Apostila de portugues com nova ortografia

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Apostila de portugues com nova ortografia brasileira. Apostila tima para concursos.

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Apostila de portugues com nova ortografia

  1. 1. Didatismo e Conhecimento 1 LÍNGUA PORTUGUESA COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO DE TEXTOS, COM RAZOÁVEL GRAU DE COMPLEXIDADE A literatura é a arte de recriar através da língua escrita. Sendo assim, temos vários tipos de gêneros textuais, formas de escrita; mas a grande dificuldade encontrada pelas pessoas é a interpretação de textos. Muitos dizem que não sabem interpretar, ou que é muito difícil. Se você tem pouca leitura, consequentemente terá pouca argumentação, pouca visão, pouco ponto de vista e um gran- de medo de interpretar. A interpretação é o alargamento dos horizontes. E esse alargamento acontece justamente quando há leitura. Somos fragmentos de nossos escritos, de nossos pensamentos, de nossas histórias, muitas vezes contadas por outros. Quantas vezes você não leu algo e pensou: “Nossa, ele disse tudo que eu penso.” Com certeza, várias vezes. Temos aí a identificação de nossos pen- samentos com os pensamentos dos autores, mas para que aconteça, pelo menos não tenha preguiça de pensar, refletir, formar ideias e escrever quando puder e quiser. Tornar-se, portanto, alguém que escreve e que lê em nosso país é uma tarefa árdua, mas acredite, valerá a pena para sua vida futu- ra. E, mesmo, que você diga que interpretar é difícil, você exercita isso a todo o momento. Exercita através de sua leitura de mundo. Você sabe, por exemplo, quando alguém lhe manda um olhar de desaprovação mesmo sem ter dito nada. Sabe, quando a menina ou o menino está a fim de você numa boate pela troca de olhares. A todo e qualquer tempo, em nossas vidas, interpretamos, argumenta- mos, expomos nossos pontos de vista. Mas, basta o(a) professor(a) dizer “Vamos agora interpretar esse texto” para que as pessoas se calem. E ninguém sabe o que calado quer... pois ao se calar você perde oportunidades valiosas de interagir e crescer no conhecimento. Perca o medo de expor suas ideias. Faça isso como um exercício diário mesmo e verá que antes que pense, o medo terá ido embora. Texto – é um conjunto de ideias organizadas e relacionadas entre si, formando um todo significativo capaz de produzir interação comunicativa (capacidade de codificar e decodificar). Contexto – um texto é constituído por diversas frases. Em cada uma delas, há uma certa informação que a faz ligar-se com a an- terior e/ou com a posterior, criando condições para a estruturação do conteúdo a ser transmitido. A essa interligação dá-se o nome de contexto. Nota-se que o relacionamento entre as frases é tão grande, que, se uma frase for retirada de seu contexto original e analisada separadamente, poderá ter um significado diferente daquele inicial. Intertexto - comumente, os textos apresentam referências diretas ou indiretas a outros autores através de citações. Esse tipo de recurso denomina-se intertexto. Interpretação de Texto - o primeiro objetivo de uma interpretação de um texto é a identificação de sua ideia principal. A partir daí, localizam-se as ideias secundárias, ou fundamentações, as argumentações, ou explicações, que levem ao esclarecimento das questões apresentadas na prova. Normalmente, numa prova, o candidato é convidado a: Identificar – é reconhecer os elementos fundamentais de uma argumentação, de um processo, de uma época (neste caso, procu- ram-se os verbos e os advérbios, os quais definem o tempo). Comparar – é descobrir as relações de semelhança ou de diferenças entre as situações do texto. Comentar - é relacionar o conteúdo apresentado com uma realidade, opinando a respeito. Resumir – é concentrar as ideias centrais e/ou secundárias em um só parágrafo. Parafrasear – é reescrever o texto com outras palavras.
  2. 2. Didatismo e Conhecimento 2 LÍNGUA PORTUGUESA Exemplo Título do Texto Paráfrases “O Homem Unido” A integração do mundo. A integração da humanidade. A união do homem. Homem + Homem = Mundo. A macacada se uniu. (sátira) Condições Básicas para Interpretar Faz-se necessário: - Conhecimento Histórico – literário (escolas e gêneros literários, estrutura do texto), leitura e prática; - Conhecimento gramatical, estilístico (qualidades do texto) e semântico; Na semântica (significado das palavras) incluem-se: homônimos e parônimos, denotação e conotação, sinonímia e antonímia, polissemia, figuras de linguagem, entre outros. - Capacidade de observação e de síntese e - Capacidade de raciocínio. Interpretar X Compreender Interpretar Significa Compreender Significa - Explicar, comentar, julgar, tirar conclusões, deduzir. - tipos de enunciados: • através do texto, infere- se que... • é possível deduzir que... • o autor permite concluir que... • qual é a intenção do autor ao afirmar que... - intelecção, entendimento, atenção ao que realmente está escrito. - tipos de enunciados: • o texto diz que... • é sugerido pelo autor que... • de acordo com o texto, é correta ou errada a afirmação... • o narrador afirma... Erros de Interpretação É muito comum, mais do que se imagina, a ocorrência de erros de interpretação. Os mais frequentes são: - Extrapolação (viagem). Ocorre quando se sai do contexto, acrescentado ideias que não estão no texto, quer por conhecimento prévio do tema quer pela imaginação. - Redução. É o oposto da extrapolação. Dá-se atenção apenas a um aspecto, esquecendo que um texto é um conjunto de ideias, o que pode ser insuficiente para o total do entendimento do tema desenvolvido. - Contradição. Não raro, o texto apresenta ideias contrárias às do candidato, fazendo-o tirar conclusões equivocadas e, conse- quentemente, errando a questão. Observação: Muitos pensam que há a ótica do escritor e a ótica do leitor. Pode ser que existam, mas numa prova de concurso qualquer, o que deve ser levado em consideração é o que o autor diz e nada mais. Coesão - é o emprego de mecanismo de sintaxe que relacionam palavras, orações, frases e/ou parágrafos entre si. Em outras palavras, a coesão dá-se quando, através de um pronome relativo, uma conjunção (nexos), ou um pronome oblíquo átono, há uma relação correta entre o que se vai dizer e o que já foi dito. São muitos os erros de coesão no dia a dia e, entre eles, está o mau uso do pronome relativo e do pronome oblíquo átono. Este depende da regência do verbo; aquele do seu antecedente. Não se pode esquecer também de que os pronomes relativos têm, cada um, valor semântico, por isso a necessidade de adequação ao antecedente. Os pro- nomes relativos são muito importantes na interpretação de texto, pois seu uso incorreto traz erros de coesão. Assim sendo, deve-se levar em consideração que existe um pronome relativo adequado a cada circunstância, a saber:
  3. 3. Didatismo e Conhecimento 3 LÍNGUA PORTUGUESA Que (neutro) - relaciona-se com qualquer antecedente. Mas depende das condições da frase. Qual (neutro) idem ao anterior. Quem (pessoa). Cujo (posse) - antes dele, aparece o possuidor e depois, o objeto possuído. Como (modo). Onde (lugar). Quando (tempo). Quanto (montante). Exemplo: Falou tudo quanto queria (correto). Falou tudo que queria (errado - antes do que, deveria aparecer o demonstrativo o). Vícios de Linguagem – há os vícios de linguagem clássicos (barbarismo, solecismo, cacofonia...); no dia a dia, porém, existem expressões que são mal empregadas, e por força desse hábito cometem-se erros graves como: - “Ele correu risco de vida”, quando a verdade o risco era de morte. - “Senhor professor, eu lhe vi ontem”. Neste caso, o pronome oblíquo átono correto é O. - “No bar: “Me vê um café”. Além do erro de posição do pronome, há o mau uso. Algumas dicas para interpretar um texto: - O autor escreveu com uma intenção - tentar descobrir qual é ela é a chave. - Leia todo o texto uma primeira vez de forma despreocupada - assim você verá apenas os aspectos superficiais primeiro. - Na segunda leitura observe os detalhes, visualize em sua mente o cenário, os personagens - Quanto mais real for a leitura na sua mente, mais fácil será para interpretar o texto. - Duvide do(a) autor(a) - Leia as entrelinhas, perceba o que o(a) autor(a) te diz sem escrever no texto. - Não tenha medo de opinar - Já vi terem medo de dizer o que achavam e a resposta estaria correta se tivessem dito. - Visualize vários caminhos, várias opções e interpretações - Só não viaje muito na interpretação. Veja os caminhos apontados pela escrita do(a) autor(a). Apegue-se aos caminhos que lhe são mostrados. - Identifique as características físicas e psicológicas dos personagens - Se um determinado personagem tem como característica ser mentiroso, por exemplo, o que ele diz no texto poderá ser mentira não é mesmo? Analisar e identificar os personagens são pontos necessários para uma boa interpretação de texto. - Observe a linguagem, o tempo e espaço - A sequência dos acontecimentos, o feedback, conta muito na hora de interpretar. - Analise os acontecimentos de acordo com a época do texto - É importante que você saiba ou pesquise sobre a época narrada no texto, assim, certas contradições ou estranhamentos vistos por você podem ser apenas a cultura da época sendo demonstrada. - Leia quantas vezes achar que deve - Não entendeu? Leia de novo. Nem todo dia estamos concentrados e a rapidez na leitura vem com o hábito. Para ler e entender um texto é preciso atingir dois níveis de leitura: Informativa e de reconhecimento; Interpretativa A primeira deve ser feita cuidadosamente por ser o primeiro contato com o texto, extraindo-se informações e se preparando para a leitura interpretativa. Durante a interpretação grife palavras-chave, passagens importantes; tente ligar uma palavra à ideia-central de cada parágrafo. A última fase de interpretação concentra-se nas perguntas e opções de respostas. Marque palavras com não, exceto, respectivamente, etc, pois fazem diferença na escolha adequada. Retorne ao texto mesmo que pareça ser perda de tempo. Leia a frase anterior e posterior para ter ideia do sentido global proposto pelo autor. Organização do Texto e Ideia Central Um texto para ser compreendido deve apresentar ideias seletas e organizadas, através dos parágrafos que é composto pela ideia central, argumentação e/ou desenvolvimento e a conclusão do texto. Podemos desenvolver um parágrafo de várias formas:
  4. 4. Didatismo e Conhecimento 4 LÍNGUA PORTUGUESA - Declaração inicial; - Definição; - Divisão; - Alusão histórica. Serve para dividir o texto em pontos menores, tendo em vista os diversos enfoques. Convencionalmente, o parágrafo é indicado através da mudança de linha e um espaçamento da margem esquerda. Uma das partes bem distintas do parágrafo é o tópico frasal, ou seja, a ideia central extraída de maneira clara e resumida. Atentando-se para a ideia principal de cada parágrafo, asseguramos um caminho que nos levará à compreensão do texto. Os Tipos de Texto Basicamente existem três tipos de texto: - Texto narrativo; - Texto descritivo; - Texto dissertativo. Cada um desses textos possui características próprias de construção, que veremos no tópico seguinte (Tipologia Textual). É comum encontrarmos queixas de que não sabem interpretar textos. Muitos têm aversão a exercícios nessa categoria. Acham monótono, sem graça, e outras vezes dizem: cada um tem o seu próprio entendimento do texto ou cada um interpreta a sua maneira. No texto literário, essa ideia tem algum fundamento, tendo em vista a linguagem conotativa, os símbolos criados, mas em texto não- -literário isso é um equívoco. Diante desse problema, seguem algumas dicas para você analisar, compreender e interpretar com mais proficiência. - Crie o hábito da leitura e o gosto por ela. Quando nós passamos a gostar de algo, compreendemos melhor seu funcionamento. Nesse caso, as palavras tornam-se familiares a nós mesmos. Não se deixe levar pela falsa impressão de que ler não faz diferença. Também não se intimide caso alguém diga que você lê porcaria. Leia tudo que tenha vontade, pois com o tempo você se tornará mais seleto e perceberá que algumas leituras foram superficiais e, às vezes, até ridículas. Porém elas foram o ponto de partida e o estímulo para se chegar a uma leitura mais refinada. Existe tempo para cada tempo de nossas vidas. - Seja curioso, investigue as palavras que circulam em seu meio. - Aumente seu vocabulário e sua cultura. Além da leitura, um bom exercício para ampliar o léxico é fazer palavras cruzadas. - Faça exercícios de sinônimos e antônimos. - Leia verdadeiramente. - Leia algumas vezes o texto, pois a primeira impressão pode ser falsa. É preciso paciência para ler outras vezes. Antes de res- ponder as questões, retorne ao texto para sanar as dúvidas. - Atenção ao que se pede. Às vezes a interpretação está voltada a uma linha do texto e por isso você deve voltar ao parágrafo para localizar o que se afirma. Outras vezes, a questão está voltada à ideia geral do texto. - Fique atento a leituras de texto de todas as áreas do conhecimento, porque algumas perguntas extrapolam ao que está escrito. Veja um exemplo disso: Texto: Pode dizer-se que a presença do negro representou sempre fator obrigatório no desenvolvimento dos latifúndios coloniais. Os an- tigos moradores da terra foram, eventualmente, prestimosos colaboradores da indústria extrativa, na caça, na pesca, em determinados ofícios mecânicos e na criação do gado. Dificilmente se acomodavam, porém, ao trabalho acurado e metódico que exige a exploração dos canaviais. Sua tendência espontânea era para as atividades menos sedentárias e que pudessem exercer-se sem regularidade for- çada e sem vigilância e fiscalização de estranhos. (Sérgio Buarque de Holanda, in Raízes) Infere-se do texto que os antigos moradores da terra eram: a) os portugueses. b) os negros. c) os índios. d) tanto os índios quanto aos negros. e) a miscigenação de portugueses e índios.
