Margaret moore [warrior] - 07 - a esposa do guerreiro (pt br)

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Margaret moore [warrior] - 07 - a esposa do guerreiro (pt br)

  1. 1. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore ! - ! -1
  2. 2. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Clássicos Históricos nº 133 ! SÉRIE WARRIOR – VOL. 7 ! Feitos um para o outro? Inglaterra, 1227. ! Lady Alice Dugall preocupava-se mais com questões marciais do que maritais. Mesmo assim, era a mulher que sir George de Gramercie desejava. Ele tinha certeza de que debaixo daquela aparência inabalável havia uma mulher ardente a ser despertada... ! Alice Dugall lamentava o destino que a unia a sir George de Gramercie, um cavaleiro que parecia mais interessado nos luxos da vida do que na mecânica da guerra. Mas, quando ele a olhou de modo ardente, ela não pensou em mais nada a não ser em se render... ! ! A Esposa do Guerreiro “A Worrior’s Bride” Margaret Moore ! - ! -2
  3. 3. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Warrior Serie
 ! 1. A Warrior's Heart (1992)
 2. A Warrior's Quest (1993)
 3. A Warrior's Way (1994)
 4. The Welshman's Way (1995)
 5. The Norman's Heart (1996)
 6. The Baron's Quest (1996)
 7. A Warrior's Bride (1998)
 8. A Warrior's Honor (1998)
 9. A Warrior's Passion (1998)
 10. The Welshman's Bride (1999)
 11. A Warrior's Kiss (2000)
 12. The Overlord's Bride (2001)
 13. A Warrior's Lady (2002)
 14. In the King's Service (2003) ! ! ! ! ! ! ! - ! -3
  4. 4. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore CAPÍTULO UM ! ! ! Inglaterra, 1227 ! Com um sinal de alto para a coluna que encabeçava, sir George de Gramercie estacou seu cavalo na estrada lamacenta e olhou curioso para a beirada. Já ouvira palavrões antes, mas nada como aquela criativa sequência vinda do outro lado da sebe. Aparentemente, alguém fora atirado da sela e abandonado por sua montaria. Contudo, não foram os palavrões, tampouco o desejo de ser útil, que fizeram surgir em seu belo rosto um sorriso irônico, mas o fato de a voz rouca, zangada e intrigante pertencer a uma moça! Sem desmontar, o capataz, sir Richard Jolliet, aproximou-se com expressão igualmente curiosa. — O que será isso, senhor? George não teve tempo de responder, pois foi como que capturado por um por um belo par de olhos castanhos. Através de uma falha na sebe, a moça acidentada o apreciava com uma expressão inescrutável. Já não era nenhuma adolescente, concluiu George. Inúmeros fios de cabelo encaracolado também castanho escapavam de uma grossa trança, enfeitando um rosto levemente sardento. Ela vestia uma espécie de túnica de tecido grosseiro, mas cujo corpete delineava um busto perfeito. George aproximou o cavalo da abertura na sebe. — Uma boca tão bela não comporta palavrões — admoestou, bem-humorado. A moça reagiu à crítica com uma expressão brava. George tentou consertar rápido: — Será que encontrei uma donzela em apuros? Nenhuma resposta, só a mesma mudez impertinente. George prosseguia em seu tom despreocupado: — Ou será que é uma ladra de cavalos? A moça expressou escárnio. — Ah, já entendi! — exclamou George. — Você veio aqui para um encontro secreto! Com os olhos castanhos cheios de ira, a moça protestou indignada: — Como se atreve a dizer tal coisa, seu... O capataz se adiantou ao senhor. — Dobre a língua, mocinha! — advertiu. — Sabe com quem está... — Richard, por favor — interrompeu George. — Não precisa assustar os aldeões. — Não, não precisa — reforçou a moça, ensaiando um sorriso traquinas. O capataz se afastou, não sem antes olhar contrariado para a jovem. — Diga-me — retomou George, em seu tom mais charmoso —, falta muito para chegarmos ao castelo de sir Thomas Dugall? - ! -4
  5. 5. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Pouco mais de um quilômetro — informou, graciosamente, a aldeã. — Você trabalha lá? — Sim, meu senhor. — E foi seu cavalo que a abandonou, não um namorado? — Sim, meu senhor. Ele fugiu, mas eu o pego num instante. Bom dia, meu senhor. Com isso, a aldeã o dispensava. Mas George não era homem de ser dispensado. Por ninguém. — Podemos ajudar? A moça respondeu com a risada mais sonora que George já ouvira de uma mulher. — Devo entender que não precisa — concluiu ele. — Isso mesmo, meu senhor. Ele vai direto para casa. George bem que gostaria de continuar conversando com aquela jovem incomum, mas a tropa já demonstrava impaciência. De qualquer modo, iria revê-la no castelo Dugall. — Bem, já que não está em dificuldade, desejo-lhe um bom dia — despediu-se, por fim, inclinando-se polidamente, satisfeito em ver a aldeã ensaiar uma mesura antes de sumir para além da sebe. O capataz se aproximou de novo. — Mas que camponesa atrevida, sir George! — resmungou. — Ela deveria saber que estava falando com um nobre. — Indicou a flâmula que tremulava à brisa levada por um soldado. — E afirma trabalhar no castelo Dugall! Seria mais fácil acreditar que passa o tempo pas-torando carneiros. Sozinha. Sir George de Gramercie sorriu para o empregado antes de ordenar à coluna a retomada da jornada. — Ora, Richard. É uma moça impertinente, mas levemos em conta as necessidades do castelo. — Levemos... Sabia-se que faltava um toque feminino no castelo de sir Thomas Dugall. Sua esposa falecera havia muitos anos, após dar à luz a única filha do casal. Desde então, o lar se compunha quase que totalmente de homens, tanto os da família, sir Thomas e seus seis filhos, quanto os da criadagem. — Mas bonitinha, apesar de tudo — reconheceu o capataz. — Creio que sim, sem aquela camada de lama — concordou George. A verdade era que apreciara aquele encontro inesperado. Não estava acostumado a falar com gente tão rude e a experiência valera. — Graças a Deus que não temos criadas assim em Ravensloft. George olhou perspicaz para o capataz. — Cuidado no trato com essa moça no castelo Dugall — aconselhou. — Embora represente bem, ela não é uma aldeã. Aquela era Alice, a filha de sir Thomas. - ! -5
  6. 6. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore O empregado deixou cair o queixo. — Aquela... aquela... ela, a filha de sir Thomas? — Tenho certeza absoluta — reiterou George. — Ela cresceu desde a última vez que a vi, mas reconheci seus olhos quase que de imediato. Sim, como esquecer aqueles faiscantes olhos castanhos? Fazia muito tempo, mas jamais esqueceria os olhos de Alice Dugall. — Aquela é a mulher com quem seu pai queria que o senhor se casasse? — É. — Aquela criatura... mesmo sabendo que sir Dugall não abre mão nem de um pedacinho de terra? O que faria um homem aceitá-la? — Talvez um gosto por desafios — sugeriu George. — Acho que é isso mesmo que ela é... — Não é como se Alice Dugall fosse uma completa estranha — explicou George. — Nós nos conhecemos na infância. — Mas esteve raras vezes no castelo Dugall, meu senhor — observou Richard. — E eles nunca estiveram em Ravensloft... — Confuso, questionou: — Por que ela se faria passar por aldeã? — Só para fazer troça, suponho. — George deu de ombros. — Será que ela também me reconheceu? — Deve ter reconhecido, pelas flâmulas. — Ah, é mesmo — murmurou George. E o que teria achado dele? — Mas, meu senhor... se me perdoa a intromissão... por que se casaria com ela? Pode escolher qualquer uma dentre várias damas de boas famílias abastadas. — Meu pai via com bons olhos uma aliança com sir Thomas e seus filhos, considerando a rebeldia destes. Se não formos aliados, quem sabe o que podem fazer, uma vez livres da autoridade do pai? De fato, os irmãos de Alice mais pareciam um bando de palermas briguentos prontos para quebrar os ossos uns dos outros. Sir Richard se mexeu desconfortável na sela. — Certamente não o atacariam! — Duvido... Não obstante, já que nenhuma donzela me chamou a atenção até agora, por que não fazer uma visita a sir Thomas? Mal não há... — Nem bem — replicou o empregado. Notando a contrariedade de George, adotou um tom mais respeitoso. — Desculpe-me por perguntar, meu senhor, mas... considerando que seu pai já é falecido, por que... — Hesitante, não completou. — Agora que meu pai está morto, por que realizar seus desejos, após rejeitar o casamento e ignorar a sugestão dele durante quase quinze anos? — completou George. — Bem, sim, meu senhor. - ! -6
  7. 7. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Talvez para realizar o desejo que manifestou ao morrer — ponderou George, já pondo fim ao sentimentalismo. — Mas não há nada confirmado, nem assinado. Trata-se de uma visita de boa-vizinhança, apenas. — Se não fosse seu empregado, mas um amigo, eu o aconselharia a tomar cuidado com essa proposta de casamento — finalizou Richard. — Você é meu amigo, tanto quanto empregado — declarou George. — Pode deixar, que tomarei o máximo cuidado. — Folgo em saber. — A neblina está enfraquecendo — observou George, respirando fundo o ar fresco na manhã primaveril. — Logo chegaremos à bifurcação com a estrada que leva a Londres. Acha que consegue resolver a questão dos impostos? — Creio que sim, meu senhor. — Ótimo. Caso contrário, serei obrigado a assumir a administração da minha propriedade, o que vai me matar de tédio. A medida que avançavam pelo caminho em silêncio, George pensou no recente encontro com a mulher que seu pai escolhera para sua esposa. Sabia pouco sobre Alice, mas devia ter esperado o inesperado. Ela nunca se assemelhara às outras meninas. Jamais esqueceria o dia em que a perseguira por atirar maçãs nele, quando sua saia se enganchara num galho baixo e ela a rasgara para se livrar, expondo as belas e esguias pernas. Seriara ainda belas e esguias? E será ela que ainda corria ágil como uma gazela? Nesse caso, já devia estar em casa agora, anunciando a chegada dele. George passou a mão pelo cabelo um tanto comprido. Se Alice não se envergonhava de aparecer diante dele vestida como uma camponesa, ele se constrangia em chegar como um mascate ao castelo Dugall. Somente por esse motivo, e por nenhum outro, escolhera para aquela visita sua melhor túnica escarlate, com a capa debruada de arminho, bem como selecionara os melhores soldados para sua guarda. Chegaram a uma encruzilhada com uma placa mostrando o caminho para Londres. George fez sinal de alto para a coluna. — Bem, Richard, aqui nos despedimos. — Sim, meu senhor. — Vá com Deus. — Que Deus o acompanhe, meu senhor. — Sir Richard sorriu caloroso. — Já que fez a gentileza de me chamar de amigo, permita-me um conselho de amigo: não tome nenhuma decisão precipitada com relação a casamento. George riu. — Tenho me saído bem — lembrou. — Acredite-me quando digo que é preciso mais do que o desejo de meu pai para eu tomar tal decisão. - ! -7
