N. j. o amante

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N. j. o amante

  1. 1. Nicole Jordan O Amante
  2. 2. 3 Entrarão em compasso dois corações livres a um único pulsar? Formatação: Lu Machado Tradução: Karyne nobre Revisão: Lu Machado A primeira vez que Sabrina Duncan posou seus olhos sobre o Niall McLaren, os poderosos braços e o largo torso do highlander a ajudaram a compreender sua fama de guerreiro forte e vigoroso. Quando essa mesma noite Niall decidiu beijá-la, Sabrina também comprovou o acertado de sua reputação como amante: McLaren era capaz de roubar a alma de uma mulher com apenas roçar seus lábios. Niall sabe que uma antiga promessa familiar lhe obrigará a contrair matrimônio com a primogênita do clã vizinho, Sabrina. Mas seu conceito da fidelidade conjugal dista muito de ser ideal para uma dama como ela. Quando meses mais tarde ambos se reencontram para cumprir com o trâmite, o fogo do beijo que compartilharam estala de novo entre eles. Mas nas indômitas Highlands dois corações devem chocar antes de aprender a pulsar como um sozinho. Se converterá a obrigação em amor?
  3. 3. Prólogo Edimburgo, Escócia Setembro de 1739 Não era sua intenção escutar furtivamente. Não pretendia surpreender a um célebre libertino levando a cabo sua bem ensaiada sedução, mas tampouco tinha previsto que aquela voz misteriosa e arrulladora, tão suave e aveludada como a noite, cativasse-a. Com ânimo inquieto, Sabrina Duncan se ocultava depois de uma sebe de disco ornamental, espiã involuntária das atividades amorosas do Niall McLaren. Tinha escapado do baile de compromisso de sua prima em busca da tranqüilidade dos jardins iluminados pela lua só uns instantes antes que o highlander aparecesse de repente com sua última conquista a nobre algema de um coronel inglês. Ali, escondida, com os compasses amortecidos de um minueto procedentes do salão de baile ouvindo-se na lonjura, Sabrina apenas se atrevia a respirar. Faria notar sua presença imediatamente, mas não queria envergonhar a ninguém. Logo tinha cansado presa daquela voz embriagadora que se deu procuração pouco a pouco de seus sentidos. — Muito bem, minha formosa Belle... Céu santo, como podia imbuir de tanto ardor um simples sussurro? Era como uma carícia. Não havia mulher que pudesse permanecer impassível a aqueles tons graves e melodiosos: cantares, quentes, devastadoramente sensuais, que pareciam impregnados do urze e a névoa das Highlands. Sem dúvida, sua voz era uma das razões principais do notável êxito daquele homem com o sexo débil. — Dizem que pode arrancar a alma do corpo a uma mulher — tinha explicado sua prima Francês com grande entusiasmo — E que com ele não há virtude feminina a salvo. Sabrina compreendia bem o atrativo do highlander. Recordava haver ficado pasmada quando Niall McLaren tinha entrado garboso no atestado salão de baile, arrancando das fêmeas, sussurros nervosos e suspiros deslumbrados. Forte, viril, endemoniadamente bonito, chamava a atenção com seu traje cem por cento escocês. Levava o plaid dos McLaren em cima de uma jaqueta de cetim negro, enquanto o kilt apertado à cintura deixava ao descoberto suas pernas fortes e musculosas debaixo das meias de tartán de seda. O estoque que pendurava a seu flanco parecia uma prolongação natural de sua pessoa, e contrastava com os encaixes do pescoço e os pulsos. Com seu cabelo cor ébano e seu rosto bronzeado, destacava entre a multidão de aristocratas maquiados e emperucados como uma montanha das Highlands junto às anódinas colinas do vale. Sabrina só o conhecia por sua reputação. Niall McLaren, o filho menor do temível chefe de um clã das Highlands, era um ladrão de corações femininos, famoso por suas proezas sexuais. «O encanto do Edimburgo», estavam acostumadas a chamá-lo as damas. Embora também tivesse feito estragos entre a população feminina da França e Inglaterra. E agora, de volta já de suas viagens, embarcou em outra de suas façanhas: seduzir a
  4. 4. 5 uma dama casada. À maioria dos assistentes ao baile daquela noite, isso lhes tinha parecido mais excitante que escandaloso. — Todo mundo está apostando pelo resultado da perseguição, se por acaso lady Chivington se renderá ou não — tinha ouvido comentar Sabrina a sua prima. Sabia bem o que apostaria ela depois de ouvir aquela voz embriagadora, não pôde reprimir um lastimado suspiro de desejo, um desejo inexplicável de sonhos impossíveis. Como seria ser perseguida pelo descarado mais notório da Europa? Que a olhasse com devoção absoluta, ser a destinatária do formidável encanto que o tinha visto desdobrar aquela mesma noite, no salão de baile... Agarrando com força o leque, Sabrina se repreendeu a si mesma. O que lhe passava? A jovem estranha vez lamentava suas circunstâncias, ou sentia uma melancolia como aquela. A amargura que tinha experiente quando seu principal cortejador se apaixonou por sua formosa prima, converteu-se em resignação. Estava satisfeita com sua vida; sua família a necessitava, apreciava-a, amava-a. Agradava-a ser uma enteada obediente. Desfrutava passando tranqüilas tardes em companhia de seu padrasto e com os livros de contas. Se havia momentos, como aquele, em que se sentia algo inquieta, se em alguma ocasião a afligia um desejo romântico ou a deprimente sensação de que a vida lhe passava de comprimento, estava acostumado a ser bastante prática para sufocá-lo. Salvo aquela noite. Seu pragmatismo não podia dominar a inveja que experimentava, nem reprimir o desejo que se agitava nos rincões mais recônditos de seu coração. Nem pôr fim a sua fascinação pelo homem cuja reputação era sinônimo de perversão. Era assim como os libertinos incitavam às mulheres ao amor carnal? — Vêem e sente-se a meu lado — exortou com um sussurro à dama que o acompanhava, acariciando brandamente com sua voz o coração da Sabrina. Podia imaginar a cena iluminada pela luz da lua ao outro lado da sebe: o bonito highlander recostado distraidamente em um banco de pedra enquanto lady Chivington mantinha a distância, para provocá-lo e atormentá-lo. Recordou a elegância da inglesa, sua voluptuosa e esplêndida figura embelezada por um vestido de festa de brocado de seda azul, e um imponente penteado empoeirado e adornado de pérolas e cintas. Sua voz, entretanto, revelava certa irritabilidade que não se advinha bem com sua beleza. — Não estou segura de querer me sentar a seu lado — observou, fazendo uma careta — Acredito que merece um castigo por me ignorar esta tarde. Não veio, como prometeu. — Terá que me perdoar isso querida. Como já te disse, vi-me inexoravelmente retido. Um bufo zombador escapou dos lábios da dama. — Por alguma taberneira, sem dúvida. Ou outra dama de similar boa família. — Jamais, Ma chérie — respondeu ele com um tom particularmente sedutor, sem dúvida destinado a paliar seu mau humor— Como vou pensar em outra dama quando mantenho a esperança de que me conceda seus cuidados? — Nem sequer respondeste a minha nota. — Mas estou aqui agora, não? E, se nos parecermos um pouco, Belle, saberá que a espera não faz a não ser aumentar o prazer. Durante o silêncio que seguiu, Sabrina pôde imaginar à dama desdobrando seu leque de marfim e agitando-o com veemência. — Tem por costume ignorar a petição de visita de uma dama?
  5. 5. — Só quando a dama em questão tem um marido ciumento... um coronel do exército inglês, para mais gestos. Quero conservar a pele. — Ora! Duvido que tema a meu marido o mais mínimo. Além disso, ao Richard importa bem pouco que eu paquere. — Então é um néscio, por desatender a uma mulher tão formosa. O completo pareceu apaziguá-la um pouco. — Possivelmente deveria procurar outra dama que baile mais a seu som. — Quer que me retire então, Arabella? — perguntou com cepticismo e esboçando um lento sorriso. — Suponho que não — replicou ela mal-humorada— Me esperaria uma velada do mais aborrecido. — Procurarei solucioná-lo, se me permitir isso. — Se o obtiver, suponho que poderei tentar te perdoar. — Agrada-me. — Sublinhou sua resposta com um sorriso— Encontrar um novo objeto de adoração requereria muito esforço. — Adora-me? — perguntou ela coquete. — É obvio Belle. Tem-me encantado. — Já! Não é mais que um descarado. Um escocês de má fama que se alimenta de mulheres. — Não me alimento delas absolutamente. — Os ingleses consideram bárbaros aos highlanders — observou lady Chivington. — Suponho que isso forma parte de nosso atrativo — lhe replicou divertido — Confessa-o, de vez em quando lhes cansam de tanto petimetre de veludo e encaixe, mãos suaves e perucas empoeiradas. Ela riu, ao parecer rendida. — De vez em quando. Mas você bem poderia ser um selvagem. Se chegasse a um baile com as extremidades inferiores ao descoberto, na Inglaterra considerariam que foi meio nu. — Ah, mas tenho minhas razões para levar o kilt. — E quais são? — Te agradar melhor, querida. — É um homem perverso — murmurou ela com voz baixa e íntima — É certo que os escoceses não levam nada debaixo? — Convido-te a que você mesma averigúe. — Descarado até a medula — sussurrou a dama — O que está pensando é escandaloso. — Isso crê, Belle? Insinuas que você não alberga pensamentos similares? — Sua voz lânguida se voltou mais rouca — Não lhe acelera o coração ao pensar em ter a um bárbaro selvagem em seu interior? Depois da sebe, Sabrina conteve a respiração ante semelhante insinuação, e um rubor lhe esquentou as bochechas. Quase perdeu a resposta brincalhona de lady Chivington. —... que é o maior amante da Europa. Diz-se que há provocado incontáveis desmaios em Paris e que tem a seus pés às baronesas de Veneza. Riu com despreocupado encanto. — A modéstia me impede de responder a um comentário semelhante. Mas é assim. Inclusive os poetas têm composto baladas sobre as aventuras amorosas do arrumado
  6. 6. 7 highlander, Niall McLaren. Exageros, asseguro-lhe isso. — É um exagero que está dotado como um semental? — Por que não te aproxima de averiguá-lo? Lady Chivington titubeou. — Aqui? No jardim? — Não me ocorre uma forma mais interessante de animar o baile, e a ti? — E se alguém nos visse? — Sempre pensei que o perigo é o maior dos afrodisíacos. Vêem aqui, carinho — lhe pediu com um sussurro grave e gutural — Se te esforçar por conter seus gemidos, eu prometo não te despentear. Para ouvir as saias da dama arrastar-se pelo caminho de cascalho, Sabrina se alarmou. Já era bastante mal espiar a um cavalheiro lhe sussurrar ardentes palavras de amor a sua última conquista, mas ao parecer ele pretendia levar a sedução muito mais longe. A jovem retrocedeu um passo, cautelosa. — Isso está muito melhor — o ouviu sussurrar satisfeito enquanto Sabrina se ocultava ainda mais entre as sombras — Assim, me permita que te ajude, céu. O sussurro da seda encheu o silêncio que seguiu a seu oferecimento. — Que deliciosos mamilos... quentes, eretos, ansiosos de meus beijos. Sabrina notou um vergonhoso comichão em seus próprios peitos ao imaginar as mãos do homem passear-se languidamente por sua pele. — Ah... — sussurrou a dama com um generoso ronrono — Niall... — Paciência, querida... Sabrina retrocedeu um passo mais. Não se atrevia a ficar ali mais tempo. Entretanto, não poderia passar por diante dos amantes sem ser vista. Teria que entrar mais nos jardins, dar um rodeio... O estalo ressonou como um disparo, e a jovem fez uma careta de contrariedade ao ver as delicadas varinhas de seu leque partidas entre suas mãos. Um instante depois, conteve um sobressalto quando a ameaçadora figura do highlander se elevou ante ela, com a lua refletindo-se em seu estoque enojado. Levava seu cabelo negro sem empoeirar penteado para trás, deixando ao descoberto sua frente larga, e sujeito na nuca com uma cinta, o que ressaltava suas maçãs do rosto proeminentes e sua forte mandíbula. Sob suas sobrancelhas retas cor ébano, olhava-a ameaçador, franzindo seus olhos azuis. O temor paralisou a Sabrina, mas embora tivesse tentado fugir, Niall McLaren o teria impedido. Seus fortes dedos lhe sujeitaram o pulso a modo de suave grilhão, imobilizando- a. — O que faz aqui? — inquiriu com brutalidade; sua voz carente da magia que a tinha tido enfeitiçado. Embora Sabrina fosse alta, ele o era ainda mais. A luz da lua jogava com seus rasgos, acentuando-os, e mostrando seu aborrecimento bem às claras. — Quem anda aí? — perguntou lady Chivington com voz gritada, ao tempo que rodeava a sebe de disco, recolocando-se ainda o decote do vestido. Ao ver a Sabrina, deteve-se em seco — Você! Como te atreve a te intrometer dessa maneira? — Conhece esta moça? — É a herdeira dos Cameron — respondeu a mulher enrugando seu nariz de aristocrata inglesa — Não percebe o aroma de tendera?
