Meus primeiros sonetos

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Sonetos Shakespeare, Camões E Fernando Pessoa

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Meus primeiros sonetos

  1. 1. .uumnfmmln : x ¡mlllw Ylümxlhililtvnlut *x e 3 Ê ~l 5 a L¡ f¡ A xxxwxxxxxxx x. ..xx. /.xxxxxxx, xxx/ xxx. xx xxx , xxx num rlmrulnprrrrrnw / <x. x x/ Hxx hyHw/ n xmuxmx r* UmuHMrr/ urrurx-/ un xxxx xx , xx ~ *' j v! l' 'mf' ¡ lilixixx* ' htlíxÍxllí E: pz-rK/ !UM/ vr¡ xxxpxx/ xxxxxxxx xqmruxu x, .xx xxx x, xxxxxxx. x, xxx mux/ /x-xnxxxrx-xxxmxx/ xxxxxxxxxx. x/x _xxxxx. x x , xxxxxxxxx x~ xxxxx x _ l' WAVHWMJVIxMxvmlwh ~ xxxxxxxx x. x x x x vxx d 'A/ 'l / r ÀKHHNUIUIHHÍU/ vuWNV! HIM/ rnH-nw/ xwrnxxxxww xxx/ xxxxxx , l¡ A / a/Ur', ('›¡'7Hr'l¡'», :hu-Hum ¡WpvhlwH/ wlux , xxxxxx/ xxxxx , x , ,xx. x. ,xx ' : x-mxxxuxxxxxx/ rxxxxuxx-xxx/ xxxx x/ x , xx . hurHxÍx 1h x wxxxxxxxxxlxxxxxxxxx xx xwxxwxnx Hub! Snnelnx xeletionadus das ohms de: AVAUIUSÚAnnxthnlnlxulrhwwhnw» . xx xx xxxx x Hxwulw xxxxx . xx xxxxw _ _ dMqida prkh¡lddrvsvwvlxwuvuHvuhnnx Wmmm shakespeam Mex/ anxmç-wm-quxxxmxmxx¡m. xxx». x xxnxxwxxxxxxxxx 1h xx¡xx. xxxx. x›xx xxx . xxxxxxxx. de/ WxlõnudSoualchv rm m. xxxxx xxx. xxxxnxxwxxx xx. .x¡x x xxxxxxx xwx «un x ' LUÍS d? CÕHIÕÊS Ul7lwvlnhvavnnsníwdLquvWz-rrunvxhnxxhnhuh xxx . xxxxxxxxxx IHVA xx Fenmndo Pessoa dCdmrvliadv[ÊírvhnxInnlmhlhuLyMa! xxx xx. xxx . x x. xx› x xxxx xxxxxxxxxxxxx xxIx xxxxxx dLe! Orqàiufa(lv/ MHVUHKxwwmxú um_ . xvx xxxxxx . x uxux 'H›*1H4!x'x Iswvxvlnplzu wlxvdlwnlhuulnLHxHHHxMAAHIx xxxxxxxxxxxxxxxxx x x x. xxx 1x¡ _ v - 5mm("mlmhvnlvilhnluvHxumHxH xx xxxmxxxxxxxxxux "x X “ x v v. . 'l' ¡_~ '~ F x ' x A 4. xÍ ; ' l nm Laos¡ C3, ›~<«v. .m:
  2. 2. Sonetos selecionados das obras de: William Shakespeare Luís de Camões Fernando Pessoa Meus Primeiyos Sonetos Clásslcos Organizaçio Alexandre Carvalho SílvioJ. Estevan¡
  3. 3. mam Inlunxlunaixde : mn-ms: n¡ mxxah (Um Klum¡ Emlur¡ m: Hwa 9x ! midi Muxusrmmivm sanemrmvm/ nrusnxlxãminamreCawaihmãnvml fumam São Vamu muxux zmu 'Sunrmunirtxunmmdmohvasm Wniham Shaipwmm xuxmtaxm iunandn Penna' u Sumvszwizámz Sovxeluwlzvluüuanl Smkãvumwxiimm 15s¡ xsxs xx Camñrx iuhde ¡sm-xsn xxx mmxrmnanx ! sua-ms xv (amihmkierrv me v (xlmm sum¡ William Shakespeare (numa um : :moon smmnm u : m: uxmx¡ min. ) n21 z 1 Surmlnmiruvwxamvuãuem : as x Nasceu em 1564, na cidade de Stratford-upon-Avon, Inglaterra, e morreu em rõxõ, nessa mesma cidade. Foi Dixtálvedixmini z”"""'”°"”" poeta, ator, escritor e dramaturgo, um dos mais co- L( x n em xxx Ámxzwx" nhecidos do mundo. Começou sua carreira entre 1585 xÍÍÍiÃÂÍxYÊÍÃÃÍÍÊ; e 1592, como ator. Suas peças foram traduzidas para os *"v*<'**~; ;j¡'; ¡f~“"'°"'” principais idiomas. Dentre todos os dramaturgos, é o mais encenado. x~ puxou. mw ewxutuuma HuA/ vuwxa fualxlll-H nvx Sinhuimwssxh m xmssvs-; sv ex u xxsau mo www psuiukmnx u. . adxwxliüvlxxlmmnv n xxsnxas xz xmxoex 2
