O Diário de Lia

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SINOPSE
O Diário de Lia aborda os temas "envelhecimento" "sentimentos" e "memórias". Difícil é para quase todos nós aceitarmos a velhice, porém o tempo não é um vilão, é um amigo que possui uma mão suave quando se trata de levar nossa juventude.
Lentamente e suavemente, com suas mãos ele nos leva dia após dia. E tudo possui uma razão de ser. Até nisso Deus é perfeito quando nos criou e nos deu espírito e vida. Imagina se tivéssemos que permanecer vestidos com uma determinada veste para sempre! Ninguém suportaria vestir a mesma roupa eternamente! É preciso trocar de roupa, vestir outras vestes, outras cores e outras estampas para se sentir bem, e para se sentir bonito e jovial, renovando o entusiasmo pela vida.
Com o corpo físico, eu penso que seja também assim! Nenhum espírito ativo suportaria vestir o mesmo corpo para sempre, eternamente! É preciso vestir outras vestes, viver outras experiências, ver outras estações, contemplar outras cores, e outras emoções.

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O Diário de Lia

  1. 1. ROZILDA EUZEBIO COSTA O Diário de Lia 1ª EDIÇÃO
  2. 2. 1ª Ed. 2016 © By Rozilda Euzebio Costa – Direitos em Língua Portuguesa reservados ao autor. Capa: imagens google Revisão da Autora. FICHA CATALOGRÁFICA 000 Costa, Rozilda Euzebio - Conteúdo: 1. Conto 2. Romance 3. Literatura brasileira 1. Título: O Diário de Lia CDD – 000-B869 Direitos reservados exclusivamente ao autor. Qualquer trabalho deste livro pode ser usado livremente, desde que seja citada a fonte. Os infratores estarão sujeitos às penalidades previstas na Lei n° 9.610/98 (Lei de Direitos Autorais).
  3. 3. PERSONAGENS PRINCIPAIS Lia Fernandes Armando Torres DEMAIS PERSONAGENS Luís Pedro Thiago Dalila Prof. Antônio Francisco Elizabete Tereza Tarsila (mãe de Lia) Graciliano (pai de Lia) Adriana Declaração Declaro a todos os fins de direito que, esta obra é fictícia e de foro imaginativo. Portanto, qualquer semelhança entre os personagens e lugares aqui citados, é pura coincidência. Rozilda Euzebio Costa
  4. 4. Através do DIÁRIO DE LIA, adentramos na questão do envelhecimento do nosso corpo e da força da nossa mente, da aceitação e da rejeição das nossas vestes físicas. E ainda, podemos ver que as nossas memórias se ligadas aos sentimentos, nunca envelhecem. O tempo não consegue envelhecer nossas memórias, ele pode ter o poder de envelhecer o corpo, mas a nossa mente está fora de seu alcance. Porém o tempo não é um vilão, é um amigo que possui uma mão suave quando se trata de levar nossa juventude. Lentamente e suavemente, com suas mãos ele nos leva dia após dia. E tudo possui uma razão de ser. Até nisso Deus é perfeito quando nos criou e nos deu espírito e vida. Imagina se tivéssemos que permanecer vestidos com uma determinada veste para sempre! Ninguém suportaria vestir a mesma roupa eternamente! É preciso trocar de roupa, vestir outras vestes, outras cores e outras estampas para se sentir bem, e para se sentir bonito e jovial, renovando o entusiasmo pela vida. Com o corpo físico, eu penso que seja também assim! Nenhum espírito ativo suportaria vestir o mesmo corpo para sempre, eternamente! É preciso vestir outras vestes, viver outras experiências, ver outras estações, contemplar outras cores, e outras emoções. A Autora.
  5. 5. 6 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa I Capitulo nquanto caminhava pelo passeio do extenso bosque, Lia Fernandes fazia uma intensa viagem ao seu passado, revivendo as recordações de sua adolescência. Lembrava-se de cada detalhe, de cada emoção experimentada, e dos tantos sonhos que alimentara em sua juventude. Vinha-lhe a memória as lembranças dos momentos felizes, e das decepções que tantas vezes a fizeram chorar. Recordava-se com clareza dos amigos, das vivências e sensações que experimentara no auge de sua mocidade. Quanta disposição tinha em seu corpo! Poderia passar a noite em claro, brincando com os amigos, que no dia seguinte seu corpo continuava com a mesma disposição. Não sentia tanto os efeitos de suas estripulias de juventude. Agora Lia estava vivendo apenas de suas recordações, pois já não tinha mais força física pra viver aventuras. Ela estava com setenta e nove anos de idade, o corpo já não obedecia aos comandos de sua mente, já contabilizara alguns quilos indesejáveis pelo corpo. Seus cabelos se pareciam com uma grande bola de algodão em sua cabeça, de tão brancos que já estavam. E
  6. 6. 7 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Se havia uma coisa de que Lia não gostava, era de se olhar no espelho, pois quando o fazia sentia vontade de chorar, ou mesmo, de quebra-lo! Odiava-o, porque ele mostrava o que ela não queria aceitar. Os anos haviam maltratado sua aparência, mas não tinha envelhecido sua mente e nem apagado suas memórias. Tudo que Lia mais desejava era ter o poder de fazer o tempo voltar, para reviver momentos felizes que havia provado em seu tempo de juventude. Desejava concluir os momentos que ficaram sem a chance de serem concretizados. No entanto, sabia que isso era realmente impossível e fora de cogitação. Não poderia fazer voltar o tempo. Esta era uma grande e triste realidade para ela. Lia estranhava-se naquele corpo, era fato, pois sua mente, não havia envelhecido. Seu espírito era de uma jovem desejosa de viver todo o sonho possível de uma vida de aventuras. Gostava de estar entre os jovens e se sentia como um deles. Via suas amigas frequentarem os grupos da terceira idade e não sentia nenhum desejo de estar com elas. Observava que elas estavam conscientes da condição de idosas, mas para ela, esta palavra lhe soava estranha aos ouvidos. Não admitia ser chamada de “idosa”. O tempo é sensível conosco quando não nos deixa ver o processo de envelhecimento de uma só vez. Isso seria trágico demais para os nossos sentidos, e principalmente, para os nossos sonhos, porque é fato de que a mente não envelhece para os
  7. 7. 8 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa sonhos, mas a nossa juventude passa, e nós continuamos a idealizar projetos como se ainda tivéssemos um corpo jovem e forte. A mão do tempo é suave, vai levando de leve a juventude do nosso corpo até chegar aquele momento que devemos voltar à origem. Mas eu me pergunto: porque a mente não envelhece? Porque continuamos a sonhar em realizar certas coisas que somente os jovens possuem condições físicas para realiza-los? Não seria porque a mente não pode ser tocada e nem alterada pelo tempo?! Quem sabe o que acontece com as programações da nossa mente? Nas mãos de quem está no controle da nossa mente? Será que tem algum ser superior a comandar todos os sistemas da nossa mente? Quando a mente não guarda suas memórias e não permanece em constante atividade saudável em alguns indivíduos, não é devido à sua idade, mas é devido a problemas com o funcionamento ativo do cérebro. Porque temos grandes exemplos de indivíduos com idade física avançada, mas em constante processo de criação, e de idealizações incríveis para que outros indivíduos, com sua fisicalidade mais jovem e mais forte, realizem tais construções. No entanto, mesmo a mente permanecendo ativa, o envelhecer do corpo é um processo inevitável. E podemos ver que ninguém gostaria de perder os vigores da juventude! Nós olhamos para o espelho e não reconhecemos aquela pessoa do outro lado.
