores tiradas em qualquer situação. As melhores ideias. Sempre criativo. Escrever foi um caminho natural, eu acho. E olha que nem sabia escrever direito.
  18. 18. - 18 - [Paulo pega uma carta escrita à mão de dentro do álbum] JC O que vale é a in-ten-ção. PAULO Escreveu para o Presidente. Que coisa. Desejava o fim das guerras. O fim da violência. O fim da empresa. [tempo] Empresa que sugava todo o tempo do velho. O tempo que ele não teve para se dedicar aos filhos. [JC vira as costas para Paulo. Paulo dobra a carta e torna a guardá-la] PAULO Mas a distancia acabou sendo benéfica para nossa relação. Aquele período em Londres fez bem para mim. Conheci varias pessoas interessantes. [Tempo] Apesar da rigidez inglesa. Apesar das teorias. Dos acordos. JC Saudade. Mas, aqueles discos bacanas. Melhor presente da minha vida. E os livros? Do caralho! Ouvia tudo e lia de forma desesperada, como se fossem tirar isso de mim a qualquer momento. PAULO Tempo de aprendizado. Saudade. Dificuldades. Estudos. 17anos. Varias garotas. Melissa. Mas ela veio embora e eu fiquei por mais um tempo. JC
  19. 19. - 19 - Acho que a melhor experiência que tive, foi visitar você. E você me levou em lugares que nem seria capaz de imaginar. O Carvern Club, lembra? As lojas de discos na London's West End, as livrarias da Charing Cross Road. Aquilo tudo era de encher os olhos de qualquer garoto. Me apaixonei de cara pelo rock’n roll: Sex Pistols, Clash, Ramones, Pink Floyd e outros que conheci melhor no decorrer daqueles dias. Foi talvez o momento em que eu me senti mais próximo de você. Como irmão. Era uma liberdade de conhecimento. Eu com 15 anos, mas reconheço o valor. PAULO Aqui era muito difícil. Ditadura, repressão cultural e não era permitido dizer o que se pensava. Tudo às escondidas. Acho que fiquei alienado quando retornei ao Brasil. Deveria ter ficado por lá. Deveria. GOMES [Entra. Está ao telefone. Luíza entra junto] Amanhã, bem cedo. Isso. Isso mesmo. Como no mês passado. Não, não precisa. Isso. Ok, acerto amanhã também. [Desligando] O que você disse Paulo? [Paulo não diz nada. Gomes passa por Paulo e sai novamente] Luiza, o jardineiro vem amanhã. Vou deixar o dinheiro e você acerta com ele. [Luiza cantarola baixinho uma música enquanto termina de arrumar as coisas cadeiras e mesa] PAULO O rapaz cabeludo com o violão, sempre foi um bon-vivant, amigo de todos. Depois vieram as poesias. As músicas. As meninas. JC
  20. 20. - 20 - Você tinha a vantagem de ter morado fora do país. Elas sempre lhe admiraram. PAULO Sempre foi o preferido delas. Não escrevo poesias. Engraçado... Sempre me senti à sua sombra. JC Você deve achar que tudo sempre foi fácil pra mim. Eu tive que começar a escrever poemas de amor para elas olharem pra mim... PAULO E poemas que falavam sobre a gente, sobre as nossas angústias, desejos, sonhos. [Rindo constrangido] Que ironia. Falar sobre sonhos numa época em que ainda não é permitido sonhar. JC Mas permitido amar. E isso é o que importa. Minha primeira paixão. PAULO Quando me apaixonei. Férias. Desilusão. Você mais novo. Dois irmãos, gostando de uma mesma garota. Onde é que eu estava com a cabeça? JC Todo mundo babava nela. Eu ficava na minha. Ela era mais velha. Ela me conquistou aos poucos. Olhos azuis. Boca rosada. Seios fartos, olhar malicioso.