  4. 4. Soneto' 15 Quando penso que tudo o quanto cresce só prende a perfeição por um momento, que neste palco e' sombra u que aparece velado pelo olhar do fins-lamento. Que os homens, como as plantas que gerrninam, do céu tem u que os freie e o que os ajude; crescem poderosos e, depuis, declinam, lembrando apenas sua plenitude. Então a ideia dessa instável sina mais rica ainda te faz m meu olhar; vendo o tempo, em debate com a ruína, teu jovem dia em noite transmutar. Por teu amor com o tempo, então, guerreira, e o que ele toma, a ti eu presenteia. soam, segundo o dicionario Hnuiu, e pequena compnliçio poética composta d: x4 versus, com número varílvel de sílabas, senda o xxx-a frequente o deelsillabo, e cujo xumxxo verso (dito "fecho d; ouro") con- centra em x¡ n ideia principal do poem¡ ou deve encerra-lo . u maneira xx cncamxu uu surpreender o um. Soneto 23 Como no palco o ator que é imperfeito faz mal o seu papel só por temor, ou quem, por ter repleto de ódio o peito, ve o coração quebrarse num tremor Em mim, por timidez, Fica emitido o rito mais solene da paixão; e o meu amor eu vejo enfraquecido, vergado pela própria dimensão. Seja meu livro então minha eloquencia, arauto mudo do que diz meu peito, que implora amor e busca recompensa mais que a lingua que mais o tenha feito. Saiba ler o que escreve o amor calado: ouvir com os olhos é do amor o fado.
  5. 5. ~p Soneto 59 Se nada é novo, e o que hoje existe sempre foi, por fell-u n nom mente p e, se esforçando por criar. mas» parindn o mesmo filho novnmente! Que do passado houvesse uma mensagem, já com mais de quinhentas trnnslnçóes, mostrando em livro antigo a sua imagem quando a escrita mal tinha convenções! Para eu ver o que então diria o mundo , da maravilha dessa sua forma; se nós ou eles vamos mais ao fundo, ou se a revolução nada reforma. Estou certo que os sábios do passado a alvo pior tenham louvado. Soneto 65 Se bronze, pedra, terra, mar sem-Sm estão sob o jugo da mortalidade, como há de o belo enfrentar fúria assim se, corno a flor, é só fragilidade? Como há de o mel du estio respirar frente o cerco dos dias, que e' implacável, se nem rochas o podem enfrentar, nem port: de aço ao Tempo é impermeável? Diga-me onde, horrível reflexão. pode o belo do Tempo se ocultar? Seu passo é retardado por que mão? Quem pode a mina do belo evitar? S6 se eu este milagre aqui fizer, e a tinta ao meu amor um brilho der.
