Contos de artimanhas e travessuras

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Contos de artimanhas e travessuras

  1. 1. 'r/ NHAH SSURA “à “l _k A 7.35' MAN wma" m. i w m Num_ Eri. m M Íthlullill rmrii ui, . Nuno wimmm m w mim l lIi'IM. wm- m ¡NMME
  2. 2. . CONTOS DE ARTIMANHAS l E TRAVESSURAS
  3. 3. COORDENAÇÃO CONTOS DE ARTIIVIANHAS E TRAVESSURAS Edições Huracán Editar: Carmen Rivera lzcoa Prajela gráfico: Rafael Rivera Rosa Capa: Rafael Rivera Rasa lluslraçãa de capa: Rosario Núñez Tradução: Muszafa Yazbek Preparação dos originais: José Roberto Miney © 1987 Centro Pedagógico y Cultural de Portales, Bol/ - via; Editora Ática, Brasil; Editorial Norma, Colômbia; Editorial Gente Nueva, Cuba; Editorial Andrés Bello. Chile; Ministerio de Educación y Cultura, Equadur; Edi- torial Cidcli, México; Editorial Nueva Nicaragua, Nica- rágua; Ediciones Peisa, Peru; Ediciones Huracán, Porra Rico; Editora Taller, República Dominicana; Ediciones Ekaré-Banco del Libro, Venezuela. ISBN 85 CB 02864 4 1988 Todo¡ ol direito¡ reunido¡ pel¡ Editar¡ Miu SA. ll. Buin de lgulpz. 110 - Tel. : PABX 278-9321 C. Paul] E656 - End. Telqrmw "Bonllivm" - S. ?lula ; Co-Mania Latino-americana
  4. 4. .k. APRESENTAÇÃO Quem é que nunca ouviu dizer, alguma vez, que se uma criança não é travessa e arteira é porque ela está doente? Esse comentário tem muito de verdade: todas as crianças do mundo, quando estão em seu pleno e saudá- vel desenvolvimento, são travessas e arteiras. Essa é a maneira que elas tem de dar mostras de sua vitalidade e de queimar os “excedentes" do seu poten- cial infinito de energia. É também a forma pela qual to- do seu ser, repleto de vida e de força natural, se coloca em contato com tudo o que existe ao redor. O mundo inteiro se abre e se oferece, às vezes de forma simples- mente imaginária, à sua ânsia de conhecer e aos jogos inesgotáveis de sua fantasia. Não é de se estranhar, portanto, que muitos dos con- tos tradicionais - os que surgiram do povo e foram trans- miúdos oralmente de geração para geração - e, sobretudo, aqueles dirigidos às crianças, tenham como tema. único e privilegiado, a realização de alguma tra- vessura.
  5. 5. São as maldades inocentes, carregadas de engenho e de imaginação, com que uma ou várias crianças - ou talvez uma dona Raposa ou um compadre Porquinho- da-india, o que para todos os efeitos é a mesma coisa - dio rede¡ solta à sua fantasia para resolver os probw mas com que a vida nos defronta. Outras vezes. como no caso de dona Durvalina. tratmse de urtimnnhaa para livrar suas familias ou seus amigos em dificuldades. Em muitas ocasiões. o protagonista tomba com graça do seu descuidado próximo. ou se vinga. com humor e risos. das imposições inooerentes dos adultos. AacriancasdanossnAmér-iuumbemmatamdnatza- vessuras, e em inúmeras ocasiões sua¡ próprias malda- des propiciaram a sua representação como protagonistas de contos populares e divertidas aventuras. No conjunto das narrativas que fazem pane desta se- leção, nem sempre quem realiza a traveuura é uma crian- ça. Às vens podetratame de uma raposa, um mosquito, ou até uma mae de nove filhos. o que nlo impede que as hiatóriaa sejam engraçadas e divertidas. Este volume é o sétimo de um esforço editorial que j¡ reúne doze paises. conheddo como Co-edição Latino- amerieuna. O objetivo da série é o de divulgar e promo- ver u cultura tradicional de nossos povos, iniciativa na qual conta com o apoio do Centro Regional para o Fn- mento do Livro ua América latina e no Caribe (Cerlalo) e da Unesco. DONA RAPOSA E Os PEIXES
  6. 6. 10 DONA RAPOSA E OS PEIXES Esto 4 uma narrativa da tradição popular venezuelano. Pertence ao conjunto de can/ or de seu Tigre e : eu Coelho, que : e encontram em diversa: versões nas dreus da Américo onde houve plantações e escravos africanos. Por isso, os' estudiosos dizem que esses cantos de animais são de origem africana. Esta versão do conto é de Rafael Rivera Drama: (1904), uma das figuras mais destacada: du literatura infantil venezuelana. Foi fundador e diretor dos revistas infantis Onze, Hgre y León e Tricolor. Durante muitos anos foi produtor e realizador de programas de rádio para criancas. "Dano raposa e os peixes" faz parte de : eu livro El mundo de tio Canejo. publicado pela primeiro vez em 1970 pela Ediciones Tricolor do Ministério da Educação e reeditado pela Ediciones Eknré- Banco del Libro, em I985. A iluslradora, Alicia Ullou (1949). estudou desenho gráfico na Faculdade de Belos-Artes do Universidade do Chile. Atualmente vive na Venezuela, onde trabalha como ilustradora de livro: para crianças. Il Um dia, bem cedinho, seu Raposo andava pelo bosque. Ao passar perto de um rio. viu uma quantidade enorme de peixes nadando. Entusiasmado, ele começou a pescar. Eram tantos os peixes. e seu Raposo estava tão esfomeado, que em pouquíssimo tempo pescou três lin- das tralras. Muito alegre, fo¡ para casa e disse à mulher. ao chegar: - Dona Raposinha, olhe só a sorte que tive hojel ~ Oh! Que trairas enormes! - exclamou dona Ra- posa, já com água na boca. - Pois é. Eu como uma, você outra e ainda vai so- brar uma. .. Por isso. eu pensei em convidar seu Tigre para almoçar; sempre é bom agrada-lo. .. ~ Você é quem manda, querido Raposo. Vou fritar com muito cuidado essas trairas. Vão ficar deliciosas! An- de, vá convidar seu Tigre! Seu Raposo esfregou as mãos satisfeito e saiu em bus- ca de seu Tigre.
  7. 7. 12 Dona Raposa se pôs a preparar os peixes. Quando ficaram bem fritos, o cheiro era tão apetitoso que ela murmurou: - Vou experimentar minha traira para ver se ela fi- cou boa de sal. Só um pedacinho de nada, pois ia ser bem chato se eu a oomesse inteira antes de seu Raposo chegar com o convidado! Ela começou a beliscar o peixe e achou-o tao saboro~ so que se esqueceu do que havia dito. Em poucos segun- dos o prato ficou limpo. - Estava deliciosa! Agora preciso experimentar a do Raposo; ele é muito delicado e, se sua tralra não estiver bem frita. com certeza vai ficar zangado! Comeu a cauda torrada, depois uma das barbatanas, a seguir a cabeça e, quando percebeu, toda a traira de seu Raposo havia desaparecido. - Meu Deus, comi inteirinlia! - ela exclamou. - Mas, agora, o estrago já esta feito. Então não faz mais diferenca se eu comer também a última! E, do mesmo jeito, comeu a última traíra. Por fim, chegou seu Raposo, acompanhado de seu Tigre, e perguntou a mulher: - Preparou as trairas? - Claro que sim! Ainda estão no fogo para que nao esfriem - ela mentiu. - Sirva logo. porque estamos com muito apetite. Não é verdade. seu Tigre? - Sem dúvida. seu Raposo. Eu, pela menos E com esse cheirinho de peixe frito que há por aqui. .. 'n
  8. 8. - Vou pôr a mesa - disse dona Raposa. - Sente- se a. li, seu Tigre. Aquele é o seu lugar. - Obrigado, dona Raposa. Seu Tigre sentou-se, c dona Raposa chamou o mari- do de lado. - Vá ate o quintal e afie bem as facas, pois as tral- ras eram muitos velhas e ficaram duras demais - ela falou. Seu Raposo correu até o quintal, e dali a pouco podia- se ouvir o barulho que faziam as facas contra a pedra de amolar. Dona Raposa se aproximou de seu Tigre e lhe disse: _- Voce esta ouvindo? É meu marido que está amo- lando uma faca. Ficou louco e meteu na cabeça que quer comer suas orelhas, seu Tigre; para isso é que ele trouxe você até aqui. Fuja logo, antes que ele volte, por favorl Seu Tigre se assustou e saiu da casa a todo vapor. Entao, Dona Raposa começou a gritar: - Seu Raposo, seu Raposo! Venha logo, que seu Ti- gre fugiu levando todas as lrairasl E seu Raposo, com uma faca em cada mão, come- çou a correr atrás de seu Tigre, gritando: - Seu Tigre, seu Tigriuhol Me dê pelo menos uma! E o Tigre, achando que seu Raposo se referia às suas orelhas, apertou o passo, morrendo de medo, e não pa- rou até estar bem fechado e seguro em sua casa. BOLÍVIA Nim DA PRA OUVIR!