  8. 8. 9 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Vemos rugas por toda parte, olhos e lábios caídos, pescoço enrugado, manchas na pele e cabelos brancos. Porém, a mente não aceita este corpo que se apresenta envelhecido no espelho! E se ela não aceita, não o reconhece como sendo seu, isso só me leva a acreditar em uma coisa como sendo certa: a mente em definitivo, nunca envelhece! O espírito não envelhece! E permanece em plena atividade. *** Depois de caminhar por alguns minutos, Lia sentou-se embaixo de uma frondosa árvore. Seu filho Thiago a deixara ali, sozinha, a pedido dela própria. Por algum tempo manteve o olhar distante, como quem tivesse abandonado o corpo naquele lugar e viajado em pensamentos a um tempo muito distante. Depois de algumas dezenas de minutos, começou a sentir dor em um dos joelhos, mas não desejava ir embora ainda. Thiago não demorou muito, mesmo que ela o pedisse para ficar um pouco mais, ele não a deixava só por muito tempo. Estava sempre a observa-la, mesmo que de longe, de modo que ela não percebesse a sua presença. Thiago era um bom filho e não gostava de causar nenhum tipo de mágoa à mãe.
  9. 9. 10 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Quando Thiago se aproximou da mãe, percebeu que ela estava com o olhar perdido. Chegou mais perto dela e carinhosamente a chamou: - Mamãe?! Já está na hora de voltarmos para casa. Vamos! - Já veio me buscar, meu filho? Estou aqui há tão pouco tempo! – disse ela, como se ainda desejasse ficar naquele bosque por mais tempo. - Ora mamãe! Você já não tem idade pra ficar fora de casa por muito tempo! E ainda mais sozinha! Além do que, eu preciso ir para o escritório trabalhar. Já são quase nove horas da manhã! Estou cheio de compromissos para hoje. Vamos para casa? – Thiago a chamou mais uma vez. - Sabe que eu não gosto que me chamem de velha! – disse ela, mostrando aborrecimento, pela forma com que o filho lhe mencionou a idade, como uma das preocupações de ficar fora de casa muito tempo. - Não estou chamando-a de velha mamãe! Só quero dizer que a senhora já não tem tanta disposição física. Além do mais o seu médico lhe recomendou repouso, lembra-se? – disse ele. - Ah esses médicos! Eles estão sempre a inventar alguma coisa. Eles querem nos enterrar vivos meu filho! Sinto-me
  10. 10. 11 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa muito bem! – disse ela, já tentando se levantar, mas sentiu seu corpo pesar e acabou se sentando novamente. - Está vendo! Os médicos não inventam mamãe, eles estudam para reconhecer os males que afligem o nosso corpo. Deixe-me ajudá-la mamãe! – Thiago pegou nos braços de sua mãe, para ajuda-la a se levantar. Lia entrou no carro e permaneceu em silêncio até chegar em casa. Thiago estacionou o veículo e lhe ajudou a descer. Depois se despediu dela e foi para o seu trabalho. Quando ficou viúva, Lia foi morar com seu filho Thiago, o mais velho dos cinco filhos que tivera de seu casamento. Ele era o que mais se parecia com o pai. Embora não desejando ter mais preferência por algum deles, ela não conseguia disfarçar para os outros a sua predileção por Thiago, pois ele era o único em quem ela confiava. Thiago era muito humilde e responsável, zelava pelo bem estar da mãe. Preocupava-se com sua saúde. Os outros quatro filhos, duas mulheres e dois homens, moravam em outras cidades e tinham suas próprias vidas sobre controle. Nenhum deles se preocupava se ela estava bem ou não. Apenas Thiago tinha essa preocupação, tanto que, ao ficar noivo já comunicou a sua futura esposa que ela deveria conviver com sua mãe, pois a mãe era muito importante em sua vida e ele jamais a abandonaria. Já
  11. 11. 12 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Adriana, esposa de Thiago, por outro lado, se deu muito bem com a sogra. Eram como se fossem mãe e filha. Ao chegar em casa, Lia entrou para o seu quarto e trancou a porta, não queria ser incomodada. Sentiu vontade de rever o diário que escrevera em sua juventude. Guardava-o em uma pequena caixa, a qual mantinha sempre trancada a cadeado, para que ninguém pudesse colocar as mãos nele, e vir a ler alguma coisa de seu passado. Já com o diário em mãos, Lia recostou-se na cabeceira da cama, e abrindo-o, deparou-se com uma pétala de rosa vermelha ressecada pelo tempo. Olhou para aquela pétala e recordou-se de quando a colocou ali. Começou a ler as palavras que foram escritas por ela própria naquele diário, as quais descreviam seus anseios, seus sonhos de adolescente. Era também naquele diário que Lia havia registrado as emoções de quando conheceu o grande amor de sua vida, e os momentos que vivera ao lado dele. Enquanto relia seu diário, as cenas lhe passavam pela mente como um filme. Lembrou-se vividamente de sua juventude, daquela fase que nunca mais voltaria, mas que ainda permanecia viva em suas memórias... ***
  12. 12. 13 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa II Capitulo ... São Paulo, 1942, Lia tinha completos dezesseis anos de idade. Era uma linda moça de olhos negros, tinha uma pele tão alva e sensível que ela nem gostava de tomar sol por medo de gerar bolhas e prejudicar sua pele. Usava cabelos longos, não gostava de cortá-los, pois eram tão bonitos! Eram castanhos e se misturavam a fios dourados, dando-lhe um aspecto realmente atraente. Tinha preferência por vestidos um pouco acima do joelho. Também era um tanto vaidosa, não gostava de repetir seus vestidos nos bailes que frequentava com as amigas. A cada nova festa, um novo vestido! Nunca podia sair sozinha porque seus pais não permitiam. Quando não estava acompanhada deles, lhe acompanhava o irmão mais velho, Francisco, que mais parecia um cão de guarda a lhe vigiar os passos. Lia adorava flertar os rapazes, mas nunca havia encontrado nenhum pelo qual ela se interessasse de verdade para namorar. Em sua mente de jovem sonhadora, esperava um príncipe encantado! Sonhava com este encontro especial. Tinha já em mente o tipo de rapaz que desejava namorar e se casar.