  6. 6. Soneto 71 Quando eu morrer, não chores mais por mim do que hás de ouvir triste sino a dobrar dizendo ao mundo que eu enfim do mundo vil pra com os vermes morar. E nem relembres, se estes versos leres, a mão que os escreveu, pois te amo tanto que prefiro ver de mim te esqueceres do que o lembrar-me te levar ao pranto. Se leres estas linhas, eu proclama, quando eu, talvez, ao pó tenha voltado, nem rentes relembrar como me chamo: que fique o amor, como avida, acabado. Para que o sábio, olhando a tua dor, do amor não ria, depois que eu me for. Soneto 91 Alguns cantmn seu berço, alguns talento, alguns riqueza, alguns seu corpo são, alguns as vestes, mesmo de um momento, alguns o seu falcão, cavalo ou cão. Toda emoção traz seu próprio prazer, que uma grande alegria neste tem; mas não sei desse meu gáudío fazer, pois eu supero a todos com um só bem. Mais que berço pra mim é o teu amor, mais rico que a riqueza, que tecido, maior do que animal é o teu valor; tendo a ti sou por tudo envaidecido: o infortúnio seria apenas este: tirar de mim o bem que tu me deste.
  7. 7. u* Soneto 10? Medos, nem alma capaz de prever os sonhos de porvir do mundo inteiro, podem o meu amor circunscrever, nem dar-lhe fado triste por certeiro. A Lua seu eclipse superou, os aguurentos de si podem rir, a incerteza agora se firmou, a paz proclama olivas no porvir. (Ímn o orvalho dos tempos refrescado, u mcu 21mm' n própria morte prende, u : :m mcus vcr. ›. s ivo consagrado, cnquanrn as tribos mudas ela ofende. Aqui encontrarás tcu monumento, c o bronze dos tiranos vai com o vento. Soneto 130 Não tem olhos solares, meu amor; mais rubro que seus lábios e' o coral; sc ncvc c' branca, c' cscura a sua cor; e a cabeleira ao arame e' igual. Vennelha e branca e' a rosa adamascada, mas (al rosa sua face não iguala; e há fragrância bem mais delicada do que a do ar que minha amante exala. Muito gosto de ouvi-la, mesmo quando na música há melhor diapasão; nunca vi uma deusa deslizando, mas minha amada caminha pelo chão. Mas juro que cssc amor mc é mais caro que qualquer outra 'a qual eu a compare. / f"" x
  8. 8. Soneto 148 Ai, ai, que olhos puseram-me o amor no rosto, que não se ligam com a real visão! Se ligam, onde foi o juízo posto que ao certo lança falsa acusação? Luís de Camões Nasceu em 1524. em Lisboa, Portugal. Foi célebre po' Se o que meu falso olhar ama é bonito que meios tem o mundo pra o negar? E se o não for, pelo amor Fica dito cta de seu pais, considerado uma das maiores figuras que o olhar do mundo vence o de se amar. da literatura em língua portuguesa e um dos maiores poetas da Ocidente. Camões colaborou ct)m a reno- Como pode do Amor o olhar ser justo _ , , vaçao da lingua portuguesa e sc tornou um dos mais eentre vi íl'ae tanto l › er a? , . . , . s g l p e e N' V g fortes simbolos de identidade (le sua patria. E nem espanta u olhar errar dc susto se sem céu claro nem o sol enxerga. ' Esperto amor, com pranto a me cegar pra cobrir erros quando o amor olhar. 4.a s* x
  9. 9. Soneto 5 . hum c fogo que . .un win x4- m, t Icrulatt| ll'iltn, i'n: inxt Null. tlllll('()Il'L'IÍ¡| l1lL'IlUtlL'('t7|1lL'¡1iC. (- rim qm- tIt-xznina sem (lou. o um uuu querer mins que bem querer: c um andar solitário entre n gente, c nunca conta-nurse «le Eunlcntc: r um ctndnr que gxmhai cm w pcnler. lÍ([I1L'rt'I'L't: Ir prum pm' vmlhlilu; c . servir . r quem vL-nu; (t ttuculut_ t wi um¡ quem nus mam, lrzlltltltlt', u. tomn muaur pode stu «amu- nm mr nes humanos ami/ nda, at' tão mntniriu a¡ s¡ (- n : ut-mm Amor? Soneto 7 o fogo que na branda cera aanliu. vcntlt) <› rosto gentil que cu tnhu. . Tilh , t- avcntlt u . n- 11mm ¡uuu «ln 4lL'i'| U. por uhrIHtut' . . Iu/ !lill cm u u (Im, (Írmity . tu (lUH uutum N('I¡| t'1:l(l('| r'| . ou grande uupuuouu. . m. (lLWpCyn. c. remetendo com furor snhqo. vns ru¡ heim nu parte nmle «t» u. Diumx aquela tlzunu. que u- . urrvr . l . Ipnggir $L'|1.. ¡| '(l()| '(' c rurmcnmx nu vulz¡ . n- . .tu- n mumltt HUHU¡ tltvt. Xrntmmm s . Senhora. ox ltltnltjnlox . tc vz», c qucuuzl n (ngm aquela neve qu: : qnt-inn¡ rnrrigíxtx u ¡ncnsnnu ums.
