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CHODERLOS DE LACLOS
LIGAÇÕES PERIGOSAS
Texto integral
EDITORES ASSOCIADOS
TÍTULO ORIGINAL: LES LIAISONS DANGEREUSES
TRAD...
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todo o leitor razoável esperaria seguramente encontrar erros
numa colecção de cartas de alguns particulares, visto que e...
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parece-me todavia fácil de estabelecer. Julgo pelo menos
que é prestar um serviço aos costumes divulgar os meios que
emp...
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Confesso com sinceridade que todas estas censuras podem
ter fundamento; creio também que me seria impossível responder-l...
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de nada; e sem os preparativos que vejo fazer, e a quantidade de
costureiras que vêm por minha causa, julgaria que ningu...
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CARTA II
A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT
no castelo de..
Volte, meu caro Visconde, volte; que faz o senhor...
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será preciso muito pouca sorte se o Gercourt não se tornar
como qualquer outro, a fábula de Paris.
Aliás, a heroína dest...
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palavra bonita; mas ouvi muito distintamente dizer acanhada. E
isso deve ser verdade, pois a senhora que pronunciava ess...
9
amiga faz mais prosélitos do que eu. Conheço o seu zelo, o seu
ardente fervor. E se Deus nos julgasse segundo as nossas ...
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La Fontaine. (N. do A.)
minha eterna tia instou muito comigo para que eu lhe sacrificasse
alguns dias. Já adivinhou que...
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que lhe chega ao queixo! Digo-lho como amiga, não lhe seria
preciso ter duas mulheres como aquela para perder toda a mi...
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uma criança que perderá o seu tempo em galanteios sem chegar
a nada de positivo.Pelo seu lado a pequenota é bastante ar...
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cobrir o vazio de uma frase com um sorriso estudado; e embora
tenha os mais belos dentes do mundo, não costuma rir senã...
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ilusões da juventude. Junto dela, não tenho necessidade
de prazer para ser feliz. A única coisa que me mete medo é o
te...
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casasse, a mulher seria muito feliz... É cativante a doçura do seu
trato. Diz coisas sem ar de galanteio, e no entanto ...
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da companhia de Madame de Rosemonde. Esta senhora mantém
sempre o seu encanto; a idade nada lhe fez perder. Conserva
to...
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não é daquelas que mais prezo. Por isso, se Valmont fosse
arrastado por paixões ardentes; se, como tantos outros, ele t...
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P. S . - Lembranças minhas para Madame de Rosemonde, a
quem aprecio tanto como ela merece.
1 de Agosto de 17* *
CARTA X...
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como se tivesse medo de vencer. Oh! Desde quando é que viaja
por pequenas jornadas e por amigo, quando se quer chegar,
...
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vestia de lacaio, disfarcei-me de criada de quarto. Em seguida
ela mandou vir um fiacre à porta do jardim, e partimos j...
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mostrava que a necessidade era maior que o desejo. No momento
em que saíamos e por último adeus, tomei a chave daquele
...
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desejassem da sua parte uma galanteria mais marcada; e
confesso que lhe estou infinitamente grata por ele me julgar de
...
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junto de uma mãe tão digna de toda a sua ternura e do seu respeito.
Partilho com ela os doces sentimentos que me prende...
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Beijo-a muito ternamente.
13 de Agosto de 17* *
CARTA XIV
CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY
Ontem não te escrevi, minha q...
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que tal me acontece, fico confusa, e parece que me dá pena;
mas isto nada quer dizer.
Adeus, minha querida amiga. Vou-m...
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tempo, os prazeres; a vida, então é certo que estou realmente
apaixonado. Não estou mais avançado do que estava. Não te...
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quando me retirei para o meu quarto, e assim que a criada
saiu, fui buscar a harpa. Encontrei nas cordas uma carta,
sim...
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O CAVALEIRO DANCENY A CECÍLIA VOLANGES
Antes de me entregar, Mademoiselle, àquilo que chamo o
prazer ou a necessidade d...
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Pois quê, Sofia! Tu censuras de antemão o que eu vou fazer!
Tinha já bastantes inquietações; vieste tu agora aumentá-la...
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lhe responderei." Com certeza não podes dizer que haja algum
mal nisto; e depois, foi mais forte do que eu. Pus o papel...
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que sinto em o ver. Bem vê que lhe falo com toda a sinceridade.
Só peço que a nossa amizade dure sempre; mas, suplico-l...
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Volanges. Estou louca por essa pequena; é uma verdadeira paixão.
Ou eu me engano, ou ela virá a ser uma das nossas mulh...
33
cumprir. Ontem de tarde, deu-me ele a notícia de que hoje, de
manhã, deviam ser penhorados os móveis de uma família int...
34
precipitados, dizendo-lhes: "Ajoelhemo-nos todos aos pés desta
imagem de Deus!"; e no mesmo instante fui rodeado por to...
35
para reparar um juízo demasiado rigoroso é decerto servir-vos.
O senhor de Valmont parece-me ter as condições necessári...
36
ver também a honesta e infeliz família, e juntar os nossos
socorros tardios aos do senhor de Valmont. Levá-lo-emos
conn...
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e de louvores. O meu coração, impedido por uma
recordação deliciosa, apressa o momento do regresso ao castelo.
Pelo cam...
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repente, e cruzando-as sobre os olhos com expressão de desespero,
exclamou: "Ah, desventurada!"; e desatou a chorar. Po...
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mesa, e também eu tive a minha dor de cabeça. Fechado no meu
quarto, escrevi uma longa carta para me queixar de tal rig...
As relações perigosas-Choderlos de laclos
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  1. 1. 1 CHODERLOS DE LACLOS LIGAÇÕES PERIGOSAS Texto integral EDITORES ASSOCIADOS TÍTULO ORIGINAL: LES LIAISONS DANGEREUSES TRADUÇÃO: JOÃO PEDRO DE ANDRADE E ALFREDO AMORIM PREFÁCIO DO REDATOR Esta obra, ou antes, esta colecção, que o público achará talvez ainda volumosa em demasia, não contem todavia mais do que um pequeno número das cartas que compunham a totalidaDE da correspondência de onde foi extraída. Encarregado de a pôr em ordem pelas pessoas a cujas mãos chegou, e que eu sabia terem a intenção de a publicar, pedi apenas, como prémio dos meus cuidados, a permissão de suprimir tudo o que me parecesse inútil; e de facto conservei apenas as cartas que me pareceram necessárias, quer para a compreensão dos acontecimentos, quer para o desenvolvimento dos caracteres. Se acrescentarmos a este ligeiro trabalho o de repor por ordem as cartas que deixei ficar, ordem para a qual eu próprio quase sempre segui a das datas, e, enfim, algumas notas curtas e raras, e que, na sua maior parte não têm outro objectivo senão o de indicar a origem de algumas citações ou de motivar alguns cortes que me permiti fazer, ter-se-á inteiramente ideia da parte que tive nesta obra. A minha missão não ia mais longe. Eu tinha proposto alterações mais consideráveis, quase todas relativas à pureza de dicção ou de estilo, contra a qual se encontrarão muitas faltas. Desejei também ser autorizado a cortar diversas cartas demasiado longas, e das quais algumas tratam separadamente, e quase sem transição, assuntos absolutamente estranhos uns aos outros. Este trabalho, que não foi aceite, não seria bastante sem dúvida para dar mérito à obra, mas ter-lhe-ia pelo menos tirado parte dos defeitos. Foi-me objectado que eram as próprias cartas que se pretendia. * Devo prevenir também que suprimi ou mudei todos os nomes das pessoas que intervêm nestas cartas; e que, se no número daqueles que lhes substituí, se encontrarem nomes que pertençam a alguém, terá sido unicamente por erro da minha parte, e do qual não se deverá tirar qualquer conclusão. (N. do A.) dar a conhecer, e não apenas uma obra feita segundo as cartas; que seria tanto contra a verosimilhança como contra a verdade que, de oito á dez pessoas que colaboraram nesta correspondência, todas escrevessem com igual pureza. E à minha réplica de que, longe disso, não havia, pelo contrário, nenhuma que não tivesse cometido erros graves, foi-me respondido que
  2. 2. 2 todo o leitor razoável esperaria seguramente encontrar erros numa colecção de cartas de alguns particulares, visto que em todas as que se têm publicado de diferentes autores estimados, e mesmo de alguns académicos, não se encontrava nenhuma totalmente ao abrigo desta censura. Estas razões não me persuadiram e achei-as, como as acho ainda, mais fáceis de dar que de receber; mas não me competia mandar, e submeti-me. Somente me reservei o direito de protestar e de declarar que não era essa a minha opinião; o que faço neste momento. Quanto ao mérito que esta obra possa ter, talvez me não caiba explicá-lo, pois a minha opinião não deve nem pode ter influência sobre a de ninguém. Entretanto, todos os que, antes de começar uma leitura, ficam satisfeitos por saber aproximadamente com o que podem contar, esses, dizia eu que continuem: os outros farão melhor em passar imediatamente para a obra em si; sabem já o que lhes basta. O que posso dizer antes do mais é que se a minha intenção foi, como reconheço, dar a conhecer estas cartas, estou todavia muito longe de esperar daí um êxito: e que não se tome esta sinceridade da minha parte pela modéstia fingida de um autor; pois declaro com a mesma franqueza que, se esta colecção não me tivesse parecido digna de ser oferecida ao público, eu não me teria ocupado dela. Tratemos de conciliar esta aparente contradição. O mérito de uma obra compõe-se da sua utilidade ou do agrado que desperta, e mesmo duma coisa e doutra, quando disso é susceptível; mas o êxito, que não prova sempre o mérito, deve-se frequentemente mais à escolha do assunto que à sua execução, ao conjunto dos motivos que apresenta do que à maneira como eles são tratados. Ora contendo esta colecção, como o seu título anuncia, as cartas de toda uma sociedade, reina nela uma diversidade de interesse que enfraquece o do leitor. Além disso, sendo quase todos os sentimentos que aí se exprimem fingidos ou dissimulados, deixam de poder mesmo excitar um interesse que não seja o de curiosidade sempre muito abaixo do de sentimento, e que, sobretudo, conduz menos à indulgência e deixa tanto mais aperceber as faltas que se encontram nos pormenores, quanto estes se opõem constantemente ao desejo que unicamente se quer satisfazer. Estes defeitos são talvez resgatados, em parte, por uma qualidade que do mesmo modo tem origem na natureza da obra; é a variedade dos estilos; mérito que um autor atinge dificilmente, mas que se apresentava aqui por si próprio, e que ao menos exclui o aborrecimento da uniformidade. Algumas pessoas poderão ainda esperar encontrar para seu proveito um número assaz grande de observações, ou novas ou pouco conhecidas, e que se encontram dispersas nestas cartas. E nisso se resume, segundo creio, tudo que se pode esperar como motivos de agrado, usando aliás de um juízo extremamente favorável. A utilidade da obra, que porventura será ainda mais contestada,
  3. 3. 3 parece-me todavia fácil de estabelecer. Julgo pelo menos que é prestar um serviço aos costumes divulgar os meios que empregam os que os têm maus para corromper os que os têm bons, e creio que estas cartas poderão concorrer eficazmente para esse fim. Encontrar-se-á também nelas a prova e o exemplo de duas verdades importantes que dir-se-ia serem desconhecidas, tão pouco elas são praticadas: a primeira, que toda a mulher que consente em receber no seu meio um homem sem moral acaba por se tornar a sua vítima; a outra, que é pelo menos imprudente toda a mãe que admita que outra pessoa além dela tenha a confiança de sua filha. Os jovens de um e de outro sexo poderiam também aprender aqui que a amizade que as pessoas de maus costumes parecem dedicar-lhes tão facilmente não é mais que uma perigosa cilada, tão fatal à sua felicidade como à sua virtude. Parece-me, no entanto, muito de temer aqui o abuso, que anda sempre tão perto da medida justa; e, longe de aconselhar esta leitura à mocidade, parece-me mais importante afastar dela todas as deste género. A época em que tal leitura pode deixar de ser perigosa e tornar-se útil parece-me ter sido bem escolhida, para o seu sexo, por uma boa mãe não apenas inteligente, mas de inteligência bem guiada. "Julgo", me dizia ela, depois de ter lido o manuscrito desta correspondência, "que prestarei um bom serviço a minha filha, dando-lhe este livro no dia do seu casamento." Se todas as mães de família pensarem isto da obra, felicitar-me-ei eternamente por tê-la publicado. Mas, partindo ainda desta suposição favorável, afigura-se-me sempre que esta colecção deve agradar a pouca gente. Os homens e as mulheres de costumes depravados terão interesse em denegrir uma obra que pode ser-lhes prejudicial; e como não lhes falta astúcia, talvez se lembrem de pôr do seu lado os rigoristas, alarmados pelo quadro de maus costumes que não houve receio de apresentar-lhes. Os que se julgam espíritos fortes não terão qualquer interesse por uma mulher devota, que por isso mesmo será para eles uma mulher sem importância, enquanto que os devotos ficarão descontentes por verem sucumbir a virtude, queixando-se do fraco poder com que é mostrada a religião. Por sua vez, as pessoas de gosto delicado hão-de enfastiar-se com o estilo demasiado simples e defeituoso de algumas destas cartas, enquanto que o comum dos leitores, seduzido pela ideia de que tudo o que é impresso é o fruto de um trabalho, julgará ver em algumas outras a maneira dificilmente conseguida de um autor que se mostra por detrás da personagem que fala a seu mandado. Enfim, talvez venha a dizer-se, na generalidade, que cada coisa não vale senão no lugar onde está colocada; e que, se ordinariamente o estilo demasiado castigado dos autores tira de facto toda a graça às cartas de sociedade, as negligências destas se tornam verdadeiros erros e as tornam insuportáveis, uma vez entregues à publicação.