  5. 5. Didatismo e Conhecimento 5 LÍNGUA PORTUGUESA (Aquino, Renato. Interpretação de textos, 2ª edição. Rio de Janeiro: Impetus, 2003.) Resposta: Letra C. Apesar do autor não ter citado o nome dos índios, é possível concluir pelas características apresentadas no texto. Essa resposta exige conhecimento que extrapola o texto. - Tome cuidado com as vírgulas. Veja por exemplo a diferença de sentido nas frases a seguir. a) Só, o Diego da M110 fez o trabalho de artes. b) Só o Diego da M110 fez o trabalho de artes. c) Os alunos dedicados passaram no vestibular. d) Os alunos, dedicados, passaram no vestibular. e) Marcão, canta Garçom, de Reginaldo Rossi. f) Marcão canta Garçom, de Reginaldo Rossi. Explicações: a) Diego fez sozinho o trabalho de artes. b) Apenas o Diego fez o trabalho de artes. c) Havia, nesse caso, alunos dedicados e não-dedicados e, passaram no vestibular, somente, os que se dedicaram, restringindo o grupo de alunos. d) Nesse outro caso, todos os alunos eram dedicados. e) Marcão é chamado para cantar. f) Marcão pratica a ação de cantar. Leia o trecho e analise a afirmação que foi feita sobre ele. “Sempre fez parte do desafio do magistério administrar adolescente com hormônios em ebulição e com o desejo natural da idade de desafiar as regras. A diferença é que, hoje, em muitos casos, a relação comercial entre a escola e os pais se sobrepõe à autoridade do professor.” Frase para análise. Desafiar as regras é uma atitude própria do adolescente das escolas privadas. E esse é o grande desafio do professor moderno. 1 – Não é mencionado que a escola seja da rede privada. 2 – O desafio não é apenas do professor atual, mas sempre fez parte do desafio do magistério. Outra questão é que o grande desafio não é só administrar os desafios às regras, isso é parte do desafio, há também os hormônios em ebulição que fazem parte do desafio do magistério. Atenção ao uso da paráfrase (reescritura do texto sem prejuízo do sentido original). Veja o exemplo: Frase original: Estava eu hoje cedo, parado em um sinal de trânsito, quando olho na esquina, próximo a uma porta, uma loirona a me olhar e eu olhava também. (Concurso TRE/SC) A frase parafraseada é: a) Parado em um sinal de trânsito hoje cedo, numa esquina, próximo a uma porta, eu olhei para uma loira e ela também me olhou. b) Hoje cedo, eu estava parado em um sinal de trânsito, quando ao olhar para uma esquina, meus olhos deram com os olhos de uma loirona. c) Hoje cedo, estava eu parado em um sinal de trânsito quando vi, numa esquina, próxima a uma porta, uma louraça a me olhar. d) Estava eu hoje cedo parado em um sinal de trânsito, quando olho na esquina, próximo a uma porta, vejo uma loiraça a me olhar também. Resposta: Letra C.
  6. 6. Didatismo e Conhecimento 6 LÍNGUA PORTUGUESA A paráfrase pode ser construída de várias formas, veja algumas delas. a) substituição de locuções por palavras; b) uso de sinônimos; c) mudança de discurso direto por indireto e vice-versa; d) converter a voz ativa para a passiva; e) emprego de antonomásias ou perífrases (Rui Barbosa = A águia de Haia; o povo lusitano = portugueses). Observe a mudança de posição de palavras ou de expressões nas frases. Exemplos a) Certos alunos no Brasil não convivem com a falta de professores. b) Alunos certos no Brasil não convivem com a falta de professores. c) Os alunos determinados pediram ajuda aos professores. d) Determinados alunos pediram ajuda aos professores. Explicações: a) Certos alunos = qualquer aluno. b) Alunos certos = aluno correto. c) Alunos determinados = alunos decididos. d) Determinados alunos = qualquer aluno. Exercícios Atenção: Para responder às questões de números 01 a 03, considere o texto abaixo. Os governos e os parlamentos devem achar que a astronomia é uma das ciências que custam mais caro: o menor instrumento custa centenas de milhares de francos; o menor observatório custa milhões; cada eclipse acarreta depois de si despesas suplementares. E tudo isso para astros que ficam tão distantes, que são completamente estranhos às nossas lutas eleitorais, e provavelmente jamais desempenharão qualquer papel nelas. É impossível que nossos homens políticos não tenham conservado um resto de idealismo, um vago instinto daquilo que é grande; realmente, creio que eles foram caluniados; convém encorajá-los, e lhes mostrar que esse instinto não os engana, e que não são logrados por esse idealismo. Bem poderíamos lhes falar da navegação, cuja importância ninguém ignora, e que tem necessidade da astronomia. Mas isso seria abordar a questão por seu lado menos importante. A astronomia é útil porque nos eleva acima de nós mesmos; é útil porque é grande; é útil porque é bela; é isso que se precisa dizer. É ela que nos mostra o quanto o homem é pequeno no corpo e o quanto é grande no espírito, já que essa imensidão resplandecente, onde seu corpo não passa de um ponto obscuro, sua inteligência pode abarcar inteira, e dela fruir a silenciosa harmonia. Atingimos assim a consciência de nossa força, e isso é uma coisa pela qual jamais pagaríamos caro demais, porque essa consciência nos torna mais fortes. Mas o que eu gostaria de mostrar, antes de tudo, é a que ponto a astronomia facilitou a obra das outras ciências, mais diretamente úteis, porque foi ela que nos proporcionou um espírito capaz de compreender a natureza. [Adaptado de Henri Poincaré (1854-1912). O valor da ciência. Tradução Maria Helena Franco Martins. Rio de Janeiro: Contraponto, 1995, p.101] 01. Para o autor, a astronomia tem um custo (A) muito menor do que outros campos do conhecimento humano, como a navegação, que aliás acaba por se beneficiar do conhecimento astronômico. (B) elevado, de centenas de milhares a milhões de francos, cabendo aos políticos o equilíbrio desses gastos de modo a permitir que essa ciência continue a engrandecer o homem. (C) muito alto quando comparado com o de outras ciências mais úteis, o que deve, contudo, ser relativizado em função da contribuição que recebem do conhecimento astronômico. (D) alto, de fato, mas que acaba plenamente compensado pela importância dessa ciência em si mesma e para outros campos do conhecimento humano. (E) bem menor do que aquele que os políticos divulgam, interessados que estão na transferência de recursos para outras áreas que possam trazer dividendos eleitorais.
  7. 7. Didatismo e Conhecimento 7 LÍNGUA PORTUGUESA 02. É ela que nos mostra o quanto o homem é pequeno no corpo e o quanto é grande no espírito, já que essa imensidão resplandecente, onde seu corpo não passa de um ponto obscuro, sua inteligência pode abarcar inteira, e dela fruir a silenciosa harmonia. A frase acima pode ser corretamente entendida, no contexto, como o reconhecimento (A) da pequenez do homem diante da grandeza do universo, que pode, no entanto, a partir da ciência astronômica, ser conhecido em sua totalidade pela inteligência humana. (B) de que o homem é pequeno fisicamente, mas tem uma alma que pode ser lúcida, generosa e tão grande como o universo mostrado pela astronomia. (C) da grandeza da inteligência humana que, colocada em um ser tão pequeno, pode fazê-lo um dia capaz de transportar-se para qualquer galáxia do universo. (D) da insignificância do homem quando visto a partir do conhecimento astronômico, revelando que sua inteligência, por maior que seja, é incapaz de compreender a harmonia universal. (E) de que há no homem uma divisão radical entre corpo e alma, que só poderá ser superada na medida da compreensão integrada da presença humana no universo. 03. ... a que ponto a astronomia facilitou a obra das outras ciências ... O verbo que exige o mesmo tipo de complemento que o grifado acima está empregado em: (A) ... astros que ficam tão distantes ... (B) ... que a astronomia é uma das ciências ... (C) ... que nos proporcionou um espírito ... (D) ... cuja importância ninguém ignora ... (E) ... onde seu corpo não passa de um ponto obscuro ... Atenção: Para responder às questões de números 04 e 05, considere o texto abaixo. A música alcançou uma onipresença avassaladora em nosso mundo: milhões de horas de sua história estão disponíveis em disco; rios de melodia digital correm na internet; aparelhos de mp3 com 40 mil canções podem ser colocados no bolso. No entanto, a música não é mais algo que fazemos nós mesmos, ou até que observamos outras pessoas fazerem diante de nós. Ela se tornou um meio radicalmente virtual, uma arte sem rosto. Quando caminhamos pela cidade num dia comum, nossos ouvidos registram música em quase todos os momentos − pedaços de hip-hop vazando dos fones de ouvido de adolescentes no metrô, o sinal do celular de um advogado tocando a “Ode à alegria”, de Beethoven −, mas quase nada disso será resultado imediato de um trabalho físico de mãos ou vozes humanas, como se dava no passado. Desde que Edison inventou o cilindro fonográfico, em 1877, existe gente que avalia o que a gravação fez em favor e desfavor da arte da música. Inevitavelmente, a conversa descambou para os extremos retóricos. No campo oposto ao dos que diziam que a tecnologia acabaria com a música estão os utópicos, que alegam que a tecnologia não aprisionou a música, mas libertou-a, levando a arte da elite às massas. Antes de Edison, diziam os utópicos, as sinfonias de Beethoven só podiam ser ouvidas em salas de concerto selecionadas. Agora, as gravações levam a mensagem de Beethoven aos confins do planeta, convocando a multidão saudada na “Ode à alegria”: “Abracem-se, milhões!”. Glenn Gould, depois de afastar-se das apresentações ao vivo em 1964, previu que dentro de um século o concerto público desapareceria no éter eletrônico, com grande efeito benéfico sobre a cultura musical. (Adaptado de Alex Ross. Escuta só. Tradução Pedro Maia Soares. São Paulo, Cia. das Letras, 2010, p. 76-77) 04. No texto, o autor (A) apresenta duas posições radicalmente opostas em relação aos efeitos da tecnologia sobre a fruição da música. (B) critica os que fazem música de maneira anônima, contrapondo-os aos grandes músicos do passado. (C) comprova que a música se desvalorizou na medida em que deixou de ser apresentada ao vivo, passando a ser uma arte menor. (D) lamenta os efeitos nefastos da tecnologia sobre a música, que se transformou em mero toque de celular. (E) conclui com ironia que os adolescentes desfrutam música de qualidade inferior à cultivada por pessoas já formadas. 05. No entanto, a música não é mais algo que fazemos nós mesmos, ou até que observamos outras pessoas fazerem diante de nós. Considerando-se o contexto, é INCORRETO afirmar que o elemento grifado pode ser substituído por: (A) Porém. (B) Contudo. (C) Todavia. (D) Entretanto. (E) Conquanto.