  7. 7. Sabrina ficou rígida. Não era a primeira vez que a chamavam assim, pois seu padrasto era um rico comerciante, mas lhe doía mais em boca daquela altiva inglesa com complexo de superioridade. Na Escócia, as distinções de classe importavam menos, pensou Sabrina. E, para os escoceses, ganhar dinheiro não era algo vergonhoso. — Não acredito que eu seja a intrometida, minha senhora — replicou a jovem muito seca — A fim de contas, esta é a casa de minha tia. E o que celebramos é o baile de compromisso de minha prima. — Nega que me estava espiando, bisbilhoteira intrometida? — É obvio que o nego! — Possivelmente tenhamos interpretado mal a situação, Arabella — interveio Niall McLaren. — Mais me vale, ou será minha ruína! Sua tia é a maior fofoqueira do mundo! Se esta menina se for da língua, jamais me liberarei do escândalo. — Asseguro-lhe, lady Chivington, que não tenho por costume fofocar. — Já! Duvido que qualquer parente de sua tia saiba ter a língua quieta. De fato, não sentiria saudades que essa mulher estivesse orquestrando um intento deliberado de me desacreditar. — Arabella, está crispada — disse Niall com calma. Ela se voltou para ele e o olhou furiosa. — Estão confabulados? Trouxeste-me até aqui para me desonrar? Os imponentes rasgos do highlander se voltaram mais severos à luz da lua. — Lady Chivington, talvez necessite um momento a sós para recuperar a compostura antes de retornar ao baile. O feroz gesto da aristocrata se desvaneceu. — Niall... não era minha intenção te acusar de nada. Disse isso sem pensar, levada por um impulso. — Sei querida. Razão de mais para que tentemos nos tranqüilizar. — Me visitará amanhã? A vacilação dele resultou significativa. — Possivelmente seja mais prudente pospor por um tempo qualquer futuro encontro entre nós. Com um olhar desafiante aos dois, lady Chivington girou sobre seus calcanhares e partiu a toda pressa, com um frufru de saias de seda. Depois de um silêncio, Sabrina se encontrou a sós no jardim com o célebre Niall McLaren. Quando se aventurou a levantar a vista, o olhar glacial dele quase a estremeceu. — Me solte, por favor — disse insegura. Para alívio dela, assim o fez, mas seu tom revelava algo mais que uma leve irritação. — Encantado. — Não tema — ela disse nervosa, esfregando o pulso machucado —, não direi uma palavra de tudo isto, nem a minha tia nem a ninguém. Este incidente prejudicaria quase tanto a mim como a vocês. Ninguém saberá o que se propunham. A irritação dele seguia inalterável. — Tem por costume espiar aos convidados de sua tia? Sabrina notou que ruborizava. Era verdade que os estava espiando, mas tinha sido algo inteiramente casual. — Sinto lhe haver vexado a sedução — espetou em sua defesa, elevando o queixo. — Também eu — replicou Niall sem o mais mínimo indício de abafado ou vergonha
  8. 8. 9 — foi por demais inoportuna. — Possivelmente, mas eu já estava aqui. — Tinha que nos haver feito saber. — E você tinha que ter escolhido um lugar mais apropriado para um escarcéu amoroso! — Segundo minha experiência, um jardim à luz da lua está acostumado considerar-se apropriado para isso. — Sabrina detectou certo tom jocoso misturado com sua irritação, embora seu olhar penetrante não revelava esse matiz. — Bom... — Elevou mais o queixo— Se o desejar, posso-lhe enviar a outra dama que ocupe o lugar de lady Chivington. Não são poucas as que se submeteriam de boa vontade a seus cuidados. Ele apertou a mandíbula em um intento visível de conter um sorriso. — Centenas, possivelmente, mas nenhuma tão disposta como ela. A provocadora resposta deixou Sabrina muda. — Rogo-lhe que aceite minhas desculpas — murmurou ao fim— E agora, se me desculpar... Dispunha-se a afastar-se dali quando Niall McLaren elevou uma mão para detê-la. — Um momento, senhorita... Cameron, verdade? Ela se deteve a contra gosto. — Duncan. Sabrina Duncan. Cameron é o sobrenome de meu padrasto. — Bom, senhorita Duncan — disse ele enquanto embainhava o estoque— Proponho que demos tempo para que lady Chivington retorne ao baile. Isso contribuirá a proteger sua reputação. — Surpreende-me que lhe preocupe a reputação de nenhuma dama — observou Sabrina com sarcasmo. O highlander a olhou com dureza, paralisando-a com seu olhar penetrante. À luz da lua, seus olhos eram da cor da meia-noite. A jovem se surpreendeu respirando fundo. Era bonito como o diabo, tentador como o pecado, mas sua imponente beleza não era a única razão pela que o coração de uma mulher palpitava de curiosidade e fascinação quando aquele homem estava perto. Havia algo nele que o fazia irresistível, perigoso. — Deduzo que me conhece? — perguntou ao fim. — Só sua reputação. Quem não ouviu falar do famoso Niall McLaren? Sua boca sensual esboçou um leve sorriso. — Acredito detectar um pingo de censura, senhorita Duncan. — Não me corresponde lhe julgar. — Mas mesmo assim não me vê com bons olhos. Assim era. Uma atitude que suspeitava que o divertia e que pontuaria de escrupulosa, sem a menor duvida. — Em muitos círculos, considera-se escandaloso perseguir uma dama casada. — Pelo visto, movemo-nos em círculos distintos — respondeu ele com secura— Suponho que não me acreditará se lhe digo que é a dama a que me persegue. Sim, Sabrina podia acreditar perfeitamente que esse fosse o caso. A assombrosa beleza física do descarado highlander bastava para convertê-lo em objeto de adoração, mas é que, além disso, havia nele algo que o voltava irresistível para as mulheres. Também para ela, admitiu a jovem a contra gosto.
  9. 9. — Não me pareceu que opôs resistência — respondeu imitando seu tom seco. — Não teria sido muito cavalheiresco rechaçar a uma dama. Notou que o divertia. Inclusive na escuridão, via em seus olhos arrebatadores uma faísca de brincadeira. — Asseguro-lhe, senhorita, que mais de uma vez tive que me ocultar em jardins escondidos. Ela conteve um sorriso ao pensar naquele descarado fugindo de fêmeas excessivamente amorosas. — Deve ser um autêntico suplício ver-se açoitado por damas apaixonadas ansiosas de ser seduzidas. O sorriso do highlander foi involuntário e devastador. — Lhe surpreenderia saber as tribulações que devo suportar para manter minha reputação. Sabrina negou com a cabeça. Não lhe convinha iniciar um duelo lingüístico com um perito na esgrima das palavras. Devia partir em seguida. O simples feito de estar a sós com aquele homem podia comprometê-la. Mas antes que ela pudesse responder, ele disse: — Se não nos estava espiando, o que a trouxe para o jardim em pleno baile? Ela olhou de repente as mãos enlaçadas. Não tinha a mais mínima intenção de divulgar o verdadeiro motivo pelo que tinha fugido do salão de baile: escapar da dolorosa visão de seu antigo pretendente dançando com sua atual prometida, sua prima. — Acaso é um delito tomar o ar fresco? — Que eu saiba, não. Não recordo havê-la visto antes de esta noite. Isso tinha uma explicação fácil, pensou Sabrina. Niall McLaren simplesmente não se precaveu de sua presença. Os homens como ele, os amos do galinheiro, não reparavam em mulheres como ela. Ainda ia do meio luto por sua mãe, de modo que, para consternação de sua tia, levava um singelo vestido cinza. Oxalá se tivesse embainhado algum objeto de seda e encaixe, que contribuísse a ocultar sua falta de beleza. — É lógico — se obrigou a responder Sabrina — Porque eu estava sentada com as mulheres maiores e as carabinas enquanto você cortejava a sua legião de admiradoras. — Não está casada, verdade? A jovem tirou o chapéu contendo uma forte quebra de onda de raiva. A seus vinte e um anos, tinha passado já a idade de contrair matrimônio e a considerava um caso perdido. — Não, não o estou. — Surpreende-me que uma herdeira careça de pretendentes. Desviou o olhar do escrutínio do highlander. Não imaginava o muito que lhe doía seu despreocupado comentário. Tinha tido um pretendente. Oliver e ela se conheceram durante a enfermidade de sua mãe, e tinham chegado a um acordo depois da morte desta: se casariam depois de um período razoável de luto. Mas então, Oliver tinha conhecido a sua prima Francês e se apaixonou perdidamente dela. Quando suplicou a Sabrina que o liberasse de sua promessa, ela aceitou. O que outra coisa podia fazer? Tinha-lhe doído sobre tudo em seu orgulho. E embora também seu coração murchasse um pouco, e aquela deserção tinha destruído algo inapreensível em seu interior, não se enganava pensando que fosse a única mulher a que tinham deixado plantada. — Minha mãe esteve doente vários meses antes de morrer — defendeu Sabrina —, assim não tive muito tempo para pretendentes. Ainda guardo luto.
  10. 10. 11 Para sua consternação, ele a contemplou com atenção de cima abaixo. Sabrina ficou tensa. Era alta e angulosa, e carecia da delicada formosura de outras mulheres de sua família. Sua mãe tinha sido toda uma beleza, como o eram sua tia Helen e sua prima Francês. Além disso, era consciente de que aquela não era uma de suas melhores tardes. Levava maquiagem, e este fazia que seu semblante parecesse anódino e de rasgos pouco definidos. Por outra parte, o penteado que fez por insistência de sua tia, ocultava o mais chamativo de seus atributos, sua preciosa cabeleira castanha. Tinha-a decorada, empoeirada e disposta muito artisticamente em coques e saca-rolhas que a faziam sentir incômoda e artificiosa. — Duncan... — murmurou ele sem lhe tirar os olhos de cima — Sei de muitos Duncan. Conheço algum parente dele? — Certamente deve conhecer meu avô, latifundiário do clã Duncan. Tenho entendido que procede da mesma região das Highlands. — Seu avô é Angus Duncan? — perguntou arqueando uma de suas negras sobrancelhas — Sim, conheço-o bem. De fato, somos quase vizinhos. Angus salvou a vida de meu pai uma vez, em uma briga com os Buchanan; uma dívida que não tenho intenção de esquecer. Mas não recordo que me falasse de nenhuma neta. — Ah, bom, o avô Duncan possivelmente prefere ignorar minha existência. Eu não sou do sexo correto. Uma neta não lhe serve para nada, porque não pode perpetuar o sobrenome. Além disso, minha mãe tampouco gostou nunca. — Sim... lembrança que seu pai se casou contra os desejos do Angus, durante uma visita a Edimburgo. — Coisa que não lhe perdoou nunca de tudo. Esperava-se que papai se casasse com uma highlander para que mantivesse a honra de nosso clã. Uma escocesa das Terras Baixas não era o bastante boa. — Ranald morreu na flor da vida, não é assim? — Sim, um trágico acidente... caiu do cavalo. Uma expressão de tristeza apareceu no semblante do Niall. — Não foi um simples acidente. Se não me falhar a memória, aconteceu durante um ataque dos malditos Buchanan. — Isso tenho entendido. Eu apenas o recordo, nem a ele nem as Highlands, embora me contaram coisas. Fui dali sendo muito menina. Depois da morte de meu pai, minha mãe e eu voltamos com sua família daqui, do Edimburgo, e ela voltou a casar uns anos mais tarde. Meu padrasto é um comerciante de lã e pano fino. — Deve retornar às Highlands algum dia — comentou ele com um tom de aborrecimento dissimulado. — Duvido que isso seja possível — replicou Sabrina, um pouco ofendida pelo aparente desinteresse dele— Meu padrasto me necessita. Não confia em ninguém, e agora que vai perdendo vista, precisa que eu verifique as contas todas as tardes. — Uma mulher com cérebro. Que fascinante. Seu tom lânguido tinha certo ar de provocação que a fez enrijecer-se. — Também me resulta difícil encontrar homens que o tenham — replicou. Dedicou-lhe um meio sorriso indulgente. — Reconhecerá que revisar contas é uma tarefa algo estranha para uma mulher. — Pode ser — respondeu a jovem com maior brutalidade da que pretendia — Mas
  11. 11. tenho boa cabeça para os números, e não vou me desculpar por isso. — Pelo visto, também tem um gênio fácil de provocar — observou Niall, divertido. Não era o caso, pensou Sabrina. Normalmente, era uma pessoa das mais calmas. Mas aquela noite se sentia insolente, imprudente, temerária. Absolutamente ela mesma. Aquele homem parecia tirar quão pior tinha. — Me está acostumado a considerar tranqüila. — Confesso-me surpreso. Para não ter pretendentes, é você muito pouco total. — Para ser tão hedonista, possui você um assombroso grau de franqueza. Esperava que fosse mais sutil. Seu sorriso lento resultava perversamente encantador. — Isso é o que me considera? Um hedonista? — Hedonista, voluptuoso, libertino... Os rumores não o pintam em términos muito aduladores. McLaren riu com despreocupação. — Também a rumores que participo freqüentemente em orgias e bacanais, mas não é certo tudo o que se diz. — Não estou a par de nenhuma perversão concreta, só de que seduz a todas as mulheres que conhece. — Isso é mentira. Só seduzo às mulheres que me interessam, o asseguro. — Fez uma pausa e a olhou com um brilho especulativo em seus olhos azul escuro— Arrumado a que poderia seduzir a ti, ratinha. Sabrina conteve a respiração. Ela não podia interessar a um homem assim, ele só se divertia a sua custa. — Duvido-o sinceramente. Tenho em grande consideração minha virtude. — O que aborrecido. Ela sentiu vontade de rir, mas se obrigou a conter-se. O highlander recolocou distraidamente os encaixes do punho. — Tão melhor, o asseguro. Apesar de minha cacarejada reputação, ainda não me acusaram de desflorar a nenhuma virtuosa donzela. Para sua surpresa, Sabrina se sentiu decepcionada. — Alivia-me saber que estou a salvo. — Eu disse «a salvo»? Aproximou-se um passo. — Seria uma pena desperdiçar uma velada tão formosa — acrescentou com um tom desenvolto que, não obstante, pôs em alerta todos os sentidos da jovem — Acredito que poderia lhe prometer com toda sinceridade que desfrutaria de meus cuidados. — Seu repentino sorriso, em parte lobo, resultava do mais tentador. Sabrina deu um passo atrás, sentindo-se como um cordeirinho indefeso. Ele era muito mais alto que ela, de costas largas e muito musculoso e, assim que desdobrou seus encantos, a fez sentir afligida. A aquele homem lhe dava muito bem o jogo da sedução. Era perfeitamente consciente do poder que exercia sobre as mulheres. Sobre ela. Sabrina notou um arrebatamento de rebeldia. — Não terá nenhum efeito sobre mim, o asseguro. — Não? Como podia impregnar de tanta sensualidade, de uma ternura tão sedutora, uma só palavra? Um olhar? Havia algo quente e excitante em seus olhos. Perigoso. De repente, a noite pareceu encher-se de sons e sensações.