  4. 4. 4 Confesso com sinceridade que todas estas censuras podem ter fundamento; creio também que me seria impossível responder-lhes, e mesmo sem ir além da extensão de um prefácio. Mas deve compreender-se que, se me fosse necessário responder a tudo, seria isso sinal de que a obra não responderia a nada; e que, se eu assim o pensasse, teria suprimido ao mesmo tempo o prefácio e o livro. PRIMEIRA PARTE CARTA I CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY no convento das Usulinas de... Bem vês, minha boa amiga, que cumpro a minha palavra, e que as toucas e laços não ocupam todo o meu tempo; sempre me há-de ficar algum para ti. Mas olha que só hoje vi mais adereços do que nos quatro anos que passámos juntas; e creio que a orgulhosa Tanvillel terá maior aborrecimento com a minha primeira visita, em que eu conto perguntar por ela, do que ela pensou que nos causaria todas as vezes que vinha ver-nos in fiorch. A Mamã consultou-me sobre todos os pormenores; trata-me muito menos como pensionista do que noutro tempo. Tenho uma criada de que disponho, e escrevo-te a uma secretária muito bonita, de que possuo a chave, e onde posso fechar tudo o que quiser. A Mamã disse-me que a verei todos os dias logo que ela se levante; que bastará que eu esteja penteada para jantar, porque estaremos sempre sós, e que então ela me dirá a hora em que devemos juntar-nos à tarde. O resto do tempo está à minha disposição, e tenho a minha harpa, o meu desenho e livros como no convento; só não estará a madre Perpétua para ralhar comigo, e dependerá apenas de mim estar sempre sem fazer nada: mas como não tenho a minha Sofia para conversar e para rir, prefiro então ocupar-me dela. Ainda não são cinco horas; não devo estar com a Mamã senão às sete: ora aqui está um grande intervalo, para o caso em que tivesse alguma coisa a dizer-te! Mas ainda não me falaram * Pensionista do mesmo convento.
  5. 5. 5 de nada; e sem os preparativos que vejo fazer, e a quantidade de costureiras que vêm por minha causa, julgaria que ninguém pensa em casar-me, e que é mais um disparate da boa Josefina. Mas a verdade é que a Mamã me disse tantas vezes que uma menina deve ficar no convento até casar, que julgo que Josefina tem razão, visto que ela me fez sair de lá. Acaba de parar uma carruagem à porta, e a Mamã mandou-me que fosse ter com ela imediatamente. Se fosse o senhor? Ainda não estou vestida, a minha mão treme e o meu coração bate. Perguntei à criada de quarto se sabia quem estava com minha mãe: "Ora", disse ela, "é o senhor C..." e ria. Oh! Creio que é ele. Voltarei com certeza a contar-te o que se passou. O nome já eu sei. Não devo fazer esperar. Adeus, até daqui a um momento. Como te vais rir da pobre Cecília! Oh! Como fiquei envergonhada! Mas tu terias caído como eu. Quando entrei nos aposentos da Mamã, vi um senhor vestido de preto, de pé, por detrás dela. Cumprimentei-o o melhor que pude e fiquei sem me poder mexer do meu lugar. Podes imaginar como eu o examinava! "Senhora", disse ele a minha mãe, saudando-me, "trata-se na verdade de uma menina encantadora, e sinto melhor do que nunca o valor dos vossos obséquios". A estas palavras tão positivas" tomou-me um tal tremor que não me podia suster; deparei com uma poltrona e sentei-me nela, toda vermelha e confusa. Mal eu me tinha sentado, eis que o homem se lança a meus pés. Então a tua pobre Cecília perdeu a cabeça; eu estava, como disse a Mamã, verdadeiramente espavorida. Levantei-me lançando um grito agudíssimo;... olha, como naquele dia do trovão. A Mamã soltou uma gargalhada e disse-me: "Então, que tem? Sente-se e dê o seu pé a esse senhor." Na verdade, minha querida amiga, o senhor era um sapateiro. Não posso dizer-te como fiquei envergonhada; por felicidade só ali estava a Mamã. Julgo que, quando for casada, não voltarei a servir-me daquele sapateiro. Hás-de convir que já sei muitas coisas! Adeus. São perto de seis horas, e a minha criada de quarto disse-me que tenho de me vestir. Adeus, minha querida Sofia; gosto tanto de ti como quando estava no convento. 1 Rodeira do convento. P. S . - Não sei por quem enviar esta carta; por isso espero que Josefina venha. Paris, 3 de Agosto de 17* *.
  6. 6. 6 CARTA II A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT no castelo de.. Volte, meu caro Visconde, volte; que faz o senhor, que pode o senhor fazer em casa de uma velha tia cujos bens lhe estão garantidos? Parta imediatamente; é-me preciso aqui. Tive uma excelente ideia, e desejo confiar-lhe a execução. Estas palavras deveriam bastar-lhe; e, muito honrado pela minha escolha, devia vir, com solicitude, receber de joelhos as minhas ordens. Mas o senhor abusa das minhas bondades, mesmo depois que deixou de aproveitá-las; e na alternativa de um ódio eterno ou de uma excessiva indulgência, a sua felicidade quer que a minha bondade a conduza. Desejo pois instruí-lo sobre os meus projectos: mas jure-me que como fiel cavaleiro não correrá nenhuma aventura sem que esta seja levada ao fim. Ela é digna de um herói: o senhor servirá o amor e a vingança; será enfim uma astúcia a mais a pôr nas suas memórias: sim, nas suas memórias, pois eu quero que elas sejam publicadas um dia, encarrego-me de as escrever. Mas deixemos isso, e voltemos ao que me preocupa. Madame de Volanges vai casar a filha: é ainda um segredo; mas desde ontem que estou na posse dele. E quem julga que ela escolheu para genro? O Conde de Gercourt. Quem diria que eu viria a ser prima de Gercourt? Sinto-me possuída de tal furor!... Pois bem! Não adivinhou ainda? Oh, inteligência lenta! Já lhe perdoou, pois, a aventura da Intendente? E eu, não tenho razões para me queixar dele mais ainda, seu monstro? Mas vou-me acalmar, e a esperança de me vingar lança a serenidade na minha alma. Decerto já se tem aborrecido cem vezes, tal como eu, com a importância que Gercourt atribui à sua próxima conquista, e com a tola presunção que o dispõe a crer que evitará a sorte inevitável. Conhece as suas ridículas prevenções a favor das educações claustrais, e o seu preconceito, ainda mais ridículo, em relação à modéstia das louras. Eu apostaria, de facto, que, apesar das sessenta mil libras de renda da pequena Volanges, ele nunca faria esse casamento se ela fosse morena, ou se não tivesse estado no convento. Provemos-lhe pois que é apenas um tolo; com certeza há-de sê-lo um dia, não é isso que me preocupa: mas o agradável seria que ele começasse por aí. Como nós nos divertiríamos no dia seguinte ouvindo-o gabar-se, pois ele há-de gabar-se; e depois, se o Visconde chegar a instruir essa rapariguinha,
  7. 7. 7 será preciso muito pouca sorte se o Gercourt não se tornar como qualquer outro, a fábula de Paris. Aliás, a heroína deste novo romance merece todos os seus cuidados: é na verdade bonita; tem apenas quinze anos, é um botão de rosa; acanhada, de facto, como já se não usa, e de modo nenhum afectada: mas vós, os homens, não temeis isso; além do mais, é senhora de certo olhar langoroso que na verdade promete muito. Acrescente a tudo isto que sou eu que a recomendo: não tem mais que agradecer-me e obedecer. Receberá esta carta amanhã de manhã. Exijo que amanhã às sete horas da tarde esteja em minha casa. Não receberei ninguém senão às oito, nem mesmo o Cavaleiro reinante: esse não tem cabeça para tamanha empresa. Bem vê que o amor não me cega. Às oito horas outorgo-lhe a liberdade, e às dez voltará * Para entender esta passagem, deve saber-se que o Conde de Gercourt tinha deixado a Marquesa de Merteuil pela Intendente de..., que lhe tinha sacrificado o Visconde de Valmont, e que foi então que a Marquesa e o Visconde se ligaram um ao outro. Como esta aventura é muito anterior aos acontecimentos de que tratam estas cartas julgou-se dever suprimir toda a correspondência que com ela se liga. (N. do A.) para cear com o belo objecto, pois a mãe e a filha ceiam sempre em minha casa. Adeus; passa do meio-dia, em breve deixarei de me ocupar do Visconde. Paris, 4 de Agosto de 17* * CARTA III CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY Ainda não sei nada, minha boa amiga. A Mamã tinha ontem muita gente a cear. Apesar do interesse que tinha em examinar, os homens principalmente, aborreci-me muito. Toda a gente, homens e mulheres, olhava muito para mim, e depois punham-se a falar ao ouvido; e eu bem via que era de mim que falavam. Isto fazia-me corar; era coisa em que eu não tinha mão. Bem queria impedi-lo, pois reparei que, quando olhavam para as outras mulheres, elas não coravam; ou talvez fosse a pintura que não me deixava ver o seu embaraço, pois deve ser muito difícil deixar de corar quando um homem nos olha fixamente. O que mais me inquietava era não saber o que pensavam a meu respeito. Creio no entanto ter ouvido duas ou três vezes a
  8. 8. 8 palavra bonita; mas ouvi muito distintamente dizer acanhada. E isso deve ser verdade, pois a senhora que pronunciava essa palavra é parente e amiga de minha mãe. Pareceu-me mesmo que de repente tinha sentido amizade por mim. Foi a única pessoa que falou comigo um pouco durante toda a noite. Amanhã ceamos em casa dela. Ouvi ainda, depois da ceia, um homem que estou certa que falava de mim, e que dizia a outro: "É preciso deixar amadurecer, veremos este Inverno." Talvez seja esse que deve casar comigo; mas sendo assim, não será antes de quatro meses! Bem desejaria saber de que se trata. Chegou agora Josefina, e diz-me que está com pressa. Mas quero contar-te ainda uma das minhas acanhezas. Oh, creio que essa senhora tem razão! Depois da ceia puseram-se a jogar. Eu fiquei perto da Mamã; não sei como isso aconteceu, mas adormeci quase a seguir. Acordou-me uma estrepidosa gargalhada. Não sei se riam de mim, mas assim o creio. A Mamã permitiu que me retirasse, e com isso deu-me grande prazer. Imagina que passava das onze horas. Adeus, minha querida Sofia; ama sempre muito a tua Cecília. Podes estar certa de que a sociedade não é tão divertida como a imaginávamos. Paris, 4 de Agosto de 17* * CARTA IV O VISCONDE DE VALMONT A MARQUESA DE MERTEUIL em Paris As suas ordens são encantadoras; e a sua maneira de as dar é mais amável ainda. A minha amiga poderia fazer amar o despotismo. Não é a primeira vez, como sabe, que eu lamento não ser já o seu escravo; e por muito monstro que diga que eu sou, não recordo nunca sem prazer o tempo em que me honrava com epítetos mais doces. Muitas vezes mesmo desejo voltar a merecê-los, e acabar por dar, a seu lado, um exemplo de constância ao mundo. Mas outros interesses mais altos nos chamam: conquistar é o nosso destino. É preciso segui-lo. Talvez ao fim do caminho voltemos a encontrar-nos; pois, seja dito sem que se zangue, minha bela Marquesa, a verdade é que a senhora me segue com um passo pelo menos igual. E visto que, separando-nos para a felicidade do mundo, cada um de nós prega por seu lado a sua fé, parece-me que, nesta missão de amor, a minha
  9. 9. 9 amiga faz mais prosélitos do que eu. Conheço o seu zelo, o seu ardente fervor. E se Deus nos julgasse segundo as nossas obras, a senhora seria um dia a padroeira de alguma grande cidade, enquanto que o seu amigo seria quando muito um santo de aldeia. Admira-se desta linguagem, não é verdade? Mas há oito dias que eu não ouço nem falo outra; e é para me aperfeiçoar nela que me vejo forçado a desobedecer-lhe. Não se zangue e ouça-me. Depositária de todos os segredos do meu coração, vou confiar-lhe o maior projecto que jamais formei. Que me propõe a minha amiga? Seduzir uma jovem que não viu nada, que não conhece nada; que, por assim dizer, me seria entregue sem defesa; que com certeza se embriagará com uma primeira homenagem, e que será levada mais pela curiosidade do que pelo amor. Há vinte homens que nessa empresa seriam tão bem sucedidos como eu. Já não acontece o mesmo com a empresa que me preocupa; o seu êxito valer-me-á tanto prazer como glória. O amor que prepara a minha coroa hesita ele próprio entre a mirta e o loureiro, ou antes os reunirá para honrar o meu triunfo. Até a minha boa amiga será tomada de um santo respeito, e dirá com entusiasmo: "É este o homem segundo o meu coração. " A minha amiga conhece a mulher do Presidente Tourvel, a sua devoção, o seu amor conjugal, os seus princípios austeros. Eis o alvo do meu ataque; eis o inimigo digno de mim; eis o fim que eu pretendo atingir: Et si de l'obtenir ce n'emporte le prix, J'aurais du moins !honneur de l'avoir entrepris. É permitido citar maus versos, quando são de um grande poeta. ; Como deve saber, o Presidente de Tourvel está em Borgonha, seguindo um grande processo (espero fazer-lhe perder outro mais importante). A sua inconsolável metade deve passar aqui todo o tempo desta aflitiva viuvez. Uma missa por dia, algumas visitas aos pobres da região, orações de manhã e à noite, passeios solitários, piedosas conversas com a minha velha tia, e uma vez por outra um triste jogo de whist, deviam ser as suas únicas distracções. Estou-lhe preparando outras mais eficazes. O meu anjo bom conduziu-me aqui para a sua felicidade e para minha. Insensato! Eu lamentava as vinte e quatro horas que ia sacrificar em consideração aos respeitos familiares que são de uso. Como eu seria castigado se me obrigassem a voltar a Paris! Felizmente são precisas quatro pessoas para jogar o whist; e como não há aqui mais ninguém além do prior do lugar, a * E se eu não conseguir o prémio de o obter, Terei ao menos a honra de o haver tentado.