  8. 8. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Sir Richard aquiesceu e, com uma escolta de dez homens, tomou a estrada rumo a Londres, enquanto sir George de Gramercie seguia para a imponente construção que emergia das brumas. Com as botas cobertas de lama, Alice desceu pelo dique e atravessou o charco até a margem oposta. Então, embrenhou-se no bosque pela trilha que levava à aldeia junto ao castelo de seu pai. A relva úmida e escorregadia a impedia de se deslocar tão rápido quanto gostaria, mas mesmo assim estaria em casa antes que sir George al- cançasse o moinho. Apressada, afastava destramente os ramos de carvalho, de castanheiro e de faia, detendo-se somente para prender de novo no largo cinto de couro a saia, a qual suspendera tão logo se afastara da sebe à beira da estrada, após o inusitado encontro com o homem que seu pai desejava para seu marido. Reconhecera George de Gramercie de imediato, com seu cabelo loiro ondulado, sérios olhos azuis e sorriso charmoso, ainda que, de certa forma, ele estivesse bastante diferente do garoto do qual se lembrava. O rosto se tornara mais afilado e anguloso e o corpo, bem mais musculoso; contudo, mesmo sem vê-lo, teria reconhecido sua voz, muito mais masculina agora, mas ainda melodiosa e tão polida quanto sempre fora. De fato, no que se referia ao comportamento, George não mudara nada. Ele sempre fora educado, inclusive com os aldeões, e andava muito bem vestido, tanto que ela se vira tentada a sujar-lhe as roupas nas poucas vezes em que ele visitara o castelo Dugall com seu pai. Jamais esqueceria a ocasião em que lhe atirara maçãs até que ele a perseguisse pelo pomar. Nossa, como ele ficara zangado! Tivera muito medo dele, tanto que preferira rasgar o vestido a enfrentar sua ira se a agarrasse. Mas ele não a alcançou e, quando se viram de novo, agiu como se nada houvesse acontecido. Estava certa de que ele não a reconhecera lá na beira da estrada... embora jamais imaginasse o que se passava na cabeça de George de Gramercie. Talvez ele houvesse descoberto seu joguinho e decidido participar, sem que ela soubesse. Perto da aldeia, venceu mais um pouco de vegetação rasteira e saiu à estrada principal. Desenganchou a saia do cinto e analisou a lama, contente ao reconhecer umas marcas de ferradura. Seu cavalo Demon passara por ali havia pouco, de volta ao castelo, após atirá-la para fora da sela. Aquele fora seu castigo por executar a idéia maluca de ir espionar sir George de Gramercie antes que ele chegasse ao castelo Dugall. Em sua marcha rápida, Alice chamava a atenção de alguns aldeões, mas não a ponto de tirá-los de suas tarefas, pois estavam acostumados a vê-la por ali sozinha. Como de hábito, ela contemplou as muralhas e torres do castelo, certificando-se de que os sentinelas estavam a postos. Não sofriam um ataque armado havia muitos anos, mas seu pai insistia em manter as tropas de prontidão. - ! -8
  9. 9. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Fora também seu. pai que ampliara a fortaleza, a partir da construção redonda com capela anexa que herdara. Na grande área cercada por muros e torres circulares, havia agora um pavilhão interno com estábulos, celeiros, depósito de armas, cavalariça e uma grande cozinha. Aposentos para hóspedes constituíam a benfeitoria mais recente. Os guardas na portaria a saudaram, ao mesmo tempo que lhe davam passagem. — Viram meu...? — Sim, lady Alice — respondeu um dos homens, adiantando-se. — Ele já está no estábulo. — Ótimo! — festejou ela, sabendo que já tratavam do cavalo. Estava livre para procurar Rufus! Percorreu a área das torres até chegar ao amplo e plano gramado em que os homens costumavam treinar. Logo avistou a cabeça ruiva de sir Rufus Hamerton em meio aos demais e chamou seu nome. Sorrindo largamente, Rufus destacou-se dos companheiros, que mal acusaram a presença da filha do senhor do castelo, e a passos largos atravessou a grama úmida ao encontro de Alice. Tinha as faces tão avermelhadas quanto o cabelo, devido ao esforço físico, e trajava só calça e botas, a túnica de couro pendurada num dos om- bros musculosos. O suor escorria por seu peito maciço e, à medida que se aproximava, o odor que desprendia confirmava que estivera mesmo dando duro. — Deus do céu, estou pregado! — anunciou com sua voz sonora, coçando-se descontraído. — E apertado! Se não chegar logo ao vestiário, vou explodir! — Seguiu para o depósito de armas. — Mas por que a aflição, Alice? — indagou, por fim. — Estamos sendo atacados? — Não — retorquiu ela. — Não exatamente. O cavaleiro olhou-a curioso e ela esclareceu: — Teremos visitas daqui a pouco. — Ah, é? — Rufus estacou e vestiu a túnica, sorrindo para Alice. — Quem? — Sir George de Gramercie. O nome não disse nada a Rufus, que deu de ombros e retomou a caminhada. — O filho de nosso vizinho, aquele que passou os últimos dez anos passeando pelo país feito um trovador andante — lembrou ela, esforçando-se para acompanhar o amigo. — Agora que o pai morreu, ele voltou para casa. Rufus respondeu com um grunhido desdenhoso. Aproximaram-se do depósito de armas, uma grande estrutura de madeira com as paredes de taipa, mas Rufus não aguentaria chegar ao vestiário. Entrando no pequeno beco entre o estábulo e o depósito, suspirou satisfeito enquanto se aliviava. — Graças a Deus, agora, sim! — festejou, tomando novamente o rumo do depósito. — Mas por que o estardalhaço? — quis saber, obviamente desinteressado. — Sempre temos visitas. Alice estava incrédula. - ! -9
  10. 10. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — É o homem com quem meu pai quer que eu me case! — desabafou. Rufus riu alto ao mesmo tempo que empurrava a pesada porta de madeira do depósito. — Aquele que, segundo você, gasta mais em roupas do que em armas? — É — confirmou ela, segurando a porta antes que se fechasse em sua cara, seguindo o amigo. No salão frio, a mobília consistia tão-somente em catres de palha com cobertores grosseiros, uma mesa com uma bacia e jarro e baús de madeira: uma para cada cavaleiro, escudeiro ou pajem. Em ganchos nas paredes penduravam-se todo tipo de roupas, armaduras e armas. Num canto jazia um urinol quebrado. Havia vários homens lá, descansando após ou antes de seus turnos, que saudaram Alice. — Parece que vamos ter um almofadinha por aqui, pessoal! — anunciou Rufus. — Tirem do baú os colchões de penas e os lençóis limpos! Alice só podia sorrir ante a gozação do amigo. Tão logo visse George, ele perceberia que ela jamais poderia se casar com um homem como ele. Além de fútil, era magro demais, sem atributos de cavaleiro. Com certeza, não aguentava uma luta. E, apesar da família rica, devia ser preguiçoso e negligente em seus deveres como senhor de uma propriedade. De qualquer forma, não discutiria seu futuro diante de uma platéia. Olhou autoritária para os homens. — Não está quase na hora da troca de guarda? — questionou. — E não deveriam estar limpando suas armas? Se meu pai vir uma manchinha de ferrugem que seja... Todos entenderam rápido, pegaram seus apetrechos e foram saindo, despedindo-se com mesuras. — Estou pensando em mandar remendar minha espada velha em vez de comprar uma nova — comentou Rufus, pendurando o cinto da espada num gancho. — O quê? — Alice pôs as mãos na cintura. — Que absurdo! Essa espada já foi remendada demais, pode se partir a qualquer momento! — Sai caro mandar fazer uma espada nova — choramingou o cavaleiro. — Além disso, o cabo da velha se encaixa perfeitamente na minha mão. Alice cansou-se daquela conversa sobre espadas velhas e novas. — E o sir George? — murmurou. — E se meu pai insistir em que eu me case com ele? Rufus atirou-se no primeiro catre de palha que viu e olhou-a zombeteiro. — Esse é o tal que vem negligenciando seus deveres há anos? — É! — Mas por que seu pai quer que você se case com um janota desses? — Porque nossas terras são vizinhas. - ! -10
  11. 11. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Bem... — Apoiando a nuca nas mãos entrelaçadas, o cavaleiro fitou as vigas no teto. — Você seria a senhora de uma grande propriedade. Podia ser pior... Alice conteve o impulso de chutá-lo. Será que não percebia que era ele o homem perfeito, o guerreiro perfeito? E seria o marido perfeito também. Quão cego um homem podia ser? — Eu o vi, na estrada — completou ela, acomodando-se de pernas cruzadas num catre próximo. — Tenho certeza de que continua tão fútil quanto antes. Devia ver sua túnica. Era bordada. Acho que ele chora se cair um respingo nela. Rufus riu solidário. — Mal posso esperar para conhecê-lo. Alice também mal podia esperar que os dois se conhecessem. Só então Rufus entenderia que ela jamais poderia desposar um homem como sir George de Gramercie. ! ! CAPITULO DOIS ! ! Pelo que George podia ver, nada mudara no castelo Dugall durante os anos que passara longe. As muralhas de pedra cinzenta continuavam sólidas e imponentes e os soldados nos portões mantinham-se numerosos e atentos, como se uma horda de inimigos pudesse, de repente, esgueirar-se do fosso e atacar. No pavilhão interno, não havia um animal, fardo de feno, barril ou bastão fora do lugar. Vários homens treinavam com espada ou praticavam o uso da maça e cor- rente. Até os criados executavam suas tarefas de um jeito militar, e nenhum deles era mulher. Longe de fazer George sentir-se seguro, era como se o castelo estivesse sitiado, com todas as mulheres evacuadas em segurança. De fato, tudo ali transmitia uma curiosa sensação de tensão e destruição iminente, que não o agradava. A aldeia ao pé das muralhas também tinha esse ar de expectativa reprimida, um tanto desnecessária, considerando o pacifismo geral na região e a amizade dos vizinhos de sir Thomas. Ao desmontar e passar as rédeas a um pajem que correra para recebê-los, George considerou que poderia sentir-se insultado, ou mesmo ameaçado, por aquele estado de alerta no castelo, mas então lembrou-se da bagunça nas moradas de certos nobres. Ali, tudo estava organizado e arrumado, diferentemente de outras fortalezas em que viviam só homens, sem mulheres encarregadas dos confortos domésticos. Então, o próprio sir Thomas saiu marchando do pavi-ihão. Tinha o rosto marcado por várias cicatrizes obtidas em batalhas e torneios, mas a postura continuava ereta, e o olhar, tão arguto quanto o de um falcão. Como de hábito, trajava - ! -11
  12. 12. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore sobre a armadura um sobretudo idêntico ao que usara anos antes durante uma Cruzada. Sir Thomas sempre o fizera sentir-se um garotinho malcriado e, aparentemente, quinze anos não tinham sido suficientes para eliminar essa impressão. Estacando, sir Thomas tomou o visitante pelos ombros para dar-lhe o beijo de boas-vindas, a armadura tilintando levemente. — Bem-vindo, sir George! — declarou, dando uma olhada nos soldados que o acompanhavam. — Que bom revê-lo! — Ao senhor também, sir Thomas — retrucou George. — Vamos entrar e tomar um vinho. Já é tarde. Devem ter vindo devagar, ou então pegaram a estrada do norte... — especulou o anfitrião, em tom que o repreendia por uma eventual morosidade injustificada. George imaginou então se Alice ainda não retornara ao castelo, ou se ela simplesmente não comentara o encontro deles na estrada sul. Bem, considerando sua conduta impertinente, como saber o que se passava em sua cabeça? Adentraram o salão imenso e muito frio, cuja lareira permanecia apagada. Não havia tapeçarias nas paredes, nem nada que sugerisse algum tipo de decoração. Ne- nhum toque feminino na mobília velha, gasta e sem trato, nenhum soldado ou cavaleiro refazendo seu bem-estar. Sir Thomas sentou-se na maior cadeira sobre a plataforma de carvalho ricamente entalhada e convidou George a acomodar-se a seu lado. O assento era tão duro, frio e desconfortável quanto parecia, e os detalhes no espaldar eram como pontas de punhal enterrando-se em suas costas. — Como vai lady Alice? — perguntou George, polido, decidido a não comentar que se haviam encontrado na estrada se ela não o fizesse. — Eu esperava vê-la ao chegar. Sir Thomas deu um grunhido indiferente. — Continua tão forte quanto aquele cavalo dela. Foi galopar. Logo estarão de volta. Mesmo sabendo da ausência de sentimentalismo de sir Thomas, George espantou-se com sua despreocupação quanto à única filha, que, pelo jeito, costumava cavalgar sozinha. — Tenho certeza de que é uma excelente amazona — comentou. — A melhor que já vi. Eu mesmo a ensinei a montar — gabou-se sir Thomas. — Ela é melhor do que os irmãos, e eles são excelentes. Um pajem de expressão temerosa surgiu à porta que devia levar à cozinha. — Vinho! — ordenou sir Thomas, e o garoto saiu correndo. — Imagino que ela aprecie cavalos ariscos... — continuou especulando George. — Ariscos? O cavalo dela é um demônio! Já a preveni de que irá quebrar o pescoço qualquer dia desses, mas ela não escuta. Tem um gênio péssimo... - ! -12