  13. 13. 14 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Lia possuía um diário onde escrevia tudo que julgava importante em sua vida. Muitas coisas vividas ali eram anotadas. *** Era o seu primeiro dia de aula e também o último do colegial. O Prof. Antônio Lopes foi o primeiro a ministrar aula naquele dia, e fez com que todos se apresentassem na sala, lhes dizendo seus nomes. Alguns alunos da classe Lia já os conhecia dos anos anteriores, e por isso, já se sentia enturmada com boa parte daquela turma. Antônio Lopes estava a escrever no quadro negro quando um jovem, um tanto tímido chamou sua atenção na porta da sala, pedindo licença para entrar. Neste instante, todos os alunos viraram-se na direção da porta de entrada. O jovem Armando Torres chamara a atenção de todos devido a sua altura, quase um metro e noventa! Como era alto aquele jovem! Era impossível não chamar a atenção de todos os alunos ali presente. Armando tinha a pele tão alva que se podia notar os pequenos vasos sanguíneos espalhados pelo seu rosto. Seu cabelo chegava a ter um tom avermelhado. Alguns alunos baixaram a cabeça e começaram a sorrir, estranhando a aparência do jovem, mas Lia não! Ao contrário, o achou lindo! Ficou a admirá-lo.
  14. 14. 15 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa O professor mandou que ele entrasse e procurasse um lugar para se sentar, pois a aula já havia começado. Armando olhou em volta da sala e logo avistou uma cadeira, que por coincidência, ficava ao lado da de Lia. O professor prosseguiu escrevendo no quadro, mas as risadas em determinados pontos da sala continuavam. Antônio foi obrigado a chamar a atenção dos alunos para se comportarem. Enquanto isso, Armando não conseguia nem mesmo dirigir o olhar pela sala, por tamanha timidez, e também por ter percebido que riam dele. Na hora do intervalo das aulas, Armando procurou ficar afastado de todos. Sentia que o iriam exclui-lo por causa de sua aparência. Já estava acostumado a ser criticado e chamado de apelidos indesejados. Enquanto recreavam, Lia o observava à distância. Uma de suas amigas, Dalila, vendo que ela não parava de olhar o rapaz, perguntou: - O que foi Lia? Porque olha tanto para esse menino? Aliás, ele é tão desengonçado, você não acha? – perguntou Dalila. - Não! Eu não acho. Ele é um rapaz normal. - Não?! Você não o acha estranho?! Olha só para ele Lia! Parece mais uma geringonça! – disse.
  15. 15. 16 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Ele não é feio, Dalila! – defendeu-o. - Não estou dizendo que ele é feio, mas ele é muito alto! E meio torto também! – disse Dalila. - Eu até o acho bonitinho! – disse Lia. - Ah Lia, vai me dizer que se interessou por ele?! – perguntou com espanto. Dalila logo percebeu que sua amiga estava mesmo interessada pelo rapaz, embora ela tenha se defendido negando o obvio. - Não é isso. Ele apenas me chamou a atenção. – respondeu Lia. - Sei. Está bem. Porque não vai até lá e puxa assunto com ele? Se quiser, eu vou com você – sugeriu Dalila. - Iria mesmo?! – perguntou Lia, interessada. - Claro que sim! Vamos? – Dalila pegou em seu braço e já saiu arrastando-a. - Espera Dalila! O que vamos falar para ele? - Ah... qualquer coisa. – disse Dalila já caminhando em direção ao rapaz, acompanhada da amiga. Meio intimidada, Lia o cumprimentou. - Oi! - Oi! – respondeu ele. – muito sem graça. - Como é mesmo o seu nome? – questionou Dalila. - Armando.
  16. 16. 17 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Como você é alto, Armando! – disse Dalila, enquanto Lia apenas o observava. - Minha família é toda alta. As pessoas estranham um pouco isso. Não estão acostumadas com gente alta como eu. - É mesmo. Sabia que minha amiga Lia gostou de você? – disse Dalila. Ela era uma moça despachada. - Que isso Dalila?! – disse Lia, não gostando de como a amiga falou. - Mas é verdade Lia! Você gostou dele, e se você vai ser amiga dele, eu também quero ser! Armando, quero que você seja nosso amigo. E se precisar de ajuda é só falar conosco. Eu e a Lia podemos te ajudar a conhecer a turma da sala. – disse Dalila, já deixando o rapaz mais a vontade. Logo em seguida o intervalo do recreio encerrou-se, e os três voltaram para a sala de aula. Armando não esquecia o que Dalila havia dito no horário do recreio, e vez em quando olhava na direção de Lia. Às vezes os olhares dos dois se cruzavam, deixando transparecer o interesse de ambos.
