A chama do amor (The Welshman's way) !
Margaret Moore!
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!!!! Uma noiva relutante...
Jamais a doce e obediente virgem Made...
A chama do amor (The Welshman's way) !
Margaret Moore!
Warrior

1. A Warrior's Heart (1992)

2. A Warrior's Quest (1993)

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A chama do amor (The Welshman's way) !
Margaret Moore!
PRÓLOGO
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No estábulo do monastério dominicano de St.
Christoph...
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CAPITULO UM
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Gloucestershire, 1222
adeline de Montmorency olho...
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— Seu irmão escreve que virá logo para levá-la para casa,
a fim de ...
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— Que outra escolha tem? — desafiou madre Bertrilde,
visivelmente i...
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Roger voltou-se para o homem da nobreza que o acom-
panhava. Este t...
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— Basta! — vociferou Roger. Não tinha tempo para
argumentar com a i...
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estrada. Naquela manhã, decidira arriscar-se pela estrada, pelo
men...
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Ponderou sobre os vilarejos e feudos que os monges
comentaram. Havi...
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cascos da montaria. Samambaias brotavam ao longo do caminho
e flore...
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não acreditava que aqueles homens tinham outra intenção senão
o rou...
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CAPITULO DOIS
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Corno se atreve a pôr as mãos em mim! Meu irm...
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lado a outro e seguravam as espadas com ambas as mãos,
aguardando, ...
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uma qualidade sensual que nunca vira antes. Mas havia homens
bonito...
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— É o fora-da-lei? Não podemos deixá-lo ali daquele
jeito. Ele devi...
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aconteceu, creditou-lhe mais força interior e mais habilidade
para ...
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Recompensa era menos arriscado que resgate, calculou.
Mesmo assim, ...
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Um trovão ecoou. Dafydd olhou para o céu. Logo seria
noite e, quant...
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— Eu... eu vou naquele matinho — comunicou Madeline,
esperando não ...
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normandos, e a qualquer fora-da-lei. Na verdade, não achava
que ser...
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Ele não respondeu, ao invés disso, apontou para a mão.
Lady Madelin...
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— Não.
— Não pode me deixar aqui! E se aqueles bandoleiros
voltarem...
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cascata de cabelos longos e brilhantes derramou-se-lhe pelos
ombros...
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Desconfiada, sim, mas não temerosa, o que o agradava, embora
soubes...
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Para seu dissabor, o homem quase nu sorriu-lhe. Sorriso
demoníaco e...
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tentou amarrá-la, nem impedir-lhe os movimentos de maneira
nenhuma....
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— Ah. — A mentira decepcionou-a. Ele a achava idiota? A
pele e o ca...
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— Preciso encontrar Madeline. — Roger tentou se le-
vantar, mas sen...
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Frei Gabriel limpou a garganta, respeitoso.
— Senhor, por favor, le...
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acabar perdida na floresta, na mesma floresta que abrigava os
fora-...
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concedia aquilo com facilidade, não a um normando e, com
certeza, n...
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— Dê-me a espada antes que se machuque — desdenhou
ele, erguendo-se...
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Excitada, Madeline tornou-se impetuosa e agarrou os
ombros musculos...
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— Não é aristocrata.
Ele alargou o sorriso, irritando-a.
— Vai me a...
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— Feudo de quem?
— Sir Guy.
— Sir Guy? — Havia algo de familiar no ...
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pouco melhores do que aquela em que ele e Madeline haviam
passado a...
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— Mas há tantos!
Ele desviou o olhar do rosto bonito e olhou melhor...
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Ao passarem pelas últimas árvores, Dafydd começou a
achar que seria...
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O que ela estava fazendo?
— Ora, ora — começou o recém-chegado, com...
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pecialmente quando ele voltou o olhar para Madeline. Para se
assegu...
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CAPÍTULO CINCO
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Roger sentia a cabeça doer tanto que cada ...
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monastério relacionados ao último hóspede, que suspeitavam ser
um g...
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— E quando foi isso?
— Duas noites atrás.
— Conte a sir Albert como...
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— Ele acredita que duas pessoas tenham passado a noite
lá, senhor, ...
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— Bem, seja o que for, senhor... humm, acho que ela está
melhor com...
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  1. 1. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! ! !!!! Uma noiva relutante... Jamais a doce e obediente virgem Madeline de Montmorency revoltara-se contra seu destino. Mas daquela vez seria diferente! Não iria para o leito nupcial com um estranho. Especialmente quando seu coração já escolhera outra aliança... uma aliança com um homem tido como fora-da-lei e larápio!.... Um rebelde fora-da-lei... Dafydd estava cansado de lutas até pousar o olhar na ardente Madeline. Ali estava a primeira normanda a quem não sentia vontade de chamar de inimiga. Ao contrário. Tudo que queria fazer era chamá-la de meu amor... mesmo contra tudo e contra todos! A Chama do amor! “The Welshman's way” 1995 ! Margaret Moore ! SÉRIE WARRIOR – VOL. 4 ! ! - ! -1
  2. 2. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Warrior
 1. A Warrior's Heart (1992)
 2. A Warrior's Quest (1993)
 3. A Warrior's Way (1994)
 4. The Welshman's Way (1995)
 5. The Norman's Heart (1996)
 6. The Baron's Quest (1996)
 7. A Warrior's Bride (1998)
 8. A Warrior's Honor (1998)
 9. A Warrior's Passion (1998)
 10. The Welshman's Bride (1999)
 11. A Warrior's Kiss (2000)
 12. The Overlord's Bride (2001)
 13. A Warrior's Lady (2002)
 14. In the King's Service (2003) ! ! ! ! - ! -2
  3. 3. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! PRÓLOGO ! ! ! No estábulo do monastério dominicano de St. Christopher, um burrico se mexeu e um rato se esgueirou por sob a palha. Com movimentos rápidos e silenciosos, Dafydd ajustava a sela sobre o cavalo, ignorando a dor no ombro ferido. Embora a maioria dos monges estivesse dormindo, vira da enfermaria a luz fraca de uma vela na capela, onde frei Gabriel costumava ficar de vigília. Considerando o quanto ele e seus bons irmãos haviam se arriscado abrigando-o secretamente, lamentava partir dessa maneira, mas não tinha opção. Até o falecimento do abade Peter, convalescera relativamente a salvo, mas o novo dirigente, com seu interesse em assuntos de Estado, não hesitaria em entregar ao senhor normando mais próximo um rebelde galês como ele. Com a partida do ambicioso abade Absalom, em viagem para celebrar um casamento que uniria duas importantes famílias normandas, surgira o momento ideal para a fuga. Invadindo seus aposentos, recuperara a velha espada e confiscara algum dinheiro para a longa e difícil jornada, bem como roupas adequadas. Dafydd prendeu a trouxa improvisada na sela e conduziu o cavalo para fora. Não era uma montaria impressionante, mas aparentava dispor da energia e força necessárias à longa jornada por estradas difíceis que empreenderia. Além de desviar-se de cidades e aldeias e esquivar-se de outros viajantes, cuidaria também de passar bem longe das terras de lorde Trevelyan e seu genro, Morgan, que tinham bons motivos para se lembrar dele. Assim, Dafydd ap Iolo partiu no rumo noroeste. Tão logo alcançasse a região mais remota do país de Gales, casaria-se com uma galesa simples e tranquila e com ela teria muitos filhos. Bastava de lutas, mortes e privações. Só queria viver em paz. ! ! ! ! - ! -3
  4. 4. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! CAPITULO UM ! ! ! Gloucestershire, 1222 adeline de Montmorency olhou para a.madre superiora como se não estivesse acreditando no que ouvira, o que era mesmo o caso. — Lamento ter de informar-lhe sobre esse assunto de forma tão abrupta — amenizou irmã Bertrilde, a voz tão fria quanto as paredes de pedra do aposento espartano do convento. — A carta de seu irmão acabou de chegar. — Devo me casar em quinze dias? — inquiriu Madeline, incrédula, desejando que a madre superiora, reconhecida por sua seriedade, estivesse fazendo uma brincadeira. Mas não, não estava. — Assim informa seu irmão. Madeline agitou-se, ansiosa, tentando digerir a notícia extraordinária. Não via o irmão há dez anos, desde a morte dos pais, por febre, com intervalo de poucos dias. Nos primeiros meses, aguardara um contato dele, imaginando o dia em que iria buscá-la para levá-la para casa, para longe daquele convento, de volta ao mundo de liberdade, cor e felicidade... não para outra prisão, na qualidade de esposa de um homem que nunca vira. — Com certeza, ele não decidiria sobre esse assunto sem conversar comigo — protestou. — Ele menciona um noivado ou... ! ! ! A CHAMA DO AMOR — A menos que tenha perdido a capacidade de ler — cortou madre Bertrilde, severa —, tenho certeza de que o contrato já foi assinado. Uma vez que está sob a guarda de seu irmão, deveria estar preparada para obedecê-lo. — Mas quem é esse lorde Chilcott? Nunca ouvi esse nome! — protestou Madeline, pasma com a fatalidade expressa no semblante e no tom de voz de madre Bertrilde. — Não faço idéia, mas suponho que pertença a uma família rica e de sangue nobre. O que mais precisa saber? — Com certeza deve haver um engano! Meu irmão deve estar falando sobre um noivado, não casamento. Preciso de mais tempo... - ! -4
  5. 5. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Seu irmão escreve que virá logo para levá-la para casa, a fim de que se prepare para o casamento — reafirmou Irmã Bertrilde, impassível. Madeline percebeu que cometera um grave erro ao in- sinuar que madre Bertrilde pudesse estar enganada. — Mas esse casamento é impossível — protestou, mu- dando de tática. — Pensei que iria fazer meus votos em pouco tempo e aqui estou eu, aguardando há mais tempo que muitas noviças. Madeline lançara mão desse trunfo, embora não fosse bem verdade. Estudara e dissimulara um grande interesse pela vida religiosa, para controlar a curiosidade das irmãs sobre o motivo de Roger não mandar buscá-la. Madre Bertrilde encarou-a com um franzir de cenho tão imperceptível que somente uma pessoa que estivesse estudando atentamente suas expressões poderia notar o sinal de grande desgosto. — Desejava poder contar-lhe sobre a minha decisão num momento mais apropriado — replicou ela, sem um mínimo de camaradagem. — Entretanto, seu irmão não me deu muito tempo para o tato. Madeline, eu não teria permitido que se tornasse uma freira. Não lhe ocorreu que eu estivesse postergando minha decisão por não estar certa da sua vocação? O convento não é lugar para uma mulher do seu temperamento... — Meu temperamento? Madre Bertrilde teria franzido o cenho, mas estava con- dicionada a sorrir mesmo quando não se sentia contente. — Está demonstrando a sua falta de adequação neste exato momento. Você não é humilde. Não vai se submeter às ordens de ninguém. Você se interessa demais por assuntos corriqueiros. — Mas eu... — Por isso, Madeline — continuou Madre Bertrilde —, sugiro que se prepare para partir com seu irmão e conforme-se com os arranjos que ele designou a você. — Em seu próprio benefício — completou Madeline. Como aquela mulher insensível e o irmão se atreviam a decidir sobre sua vida daquela forma? Não era mais nenhuma criança! — Quaisquer que sejam os motivos dele, é sua obrigação obedecê-lo. — É minha obrigação casar-me com um homem que nunca vi? — inquiriu Madeline, dissipando a raiva com sarcasmo. - ! -5