  10. 10. 10 La Fontaine. (N. do A.) minha eterna tia instou muito comigo para que eu lhe sacrificasse alguns dias. Já adivinhou que acedi. Não imagina os mimos que ela me prodigaliza desde esse instante, e principalmente como ela está impressionada por me ver assistir regularmente às suas orações e à missa. Nem por sombras lhe passa pela cabeça qual a divindade que eu ali vou adorar. E aqui estou eu, há quatro dias, entregue a uma paixão forte: A minha amiga sabe com que força eu sei desejar, e como os obstáculos pesam pouco para mim; mas o que ignora é quanto a solidão vem reforçar o ardor dos desejos. Apenas uma ideia me ocupa; penso nela de dia, sonho com ela de noite. É-me absolutamente necessário possuir essa mulher, para me salvar do ridículo de estar apaixonado por ela; pois aonde não conduz um desejo contrariado? Ó delicioso prazer! Eu te imploro para a minha felicidade, mas principalmente para o meu descanso. Como nós os homens somos felizes por as mulheres se defenderem tão mal! Sem isso, seríamos junto delas apenas tímidos escravos. Neste momento sinto-me possuído de reconhecimento pelas mulheres fáceis, o que, naturalmente, me conduz a seus pés. Ante eles me ajoelho para obter o meu perdão, e nessa postura termino esta longa carta. Adeus, minha amiga: longe de mim qualquer reserva. Do castelo de, 5 de Agosto de 17 * * CARTA V A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT Sabe, Visconde, que a sua carta é de uma insolência rara, e que eu poderia ter-me zangado? Contudo, ela provou-me claramente que o Visconde perdeu a cabeça e só isso o salvou da minha indignação. Amiga generosa e sensível, esqueço a injúria que me dirige para me ocupar apenas do perigo que corre; e embora seja muito aborrecido raciocinar, cedo à necessidade que tem neste momento dos meus raciocínios. O Visconde, possuir a Presidente de Tourvel! Mas que ridículo capricho! Reconheço bem a sua má cabeça que não sabe desejar senão o que crê não poder obter. Que tem pois essa mulher? Traços regulares, se quiser, mas nenhuma expressão; sofrível de corpo, mas sem graça; vestida sempre de modo que faz rir! Com os seus molhos de lacinhos no pescoço e o corpete
  11. 11. 11 que lhe chega ao queixo! Digo-lho como amiga, não lhe seria preciso ter duas mulheres como aquela para perder toda a minha consideração. Lembre-se do dia da festa de caridade em Saint-Roch, em que o Visconde tanto me agradeceu por eu lhe ter proporcionado tal espectáculo. Parece que ainda a estou vendo, dando a mão àquele trangalhadanças de cabelos compridos, pronta a cair a cada passo, tendo sempre o cesto de quatro varas em cima da cabeça de alguém, e corando cada vez que a cumprimentavam. Quem lhe diria então que chegaria a desejar essa mulher? Vamos, Visconde, tenha a bondade de corar e voltar a si. Prometo-lhe guardar segredo. E depois, veja a série de coisas desagradáveis que o esperam! Que rival terá a combater? Um marido! Não se sente humilhado só ante esta palavra? Que vergonha se for mal sucedido! E mesmo no caso de triunfar, que pequena glória o espera! Digo-lhe mais: não conte tirar dali nenhum prazer. É isso possível com as mulheres recatadas? Quero dizer com as que o são de , boa fé: reservadas até no meio do prazer, não podem oferecer senão meios gozos. O abandono inteiro de si mesma, o delírio da volúpia em que o prazer se depura pelo seu excesso, estas vantagens do amor não são conhecidas por tais mulheres. Aqui lho profetizo: na mais feliz das suposições, a sua Presidente julgará ter feito tudo pelo Visconde tratando-o como seu marido, e na intimidade conjugal, mesmo a mais terna, há sempre dois. Neste caso é muito pior ainda; essa virtuosa senhora é devota, e a sua devoção é das que condenam a uma eterna infância. É possível que o Visconde venha a saltar o obstáculo, mas não se gabe de vir a destruí-lo: vencedor do amor de Deus, não o será do medo do Diabo; e quando, tendo a sua amante nos braços, tivesse conhecido mais cedo essa mulher, é possível que fizesse dela qualquer coisa; mas tem já vinte e dois anos e há cerca de dois que é casada. Creia-me, Visconde, quando uma mulher se encodeou a tal ponto, é preciso abandoná-la à sua sorte; nunca há-de passar de uma espécie. No entanto, é por esse belo objecto que o Visconde recusa obedecer-me; que se enterra no túmulo de sua tia, e que renuncia à aventura mais deliciosa e mais de molde a proporcionar-lhe honrarias.Por que fatalidade será que Gercourt tem sempre qualquer vantagem sobre o Visconde? Falo-lhe sem má disposição, acredite: mas,neste momento,estou tentada a crer que o senhor não merece a sua reputação; estou tentada principalmente a retirar-lhe a minha confiança.Nunca poderei acostumar-me a dizer os meus segredos ao amante de Madame de Tourvel. Saiba no entanto que a pequena Volanges já fez andar uma cabeça à roda.O jovem Danceny está louco por ela; e na verdade ela canta melhor do que é dado a uma pensionista de convento. É quase certo que ensaiam muitos duetos e ia jurar que de bom grado ela se prestaria ao uníssono; mas este Danceny é
  12. 12. 12 uma criança que perderá o seu tempo em galanteios sem chegar a nada de positivo.Pelo seu lado a pequenota é bastante arisca; e,seja o que for que aconteça,sempre há-de ser menos divertido do que se o Visconde se resolvesse a intervir.Por isso estou aborrecida e com certeza o Cavaleiro ouvirá ralhar à sua chegada. Eu aconselho-o a ser submisso,pois neste momento não me custaria nada romper com ele.Estou certa de que,se eu tivesse a boa lembrança de o deixar neste momento,ele ficaria cheio de desespero; e nada me diverte tanto como um desespero amoroso. Chamar-me-ia pérfida,e essa palavra sempre me deu prazer; , depois da palavra "cruel",é a mais doce para os ouvidos de uma mulher,e a que dá mais trabalho a merecer.Falando sério vou ocupar-me deste rompimento.Aqui está um acontecimento de que o Visconde será o causador! Ponho-o sobre a sua consciência. Adeus.Recomende-me às orações da sua Presidente. Paris, 7 de Agosto de 17* * CARTA VI O VISCONDE DE VALMONT A MARQUESA DE MERTEUIL É pois certo não existir mulher alguma que não abuse do ascendente que conquistou! E mesmo a senhora, a quem tantas vezes chamei indulgente amiga, deixou enfim de o ser, e não receia atacar-me no objecto das minhas afeições! Com que traços ousou pintar Madame de Tourvel!... Que homem não teria pago com a vida essa insolente audácia? Que outra mulher que não fosse a Marquesa teria podido enunciá-la sem suscitar da minha parte uma pequena vingança? Por favor, não me submeta a tão rudes provas; não garanto que as possa suportar. Em nome da amizade, espere que eu possua essa mulher, se quiser dizer mal dela. Não sabe que só a volúpia tem o direito de dissipar a cegueira do amor? Mas que digo eu? Acaso Madame de Tourvel tem necessidade de ilusão? Não; para ser adorável basta-lhe ser ela própria. Censura-a a Marquesa por se vestir mal; estou de acordo: todos os vestuários a prejudicam; tudo o que a esconde a desfeia. É no abandono do trajo caseiro que ela é verdadeiramente encantadora. Graças aos calores opressivos que sofremos, um simples roupão de pano deixa-me ver as suas formas redondas e flexíveis. Uma ligeira musselina cobre-lhe a garganta; e os meus olhares furtivos, mas penetrantes, descobriram-lhe já as linhas sedutoras. O seu rosto, diz a Marquesa, não tem nenhuma expressão. E que poderia exprimir, nos momentos em que nada lhe fala ao coração? Não, sem dúvida, ela não tem, como as presumidas mulheres do nosso meio, aquele olhar mentiroso que nos seduz algumas vezes e nos engana sempre. Não sabe
  13. 13. 13 cobrir o vazio de uma frase com um sorriso estudado; e embora tenha os mais belos dentes do mundo, não costuma rir senão do que a diverte. No entanto é preciso ver como, nos jogos engraçados, ela oferece a imagem de uma alegria ingénua e franca! Como, junto de um infeliz que ela se apressa a socorrer, o seu olhar anuncia o contentamento puro e a bondade compadecida! É preciso ver, principalmente à menor palavra de elogio ou de afago, desenhar-se, no seu rosto celeste, o comovente embaraço de uma modéstia que não é fingida. Modesta e devota, é-o sem dúvida, mas daí a julgá-la fria e inanimada!... O que penso dela é bem diferente. Que extraordinária sensibilidade não deve ter para beneficiar com ela o marido, e para amar sempre um ser sempre ausente! Que prova mais forte se pode desejar? Todavia, consegui descobrir mais uma. Quando há dias saímos a passear, arranjei as coisas de maneira que nos foi necessário transpor um barranco; e, embora muito lesta, Madame de Tourvel é ainda mais tímida. É fácil de ver que uma mulher virtuosa tem sempre receio de saltar o barranco. Foi-lhe necessário confiar-se à minha pessoa. Tive nos meus braços essa mulher modesta. Os nossos preparativos e a passagem da minha velha tia tinham feito rir às gargalhadas a jovial devota: mas, no momento em que a agarrei, por um movimento propositadamente desastrado, os nossos braços enlaçaram-se mutuamente. Apertei o seu seio contra o meu; e, nesse curto intervalo, senti o seu coração bater mais rápido. O rosto coloriu-se-lhe de uma adorável vermelhidão, e no seu pudibundo embaraço pude ver que o seu coração tinha palpitado de amor e não de receio. Entretanto minha tia enganou-se - como a minha amiga - e disse: "A criança teve medo"; mas a encantadora ingenuidade da criança não lhe permitiu a mentira, e fez que ela respondesse singelamente: "Oh! Não, mas.... Esta simples palavra esclareceu-me. Desde aquele momento, a doce esperança substitui a cruel inquietação. Possuirei esta mulher; hei-de arrebatá-la ao marido, que a profana: ousarei roubá-la ao próprio Deus que ela adora. Que delícia ser alternadamente o objecto e o vingador dos seus remorsos! Longe de mim a ideia de destruir os preconceitos que a rodeiam! Servirão para aumentar a minha felicidade e a minha glória. Que creia na virtude, mas que a sacrifique por mim; que as suas faltas a aterrem sem poder evitá-las; e que, agitada de mil terrores, ela não possa esquecê-los, vencê-los senão nos meus braços. Consentirei então que ela me diga: "Adoro-te" ; ela só, entre todas as mulheres, será digna de pronunciar essa palavra. Eu serei, verdadeiramente, o Deus que ela prefere. Falemos de boa fé: nas nossas combinações tão frias como fáceis, aquilo a que chamamos felicidade é apenas prazer. Poderei confessar-lho? Pensava eu que o meu coração estava gasto, e, encontrando em mim apenas os sentidos, lastimava a minha velhice prematura. Madame de Tourvel restituiu-me as encantadoras
  14. 14. 14 ilusões da juventude. Junto dela, não tenho necessidade de prazer para ser feliz. A única coisa que me mete medo é o tempo que me vai tomar esta aventura; pois não ouso deixar nada ao acaso. Muito embora me lembrem as minhas audácias bem sucedidas, não posso resolver-me a pô-las em prática. .Para que eu seja verdadeiramente feliz; é preciso que ela se dê; e não é pequena empresa. Estou certo de que a Marquesa admiraria a minha prudência. Ainda não pronunciei a palavra amor; mas já chegámos às palavras confiança e interesse. Para a enganar o menos possível, e principalmente para prevenir o efeito das murmurações que poderiam chegar aos seus ouvidos, descrevi-lhe eu próprio, como acusando-me, alguns dos meus defeitos mais conhecidos. A Marquesa havia de rir se visse a candura com que ela me faz sermões. Diz ela que quer converter-me. Nem ela imagina ainda o que lhe virá a custar tal tentativa. Está longe de pensar que defendendo, como ela diz, as infortunadas que eu levei à perdição, advoga de antemão a sua própria causa. Esta ideia veio-me ontem no meio de uma das suas prédicas, e eu não pude recusar-me ao prazer de a interromper, para lhe afirmar que falava como um profeta. Adeus, minha bela amiga. Bem vê que não estou perdido sem recurso. * P. S . - A propósito, esse pobre Cavaleiro, matou-se de desespero? Em boa verdade, a Marquesa é uma pessoa cem vezes pior do que eu, e sentir-me-ia humilhado se tivesse amor-próprio. Do Castelo de..., 9 de Agosto de 17 CARTA VII CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY Se nada te disse do meu casamento, é porque não estou mais adiantada do que no primeiro dia. Acostumo-me a não pensar nisso e sinto-me muito bem no meu género de vida. Estudo muito canto e harpa; parece-me que gosto mais desses estudos desde que não tenho professor, ou antes, desde que tenho um professor melhor. O Cavaleiro Danceny, aquele senhor de que falei, e com quem cantei em casa de Madame de Merteuil, tem a bondade de vir aqui todos os dias, e de cantar comigo horas inteiras. É extremamente amável. Canta como um anjo, e compõe lindas músicas para as quais escreve também as palavras. É pena que ele seja Cavaleiro de Malta! Acredito que, se ele se