  21. 21. - 21 - PAULO Sem dúvidas... Ela tinha argumentos bem incisivos. JC Eu não sabia que era ela a dona dos seus sonhos. Só soube tempos depois. Você já estava em Londres. PAULO Ela nunca prestou atenção em mim. Nunca me olhou como. Mas não foi a única. Parece brincadeira. Ela tão linda. Cantando. Olhos negros. Atitude. Tentei beija-la. [tempo] Sinto os dedos dela no meu rosto. Eu a vi do seu lado. Os olhos dela brilhavam por você. JC Foi por isso que. Os ensaios? Discos no lixo? Roupas doadas? Por isso que. Terno, gravata. Estagiário daquele lugar. Tive tanta raiva de você. Pensei que. Pensei. PAULO [Fechando o álbum de fotografias e levantando-se] Bom, saudade não leva a lugar nenhum, nunca levou. O que importa é. Casamento marcado, faculdade chegando ao fim, grandes possibilidades de negócio. E estamos todos. Tudo volta ao normal. Fim das brincadeiras. Decepcionar faz parte. Eu me decepcionei. GOMES [Entrando]
  22. 22. - 22 - Vai lá em cima ver que demora é essa. São quase 7h. Não gosto de me atrasar, você sabe. Hoje será um grande dia. E no final da tarde eu viajo. Tempo é dinheiro, meu rapaz. PAULO Sim senhor. [Sai] QUATRO LUIZA Vou pedir para colocar a mesa. [Sai] GOMES Apesar de tudo, o futuro está garantido. [Gomes abre o álbum de fotografias] JC Apesar de tudo? Orgulho. Egoísmo. Isso cega profundamente. Sabia? Você sabe. Sempre soube. GOMES Quando foi expulso, fiquei sem chão. Percebi como é difícil ser pai. JC Ser filho também não é fácil. GOMES Sempre fiz de tudo. Brinquedos, viagens, livros. Mas correr de escola em escola. Ter que ouvir seus argumentos equivocados. Onde aprendeu. Onde? JC
  23. 23. - 23 - Onde? Com livros. Não aqueles. 13 anos. Livro e jantar. Grande presente “A Arte da Guerra”. O que queria? Que ideia. Questionável, no mínimo. Para o jantar, um general. Sempre negócios em primeiro plano. Aquela esposa mais fútil que D Luiza. Aquele calor. Casaco de pele. Me segurei. Charuto importado. Compras em. Tudo. Tudo inútil. Não aguentei. Foi mais forte que eu. JC AOS 13 ANOS [Senta-se a mesa em frente a Gomes] Gostando do jantar? Sempre bom comer de graça. [Gomes olha bravo para JC] Coronel. [Pausa] Bacana, não é? Ah, General. General, importante. Muito importante. Então... Sr. General, eu queria saber... por que o primeiro ministro do Canadá está no Brasil? Hum... Não pode falar. Entendo. Segredo. Nosso país tem muitos segredos? PAI Acho que não tem idade para estar acordado. Nem para essa conversa, sem pé nem cabeça. JC AOS 13 ANOS Pé. Cabeça. Por que o pessoal daquele sindicato foi preso? Inimigos? Hum. Temos muitos inimigos. Da mesma etnia. Da mesma origem. PAI Cala a boca menino. Agora chega. Dê boa noite ao General e vai pro seu quarto. JC AOS 13 ANOS Mas. Nem cortamos o bolo. PAI
  24. 24. - 24 - Pro seu quarto. Agora. Você não é mais criança. Bolo é para criança. Saia, agora. JC AOS 13 ANOS Tenham uma ótima noite. JC Bom, me senti bem. Seu rosto queimava. Vergonha ou raiva? A mãe olhava os lados sem saber o que falar. Ou pensar. Depois soube que o General tinha ficado desconcertado. Falou em seu ouvido: “Cuidado, ele tem tendências comunistas”. Você sorriu. PAI Coisa de garoto. O colégio é bem rígido e religioso. JC Colégio religioso? Foi sua primeira mentira? [Para Luiza]. Para variar discutiram. Fiquei de castigo. Cada um para um lado. Escritório. Sempre o escritório. E não era por falta de quarto. Castigo. Fiquei sem poder ouvir meus discos. Mas fui adotado pelos livros. Os livros políticos da Dona Luiza. Não eram de receitas nem de remédios. Mas me alimentavam a alma e curavam minhas duvidas e incertezas. Leitura escondida. Cárcere em meu quarto. Sótão. Tesouros que você nem imagina. GOMES Aulas de piano. Pra que? Era Coisa de Luiza. Agora vive por ai com aqueles discos barulhentos, musicas que não entendo. Não foi o que imaginei. Não foi o que eu construí.