  8. 8. Didatismo e Conhecimento 8 LÍNGUA PORTUGUESA Leia o texto para responder às questões de números 06 a 09. Temos o poder da escolha Os consumidores são assediados pelo marketing a todo momento para comprarem além do que necessitam, mas somente eles podem decidir o que vão ou não comprar. É como se abrissem em nós uma “caixa de necessidades”, mas só nós temos o poder da escolha. Cada vez mais precisamos do consumo consciente. Será que paramos para pensar de onde vem o produto que estamos consumindo e se os valores da empresa são os mesmos em que acreditamos? A competitividade entre as empresas exige que elas evoluam para serem opções para o consumidor. Nos anos 60, saber fabricar qualquer coisa era o suficiente para ter uma empresa. Nos anos 70, era preciso saber fazer com qualidade e altos índices de produção. Já no ano 2000, a preocupação era fazer melhor ou diferente da concorrência e as empresas passaram a atuar com responsabilidade socioambiental. O consumidor tem de aprender a dizer não quando a sua relação com a empresa não for boa. Se não for boa, deve comprar o produto em outro lugar. Os cidadãos não têm ideia do poder que possuem. É importante, ainda, entender nossa relação com a empresa ou produto que vamos eleger. Temos uma expectativa, um envolvimento e aceitação e a preferência dependerá das ações que aprovamos ou não nas empresas, pois podemos mudar de ideia. Há muito a ser feito. Uma pesquisa mostrou que 55,4% das pessoas acreditam no consumo consciente, mas essas mesmas pessoas admitem que já compraram produto pirata. Temos de refletir sobre isso para mudar nossas atitudes. (Jornal da Tarde 24.04.2007. Adaptado) 06. De acordo com a leitura do texto, pode-se afirmar que os consumidores (A) raramente sofrem interferências do marketing. (B) sabem dizer não quando uma empresa age incorretamente. (C) devem selecionar melhor empresas e produtos. (D) ameaçam deixar de continuar consumindo ao descobrirem irresponsabilidades. (E) resistem aos apelos do marketing, evitando as compras. 07. Conforme informações do texto, o consumo consciente depende (A) da reflexão sobre a origem dos produtos e da honestidade das empresas. (B) de os preços serem acessíveis ao consumidor e o produto estar na moda. (C) do marketing, que consegue convencer as pessoas. (D) de um produto ser atraente ou não para o consumidor. (E) das vantagens que a empresa pode oferecer ao se pagar à vista. 08. Na frase – Os consumidores são assediados pelo marketing... –, a palavra destacada pode ser substituída, sem alteração de sentido, por: (A) perseguidos. (B) ameaçados. (C) acompanhados. (D) gerados. (E) preparados. 09. No trecho – Temos uma expectativa, um envolvimento e aceitação... –, a palavra destacada apresenta sentido contrário de (A) vontade. (B) apreciação. (C) avaliação. (D) rejeição. (E) indiferença. Texto para os itens de 10 a 15 Ouvir a voz da rua, por meio da literatura, constitui um bom começo para a apreensão dos espaços de interação das pessoas destinatárias do texto literário com o direito e com o seu fenômeno de expressão mais notável, que é a lei. A leitura do texto literário que narra a perplexidade das pessoas em relação à lei pode interferir positivamente na compreensão do problema da adesão aos centros de tutela que nela se estabelecem.
  9. 9. Didatismo e Conhecimento 9 LÍNGUA PORTUGUESA Adialética própria do conhecimento aplica-se especialmente ao direito como grande cena da cultura humana e lugar de residência ou de visibilidade do conflito. O texto literário pode mudar o leitor, pode confrontar suas crenças e fazê-lo pensar. Ele pode, também, fazer o apostolado das necessidades. Esse, porém, não é um processo automático e não prescinde de uma mobilização por aqueles que detêm as ferramentas operacionais de geração do direito — legisladores, professores, teóricos e agentes máximos da informação pelo argumento, como os juízes, os advogados, os promotores etc. — para chamar a atenção do leitor acerca do conteúdo proposto no texto literário. O texto literário pode mudar o leitor, dar-lhe voz, chamar-lhe a atenção para algo não percebido espontaneamente, preencher-lhe as lacunas com o alívio de ouvir o que queria que fosse dito. Esse texto pode abrir uma vereda para a expansão do conhecimento por meio das promessas e perguntas que faz. Mônica Sette Lopes. A imagem do direito e da justiça no Machado de Assis cronista. Internet: <www.amatra3.com.br> (com adaptações). Com relação às ideias do texto, julgue os itens de 10 a 15. 10. Infere-se do texto que o texto literário é um dos agentes capazes de garantir que o cidadão comum tome conhecimento de seus direitos estabelecidos em lei. 11. Depreende-se da leitura do texto que, de modo geral, os inconformados com o sistema judicial utilizam os escritos literários como meio de expressão. 12. No texto, caracteriza-se a dialética como “grande cena da cultura humana e lugar de residência ou de visibilidade do conflito” (R.10-11). 13. O debate de diferentes aspectos pertinentes a determinados fatos regulados pela lei promovido pelos agentes que detêm as ferramentas operacionais de geração do direito é importante para que o texto literário possa levar o leitor a questionar seu modo de pensar e até a mudar seu ponto de vista a respeito dos assuntos nele abordados. Julgue os itens a seguir, referentes aos sentidos e aos aspectos estruturais do texto. 14. O trecho “dar-lhe voz, chamar-lhe a atenção para algo” (R.21-22) poderia ser corretamente entendido da seguinte forma: dar voz ao leitor, chamar a atenção do leitor para algo. 15. A palavra “cena” (R.10) foi empregada no texto com o sentido de arte. Texto para os itens de 15 a 19 O exercício da advocacia criminal constitui instrumento de equilíbrio social. Não haveria paz e tranquilidade se os julgamentos fossem realizados sem leis antecipadamente organizadas e se os réus — por mais graves que fossem os crimes cometidos — pudessem ser condenados sumariamente sem defesa. Quando se fala em defesa, trata-se da ampla defesa, que abrange o direito de recorrer, quando a decisão não for favorável. O recurso ampara-se em dois fundamentos de natureza psicológica. De um lado, o sentimento inato, inerente ao gênero humano, de inconformidade com a derrota. De outro, a certeza universal da falibilidade humana. Daí o impulso 13 existencial legítimo de ver um julgamento desfavorável reexaminado, de preferência por quem lhe pareça mais qualificado por melhores dotes de sabedoria e experiência, e mesmo, ainda que por simples presunção, por melhores valores culturais e morais. Se, na vida, recorrer ao amparo dos nossos semelhantes é uma necessidade, a lei não poderia deixar de acolher a utilização de recursos para o seu trato diário, como uma forma de ver-se prestigiada, ou seja, para que as partes envolvidas no processo se sintam amparadas, com a sensação de que a decisão foi, tanto quanto possível, devidamente apreciada, imparcial e justa. Tales Castelo Branco. Todo réu deve ter defesa. Internet: <http://super.abril.com.br> (com adaptações). Considerando as ideias e a tipologia do texto apresentado, julgue os itens subsequentes. 16. De acordo com o texto, o direito de ampla defesa contempla o direito de interposição de recurso contra uma sentença judicial. 17. O texto pode ser classificado como dissertativo, visto que nele se defende a ideia da importância da ampla defesa e se desenvolve argumentação a partir dela.
  10. 10. Didatismo e Conhecimento 10 LÍNGUA PORTUGUESA 18. De acordo com o texto, a previsão em lei do direito de recorrer contra decisão judicial contribui tanto para a manutenção da reputação do sistema judicial quanto para a promoção do bem-estar do réu. 19. O texto sugere que a ausência de paz e tranquilidade em uma sociedade advém do fato de o exercício da advocacia criminal ser falho ou inexistente. Texto para os itens de 20 a 25 O matemático americano Salman Khan, ou Sal, tornou-se o mais bem-sucedido professor de todos os tempos sem nenhuma base teórica na área da pedagogia nem trânsito no mundo dos especialistas em educação. Aos 36 anos, ele nunca chegou a demonstrar ambição de se converter em um grande pensador da sala de aula, mas vem se firmando como alguém com um olhar muito pragmático e ácido sobre a escola. Sal não muda o tom em seu recém-lançado The One World Schoolhouse: Education Reimagined, best-seller nos Estados Unidos, com chegada ao Brasil prevista para janeiro com o título Um Mundo, uma Escola (...). Preservando o estilo coloquial e ao mesmo tempo assertivo de suas aulas – já vistas 200 milhões de vezes na rede –, ele expõe pela primeira vez de forma mais organizada suas descobertas sobre o aprendizado. Incentivado pelos colegas do Vale do Silício, onde fincou sua Khan Academy, Até arrefeceu um pouco o ritmo frenético com que produz conteúdo áreas do conhecimento – algo que parecia impossível para quem o conhece bem – para concluir o texto sobre o qual se debruçou por dois anos. “Não tenho a pretensão dos grandes teóricos, mas uma experiência concreta que sinaliza para uma escola menos chata”, resume a VEJA o entusiasmado Sal. O mérito número 1 desse jovem matemático que coleciona ainda graduações em ciências da computação e engenharia elétrica e uma passagem pelo mercado financeiro é mostrar que a transformação da escola – ainda baseada no velho modelo prussiano do século XVIII – não requer nada de muito mirabolante nem tão dispendioso. Sal é, acima de tudo, um defensor do bom-senso. Ele indaga: “Se todas as pesquisas da neurociência já provaram que as pessoas perdem a concentração em longas palestras, por que a aula-padrão é expositiva e leva uma hora?”. Suas lições virtuais não passam de vinte minutos. Sal se declara ainda contra a falta de ambição acadêmica, uma das raízes do fracasso escolar. “O aprendizado de hoje é como um queijo suíço, cheio de buracos, e isso é estranhamente tolerado. Os alunos mudam de capítulo sem ter assimilado o anterior, dispara com o mesmo ímpeto com que combate a monotonia da sala de aula. “Enquanto o mundo requer gente criativa e com alta capacidade inovadora, o modelo vigente reforça reforça a passividade”, diz. Uma de suas grandes contribuições é mostrar como a tecnologia pode revirar velhas convicções sobre a escola, área em que ainda paira uma zona de sombra – inclusive no Brasil. As iniciativas nesse campo costumam se limitar a prover acesso a computadores e tablets sem que se faça nada de verdadeiramente útil, muito menos revolucionário, com eles. Sal aponta dois caminhos. O primeiro requer bons professores para lançar na rede conteúdo do mais alto nível para ser visto de qualquer lugar e no ritmo de cada um. De tão simples parece banal, mas ele reforça que pode estar aí a chave para um novo tipo de escola: “A criança assiste em casa à melhor aula possível, e o tempo na escola passa a ser usado de forma muito mais produtiva, para dúvidas e projetos intelectualmente desafiantes”, explica. O outro caminho descortinado por ele passa pela possibilidade que o computador traz de monitorar o desempenho dos alunos em tempo real – algo que, se bem aplicado, pode se converter em uma ferramenta valiosa. O próprio Sal desenvolveu um programa que permite ao professor visualizar o desempenho do aluno no instante exato em que ele resolve os desafios propostos no site da Khan Academy. (...) (BUTTI, Nathália. “Abaixo a chatice na sala de aula”. Veja. São Paulo: Editora Abril, 05 dez. 2012, p. 158-60.) 20. Na passagem “... Até arrefeceu um pouco...”, a forma verbal presente tem como antônimo: (A) esfriou (B) abrandou (C) estimulou (D) prejudicou (E) desanimou 21. No trecho “... o mais bem-sucedido professor de todos os tempos...” é possível reconhecer o emprego adequado do: (A) comparativo analítico (B) superlativo de totalidade (C) superlativo absoluto sintético (D) comparativo de superioridade (E) superlativo relativo de superioridade
  11. 11. Didatismo e Conhecimento 11 LÍNGUA PORTUGUESA 22. Nos sintagmas abaixo, a mudança de posição dos termos provoca alteração de sentido, EXCETO em: (A) “... velho modelo...” (B) “... ritmo frenético...” (C) “... grande pensador...” (D) “... jovem matemático...” (E) “... matemático americano...” 23. A passagem do texto em que se pode perceber o emprego de uma figura de linguagem é: (A) “... O aprendizado de hoje é como um queijo suíço...” (B) “.... Sal é, acima de tudo, um defensor do bom-senso...” (C) “... o tempo na escola passa a ser usado de forma muito mais produtiva...” (D) “... Preservando o estilo coloquial e ao mesmo tempo assertivo de suas aulas...” (E) “... O primeiro requer bons professores para lançar na rede conteúdo do mais alto nível...” 24. A oração “... sem que se faça nada de verdadeiramente útil, muito menos revolucionário, com eles...” apresenta valor semântico de: (A) condição (B) finalidade (C) proporção (D) concessão (E) consequência 25. Considere o trecho a seguir: “...“A criança assiste em casa à melhor aula possível, e o tempo na escola passa a ser usado de forma muito mais produtiva, para dúvidas e projetos intelectualmente desafiantes”, explica...”. Segundo o autor, “casa” e “escola” estabelecem relação de: (A) complementaridade (B) incompatibilidade (C) mecanicidade (D) reduplicação (E) introjeção Leia o texto e responda as questões de 26 a 30. ESCOLA DA DROGA Liana Melo Era pra ser um dia como outro qualquer. O carioca A.E. Acordou cedo e iniciou sua rotina matinal. Vestiu-se para ir à escola, tomou café e despediu-se da avó, com quem morava na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ao sair, checou se o cigarro de maconha que costumava esconder na mochila estava lá. Antes de ir para a sala de aula de um dos colégios religiosos tradicionais da cidade, foi ao banheiro. Ali, deixou o baseado cair. Foi denunciado e expulso. O episódio ocorreu há três anos, quando A.E. Tinha 12 anos. Hoje (...) é um dos 92 mil jovens que fazem uso regular de drogas e um dos cerca de milhões de estudantes brasileiros que admitem a existência de entorpecentes nas escolas. (...). “Ilusão pensar que é o traficante quem oferece drogas nas escolas. São os próprios amigos do colégio que fazem esse papel”, analisa a socióloga carioca Mary Castro. Foi exatamente isso que aconteceu com A.E. Um colega da escola de seu primo foi quem apertou o primeiro baseado para ele fumar. (...).Ao galgar a posição de usuário regular,A.E. Começou a ficar sem dinheiro. Com a mesada curta, passou a roubar celulares na escola. Não é incomum que o uso de drogas gerem distúrbios de comportamento como o de A.E.: 92% dos alunos pesquisadores afirmaram já ter cometido algum tipo de transgressão. É no entorno dos colégios, mais do que dentro deles, que se constata a presença do tráfico e do consumo de drogas. “Não é o aluno que vai atrás das drogas, é a droga que vai ao encontro dele”, analisa o psiquiatra paulista José Antônio Ribeira da Silva. A UNESCO confirma essa tese ao apontar os bares como os lugares onde, com maior frequência, são vendidas as drogas aos menores. Dentro das escolas, o banheiro é o lugar preferido para usar entorpecentes no horário das aulas. A maconha é disparadamente a droga ilícita mais consumida pelos estudantes. “Costumo dizer que a droga se matriculou na escola”- palavras do médico psicanalista José Outeiral.