  6. 6. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Que outra escolha tem? — desafiou madre Bertrilde, visivelmente indiferente. — Não posso mantê-la aqui contra a vontade de seu irmão. — Muito bem, eu partirei — decidiu Madeline, com tal determinação que causou até admiração na edxicado-ra. — Se a minha piedade, devoção e paciência devam ser recompensadas com o banimento, como se estivesse doente, se a senhora acha que não tenho escolha senão submeter-me como uma ovelha, então irei com prazer. Mas não com meu irmão. Mesmo assim, madre Bertrilde permaneceu indiferente. — Com quem pretende viajar? Eu lhe asseguro, não proverei escolta. — Então, irei sem ninguém. — Madeline avançou um passo na direção da porta pesada. Finalmente, as palavras decididas de Madeline pare- 8 A CHAMA DO AMOR ceram penetrar além da muralha de pedra que era a madre superiora. — Está falando bobagem, Madeline — advertiu a religiosa. — Não pode sair sozinha. Não apenas estaria se comportando como uma camponesa, mas com certeza seria morta, se não viesse a sofrer pior destino. As estradas estão cheias de bandoleiros e rebeldes. Madeline curvou o lábio, desdenhosa. — Qual é a diferença, madre, entre ser molestada por um fora-da-lei ou por um homem com o qual estarei casada contra a minha vontade? — Com isso, saiu pela porta e imediatamente colidiu com um tórax largo e sólido. O homem estendeu as mãos fortes e afastou-a. Madeline ergueu o olhar para focalizar o obstáculo hu- mano. O rosto jovem e bem talhado parecia reservado e ameaçador. Na verdade, era uma versão mais alta e mais forte de si mesma, apenas com feições mais angulosas, masculinas. — Roger? — exclamou Madeline, surpresa. — Madeline? — Roger de Montmorency, que não era conhecido pela suavidade de temperamento, olhou por cima da cabeça da irmã, na direção da forma vestida de negro que era a madre superiora. — O que significa isso? Ela deveria estar pronta para partir. Madre Bertrilde, conhecida por seguir as regras à risca, devolveu o olhar. — Lamento — começou ela, sincera —, que o seu men- sageiro tenha se atrasado. Sua carta chegou somente esta manhã. - ! -6
  7. 7. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Roger voltou-se para o homem da nobreza que o acom- panhava. Este tinha os cabelos levemente grisalhos e o semblante preocupado, mas havia jovialidade no olhar e também alguma simpatia. — Albert, descubra o que aconteceu com Cedric. Depois, faça uma das freiras arrumar os pertences de minha irmã. Assentindo levemente com a cabeça, o homem entrou em ação. — Eu não vou com você — declarou Madeline, cruzando os braços, de cara amarrada. Roger olhou para a irmã, que não via havia muitos anos, no meio da sala. Ficara mais alta do que imaginara, e mais bonita também, ainda que trajada apenas com o hábito da ordem. Mas aqueles olhos azuis, zangados e desafiadores, sem dúvida pertenciam à Madeline de que se lembrava. E chegara a acalentar o sonho de que as freiras a transformariam numa moça plácida e obediente! — Os arranjos já foram feitos. Arrume os seus per- tences, Madeline — ordenou. — Partiremos em seguida, pois são dias de viagem até nosso castelo. — Desatou do cinto uma bolsa com moedas. — Isto é um agradecimento pelo seu trabalho — esclareceu à madre superiora. Madre Bertrilde franziu o cenho, reprovadora. — Sugiro que guarde o seu dinheiro para um padre que reze pela sua alma imortal, uma vez que devo lembrá-lo de que está num convento. Aqui, sou eu que digo às irmãs o que fazer. Não o senhor e seus homens. Roger de Montmorency não se deixou abalar pelas pa- lavras da madre superiora, nem por sua expressão zangada. Voltou-se para Madeline: — Venha. — Eu já lhe disse, Roger: não vou com você. Não vou me casar para obedecê-lo, e, com certeza, não com um homem que me é completamente estranho. A revolta da irmã também não o impressionou. — Eu mesmo não conheço Chilcott — comentou, va- gamente. — O meu suserano, barão DeGuerre, quer que as nossas famílias se unam. Você é minha responsabilidade e não tem escolha senão me obedecer, da mesma forma que obedeço ao barão. As ordens do meu senhor, asseguro-lhe, serão cumpridas. — Partirei quando estiver pronta — insistiu Madeline —, e irei a qualquer lugar, menos para o seu castelo. - ! -7
  8. 8. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Basta! — vociferou Roger. Não tinha tempo para argumentar com a irmã, nem para cortesias desnecessárias com a madre superiora. A viagem fora retardada, as chuvas torrenciais de abril tornaram a jornada um pesadelo e o casamento estava marcado para dali a quinze dias. Por isso, agarrou Madeline pelo braço, ergueu-a e lançou-a por sobre o ombro. — Você está pronta e vai para o meu castelo! Dirigiu-se à porta ignorando os protestos e esforços da irmã para se libertar. Voltou-se para a madre reverenda. — Um dos meus homens ficará aguardando a bagagem dela. Bom dia. Sir Roger de Montmoreney saiu a passos largos, carre- gando a irmã relutante como se fosse um saco de cereais. — Roger, pare! — gritou Madeline, enquanto ele a carregava pelo corredor de pedra até saírem no pátio do convento. Para maior humilhação, Madeline percebeu os olhares curiosos e cochichos das outras internas. — Solte-me já! Roger finalmente a pôs de pé no chão. Agitada, Madeline arrumou o cinto e olhou para o irmão. — Como se atreve! Como se atreve a me tratar desse jeito! — Atrevo-me porque sou seu irmão mais velho — res- pondeu ele. — Como você se atreve a me desobedecer! — Você não pode simplesmente ordenar que eu me case com esse Chilblain... — Chilcott. E sim, posso. Madeline conscientizou-se do silêncio súbito e olhou ao redor. Várias religiosas observavam a cena espantadas, boquiabertas e com os olhos arregalados. Talvez fosse melhor irem para um local onde pudessem discutir em paz. — Continuaremos essa discussão mais tarde, caro irmão — retiíicou ela, sorrindo docemente. Ele tomou uma expressão mais sombria e totalmente desprovida de simpatia. — Não há nada a discutir, Madeline. Nem agora, nem mais tarde. Eu dei minha palavra a Chilcott e você será sua esposa. Dizendo isso, ele se voltou e deixou-a ali parada no meio do pátio, passando a berrar ordens a seus homens. Dafydd estava finalmente começando a achar que não seria pego e condenado à morte como ladrão. Iniciara a viagem pelo bosque, num terreno difícil, cavalgando paralelamente à - ! -8
  9. 9. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! estrada. Naquela manhã, decidira arriscar-se pela estrada, pelo menos por algum tempo. Sentia-se de certa forma contente pela primeira vez desde que despertara no monastério normando e vira-se fraco, sozinho e sem perspectiva. Não fazia ideia de como conseguira afastar-se tanto da fronteira galesa. Lembrava-se vagamente de se arrastar e partir do local onde Morgan o deixara para morrer. Naquele momento, com certeza, não se importara com a direção que tomara, desde que fosse para longe das terras de Morgan. Sabia, de ficar ouvindo frei Gabriel e os outros irmãos, que fora encontrado quase morto por um monge viajante, que o levou ao monastério no lombo do burrico. Agora, calculava sua posição alguns quilómetros a leste da fronteira e não tão longe de Morgan e Trevelyan quanto gostaria. De qualquer forma, estava livre e cada vez mais próximo do país de Gales. O aroma de terra e floresta úmidas lhe invadia as na- rinas. Uma mudança agradável comparada aos estímulos olfativos da enfermaria. Passou a mão pelo cabelo à altura do ombro e sentiu prazer com o calor do sol, apesar de estar transpirando bastante com a túnica de lã. Desejou poder arranjar outras roupas. Com certeza, não enganaria ninguém fazendo-se passar por religioso, pois ainda que estivesse usando o hábito regular, estava com aqueles cabelos, porte e um ferimento que só poderia ter-se originado numa batalha. Entretanto, à exceção de andar nu, não tinha alternativa. Olhou para o céu e avistou a formação de nuvens escuras, que indicavam uma mudança no tempo. Chovera bastante e as estradas estavam lamacentas e traiçoeiras. Mesmo assim, apreciava as nuvens, pois traziam uma brisa fresca. No horizonte, já podia ver o começo do planalto, uma primeira indicação das terras que conhecia. Em poucos dias, estaria perto das montanhas do país de Gales, embora soubesse que precisaria atravessar outros morros e vales antes. Tentou se lembrar do que ouvira os monges comentarem sobre as terras próximas ao monastério. No começo, não entendia o idioma, mas logo passou a deduzir boa parte das conversas. Se os monges desconfiaram de que ele não era normando nem saxão, não o demonstraram. Dafydd aproveitou o tempo para aprender o máximo possível do idioma a fim de se proteger. Entretanto, nunca pronunciara uma palavra sequer e os religiosos, sabiamente, permitiram que ele permanecesse em silêncio. - ! -9
  10. 10. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Ponderou sobre os vilarejos e feudos que os monges comentaram. Havia uma aldeia não muito longe dali, ao norte. Acreditava ser uma aldeia bem pequena, pelas conversas. Era tentador ir até lá, arranjar roupas mais adequadas e dinheiro, pois o cavalo que pegara tinha até um ar distinto, sob o ponto de vista doméstico. Enquanto tentava organizar as idéias, surgiu uma en- cruzilhada. A estrada principal ia em frente; a outra, mais estreita e menos usada, vertia para o oeste. Ficou tentado a tomar a estradinha, até se lembrar de ter ouvido comentário de que a noroeste do monastério ficavam as terras de um senhor normando chamado sir Guy. Concluíra que os religiosos não gostavam do nobre normando, por ser lascivo. Bem, que normando seria diferente em relação a mulheres, poder e riqueza? Bem, não queria encontrar nenhum nobre normando. A maioria dos senhores feudais daquela área, na fronteira entre o país de Gales e o resto da Inglaterra, era rude e brutal, com autorização do rei para fazer o que achasse necessário para subjugar qualquer galês que ousasse se rebelar. Aliás, sabia muito bem o que fariam com ele se o pegassem. Passou por o que parecia ser uma fazenda abandonada. Duas construções incendiadas evidenciavam algum desastre e Dafydd torceu os lábios, desgostoso, pois não duvidava de estar olhando para o trabalho de algum normando. Talvez o pobre agricultor não tivesse sido capaz de pagar o dízimo, ou talvez pertencesse a uma família importante e não conseguisse esconder o orgulho que ainda sentia. Talvez, ainda, tivesse uma filha bonita que não se submetera às atenções de um normando. Dafydd balançou a cabeça para desanuviar a mente e passou a imaginar o quanto estaria longe do castelo de lorde Trevelyan e do feudo de Morgan, um galês que se casara com a filha de Trevelyan. Teria que descobrir e tomar cuidado para não chegar muito perto. Se fosse reconhecido, sua liberdade acabaria ali. Decidiu permanecer na estrada até ficar bem próximo da aldeia. Era um pouco arriscado, mas o trajeto estava muito mais tranquilo pela estrada e o ar, mais fresco. Perto da aldeia, tomaria mais cuidado, embora tivesse esperança de poder entrar numa taverna para se informar melhor sobre o caminho a seguir e também para comprar outros mantimentos. A estrada conduziu a um vale estreito, densamente ar- borizado. Folhas de vários outonos formavam uma espessa camada sobre o leito da estrada e silenciavam os sons dos - ! -10
  11. 11. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! cascos da montaria. Samambaias brotavam ao longo do caminho e flores do campo vermelhas e amarelas coloriam a paisagem. Uma leve brisa movimentava os galhos novos e, apesar da beleza primaveril, Dafydd calculou logo que as folhas mortas poderiam camuflar o som da presença de bandoleiros. Na verdade, aquele local era perfeito para uma emboscada. Possuía pouca coisa que pudesse interessar a ladrões, mas sabia que alguns homens tinham ainda menos e assaltavam e assassinavam qualquer um, fosse normando ou galês, nobre ou camponês. Dafydd avaliou as árvores, tentando descobrir com a sensibilidade pouco utilizada ultimamente se estava sendo observado. Não devia ter permanecido no monastério por tanto tempo. Tinha ficado destreinado. De repente, estacou, inclinou a cabeça e prestou atenção. De algum local acima vinha o som familiar de metal contra metal e gritos de homens em batalha. Desmontou e tirou a espada da bainha amarrada à sela. A estrada fazia uma curva para a direita, contornando o morro arborizado. Se subisse reto por entre as árvores, poderia ver o que estava acontecendo do outro lado sem ser notado. Não desejava interferir, simplesmente queria ver quem estava lutando e como aquilo afetaria sua própria jornada. Conduziu a montaria até um arbusto e começou a se movimentar cuidadosamente entre as árvores. A túnica longa se prendeu num galho, e ele então parou para desenganchar o tecido. Foi quando ouviu o grito aterrorizado de mulher. Por um momento, petrificou-se, inerte como o menino que fora. Uma imagem, um nome nos lábios... então, sentiu o sangue quente de ódio ser bombeado no coração. Praguejando, tirou a túnica e lançou-a no chão, aventurando-se morro acima apenas com a cueca de linho, Quando quase chegou ao cume, passou a andar devagar e sorrateiramente, avaliando a estrada abaixo. Sentia o pulsar do sangue no corpo todo e segurou a espada com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos. Viu o que parecia ser um bando de ladrões atacando ura pequeno grupo de viajantes a cavalo. Os homens maltrapilhos e rudes que estavam a pé cercavam dois nobres, uma mulher a cavalo... uma freira, aparentemente, e alguns soldados armados. O cavalo da mulher movimentava-se nervoso, mas ela o controlava com destreza, enquanto os nobres, com certeza normandos, lutavam com habilidade e determinação. Podia dizer pelos brados e ordens que os atacantes eram galeses. Dafydd - ! -11
