Margaret moore [warrior] - 03 - a virgem indomável

799 visualizações

Publicada em

* Válido lembrar que todo o arquivo disponibilizado aqui, estava disponibilizado, anteriormente, de forma gratuita na internet.

Publicada em: Internet
  • Seja o primeiro a comentar

  • Seja a primeira pessoa a gostar disto

Margaret moore [warrior] - 03 - a virgem indomável

  1. 1. Digitalizado por Projeto_romances Projeto_romances@yahoo.com.br ! ! A Virgem Indomável Margaret Moore ! ! ! Este Livro faz parte do Projeto_romances, sem fins lucrativos e de fãs para fãs. A comercialização deste produto é estritamente proibida Warrior Serie
 ! ! ! ! ! ! ! ! ! ! !
  2. 2. Clássicos Históricos, nº 48 Autora: Margaret Moore Título Original: A Warrior's Way Publicação original: 1994, Harlequin Publicação no Brasil: 1995, Nova Cultural ! RESUMO: ! Rosto de anjo, corpo de deusa... e língua afiada como de uma serpente! O gaulês Kyryan Morgan mal podia acreditar no presente do destino: uma bela esposa normanda e terras férteis, contudo, não tardou a concluir que se alegrara cedo demais... ! Valente cavaleiro, Kyryan despertou em Liliana desejos incontroláveis. Mas ele teria de refrear seu impetuoso temperamento guerreiro, se quisesse que a esposa o acolhesse no leito nupcial de livre e espantânea vontade. ! ! ! ! ! ! ! ! !
  3. 3. Um
 
 ! Kyryan ap Morgan ap Ianto resmungou uma torrente de imprecações em Gaulês e estremeceu ligeiramente quando o martelo do ferreiro golpeou seu elmo. 
 ! - Não é prudente insultar o ferreiro, rapaz – seu amigo Elwy repreendeu-o – Não quando ele é o único que pode tirar-lhe o elmo da cabeça.
 ! O ferreiro atingiu o elmo novamente. - Eu vou exigir daquele cavaleiro uma boa indenização por este transtorno – Kyryan murmurou.
 ! - Desde que consigamos retirar essa coisa da sua cabeça. É bem possível que você se torne conhecido, a partir de hoje, como “Kyryan do Elmo”. 
 Kyryan grunhiu com mais um golpe do martelo, pensando com seus botões que Elwy provavelmente faria piadas até mesmo no próprio leito de morte. - Eu lhe disse que esse elmo não lhe servia, o’ r annwyl! – elwy exclamou com uma risada – Ora, ora... aí vem ela. - Ela quem? - Você sabe. A garota que o deixou doente de amor.
 Kyryan remexeu-se, inquieto. Jamais havia contado a Elwy que considerava a filha de lorde Trevelyan a moça mais linda que já vira. - Não estou “doente de amor”. Todavia, pela primeira vez ficou satisfeito por ter o elmo preso na cabeça. Assim, ninguém pôde ver que seu rosto ficara ridiculamente corado. - Ela vem acompanhada pela criada e deve passar bem por aqui – Elwy insistiu. - Seu mentiroso!O ferreiro golpeou o elmo com tanta força que Kyryan praguejou ferozmente numa linguagem que o homem não poderia deixar de entender.
 Então, para sua consternação e embaraço, ouviu o som de uma risada feminina. Na verdade, uma gargalhada constrangida. Oh, Deus, ele conhecia aquele riso! Escutara- o, maravilhado, na festa da noite anterior. Fora um tormento tentar desviar os próprios olhos de lady Liliana Trevelyan. Bom dia, cavaleiros. Oh, por todos os deuses! Teria sido menos doloroso se o ferreiro lhe tivesse martelado a cabeça em vez do capacete. - Bom dia, cara senhorita! – Elwy retribuiu o cumprimento com reverência. 
 Kyryan não foi capaz de proferir uma palavra sequer. - Lamento por seu amigo – Lady Liliana comentou. – Acha que ele conseguirá livrar-se do elmo?

  4. 4. - Ah, sim, cara senhorita – Elwy respondeu. 
 A voz de lady Liliana era suave, como suave devia ser a sua pele alva, na imaginação de Kyryan. Agradava-lhe sobremaneira que a jovem demonstrasse preocupação a seu respeito. Ah, se ao menos tivesse sido ferido, a situação seria mais heróica e menos risível. Não precisava tratar-se de um ferimento grave, claro que não. Apenas o bastante para inspirar alguns cuidados... talvez um ou dois suspiros daquela bela moça.
 - ele devia ter abandonado o torneio mais cedo...
 - Oh não! – Elwy rebateu. – Kyryan jamais deixa uma luta pela metade, minha prezada lady.
 “Kyryan”? Seria possível que Elwy nunca se lembrasse de usar o título adequado, especialmente numa ocasião como aquela? Afinal, eram ambos cavaleiros, embora não possuíssem terras.
