Caro leitor, eu sou um caderno que virou livro, e eu quero lhe contar
esta história para que você saiba que o fim de uma situação pode
vir à tona, para que outra história mais feliz comece em sua vida.
Em minha jovem vida de caderno habitavam muitos sonhos de
glória e vitórias. Eu jamais aceitei pensamentos pessimistas e
derrotistas. Era um caderno determinado, que acreditava que ia
vencer na vida e me tornar muito importante e útil.
Lembro-me bem de quando cheguei à Papelaria, fui colocado em
um belo expositor! Ocupava um lugar de destaque, e todos os dias,
eu via dezenas de pessoas entrarem e saírem. Eram jovens,
crianças, velhos, todos eles a procura de um caderno ou outro
objeto qualquer, um lápis, uma caneta, uma mochila... Eu só não
entendia o porquê de ainda não terem me escolhido. Tantos outros
colegas, cadernos de todas as cores e capas diversas, já tinham
sido comprados, já tinham partido para a sua nova vida, mas eu
continuava sendo deixado para trás naquele expositor. Eu, um
caderno verdinho e tão bonito! Minha capa não tinha nenhuma
estampa, mas isso não fazia nenhuma diferença para mim. Eu não
me sentia inferior a nenhum outro caderno, por mais colorido e
estampado que ele fosse. Não me achava feio, pelo contrário, eu
tinha orgulho de ser verde como as florestas, verde como a
esmeralda. Eu me sentia a verdadeira cara da riqueza.
No entanto, o tempo foi passando e eu fui fincando para trás
recebendo os desgastes do próprio tempo. Foi juntando em mim
uma poeira aqui, outra ali, e não sei por que cargas d’água, eu
peguei um mofo em uma de minhas extremidades. Isso foi uma
fatalidade momentânea em minha vida. Digo momentânea, porque
não perdi minhas esperanças diante deste episódio aparentemente
triste.
Os dias se passavam sem que nenhuma novidade chegasse para a
minha vida de caderno. Eu não estava mais feliz, sentia o perigo se
aproximar de mim. Na Papelaria, os objetos eram expostos
temporariamente, porque deveriam ser comprados pelas pessoas
que a visitavam. Não poderiam ficar ocupando espaço como eu
estava.
O outono chegou, soprava um vento fresco e suave, fazia um dia
lindo de sol, tinha tudo para ser um dia muito feliz, mas naquele dia
os donos da Papelaria me jogaram no lixo... Na certa porque
ninguém mais me compraria para fazer uso de minhas folhas em
algum trabalho específico, ou anotações importantes. Eu que
cheguei a sonhar em entrar na Faculdade pelas mãos de algum
acadêmico estudioso...
Já no lixo, senti que fui colocado junto a outras coisas em estado
bem mais degradantes de decomposição do que o meu. Eu não me
sentia pronto para ser descartado, eu ainda me sentia com vigor,
sonhava em ter alguma utilidade.
As horas foram se passando e eu ali no lixo, sentindo uma tristeza
imensa por não ter tido nenhuma utilidade, por ninguém ter me
escolhido. Eu não queria aceitar que estava destinado ao lixo.
Comecei então a implorar em gritos silenciosos que ninguém ouvia,
afinal, quem seria capaz de ouvir os lamentos e pedidos de socorro
de um caderno jogado no lixo? Quem poderia direcionar sua
atenção para um caderno implorando socorro, não é verdade? Mas
eu não iria me entregar assim tão depressa! Eu jamais iria desistir
de ter alguma utilidade nas mãos de alguém criativo. Eu comecei a
pedir socorro com mais e mais frequência - por favor, alguém me
ajuda! Tirem-me do lixo, eu ainda posso ser útil! – gritava sem
parar, sentia as vibrações do meu pedido nas energias á minha
volta. Senti que fui ouvido, pois alguém se abaixou e me olhou bem
de perto. Era uma senhora. Ela se abaixou, olhou atenciosamente
para mim, seus olhos brilhavam, e eu me vi dentro deles, a sua
admiração me alcançou e me alimentou de esperança. E sabem
que eu me senti valorizado naquele instante! Senti que a minha vida
de caderno iria melhorar a partir daquele momento. A esperança
habitou em mim por inteiro. As minhas folhas festejavam entre si
aquele possível socorro. Eu me senti renovado.