  12. 12. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! não acreditava que aqueles homens tinham outra intenção senão o roubo, pois três deles logo se apossaram das montarias de carga, deixando os soldados vivos. Se o motivo fosse rebelião, teriam matado as vítimas. Não achava tampouco que a mulher e a escolta tivessem o que temer. Os normandos eram hábeis e estavam bem armados. Os ladrões só estavam mantendo-os ocupados enquanto as montarias de carga eram levadas. Suspirando de alívio, Dafydd começou a se retirar, mas continuava observando, mais por interesse em ver as espadas refinadas do que por preocupação com os combatentes. Então, um dos bandoleiros agarrou a rédea do cavalo da freira e montou atrás dela. A mulher gritou e um dos nobres voltou-se para vê-la, enquanto o fora-da-lei conduzia a montaria na direção de onde Dafydd vinha. O que aquele camarada queria com ela? Resgate, talvez, ou mais alguma coisa? Rapidamente, Dafydd desceu pelo morro, ignorando os galhos que lhe arranhavam o peito nu, pernas e braços. Correu o mais rápido possível para até onde deixara o cavalo e então ficou bem quieto. Ouviu um barulho vindo da direita. Uma luta. Ordens ásperas. Mais uma vez, ele se aventurou na floresta seguindo os sons. Dafydd ouviu claramente os sons familiares e dolorosos do dia em que sua irmã foi molestada e assassinada por soldados normandos. Os mesmos que já haviam assassinado seus pais. Como Gwennyth lutara! Eles não viram o menino escondido entre as árvores, sozinho. Mas Gwennyth vira. Pouco antes de falecer, ela voltou a cabeça e olhou para ele. Jamais esqueceria a dor no olhar, nem seu último esforço para chamá-lo. Dafydd chegou à clareira. O ladrão estava lá, em cima da mulher no chão. Ela se debatia sob ele, praguejando e tentando arranhar o rosto do vilão. Dafydd não conseguira proteger Gwennyth e os pais naquele dia terrível. Mas agora era diferente, fosse essa mulher normanda ou galesa não importava, e se aquele sujeito quisesse apenas mantê-la para resgate ou não, tampouco importava. Dafydd ap Iolo, rebelde galês e fora-da-lei, um homem que lutava contra os normandos desde os dez anos de idade, esqueceu-se da decisão de abandonar as batalhas. Com um brado de guerra, ergueu a espada e atacou. ! ! - ! -12
  13. 13. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! ! CAPITULO DOIS ! ! ! Corno se atreve a pôr as mãos em mim! Meu irmão vai matá-lo se você me machucar! Quanto você quer? Roger vai pagar! — berrava Madeline, enquanto lutava contra seu algoz. Apesar do medo e pânico, sabia que valia muito mais viva e intacta do que humilhada ou morta. Percebera também que seu captor era apenas pouco mais alto do que ela, e embora fosse forte, não era muito maior. Ele agarrou-lhe os braços agitados com firmeza. — É inútil lutar, mulher — desdenhou ele, com um francês normando precário, o sotaque galês acentuado na voz grave. De repente ouviu-se um brado ameaçador. Por um mo- mento, Madeline discerniu surpresa no semblante do fora-da-lei antes que ele pulasse de pé para se defender. Desesperada para fugir, contorceu-se e engatinhou, tão rapidamente quanto suas pernas trêmulas permitiram, até um arbusto grande. Se pudesse ao menos se esconder! No afã, ignorou os golpes de espadas, a troca de palavras estranhas e ásperas, que, tinha certeza, eram blasfémias em galês, até estar completamente protegida pelos arbustos. Só então voltou-se para ver quem viera em seu socorro. Não era Roger. Nem sir Albert. Nem ninguém que já vira antes. Seu salvador era alto, moreno, musculoso e estava quase nu. Tinha o corpo bem formado e, à primeira vista, sabia lutar. O cabelo comprido chegava aos ombros e escondia seu semblante. Era como se algum guerreiro imortal dos bretões houvesse ganho vida para salvá-la. Então, enquanto ele cercava o adversário, Madeline viu em seu ombro direito uma cicatriz ampla e outra marca de um grave ferimento no lado esquerdo. Ainda assim, o mais impressionante era a extrema concentração e a linha impassível de seus lábios enquanto avaliava o oponente. Nem Roger parecera tão completamente determinado quando os bandoleiros atacaram. Fosse quem fosse, viesse de onde viesse, Madeline nunca se sentira mais feliz por ver alguém em sua vida. O defensor continuava a cercar o bandoleiro, o olhar semelhante ao de um felino pronto para atacar. O fora-da-lei, que ela agora sabia ser um jovem, estava de pé e parecia um rato encurralado. Os dois combatentes gingavam o corpo de um - ! -13
  14. 14. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! lado a outro e seguravam as espadas com ambas as mãos, aguardando, avaliando-se. De repente, o homem ergueu a espada. O fora-da-lei fez o mesmo e o som de metal contra metal reverberou por entre as árvores. A lâmina do fora-da-lei escorreu pela espada do defensor, para atingir-lhe o peito. Madeline abriu a boca para avisá-lo, mas, antes que ela se manifestasse, o homem girou as mãos, desenganchou as espadas, afastou-se e movimentou a espada num grande arco, atingindo o fora-da-lei na perna. A ação toda ocorreu antes que Madeline pudesse emitir qualquer som. Os dois homens bradaram e caíram no chão ao mesmo tempo, o fora-da-lei verificou a perna que sangrava e o defensor parecia sentir dor no ombro. Mas o ferimento na perna não era grave e ele ergueu a espada com o intuito de atingir o adversário, que se levantava também. O defensor evitou o golpe e lançou sua espada mais uma vez. Perdeu o golpe. Mas quando o fora-da-lei passou, o defensor estendeu o pé, fazendo-o tropeçar e cair no chão. Quando o fora-da-lei tentou se levantar, o defensor ergueu a espada e bateu em sua cabeça com o cabo. Com um gemido, o fora-da-lei desfaleceu. O defensor largou a espada e levantou-se bastante ofegante, as mãos nos joelhos. O suor escorria da testa e no tórax musculoso e o cabelo comprido ainda escondia-lhe o rosto. Madeline rastejou para fora do arbusto. Sem saber o que fazer, ela arrumou o lenço de cabeça e a túnica, tentando obter algum autocontrole. Manteve o olhar no estranho, desconfiada. Madre Bertrilde descrevera o mundo além dos muros do convento como um lugar cheio de maldade e homens ruins e, após o ocorrido, já não se sentia tão inclinada quanto antes a encarar com ceticismo as idéias de madre Bertrilde. Após um longo período em que só se ouviu o ofegar do homem, ele ergueu o olhar e avaliou-a. De repente, ela sentiu o coração disparar, como se ela mesma tivesse acabado de lutar contra o fora-da-lei. Que expressão estranha tinha aquele olhar obscurecido e penetrante! Como se ele estivesse surpreso em vê-la ali, mas não fora ele que deliberadamente viera em seu socorro? Que arriscara a própria vida por ela? Rapidamente tentou se convencer de que se sentia tão estranha apenas pelo fato de nunca ter visto um homem em todo aquele perído em que estivera enclausurada no convento. O que ele tinha que a atormentava tanto? Era inegavelmente bonito, com aqueles olhos castanhos avaliadores e os lábios de - ! -14
  15. 15. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! uma qualidade sensual que nunca vira antes. Mas havia homens bonitos na escolta do irmão. Ele inegavelmente possuía força e manejava a espada, sabia ela, com grande habilidade. Mas o irmão e outros homens também tinham força e habilidade. Ele possuía mais que isso. De certa forma, parecia até selvagem com toda aquela ferocidade, mas era controlado demais para ser brutalmente cruel. Não tinha dúvida de que ele podia ter matado o fora-da-lei com tranquilidade, mas não o fizera. Talvez fosse apenas porque ele viera em seu socorro. Não, havia aígo mais, aígo pessoal no olhar intenso, que causava- lhe algo mais do que admiração por um rosto bonito, um corpo forte e habilidade bélica, e gratidão. A expressão dele mudara, transformara-se em algo que a deixava curiosa, excitada e espantada, tudo de uma vez. Então, compreendeu, sem dúvida alguma e embora tivesse passado os últimos anos da vida na companhia exclusiva de mulheres e de um velho padre que vinha para rezar a missa no convento, que aquele homem, aquele guerreiro, a estava olhando não como uma estudante ou noviça, ou uma mulher da nobreza. Ele a olhava simplesmente como uma mulher. Aquilo era tão novo, tão excitante... tão maravilhoso. — Quem... quem é você? — investigou, incapaz de manter o silêncio por mais tempo. Ele piscou, ergueu-se devagar até atingir a altura total e começou a ir embora. A atitude dispersiva dele fez com que ela se lembrasse da própria situação perigosa, embora não achasse que devesse temê-lo. Afinal de contas, ele a ajudara e estava pronto para deixá-la; portanto, não tinha relação nenhuma com o ataque. — Obrigada, senhor, por sua ajuda — agradeceu ela, apressando-se para acompanhá-lo. — Meu irmão ficará contente em recompensá-lo. Ele continuou caminhando, como se pretendesse deixá-la ali, com o ladrão inconsciente e com outros tantos acordados que estavam por ali. Ela o agarrou pelo braço. Ele olhou para ela e então para a mão. Ela ruborizou e afastou-se um passo. — Preciso encontrar o meu irmão. Ele não respondeu, embora não desviasse o olhar do rosto dela. — Não vai me ajudar? Eu... eu não sei onde estou e pode haver outros bandidos por aí. Ele recomeçou a andar. Ela rapidamente bloqueou-lhe a passagem. - ! -15
  16. 16. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — É o fora-da-lei? Não podemos deixá-lo ali daquele jeito. Ele devia ao menos ser atado, não acha? O homem simplesmente balançou a cabeça e continuou seu caminho. Ela saiu trotando atrás dele, confusa com aquele comportamento. Com certeza ele não a havia salvo para abandoná-la ao próprio destino. Aproximaram-se de um horrível cavalo ruão que mas- tigava capim placidamente perto de um grande carvalho, totalmente alheio aos acontecimentos. O homem abaixou-se e recolheu uma túnica, que logo vestiu. Madeline sentiu os nervos chegarem ao limite e estava ofegante. — Senhor! Eu sou lady Madeline de Montmorency e exijo que me leve a meu irmão e à nossa escolta. Estou muito grata ao senhor, claro, mas na verdade... — Ela finalmente notou o que ele vestia. — O senhor é frade? Ele não respondeu, apenas lançou outro olhar significativo. — Ou um irmão leigo. Sim, é isso, com certeza. Um irmão leigo. Nenhum frade manejaria a espada daquele jeito. O senhor deve ter sido um soldado. Mas, ora... oh, eu entendo! — exclamou, lembrando-se das histórias que ouvira no convento. — Fez voto de silêncio. Como penitência? Madeline encolerizou-se quando ele não deu sinal de que lhe faria a cortesia de qualquer resposta: — Senhor, não sei quem o senhor é, mas sei muito bem que nu não mereço ser ignorada dessa maneira. Entretanto, não responda se isso lhe convém e eu assumirei que deduzi corretamente. — Deu uma olhada no cavalo e na trouxa atada à sela. — E acredito que está em romaria como parte de sua penitência. Seja o que for que esteja fazendo, senhor — continuou, formal —, solicito a sua ajuda para encontrar meu irmão e a escolta, que, tenho certeza, teriam vindo em meu socorro, caso o senhor não tivesse aparecido. Dafydd olhou para a mulher impressionante diante dele. .Enquanto corria em seu socorro, ficou impressionado com a força que ela tinha para lutar contra o captor e praguejar contra ele. Então, quando vencera o confronto e tivera tempo para realmente olhar para ela, ficou espantado com dois aspectos. O primeiro era a beleza; o segundo era que aquela beleza estava acondicionada em trajes de noviça de um convento. Por um momento, temeu que ela estivesse ferida ou fosse desmaiar, pois estava extremamente pálida. Quando nada - ! -16