 - Foi o que percebi – ela replicou. – Fiquei muito impressionada durante as provas. Espero que tenhamos o prazer da companhia de vocês na festa desta noite. Seu amigo merece um jantar especial.
 - Nós dois aguardamos ansiosos pela celebração, lady Trevelyan. Após alguns minutos, durante os quais o ferreiro não cessara de martelar-lhe o elmo, Kyryan ouviu Elwy comentar:
 - Elas se foram.
 - Ótimo – Kyryan retrucou em tom aborrecido. Contudo, estava longe de sentir-se zangado. Como poderia, quando Liliana Trevelyan falara tão bem sobre ele? 
 - Se o senhor puder ajudar-me agora, creio que conseguiremos remover este maldito capacete – o ferreiro dirigiu-se a Elwy com rudeza.
 - Já não era sem tempo - Kyryan resmungou enquanto o amigo e o ferreiro empurravam o elmo para cima de sua cabeça. 
 Kyryan inspirou com força, usufruindo uma bem-vinda sensação de liberdade.
 - Por Deus, eu não suportava mais o confinamento! Estava ficando louco de claustrofobia! – exclamou, movimentando os ombros para massagear a musculatura dolorida. Seria bom tirar também a cota de malha. Relanceou os olhos pela túnica preta. Estava enlameada, mas inteira. Agradeceu aos céus por aquela pequena graça.
 Elwy riu.
 - A julgar pela sua cara, eu diria que você precisa de uma boa caneca de cerveja. Mas, a julgar pelo seu cheiro, concluo que precisa mesmo é de um bom banho!
 Kyryan fitou o amigo com desgosto.
 - Eu não tenho cheiro algum... tenho? – indagou com a testa franzida. Já havia sido ruim o bastante ter sido flagrado por lady Trevelyan no maio de uma torrente de impropérios, com o elmo preso na cabeça. Se, além disso, estivesse fedendo... seria um verdadeiro pesadelo.
 - Ah, só um pouco. O suor do ferreiro está bem pior. 
 Kyryan avaliou os braços musculosos do homem e pensou que era uma sorte elwy
  5. 5. estar falando em Gaulês. - Voltarei com algumas moedas dentro de poucos minutos – dirigiu-se ao ferreiro em Normando. – Enquanto isso, aceite meus agradecimentos.
 O ferreiro sorriu e começou a reunir as ferramentas. Ao sair, Kyryan esboçou um pequeno gesto com a mão e Mott, seu cachorro, abandonou o canto onde aguardara pacientemente pelo dono. Com o rabo abanando, correu à frente deles.
 - Nunca imaginei que você perdesse a língua diante de uma bela donzela – Elwy comentou em tom de ironia.
 - Afinal, com quem você estava conversando? Eu mal pude ouvir...
 - Além de covarde, é mentiroso.
 Kyryan franziu o cenho, agastado, mas não se deu ao trabalho de retrucar. Pensava em Liliana Trevelyan, no brilho dourado que o sol emprestava a seus cabelos, a tonalidade rara do verde de seus olhos, que lembrava as primeiras folhas de primavera, nas covinhas que se formavam em suas faces quando ela sorria.assomava- lhe à mente, também, a curva suave dos seios e a cintura delgada que terminava em quadris arredondados. Ah, ela lhe tirava o fôlego com sua simples presença.
 Neste momento chegaram à tenda que partilhavam, armada numa campina não muito distante do imenso castelo do lorde Trevelyan. Kyryan entrou e apressou-se a tomar um banho revigorante. Fazia questão de estar em perfeita forma e com seu melhor aspecto na festa daquela noite.
 Kyryan e Elwy haviam vindo para participar de um torneio, na esperança de ganharem alguns dos prêmios oferecidos pelos cavaleiros a seus desafiantes. O barão DeLanyea, aristocrata gaulês-normando para quem haviam trabalhados como escudeiros, de bom grado consagrou-os cavaleiros quando terminou seus períodos de escudeiros. Contudo, não lhe foi possível agraciá-los com nenhuma propriedade, como ditavam os costumes. Elwy costumava gracejar, afirmando que se nem o próprio Rei João possuía terras, como poderiam tê-las dois pobres cavaleiros? Não havia nada de errado em serem “ Morgan e Elwy, os cavaleiros sem terras”, tratando- se até de um gesto solidário para com Sua Majestade. De qualquer forma, eram ambos jovens e bem treinados, não restando ao barão nenhuma dúvida de que poderiam conquistar feudos com seu próprio esforço. Os dois também pensavam assim.
 Kyryan contava, além disso, com outros atributos. Feições atraentes, cabelos negros encaracolados, destemidos olhos escuros e corpo musculoso. As mulheres o devoravam ostensivamente com os olhos e muitas delas concordavam entusiasticamente em partilhar sua cama.