  12. 12. 13 Sabrina era abrumadoramente consciente de quão sozinhos estavam, de arriscada que se tornou a situação. Como se emprestava à insensatez de ficar ali fora com um homem assim? Carecia da experiência necessária para ser digna competidora de um célebre caveira. Sua paquera com lady Chivington tinha sido sem dúvida um complicado jogo entre iguais, mas ela não era rival para o highlander nesse aspecto. Obviamente tinha perdido o julgamento; ou sofria o feitiço da lua e daquele legendário descarado. — Deveria ir... — disse ela com a respiração em excesso entrecortada. — Não... fique. — Alargou a mão para lhe tocar a bochecha, com uma carícia ligeira como uma pluma. — Isto... não é sensato — murmurou Sabrina, assustada pela delicada sensação. — E você faz sempre o mais sensato, céu? — S - fui... sempre. — Não me terá medo? Ela mordeu o lábio. O que temia era a tentação que lhe supunha. O timbre de sua voz tinha trocado; agora era grave, surdo, prata líquida como a luz da lua. Não podia deter o ardor com que aquela voz embelezadora impregnava seu corpo. Viu, fascinada, como suas sensuais pestanas descendiam devagar para cobrir uns olhos ainda mais sensuais. — Me levaria um instante suscitar sua paixão, ratinha. Sabrina estremeceu ao precaver-se de que se converteu em objeto de sua sedução. Estava o bastante perto para notar seu calor, para detectar seu aroma, uma fragrância natural suave e inquietantemente masculina que a fazia sentir inquietantemente feminina e frágil. Ele se aproximou ainda mais, e com um murmúrio sedutor, quente, profundo e repleto de tentação, disse-lhe: — Você gostaria que lhe prendesse fogo a sua pele, querida? Você gostaria de arder com minhas carícias? Ela abriu a boca para protestar, mas não lhe saiu nenhuma palavra. Não teria podido falar embora o fora à vida nisso. E tampouco pôde mover-se quando, com suave descaramento, lhe acariciou a face com a mão. Sabrina fechou os olhos, procurando resistir o hipnótico roce daquele polegar em sua bochecha. As gemas de seus dedos revoaram por sua pele... para baixo, por seus lábios em uma carícia lenta e provocadora. — Me olhe, chérie. Incapaz de negar-se, ela obedeceu e o viu observá-la. Teve a descabelada idéia de que pretendia beijá-la. Viu-o inclinar a cabeça e aproximar sua formosa boca à sua. Com uma mescla de desejo e temor exaltado, esperou tensa. Quando seu quente fôlego lhe roçou os lábios, Sabrina se estremeceu de prazer. Seu próprio fôlego pareceu ficar suspenso ao tempo que se fundia com o dele. Então a boca do homem roçou a sua, tentadora, lhe provocando sensações primitivas que jamais tinha experiente antes. O sensual assalto daqueles lábios a fez sentir imoral, indefesa, débil. Sua prima tinha razão, pensou Sabrina, perplexa. Niall McLaren podia arrancar a alma a uma mulher. Quando ele levantou a cabeça a jovem, sacudiu-a uma pontada de intensa e
  13. 13. inesperada decepção. Levou aos lábios os dedos trementes. Sua perplexidade devia refletir-se em seus olhos, porque ele a olhou divertido. — Alguma vez lhe tinham beijado, ratinha? «Assim não», quis gritar ela. Sujeitando-lhe a bochecha com a mão, McLaren voltou a baixar a cabeça e reduziu sua voz a um sussurro rouco e sedutor. — Ensino-te o que perdeste? A razão a insistia a resistir, a detê-lo, mas não queria fazê-lo. Queria saber o que era sentir-se desejada, ser o objeto da apaixonada atenção daquele homem legendário. Bastou-lhe o silêncio dela para continuar. Cobriu os lábios da Sabrina com os seus e a beijou com uma ternura arrebatadora. Explorou devagar e intimamente a boca da jovem. Roçou-a com lábios brincalhões, conduzindo-a ao gozo sensual, mostrou-lhe sua paixão. Sabrina se sentiu perdida em um prazer denso e suave assim que a língua dele a invadiu. E o desejo se apoderou dela, quente, intenso, uma sensual enjoa. O lento vaivém de sua língua, há um tempo áspera e suave, mais doce, úmido e embriagador que nada que tivesse conhecido até então, despertou na jovem o desejo e a excitação. Indefesa, elevou as mãos para seus ombros, aferrando-se a ele em busca de apoio, enquanto sua boca e sua língua seguiam arrastando-a a uma dança erótica que a punha a prova, explorava-a e a provocava com perícia. Notou que os joelhos lhe fraquejavam, e sentiu o corpo débil. Apenas se deu conta de que McLaren variava ligeiramente sua postura. Seus dedos passaram a lhe acariciar os ombros com estudada sensualidade, atraindo-a ainda mais para si, acomodando devagar seu corpo ao dela, lhe fazendo sentir um apetite que surgiu de forma quase imperceptível em seu peito e foi propagando-se pouco a pouco até concentrar-se entre suas coxas. Um gemido escapou de seus lábios ao notar a descarada pressão de seu corpo, sua virilidade. Não conseguia combater a doce tempestade que ele despertava em seu interior, não queria fazê-lo... Acariciou-a outra vez, lhe percorrendo o pescoço com seus largos dedos, fazendo-a intensamente consciente da nudez de sua pele por cima do decote do vestido. Logo baixou a mão e lhe roçou um peito, alagando-a de um desejo doce e cegador. De repente, alarmada pela intensidade do que estava sentindo, Sabrina soltou um gritinho e escapou bruscamente do homem. Ficou olhando perplexa, entre suaves ofegos. O highlander lhe devolveu um olhar indecifrável. Quando ao fim falou, o fez com uma risada surda, discretamente triunfante. — Acredito que poderia dizer que gostou disso, ratinha. A jovem se sentiu empalidecer. Não se equivocava absolutamente; tinha-lhe gostado tanto que não tinha querido pôr fim ao abraço. Por uns instantes, ele a tinha feito sentir-se especial, desejada. Mas seu tom zombador agora era como uma ducha de água fria. Curiosamente, sentia-se desdenhada, quando em realidade deveria lhe agradecer que não tivesse prosseguido com sua sedução. De repente entendia por que a tinha beijado. Pretendia demonstrar o poder que exercia sobre ela, possivelmente como castigo por ter interrompido sua entrevista com seu amante. Era-lhe impossível recuperar do atordoamento tão de repente, mas fez provisão de toda sua dignidade e se apartou tremente.
  14. 14. 15 Respirou fundo para normalizar sua respiração e forçou um débil sorriso. — Suponho que deveria lhe dar as obrigado pela classe. A fim de contas, não a honram a uma todos os dias com os solicitados cuidados de um célebre libertino, mas o certo é que seus beijos estão sobrevalorizados — concluiu, elevando o queixo desafiante. Um gesto de carrancuda irritação apareceu no formoso rosto do highlander, mas antes que ele pudesse lhe replicar, um repentino alvoroço procedente do outro lado da sebe lhe fez voltar à cabeça bruscamente. Sabrina deu um coic. E se a descobriam ali com ele, naquele estado? — Niall! — chamou uma voz de homem com um forte acento— Niall está aí, moço? — John? — respondeu o highlander. Do terraço lhes chegava o som de umas botas que baixavam correndo os degraus de pedra. Quando McLaren rodeou a sebe a toda pressa, Sabrina o seguiu, e uma vaga sensação de alarme lhe arrepiou o pêlo dos braços. — O que te traz por aqui, John? O que ocorre? — Venho a te buscar, moço. Necessitam-lhe em casa. Temo-me que... trago notícias terríveis. De seu pai. Um homem corpulento se deteve diante do Niall. Levava o plaid dos McLaren, observou Sabrina, e parecia tremendamente desconjurado naquele jardim iluminado pela lua. Ia vestido com o traje de combate das Highlands, com sua espada escocesa de dobro fio e o pequeno escudo redondo forrado de couro dos soldados. — Temo-me que seu pai foi vítima de uma traição — lhe disse John, com a voz áspera de emoção e fadiga— Tenderam-lhe uma emboscada. Suspeita-se que foi obra dos malditos Buchanan. É muito possível que Hugh não sobreviva a esta noite. Mandou para te buscar. Agora é o único filho que fica. — O único? — Disse-o em um sussurro rouco. — Sim, sinto muito, trago mais más notícias: mataram ao Jamie. — Céu santo, ao Jamie não... — McLaren cambaleou, levando a mão à têmpora, e Sabrina detectou uma mescla de perplexa incredulidade e intensa dor em seus olhos. Instintivamente, alargou a mão e lhe apertou o braço para lhe dar ânimo. Em um ato reflito, lhe agarrou o pulso com tanta violência que poderia haver-lhe quebrado, mas sua desolação lhe doeu mais que aquela pressão no pulso. Era o pequeno de três irmãos, ela recordou, e já só ficava ele. De repente, as lágrimas lhe nublaram a vista. Ela tinha perdido a sua mãe um ano antes, mas sua larga enfermidade lhe tinha permitido preparar-se para a perda. Logo que podia imaginar a angústia de perder a um pai e a um irmão de repente. Queria aproximar- se do Niall, estreitá-lo contra seu peito e consolá-lo. Sentimentos muito poderosos por um homem que fazia uns momentos só, era um desconhecido. Então se precaveu vagamente da quantidade de convidados ao baile que se formava redemoinhos no terraço. John não lhes emprestava atenção, nem sequer parecia ter visto ela. — Vai ser o novo chefe do clã, Niall — assinalou muito sério o fornido highlander— Deve voltar para casa. — Sim... a casa... em seguida... Sacudindo-se de cima seu próprio atordoamento, Sabrina interveio em voz baixa. — Necessitará o cavalo. Acompanho aos estábulos pela parte detrás para evitar às pessoas? Ele piscou, como turbado, logo a olhou.