  17. 17. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! aconteceu, creditou-lhe mais força interior e mais habilidade para se recuperar rapidamente do que a maioria das nobres, até ficar claro que ela não apenas se recuperara, se a língua ferina era um indicador, mas que também estava sendo ingrata. Aparentemente, ela aceitara o socorro como um direito natural. E não apenas isso, pensara que ele estivesse desejoso... ou melhor, ansioso, para levá-la de volta ao irmão. Precisava retomar seu caminho, para fora dos territórios normandos e na direção do país de Gales. Não tinha a mínima vontade de bancar a ama-seca de uma nobre nor-manda, especialmente não da irmã arrogante de sir Roger de Montmorency, um homem notoriamente rude com os rebeldes galeses. Além de Morgan, ele era um dos homens que Dafydd sabia que deveria evitar a todo custo. Quem diria que ele se encontraria em tal situação? Em hipótese alguma, iria chegar perto de sir Roger de Montmorency. Nem podia deixá-la sozinha na floresta, embora fosse tentador. Havia perigos demais para uma mulher solitária. Sentia o ombro doer e estava cansado. Nunca deveria ter interferido. O pobre jovem desmaiado lá na clareira com certeza só queria algum dinheiro de resgate e não a teria machucado de verdade. Entretanto, poderia levar aquela mulher a algum lugar... neutro. O feudo de sir Guy, talvez. Seria arriscado, mas com certeza menos perigoso do que ir direto ao encontro de sir Roger de Montmorency. Lady Madeline começou a bater o pé, impaciente. — O senhor poderia fazer a gentileza de me acompanhar até o meu irmão? — repetiu ela, insistente, encarando-o com aqueles olhos azuis enormes que mascaravam qualquer emoção como um sinalizador. — Tenho certeza de que ele liquidou o resto do bando tão facilmente quanto o senhor fez com aquele bandido. Dafydd franziu o cenho, embora concordasse com ela. Os galeses deviam já ter ido embora, mas com certeza não deviam estar muito longe. Eles poderiam estar aguardando o jovem tolo que metera na cabeça que tentaria um resgate. Uma lady normanda valeria um grande resgate; por isso, ele se arriscara. Sim, como objeto de resgate, ela era muito valiosa. Para ele também. Ora, ele poderia conseguir prata suficiente para viver como qualquer nobre. Deu-lhe as costas, pois seu olhar poderia ser tão denunciador quanto o dela. — Roger vai recompensá-lo por seu aborrecimento, ou, pelo menos, vai lhe providenciar um cavalo decente. - ! -17
  18. 18. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Recompensa era menos arriscado que resgate, calculou. Mesmo assim, devia evitar qualquer contato com normandos. Decidiu seguir o plano original e levar a lady para o feudo mais próximo e, então, seguir seu caminho. Sem falar nada, agarrou lady Madeline pela cintura e pousou-a sobre o cavalo que ela desdenhara. Sem dúvida, ela não o teria insultado com tanta facilidade quando percebesse que a única alternativa era caminhar. Dafydd montou por trás dela e estendeu-se para agarrar as rédeas, cercando-a com os braços. Conduzindo o cavalo pelo caminho que atravessara havia pouco, incentivou o animal para que se movimentasse. Naquele momento preciso, Dafydd apercebeu-se de mais um detalhe. Fazia muito tempo que estivera com uma mulher. Naquele longo período no monastério, nem vira mulher, quanto mais tocar. Com certeza, estava tocando em uma naquele momento. Não apenas qualquer mulher. Lady Madeline de Montmorency era extremamente bonita, com o rosto rosado, os olhos muito azuis adornados por cílios castanhos, o nariz delicado e o queixo gracioso, que podia ver quando se inclinava para a frente. Os lábios também eram adoráveis. Inclinou-se para a frente mais uma vez, sentindo prazer com o contato sutil que fazia seu sangue ferver. Ela até cheirava bem. Como uma fruta. O que aconteceria se tentasse sentir-lhe o gosto? Aquela criatura normanda arrogante com certeza o esbofetearia caso chegasse perto, mas ela era tão linda quanto orgulhosa. Talvez o beijo valesse o efeito colateral. Não, simplesmente a ignoraria. Ignoraria o belo rosto normando, os olhos azuis desdenhosos e os lábios carnudos. Passou a refletir sobre as vestes. Estava vestida como noviça, mas não se comportava como nenhuma noviça que já vira ou conhecera. Talvez as roupas fossem um disfarce para desviar atenções indesejáveis. Sim, um irmão pensaria daquela forma, especialmente com uma irmã tão bela. Lady Madeline de Montmorency. O nome era levemente familiar. Seria o irmão famoso? Não... o casamento a que o abade Absalom iria comparecer... uma das partes não era de Montmorency? Sim, era isso! Então, esta mulher logo iria se casar. O esposo precisaria de todo apoio! Precisaria domar a megera. - ! -18
  19. 19. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Um trovão ecoou. Dafydd olhou para o céu. Logo seria noite e, quanto antes se livrasse de lady Madeline de Montmorency, quanto antes estaria a caminho de Gales. — Esse não é o caminho certo. — Madeline voltou-se sobre a sela para encarar o homem misterioso. — Nós passamos por aqui há algum tempo, meu irmão e eu. Estou reconhecendo aquele prédio em ruínas. Você se enganou. Meu irmão está para o outro lado — afirmou. O estranho franziu o cenho e balançou a cabeça. Embora ela não estivesse ansiosa para voltar ao castelo do irmão e obedecer às determinações dele sobre seu futuro, não fazia idéia de onde aquele peregrino a estava levando, se fosse mesmo peregrino. Talvez houvesse apenas trocado de captor, a túnica podia ser falsa, estava em dúvida quanto à retidão do cidadão. Não acreditava que aquele homem representasse perigo diretamente, pois, senão, ele já teria entrado em ação. Entretanto, ela poderia ter cometido um grave equívoco em se identificar. Como objeto de resgate, valia muito. — Eu estou certa — insistiu. Ele balançou a cabeça novamente. De repente, os braços que a cercavam e que pareceram protegê-la até aquele instante viraram uma gaiola. — Senhor, agradeço a sua voluntariedade em me ajudar, mas devo insistir para que alteremos o rumo — afirmou ela, tentando não parecer tão aterrorizada quanto estava. Censurando-se por ter sido tão tola, tentou imaginar um modo de escapar e voltar para Roger. Fosse qual fosse seu plano, teria que agir rápido, antes do anoitecer, pois senão não conseguiria mais achar o caminho. E pensar que passara boa parte da vida a poucos quilómetros dali e que nunca andara por aquela estrada! Se pelo menos madre Bertrilde não fosse tão irredutível quanto a permanecer dentro dos muros do convento... Quando passaram ao lado do que parecia uma floresta bastante densa e ouviu-se o borbulhar das águas de um riacho, rapidamente anunciou: — Estou com sede. Podemos parar e nos refrescar na- quele riacho? O homem assentiu e fez o cavalo parar. Tentando parecer calma, Madeline desmontou e foi para o manancial. Bebeu um gole de água fria e clara e observou com o canto do olho que o homem também desmontara e caminhava em sua direção. - ! -19
  20. 20. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Eu... eu vou naquele matinho — comunicou Madeline, esperando não parecer assustada, mas cheia de inocência virginal. Encaminhou-se aos arbustos. Quando o homem inclinou- se para beber a água, desviou-se para o cavalo tão silenciosamente quanto pôde e subiu na sela. Incentivou o animal com um chute. Dafydd voltou-se de repente ao ouvir o galope de sua montaria. O que ela estava fazendo? Aonde pensava que ia? Ele correu até a estrada para ver lady Madeline e o ruão desaparecerem numa curva. Uma lista de ditados galeses voltou-lhe à lembrança en- quanto permanecia parado no meio da estrada completa-mente indefeso. Ela estava com todos os seus pertences, incluindo a espada e o dinheiro que furtara do abade Ab-salom. Então, de repente, a raiva foi substituída por apreensão. O cavalo pertencia ao monastério. Se alguém o visse e reconhecesse, saberiam de onde viera e, não apenas isso, descobririam a trouxa com as moedas roubadas. Sir Roger com certeza mandaria alguém atrás dele. Se o encontrassem, sir Roger com certeza deduziria que o antigo hóspede dos monges não era um simples soldado ou peregrino religioso. Seria enforcado como rebelde e também como ladrão. Dafydd percebeu que podia ou esquecer o cavalo, o di- nheiro, a espada e fugir, ou ir atrás de lady Madeline e tentar recuperar tudo antes que alguém reconhecesse o cavalo. Talvez, se se apressasse, os encontraria ainda em regozijo com o reencontro e não abririam a sacola, e ele poderia roubá-la novamente. Precisava recuperar a espada, pelo menos. Estava em sua família havia gerações. Com o rosto sombrio, Dafydd suspendeu a pesada túnica e correu pela estrada atrás de lady Madeline de Montmorency. ! ! ! CAPITULO TRÊS ! ! ! Suando profusamente, ansioso e zangado, Dafydd praguejou contra si mesmo por ter cedido ao impulso de interferir no evento com os bandoleiros enquanto corria junto às árvores que ladeavam a estrada. Prestava bastante atenção aos sons que pudessem indicar a aproximação de pessoas pela via lamacenta. Sem a espada, era totalmente vulnerável aos - ! -20
  21. 21. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! normandos, e a qualquer fora-da-lei. Na verdade, não achava que seria incomodado por nenhum fora-da-lei. Com certeza, eles não achariam que um homem solitário de mãos vazias valesse qualquer esforço e, além disso, tinha razões para crer que o bando que havia atacado o comboio de sir Roger já estava longe dali, remexendo a carga e decidindo como dividir o butim. Os normandos eram mais preocupantes. Se tivessem sido feridos, iriam atrás dos bandoleiros que desapareceriam como orvalho num dia quente de verão. E, se o pegassem, com certeza não ouviriam seus protestos sobre não pertencer ao bando. Era galês e aquilo já era suficiente para condená-lo. Sorriu irônico ante a idéia de ser enforcado por um crime que não cometera em detrimento dos delitos que cometera. O sol estava quase no horizonte e Dafydd percebeu que chegara finalmente ao local onde parara ouvindo os sons do ataque. Cortou caminho pelo morro e chegou ao cume. Dali, facilmente localizou lady Madeline de Mont-morency. Ela estava sozinha, agachada na lama, examinando o solo. O cavalo ruão estava largado, as rédeas soltas. Embora ele nem tomasse cuidado, ela não o ouviu se aproximar e continuou avaliando a estrada muito pisoteada e lamacenta. Os sinais de luta eram óbvios e, num local em particular, havia marcas de sangue. Ela ergueu e baixou os ombros com um suspiro entrecortado e soltou um soluço. Lady Madeline não parecia tão arrogante naquele mo- mento. Na verdade, Dafydd ficou admirado por ela ser uma mistura de orgulho e vulnerabilidade tal qual jamais encontrara antes. Exceto, talvez, nele mesmo. Dafydd ignorou o leve repente de piedade e empatia no coração e avaliou o local. Nesse mesmo instante, lady Madeline percebeu que não estava sozinha. Ergueu-se, parecendo temerosa e apertou algo na mão. — O que você quer? — indagou, enxugando o rosto coberto de lágrimas. Apesar disso, Dafydd discerniu o temor no olhar. Aquela expressão perturbou-o mais do que tudo o que havia acontecido. — Não vou machucar você — avisou ele, devagar e confiante, tentando soar o mais normando possível. — Você fala! Ele assentiu. — Então me diga quem você é — exigiu ela, as lágrimas e o medo já esquecidos, ou subjugados sob a forte determinação e coragem. - ! -21
  22. 22. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Ele não respondeu, ao invés disso, apontou para a mão. Lady Madeline estendeu a mão aberta e ele avistou algo brilhante sob a fraca iluminação. — E o broche que segura a capa do meu irmão — informou ela. — Era de meu pai. Ele jamais deixaria isto para trás. Dafydd lembrou-se do jovem que caíra e percebeu que aquele poderia ser Roger de Montmorency. Imaginara que o homem grisalho fosse o famoso cavaleiro. — Seu irmão não deve estar morto — opinou Dafydd, seguro. Ela o observou desconfiada. — Como pode ter certeza? — Ele luta bem. Talvez esteja ferido, mas os outros não eram bons o bastante para matá-lo. — Acredita mesmo nisso? — Foi o que disse, não foi? — Você não é normando. Era uma conclusão, não uma pergunta, e ele não tentou negar. — Não é frade, tampouco. Novamente, não havia motivo para mentir. Não parecia frade e sabia muito bem disso. Ela estreitou ainda mais o olhar e afastou-se. — E um peregrino pelo menos? — Sim. — Ou quase isso. Não queria assustá-la. Avançou um passo, desejando que ela não sentisse medo dele. Detestava normandos, mas ela era, antes, uma mulher. — Estou indo para Canterbury — acrescentou, para dar credibilidade. — Então, está indo na direção errada — observou ela, desconfiada. Precisou se esforçar para não bater na própria cabeça. Devia ter mantido a boca fechada! Na verdade, tudo o que sabia sobre Canterbury era que tratava-se de um local sagrado e que ficava na Inglaterra. — A outros lugares antes — remendou ele, após um longo momento em que ela o observou apreensiva. — Dou a minha palavra de que não a machucarei. — Preciso encontrar Roger. Pode me ajudar? — Não. A recusa definitiva espantou-a e preocupou-a; mas ele não tinha como evitar. Era melhor ela saber logo o que ele pretendia e o que não pretendia fazer. — Mas você precisa! - ! -22