 Elwy por sua vez, era simples e rústico como um demônio. Contava, porém, com grande senso de humor e de uma voz mais do que apropriada para o canto, características que o faziam sobressair-se entre seus compatriotas. Sob esse aspecto, era muito superior a Kyryan, já que este, infelizmente, possuía uma voz que lembrava um buldogue ganindo, como dizia Elwy. Quanto às mulheres, Elwy era bem menos
  6. 6. obcecado por companhia feminina do que seu companheiro, embora fosse capaz de conquistá-las com suas canções e piadas.
 A amizade entre os dois rapazes durava desde a infância. Graças longa convivência, Elwy sabia que Kyryan jamais abandonava uma luta até ganhá-la.
 Ele só ignorava pro quê.
 - Ele é muito bonito.
 Liliana voltou-se para sua ruiva criada de quarto, que atarefada, arrumava o imenso aposento. Estendidos sobre a cama e sobre as cadeiras havia vários vestidos. Liliana examinava-os, indecisa.
 - Maude, você acha bonito qualquer homem solteiro!
 Maude deu uma risada aguda, o que fazia com freqüência. Embora esse hábito a incomodasse, Liliana considerava-a sua única amiga.
 - Talvez, mas no caso de Kyryan Morgan, é a mais pura verdade. Você tem que admitir. O amigo dele pode ser um tanto feio, com aquele narigão e orelhas compridas, mas é uma simpatia. E tanto um quanto o outro tem umas pernas... – a moça revirou os olhos com malícia. - Maude! – Liliana repreendeu-a, removendo um vestido de sobre um banco para sentar-se. Reprimiu um bocejo. Acordara cedo, naquela manhã. Não era sempre que seu pai lhe permitia ir a um torneio e ela não desejara perder um único segundo da competição.
 O melhor de tudo fora testemunhar o feito brilhante de Kyryan Morgan, derrotando dois cavaleiros famosos... e ficando com o elmo preso na bela cabeça. Na noite anterior, ela ficara impressionada com o aspecto atraente do rapaz. Naquele dia, impressionou-se ainda mais com sua bravura e destreza durante os combates. Ele lhe parecera extraordinário, até ela perceber que o brilhante cavaleiro não conseguia tirar o capacete. O pequeno incidente o tornara mais... acessível.
 - Bem, os dois possuem pernas muito musculosas – Maude tornou a rir. – Eu vi a maneira como você olhou para Kyryan Morgan na ferraria. E o pobre lá sentado, todo murcho, como um cavalo recebendo ferraduras...
 Liliana não conseguiu conter uma gargalhada ao recordar a cena. Além disso, esperava que o riso disfarçasse o vivo rubor que lhe tingia as faces conta a sua vontade. Kyryan Morgan era possuidor das mais belas e másculas pernas que já vira. O mesmo se podia dizer de seus ombros largos... e do corpo inteiro, para ser franca. Contudo, o que mais a agradava era o rosto dele. Depois de fitá-lo, na véspera, não conseguira dormir, pensando nas feições bem delineadas, cheia de vigor e determinação. Era um rosto para não se esquecer jamais. Não queria, porém, que Maude soubesse disso. Outra criada entrou no quarto. - Perdoe-me, milady, mas seu pai deseja vê-la. Liliana balançou a cabeça, aquiescendo. Devia tratar-se de algum assunto relacionado à festa.
  7. 7. Desde a morte de lady Viviana, sua mãe, quando ainda era uma criança, passou a desempenhar cada vez mais as funções de senhora do castelo. A princípio, tentando aparentar maturidade, ela manteve uma postura de forçada autoconfiança. Agora, porém, sua desenvoltura no cumprimento de seus deveres de castelã era totalmente natural. Liliana se perguntava, muitas vezes, se seria esse o motivo por que muitas vezes pessoas pareciam temê-la. - Decidi usar o vestido verde escuro – comunicou a Maude antes de sair, apontando para o elegante traje de brocado e seda bordada com fios de ouro. - Sim, milady. Liliana queria enfeitar-se para aquela noite. Afinal, era o que se esperava dela. ! Lorde Trevelyan caminhava de um lado para o outro no grande salão sem se dar conta dos criados que cuidavam da ornamentação para a festa, enfeitando as paredes e colunas com flores recém-colhidas e ervas aromáticas. Os cavaletes que sustentariam as mesas ainda estavam encostados nos cantos, mas logo seriam dispostos em seus lugares, ocultos sob vastas toalhas de linho branco. Um cheirinho apetitoso das iguarias que assavam no forno vinha do corredor que conduzia a cozinha. Como sempre, a festa seria um espetáculo de fartura e bom gosto, de forma que não era esse o motivo da preocupação expressa nas rugas das testas de lorde Trevelyan. - O senhor mandou me chamar? – indagou Liliana com um sorriso. - Mandei sim. Sente-se. – ele replicou apontando-lhe uma cadeira. Depois que ela obedeceu, acomodou-se ao seu lado. - Algum problema, papai? Trevelyan pigarreou. - Liliana, decidi que já é tempo de você se casar. – anunciou em tom solene. - De novo, pai? – ela perguntou com brandura, os lábios esboçando um sorriso divertido. Ele franziu a testa. - Digo-lhe que chegou a hora. Há vários nobres por aqui, participando do torneio, e quero que você escolha um deles. Liliana engoliu em seco. Pressentia que não seria fácil dobrar o pai, desta vez. - Nem tente argumentar comigo, Liliana. É a minha palavra final. A jovem fitou o pai, reconhecendo em suas feições a mesma teimosia e determinação que a caracterizavam. Ele falava sério. Normalmente, bastar-lhe-ia persistir um pouco para que o pai desistisse de pressioná-la. Contudo, conhecia aquele olhar e sabia que qualquer resistência seria inútil. Sua mente fervilhava, perdendo-se em reflexões. Sabia que este dia chegaria, mais cedo ou mais tarde. Não ignorava os mexericos ao seu respeito, até porque Averil Beaumare cuidara para que os falatórios lhe chegassem ao conhecimento. As