  9. 9. l6 NÃO DÁ PRA OUVIR! Esta é uma adaptação para crianças de um conto popular sobre padres. As relações burlescos entre o . vacrLstão e o padre de aldeia deram origem a inúmeras versões de relatos populares. Em todos elos, o desculpa mil/ ua pelo: erros de cada um deu lugar o divertido: histórias. A adaptação foi realizado por Gaby Vallejo de Bolivar, professora e escritora boliviano, ganhadora do Prêmio Nacional de Romance Erich Guttentog, com Los vulnerabler e Hijo da Opa. Entre . ruas obras para crianças estão Juvenal Nina e Detrds de los sueños. O ilustrador Jesús Pérez foz parte do equipe de ilustração da Editorial Infantil Luciérnaga, com a qua! elaborou importante material para educação rural. Colabora. além disso, na revista paro criança: Chao/ cl, da Centro Parto/ es, 17 O padre Sebastião olhou para Pedro, que lhe sor- ria timidamente, O menino tinha os pes descalços. A mae de Pedro tinha muitas bocas para alimentar e nesse dia teve a ideia de levá-Io à igreja para que servis- se o padre como coroinha e ajudante. As relações entre o padre Sebastião c Pedro foram muito boas desde o inicio. O padre lhe comprou sapatos e até mesmo um caderno; mas acontece, como todo mun- do sabe, que até os padres são vitimas de tentações . . Foi num dia em que Pedro havia recebido de sua mae, como presente dc aniversário, uma sacola cheia de mi- lho assado c dois queijos. O menino, depois de oferecer uma parte ao padre, guardou o resto em seu quarto. Mas o gosto do queijo e do milho ficou na boca do padre Sc- bastião. Essas guloseimas lhe recordavam os tempos da infância, c o padre não podia resistir à vontade de conti- nuar a comê-las. Sem que o menino vissc, clc roubou um pedaço dc queijo e um pouco dc milho. De noltc, quando o menino abriu sua sacola, pcrcc- iicii que faltava a metade de um queijo e parte do milho.
  10. 10. u . i9 Deitowse na cama e ficou pensando quem teria sido. E por mais que pensasse c pensassc, não conseguia encon- trar outro culpado que não fosse o padre Sebastião. Mas. como era um bom menino, decidiu confessar se no dia seguinte dos maus pensamentos que havia ti- do. Depois de contar outros pecadinhos, todo lemcroso, disse ao padre: 7 Padre Sebastião, tive um mau pensamento. líu pcnscim pensei. 7 e ficou quieto. 7 Vamos! Que foi? - disse o padre. 7 Acontece que eu pensei que. .. pensei que o senhor roubou meu queijo e meu milho. O padre não respondeu, c como o menino rcpelisse o que havia dito, ficando vermelho de vergonha, o pa- dre disse “Não dá pra ouvir". e rapidamente dcurlhc um Pairnosso de penilência. Pedro ficou muito intrigado. E, em vez de sc livrar dos maus pensamentos com a confissão, passou a ter cer- teza de que o padre o havia roubado. Era como se al- guem lhe dissesse que o padre Sebasti o havia se fingido de surdo, e que por isso o linha perdoado lão rapi- damente. Esse assumo ñcou ¡narlclarldo na cabeca de Pedro du- rante lodo o dia; até que lhc ocorreu uma idéia: ele tani- bem podia roubar uns doces que havia vislo o padre guardar no bau de seu quarto de dormir! Tudo correu às mil maravilhas. O padre Sebastião foi rezar uma missa num povoado vizinho, ondc irão haviu padrov, mas havia saeristão, de forma que não pr cisun
  11. 11. de coroinha na missa. Sozinho, Pedro saberem¡ l von- tade alguns doces. Mas o padre Sebastião não pareceu dar por falta dos doces, e, assim, Pedro não perdeu a oportunidade de vol- tar a roubar no dia seguinte, aproveitando a demora do padre no banheiro. A mesmo coisa aconteceu no dia se- guinte; e também no outro dia e no outro. Ao chegar o sábado, o padre Sebutilo lhe disse que fosse até o eonfesiionñrio, porque no domingo tinha de comunsar. Frente a frente, separados unicamente pela yadezinlta do confessionário. Pedro ouviu o padre dizer: - Pedrinho, voce não viu quem tem entrado no meu quarto para roubar meus doces O menino nmo respondeu na a. Tremin inteiro. En- tão o padre voltou a repetir a mesma pergunta: - Não viu quem tem entrado no meu quarto para roubar meu: doces? Com um estalo de astúcia, lembrando a resposta que no outro sábado o padre lhe havia dado, o menino res- poudeu: - NM dá pra ouvir, padre! O padre lieou mudo e surpreso atrás da grade. De- pois sorriu e deepschou logo o garoto. Quando voltaram a se encontrar, havia um olhar rua- treiro nos olhos de ambos. E nunca. nunca mais volta- ram a se pergunta: sobre mas coins. porque nunca, nunca mais voltaram e se roubar. ' O RAPOSO E O PORQUINHODAÍNDIA
  12. 12. 22 0 RAPOSO E 0 PORQUINHO-DA-ÍNDIA um relata ; Ie/ Intro a ! mr/ faia wul um »mma ¡Irzruanus c athu x1* / mulu rlífunzlzzlz¡ em (llvunvm región-x do Peru Fur reto/ fuzil¡ por / lr/ mu . llnzünrl Bor/ u, que o incluiu rm U/ eçlír¡ qm», (mn n ! flu/ o da Cucntux y lPyentlui' : lvl Peru, fm ¡lu/ rllvurh¡ cm 194o. Um rula/ n mui/ u pular/ ll! ) rm pubhrudr) por Manuel Rob/ lex Alurrzín um . rm mm ÍYIIIIIÍJ/ ÍCUJ avenlurar na Am] _v a/ IJÍJJIAÍIIII, em 1974 A prmun/ e versão p' rlv ( mr Vlw Ilwrunl, escalar a / umuILs/ I¡ ! Hunt/ U wn . lrw/ HÍ/ Itl, um 1935. mu¡ é aii/ ur m» mnlm . l ali/ m : Ir luiz/ m para crianças z» uzlizllm' u rvrvlruu i/ lVW/ 'HH [IrÊ/ ¡IÍNA lílvrúnoc. /iA l/ Hslnlçiii-i Im di' Rmurlr) _VI/ Vim_ dt' Pa/ ruw, ¡unlom rumo/ ill¡ vn¡ mm. m. , lm/ ullhu rm : lui/ ração de [Iv/ m ; mm rrranrnx : kadu 1959 z' Iene/ mz¡ mn Irêv IUHJHIIVI/ ¡ÍUIÃUX u / Jluuu (lu uma m¡ Bienal di' nmmzuvu. [hm/ run num up Inn/ u um» [Jum (Human 23 Seu hmicho, muito surpreso. num dia cm que vol- tava do mercado, cmomruu gi andas cslragos na sua plan- lação de alfafa. As planlinlias estavam mcio descnlcr- radas. puxadas e mordiscadus. - Quc coisa mais csquisiln - dlsw para Sl mesmo, pcnsaiivo. A Quem tera' feito Isso? Precisava fazer alguma coisa antes que o inuusu C0- mcssc c dcsiruissc Ieda a sua planlaçào, vcrdinlia, crdi- nha. Enrão, teve uma idéia: 7 . lá sei, já sc¡ 7 sorriu c, cnm alguns paus, galhos c espinhos, LOIHEÇOU u prcparar uma Zlfnlddliilíl. Passaram quatro dias e u Inlmm não nlmu. cu Emi- clio dissc: ~ Talvez ¡ninha armadilha o lenha . nxuuadu 4 e preparou uma armadilha mcnor. Depois foi dormir. . lá cslava sonhando_ vcndorsc dançar na festa da ci- dudu, quando foi anurdzido por alguns cluados. Lcvamou- »c HlpldO. Foi correndo até a plantação L' uu que havia mn ¡worquinho-da-indizi preso na zirmadilha. E já csiaia
  13. 13. 35 Wav' te, v. a i , 25 quase escapando! Mas seu Emiclio deu um pulo e apav nhou o bichinho. 7 Então é você quem estava estragando minha plan- tação, não? 7 foi dizendo, enquanto o amarrava numa árvore, já pensando em come-lo. Seu Emicho estava com água na boca só de imagi› nar! E o porquinho-daíndia nem podia se mexer. 7 Quando o sol aparecer eu venho cozinhar você 7 avisou seu Emicho, e voltou a dormir, pois ainda era de noite. O porquinho-da-lndia estava bastante preocupado. Que podia fazer para poder escapar dessa! Foi quando um raposa passou por ali. - Compadre! Que aconteceu? 7 perguntou o raposo. - Nada, compadre - sorriu o porquinho-da-lndia. - O seu Emieho tem três (ilhas lindas e quer me casar com a mais velha, Florinda. 7 E por isso voce está amarrado? ! 7 espantou~se o raposa. - Exatamente 7 prosseguiu o porquinho-da-lndia. 7 O seu Emicho acha que se eu me casar com a Florim da vou aprender a comer galinhas. Eles só comem aves, compadre! Além disso, eu não quero me casar. - Eu gosto de comer galinhas! 7 disse o raposo, en- tusiasmado. - Hummmmmm 7 disse o porquinho-dadndia. 7 Você não gostaria de mudar minha sorte? Não quer se casar com a bela Florinda e comer galinha rodo dia?