- Ela me pegou! Ela me pegou! Vai me levar para casa na certa! Eu
estou salvo! – Então comemorei de alegria a atitude daquela
mulher, porque, ela me ergueu diante de seus olhos e me acolheu
junto ao seu peito. Ela me deu valor, e isso me salvou do fim da
minha existência, da degradação. Naquele instante em que ela me
pegou com suas mãos, eu tive plena certeza de que eu iria ser útil.
Eu iria ser um caderno muito feliz, e eu já estava sentindo um raio
desta felicidade correr através de mim. Sem dúvidas, as minhas
páginas em branco iriam receber a composição de uma bela história
através das mãos daquela que me tirou do lixo, me salvando de um
fim cruel e desanimador. Agradeci ao universo por me dar a chance
de uma existência feliz.
Ganhei um lar, me tornei um livro. Todos os dias aquela senhora
escrevia em minhas páginas, me fazendo sofrer uma metamorfose
produtiva e glamorosa. Como as lagartas se transformam em
borboletas, eu, de caderno fui me transformando em um belo livro.
Antes, fui um caderno descartado por causa de uma pequena
mancha de mofo em minhas bordas inferiores. Agora, me tornei um
livro, fui do lixo ao glamour. De uma vida efêmera e curta, ganhei a
chance de me tornar eternizado por uma linda história. Talvez o
meu destino fosse ser encontrado por aquela senhora, e por isso,
passei pelo dissabor de ser descartado temporariamente. Eu
precisava chegar até as mãos daquela mulher de alguma maneira.
Você acredita em destino caro leitor? Tudo bem, você pode até não
acreditar, mas o destino age na existência das coisas e pessoas de
alguma maneira. Eu estava destinado a receber uma história escrita
pelas mãos daquela mulher que salvou a minha existência de
caderno em um dia lindo de outono.
Rozilda Euzebio Costa

Do lixo ao glamour

  • 1.
    Caro leitor, eusou um caderno que virou livro, e eu quero lhe contar esta história para que você saiba que o fim de uma situação pode vir à tona, para que outra história mais feliz comece em sua vida. Em minha jovem vida de caderno habitavam muitos sonhos de glória e vitórias. Eu jamais aceitei pensamentos pessimistas e derrotistas. Era um caderno determinado, que acreditava que ia vencer na vida e me tornar muito importante e útil. Lembro-me bem de quando cheguei à Papelaria, fui colocado em um belo expositor! Ocupava um lugar de destaque, e todos os dias, eu via dezenas de pessoas entrarem e saírem. Eram jovens, crianças, velhos, todos eles a procura de um caderno ou outro objeto qualquer, um lápis, uma caneta, uma mochila... Eu só não entendia o porquê de ainda não terem me escolhido. Tantos outros colegas, cadernos de todas as cores e capas diversas, já tinham sido comprados, já tinham partido para a sua nova vida, mas eu continuava sendo deixado para trás naquele expositor. Eu, um caderno verdinho e tão bonito! Minha capa não tinha nenhuma estampa, mas isso não fazia nenhuma diferença para mim. Eu não me sentia inferior a nenhum outro caderno, por mais colorido e estampado que ele fosse. Não me achava feio, pelo contrário, eu tinha orgulho de ser verde como as florestas, verde como a esmeralda. Eu me sentia a verdadeira cara da riqueza.
  • 2.