  17. 17. 18 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa III Capitulo uase um mês havia se passado e Lia aproximava-se cada vez mais de Armando. Lia, juntamente com Dalila e Armando andavam sempre juntos no colégio. Tornaram-se amigos quase inseparáveis. Armando já estava bem mais enturmado com a turma do colegial. Devido a esta aproximação, algumas colegas de Lia também já começavam a achá-lo interessante. Isso a deixava um pouco enciumada. A direção da escola decidira organizar um baile para arrecadar fundos pra reforma da biblioteca. Seria um baile para os alunos e pais. Lia não via a hora de chegar à data deste baile, estava ansiosíssima para ir a esta festa. Mandara fazer até um vestido novo para usar. Já se imaginava dançando com Armando no baile. Por sua cabeça já se passavam várias cenas românticas entre ela e Armando. Tinha certeza de que depois daquele baile Armando se tornaria seu namorado. Em fim, chegara o dia tão esperado por Lia. Era uma noite linda de sábado. No céu uma lua cheia que brilhava esplendorosa, e tantas estrelas brilhantes se destacando. Tudo indicava que aquela festa seria inesquecível para Lia. Já havia pedido sua mãe Q
  18. 18. 19 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa para que a deixasse ir ao baile com as amigas, não desejava ter Francisco a vigiar-lhe os passos, pois isso somente atrapalharia a sua aproximação com Armando. Combinara de encontrar as amigas em sua casa, pois seu pai, Graciliano, iria levá-las e deixá-las na porta do salão onde se realizaria o grande baile. Graciliano, pai cuidadoso que era, deixou Lia na entrada do salão onde se realizaria o baile, em companhia de suas amigas. Eram elas; Dalila, a quem contava todos os seus segredos, e Elizabete, e Tereza, ambas, colegas da escola. Graciliano fez muitas recomendações para a filha, para que tivesse muito juízo, senão, seria a primeira e última vez que sairia sem a companhia de Francisco, o irmão. As quatro amigas estavam muito felizes. Lia, logo que entrou, passou as vistas por todo o salão, desejava encontrar Armando. O que não demorou. Logo o localizou no meio do salão conversando com um amigo. Lia aproximou-se de Dalila e o mostrou: - Dalila, ele está aqui! - Onde?! - Bem atrás de você, mas não olhe agora, senão ele percebe que estamos falando dele! – disse Lia. - Vamos até lá cumprimentá-lo Lia! - Não! Agora não Dalila! – disse ela.
  19. 19. 20 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Está bem. É você quem não quer. Por mim nós iríamos agora. Não gosto de deixar nada para depois. Depois pode ser que não tenhamos mais a oportunidade. – disse Dalila. Tereza ao ouvir que as duas falavam de algo que parecia interessante, quis logo saber do que se tratava, mas elas não falaram, porque Lia preferia não expor os sentimentos que ela sentia por Armando. Não desejava ainda que ninguém soubesse. Apenas Dalila, sua amiga mais intima, sabia de todos os seus segredos. Depois de meia hora de espera a música começou a ser tocada no salão. Lia já estava sentada em uma mesa com as amigas a bebericar um refresco, exceto Elizabete, que havia encontrado outras amigas no baile e separou-se delas. Lia não tirava os olhos de Armando e ele também não parava de olhar para ela, parecia querer aproximar-se, mas isso não acontecia, deixando Lia ainda mais constrangida de falar com ele. A cada minuto que se passava, percebia que ele estava sempre ocupado, conversando com alguém. Lia chegou a pensar que ele na verdade não estava nem ai com ela. Estava mesmo era a brincar com seus sentimentos, já que sabia que ela gostava dele. Algum tempo depois que o baile havia iniciado, foi Armando que tomou coragem e foi falar com Lia. Mas quando caminhava em sua direção, Elizabete entrou em sua frente e o convidou para
  20. 20. 21 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa dançar. Quando Lia viu isso, ficou estremecida de ciúme e surpresa. Magoada comentou com Dalila: - Mas eu não acredito! Veja Dalila! Elizabete é uma traidora! Como pode chamar o Armando para dançar? É uma atrevida! – disse Lia, sentindo um grande ciúme por ver a amiga a dançar com seu Armando. - Quem diria hein? Ela não é sua amiga. Estava todo o tempo de olho nele, por isso que saiu de nossa companhia! – disse Dalila, compreendendo a indiferença de Elisabete. - Do que estão falando? – quis saber Tereza. - Do Armando Tereza. Lia gosta dele, mas Elizabete o chamou para dançar. – Dalila estava possessa de raiva, parecia até que ela é que gostava de Armando, mas não, é que ela gostava tanto de sua amiga Lia, e por isso tomou suas dores para si. - Gente, ela não sabe que Lia gosta dele! Nem eu sabia! Estou sabendo agora! Mas isso é sério? Lia é mesmo apaixonada pelo Armando? – perguntou Tereza com ar de surpresa. - Eu vou embora Dalila. Não quero ficar olhando os dois dançarem juntos! – disse Lia, com os olhos cheios de lágrimas. - Mas agora que começou o baile! Oh Lia, eu não quero ir embora agora. Além do que, eles só estão dançando! Daqui a pouco a música termina e você fala com ele. – disse Dalila,
  21. 21. 22 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa tentando convencer a amiga a esperar mais um pouco, mas ela já estava muito magoada com Elizabete e profundamente enciumada de Armando. - Não Dalila, eu já estou indo. Vocês podem ficar. Eu vou sozinha para casa. – disse Lia, já se levantando da cadeira e partindo sem perder tempo. Dalila deixou que a amiga fosse, queria ficar mais um pouco no baile. - Mas, e seu pai Lia? Ele não vai gostar de te ver voltando para casa sozinha! Lia! Volte aqui! Volte e espere um pouco mais! Liaaa! –de nada adiantou Dalila implorar para que ela esperasse um pouco mais, Lia já levantou-se da cadeira e foi embora. Chegou em casa às lágrimas, e ao se aproximar da porta de entrada enxugou seu rosto para que seus pais não percebessem que ela estava chorando. Bateu na porta e esperou que abrissem e logo sua mãe, Tarsila, apareceu. Quando a viu quis saber por que voltara tão cedo do baile e sozinha! - Já Lia? Mas ainda é muito cedo! Não gostou do baile filha? – perguntou a mãe. - Não mamãe. Não gostei. Vou para o meu quarto dormir. – respondeu. - E suas amigas, onde estão? Você veio sozinha?! – respondeu.
