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polêmico dos últimos cem anos. Talvez seja oacontecimento que mais deu lugar a polêmicasem toda a história política da cul...
colocar em questão o fato de se a RevoluçãoRussa teria sido um acontecimento históricopositivo, progressista, que teria pr...
alguma medida ultrapassado. Então sefalamos, por exemplo, que “na RevoluçãoRussa aconteceu tal e tal coisa”, logo algumdes...
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ensaiam a peça toda para ver se tudo estácorreto.Eu gostaria de chamar a atenção aqui paraessa comparação que Lênin faz da...
Finalmente, a burguesia daria à classeoperária, porque a burguesia é uma classemuito generosa, uma única oportunidade deac...
a partir do qual irão se desenvolver as grandesnavegações. Um empreendimento tipicamenteda burguesia, que só foi possível ...
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que muita gente não leva em conta quandopensa nesse acontecimento. A RevoluçãoRussa não foi feita em um único país, mas em...
Com a Revolução Russa e com osacontecimentos posteriores, as centenas derevoluções que aconteceram depois no mundo,fica cl...
juventude, mas no mundo real as coisascostumam crescer, amadurecer, envelhecer emorrer. O destino do capitalismo é esse e ...
de uma sociedade dividida em classes. Elacoloca em pauta a reunificação interna dessasociedade, abolindo essa contradição ...
encerra-se a pré-história da humanidade, poisele considerava que, do capitalismo para trás,não há uma verdadeira história ...
sociais e econômicos, para o reino daliberdade, ou seja, a liberdade que o serhumano teria de controlar conscientemente as...
isso, podemos dimensionar adequadamenteesse problema da Revolução Russa.Dito isso, eu gostaria de chamar a atenção detodos...
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Só quando a classe operária russa, atravésdesse processo de evolução, se coloca sob aliderança desse partido, é que ela se...
O próprio Leon Trótski, muitos anos depois daRevolução Russa, coloca no programa detransição a ideia que a contradiçãofund...
operário exista. O partido precisa ter umprograma que se torne o programa objetivo,prático da classe operária em luta. Sem...
Quando a Revolução Russa acontece, Lênin,que está no exílio, manda um telegrama paraos militantes bolcheviques que chegara...
sentido de rejeitar o acordo com a burguesia,ou das massas que, já tendo rejeitado essaaliança com a burguesia, precisavam...
revolucionárias seriam uma fonte de energia,de força extraordinariamente grande como é ovapor, mas o vapor não é uma força...
problema da independência da classe operáriadiante da burguesia. A classe operária, mesmoque não saiba, e também a juventu...
gostam do PT, votou no PT porque não queriaque Serra ganhasse e uma outra parcela, quenão tolerava mais votar no PT, votou...
queria era se livrar do Arena e do MDB, porisso íamos de porta em porta para apresentar oPT e filiar pessoas. Agora, em 20...
tiraram –, quando chegarem a conclusão decomo é que se faz para não ficar a reboque daburguesia, porque esse exemplo do PT...
colocam na revolução e pela ação do PartidoBolchevique, passam a entender de que ladoestá a burguesia e de que lado está a...
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com a burguesia e vão caindo em descréditocom as massas. As massas observam aconduta desses grupos em não querer romper,e ...
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Eles não são cientistas sociais, nemespecialistas em política. Esse problema foichave. A revolução acontece quando toda ac...
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Em certo sentido, a esquerda brasileira seapoia na ideia de que tem que haver eleições.Não há a ideia de que as eleições s...
No Brasil, por exemplo, hoje em dia muitosacham que com o governo do PT, do Psol, oucom um governo qualquer, é possível fa...
que significaria uma modificação real narelação real entre o capital e o trabalho; nada.Uma modificação real na situação d...
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  1. 1. 95 anos da Revolução Russa de 1917Revolução Russa: sua importância histórica eseus ensinamentos para a luta do socialismoTranscrição da palestra realizada em novembrode 2012 sobre o aniversário da RevoluçãoRussaRui Costa PimentaBom dia companheiros. Nós dividimos essaatividade de palestras em dois temasdiferentes. Aqui nós vamos tratar daimportância histórica da Revolução Russa e nasegunda palestra da importância da revoluçãodo ponto de vista da luta política revolucionárianos dias de hoje. Nela, iremos tratar de umconjunto de polêmicas que dão lugar a muitaconfusão, sobre as consequências daRevolução Russa, o stalinismo e os problemasque normalmente se discute sobre a ditadura ea democracia no socialismo.Gostaria de começar chamando a atenção parao fato de que a Revolução Russa além de sertalvez o mais importante acontecimento políticoda história da humanidade, é também o mais
