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CAPÍTULO 1     “No nosso caminho há sempre uma pedra. Cabe-nos a nós saltá-la ou esculpi-la”     (Autor desconhecido)     ...
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Capítulo 1 aleascript

  1. 1. Nota prévia: qualquer semelhança entre factos e/ou personagens deste livro e arealidade pode ser mais do que pura coincidência.
  2. 2. ALEASCRIPT
  3. 3. CAPÍTULO 1 “No nosso caminho há sempre uma pedra. Cabe-nos a nós saltá-la ou esculpi-la” (Autor desconhecido) — Ó Rodolfo, assim não dá, pá! Sabes bem que as editoras nascem neste país quenem cogumelos. Se a gente não produzimos… — Produz, Francisco, produz… — Produzo? Tu é que tens de produzir, então! Brinquemos? — Brincamos, Francisco, brincamos… — Pois, brincamos. Mas sabes que, a brincar, a brincar, o macaco… — Vá, Francisco, deixa-te lá dessa conversa. Sei bem que precisas que eu escrevauma pequena maravilha para saíres do buraco, mas estas coisas não podem ser a mata-cavalos, têm o seu tempo de maturação, enfim… — Pois, mas, como já deves ter compreendido, tempo é coisa que não nospodemos dar ao luxo de desperdiçar. — Percebo, Francisco, mas ando completamente bloqueado, não há maneira de… — Ouve lá: já ouviste falar em escrita automática? Esta conversa ocorrera há dois dias. Por mais que se esforçasse, Rodolfo apenas conseguia vislumbrar um imenso panode fundo branco, da cor da folha que se lhe apresentava à sua frente, ocupando o seupensamento. Não se conseguia adaptar, de maneira nenhuma, a escrever directamenteno computador, tendo imenso prazer na manipulação da esferográfica, na verdade umaqualquer comum caneta de trinta cêntimos que estivesse disponível. Por descargo de consciência, resolveu consultar alguns sites, tendo encontrado asinformações que procurava. Uma delas fê-lo recordar uma brincadeira dos seus temposde criança. Cada elemento de um grupo juntava uma palavra às restantes, fazendo comque, podendo ler o que os outros haviam escrito, se desse um rumo à história que assimia sendo criada, normalmente bem diferente da idealizada pelos predecessores. Na verdade, ao chegar novamente a vez de cada um, a história era novamentereorientada, originando, finalmente e quase sempre, uma história sem pés nem cabeça. Uma outra ligava a escrita automática à não-consciência do escritor, sendo este ummero instrumento para a escrita. Em transe, ou perto disso, este serviria de mero pombo-
  4. 4. correio, dando a conhecer a mensagem que seres transcendentes quereriam revelar aomundo. Rodolfo interrogava-se do porquê de seres transcendentes, ultra-poderosos eomniscientes, precisarem de alguém para escrever aquilo que poderiam, eles próprios,redigir directamente, mas enfim… Rapidamente percebeu que dificilmente teria sucesso com aquela metodologia.Isto de estar sentado à frente do computador, com as mãos em cima do teclado, à esperade uma qualquer intervenção divina para fazer brotar uma intempestiva criatividade, nãoera, definitivamente, para si. Nem mesmo recorrendo ao papel e lápis, ou caneta, tal,com ele, resultaria. É claro que a perspectiva de poder ser um mediador Cósmico, umaespécie de médium, pronto a receber alguma mediática revelação, apesar do referidocepticismo, lhe agradava. Contudo, era demasiado impaciente, orgulhoso e auto-confiante para deixar ao desígnio dos deuses a realização de algo que sempre tinha feitopor si. Certo, certo, é que, desta vez, por mais que se esforçasse, nenhuma ideia brilhanteparecia querer, sequer, aflorar à sua mente. Vendo bem, uma ajuda divina seria aceite debom grado… Para além da escrita, tinha uma paixão imensa pelos números. Com a música,poder-se-ia dizer estarmos perante a sua Trilogia da Paixão. Em última