  15. 15. 15 casasse, a mulher seria muito feliz... É cativante a doçura do seu trato. Diz coisas sem ar de galanteio, e no entanto tudo o que ele diz agrada. Conversa muito comigo, sobre a música e sobre outras coisas; mas sabe insinuar nas suas críticas tanto interesse e animação, que é impossível não lhe agradecer. Simplesmente, quando olha para nós, tem o ar de dizer qualquer coisa que nos prende. Além de tudo isto, é muito paciente. Ontem, por exemplo, tinha sido convidado para um grande concerto; preferiu ficar todo o serão comigo e com a Mamã. Isto deu-me muito prazer, pois, quando ele não está, ninguém fala comigo e aborreço-me; ao passo que quando ele está presente, cantamos em conjunto e conversamos. Tem sempre alguma coisa para me dizer. Ele e Madame de Merteuil são as duas únicas pessoas amáveis que encontrei. Mas tenho de dizer-te adeus, minha querida amiga: prometi que teria hoje estudada uma arieta de acompanhamento muito difícil, e não quero faltar à minha palavra. Vou lançar-me ao estudo até que ele venha. 7 de Agosto de 17 * * CARTA VIII A PRESIDENTE DE TOURVEL A MADAME DE VOLANGES Ninguém pode ser mais sensível do que eu, senhora, à confiança que me testemunhais, nem ter maior interesse do que eu pelo futuro casamento de Mademoiselle de Volanges. De toda a minha alma lhe desejo uma felicidade da qual não duvido que ela seja digna, e para a qual contribuirá sem dúvida a prudência de que tendes dado prova. Não conheço o senhor Conde de Gercourt; mas, honrado com a vossa escolha, só posso ter dele uma ideia muito lisonjeira. Limito-me, senhora, a desejar para esse casamento um resultado tão feliz como o do meu, que é igualmente obra vossa, e pela qual cada vez sinto maior reconhecimento. Que a felicidade de vossa filha seja a recompensa da que conseguistes para mim; e possa a melhor das amigas ser também a mais feliz das mães! Sinto-me verdadeiramente penalizada por não poder oferecer-vos de viva voz a homenagem deste voto sincero, nem travar conhecimento com Mademoiselle de Volanges tão cedo como desejais. Depois de ter beneficiado das vossas bondades verdadeiramente maternais, tenho o direito de esperar dela a amizade terna de uma irmã. Rogo-vos, senhora, que lhe façais este pedido da minha parte, esperando estar à altura de merecê-la. Conto ficar no campo durante todo o tempo da ausência do Senhor de Tourvel. Serve-me esse tempo para gozar e aproveitar
  16. 16. 16 da companhia de Madame de Rosemonde. Esta senhora mantém sempre o seu encanto; a idade nada lhe fez perder. Conserva toda a sua memória e animação. Só o seu corpo tem oitenta e quatro anos; o espírito tem apenas vinte. O nosso isolamento é alegrado por seu sobrinho, o Visconde de Valmont, que teve a bondade de nos sacrificar alguns dias. Conhecia-o apenas pela sua reputação, a qual me não fazia desejar conhecê-lo melhor; mas parece-me que vale mais do que ela. Aqui, onde turbilhão do mundo não o prejudica, diz coisas razoáveis com uma espantosa facilidade e acusa-se do mal que tem praticado com uma candura rara. Fala-me sempre com muita confiança e eu prego-lhe os meus sermões com muita severidade. Vós, que o conheceis, devereis convir que seria uma bela conversão a fazer: mas eu não tenho dúvidas de que, apesar das suas promessas, oito dias de Paris lhe façam esquecer todas as minhas prédicas. A sua estada aqui será pelo menos um intervalo na sua conduta habitual: e eu creio que, atendendo à sua maneira de viver, o que ele pode fazer de melhor é não fazer nada. Sabendo que estou ocupada a escrevermos, encarregou-me de vos apresentar as suas homenagens respeitosas. Aceitai também as minhas com a bondade que vos conheço, e não duvideis nunca dos sentimentos sinceros com que tenho a honra de ser, etc. Do castelo de..., 9 de Agosto de 17. CARTA IX MADAME DE VOLANGES A PRESIDENTE DE TOURVEL Nunca duvidei nunca, minha jovem e bela amiga, nem da amizade que tendes por mim, nem do interesse sincero que tomais em tudo que me diz respeito. Não é para esclarecer esse ponto, que espero esteja assente para sempre entre nós, que respondo à vossa resposta: mas julgo que não poderei dispensar-me de conversar convosco a respeito do Visconde de Valmont. Confesso que não esperava vir a encontrar o nome desse senhor nas vossas cartas. De facto, que pode haver de comum entre vós e ele? Vê-se bem que não conheceis esse homem; pois onde poderíeis ter aprendido a fazer ideia do que é a alma dum libertino? Falais-me da sua rara candura. Ah, sim: a candura de Valmont deve ser de facto muito rara. Ele é ainda mais falso e perigoso do que amável e sedutor, e nunca, desde que atingiu a idade viril, nunca deu um passo ou disse uma palavra sem ter um projecto, e nunca teve um projecto que não fosse criminoso ou desonesto. Minha amiga, conheceis-me bem; bem sabeis que, entre as virtudes que me empenho em adquirir, a indulgência
  17. 17. 17 não é daquelas que mais prezo. Por isso, se Valmont fosse arrastado por paixões ardentes; se, como tantos outros, ele tivesse sido seduzido pelos erros da juventude, embora censurasse a sua conduta, eu lamentaria a sua pessoa, e esperaria, em silêncio, a hora em que um regresso feliz o fizesse reconquistar a estima das pessoas honestas. Mas Valmont não é capaz de tal: o seu comportamento é o resultado dos seus princípios. Sabe fazer o cálculo do que um homem pode permitir-se de horrores sem se comprometer; e para ser cruel e mau sem perigo, escolheu por vítimas as mulheres. Não perderei tempo a contar as que ele seduziu; mas quantas delas lançou na perdição? Essas escandalosas aventuras não chegaram ao vosso conhecimento, na vida recatada e simples que tendes levado. Poderia contar-vos coisas que vos fariam estremecer; mas os vossos olhos, puros como a vossa alma, seriam conspurcados por semelhantes quadros. Estou certa de que Valmont não será para vós um perigo, e por isso não tendes necessidade de semelhantes armas para vos defenderdes. A única coisa que tenho a dizer-vos é que, de todas as mulheres que ele distinguiu, com êxito ou não, nenhuma deixou de ter motivo de queixa. Só a Marquesa de Merteuil faz excepção a esta regra geral; só ela soube resistir-lhe e desarmar a sua maldade. Confesso que esse momento da vida da Marquesa é o que mais a honra a meus olhos: chega para justificar plenamente aos olhos de todos de algumas inconsequências que haveria a censurar-lhe quando do princípio da sua viuvez. Seja como for, minha boa amiga, o que a idade, a experiência e principalmente a amizade me autorizam a dizer-vos, é que na sociedade se começa a notar a ausência de Valmont; e que, caso se venha a saber que ele ficou algum tempo como terceiro entre sua tia e vós, a vossa reputação ficará entre as mãos dele. E esta será a maior desgraça que pode acontecer a uma mulher. Aconselho-vos pois a conseguir da tia que o não retenha por mais tempo; e, se ele teimar em ficar, creio que não deveis hesitar em ceder-lhe o lugar. Mas por que há-de ele ficar aí? Que faz ele no campo? Se tivésseis alguém a espiar os seus passos, estou certa de que descobriríeis que ele apenas escolheu um asilo mais cómodo, para algumas negras acções que pensa praticar por esses sítios. Mas, na impossibilidade de remediar o mal, contentamo-nos em preservar-nos dele. Adeus, minha boa amiga. O casamento de minha filha está um pouco retardado. O Conde de Gercourt, que esperávamos de um dia para o outro, mandou-me dizer que o seu regimento vai para a Córsega; e, como há ainda alguma agitação devido à guerra, ser-lhe-á impossível ausentar-se antes do Inverno. Isso contraria-me; mas autoriza-me a esperar que teremos o prazer de vos ver na boda, e aborrecia-me que tal acontecimento não tivesse a vossa presença. Adeus; estou, para além das convenções e sem reserva, inteiramente ao vosso dispor.
  18. 18. 18 P. S . - Lembranças minhas para Madame de Rosemonde, a quem aprecio tanto como ela merece. 1 de Agosto de 17* * CARTA X A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT Está amuado comigo, Visconde? Ou dar-se-á o caso que tenha morrido? Ou, o que se pareceria muito com isso, não vive senão para a sua Presidente? Essa mulher, que o faz reviver as ilusões da juventude, dentro em pouco o fará reviver também os ridículos preconceitos dessa idade. Eis o Visconde tímido e escravo; o que vale tanto como estar apaixonado. Renunciou às suas felizes temeridades. Ei-lo pois a conduzir-se sem princípios, deixando tudo ao acaso, ou antes, ao capricho. Não lhe ocorreu que o amor é, como a medicina, somente a arte de ajudar a Natureza? Bem vê que estou a batê-lo com as suas armas; mas não me sinto orgulhosa por isso, pois é bater num homem caído. É preciso que ela se dê, diz-me o Visconde; oh !, sem dúvida, é preciso. Ela há-de entregar-se como as outras, com a diferença de que o fará de má vontade. Mas, para que ela acabe por se entregar, o verdadeiro meio é começar por obrigá-la. A que ponto esta ridícula distinção é um verdadeiro despropósito do amor! Eu digo do amor: porque o Visconde está apaixonado. Falar-lhe de maneira diferente seria traí-lo; seria esconder-lhe a sua doença. Diga-me, pois, ó langoroso amante, julga ter violado as mulheres que possuiu? Mas, por muito desejo que uma múlher tenha de se entregar, por muito apressada que esteja, ainda lhe é preciso um pretexto; e haverá algum mais cómodo para nós do que aquele que nos dá a aparência de ceder à força? Por mim, confesso-o, uma das coisas que mais me lisonjeiam é um ataque vivo e bem feito, no qual tudo se sucede com ordem embora com rapidez; que não nos põe nunca naquela penosa confusão de termos nós próprias um desacerto de que ao contrário devíamos aproveitar; que sabe manter o ar de violência até nas coisas que concedemos, e lisonjear com habilidade as nossas duas paixões favoritas, a glória da defesa e o prazer da derrota. Convenho que esse talento, mais raro do que se supõe, me deu sempre prazer, mesmo quando não chegou a seduzir-me, e que algumas vezes me aconteceu render-me unicamente como recompensa. Tal como nos nossos antigos torneios, a Beleza dava o prémio do valor e da destreza. Mas o senhor, o senhor que já não é o mesmo, conduz-se