  2. 2. polêmico dos últimos cem anos. Talvez seja oacontecimento que mais deu lugar a polêmicasem toda a história política da cultura humana.Normalmente, não temos a ideia do volume decríticas, de calúnias, de interpretações de todosos tipos, mas principalmente de interpretaçõesnegativas que existem sobre a RevoluçãoRussa. Eu calculo, embora isso seja difícil desaber com certeza, que milhões de livros,ensaios etc. foram escritos sobre esse tema. Éum dos assuntos, sem dúvida, mais discutidosdos últimos cem anos, senão o mais discutido.Daí que o problema seja naturalmente confusopara quem aborda a questão. Minha intençãocom essa palestra é dar uma contribuição nosentido do esclarecimento das questõescentrais que dizem respeito à RevoluçãoRussa.Uma primeira delas e essa é uma das maioresdeformações sobre o assunto, serve comoindicativo da dimensão dessa polêmica.Discute-se, sobretudo, a legitimidade, aviabilidade, o benefício da Revolução Russa.Os ideólogos da direita, do capitalismo, doimperialismo, procuram a todo momento
  3. 3. colocar em questão o fato de se a RevoluçãoRussa teria sido um acontecimento históricopositivo, progressista, que teria promovido umprogresso para a humanidade.A primeira coisa que devemos esclarecer é queesse debate, embora atraia muito a atenção, éna realidade um debate secundário e emgrande medida distracionista. Porque se nósestamos interessados na luta política dos diasde hoje, a Revolução Russa deve ser vistaantes de mais nada como um laboratório dapolítica revolucionária. Como umacontecimento que encerra um conjunto deensinamentos para quem está travando a lutapolítica aqui e agora e não uma coisa que sediscute como se fosse um fenômeno de tiporeligioso, que tivesse um valor moral A ou B,que é a discussão que normalmente se faz.Esse aspecto da Revolução Russa, comoensinamento da luta política aqui e agora,normalmente não é discutido. A tal ponto quepodemos ouvir pessoas em todas as facçõesda esquerda brasileira e internacionalargumentarem frequentemente que aRevolução Russa é um acontecimento em
  4. 4. alguma medida ultrapassado. Então sefalamos, por exemplo, que “na RevoluçãoRussa aconteceu tal e tal coisa”, logo algumdesses esquerdistas responde: “mas aRevolução Russa foi há 95 anos!”, ou seja, estáimplícito nessa consideração que a RevoluçãoRussa estaria desatualizada. Ela estaria para asuposta revolução dos dias de hoje, que aindanão conhecemos, como a máquina dedatilografia está para o computador. Isso éfalso.É uma impressão que as pessoas tiram semnenhuma fundamentação. A Revolução Russanão é uma tecnologia, é um processo social ecomo um processo social tem umacontinuidade, principalmente se estamosfalando dos processos sociais de umadeterminada época, que guarda uma unidadeeconômica, política, como a época atual, queembora mude e se transforme, mantém, nabase da situação características homogêneas.Quando foi feita a Revolução Russa, havia ocapitalismo, hoje há também o capitalismo. Naépoca, o capitalismo já havia evoluído para suaetapa imperialista, hoje continuamos nessaetapa. Quando foi feita a Revolução Russa o
  5. 5. mundo estava dividido entre países opressores,imperialistas e países coloniais, oprimidos, hojehá a mesma coisa. O capitalismo estava emcrise, hoje ele vive a mesma crise, mas aindamaior. Há uma base comum para a análise daRevolução Russa, assim como há uma base,não tão extensa, para que nós possamosaprender, para os dias de hoje, com aRevolução Francesa, da mesma forma comoMarx aprendeu com a Revolução Francesapara discutir a revolução na época capitalista.Há essa continuidade.O primeiro problema, portanto, é justamenteesse. A Revolução Russa é objeto de umadiscussão moral, que procura debater se ela foi“boa”, “ruim”, se ela teria um “valor positivo” ouse teria um “valor negativo”. Mas ela deve seracima de tudo um terreno para o aprendizadoda revolução. Lênin e Trótski, que foram seusprincipais dirigentes e teóricos, sendo Trótski oprincipal historiador da Revolução Russa,consideravam que sim. Lênin considerava quea Revolução Russa nada mais era que oensaio geral da revolução mundial. Ela seria aúltima apresentação que se faz no teatro,quando os atores estão vestidos a caráter e
  6. 6. ensaiam a peça toda para ver se tudo estácorreto.Eu gostaria de chamar a atenção aqui paraessa comparação que Lênin faz da revoluçãocom o teatro. Ela é muito importante, porque arevolução tem que ser praticada, pelo menosda parte dos revolucionários. Se a sociedadenão pode praticar a revolução, no seu conjunto,os revolucionários devem praticá-la. Quer dizer,a revolução se desenvolve através doaprendizado, como qualquer coisa que osseres humanos fazem. Antes da RevoluçãoRussa, houve uma série de episódiosrevolucionários menores. Houve inclusive umarevolução em 1905, que os revolucionáriosdisseram ser o ensaio geral da Revolução de1917; e a Revolução de 1917, o ensaio geralda revolução mundial.Sobre essa ideia, que é muito importante,vejam uma coisa: a burguesia diz (não sei setodos aqui já perceberam quando veem essapolêmica) que a classe operária, o marxismo, ocomunismo, fizeram a Revolução Russa. Éisso. Se deu certo, ótimo, se deu errado,pronto; está provado que não dá certo.