  15. 15. — Sim... os estábulos... — Te desculparei ante minha tia — murmurou Sabrina, tenra, compassiva. Agarrou-o pela mão para entrar no jardim. Mas sem dúvida tinha subestimado sua resistência. Apertando a mandíbula, McLaren se soltou dela de repente e se ergueu em toda sua estatura. A mão que acabava de lhe dar de presente aquelas carícias tão sensuais se fechou sobre o punho de sua espada, ao tempo que a raiva endurecia seus formosos rasgos, apagando por completo ao sensual amante que tinha feito estragos em seus sentidos fazia apenas uns instantes. Agora era um desconhecido. Um homem resolvido, perigoso. O filho de um temível chefe, por cujas veias corriam o sangue de incontáveis gerações de selvagens guerreiros das Highlands. Sabrina tremeu involuntariamente. Niall McLaren não necessitava suas indicações nem seu apoio. Em troca, sentiu uma breve pontada de compaixão por seus inimigos, que logo conheceriam sua ira. — Sim — assentiu ele com voz áspera, quase irreconhecível — me desculpe ante sua tia. Devo atender um assunto de grande importância nas Highlands.
  16. 16. 17 1 As Highlands escocesas Abril de 1740 Apertou os dentes enquanto a mulher frenética e ofegante que tinha debaixo o rodeava com as pernas com força, atraindo-o ainda mais para o interior daquele voluptuoso corpo serpentiante. Perita, apertava seus peitos nus, deliciosos e perversos, contra suas mãos enquanto Niall McLaren satisfazia o desejo voraz de sua antiga amante. Nem sequer tinham chegado ao dormitório, no andar de cima. Eve não o tinha permitido. De modo que o homem a tinha tomado ali, de pé no salão, sem tirar as calças de montar nem ela o vestido de seda. Tombando-a de um empurrão na mesa de jogo, inundou-se entre suas acolhedoras coxas, e não o surpreendeu encontrá-la úmida e excitada. Eve ardia de desejo e lhe suplicava, entre gemidos incoerentes, o intenso prazer que só ele podia lhe proporcionar. Em seu estado de ânimo, Niall estava mais que disposto a agradá-la. Tinha ido ver a sua elegante casa solar imediatamente depois de sua reunião com o Angus Duncan e, naquele momento, nada mais gostava que perder-se nos escuros abismos da paixão. Obteve-o temporalmente com aquele sexo primitivo e agitado, enquanto o sangue lhe corria espesso e quente pelas veias e ele cobria à mulher por completo com seu corpo introduzindo-se em seu passadiço quente e estreito com rítmicos embates. Penetrou-a com urgência, catapultando-a a um prazer crescente e explosivo. Afogava com sua boca os gemidos desenfreados dela ao tempo que seus dedos se fechavam tentadores ao redor dos mamilos eretos de seus voluptuosos peitos. Eve voltou a estremecer-se e soltou um grito de ardente desejo. Mas Niall não se permitiu seu próprio e gratificante alivio até que não sentiu as primeiras convulsões dela ao redor de seu membro. Seu próprio clímax se produziu imediatamente e com veemência, e seu corpo musculoso se contraiu de intenso prazer enquanto a mulher tremia e soluçava sob seu peso. Até depois de terminar, ela seguiu obstinada a ele com uma firmeza febril, ainda com sua decrescente ereção em seu interior, ofegando enquanto amainavam as convulsões do violento alívio do Niall.
  17. 17. — Bem-vindo a casa, meu querido semental em zelo — disse a mulher ao fim, e sua voz rouca e entrecortada ressonou com força no silêncio da estadia — Quase tinha esquecido o amante tão brutal que pode chegar a ser. Possivelmente porque estranha vez desdobrava semelhante violência em suas relações carnais, pensou Niall indiferente. Naquela ocasião, tinha prescindido de sua delicadeza, embora a mulher que, saciada, jazia enfraquecida debaixo dele, parecia satisfeita de sua brutalidade. As velas do aparador de mogno esculpido piscaram, fazendo oscilar as sombras de seus formosos corpos. Eve o olhava contente, sua pálida pele resplandecente pelo esforço e a excitação, e com um sorriso lânguido. Niall murmurou uma maldição. Embora tivesse satisfeito sua luxúria e a dela, não tinha conseguido aplacar-se. Sua frustração não tinha diminuído com o apaziguamento de seu corpo, nem tinha encontrado o esquecimento que procurava nos braços do Eve. Seu problema seguia ali: breve devia contrair matrimônio com uma mulher que ele não tinha escolhido. McLaren se separou do suave corpo do Eve, baixou-lhe as saias para cobrir suas coxas nuas e atou os calções. Logo se voltou em busca da licoreira de cristal que havia sobre a mesa auxiliar de nogueira e se serviu um copo de uísque de malte. Declinando sua silenciosa oferta de uma taça com um movimento da cabeça, a mulher se recostou na mesa, estirou os braços devagar por cima de sua cabeça e exalou um suspiro de complacência. — A que devo a honra desta visita, milord? Juro que não tinha gozado tanto desde... desde sua última visita. Faz meses que não ocupa minha cama, Niall. De fato, desde que te converteu em chefe do clã apenas te vi. — As tarefas do cargo me levam mais tempo de que esperava — respondeu ele evasivo. — Joguei-te muitíssimo de menos. — E eu a ti, céu — murmurou distraído. — Me vai contar o que é que te preocupa? — Como sabe que algo me preocupa? Ela sorriu indulgente. — Embora não o tivesse notado em suas carícias, seu gesto carrancudo seria prova suficiente. Não recordo te haver visto nunca tão distraído. Conta-me possivelmente possa te ajudar. — Duvido que possa — respondeu com um sorriso cínico — Amanhã devo ir procurar a minha futura algema. — Esposa? — repetiu alarmada — Vai se casar? — Não por minha vontade, asseguro-lhe isso. — Então...? — Angus Duncan me pediu que me case com sua neta em pagamento de uma dívida que meu pai contraiu com ele. — Que classe de dívida se paga tão cara? — Em uma ocasião, Angus lhe salvou a vida. Meu pai lhe prometeu qualquer favor que lhe pedisse. — Ah. — Eve ficou em silêncio um instante, logo se sentou na mesa e acrescentou muito a seu pesar — Então não tem eleição. Pensava... confiava em que... nós... Niall sabia do que falava. Eve Graham, viúva rica e uma de suas vizinhas mais próximas, levava anos contemplando a possibilidade de um matrimônio entre ambos. E ela
  18. 18. 19 poderia ter sido uma opção aceitável se lhe preocupassem algo os assuntos do clã. Mas os novos vestidos de festa e as veladas elegantes eram seus principais interesses, e já tinha dilapidado nisso a maior parte da fortuna de seu defunto marido. Eve não era a esposa que necessitava, e Niall sabia. Nem tampouco o era a senhorita Sabrina Duncan. Voltou a jurar pelo baixo. A exigência que Angus lhe tinha exposto aquela tarde o fazia sentir-se encurralado, apanhado, e esse não era um sentimento agradável. — E por que de repente é tão urgente? — quis saber Eve — está morrendo Angus? — Precisamente. E teme que o clã Duncan fique sem cabeça a sua morte, a mercê de qualquer clã rival, em concreto dos Buchanan. Angus procura um chefe forte que garanta o amparo dos seus quando ele já não esteja, e decidiu que esse seja eu. Niall deu um comprido trago em seu uísque e agradeceu o ardor que lhe abrasava a garganta enquanto recordava a debilitada voz de Angus lhe implorando. — É um guerreiro de nascimento e por educação, apesar de sua conduta licenciosa, e necessito um bom homem que lidere meu clã quando eu me tenha ido. Os Duncan lhe seguirão de bom grado à batalha, e isso é o único que me preocupa. Por outra parte, já tem vinte e oito anos, já vai sendo hora de que sente a cabeça e forme uma família. Verá como o matrimônio não é tão terrível como crê. Niall fez uma careta. Não era ao matrimônio ao que se opunha. Era o chefe dos McLaren, um poderoso clã das Highlands, e, como tal, em algum momento necessitaria herdeiros que o acontecessem. Entretanto, teria gostado de escolher ele mesmo a sua esposa. Jamais tinha pensado que se converteria em chefe de seu clã. Em realidade, daria sua própria vida por recuperar a seu pai e a seu irmão, sãs e salvos. Era este último quem devia ter acontecido a seu pai. Ao Jamie o tinham preparado para lutar e criar filhos fortes que perpetuassem o sobrenome. E de não ser ele, deveria ter sido Thomas, mas o filho médio do Hugh McLaren tinha perecido em uma tempestade fazia dois anos, enquanto cruzava o Canal da Mancha. Niall tinha aceito as rédeas da chefia com grande reticência e a forte determinação de mostrar-se digno de semelhante responsabilidade. Nos últimos sete meses, tinha demonstrado ser um líder capaz, vingando os assassinatos dos seus em um ataque rápido aos Buchanan. Tinha enviado ao inferno a dois dos culpados e os outros tinham fugido do país. A luta não o angustiava muito. Nas Highlands, as disputas de sangue eram uma forma de vida, e as guerras entre clãs duravam gerações. Além disso, tinham-no preparado para a batalha quase desde seu nascimento. Quanto às responsabilidades da chefia, tinha descoberto que contava com um talento desconhecido para esse cometido. De fato, produzia-lhe uma enorme satisfação trabalhar pelo bem dos seus. Com o que não podia era com que o obrigassem a casar-se. Com a moça dos Duncan, precisamente. Entretanto, o dever e a honra o obrigavam a satisfazer a dívida que seu pai tinha contraído com o Angus Duncan. — Quem é a afortunada, se si pode saber? — Uma veia lhe pulsava com força na têmpora. — Chama-se Sabrina Duncan. Algum dia herdará uma fortuna considerável de seu padrasto, um próspero comerciante. Essa é uma grande vantagem.
  19. 19. Niall não podia estar em desacordo. Com uns chãos muito pobres para o cultivo, as Highlands contavam apenas com recursos para alimentar a tantas bocas. De fato, como chefe, investia boa parte de seu tempo em assegurar-se de que os membros de seu clã tinham o que comer e onde viver. Qualquer riqueza que sua futura algema pudesse contribuir seria bem-vinda. Era a noiva em si a que não o atraía o mais mínimo. Olhou com tristeza seu uísque, recordando perfeitamente seu único encontro com a senhorita Duncan à noite em que ela tinha interrompido seu escarcéu amoroso na festa de sua tia. Do montão, afetada e de língua afiada. Uma moça anódina a que pelo geral Niall não olharia duas vezes. E salvo possivelmente pela inteligência que refletiam seus olhos, seus rasgos não eram muito agraciados. Sem dúvida não era o tipo de mulher que atrairia a um homem com gostos tão deliciosos e apetites tão fortes como os seus. Por todos os Santos, uma virgem escrupulosa era quão último queria em sua cama. A senhorita Duncan era muito cinza, muito correta e desapaixonada para ele. Muito fastidiosa. Adorava as mulheres em geral, e fazia tempo que era viciado nos encantos das belezas abundantemente dotadas. Gostava de damas como Eve Graham, muito atrativas e tão apaixonadas como ele. Em realidade, seus requisitos para uma futura algema não eram excessivos. Podia renunciar à beleza de uma mulher se era necessário. E possivelmente inclusive à paixão. Estava disposto a fazer quase qualquer sacrifício pelo bem de seu clã. Desde que se tinha convertido em chefe, procurava uma esposa que fosse digna dos McLaren. Uma que lhe desse filhos fortes que o substituíram a sua morte e que antepor o bem-estar do clã a seus próprios interesses. Esse era o tipo de mulher que tinha sido sua mãe. O marido e os filhos do Judith McLaren a tinham adorado com motivo. Não acreditava que a pusilânime Sabrina Duncan pudesse ocupar seu lugar. Aquela senhorita não sabia nada das Highlands, nem das necessidades de seu clã. Tampouco podia imaginá-la como amante. A julgar pela virginal inexperiência que tinha detectado em sua forma de beijar, não acreditava que encaixassem. Ele a tinha beijado porque... por quê? Pelo desafio, possivelmente. Tinha-o irritado desde o começo. A ela não parecia impressioná-la nem sua beleza nem sua forma física, por isso parecia que era completamente imune aos encantos masculinos. Seu patente nervosismo ante os avanços dele tinha despertado no Niall o instinto primário de perseguição da presa que foge. Jamais tinha considerado seriamente a possibilidade de dar rédea solta a seu desejo. Mas antes que pudesse demonstrá-lo, tinha recebido a terrível noticia da morte de seu pai e de seu irmão. Ainda lhe encolhia o coração ao recordar tão duro golpe. E ainda não conseguia pensar na Sabrina Duncan sem recordar aquele terrível momento de pena e de dor. — Bom — murmurou Eve interrompendo seus tristes pensamentos —, é uma lástima que tenha que acessar a um matrimônio de conveniência, mas não uma catástrofe. Uma esposa não desejada não pode pretender que lhe seja fiel. Poderá seguir desfrutando de suas conquistas, não? Certamente que sim, pensou Niall, de novo presa do ressentimento e a frustração. Cumpriria com sua obrigação. Suportaria um matrimônio imposto pelo bem de seu clã, mas não tinha intenção de trocar sua forma de vida para ajustar-se aos afetados patrões de conduta de sua esposa. Se a senhorita Duncan não aceitava esses términos, já podia ir buscando outro marido.