  23. 23. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Não. — Não pode me deixar aqui! E se aqueles bandoleiros voltarem? — Eu a levarei até uma ajuda. — Ajuda? Que ajuda? — Há um feudo, para lá. — Ele gesticulou na direção da estrada e imaginou se estava cometendo outra tolice em se oferecer para ajudá-la. Embora ela estivesse certa, não poderia deixá-la ali. — Suponho que lhe deva ser grata por isso — resmungou ela, procurando parecer bastante contrariada. — Mas preciso encontrar Roger. — Para ir se casar? — disparou ele, impertinente. — Sim, para ir me casar — rebateu ela, desafiadora, como se achasse que ele estivesse duvidando de sua urgência. Antes que ele pudesse avaliar a reação dela, ouvíu-se um trovão e uma chuva torrencial começou a cair sobre suas cabeças. O cavalo relinchou e se movimentou nervosamente. Dafydd conseguiu agarrar as rédeas antes que o animal fugisse. Puxando a montaria, foi até Ma-deline e, habilmente, sem falar nada, ergueu-a até a sela e começou a correr pela lama, junto à estrada e então pelas árvores na direção de uma fazenda em ruínas que observara antes. Rapidamente chegaram à edificação abandonada e abrigaram-se em uma cabana que permanecia intacta. As portas largas eram mantidas por duas dobradiças e algumas tábuas haviam despencado, mas o teto estava bom e dava para o cavalo entrar também. Ele parou para abrir completamente as portas e lady Madeline rapidamente desmontou, correndo a se abrigar. Dafydd seguiu-a, conduzindo o cavalo pela entrada. Dafydd avaliou a cabana abandonada cheia de teias de aranha e palha. Trechos do telhado estavam faltando, mas, apesar disso, dentro permanecia seco. Ainda havia cheiro de animais e feno e Dafydd percebeu que o ambiente amplo era dividido em dois. Ele conduziu o cavalo mais para dentro e avaliou sutil- mente se a trouxa amarrada à sela permanecia intocado. Madeline foi para a porta e ficou observando a chuva contínua. — Preciso encontrar o meu irmão — anunciou novamente. — Assim que a chuva parar. Dafydd observou-a e lamentou um pouco por ver que a mulher vulnerável desaparecera para dar lugar novamente à arrogante aristocrata. Ela tirou o lenço da cabeça e uma - ! -23
  24. 24. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! cascata de cabelos longos e brilhantes derramou-se-lhe pelos ombros, alcançando a cintura. Por tudo o que era sagrado, ele jamais vira cabelo como o dela. Como seria a textura, como seria ver aquela massa espalhar-se sobre seu corpo nu? Sem a moldura de tecido ao redor do rosto a beleza ficava ainda mais aparente. As maçãs do rosto pareciam lisas e macias, os olhos claros e brilhantes denunciavam inteligência, os lábios eram tentadores. Não era surpresa sir Roger tentar esconder tal beleza nas vestes tacanhas de uma ordem religiosa. Bonita ela era; entretanto, havia algo mais na boca que sugeria determinação e até teimosia. Também possuía o comportamento e o porte orgulhoso que todos os conquistadores normandos possuíam. Provavelmente ela tivera tudo a seu modo em toda a sua vida tranquila. Daria uma ótima esposa normanda e teria muitos filhi-nhos normandos que iriam controlar as terras. Dafydd alisou o pêlo do cavalo vigorosamente. Eía bem que podia ser uma freira. — Acho que a chuva está ficando mais forte — denunciou ela, como se ele fosse responsável pela virada no tempo. — Talvez tenhamos que ficar aqui esta noite. Ele tirou a túnica molhada e estendeu-a para secar. Já dormira em lugares piores e com tempo pior também. Pelo menos tinham um teto sobre as cabeças, Dafydd desamarrou a trouxa da sela e pousou-a a seus pés. Procurou no interior e retirou uma pedra-de-fogo com a qual acenderia uma fogueira na lareira semides-truída no outro lado da cabana. Recolheu um pouco de palha e pedaços de madeira que estavam num canto. Tudo estava bem seco e o fogo pegou fácil. Então, reabriu a trouxa e retirou pedaços de pão que escondera na cama nos últimos dias na enfermaria do monastério. Ela se voltou e olhou para ele. Dafydd mastigava uma pequena fatia de pão redondo. O único som era o da chuva. Entardecia e a penumbra se devia tanto ao horário quanto à presença das nuvens carregadas. Logo ficaria escuro demais para viajar, especialmente nas estradas enlameadas. Vendo-a de pé ali, iluminada pelas chamas bruxulean-tes da fogueira, Dafydd ficou ciente de estar quase nu e sozinho com uma mulher. Ela veio em sua direção, observando-o cautelosamente. Era óbvio que não tinha mais certeza do tipo de homem que ele era, se peregrino, soldado, fora-da-lei ou camponês. - ! -24
  25. 25. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Desconfiada, sim, mas não temerosa, o que o agradava, embora soubesse que isso não deveria importar. Mesmo assim, ela era, sem sombra de dúvida, a mulher mais bonita que já vira. Apreciou o jogo de luzes em seu rosto e a intimidade do momento. Ela se sentou no chão à sua frente. Ele lhe passou um pedaço de pão e notou, divertido, que ela não ficou satisfeita com a oferta de pão bolorento. Surpreendentemente, entretanto, não disse nada, e começou a comer, desviando o olhar, recatada, como se ele fosse um pretendente e ela, uma virgem tímida sendo cortejada. Essa idéia divertiu-o imensamente. Não podia imaginar um normando cortejando uma mulher, com certeza não da forma adequada, com palavras eloquentes, ou com uma canção de amor, talvez, e beijos implorados no escurinho numa noite de verão. Era uma pena, de certa forma, pois ele achava que aquela mulher merecia tal corte. Ele mesmo nunca cortejara uma mulher. Sua vida sempre fora ocupada com lutas, rebeliões e longos períodos escondido na floresta. Seu relacionamento com mulheres limitara-se a momentos de paixão com prostitutas animadas, que achavam excitante fazer amor com um rebelde. Mal se lembrava da maioria delas. Percebeu que lady Madeline estava tremendo e imaginou se deveria sugerir que ela retirasse a roupa molhada. Idéia muito interessante... — Preciso encontrar o meu irmão — repetiu ela, desa- fiadora, retirando-o do estado sensualmente contemplativo. — Não com o meu cavalo — afirmou ele. Até o beicinho dela tinha algo de adorável. — Eu lhe asseguro que, seja quem for, será devidamente recompensado pelo animal e pelo transtorno. Meu irmão é muito rico. E muito influente. — O seu noivo é rico e influente também, sem sombra de dúvida. — Sim. Apesar do formoso queixo erguido, ele achou que ela não tinha tanta certeza disso. Interessante, Irrelevante, mas interessante. Ele ofereceu outro pedaço de pão. Madeline aceitou escrupulosamente e foi se sentar o mais longe possível do indivíduo, mas ainda perto do calor das chamas. - ! -25
  26. 26. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Para seu dissabor, o homem quase nu sorriu-lhe. Sorriso demoníaco era aquele, e ela ficou imaginando como achara que ele pudesse ter feito votos em uma ordem religiosa. Desviou o olhar, decidida a não olhar mais para ele, nem para aquela cicatriz horrível no ombro, nem ficar pensando como alguém podia sobreviver a um ferimento daqueles. Gostaria que ele colocasse a túnica. Forçou-se a pensar no que faria em seguida. Não tinha idéia de como agir numa situação tão inusitada. Nos últimos dez anos, cada momento de sua vida seguira um padrão pré- estabelecido e convivera com pessoas cujos hábitos, gostos e desgostos conhecia tão bem quanto os seus próprios. Então, de repente, ela se viu diante da notícia de seu casamento iminente, a chegada de Roger, a partida abrupta do convento, o ataque de bandoleiros, seu resgate e, agora, lá estava ela, temerosa na companhia daquele estranho musculoso, que não era normando, e mais temerosa ainda com a opção de deixar esse estranho e sair na chuva, embrenhando-se no desconhecido. Mas deveria acreditar tão facilmente no palavra daquele homem de que Roger estava bem? Os fora-da-Iei estavam em maior número, afinal de contas. Talvez Roger estivesse caído, ferido, em algum lugar, sangrando e sentindo dor... Só porque não fora capaz de convencê-lo a, pelo menos, adiar o casamento até que conhecesse o futuro marido, não significava que não se importava mais com seu único parente vivo. Aliás, se Roger não estivesse ferido, por que não viera ao seu encontro? Com certeza, estaria procurando por ela se fosse capaz. Ainda que se importasse com ela apenas como um instrumento para atingir seus objetivos. Ou especialmente se a tivesse em consideração apenas por isso. Suprimiu um suspiro entristecido ao entender que o tempo e o treinamento haviam transformado seu irmão num ser calculista. Ora, aquele homem sentado à sua frente, um total estranho, estava mostrando mais preocupação com ela do que Roger. Quem era ele? De onde viera? Por que a ajudara? Con- seguia adivinhar alguns aspectos sobre ele com alguma certeza. Sabia que ele era galês, apesar dos esforços em mascarar o sotaque, pois havia criadas galesas no convento, que ficava perto da fronteira. Ele devia ter sido treinado como soldado, pois manejava a espada com bastante habilidade. Poderia ser um rebelde, ou alguém que vira a oportunidade para um resgate, mas ele não - ! -26
  27. 27. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! tentou amarrá-la, nem impedir-lhe os movimentos de maneira nenhuma. Se quisesse, poderia sair a qualquer instante. Poderia fazer-lhe perguntas, claro, mas ele provavelmente responderia com aquele olhar perturbador ou pior, com aquele sorriso. Ele captou o olhar dela e apontou para um monte de palha no canto. — Vá dormir. — Onde? — indagou, cautelosa. Embora ele se mostrasse confiável, ela era mulher e ele, homem. Um homem jovem e forte. Ele indicou novamente o monte de palha. — Ali. — Não. — Balançou a cabeça, determinada. Afinal de contas, estavam ali sozinhos, e ele estava seminu. — Não vou tocar em você — afirmou ele, insultado com razão com a relutância dela. — Pode haver... ratos — aventou Madeline, estremecendo. Sempre tivera pavor daquelas criaturas peludas e tinha absoluta certeza de que aquela cabana era o paraíso para os ratos. E, onde havia um rato, havia centenas. Era uma boa desculpa. Ele começou a rir, emitindo um som rico e solto que surpreendentemente agradou-a. Com graça felina, ele se levantou rápido, agarrou a espada e experimentou-a na palha. — Não tem ratos. Ele voltou para perto da lareira, pousando a espada a seu lado. Ela percebeu que ele franziu o cenho. — Dói, o seu ombro? — perguntou, sem pensar. — Agora não. Ele a olhou intensamente e por um longo momento. Ela sustentou o olhar, tentando decodificar a mensagem e determinada a não permitir que ele a dominasse. A única pessoa cujo escrutínio nunca conseguira sustentar era a madre Bertrilde e ele não a assustava tanto quanto a madre zangada. Mesmo assim, ela desviou o olhar primeiro, porque percebeu, de repente, que o calor da vergonha fora substituído por aconchego e que ela estava gostando do olhar dele de uma forma inusitada. — De onde você vem? — perguntou, inocente, embora já soubesse a resposta. — Cornwall. - ! -27
  28. 28. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Ah. — A mentira decepcionou-a. Ele a achava idiota? A pele e o cabelo escuros denunciavam sua origem, bem como o sotaque. — Você foi soldado? Ele assentiu e ela desejou que aquilo não fosse mentira também. — Você luta bem. Talvez possa servir a meu irmão. Ele está sempre procurando bons soldados. O semblante do homem ficou sombrio e ela desconfiou de que ele não lhe responderia mais. Em vez de permitir que ele a ignorasse, caminhou para o monte de palha e dejtou-se. — Durma — repetiu ele. Recostou-se contra a parede da cabana e estendeu as pernas até chegar quase ao fogo. Ela se virou de lado para ficar de costas para ele. Como se pudesse dormir numa situação daquelas, como um homem que não lhe dizia a verdade, que lutava como um demônio e que permanecia ali seminu e sem vergonha disso. Por uma vez, agradeceu à madre Bertrilde por ser tão rígida. Já passara várias noites de vigília e aprendera a descansar sem realmente adormecer. Se o homem se apro- ximasse, acordaria instantaneamente e se defenderia. Cada parte do corpo de sir Roger de Montmorency parecia doer, em particular a cabeça. Onde estava? Uma vela tremeluzia sobre um criado-mudo simples, onde jazia também um copo de argila do qual emanava um cheiro de remédio. O resto do quarto estava escuro. As paredes próximas eram muito brancas e lisas. Um crucifixo enorme pendia sobre a cabeceira. Podia ouvir o canto. Vozes graves, de homem, sonoras e agradáveis. Cantos. Era noite e estava num monastério. O que acontecera? Houve um ataque. Muitos foras-da-lei. Madeline gritou... — Madeline! — gritou ele, sentando-se abruptamente. A dor aguda na têmpora fez com que se deixasse cair novamente sobre o travesseiro. Sir Albert Lacourt inclinou-se e o rosto sério pareceu estar flutuando desfocado. — Onde...? — sussurrou Roger. — Você está a salvo no monastério de St. Christopher, Roger. Você foi ferido. — St. Christopher? Então estamos quase de volta ao convento! Onde está Madeline? — Nós... nós não sabemos. Estamos fazendo de tudo para localizá-la, Roger — informou Albert, rápido. - ! -28