  10. 10. Salmo 13 Alegres campos, verdes arvoredos, claras e frescas águas de cristal, que cm vós os 'debuxais ao natural, discurrendo da altura dos rochedos. Silvestres montes, ásperos penedos, compostos em concerto desigual, sabei que, sem licença de meu mal, já não podeis fazer meus olhos ledos. E, pois me já não vedes como vistes, não me alegram verduras deleitnsas, nem águas que correndo alegres vêm. Semcarci em vós lembranças tristes, regandrrvos com lágrimas saudosas, e nascerão saudades de meu bem. Édí. . í , ír. « íí; somem 15 Lembranças saudosas, se cuidais de me acabar a vida neste estado, não vivo com meu mal tão enganado, que não espere dele muito mais. De longo tempo já me costumaís a viver de algum bem desesperado; já tenho co'a Fortuna concertado de sofrer os tormentus que me daís. Atado ao remo tenho a paciência, para quantos desgastes der a vida, cuide em quanto quiser o pensamento. Que pois não posso ter mais resistência para tão dura queda, de subida apnrzirlhcrci tlcbaixo n sofrimento.
  11. 11. Soneto 23 Lindo e sutil trançado, que ñcaste em penhor do remédio que mereço, sc só contigo, vendo-te, endoideço, que fora dos cabelos que apertaste? Aquelas tranças douro, que ligaste, que os raios do Sol têm em pouco preço, não sei se para engano do que peço se para me atar, os desataste. Lindo trançado, em minhas mãos te vejo, c por satisfação (lc minhas (lotes como rluem : não tem outra_ hci (lc tomar-tc. l eu irão for contente meu desejo, (lirlhrei que, nesta regra dos amores, pelo todo também se toma a parte. Soneto 31 Pensamentos, que agora novamente cuidados vãos em mim ressuscitais, dizei-me: ainda não vos contentais de terdes, quem vos tem, rio descontente? Que fantasia é esta, que presente cada hora ante meus olhos me mostrais? Com sonhos e com sombras atentais quem nem por sonhos pode ser contente? Vejcrvos, pensamentos, alterados, c não qucreís, de csquivos, declararme que é isto que vos traz tão cnleados? Não me negueis, sc andais para negar-me; que, se contra mim estais alevantados, eu vos aiudarei mesmo a matar-mc. / « , o
  12. 12. Soneto 94 n Depois que quis Amor que eu só passasse quanto mal já por entregou-me à que mio tinhamnh mal que em mim mostrasse. Soneto 36 Presença bela, angelica figura. em quem, quanto o Céu tinha, nos tem dada; gesto alegre, de rosas semeado, entre as quais se está rindo a fon-nosura; olhos, onde tem feito tal mistura em cristal branco e preto marchetado, que vemos já no verde delicado não esperança, mas inveja escura; Ela, porque do Amor se avantajasse no tormento que o Ceu me pennitiu, o que para ninguem se oonsentiu, para mim só mandou que se inventasse. brandum, aviso e paço, qumnumnntando a naturalbelcza um desprezo, com que, mais desprezado, mais se aumenta; Eis-me aqui, vou com vário sam gritando, copioso exemplário para a gente que destes dois tiranos é sujeita, são as prisões de um coração que, preso, seu mal ao som dos ferros vai cantando, desvarios em versos concertando. 'triste quem seu descanso tanto estreita, como faz a sereia na tormenta. que dgste ; ao pequeno está Ogum-m!