  25. 25. - 25 - Tinha planos: estudo em Paris ou Londres, como Paulo. Era bom para os negócios. Mas a Luiza. [CORTE DE TEMPO] LUIZA [Entra exaltada] Não vai mandar o menino para longe… é apenas uma criança e além do mais. GOMES Luiza será que você não entende? Ele tem que crescer, amadurecer as ideias, se preparar pra vida adulta. Se preparar para a. [TEMPO] Não pode ficar na barra de sua saia a vida toda. LUIZA Ele não fica na barra de minha saia. Não fica. E você? Fica vários dias fora de casa, Enfiado em reuniões, congressos e sei lá mais o quê. Nunca. Nunca. GOMES Para Luiza. Você sabe, muitas vezes eu tenho que resolver as coisas pessoalmente. Me ouve. LUIZA Mal chega, mal dorme uma noite em casa e já está de viagem marcada de novo. Não quero. Não quero. GOMES Luiza, pelo amor de Deus. LUIZA Não sonhei com isso. Não quero isso para mim. Já sei. Quem é? Quem é a outra? Só pode ser.
  26. 26. - 26 - Quem é Gomes? Responde. Não vou aceitar. Não vou ser como minha. GOMES [segura Luiza] Luiza cala a boca. Eu já falei mais de mil vezes que não tenho amante. Tenho reuniões com homens barbudos, mal encarados, que não confiam plenamente em ninguém. Para com essa mania delirante de ficar me acusando. É sempre a mesma ladainha. Essa é a forma de sustentar esta casa. Não seja leviana. LUIZA Vou dizer pela última vez. Eu não posso ficar sozinha. Você não vai mandar o meu filho pra lugar nenhum, está ouvindo? Você já tirou o Paulo de mim. O João não. GOMES Mas Luiza. LUIZA Eu odeio você, odeio. Você não cuida mais de mim. Nem me olha. São papeis, papeis. Viagens. Não me dá mais um filho. Só quer saber dessa maldita fábrica. Você prometeu que a casa ficaria cheia. Prometeu. GOMES Luiza sem drama. Estou cansado. Você não engravidar. Não é minha culpa. Uma menina seria ótimo para. Luiza. [Luiza esconde o choro e sai correndo] [CORTE DE TEMPO] JC Vocês sempre brigavam, sempre. Por quase nada. GOMES Sei que nada foi em vão. Nada. Fiz de tudo, tudo o que era possível.
  27. 27. - 27 - Aprenderia muita coisa lá no exterior. Talvez esquecesse esse negócio de música, banda, amigos cabeludos. Mas não. Luiza não queria ficar sozinha em casa. [TEMPO] Deveria ter sido mais firme com ela. JC Eu propus para a você uma vida mais simples. Ela não era feliz. Ela não é. GOMES Preciso me aposentar. Ir para a fazenda ou para a praia. [Com uma foto nas mãos] Como aquela vez em que passamos as férias em Angra. Vida calma, sem estresse. Mas desta vez, só eu e Luiza. JC desconfiado Vida calma? Estranho. Não aguentaria. Seu amor por aquele lugar é maior que tudo. Vida calma? Quase um paradoxo. GOMES A partir de agora as coisas vão mudar. Responsabilidade. Gente nova. JC Você não sente falta do passado? Marcenaria, das goivas, pincéis e entalhadeiras? Seus trabalhos com madeira. Encontrei suas coisas no sótão. Empoeirados. Seu passado, as fotos antigas, você apenas um rapaz, brilho nos olhos. Esperança, liberdade, sonhos. Tudo encaixotado e empoeirado. GOMES Rapaz, sempre sonha. Mas é passado.
  28. 28. - 28 - Assumir responsabilidades desde cedo. O resto guarda-se num velho álbum de retratos. Local para contemplação. Só isso. [Gomes levanta vira-se de costas] [JC Pega o violão] PAI João, meu filho, eu conversei com a sua mãe hoje e nós. O que é isso moleque? JC RAPAZ Violão. PAI Isso eu sei, garoto. Emprestou de quem? JC RAPAZ De ninguém. É meu. Eu comprei. PAI Ah, comprou. Sei. Com que dinheiro? JC RAPAZ Trabalhei. Recebi. Comprei. PAI Ah, certo. Trabalhou com que, posso saber? Entregador de pão ou de jornal? JC RAPAZ Os dois. PAI [Vai até a porta, fala pra fora] Luiza, que historia é essa desse menino trabalhando? Quero saber o se passa na minha casa. [Volta] E o colégio rapaz? E o colégio? JC RAPAZ Melhor impossível. Olhe meu boletim. Está na mesa perto da entrada.