  20. 20. 21 Ao ver que ele não respondia, Eve desceu da mesa e se aproximou de seu lado. — Seguirá sendo bem-vindo em minha cama sempre que queira milord — lhe sussurrou coquete, levando as mãos ao sutiã para abrir-lhe e deixar ao descoberto as voluptuosas curvas de seus peitos— Fica esta noite, Niall? Ele esboçou um sorriso, agradado, mas, entretanto respondeu: — Duvido que hoje fosse uma companhia agradável. Agora mesmo não estou de muito bom humor. — Então procurarei que te troque. — Devagar, percorreu-lhe o torso com os dedos até chegar a seus calções de couro, e os deslizou entre as dobras em busca de sua pele— Você me consolou com extrema generosidade quando faleceu meu marido. O justo é que agora eu console a ti. Ele permaneceu imóvel, olhando-a um instante, perguntando-se se seria capaz de sentir o desejo que ela esperava; seu famoso apetite sexual o tinha abandonado de forma inexplicável. — Por favor... Niall... desejo-te outra vez — lhe implorou com um olhar ardente, enquanto acariciava seu membro. Suspirando mentalmente, Niall deixou o copo na mesa e se voltou para ela solícito. Refreou sua frustração e lhe sussurrou uma mentira: — E eu desejo a ti, carinho. Forçou um sorriso enquanto agarrava seus generosos peitos com fingida excitação. Quando se inclinou para apanhar um de seus mamilos com a boca, Eve gemeu com força e apertou seu rígido sexo. O corpo do Niall tinha respondido automaticamente à intimidade carnal, mas sua mente permaneceu distante, longe do gozo; suas carícias eram as de sempre, mas sua cabeça seguia ocupada com seu dilema. Por honra, não podia negar-se a admitir sua obrigação para com Angus Duncan. Não ficava mais remédio que acessar ao matrimônio. Entretanto, a senhorita Duncan logo descobriria que nem com toda sua imensa riqueza podia comprar um submisso lacaio por marido. Não renunciaria a seus prazeres por ela. E a satisfaria bem pouco ser sua esposa. — Já não fica muito para o botequim, senhorita — assinalou Geordie Duncan corajoso— Ali poderá descansar um pouco e beber um gole. Sabrina sorriu agradecida ao fornido highlander. Às sete horas de cavalgada com um vento frio e tempestuoso tinham posto a prova a resistência da jovem, não habituada a montar. E logo que acabavam de chegar às Highlands. Levaria ainda duas horas mais por terreno difícil chegar até o Banesk, residência do clã Duncan, onde seu avô se encontrava gravemente doente. Ela e seus dois acompanhantes do clã Duncan tinham cruzado os espantosos caminhos do norte e o leste do Edimburgo, mas ao sair de um pinar, a visão das Highlands ao longe fez que Sabrina atirasse com força das rédeas. Aquela paisagem espetacular a deixou sem fôlego. Tinha apenas quatro anos quando abandonou seu lugar de nascimento, e já tinha esquecido sua acidentada beleza: ondulada- las gargantas, os nebulosos lagos e os paramos selvagens salpicados de magníficas montanhas escarpadas que trocavam de tonalidade com as estações. Naquele momento, as ladeiras cinza esverdeado estavam salpicadas pelo amarelo do tojo primaveril e pela
  21. 21. retama negra; no verão, enchia-as o violeta do urze silvestre, e em outono, a cor vermelha da samambaia seca. — É tão formoso... — murmurou em tom quase reverencial. — Sim — coincidiu Geordie— É uma terra excelente, sem dúvida. Sabrina meneou a cabeça, perguntando-se como sua mãe tinha sido incapaz de apreciar semelhante beleza. A doce Grace Murray tinha vivido sempre no civilizado Edimburgo até contrair matrimônio com o único filho do chefe Duncan. Na meia dúzia de anos que passou nas Highlands, jamais tinha se sentida cômoda com aquela forma de vida tão dura e as brutais disputas de sangue. Além disso, Angus Duncan a intimidava. Este não se opôs a que, depois da morte de seu marido, Grace retornasse ao Edimburgo com sua pequena filha. Sabrina não sentia um afeto especial por seu avô, um homem ao que logo que recordava, mas tampouco lhe guardava rancor por havê-la ignorado. Era o bastante pragmática para entender sua amargura pelo fato de que ela não fosse um homem. Só os clãs mais fortes governavam Escócia, e sem filhos varões que pudessem acontecê-lo na chefia, o clã Duncan não sobreviveria. Vadearam um riacho de rápida corrente, e a jovem teve que chamar vozes a seu cão para evitar que este se detivesse a pescar trutas. Rab, em parte mastim, era quase tão grande como um poney das Highlands e tinha um apetite dez vezes maior. O animal parecia divertir-se imensamente saltando junto a sua cavalgadura. Tinha farejado um coelho para o café da manhã, mas ela já tinha tentando bastante que não perseguisse os rebanhos de ovelhas que deixavam para trás. Tampouco ele estava acostumado a tão magnífica liberdade. Aquela acidentada paisagem rural ficava muito longe das ruelas e os recônditos becos do Edimburgo, onde as casas de madeira estavam tão apinhadas que impediam de ver o céu. Ali, na fronteira das Highlands, as casinhas caiadas com telhado de palha davam passo às pequenas granjas de pedra forradas de turfa, onde os camponeses ganhavam a vida como podiam com as exíguas colheitas de cevada e aveia que aquele chão tão pobre produzia. — Meia légua para o Callander — assinalou Liam solene— É povo de certa importância, o último que encontraremos por aqui. Os dois homens do clã Duncan que seu avô tinha enviado para que a escoltassem eram primos longínquos deles. Liam, moreno e calado, tinha sido ao parecer muito amigo de seu defunto pai. Geordie, ruivo e falador, era mais ou menos de sua idade e, conforme tinha descoberto, uma fonte de conhecimento sobre a história de seu clã. Ambos consideravam essencial que conhecesse até os detalhes mais insignificantes, posto que fosse a única descendente de Angus Duncan, sua única neta; filha única de seu único filho. Desde que tinham saído do Edimburgo, a primeira hora daquela manhã, Geordie a tinha entretido com seu falatório constante, obsequiando-a com vividos relatos de disputas, batalhas e vinganças, nas que as espadas do clã, banhadas em sangue, eram algo cotidiano. — Não há memória mais duradoura que a de um highlander, nem maior lealdade — lhe havia dito o moço, orgulhoso, fazia mais ou menos uma hora. Naquele mesmo instante, conforme lhe tinham contado um e outro, havia uma terrível disputa. Angus Duncan era um digno chefe do clã, mas não o bastante poderoso para proteger aos seus dos Buchanan, seus inimigos desde fazia gerações. A situação o preocupava. Sabrina não tinha ouvido falar de outra coisa nas últimas sete horas.
  22. 22. 23 Tinha-a surpreendido que Angus se lembrasse dela, posto que não tinham tido contato desde fazia muitíssimo tempo. Uma vez, fazia vários anos, tinha-lhe escrito para lhe pedir que voltasse para as Highlands de visita, mas Sabrina não pôde deixar a sua mãe doente, e ele jamais havia tornado a propor-lhe. A última vez que tinha tido notícias de seu avô tinha sido com motivo da morte de sua mãe, quando lhe tinha feito chegar suas condolências. Recordava Angus Duncan como a um personagem brusco e fanfarrão, que sempre gritava, e mesmo assim a entristecia que a convocasse em seu leito de morte. Não tinha nem idéia do que podia querer dela, salvo o desejo de ver por última vez a seu parente mais próximo. Fosse como fosse, como única herdeira sobrevivente do homem, sentia-se obrigada a lhe apresentar seus respeitos. Em realidade, gostava de ir ali, embora isso significasse deixar que seu padrasto lutasse sozinho com a casa e o próspero negócio. Aquela visita lhe concedia, além disso, a oportunidade de livrar-se de um pretendente particularmente pesado, mais interessado em seu dote que em sua pessoa. Além disso, se era sincera consigo mesma, devia reconhecer que a aliviava deste modo afastar-se do Oliver e do constante aviso de sua perda. A sua prima Francês a via radiante, e a felicidade de ambos os era manifesta. Sabrina não podia evitar sentir uma pontada de inveja cada vez que os via. Mas tudo aquilo devia ficar atrás, e, em parte, seus espíritos se foram esfumaçando à medida que se aproximavam da grande população do Callander. Agora Sabrina estava ali, e sentia um insuspeitado apego pela terra natal de seu pai. As Highlands exerciam uma poderosa fascinação sobre ela... uma promessa de emoção, aventura e romance muito distinta de sua anterior existência anódina. Sentia-se atraída por aquela terra magnífica como se a levasse no sangue. O botequim onde se detiveram descansar era uma labiríntica hospedaria de dois novelos, com telhado de palha e janelas com parte luz. Doíam-lhe todos os músculos e a moça permitiu que Liam a ajudasse a desmontar no pátio. — Parece-me que McLaren está aqui — observou Geordie, assinalando com a cabeça um grupo de cavalos atados a um lado. Sabrina sentiu que lhe dava um salto o coração, consciente de que o jovem se referia ao Niall McLaren, agora conde do Strathearn e chefe de seu clã. Para sua consternação, a moça tinha pensado muito freqüentemente nele desde aquela noite à luz da lua, fazia tantos meses, quando ele a tinha beijado no jardim de sua tia. Apesar da aversão que lhe inspirava e de sua descarada arrogância, tinha invadido seus sonhos de forma muito mais íntima do que podia considerar-se decoroso. Quando aceitou visitar seu avô, não pôde evitar perguntar-se se veria o arrumado highlander durante sua estadia. Ao parecer, ia ver inclusive antes de chegar. Procurando acalmar-se, chamou o Rab e, muito rígida, seguiu ao Liam ao interior, enquanto Geordie se encarregava dos cavalos. Viu o Niall McLaren imediatamente. No outro extremo do botequim alagado de fumaça, meia dúzia de homens estavam sentados ao redor de uma mesa de carvalho, bebendo umas jarras de espumosa cerveja. Notou que lhe acelerava o pulso ao distingui-lo, embora, por fortuna, ele nem sequer pareceu advertir sua chegada. — Tomaremos um bocado, senhorita — lhe disse Liam. Ela se sentou no banco de uma mesa próxima e, assinalando ao chão, ordenou: — Te deite Rab.
  23. 23. O enorme cão se deixou cair, obediente, com a cabeça apoiada nas patas, enquanto seus olhos pardos a olhavam com adoração. Liam pediu o jantar ao atarefado hospedeiro ao tempo que Sabrina notava como sua vista se desviava constantemente para o McLaren. Estava de perfil, mas mesmo assim podia apreciar sua assombrosa beleza física, que alvoroçava o coração das mulheres e fazia empalidecer de inveja aos homens. Niall McLaren era absolutamente impossível de esquecer, mas ela, além disso, tinha boas razões para recordá-lo. Ao recordar seu único encontro, Sabrina notou que se ruborizava, mas nem sequer assim conseguia apartar a vista dele. Ia vestido de maneira muito mais informal que a última vez, seu amplo torso embainhado em uma camisa cor açafrão desabotoada no pescoço, suas fortes pernas com botas de montar negras e embainhadas em uns calções feitos com malha de tartán. À cintura levava um cinto com a espada, e pendurado de um ombro o plaid dos McLaren, um entrecruzado verde vivo com quadrados azul céu e finas linhas vermelhas e amarelas. Em seu cabelo negro sem empoeirar, recolhido na nuca, brilharam alguns reflexos de azulados quando voltou à cabeça para olhá-la... Sabrina deu um arrepio quando o descarado olhar do homem se posou nela. Paralisada, olhou-o observá-la franzindo as sobrancelhas sobre uns olhos incrivelmente azuis. Não parecia surpreso de vê-la ali, ou possivelmente não a recordava. Essa vez, Sabrina não levava pomada no cabelo, nem um penteado de complexos coques e saca- rolhas, como a noite do baile de compromisso de sua prima. Certamente, beijar a mulheres desconhecidas em jardins iluminados pela lua era algo tão normal para ele que não lhe dava a menor importância. Por absurdo que pudesse parecer, esse pensamento a desiludiu. Ela nunca esqueceria sua descarada arrogância à noite em que tinha insuflado vida e emoção a sua insípida existência; nunca esqueceria a sensual sensação daquele corpo duro apertado contra o seu, o sabor de seus lábios... Obrigando-se a soltar o fôlego contido, a jovem se repreendeu severamente. Não era uma donzela delicada das que se deixam impressionar por um rosto e um corpo masculino perfeitos, nem tampouco conseguiria inquietá-la com seu desconcertante escrutínio. McLaren a estudava por entre suas espessas pestanas negras, com um gesto quase de pesar. Não se explicava o olhar de seus olhos cor safira, mas lhe resultava um tanto ameaçador... uma ameaça estranhamente dirigida a ela. Justo então, uma faxineira entrou no botequim e começou a repartir cerveja entre os clientes varões da mesa dos McLaren. — Cora, moça, senti falta de ti — exclamou um highlander— E você a mim? — Não acredito, Colm McLaren — replicou ela rindo. Quando lhe deu um tapinha no traseiro, ela jogou a mão para trás e lhe atirou um murro no fornido braço a modo de repreensão. Terminou de servir e deixou a jarra na mesa, mas em lugar de partir, ficou rondando ao Niall McLaren. — Não é justo, Cora — protestou o primeiro que se dirigiu a ela— Reserva seus encantos para o chefe. — Sim — interveio outro —, não entendo por que te chama à atenção uma cara bonita. A moça meneou os quadris provocativamente.