  7. 7. Finalmente, a burguesia daria à classeoperária, porque a burguesia é uma classemuito generosa, uma única oportunidade deacertar. Isso é totalmente absurdo. Totalmente.Por isso Lênin diz que a Revolução Russa nãoé um acontecimento definitivo; não é a últimapalavra da história; não é tudo o que poderiaser feito. Não é nem mesmo a revoluçãomundial: é apenas e tão somente o ensaiogeral da revolução mundial. Um ensaio. Vejamque Lênin poderia ser uma pessoa maisvaidosa e exaltar a revolução que ele dirigiucomo sendo a coisa mais maravilhosa que jáaconteceu. Mas ele era uma pessoa, nessesentido, bastante concreta, bastante realista aponto de dizer: “A revolução que fizemos aquina Rússia, que teve um impacto tremendo navida de todos, nada mais é que o ensaio geralda revolução mundial”.Vocês vejam que a revolução burguesa teve,calculando grosso modo, no mínimo 500 anospara se desenvolver. No século XIV, aburguesia de Lisboa, de nossos patrícios eantepassados, realizava uma revoluçãoburguesa que levou o famoso Mestre de Avis,que depois seria Dom João I ao poder. Um rei
  8. 8. a partir do qual irão se desenvolver as grandesnavegações. Um empreendimento tipicamenteda burguesia, que só foi possível em virtudedessa revolução, que impôs uma derrota ànobreza portuguesa, aos partidários da Coroaespanhola e deu a supremacia no poderpolítico do País, à pequena nobreza e aoscomerciantes de Portugal. Isso foi em 1383. Aépoca das revoluções burguesas termina em1871, com a revolução da Comuna de Paris.Façam as contas, do século XIV ao século XIX.Foram 500 anos para que a burguesiaconseguisse consolidar seu poder políticosobre o mundo.Já da revolução proletária, espera-se que elaconclua tudo em alguns anos. Logicamente quenão faz sentido esse tipo de avaliação. Nós nãoestamos aqui esperando a revolução proletáriademore 500 anos, mas também nãoesperamos que demore 15 anos. Até porque jánão demorou; ela começou há 95 anos.Quer dizer, há todo um processo político e esseé o processo de desenvolvimento de umaépoca revolucionária que é a revoluçãoproletária. Não é a Revolução Russa que é a
  9. 9. revolução proletária; a Revolução Russa é umepisódio, um capítulo, da revolução proletáriamundial. E segundo um de seus dirigentes,seria o ensaio geral da revolução mundial. Seela é um ensaio geral, logicamente que nóstemos que aprender daquilo que aconteceunaquele ensaio geral. Se estamos interessadosnesse drama, nessa peça que é a revoluçãomundial, então nós temos que começar nosinteressando pela primeira grande realização,que foi a Revolução Russa de 1917.Uma segunda ideia que eu gostaria de colocaraqui está ligada à ideia anterior. A RevoluçãoRussa inaugura uma nova época na história dahumanidade. É muito importante que tenhamosisso claro. Não é a época do socialismo; elainaugura a época da transição do capitalismopara o socialismo. Nós temos um período deestabilização social e temos os períodos emque a sociedade começa a mudar, que são osperíodos de transição.A Revolução Russa foi uma revolução degrandes proporções. Um terço da populaçãomundial esteve envolvida nessa revolução edezenas de países. Essa é uma coisa também
  10. 10. que muita gente não leva em conta quandopensa nesse acontecimento. A RevoluçãoRussa não foi feita em um único país, mas emum conjunto de países que fazia parte doimpério do czar. Em cada um desses lugares arevolução foi tomando conta; não foi tudo deuma vez e não foi somente com a tomada dopoder dos bolcheviques em Petrogrado emoutubro de 1917. Em alguns lugares, oprocesso se desenvolveu inclusiveposteriormente. Com a queda da UniãoSoviética, esses países inclusive se separaramporque já eram anteriormente paísesseparados, como a Ucrânia ou a Geórgia. AUnião Soviética, que veio a se formar comoresultado da revolução era uma repúblicafederativa de vários países, não era um únicopaís. Ela foi feita no sentido de constituir umpaís único, mas dela participaram váriospaíses. Ou seja, era uma revolução de grandeproporção e marca, de maneira indiscutível, aabertura desse período de transição. Nóspodemos discutir aqui, como muitos discutem,se o socialismo morreu ou não morreu, o queaté debateremos na segunda palestra dessaatividade, mas uma coisa tem que ficar clara.