  13. 13. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Mas ela cavalga escoltada, não? Sir Thomas arregalou os olhos. — Escoltada?! — Riu alto. — Ela faria qualquer escolta comer poeira! Cavalga sozinha, sempre cavalgou. Nas minhas terras, está em segurança. — Sem dúvida... Nem sempre bandoleiros respeitavam os limites da propriedade de um senhor, e ver uma moça sozinha podia ser tentador para tais tipos, mas George não discutiria o assunto com sir Thomas. — E o raio do vinho? — vociferou o anfitrião, olhando bravo para a porta da cozinha. Voltou-se para George outra vez.— Ela é como a mãe. Vê esta cicatriz? — Referia-se a uma pequena marca em forma de lua crescente na testa. — Ela me fez isto na primeira vez em que tentei beijá-la. — Cerrou as espessas sobrancelhas grisalhas de forma ameaçadora. — Alice é capaz de fazer bem pior a qualquer homem que tome liberdades. — Sem dúvida. Sir Thomas recostou-se na cadeira, o que só era possível porque usava armadura, concluiu George. O pajem voltou com uma garrafa de vinho e duas taças de prata, nas quais despejou o líquido, tremendo o tempo todo. Então, postou-se ao lado, atento à tarefa de manter as taças cheias. — Lamento quanto a seu pai — manifestou-se sir Thomas, após um gole de vinho. George saboreou a bebida de ótima qualidade e retrucou: — Sim, era um bom homem. — Um bom vizinho. Um tanto negligente, mas confiável. George suprimiu um ar de descontentamento. — Sir Richard Jolliet ainda é o capataz? — quis saber o anfitrião. — Sim, e seu irmão, Herbert, administra a casa. Richard está a caminho de Londres para resolver uma questão de impostos lá da propriedade. — Nenhum problema com o fisco, espero — replicou o homem mais velho, desconfiado. — De jeito nenhum. Apenas terei de pagar um pouco mais este ano. Estamos nos saindo melhor do que o esperado. — Ah, bom saber! Foi um inverno rigoroso, mas quem estava preparado suportou muito bem. George concordou, embora duvidasse de que alguém pudesse se preparar melhor do que sir Thomas para tempos difíceis. Seu pai comentava que o vizinho vivia na expectativa de uma repetição dos sete anos de fome citados na Bíblia. — Boa gente, os Jolliet — elogiou sir Thomas, franco. — De confiança. — Total confiança. — Os negócios de seu pai devem estar na mais absoluta ordem. - ! -13
  14. 14. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Estão, sir Thomas. — Pena que não tenha voltado para casa mais cedo... George tinha na ponta da língua a justificativa louvável para não ter assistido o pai em seu leito de morte: — Voltei o mais rápido que pude. Eu estava de serviço com o barão DeGuerre até a Festa da Purificação da Virgem Maria. Sir Thomas aquiesceu e tomou outro gole. — Mesmo assim, foi lamentável. George degustou o vinho, tentando não se perturbar cora o tom impiedoso do anfitrião. — Então, você quer se casar com Alice — disparou sir Thomas, de repente. George quase engasgou. — Eu resolvi me casar — confirmou. — Por que Alice? Parecia não ocorrer a sir Thomas que houvesse outras damas com quem George poderia se casar. — Meu pai achava que era uma boa opção para mim — justificou, honesto. — Ela não levará terras quando se casar — declarou o homem mais velho. — Não é minha exigência — afirmou George, azedo. — Ótimo. Mas ela tem um dote, é claro. Bens móveis. — Bom... mas o maior prêmio é a própria Alice! Sir Thomas olhou carrancudo para George. — Poupe-a desse tipo de lisonja, rapaz, mesmo porque ela provavelmente riria na sua cara. Ela é um prêmio, principalmente se você estiver sitiado. Dê-lhe um arco e mande-a para as batalhas, e não irá se arrepender. George mordeu a língua para não declarar que jamais enviaria uma mulher para uma batalha, muito menos sua esposa. — Tenho certeza de que é uma mulher valorosa — limitou-se a dizer. — Ah, é mesmo! — Sir Thomas fitou-o argutamente. — Serei franco com você, George, porque sempre gostei de seu pai. Eu espero que ela o aceite, mas, se ela disser não, conversa encerrada. — Eu jamais faria uma mulher sentir-se obrigada a se casar comigo — replicou George, mal disfarçando a contrariedade. Foi quando Alice entrou no salão. George aliviou-se ao vê-la sã e salva, mas sua apresentação, considerando que havia visitantes, era deplorável. O cabelo estava mais desgrenhado do que lã na beira da estrada, e ele nunca vira uma mistura mais bizarra de roupas femininas e masculinas. Em seus olhos castanhos ainda brilhava a travessura, mas ela parecia mais submissa agora, talvez devido à presença do pai, ou à companhia daquele grandalhão ruivo que certamente se alimentava só de cerveja e bife malpassado. - ! -14
  15. 15. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Mas então ela lançou um olhar cúmplice ao acompanhante, seguido de um sorriso discreto. Será que ela nutria algum sentimento por aquele tipo grosseirão, que parecia desconhecer a existência do sabonete, quanto mais seu uso? Só que o grandalhão a ignorava, concentrado em encarar de modo hostil o visitante de sir Thomas. George ficou tentado a sacar a espada e ensinar-lhe boas ma- neiras na marra. — Filha, este é sir George de Gramercie — apresentou sir Thomas. — Sir George, lady Alice. — Bem-vindo, sir George — retrucou a jovem, gentilmente. De pé, George deu-lhe seu sorriso mais encantador e inexpressivo, do tipo que reservava aos nobres cabeça-oca na corte real. Alice estreitou o olhar e endireitou os ombros, desafiadora. — Este é Rufus Hamerton... sir Rufus Hamerton — emendou. George dedicou ao homem o mesmo sorriso. Era imenso o contraste entre o sorrisinho inócuo de George e o escárnio que transbordava de seus olhos azuis, constatou Alice. Só havia uma explicação: ele a reconhecera lá na estrada, mas fizera seu jogo, comportando-se como um gentil- homem. Agora, vingava-se com aquela atitude insípida, arrogante, inclusive para com Rufus, a quem obviamente desprezava. — Traga mais duas taças — ordenou sir Thomas ao pajem. — Sente-se, Rufus, Alice, junte-se a nós. O silêncio reinou enquanto o menino, nervosamente, despejava vinho nas quatro taças. — Lembra-se de sir George, Alice? — indagou sir Thomas. — Sim, pai, eu me lembro. Ela lançou um olhar demorado ao visitante, observando a elegância com que segurava a taça de vinho, os dedos esguios junto ao suporte. Todos os homens que conhecia agarravam a taça como se fosse uma arma. — Passou muito tempo longe — comentou Rufus, sorvendo a bebida em grandes e sonoros goles. — Sim, estava de serviço com o barão DeGuerre — informou Sir George, de um jeito lânguido. — Quando me chamaram para casa, não imaginava que meu pai estivesse tão mal. Aliás, depois que ele pareceu falecer, apertei meu punhal na ponta de seu dedo para ter certeza de que o padre não se enganara. Mas meu pai estava mesmo completa mente morto... Seu tom era tão prosaico que Alice nem soube o que pensar. Rufus apenas o encarou, boquiaberto, ao passo que sir Thomas estava quase perplexo. — Estou certo de que concordará, sir Thomas, em que teria sido negligência minha faltar em meu serviço com o barão voltando para casa cedo demais — retomou George, indiferente às reações da platéia. — O senhor não quereria que seus filhos, - ! -15
  16. 16. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore todos a serviço de vários senhores nobres, corressem para sua cabeceira, a menos que estivesse em perigo iminente de morrer... Sir Thomas limpou a garganta. — Não, não quereria. — Foi o que pensei. Agora, se puder fazer a gentileza de mostrar meus aposentos, gostaria de me recolher e trocar de roupa para o jantar, o qual, tenho certeza, estará delicioso. — George deu uma boa olhada em Rufus. — Acho que deveria se banhar. — Claro, claro, como quiser — concordou sir Thomas, estalando os dedos para o pajem. — Ei, você, aí! Conduza sir George aos aposentos na torre oeste. George já se levantava. — Aposentos separados para hóspedes? — comentou. — Que moderno! — Executou uma profunda e graciosa reverência. — Sir Thomas, agradeço a amável recepção. Sir Rufus, bom dia. Lady Alice, foi um prazer. Espero revê-los à ceia. Alice observou sir George afastar-se. Tão logo ele desapareceu na curva da escadaria de pedra que levava ao alto da torre, voltou-se para sir Thomas. — Como alguém pode falar assim da morte do próprio pai? O castelão não respondeu de imediato. Tudo indicava que também imaginava que tipo de homem convidara para visitar seus domínios. Mas logo superou a incredulidade e retomou a costumeira expressão severa. — Ele esteve afastado muitos anos — procurou justificar. — A serviço do barão DeGuerre, conforme informou. Alice estava cada vez mais confusa. Pelo que sabia do barão, este não suportaria a presença de um bufão como sir George por muito tempo. Rufus deu-lhe um sorriso cúmplice e ponderou: — Quem aguentaria ura cretino desses por perto? — Trata-se do melhor lutador saído destas terras, com exceção de meus filhos, é claro — explicou sir Thomas. — Não se iluda por sua compleição pequena. Ele é magro, mas resistente... e o melhor corredor que já vi. — Francamente, pai, é difícil acreditar que ele seja algo mais do que acabamos de ver. — É aí que se engana — replicou o castelão. — George não é nenhum idiota, embora pareça. — Pousou a taça. — Rufus, transmita aos homens a senha para esta noite. E aliança. O grande cavaleiro ruivo levantou-se, curvou-se para pai e filha e retirou-se do salão. Alice também se levantou, mas o pai ordenou-lhe que se sentasse outra vez, inquirindo: — O que acha dele para marido? — E perfeito... para outra mulher! — esbravejou ela. - ! -16
  17. 17. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Quero que se case com ele, — Não era um desejo, nem uma opinião. Era uma ordem. — As terras dele fazem divisa com as nossas, e ele é o grande favorito de DeGuerre. Para completar, é rico, com amigos poderosos, apesar das maneiras. Alice cerrou os punhos e encarou o pai desafiadora. — Pai, pensei que... — Por acaso perguntei o que pensou? — repreendeu o castelão. — Concordo em que o camarada está meio preguiçoso, mas algumas semanas aqui o farão recuperar a forma. — Sim, pai. — Cabe a mim decidir com quem você vai se casar. Lembre-se disso, Alice. — Sim, pai. — Vai usar seu melhor vestido esta noite, e dispensar a sir George toda a cortesia que alguém de sua posição merece. — Sim, pai. Em tom mais brando, sir Thomas finalizou: — Agora, pode ir. Alice não demonstrou o que sentia ao sair do salão, mas assim que pôde foi correndo ao encontro de Rufus, que falava com os guardas. Assim que ele saiu da guarita, agarrou-o pelo braço e puxou-o para um canto escuro. — Meu pai ordenou que eu me case com ele! — lamuriou-se, desesperada. — Como se eu fosse criança! O cavaleiro fitou a moça zangada, cônscio de que tratavam de um evento bastante passível de ocorrer. As ordens de sir Thomas sempre eram cumpridas. Incluindo o casamento da filha. Tinha de acontecer algum dia, evidentemente. Conhecia Alice havia anos e sempre soubera disso, mas na verdade nunca a vira como mulher. Agora que era obri- gado a vê-la como mulher casadoura, percebia que lamentaria muito perder uma amiga assim. Alice casada. Com aquele pavão do sir George. — Mas o que você acha dele? — indagou Rufus. Seria pior se se tratasse de um homem que ela não podia respeitar, quanto mais gostar. — Ele se veste muito bem — desdenhou ela. — Seu pai disse que ele é um bom lutador. — Só acredito quando vir com meus próprios olhos. — Ele tem amigos poderosos. — Todo bufão tem. — Ele é rico. — Não será por muito tempo se continuar gastando em roupas. — Acha mesmo que seu pai vai obrigá-la a se casar com ele? Alice não vacilou ao fitar o cavaleiro nos olhos. — A menos que alguém melhor me peça primeiro. - ! -17