  14. 14. O raposo. muito contente, desamarrou o bichinho e ficou em seu lugar. 0 porquinho-da-india amarrou seu compadre o mais forte que conseguiu e despediu-se. bem serio. Quando seu Emicho saiu de casa para cozinha¡ o porquinhmda-india, quase caiu para trás de susto, ao en- contrar o raposo bem amarrado e sorridente. - Você vai me pagar! - ele disse irritado. - Então ontem à noite você era um porquinho-da-india e agora virou um raposo? - e, agarrando um pau, começou a bater nele. . - Eu me caso com Florinda! Eu me caso! - gritava o raposa. levando pauladas. E. sem parar de chorar, con- tou como havia sido enganado pelo porquínho-da-india. A barriga do seu Emicho chacoalhava de tanto que ele ria. Mas ele ficou com tanta pena que soltou o raposa. 0 tempo passou. O raposo andou procurando o porquinho-da-india, até que um dia o encontrou dormin- do, bem à vontade. - Agora você me paga - murmurou o raposo. O porquinho-da-indía, ao ver-se descoberto. ficou em pé sobre duas patas, debaixo de uma grande pedra. e disse: - Compadre, o mundo está desmoronando, é preci› so segura-lo. Eu já estou cansado! Não está vendo que estou cansado? O raposo acreditou que era verdade que o mundo es- tava desmoronando. Ele se assustou. fechou os olhos e, sem mais pensar, foi segurar aquela pedra, enorme.
  15. 15. 28 - Vou pegar uma estaca, compadre, nao va soltar a pedra! - disse o porquinho-da-! ndia suspirando - Agorinha mesmo eu volto! 0 raposo ñoou esperando por mais de uma hora. Sua- va. E não : oitava a enorme pedra. porque tinha medo de morrer esmagado pelo morro e pelo mundo todo. Pas- saram mais de três horas. E não aconteceu nada. Então ele percebeu a esperteza do porquinho-da-fndia e come- çou a chorar e a bater as patas de tanta raiva. Mas não demorou muito para voltar a encontrú-lo. "Agora sim e que ele não me escapa", pensou, olhan- do para todos os lados. O porquinho-da-! ndia estava descansando, meio ador- mecido pelo brilhante sol do meio-dia. 0 raposa, mos- trando seus dentes brancos, começou a se aproximar, muito seguro e sem nenhuma pressa. E o porquinho-da- india. ao ve-lo assim tão zangado, caminhando em sua direção, começou a cavar e a cavar, sem deixar de gri- tar, muito perturbado: - Rápido, compadre. rápido, que o fim do mundo está chegando! - 0 tim do mundo? - disse o raposo. parando. - Vai chover fogo, compndrezinho! - e continuou cavando, cada vez mais agitado. - Vai chover fogo? - o raposo já começava a ñcar com medo. - Claro, vai chover brasa! E, desculpe, mas não há tempo para continuar conversando! - e afastou o rapov so com sua patinha. 29 E o raposa, mais assustado do que nunca, se pôs a : var junto com o porquinho-da-india, enquanto ! he Zlll - Eu ajudo você, compadre, eu ajudo. Quando o buraco já estava bem fundo e ao ver que o porquinho-da-india ia saltar dentro, o raposa se enfiou ali, pedindo: - Primeiro eu! Não quero morrer queimado! Cubra- me com terra, amiguinho, cubra rápido. por favor! O raposa estava cum tanto medo que por sua pró~ pria conta imaginou que já chegavam os primeiros raios e trovões e que faltava pouco para que começasse a cho« ver fogo do céu. Na verdade, ele era um raposa muito nervoso e se assustava com facilidade. - Está bem - disse~lhe o porquinho-dn-india, cobrindo›o oom terra e pedras. - Eu vou enterrar você para que se salve, mas prometa que nunca mais vai es- quecer a minha amizade e o meu sacrifício! - Eu prometo. eu prometo! - agradecia o raposa, apenas com o focinho de fora. E foi assim, então. que o esperto porquinhoda-india se livrou do raposa para sempre.
  16. 16. CHlQU| M
  17. 17. 32 CHIQUIM Este é um antigo conto mexicano que narra as aventuras de um moleque da região de Verucmz, Estado du casta oriental do México. Pascual: : Corona, que dedicou parte de suu vida a recolher aquelas historias tradicionais contadas por avos, mães e umas, passou para a linguagem escrita esta e muitas outras histórias, numa antologia intitulada Cuentos mexicanas. publicada em 1945. No prólago, Puscuala Corona escreve sobre esses contos e diz: "A t dição oral era a unica encarregada de transmiti-lms e, como o costume de contar foi desaparecendo. os cantos foram se perdendo com ele". O ilustrador, Jose Paloma Fuentes, nasceu em 22 de novembro de 1943 em Santiago do Chile e vive no México desde l973. O humor caracteristica de suas ilustrações apareceu nus páginas de importantes jornais e revistas como: El Día, Una Mds Uno, Lu Juntada, RevLrta del Consumidor, Comunidad Informática, Nutrlción etc. ilustrou os textos de Educación para adultas, da Secretaria da Educacão Pública, assim como Mattar y el pastel de jresas, livro para crianças que foi publicado em conjunto pela Edi/ in e u Secretaria du Educação Publica. GLOSSÁRIO Jamcho: pessoa natural do porto mexicano de Veracruz e, por extensão, qualquer habitante desse lugar. 33 O que vou contar, é bom que se diga, tem mui- to de engraçado, pois trata das aventuras do negro Francisco. Acontece que o Chiquim, como ele mesmo se chama- va, era um jarocho que deixou Veracruz porque já esta- va cansado de não fazer nada e achou que o melhor mesmo era sair para tentar a sorte. Depois de correr muitos caminhos. chegou a uma ci- dade. Mas, por mais que pedisse trabalho, Chiquim só conseguia ser garoto de recados e, por isso, havia dias em que tinha que ir dormir sem ter comido nada. Então ele deixou essa cidade e estava a caminho de outra, quando passou por um rancho e pensou em parar para pedir trabalho. 0 dono do rancho saiu para falar com ele, pois pre- cisava mesmo de um garoto que servisse tanto de pastor como de ajudante de uma velha empregada chamada Ma- rina, que era quem fazia os queijos e a manteiga. Assim, interessou-se pelo negrinho e começou por lhe perguntar o que era que ele sabia fazer. Chiquim respondeu:
  18. 18. 34 ~ Pois meu sinhô, pra dizê a verdade eu não seifuzê xrada, mas tenho vontade demais. O homem achou divertida essa franquem, mas como em muito desconfiado e seus queijos lhe imponavam mais do que qualquer outra coisa no mundo, quis saber que risco eles podiam correr com Chiquim. Por isso, falou: A Diga uma coisa, garoto, você gosta de queijo? 4 E o que é isso? - perguntou Chiquim. - Queijo! - disse o dono. - Não sei o que é isso. E isso lhe valeu o trabalho, pois o homem, pensando que o garoto lhe convinha, porque não conhecia queijo, empregou-o. Chiquim. que era muito animado, ganhou a confiança da velha Marina, que fazia os queijos. Além de chamá- la de “dona Maria", ele a ajudava em tudo o que podia. A mulher tinha tanto carinho por ele que fingia não perceber quando o negrinho bebia o leite ou comia a man- teiga. Mas o guloso do Chiquim não se contentou com isso e um dia sentiu vontade de comer um queijo que es» luva na tábua mais alta de uma queijeira. “E o que é uma queijeiraíl", você vai perguntar. Pois u qucijeira é um quarto onde são feitos os queijos. Nas paredes. ficam penduradas por cordas algumas tábuas com buracos por onde vai caindo o soro dos queijos que m¡ ão ali para coalhar. Esses suportes são uma espécie de prateleira, que também serve para se guardarem outras VUISQS.