  29. 29. - 29 - Desculpe, o senhor não presta atenção em coisas fúteis. Gosta de saber apenas o resumo de tudo. Isso, quando a mãe tem paciência de falar ou o senhor de ouvir. Quer ir à escola perguntar? Passo o nome da diretora, dos professores. Como prefere? PAI Que petulância é essa, moleque? Perdeu a noção da realidade? O senhor ainda mora embaixo do meu teto. Tem que me respeitar, garoto! JC RAPAZ Respeito? Respeito. Eu tenho. O senhor é que não tem comigo. Eu trabalhei sim. Não roubei, nem pedi esmola nem emprestado. Entregar pão ou jornal é tão digno quanto ser engenheiro, sabia? PAI Sai da minha frente, moleque. Você não tem idade para me afrontar. Some. [TEMPO] GOMES [Fecha o álbum de retratos, acende outro charuto] É moleque, você me enfrentou. Senti orgulho de você. Naquele momento eu sabia. Sabia que era trabalhador e que bateria de frente comigo quando preciso. Diferente de Paulo. Esse não tem competência para me encarar. JC Ironia. Eu fui conhecer você melhor no sótão. Lá estava sua marca. Você espelhado em cada brinquedo. Percebi seu amor por nós. Pena que eu já havia te perdido para aquele lugar. [Luiza entra e fala algo baixo para Gomes] GOMES Vou resolver isso, gelo é fácil providenciar. Luiza, acho que hoje estou um pouco saudosista. Não sei.
  30. 30. - 30 - Essas mudanças que acontecem com a gente às vezes são bem complicadas. [Sai] [Luiza não fala nada, senta-se apreensiva, com a cabeça entre as mãos] CINCO JC CRIANÇA [aproximadamente 12 anos] Mãe meus amigos vem aqui hoje pra. O que foi, mãe? Aconteceu alguma coisa? MÃE - LUIZA Nada. Nada. Tudo bem, meu filho? [Suspiro] Algumas coisas acontecem tão rápido, você nem imagina. Casei tão nova. Faculdade de Artes? Lá conheci seu pai. JC CRIANÇA A senhora é formada em artes? Bacana! MÃE - LUIZA Não, nem cheguei a terminar. Quem . [Suspiro] JC CRIANÇA Por quê? MÃE LUIZA Coisas de antigamente. Ter vinte anos, solteira. As coisas eram bem diferentes. Difíceis. [TEMPO] JC CRIANÇA
  31. 31. - 31 - Mãe, eu… eu posso ler uma poesia que escrevi ontem? MÃE - LUIZA Claro meu filho, claro. Mas seja rápido que seu pai está pra chegar. E sabe como é. JC CRIANÇA Chama-se “Hera”. Com “H”. “Arrumou cuidadosamente a bolsa: chaves, carteira, batom, creme, estojo de óculos, um pequeno livro de pensamentos. Última vista no guarda-roupas ainda cheio. Levaria apenas o que estava vestindo. Nada mais. Atravessou a casa ecoante e, ao adentrar o jardim, sentiu-se Eva. Deixou-se tomar pelo ar puro, as águas cristalinas e as heras que subiam por suas pernas fazendo-lhe calor e desejo.” MÃE - LUIZA Nossa João. Bonita. E. [Disfarça uma lágrima] JC CRIANÇA Gostou? MÃE - LUIZA É. Mas. [Muda o tom de voz] O que você anda lendo, menino? JC CRIANÇA Várias coisas. Estou terminando um livro de uma escritora brasileira. Marina. Marina Colasanti. Conhece? MÃE - LUIZA Eu tinha um livro dela que. Espera um pouco. Onde você encontrou esse livro? JC CRIANÇA No sótão.