  18. 18. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore ! ! CAPITULO TRÊS ! ! Rufus sentiu-se mal de repente, pois não havia equívoco quanto ao significado das palavras de Alice, ou ao anseio em seus olhos. Ela queria que ele a pedisse. Mas ele jamais poderia casar-se com ela. De fato, nunca lhe ocorrera tal idéia em todos aqueles anos vivendo no castelo Dugall. E se houvesse ocorrido, teria parecido um despropósito. Era mais fácil considerar casar-se com sir Thomas do que com a filha dele! Rufus queria uma mulher feminina, uma criatura meiga e terna que o acalmasse quando estivesse nervoso, em vez de puxar briga. Uma mulher que lhe servisse comida e bebida aguardando esperançosa um elogio, não alguém que devorasse pão, carne e cerveja como um soldado faminto. Que o respeitasse como o chefe da casa, em vez de responder de modo impertinente. E que fosse dócil, amorosa e carinhosa na cama. Alice podia ser tal mulher? De jeito nenhum. Muito menos na cama. Seria como... dormir com um irmão mais novo. Mal conseguiu disfarçar o desgosto ante a imagem. — Eu... eu tenho umas tarefas a cumprir — tartamudeou, dando alguns passos para trás. Então, voltou-se e fugiu apressado, deixando Alice sozinha na sombra da muralha. George apreciou com vagar o aposento no qual passaria a noite. Era tão desguarnecido e desconfortável quanto uma cela de penitência. Nada de colchão de penas, só uma rede de cordas esticada entre as traves da cama. Uns poucos cobertores. Sem braseiro. Sem tapetes. Uma banqueta. — Serei martirizado nesse casamento? — murmurou, para si mesmo. — Como, meu senhor? — indagou timidamente o pajem a suas costas. George esquecera-se de sua presença. — Sir Thomas não põe fé no luxo, põe? — Vendo que o garoto não estendia nada, achou melhor dispensá-lo. — Pode ir. Sozinho, esfregou as mãos para aquecê-las e desfez a bagagem, satisfeito por ter incluído um colchão de penas, cobertas grossas, um braseiro, carvão e até um tapete. Conhecendo bem sir Thomas, prevenira-se a fim de não amanhecer congelado. Foi até a janela estreita e contemplou as colinas e prados além das muralhas da fortaleza. Do outro lado da torre, em dias bem claros, provavelmente conseguiria avistar seu próprio castelo. - ! -18
  19. 19. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Ravensloft não era tão imponente quanto o castelo Du-gall, e nenhuma construção desse tipo dia ser considerada confortável, mas ao menos seus aposentos eram mais acolhedores do que aquele. O que Alice Dugall acharia de sua morada? Acharia bem diferente, mas se iria aprová-la ou não, não tinha idéia. Tampouco imaginava como ela reagiria à sugestão de que um bom banho e um vestido limpo melhorariam bastante sua aparência. Ela devia ficar bonita, bem arrumada. De qualquer forma, havia um brilho sedutor em seus olhos e uma franqueza em sua atitude que a tornavam uma das jovens mais fascinantes que conhecera recentemente. Aliás, estava ficando excitado só de pensar nela. Nunca imaginara que Alice Dugall pudesse excitá-lo assim... considerando que nem estava presente. Talvez ainda estivesse no salão, com sir Rufus Hamerton. George ficou sério. Aparentemente, Alice preferia aquele grandalhão grosseiro, que ignorara a atenção dela, concentrado que estava nele, mas sem o menor sinal de inveja, ciúme ou mesmo preocupação quanto a ela. Tratara-se mais de uma avaliação por parte de Hamerton da sua capacidade de luta como guerreiro. Que especulasse o quanto quisesse, pois tinha certeza de que, se um dia se confrontassem num combate ou num torneio, triunfaria. Por experiência, já adivinhara que tipo de lutador era Rufus: só músculos importavam, bem como tamanho e peso. No entanto, ao enfrentar um oponente mais racional, de raciocínio mais rápido e movimentos mais ágeis, a derrota era certa. Pobre Alice, se de fato nutria por Hamerton um sentimento não recíproco. O amor não correspondido constituía um jogo tolo que nunca experimentara. Na verdade, considerava-o uma humilhante falta de amor-próprio, e era incrível que uma mulher orgulhosa como Alice Dugall houvesse caído em suas malhas. Para completar, tinha quase certeza de que Rufus Hamerton era do tipo que bastava dar um tapa no bumbum de uma mulher para conquistá-la. Ou talvez fossem apenas amigos. Notando uma movimentação nas sombras lá embaixo, George inclinou-se pelo vão da janela e viu Rufus caminhando a passos largos como se uma missão o aguar- dasse. Segundos depois, Alice surgiu correndo na direção oposta, rumo ao portão principal do castelo. Mas o que significava aquilo? Um encontro de amigos... ou de amantes? Talvez, fosse dissimulada aquela falta de atenção de Hamerton pela filha do castelão, embora não pudesse imaginar o porquê disso. Cerrando o punho, considerou que talvez não houvesse errado tanto o alvo ao sugerir que Alice estava naquela beira de estrada para um encontro secreto com um amante. - ! -19
  20. 20. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Golpeando com força o assento da banqueta, sorriu ao tomar uma decisão. Qual fora mesmo seu comentário com o capataz Richard? Que Alice Dugall atrairia um homem que apreciasse desafios? Um arrepio prazeroso percorreu-lhe o corpo, como sempre acontecia quando entrava numa disputa que sem dúvida venceria. E aproveitaria para mostrar àquele grandalhão ruivo como um cavalheiro seduzia uma dama. Sempre que estava chateada, Alice se refugiava no pomar. Ao passar pelos soldados de sir George enquanto descarregavam sua bagagem, notou a quantidade exagerada de baús e pacotes. Para que tanta roupa?, cogitou, desdenhosa. Rufus não ligava a mínima para roupas. Aliás, parecia não ligar para nada além de suas armas e lutas. E para ela. Apesar de sua reação lá no pátio, sabia que ele gos- tava dela. Subiu ao topo da macieira mais alta. Logo todas explodiriam em flores, mas por enquanto só se viam folhinhas novas. Apreciando o campo em torno, deteve o olhar na colina próxima ao castelo de sir George. Em dias claros, era visível dali. Se se casasse com ele, ao menos iria viver próxima ao castelo do pai. A propriedade da família de Rufus ficava distante, bem para o noroeste, quase na fronteira com o País de Gales. Não gostaria de se mudar para tão longe. A casca da macieira estava úmida e pegajosa, mas entre seus galhos sentia-se tão à vontade quanto em seus aposentos. Passando para um ramo ainda mais no alto, olhou melancólica para a torre oeste do castelo Dugall. Homens! Eram todos impenetráveis, incluindo seu pai! Será que ele não enxergava que ela preferiria casar-se com um pavão do que com sir George de Gramercie? Ele estava longe de seu ideal. Rufus era seu ideal de homem. Um guerreiro forte, valente, que a tratava como um igual. Ou como um escudeiro, corrigiu-se. Bem, era melhor do que ser tratada como apenas uma mulher, uma criatura frágil e tola totalmente dominada. Se era aquele tipo de noiva que sir George estava procurando, certamente entrara no castelo errado! Não era isso o que Rufus queria. Compenetrada, recordou a mudança de expressão do cavaleiro quando ela sugerira que ele pedisse sua mão. Ele ficara surpreso e... desalentado. A surpresa era compreensível, toda aquela conversa sobre casamento assustava-a também. Mas por que o desalento? Não era possível que ele nunca houvesse notado sua afeição. Ou será que achava que sir George tinha alguma chance de conquistá-la? Te- meria que seu pai favorecesse George em detrimento dele? Evidentemente, o fato de as terras dele fazerem divisa com as de Dugall pesava, mas ao se compararem os atributos pessoais dos pretendentes... - ! -20
  21. 21. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Por mais que refletisse, não conseguia amainar a aflição. Não ousava desobedecer ao pai diretamente, não, teria de ser sutil. Provar-lhe-ia que sir George simplesmente não servia. Oh, o que estaria havendo com Rufus? Sempre foram tão amigos, tão companheiros, a exemplo de seus irmãos... Irmãos. Rufus a tratava como a um irmão. Ele não pensava nela como mulher! Via-a como um escudeiro, um camarada, não como uma mulher a ser cortejada. Olhou para as roupas que trajava, a calça sob a saia, a túnica que seu irmão mais velho descartara. Tocou no cabelo, preso numa trança desgrenhada, e nas faces bronzeadas, Tinha que mudar. Tinha que mostrar a Rufus que era uma mulher. Uma mulher perfeita para ser sua esposa. Desejosa de ser sua esposa. Ansiosa por ser sua esposa. E viu-se assaltada por dúvidas. O que sabia sobre ser mulher, além das diferenças físicas básicas? Não sabia se vestir, nem arrumar o cabelo, nem caminhar do jeito gracioso que percebera nas poucas mulheres que um dia visitaram o castelo Dugall. Mas logo recuperou a confiança. Afinal, tinha dois belos vestidos. Um estava velho, mas o outro, seu pai lhe comprara no ano anterior. Estaria já pensando em casá-la? Bem, a idéia de casamento em si não a perturbava. Tinha apenas de garantir que se casasse com o homem certo. Ou seja, com Rufus Hamerton. ! Refrescado após o banho que o livrara da poeira da estrada e à vontade na túnica escarlate nova cuja barra roçava o topo de suas botas finas, George deteve-se à entrada do salão e apreciou a movimentação. Conforme imaginara, não se avistava nenhuma mulher. Viam-se, sim, vários cavaleiros de compleição e temperamento semelhantes aos de Rufus, todos à espera da ceia. Conversavam sobre os treinos executados e a programação de exercícios para o dia seguinte. Sir Thomas orgulhava-se de sua habilidade para descobrir e treinar os melhores lutadores da Inglaterra e, apesar de não ser o único senhor a aspirar a tal honraria, sem dúvida era o que mais se empenhava nesse sentido. Ocorreu-lhe que Alice Dugall devia ter conhecido muitos homens enquanto se criava ali, já que sir Thomas recusara-se a despachá-la para um colégio, numa quase demonstração de sentimentalismo pela filha única, o que não era pouco em se tratando do duro castelão. Lamentável, não obstante, pois os ensinamentos de uma mulher teria beneficiado muito Alice. - ! -21
  22. 22. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Talvez devesse voltar atrás na decisão de conquistar Alice Dugall, considerou George. observando os rudes cavaleiros ao redor. Se ela queria Rufus, que ficasse com ele. Quanto à possibilidade de Rufus não querê-la, não era de sua conta. Então, a suas costas, George ouviu o característico farfalhar de uma saia. Voltando-se, viu Alice de pé no degrau. Ela trajava um vestido de veludo verde-escuro não muito bem ajustado a seu corpo, a julgar pelo decote meio frouxo que expunha o topo dos seios perfeitos, ao passo que o resto do corpete a apertava demais até chegar à cintura fina. As mangas compridas debruadas com um tafetá verde-claro quase tocavam o chão, misturando- se aos panos da saia que descia acompanhando seus quadris estreitos. Ela prendera o cabelo castanho numa trança mais bem-feita desta vez, e alguém tentara entrelaçar uma fita verde, sem obter um bom resultado. Alguns fios de cabelo rebelde já escapavam, enfeitando-lhe as bochechas rosadas. Finalizando, ela calçara as mesmas botas enlameadas que ele já vira tantas vezes. Alice sorriu graciosa, e George se animou... até perceber que o sorriso era para Rufus Hamerton, que integrava um grupinho particularmente barulhento junto à lareira. Recuperando-se rápido, George aproximou-se e fez uma mesura. — Como está encantadora — sussurrou, em tom sedutor, dando-lhe seu sorriso mais charmoso. — Essa cor lhe cai com perfeição. Alice enrubesceu e George concluiu que estava no caminho certo. — Aliás, pensei que um anjo houvesse caído quando a vi... Os olhos castanhos faiscaram de desdém. — Anjos vestem branco — sibilou. George tentou se recuperar: — Claro! Acho que perdi o juízo ante sua beleza... — Ignorando a expressão brava dela, tomou-lhe a mão. — Minha senhora, permita-me escoltá-la a seu lugar na mesa. Ela se retraiu. Ele usou a mão livre para prender a dela. Rufus interrompeu a conversa com os amigos e deu um passo na direção deles. — Alice? — Boa noite, Rufus — cumprimentou ela, escapando de George. — Deus do céu, Alice! — exclamou o cavaleiro ruivo, percorrendo-a com o olhar de um jeito muito atrevido. — Eu não sabia que você tinha um vestido bonito assim! — Como pode ver, eu tenho — replicou Alice, lançando um olhar de desprezo a George antes de tomar o braço de Hamerton. Fingindo indiferença, embora fervesse por dentro, George passou à frente deles e foi se recostar à mesa principal. - ! -22