  11. 11. Com a Revolução Russa e com osacontecimentos posteriores, as centenas derevoluções que aconteceram depois no mundo,fica claro que o mundo entrou em uma épocarevolucionária e que ele continua nessa etapa,por mais que a imprensa capitalista procureapresentar tudo como uma grande estabilidade,como não havendo uma revolução. As guerrase revoluções, as catástrofes sociais que sãoextremamente familiares para nós, são parte doperíodo de transição. Do período de transiçãoda época capitalista para a época socialista.Nós estamos no meio desse período e podeacontecer muita coisa, muitas idas e vindas,pois esses períodos não são umdesenvolvimento em linha reta, muito pelocontrário, mas esse processo é irreversível.Não adianta a imprensa capitalista falar queacabou o socialismo. Isso não tem a menorimportância. Precisaria se reverter o período detransição, que marca uma crise profunda docapitalismo e o capitalismo rejuvenescer, coisaque, obviamente, logicamente, é impossível deacontecer, nunca aconteceu com nada. Sóacontece no mito. No mito há orejuvenescimento, há o mito da fonte da
  12. 12. juventude, mas no mundo real as coisascostumam crescer, amadurecer, envelhecer emorrer. O destino do capitalismo é esse e nósestamos na fase final de desenvolvimento docapitalismo, que é a etapa de transição. Operíodo de ouro do capitalismo já passou hámuito tempo. Todos os males que nós vemosvêm daí.Uma terceira ideia que eu gostaria de colocaraqui diz respeito à importância histórica daRevolução Russa, que é algo tambémpropositalmente ignorado. Marx, quandodescreve o processo da revolução, quandodescreve que a revolução é toda uma época derevolução social e não um ato único, destacatambém que a revolução proletária é diferentedas revoluções que aconteceramanteriormente. Isso porque essas revoluçõesanteriores acabaram por reestabelecer algumaforma de sociedade de classe, de sociedadecontraditória dividida entre exploradores eexplorados, oprimidos e opressores, entrepobres e ricos. A revolução proletária, por suavez, não apenas acaba com o capitalismo, queé uma forma específica de sociedadecontraditória, mas acaba com milhares de anos
  13. 13. de uma sociedade dividida em classes. Elacoloca em pauta a reunificação interna dessasociedade, abolindo essa contradição entrericos e pobres, entre exploradores e oprimidos.A Revolução Francesa acabou com ofeudalismo, que era uma forma de sociedadecontraditória, dividida em classes, e deu lugarao capitalismo que é outra forma de sociedadecontraditória dividida em classes. A revoluçãoproletária socialista tem a tarefa não só deacabar com uma determinada forma deexploração, como de acabar com toda aexploração.A classe operária é a última forma de classeexplorada. Ela não é, como acontecia com aburguesia, uma classe potencialmenteopressora e exploradora. Ao abolir a sociedadecapitalista, a classe operária não se constituicomo classe dominante, ela abole também asua própria existência enquanto classe social.Então, quando falamos em revolução socialista,nós estamos falando de uma mudança socialque é muito maior que a revolução burguesa ouas revoluções anteriores. É uma mudançamuito mais radical na história da humanidade.Por isso Marx fala que com o capitalismo
  14. 14. encerra-se a pré-história da humanidade, poisele considerava que, do capitalismo para trás,não há uma verdadeira história humana, masuma história prévia, uma história preparatória.Isso porque o grau de controle que o serhumano tem sobre a sociedade onde ele viveno capitalismo é praticamente nenhum, e osocialismo daria ao ser humano um controleconsciente de sua própria sociedade. Essa éuma transformação muito profunda, é o queEngels chamou de “o salto do reino danecessidade para o reino da liberdade”.Logicamente que o homem sempre irá viver noreino da necessidade do mundo material, dissonão há como escapar. As ações humanas sãoações necessárias, determinadas pelo mundomaterial. No entanto, no que diz respeito à suaorganização social, o ser humano deixaria deser comandado e passaria ao comando dasociedade. Ele passaria de ser uma vítima daeconomia para comandar a economia; passariade sofrer passivamente os efeitos de umaeconomia que ele não controla, para colocar aeconomia a serviço de toda a humanidade eassim por diante. O salto do reino danecessidade, daquela escravidão dos fatos
  15. 15. sociais e econômicos, para o reino daliberdade, ou seja, a liberdade que o serhumano teria de controlar conscientemente asociedade em que ele vive.Para compreendermos bem o problema daRevolução Russa são necessárias essasexplicações prévias. Que ela foi umanecessidade histórica, que ela é um marcodivisório da época, que ela é um primeiropasso, um ensaio geral e que implica em umatransformação muito maior. Esse último fato,inclusive, é importante porque temos queprever que para que o socialismo possa serimplantado, a convulsão social, atransformação social, teria que ser muito maiordo que aconteceu com as revoluçõesburguesas. As revoluções burguesasparecerão, até parecem já hoje em dia, seolharmos bem, uma tempestade em um copod’água perto da convulsão que é a revoluçãoproletária; a transformação da sociedadecapitalista em uma sociedade socialista, dada aprofundidade da modificação que está empauta e a complexidade da sociedade que estáse criando. Levando-se em consideração tudo
  16. 16. isso, podemos dimensionar adequadamenteesse problema da Revolução Russa.Dito isso, eu gostaria de chamar a atenção detodos, porque nós não temos a possibilidadeaqui, de fazer um estudo detalhado darevolução russa, de alguns aspectos centraisdo mecanismo político interno da revolução.Primeiramente, é importante assinalarmos quea Revolução Russa em grande medida é, aomesmo tempo, o resultado do amadurecimentodas contradições internas da sociedade russa,e também o resultado do amadurecimentopolítico dos revolucionários russos.Uma coisa que chama a atenção na RevoluçãoRussa é que ela foi preparada por uma longaluta política dentro da Rússia.As primeiras manifestações da RevoluçãoRussa são de 1825, quase cem anos antes daRevolução de 1917. Nesse período, osrevolucionários foram lutando e a luta delestinha um caráter muito claro, no sentido dedefinir uma teoria, uma compreensão darealidade, assimilando aquilo que seria o maisavançado da ciência social, da política
  17. 17. revolucionária, dos países europeus próximosda Rússia.Foram travadas inúmeras lutas e inúmerasorganizações políticas se formaram até que omovimento operário russo assimilou, comoteoria, como doutrina, como ideiarevolucionária, o marxismo. O que vem aacontecer já no final do século XIX.Um dos aspectos chave da Revolução Russa éa existência de um partido capaz de fazeraquela revolução e o amadurecimento dessepartido foi um processo muito longo. Muitosestudiosos falam, por exemplo, que aRevolução de Outubro foi um “golpe de mão”do Partido Bolchevique. Não foi. A RevoluçãoRussa se desenvolveu lentamente. Ela sedesenvolveu como se fossem as camadasgeológicas do planeta Terra. Houve muitostropeços, muitos erros, organizações que foramdestruídas pela repressão, ideias erradas queforam sendo substituídas, até que se chegasseem uma organização política da envergadurado Partido Bolchevique.Quando encontramos uma personalidade comoLênin, que é sem dúvida nenhuma uma das
  18. 18. maiores personalidades políticas que o mundojá viu até hoje, ficamos até dominados por umsentimento supersticioso. De onde teria surgidouma pessoa com tal capacidade? Mas não hánada de sobrenatural. Ele é o desenvolvimentode quase cem anos de luta.Quando Lênin começa a militar, ele tinha tido apossibilidade naquele momento de estudartodos os processos revolucionários, todas asteorias revolucionárias, em certo sentido, aRússia havia sido um laboratório da revolução.Tudo havia sido testado. Havia sido testado otrabalho para conscientizar os camponeses, osatentados terroristas dos populistasorganizados contra dois czares. Havia sidotestado o trabalho clandestino, o trabalho deimprensa legal, tudo já havia sido feito emalgum sentido. Lênin é o homem que irárecolher de maneira mais consciente, demaneira mais coerente, essa experiênciaextremamente vagarosa, extremamente longada Revolução Russa. Sem a formação dessepartido, logicamente, não seria possível aRevolução Russa.