  8. 8. más línguas apontavam-na como uma moça fria, apesar de bonita e arrogante, que se julgava boa demais para qualquer partido. Costumava tranqüilizar o pai com a alegação de que se casaria assim que encontrasse alguém que desejasse como marido. Ela até chegara a considerar a possibilidade com dois bons representantes da nobreza, mas... no fim, acabara desistindo. Afinal, onde encontrar um marido que lhe concedesse a mesma liberdade que seu pai lhe dava? Além disso, seria pedir demais que ele fosso bonito, gentil e terno? - Que tal Sir George de Gramercie? – lorde Trevelyan sugeriu. Liliana sacudiu os ombros. Sir George era simpático, mas não lhe inspirava a menor paixão. Por outro lado, exercia as funções de administrador do melhor amigo do pai dela, que o mantinha ocupado a maior parte do tempo. Talvez ele gostasse de uma esposa que o ajudasse nas tarefas. Lorde Trevelyan nomeou outro candidato. - Oh, não! É demasiado velho para mim – Liliana objetou. O pai sugeriu outro “bom partido”. - Está brincando! Ele deve pesar uns duzentos quilos! Mais outro. - Bebe demais. Nunca o vi sóbrio. E outro. -Quer a minha infelicidade? Sabe muito bem que o cavalheiro não deixa uma criada em paz em todo o condado! Lorde Trevelyan ergueu as sobrancelhas, exasperado. - Liliana essa é a sua última chance de escolher. Se você não o fizer, eu mesmo decidirei quem será seu marido. Liliana mal podia acreditar no que ouvia. Seu pai jamais se dirigia a ela nesse tom autoritário. - Que tal Kyryan Morgan? – ele perguntou, recuperando a habitual paciência. Um brilho passou pelos olhos de Liliana. Não se podia acusar Kyryan Morgan de não inspirar paixão, com o seu corpo invejável e seu rosto atraente. Além disso, era jovem e vigoroso. Mas... - Ele não possui terra nenhuma – ela protestou sem convicção. - Eu posso dar-lhe uma de nossas propriedades – o pai argumentou. Liliana fitou-o com cautela e percebeu que o semblante de pai começava a expressar triunfo. Era como se ele tivesse acabado de conceber um plano maravilhoso. - Tenho negligenciado o castelo no limite extremo de nossas terras. Um gaulês jovem e ambicioso como Morgan seria o homem ideal para administrá-lo. Desde, é claro, que jurasse fidelidade a mim. Ela franziu a testa. - E oferecer-lhe a filha como esposa seria o meio mais eficaz para garantir tal
  9. 9. fidelidade... - Não, a menos que você queira – Lorde Trevelyan rebateu, curvando-se em sua direção e encarando-a com profundo amor. – Liliana, conheço Kyryan desde a primeira vez em que ele participou de nossos torneios. Na época, não passava de um garotinho. Asseguro-lhe que é um bom rapaz. Não creio que encontrasse outro melhor. À medida que a idéia de torna-se esposa de Morgan se instalava em sua mente, Liliana sentia o coração pulsar com maior velocidade e força. Na noite anterior, ela o seguira com o olhar por toda parte. Tinha que admitir que ele a impressionara como nenhum outro homem jamais conseguira. Sem dúvida, ao passava de um gaulês rude, mas esse fato não chegava a constituir defeito. Ao contrário, faria com que o marido a respeitasse pela superioridade de seu conhecimento dos bons modos normandos. - Está muito bem, pai. Suponho que qualquer escolha é melhor do que nenhuma – Liliana cedeu, fingindo, principalmente para si mesma, uma aprofunda indiferença. Kyryan dirigiu o olhar lorde Trevelyan e remexeu-se, inquieto na cadeira. Não podia dar crédito ao que acabara de ouvir. Estaria sonhando? - O senhor...está-me oferecendo... uma propriedade? - Exatamente. O último administrador morreu recentemente. O castelo necessita reparos, pelo que fui informado. Charles não era, devo dizê-lo, muito afeito ao trabalho. Entretanto, estou certo de que você cuidará para que o castelo prospere e se torne confortável. A propriedade é muito grande, mas a terra é boa. Você terá que me jurar fidelidade é lógico. -Sim, milorde – Kyryan aquiesceu, ainda sob o efeito da perplexidade. Terra! Sua própria terra! Tudo com que sempre sonhou, objeto de seus planos e esforços desde que saíra de Gales. Trevelyan era homem justo. Em troca, exigia-lhe apenas, fide1idade. O que mais poderia pedir? - Será uma honra servi-lo senhor. - Devo informá-lo que há rumores sobre um bando de malfeitores na região. Gauleses, pelo que falam. - Se desrespeitarem as leis, serão devidamente punidos – Kyryan ponderou, solene. Não alimentava qualquer simpatia pelos agitadores. Com seu esforço honesto, estava abrindo caminho para si mesmo entre os normandos. Qualquer homem poderia fazer o mesmo, se de fato desejasse. Lorde Trevelyan observou-o com atenção antes de anunciar: - Existe ainda uma outra condição... Kyryan aguardou em silêncio, esperando que a nova exigência não o obrigasse a recusar a proposta. - Eu ficaria muito satisfeito, se você desposasse a minha filha. - Como? – aturdiu, Kyryan não encontrou nada para dizer, limitando-se a um murmúrio débil.