  23. 23. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Nesse instante, entrou sir Thomas, acompanhado de um padre que parecia tão apto a manejar uma espada ou uma maça quanto qualquer cavaleiro no salão. — Alice? — chamou o castelão. Ela deu meia-volta. — Sim, pai? Nem o implacável sir Dugall conseguiu disfarçar a admiração pela beleza da filha, mas repreendeu com energia: — Você não indicou ao nosso visitante seu lugar à mesa. — Ah, sim! — Ela se virou para George, seu rosto puro desdém. — O senhor se sentará à direita de meu pai — informou, indicando o lugar. — Claro — concordou ele, sem se mexer. — E a senhora...? — A seu lado — completou Alice, fria. George se endireitou e foi tomar seu lugar, cordialmente puxando a cadeira para a dama. Ela contornou a mesa e jogou-se no assento como uma criança rebelde, sem perceber que o decote arreganhado permitia uma bela visão de seus lindos seios. Rufus fez uma mesura rápida e foi se acomodar em outra mesa, para alívio de George. O padre conduziu uma breve oração, num singular tom sedento de sangue ao rogar a Deus que abençoasse os presentes e esmagasse os inimigos. Tão logo terminou, o salão foi tomado pela cacofonia, como se berros fossem o meio de comunicação preferido. A comida era simples, mas abundante. Após saboreá-la, George decidiu tomar a ofensiva junto a Alice: — Sir Rufus parece admirá-la, mas sem dúvida ficou surpreso quando entrou, como se não soubesse que era tão bonita... Alice arrancou um belo naco de pão e enfiou-o inteiro na boca, sujando as mangas do vestido no prato ao fazê-lo. — Acha mesmo? — retrucou, de boca cheia. George mal disfarçou o choque ante tantas grosserias, mas não desistiu do cortejo. — São amigos há bastante tempo, presumo. — Ele está aqui há dez anos — informou Alice, antes de limpar a boca nas costas da mão e arrotar. Nenhuma mulher da classe nobre podia ser tão mal-educada à mesa, concluiu George, servindo-se de uma fatia de pão. — Imagino que um sujeito forte como sir Rufus seja bom de luta... — Muito bom. Em todo tipo de luta. — Alice arrancou uma perna de um frango assado. — E ele sabe ler? Ela parou de mastigar e olhou-o pasma. — Ler? Para que ler? Ele não é padre... - ! -23
  24. 24. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — E claro que o voto de castidade seria um pouco demais para ele — ironizou George. — É o tipo de sujeito que dorme com uma mulher diferente a cada noite, quando tem dinheiro para pagá-las... Alice estreitou o olhar, e George concluiu que ultrapassara o limite. — Perdão, lady Alice, por falar dessas coisas diante de uma senhora. Ela tentou engolir o que já mastigara, mas engasgou e começou a tossir. Ela deu-lhe um tapa nas costas e a carne entalada voou para fora da garganta. — O que foi que houve? — quis saber sir Thomas, contrariado por ter de interromper sua conversa com o padre Denziel. — Engasguei com um pedaço de frango, pai — explicou Alice. A mão de George continuava em suas costas. Parada. Apenas... presente. Quente e forte. Perturbadora. Sir Thomas voltou a conversar com o padre e Alice remexeu os ombros até o acompanhante tirar a mão. — Já estou muito bem, sir George — declarou, ainda sentindo os vestígios de pressão e calor no ponto em que ele a tocara. A culpa era daquele vestido, decotado demais na frente e nas costas! Nunca mais o usaria, apesar dos elogios de sir George, de Rufus e dos olhares de admiração dos demais cavaleiros e até de seu próprio pai. Então, olhando para Rufus, que ainda saboreava as carnes e a cerveja entre os amigos, concluiu que estava era decepcionada ante o rumo que os acontecimentos to- mavam naquela noite, bem diferente do que planejara. E a culpa não era do vestido... A idéia era flertar com Rufus na cara de sir George, mas o grandalhão ruivo esquecia-se de tudo na hora da comida, e não olhara para ela nem uma vez desde o início da ceia! Como flertar com alguém assim? Não, Rufus não podia acreditar que ela preferia aquele almofadinha perfumado e engalanado em túnicas bordadas que se alimentava com a delicadeza de uma freira! Ou será que sentia-se inferior porque George era rico? Teria concluído que não podia disputá-la devido à falta de riqueza de sua família? Mas que importância tinha isso se ele gostava dela assim como ela gostava dele? Deveria saber que não lhe interessavam riquezas, mas o homem em si. — Estou contente em ver que já se recuperou — comentou sir George, gentil. Alice encarou-o detidamente, notando aquele terrível contraste entre o sorriso afetado e o olhar astuto, tão diferente do de Rufus, que era pura amizade. Correndo o olhar pelo salão, avistou Rufus outra vez e desejou juntar-se a seu grupo. Como gostaria que a chamasse para sua mesa. Como gostaria que ele ao menos a procurasse com o olhar. Qualquer coisa que a afastasse daquele sir George, com quem jamais simpatizaria! ! ! - ! -24
  25. 25. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore CAPÍTULO QUATRO ! ! Na manhã seguinte, Alice, com seu costumeiro conjunto de camisa, saia encurtada, calça e túnica com cinto, subiu correndo a escadaria estreita que levava aos aposentos de Sir George levando uma pilha de lençóis limpos. Se alguém a visse, pensaria que ela se dispusera a trocar a roupa de cama do hóspede, embora fosse tarefa para um criado, e não desconfiaria de seu verdadeiro intento. Queria entrar no quarto e ver o que compunha sua bagagem tão volumosa, em busca de mais indícios de sua inadequação para tornar-se seu marido. Abafou um bocejo. Na noite anterior, risadas altas e vozes masculinas impediram-na de adormecer por um bom tempo após se recolher. Curiosa, fora espionar o saião e vira Sir George no meio de um animado grupo de soldados, divertindo-os com histórias de vários torneios dos quais participara. Não gostara nem um pouco de ver Rufus totalmente absorto pela voz melíflua do hóspede, que relatava com modéstia, e não com exibicionismo, verdadeiras façanhas. O grandalhão ruivo parecia até admirá-lo! Se bem que até ela permanecera uma hora ali nos degraus, ouvindo escondida... Precisava encontrar provas de que o distinto sir George, ainda que se destacasse nos torneios, estava acostumado demais a uma vida mansa para ser um marido adequado a Alice Dugall. Chegando ao quarto dele, esgueirou-se rapidamente para o interior e fechou a porta. O que surgiu diante de seus olhos a fez recostar-se e apertar os lençóis contra o peito, boquiaberta. Era como se, de repente, houvesse sido transportada para o palácio de um sultão. Sobre a espartana cama de cordas havia agora o colchão de penas mais espesso e de aparência mais macia que ela jamais vira, sobre o qual empilhavam-se cobertores grossos e uma colcha de pele, além de várias almofadas coloridas. No piso havia um tapete também multicolorido e tão espesso que qualquer um recearia pisar nele. Um braseiro de bronze, cheio de carvão, enfeitava um canto, e junto à janela havia agora uma mesinha entalhada com a bacia e a jarra essenciais. Num outro canto, uma grande banheira de madeira ainda exalava os resquícios de um banho perfumado. Então, ao lado da bacia e jarra sobre a mesinha, encontrou a verdadeira origem daquele aroma tão gostoso. Embrulhado em tecido fino, um sabonete, que aproximou do nariz, deixando-se embriagar por seu perfume quase lascivo. Sem poder evitar, imaginou Sir George deslizando-o sobre a pele ao longo de todo o corpo molhado, nu... Alice olhou de novo para a cama transformada. Qual a sensação de dormir num colchão tão macio, aconchegando-se nas cobertas quentes como um bebé num berço? - ! -25
  26. 26. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Com um arrepio de languidez, lembrou-se de que não era mais um bebê, mas uma mulher... Então, pela abertura da janela, chegou o som característico de espadas em treinamento, acompanhado das inevitáveis vozes masculinas incentivando a violência. Os cavaleiros iniciavam as atividades do dia. Pois iria agora mesmo ao pátio e contaria ao pai o que acabara de ver. Tinha certeza de que ele compartilharia seu desdém por um homem que se cercava de tamanha opulência decadente. Apesar do maravilhoso perfume de seus sabonetes! ! Infelizmente, sir Thomas não comparecera aos exercícios naquela manhã, constatou Alice, olhando em torno enquanto se aproximava dos cavaleiros que se aglomeravam em torno de dois homens circundando um ao outro, prestes a iniciar combate. Tratava-se de Rufus, despido da cintura para cima e suando em bicas, e de sir George, também sem camisa, mas sem sinal de transpiração e com a calça tão bem ajustada que mais parecia uma segunda pele. Quando poderia imaginar que, sob a roupagem luxuosa, Sir George ocultasse ombros tão largos e musculosos, braços esguios e rijos, cintura estreita e pernas tão fortes? E devia estar em ótima forma, uma vez que não demonstrava o menor sinal de exaustão, contrastando com Rufus, que já bufava e parecia sucumbir ao próprio peso. Rufus era um dos melhores lutadores do castelo, capaz de manejar a larga espada como se fora um punhal e que costumava subjugar os oponentes em minutos, no entanto, agora parecia lento e desajeitado. Alice não demorou a descobrir por quê. Sir George deslocava-se com tamanha leveza e agilidade que era quase como se dançasse com Rufus, e não aguardasse sua investida. Quando o grandalhão ruivo descia a espada, sir George já não estava no local visado, mas em outro, arisco como um pássaro. Ao levantar sua espada, por sua vez, sir George o fazia com uma força e destreza que Alice jamais imaginou que ele possuísse. Sorrindo divertido, ele continuava "voando" de um ponto a outro com graciosas passadas. Era um dos melhores guerreiros que ela já vira. Aproximando-se um pouco mais da falsa contenda, Alice percebeu que não avaliara corretamente a expressão de sir George. Apesar do sorriso sempre presente em seus lábios, havia um inequívoco brilho de determinação em seus olhos. Sendo assim, a vitória importava-lhe, ainda que disfarçasse os sentimentos muito bem, ao contrário de Rufus, que ora berrava de frustração e investia como um urso com um espinho na pata. Longe de se expor ao ataque selvagem, sir George girou o corpo de repente e pôs o pé na frente do oponente, que se espatifou no chão. Antes que Rufus se levantasse, George embainhou a espada e estendeu-lhe a mão. - ! -26
  27. 27. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Não quero sua ajuda — grunhiu Rufus, erguendo-se com dificuldade. — Onde foi que aprendeu a fazer isso? — Um amigo de meu pai ensinou-me. Urien Fitzroy... já ouviu falar? — Sem esperar resposta, sir George deu de ombros. — Um sujeito formidável e ótimo instrutor, pode crer. Rufus aquiesceu com um grunhido. Por fim, sir George viu Alice. — Lady Alice! — exclamou, parecendo realmente contente. — Não imaginei que... — Olhou para o próprio peito nu e tartamudeou: — Desculpe... — E foi vestir a túnica. — Alice, você viu aquele movimento? — indagou Rufus, ofegante, nem um pouco constrangido por estar seminu. E por que deveria estar? Ela já o vira, e a todos os cavaleiros do castelo, em trajes até mais sumários, milhares de vezes. Além disso, tinha seis irmãos, de modo que estava mais que familiarizada com o corpo masculino. Mas por que Rufus não a fitava nos olhos? Sem esperar a resposta dela, Rufus voltou-se para George, ordenando: — Explique como fez aquilo! Agora de túnica, sir George apresentou-se novamente, trazendo na mão o cinto com a espada embainhada. — Perdoe-me por aparecer tão mal vestido, minha senhora — pediu, com expressão pesarosa. — Preciso de um banho. Alice recordou o aroma de seu banho perfumado e corou. Estranho como se enfraquecera de repente sua determinação em desprezar o fútil sir George. Teria sido a exibição de músculos e destreza? Ou a visão da cama confortável em que ele dormira e da banheira em que refrescara o corpo que, agora sabia, podia levar qualquer mulher a um estado febril? — Eu... eu só vim saber se não gostariam de tomar um refresco — justificou- se, embaraçada. Rufus franziu o cenho. — É cedo ainda. — Ótima sugestão — replicou George. — Contanto que nos acompanhe, minha senhora. — Devemos treinar até o meio-dia — observou Rufus. Alice enrubesceu de novo. Seu pai era muito rigoroso quanto aos horários de treinamento. Sir George olhou reprovador para o cavaleiro ruivo. — E muito gentil da parte dela oferecer um refresco a um hóspede, que certamente não está sujeito às restrições de sir Thomas em suas atividades diárias. E, para ser franco — fitou Alice de modo galanteador —, estou bastante sedento. Alice desviou o olhar, desacostumada a esse tipo de atenção masculina. - ! -27