  24. 24. 25 — Não me vão chamar a atenção os despropósitos como você. Houve gargalhadas e Sabrina agradeceu que a garçonete lhe levasse a fim seu jantar. Procurando ignorar o folguedo da outra mesa, dedicou-se à espessa sopa de cevada e o pão negro, embora fosse plenamente consciente da presença do Niall McLaren, e a vitalidade que emanava dele inclusive do lado oposto da estadia. Era capaz de distinguir seu murmúrio entre o alvoroço enquanto falava com a faxineira. Seu acento cantado era muito mais marcado do que Sabrina recordava, mas seguia tendo o mesmo efeito nela; aquele zumbido estremecedor ressonava em todo seu corpo quão mesmo a lembrança de suas carícias. Perturbava-a que o simples som de sua voz pudesse afetá-la tanto, e ainda mais que paquerasse de maneira tão descarada com a taberneira. Cora tonteava com ele, pavoneando-se de seus generosos encantos. Ao parecer, tentava convencê-lo de que a acompanhasse acima. Ao princípio, Niall não parecia disposto a aceitar seu convite, mas quando a moça, em sua paquera, roçou-o com os peitos ele alargou o braço com naturalidade, e, em meio das gargalhadas burlonas de seus homens, sentou-a em seu regaço e lhe deu um beijo na boca. Sabrina ficou rígida ao vê-lo. Logo, com um sorriso lento e arrebatador, Niall colocou uma moeda de prata no sutiã de Cora e a tirou de cima. — Vai-te, céu, logo falaremos. Por um instante, a garota ficou ali de pé, estirando o avental enrugado e contemplando ao highlander com um olhar aturdido e ofegante que Sabrina identificou imediatamente como desejo. Essa familiar sensação lhe produziu uma pontada de dor. Não tinha nem idéia de por que aquele olhar a alterava tanto. Sabia muito bem que o apetite sexual do Niall McLaren era legendário. Era um completo libertino que roubava o coração das mulheres por diversão. Não deveria surpreendê-la que se aproveitasse do que lhe oferecia tão generosamente. Entretanto, de repente, o olhar dele retornou a ela. Quase parecia que estivesse avaliando sua reação a aquela paquera. Para sua consternação, de repente, o homem ficou em pé e se dirigiu para sua mesa como se nada houvesse acontecido. Sabrina notou que lhe acelerava o coração ao vê-lo aproximar-se cada vez mais, avançando com uma elegância natural, e uma potência e fortaleza que parecia controlar sem esforço. Sabrina agradeceu que seu cão, Rab, levantasse-se e o olhasse vigilante. Ele não emprestou atenção alguma ao mastim. Detendo-se diante dela, com uma mão no punho da espada, fez-lhe uma reverência. — Bem-vinda às Highlands, senhorita Duncan — disse com um acento que lhe pareceu zombador. A seu pesar, a jovem elevou a vista para encontrar-se com seus sombrosos olhos azuis. — Confesso que me surpreende que nem sequer me reconheça, milord — replicou ela quando conseguiu tragar o nó que lhe tinha feito na garganta. — Seu avô comentou que chegaria hoje. E conheço seus homens — acrescentou,
  25. 25. saudando o Liam com um gesto; logo arqueou uma de suas escuras sobrancelhas em direção a este — Não sabe? O outro negou com a cabeça. — Angus queria ocupar do assunto ele mesmo. — O que é o que não sei? — inquiriu Sabrina, perplexa. Os penetrantes olhos do Niall voltaram para ela. — Seu avô não demorará em lhe comunicar isso. — Viu a meu avô? — perguntou, franzindo o nevoeiro, confundida— Está muito doente? — Temo-me que sim. Pediu-me que te escolte durante o último lance de sua viagem. — Ah... — A idéia de ter que suportar sua companhia durante as duas horas seguintes a inquietava— Em realidade, isso não é necessário. Já me acompanham Liam e Geordie. — As Highlands podem resultar perigosas para os incautos, senhorita. Seu tom lhe pareceu duro, quase como se a advertisse. Sabrina ficou calada, sem saber muito bem como reagir. Ao final disse tranqüila: — Espero que as circunstâncias atuais sejam mais felizes que as de nosso último encontro. Pôde ver como um fugaz olhar de tristeza desbancava rapidamente o desafio de seus olhos. Uma vez mais, teve a suspeita de que aquele homem era muito mais do que parecia e que seus sentimentos eram bastante mais complexos que os do típico libertino. Tinha-o visto sofrer pela morte dos seus, e sabia que devia querer muitíssimo a sua família. — Suponho que se poderiam considerar mais felizes — respondeu ele, críptico e direto. Logo jogou uma olhada ao redor— Não tem donzela? — Não quis obrigar a nenhuma delas a me acompanhar. Não estão acostumadas a fazer viagens tão longas, nem a permanecer tão longe de casa durante tanto tempo. — Mesmo assim, deveria ter companhia feminina. — Não estou sozinha. Além de meus homens, tenho ao Rab para que me proteja. Rab — o chamou brandamente—, em guarda. O enorme cão ensinou os dentes ao Niall, mas só um instante. Quando McLaren lhe ofereceu a mão para que a cheira-se, o animal choramingou uma vez, indeciso, e logo lhe lambeu os dedos com veemência. Sabrina fez uma careta. Seu guardião canino não parecia nem sequer o bastante feroz para assustar a um coelho. O highlander deveu pensar o mesmo, porque sua formosa boca esboçou um sorriso. — Está acostumado a ser mais precavido com os desconhecidos — assinalou a jovem em sua defesa. — Isso espero. Continuando, pôs um pé sobre o banco onde ela estava lubrificada e, alargando a mão, agarrou-lhe uma mecha de cabelo que lhe caía pela bochecha. — Perguntava-me qual seria a cor de verdade. Esse gesto tão íntimo a sobressaltou, igual o seu atento escrutínio. Notou que a respiração lhe acelerava. Se pretendia intimidá-la, estava-o conseguindo. Seu encanto despreocupado e indiscreto era tão potente que quase parecia uma força visível que a buscasse e a envolvesse. Por um instante, todos outros se desvaneceram. Como se Niall McLaren e ela fossem às duas únicas pessoas presentes no botequim. — Não deveria ocultar nunca seu cabelo com pós, senhorita. Resulta muito mais
  26. 26. 27 atrativo sem eles. De repente, alegrou-a de que, por normatiza geral, as escocesas não se cobrissem nem empoeirassem o cabelo e lamentou que o capuz de sua capa de viagem lhe tivesse desfeito o penteado que com tanto esmero tinha feito aquela mesma manhã. Ao comprovar que ele seguia estudando-a, sentiu-se mais descontente de seu aspecto do que se sentiu em anos. Mas então reagiu. Podia defender-se daquele descarado. Por suas veias corria sangue de reis escoceses e era neta de um chefe de clã, embora tivesse vivido longe das Highlands a maior parte de sua vida. Com grande aprumo, elevou o queixo. — Tomarei em conta seu conselho a próxima vez que me vista para um baile. — Além disso, deveria te soltar esse coque tão sério — acrescentou ele— O estilo não vai. — Acaso é você um perito em penteados femininos? — Mas bem um entendido. — Sorriu com desenvoltura— O cabelo de uma mulher sempre me pareceu muito mais formoso solto, estendido sobre meu travesseiro. A escandalosa observação deixou a Sabrina sem fôlego. — Talvez devesse voltar com os seus, milord — assinalou incisiva, fingindo uma indiferença que não sentia— Seguro que sentem falta de você. McLaren abriu os olhos, pouco a pouco, com deliberada consternação. — Parece que já me despacham. Que decepção. — Fazendo caso omisso de seu comentário, Sabrina olhou ao Liam. — Não deveríamos estar já em caminho? — Sim, se já descansou o suficiente. — Está segura de que não quer que te escolte? — perguntou Niall. — Obrigado, mas não — lhe assegurou ela— Não desejo apartá-lo de seus prazeres. — Olhou à outra mesa, onde tinha beijado a Cora, e acrescentou com ar de superioridade— Parece estar muito ocupado com as moças da zona. Os olhos dele brilharam de satisfação. — Mais desaprovação, senhorita? — Não é meu assunto a que dedica seu tempo livre. — Certamente. Mas isso não te impede de manifestar sua opinião sobre mim. — Acredito ter licitado minhas observações ao que é de domínio público. Suas proezas são bem conhecidas. — Sim, sou um depravado de primeira ordem. Mais vale que não o esqueça. — Não me deu muitos motivos para esquecê-lo — replicou ela com aspereza— Nas duas ocasiões em que coincidimos, vi-lhe dar rédea solta a suas promíscuas inclinações. Quando ele adotou uma expressão de arrogante regozijo, Sabrina se perguntou se teria a menor ideia de quão devastadora era aquele meio sorriso. Com certeza que sim. Parecia ler todos os pensamentos que cruzavam por sua mente. Mesmo assim, era difícil lhe ter antipatia. Sua acuidade estava por cima da media e seu descaramento resultava atrativo, embora sempre a pilhasse despreparada, como lhe ocorreu naquele preciso momento, quando alargou o braço para lhe agarrar a mão e se inclinou sobre ela para beijar-lhe. Seu frívolo encanto era espontâneo, natural, mas não por isso a perturbava menos. — Então, vou. Tentou soltar-se, mas Niall não o permitiu. Quando lhe beijou o dorso da mão, Sabrina o amaldiçoou em silêncio. Não era justo que o simples roce daquele homem a
  27. 27. deixasse sem fôlego e lhe acelerasse o coração. De fato, era quase um delito que aquele perigoso descarado fosse livre de exercer seu irresistível atrativo com mulheres indefesas. O era consciente do poderoso efeito que tinha sobre ela, porque, ao depositar seu beijo na sensível pele de seu pulso, Sabrina viu em seus olhos um brilho perverso. Essa despreocupada carícia alagou sua cabeça de imagens lascivas, imagens de sua entrega à sedução daquele homem em um jardim iluminado pela lua. Assustou-a precaver- se de que queria voltar a experimentar isso... Quase aturdida, ouviu sua voz grave e musical que lhe dizia: — Como desejar senhorita. Mas iremos detrás se por acaso necessitarem ajuda — acrescentou para que o ouvisse Liam — Que não se diga que um McLaren evita suas responsabilidades. Sabrina se sentiu muito agradecida quando ao fim lhe soltou a trêmula mão, e um pouco surpreendida ao vê-lo trocar repentinamente de expressão. — As Highlands são perigosas — lhe advertiu com frieza — Seria preferível que retornasse ao Edimburgo, onde deveria estar. Ela ficou olhando fixamente. Voltou a notar a ameaça que tinha percebido antes nele, aquela espécie de raiva latente que tinha vislumbrado em seus olhos quando a tinha visto pela primeira vez no botequim. Niall McLaren deu um passo atrás e Sabrina notou o ar cheio de tensão. — Voltaremos a nos ver, sem dúvida — murmurou ele com um tom que a Sabrina deixou claro que não lhe entusiasmava a idéia. 2 — Que me case? — exclamou Sabrina com voz entrecortada, sentindo que lhe faltava o ar— Quer que me case com o McLaren? Olhou fixamente a seu avô enquanto este se recostava nos travesseiros. — Sim, moça — confirmou o ancião highlander com voz rouca— É a última esperança do clã Duncan. Sua união com nossos aliados, os McLaren, garantirá o futuro dos nossos. Aturdida, negou com a cabeça. De modo que aquela era a razão pela que seu avô a tinha convocado com tanta urgência. Apenas se tinha aproximado de sua cama quando Angus lhe lançou sem rodeios sua proposta, sem lhe preocupar a opinião que ela pudesse ter. — Meu coração não agüentará muito, moça, e devo resolver meus assuntos antes de morrer. Salvar o clã está em suas mãos. O temível chefe das Highlands que Sabrina recordava não parecia tão doente como tinha temido, pensou distraída. A robustez natural de suas bochechas envelhecidas destacava por cima de sua palidez. E, embora não parecia respirar muito bem, tampouco daria a impressão de estar tão fraco como lhe haviam dito. — Não... entendo — disse ao fim a jovem. — O que é que não entende? Os teus lhe necessitam, Sabrina. — Não... isso me ficou claro. Mas Niall McLaren... Custa-me acreditar que esse homem tenha acessado a casar-se.