  10. 10. - Naturalmente, o dote da minha filha ajudará a promover melhorias no castelo. - Milorde, declaro-me... sem palavras – disse Kyryan, após uma pausa. O que era totalmente desnecessário, uma vez que o fato era evidente por si mesmo. Lorde Trevelyan sorriu. - Você é um bom rapaz,. Confesso que ficaria feliz se minha filha tivesse um marido digno da minha confiança. Além disso, ela continuaria perto de mim. Deve saber que eu a amo muito. Kyryan sentiu que seus caóticos pensamentos e emoções confusas organizavam-se rapidamente. A ameaça por trás das palavras gentis de lorde Trevelyan era patente. Se ele não se casasse com lady Trevelyan, não receberia terra alguma. Na hipótese de concordar, estaria sob constante vigilância. Se não tratasse a esposa bem, perderia tudo e seria castigado. Claro que Liliana Trevelyan era uma jovem muito bonita, que lhe despertara o desejo desde a primeira vez em que a viu. Contudo, o que sabia a respeito dela? Absolutamente nada. Como poderia conviver pelo resto da vida com uma pessoa com quem talvez não tivesse a menor afinidade? Mas, se recusasse o casamento, não conseguiria a propriedade. Kyryan quase deixou escapar uma gargalhada. Porque perdía tempo pensando? Só um idiota perderia uma oportunidade como aquela. - Será uma grande honra, milorde. Lorde Trevelyan tomou a sorrir, mal ocultando um suspiro de alivio. - Ótimo. O casamento será dentro de um mês... lhe parece suficiente para os preparativos? . Por Deus, um mês pareceria uma eternidade! - Perfeito - Kyryan concordou, orgulhoso por representar tão bem uma serenidade que estava longe de sentir. ! DOIS ! Liliana lançou um olhar carrancudo através da janela estreita de seu quarto. Era o dia de seu casamento e chovia torrencialmente. - Você terá que usar, uma capa sobre o traje nupcial, só isso. Podia ser pior. Liliana voltou-se para Maude com expressão soturna. - Podia, é? Como? - Bem, se você estivesse doente, por exemplo. Ardendo em febre... o noivo... - O quê? Estivesse ocupado demais para casar-se? Maude mordeu o lábio inferior. Liliana sabia que a criada se arrependera de ter mencionado o noivo. Desde a festa, quatro semanas antes, em que seu pai anunciou o noivado e marcou a data do enlace, Kyryan Morgan só dedicava seu tempo livre a propriedade que lhe fora presenteada. Poucos dias depois de Kyryan deixar o Castelo Trevelyan, uma tempestade
  11. 11. terrível causou muitos estragos na região. Liliana desculpou a ausência do noivo, compreendendo a necessidade de tomar mil providências para promover os reparos na propriedade. Contudo, após três semanas sem nenhum contato, ela começou a ressentir-se cada vez mais. - Agora, milady, sugiro que desenrugue a testa - Maude aconselhou-a. - Seu pai disse que o salão precisava de uma reforma. Aquela tempestade foi muito forte, talvez tenha danificado o telhado. Com toda a certeza, Kyryan está cuidando para que o castelo esteja pronto para recebê-la condignamente. É o que se espera de um noivo, não lhe parece? Liliana, praguejou deforma inadequada para uma dama. - Milady! - Maude escandalizou-se. . - Bem, será que é demais esperar que um noivo, visite sua futura esposa ao menos uma vez antes do casamento? É muita falta de consideração da parte dele! Liliana afastou-se da janela. Já era de esperar que, no dia de seu casamento, chovesse mais do que no grande dilúvio descrito pela Bíblia. Não fosse a férrea determinação de seu pai e ela teria dispensado a cerimônia, a despeito do dinheiro gasto com os preparativos. - Não amasse a saia desse jeito! Vai estragar o vestido! - Maude admoestou-a. Ao ver a expressão severa no rosto de Liliana, porém, acrescentou com reverência - Milady... Liliana largou a fina renda, branca