  19. 19. Só quando a classe operária russa, atravésdesse processo de evolução, se coloca sob aliderança desse partido, é que ela se unificacomo classe, é que ela se transforma em umator unitário e consciente da Revolução.Esse é um aspecto chave do problema, que éimportante discutir principalmente hoje, noBrasil, quando a crise política dos últimos anos,com a esquerda, principalmente com o PT ecom o stalinismo também, deu lugar a umaampla difusão de ideias anarquistas as maisvariadas possíveis. No centro dessas ideiasanarquistas existe a rejeição à constituição deum partido político.Essa ideia é equivalente à ideia de que apessoa vai participar de um tiroteio sem umrevolver. É uma ideia sem sentido, porque arevolução proletária necessita da agregação detoda a classe operária detrás de um programaúnico de classe e isso não pode ser feitoespontaneamente; só pode ser feito por meiode um determinado partido político operário,revolucionário, socialista. É uma tarefa centralno mundo hoje e é a grande contradição que omundo enfrenta.
  20. 20. O próprio Leon Trótski, muitos anos depois daRevolução Russa, coloca no programa detransição a ideia que a contradiçãofundamental da época atual é a contradiçãoentre as premissas objetivas da revolução, queestão tão maduras que já começam até aapodrecer, segundo ele fala, e a imaturidadesubjetiva da classe operária, que se expressana falta de um partido político.O grande segredo da revolução é aconstituição desse partido político e essepartido político, conforme estamos vendo, quefoi tão fundamental na Revolução Russa, não éum aglomerado circunstancial, casual,ocasional de pessoas, mas é oamadurecimento de uma determinada ideiarevolucionária; é o agrupamento da classeoperária detrás de seu próprio programa declasse. É a evolução da classe operária parater consciência de seus objetivos sociais epolíticos. É um processo social complexo, porisso é que não ocorre também tão facilmente.Não basta que nós proclamemos anecessidade de um partido operário eagrupemos pessoas para que esse partido
  21. 21. operário exista. O partido precisa ter umprograma que se torne o programa objetivo,prático da classe operária em luta. Sem esseprocesso não é possível fazer a revolução. Nóspoderíamos dizer inclusive que esse processoé a própria essência do mecanismorevolucionário. Nós podemos dizer que dadasas condições materiais para a revolução, arevolução consiste no processo deagrupamento da classe operária detrás de umprograma que expressa a evolução da suaconsciência em um sentido revolucionário.Quando acontece essa evolução, nós temos arevolução. A revolução é a própria classeoperária, é o processo de desenvolvimento daclasse operária. Isso em um aspecto muitoessencial.A primeira questão que surge da RevoluçãoRussa é justamente o problema do partido. OPartido Bolchevique desempenhou um papelfundamental. Eu gostaria de chamar a atençãopara algumas etapas e para algunsmecanismos que são peculiares justamente darelação entre o partido e a massa detrabalhadores.