  22. 22. 23 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Mamãe, amanhã a gente conversa está bem? Eu estou com muito sono. Vou para o meu quarto dormir. – Lia virou as costas e foi direto para o quarto. Tarsila comentou com o marido que a filha já estava em casa, e que parecia ter acontecido alguma coisa no baile. Iria conversar com ela no dia seguinte para saber o que havia acontecido. Lia deitou-se na cama e desmanchou-se em lágrimas. Sentia muita mágoa por ter visto Elizabete com Armando. Lia já estava apaixonada por ele, e por isso sentira tanto ciúme ao vê-lo com a amiga. Aquilo que aconteceu deixou nela um sentimento negativo em relação às suas esperanças. Era como se já não houvesse nenhuma esperança para ela junto a Armando.
  23. 23. 24 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa IV Capitulo a segunda-feira Lia foi ao colégio um pouco desanimada. Chegou atrasada, já em cima da hora, a aula já havia começado. Não queria sentar-se próxima de Armando. Estava muito magoada, por tê-lo visto dançar com Elizabete. No entanto, procurou pela sala inteira e a única cadeira desocupada era justamente a sua de sempre, ao lado da cadeira de Armando. Entrou e acomodou-se. Não tinha coragem de olhá-lo nos olhos. Fez de conta que não o viu, e nem ao menos lhe cumprimentou. Assim se comportou até a hora do recreio. Não tinha conversado ainda com Dalila, que com certeza, deveria ter mais alguma notícia da noite do baile, pois ela ficara na festa, não quis ir embora quando ela decidiu sair do baile. Estava ansiosa para que Dalila lhe contasse mais alguma coisa sobre Elizabete e Armando. Lia saiu da sala acompanhada da amiga e procuraram pelo pátio um local mais afastado para conversarem. - Então Lila! Elizabete namorou o Armando? Ela o beijou? Eles ficaram juntos? Você não pode me esconder nada entendeu? Quero que me conte tudo sobre os dois! Você é N
  24. 24. 25 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa minha amiga, eu confio em você. – Lia encheu Dalila de perguntas, e do fundo de seu coração apaixonado, esperava que a amida lhe desse respostas negativas. Desejava que não houvesse acontecido nada entre Elizabete e Armando, que tivesse ficado somente naquela dança. - Oh Lia! Eu gostaria de te dizer que não, que não houve nada, mas... - Mas o quê? Anda! Diz – Lia começou a ficar muito nervosa. - Eu os vi se beijando. – disse ela, sentindo pena da amiga. - Não acredito! Eu não posso acreditar no que você está me dizendo Dalila! Aquela... Aquela... Elizabete nunca foi minha amiga! E ele é um safado! – disse ela, com os olhos lacrimejando. - Não fique assim Lia! Ele deve ter beijado a Elizabete porque ela deu em cima dele! – Dalila tentou amenizar. - Não Lila! Não! Ele poderia ter dispensado ela! No mínimo ele está apaixonado por ela! Eu posso até apostar com você. – disse Lia já deixando as lágrimas caírem. Armando avistou as duas conversando de longe e rumou-se para onde estavam. Dalila o viu e alertou a amiga. - Lia! Lia! O Armando... está vindo para cá! Enxugue logo essas lágrimas anda! Ele não deve ver que você está chorando. – Dalila bem que alertou, mas não deu tempo, porque
  25. 25. 26 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa os passos de Armando foram mais rápidos que as recomendações de Dalila. - Meninas! Tudo bem? – falou. - Oi Armando. – Dalila correspondeu ao cumprimento. Lia permaneceu calada e Armando percebeu que ela estava chorando. Chegou bem próximo a ela, ao ponto de encostar o corpo dele no dela, e passando a mão carinhosamente em seus cabelos, perguntou: - Lia, você está chorando? O que foi?! - Não! Não estou chorando! Foi apenas um cisco que caiu no meu olho, mas já o tirei. – respondeu ela, passando a mão no rosto. Dalila aproveitou para deixar os dois a sós. - Gente, eu preciso ir à Secretaria da escola resolver umas coisinhas. – disse Dalila, saindo de fininho. - Porque você foi embora do baile tão cedo? Quando procurei por você já havia ido embora! – perguntou Armando. - Fala a verdade Armando, você não sentiu tanto assim a minha falta, afinal, você estava com a Elizabete! – disse ela, que sem querer, já demonstrava a ele que havia sentido ciúmes dos dois juntos. - Ah! A Elizabete. Santo Deus! Aquela garota é uma maluca!
  26. 26. 27 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - O que quer dizer com isso? Não está apaixonado por ela? – perguntou Lia. - Elizabete?! Claro que não! Não tenho nada com ela. Nunca tive. – disse ele. - E porque a beijou? - Como sabe que a beijei? - Dalila me contou. – respondeu ela. - Está com ciúme de mim Lia? Colocou a Dalila para me vigiar foi? - Ah! Que absurdo Armando! Eu?! Com ciúme de você?! Era só o que me faltava! – defendeu-se. - Não precisa sentir ciúmes de mim. – disse Armando. - Já disse que não estou com ciúmes de você! – disse Lia, já sendo surpreendida por um beijo de Armando. Lia ficou vermelha como um pimentão maduro, e gaguejando disse: - Você... você me beijou! Por quê? Não devia ter feito isso! – disse Lia, toda trêmula. - Desculpe Lia, mas foi mais forte do que eu. – disse ele, com um leve sorriso. - Não faça mais isso entendeu? – disse ela, dando-lhe uma bronca. Na verdade havia adorado ser beijada por Armando. Seu coração pulava de alegria.