  29. 29. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Preciso encontrar Madeline. — Roger tentou se le- vantar, mas sentia-se tão fraco quanto um filhote de gato recém-nascido. Albert olhou por sobre o ombro para alguém que estava nas sombras e então inclinou-se sobre Roger novamente. — Você perdeu muito sangue. Frei Gabriel disse que não deve tentar se levantar. — Quem é esse frei Gabriel para me dar ordens? — revoltou-se Roger, fraco. Mais uma vez, esforçou-se para se sentar. Instantaneamente, mãos determinadas mas gentis for- çaram-no a se deitar. — Meu senhor, devo insistir. Ou poderá até morrer. Roger olhou para o homem que o segurava. Os olhos cinza eram gentis, mas tinham uma expressão determi- nada que já conhecia, pois era a mesma que seu professor na arte da espada usava para instigá-lo a continuar praticando. Mas aquele homem parecia mais um acadêmico do que um soldado, embora fosse bastante forte para um frade, ou, pior, talvez estivesse mesmo muito fraco. — Preciso encontrar minha irmã. O casamento é daqui a alguns dias e ainda estamos longe do meu castelo. — Por favor, senhor, não se esforce! — aconselhou Albert. — Já mandamos Bredon com os cães. Roger sentiu algum alívio. Bredon era o melhor caçador da Inglaterra e responsável por seus cães, que eram também os melhores da Inglaterra. Se alguém pudesse encontrar Madeline, seria Bredon. Albert limpou a garganta e olhou para o frade ansioso. — Infelizmente, está chovendo desde o anoitecer e não podemos procurar como gostaríamos, — Precisa ter fé, meu filho — incentivou o frade, gentil. Roger de Montmorency torceu os lábios, cético. Tinha fé em apenas três assuntos: em Deus, na espada e na habilidade de manejá-la. Infelizmente, Deus parecia tê-lo abandonado, e Madeline também. Quanto à espada, logo teria força suficiente para manejá-la. Se alguém houvesse tocado em Madeline, colocaria suas duas crenças em ação sem piedade. — Encontrem-na e eu quero aqueles fora-da-lei. Vivos. — Capturar aqueles bandoleiros pode ser difícil. Outros galeses com certeza lhes darão abrigo — respondeu Albert. A expressão sombria de Roger foi a resposta e o homem logo se apressou em afirmar: — Muito bem, senhor. Vamos atrás deles também. - ! -29
  30. 30. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Frei Gabriel limpou a garganta, respeitoso. — Senhor, por favor, lembre-se de que pode haver outros fatores a considerar. Se esses homens são simplesmente uns fora-da-lei, como acredita, tente entender que há outros senhores, menos sábios que o senhor, talvez, que são rudes cora seus servos e, então, criam... — Se os homens não cumprem a lei, devem ser punidos. — Que seja, mas um pouco de misericórdia... — Eles terão exatamente o que merecem, frei. Nem mais, nem menos. — Roger olhou para Albert e tentou focalizar o amigo. — Não creio que fossem rebeldes. Albert balançou a cabeça. — Nem eu, senhor. — Pediram resgate? — Não recebemos nenhum pedido. — Não quero que Chilcott saiba nada sobre isso. Nem o barão DeGuerre. — A sua preocupação não deveria estar na volta de sua irmã sã e salva? — indagou frei Gabriel, suave. Roger discerniu a repreensão no olhar do religioso. — Claro que estou preocupado com ela, homem! Deixem- me sozinho agora! O tom autoritário era inequívoco e frei Gabriel sabia- mente não retrucou. — Com certeza não há necessidade de informar ao noivo de sua irmã — amenizou Albert. — Pelo menos, não encontramos o corpo. Isso pode indicar que ela conseguiu escapar e agora está... — Perdida na floresta? Pouco confortador, Albert! Eu mesmo vou procurar por ela. — Roger afastou a coberta, pousou os pés no chão e levantou-se. Então, sir Roger de Montmorency caiu de volta na cama desmaiado, o rosto tão pálido que Albert apressou-se até o corredor e chamou frei Gabriel aos berros. ! ! ! CAPÍTULO QUATRO ! Madeline avançou, mal respirando, embo-ra o inflar do peito nu do galês indicasse que ele estava dormindo. Quando acordou pela primeira vez e percebeu que ele estava adormecido e que a chuva havia cessado, sentiu-se tentada a fugir, até concluir que não fazia idéia de onde estava. Poderia - ! -30
  31. 31. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! acabar perdida na floresta, na mesma floresta que abrigava os fora-da-Iei que haviam atacado seu comboio no dia anterior. Além dtsso, decidira tomar outra atitude. Muito cautelosa, afastou a espada do toque frouxo do galês. Certo! Conseguira! Ergueu o instrumento com cuidado, surpresa com o peso e a beleza do acabamento e ciente da lâmina muito afiada. Então, suspirando fundo, pousou a arma no pescoço do galés. Ele abriu os olhos, instantaneamente desperto. — O que está fazendo? — exigiu.ele, o sotaque acentuado devido à surpresa. Ergueu-se um pouco. — Quero que responda às minhas perguntas. Quero saber quem você é. — Ela empurrou um pouco a ponta da espada para mostrar que queria respostas, não sorrisos. — David — respondeu ele. — Meu nome é David. — Muito bem, David, se esse é mesmo o seu verdadeiro nome, e não estou acreditando totalmente nisso, o que faz vestido com uma túnica de frade? — Eu lhe disse, estou fazendo uma peregrinação. — Para onde? — Canterbury. — Por que então não está indo para o sul? — Eu... vou visitar a minha família primeiro. — E você é de Cornwall? — Sim. — Você está mentindo para mim, David. Ele não respondeu. — Havia moças galesas trabalhando para nós no convento. Eu reconheço o sotaque. O que mais é mentira? Que você não vai me machucar? — Isso é verdade. Eu não vou machucá-la. De tudo o que ele dissera, ela acreditava naquilo. Con- seguia ver a verdade no olhar e a sinceridade na voz. No convento, desenvolvera a habilidade de identificar as verdadeiras intenções das pessoas, pois lá muitas mascaravam a ganância passando-se por piedosas apenas para obter favores da madre superiora. Sabia muito bem detectar hipocrisia e falsidade. Não via nada disso quando ele faiava que não a machucaria. Mais importante que isso, havia algo mais no olhar daquele homem quando a observava. Não era medo por ela estar com a espada em seu pescoço, mas um tipo de respeito contrariado, algo reconfortante, pois suspeitava de que ele não - ! -31
  32. 32. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! concedia aquilo com facilidade, não a um normando e, com certeza, não a uma mulher. — Posso dizer o que acho, David? — perguntou ela, o tom mais leve, apesar de ainda sério. — Acho que você é ou foi um tipo de soldado. Não é mais, por causa desse ferimento em seu ombro ou, então, está viajando disfarçado. Também deduzo que não gosta dos normandos. Portanto, você é um galês que sabe lutar e que não gosta de normandos. Você seria, por acaso, um rebelde? — Se eu fosse — provocou ele, com um sorriso desdenhoso —, acha que seria estúpido o suficiente para admitir? Ela se levantou, ainda segurando a espada. Ele esfregou o pescoço enquanto a observava. — Estou contando o que acho apenas para provar a minha teoria. Não me importa quem você realmente seja, ou o que você tenha feito. Não tenho interesse nenhum na verdade sobre você, além do que se relaciona com a minha segurança. — Aquilo não era totalmente verdade, mas não era seguro deixá-lo saber que tinha curiosidade sobre ele. — Nada sobre você me importa, desde que me ajude. — Eu disse que ajudaria, mas não vou levá-la a seu irmão. Ele odeia os galeses. Madeline não respondeu à afirmação rude, pois não sabia o que dizer. Infelizmente, não podia mais falar pelo irmão. Ele parecia ter mudado muito naqueles dez anos e era possível que aquele homem entendesse Roger melhor do que ela mesma. — E, se eu fosse você, não ficaria muito ansiosa em contar a seu irmão que andou com um galês como escolta — alfinetou ele. — Pense no escândalo, minha senhora. Madeline arregalou os olhos e esqueceu-se de esconder o sorriso de excitação. Dentre todos os aspectos, não considerara o que aconteceria se reencontrasse Roger e viesse à tona o fato de ela ter passado a noite sozinha com um homem. E, pior, do ponto de vista de Roger, pelo menos, um galês que bem poderia ser um rebelde. Um escândalo era bem o tipo de acontecimento que acabaria com um casamento. Então, ela franziu o cenho. Embora não gostasse nada da idéia de se casar com Chilcott, não tinha certeza de que queria perder a reputação por isso. Aí, percebeu que o galês sorria- lhe. — Você deve ter sido um soldado bem medíocre, David, para permitir que uma mulher o encurralasse no sono — disparou ela, tranquila. - ! -32
  33. 33. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Dê-me a espada antes que se machuque — desdenhou ele, erguendo-se. — Não. Enquanto ela recuava, mantendo a espada apontada para ele, Dafydd avançou subitamente, arrebatou a arma da mão dela e lançou-a rente ao chão. E aterrissou sobre ela, sufocando-a. — Por que não fugiu quando viu que eu estava dormindo, lady Madeline de Montmorency — perguntou Dafydd. Afastou- se um pouco e olhou para ela, ciente do corpo junto ao seu e da proximidade dos lábios convidativos. — Preciso de escolta e, infelizmente, você é o único disponível. — Não há motivo para ajudá-la, especialmente quando você põe a minha espada no meu pescoço — observou ele. — Eu queria saber quem você era. — Eu sou a sua escolta. Isso basta. — Suponho que sim — rebateu ela, fazendo beicinho e lançando-lhe um olhar que era ao mesmo tempo orgulhoso, impertinente, indagador e muito tentador. — Poderia, por favor, sair de cima de mim? Você está... — 0 quê? — perguntou ele, suave, inclinando-se mais um pouco, de tal forma que seus lábios ficaram quase unidos. — Eu o quê, senhora? Gentilmente, ele a beijou. De início, simplesmente de- gustou a sensação do beijo que havia muito tempo não sentia. Então, como milagre, de forma maravilhosa, percebeu que ela estava correspondendo ao beijo, de forma inocente, denunciando a descoberta de uma nova capacidade. Saber que podia inspirar tal sentimento deu-lhe novo ânimo. Investigou os lábios com a língua, até que ela os entreabriu para que ele avançasse mais. Quando ele introduziu a língua suavemente em sua boca, Madeline mal compreendia as sensações extraordinárias que a invadiam. Em primeiro lugar, vinha a surpresa sem tamanho. O toque de qualquer natureza era proibido no convento, até mesmo aquele decorrente da passagem das travessas de alimento. O beijo em si era inebriante; mais que isso, transportava-a a uma dimensão tão excitante que mal podia raciocinar muito além do prazer que era sentir os lábios dele sobre os seus, deliciosamente mornos, firmes e possessivos. E se um beijo já a deixava daquele jeito, o que seria com outras atividades sobre as quais as meninas do convento falavam, atividades secretas, comentadas aos sussurros no pátio, quando as freiras não estavam ouvindo? - ! -33
  34. 34. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Excitada, Madeline tornou-se impetuosa e agarrou os ombros musculosos. Sentiu a carne quente nas mãos e instintivamente começou a ondular o corpo. Ele a salvara e a protegera. E ainda iria ajudá-la. David era forte, bonito, viril. Um guerreiro. Foi quando sentiu a mão grande nos seios. Espantada, afastou-o. — Pare! — gritou, surpresa e chocada, nem tanto pela atitude inesperada dele, mas também pela própria falta de controle. Era intimidade demais, cedo demais. O que sentia devia ser luxúria, só podia ser luxúria. Ruborizada de vergonha, empurrou-o. — Pare com isso! Ora, o sorriso dele podia ser a manifestação da luxúria. — Você gosta de ser beijada. — Não, não gosto. — Ela se remexeu abaixo dele, ten- tando fazê-lo sair de cima. Em resposta, ele movimentou os quadris, o estímulo suficiente para dar uma mostra do que acontecia. Ela permaneceu quieta, olhando para ele, horrorizada. — Eu... eu quero ser freira! — Pensei que fosse se casar. — Sim. Não. Saia de cima de mim! — Muito bem. — Misericordioso, ele rolou para o lado. — Quer viver entre mulheres pelo resto da vida? — Quero. — Isso seria um grande desperdício — resmungou ele, sorrindo, enquanto erguia-se devagar e procurava a túnica. — Como se atreve! — protestou ela, enquanto tentava se pôr em pé. — Eu sou noiva! Ele vestiu a túnica e encarou-a, enigmático. — Como você se atreve? — corrigiu ele, friamente. — Eu? Você! Você me arrebatou, você... ! — Se não deseja ser beijada, não olhe para um homem daquele jeito. Se é realmente noiva, aja como tal. Ela se aprumou. — De que "jeito" eu olhei para você? E eu estou agindo como uma mulher noiva! Insisti o tempo todo para que me levasse a meu irmão. — Ela tinha olhado para ele como para qualquer outro homem... não tinha? — Está querendo me dizer que não gostou do beijo? — Não, não gostei! Não poderia jamais gostar do toque de um... camponês! — Você não sabe se eu sou um camponês. - ! -34