  28. 28. 29 — Pois o tem feito. Ainda aniquilada, levou uma mão à têmpora. — Mas por quê? Por que ia querer casar-se comigo? — É uma herdeira, não? Claro, pensou com uma pontada de amargura. Seu dote era seu principal atrativo para qualquer pretendente. Mas isso não explicava por que Niall McLaren a elegia a ela em lugar da qualquer outra dama de fortuna. Com seu título, seu devastador atrativo e sua legendária capacidade de sedução, sem dúvida podia ter à esposa que quisesse. Não parecia muito contente ao vê-la aquela tarde... Sabrina se ruborizou de vergonha ao recordar seu breve encontro de fazia umas horas. Ele já devia conhecer os planos de seu avô. Por isso a tinha esquadrinhado com uma intensidade quase hostil? E tentado afastá-la das Highlands? Porque não o entusiasmava a idéia do matrimônio? — Deve ter umas quantas herdeiras entre as que escolher — protestou ela. — Nenhuma que vá tão bem. Nossas terras estão juntas, e temos os mesmos inimigos. Ele é chefe de um poderoso clã escocês que deseja combatê-los até a morte. Sabrina jogou uma olhada pela habitação em penumbra, iluminada por uma só vela. Guardava vagas lembranças de sua infância na mansão medieval de Angus. Aquela estadia pertencia sem dúvida a um guerreiro. Nas paredes se viam mais arma que tapeçarias e a quarto contava com poucas comodidades além da imensa cama com dossel e uma enorme chaminé. Deveria lhe haver parecido fria e lúgubre, mas inexplicavelmente resultava fascinante. Aquela tinha sido a residência dos Duncan durante mais de um século. — Em qualquer caso, não me parece razão suficiente para que McLaren tenha acessado — murmurou ela. — Digo-te, moça, que está disposto. Tampouco é tão desatinado. Este matrimônio unirá a nossos dois clãs. Sim, possivelmente não fosse tão disparatado que Niall McLaren estivesse disposto a casar-se com ela, convenceu-se Sabrina. A fim de contas, os matrimônios de conveniência entre membros de clãs aliados eram do mais corrente; de fato, eram mais a norma que a exceção. — É que não vê quão importante é que te case com ele? — disse Angus em tom de súplica urgente— Quando eu tiver ido, os malditos Buchanan farão estragos no clã Duncan se o chefe não for o bastante forte para impedi-lo. Sabrina assentiu com a cabeça a contra gosto. Entendia perfeitamente o que seu avô queria dela, que se casasse com um chefe o bastante poderoso para proteger aos membros de seu clã de seus inimigos. Mas que escolhesse marido por ela... A idéia mesmo de casar-se com o Niall McLaren a consternava. Um descarado e um libertino. Partiria-lhe o coração com nada mais olhá-la. Não, aquilo era absurdo. Seriam um casal desastroso. De fato, irritaram-se mutuamente desde o começo. — Não há ninguém mais que possa te acontecer? — perguntou ela com tristeza. — Liam seria o seguinte. É um bom homem, e seria um bom chefe, mas não tão bom como McLaren. E ele sabe. — Mas tem que haver alguém mais que possa assumir o comando... — Não, não há ninguém. Acaso crê que não teria atuado em conseqüência de ter
  29. 29. havido outras opções? — Mas, avô... — de repente, uma tosse violenta sacudiu o corpo enxuto e fibroso de Angus, que passou um momento interminável resfolegando. Alarmada, Sabrina se aproximou um pouco e alargou o braço para ajudá-lo. Ele a rechaçou com um gesto da mão e se recostou ofegante. — Há algo que possa fazer para que se sinta melhor, avô? — Sim... tranquilizaria-me muito que acessasse a te casar com o McLaren. Deveu ver o receio em seu rosto, porque voltou a tomar ar com dificuldade e prosseguiu implacável. — Niall McLaren é um líder valente, um guerreiro de nascimento e de estirpe, como seu pai. É o bastante forte para manter unido este clã e guiá-lo na luta contra os Buchanan. E tem boas razões para odiar a estes. Seu pai morreu às mãos deles, amaldiçoando seu nome. Igual a fez o teu. Olhou a seu avô e compreendeu seu ódio imenso por esse clã. Angus os culpava da morte de seu único filho. Ao pai da Sabrina o tinham atirado do cavalo quando os perseguia por roubar gado, e Angus os consideravam inimigos mortais. O ódio entre ambos os clãs era já centenário. O único governo que havia nas Highlands tinha muito a ver com um sistema feudal. Os chefes governavam seus clãs com firmeza, embora tendo em conta a vontade de seus seguidores. Os highlanders recorriam a seus chefes em busca de amparo, inclusive de alimento, mas só apoiariam a um líder ao que respeitassem, o que estava acostumado a implicar que este fosse um homem. A liderança do clã passava a filhos e irmãos, mas estranha vez recaía nas mulheres. Sabrina sabia que, quando Angus morresse, ela seria nominalmente a chefa do dele, mas não estava em condições de dirigi-los em sua luta contra os Buchanan. Carecia da aptidão e a experiência necessárias. Além disso, as ameaças à sobrevivência de um clã não provinham unicamente dos inimigos externos. Se Angus não escolhia um sucessor forte, sua morte seria o início de disputas internas, e daria lugar a uma sangrenta batalha sobre quem seria o seguinte chefe. Consternada, a jovem negou com a cabeça. Uma união com o clã McLaren não bastaria para conseguir a paz entre os clãs rivais, entretanto, ao casar-se com seu chefe, ao menos podia proporcionar os meios para proteger a seus homens quando Angus houvesse falecido. Esfregou a têmpora palpitante. — Deveria ter nascido varão — murmurou ausente. — Sim, isso teria estado bem. E teria sido muito melhor que seu pai não tivesse morrido tão jovem. É igual a meu filho, Sabrina. — Angus a contemplou com seus olhos frágeis— Sei o que fará o que terei que fazer. Ela notou que se fazia um nó na garganta. Os métodos de persuasão do homem não eram limpos: servia-se da lembrança de seu defunto pai, de seu próprio estado de debilidade e do forte sentido do dever dela. Tampouco era justo por parte de Angus lhe pedir tanto. Tinha passado todo aquele tempo sem lhe fazer caso e agora esperava que se convertesse na salvadora do clã Duncan. Podia negar-se. Sua herança lhe concedia independência suficiente para decidir seu próprio futuro. A de seu padrasto era a única bênção que necessitava. Não obstante, fosse justo ou não, Angus dependia dela. Isso a fazia sentir apanhada, encurralada, impotente na hora de fazer frente a um dilema impossível.
  30. 30. 31 — Tanto sacrifício te supõe fazer o que te peço? — perguntou o ancião como se pudesse lhe ler o pensamento— Você também sai ganhando. — Ah, sim? — não pôde evitar replicar. — Assim é. Seu lugar está nas Highlands, moça, como disse a sua mãe antes que te levasse. Como disse a ti faz muito tempo. Sabrina fechou os olhos um instante e recordou a carta que seu avô lhe tinha enviado fazia anos, quando sua mãe estava morrendo. Tinha-lhe suplicado que voltasse para casa, mas só agora lamentava não ter podido fazê-lo. Até esse mesmo dia, em que havia tornado a ver a acidentada grandeza de sua terra natal, não se tinha dado conta do bem que se sentia naquelas terras. Levava-as no sangue. Não podia escapar delas. Mas era o matrimônio com o McLaren a única opção? — Certamente há outro clã com o que nos possamos aliar. Outro chefe que não seja contrário a um matrimônio de conveniência. — Não — replicou Angus com brutalidade, cortando por completo essa linha de argumentação— Nenhum que esteja a menos de dois dias a cavalo. Nenhum que precise esposa. Nenhum no que confie para lutar convenientemente com os Buchanan. Nenhum que mantenha laços tão fortes com os Duncan. O homem a esquadrinhou com seu olhar penetrante. — Não terá medo, verdade, Sabrina? Você tem guelra, moça. Nem sequer de pequenina me temia. Não, de pequena não lhe dava medo sua brutalidade nem a intimidava seu poder. De fato, sempre tinha sentido por aquele chefe arisco uma simpatia que experimentava inclusive então. Mas que não lhe tivesse medo não significava que estivesse disposta. — Também está à família — acrescentou Angus— Uma mulher deve ter marido... meninos próprios. Aquela era sem dúvida uma das principais vantagens do matrimônio. Sabrina queria ter filhos. Queria ter marido... uma relação afetiva como a que tinham tido seus pais. Um compromisso permanente que só a morte pudesse romper. Entretanto, fazia poucas ilusões a esse respeito. Nem sequer era provável que se casasse por amor. Nos últimos meses tinha tido vários pretendentes, mas era o bastante realista para saber que o que procuravam sobre tudo era sua herança. Sendo herdeira, sempre seria objetivo de caçadores de fortunas. O Oliver tinha sido distinto, mas logo ele se apaixonou por sua prima. — Além disso, o moço não está mau. Sabrina esteve a ponto de rir do curto que se ficou em sua descrição. Niall McLaren estava dotado de uma beleza física que deixava sem fôlego. Era tremendamente masculino, perigosamente sensual... e estava por completo fora de seu alcance. Embora fosse consciente de seus próprios méritos, já só sua educação a convertia em digna candidata a esposa de um chefe de clã, sabia bem que seus atributos físicos eram certamente modestos. Sim, era prática, tranqüila, engenhosa... mas «desejável» não podia aplicar-se o termo em modo algum. O próprio Niall a chamava «ratinha». Enrugou o nariz ao recordá-lo. Sempre tinha sabido que os homens preferiam às mulheres formosas, de formas mais suaves e exuberantes que as suas, como tinha sido no caso do Oliver. O cabelo escuro de Sabrina, e possivelmente seus olhos, ainda mais escuros, eram seu único atrativo. As muitas conquistas do Niall McLaren eram legendárias, e ela se sentia
  31. 31. completamente normal e corrente em comparação com as mulheres preciosas que sem dúvida ele teria conhecido. — Acaso há outro homem com o que deseje te casar? — quis saber seu avô. — Não... — Suas opções de matrimônio eram escassas naquele momento— Não há ninguém mais. — Bem, então não deveria haver problema. O que responde, moça? Sabrina negou com a cabeça, aturdida. Não podia dar uma resposta naquele preciso instante. Sentia-se muito cansada e aniquilada para tomar decisões racionais. — Avô... necessito tempo para pensar... não posso tomar uma decisão tão transcendental sem considerá-la com atenção. — Bom, tome seu tempo, moça... mas eu gostaria de celebrar a cerimônia antes que termine a semana, antes que a esses indesejáveis Buchanan lhes ocorra aproveitar-se de minha enfermidade. E agora... preciso descansar. Deixe-me sozinho, por favor. — Sim, claro, avô — disse Sabrina cortesmente. — Diga ao Liam que venha quando o vir... Angus se acomodou nos travesseiros com os olhos fechados, parecia esgotado. A conversa com ela tinha feito trinca em sua diminuída saúde, observou a garota com remorso. Saiu do quarto em silêncio e tropeçou com o Rab, que tinha estado esperando-a ansioso e que quase a fez cair. Acariciou distraída a enorme cabeça do cão antes de dar meia volta para baixar a escalinata de pedra que conduzia ao grande salão do piso de abaixo. Seus pés avançavam lentamente, enquanto sua cabeça dava voltas sem parar. Sua esposa. Oferecia-lhe a possibilidade de ser a esposa do Niall McLaren. Uma pontada de emoção estalou em seu interior antes que pudesse reprimi-la. Como seria ser a esposa de um homem assim? Compartilhar seu lar e sua cama. Levar no ventre a seus filhos. Sentir suas carícias, sua paixão cada noite... Não, era absurdo que se sentisse tão emocionada. Não gostava nem sequer um pouco, embora não podia negar que tinha invadido seus sonhos com grande freqüência. Havia algo nele que lhe provocava fascinação. Era um homem tão perigoso e sedutor como as próprias Highlands. Um amante descaradamente sensual, cujo nome sussurrava as mulheres como uma prece. E, por muito que lhe custasse reconhecê-lo, seu beijo daquela noite no jardim tinha tido um estranho efeito sobre ela. Tinha-a trocado de forma indefinível. Tinha-lhe provocado um desejo abrasador que despertava uma intensa agitação em algum lugar oculto no mais profundo de seu ser. Antes daquela noite se sentia satisfeita com sua vida. Virtualmente era a senhora da casa de seu padrasto, ocupava-se de seus assuntos e fiscalizava suas contas. Além disso, desfrutava de um grau de independência pouco habitual nas mulheres não casadas. Convenceu-se de que não lhe faltava nada. Seguia sendo romântica, mas tinha aprendido a reprimir qualquer desejo imprudente. E, até detrás ter sofrido a dolorosa desafeição de seu pretendente, tinha sabido ocultar bem sua dor. Era muito realista para perder tempo suspirando por desejos perdidos e sonhos quebrados. Assim tinha sido até que tinha conhecido ao Niall McLaren. Sabrina negou com a cabeça energicamente. Era uma loucura recordar aquele encontro com outro sentimento que não fosse o desagrado. Para ele não tinha sido mais
  32. 32. 33 que uma vingança, um exercício de desejo carnal frustrado. E, entretanto, desde aquela noite, a jovem já não se contentava observando de fora e viver a insatisfatória existência do espectador perpétuo. Não queria ficar solteira, resignada a passar uma tarde insossa detrás de outra em companhia dos livros de contas de seu padrasto. Não tinha nascido para tão pouco. Sempre tinha sido calada e responsável, mas nos últimos meses tinha havido momentos em que tinha notado que o desejo brotava em seu interior e lhe acumulava dentro a ponto de estalar. Estava ansiosa por ter aventuras, por sentir paixão. Queria viver a vida intensamente. Decidir que papel queria interpretar, controlar seu destino. Queria deixar rastro no mundo. Como naquele momento. Seu clã a necessitava. Devia tomar uma decisão. Estava disposta a antepor a obrigação e o dever a todo o resto? Poderia suportar um matrimônio de conveniência com um descarado dissoluto só para proteger a seu clã das sangrentas lutas intestinas que assolavam aquelas terras? Por suas veias corria sangue de highlander. Os laços da família e o dever eram fortes, mas a chamada do perigo e a emoção o eram ainda mais... Tinha baixado já a metade dos degraus quando se deu conta de que no salão reinava um absoluto silêncio. Ao baixar a vista, Sabrina viu muito rostos que a olhavam com solenidade. Entre a multidão, reconheceu ao Liam e ao Geordie, mas o resto não lhe resultava familiar. Entretanto, por isso parecia, os homens do clã Duncan se reuniram no salão para falar com ela. E pelo visto, tinham renomado porta-voz o Liam, porque este se adiantou quando ela baixou o último degrau da escada. — Senhorita Duncan, poderíamos falar um momento com você? — Claro — respondeu ela amavelmente. — Queríamos que soubesse que... se si casar com o McLaren, o seguiremos, todos e cada um de nós. Conta com nossa palavra de honra, — tratava-se de uma promessa pública, observou. Liam renunciava a seu direito sucessório e aceitava ao McLaren como chefe. Antepor o bem do clã a sua ambição ou seu ganho pessoal. Ia ser ela menos? Jogou uma olhada aos homens. Seus rostos sérios e esperançados lhe rasgaram o coração. Não podia dar as costas a aquela gente, embora para isso tivesse que sacrificar sua própria felicidade. Ali a necessitavam. Sabrina esboçou um sorriso. — Pensarei atentamente, prometo-lhes isso. Mas não ficava muita eleição. Ao voltar ali, não tinha esperado ver-se apanhada na intensa paixão de um povo orgulhoso. Entretanto, era consciente de que tinham decidido seu destino em seu lugar inclusive antes que pusesse um pé nas Highlands. Sabia que aceitaria os planos de matrimônio de seu avô, que protegeria a seu clã do único modo em que sabia fazê-lo. Embora para isso tivesse que contrair um matrimônio sem amor com o dissoluto Niall McLaren.