  13. 13. Soneto 153 De tão divino acento c voz humana, de tão doces palavras peregrinos, bem sei quc minhas obras não são dignas. que o rude engenho meu me dcsengana. Mas de vossos escritos corre e mana licor que vence as águas cabalinas; e convosco do Tejo as Flores finas farão inveja à cópia mantuana. ›s nrlo zwurzis, li, pois. a vós de . si : Is filhas (le Mncmrâsinc formosa partes (ÍHÓHS vus lcm uu mundo curas, z¡ minha Musa e a vossa tão famosa, ambas posso chamar ao mundo raras: a vossa (Falta, a minha dlinvcjosa. Fernando Pessoa É considerado um dos maiores pautas (ln língua por tuguesa e da literatura universal, muitas vczcs mm- parado a Luís de (Íamücs. 1mm. u cido nzx Arm-u do Sul, para onde foi aos sete 1mm, I)L'I. ()1|. |[1[L'I| liL'| l z¡ ler e escrever na língua inglesa. Das quatro nlmis qm' publicou em vida, rrés são na língua inglesa. l ernanrlo Pessoa dedicou-se também a traduções dcssc idioma. Durante uma vida discreta, trabalhou em jornalismo, em publicidade, no comércio, ao mesmo tempo em que compunha a sua obra literária. Como poeta, des- dobrou-sc em diversas personagens conhecidas como hcterõnimos - Álvaro de Campos, Ricardo Reis e Al* berro Caeiro -, objeto da maior parte dos estudos sn- bre sua vida e sua obra. Nasceu e morreu em Lisboa, (' viveu apenas 47 anos.
  14. 14. Aoonxonelo. Meu coração é um almirante louco que abandonou a profissão do mar e que a vai relembrando pouco a pouco em casa a passear, a passear". No movimento (eu mesmo me desloco nesta cadeira, só de o imaginar) o mar abandonado Fica em foco nos músculos cansados de parar. Há saudades nas pernas e nos braços. Há saudades no cérebro por fora. Ha' grandes raivas feitas de cansaços. Mas - esta é boal - era do coração que eu falava. .. e onde diabo estou eu agora com almirante em vez de sensação? A minha vida é um barco abandonado A minha vida é um barco abandonado Infiel, no ermo porto, ao seu destino. Por que não ergue ferro e segue o atino De navegar, casado com o seu fado? Ah! falta quem o lance ao mar, e alado Tome seu vulto em velas; peregino Fresco: de afastamento, no divino Amplexo da manhã, puro e salgado. Morto corpo da ação sem vontade Que o viva, vulto estéril de viver, Boiando a tona inútil da saudade. Os limos esverdeiam tua quílha, O vento embala-te sem te mover, E e' para além do mar a ansiada Ilha. @W @o m, O
  15. 15. Em busca dahelezal Scam vãos, dolorido epicurista, Os versos teus, que a minha dor despreza; _Já tive a alma sem descrença presa Desse teu sonho, que perturba a vista. Da Perfeição segui em vã conquista, Mas v¡ depressa, já sem a alma acesa, Que a própria ideia em nós dessa beleza Um infinito de nós mesmos dista. Nem à nossa alma deñnir podemos A Perfeição cm cuja estrada a vida, Achando-a intérmina, a chorar perdemos. O mar tem fim, o céu talvez o tenha, Mas não a ânsia da Causa indefinida Que o ser indefinida faz tamanha. Deixei de ser aquele que esperava Deixei de scr aquele que esperava, Isto é, deixei de scr quem nunca fui. .. Entre onda e onda a onda não sc cava, E tudo, em seu conjunto, dura e flui. A seta treme, pois que, na ampla aljava, O presente ao futuro cria e inclui. Se os mares erguem sua fúria brava É que a futura paz seu rastro obstrui, Tudo depende do que não existe. Por isso meu scr mudo se converte Na própria semelhança, austero e triste. Nada me explita. Nada me pertence. E sobre tudo a lua alheia verte A luz que tudo dissipa e nada vence.