    No entanto, otempo foi passando e eu fui fincando para trás recebendo os desgastes do próprio tempo. Foi juntando em mim uma poeira aqui, outra ali, e não sei por que cargas d’água, eu peguei um mofo em uma de minhas extremidades. Isso foi uma fatalidade momentânea em minha vida. Digo momentânea, porque não perdi minhas esperanças diante deste episódio aparentemente triste. Os dias se passavam sem que nenhuma novidade chegasse para a minha vida de caderno. Eu não estava mais feliz, sentia o perigo se aproximar de mim. Na Papelaria, os objetos eram expostos temporariamente, porque deveriam ser comprados pelas pessoas que a visitavam. Não poderiam ficar ocupando espaço como eu estava. O outono chegou, soprava um vento fresco e suave, fazia um dia lindo de sol, tinha tudo para ser um dia muito feliz, mas naquele dia os donos da Papelaria me jogaram no lixo... Na certa porque ninguém mais me compraria para fazer uso de minhas folhas em algum trabalho específico, ou anotações importantes. Eu que cheguei a sonhar em entrar na Faculdade pelas mãos de algum acadêmico estudioso... Já no lixo, senti que fui colocado junto a outras coisas em estado bem mais degradantes de decomposição do que o meu. Eu não me sentia pronto para ser descartado, eu ainda me sentia com vigor, sonhava em ter alguma utilidade. As horas foram se passando e eu ali no lixo, sentindo uma tristeza imensa por não ter tido nenhuma utilidade, por ninguém ter me escolhido. Eu não queria aceitar que estava destinado ao lixo. Comecei então a implorar em gritos silenciosos que ninguém ouvia, afinal, quem seria capaz de ouvir os lamentos e pedidos de socorro de um caderno jogado no lixo? Quem poderia direcionar sua atenção para um caderno implorando socorro, não é verdade? Mas eu não iria me entregar assim tão depressa! Eu jamais iria desistir de ter alguma utilidade nas mãos de alguém criativo. Eu comecei a pedir socorro com mais e mais frequência - por favor, alguém me ajuda! Tirem-me do lixo, eu ainda posso ser útil! – gritava sem parar, sentia as vibrações do meu pedido nas energias á minha volta. Senti que fui ouvido, pois alguém se abaixou e me olhou bem de perto. Era uma senhora. Ela se abaixou, olhou atenciosamente para mim, seus olhos brilhavam, e eu me vi dentro deles, a sua
  • 3.
    admiração me alcançoue me alimentou de esperança. E sabem que eu me senti valorizado naquele instante! Senti que a minha vida de caderno iria melhorar a partir daquele momento. A esperança habitou em mim por inteiro. As minhas folhas festejavam entre si aquele possível socorro. Eu me senti renovado. - Ela me pegou! Ela me pegou! Vai me levar para casa na certa! Eu estou salvo! – Então comemorei de alegria a atitude daquela mulher, porque, ela me ergueu diante de seus olhos e me acolheu junto ao seu peito. Ela me deu valor, e isso me salvou do fim da minha existência, da degradação. Naquele instante em que ela me pegou com suas mãos, eu tive plena certeza de que eu iria ser útil. Eu iria ser um caderno muito feliz, e eu já estava sentindo um raio desta felicidade correr através de mim. Sem dúvidas, as minhas páginas em branco iriam receber a composição de uma bela história através das mãos daquela que me tirou do lixo, me salvando de um fim cruel e desanimador. Agradeci ao universo por me dar a chance de uma existência feliz. Ganhei um lar, me tornei um livro. Todos os dias aquela senhora escrevia em minhas páginas, me fazendo sofrer uma metamorfose produtiva e glamorosa. Como as lagartas se transformam em borboletas, eu, de caderno fui me transformando em um belo livro. Antes, fui um caderno descartado por causa de uma pequena mancha de mofo em minhas bordas inferiores. Agora, me tornei um livro, fui do lixo ao glamour. De uma vida efêmera e curta, ganhei a chance de me tornar eternizado por uma linda história. Talvez o meu destino fosse ser encontrado por aquela senhora, e por isso, passei pelo dissabor de ser descartado temporariamente. Eu precisava chegar até as mãos daquela mulher de alguma maneira. Você acredita em destino caro leitor? Tudo bem, você pode até não acreditar, mas o destino age na existência das coisas e pessoas de alguma maneira. Eu estava destinado a receber uma história escrita pelas mãos daquela mulher que salvou a minha existência de caderno em um dia lindo de outono. Rozilda Euzebio Costa