análise, paraele, quase tudo se resumia a números. Jogava frequentemente com a métrica das frases,com a simetria das palavras e com o número de letras destas, deleitando-se,paralelamente, com os intervalos de quintas, as tercinas e as pausas. Contudo, apreciavaespecialmente o que se relacionasse com as teorias das probabilidades. O conceito dealeatoriedade era-lhe especialmente caro, tendo-o usado para jogar, embora com poucosucesso, em jogos de lotaria. De repente, uma ideia. Ao princípio, recusou-a. Ele, que sempre quisera ter operfeito domínio da escrita, como poderia sequer ponderar a possibilidade de recorrera… Aos poucos, a ideia tornou-se insidiosa. As leituras sobre escrita automática e oseu carácter errático, aliadas ao seu gosto por números, probabilidades e acaso,mostraram-lhe um caminho. Aliás, face ao seu estado de desespero literário, o caminho.Iria deixar que as palavras, ao acaso, lhe espicaçassem a criatividade. Não seria umaideia completamente inovadora, calculava, mas tinha a vantagem de lhe apresentar uma
  5. 5. base para começar a sua construção literária. Como alguém alguma vez dissera, aspeças de escultura, mesmo as verdadeiras obras de arte, estão todas, à partida,incrustadas na pedra onde serão talhadas. Compete ao escultor retirar desta ospedaços que não interessam. Poderiam as criações literárias ser, também, vistas sob esteprisma, a priori escritas, esperando mais ou menos pacientemente que um qualquer,sem desprimor, escritor escolhesse as palavras mais adequadas, afastando asredundantes? Dum ponto de vista, digamos, filosófico, era uma perspectiva aliciante.Para um escritor em busca do livro, era ainda mais do que isso. Saber que o melhor livroalguma vez escrito já o estava, bastando, afinal, colocar as palavras que o comporiamna ordem certa, era, convenhamos, terrivelmente apelativo. É claro que a probabilidadede, por sorte, as palavras de um best seller saírem todas em carreirinha, a partir de umaextracção aleatória dum qualquer dicionário, era igual à do Sporting ganhar cincocampeonatos seguidos. Ou jogos. Teria sempre, obviamente, de haver algumaintervenção artística. Qual escultor burilando, após desbaste despreocupado e quaseautomático, os contornos e detalhes da sua Madona. Quantas palavras tinha a Língua Portuguesa? Pesquisou e encontrou valores algodíspares, mas que lhe davam uma noção da dimensão da coisa. Seriam 400, 500, oumesmo 600 mil, mais coisa menos coisa. Sem contar, esclareça-se, com as diversasformas verbais, restringindo-se os verbos ao seu infinitivo. Escrever esse númeroimenso de palavras, recortá-las e colocá-las numa tômbola, para as retirar uma a uma,não lhe parecia lá muito exequível. Na era da informática, qualquer programadorinformático, ainda que com pouca experiência, não teria, supunha, grande dificuldadeem criar um software apropriado. Aliás, certamente já haveria algo do género disponívelna internet, mas queria dar-lhe um toque particular. Recorrendo a funcionalidadesincompreensíveis para o comum dos mortais, bastaria clicar numa tecla predefinida docomputador para lá virem elas, ordeiramente, ao sabor e saber dos ventos daaleatoriedade. Depois, seria uma questão de olhar com olhos de jogador de xadrez,antecipando consequências de uma certa ordenação, calculando mentalmente aspossíveis combinações das palavras e imaginando todas as outras que iriam preencheros espaços deixados vazios entre as sorteadas. Não tinha, ele próprio, conhecimentospara fazer esse programa, mas conhecia alguém que os tinha. Dir-lhe-ia a sua ideia e,além disso, já pensara no nome a dar a este software. Um nome misterioso, alguresentre o inglês e o latim, parecia poder resultar bem: Aleascript.

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