  32. 32. - 32 - MÃE - LUIZA E você anda mexendo lá de novo. Já não lhe proibi de. JC CRIANÇA Preciso ler. Lá tem. Bom. Vi uns quadros embalados. Eu abri. São. Sei lá. São seus. Não são? [Luiza balança a cabeça confirmando] JC CRIANÇA São lindos. que tal fazer uma exposição, mostrar para todos e. MÃE - LUIZA [Interrompe] Não. Não quero que ninguém saiba. Muito menos seu pai. Muito menos. [TEMPO] JC Encontrei as telas no lixo, rasgadas. Destruídas. Lá estava sua. LUIZA Distrações. Não tenho mais tempo. A vida é feita de coisas práticas, não de sonhos. MÃE LUIZA Bom, por falar em prática, agora vai tomar seu banho e trocar de roupa, que seu pai já está chegando para o jantar. JC CRIANÇA Mãe. Meus amigos vêm daqui a pouco pra. MÃE - LUIZA Turma? Como assim? Já disse não ninguém da sua turma aqui. Já conversamos sobre isso. Não se faça de tonto. Sobe. Tome seu banho. [JC tenta argumentar]
  33. 33. - 33 - Nem mais nem menos. Sobe. Eu dou um jeito de manda-los embora. Vai moleque. Turma? Um bando de meninos. Porque escola pública? Por quê? Agora é isso. Turma. [TEMPO] LUIZA [Mexendo novamente no álbum de retratos] Meu Deus, que saudades. A infância. Tão pequenos. O mundo parecia bem menos complicado. [Sai] [TEMPO] JC Saudades. Eu sei. Infância da porta para fora. Saudades do que não existiu. Às vezes eu tenho a impressão que. Você nem chegou a ler aqueles livros. Sepultados na estante de um Sótão Esquecido. Prefere essa vida. Cinza, restrita e cômoda. Prefere a clausura das tradições do que a liberdade. Liberdade pra ser quem se é. Sem fingimento. Dona Luiza, pensa bem sobre tudo que está acontecendo, reflita. Você também pode mudar essa situação, se quiser. Se tiver vontade. Se fosse seu desejo. As coisas realmente mudariam. [Gomes entra com Luiza] GOMES Posso saber onde o senhor esteve? Esqueceu que tem casa? JC – 17ANOS Estava por ai. PAI Isso é explicação que se dê. Sai e não diz para onde, com quem está, volta dois dias depois. Acha isso normal? MÃE
  34. 34. - 34 - Aposto que estava com aquela uma. JC – 17ANOS Ela tem nome. [Para Gomes] Eu avisei a sua esposa… PAI Minha esposa é sua mãe… Ou esqueceu disso também? Ele te avisou Luiza? [Luiza abaixa a cabeça] JC – 17ANOS Não me esqueci. Você sempre me lembra, relembra este fato. O que você quer? Que eu cuide dela? Não é meu dever. Você que tem que cuidar dela, você. E. Quem sabe. O senhor mais presente, ela larga um pouco do meu pé. Mas... É difícil deixa-la. O senhor precisaria abandonar… aquele lugar… aquele maldito… PAI Tá drogado? Fala moleque… Aquele lugar que você chama de maldito é o sustento desta casa. É de lá que saiu seus estudos, suas roupas. JC – 17ANOS Sustento? Minha escola era pública. Compro minhas roupas desde os 12 anos. Trabalhei por isso. Era baratas, mas minhas. Aquele lixo estrangeiro, bancado por aquele lugar, tá lá em cima. Pode pegar… Você fabrica armas e ainda diz que é pra proteger a gente. Aquelas roupas. Não uso. Não uso. Quanto vale a vida das pessoas? PAI
  35. 35. - 35 - Eu não mato ninguém, moleque. Que desaforo! Luiza, o que esse moleque tá falando. Me responde. JC – 17ANOS Mata sim. Ajuda… financia… negocia… fornece. Já pensou para onde vão aqueles malditos aviões e tanques. Você decide sim, quem vai morrer e como vai morrer. Só para bancar esse seu. MÃE O que é isso meu filho. Para de falar assim. Seu pai é um homem bom, correto, íntegro. JC – 17ANOS E a senhora fica ai passando por inocente com seu colar de perolas e seu casaco de pele caríssimo, trocando de empregadas como troca de calcinha… enquanto isso morrem crianças de fome… enquanto mulheres são violentadas nas guerras… enquanto jovens morrem por ideais fúteis do capitalismo… PAI Cala a boca seu moleque senão eu. JC – 17ANOS Não sou mais moleque. Já tenho dezessete. Exército? Nunca. Não vou para a porra da faculdade. Nunca trabalharei em empresa que financia a MORTE. Morte de um monte de. [Gomes sente dores no peito] MÃE Gomes o que é que está acontecendo. Ai meu Deus! JC – 17ANOS Para de cena velho. Não faça drama.