bordada com fios de prata e dirigiu-se à mesinha onde havia um cálice de vinho. - Vá com calma, milady! Liliana fulminou a criada com o olhar. - Você já empacotou minhas escovas de cabelo? - Sim, milady. Todas as suas coisas estão devidamente guardadas nas malas, com exceção do traje que usará na viagem amanhã e a camisola de seda... desta noite. Liliana esforçou-se para não corar a menção da noite nupcia1. A simples idéia a perturbava, embora não tivesse a menor noção do que estava para ocorrer. Na verdade, incomodava-a sobremaneira a própria ignorância sobre certos assuntos. Parecia-lhe absurdo não saber o que se esperava de uma noiva na noite de núpcias. Seu pai sempre deixara claro que considerava aquele tema impróprio para uma conversa polida no salão. E como era no salão que pai e filha habitualmente se encontravam, jamais havia privacidade para que discutissem a respeito. E agora, sentia-se tentada a recorrer a Maude, justo Maude, que não guardaria um segredo mesmo que sua vida dependesse disso! Talvez a criada pudesse informar- lhe o que acontecia entre um homem e uma mulher depois que se fechavam as portas da alcova. Como faziam os bebês? Era prazeroso? Doía? Tudo o que ela sabia, e fora aprendido da forma mais indigna, prestando atenção nas conversas das criadas pelos corredores, era, que beijos e abraços eram
  12. 12. importantes. Afinal sim era fundamental que uma parte do corpo do homem penetrasse numa parte do corpo da mulher. Mas, qual? Onde? Seria mais embaraçoso admitir seu total desconhecimento para Maude ou para o marido? Liliana abria boca para formular suas indagações quando ouviu o ruído de cascos de cavalo no pátio sob a janela. Maude correu para a janela, seguida por Liliana. Sim, era Kyryan Morgan que, afobado, disparou para a capela. - Bem, pelo menos ele não se atrasou - Maude comentou com evidente alívio. Ao perceber a censura no olhar da senhora do castelo, não conteve uma de suas risadas estridentes. - Às vezes você consegue ser bastante ferina. - Ora, deixe disso... milady. Venha, vou ajudá-la a vestir a capa. - Que bela noiva eu serei! - Liliana resmungou. - Não gostaria de estragar o belo vestido, certo? Seria uma pena, depois de todo o trabalho que tivemos para bordá-lo... Ouviu-se uma batida na porta. Maude abriu-a e, parado na soleira, estava lorde Trevelyan, empertigado em seu traje de brocado azul marinho, os longos e grisalhos cabelos espalhados sobre os ombros. Sua postura era a mais digna de um nobre, o que aumentou em Liliana a determinação de ficar à sua altura, como filha de um legítimo aristocrata. - Está pronta, meu anjo? - ele perguntou com ternura. Ela ergueu o queixo. - Sim, meu pai. ! Kyryan sacudiu a cabeça, respingando gotas de chuva pela nave da capela. Seu cachorro, Mott, que já havia feito o mesmo para secar-se, jazia encolhido sob os pés do dono. - Você se incomodaria em parar com isso? - Elwy protestou, deslizando a mão pela roupa para enxugá-la. Kyryan sorriu e ajustou o cinturão sob a túnica negra. - Oh, desculpe. - Não tem importância. Você não me parece nem um pouco animado... - Ora, você é que está com inveja... Elwy suspirou. - Tem toda a razão, meu amigo. Se o meu nariz fosse pequeno e bem feito como o seu, fique certo de que ela estaria se casando comigo... - Duvido - Kyryan alisou a túnica e espanou a lama que recobria parte das botas, franzindo a testa com evidente desgosto. Havia planejado comprar roupas novas, mas gastara o dinheiro com pregos para conserto do celeiro. Além disso, pretendia chegar ao Castelo Trevelyan na véspera do casamento, mas teve que esperar o marceneiro a quem encomendara o novo leito, fizera questão de certificar-se de que o móvel fora talhado de forma apropriada.