  19. 19. 19 como se tivesse medo de vencer. Oh! Desde quando é que viaja por pequenas jornadas e por amigo, quando se quer chegar, empregam-se cavalos de posta e toma-se a estrada principal! Mas deixemos esse assunto, que me aborrece tanto mais quanto me priva do prazer de o ver. Pelo menos escreva-me mais vezes do que o faz, e ponha-me ao corrente dos seus progressos. Já reparou que há mais de quinze dias que esta ridícula aventura o preocupa, e que abandonou todo o convívio? A propósito, o Visconde parece-se com aquelas pessoas que mandam regularmente saber notícias dos seus amigos doentes, mas que nunca esperam pela resposta. No final da sua última carta, perguntava-me se o Cavaleiro tinha morrido. Não respondi, e o Visconde não se inquietou mais por isso. Esqueceu porventura que o amante é seu amigo nato? Mas tranquilize-se, não morre; ou, se tivesse morrido, seria por excesso de alegria. Aquele pobre Cavaleiro, como ele é terno! como ele é feito para o amor! como ele sabe sentir vivamente! Isto põe-me a cabeça à roda. Falando sério, a felicidade perfeita que ele encontra em ser amado por mim liga-me verdadeiramente a ele. No mesmo dia em que lhe escrevi dizendo que ia provocar o rompimento, a que ponto o tornei feliz! No entanto, estava-me ocupando dos melhores meios de o fazer desesperar, quando mo anunciaram. Fosse capricho ou raciocínio, nunca ele me pareceu tão bem. Recebi-o entretanto de mau humor. Ele esperava passar duas horas comigo, antes que a minha porta se abrisse para toda a gente. Disse-lhe que ia sair; perguntou-me onde ia; recusei-me a dizer-lho. Ele insistiu. Onde o senhor não estiver, repliquei-lhe eu, com azedume. Felizmente para ele, ficou petrificado com esta resposta; pois, se ele tivesse dito uma palavra, seguir-se-ia infalivelmente uma cena que teria precisamente o rompimento que eu projectava. Admirada com o seu silêncio, lancei os olhos sobre ele sem outro projecto, juro-lhe, que o de ver a expressão com que ficara. Tornei a ver naquele rosto encantador uma tristeza, ao mesmo tempo profunda e terna, à qual o próprio Visconde tem de concordar que é difícil resistir. A mesma causa produziu o mesmo efeito; fui vencida pela segunda vez. Desde esse momento, só me ocupei da maneira de evitar que ele pudesse achar nas minhas palavras qualquer agravo. "Saio para tratar de um assunto", disse-lhe eu com um ar um pouco mais doce, "e esse assunto diz-lhe respeito; mas não me interrogue. Ceio em minha casa; volte, e saberá de que ". se trata." Foi então que ele recuperou a palavra: mas não lhe permiti que fizesse uso dela. "Estou com muita pressa", continuei. " Deixe-me; até logo à noite. " Beijou-me a mão e saiu. Nesse momento, para o recompensar, ou talvez para me recompensar a mim própria, resolvi dar-lhe a conhecer a minha casinha, de cuja existência ele não suspeita. Chamo a minha fiel Vitória. Veio-me a enxaqueca; deito-me para todos os meus criados; e, ficando enfim só com a verdadeira, enquanto ela se
  20. 20. 20 vestia de lacaio, disfarcei-me de criada de quarto. Em seguida ela mandou vir um fiacre à porta do jardim, e partimos juntas. Chegada àquele templo de amor, escolhi o roupão mais galante. É um vestuário delicioso, de minha invenção: não deixa ver nada, e faz adivinhar tudo. Prometo dar-lhe o modelo para a sua Presidente, quando o Visconde a tiver tornado digna de o usar. Depois destes preparativos, enquanto Vitória se ocupava de outros pormenores, li um capítulo do Sofá, uma carta de Heloisa e dois contos de La Fontaine, para recordar os diferentes tons que eu queria tomar. Entretanto o Cavaleiro chega à minha porta, com a pressa que tem sempre. O porteiro não o deixa entrar, e diz-lhe que adoeci: primeiro incidente. Entrega-lhe ao mesmo tempo um bilhete meu, mas não com a minha letra, segundo a minha regra de prudência. Ele abre-o, e encontra escrito pela mão de Vitória: "Às nove em ponto, no Boulevard, em frente dos cafés." Dirige-se para lá; e, ali, um pequeno lacaio que ele não conhece, que ele julga pelo menos não conhecer, pois é sempre Vitória, vem-lhe anunciar que é preciso mandar embora a carruagem e segui-lo. Todas estas peripécias romanescas lhe esquentavam a cabeça, e uma cabeça esquentada nada prejudica. Por fim chega, e a surpresa e o amor causam nele um verdadeiro encantamento. Para lhe dar tempo a recompor-se passeamos um momento no parque; depois encaminho-o para casa. Ele vê primeiro dois talheres postos; depois uma cama feita. Passamos ao quarto de vestir, que estava em todo o seu esplendor. Ali, metade por reflexão, metade por sentimento, passei os meus braços em volta dele e deixei-me cair a seus pés: "Ó meu amigo!", disse-lhe eu, "para poder preparar-te a surpresa deste momento, censuro-me por te ter afligido com a aparência do meu mau humor; por ter um instante velado o meu coração aos teus olhares. Perdoa-me os agravos; quero expiá-los à força de amor." O Visconde julgará do efeito deste discurso sentimental. O feliz Cavaleiro levantou-me, e o meu perdão foi selado sobre aquela otomana onde o Visconde e eu selámos tão alegremente e da mesma maneira a nossa eterna separação. Como tínhamos seis horas para passarmos juntos e eu tinha resolvido que todo esse tempo fosse para ele igualmente delicioso, moderei os seus transportes, e a amável coqueteria veio substituir a ternura. Julgo que nunca pus tanto empenho em agradar, e que nunca estive tão satisfeita de mim própria. Depois da ceia, alternadamente criança e razoável, folgazã e sensível, por vezes mesmo libertina, aprouve-me considerá-lo como um sultão em meio do serralho, do qual eu era de cada vez uma favorita diferente. Na verdade, ao passo que ele repetia as suas homenagens, se elas eram sempre dirigidas à mesma mulher, era sempre uma nova amante que as recebia. Enfim, ao raiar do dia foi preciso separarmo-nos; e o que ele me disse, o que ele fez mesmo para me provar o contrário, tudo
  21. 21. 21 mostrava que a necessidade era maior que o desejo. No momento em que saíamos e por último adeus, tomei a chave daquele feliz refúgio, e pondo-lha entre as mãos, disse: "É só para si que a tenho. é justo que seja o seu dono. O sacrificador deve dispor do templo." Com esta habilidade preveni as reflexões que ele poderia fazer sobre a propriedade, sempre suspeita, duma casa pequena. Conheço-o bastante para estar certa de que não se servirá dela senão para mim; e se eu tivesse a fantasia de lá ir sem ele, sempre me restava outra chave. Ele queria à viva força marcar data para lá voltarmos; mas eu amo-o ainda demasiado para querer gastá-lo tão depressa. Só devemos permitir-nos excessos com as pessoas que cedo queremos deixar. Ele não o sabe; mas, felizmente para ele, eu sei-o por dois. Reparo agora que são três da manhã, e que escrevi um volume, quando formara o projecto de escrever apenas uma palavra. Tal é o encanto da amizade confiante: é ela que faz que seja o Visconde quem amo mais; mas, na verdade, o Cavaleiro é quem mais me agrada. 12 de Agosto de 17* * CARTA XI A PRESIDENTE DE TOURVEL A MADAME DE VOLANGES A vossa severa carta ter-me-ia assustado, senhora, se, por felicidade, eu não encontrasse aqui mais motivos de tranquilidade do que os de temor que me ofereceis. Esse temível senhor de Valmont, que deve ser o terror de todas as mulheres, parece ter deposto as suas armas mortíferas antes de entrar neste castelo. Longe de vir aqui formar os seus projectos, nem mesmo trouxe quaisquer pretensões; e a qualidade de homem amável, que até os seus inimigos lhe concedem, quase desaparece aqui, para não deixar senão a de bom rapaz. Foi aparentemente o ar do campo que produziu este milagre. O que posso assegurar-vos é que, estando constantemente ao pé de mim, parecendo mesmo que isso lhe agrada, não lhe escapou ainda uma palavra que se pareça com o amor, nem uma dessas frases que todos os homens se permitem, sem ter, como ele, o que é necessário para as justificar. Nunca ele obriga àquela reserva na qual hoje é obrigada a manter-se toda a mulher que se respeita, para conter os homens que a rodeiam. Sabe não abusar da animação que inspira. É talvez um pouco pródigo em louvores; mas é com tanta delicadeza que o faz, que obrigaria a própria modéstia a habituar-se ao elogio. Enfim, se eu tivesse um irmão, desejaria que ele fosse tal como o senhor de Valmont se mostra aqui. Talvez muitas mulheres
  22. 22. 22 desejassem da sua parte uma galanteria mais marcada; e confesso que lhe estou infinitamente grata por ele me julgar de uma forma que lhe permite não me confundir com elas. Este retrato difere muito sem dúvida do que me fizestes; e, apesar disso, ambos podem estar parecidos, se fixarmos as épocas. Ele próprio concorda ter cometido muitos erros, e com certeza lhe terão atribuído alguns outros. Mas até agora encontrei poucos homens que falassem de mulheres honestas com mais respeito, direi quase entusiasmo. Sob esse aspecto, vós mesma me fizeste saber que ele não engana. A sua conduta em relação a Madame de Merteuil é disso prova. Fala-nos muito dela; e é sempre com tantos elogios e dando mostras de uma dedicação tão verdadeira, que cheguei a crer, antes da recepção da vossa carta, que aquilo que ele chamava amizade entre os dois fosse realmente amor. Acuso-me desse julgamento temerário, o qual foi tanto mais erróneo quanto é certo que ele mesmo tomou a seu cargo, por várias vezes, o cuidado de a justificar. Confesso que tomei por delicadeza o que da sua parte era sinceridade autêntica. Não sei; mas parece-me que aquele que é capaz de uma amizade tão contínua por uma mulher tão estimável, não é um libertino sem resgate. Ignoro, no entanto, se o comportamento recto que ele mantém aqui se deve a alguns projenos por estes sítios, conforme a vossa suposição. É certo que por estas cercanias há algumas mulheres interessantes; mas ele sai pouco, excepto de manhã, e então diz que vai caçar. É verdade que raramente traz caça; mas assegura que é desastrado nesse exercício. Demais, o que ele faz lá por fora inquieta-me pouco; e se eu desejasse sabê-lo, seria apenas para ter mais um motivo que me aproximasse da vossa opinião ou que vos conduzisse à minha. Acerca da vossa proposta de trabalhar no sentido de abreviar o tempo que o senhor de Valmont conta aqui estar, parece-me muito difícil ousar pedir a sua tia que não tenha o sobrinho junto dela, tanto mais que gosta muito dele. Prometo-vos, todavia, mas somente por deferência e não por necessidade, aproveitar a primeira ocasião para fazer esse pedido, quer a Madame de Rosemonde, quer a ele próprio. Quanto a mim, o senhor de Tourvel é conhecedor do meu projecto de ficar aqui até ao seu regresso, e havia de admirar-se, com razão, da ligeireza que me fizesse mudar de projecto. São bem longos, senhora, estes esclarecimentos; mas julguei dever à verdade um testemunho favorável para o senhor de Valmont, e do qual ele me parece ter grande necessidade junto de vós. Nem por isso sou menos sensível à amizade que ditou os vossos conselhos. É a ela que fico devendo também as vossas penhorantes informações sobre a demora do casamento de vossa filha. Agradeço-vos muito sinceramente: mas, embora me dê prazer a ideia de passar esses momentos convosco, sacrificá-los-ia de bom grado ao desejo de saber Mademoiselle de Volanges mais cedo feliz, se é que ela pode vir a sê-lo mais do que
  23. 23. 23 junto de uma mãe tão digna de toda a sua ternura e do seu respeito. Partilho com ela os doces sentimentos que me prendem a vós, e peço-vos que aceiteis a expressão deles com bondade. Tenho a honra de ser, etc. 13 de Agosto de 17 * CARTA XII CECÍLIA VOLANGES A MARQUESA DE MERTeuil A Mamã está incomodada, minha senhora; não pode sair hoje, e eu tenho de fazer-lhe companhia. Por esse motivo não terei a honra de vos acompanhar à Ópera. - Asseguro-vos que lamento bem mais não estar convosco do que o espectáculo. Peço-vos que acrediteis. Tenho por vós tanta amizade! Tereis a bondade de dizer ao Cavaleiro Danceny que não tenho a colecção de que ele me falou, e que se ma puder trazer amanhã me dará -grande prazer. Se ele vier hoje, dir-lhe-ão que não estamos; mas é a Mamã que não quer receber ninguém. Espero que ela amanhã esteja melhor. Tenho a honra de ser, etc. 13 de Agosto de 17 * * CARTA XIII A MARQUESA DE MERTEUIL A CECÍLIA DE VOLANGES Fiquei muito aborrecida, minha linda, por ser privada do prazer de a ver, bem como pelo motivo dessa privação. Espero que outra ocasião se encontrará. Desempenhar-me-ei da sua comissão junto do Cavaleiro Danceny, que certamente ficará muito aborrecido por saber sua Mamã doente. Se ela amanhã me quiser receber, irei fazer-lhe companhia. Faremos um ataque, ela e eu, ao Cavaleiro de Belleroche ao piquet, e, além de lhe ganharmos o seu dinheiro, teremos, por acréscimo de prazer, o de a ouvirmos cantar com o seu amável mestre; encarrego-me de lhe fazer o pedido. Se isso convier a sua Mamã e a si, respondo por mim e pelos meus dois Cavaleiros. Adeus, minha linda; os meus cumprimentos à minha querida Madame de Volanges.