  19. 19. 36 E, como eu ia dizendo, certo queijo que estava bem no alto despertou a vontade do Chiquim que, aprovei- tando-se da simpatia que a mulher tinha por ele, disse: - Dona Maria, deixa eu subi"? Só quero experimenrá! A mulher que não tinha coragem de negar~lhe nada, deixou que ele subisse, enquanto ela espiava da porta para ver se o dono vinha. E o dono apareceu. Marina procurou Chiquim com os olhos. e no ver que um pé estava aparecendo, pensou em, disfarçadamente, avisar o menino, indicando-lhe uma maneira de se esconder. Então. ela começou a cantar: Chiquinho, Que esla' na queijeim, Esconda o pezinho Que esta' bem na beira. Mas Chiquim nem dava bola, e a mulher pensou em falar imitando o jeito dele. Então, ela cantou: Chiquim, Que ta' na que/ era, Exconda o pezinho Que tú bem na bem. Chiquim compreendeu o que acontecia, mas, ao en- uollier o pé. quebrou uma das cordas que sustentavam ; i lábua. Então, caiu tudo: negrinho, tábua e queijos. 37 0 dono, ao vê-lo, lhe perguntou o que estava fazen- do lá no alto. - É que eu tava no céu, porque os anjinho me pedi- ra pra leva' a dona Maria emprestada, pra elafazê quejo pros anjinho. .. - Ah, é? Quem vai virar anjinho agora mesmo e vo› cê, menino mentiroso! Sua gulodice arrebentou as cor- das e fez perder os queijos que já estavam coalhados. Caia fora daqui! Vá arrumar problemas em outro lugar! E Chiquim precisou partir e deixar sua querida "do- na Maria". Depois de andar muito, esperando encontrar melhor sorte em outro lugar, o sol se pôs justamente quando ele estava na entrada de uma cidade. E então ele bateu à por- ta da pr eira casa que encontrou, e uma velhinha mui- to simpática veio abrir e perguntar o que desejava. O negrinho pediu trabalho, e a velhinha lhe disse que não tinha nada que ele pudesse fazer, porque ela mesma e sua irmã davam conta de todo o serviço. Então. Chi- quim disse: - Mesmo que não pague, moça. porque não é isso o que eu quero. Só quero um canto pra dormi. A velhinha ñcou com pena, e como ja era tarde, re- solveu deixa-lo passar a noite. Chiquim mostrou-se sim- pático e ficou essa noite e a seguinte e assim foi ficando, pois as velhinhas estavam cada uma mais encantada do que a outra com ele; especialmente porque Chiquim fes- tejava tamo a comida que lhe faziam que elas já não sa-
  20. 20. 39 biam mais o que preparar, pois dava gosto vê-lo comer. O negrinho sentiu-se em casa e cada dia ele ficava mais comilño. Mas. veja só. um dia uma das velhas ficou doente, e a outra chamou Chiquim e lhe pediu para ir até a fan macia comprar uma seringa. - Mas o que é isso de xíringa? - perguntou ele. - Vá buscar - disse a velhinha. - 0 resto não lhe interessa! ' Chiquim, para não se esquecer da tarefa, foi o cami› nho inteiro repetindo: - Xiringa. xirínga. .. E estava nisso quando, ao virar uma esquina, encontrou-se com outro negrinho. conhecido seu. Tanto se entreteve em contar suas aventuras, que acabou se es- quecendo da encomenda. Então, muito aborrecido, dis- se ao amigo: - Que sorte mais negra a minha! Mardila a hora em que encontrei você! Por sua curpa vou vom¡ a passa' fo~ me! Vão me bom pra corri; vou : ê um desgraçado; você me fez esquecê; é pra isso que serve os amigo. .. E assim ele continuou se queixando e gritando. até que o amigo lhe disse: - E o que é que eu tenho a vê com isso? Que bela coisa em que fui me metê! Eu não tenho carpa de nadal E você. se gosta tanto de aventura, por que vai ficd cha- teah se elas mandd você embora? - Mas já tou cansado de corrê mundo! Agora tou sempre de barriga cheia e coração alegre. Gosto das véiu
  21. 21. o como Ie fone meiu zóio. Vou perde o tmbaio; voujial ! em mm! por l| ll carpa, amigo ruim, can suja. .. Chiquim dim tudo im ao amigo e o outro logo lhe respondeu: - Õla, j¡ ! ou cheio! Pára com iuo, senlo vou te . rirlngll - mol - disse Chiquim. - Xlrlngal Xlrínznl Foi ino o que eln me pedirol Voce é meu amigo. meu ¡mi- O outro negríiiho. ao escutar tudo tuo, disse: - Voc! n¡ doido, Chiquim. Voce/ int ban doido. .. Mu Chiquim nem escutava mais. Correu até a fer- mácia, comprou n urina e a levou par: a velhinha. Bdevenlndaemrporllaeéquenlobonramele PÍICOIIGI. E acabou-se a história. .. PORTO RICO SINTO. MAS NÃO VEJO
  22. 22. 42 SINTO, MAS NÃO VEJO Este con/ a pertence à tradição oral porta-riquenha e foi recolhido na região de Guayama por Ana Zabaieta e Ana Maria Santana. A autora desta versão, Ana Lydia Vega, trabalha como professora de francês na Universidade de Parto Rico. É uma das mais destacadas escritora. : parIa-riquenhas, com três livros publicadas, e ja recebeu várias prêmios literários. O ilustrador. Ivan Martin (1963), é formada em artes plasticas pela Universidade de Porto Rico. Participou de varias exposições coletivas. 43 No bairro de Puente lobos, da cidade de Guaya- ma, como em todos os bairros do mundo, havia um ho- mem que gostava muito de beber. Tanto e tão freqüen- temente enchia a cara de mm, que o pouco dinheiro que ganhava. abrindo sulcos para o plantio da cana-de- açúcar, ele gastava inteirinho no bar. Como mal lhe so- brava para comer, vivia da bondade dos vizinhos, num casebre abandonada no fim de um beco. Os meninos do bairro não gostavam muito do Galo. que era como as pessoas conheciam o bêbado. Porque, além de bebedor, ele era bem ranzinza. E quando os mc- ninos o tiravam do seu pesado sono, quando iam derru- bar goiaba: da árvore que ficava bem atrás do casebre, o homem se levantava furioso e, da janela, começava a insulta-los e a atirar cocos secos contra eles. A guerra entre as crianças e o Galo ia ficando cada vez pior. Às vezes, até o seguiam pela rua, imitando as quedas que o rum o fazia dar. O riso dos vizinhos avisa- va o Galo de que as crianças estavam atrás. Então, ele dava meia-volta e os perseguia, gritando a todo pulmão:
  23. 23. 45 - Esperem até que eu pegue um, vagabundos! Mas as crianças sempre escapavam. Míllito e Felín eram os dois garotos mais travessas do bairro. Não era por acaso que a mãe deles dizia mui- tas vezes, olhando-os fixamente nos olhos: - Se eu ficar sabendo que vocês andam perturban» do esse pobre homem, vou lhes dar uma surra daquelas. .. Mas a maldade que os dois irmãozinhos haviam ¡ma- ginado era tão, mas tão divertida, que não deram bola para as advertências da mãe. Numa noite em que o Galo estava fazendo das suas no bar, Millito e Felin sc esconderam atrás de um arbus› to no bcco escuro. Passaram alguns momentos esperan- do que o homem decidisse voltar para casa. E já estavam quase a ponto de adormecer quando o viram chegar, fa- lando sozinho e balançando mais do que limoeiro em lem- poral. Dava dois ou três passos e se detinha, fazendo o impossivel para não cair da corda bamba invisivel sobre a qual parecia caminhar. Numa dessas paradas, Millito se aproximou por trás. c com muito cuidado lhe pendurou uma folha seca de bananeira, amarrada por um pedaço de corda. no cinto das calças. Com o andar do bêbado, as folhas se arras~ tavam e faziam barulho. O homem olhava ao seu redor, não via ninguém e continuava andando enquanto mur- murava: 7 Sinto, mas não vejo . Atacados de risos, Millno c Fclin o observavam de seu esconderijo. E o bêbado voltava a caminhar, e as
  24. 24. 46 folhas secas a fazer ntldo sobre o chão. E, virando-se, o Galo voltava a murmurar, com a lingua enroscada pe- lo rum: - Sinto, mas não vejo. .. Millito e Felín tapavam a boca para não soltar as gar- galhadas que lhes faziam cócegas por dentro. E outra vez o Galo caminhava. E outra vez a folha seca o obrigava a parar e a repetir. perturbado: - Sinto, mas não vejo. .. As coisas estavam nesse pé, quando. com uma voz grave e rouca como a de urna alma penada, Felln disse: r Galo. arrependa-se. porque eu vim te buscar! Dessa vez o Galo não se virou para ver quem era. Achando que se tratava da própria morte, ele saiu cor- rendo por aquele beco escuro como lagartixa espantada. Estava tao bêbado que caia oom rabo e tudo e com rabo c tudo se levantava para continuar tratando de correr em direção ao casebre, ~ Sinto, mas não vejo! - irnitou Millito, explodin- do em gargalhadas. 7 Sinto, mas não vejo! - repetiu Pelin. De repente, ressoou no beco escuro uma voz que dei- ou todos duros e mudos de terror: r Mas eu, sim, estou vendo vooêsl E o que vão sen- tir agora mesmo é isto que está aqui! lã não se sabe com certeza se foi um espirito brinca- Illzln ou a mãe dos meninos que, com um chicote na mão, uniu-lhes em cima como uma tempestade.