  12. 12. Didatismo e Conhecimento 12 LÍNGUA PORTUGUESA Num passado recente, o jovem debutava no mundo das drogas aos 14 anos: hoje, aos 11 anos. Isso não significa que todos esses jovens evoluam para a dependência, assim como nem todo adolescente que usa droga está envolvido com tráfico. “Os mais vulneráveis são aqueles oriundos de famílias cujos limites não são claros”, analisa o psicanalista Luiz Alberto Pinheiro de Freitas. A ausência do “não” na vida desses jovens cria uma espécie de ideal maníaco pela felicidade eterna e ininterrupta. (...) Segundo pesquisa, o consumo de drogas entre meninas é 30% inferior ao dos meninos estudantes. “As drogas, sobretudo a maconha, provocam prejuízo cognitivo”- comenta o médico Jorge Jaber. Na faixa etária de 18 anos, por terem ainda o sistema nervoso imaturo, as drogas podem causar danos irreparáveis. Só que ao contrário do que se pensa, não é a maconha a porta de entrada para o mundo das drogas ilícitas, mas o álcool e o cigarro. L.S. iniciou nas drogas pelo álcool. Hoje aos 18 anos, ele já repetiu de ano algumas vezes e cursa a 8ª série. Já agrediu a mãe e costuma roubar: “Meus alvos preferidos são as velhinhas indefesas.” Em muitas escolas impera mesmo é a lei do silêncio, que vem acompanhada do medo e da ameaça, o que demonstra as tênues fronteiras entre a droga e a violência. Fonte: http://pt.shvoong.com/humanities/1718074-escola-da-droga/#ixzz2McJ3RQ3F último acesso em 04 /03/2012. 26. De acordo com o texto: (A) Colegas da mesma escola oferecem drogas aos seus amigos (B) A droga chega na escola por intermédio de traficantes. (C) Colégios religiosos são os que mais denunciam os traficantes (D) O traficante oferece drogas nos colégios tradicionais 27. Era pra ser um dia como outro qualquer. Essa frase do texto, referindo-se ao carioca A.E., faz supor que esse dia não foi igual aos demais porque ele: (A) Não encontrou seu cigarro na mochila (B) Deixou cair seu cigarro na sala de aula (C) Foi descoberto como um usuário de droga (D) Em vez de ir para a escola, foi para a zona sul do Rio. 28. É correto afirmar que o tráfico das drogas acontece, na maioria das vezes: (A) nas salas de aula (B) nos arredores da escola (C) nos banheiros das escolas (D) no pátio do colégio 29. Costumo dizer que a droga se matriculou na escola. Com essa frase, o médico quis dizer que: (A) Os alunos usuários de droga se matriculam nas escolas para usá-las mais facilmente. (B) A droga convive com os alunos, na escola. (C) A escola é o lugar mais visitado pelos traficantes (D) O aluno matricula-se na escola porque sabe que lá há drogas 30. O texto informa que: (A) Todo jovem dependente de droga aos 11 anos é traficante. (B) Todo jovem que usa droga acaba se envolvendo com o tráfico (C) Alguns jovens que começam a usar drogas aos 11 anos não se tornam dependentes dela (D) Jovens de 14 anos tornam-se dependentes da droga mais depressa. Leia o texto para responder às questões de números 31 a 34. Mais denso, menos trânsito As grandes cidades brasileiras estão congestionadas e em processo de deterioração agudizado pelo crescimento econômico da última década. Existem deficiências evidentes em infraestrutura, mas é importante também considerar o planejamento urbano. Muitas grandes cidades adotaram uma abordagem de desconcentração, incentivando a criação de diversos centros urbanos, na visão de que isso levaria a uma maior facilidade de deslocamento. Mas o efeito tem sido o inverso. A criação de diversos centros e o aumento das distâncias multiplicam o número de viagens, dificultando o investimento em transporte coletivo e aumentando a necessidade do transporte individual.
  13. 13. Didatismo e Conhecimento 13 LÍNGUA PORTUGUESA Se olharmos Los Angeles como a região que levou a desconcentração ao extremo, ficam claras as consequências. Numa região rica como a Califórnia, com enorme investimento viário, temos engarrafamentos gigantescos que viraram característica da cidade. Os modelos urbanos bem-sucedidos são aqueles com elevado adensamento e predominância do transporte coletivo, como mostram Manhattan e Tóquio. OcentrohistóricodeSãoPauloéaregiãodacidademaisbemservidadetransportecoletivo,cominfraestruturadetelecomunicação, água, eletricidade etc. Como em outras grandes cidades, essa deveria ser a região mais adensada da metrópole. Mas não é o caso. Temos, hoje, um esvaziamento gradual do centro, com deslocamento das atividades para diversas regiões da cidade. A visão de adensamento com uso abundante de transporte coletivo precisa ser recuperada. Desse modo, será possível reverter esse processo de uso cada vez mais intenso do transporte individual, fruto não só do novo acesso da população ao automóvel, mas também da necessidade de maior número de viagens em função da distância cada vez maior entre os destinos da população. (Henrique Meirelles, Folha de S.Paulo, 13.01.2013. Adaptado) 31. A partir da leitura do primeiro parágrafo, pode-se concluir que a degeneração das grandes cidades brasileiras tem sido acelerada (A) pelo crescimento econômico da última década. (B) pela ausência de manutenção das grandes rodovias. (C) pela falta de investimento por parte de empresas privadas. (D) pela inexistência de transporte individual. (E) pela concentração de moradores em zonas muito pobres. 32. Para o autor, a criação de diversos centros urbanos dificulta o deslocamento, porque (A) limita as atividades dos indivíduos a uma única área da cidade. (B) obriga os cidadãos a usar o transporte coletivo. (C) acarreta uma redução do número de rodovias. (D) diminui a necessidade de construção de vias públicas. (E) multiplica o número de viagens da população. 33. Uma alternativa apontada no texto para a melhoria do trânsito nas grandes cidades, além do adensamento, está em (A) ampliar a malha viária no entorno das cidades. (B) proibir a circulação de veículos nas regiões centrais. (C) investir no transporte coletivo. (D) estimular a aquisição de automóveis. (E) restringir o horário de circulação de veículos. 34. Na opinião do autor, o centro histórico de São Paulo deveria ser a região mais adensada da metrópole, uma vez que é a mais (A) populosa e concentra o maior número de empresas. (B) rica em termos de infraestrutura e transporte público. (C) frequentada por trabalhadores e paulistanos no geral. (D) tradicional e considerada polo turístico da cidade. (E) carente quanto à oferta de serviços de saneamento. 35. Leia o cartum de Jean Galvão. (https://www.facebook.com/jeangalvao.cartunista)
  14. 14. Didatismo e Conhecimento 14 LÍNGUA PORTUGUESA Considerando a relação entre a fala do personagem e a imagem visual, pode-se concluir que o que o leva a pular a onda é a necessidade de (A) demonstrar respeito às religiões. (B) realizar um ritual místico. (C) divertir-se com os amigos. (D) preservar uma tradição familiar. (E) esquivar-se da sujeira da água Leia o texto para responder às questões de números 36 a 38. Pulseira ‘high-tech’ ajuda a encontrar criança na praia Pulseiras de silicone à prova d’água ligadas a um sistema eletrônico são as novas estratégias disponíveis aos pais para ajudar a localizar filhos perdidos na praia. Só no período de 21 de dezembro de 2012 a 10 de janeiro de 2013, o litoral paulista somou 323 casos de crianças perdidas, segundo o Corpo de Bombeiros – o que representa um avanço de 41% em relação à temporada de 2011/2012 e de 201% ante a de 2010/2011. De fabricação chinesa, a nova pulseirinha chega primeiro às areias do Guarujá. A ideia é da ONG Anjos do Verão. O grupo de voluntários instala um código numérico em baixo relevo na pulseira – que pode ser usada por até dois anos – e cadastra no sistema dados da criança, celular e e-mail dos pais e de outros familiares. Se a criança se perder, quem encontrá-la verá na pulseira instruções para que envie uma mensagem eletrônica ao grupo ou acione o código na internet. Assim que o código é digitado, familiares cadastrados recebem automaticamente uma mensagem dizendo que a criança foi encontrada. O sistema permite ainda cadastrar o nome e o telefone de quem a encontrou e informar um ponto de referência. Um geolocalizador também avisará os pais de onde o código foi acionado. Segundo o coordenador da Anjos do Verão, Rui Silva, a ideia é instituir uma nova forma de identificação, sem correr o risco de expor dados da criança e da família. A ONG planeja levar o sistema para além da faixa de areia. “Queremos criar um ponto de encontro eletrônico que sirva não só para as praias, mas também para o pai que leva os filhos ao shopping, ao aeroporto ou até à rua 25 de Março”, diz Silva. (Natália Cancian, Folha de S.Paulo, 13.01.2013. Adaptado) Glossário high-tech: de alta-tecnologia 36. De acordo com o texto, a pulseira eletrônica é distribuída pela ONG Anjos do Verão com a finalidade de (A) impedir crianças de se distanciarem dos pais. (B) facilitar a localização de crianças perdidas. (C) alertar os pais sobre o risco de perder os filhos. (D) auxiliar a encontrar vítimas de afogamento nas praias. (E) identificar possíveis sequestradores de crianças. 37. Segundo o coordenador da Anjos do Verão, a pulseira eletrônica (A) apresenta alta durabilidade, que ultrapassa dois anos de uso contínuo. (B) será distribuída gratuitamente aos frequentadores das praias do Guarujá. (C) deve ser usada por menores de todas as faixas etárias. (D) auxiliou o trabalho dos bombeiros durante os últimos verões. (E) oferece maior proteção aos dados da criança e da família. 38. Considerando o conjunto das informações do último parágrafo, com a frase – A ONG planeja levar o sistema para além da faixa de areia. –, a autora quer dizer que a ONG planeja (A) expandir o sistema para outras áreas. (B) demarcar as fronteiras de uso do sistema. (C) levar o sistema para praias de todo o litoral paulista. (D) tornar o sistema mais resistente à areia da praia. (E) agilizar o acesso ao sistema nas praias.