  22. 22. Quando a Revolução Russa acontece, Lênin,que está no exílio, manda um telegrama paraos militantes bolcheviques que chegaram nacapital, no qual ele diz: “Nenhuma confiança nogoverno provisório, temos que lutar pelo poderdos sovietes” etc. e traça uma linha que, vendoas coisas retrospectivamente, parece óbvia,mas na realidade não era, porque ninguémdefendia aquele programa naquele momento. Éna realidade uma mudança, se não de 180º, de90º na política do partido. E ela só vai seradotada através de uma crise no partidobolchevique. O problema é que se ela nãofosse adotada, o que aconteceria? Qual era opanorama da revolução dentro do qual opartido atuava?Toda a esquerda russa, toda ela praticamente,era favorável a defender o poder da burguesia,o que seria mais ou menos a política do PT,mas em uma situação revolucionária. O únicopartido que desafiou esse senso comum daépoca foi o Partido Bolchevique. Como eledesafiou esse senso comum, através de umaluta que vai de fevereiro até outubro, ele serviucomo uma espécie de ponto de aglutinação dasmassas que se desenvolviam rapidamente no
  23. 23. sentido de rejeitar o acordo com a burguesia,ou das massas que, já tendo rejeitado essaaliança com a burguesia, precisavam seorganizar de uma tal maneira que permitisseque essa compreensão da rejeição da políticada burguesia se transformasse em uma políticaprática e ativa para a tomada do poder. Essapolítica foi organizada pelo PartidoBolchevique. Quem conduziu em todos osmomentos o desenvolvimento dessa luta,clareando o caminho, especificando, fazendopropostas que permitiam um avanço, foi oPartido Bolchevique. Sem esse partido, arevolução seria estrangulada por uma série demecanismos demagogicamente democráticosou pseudodemocráticos. Ou, também, comoesteve para acontecer, por um golpe deEstado. Quem bloqueou todas essas variantese colocou a revolução no sentido da tomada dopoder foi o Partido Bolchevique. O partidopolítico cumpre um papel fundamental e essa éuma das grandes lições da Revolução Russa.Trótski, na História da Revolução Russa,analisa justamente esse papel do PartidoBolchevique. Ele diz que a revolução é comouma caldeira a vapor. As massas
  24. 24. revolucionárias seriam uma fonte de energia,de força extraordinariamente grande como é ovapor, mas o vapor não é uma força em si. Eleprecisa ser canalizado, para que se crie aquelapressão e depois nós precisamos dedeterminados mecanismos que vão soltando apressão em um sentido funcional para que elapossa ser usada para movimentar outra partedaquela engrenagem. Sem essa válvula depressão a pressão não é uma forma. Então elefala: “a classe operária é essa válvula depressão”. Mas onde essa força se concentra eadquire um determinado direcionamentoprático? Através do partido político. Ou seja,não dá para a classe operária, sem um partido,organizar essa força, é preciso que isso sejacanalizado para um mecanismo onde tenhauma válvula, que regula e que dá vazão a essapressão e que a torna um fator efetivo nofuncionamento daquele mecanismo. Essa éuma questão chave.Uma segunda questão muito importante é oproblema da independência política da classeoperária. No Brasil nós vivemos esse problemade forma intensa. Toda a política brasileira nosúltimos 30 ou 35 anos gira em torno do
  25. 25. problema da independência da classe operáriadiante da burguesia. A classe operária, mesmoque não saiba, e também a juventude,esbarram nesse problema de que asorganizações políticas brasileiras atrelaramtodo mundo à burguesia e ninguém sabe comosair. Foi o que aconteceu recentemente naseleições em São Paulo. A maioria dapopulação gostaria de derrubar o governoSerra, se eles soubessem como, se tivessemos meios derrubariam o governo até mesmopor fora das eleições. Mas isso ainda não estáclaro como se faz, como se chega nesseresultado, então a população foi para eleições.Nas eleições se apresentaram vários partidos eesses partidos criaram um mecanismo no qualfinalmente a população foi sendo envolvida,como se fosse um teatro onde se movimentamos cenários, e foi por fim colocada a seguintequestão: Serra, Haddad ou voto nulo? Serrateve uma votação insignificante, votação essaque em grande medida é produto doclientelismo da prefeitura e do apoio de umsetor ultraminoritário e conservador daburguesia e da pequena-burguesia da cidade.A maioria das pessoas que inclusive não
  26. 26. gostam do PT, votou no PT porque não queriaque Serra ganhasse e uma outra parcela, quenão tolerava mais votar no PT, votou nulo. Maso fato é que a população teve que trocar Serra,um representante da burguesia, por Haddad,que é um outro representante da burguesia. Écomo nós tivéssemos entrado num buraco esaíssemos no mesmo lugar por onde entramos.Tudo bem que a vitória do Haddad tem umsignificado um pouco diferente, porquefinalmente quem votou nele é porque nãoaguentava mais a direita, o PSDB. Quem votounele queria se livrar de José Serra e, portanto,não vai aceitar que o Haddad imponha amesma política do PSDB, o que vai gerar umaenorme crise. Mas, enfim, do ponto de vistapolítico é isso. Os trabalhadores, osintelectuais, a juventude, criaram um partido detrabalhadores que acaba sendo também umpartido da burguesia. É como se tudo que vocêfizesse caísse no mesmo lugar.Por exemplo, eu cheguei a participar dafundação do PT. Em Diadema, nóspassávamos de porta em porta para legalizar oPT. Naquele momento, o que a população