  25. 25. Os moradores do bairro de Puente . lobos. de Guaya- ma, contam que, de susto. o Galo ficou um bom tempo sem encher a cara. ANTÔNIO E O LADRÃO
  26. 26. 50 ANTÔNIO a o LADRÃO Conto da tradição ara¡ chilena, recriado por Saul Schkolrtik. 0 autor e' urqttite/ o, formado em filosofia e escritor especializado em Ii/ eralurtz infantil. Tem numerosas' publicações, incluíndo E1 cazadar de cuentas, que obteve o primeira lugar rm Concurso Lanna-Americana de Literatura Infimlil de [978, promovido pelo Unesco. 0 [lavrador, Carla: Rojas Maffiolelti, é formado em me, m7 rim: de pintura e graduado em pedagogia de artes ¡Ildslicur m¡ Universidade da Chile, onde agora ! ruim/ hu como prufessar. Também n' arlIS/ ll grafico na area editorial. Purliripmt de WÍFMIS Exposições individuais' P cole/ tvas. Um menino chamado Antônio estava brincando no corredor de sua casa. Sua mãe se aproximou e lhc disse: f Toninho, vá até a cidade comprar farinha e man- teiga. porquejá se acabaram ~ e lhe passou um montão de moeda - E tome cuidado, não vá perder isso! Antônio guardou as moedas no bolso e. pondo seu poncho e seu chapéu. parliu para Toconcc, que ficava bem alí, do outro lado do morro, apertando o dinheiro na mão bem fechada. Ele ia assobiando, muito alegre. quando de repente olhou para trás e viu um homem que o seguia. O menino não gostou muito disso e, aproveitando uma curva do caminho, tirou o chapéu, colocou-o no chão, enüou uma pedra embaixo dele e mostrou que o estava segurando bem, com firmeza. O homem se aproximou - era um ladrão - de onde estava Antônio e lhe perguntou: f Diga uma coisa: que é que você tem ai' no chapéu?
  27. 27. 53 - Uma galinha. mas ela é tão esperta que se eu sol- to. .. nossa] Na hora ela saí voando! Você não pode se- gurar um pouco? - pediu Antonio. - Eu vou buscar uma gaiola. "Quando esse moleque tonto for embora eu ñoo com a galinha. em vez de roubar-lhe outra coisa", pensou o bandido_ "Com certeza não tem nada que valha tanto". E então, agachando-se, prendeu firmemente o chapéu. Antônio aproveitou para sair dali rapidinho. 0 ladrão esperou que ele se perdesse de vista, levan- tou com cuidado uma pontinha do chapéu. eniiou a mão de repente e. .. zaasl deu um agarrão. .. na pedra. - Epa! - ele gritou. Não havia galinha nenhuma. - Caramba! - exclamou o homem, aborrecido. - Esse moleque me enganou! Assim que o apanhar, ele me paga. - Enñou o chapéu e saiu perseguindo rapidamente o menino. Não demorou muito para que Antônio olhasse de no- vo para trás e visse o mesmo homem, que já o estava al- cançando. Subiu, então, pelo morro até uma pedra grande, tirou o poncho, dobrou-o bem dobrado, colocou- o na pedra e apoiou o ombro contra ela como se estives- se fazendo muita força para sustentá-la. O bandido chegou, parou abaixo do menino e perv guntou: ~ Ei, o que você está fazendo com essa pedra? - Cuidado! - avisou o garoto. - Esta pedra vai cair e vai amassar nós dois e também todas as pessoas de Toconce. Você não pode segura-la um pouco? Eu já vou trazer uma estaca.
  28. 28. 54 O ladrão se assustou, e apoiando seu ombro contra o poncho, ficou segurando a pedra. Esperou muito tem- po e o menino não chegava. Estava demorando demais. E como é que não iria demorar se havia partido corren- do rumo à cidade? Logo o bandido pensou: "Ufa, co- mo estou cansado! Vou largar esta pedra, não importa que esmague a mim e a toda a cidade". O homem soltou z¡ pedra e ela não se mexeu nem um pouco. ~ Caramba! ~ exclamou. conrrariado. - Esse me- nino me enganou de novo! Agora vou alcança-lo, rou- bar tudo o que ele tem e ainda vou lhe dar uma bela surra ~ e saiu correndo atrás do garoto. Antônio estava chegando a Toconce. .lá podia ver as casas com seus muros de pedra e tetos de palha esparra- mados entre o verdor do vale protegido por áridos mor- ms, Quanto mais sc aproximava, arbustos e alfarrobeiras iam, cada vez mais abundantes. nas margens da tri- . Voltou a olhar para trás e viu que, agora, o homem x aproximava correndo. Rapidamente chegou perto de uma alfarrobeíra e começou a trancar uma corda. O bandido chegou até onde ele estava: « Escute, o que esta fazendo com essa corda? -lhe ¡at-rgunton. r Estou trançando para que ela fique mais resisten- - 'lc disse. 4 Porque a terra vai virar e todo mundo vau Cilll', menos as alfarrobeiras, por isso eu vou me amar- I. || hcm amarrado a esta árvore aqui. Verdade? r alarmou-se o homem, E pensou: "Se It'
  29. 29. vai virar, eu é que não vou cairl". Então exigiu do me- nino: - Amarre a mim primeiro, e depois você se amaz- ra se quiser. António fez de conta que estava pensando e a seguir aceitou: - Está bem! - ele disse. - Vou amarrar você pri- meiro. Abrace com força u árvore. Assim fez o ladrão, e Antonio o amarrou bem apertada. - Não aperte tanto. porque dói - se queixou o ho- mem. Mas o garoto continuou apertando. Quando aca- bou, foi até a cidade, comprou a farinha e a manteiga e partiu de volta. Chegou ao lugar onde o ladrão estava amarrado, e este lhe perguntou: - Ei, quando você disse que ia acontecer isso que vo- cê disse? - Loguinho, loguinhol - respondeu o menino. - Mas, enquanto isso, como está começando a gear, vou levar meu poncho e meu chapéu para me abrigar! Tirou o chapéu e o poncho do bandido, colocou-os e foi embora asscbíando, bem contente, para sua ma. REPÚBLICA DOMINICANA O HOMEM QUE ROUBOU Os Bones
  30. 30. 58 0 HOMEM QUE ROUBOU OS BODES Este conto folclórica fa¡ recolhido pela American Folklore Society e inicialmente publicada em inglês em 1930, no livro Folklore from Dominican Republic, Esta versão é de José Labourt, jornalista e autor de duas ohms recentemente publicadas pela Editora Taller. O ilustrador, Rafael Alvarez, é arquiteto e pintor dominicana. Participou de inúmeras exposições internacionais e ganhou vários prêmios, , 59 Um camponês roubou uma dúzia de bodes, e pa- ra que prestasse contas disso. foi chamado pela Justiça. Ele procurou seu compadre e lhe perguntou como po- deria se defender diante do juiz, para não receber nenhum castigo, - Não se preocupe - disse o compadre. - A cada pergunta do juiz comece a berrar como um bode. Quando o homem estava diante do tribunal. o juiz lhe perguntou: - Por que você roubou os bodes? E o homem respondeu: - Béééóóe! - Não, senhor. Assim gritavam os bode¡ quando vo- cê os levava! Eu perguntei por que você os roubou - disse o juiz. Novamente, o ladrão de bodes respondeu: - amasse: O tribunal, achando que faltava juizo ao ladrão de bodes, o absolveu da acusação.
  31. 31. 6¡ Ele estava de volta para casa quando seu compadre foi lhe dizer: - Compadre. você está em liberdade graças à minha imaginação. Quero que você me entregue a metade dos bodes, como pagamento de minha boa idéia. E o ladrão de bodes prontamente respondeu: - 13666666!
  32. 32. .. Íiitlunnut 4. Mim. . _till , . PA &Eai; Tri. .