  15. 15. Didatismo e Conhecimento 15 LÍNGUA PORTUGUESA Leia o texto para responder às questões de números 39 a 42. Perdida, só me lembrava do ‘índio’ do prédio “A única coisa que ela sabe é que tem o desenho de um índio na porta do prédio”, dizia o sorveteiro, um pouco confuso, sem saber o que fazer com aquela criança perdida na avenida em frente à praia. Ele tentava convencer duas senhoras a assumir o problema, que, no caso, era eu. Em silêncio, de cabeça baixa, eu morria de vergonha diante de tamanha proeza – conseguir me perder entre os poucos metros que separavam o edifício onde estava com minha família e a banca de revistas. Tão senhora de mim aos oito anos de idade, nem percebi que segui em direção à praia, quando deveria voltar. E lá fui eu com as duas novas tutoras e o sorveteiro, em busca do tal edifício. Para elas, o jeito era chamar a polícia. Anda de um lado, pergunta do tal índio pro outro, até que ouço uma voz: “achamos”. Uma prima, quase em prantos, me abraçou e disse: “estávamos desesperados”. Lá pelos anos 70, sem celular, iPhone, iPad ou outras tantas muletas, a estratégia foi cada integrante da família se dividir e fixar um tempo para voltar à porta do prédio. Estavam todos lá, minha mãe, primos, tia, o sorveteiro, as duas mulheres e eu – ainda muda. Só choro, abraço e, para o meu espanto, nenhuma bronca. E a cara de surpresa quando todos viram que só eu havia reparado no tal índio pintado na porta do prédio. Talvez nada disso teria acontecido se tivesse uma dessas pulseirinhas de identificação. Mas talvez também não tivesse aprendido que é sempre bom saber como voltar pra casa. (Denise Chiarato, Folha de S.Paulo, 13.01.2013. Adaptado) 39. No texto, a narradora (A) conta o episódio de quando se perdeu dos familiares aos oito anos. (B) relata sua experiência de encontrar uma criança perdida na rua. (C) fala da experiência de ter voltado para casa com a ajuda de um dispositivo eletrônico. (D) expõe sua indignação contra pais que perdem seus filhos. (E) lembra quando foi severamente repreendida pelos pais por ter se perdido. 40. Assinale a alternativa que completa corretamente a lacuna do texto. O fato de a menina saber que havia o desenho de um índio na porta do prédio mostrou-se para que ela soubesse voltar para casa sozinha. (A) indispensável (B) inútil (C) essencial (D) conveniente (E) vantajoso 41. Releia o último parágrafo. Talvez nada disso teria acontecido se tivesse uma dessas pulseirinhas de identificação. Mas talvez também não tivesse aprendido que é sempre bom saber como voltar pra casa. A autora conclui que a experiência de perder-se pode ser (A) divertida. (B) traumática. (C) letal. (D) instrutiva. (E) destrutiva. 42. Observe a passagem do penúltimo parágrafo. Lá pelos anos 70, sem celular, iPhone, iPad ou outras tantas muletas, a estratégia foi cada integrante da família se dividir e fixar um tempo para voltar à porta do prédio. Estavam todos lá, minha mãe, primos, tia, o sorveteiro, as duas mulheres e eu – ainda muda. O termo lá, nas expressões Lá pelos anos 70 e Estavam todos lá, expressa ideia de (A) dúvida e modo, respectivamente. (B) tempo, em ambas as ocorrências. (C) modo, em ambas as ocorrências. (D) lugar e dúvida, respectivamente. (E) tempo e lugar, respectivamente.
  16. 16. Didatismo e Conhecimento 16 LÍNGUA PORTUGUESA A tirinha a seguir serve de base para as questões 43 e 44. Observe-a com atenção: 43. Comparando a fala do primeiro balão com a do último, é CORRETO afirmar que: a) há uma relação intertextual entre elas, embora haja diferenças de estrutura sintática entre uma e outra. b) sob o ponto de vista conceitual, a expressão “lei da selva” tem uma extensão mais ampla que “lei da gravidade”, que tem sentido especializado. c) a forma verbal “Lamento” sugere a relação respeitosa que as personagens estabelecem entre si na tirinha. d) a conjunção “mas” poderia ser substituída, somente no primeiro quadrinho, por porém ou no entanto. e) a expressão “lei da gravidade” não pode ser entendida, devido ao contexto sarcástico, como um termo técnico da Física. 44. A imagem no segundo quadrinho a) comprova que a lei da selva é válida em todas as situações. b) é incompatível com o que ocorreu no primeiro quadrinho. c) reforça o lamento do gato no começo da tirinha. d) permite ao rato fazer a observação que está no último balão. e) mostra a indignação do rato para com a postura do gato. Gabarito: (1-D), (2-A), (3-D), (4-A), (5-E), (6-C), (7-A), (8-A), (9-D), (10-E), (11-E), (12-E), (13-C), (14-C), (15-E), (16-C), (17-C), (18-C), (19-E), (20-C), (21-E), (22-B), (23-A), (24-D), (25-A), (26-A), (27-C), (28-B), (29-B), (30-C), (31-A), (32-E), (33- C), (34-B), (35-E), (36-B), (37-E), (38-A), (39-A), (40-B), (41-D), (42-E), (43-B), (44-D).. RECONHECIMENTO DA FINALIDADE DE TEXTOS DE DIFERENTES GÊNEROS Tipologia Textual Texto Literário: expressa a opinião pessoal do autor que também é transmitida através de figuras, impregnado de subjetivismo. Ex: um romance, um conto, uma poesia... (Conotação, Figurado, Subjetivo, Pessoal). Texto Não-Literário: preocupa-se em transmitir uma mensagem da forma mais clara e objetiva possível. Ex: uma notícia de jornal, uma bula de medicamento. (Denotação, Claro, Objetivo, Informativo). O objetivo do texto é passar conhecimento para o leitor. Nesse tipo textual, não se faz a defesa de uma ideia. Exemplos de textos explicativos são os encontrados em manuais de instruções. Informativo: Tem a função de informar o leitor a respeito de algo ou alguém, é o texto de uma notícia de jornal, de revista, fo- lhetos informativos, propagandas. Uso da função referencial da linguagem, 3ª pessoa do singular. Descrição: Um texto em que se faz um retrato por escrito de um lugar, uma pessoa, um animal ou um objeto. A classe de palavras mais utilizada nessa produção é o adjetivo, pela sua função caracterizadora. Numa abordagem mais abstrata, pode-se até descrever sensações ou sentimentos. Não há relação de anterioridade e posterioridade. Significa “criar” com palavras a imagem do objeto des- crito. É fazer uma descrição minuciosa do objeto ou da personagem a que o texto se refere.
  17. 17. Didatismo e Conhecimento 17 LÍNGUA PORTUGUESA Narração: Modalidade em que se conta um fato, fictício ou não, que ocorreu num determinado tempo e lugar, envolvendo certos personagens. Refere-se a objetos do mundo real. Há uma relação de anterioridade e posterioridade. O tempo verbal predominante é o passado. Estamos cercados de narrações desde as que nos contam histórias infantis, como o “Chapeuzinho Vermelho” ou a “Bela Adormecida”, até as picantes piadas do cotidiano. Dissertação: Dissertar é o mesmo que desenvolver ou explicar um assunto, discorrer sobre ele. Assim, o texto dissertativo pertence ao grupo dos textos expositivos, juntamente com o texto de apresentação científica, o relatório, o texto didático, o artigo enciclopédico. Em princípio, o texto dissertativo não está preocupado com a persuasão e sim, com a transmissão de conhecimento, sendo, portanto, um texto informativo. Argumentativo: Os textos argumentativos, ao contrário, têm por finalidade principal persuadir o leitor sobre o ponto de vista do autor a respeito do assunto. Quando o texto, além de explicar, também persuade o interlocutor e modifica seu comportamento, temos um texto dissertativo-argumentativo. Exemplos: texto de opinião, carta do leitor, carta de solicitação, deliberação informal, discurso de defesa e acusação (advocacia), resenha crítica, artigos de opinião ou assinados, editorial. Exposição: Apresenta informações sobre assuntos, expõe ideias; explica, avalia, reflete. (analisa ideias). Estrutura básica; ideia principal; desenvolvimento; conclusão. Uso de linguagem clara. Ex: ensaios, artigos científicos, exposições,etc. Injunção: Indica como realizar uma ação. É também utilizado para predizer acontecimentos e comportamentos. Utiliza lingua- gem objetiva e simples. Os verbos são, na sua maioria, empregados no modo imperativo. Há também o uso do futuro do presente. Ex: Receita de um bolo e manuais. Diálogo: é uma conversação estabelecida entre duas ou mais pessoas. Pode conter marcas da linguagem oral, como pausas e retomadas. Entrevista: é uma conversação entre duas ou mais pessoas (o entrevistador e o entrevistado), na qual perguntas são feitas pelo entrevistador para obter informação do entrevistado. Os repórteres entrevistam as suas fontes para obter declarações que validem as informações apuradas ou que relatem situações vividas por personagens. Antes de ir para a rua, o repórter recebe uma pauta que contém informações que o ajudarão a construir a matéria. Além das informações, a pauta sugere o enfoque a ser trabalhado assim como as fontes a serem entrevistadas. Antes da entrevista o repórter costuma reunir o máximo de informações disponíveis sobre o assunto a ser abordado e sobre a pessoa que será entrevistada. Munido deste material, ele formula perguntas que levem o entrevistado a fornecer informações novas e relevantes. O repórter também deve ser perspicaz para perceber se o entrevistado mente ou manipula dados nas suas respostas, fato que costuma acontecer principalmente com as fontes oficiais do tema. Por exemplo, quando o repórter vai entrevistar o presidente de uma instituição pública sobre um problema que está a afetar o fornecimento de serviços à população, ele tende a evitar as perguntas e a querer reverter a resposta para o que considera positivo na instituição. É importante que o repórter seja insistente. O entrevistador deve conquistar a confiança do entrevistado, mas não tentar dominá-lo, nem ser por ele dominado. Caso contrário, acabará induzindo as respostas ou perdendo a objetividade. As entrevistas apresentam com frequência alguns sinais de pontuação como o ponto de interrogação, o travessão, aspas, reti- cências, parêntese e as vezes colchetes, que servem para dar ao leitor maior informações que ele supostamente desconhece. O título da entrevista é um enunciado curto que chama a atenção do leitor e resume a ideia básica da entrevista. Pode estar todo em letra maiúscula e recebe maior destaque da página. Na maioria dos casos, apenas as preposições ficam com a letra minúscula. O subtítulo introduz o objetivo principal da entrevista e não vem seguido de ponto final. É um pequeno texto e vem em destaque também. A fo- tografia do entrevistado aparece normalmente na primeira página da entrevista e pode estar acompanhada por uma frase dita por ele. As frases importantes ditas pelo entrevistado e que aparecem em destaque nas outras páginas da entrevista são chamadas de “olho”. Crônica: Assim como a fábula e o enigma, a crônica é um gênero narrativo. Como diz a origem da palavra (Cronos é o deus grego do tempo), narra fatos históricos em ordem cronológica, ou trata de temas da atualidade. Mas não é só isso. Lendo esse texto, você conhecerá as principais características da crônica, técnicas de sua redação e terá exemplos. Uma das mais famosas crônicas da história da literatura luso-brasileira corresponde à definição de crônica como “narração histórica”. É a “Carta de Achamento do Brasil”, de Pero Vaz de Caminha”, na qual são narrados ao rei português, D. Manuel, o des- cobrimento do Brasil e como foram os primeiros dias que os marinheiros portugueses passaram aqui. Mas trataremos, sobretudo, da crônica como gênero que comenta assuntos do dia a dia. Para começar, uma crônica sobre a crônica, de Machado de Assis:
  18. 18. Didatismo e Conhecimento 18 LÍNGUA PORTUGUESA O nascimento da crônica “Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosfé- ricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e la glace est rompue está começada a crônica. (...) (Machado de Assis. “Crônicas Escolhidas”. São Paulo: Editora Ática, 1994) Publicada em jornal ou revista onde é publicada, destina-se à leitura diária ou semanal e trata de acontecimentos cotidianos. A crônica se diferencia no jornal por não buscar exatidão da informação. Diferente da notícia, que procura relatar os fatos que aconte- cem, a crônica os analisa, dá-lhes um colorido emocional, mostrando aos olhos do leitor uma situação comum, vista por outro ângulo, singular. O leitor pressuposto da crônica é urbano e, em princípio, um leitor de jornal ou de revista. A preocupação com esse leitor é que faz com que, dentre os assuntos tratados, o cronista dê maior atenção aos problemas do modo de vida urbano, do mundo contempo- râneo, dos pequenos acontecimentos do dia a dia comuns nas grandes cidades. Jornalismo e literatura: É assim que podemos dizer que a crônica é uma mistura de jornalismo e literatura. De um recebe a ob- servação atenta da realidade cotidiana e do outro, a construção da linguagem, o jogo verbal. Algumas crônicas são editadas em livro, para garantir sua durabilidade no tempo. LOCALIZAÇÃO DE INFORMAÇÕES EXPLÍCITAS NO TEXTO; INFERÊNCIA DE SENTIDO DE PALAVRAS E/OU EXPRESSÕES; INFERÊNCIA DE INFORMAÇÕES IMPLÍCITAS NO TEXTO E DAS RELAÇÕES DE CAUSA E C ONSEQUÊNCIA ENTRE AS PARTES DE UM TEXTO Informações explícitas e implícitas Texto: “Neto ainda está longe de se igualar a qualquer um desses craques (Rivelino, Ademir da Guia, Pedro Rocha e Pelé), mas ainda tem um longo caminho a trilhar (...).” Veja São Paulo, 26/12/1990, p. 15. Esse texto diz explicitamente que: - Rivelino, Ademir da Guia, Pedro Rocha e Pelé são craques; - Neto não tem o mesmo nível desses craques; - Neto tem muito tempo de carreira pela frente. O texto deixa implícito que: - Existe a possibilidade de Neto um dia aproximar-se dos craques citados; - Esses craques são referência de alto nível em sua especialidade esportiva; - Há uma oposição entre Neto e esses craques no que diz respeito ao tempo disponível para evoluir. Todos os textos transmitem explicitamente certas informações, enquanto deixam outras implícitas. Por exemplo, o texto acima não explicita que existe a possibilidade de Neto se equiparar aos quatro futebolistas, mas a inclusão do advérbio ainda estabelece esse implícito. Não diz também com explicitude que há oposição entre Neto e os outros jogadores, sob o ponto de vista de contar com tempo para evoluir. A escolha do conector “mas” entre a segunda e a primeira oração só é possível levando em conta esse dado implícito. Como se vê, há mais significados num texto do que aqueles que aparecem explícitos na sua superfície. Leitura proficiente é aquela capaz de depreender tanto um tipo de significado quanto o outro, o que, em outras palavras, significa ler nas entrelinhas. Sem essa habilidade, o leitor passará por cima de significados importantes ou, o que é bem pior, concordará com ideias e pontos de vista que rejeitaria se os percebesse. Os significados implícitos costumam ser classificados em duas categorias: os pressupostos e os subentendidos.
  19. 19. Didatismo e Conhecimento 19 LÍNGUA PORTUGUESA Pressupostos: são ideias implícitas que estão implicadas logicamente no sentido de certas palavras ou expressões explicitadas na superfície da frase. Exemplo: “André tornouse um antitabagista convicto.” A informação explícita é que hoje André é um antitabagista convicto. Do sentido do verbo tornarse, que significa “vir a ser”, decorre logicamente que antes André não era antitabagista convicto. Essa informação está pressuposta. Ninguém se torna algo que já era antes. Seria muito estranho dizer que a palmeira tornouse um vegetal. “Eu ainda não conheço a Europa.” A informação explícita é que o enunciador não tem conhecimento do continente europeu. O advérbio ainda deixa pressuposta a possibilidade de ele um dia conhecêla. As informações explícitas podem ser questionadas pelo receptor, que pode ou não concordar com elas. Os pressupostos, porém, devem ser verdadeiros ou, pelo menos, admitidos como tais, porque esta é uma condição para garantir a continuidade do diálogo e também para fornecer fundamento às afirmações explícitas. Isso significa que, se o pressuposto é falso, a informação explícita não tem cabimento. Assim, por exemplo, se Maria não falta nunca a aula nenhuma, não tem o menor sentido dizer “Até Maria compare- ceu à aula de hoje”. Até estabelece o pressuposto da inclusão de um elemento inesperado. Na leitura, é muito importante detectar os pressupostos, pois eles são um recurso argumentativo que visa a levar o receptor a acei- tar a orientação argumentativa do emissor. Ao introduzir uma ideia sob a forma de pressuposto, o enunciador pretende transformar seu interlocutor em cúmplice, pois a ideia implícita não é posta em discussão, e todos os argumentos explícitos só contribuem para confirmála. O pressusposto aprisiona o receptor no sistema de pensamento montado pelo enunciador. A demonstração disso pode ser feita com as “verdades incontestáveis” que estão na base de muitos discursos políticos, como o que segue: “Quando o curso do rio São Francisco for mudado, será resolvido o problema da seca no Nordeste.” O enunciador estabelece o pressuposto de que é certa a mudança do curso do São Francisco e, por consequência, a solução do problema da seca no Nordeste. O diálogo não teria continuidade se um interlocutor não admitisse ou colocasse sob suspeita essa certeza. Em outros termos, haveria quebra da continuidade do diálogo se alguém interviesse com uma pergunta deste tipo: “Mas quem disse que é certa a mudança do curso do rio?” A aceitação do pressuposto estabelecido pelo emissor permite levar adiante o debate; sua negação compromete o diálogo, uma vez que destrói a base sobre a qual se constrói a argumentação, e daí nenhum argumento tem mais importância ou razão de ser. Com pressupostos distintos, o diálogo não é possível ou não tem sentido. A mesma pergunta, feita para pessoas diferentes, pode ser embaraçosa ou não, dependendo do que está pressuposto em cada situação. Para alguém que não faz segredo sobre a mudança de emprego, não causa o menor embaraço uma pergunta como esta: “Como vai você no seu novo emprego?” O efeito da mesma pergunta seria catastrófico se ela se dirigisse a uma pessoa que conseguiu um segundo emprego e quer manter sigilo até decidir se abandona o anterior. O adjetivo novo estabelece o pressuposto de que o interrogado tem um emprego diferente do anterior. Marcadores de Pressupostos - Adjetivos ou palavras similares modificadoras do substantivo Julinha foi minha primeira filha. “Primeira” pressupõe que tenho outras filhas e que as outras nasceram depois de Julinha. Destruíram a outra igreja do povoado. “Outra” pressupõe a existência de pelo menos uma igreja além da usada como referência.
  20. 20. Didatismo e Conhecimento 20 LÍNGUA PORTUGUESA - Certos verbos Renato continua doente. O verbo “continua” indica que Renato já estava doente no momento anterior ao presente. Nossos dicionários já aportuguesaram a palavrea copydesk. O verbo “aportuguesar” estabelece o pressuposto de que copidesque não existia em português. - Certos advérbios A produção automobilística brasileira está totalmente nas mãos das multinacionais. O advérbio totalmente pressupõe que não há no Brasil indústria automobilística nacional. - Você conferiu o resultado da loteria? - Hoje não. A negação precedida de um advérbio de tempo de âmbito limitado estabelece o pressuposto de que apenas nesse intervalo (hoje) é que o interrogado não praticou o ato de conferir o resultado da loteria. - Orações adjetivas Os brasileiros, que não se importam com a coletividade, só se preocupam com seu bemestar e, por isso, jogam lixo na rua, fecham os cruzamentos, etc. O pressuposto é que “todos” os brasileiros não se importam com a coletividade. Os brasileiros que não se importam com a coletividade só se preocupam com seu bemestar e, por isso, jogam lixo na rua, fecham os cruzamentos, etc. Nesse caso, o pressuposto é outro: “alguns” brasileiros não se importam com a coletividade. No primeiro caso, a oração é explicativa; no segundo, é restritiva. As explicativas pressupõem que o que elas expressam se refere à totalidade dos elementos de um conjunto; as restritivas, que o que elas dizem concerne apenas a parte dos elementos de um conjun- to. O produtor do texto escreverá uma restritiva ou uma explicativa segundo o pressuposto que quiser comunicar. Subentendidos: são insinuações contidas em uma frase ou um grupo de frases. Suponhamos que uma pessoa estivesse em visita à casa de outra num dia de frio glacial e que uma janela, por onde entravam rajadas de vento, estivesse aberta. Se o visitante dissesse “Que frio terrível”, poderia estar insinuando que a janela deveria ser fechada. Há uma diferença capital entre o pressuposto e o subentendido. O primeiro é uma informação estabelecida como indiscutível tanto para o emissor quanto para o receptor, uma vez que decorre necessariamente do sentido de algum elemento linguístico colocado na frase. Ele pode ser negado, mas o emissor coloca o implicitamente para que não o seja. Já o subentendido é de responsabilidade do receptor. O emissor pode esconder-se atrás do sentido literal das palavras e negar que tenha dito o que o receptor depreendeu de suas palavras. Assim, no exemplo dado acima, se o dono da casa disser que é muito pouco higiênico fechar todas as janelas, o visitante pode dizer que também acha e que apenas constatou a intensidade do frio. O subentendido serve, muitas vezes, para o emissor protegerse, para transmitir a informação que deseja dar a conhecer sem se comprometer. Imaginemos, por exemplo, que um funcionário recémpromovido numa empresa ouvisse de um colega o seguinte: “Competência e mérito continuam não valendo nada como critério de promoção nesta empresa...” Esse comentário talvez suscitasse esta suspeita: “Você está querendo dizer que eu não merecia a promoção?” Ora, o funcionário preterido, tendo recorrido a um subentendido, poderia responder: “Absolutamente! Estou falando em termos gerais.”