  28. 28. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Oh... acabo de me lembrar... preciso falar com o falcoeiro. Um dos pajens pode lhe trazer uma taça de vinho. Tenho certeza de que encontrará algum deles no salão, ou na cozinha. E só pedir... — Enquanto isso, mostre-me como executou aquela movimento — insistia Rufus, ainda inconformado com a derrota. — Com prazer — cedeu George, educado, dedicando a Alice outro sorriso sedutor, os olhos azuis sempre penetrantes. — Uma vez que estarei despojado de sua companhia, resta-me ensinar o pequeno truque a seu amigo... Alice decidiu afastar-se de sir George de Gramercie sem mais demora. Só então pararia de lamentar o fato de ele ter-se vestido e, talvez, seu coração voltasse ao compasso normal. — Após o almoço, podemos cavalgar juntos, se quiser, Sir George — sugeriu ela, arrependendo-se no mesmo instante. Não podia ficar sozinha com aquele homem, à mercê de seus sorrisos, de seus olhares e, principalmente, de seu corpo de Adónis! — Gostaria muitíssimo, minha senhora — aceitou George, sem pestanejar. — Até mais tarde, então. Alice afastou-se apressada, até não ouvir mais as vozes dos homens que se exercitavam. Recostada numa parede, reforçou a decisão de convencer o pai de que sir George não servia para seu marido, ainda mais agora, que ele ameaçava seduzi-la a cada passo. Para compensar o desatino que fora convidá-lo para uma cavalgada, iria tratá- lo com a máxima frieza e formalidade, deixando bem claro que, como filha do castelão, apenas cumpria a obrigação de entretê-lo como hóspede. Porque ela continuava querendo Rufus, apesar de todas as manobras de sir George. ! Após o almoço, George foi direto para o estábulo, muito bem-humorado, ao encontro de Alice. Sem dúvida, naquela manhã, provara-lhe sua perícia como espadachim, e agora ela sabia que, enquanto Rufus se valia de seu tamanho, ele impunha a habilidade e a experiência. Não que temesse qualquer tipo de competição com Rufus. Não mais. Lembrou-se dos lençóis limpos que encontrara dobrados sobre a banqueta em seu quarto. Alguém estivera lá, e podia adivinhar quem... alguém que se impressionara com seu sabonete, um artigo raro que fazia vir de Constantinopla. Os amedrontados pajens de sir Thomas ou qualquer outro criado jamais teriam se atrevido a tocar num objeto pessoal de um hóspede, quanto mais desembrulhá-lo. Já Alice não teria tido escrúpulos, aliás, ela provavelmente desobedecia toda regra que não se aplicava diretamente. Teria ela tocado em mais alguma coisa em seu quarto? O que achara da cama? Cogitara dividi-la com ele? Imaginara a ambos afundando-se na maciez das penas en- quanto ele a beijava, acariciava e amava? - ! -28
  29. 29. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Deus do céu, devia controlar os pensamentos, ou ficaria muito desconfortável na cela durante a cavalgada! Assim que contornou o estábulo, viu Alice já montada num enorme garanhão negro. Apertou o passo e sorriu. — Essa é a besta que a abandonou lá na estrada ontem? — brincou. — Este é Demon — confirmou ela, gélida. George estava impressionado cora a facilidade com que Alice controlava o animal arisco. — Sentimos sua falta no almoço. — Eu não estava com fome. — Seu pai também não se juntou a nós. — Eu sei. Parece que ele foi perseguir uns caçadores e deve voltar só à noite. — Coitado daqueles que ousam caçar nas terras de sir Thomas. — Coitado mesmo — concordou Alice. — Se me der licença, vou preparar meu cavalo... Antes que George desse um passo, um cavalariço surgiu trazendo sua montaria, um garanhão castanho quase um palmo menor do que Demon. — Este é Apolo — apresentou George, subindo à sela. — Podemos ir? — Claro! Alice fincou as esporas nos flancos do garanhão e partiu a galope. Pasmo, George viu-a disparar na frente e atravessar os portões a uma velocidade alucinante, fazendo servos e soldados se espalharem à beira do caminho. Sem alternativa, fez seu próprio cavalo acelerar, pedindo desculpas às pessoas enquanto seguia a trilha de Alice. Numa alegre corrida, Alice percorreu a estrada principal através da aldeia, espantando aldeões assim como fizera no castelo, depois os prados enlameados, onde os camponeses lançavam as primeiras sementes, então, num galope mais aceitável, trilhou o caminho pela mata ao longo do rio. George conseguira acompanhá-la com dificuldade, de modo que se aliviou ao vê-la pôr fim àquela corrida maluca. Devagar, atravessaram uma campina onde carneiros pastavam, pelo menos até serem espantados pela chegada dos dois garanhões. Então, Alice arrancou de novo com Demon rumo a um bosque ao pé da colina. George seguiu-a até alcançar o local sombreado, mas então desistiu de arriscar a si próprio e ao cavalo numa competição sem sentido. Alice tinha a vantagem de conhecer bem o terreno, que vencesse, então. A trote, George percorreu a trilha sentindo menos calor, mas não conseguiu aplacar o aborrecimento ante o comportamento infantil de Alice. No outro extremo do bosque, viu Alice desmontar do garanhão negro e levá-lo para junto de uns salgueiros, para tomar água num riacho, sem dúvida. - ! -29
  30. 30. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Também estava sedento, e um gole de água fresca faria maravilhas no sentido de que recuperasse a serenidade. Desmontando, conduziu Apoio até o riacho, prendendo as rédeas num galho. Não avistava Alice em lugar nenhum. — Você monta bem. Surpreso, George se voltou e viu-a recostada no tronco de um dos salgueiros, o rosto meio oculto pelos ramos flexíveis, os braços cruzados e a expressão tão desgostosa quanto a voz. — Você também, mas não creio que os guardas, os aldeões ou os camponeses aprovem sua comportamento. Brava, ela se desencostou da árvore e avançou afastando a cortina de galhos finos. — Não quero me casar com você — anunciou, franca. — Não? — retrucou George, com uma tranquilidade que não correspondia a seu estado de espírito. — Não. — Alice era toda desafio. — Bem, não posso acusá-la de tentar me seduzir fantasiada de criada. Mas posso saber por que minha proposta foi rejeitada antes mesmo que eu a apresentasse? — Não basta o fato de eu não querê-lo? Ele se esforçou para conter a raiva. — Seu pai faz gosto no casamento e existem alguns fatos a meu favor. — George foi até o riacho, pegou algumas pedrinhas e começou a atirá-las na água. — Sou rico. Sou generoso. Eu a trataria bem. Tenho boas relações com vários senhores poderosos. E não careço de certos atributos pessoais que as mulheres apreciam. — Esqueceu-se de dizer que é fútil e negligente — disparou Alice, com uma franqueza de fazer inveja a seu pai, postando-se a seu lado. Ele não disfarçou o espanto, — Trata-se de acusações sérias, minha senhora. Suponho que me considere fútil por usar roupas finas e guarnecer meus aposentos com itens confortáveis, e ne- gligente por não me dedicar aos treinos tanto quanto os demais cavaleiros. Voltou a atirar pedras na água. — Embora não veja por que me justificar se não vamos nos casar, declaro, em minha defesa, que não tenho dívidas e posso gastar meu dinheiro como bem entender. Se sua família prefere uma existência espartana, não tenho nada com isso. Quanto aos treinos, creio que meu desempenho nesta manhã provou que me exercito o suficiente para manter a forma. — Pois eu acho um pecado a forma como gasta seu dinheiro! — criticou Alice, raivosa. — Pense o que quiser, minha senhora. — George encarou a mulher que não o queria. — Mas, por favor, diga-me: o que é que deseja num marido? Compleição robusta? Peso respeitável? Braços grossos como troncos? Maneiras de um porco? Cabelo ruivo? Alice prendeu a respiração e cruzou os braços, mais desafiadora que nunca. - ! -30
  31. 31. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Eu quero um homem, não um palhaço! — Eu sou um homem. Ela fungou desdenhosa. — Imagino que possua as características físicas essenciais... mas é só. — Para a maioria das mulheres, isso é mais que suficiente. — Bem, não para mim! Quero um homem a quem possa respeitar. A quem possa admirar. Eu monto melhor do que você e com certeza atiro flechas com mais precisão do que você. Atrevo-me a sugerir que poderia até lutar melhor do que você, se precisasse. — Pode até ser, minha senhora — cedeu George, frio —, mas certamente cheiro melhor do que você. Ela engoliu em seco, chocada. Apoiando-se numa das pernas, ele a analisou lenta e atrevidamente. — Acho que sei qual tipo de homem a senhora acha que deseja para marido. Um homem incrivelmente forte, campeão nas artes masculinas cuja principal exigência seja a força bruta. Pois força é o que esse homem impõe em tudo o que faz, inclusive na cama conjugal. Força, não prazer, nem ternura. A princípio, a senhora de fato o respeitará, até perceber que ele lhe dispensa a mesma consideração que a seu cavalo, ou seu cão. — George impediu Alice de retorquir e prosseguiu: — Já vi o que acontece quando uma mulher é obrigada a se casar e não quero viver essa experiência. Portanto, acalme-se, minha brava Alice. Se não quer se casar comigo, simplesmente diga isso a seu pai e assunto encerrado. Alice tentou falar de novo, mas George ainda não terminara: — E quanto àquele bruto ruivo que a senhora parece achar tão fascinante, lamento informar que o sentimento não é recíproco. Ele a abandonou. — O quê? — Ele foi embora do castelo logo após o almoço. Com isso, George foi até seu garanhão castanho e pegou as rédeas. Por sobre o ombro, viu Alice imóvel, não mais desafiadora, num misto de surpresa e desalento. Tomado por um impulso primitivo que nunca sentira antes e esquecido do próprio orgulho, George voltou para junto de Alice e tomou-a nos braços, impondo um beijo quente a seus lábios tentadores. Desejo puro percorreu-lhe as veias quando ela pareceu derreter-se contra seu peito, sem resistência. Apertou-a com mais força e introduziu a língua em sua boca agora complacente. Mas não era de seu feitio tomar sem pedir, ou agir com egoísmo, por mais enlouquecido que estivesse, por isso mudou o beijo, tornando-o mais gentil, mais carinhoso, apenas sugestivo quanto à paixão que aguardava para ser liberada. Para seu deleite, Alice passou a corresponder com mais intensidade, como se o desejasse tanto quanto ele a ela. - ! -31