  33. 33. A APOSTA Este é urn canto da tradição oral brasileira. A versão que aparece aqui é uma criação da jornalista Suely Mendes Brazão. zspeeialüla em livro¡ didatica: e em critica literária. O ilustrador, Adelia Mikio Suzuki, é/ ¡lha de Japoneses e vive em São Paulo. Iniciou sua atividade profissional fazendo Ilustrações para um programa infantil de lzlewkãa e logo passou a se dedicar a publicidade, onde aperfeíçaou sua formação gráfica. O meio rural, ande Suzuki cresceu, ¡n/ luenciou : eu estilo, o que pode . ser facilmente reconhecida no: trabalhos em que retrata as : abas do Brasil. 65 Ja há cinco anos sem ver chuva. dona Durvalina percebeu que deveria mudar de vida e da senao da Bahia. Vendeu sua terrinha, deu o cachorro e o papagaio à comadre, juntou os nove filhos e resolveu ir para os la- dos de Minas Gerais, onde morava uma irmã sua. Antes de tomar o trem, era preciso caminhar um longo trecho. mais longo ainda porque cada um carregava sua pesada trouxa. Dona Durvalina, à frente, levava também um cesto. com a para Dedé. Não quis desfazer-se da ave, porque um ovo por dia estaria sempre garantido. Quatro quilômetros depois. viram a estação. Faltava ainda meia hora para o trem partir, mas os poucos pas~ sageiros já começavam a embarcar. Contente, a mulher encaminhou-se para o lugar onde se vendiam as passa- gens. Assim que entrou, viu, bem sobre o guichê, uma grande placa onde estava escrito, em vistosas letras ver- melhaa: E PROKBIDO VIAJAR COM ANIMAIS. E agora? Que fazer? Abandonar a pata Dedé? Nun- ca! Dona Durvalina pós a tampa no cesto, fechou-o muito bem e foi em frente.
  34. 34. 67 - Dez passagens, por favor! - disse ao vendedor de bilhetes. - Qiieml Qüemi - fez Dedé dentro do cesto. - Como? - perguntou o homem. - Quero dez bilhetes. Quanto é? - Qüeml - São duzentos cruzados. .. Mas. .. Que é que a se- nhora leva ai nesse cesto? Um pato? . - Não, senhor. Não e um. .. - procurou explicar do- na Durvalina. com um sorriso sem graça. - Qüeml - insistia a pata. - Não adianta mentir. É proibido viajar com ani- mais. A senhora não leu na tabuleta? Ouvindo a discussão, agora num tom de voz mais al- i to, os nove filhos de dona Durvalína pegaram as coisas que carregavam, levantaram-se do banco onde haviam se sentado e vieram para junto da mãe. i - Mas eu tenho nove filhos e. .. - Abra o cesto, minha senhora, por favor. É a lei. .. , - Não e pato - defendeu-se a mulher, já visivelmen- g . te nervosa. V- , 'lj _k w - Qüem. .. qüem. .. , '/ w à i z - Como não? A senhora acha que sou bobo? Ou sur- É. ” V , ' 1 ' do? Estou ouvindo o pato grasnarl Só vou vender-lhe as « ' ¡ ~ , passagens se a senhora abrir esse cesto - disse o homem / ', , 1 resoluto. › . - ' ' - Está bem. eu abro. Mas vamos fazer uma aposta: ' se eu tiver aqui dentro um pato, como o senhor está dí- zendo, dou-lhe de presente o bichinho e viajo com meus
  35. 35. 68 filhos dentro da lei. Mas. .. se não for pato. vou embar- car de graça, com as nove crianças. e ainda levo meu ani- malzinho de estimação. .. - Vou aceitar a aposta, só porque a senhora reco- nheoeu que leva uma ave ai nesse cesto. E também por- que vai ser fácil ganhar. Ora, se vai. .. Hoje vou comer pato assado no jantar! - Não conte vantagem antes da horal O senhor po- de estar enganado. .. Afirma, pela última vez. que não tenha um pato dentro deste cesto! A essa altura, a fila atrás de dona Durvalina já tinha aumentado. Porém ninguem reclamava da demora. Añ- nal, todos queriam ver como acabaria aquela história. - Não vamos discutir mais. 0 trem vai se atrasar. Vamos! Abra o cesto! - disse o homem, já impaciente. - Está bem. 0 senhor é que sabe. A aposta está de plz? - Sim. claro. claro. Dana Durvalina ahriu o oeste. A cabecinha de Dedé saltou imediatamente para fora. ~ Qüem! Qilem! - Olhe, mãe - disse o menorzinho dos filhos -, u Dedé botou um ovo! - Eu não disse ao senhor? Eu não tinha um pato aqui dentro. .. É uma PATA! Ganhei a aposta! Ganhei a apos- lu! -- gritava a mulher. exibindo o ovo para toda a fila. - Paga! Paga! - falavam todos, em meio a gusto- uus gargalhadas.
  36. 36. Nada mais restava ao homem: deu o¡ de¡ bilhete¡ de grace a dona Durvnlina. enquanto ela, feliz e contente. fechava o cesto, empurrando a cabeça de Dedé para dentro. - Quem! Qiieml NKCARÁGUA A PEDRA DE CUAPA
  37. 37. 72 A PEDRA DE CUAPA Conto recolhido da rrudição oral por Ghzdix Miranda, e que fo¡ publicado no Muestmrla de¡ folklare nlcaragüense, de Pablo Antonio Cuadru e Francisco em: Estrada. A adaptação que se inclui nesle volume / oi realizada pela Editorial Nueva Nicaragua. O ilustrador, Roberto Zlíriiga López (Nicarágua, 1966), trabalha com desenho humarlsrico e como ilustrador desde 1983. Sua obra encontra-se distribuída em [olhe/ os, cartazes, PIM/ feios. Colabora com a Editorial Vanguardía e llusrra La Semana Cómlca, de Mortágua. 73 No vale de Cuapa. Estado de Chontales. há uma enorme pedra que, de acordo com o que dizem os mora- dores do lugar. caiu do céu. Bem perto dali, a uma légua de distância, se encon- trava há muito tempo a fazenda La Flor, onde vivia um casal com uma filha muito bonita, tão bonita que os duen- des que moravam na casa se haviam apaixonado por ela. De noite, eles punham flores sobre sua cama e, de dia. a seguiam por todo lado. Até mesmo quando ela la bus- car água enchiam seu caminho de flores. Em troca, como não gostavam da mãe. punham-lhe espinhos para machuca-Ia. Escondiam seu sabão quan- do lavava roupa. Roubavam sua linha quando costura- va. Quebravam as xícaras de porcelana que ela guardava no armário e, para pagar-lhe os estragos, deixavam al- gumas moedas que iam tirando de um cofre onde o casal guardava o dinheiro. - Como são ruins esses duendes! Eles me pagam com meu próprio dinheiro! - dizia a mãe da jovem. E, antes
  38. 38. 75 de temtinar de dizer a frase, sentia que estavam lhe pu- xando o cabelo por tras. As coisas estavam nesse pe, quando, um dia, o pa¡ da garota, que tinha um burro, foi apanha-lo e não o en- controu. Procurou aqui, procurou ali, procurou soúnho. procurou com os vizinhos, mas nada. Quando já havia perdido as esperanças de encontra-lo. viu o burro zur- rando sobre a imensa pedra - a mesma pedra que fica no vale de Cuapa e que, segundo os moradores do lugar. caiu do céu. Zurrava e zurrava e não parava de zurrar. porque não podia descer de onde estava. "Isso e uma maldade dos duendes", pensou o pai da garota. Foi correndo para casa. Entrou pisando forte e chamou a filha. - Menina. voce precisa ser menos seca oom os duen- des - ele disse -, faça de conta que voce agradece seus presentes. Se eles não descem o burro, não poderemos carregar água e nem colher capim para o gado. A moça. tremendo de medo. mas obediente. suplicou aos duendes que desoessem o animal. E como os duen- des estavam apaixonados por ela. para agrada-la leva- ram o burro até a cocheira. 0 pai recobrou a calma, a mãe sorriu e os vizinhos foram para suas casas. Parecia que tudo se havia arranjado na fazenda La Flor. .., mas, quando menos se imaginava, os duendes vol- taram a aprontar. - É preciso acabar de uma vez oom eles - diüam todos.
  39. 39. 76 Alguém lembrou que a música de instrumentos de cor- da produzia nos duendes uma dor de cabeça insuportá- vel. E lá se foi todo mundo tocando um instrumento para derrota-los. Mas como é que tim-am isso é outra história. O que faz parte desta história e que os chama/ trios 4 assim se chamam os habitantes de Chontaies -. quan- do vêem uma pessoa sobre a enorme pedra. costumam gritar em tom de brincadeira: ~ Olha ali o burro de mapa! E quem esta la em cima lhes responde zombetei- ramente: ~- Olha ali os duendes! EQUADOR
  40. 40. 78 0 GIGANTE CABELUDO Este conto é baseado num mito agrário equatoriano, recriado por Pierre Gondard. 0 autor é um pesquisador frances que observou nas legiões isoladas da Equador as formas variadas pelas quais as cullurus indígenas andinas protegem e enriquecem as potencialidades da sola. Mariana Kuanqui, a ilustrador/ z. nasceu em Bahia de Cardquez. em 195]. Estudou mz Faculdade de Artes da Universidade Central do Equador e atualmente trabalha na ilustração de livros para as crianças de seu pata. Muitos anos atrás, um camponês chamado Ta- deu comprou, por alguns centavos, um lote de terreno. - E por que saiu tão barato? - lhe perguntou ma- ravilhado Lisa, sua mulher. - Tem certeza de que isso não vai nos trazer problemas? - Claro que não - respondeu Tadeu. - Esta terra é boa e pertence a nós, somente a nós. .. - Você quer dizer: a miml - gritou uma voz atrás deles. Lisa e Tadeu voltaram-se assustados. E. para assom- bro dos dois, viram ali um gigante cabeludo. Tinha os olhos cor de sangue. um nariz redondo e avermelhado como uma beterraba. as sobrancelhas emaranhadas e as orelhas longas e pontudas. Os cabelos, erguidos como es- pinhos, pareciam uma teia de aranha. Vestja uma calça maltrapilha. sustentada por barbantes. Pelos buracos de sua roupa apareciam os joelhos e os cotovelos peludos. E seu braços eram os mais longos já vistos. - Caia fora de minha terra! - gritou ele. com voz estridente, enquanto movia os braços como as pás de um moinho de vento.