  27. 27. queria era se livrar do Arena e do MDB, porisso íamos de porta em porta para apresentar oPT e filiar pessoas. Agora, em 2012,perguntamos: quem é o vice de Dilma, do PT?É o PMDB, ou seja, é o mesmo partido que nósqueríamos nos livrar. Esse problema é chave:como constituir um partido que sejaefetivamente o partido de todas aquelaspessoas que decidiram se opor a todos ospartidos e políticos da burguesia?Outro exemplo é a criação do Psol, que foirealizada depois da decepção com a subida doPT ao governo. Mas o que aconteceu? O Psolfez exatamente a mesma política. Nas últimaseleições, fizeram aliança com o DEM, o PP, oPSDB, PSC, PT, PCdoB, produzem umaenorme confusão política. Isso não significaque é um defeito moral de ninguém, ou denenhuma organização política, mas o fato éque esse é um processo chave natransformação social. Essa transformação sópoderá ocorrer quando os trabalhadores, ajuventude de esquerda, chegarem à conclusão,através de sua própria experiência, de que elesnão devem ficar a reboque da burguesia. Maisainda – pois essa conclusão muito deles já
  28. 28. tiraram –, quando chegarem a conclusão decomo é que se faz para não ficar a reboque daburguesia, porque esse exemplo do PTtambém é um exemplo de pessoas quedecidiram não ficar a reboque da burguesiamas acabaram ficando de qualquer maneira.Então é preciso que a classe operária evoluaatravés de sua própria experiência,massivamente, para se separar totalmente daburguesia, entendendo como é que se faz parase separar totalmente da burguesia. Só assimteremos um desenvolvimento verdadeiramenterevolucionário.Na Revolução Russa, esse processo, que noBrasil já dura mais de 35 anos, acontece comose fosse um filme em alta velocidade. Issoporque uma característica da revolução é queela concentra os problemas de uma maneiraextraordinária. Aquilo que demora 10 anos paraacontecer em tempos não revolucionários, narevolução acontece em uma semana. Aexperiência das massas é muito mais agudaporque as contradições são muito mais agudas.Então os trabalhadores russos que fazem arevolução, pelas coordenadas políticas que se
  29. 29. colocam na revolução e pela ação do PartidoBolchevique, passam a entender de que ladoestá a burguesia e de que lado está a classeoperária, e o que é preciso fazer para se livrarda burguesia.O Partido Bolchevique compreende ascontradições da política burguesa logo numprimeiro momento. Lênin fala que a primeirarevolução russa, em fevereiro, é uma revoluçãona qual as expectativas estão confusas porqueé feita pela classe operária e pela burguesiapara derrubar o czar. Porém, os objetivos daburguesia e dos trabalhadores são diferentes eeles são contraditórios uns com os outros, epor isso Lênin conclui que é inevitável umasegunda revolução.Lênin identifica quais são as contradições. Umadelas é a continuidade da guerra, que interessaà burguesia e não à classe operária. Há oproblema do desabastecimento, que se tornavacada vez mais grave na Rússia, que estavalançando a classe operária à miséria. Por fim,havia a questão da terra dos camponeses. Osbolcheviques lançam então um programabásico com as palavras de ordem de “Paz, Pão
  30. 30. e Terra”. Esse programa expressa a linha declivagem, de ruptura, entre a burguesia e oproletariado, e os bolchevique fazempropaganda nessa linha.Enquanto que os partidos da esquerdapequeno-burguesa procuram levar oproletariado a apoiar a burguesia, a guerra eprocuram confundir os operários com uma sériede ideias enganosas, os bolcheviquesdenunciam a todo o tempo esses golpes.Na medida em que são feitas manobras parailudir o proletariado, os bolcheviques vãointervir e esclarecer que de um lado está aburguesia e de outro a classe operária e queesse é o aspecto chave da revolução.Em um dado momento, eles lançam umapalavra de ordem que foi um desafio para ospartidos da esquerda pequeno-burguesa, paraque eles assumissem todo o poder político eexpulsassem a burguesia do poder. Vejam queos bolcheviques não pedem para si o podernum primeiro momento; eles propõem o poderpara os partidos da esquerda pequeno-burguesa, que na Rússia seriam o PT, o Psoletc. No entanto, esses partidos rejeitam romper
  31. 31. com a burguesia e vão caindo em descréditocom as massas. As massas observam aconduta desses grupos em não querer romper,e começa a crescer a deterioração daautoridade desses partidos sobre as massas.Em um determinado momento, as massassaem às ruas para obrigar essas lideranças aromper, porém percebem que isso não iriaacontecer. Há um enfrentamento e então asmassas percebem que é necessário rompertambém com esses partidos.No livro do John Reed, um jornalista norte-americano que também era comunista, esseproblema está muito bem retratado de umamaneira simples. Em dado momento eledescreve uma cena entre um operário, umcamponês, pessoas simples da GuardaVermelha, que estão parados em frente a umprédio quando chega um estudante pequeno-burguês, que insulta os operários e afirma queeles não sabem nada, que são ignorantes etc.Um dos trabalhadores, embora intimidado,reconhecendo que o estudante é uma pessoamais instruída diz: “Uma coisa nós sabemos,de um lado está a classe operária, do outro a
  32. 32. burguesia e quem não está com um, está como outro”. Daí então, o estudante começa a ficarirritado e acusa os soldados de teremparticipado da repressão contra umadeterminada manifestação há vários anos. Osoperários então reconhecem novamente aautoridade do estudante, mas voltam a afirmar:“Uma coisa nós sabemos, de um lado está aclasse operária do outro a burguesia, e quemnão está com um está com o outro”. Ou seja,esse fato simbólico, embora seja real,demonstra que as massas haviamcompreendido, mesmo entre os setores maispobres, que havia uma verdadeira guerra civilentre a classe operária e a burguesia e esseera um problema chave. Para eles, quem nãoestava com o proletariado estava com aburguesia e nada mais.Por aí dá para termos uma ideia de como seprocessa a compreensão. Não é que aquelesdois milicianos do Exército Vermelho tinhamuma consciência profunda dos problemas daluta social, mas eles tinham uma compreensãoprática, concreta do que estava acontecendo,que é o que a maioria dos trabalhadores temdos problemas, dos interesses em jogo etc.