  16. 16. Ela ia, tranquila pastorinha Ela ia, tranquila pastorínha, Pela estrada da minha imperfeição. Segui-a, como um gesto de perdão, O seu rebanho, a saudade minha. .. "Em longas terras hás de ser rainha”, Um dia lhe disseram, mas em vão_ Seu vulto perde~se na escuridão. .. Só sua sombra ante meus pés caminha. .. Deus te delírios em vez desta hora, E em terras longe do que eu hoje sinto Serás, rainha não, mas só pastora. .. Só sempre a mesma pastorinha a ir, E eu serei teu regresso, esse indistinto Abismo entre o meu sonho e o meu porvin. . Esqueça-me das horas transviadas Esqueço-me das horas transviadas O Outono mora mágoas nos outeiros E põe um roxo vago nos ribeiros. .. Hóstía de assombra a alma, e toda estradas. .. Aconteceu-me esta paisagem, fadas De sepulcros a orgíaco. .. Trigueiros Os céus da tua face, e os derradeiros Tons do poente segredam nas arcadas. .. No claustro sequestrando a lucidez Um espasmo apagado em ódio à ânsia Põe dias de ilhas vistas do convés No meu cansaço perdido entre os gelos E a cor do outono e um funeral de apelos Pela estrada da minha dissonância. ..
  17. 17. Há um país imenso mais real Há um pais imenso mais real Do que avida que o mundo mostra Ter Mais do que a Natureza natural Àverdade tremendo de viver. Sob um céu uno e plácido e normal Onde nada se mostra haver ou ser Onde nem vento geme, nem fatal A ideias de uma nuvem se faz crer. jaz - uma terra não - não há um solo Mas estranha, gelando em desconsolo À alma que vê esse pais sem véu. Hirtamente silente nos espaços Uma floresta de escamados braços lnutilmente erguidas para o céu. Leva-me longe, meu suspiro fundo Leva-me longe, meu suspiro fundo, Além do que deseja e que começa, Lá muito longe, onde o viver se esqueça Das formas metafísicas do mundo. Aí que o meu sentir vago e profundo O seu lugar exterior conheça, Aí durma em ñm, ai enfim faleça O cintilar do espírito fecundo. Aí”. mas de que serve imaginar Regiões onde o sonho e verdadeiro Ou terras para o ser atormentar? É elevar demais a aspiração, E, falhado esse sonho derradeiro, Encontrar mais vazio o coração.
  18. 18. Bala cai chuva. 0 ar pao é escuro. A hora Rala cai chuva. O ar não é escuro. Ahora Inclina-se na haste; e depois volta. Que bem a fantasia se mc solta! Com que vestígios me descobre agora! Tédio dos inrersrícios, onde mora A fazer de lagarto. - O muro escolta A minha eterna angústia de revolta E esse muro sou eu e o que em mim chora. Não digas mais, pois te ignore¡ cativo. .. Teus olhos lembram o que querem ser, Murmúrio de águas sobre a praia, e o esquivo. Langor do poente que me faz esquecer. Que real que és! Mas eu, que vejo e vivo, Perco-te, e o som do mar faz-te perder. rx §

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