  24. 24. 24 Beijo-a muito ternamente. 13 de Agosto de 17* * CARTA XIV CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY Ontem não te escrevi, minha querida Sofia; mas não foi o prazer o motivo, posso jurar-te. A Mamã esteve doente, e não a deixei em todo o dia. À noite, quando me retirei, não tive cabeça para nada; e deitei-me muito depressa, para ter a certeza de que o dia tinha acabado. Nunca tinha passado nenhum tão comprido. Não é que eu não goste da Mamã, mas não sei o que era. Devia ir à Ópera com Madame de Merteuil; o Cavaleiro Danceny devia lá estar. Bem sabes que são as duas de quem eu mais gosto. Quando chegou a hora em que devia ir ter com eles, senti o coração apertado, contra minha vontade. Tudo me aborrecia, e chorei, chorei, sem conseguir impedi-lo. Felizmente a Mamã estava deitada, e não podia ver-me. Estou bem certa de que o Cavaleiro Danceny também ficou aborrecido; mas deve ter-se distraído com o espectáculo e com toda agente que o rodeava. Foi muito diferente. Por felicidade, a Mamã está hoje melhor, e Madame de Merteuil virá com outra pessoa e com o Cavaleiro Danceny; mas chega sempre muito tarde, Madame de Merteuil; e quando se esteve tanto tempo sozinha, é muito aborrecido. São apenas onze horas. É verdade que tenho de tocar harpa; e depois levarei algum tempo a vestir-me e a arranjar-me, pois hoje quero estar muito bem penteada. Parece-me que madre Perpétua tem razão e que uma pessoa se torna garrida quando vive em sociedade. Nunca tive tanto desejo de ser bonita como de há alguns dias para cá, e acho que não o sou tanto como pensava; e depois, junto de mulheres que se pintam, fica-se a perder muito. Madame de Merteuil, por exemplo: vejo bem que todos os homens a acham mais bonita do que eu. Não me importo muito, porque ela é minha amiga. E além disso ela afirma-me que o Cavaleiro Danceny me acha mais bonita do que ela. É muito honesto da sua parte ter-mo dito! Até parece que estava contente em mo dizer. Aí está uma coisa que eu não compreendo. É porque ela gosta muito de mim! E ele!... Oh!, foi uma coisa que me deu muito prazer! Por isso, até,me parece que só de olhar para ele uma pessoa fica bonita. Eu estaria a olhar sempre para ele, se não tivesse receio de encontrar os seus olhos: pois, todas as vezes
  25. 25. 25 que tal me acontece, fico confusa, e parece que me dá pena; mas isto nada quer dizer. Adeus, minha querida amiga. Vou-me pôr diante do espelho. Continuo a gostar de ti como sempre. Paris, 14 de Agosto de 17 * *. CARTA XV O VISCONDE DE VALMONT A MARQUESA DE MERTEUIL É muito honesto da sua parte não me abandonar à minha triste sorte. A vida que levo aqui é realmente fatigante, pelo excesso de repouso que me proporciona e pela sua insípida uniformidade. Lendo a sua carta e os pormenores do seu dia encantador, estive vinte vezes tentado a pretextar um negócio, voar a seus pés e pedir-lhe, em meu favor, uma infidelidade ao seu Cavaleiro, que, no fim de tudo, não merece a felicidade de que desfruta. Sabe a Marquesa que me pôs ciumento dele? Por que me fala da eterna separação? Renego esse juramento, pronunciado em delírio: não seríamos dignos de o fazer, se fôssemos obrigados a mantê-lo. Ah! Que eu possa um dia vingar-me nos seus braços do ciúme involuntário que me causou a felicidade do Cavaleiro! Estou indignado, confesso, só de pensar que esse homem, sem raciocinar, sem se dar ao menor trabalho, limitando-se a seguir totalmente o instinto do seu coração, encontra uma felicidade que eu não atingirei nunca. Oh! Hei-de perturbá-la... Prometa-me que serei eu a perturbá-la. A Marquesa mesmo não se sente humilhada? Tem trabalho para o enganar, e ele é dos dois o mais feliz. Julga que o tem preso nas suas malhas! É a Marquesa que o está nas dele. Enquanto vela pelos seus prazeres, ele dorme tranquilamente. Que faria de mais se fosse sua escrava? Saiba-o, minha bela amiga, enquanto se divide entre vários, não sinto o mínimo ciúme: não vejo então nos seus amantes senão os sucessores de Alexandre, incapazes de conservar, todos juntos, aquele império onde eu reinei só. Mas que se entregue inteiramente a um deles! Que exista outro homem tão feliz como eu! Não posso sofrê-lo; não espere que eu o sofra. Ou readmita-me, ou pelo menos arranje outro; e não queira trair, por um capricho exclusivo, a amizade inviolável que nos jurámos mutuamente. É o momento, sem dúvida, de lhe confessar as minhas queixas amorosas. Bem vê que me presto às suas ideias, e que confesso os meus erros: Na verdade, se estar apaixonado é não poder viver sem possuir o que se deseja, sacrificar a essa ideia o
  26. 26. 26 tempo, os prazeres; a vida, então é certo que estou realmente apaixonado. Não estou mais avançado do que estava. Não teria mesmo mais nada a contar-lhe a esse respeito se não fosse um acontecimento que me dá muito que pensar, e que não sei ainda se deve inspirar-me receio ou esperança. A Marquesa conhece o meu criado, tesouro de intriga e verdadeiro lacaio de comédia: e bem pode imaginar que entre as suas atribuições cabe a de se apaixonar pela criada de quarto, e a de perturbar as pessoas. O patife é mais feliz do que eu: já conseguiu uma vitória. Acaba de descobrir que Madame de Tourvel encarregou uma criatura sua de tirar informações sobre a minha conduta, e mesmo de me seguir nos meus passeios de manhã, até onde possa, sem que alguém se aperceba. Que pretende esta mulher? Assim pois a mais modesta de todas ousa arriscar-se a um ponto que nós mal ousaríamos permitir-nos! De que serve protestar?. . Antes de pensar em vingar-me desta astúcia feminina, ocupemo-nos do meio de a pôr ao nosso serviço. Até agora esses passeios de que se suspeita não tinham qualquer objectivo; é preciso dar-lhes um. Isto merece toda a minha atenção, e vou findar para pensar nisso. Adeus minha bela amiga. Sempre do Castelo de. . ., 15 de Agosto de 17 * *. CARTA XVI CECÍLIA VOLANGES A SOfia ÇARNAY Ah, minha Sofia, tenho novidades a dar-te! Talvez não devesse dizer: mas é preciso que eu fale nisto a alguém; é mais forte do que eu. Esse Cavaleiro Danceny... Estou tão perturbada que não posso escrever. Não sei por onde começar. Depois que te contei o lindo serão que passei com ele è com Madame de Merteuil junto da Mamã, não voltei a falar-te a seu respeito: é que eu não queria falar dele a ninguém; mas era nele que eu pensava sempre. Depois, tinha-se tornado tão triste, mas tão triste, tão triste, que me fazia pena. E quando eu lhe perguntava porquê, dizia-me que não: mas eu bem via que sim. Enfim, ontem ainda estava mais triste que de costume. Isso não impediu que tivesse a gentileza de cantar comigo, como das outras vezes; mas, sempre que olhava para mim, eu sentia apertar-se-me o coração. Depois de termos acabado de cantar, foi fechar a minha harpa no estojo; e, quando me trouxe a chave, pediu-me que tocasse ainda naquela noite, logo que me encontrasse só. Eu não desconfiei de nada; nem mesmo queria: mas ele pediu-me tanto, que lhe disse que sim. Ele tinha as suas razões. efectivamente,
  27. 27. 27 quando me retirei para o meu quarto, e assim que a criada saiu, fui buscar a harpa. Encontrei nas cordas uma carta, simplesmente dobrada, e não lacrada; era dele! Ah! Se tu soubesses o que me diz! Depois de a ter lido senti tanto prazer que nem posso pensar noutra coisa. Reli-a quatro vezes seguidas, e depois fechei-a na minha secretária. Já a sabia de cor; e depois de deitada repeti-a tantas vezes que nem pensava em dormir. Assim que fechei os olhos vi-o ao pé de mim, dizendo-me tudo quanto eu acabara de ler. Só adormeci muito tarde; e mal tinha acordado (era ainda muito cedo), fui logo buscar a carta para a tornar a ler à minha vontade. Levei-a para a cama e depois beijei-a como se... Talvez seja mal feito beijar uma carta como esta, mas a verdade é que não pude impedir-me de o fazer. * A carta em que se fala deste serão não foi encontrada. Devemos supor que é o que Madame de Merteuil propõe no seu bilhete, e de que também se fala na precedente carta de Cecília Volanges. Agora, minha querida amiga, sinto-me muito feliz, mas também muito embaraçada; pois é certo que não devo responder a esta carta. Sei bem que isso não se deve fazer, no entanto ele pede-mo; e se eu não responder, estou certa de que se vai pôr ainda mais triste. É uma desgraça para ele! Que me aconselhas tu? É claro que a este respeito não sabes mais do que eu. Tenho muita vontade de falar nisto a Madame de Merteuil, que é tão minha amiga. Bem gostaria de o consolar; mas não quero fazer nada que seja mal feito. Recomendam-nos tanto que tenhamos bom coração! E depois proíbem-nos de seguir o que ele nos inspira, quando se trata de um homem! Isto também não é justo. Por acaso um homem não é o nosso próximo, como uma mulher ou mais ainda? Pois enfim, não temos nós um pai, tal como uma mãe, um irmão, tal como uma irmã? Além disso ainda fica o marido. Mas se eu fosse fazer qualquer coisa que não fosse bem feita, talvez o próprio senhor Danceny não ficasse com boa ideia a meu respeito! Oh! Isso então era o que me faltava. Prefiro que fique triste. E depois, enfim, estou sempre a tempo. Lá porque ele escreveu ontem, não sou obrigada a escrever-lhe hoje. Esta noite verei Madame de Merteuil, e se tiver coragem conto-lhe tudo. Se fizer só o que ela me disser, nada terei a censurar-me. Talvez ela me diga que lhe responda poucochinho, para que ele não fique tão triste! Oh! Estou num momento muito difícil. Adeus, minha boa amiga. Diz-me sempre o que pensas. 19 de Agosto de 17 * *. CARTA XVII
  28. 28. 28 O CAVALEIRO DANCENY A CECÍLIA VOLANGES Antes de me entregar, Mademoiselle, àquilo que chamo o prazer ou a necessidade de lhe escrever, começo por lhe suplicar que me ouça. Sinto que, para ousar declarar-lhe os meus sentimentos, tenho precisão de indulgência; se apenas tivesse de justificá-los, ela ser-me-ia inútil. Que vou eu fazer, afinal, senão mostrar-lhe o meu íntimo? E que tenho eu a dizer-lhe que os meus olhares, o meu embaraço, a minha conduta e mesmo o meu silêncio lhe não tenham dito antes de mim? Por que se havia pois de zangar por um sentimento que fez nascer? Emanado de si, é sem dúvida digno de lhe ser oferecido; se é ardente como a minha alma, é também puro como a sua. Seria um crime ter sabido apreciar a sua figura encantadora, os seus talentos sedutores, as suas graças fascinantes, essa comovente candura que acrescenta um preço inestimável a qualidades já tão preciosas? Não, sem dúvida. Mas, mesmo não se sendo culpado, pode ser-se infeliz. E é a sorte que me espera, se se recusar a aceitar a minha homenagem. É a primeira que o meu coração até hoje a ofereceu. Se a não tivesse visto eu seria ainda, não feliz, mas tranquilo. Vi-a; o repouso fugiu para longe de mim, e o meu coração está inquieto. Admira-se da minha tristeza; pergunta-me a causa. Algumas vezes julguei ver que ela a afligia. Ah! Diga uma palavra, e a minha felicidade será obra sua. Mas, antes de a pronunciar, pense que uma palavra pode ser também o cúmulo da minha tristeza. Seja pois o árbitro do meu destino. Por si vou ser eternamente feliz ou infeliz. Em que mãos mais queridas poderia eu depositar um interesse maior? Acabarei, como comecei, por implorar a sua indulgência. Pedi-lhe que me ouvisse; ousarei mais, pedir-lhe que me responda. Recusá-lo, seria deixar-me crer que ficou ofendida, e o meu coração é garantia de que em mim o respeito iguala o amor. P. S. - Poderá servir-se, para me responder, do mesmo meio de que me sirvo para fazer chegar esta carta às suas mãos; parece-me igualmente seguro e cómodo. 18 de Agosto de 17 CARTA XVIII CECÍLIA VOLANGES A SOFIA CARNAY
  29. 29. 29 Pois quê, Sofia! Tu censuras de antemão o que eu vou fazer! Tinha já bastantes inquietações; vieste tu agora aumentá-las. É claro, dizes tu, que não devo responder. Falas disto com todo o à-vontade; mas a verdade é que não sabes ao certo do que se trata: não estás aqui para ver. Estou certa de que se estivesses no meu lugar, farias como eu. Com certeza que, de maneira geral, não se deve responder; e tu bem viste, pela minha carta de ontem, que eu própria não queria fazê-lo. Mas é que não creio que alguém se tenha visto alguma vez na situação em que me encontro. E ainda ser obrigada a decidir-me sozinha! Madame de Merteuil, que eu contava ver ontem à noite, não veio. Tudo conspira contra mim: foi ela quem teve a culpa de eu o conhecer. Foi quase sempre na presença dela que eu o vi, que lhe falei. É claro que não lhe quero mal por isso: mas o que é certo é que me abandona no momento mais difícil. Oh! Sou na verdade digna de lástima! Imagina que ontem ele veio como de costume. Eu estava tão perturbada que nem ousei olhá-lo. Ele não podia falar comigo, porque a Mamã estava presente. Tinha quase a certeza de que ele se zangaria, quando visse que eu não lhe tinha escrito. Eu não sabia o que havia de fazer. Um momento depois perguntou-me se eu queria que fosse buscar a minha harpa. O coração batia-me tão fortemente que tudo quanto pude fazer foi responder-lhe que sim. Quando ele voltou é que foi pior. Só o olhei por um momentinho. Ele nem sequer olhou para mim; mas tinha um aspecto que toda a gente diria que estava doente. Isto dava-me muita pena. Pôs-se a afinar a harpa e, depois, quando ma trouxe, disse-me: "Ah! Mademoiselle!..." Não disse mais do que essas duas palavras; mas disse-as num tal tom que fiquei completamente transtornada. Pus-me logo a tocar sem saber bem o que fazia. A Mamã perguntou-me se não cantávamos. Ele desculpou-se dizendo que estava adoentado; e eu, que não tinha qualquer desculpa, tive de cantar. Desejei então nunca ter tido voz. Escolhi de propósito uma música que não sabia, pois estava certa de que não poderia cantar nada, e assim daria a perceber que havia qualquer coisa. Felizmente entrou uma visita; e, logo que ouvi o ruído de uma carruagem, deixei de cantar e pedi-lhe que fosse arrumar a harpa. Tive muito medo que ele se fosse embora ao mesmo tempo; mas voltou. Enquanto a Mamã e a senhora que veio visitá-la conversavam juntas, quis olhar para ele ainda um instante. Encontrei os seus olhos, e foi-me impossível desviar os meus. Um momento depois vi as suas lágrimas correram, e foi obrigado a voltar-se para não ser visto. Nesse momento não tive mão em mim; senti que ia chorar também. Saí, e imediatamente escrevi a lápis, num pedaço de papel: "Não esteja tão triste, peço-lhe; prometo que