  36. 36. - 36 - [TEMPO] MÃE Gomes, Gomes, calma. Paulo, corre aqui. JC – 17ANOS Pai… o que foi, fala comigo. [Paulo entra correndo] PAULO O que está acontecendo? Eu vou chamar a Emergência. MÃE PARA JC Se acontecer alguma coisa a seu pai eu. Gomes fica comigo, calma, respira. [JC se afasta. Paulo ajuda Gomes a sair junto com Luiza] SEIS [JC pega o violão. Monólogo. Passagem de tempo ] JC Às vezes as coisas mudam... Ou insiste em continuar na mesma. Mas isso, já não faz mais diferença. [Música] O tempo passou. Cirurgia de Emergência. Culpado. [Todos da coxia gritam] CULPADO! JC Sai do grupo. Encostei o violão. Passei a olhar os discos de longe.
  37. 37. - 37 - Ir ao sótão passou a ser frequente. Na solidão desta casa. Sufoquei meus amores. Aprisionei meus monstros. [Música] Inscrição. Vestibular. Exército. Dispensado. Desgosto patriótico do velho. Estudo. Solidão. Fotos. Lembranças. Ela apareceu. Não a recebi. Eu sei. Correria para seus braços como menino de colo. Sua voz. Seu jeito. Choro sentido. Duras palavras. [Música] Cada vez mais solitário em covil familiar. café. Almoço. Janta. Comentários fúteis. Exposição do orgulho. Presentes. Sorriso forçado. [Silêncio] Mudarei. Mudarei minha vida. Para sempre. [Paulo entra e pega o telefone] PAULO Alô, emergência? Sim. Rua Irlanda, n. 03. Centro. Por favor, venham o mais rápido que puderem. Ele está respirando com dificuldade. [BLACK OUT] SETE
  38. 38. - 38 - [Luz vai acendendo aos poucos, revelando a cena inicial] [Cada ator-personagem com uma carta na mão, na mesma posição da primeira cena]. GOMES Como a gente pôde permitiu? Como as coisas chegaram a esse ponto? Tudo teria sido melhor... Passou em primeiro lugar… primeiro lugar em engenharia… [TEMPO] Eu tinha traçado o caminho dele… eu… Aquela banda. Aqueles amigos. O violão. Há semanas isso saiu da. LUIZA Aula de francês… era melhor. Sempre gostou de pintar. Ele prometeu. Prometeu uma namorada que a gente gostasse. Aquela menina era. Ela veio, ele não desceu. Ela disse que era importante. Ele não desceu. [TEMPO] O que será que ela queria? Devia ter perguntado. Nem dei tempo para. [Silêncio] PAULO É melhor ler a carta. “Eu tive um sonho há algum tempo atrás.” JC Vocês não estavam presentes. E, no fundo [tempo] No fundo, eu sabia. Sabia o “porque”. Era preciso fazer. Era importante fazer o que era preciso. LUIZA
  39. 39. - 39 - Sem o peso da culpa, herança… Eu sonhei que estava lendo um livro. Um livro que amo profundamente. Mas… Num determinado momento, lendo-o bem devagar, degustava cada palavra. Num outro momento, as palavras bem separadas umas das outras, os espaços entre cada palavra eram quase infinitos. JC No sonho, mesmo ausentes, eu os sentia por perto, reunidos em torno de mim. E as palavras passando espaçadas pelos meus olhos. [TEMPO] Bom, é nesse espaço infinito, entre as palavras, que me encontro agora. Um lugar que. É onde acredito que todo o resto está. Eu quero que entendam. Por mais que eu queira, não posso mais viver no livro que vocês escolheram escrever para mim. [TEMPO] [JC canta, enquanto mudam-se as posições na mesa] JC [Continua lendo por cima do canto] Isso não é um testamento. Mas atesto. Sejam felizes. Somos livres. Os livros e os discos. Doei. Mandei para quem usará. Não procurem. Meu violão. Meu companheiro. Cuida dele Paulo. Você toca muito bem. Apesar de não acreditar nisso. [Paulo, Gomes, Luiza e JC cantam, enquanto mudam-se as posições na mesa] PAULO Pai não consigo entender você. Não posso ser você. Paulo não pode ser você.