  21. 21. Didatismo e Conhecimento 21 LÍNGUA PORTUGUESA DISTINÇÃO DE FATO E OPINIÃO SOBRE ESSE FATO Fato e Opinião Qual é a diferença entre um fato e uma opinião? O fato é aquilo que aconteceu, enquanto que a opinião é o que alguém pensa que ocorreu, uma interpretação dos fatos. Digamos: houve um roubo na portaria da empresa e alguém vai investigá-lo. Se essa pessoa for absolutamente honesta, faz um relatório claro relatando os fatos com absoluta fidelidade e após esse relato objetivo, apresenta sua opinião sobre os acontecimentos. É usualmente desejável que ela dê sua opinião porque, se foi escalada para investigar o crime é porque tem qualificação para isso; além disso, o próprio fato de ela ter investigado já lhe dá autoridade para opinar. É importante considerar: - Vivemos num mundo em que tomamos decisões a partir de informações; - Estas nos chegam por meio de relatos de fatos e expressões de opiniões; - Fatos usualmente podem ser submetidos à prova: por números, documentos, registros; - Opiniões, por outro lado, refletem juízos, valores, interpretações; - Muitas pessoas confundem fatos e opiniões, e quando isso ocorre temos de ter cuidado com as informações que vêm delas; - Igualmente temos de estar atentos às nossas próprias opiniões, pois elas podem ser tomadas como fatos por outros; - Nossas decisões devem ser baseadas em fatos, mas podem levar em conta as opiniões de gente qualificada sobre tais fatos. Exemplo: Trecho do livro “Sufismo no Ocidente” Um mestre que conhecia o caminho para a sabedoria foi visitado por um grupo de buscadores. Encontraram-no num pátio, cercado de discípulos, em meio ao que parecia ser uma festa. Alguns buscadores disseram: – Que ofensivo, esta não é a forma de se comportar, qualquer que seja o pretexto. Outros disseram: – Isto nos parece excelente, gostamos desta sessão de ensinamento e desejamos participar dela. E outros disseram: – Estamos meio perplexos e queremos saber mais sobre este enigma. Os demais buscadores comentaram entre si: – Pode haver alguma sabedoria nisto, mas não sabemos se devemos perguntar ou não. O mestre afastou todos. Todas estas pessoas, em conversas ou por escrito, difundiram suas opiniões sobre o ocorrido. Mesmo aqueles que não falaram por experiência direta foram afetados por ele, e suas palavras e obras refletiram sua opinião a respeito. Algum tempo depois, determinados membros do grupo de buscadores passaram novamente por ali e foram ver o mestre. Parados à sua porta, observaram que, no pátio, ele e seus discípulos estavam agora sentados com decoro, em profunda contemplação. – Assim está melhor — disseram alguns dos visitantes. — É evidente que alguma coisa aprenderam com os nossos protestos. – Isto é excelente — falaram outros — porque, na última vez, sem sombra de dúvida ele só nos estava colocando à prova. – Isto é demasiado sombrio — outros disseram. — Podíamos ter encontrado caras sérias em qualquer lugar. E houve outras opiniões, faladas e pensadas. O sábio, quando terminou o tempo de reflexão, dispensou todos estes visitantes. Muito tempo depois, um pequeno número deles voltou para pedir sua interpretação do que haviam experimentado. Apresenta- ram-se diante da porta e olharam para dentro do pátio. O mestre estava sentado, sozinho, nem em divertimento, nem em meditação. Em parte alguma se via qualquer dos seus anteriores discípulos. – Agora podem escutar a história completa — disse-lhes. — Pude despedir meus discípulos, já que a tarefa foi realizada. Quan- do vieram pela primeira vez, a aula tinha estado demasiadamente séria. Eu estava aplicando o corretivo. Na segunda vez em que vieram, haviam estado demasiado alegres. Eu estava aplicando o corretivo. Quando um homem está trabalhando, nem sempre se explica diante de visitantes eventuais, por muito interessado que eles acreditem estar. Quando uma ação está em andamento, o que conta é a correta realização dessa ação. Nestas circunstâncias, a avaliação externa torna-se um assunto secundário.
  22. 22. Didatismo e Conhecimento 22 LÍNGUA PORTUGUESA INTERPRETAÇÃO DE LINGUAGEM NÃO VERBAL (TABELAS, FOTOS, QUADRINHOS ETC.) Linguagem Verbal e Não Verbal Linguagem é a capacidade que possuímos de expressar nossos pensamentos, ideias, opiniões e sentimentos. Está relacionada a fenômenos comunicativos; onde há comunicação, há linguagem. Podemos usar inúmeros tipos de linguagens para estabelecermos atos de comunicação, tais como: sinais, símbolos, sons, gestos e regras com sinais convencionais (linguagem escrita e linguagem mímica, por exemplo). Num sentido mais genérico, a linguagem pode ser classificada como qualquer sistema de sinais que se valem os indivíduos para comunicar-se. A linguagem pode ser: - Verbal: aquela que faz uso das palavras para comunicar algo. As figuras acima nos comunicam sua mensagem através da linguagem verbal (usa palavras para transmitir a informação). - Não Verbal: aquela que utiliza outros métodos de comunicação, que não são as palavras. Dentre elas estão a linguagem de sinais, as placas e sinais de trânsito, a linguagem corporal, uma figura, a expressão facial, um gesto, etc. Essas figuras fazem uso apenas de imagens para comunicar o que representam. A Língua é um instrumento de comunicação, sendo composta por regras gramaticais que possibilitam que determinado grupo de falantes consiga produzir enunciados que lhes permitam comunicar-se e compreender-se. Por exemplo: falantes da língua portuguesa. A língua possui um caráter social: pertence a todo um conjunto de pessoas, as quais podem agir sobre ela. Cada membro da comunidade pode optar por esta ou aquela forma de expressão. Por outro lado, não é possível criar uma língua particular e exigir que outros falantes a compreendam. Dessa forma, cada indivíduo pode usar de maneira particular a língua comunitária, originando a fala. A fala está sempre condicionada pelas regras socialmente estabelecidas da língua, mas é suficientemente ampla para permitir um exercício criativo da comunicação. Um indivíduo pode pronunciar um enunciado da seguinte maneira: A família de Regina era paupérrima. Outro, no entanto, pode optar por: A família de Regina era muito pobre. As diferenças e semelhanças constatadas devem-se às diversas manifestações da fala de cada um. Note, além disso, que essas manifestações devem obedecer às regras gerais da língua portuguesa, para não correrem o risco de produzir enunciados incompreen- síveis como:
  23. 23. Didatismo e Conhecimento 23 LÍNGUA PORTUGUESA Família a paupérrima de era Regina. Não devemos confundir língua com escrita, pois são dois meios de comunicação distintos. A escrita representa um estágio pos- terior de uma língua. A língua falada é mais espontânea, abrange a comunicação linguística em toda sua totalidade. Além disso, é acompanhada pelo tom de voz, algumas vezes por mímicas, incluindo-se fisionomias. A língua escrita não é apenas a representação da língua falada, mas sim um sistema mais disciplinado e rígido, uma vez que não conta com o jogo fisionômico, as mímicas e o tom de voz do falante. No Brasil, por exemplo, todos falam a língua portuguesa, mas existem usos diferentes da língua devido a diversos fatores. Dentre eles, destacam-se: - Fatores Regionais: é possível notar a diferença do português falado por um habitante da região nordeste e outro da região su- deste do Brasil. Dentro de uma mesma região, também há variações no uso da língua. No estado do Rio Grande do Sul, por exemplo, há diferenças entre a língua utilizada por um cidadão que vive na capital e aquela utilizada por um cidadão do interior do estado. - Fatores Culturais: o grau de escolarização e a formação cultural de um indivíduo também são fatores que colaboram para os diferentes usos da língua. Uma pessoa escolarizada utiliza a língua de uma maneira diferente da pessoa que não teve acesso à escola. - Fatores Contextuais: nosso modo de falar varia de acordo com a situação em que nos encontramos: quando conversamos com nossos amigos, não usamos os termos que usaríamos se estivéssemos discursando em uma solenidade de formatura. - Fatores Profissionais: o exercício de algumas atividades requer o domínio de certas formas de língua chamadas línguas técni- cas. Abundantes em termos específicos, essas formas têm uso praticamente restrito ao intercâmbio técnico de engenheiros, químicos, profissionais da área de direito e da informática, biólogos, médicos, linguistas e outros especialistas. - Fatores Naturais: o uso da língua pelos falantes sofre influência de fatores naturais, como idade e sexo. Uma criança não utiliza a língua da mesma maneira que um adulto, daí falar-se em linguagem infantil e linguagem adulta. Fala É a utilização oral da língua pelo indivíduo. É um ato individual, pois cada indivíduo, para a manifestação da fala, pode escolher os elementos da língua que lhe convém, conforme seu gosto e sua necessidade, de acordo com a situação, o contexto, sua persona- lidade, o ambiente sociocultural em que vive, etc. Desse modo, dentro da unidade da língua, há uma grande diversificação nos mais variados níveis da fala. Cada indivíduo, além de  conhecer o que fala, conhece também o que os outros falam; é por isso que somos capazes de dialogar com pessoas dos mais variados graus de cultura, embora nem sempre a linguagem delas seja exatamente como a nossa.  Devido ao caráter individual da fala, é possível observar alguns níveis: - Nível Coloquial-Popular: é a fala que a maioria das pessoas utiliza no seu dia a dia, principalmente em situações informais. Esse nível da fala é mais espontâneo, ao utilizá-lo, não nos preocupamos em saber se falamos de acordo ou não com as regras formais estabelecidas pela língua. - Nível Formal-Culto: é o nível da fala normalmente utilizado pelas pessoas em situações formais. Caracteriza-se por um cuida- do maior com o vocabulário e pela obediência às regras gramaticais estabelecidas pela língua. Signo É um elemento representativo que apresenta dois aspectos: o significado e o significante. Ao escutar a palavra “cachorro”, reconhecemos a sequência de sons que formam essa palavra. Esses sons se identificam com a lembrança deles que está em nossa memória. Essa lembrança constitui uma real imagem sonora, armazenada em nosso cérebro que é o significante do signo “cachorro”. Quando escutamos essa palavra, logo pensamos em um animal irracional de quatro patas, com pelos, olhos, orelhas, etc. Esse concei- to que nos vem à mente é o significado do signo “cachorro” e também se encontra armazenado em nossa memória. Ao empregar os signos que formam a nossa língua, devemos obedecer às regras gramaticais convencionadas pela própria língua. Desse modo, por exemplo, é possível colocar o artigo indefinido “um” diante do signo “cachorro”, formando a sequência “um cachorro”, o mesmo não seria possível se quiséssemos colocar o artigo “uma” diante do signo “cachorro”. A sequência “uma cachorro” contraria uma regra de concordância da língua portuguesa, o que faz com que essa sentença seja rejeitada. Os signos que constituem a língua obedecem a padrões determinados de organização. O conhecimento de uma língua engloba tanto a identificação de seus signos, como também o uso adequado de suas regras combinatórias.
  24. 24. Didatismo e Conhecimento 24 LÍNGUA PORTUGUESA Signo: elemento representativo que possui duas partes indissolúveis: significado e significante. Significado (é o conceito, a ideia transmitida pelo signo, a parte abstrata do signo) + Significante (é a imagem sonora, a forma, a parte concreta do signo, suas letras e seus fonemas). Língua: conjunto de sinais baseado em palavras que obedecem às regras gramaticais. Fala: uso individual da língua, aberto à criatividade e ao desenvolvimento da liberdade de expressão e compreensão. A leitura interpretativa de Histórias em Quadrinhos, assim como de charges, requer uma construção de sentidos que, para que ocorra, é necessário mobilizar alguns processos de significação, como a percepção da atualidade, a representação do mundo, a ob- servação dos detalhes visuais e/ou linguísticos, a transformação de linguagem conotativa (sentido mais usual) em denotativa (sentido amplificado pelo contexto, pelos aspetos socioculturais etc). Em suma, usa-se o conhecimento da realidade e de processos linguísti- cos para ‘inverter’ ou ‘subverter’ produzindo, assim, sentidos alternativos a partir de situações extremas. Exemplo de interpretação de história em quadrinhos Observe a tirinha em quadrinhos do Calvin: O objetivo do Calvin era vender ao seu pai um desenho de sua autoria pela exorbitante quantia de 500 dólares. Ele optou por valorizar o desenho, mostrando todas as habilidades conquistadas para conseguir produzi-lo. O pai, no último quadrinho, reconhece o empenho do filho, utilizando-se de um conector de concessão (‘Ainda assim’), valorizando a importância de tudo aquilo. Contudo, afirma que não pagaria o valor pedido (como se dissesse: “sim, filho, foi um esforço absurdo, mas não vou pagar por isso!”). A graça está no fato de Calvin elaborar um discurso “maduro” em relação ao seu desenvolvimento cognitivo e motor nos dois primeiros quadrinhos e, somente depois, ficar claro para nós, leitores, que toda a força argumentativa foi em prol da cobrança pelo desenho que ele mesmo fez. Em outras palavras, o personagem empenha-se na construção de um raciocínio em prol de uma finalida- de absurda – o que nos faz sorrir no último quadrinho, já que é somente nele que conseguimos ‘completar’ o sentido. Claro, se você conhece os quadrinhos do Calvin, sabe que ele tem apenas 6 anos, o que torna tudo ainda mais hilário, mas a falta deste conhecimento não prejudica em nada a interpretação textual. Exercícios 1) A história em quadrinhos que segue praticamente não emprega a linguagem verbal: os desenhos e a separação dos quadrinhos são os elementos responsáveis pela transmissão da mensagem, além de umas poucas onomatopeias. Conte a história empregando a língua verbal.