  13. 13. - Você está mais saltitante do que um macaco no galho... - Ora, cale a boca. - Oh, Virgem Santíssima! O que é isto no seu cabelo? Kyryan vociferou. Alguns impropérios esfregando a mão na cabeleira anelada. Então, viu o sorriso brincalhão de Elwy. - Afinal, há alguma coisa na minha cabeça ou não? – indagou exasperado. - Pelas chagas de Cristo, você está nervoso! - Olhe aqui, eu... - Shh! Aí vem a noiva! Mais tarde, nem, Kyryan nem Liliana se lembrariam bem da cerimônia. O padre era muito idoso, e murmurava palavras incompreensíveis. Ela fazia um esforço monumental para manter a postura: aristocrática, enquanto ele se remexia, inquieto, cônscio de sua aparência enlameada. As coisas não melhoraram durante a festa. O banquete, a exemplo, de outros jantares oferecidos por Lorde Trevelyan foi suntuoso, chegando ao limite do extravagante. Os servos uniformizados serviam iguarias temperadas com as ervas mais caras, numa sucessão de faisões, perus e carneiros assados. O pão fora feito com as farinhas mais finas, o vinho viera da França e as frutas haviam custado uma pequena fortuna. Liliana, porém, pouca atenção prestou a toda aquela opulência. Tudo em que podia pensar era no fato de que estava casada, unida pelo resto de sua vida ao homem sentado à sua direita, que se ocupava em embriagar-se o mais rapidamente possível. O homem que levava o cachorro para a capela e depois para a mesa junto com eles, para alimentá-lo com a comida do próprio prato! Não bastara o descaso durante o noivado, período em que Kyryan não lhe fizera uma visita sequer. Não, ele agora precisava humilhá-la na frente dos convidados, gesticulando e conversando em altos brados naquele idioma bárbaro com o idiota do amigo! Seu marido demonstrava ignorar completamente os bons modos característicos da nobreza. Barris Beaumare, gordo e velho, beirando os quarenta anos, estava à esquerda dela. Depois vinha sua esposa, Averil. A distância entre ambas era suficiente para poupar Liliana de manter conversação com lady Beaumare . Menos mal, pois ela não suportaria ouvi-lhe os comentários maldosos. Podia bem imaginar o que iriam dizer do comportamento do noivo... Contudo, era muito cedo para que os olhos aguçados e a língua afiada de Averil pudessem detectar o conflito entre os recém-casados. Ainda assim, Liliana afivelou um sorriso nos lábios, determinada a manter as aparências. Liliana já se julgava a salvo de Averil, quando Barris levantou-se da mesa e saiu. Lady Beaumare fitou-a com inveja mal disfarçada. Liliana experimentou uma sensação de triunfo, merecido após anos agüentando o ar de superioridade da arrogante jovem.
  14. 14. - Não deixo de invejá-la pela noite de núpcias que a aguarda – Averil revelou, embora já tivesse denunciado seus pensamentos. Liliana sentiu-se corar até a raiz dos cabelos, pois sabia que o comentário não havia escapado do ouvido atento de Kyryan, que se voltara para ambas. Averil fingiu constrangimento e ela abaixou a cabeça. Por nada no mundo encararia o marido, naquele momento. Com um tremendo esforço, recuperou o autodomínio e sorriu para a convidada. - Tenho certeza de que será uma noite tão feliz quanto foi a sua, minha cara. Um lampejo de contrariedade passou pelos olhos azuis opacos de Averil. Ela jamais se vangloriara pelo aspecto ou pelos modos do marido. Como poderia? Em compensação, Liliana fora obrigada a ouvir, repetidas vezes, seus comentários “casuais” sobre os bens, terras e riquezas dos Beaumare. Assim era natural que atacasse Averil em seu ponto fraco. Barris retornou, acomodando o corpo rotundo na cadeira. A esperança de Liliana era que o velho estivesse, àquela altura, embriagado demais para conversar. Liliana estendeu a mão para a taça de vinho e seu cotovelo esbarrou no musculoso antebraço do marido. Sem ousar fita-lo, ela ergueu a taça num gesto trêmulo. Sorveu um pequeno gole e pousou o vinho sobre a mesa apressadamente, receosa de que Kyryan notasse sua perturbação. Kyryan disse alguma a lorde Trevelyan, sentado a seu lado direito, e os dois caíram na gargalhada. O fato aparentemente inocente, causou a Liliana a sensação de ser vítima de uma conspiração. Erguendo o queixo, tentou, apaziguar-se, argumentando consigo mesma que seu pai jamais conspiraria contra a própria filha. ! Kyryan observava Liliana com o canto dos olhos. Ela parecia fria e rígida como um cadáver. Tinha este aspecto desde a cerimônia. Provavelmente, ela se zangara com ele por não tê-la visitado durante o noivado. Bem que quisera, mas lorde Trevelyan não havia mentido ao afirmar que o castelo precisava de reparos. Encontrara o velho prédio praticamente em ruínas, o celeiro sem telhado, o muro em volta quase caindo. Ele suspeitava que os arrendatários estivessem roubando as pedras, da muralha para suas próprias construções. Para piorar, viera a tempestade e aumentara ainda mais os estragos. O moinho desabou sob o impacto de um relâmpago. Como era o mais importante, Kyryan começou os consertos por ele. Quando o moinho foi reparado, ordenou aos homens que cuidassem do celeiro. Os arrendatários e o magistrado, obviamente desabituados a receber ordens, obedeceram com ostensiva má vontade. Em vista disso, tivera que supervisionar todo o trabalho, pois não confiava que fossem seguir as instruções à risca. Certo dia precisou ir à cidade mais próxima, deixando Elwy encarregado de vigiar os homens. Não teve alternativa, já que necessitava comprar algumas ovelhas.