  30. 30. 30 lhe responderei." Com certeza não podes dizer que haja algum mal nisto; e depois, foi mais forte do que eu. Pus o papel nas cordas da harpa; como estava a carta dele, e voltei à sala. Sentia-me mais tranquila. Já me tardava que a senhora se fosse embora. Felizmente; foi uma visita curta; deixou-nos pouco depois. Logo que ela saiu, eu disse que queria outra vez a minha harpa, e pedi-lhe que a fosse buscar. Vi bem, pelo seu aspecto, que não desconfiava de nada. Mas quando voltou, oh!, como ele estava contente! Ao pôr a harpa na minha frente, colocou-se de maneira que a Mamã não podia vê-lo, e tomou-me a mão, que apertou... mas de uma maneira!... Foi apenas um momento; mas eu sou incapaz de te dizer o prazer que isso me deu. No entanto, retirei a mão; por isso não tenho nada a censurar-me. Agora, minha boa amiga, bem vês que não posso dispensar-me de lhe escrever, visto que lho prometi. E depois, não quero que volte a estar triste, pois eu sofreria mais do que ele. Se fosse alguma coisa de mal, eu não a faria. Mas que mal pode haver em escrever, principalmente quando é para impedir que alguém seja infeliz? O que me aborrece é saber que não sou capaz de fazer uma carta bem feita. Mas ele há-de perceber que a culpa não é minha. E depois estou bem certa de que só por ser minha lhe dará prazer. Adeus, minha querida amiga. À medida que se aproxima o momento de lhe escrever, o meu coração bate de uma maneira inconcebível. No entanto é preciso, visto que o prometi. Adeus . 20 de Agosto de 17* * CARTA XIX CECÍLIA VOLANGES AO CAVALEIRO DANCENY Estava ontem tão triste, senhor, e isso causava-me tanta pena, que não resisti a prometer-lhe que responderia à carta que me escreveu. Não é que eu sinta hoje menos que não o devia fazer; mas, como lhe prometi, não quero faltar à minha palavra, e isso deve provar-lhe a amizade que sinto pelo senhor. Agora que já sabe, espero que não volte a pedir-me que lhe escreva mais. Espero também que não diga a ninguém que lhe escrevi, porque com certeza me censuravam e isso podia causar-me muitos desgostos. Espero principalmente que não fique a fazer má ideia de mim, o que seria o maior desgosto que eu podia ter. Posso dar-lhe a certeza de que não teria essa complacência para outro que não fosse o senhor. Desejaria que tivesse a bondade de não estar triste como estava, o que me tiraria todo o prazer
  31. 31. 31 que sinto em o ver. Bem vê que lhe falo com toda a sinceridade. Só peço que a nossa amizade dure sempre; mas, suplico-lhe, não torne a escrever-me. Tenho a honra de ser, etc. 20 de Agosto de 17* *. CARTA XX A MARQUESA DE MERTEUIL AO VISCONDE DE VALMONT Ah, tratante, faz-me festas porque receia a minha troça! Vamos, consinto em perdoar: escreve-me tantas loucuras, que realmente é preciso que eu lhe desculpe a prudência do seu procedimento em relação à sua Presidente. Não creio que o meu Cavaleiro usasse de tanta indulgência como eu; seria homem para não aprovar a renovação do nosso contrato e para não achar nada de divertido na sua louca ideia. No entanto fez-me rir muito, e senti-me verdadeiramente aborrecida de ser obrigada a rir tanto sozinha. Se o Visconde estivesse próximo, não sei onde me poderia ter levado essa alegria: mas tive tempo para reflectir e armei-me de severidade. Não é o caso de recusar para sempre; mas vou adiando, e tenho razão. Poria nisso talvez vaidade, e, uma vez entrada no jogo, não se sabe onde se vai parar. Serei mulher para o prender de novo, para lhe fazer esquecer a sua Presidente; e se eu, ser indigno, o afastasse da virtude, veja que escândalo ! Para evitar esse perigo, eis as minhas condições. Assim que tenha possuído a sua devota e me possa fornecer uma prova, venha, e serei sua. Mas não ignora que, nos negócios importantes, não se recebem provas senão por escrito. Por esta combinação, serei, por um lado, uma recompensa em vez de sèr uma consolação, e essa ideia agrada-me mais; por outro lado, o seu êxito será mais excitante. Venha pois, venha o mais cedo possível trazer-me o penhor do seu triunfo: semelhante aos nossos esforçados cavaleiros, que vinham depor aos pés das suas damas os frutos brilhantes da vitória. Seriamente, estou curiosa de saber o que pode escrever uma mulher virtuosa depois de um tal momento, e que véu porá nas suas palavras, depois de não ter deixado nenhum sobre a sua pessoa. Ao Visconde cabe avaliar se eu me coloco num preço muito alto; mas previno-o de que não farei qualquer abatimento... Até lá, meu caro Visconde, achará bem que eu fique fiel ao meu Cavaleiro e que me divirta a torná-lo feliz, apesar do pequeno desgosto que isso causa. Entretanto, se os meus costumes não fossem tão regrados, creio que teria, neste momento, um rival perigoso; é a pequena
  32. 32. 32 Volanges. Estou louca por essa pequena; é uma verdadeira paixão. Ou eu me engano, ou ela virá a ser uma das nossas mulheres da moda. Vejo o seu coraçãozinho desenvolver-se, e é um espectáculo encantador. É já com furor que ela ama o seu Danceny; mas por enquanto não percebe destas coisas. Quanto a ele, embora muito apaixonado, tem ainda a timidez da sua idade e não ousa ensinar-lhe demasiado. Os dois permanecem em adoração na minha frente. Principalmente a pequena tem grande desejo de me dizer o seu segredo; desde há alguns dias, em particular, vejo-a verdadeiramente sufocada por ele, e eu prestar-lhe-ia um grande serviço se a ajudasse um pouco. Mas não esqueço que é uma criança, e não quero comprometer-me. Danceny falou-me um pouco mais claramente, mas, para ele, o meu partido está tomado, não quero ouvi-lo. Quanto à pequena, sinto-me muitas vezes tentada a fazer dela minha discípula; é um serviço que tenho vontade de prestar a Gercourt. Ele dá-me tempo para isso, porque está na Córsega até ao mês de Outubro. Tenho em mente empregar todo esse tempo, de modo a podermos dar-lhe uma mulher inteiramente formada, em lugar da sua inocente pensionista. Na verdade, em que se baseia a insolente confiança desse homem, que ousa dormir tranquilo, enquanto uma mulher, que dele tem motivos de queixa, não se vingou ainda? Creia, se a pequena estivesse aqui neste momento, nem eu sei o que lhe diria. Adeus, Visconde; boa noite e bom êxito: mas, por Deus, veja se avança. Pense que, se não possuir essa mulher, as outras terão vergonha de terem sido possuídas. 20 de Agosto de 17 * * CARTA XXI O VISCONDE DE VALMONT A MARQUESA DE MERTEUIL Enfim, minha bela amiga, dei um passo em frente, mas um grande passo, e que, se não me conduziu até ao fim, me fez pelo menos conhecer que estou no bom caminho, e dissipou o receio em que estava de me ter perdido. Declarei enfim o meu amor; e embora me tenha respondido o silêncio mais obstinado, obtive a resposta talvez menos equívoca e mais lisonjeira; mas não antecipemos os acontecimentos e voltemos mais atrás. A Marquesa recorda-se que os meus passos eram espiados. Pois bem! Decidi que esse meio escândalo servisse para a edificação do público, e aqui está o que eu fiz. Encarreguei o meu confidente de me encontrar, nos arredores, qualquer infeliz que tivesse necessidade de auxílio. Essa missão não era difícil de
  33. 33. 33 cumprir. Ontem de tarde, deu-me ele a notícia de que hoje, de manhã, deviam ser penhorados os móveis de uma família inteira que não podia pagar a derrama. Assegurei-me de que nessa casa não havia nenhuma mulher ou rapariga cuja idade pudesse tornar suspeita a minha acção; e, logo que fiquei bem informado, declarei à ceia o meu projecto de ir à caça no dia seguinte. Devo aqui fazer justiça à minha Presidente: sem dúvida teve ela alguns remorsos das ordens que deu; e, não tendo força de vencer a sua curiosidade, teve pelo menos a de contrariar o meu desejo. Devia haver calor em excesso; arriscava-me a ficar doente; não apanharia nenhuma caça e fatigar-me-ia em vão; e, durante este diálogo, os seus olhos, que falavam talvez mais do que ela queria, davam-me a conhecer que ela desejava que eu tomasse por boas as suas más razões. Como pode crer, eu não pensava em me render a tais razões, e resisti do mesmo modo a uma pequena diatribe contra a caça e os caçadores, e a uma pequena nuvem de mau humor que obscureceu, durante todo o serão, esta figura celeste. Por um momento receei que as suas ordens fossem anuladas e que a sua delicadeza acabasse por me prejudicar. Fiz um mau cálculo sobre a curiosidade duma mulher; por isso me enganei. O meu criado tranquilizou-me nessa mesma noite, e deitei-me satisfeito. Ao romper do Sol, levanto-me e parto. Apenas a cinquenta passos do castelo, vejo que o meu espião me segue. Entro no terreno da caça e caminho através dos campos para a aldeia onde pretendia dirigir-me; sem outro prazer, na minha jornada, além do de obrigar a correr o patife que me seguia, e que, não se atrevendo a deixar os caminhos, muitas vezes tinha de percorrer, a toda a velocidade, um espaço triplo do meu. De tanto o pôr à prova, eu próprio ia cheio de calor, e sentei-me junto de uma árvore. Pois não teve ele a insolência de deslizar para trás de uma moita, a menos de vinte passos de distância, e de se sentar também? Por um momento estive tentado a mandar-lhe um tiro, que, embora fosse apenas de chumbo, lhe teria dado uma lição suficiente sobre os perigos da curiosidade. Felizmente para ele, tornei a lembrar-me de que estava sendo útil e mesmo necessário aos meus projectos; esta reflexão salvou-o. Entretanto chego à aldeia; vejo que há movimento; avanço; interrogo; contam-me o que se passa. Chamo o cobrador; e, cedendo à minha generosa compaixão, pago nobremente cinquenta e seis libras, pelas quais cinco pessoas iam ser reduzidas à indigência e ao desespero. Depois desta acção tão simples, não imagina o coro de bênçãos que se ergueu à minha volta por parte dos assistentes! Que lágrimas de reconhecimento corriam dos olhos do velho chefe daquela família, e embelezavam a sua figura de patriarca, que um momento antes a contracção feroz do desespero tornava verdadeiramente hedionda! Eu examinava o espectáculo e logo outro camponês mais moço, conduzindo pela mão uma mulher e duas crianças, avança para mim a passos
  34. 34. 34 precipitados, dizendo-lhes: "Ajoelhemo-nos todos aos pés desta imagem de Deus!"; e no mesmo instante fui rodeado por toda a família, prosternada perante mim. Confessarei a minha fraqueza; os meus olhos tinham-se molhado de lágrimas, e senti em mim um movimento involuntário, mas delicioso. Fiquei surpreendido do prazer que se experimenta ao fazer-se bem; e estive tentado a crer que aqueles a quem chamamos pessoas virtuosas não têm tanto mérito como geralmente se diz. Fosse como fosse, achei que era justo pagar àquela pobre gente o prazer que acabava de me dar. Tinha comigo dez luíses: dei-lhos. Aqui recomeçaram os agradecimentos, mas já não tinham o mesmo grau de patético: o necessário tinha produzido o grande, o verdadeiro efeito; o resto era apenas uma simples expressão de reconhecimento e de espanto por uma dádiva supérflua. Entretanto, no meio das bênçãos tagarelas daquela família, eu não deixava de me parecer um pouco com o herói de um drama, na cena do desenlace. Calculará decerto que entre a multidão se mantinha a pé firme o espião fiel. O meu fim fora atingido; separei-me de todos, e voltei para o castelo. Deitados todos os cálculos, felicito-me da minha invenção. Esta mulher vale bem, sem dúvida, que eu me dê a tais cuidados; eles serão um dia os meus títulos junto dela; e tendo-lhe, de algum modo, pago assim de antemão, terei o direito de dispor dela segundo a minha fantasia, sem ter de me censurar. Esquecia-me dizer-lhe que, para que tudo resultasse em meu favor, pedi àquela boa gente que rogasse a Deus pelo bom êxito dos meus projectos. A Marquesa verá se os seus rogos não foram já em parte atendidos... Mas anunciam-me que a ceia está servida e far-se-ia tarde para mandar esta carta se eu não a fechasse ao retirar-me. Assim, o resto no próximo número. Aborrece-me isso, pois o resto é o melhor. Adeus, minha bela amiga. Acaba de me roubar um momento do prazer de vê-la. 20 de Agosto de 17 * * CARTA XXII A PRESIDENTE DE TOURVEL A MADAME DE VOLANGES Ficareis sem dúvida satisfeita, senhora, por conhecer um gesto do senhor de Valmont, que contrasta em muito, parece-me, com todos aqueles sob os quais vo-lo apresentaram. É uma coisa tão penosa pensar desfavoravelmente de quem quer que seja, tão aborrecido encontrar apenas vícios naqueles que podem ter todas as qualidades necessárias para fazer amar a virtude! Enfim, gostais tanto de usar de indulgência que dar-vos motivo