  27. 27. 28 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Posso levar você em casa após a aula? – perguntou ele. - Levar-me em casa?! – Lia não acreditava no que acabara de ouvir. Neste instante a campainha tocou. Era o fim do intervalo e Armando repetiu a pergunta. - Você não me disse que sim ainda. Posso? Levá-la em casa? - Está bem. Pode sim. – Lia já estava se sentindo bem mais leve. Mas também, depois de tudo que acabara de acontecer, era certo que Lia iria se sentir feliz. Logo após o término da aula, Armando acompanhou Lia até a casa dela. Conversaram pouco durante o caminho até chegar em casa. Lia estava um tanto tímida e não conseguia desenvolver nenhum assunto. Seu coração estava acelerado por ela estar tão próxima de Armando, e principalmente, por ele tê-la beijado no colégio. Isso a deixou sem palavras. Sentia uma emoção forte por estar junto dele. Ao chegarem a sua casa, já no portão, Armando despediu-se dela pegando sua mão e beijando-a, como um verdadeiro cavalheiro. O que fez com que seu coração acelerasse ainda mais. – Como pode acontecer tanta coisa em tão pouco tempo?! Algumas horas atrás ela estava chorando, e agora está com Armando bem ao seu lado! – pensava.
  28. 28. 29 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa V Capitulo almoço já estava pronto, e Adriana foi até o quarto de Lia para chama-la para a mesa. Thiago já havia chegado do escritório. - D. Lia! – Adriana não obteve resposta e elevou o volume da voz para chamar Lia mais uma vez. - D. LIAA! – Chamou-a. -Já estou indo! Ô gente agoniada! – respondeu Lia despertando-se de suas lembranças. Devido aos toques na porta ela teve de voltar para a sua atual realidade. Pegou o diário e colocou-o debaixo de seu travesseiro. - O almoço está pronto! Thiago já está à mesa. Venha! Vamos almoçar! –Adriana, sua nora a convidou à mesa. - Não estou com fome. – disse Lia. Desejava voltar o quanto antes para a leitura de seu diário e reviver suas lembranças. - A senhora não pode ficar sem comer nada minha sogra! Fiz aquela macarronada que a senhora adora! – a nora sempre procurava agrada-la. O
  29. 29. 30 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa - Está bem. Vamos. – respondeu Lia, já abrindo a porta e acompanhando Adriana. Chegando a mesa Thiago já estava aguardando. - Está indisposta mamãe? Adriana me disse que desde a hora que a deixei em casa não saiu do quarto até agora! – disse o filho. - Vocês se preocupam por nada. Eu já disse que estou bem. Apenas quero ficar um pouco deitada, só isso! – disse ela, se ajeitando na cadeira para almoçar. Lia quase não comeu nada no almoço, tinha pressa de voltar ao seu diário. Pediu licença e levantou-se da mesa, comunicando a todos que iria voltar a se deitar. Pediu que ninguém a incomodasse. Se precisasse de alguma coisa, ela mesma os chamaria. Disse para o filho e a nora. Entrou para o quarto e fechou a porta, sem trancá-lo à chave. Pegou novamente o seu diário e voltou a lê-lo, relembrando as cenas do que ali estava escrito. *** Armando passou a levar Lia em casa todos os dias após o término das aulas. Já haviam firmado um namoro e ela estava imensamente feliz. Seus pais conheceram a família de Armando, os
  30. 30. 31 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa quais eram pessoas de boa índole. Não eram ricos, mas tinham com que sobreviver e dar uma boa vida para os filhos. Tudo estava indo muito bem, os dois estudando juntos na mesma sala de aula e sendo namorados. Lia estava muito feliz, a cada dia que passava se sentia mais apaixonada por Armando. Mas o problema chegou junto com o término do ano letivo e a entrada do período de férias, Armando lhe trouxe a infeliz notícia; sua família voltaria a viver em Belo Horizonte, que era o lugar que moravam antes de virem para a cidade de Lia. Agora, Armando deveria acompanha-los. A notícia da partida de Armando caiu feito uma bomba na cabeça de Lia. Chorara muito ao saber que ele deveria partir. O último encontro de Armando e Lia, ele lhe deu uma rosa vermelha e lhe fez juras de amor. Jurou para Lia que assim que pudesse e tivesse mais idade, voltaria para ela, arrumaria uma casa para os dois morarem, se casaria com ela. Aquele fora o dia mais triste que Lia já havia vivido. A despedida de Armando ficaria marcada para sempre em seu coração. Da rosa vermelha que recebeu de Armando, Lia pegou uma pétala e a colocou em seu diário, escreveu nele todos os momentos que havia vivido com Armando e suas promessas de voltar para se casarem.