  33. 33. Eles não são cientistas sociais, nemespecialistas em política. Esse problema foichave. A revolução acontece quando toda aclasse operária e o campesinato começam aromper com a burguesia depois de umacampanha gigantesca dos bolcheviques. Essessão problemas fundamentais de todo odesenvolvimento da revolução e nós podemosdizer ainda que esse é o problema mais centraltambém de seu desenvolvimento prévio.Finalmente, há uma terceira questão, que é oproblema da insurreição. Hoje em dia, aRevolução Russa é tratada como um fenômenodado. Isso pode induzir a uma incompreensãodo que acontecia na época. Naquele momento,a ideia de que um partido poderia conduzir àtomada do poder organizando conscientementeuma insurreição era uma ideia que nãopassava pela cabeça de ninguém.Os grandes dirigentes da social-democracia daépoca acusaram os bolcheviques, depois dainsurreição, de “blanquismo”, que foi umacorrente política francesa, de um granderevolucionário chamado Blanqui, que era umespecialista da luta de barricada e da
  34. 34. insurreição. Ele participou de váriasinsurreições em Paris, antes e depois darevolução de 1830. Blanqui ficou presodezenas de anos pela burguesia francesa emesmo quando os revolucionários da Comunade Paris propuseram trocar ele por mais de 200prisioneiros políticos, incluindo o bispo dacidade, a burguesia negou a proposta. Oblanquismo, portanto, era mal visto porquesubentendia-se que era uma tática equivocada.A social-democracia, ao contrário, estava hámuito tempo comprometida pela políticaeleitoral, esquecendo o problema da revolução.Para eles, a revolução era um movimento geraldas massas, um movimento de opinião, masnão um movimento de força.Os bolcheviques foram os únicos quelevantaram esse problema, de que somenteuma revolução, com a utilização da força, coma tomada do poder, poderia conduzir a classeoperária à vitória. Isso vai se tornar um divisorde águas entre aqueles que apoiam a tomadado poder pela força, dos que acham que nãohá outro caminho; e de outros que defendem aideia da democracia, que em última instânciasignifica que ninguém nunca tomará o poder.
  35. 35. Em certo sentido, a esquerda brasileira seapoia na ideia de que tem que haver eleições.Não há a ideia de que as eleições são a formanatural de perpetuação do domínio daburguesia sobre a sociedade e que para asociedade se liberte, constitua um governooperário, passe para o socialismo, é precisouma revolução. Não só uma revoluçãoespontânea, mas efetivamente a tomadaconsciente do poder pelos revolucionáriosorganizados. Isso implica em uma grandedistinção dos métodos de ação.Os revolucionários podem participar daseleições. Os revolucionários podem e devemparticipar da organização de sindicatos,associações e outros. Mas para quê? Qual osentido dessa ação? O sentido dessa ação temde ser organizar a classe operária para que, nomomento em que a situação transbordar, nomomento em que se colocar o problema darevolução, exista uma força capaz de levar aclasse operária efetivamente ao poder. Sem opoder político da classe operária, essa seria aquarta conclusão, não é possível nenhumatransformação social efetiva.
  36. 36. No Brasil, por exemplo, hoje em dia muitosacham que com o governo do PT, do Psol, oucom um governo qualquer, é possível fazertransformações sociais. Talvez não todas,talvez algumas ficassem de fora, mas que dariapara transformar bastante coisa. Isso é umailusão, uma fantasia. Não é possíveltransformar nada, é preciso desmantelar omecanismo político que mantém a exploraçãosocial para que a exploração social possa seratacada. Se alguém for atacar a exploraçãosocial sem desmantelar esse mecanismopolítico, vai se defrontar com uma barreirainsuperável. Toda tentativa de fazertransformações por dentro desse mecanismopolítico está fadada ao mais completo fracasso.Nós temos aí três mandatos do PT para ver.Não foi feito nada. Se conversarmos comalguém do PT, a única coisa que ele dirá é quedistribuíram o Bolsa Família. Menos do queisso também seria demais. Até a ONU é a favorda Bolsa Família. A ONU é dirigida peloimperialismo, pelos bancos internacionais. Seum governo de esquerda não é a favor de darcomida para quem está passando fome, do queele seria a favor? Já quanto à reforma agrária,
  37. 37. que significaria uma modificação real narelação real entre o capital e o trabalho; nada.Uma modificação real na situação da mulher,do negro, do índio, de todos os setoresoprimidos da sociedade, nada. Umatransformação por mínima que fosse nosistema educacional, que está totalmente falidoem todas as esferas, também não acontece.Não há nenhum projeto nesse sentido.Desenvolveram até o paroxismo o ensino pago,que é um grande ônus para a população. Esseé um exemplo prático que os brasileiros estãoexperimentando.Na Revolução Russa, a população fez umaexperiência com um governopseudodemocrático rapidamente, porque asquestões estavam colocadas de uma maneiramuito acesa. Aqui no Brasil, não. Aqui ascoisas vão se desenvolvendo lentamente.Alguém poderia argumentar: “será que talmedida não representa uma mudança?”. Nofinal do processo veremos que não só asituação não melhorou nada como sedeteriorou igual aconteceu no governo Sarney,Collor, FHC e segue ladeira abaixo.

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