  32. 32. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Então, lançando mão de todo o autocontrole que possuía, George a afastou. Indiferente, fitou-a nos olhos obscurecidos de desejo, satisfeito em vê-la ofegante. — Vá, Alice, e diga a seu pai que não vamos nos casar. Ela engoliu em seco e deu um passo atrás, as pernas bambas. Tocou os lábios com a ponta dos dedos. Parecendo desesperada, correu até o garanhão negro e puxou-o para fora da água. Montando agilmente, partiu a galope e desapareceu bosque adentro. George suspirou e sentou-se no chão à beira do riacho. O que acontecera ali? O que fizera? Nunca experimentara nada como aquele desejo repentino e selvagem por Alice Dugall, e evitar aquele beijo teria sido tão impossível quanto parar de respirar. Até que ponto? Ninguém jamais lhe abalara o autocontrole daquela maneira, e toda cautela era pouca. Alice Dugall era perigosa demais para ser sua esposa. Encontraria outra mulher. Uma dama serena e dócil, que não o excitasse dessa maneira. Uma pessoa gentil, que não o enfurecesse a todo instante. Eis o tipo de esposa de que precisava. ! ! ! CAPÍTULO CINCO ! ! Nervosa, Alice enxugou os olhos e o nariz com as costas da mão. Não choraria por causa do que sir George de Gramercie lhe dissera. Nem por causa de Rufus, se ele fora mesmo capaz de partir sem se despedir. Sentada num galho forte da macieira, abraçou o tronco fino e encostou o rosto na casca áspera. Por que Rufus iria embora assim, de repente? A sugestão de desposá-la causara-lhe aversão a ponto de fugir? — Alice! Desça já daí! Surpresa, ela olhou para baixo e viu o pai muito bravo, mãos na cintura, as sobrancelhas grisalhas compondo uma carranca. — O que foi, pai? — Desça! Ela obedeceu, bem devagar. Ao pé da árvore, mirou o chão. — Que diabo você disse para sir George? — inquiriu o velho, possesso. Então, seu pai já se encontrara com sir George e estava a par dos acontecimentos. — Ele me disse que acha que não deve haver casamento — esclareceu sir Thomas. — Posso saber por quê? - ! -32
  33. 33. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Ele não apresentou um motivo? — Não! Disse apenas que eu devia falar com você! Alice deu de ombros. — Suponho que ele se ache inadequado... Sir Thomas era só fúria. — Inadequado? Que tipo de absurdo moderno é esse? Seria um casamento perfeito para ambos, qualquer um pode ver! — Mas, se ele tem outros planos, não devemos respeitá-lo? — aventou Alice, esperançosa. — Afinal, não é nenhuma criança que não sabe o que faz... O pai era mais astuto do que ela. — Mas certas mulheres parecem meninas que não sabem o que é melhor para elas. — Pai, eu... — Ele é rico, tem amigos poderosos, possui uma ótima propriedade e os melhores administradores do sul da Inglaterra a seu serviço. — Sir Thomas soltou um suspiro desalentado. — E tem boa aparência, se é que isso importa. O que mais você quer? Alice esfregou o dedão do pé na terra e deu de ombros, sem argumento. — Filha, sei que ele é diferente dos homens que está acostumada a ver, mas, creia-me, outros cavaleiros que pediram sua mão eram bem piores. Alice encarou o pai boquiaberta. — Outros homens pediram minha mão em casamento? — Um ou dois... Ela se encheu de esperança. — Rufus foi um deles? Sir Thomas olhou-a matreiro. — Não. — Vendo a decepção tomar conta da filha, abrandou-se. — Antes de partir, ele me pediu que lhe dissesse que lamentava se a levara a acreditar que... há algo com que eu deva me preocupar, Alice? Ela estufou o peito. — Não. — Ótimo. Mesmo porque, se ele houvesse pedido sua mão, eu lhe teria negado. Alice ficou boquiaberta de novo. — Mas por quê? — Trata-se de um bom homem e soldado de valor... mas também o tipo de sujeito que vive atrás de aventuras — explicou sir Thomas. — Ele não se sentiria satisfeito em casa, e a deixaria sozinha com frequência, por longos períodos. A contragosto, Alice reconheceu que o pai tinha razão, tanto quanto sir George, que descrevera quase que da mesma forma o tipo de marido que Rufus daria. Não obstante, continuava inconformada. — Sir George também viajou muito... — lembrou-o. - ! -33
  34. 34. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Mas agora está de volta ao lar e pretende ficar. Já teve seu quinhão de aventuras. Alice, ele será um bom marido, e creio que a fará feliz. — Sir Thomas nunca fora tão brando com a filha, mas sentia que era necessário nesse momento tão delicado de sua vida. — George parece meio indolente e fútil, mas, ainda que não sejam qualidades louváveis, são quase uma garantia de que ele sempre a tratará bem. — Com um suspiro, finalizou: — E as terras dele ficam junto às nossas. Não gostaria que você se mudasse para longe de mim. Aquelas palavras ternas, tão inesperadas e tão raras, fizeram Alice chorar de emoção. — O que me diz, então, filha? — inquiriu o castelão, pela última vez. — Sim ou não? — Não pode me dar mais tempo para decidir? — pediu ela. — Mal conheço o homem. — Não. Ele já está se preparando para partir, pois jurou não se demorar mais, fazendo-nos perder tempo. — Sir Thomas já ficava impaciente. — Que mais precisa saber dele? Vocês brincaram juntos na infância... Sim, haviam brincado juntos quando crianças, despreocupados, sem sequer imaginar o que era o casamento. Fitou a relva úmida sob os pés e contemplou o futuro. Amava Rufus, não amava? Mas ele não a amava. Sir George também não a amava, nem ela a ele. Contudo, aquele beijo à beira do riacho prometera tanto... Seu pai tinha uma ótima percepção dos homens, eis por que era tão bom comandante. Talvez houvesse descartado sir George um tanto precipitadamente... — Diga-lhe... — O quê? — apressou sir Thomas. — Diga-lhe para não partir — sussurrou Alice, sem encarar o pai. — Agora você está sendo sensata — aprovou o pai —, mas não serei eu a detê- lo. Ele pode pensar que estou obrigando-a a se casar e não concordará. — Ele disse isso? — Não precisou. Conheci o pai dele. São ervilhas da mesma vagem. Alice fitou o pai parecendo revoltada. — E eu não estou sendo obrigada? — Alice, se não quer mesmo se casar com esse rapaz, diga-o agora e o assunto estará encerrado. Mas duvido de que consiga um pretendente melhor, aliás, acho que pode arranjar coisa bem pior. Ela aquiesceu lentamente, tentando decidir o que fazer. Era tentador deixar sir George partir, mas quais seriam as consequências? Outros pretendentes se apresentariam no castelo Du-gall, certamente, mas e se nenhum deles a agradasse? Ficaria solteirona para o resto da vida? - ! -34
  35. 35. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore Poderia optar por algum outro cavaleiro parecido com Rufus, já que ele fugira dela como um covarde; no entanto, tanto seu pai quanto sir George praticamente a convenceram de que esse tipo de homem não dava bom marido. E sir George tinha a seu favor o fato de já tê-la beijado, combinando de forma excitante paixão agressiva e carinho delicado, deixando-a de pernas bambas e corpo latejante... Deu meia-volta e tomou o rumo do castelo. — E então, Alice, como vai ser? — inquiriu o pai, exausto. — Vou pedir a sir George que fique. George batia o pé impaciente enquanto seus soldados levavam do quarto o restante da bagagem. Teriam que partir logo se quisessem alcançar a antes do fim do dia a hospedaria a meio caminho entre o castelo Dugall e o seu, Ravensloft. Não pretendia demorar-se nem um minuto mais do que o necessário, ainda que sir Thomas aparentasse não saber sobre as idéias da filha. De fato, o castelão mostrara-se bastante incrédulo quanto ao resultado do último encontro entre ele e Alice, certo de que ocorrera algum equívoco. De sua parte, deixara bem claro que, se era considerado um pretendente inadequado, partiria imediatamente. Que sir Dugall se esfalfasse procurando o homem que finalmente agradaria à filha caprichosa, se bem que a chance de sucesso era remota... — Sir George? — chamou uma tímida voz feminina. Surpreso, ele se voltou da janela e viu Alice de pé à soleira da porta, de cabeça baixa, parecendo apreensiva. — Sim? — atendeu ele, meio seco, considerando que não se cultivava a amabilidade por ali. — O senhor... está de partida? — Estou, minha senhora. Não vejo por que permanecer onde não sou desejado. Alice entrou no aposento e olhou para as paredes, a janela, o chão... menos para ele. — Espero que não tenha se ofendido por algo que eu disse. George riu alto. — Ofendido? Só porque uma dama reage à idéia de casar-se comigo como a uma tortura? Imagine... — Não foi o que eu quis dizer. — Mas foi o que deu a entender. Agora, se me der licença, irei ver se meus homens não deixaram cair nenhum de meus pertences na lama. Surpreso, George viu Alice adiantar-se e bloquear a porta, os olhos castanhos agora fixos em seu rosto. — O senhor tem de ficar. Ele cruzou os braços e apreciou-a frio. — Não sou seu lacaio. - ! -35
  36. 36. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Por favor — emendou ela. George ergueu uma sobrancelha, mais brando. — Por que a mudança de atitude, minha senhora? Está obedecendo a uma ordem de seu pai? Ele a provocava para ver se reagia explosivamente, mas ela estava preparada para suportar a provação. — Eu gostaria que o senhor ficasse — declarou, no tom mais amável que pôde elaborar. Cruzando as mãos às costas. George deu alguns passos para lá e para cá. — Bem, bem, bem, o que devo concluir? — Parou e encarou-a. — Será que a jovem viu algum mérito em mim, afinal? — Desconsidera tal possibilidade? — retrucou Alice, num escárnio imperceptível de tão sutil. — Ela se mostra estranhamente imune a meus galanteios — ponderou George, conformado. Então, pareceu lembrar-se de algo. — Ah, será que é porque o ruivo Rufus foi embora? — Mesmo vendo que ela sofria com o abandono do amado, decidiu não poupá-la. — Não costumo aceitar restos de outros homens... Ante tamanha ofensa, Alice normalmente teria reagido com uma fúria cega, esquecida do objetivo de convencer o ilustre hóspede a permanecer. No entanto, sentiu-se frágil, desamparada, como nunca lhe acontecera na vida, a desejou, do fundo do coração, que George ficasse e a confortasse, como fizera lá no bosque. — Por favor, fique — sussurrou, fitando-o nos olhos azuis. A natureza gentil de George finalmente prevaleceu, e foi difícil para ele não ceder ao impulso de tomar Alice noa braços e dizer-lhe que compreendia. — Por quê? — insistiu, brando. — Porque... porque estou pedindo. Ele girou nos calcanhares e foi até a janela, cerrando os punhos a fim de recuperar o autocontrole. Mal podia crer que a Alice desafiadora de outrora era a mesma mulher suplicante ali de pé em seu quarto. Pior era a necessidade e o desejo avassaladores que lhe provocava, reduzindo a nada tudo o que experimentara até então. Não obstante, sabia o que emoções fortes podiam causar e quão imperativo era dominá- las. Quando por fim acalmou-se o bastante para falar obje-tivamente, voltou-se e recostou-se no parapeito de pedra. — Apesar de honrado ante seu pedido inesperado, terei de partir, pois deveres me aguardam em casa. Perdão por não poder atendê-la. Alice respirou fundo. — Sir George, receio ter sido descortês. Por favor, permita-me refazer sua impressão de mim. Quanto ao casamento, não precisamos decidir com tanta pressa. — Que mais devo fazer para provar-lhe meu valor, minha senhora? — questionou ele. — Matar um dragão? Executar os trabalhos de Hércules? Talvez seu - ! -36
  37. 37. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore plano seja que eu pereça na tentativa, de modo a livrar-se de minha presença incômoda... Alice suprimiu um sorriso. — Não, não desejo impor-lhe missões impossíveis. — Mesmo porque já tenho uma... — Qual? — Fazer você gostar de mim. Ela baixou o olhar, encabulada como nunca se sentira antes. George aproximou-se. — Alice, seja franca. Quer que eu vá embora e que esqueçamos essa idéia de casamento? Ela o fitou nos olhos azuis e, sem pensar, declarou: — Não entendo por que você quereria a mim. Ele a tocou no queixo, o olhar mais intenso do que nunca. — Jura que não? Alice balançou a cabeça. — Não sou como as outras mulheres. O sorriso que ele deu fez o coração dela disparar. — Exatamente, Alice — murmurou, tomando-lhe o rosto nas mãos. — Você não é como as outras mulheres... — Enlaçou-a entre os braços viris. — Eis porque a quero — sussurrou, antes de pousar os lábios sobre os dela. Não foi como o primeiro beijo, à beira do riacho. Foi gentil, terno... ainda que ela sentisse, sob a ternura, uma paixão mais intensa do que poderia esperar. Era como se sir George a houvesse encurralado, por ora. Uma excitação selvagem dominou-a, aquecendo-lhe o sangue, que percorria latejante todo o seu corpo de repente sem peso. O beijo se aprofundou, George movendo a boca sobre a dela com mais segurança. Puxando-a pelas nádegas, ele afundou os quadris contra os dela, arrancando-lhe um gemido baixo. Quando ele a empurrou para que se separassem, ela quase gritou em protesto. — Minha primeira qualificação para ser seu marido, minha senhora — explanou George, sorrindo ante a expressão lânguida de Alice. — Serei um excelente amante! — Afagou-lhe os braços. — Imagino que sim... E!e a calou com um novo beijo e um abraço apaixonado que exigia uma reação idêntica. Interrompendo o beijo outra vez, ele deslizou os lábios por seu queixo, agora acariciando-lhe as costas. — Irei mimá-la como poucos nobres fazem com suas esposas. - ! -37