  31. 31. 32 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Após a partida de Armando tudo parecia triste para Lia. Não sentia mais alegria em nada. Durante alguns dias ela ficou reclusa dentro de casa. As amigas a convidavam para sair, mas ela não tinha vontade de fazer nada. A saudade de seu amor era muito grande. Chorava muito e sentia a falta dele, afinal, namorou Armando durante um ano! Ela já estava acostumada a tê-lo ao seu lado todos os dias. Agora sentia falta de tudo, da sua companhia, do seu cheiro, de suas palavras carinhosas, e principalmente, do seu amor. Dalila insistia muitas vezes com Lia para acompanha-la a algum baile, na tentativa de fazer com que Lia voltasse a se divertir e não ficasse a esperar por Armando, sem saber se ele realmente voltaria um dia como havia prometido. Mas não, Lia parecia não querer mais nada da vida sem o seu Armando. Haviam se passado já três meses após a partida de Armando, e Lia ainda não havia recebido nenhuma carta dando-lhe notícias suas. Com a ausência de notícias de Armando, Lia resolveu aceitar os convites da amiga Dalila e passou a frequentar novamente os bailes. Aos poucos voltava a ser a Lia de antes, alegre e extrovertida. Os anos foram se passando com suas asas velozes e deixando Armando quase fora dos comentários de Lia. Ela nunca o esquecera, mas evitava falar dele. Ao longo de cinco anos
  32. 32. 33 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa passados, ela o guardava em um velho diário, onde escrevera a sua história com Armando. Deixou também escrito nele as suas esperanças de ver o seu Armando voltar para os seus braços. Dia após dia, durante todo o tempo que se passara, ela manteve essa esperança em seu coração. Agora – pensava ela – era hora de guardar seu diário e não mais pensar em Armando, não mais pensar neste amor que não dera certo, que havia sido apenas uma bela história de amor, daquelas que não foram feitas pra durar. – No entanto, mesmo sem querer admitir, Lia jamais perderia suas esperanças de um dia reencontrar Armando. Era já verão de 1947, e Lia, em viagem de férias com colegas da Faculdade, conhece Luís Pedro, um jovem oficial da Marinha do Brasil. O rapaz lhe chamara a atenção, não pela beleza, porque ele não tinha a beleza que ela via em Armando, mas por sua polidez e simpatia. Ele era um jovem muito alegre, de altura mediana, pele morena, olhos amendoados e castanhos. Seus cabelos eram mantidos em corte militar. Trazia sempre no rosto uma expressão de equilíbrio e sobriedade, coisas que havia aprendido com os ensinamentos disciplinares da Marinha. Lia foi se deixando envolver por este jovem, guardando Armando bem escondido naquele diário, trancado a cadeado dentro de uma pequena caixa. Mantinha-o também trancado no pequeno cobre de memórias de seu coração. Aliás, o cofre do coração é o
  33. 33. 34 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa mais seguro de todos, pois às vezes, nem mesmo o dono consegue abrir para rever suas memórias. E dependendo delas, este cofre fica trancado para sempre. Todo mundo tem um cofre no coração. Uns guardam coisas boas, outros, coisas ruins. E outros ainda, guardam ambas as memórias, boas e ruins. Existem coisas que se vive na vida que não se revela para ninguém, fica trancado dentro do coração e jamais sai dele.
  34. 34. 35 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa Último Capitulo aquele mesmo dia, Lia mal tinha almoçado, apenas beliscara o almoço porque não sentia fome. Da hora do almoço até a hora da janta, era como se houvesse passado uma vida inteira diante Dos olhos de Lia. Através de seu diário ela voltou no tempo, sentiu novamente as emoções daquele passado que até os dias atuais faziam parte de seu presente, porque não havia saído de sua mente e de seu coração. E o passado quando continua dentro das pessoas, deixa de ser passado, porque continua sendo o presente. Desta vez foi Thiago que chamou bateu á porta do quarto e chamou a mãe para jantar. Já havia percebido desde aquela manhã no bosque, que sua mãe não estava bem. Na mesa do jantar, lia permanecia em silêncio e quase não tocava a comida. - Mamãe, não vai jantar? – Thiago perguntou preocupado. - Meu filho, eu não sinto fome! Vou para o meu quarto, estou me sentindo um pouco cansada. Engraçado né, eu quase não sinto esse tipo de cansaço! Deve ser a mudança do tempo. N
  35. 35. 36 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa – disse ela, demonstrando ao filho que não estava realmente bem, o que Thiago já suspeitava. - Não acha melhor irmos ao médico mamãe? Posso leva- la agora! – disse o filho, já se prontificando. - Acho que não meu filho. Melhor deitar um pouco. Logo melhoro. Qualquer coisa eu peço para você me levar ao hospital. Deve ser apenas uma virose, dessas que deixa a gente indisposta. – disse ela, já indo em seguida para o quarto. Lia recolheu-se ao quarto. Seu corpo estava cansado, mas sua memória não. Após entrar, trancou a porta e pegou novamente a caixa com o diário. Abriu-a, tomou o diário nas mãos e o recostou junto ao seio. De repente, sentiu uma saudade muito grande de Armando, e ao mesmo tempo, sentiu como se ele estivesse ali presente a seu lado. Era muito forte a presença de Armando. Lia foi adormecendo aos poucos, e quase na penumbra, viu Armando dentro do quarto, se aproximando de seu leito. - Armando! Armando meu amor, é você? – ela não queria acreditar no que estava vendo, era ele, Armando! Ele estava ali à sua frente! - Quanto tempo minha Lia! Quanto tempo! Não sabe como senti a sua falta meu amor! – disse ele, aproximando-se dela. Armando tomou-lhe as mãos, reclinou-se próximo a seu rosto e beijou-lhe a fronte. Lia não conseguia entender a presença real