  35. 35. 35 para reparar um juízo demasiado rigoroso é decerto servir-vos. O senhor de Valmont parece-me ter as condições necessárias para esperar esse favor, direi quase justiça; e vou dizer-vos porque o penso. Esta manhã deu ele um daqueles passeios que poderiam levar a supor qualquer projecto da sua parte nos arredores, conforme a ideia que vos veio; ideia que me acuso de ter partilhado talvez com demasiada vivacidade. Felizmente para ele, e sobretudo felizmente para nós, pois isso nos salva de sermos injustas, um dos meus servidores tinha de ir para os mesmos lados que ele; e foi por aí que a minha curiosidade repreensível, mas feliz, foi satisfeita. Contou-nos o criado que o senhor de Valmont, tendo encontrado na aldeia de... uma infeliz família cujos móveis iam ser vendidos, por não poder pagar os impostos, não somente se apressara a solver a dívida daquela pobre gente, mas lhe dera até uma importância em dinheiro bastante considerável. O meu criado foi testemunha daquela virtuosa acção, e mais me contou que os camponeses, conversando entre si e com ele, haviam dito que um criado que designaram, e que o meu julga ser o do senhor de Valmont, tinha ontem ido tirar informações sobre quais os habitantes da aldeia que poderiam estar necessitados de auxílio. Se isto é assim, se não é unicamente uma compaixão passageira e que a ocasião determina, então é o projecto formado de fazer bem; é a solicitude da beneficência; é a mais bela virtude das mais belas almas. Mas, seja acaso ou projecto, é sempre uma acção honesta e louvável, e de que a simples narração me enterneceu até às lágrimas. Acrescentarei ainda, e sempre por justiça, que, quando lhe falei dessa acção, da qual ele não dizia palavra, começou por se defender e mostrou atribuir-lhe tão pouco valor que a sua modéstia lhe redobrava o mérito. Dizei-me agora, minha respeitável amiga, se o senhor de Valmont é na verdade um libertino sem remissão? Se ele é apenas isso e procede assim, que ficará para as pessoas honestas? Pois quê! Os maus partilhariam com os bons o prazer sagrado da beneficência? Permitiria Deus que uma família virtuosa recebesse das mãos dum celerado os socorros que teria de agradecer à sua divina Providência? E poderia ele sentir prazer em ouvir, de bocas puras, espalharem-se bênçãos sobre um réprobo? Não. Prefiro acreditar que os erros, por durarem longo tempo, não são eternos; e não posso pensar que quem faz o bem seja inimigo da virtude. O senhor de Valmont é talvez um exemplo mais do perigo de certas ligações. Detenho-me nesta ideia que me parece a melhor. Se, por um lado, ela pode servir a justificá-lo no vosso espírito, por outro torna cada vez mais preciosa a terna amizade que me liga a vós por toda a vida. Tenho a honra de ser, etc. P. S. - Madame de Rosemonde e eu vamos, dentro de momentos,
  36. 36. 36 ver também a honesta e infeliz família, e juntar os nossos socorros tardios aos do senhor de Valmont. Levá-lo-emos connosco. Daremos ao menos a essa boa gente o prazer de tornar a ver o seu benfeitor; é, creio eu, tudo o que ele deixou para nós fazermos. 20 de Agosto de 17 * * CARTA XXIII O VISCONDE DE VALMONT A MARQUESA DE MERTEUIL Tínhamos ficado no meu regresso ao castelo: retomo a minha narrativa. Mal tive tempo de me arranjar um pouco, e regressei à sala, onde a minha bela tecia um tapete, enquanto o cura lia a gazeta à minha velha tia. Sentei-me junto do tear. Alguns olhares, mais doces ainda do que o costume, e quase acariciantes, depressa me fizeram adivinhar que o criado tinha já dado conta da sua missão. De facto, a minha amável curiosa não pôde guardar por muito tempo o segredo que me tinha roubado; e, sem receio de interromper um venerável pastor cuja prédica no entanto se parecia com uma homilia, disse: "Também tenho as minhas novidades a dar"; e imediatamente contou a minha aventura com uma exactidão que fazia honra à inteligência do seu historiador. A Marquesa pode imaginar como eu manifestei toda a minha modéstia; mas quem poderia deter uma mulher que faz, sem o suspeitar, o elogio daquele que ama? Tomei pois o partido de a deixar continuar. Dir-se-ia que ela pregava o panegírico de um santo. Durante esse tempo eu observava, não sem esperança, tudo o que prometiam ao amor os seus olhares cheios de animação, os seus gestos agora mais livres, e principalmente aquele tom de voz que, pela sua alteração já sensível, traía a emoção da sua alma. Logo que ela acabou de falar, Madame de Rosemonde disse-me: "Meu sobrinho, chegue ao pé de mim; quero abraçá-lo." Imediatamente senti que a linda pregadora não poderia defender-se de ser abraçada por sua voz. Quis fugir, entretanto; mais depressa a atraí para os meus braços; e, longe de ter forças para resistir, apenas lhe restavam as bastantes para se manter de pé. Quanto mais observo esta mulher, mais ela me parece desejável. Apressando-se a voltar para junto do tear, simulou, para os presentes, recomeçar a sua tarefa; mas vi bem que a sua mão trémula não lhe permitia continuá-la. Depois do jantar, as senhoras quiseram ir ver os infortunados que eu tão piedosamente tinha socorrido; acompanhei-as. Poupo a minha boa amiga ao enfado desta segunda cena de reconhecimento
  37. 37. 37 e de louvores. O meu coração, impedido por uma recordação deliciosa, apressa o momento do regresso ao castelo. Pelo caminho, a minha bela Presidente, mais pensativa que de costume, não dizia palavra. Eu pensava em encontrar os meios de aproveitar o efeito que nela causara o acontecimento do dia, e por isso mantinha igualmente silêncio. Só Madame de Rosemonde falava e apenas obtinha de nós respostas curtas e raras. Era quase certo que a estávamos aborrecendo: era precisamente o que eu desejava, e fui bem sucedido. Ao descer da carruagem, minha tia dirigiu-se aos seus aposentos, e deixou-nos frente a frente, a minha bela e eu, numa sala mal iluminada: obscuridade doce, que torna ousados os amores tímidos. Não tive o trabalho de orientar a conversação para o ponto em que desejava conduzi-la. O fervor da amável pregadora serviu-me melhor do que não o teria feito a minha habilidade. "Quando se é digno de fazer o bem", disse-me ela, detendo sobre mim o seu doce olhar, "como se pode passar a vida praticando o mal?" "Não mereço", respondi-lhe, "nem esse elogio, nem essa censura; e não compreendo como, com a sua inteligência, não me adivinhou ainda. Mesmo que a minha confiança viesse a prejudicar-me, a senhora é demasiado digna dela para que eu pudesse recusar-la. Encontrará a chave da minha conduta num temperamento infelizmente fácil em demasia. Rodeado de indivíduos sem moral, dei-me a imitar os seus vícios; talvez tenha posto algum amor-próprio em ultrapassá-los. Da mesma forma, senti-me seduzido aqui pelo exemplo das virtudes, e, embora sem esperança de poder igualá-la, procurarei ao menos segui-la. Talvez o acto por que hoje me louva perdesse a seus olhos todo o valor, se conhecesse o seu verdadeiro motivo!" (A minha amiga bem vê quanto eu estava perto da verdade.) "Não é a mim", continuei, "que esses infelizes devem o auxílio que lhes prestei. Onde julga ver uma acção meritória, procurei eu apenas um meio de agradar. Eu era apenas, é forçoso dizê-lo, o frágil emissário da divindade que adoro." (Aqui ela quis interromper-me; mas eu não lhe dei tempo para tal.) "Neste momento mesmo", acrescentei, "o meu segredo escapa-me devido a uma fraqueza. Prometera a mim mesmo calar-me; era para mim uma felicidade oferecer às suas virtudes e aos seus encantos uma homenagem que ficaria ignorada para sempre; mas, incapaz de enganar, quando tenho debaixo dos olhos o exemplo da candura, não terei a censurar-me uma culposa dissimulação. Não creia que a ofendo por uma criminosa esperança. Serei infeliz, bem sei; mas os meus sofrimentos ser-me-ão caros; provar-me-ão o excesso do meu amor. É a seus pés, é no seu seio que eu deporei as minhas mágoas. Aí encontrarei forças para sofrer de novo; aí encontrarei a bondade compadecida, e julgar-me-ei consolado, só porque me lastimou. Adoro-a! Escute-me, lastime-me, socorra-me!" Entretanto eu estava a seus pés, e apertava as suas mãos nas minhas; ela, porém, desprendendo-as de
  38. 38. 38 repente, e cruzando-as sobre os olhos com expressão de desespero, exclamou: "Ah, desventurada!"; e desatou a chorar. Por felicidade, eu a tal ponto me tinha abandonado à emoção que chorei também; e, voltando a tomar-lhe as mãos, banhei-as de lágrimas. Esta precaução era muito necessária, pois ela estava tão ocupada com a sua dor que não se teria apercebido da minha, se eu não tivesse encontrado este meio de patenteá-la. Além disso, aproveitei o momento para contemplar à minha vontade aquele rosto encantador, embelezado ainda pelo poderoso atractivo das lágrimas. Senti a cabeça quente, e estava tão pouco senhor de mim que me senti tentado a aproveitar aquele momento. ! Que fraqueza é esta nossa? A que ponto nos dominam as circunstâncias, se eu próprio, esquecendo os meus projectos, me arrisquei a perder, por um triunfo prematuro, o encanto dos longos combates e os pormenores de uma penosa derrota? Se, seduzido por um desejo de homem moço, pensei expor o vencedor de Madame de Tourvel a não recolher, como fruto dos seus trabalhos, senão a insípida vitória de possuir mais uma mulher?! Ah! Que ela se renda, mas que combata; que, sem ter a força de vencer, tenha a de resistir; que saboreie à vontade o sentimento da sua fraqueza, e seja obrigada a confessar a sua derrota. Deixemos o obscuro caçador furtivo matar o veado que surpreendeu numa cilada; o verdadeiro caçador deve forçá-lo. É sublime este projecto, não acha? Mas talvez neste momento eu lamentasse não o ter seguido, se o acaso não viesse em socorro da minha prudência. Ouvimos ruído. Alguém vinha do salão. Madame de Tourvel, horrorizada, levantou-se precipitadamente, agarrou um dos ! candelabros e saiu. Tive de a deixar proceder. Era apenas um criado. Logo que me assegurei disso, segui-a. Apenas eu tinha dado alguns passos, fosse porque ela me reconhecesse, fosse por um sentimento de vago terror, ouvi-a precipitar os passos e lançar-se, em vez de entrar, no seu quarto, fechando a porta atrás de si. Fui junto da porta; mas a chave estava do lado de dentro. Tive o cuidado de não bater; seria fornecer-lhe a ocasião de uma resistência demasiado fácil. Tive a feliz e simples ideia de tentar ver através da fechadura, e vi de facto essa mulher adorável de joelhos, banhada em lágrimas, rezando com fervor. Que Deus ousava ela invocar? Existirá algum com poder bastante contra o amor? É em vão que ela procura agora socorros estranhos; só eu decidirei da sua sorte. Julgando ter já feito bastante para um só dia, retirei-me também para o meu quarto e comecei a escrever esta carta. Esperava voltar a vê-la à ceia; no entanto, ela mandou dizer que se sentira indisposta e se tinha deitado. Madame de Rosemonde quis subir ao quarto dela, mas a maliciosa doente pretextou uma dor de cabeça que não lhe permitia ver ninguém. Como facilmente imagina, depois da ceia pouco tempo estivemos à
  39. 39. 39 mesa, e também eu tive a minha dor de cabeça. Fechado no meu quarto, escrevi uma longa carta para me queixar de tal rigor, e deitei-me, com o projecto de a entregar esta manhã. Dormi mal, como poderá ver pela data desta carta. Levantei-me, e reli a minha epístola. Verifiquei que nela eu me sujeitara a uma medíocre observação, que mostrava mais ardor do que amor, e mais contrariedade do que tristeza. É preciso refazê-la; mas necessitarei de estar mais calmo. O dia começa a romper, e espero que a frescura que o acompanha me trará o sono. Vou meter-me na cama; e, seja qual for o império desta mulher, prometo-lhe não me ocupar dela a tal ponto que não fique tempo para sonhar muito consigo. Adeus, minha bela amiga. 21 de Agosto de 17 , 4 horas da manhã. CARTA XXIV O VISCONDE DE VALMONT A PRESIDENTE DE TOURVEL Ah! Por piedade, senhora, dignai-vos acalmar a perturbação da minha alma; dignai-vos dizer-me o que devo esperar ou recear. Colocado entre o excesso da felicidade e o do infortúnio, a incerteza é um tormento cruel. Por que vos falei? Por que não pude eu resistir ao encanto imperioso que vos entregava os meus pensamentos? Contente de vos adorar em silêncio, eu gozava ao menos do amor que sentia; e esse sentimento puro, que não era perturbado ainda pela imagem da vossa dor, bastava para a minha felicidade. Mas essa fonte de ventura transformou-se em fonte de desespero, desde que vi correrem lágrimas dos vossos olhos; desde que ouvi aquele cruel ah, desventurada! Senhora, aquelas duas palavras ressoarão por muito tempo no meu coração. Por que fatalidade o mais doce dos sentimentos não pode inspirar-vos mais do que horror? Que receio é esse que sentis? Ah! Não é o receio de partilhar tal sentimento: o vosso coração, que conheci mal, não foi feito para o amor; o meu, que caluniais sem cessar, é dos dois o único sensível. O vosso não tem piedade. Se assim não fosse, não teríeis recusado uma palavra de consolação ao desgraçado que vos contava os seus sofrimentos; não vos teríeis furtado aos olhares de quem não tem outro prazer além de ver-vos; não vos teríeis divertido cruelmente com a sua inquietação, anunciando-lhe que estáveis doente sem lhe permitir que se informasse do vosso estado; teríeis sentido que essa mesma noite, que para vós representava doze horas de repouso, ia ser para ele século de dores. Por onde mereci, dizei-me, esse rigor implacável? Não tenho

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