  41. 41. 80 - Sua terra? - perguntou Tadeu. - Sim. minha terra, herdada do meu pai gigante. - Você não deve estar falando sério - replicou Ta- deu. - Eu acabo de comprar este terreninhol 4 Caia fora! - gritou novamente o gigante. baten- zlo os pés com fúria. - Eu estava aqui bem antes que você! › Eu estou aqui e aqui vou ficar - disse Tadeu. - lista terra é minha! Lisa, entao, interveio: ~ Talvez haja uma solução, Tadeu. Voce planta e depois repartjmos a colheita com o gigante. Tadeu não via claramente o que podia conseguir com esse acerto. Mas Lisa, em seguida, acrescentou: - Qual metade da colheita você quer, gigante? A de cima ou a de baixo? r O que? - Voce quer ficar com a parte que cresce acima da terra ou com a que cresce abaixo? Qual das duas prefe~ rc? Escolha. - Vou ficar com a de cima - ele respondeu rindo mmbadoramente. - Voces ficam com as raizes. Então Tadeu e o gigante cabeludo selaram o acordo, hntcndo as palmas das maos, e o gigante foi embora. - Ótimo! - disse Lisa. - Vamos plantar batatas. Depois de arar o terreno, Tadeu semeou batatas. Ti- mu o mato com a enxada e preparou as sementes. Na época da colheita, o gigante cabeludo voltou para recla- mur sua parte.
  42. 42. 82 - Ahl Você está all - disse Tadeu. - Pegue tudo o que esta em cima. É seu: lindas folhas verdes que não servem para nada, mas, afinal de contas. são suas. - Isto é uma brincadeira! - gritou o gigante. - Vo- ce e um caloteirol -- Um pacto é um pacto, gigante. Agora, pegue suas folhas e vá embora. - E o que voce vai querer para o próximo ano? - perguntou Lisa. - Caules ou raizes? - Raizes. clarol Na próxima vez vocês vão comer os caules. Dito isso, o gigante cabeludo desapareceu. - E agora, que faremos? - perguntou Tadeu à sua mulher. - Vamos plantar favas, querido. O gigante ficara com as raizes, se quiser. Depois de tirar todas as batatas e deixar pronta a ter- rn, Tadeu plantou favas. Semanas depois, sairam as plan- tinhas. E quando o gigante cabeludo foi buscar sua parte da colheita. o lote era um espesso tapete verde-azulado ondeando sob o sol e o vento. - Bem - disse Tadeu - os caules para mim e as raizes para você. O gigante gritou enfurecido: - Outra vez me enganou, sem-vergonha! Eu vou te. .. - Você não vai me fazer nada - respondeu Tadeu. - O pacto tem de ser cumprido. - De acordo, filho, você ganhou. Mas no próximo Ino vai plantar cevada. E repartiremos a colheita da 83 seguinte maneira: você começa por este lado e eu por es- te outro. Cada um ficará com o que tiver colhido. Tadeu olhou os braços longos do gigante e percebeu que poderiam colher com mais rapidez que os seus. - Não, não é justo - ele disse. Mas foi obrigado a concordar. e o gigante partiu, rindo-se dele. Quando Tadeu informou Lisa a respeito do acerto, a mulher ficou pensando um momento. - Vamos supor que uma pane desta cevada tenha caules mais duros do que a outra parte - disse ela. - Vai dar mais trabalho corta-la e será necessário añar a foice continuamente. - Ahl - disse Tadeu. - É uma sorte que o gigante cabeludo não tenha uma mulher tão inteligente como vocêl Tadeu amu sua parcela e semeou cevada, misturando- a com semente de tremoço na parte que pertencia à co- lheita do gigante. A cevada cresceu muito bonita. No dia marcado para a segadura. o gigante cabeludo chegou de madmgada. Tinha na mão uma foice enor- me. Tadeu começou a cortar a cevada, movendo a foice com gestos amplos e ágeis. O gigante, por sua vez, preci- sava dar fones golpes, por causa do caule lenhoso das plantas de tremoço. Suava, ofegava, parava. .. - Parece que os caules estão mais duros por aqui - gritou. O gigante añava a foice e continuava cortando. De vez em quando, parava para secar a testa com a manga. - Não agüento mais! - gemia. U
  43. 43. 85 - Que estranho! - respondia Tadeu. O gigante cabeludo se esforçou novamente, moven- do a foice com energia desesperada. Mas a cada golpe deixava o fio mais cego ainda. No fim, caiu no chão es- tourando de raiva. Levantou-se, soltou um punhado de palavrões e partiu a longos passos, jurando vingar-se no ano seguinte, com ou sem pacto. v Tadeu e Lisa se cumprimentaram pelo novo êxito. Além da cevada da área toda. recolheram o tremoço que haviam semeado na parte que correspondia ao gigante. - Tres anos. três boas colheitas, e o gigante nao con- seguiu nos tirar nada. Mulher. nós agora merecemos um descanso. e o terreno também - disse Tadeu com um suspiro e um olhar de satisfação. - Sua idéia foi tlo boa que de hoje em diante voltaremos a semear a terra da mes- ma forma, começando com as batatas. O gigante cabeludo año voltou a aparecer e, pouco a pouco, os camponeses da região foram imitando a for- ma de semear de Tadeu. e as gerações seguintes conti- nuaram o costume de altemar sempre os cultivos.
  44. 44. E O Doce Dr; icAco A T E m S E m 1 N.
  45. 45. MINl-ESPOLETA E O DOCE DE ICACO O relato pertence à tradição artzl de Stmlt¡ M' dl' Bogotá. A reropiltldara-adapltzdora desta versão. Gabriela Arctniugur, é att/ wo de VtÍ/ 'ÍIIX histórias' para crianças', entre EÍRS Um¡ muita en el aire (Plaza y Jtzrtés. 1982) E El mixterit¡ de Candida (Editorial Norma, 1986). A t/ urtrttdnrtz. Dtana CaSIEÍÍKJVHLY, é atualmente tÍÍ/ U/OIH dz arte do projeto de literatura tttftl/ ttt/ da Ewturial Norma c trabalhou na ttustmçtin dl' várias obras pura Cruz/ Içara'. GLOSSÁRIO Ivana: Fruta dc cor tlcinzerl/ atta, que pILSSlII o ! ipa t' a/ ormttto de uma utrteixa. Na Brtnil, u mira : :parece na região Norte, ande e' c rthectdu , mm nontex de tzbajeru, ameixa-algodão, upinba e DMI/ OS. 89 Sabe-se que os ratos constroem grandes cidades de- baixo das praças e avenidas das cidades humanas. Ali, sob a terra, sem que ninguém perceba. eles elegem reis, formam exércitos, lutam batalhas, possuem os seus gê- nios. seus heróis. .. Tudo bem. mas esta história não tem nada a ver com personagens tão importantes, mas sim com uma humil- de familia de ratinhos camponeses que tinha seu escon- derijo debaixo de uma mata de resedá, ao pé de uns arbustos junto a algumas amoreiras, num sitio que ha- via nos arredores de uma tranqüila cidadezinha. Dentro do esconderijo tinha vários quanos. pois a fa- milia era bem numerosa. Havia a porta principal e. tam- bém, a porta secreta. para o caso de necessitarem despistar algum inimigo, coisa que nunca ocorria: a vizi- nhança era extremamente tranqüila. O único que utili- zava a porta secreta era o membro mais novo da família, para sair e aprontar das suas. Este se chamava Mini-espoleta, mas todos os nomes de rato são muito compridos e costumam ser abreviados
  46. 46. sempre, de forma que Mini-espoleta era conhecido co- mo "Mi". Mi era todo cimento, menos a língiiinha ro- sada com que se banhava, as unhas e os dentinhos hranquíssimos e os espertos olhos de faísca: negras. Uma manhã, ele saiu pela porta secreta em busca de aventuras. Como todos os outros estavam dormindo, nin- guém o viu sair. Ele correu pelos sitios tão rapido que por pouco não perde sua sombra. Chegou ao povoado tão rápido que quase chega sem rabo. O povoado. como sempre, chei- rava. .. cheirava deliciosamente! Mi enfiou-se pelas grades de uma porta e se achou no meio de uma coñnha repleta de odores apelitosos, mas também cheia de gente. ~ Socorro! Um rato! - gritou alguém. - Aqui tem uma vassoura! Bate! - gritou alguem mais. - Rato? - Estava ali. - Que é isso! Nao há nada. Mi, escondido atrás da estufa, suspirou de alivio. Cam isso, pelo menos, tinha comprovado que na casa não ha- via gato, porque senão já o teriam chamado. As pessoas da cozinha estavam muito ocupadas e ner- vosas. Estavam preparando o almoço para uma visita de nariz empinadíssimo. Tudo o que faziam ali era tenta- dor, mas Mi tinha os olhos postos no doce. Era doce de ucuco. Quase ninguém faz mais doce de icaco nas casas. Em Iodo caso, é uma fruta 0va. lada, de cor cinza.