  36. 36. 37 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa de Armando junto dela. Ficou em silêncio a observa-lo. Armando continuou a falar. - Lia, eu quero que você saiba que eu sempre te amei, e que você sempre foi o grande amor da minha vida. Desde que nos conhecemos naquele primeiro dia de aula, eu soube que você seria a mulher com quem eu me casaria e teria filhos. Sempre desejei isso, mas... Lia, eu não pude voltar para você. Não pude voltar porque um indivíduo me tirou a vida. Logo que cheguei a Belo Horizonte, ao atravessar uma rua movimentada, um louco embriagado atropelou-me. Naquele instante enquanto ainda me restava um sopro de vida, eu só pensei em nós dois! Você Lia, meu amor, foi a primeira pessoa que me veio no pensamento. Em questão de segundos tantas coisas me passaram pela mente como se fosse um filme! Pensei nos meus sonhos de construir uma vida com você. Lembrei-me do tempo e dos momentos que passamos juntos... Logo o sopro de vida deixou o meu corpo. Restou-me apenas o espírito. Eu não queria acreditar que estava morto, porque eu tinha todas as minhas impressões! Como poderia estar morto se os meus pensamentos ainda estavam comigo?! Eu me tocava e sentia o meu corpo! Então eu comecei a gritar desesperado, e gritava ainda mais alto, mas ninguém me ouvia! Eu passei muito tempo vagando sem compreender o que tinha acontecido
  37. 37. 38 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa comigo. Até que um dia me dei conta de que havia mudado de lado. Ninguém poderia mesmo me ouvir, Lia, porque ninguém me via! Eu havia atravessado o véu da vida... Mesmo assim, meu amor, eu a via, mas eu não conseguia fazer você me ouvir. Sabe minha querida, eu a acompanhei durante todos esses anos! E do lado de cá da vida, eu tentava ajuda-la a superar suas dificuldades, mas eu não podia fazer muita coisa por você. Havia aquele grande abismo que separa a vida física da vida espiritual. Eu assisti o seu casamento com o Luís Pedro sabia? Eu comunguei de sua alegria com o nascimento de cada um de seus cinco filhos. Você nunca esteve sem mim meu amor, porque eu sempre estive com o pensamento em você. Hoje eu tenho uma compreensão mais profunda do amor, e o amor para mim é isso; é estar sempre ao lado de quem amamos, seja em presença física, ou apenas através do pensamento, independente da situação que um ou o outro esteja vivendo. – Armando parou de falar por um instante e ficou a contemplar o rosto de Lia, que também o contemplava. Depois de algum tempo, Lia pronunciou-se: - Armando, eu posso te sentir, e eu não entendo isso. Se você está morto, porque é que eu estou vendo e ouvindo você? Está tudo muito confuso! Eu não compreendo! - Lia
  38. 38. 39 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa estava completamente atordoada com tudo que estava lhe acontecendo. - Você atravessou também o véu da vida meu amor! Eu vim para acompanhar você, e vou leva-la para a nossa casa! Ela já está pronta para receber você. Não sabe como eu esperei com ansiedade por este dia. Poder estar novamente a conversar com você, sentindo o seu toque, as suas mãos nas minhas... Esperei todos esses anos por este momento. – disse ele, dando-lhe um beijo. Enquanto Lia e Armando contemplavam a felicidade de estarem novamente juntos, Thiago não havia tirado a preocupação com a saúde de sua mãe da cabeça. Decidiu que levaria a mãe ao médico. Foi até o quarto e bateu levemente na porta, chamando-a quase sussurrando: - Mamãe?! Mamãe, você ainda está acordada?! – Lia não respondeu. Fazia um profundo silêncio naquele instante, e Thiago então resolveu girar o trinco da porta, mas ela estava trancada. Chamou-a novamente mais alto: - Mamãe! Você está dormindo? Mamãe, eu já avisei o médico que vou leva-la para uma consulta. Seu médico está de plantão hoje no hospital e irá atendê-la. – Thiago ficou aguardando uma resposta que não veio. Bateu outras vezes na
  39. 39. 40 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa porta e nada! Preocupou-se ao extremo. Correu até Adriana sua esposa, e comentou com ela sobre o silêncio da mãe. Adriana levantou-se de imediato do sofá, jogou de lado o livro que estava lendo, e alertou o marido com muita preocupação: - Thiago, devemos forçar a porta! Sua mãe pode ter... Ah meu Deus! Você sabe do que eu quero dizer Thiago! Ela já não anda bem há tempos! – disse Adriana em tom de alerta. - Não precisa de todo esse alarme querida! Tudo bem que ela está doente faz tempo, mas, não ao ponto de... morrer! Não é isso que você quis dizer? – contestou Thiago. Para ele a mãe estava doente, mas eram pequenos problemas que com algum remédio que o médico receitasse ela logo ficaria bem. - Eu não quis te contar mais cedo para não assustar você, mas noite passada eu sonhei que sua mãe havia nos deixado. Acordei tão assustada! Para mim foi como um pesadelo. – disse Adriana. - Vou arrebentar aquela porta! – disse Thiago, já caminhando na direção do quarto de Lia. Foi seguido por Adriana. Thiago forçou a porta e chamou pela mãe outras tantas vezes, mas nada aconteceu. Por fim, com seu corpo, Thiago se jogou na porta várias vezes até derrubá-la. Ao entrar, percebeu que Lia estava dormindo serenamente, com um semblante de quem havia recebido o alívio de todas as dores que sentira outrora. Seu
  40. 40. 41 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa rosto demonstrava um aspecto de quem havia provado uma felicidade, não que a morte fosse felicidade, mas o que antecedera a ela sim! O encontro com Armando, o amor que ela guardara no coração por toda a sua vida, era uma grande felicidade para Lia. - Mamãe! – Thiago a chamou. Ao tocar o rosto de sua mãe percebeu que ele estava gelado. Lia estava morta. Morreu no silêncio de seu quarto, e partiu acompanhada do único homem que amou durante toda a vida, o seu Armando. No peito, entre as mãos, o diário de Lia repousava tão sereno quanto àquela que o guardara secretamente durante tantos anos! Era o fim de um segredo e início de uma descoberta para Thiago, que passou a conhecer a existência daquele diário e daquela história naquele instante de dor. Thiago tomou o diário de sua mãe nas mãos e o folheou, descobrindo, entre lágrimas, toda a história que fez parte dos segredos de Lia ao longo de todos os seus anos de vida. Thiago e Adriana cuidaram de avisar o restante da família sobre o ocorrido. Embora transtornado por descobrir que sua mãe nunca havia amado de verdade o seu pai, Thiago tinha plena consciência de que aquele homem do diário não tinha culpa de nada. Ele não deveria odiá-lo, mas também não gostaria de conviver com aquele diário. Destruí-lo também não fazia parte de seus planos. Decidiu enterra-lo junto com Lia. Nunca revelou aos irmãos sobre a existência do diário de Lia, porque amava demais
  41. 41. 42 O Diário de Lia Rozilda Euzebio Costa sua mãe para ver seus irmãos prolongarem uma história que se findava com a partida de sua autora. Fim

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