  40. 40. - 40 - JC [Continua a carta] Eu te falei, nunca seria o que você queria e determinou. Nunca. Pai. Ouve. Ouve. GOMES Vocês não sabem tudo. Trabalhei. Muito. Comprei meu violão. Caixa de som. Roupas. Discos. LUIZA Nunca fui menosprezado. Eu me sentia realizado e respeitado. Mas… Escondido. Como ladrão. Como. Sabia que não daria certo. PAULO Estudei muito também. Curiosidade por tudo, vontade de aprender o desconhecido. Não nasci para carreira militar, nem para engenheiro. Você, pai, sabia. Você mãe, deveria ter visto. JC Nasci para cantar, fazer poesia. Ser artista. Vocês não entendem, não viam. Pai, como conseguiu doutrinar a D. Luiza? Para que nos criar alienados de tudo? Não se culpe e não a culpe. Ela não pôde ter mais filhos. Mas Paulo. Te dará netos. E eles encherão a casa novamente com frescor e alegria, você vai ver. Eles devolverão brilho aos olhos da senhora, mãe… e força para suas mãos, pai… e poderá talhar brinquedos. Ser um avô. GOMES Sempre te respeitei… como pai… E sempre odiei o que você faz, mas nunca deixei de lhe amar. PAULO
  41. 41. - 41 - Mãe deve estar difícil esse momento para você. Tão difícil como foi para tomar a decisão que tomei, acredite. Eu desapontei. Mas não consegui ser um bom filho aos moldes que desejou, mas fui o filho que sua alma sufocada gritava de felicidade. Você me entende? Eu não tenho sido feliz. LUIZA [Em duplo com JC] Eu não tenho sido feliz. JC E LUIZA Eu não fui feliz na minha vida. JC E LUIZA E uma pessoa infeliz não pode fazer outra pessoa feliz. JC Vocês sabem disso melhor do que ninguém, não é? Quando conseguirem, me perdoe. Eu não nasci para viver preso. Sinto que, no fundo, no fundo vocês gostariam de uma menina. Uma companheira para a senhora. Principalmente depois que descobriu que não podia mais ter filhos. Uma princesa para você pai. Nasci menino. Apaixonei-me por meninas. Amei e amo uma garota. Assim foi. GOMES Apesar de tudo. Tudo, mãe. Devo a você minha vida. Meu encontro com o amor. Mas agora estou só. JC Enquanto escrevo, ouço vocês no quarto ao lado. Com as velhas discussões. Com planos e mais planos. Todos arquitetados sem perguntar. E ainda não sabem de nada. De nada.
  42. 42. - 42 - [Paulo, Gomes, Luiza e JC cantam, enquanto levantam-se e saem. Ficando apenas JC] JC Eu tive um sonho há algum tempo atrás. E nesse sonho vocês não estavam presentes. Sonhei com esse dia. Sonhei com as palavras que agora me faltam, espaçadas ao infinito. Sonhei com o amor ausente e com aquilo que a gente tem medo de dizer que sente. Tudo vai ficar bem. E agora, eu preciso que. Vou partir. Antes que o café esfrie. Antes que a poeira tome conta da casa, antes que o jardim seque. Antes que eu vire memória num velho álbum de fotografias. [Ao final, no centro do palco fica apenas o álbum de fotografias aberto] [Música vai subindo, luz caindo em resistência] Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu sonhei ontem à noite Você ia querer me dizer tudo sobre o seu sonho também. E o que é que eu tenho a ver com isso? Ah, se eu soubesse lhe dizer o que eu vi ontem à noite Você ia querer ver, mas não ia acreditar. E o que é que eu tenho a ver com isso? Filósofos suicidas / Agricultores famintos Desaparecendo Embaixo dos arquivos Ah, se eu soubesse lhe dizer qual é a sua tribo Também saberia qual é a minha Mas você também não sabe E o que é que eu tenho a ver com isso? Ah, se eu soubesse lhe dizer O que fazer pra todo mundo ficar junto
  43. 43. - 43 - Todo mundo já estava há muito tempo E o que é que eu tenho a ver com isso? Sou brasileiro errado Vivendo em separado Contando os vencidos De todos os lados. [BLACK OUT]

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