  35. 35. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Não é aristocrata. Ele alargou o sorriso, irritando-a. — Vai me ajudar ou não? — Eu disse que iria; então, vou. — Então, faça o favor de ficar longe de mim. — Como quiser, senhora. — Estou com fome. O que tem para comer? Dafydd retirou mais um pedaço de pão bolorento da trouxa e atirou-o no ar. Ela agarrou o alimento pouco antes que atingisse o solo e então o observou pegar a espada e caminhar na direção do cavalo. — Precisamos ir logo — informou ele. Ela deu uma mordida no pão e espantou-se por não perder os dentes nesse ato. Assentindo, mastigava devagar e evitava o olhar dele. — Você não vai comer? — Não. Ele selou o cavalo e atou a trouxa. Ela ficou em silêncio enquanto comia e o observava. Ele não era nobre, não importava o que dissesse. Não podia ser. E ele não deveria tê-la beijado. Era tudo culpa sua. Aliás, ela estaria melhor sem sua companhia. Claro que não tinha gostado do beijo. Como poderia? Ele fora longe demais. Deveria tentar outro beijo antes de deixá-la em segurança? A ordem tirou-a das divagações. Removeu as migalhas da roupa e juntou-se a ele. Fora, o céu estava nublado, mas não achava que ia chover novamente. Havia poças d'água por todo lado e as folhas ainda gotejavam. Apesar disso, a cena que se apresentava era tão desoladora quanto seu próprio futuro, caso voltasse ao irmão. Precisava saber o que havia acontecido com Roger. Roger... quase se esquecera dele, só porque aquele malandro dissera que ele provavelmente não se ferira com gravidade. O galês cruzou os dedos e aguardou, agachado ao lado do cavalo. Obviamente, a intenção era que ela cavalgasse. Então, pousou o pé no apoio que ele lhe oferecia e foi erguida para a sela. Aguardou quase bufando que ele se juntasse a ela. Quase podia sentir o corpo junto ao seu, tocando-a, e convenceu-se de que amaldiçoava o contato. Mas ele não montou. Ao invés disso, pegou as rédeas e começou a caminhar na direção da estrada. — Para onde vamos? — perguntou, friamente. — Para um feudo normando que conheço. - ! -35
  36. 36. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Feudo de quem? — Sir Guy. — Sir Guy? — Havia algo de familiar no nome, mas Guy era um nome comum. — Você só sabe esse nome? — Só. — Como sabe que será bem recebido num feudo normando? — Prefere que eu encontre outra escolta para a senhora? Não havia argumento Contra aquilo e ela decidiu se calar. Afinal de contas, precisava mesmo ser salva e pre- cisava encontrar Roger. Não poderia fazer isso sozinha. Com certeza, um aristocrata normando seria mais capaz de cumprir essa missão do que esse galés misterioso. A estrada estreita e cheia de sombras do feudo de sir Guy fazia meandros pela floresta densa de carvalhos, faias e pinheiros. O céu estava nublado e as nuvens bloqueavam até o sol do meio-dia. O ar estava denso, pesado com a vegetação úmida e folhas em decomposição. Tudo estava parado e quieto; nem mesmo o canto de pássaros interrompia o silêncio. Folhas primaveris não tinham vez ali, devido à fraca incidência solar. Era como se tivessem entrado num conto de fadas em que a floresta jazia sob o efeito de um encanto de bruxa ou feiticeiro. Enquanto caminhava ao lado do cavalo ruão, Dafydd tentou se convencer de que ficaria feliz por logo poder se ver livre de lady Madeline de Montmorency. Ou até ela poderia ensinar a Dalila uma coisa ou outra sobre sedução, ou era mesmo a criatura inocente que dizia ser. Aquele olhar que ela lhe lançara quando estava por baixo dele, aquele beicinho, casual e desafiador... seria arte ou apenas uma resposta natural? Fosse o que fosse, ele teria que ser mais do que um simples mortal para controlar-se e não beijar aqueles lábios carnudos e vermelhos. E, não importava quanto ela negasse, Madeline tinha correspondido. Oh, ele podia tê-la surpreendido no início, mas logo ela ficou ansiosa para aproveitar as sensações também. Pelos antepassados todos, em que encrenca tinha se metido daquela vez? Ela era normanda e irmã de um homem odiado pelos galeses. E ele desprezava todos os normandos. Podia dar razão a esse ódio também, nas poucas vezes em que havia um intervalo entre as árvores. Camponeses maltrapilhos trabalhavam em pequenas faixas de terra. Todos pareciam muito velhos, magros e doentes, minimamente capazes de trabalhar. As cabanas eram - ! -36
  37. 37. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! pouco melhores do que aquela em que ele e Madeline haviam passado a noite. E, inusitadamente, não se viam jovens, nem crianças. Só velhos, em silêncio entristecedor e trabalho pesado. Dafydd tentou lembrar-se do que os religiosos haviam dito sobre sir Guy. Que eles não o aprovavam fora fácil deduzir, mas atribuíra o conceito à ingenuidade dos monges, que levavam uma vida casta e reclusa. Haveria algo mais? Seria sir Guy um senhor cruel e ganancioso, que mantinha homens e mulheres trabalhando nos campos além do horário mais adequado? Haveria algo mais para explicar por que os jovens, que podiam locomover-se com maior facilidade, terem partido? Não sabia dizer e não havia a quem perguntar. Lady Madeline obviamente ignorava a existência de sir Guy, o que não era surpresa, uma vez que ela passara os últimos anos reclusa num convento. Da mesma forma, e!a parecia ignorar o efeito que tinha sobre ele. — Há fome aqui? — perguntou Madeline, com dó quando passaram por outro grupo de velhos camponeses. — Madre Bertrilde sempre dizia que o mundo era um lugar de doenças e falta de comida. Às vezes, achava que ela dizia isso para que ficássemos contentes no convento. — Não, não há fome. — Mas essas pessoas... — Camponeses, eles são, senhora. Nunca viu camponeses antes? — Não como esses. — Evidentemente, ela estava tão confusa quanto ele. Dafydd começou a achar que estava cometendo um en- gano levando-a para lá. E se sir Guy o identificasse como um provável galês rebelde tão facilmente quanto lady Madeline? Se o tratamento dado aos servos do feudo era um indicador, ele não receberia misericórdia de sir Guy. Dafydd decidiu que enviaria lady Madeline sozinha assim que avistasse o castelo. Isso seria o menos arriscado. De repente, sentiu um puxão da rédea ao mesmo tempo que ouvia Madeline exclamar. Ele olhou para a direção em que ela apontava. — O que... o que é aquilo?— perguntou ela num sussurro. — Um corpo — respondeu Dafydd, frio. Já vira cenas semelhantes. — E um corpo, provavelmente alguma pobre alma culpada por algum crime. Foi enforcado e deixado para apodrecer como exemplo da justiça normanda. - ! -37
  38. 38. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Mas há tantos! Ele desviou o olhar do rosto bonito e olhou melhor a cena. Sim, havia mais exemplos da justiça normanda. A visão era nauseante e Dafydd apressou o passo. Não pretendia ficar mais tempo do que o necessário com tal cenário. — Eles devem ter feito algo muito terrível — comentou Madeline. — Talvez este aqui tenha roubado comida, ou tenha sido pego em propriedade alheia além da conta — respondeu, sombrio, ao passarem pelo primeiro corpo. — Mas isso é tão terrível! Eles vão receber um enterro logo? — Dafydd mal podia ouvir a pergunta de lady Madeline, pois ela mantinha a manga contra o rosto por causa do mal cheiro. — Duvido. — Minha nossa! E tão injusto. Ele parou um instante para olhar para ela. — É a regra normanda, senhora. Pergunte a seu irmão quando o reencontrar. — Roger não faria algo tão terrível. Dafydd retomou o caminho. — Tem certeza? — Absoluta. Não o vejo há dez anos, mas ele não pode ter mudado tanto — respondeu ela, desejando acreditar no que dizia. — Ele deve punir atos errados. E sua obrigação. Mas deixar os corpos... Não, Roger não faria isso. — Pergunte a ele. — Eu perguntarei. E direi a sir Guy para enterrar esse aqui logo. Dafydd tropeçou. Acreditava que ela faria mesmo aquilo, o que com certeza seria um grave erro. Qualquer senhor cujos servos tivessem a aparência tão maltrapilha e cuja justiça incluía expor os corpos não receberia ordens de ninguém com gentileza. A sensibilidade afetada de lady Madeline faria com que o pedido soasse impróprio. As árvores rarearam e Dafydd percebeu que a estrada estava levando para um vale largo e rochoso. O sol já estava baixo no horizonte, finalmente visível entre as nuvens e a terra. Os últimos raios coloriram o céu com tons avermelhados muito brilhantes sobre um manto acinzentado. No vale, um nevoeiro estava se erguendo e, à frente, envolto no ar úmido, erguiam-se as muralhas do castelo. O vale parecia estranhamente morto e o castelo, sombrio como uma cripta. - ! -38
  39. 39. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! Ao passarem pelas últimas árvores, Dafydd começou a achar que seria mais- sábio voltar e ir para a vila. Embora a chance de ser pego com os bens roubados fosse maior, e embora isso significasse ficar mais tempo junto de lady Madeline, parecia ser a decisão mais sábia. Lady Madeline iria protestar, mas isso não tinha importância. Sentia que estariam mais seguros na vila. Ainda que fosse pego lá, os monges com certeza seriam mais misericordiosos com ele do que aquele sir Guy. Então, vindo das árvores às suas costas, Dafydd ouviu os sons de chibatas e gritos de homens a galope pela estrada. Por um momento, sua formação galesa imaginou cavaleiros fantasmas, demoníacos, baixando à terra para causar destruição. A visão logo foi substituída pelo desejo urgente de sair daquele lugar. Antes que pudesse manobrar o cavalo, o grupo de apro- ximadamente vinte homens surgiu, o som que emitiam quase tão assustador quanto o silêncio precedente. A tropa não era tão grande quanto dava a entender pelo ruído. Mesmo assim, eles estavam em maior número. Todos tinham cavalos soberbos e usavam capas caras com acabamento de pele para espantar o ar frio. Dafydd entendeu que haviam caído numa armadilha. Não podiam voltar sem ser vistos e ter a passagem bloqueada por aqueles camaradas. Esperou que Madeline se identificasse sem nem mesmo olhar para ela. Ela estaria a salvo, enquanto aqueles homens tentassem ir atrás dele. Por sorte, estava perto da floresta. Fora perseguido muitas vezes e jamais fora pego. Poderia fugir rapidamente e... Lady Madeline permaneceu em silêncio, mesmo quando o líder do grupo os avaliou e fez sua montaria magnífica estacar. Tinha meia-idade, era bonito de certa forma e estava bem vestido e bem armado, assim como os companheiros. Ele lançou o olhar de forma interrogativa e impertinente, que instantaneamente causou desgosto em Dafydd. Com certeza, lady Madeline estava desgostosa com o comportamento daquele homem, que devia ser sir Guy. Dafydd olhou para lady Madeline e precisou suprimir a surpresa. Ela parecia tão diferente! Desmontara do cavalo, mas a postura continuava como a de uma pessoa montada. De algum modo, soltara umas mechas de cabelo, dando-lhe um ar desleixado. O mais impressionante, entretanto, era o sorriso idiota e a expressão vaga no olhar. - ! -39
  40. 40. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! O que ela estava fazendo? — Ora, ora — começou o recém-chegado, com a fala arrastada dos normandos benvnascidos. — O que temos aqui? — Sou irmã Mary, do convento Holy Wounds — anunciou lady Madeline, de forma brilhante, o tom alto e até estridente, completamente inédito para Dafydd. — Simplesmente não posso dizer o quanto estou contente por encontrar cavalheiros antes do pôr-do-sol! E tantos e tão bem armados. Oh, sim, é mesmo, um grande alívio. Estava com tanto medo de passar outra noite na floresta, no chão, com insetos e animais e nem sei mais o que pode aparecer! É terrível, posso lhe assegurar. Minhas preces foram atendidas, e tão bem, tão... — Saudações, irmã Mary — interrompeu o líder, quando ela fez uma curta pausa para tomar fôlego. Ele a olhava de maneira menos entusiasmada, o que agradou a Dafydd. Mesmo assim, as maneiras daquele homem e de seus companheiros permaneciam rudes e impertinentes, e havia algo de repugnante neles. Ficou imaginando se lady Madeline escolhera aquela tática por ter tido a mesma impressão. — Sou sir Guy de Robespierre. — Ah! Foi o que pensei! Encantada em conhecê-lo, sir Guy, absolutamente encantada! Por todos os santos, quem diria que uma peregrinação seria tão difícil! Tais acomodações que tivemos que enfrentar, mas tudo em nome da fé, claro, — Sir Guy e os homens olhavam para Dafydd de tal jeito que o deixava cada vez mais inquieto. — Oh, quase me esqueci! Permita-me apresentá-lo o frei David de Saint Stephen. — Ela emitiu uma risadinha aguda. — Acredito que tenhamos tomado uma estrada errada. Tentei avisar o irmão aqui que não deveríamos virar, mas ele me ignorou, e, de certa forma, ele também estava certo, de outro modo não teríamos chegado ao seu charmoso castelo. Aquela construção no vale é sua, não é? — A senhora é bem-vinda para jantar conosco, irmã, e para pernoitar. A senhora e o frade. Dafydd olhou para os homens que acompanhavam sir Guy. A maioria parecia entediada, mas não o homem que estava bem à direita do castelão. Extremamente bem vestido, com uma capa de veludo vermelho com acabamento em arminho, ele olhava para Dafydd de uma forma que o deixava ansioso. Será que ele sabia que o frei David não era daquele jeito? — Farold, não somos afortunados em poder ajudar essas pessoas? — comentou sir Guy. — Sim, sir Guy. — Farold respondeu com um sorriso vagaroso, que deixou Dafydd ainda mais intranquílo, es- - ! -40