  47. 47. 92 Os icacos estavam numa panela, mas Mi viu quando os passaram para uma vasilha que ficou sobre a mesa. Esperou com paciencia. Quando partiu a última pessoa da cozinha, ele saiu disparado de seu esconderijo. Fulou para a mesa e depois para a vasilha. Que incrivel, ficar nadando em calda! Experimentou uma fruta, mas na rea- lidade o que mais lhe agradava era a calda. Esoondeu a semente do icaco bem embaixo. Quis continuar bebendo calda, mas fazia tanto calor e era tanta a doçura que foi tomado pelo sono. Entre sonhos, ouviu a voz de uma criança muito pequena: _ Ai, mñezinha, quanta coisa gostosa! Posso expe- rimentar alguma? - Não, agora não: mas vou deixar você sentar na me- sa com os mais velhos. Ai você tem que ficar bem com- portado. Nada de comer com a mão e nem falar quando os grandes estiverem falando e nem dizer que u comida está mim. Coma tudo o que servirem, sem dizer nada. "Talvez fosse melhor ir embora", pensou Mi, mas, como estava pensando adonnecido. ficou onde estava. Foi caindo num sono cada vez mais profundo. Encolhi- dinho, coberto completamente de calda e tao pequenino como era_ ele parecia um icaco a mais no doce. Foi acordado por um forte sacolejo. Mi ficou parali- sado de medo. Estavam levantando a vasilha. E a ! eva- rum até a sala de jantar. Com uma enorme colher, alguém comecou a tirar os icacos de dois em dois, e cada vez um pouco de calda. J a não havia mais remédio a não ser con- tinuar fingindo ser um icacol Mini-espoleta pediu silen- 93 closamente a São Francisco de Assis. o santo dos ani- mais, que o salvasse de alguma forma - mas não conse- guia ver como. Os grandes serviram-se cada um de dois icaoos. Fi- nalmente, serviram ao menino um apenas, o último. - Mãezinlia - disse o menino. - Que é isso? - Doce de icaco, filhinho. Experimente. E delicioso. 0 menino ficou olhando para o prato. Os mais velhos continuaram conversando e, embora o menino tivesse ouvido da mae que não devia inter- rompe-los, logo disse: - Mâezinha. .. - Sim, meu filho? - Os icacos tem olhinhos negros? - Ai, que menino mais tonto. Os icaoos não têm olhi- nhos negros, nem outro tipo de olhinhos. Coma direiti- nho e não 'incomode. O menino continuou olhando para o prato, enquan- to os adultos continuavam falando de coisas sérias. de politica, mas logo ele voltou a interromper: - Mãeziiiha. .. - Sim, filhinho? - Os icacos tem orelhinhas redondas? - Fique quieto e não perturbe mais! Não podem ter orelhas redondas nem outro tipo de orelhas! 0 menino continuou olhando para seu prato. Logo disse: - Mãezinha. .. - Sim, filhinho?
  48. 48. 95 - Mas eles têm higudinhos, não? - Coma e nao continue dizendo tanta bobageml ~ a mãe o repreendeu. - Como um icaco vai ter bigo- dinhos? E continuaram os adultos a falar de politica, de ne- gódos. O menino continuou olhando para o prato. - Mãezinha. .. - voltou a interromper. - Mas um rabinho eles tem, não? - Como um icaco vai ter rabo? - disse a mãe. e o repreendeu outra vez. O menino continuou olhando o prato. Passou um mo- mento longo. Os mais velhos falavam. - Mãezinha. .. - Diga, filho. .. - Mas patinhas. eles tem? Nesse instante, Mi pulou do prato. As senhoras subi- ram nas cadeiras e começaram a gritar como sirenes de bombeiros. A mae do menino desmaiou. 0 menino ü- cou pálido. depois vermelho e depois teve urn ataque de nso. Mini-espoleta saltou da mesa. Correu e correu. Saiu pela grade de uma porta, viu-se numa cozinha cheia de perfumes apetitosos, passou sitios e cercas até que clie- gou a algumas amoreiras. alguns arbustos e a uma mata de reseda. Enfiou~se debaixo da mata de reseda e encon- trou o buraquinho da entrada principal de sua casa. Deixou-se cair como um bólido. - Olá, Mi! - gritaram os demais ratinhos. Onde vo- cê estava? Conta! Conta!
  49. 49. E seus pais, avós. primos, tios, irmãos e irmãs come- çaram a limpa-lo com suas lingüinlias enquanto ele con- tava. Tiraram-lhe do corpo pilhas e poeira, até que nao havia mais do que calda e mais calda de icaco. Estava delicioso. no ponto preciso para ter um gosto maravilho- so. Encantados. ouvindo a incrivel aventura. o lambiam e lambiam e lambiam e lamhiam e continuavam a lambe-lo. - Adoro uma história assim - disse a avozinha, se- cando um par de lágrimas. - Tem um final tão doce. .. O LEÃO E O MOSQUITO
  50. 50. o LEÃO E o MOSQUITO Esta e uma fábula anliga, reeriadu pelo pedagoga Hermínio Almendros e recolhida em seu Iivro para crianças, Cuenlas de animales. O autor é de origem espanhola e se radical¡ em Cuba em 1939. onde continuou seu trabalho pedagógico. Publicou inúmeras abra: para crianças e professores. 0 ilustrador. Manuel Tomás González Daza é graduado pelo [Instituto Superior de Arte de Cuba, com especialização em pintura. Ganhou diversos prêmios e parlieípou de exposições coletivas nos gêneros de pintura, desenho e ilustração. Atualmente trabalha corno ilustrador na Editorial Gente Nueva. Um leão estava fazendo a scsta. quando se apro- ximou dele um mosquito fazendo barulho com sua trom- betinha. O leao acordou aborrecido: a Que vem você fazer aqui com esse ruido? - Estou passeando. - Como se atreve a me despertar, eu que sou o rei dos animais? - Mas que rei? Você tem péssimo gênio. mas eu não tenho medo. - Você não tem medo de mim? Agora mesmo vai ver quem sou eul O leão se levantou com a boca aberta, mas o mos- quito enfiou-se em seu nariz e o picou com toda a força. - Ai, meu nariz, meu nariz! - e o leão espirrou. O mosquito saiu voando e se enfiou numa orelha. - Ai, minha orelha. minha orelha! Saia dal, des- gracado! 0 mosquito continuava picando com rodas as suas forças, e o leão ava pulos e sc revirava na grama sem poder livrar-se de e?
  51. 51. 10¡ Por fim. o mosquito foi embora mmbando: - Você não dizia que era o rei? E o que achou da surra? Vou contar aos outros para que se riam. E quando saiu asám, voando, tropeçou numa tda de aranha, ficou euroscado nela e logo a aranha comeu o mosquito. íí N, ,2.. .x. .. . _ xx. v.. m a
  52. 52. 103 ÍNDICE Apresentação 7 Venzzuela: Dom Raposa e os peixes 9 Bal/ vía: Não M pra ouvir! 15 Pzru: O raposa 2 o porquinho-da-índia 21 México: Chiquim 31 Porta Rito: Sinto. mas não vejo 41 Chile: Antônio e o ladrlo 49 República Dominicana: O homem qu: roubou os bodes S7 Brasil: A aposta 63 Nicarágua: A pedra de Cuapa 7¡ Equador: O gigante cabeludo 77 Colúmbia: Mini-cspolaa e o doce de icaco K7 Cuba: 0 leão e o mosquito 97 ; a
  53. 53. O programa de Co-edlçin Latino-americana de livros infantis, promovido pelo Centro Regional para o Fomento do Livro na América Latina e Caribe, Cerlale, e com o apoio financeiro do Fundo lntemadonal para a Promoçlo da Cultura e da Dlvlalo de Fomento do Livro e dos Intercambio: Cultural¡ Internacionais da Unesco, agrupa editoras privadas e estatais dos paises latino-unericanos. Sua finalidade é difundir a literatura infantil própria do nosso contexto e tornar os livros mais acessíveis por meio do sistema de co-edicão. o qual permite dividir entre todos oa participantes os altos custos da produção editorial e obter um produto de alta qualidade a baixo preço.

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