  38. 38. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore George levou as mãos para trás de sua cabeça e desatou a fita que lhe prendia a trança, desfazendo-a habilmente. A massa de cabelos castanhos derramou-se sobre seus ombros. — E serei um bom pai — garantiu. Alice apenas assentiu. — Há outro homem em seu coração — lembrou ele. — Sim... não... Ela já não tinha certeza do que sentira de fato por Rufus, nem do que sentia agora por sir George. Nunca ninguém lhe provocara sensações como essas, apenas com beijos! — Eu a farei esquecê-lo, Alice. Passou a beijá-la no pescoço, deslizando a boca ávida até o topo dos seios fartos, os quais tomou firmemente nas mãos. — Faça... — concordou ela, quase implorando. — Case-se comigo. Seja minha esposa. Venha para a minha cama. — Sim... — aceitou Alice, com um suspiro, incapaz de recusar. — Logo. — Sim... Então, George parou com tudo e deu um passo atrás, deixando-a ofegante, atónita. — Eu a quero, Alice. Ele queria uma resposta definitiva. Ela se esforçou para raciocinar, apesar das sensações assustadoras que ainda dominavam seu corpo excitado. Seria mais fácil se não olhasse para ele, para a ânsia em seus olhos azuis, para o desejo em seu rosto, para seus lábios sedutores... Fechando os olhos, recostou-se na porta. Em apenas um dia, sir George provara ser algo mais do que um almofadinha. Era um exímio lutador, um guerreiro valente, e ao mesmo tempo um cavaleiro bonito e elegante como poucos. Alice respirou fundo. Decidira-se. - Acredito que seja melhor eu me casar com o senhor. — Não foi uma resposta muito lisonjeira, minha senhora — lamentou sir George. Pois ele queria muito casar-se com ela... tanto que estava surpreso com a intensidade do desejo. Tratava-se da mulher mais intrigante que já conhecera, e pensar que tal criatura selvagem e indómita se entregaria a ele de livre e espontânea vontade causava-lhe enorme excitação. — Creio que será um bom marido — emendou Alice, ainda sem muito entusiasmo, — Não existe mesmo nenhum outro motivo, minha senhora? — insistiu George, a fim de se certificar de que sir Thomas não a forçara. — Não — reiterou ela, as faces se afogueando. Diante disso, George não poderia duvidar de sua - ! -38
  39. 39. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore franqueza. — Gosta de mim, não gosta? — Gosto — confessou Alice, relutante, incapaz de encará-lo. — Gosto de você. — Estou muito contente que tenha me aceito, Alice. — Eu... vou contar a meu pai o que decidimos. — E eu vou ficar, mas só esta noite, para assinar o contrato matrimonial. George conteve o impulso de abraçá-la novamente, temeroso de perder o que já conquistara. Ela o aceitara como marido, e isso teria de bastar, por ora. — Irei para casa amanhã, preparar-me para o casamento... e para minha noiva. — Muito bem, sir George. A porta, Alice olhou-o por sobre o ombro, ainda dominada pelo desejo, e então se foi. George sentou-se na cama e aos poucos recuperou o autocontrole. A seguir, foi procurar seus homens para carregarem de volta a bagagem. A noite, no salão, sir Thomas anunciou o noivado de sua filha com sir George de Gramercie. Serviu-se vinho à vontade, para deleite das tropas. Alice repetia a si mesma que tomara a decisão certa, enquanto George, a seu lado, imaginava o falecido pai sorrindo-lhe satisfeito. Refugiado na casa de um primo, bera longe do castelo Dugall, Rufus Hamerton soube do noivado de Alice Dugall alguns dias depois. E não conseguiu dormir naquela noite. ! ! ! CAPÍTULO SEIS ! ! Assim que avistou o séquito na estrada, Herbert Jolliet tentou fazer sua montaria galopar; contudo, desacostumada a grandes esforços, a égua limitou-se a trotar. A frente da escolta, sir Richard ficou apreensivo ao ver o irmão Herbert fustigando a montaria, evidentemente ansioso por encontrá-lo. Que notícia tão impor- tante não pudera aguardar sua chegada a Ravensloft? Deteve o cavalo e fez sinal de alto para os soldados de túnica escarlate e verde. — Mano, o que o fez sair do castelo e correr ao meu encontro? — questionou, preocupado, quando Herbert por fim os alcançou. — Tenho algo muito importante para lhe contar! Sir Richard não gostaria que os homens ouvissem a conversa. - ! -39
  40. 40. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Você me conta enquanto seguimos viagem para Ravensloft — sugeriu, adiantando-se vários metros à escolta. Então, olhou zangado para o irmão, — Não sabe ser discreto, seu burro? Ninguém precisa saber dos nossos negócios. — Todos já sabem o que vou lhe contar, menos você — replicou Herbert. — Sir George vai se casar. Perplexo, sir Richard puxou as rédeas, detendo o cavalo tão bruscamente que quase caiu da sela. — O quê? O irmão confirmou. — Com Alice Dugall. Amanhã. Richard esporeou de leve os flancos da montaria, que seguiu em frente. — Mas isso é impossível! — Experimente dizer isso a ele — retrucou Herbert. — Está se preparando para a cerimônia desde que chegou do castelo Dugall. — O pai passou quinze anos tentando convencê-lo a se casar! — lembrou sir Richard, incrédulo. — Por que ele o faria agora que o pai está morto? O irmão deu de ombros. — Eu sei lá! Richard contemplou a estrada à frente. — Eu costumava temer que o velho se casasse de novo... Mas ele... — O que vamos fazer? — inquiriu Herbert. — Uma esposa em Ravensloft significa... — Significa problema — completou Richard, irritado. — Fique quieto enquanto penso. O irmão obedeceu, olhando-o de esguelha. — Sempre achei que Alice Dugall seria a última mulher que George escolheria, se um dia resolvesse se casar — ponderou Richard, inconformado. — Ela é uma bárbara, como o pai. O irmão arregalou os olhos. — Como assim? — Ela não é maleável, como Lisette — explicou Richard. — É dura como ferro e resistente como couro velho. Todo cuidado com ela é pouco, até conhecermos a situação da propriedade. Está em entendendo? Herbert fez que sim. — Previna Elma. Devemos ter cautela e não fazer nada que levante suspeita, ou podemos acabar todos com uma corda no pescoço. Instintivamente, Herbert levou a mão ao pescoço, enquanto sir Richard Jolliet, empregado de confiança e amigo de sir George de Gramercie, tramava novos planos. George passou a mão nos cabelos, tentando entender a lista escrita no pergaminho. Era cedo ainda, mas já se encontrava à mesa escura em seu solar, um - ! -40
  41. 41. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore cômodo pequeno, porém confortável, repleto de tapetes e móveis finos. Uma agradável brisa primaveril entrava pelas janelas grandes de topo arredondado atrás de sua cadeira de carvalho forrada de almofadas macias. Mas George nem se dava conta do ambiente, preocupado que estava em entender o problema a sua frente. O cozinheiro Gaston informara ao administrador Herbert Jolliet os itens de que precisava e agora reclamava de ter recebido apenas dezoito dúzias de ovos, quando pedira vinte dúzias. Incapaz de entender os garranchos do administrador, deu de ombros. — Vamos comer menos ovos — murmurou, levantando-se entediado. Após espreguiçar-se como um gato, foi até uma das janelas e apreciou a estrada. Nenhum sinal de sir Thomas e seu séquito. Provavelmente, chegariam mesmo somente no dia seguinte, para a cerimónia de casamento, apesar de ter-lhes oferecido hospedagem. O futuro sogro recusava-se a passar mais do que um dia fora de seu castelo. Recostado na fria parede de pedra, suspirou pensativo. Onde estava com a cabeça ao pedir a mão de Alice Dugall em casamento? Sim, ela era diferente e excitante, mas o que sabia a seu respeito, além de que se vestia de forma grotesca e se comportava como um soldado? Bem, Alice era capaz de atiçar-lhe os sentimentos como nenhum ser humano jamais conseguira, o que não era bom sinal... Sem dúvida, houvera precipitação na assinatura do contrato matrimonial. Deveria ter passado mais tempo no castelo Dugall e conhecido melhor Alice antes de tomar qualquer decisão. Assim, não teria se deixado levar pela ideia de Alice Dugall em sua cama... — Tarde demais — murmurou, conformado. — Meu senhor? George olhou para a porta e viu a jovem criada Elma, que escolhera para servir a Alice por já ter sido camareira de uma senhora antes de se juntar ao pessoal de Ravensloft. — Sim? — Sir Richard acaba de chegar de Londres, junto com Herbert Jolliet. — Ah, que ótimo! — alegrou-se George. — Preciso da ajuda deles. Sirva-nos vinho no salão. Vou recebê-los no pátio. — Sim, meu senhor — aquiesceu a criada, curvando-se. George desceu a escada correndo. Agora, presentes o capataz da propriedade e o administrador doméstico, poderia esquecer os probleminhas chatos e tratar de as- suntos mais importantes, como impressionar sir Thomas. E Alice. — Bem-vindo, Richard! — exclamou, enquanto o capataz desmontava do cavalo. — Ponho fé em que tudo correu bem em Londres. - ! -41
  42. 42. A Esposa do Guerreiro (A Worrior’s Bride) Margaret Moore — Muito bem, meu senhor — confirmou o empregado. — Teremos de pagar algo mais, mas nada que lhe fará falta. — É claro que devo a você o fato de ter de pagar tão pouco — reconheceu George. — Imagino que se irmão já lhe tenha contado a novidade. — Contou, meu senhor! — Sir Richard fez uma reverência. — Meus parabéns. Sir George pareceu contrariado. — Não está surpreso? Imaginei que fosse levar um susto e tanto! O capataz sorriu. — De fato, pensei que Herbert houvesse enlouquecido quando me contou. — Ele ficou atónito, meu senhor, como todo mundo aqui, aliás — confirmou Herbert Jolliet. — Não mais do que eu mesmo — confessou George, liderando a pequena comitiva rumo ao salão. Com quase cinquenta metros de comprimento, o salão tinha teto alto e uma inovadora lareira junto à plataforma. Tapetes de cores vivas cobriam quase que totalmente as paredes e três altas janelas estreitas de frente para o pátio garantiam uma boa iluminação natural. A criada Elma chegou com vinho e taças numa bandeja. George se acomodou em sua cadeira e degustou a bebida. — Com que então está surpreso por uma mulher ter aceitado casar-se comigo, Richard? — Seu tom era de galhofa. — Assim, você me magoa. Sentando-se a seu lado, sir Richard Jolliet também pegou uma taça. — Estou surpreso que tenha encontrado uma mulher que preenchesse suas altas exigências — corrigiu. — Eu começava a duvidar de que tal criatura existisse. Retraído, Herbert Jolliet tomava sua bebida meio afastado. George deixou-se escorregar no assento, indolente. — Bem, ela estava à mão, entende? Sir Richard balançou a cabeça. — Meu senhor, será que nunca fala a sério? — Não, a menos que seja inevitável. — Bom, ela é bonita — comentou o capataz. George parou para pensar. Alice era bonita? Talvez sim, talvez não. Seu rosto não espelhava os traços da chamada beleza clássica, e sua tez, bronzeada demais, desafiava os padrões vigentes. Mas nenhuma outra mulher tinha aquele brilho no olhar... — Sim, é. Sir Richard brincava com sua taça. — Boa parte de minha surpresa, meu senhor, deveu-se ao fato de o senhor fechar o acordo sem a minha assistência. George manifestou aborrecimento ante a reprimenda sutil. — Não era um contrato complicado — justificou-se. — Eu sabia que sir Thomas não cederia nenhuma porção de suas terras. — Nem mesmo parte da floresta? — Nem um metro. - ! -42

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