  41. 41. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! pecialmente quando ele voltou o olhar para Madeline. Para se assegurar, ela se transformara, mas mesmo assim continuava tão adorável que nenhum disfarce podia ocultar toda a graça. — Nós só o incomodaremos com abrigo para nós e para o cavalo por uma noite — esclareceu Madeline. — Uma refeição simples de pão e água será mais que suficiente. Nada de fartura para peregrinos! Mas espero que tenha pão, pois se não comer um pouco logo estarei diante Dele! — Oh, podemos oferecer muito mais. Prometo-lhe, não esquecerá facilmente a hospitalidade de sir Guy de Robespierre. Os homens pareciam estar achando tudo divertido. Da- fydd tentou não se trair pela expressão no rosto, pois tinha certeza de que Farold o avaliava atentamente. Por isso, chegou mais perto do cavalo. Lady Madeline lançou-lhe um olhar e então sorriu daquela forma vaga mais uma vez. — Bem, nós deveríamos recusar o seu convite. Frei David e eu fizemos voto de pobreza. Entretanto, o senhor faz a coisa parecer tão charmosa que não tenho como recusar. — E o senhor, frei? Vai aceitar a nossa hospitalidade? Lady Madeline riu novamente. — Temo que frei David tenha feito voto de silêncio também e não possa responder. Ele é muito rígido nesse assunto. Não falou nem uma única palavra comigo a viagem toda! — Ela inclinou-se na direção de sir Guy. — Não posso dizer o quanto estou aliviada por ter alguma companhia, sir Guy. No que estava pensando quando comecei essa peregrinação, eu não sei. Bem, talvez perdão, não é? Sir Guy reafirmou: — Bem vindos ao meu feudo. Permita-me escoltá-los. Frei, importa-se em cavalgar? Tenho certeza de que um dos meus homens pode ser persuadido a dividir a montaria com o senhor. — Oh, que gentileza a sua, sir Guy, mas ele prefere caminhar. Entendo que isso nos atrase, mas peço a sua compreensão. Agora, me diga, como o seu castelo fica tão longe da estrada? Parece tudo tão solitário para mim! E esse nevoeiro, com certeza, o ar não é saudável. Dafydd não teve escolha senão caminhar ao lado do cavalo de Madeline e ouvir enquanto ela continuava tagarelando com sir Guy. Ela estava fazendo uma bela imitação de uma mulher estúpida, e ficou imaginando onde esse artifício os levaria. ! - ! -41
  42. 42. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! ! ! CAPÍTULO CINCO ! ! ! Roger sentia a cabeça doer tanto que cada movimento causava mais uma onda de agonia. Olhou para frei Gabriel ao pé da cama. A única pessoa que desejava ver era Albert, que saíra logo cedo liderando as buscas por Madeline. Frei Gabriel transferia o peso de um pé para outro como se tivesse um defeito mecânico e girava o cinto de cânhamo como se fosse feito de contas de rosário. Estava assim desde que entrara no quarto. Outro religioso, um homem magro e quieto com rosto melancólico, apresentado como frei Jerrald, estava junto à porta. — Está se sentindo melhor, senhor? — indagou frei Gabriel. — Exceto por essa dor na cabeça... — Ah. Espero que o medicamento que preparei logo amenize o desconforto. Vários momentos se passaram em silêncio e Roger con- tinuava olhando frei Gabriel com seus trejeitos e frei Jerrald parecendo uma estátua de pedra. — O que quer, homem? — berrou Roger, finalmente. — Tem algo a me dizer sobre a rainha irmã? — Infelizmente não, senhor — informou frei Gabriel, humilde e com sinceridade. — Todos estamos rezando para que ela volte sã e salva. — O que foi então? — Senhor, por favor, não desejo incomodá-lo nesse momento... — Então me deixe sozinho. Verei sir Albert quando ele voltar ou minha irmã quando for encontrada. Frei Gabriel limpou a garganta, uma leve expressão de desdém se formou quando ele olhou para frei Jerrald pairando junto à porta como um anjo da morte. Frei Gabriel raramente deixava de gostar das pessoas, pois tentava genuinamente ver cada ser como irmão; entretanto, frei Jerrald era os olhos e ouvidos do abade em sua ausência. O abade saberia de tudo o que se passou no monastério, principalmente tudo o que estivesse relacionado a um visitante tão importante. Infelizmente, ele também saberia se frei Gabriel se recusasse a contar a sir Roger sobre os recentes acontecimentos no - ! -42
  43. 43. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! monastério relacionados ao último hóspede, que suspeitavam ser um galês rebelde. Embora eventos do mundo exterior os afetassem pouco e brevemente, não eram completamente ignorantes dos fatos. Tampouco tinham certeza de que os normandos estavam sempre certos. O abade Peter mostrara a admirável capacidade de simpatizar com as pessoas locais, incluindo muitos galeses, e essa tolerância dera um caráter indulgente ao monastério. No caso do sumiço do último hóspede, frei Gabriel e a maioria dos irmãos não se manifestariam sobre esse assunto. As sequelas do ferimento dariam um fim à capacidade de luta dele de qualquer forma e frei Gabriel acreditava que as ativida-des do antigo hóspede eram por uma boa causa. Os fora-da-lei meramente interessados em roubo não possuíam o comportamento nobre, nem tinham a expressão agradecida quando eram trazidos feridos ao monastério. Infelizmente, a chegada súbita de um homem que per- sonificava o poder dos normandos, qual seja, arrogante, impiedoso e autoritário, criara no frei Jerrald a necessidade de dever e o interesse óbvio de impressioná-lo. Ele fora irredutível quanto à necessidade de contarem a sir Roger sobre o galês, que frei Gabriel torcia para estar bem longe dali. — Parece que fomos roubados, sir Roger — declarou frei Gabriel, finalmente. — Roubados? De quê? Quando? — exigiu Roger, com sua habitual irascibilidade. — Um cavalo. Uma túnica... Roger deitou-se novamente e suprimiu um gemido. A ultima coisa que desejava naquele momento era ser ator- mentado por causa de um reles furto. — E quem o senhor acha que é o ladrão? — Bem, senhor, não sabemos. O homem junto à porta avançou um passo. Frei Gabriel lançou um olhar ameaçador e reafirmou: — Não sabemos. Desconfiamos de um homem que per- maneceu aqui enquanto estava se recuperando. Roger desfez o sorriso cansado. Frei Gabriel geralmente era gentil e submisso, mas estava demonstrando que tinha sangue nas veias, embora Roger não tivesse dúvida quanto a quem estava segurando as rédeas naquele instante. O homem junto à porta franziu o cenho e tossiu. — Para ser totalmente sincero — continuou frei Gabriel, relutante —, ele desapareceu na mesma noite em que o cavalo também sumiu. - ! -43
  44. 44. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — E quando foi isso? — Duas noites atrás. — Conte a sir Albert como era esse homem e o cavalo. Ele pode ficar de olho enquanto procura minha irmã. Está bem assim, frei Gabriel? — Sim, senhor. Ouviu-se outro tossir vindo da porta. — Também temos razões para crer que o antigo hóspede era galês — acrescentou frei Gabriel, relutante. — E? O religioso ficou surpreso e isso agradou a Roger, que não gostava de homens que andavam pelas sombras. — Não é crime ser galês — esclareceu Roger. — Algumas pessoas acham que todos os galeses são ladrões — rebateu frei Gabriel. — Não sou uma delas — afirmou Roger. Deu um leve sorriso para o padre, que não soube dizer se aquilo era um sinal de boa vontade. — Contrariando o que tenha ouvido a meu respeito, eu castigo os faltosos, de qualquer idioma. — Fico feliz que tenha me esclarecido, senhor. — Muito bem. Diga a sir Albert que o homem pode ser galés. Isso é tudo, frei? Nesse momento, Albert em pessoa entrou no quarto, apressado. Ele obviamente fora longe e bem rápido. Roger sentou-se num ímpeto. — Quais as novidades? — Acreditamos que ela esteja viva, senhor — adiantou o amigo, muito ofegante, como se tivesse corrido desde o estábulo. — Onde ela está? Albert pareceu ficar desanimado. — Nós... nós não sabemos exatamente ainda, senhor. Estava difícil seguir a trilha por causa da chuva e... — Então, como sabe que ela está viva? — Encontramos evidência de que alguém dormiu num velho barracão não muito longe de onde fomos atacados. — Alguém? Ela está sozinha? Albert limpou a garganta. — Não, senhor. Bredon acredita que ela não esteja sozinha. Roger não duvidava de Bredon. Se ele dizia que mais de uma pessoa havia estado no barracão, então mais de uma pessoa havia estado. — Quantos estão com ela? - ! -44
  45. 45. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Ele acredita que duas pessoas tenham passado a noite lá, senhor, e um cavalo. Ele... ele não encontrou sangue, então cremos que não há feridos. Também temos razões para acreditar que uma das pessoas era lady Ma-deline, pois Bredon identificou fios de cabelo escuros e compridos num monte de palha. Roger sentiu a esperança brotar, mas havia muitas galesas com cabelos escuros e compridos. Era possível que o cabeio pertencesse a uma estranha. ~ Os dois não estavam mais lá quando chegaram ao barracão? — Precisamente. Roger fitou os lençóis. Se Madeline estivesse viva, com certeza estava bem, mas não estava sozinha. Isso significava que os fora-da-lei a mantinham para pegar um resgate ou simplesmente para seu próprio prazer? Forçou-se a não ponderar sobre a ultima possibilidade, e concentrou-se na caçada e no que se sucederia. Encontraria Madeline e os homens que a haviam raptado e, se ela tivesse sofrido qualquer mal, aqueles homens se arrependeriam do dia em que deixaram os úteros maternos. — Onde está Bredon? — Está seguindo o cavalo e a pessoa que parece estar a pé. O cavalo parece ter um andar muito peculiar. Eu voltei para lhe contar as novidades. — Senhor? — interrompeu frei Gabriel, suave. — O quê? — O cavalo que está desaparecido... ele tem ura andar peculiar, devido a um ferimento. — Está insinuando que minha irmã está nas mãos desse seu ladrão? — exigiu Roger. — Não sabemos ao certo se ele é um ladrão, senhor. Frei Jerrald torceu os lábios, zombeteiro, embora dis- creto. Roger voltou o olhar para Albert, que focalizava o chão, — Albert, para onde eles estão indo? — Bredon acha, senhor, que e]es tomaram a estrada que vai para o oeste, pela floresta. O tossir repentino de frei Gabriel chamou a atenção dos nobres. — O que sabe? — perguntou Roger, severo. A expressão de frei Gabriel era de tristeza e simpatia. — Em primeiro lugar, senhor — começou ele —, se a sua irmã encontrou-se com nosso antigo hóspede, acho que não tem nada a temer, .— Esse homem que pode ser um ladrão? - ! -45
  46. 46. A chama do amor (The Welshman's way) ! Margaret Moore! — Bem, seja o que for, senhor... humm, acho que ela está melhor com ele do que com muitos outros. — Explique-se, frei! — O homem. O homem que ficou aqui um bom tempo se recuperando... ele é um camarada de valor. — Frei Jerrald movimentou-se e desta vez foi frei Gabriel que lançou um olhar reprovador. — Eu acho que consigo julgar o caráter das pessoas melhor que você, Jerrald. Tenho mais experiência. — Voltou-se a Roger novamente. — E acho que ele não machucaria a sua irmã. Frei Jerrald pareceu querer falar, mas Roger ergueu a mão, impaciente. . — Continue, frei. — E também tenho quase certeza de que ele tem co- nhecimento de luta, a julgar pelos ferimentos. Roger estreitou o olhar, desconfiado. — Devo presumir que o senhor crê que ele vai precisar desse conhecimento, já que está rumando para oeste? O país de Gales fica para oeste, padre. — Bem como o feudo de sir Guy de Robespierre. — Minha nossa! — exclamou Roger. Nunca se encontrara com sir Guy, pois ele e seus seguidores raramente iam muito além de seu feudo remoto. Mesmo assim, Roger, e a maioria da nobreza exceto talvez uma jovem que passara a vida num convento, já tinha ouvido sobre os hábitos lamentáveis dele em relação às mulheres. E aos homens também. — O fugitivo pode simplesmente ter planejado levá-la ao feudo mais próximo. Roger começou a se levantar. — Sir Roger, por favor! Temo que assim só vai conseguir piorar! — protestou frei Gabriel. Roger afastou as mãos do padre, — Albert, providencie a minha roupa. E a minha espada. Sele o meu cavalo. Partiremos imediatamente. — Albert saiu da sala apressado. Roger olhou para frei Gabriel. — O senhor virá, também, frei, para identificar o ladrão. — Mas os meus deveres aqui... — Não perguntei sobre os seus deveres aqui. Frei Jer- rald poderá cuidar do monastério em sua ausência, não? A reação do religioso, de aparente indiferença com o que estava acontecendo em relação ao próprio estado de êxtase, foi patética. — Qual a distância até o castelo? — investigou Roger. - ! -46

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