  33. 33. 3 Sabrina não pôde dormir aquela noite, assaltada por sonhos perversos e traidores com o McLaren. O amanhecer a encontrou dando voltas na cama, atormentada pela dúvida de se devia ou não casar-se com ele como lhe pedia seu avô. A sua não seria uma união ideal, de amor, avaliação e objetivos compartilhados. Não cabia dúvida de que ao homem lhe resultava tão desagradável como ele a ela. Esse mútuo antagonismo não era presságio de um matrimônio feliz. Claro que era a felicidade um requisito indispensável? Devia ser sincera consigo mesma: não ia estar muito pior que a maioria das mulheres. Embora não houvesse amor, contaria ao menos com a satisfação de ter completo com seu dever, de haver-se esforçado pelo bem de seu clã. Seria um matrimônio de conveniência, nada mais. O certo era que não havia nenhum outro pretendente digno disposto a pedir sua mão. E embora Niall e ela tivessem começado com mau pé, possivelmente pudesse sair algo positivo de sua relação. Quando levantou para vestir-se, Sabrina já tinha tomado a contra gosto uma decisão: cumprir o desejo de seu avô moribundo e proporcionar ao clã Duncan um protetor. Se casaria com o McLaren. Comunicou sua resolução a Angus imediatamente depois do café da manhã, antes que algo a fizesse voltar atrás. Em seu leito de morte, o ancião se mostrou agradado para ouvir as notícias e chamou ao Liam para que abrisse um barril de seu melhor uísque de malte. Dezenas de membros do clã Duncan se apinharam em seu quarto, onde, com mão tremente, Angus brindou por sua neta, que ia ser a salvação do clã Duncan. Logo, fazendo caso omisso de qualquer dúvida que Sabrina pudesse albergar a respeito, mandou que avisassem ao McLaren das bodas iminente, que se celebraria ao cabo de uma semana, e convidou os clãs vizinhos para que assistissem ao festejo. A Sabrina a agradou observar que a saúde de seu avô parecia melhorar visivelmente ante a perspectiva de contar com amparo para o clã Duncan, mas a angustiava a rapidez com que se desenvolviam os acontecimentos. Entretanto, ainda passaram dois dias até que pôde falar com seu futuro marido, e até então teve que ser ela quem fosse ver o, porque apenas lhe mandou uma lacônica resposta à nota em que lhe pedia que a visitasse para falar dos preparativos das bodas. Dizia-lhe que lamentava lhe comunicar que, naquele momento, encontrava-se muito ocupado para atender sua petição. Chateava-lhe que McLaren não encontrasse tempo para reunir-se com ela. Desejava falar com ele em privado; com o homem ao que logo se uniria em matrimônio, com quem compartilharia sua vida e sua cama, e cujos filhos levaria em seu ventre. — Sem dúvida está ocupado com assuntos do clã — o defendeu Angus. Ou entretido em alguma de suas perseguições licenciosas, pensou Sabrina irritada. O tempo se tornou tormentoso e as rajadas de chuva açoitavam a mansão e envolviam o interior em uma penumbra fria e cinza. Por desgraça, a demora concedeu há jovem muito tempo livre para lamentar sua decisão. Seu avô atribuía seus escrúpulos aos nervos pré-nupciais, mas ao vê-la tão decidida a falar com o McLaren, Angus lhe disse que
  34. 34. 35 tomasse a iniciativa. — Mas leve o Geordie contigo, moça — acrescentou — O campo não é seguro para uma mulher enquanto os Buchanan andam rondando por aí. Escoltada pelo Geordie, armado, e com o Rab dando saltos junto a sua cavalgadura, Sabrina se dirigiu ao Creagturic, o lar do Niall. Recuperou o ânimo enquanto percorria as escarpadas colinas ao lombo de seu cavalo. A chuva tinha cessado e, naquela ventosa e clara amanhã primaveril, as primeiras névoas se consumaram deixando detrás de si um esplendor esmeralda. Sabrina estava encantada. Por muitas dúvidas que albergasse quanto a seu matrimônio, alegrava-se de ter voltado para aquele esplêndido entorno. As Highlands lhe estavam penetrando na alma, chamavam-na; sentia sua atração no mais profundo de seu sangue. E ao atirar das rédeas olhando o imponente castelo de pedra que logo seria seu novo lar, lhe alvoroçou o coração emocionada. Recortada contra uma cordilheira de magníficas elevações, rodeada de gargantas repletas de alisos e abedules, a antiga residência dos McLaren parecia surgir das claras águas azuis de um tranqüilo lago. Apesar de sua austera beleza, era uma magnífica fortaleza, visível estandarte de um clã guerreiro. — Construiu-a Malcolm o Audaz tataravô do Niall — explicou Geordie — foi sitiada em duas ocasiões, mas jamais tomada. Cruzaram uma ponte de pedra que dava passo a um pátio amuralhado; o restelo, vestígio da época feudal, já não se usava. O pátio era imenso, e nele havia uma dúzia de edifícios anexos de madeira, entre os que se encontravam o estábulo e a ferraria. Depois de desmontar e sujeitar as rédeas de seus arreios a uma argola, Sabrina ordenou a sua escolta canina que permanecesse aos pés da magnífica escada de pedra e subiu com o Geordie até a impressionante porta de carvalho. O interior do castelo parecia ter sido enobrecido por uma mão civilizada, pensou a jovem admirada quando os convidaram a passar. As paredes de pedra do grande salão tinham sido caiadas e adornadas com delicadas tapeçarias além de armas, enquanto que grandes móveis de carvalho resplandeciam por efeito da cera de abelhas. A anciã ama de chaves olhou a Sabrina com curiosidade. — Agrada-me conhecê-la, senhorita Duncan — afirmou à senhora Patterson—, mas temo que o senhor não esteja em casa nestes momentos. — Sabe se voltará logo? Levo vários dias tentando falar com ele. — Passou a noite fora, mas me disse que voltaria pela manhã. Sabrina apertou os lábios indignada, perfeitamente capaz de imaginar o que teria ocupado ao senhor toda a noite. — Seria tão amável de permitir que o esperemos? — Naturalmente. Venham comigo, por favor. Geordie e Sabrina seguiram à ama de chaves pela escada, além da galeria de histriões que dava ao grande salão, até uma formosa sala cujas paredes se achavam decoradas com um delicioso revestimento e papel pintado adamascado; no rincão mais afastado da mesma, no lado oposto à chaminé, havia um piano com incrustações de pau-rosa. — Esse extraordinário instrumento pertenceu à senhora McLaren — explicou à senhora Petterson interpretando corretamente a expressão de complacência da Sabrina—
  35. 35. Uma mulher virtuosa onde as haja. — Refere-se à mãe dos McLaren? — Assim é. Passou desta para a melhor fará uns três anos, um duro golpe para todos nós. Se quiser ficar cômoda, senhorita, lhe trarei um pequeno refresco. — Obrigado, mas não é necessário. — Mas pode que o senhor tarde em chegar. — Não tenho inconveniente em esperar todo o dia se for necessário — respondeu Sabrina decidida. Quando a mulher partiu, sentou-se em um sofá de brocado enquanto Geordie passeava inquieto, mais a gosto ao ar livre que na refinação entorno de uma sala de estar. Teve que cravá-lo um pouco para que lhe falasse da família McLaren, mas finalmente conseguiu averiguar muitas coisas dos defuntos pais do Niall e de seus irmãos. Tinha transcorrido quase uma hora quando ouviram o estrépito dos cascos dos cavalos ao outro lado da janela da sala. Geordie deixou de passear para olhar ao pátio. — São McLaren e John. — John? — perguntou Sabrina ao tempo que levantava para olhar também. — Sim, o primo do Niall, e grande amigo de seu pai. A jovem viu dois cavaleiros. Um era Niall, o outro o fornido highlander que tinha ido buscá-lo no baile de sua tia, no Edimburgo, fazia já tantos meses, com a terrível noticia da emboscada que os Buchanan lhe tinham tendido ao chefe do clã McLaren. Os dois homens se detiveram diante do estábulo. Rab, que montava guarda à entrada da mansão, levantou-se de repente e aguçou o ouvido. Logo, abandonando seu posto junto à escada, cruzou o pátio dando saltos para receber aos recém chegados. A Sabrina se chateou ao ver seu cão dar voltas ao redor deles, proferindo entusiastas latidos de bem-vinda. O senhor dos McLaren era um perfeito desconhecido para ele até fazia uns dias. Para maior consternação, viu o Niall sondar e elevar a vista para a janela onde estava ela. Pelo visto, tinha reconhecido ao animal e não o agradava sua presença. Com o gesto sombrio, murmurou-lhe algo a seu companheiro, que também olhou para cima. Sabrina se separou da janela. — Geordie — disse, procurando conservar a calma—, quão logo chegue McLaren, seria tão amável de sair da habitação um momento? O que tenho a lhe dizer preferiria dizer-lhe em privado. — Que maravilha — murmurou Niall com sarcasmo— Uma visita de minha prometida. O arremate perfeito de uma manhã deliciosa. — Necessita que te ajude a desmontar moço? — perguntou John. Ele negou com a cabeça, desceu do cavalo de um salto e fez uma careta pela pontada de dor que sentiu nas costelas. Com cautela, agachou-se para acariciar detrás das orelhas a aquele cão lisonjeador. — Já me encarrego eu dos animais, John. Agradeceria-te que fosses averiguar que deseja a senhorita Duncan. — Não me cabe dúvida de que o que quer é ti ver. — Pode, mas não estou de humor para interpretar o papel de pretendente apaixonado. Como conseqüência das recentes chuvas, uma presa próxima se transbordou a noite

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