  25. 25. Didatismo e Conhecimento 25 LÍNGUA PORTUGUESA 2) Leia com atenção esta história em quadrinhos:
  26. 26. Didatismo e Conhecimento 26 LÍNGUA PORTUGUESA a) Indique, dentre as palavras abaixo, aquelas que são típicas da fala do sul país: Pues: ____________________________________________ Divã: ____________________________________________ Bombacha: _______________________________________ Índio velho: _______________________________________ Charlar: __________________________________________ Pôca vergonha: ____________________________________ Tchê: ____________________________________________ b) Indique, dentre as alternativas abaixo, aquelas que pertencem a um jargão, isto é, à linguagem de um grupo específico – os profissionais que trabalham com psicanálise. Freudiano: ________________________________________ Reclame de xarope: _________________________________ Complexo de égipo: ________________________________ Deixa a velha em paz: _______________________________ c) Para reproduzir a linguagem oral, o texto altera a grafia de algumas palavras. Reescreva os trechos selecionados. Usando a norma padrão: Pos desembucha: ___________________________________ Pôca vergonha: ____________________________________ Vai te metê na zona: _________________________________ 3) Analise atentamente os elementos que compõe este cartum. a) Com sua palavra, explique que atividade se realiza no cartum. b) O humor do cartum é omitido a partir do contraste entre aquilo que o médico esperava e o paciente lhe dá como resposta. Explique esse contraste e indique o que o possibilitou. RECONHECIMENTO DAS RELAÇÕES LÓGICO-DISCURSIVAS PRESENTES NO TEXTO, MARCADAS POR CONJUNÇÕES, ADVÉRBIOS, PREPOSIÇÕES, LOCUÇÕES ETC. Coesão Uma das propriedades que distinguem um texto de um amontoado de frases é a relação existente entre os elementos que os cons- tituem.Acoesão textual é a ligação, a relação, a conexão entre palavras, expressões ou frases do texto. Ela manifesta-se por elementos gramaticais, que servem para estabelecer vínculos entre os componentes do texto. Observe: “O iraquiano leu sua declaração num bloquinho comum de anotações, que segurava na mão.”
  27. 27. Didatismo e Conhecimento 27 LÍNGUA PORTUGUESA Nesse período, o pronome relativo “que” estabelece conexão entre as duas orações. O iraquiano leu sua declaração num bloqui- nho comum de anotações e segurava na mão, retomando na segunda um dos termos da primeira: bloquinho. O pronome relativo é um elemento coesivo, e a conexão entre as duas orações, um fenômeno de coesão. Leia o texto que segue: Arroz-doce da infância Ingredientes 1 litro de leite desnatado 150g de arroz cru lavado 1 pitada de sal 4 colheres (sopa) de açúcar 1 colher (sobremesa) de canela em pó Preparo Em uma panela ferva o leite, acrescente o arroz, a pitada de sal e mexa sem parar até cozinhar o arroz. Adicione o açúcar e deixe no fogo por mais 2 ou 3 minutos. Despeje em um recipiente, polvilhe a canela. Sirva. Cozinha Clássica Baixo Colesterol, nº4. São Paulo, InCor, agosto de 1999, p. 42. Toda receita culinária tem duas partes: lista dos ingredientes e modo de preparar. As informações apresentadas na primeira são retomadas na segunda. Nesta, os nomes mencionados pela primeira vez na lista de ingredientes vêm precedidos de artigo definido, o qual exerce, entre outras funções, a de indicar que o termo determinado por ele se refere ao mesmo ser a que uma palavra idêntica já fizera menção. No nosso texto, por exemplo, quando se diz que se adiciona o açúcar, o artigo citado na primeira parte. Se dissesse apenas adi- cione açúcar, deveria adicionar, pois se trataria de outro açúcar, diverso daquele citado no rol dos ingredientes. Há dois tipos principais de mecanismos de coesão: retomada ou antecipação de palavras, expressões ou frases e encadeamento de segmentos. Retomada ou Antecipação por meio de uma palavra gramatical (pronome, verbos ou advérbios) “No mercado de trabalho brasileiro, ainda hoje não há total igualdade entre homens e mulheres: estas ainda ganham menos do que aqueles em cargos equivalentes.” Nesse período, o pronome demonstrativo “estas” retoma o termo mulheres, enquanto “aqueles” recupera a palavra homens. Os termos que servem para retomar outros são denominados anafóricos; os que servem para anunciar, para antecipar outros são chamados catafóricos. No exemplo a seguir, desta antecipa abandonar a faculdade no último ano: “Já viu uma loucura desta, abandonar a faculdade no último ano?” São anafóricos ou catafóricos os pronomes demonstrativos, os pronomes relativos, certos advérbios ou locuções adverbiais (nes- se momento, então, lá), o verbo fazer, o artigo definido, os pronomes pessoais de 3ª pessoa (ele, o, a, os, as, lhe, lhes), os pronomes indefinidos. Exemplos: “Ele era muito diferente de seu mestre, a quem sucedera na cátedra de Sociologia na Universidade de São Paulo.” O pronome relativo “quem” retoma o substantivo mestre. “As pessoas simplificam Machado de Assis; elas o veem como um pensador cín iço e descrente do amor e da amizade.” O pronome pessoal “elas” recupera o substantivo pessoas; o pronome pessoal “o” retoma o nome Machado de Assis. “Os dois homens caminhavam pela calçada, ambos trajando roupa escura.”
  28. 28. Didatismo e Conhecimento 28 LÍNGUA PORTUGUESA O numeral “ambos” retoma a expressão os dois homens. “Fui ao cinema domingo e, chegando lá, fiquei desanimado com a fila.” O advérbio “lá” recupera a expressão ao cinema. “O governador vai pessoalmente inaugurar a creche dos funcionários do palácio, e o fará para demonstrar seu apreço aos servidores.” A forma verbal “fará” retoma a perífrase verbal vai inaugurar e seu complemento. - Em princípio, o termo a que o anafórico se refere deve estar presente no texto, senão a coesão fica comprometida, como neste exemplo: “André é meu grande amigo. Começou a namorá-la há vários meses.” A rigor, não se pode dizer que o pronome “la” seja um anafórico, pois não está retomando nenhuma das palavras citadas antes. Exatamente por isso, o sentido da frase fica totalmente prejudicado: não há possibilidade de se depreender o sentido desse pronome. Pode ocorrer, no entanto, que o anafórico não se refira a nenhuma palavra citada anteriormente no interior do texto, mas que possa ser inferida por certos pressupostos típicos da cultura em que se inscreve o texto. É o caso de um exemplo como este: “O casamento teria sido às 20 horas. O noivo já estava desesperado, porque eram 21 horas e ela não havia comparecido.” Por dados do contexto cultural, sabe-se que o pronome “ela” é um anafórico que só pode estar-se referindo à palavra noiva. Num casamento, estando presente o noivo, o desespero só pode ser pelo atraso da noiva (representada por “ela” no exemplo citado). - O artigo indefinido serve geralmente para introduzir informações novas ao texto. Quando elas forem retomadas, deverão ser precedidas do artigo definido, pois este é que tem a função de indicar que o termo por ele determinado é idêntico, em termos de valor referencial, a um termo já mencionado. “O encarregado da limpeza encontrou uma carteira na sala de espetáculos. Curiosamente, a carteira tinha muito dinheiro den- tro, mas nem um documento sequer.” - Quando, em dado contexto, o anafórico pode referir-se a dois termos distintos, há uma ruptura de coesão, porque ocorre uma ambiguidade insolúvel. É preciso que o texto seja escrito de tal forma que o leitor possa determinar exatamente qual é a palavra retomada pelo anafórico. “Durante o ensaio, o ator principal brigou com o diretor por causa da sua arrogância.” O anafórico “sua” pode estar-se referindo tanto à palavra ator quanto a diretor. “André brigou com o ex-namorado de uma amiga, que trabalha na mesma firma.” Não se sabe se o anafórico “que” está se referindo ao termo amiga ou a ex-namorado. Permutando o anafórico “que” por “o qual” ou “a qual”, essa ambiguidade seria desfeita. Retomada por palavra lexical (substantivo, adjetivo ou verbo) Uma palavra pode ser retomada, que por uma repetição, quer por uma substituição por sinônimo, hiperônimo, hipônimo ou antonomásia. Sinônimo é o nome que se dá a uma palavra que possui o mesmo sentido que outra, ou sentido bastante aproximado: injúria e afronta, alegre e contente.
  29. 29. Didatismo e Conhecimento 29 LÍNGUA PORTUGUESA Hiperônimo é um termo que mantém com outro uma relação do tipo contém/está contido; Hipônimo é uma palavra que mantém com outra uma relação do tipo está contido/contém. O significado do termo rosa está contido no de flor e o de flor contém o de rosa, pois toda rosa é uma flor, mas nem toda flor é uma rosa. Flor é, pois, hiperônimo de rosa, e esta palavra é hipônimo daquela. Antonomásia é a substituição de um nome próprio por um nome comum ou de um comum por um próprio. Ela ocorre, principal- mente, quando uma pessoa célebre é designada por uma característica notória ou quando o nome próprio de uma personagem famosa é usada para designar outras pessoas que possuam a mesma característica que a distingue: “O rei do futebol (=Pelé) som podia ser um brasileiro.” “O herói de dois mundos (=Garibaldi) foi lembrado numa recente minissérie de tevê.” Referência ao fato notório de Giuseppe Garibaldi haver lutado pela liberdade na Europa e na América. “Ele é um hércules (=um homem muito forte). Referência à força física que caracteriza o herói grego Hércules. “Um presidente da República tem uma agenda de trabalho extremamente carregada. Deve receber ministros, embaixadores, visitantes estrangeiros, parlamentares; precisa a todo momento tomar graves decisões que afetam a vida de muitas pessoas; neces- sita acompanhar tudo o que acontece no Brasil e no mundo. Um presidente deve começar a trabalhar ao raiar do dia e terminar sua jornada altas horas da noite.” A repetição do termo presidente estabelece a coesão entre o último período e o que vem antes dele. “Observava as estrelas, os planetas, os satélites. Os astros sempre o atraíram. Os dois períodos estão relacionados pelo hiperônimo astros, que recupera os hipônimos estrelas, planetas, satélites. “Eles (os alquimistas) acreditavam que o organismo do homem era regido por humores (fluidos orgânicos) que percorriam, ou apenas existiam, em maior ou menor intensidade em nosso corpo. Eram quatro os humores: o sangue, a fleuma (secreção pulmonar), a bile amarela e a bile negra. E eram também estes quatro fluidos ligados aos quatro elementos fundamentais: ao Ar (seco), à Água (úmido), ao Fogo (quente) e à Terra (frio), respectivamente.” Ziraldo. In: Revista Vozes, nº3, abril de 1970, p.18. Nesse texto, a ligação entre o segundo e o primeiro períodos se faz pela repetição da palavra humores; entre o terceiro e o segundo se faz pela utilização do sinônimo fluidos. É preciso manejar com muito cuidado a repetição de palavras, pois, se ela não for usada para criar um efeito de sentido de in- tensificação, constituirá uma falha de estilo. No trecho transcrito a seguir, por exemplo, fica claro o uso da repetição da palavra vice e outras parecidas (vicissitudes, vicejam, viciem), com a evidente intenção de ridicularizar a condição secundária que um provável flamenguista atribui ao Vasco e ao seu Vice-presidente: “Recebi por esses dias um e-mail com uma série de piadas sobre o pouco simpático Eurico Miranda. Faltam-me provas, mas tudo leva a crer que o remetente seja um flamenguista.” Segundo o texto, Eurico nasceu para ser vice: é vice-presidente do clube, vice-campeão carioca e bi vice-campeão mundial. E isso sem falar do vice no Carioca de futsal, no Carioca de basquete, no Brasileiro de basquete e na Taça Guanabara. São vicissitudes que vicejam. Espero que não viciem. José Roberto Torero. In: Folha de S. Paulo, 08/03/2000, p. 4-7. A elipse é o apagamento de um segmento de frase que pode ser facilmente recuperado pelo contexto. Também constitui um ex- pediente de coesão, pois é o apagamento de um termo que seria repetido, e o preenchimento do vazio deixado pelo termo apagado (=elíptico) exige, necessariamente, que se faça correlação com outros termos presentes no contexto, ou referidos na situação em que se desenrola a fala.

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