  15. 15. Com isso, gastou a maior parte do dinheiro que possuía. Quando criança, Kyryan fora pastor. Desde então, acreditava que poderia obter bons lucros com a criação destes animais. Junto com os impostos pagos pelos arrendatários, formaria uma renda bastante rasoáve1. Além das ovelhas, adquiriu um bom número de galinhas, um galo, umas poucas cabeças de gado e porcos. Kyryan tomou outro gole de vinho. Aquele era dos bons. Não que realmente apreciasse vinho, preferindo cerveja. Contudo, tinha a impressão de que os normandos atribuíam uma grande importância ã bebida feita de uvas. Então, beberia vinho! Na semana que antecedeu o casamento, ele tentou começar as obras do castelo propriamente dito. O prédio fora construído com dois andares, sendo o primeiro para depósito e o segundo contendo o salão e os quarto. Contudo, as vigas de madeira do andar superior apodreceram e desabara em vários lugares. O telhado também se encontrava em péssimas condições. Ao menos, conseguira remendá-lo. Mas não dava para fazer muito em tão escasso tempo. Desesperado, Kyryan arrumou uma área nos fundos do andar inferior para instalar o novo leito. Achava que o quarto improvisado não ficara desconfortável. Na primavera, instalariam as vigas do andar superior e teriam novamente o salão. Sorveu outro gole. Aquele era realmente o melhor vinho que já provara. Estava bebendo mais do que costumava, mas era o único jeito de abster-se de falar muito. Normalmente, considerava seu Normando bastante fluente. Na presença de todos aqueles nobres enfatuados, porém sentia-se como um mero camponês. Sua esposa - sua esposa! - estendeu o braço para alcançar uma fruta. Por um momento, ele ignorou as reminiscências saudosas de lorde Trevelyan e tomou a lançar um olhar furtivo para Liliana, como estava linda! Parecia um anjo com o vestido branco e prateado, o seio arfando ligeiramente sob o decote. As mãos alvas e esguias seguravam a maçã com delicadeza, os lábios carnudos sorriam com obstinação. Cachos dourados escapavam do véu fino, preso por uma pequena coroa de Prata e pedras preciosas, o rosto pálido, freqüentemente tingido pelo rubor, realçava o brilho dos olhos verdes. Estava claro que Liliana dispensava qualquer artifício, pois sua beleza natural era inefável. Ah como ela tremera ao receber o anel nupcial em seu dedo... agora, voltara a tremer. Por que seria? Antecipação dos prazeres que os aguardavam? Kyryan sorriu. Liliana estava nervosa, pobrezinha, decerto sentia medo. A maioria das virgens mostrava hesitante e temerosa, ele pensou, sentindo uma pontada familiar na virilha. Bem, ele era experiente. Já estivera com várias mulheres e aprendera a brindá- las com o mesmo êxtase que experimentava ao possuí-las. Bebericando o vinho, Kyryan contemplou, distraído, os músicos que chegavam. As mesas foram retiradas, abrindo espaço para as danças. Depois de curva-se numa mesura que ele supôs ser galante convidou a esposa para abrir o baile
  16. 16. encabeçando a quadrilha. Atordoado e sorrindo como um idiota, Kyryan resmungou que não tinha muita prática nas artes de salão. - Isso é óbvio - Liliana rebateu em tom petulante. Dardejou-lhe um olhar furioso, mas tudo o que Kyryan percebeu foi obri1ho envolvente de seus olhos verdes. - Está ficando tarde - ela comentou. - Creio que é hora de me retirar – “E poupar-me de mais uma humilhação”, pensou com desgosto. - Ótima idéia, minha cara, ótima idéia! – Kyryan aprovou com entusiasmo, sem se dar conta de que, ao sorver mais um gole, derramara vinho na túnica. - Em breve irei juntar-me a você. Liliana nem se deu ao trabalho de responder quando o pai, interceptando-a, perguntou: - Você está feliz, minha filha? Marchando na direção do quarto, Liliana sentia a fúria crescer em seu peito. O pai e o marido haviam decidido, sem consultá-la, que a primeira noite seria passada no Castelo Trevelyan. Só no dia seguinte rumariam para seu novo lar. Maude trotava ao lado dela, tentando acompanhar-lhe os passos apressados. Quando chegaram ao aposento, Liliana bateu a porta com toda a força. . - Ele é... ele é, intolerável! - É seu marido, não se esqueça! O olhar enraivecido de Liliana manteve a criada calada enquanto a ajudava a despir o traje nupcial Maude dobrou o vestido cuidadosamente e guardou-o numa das malas que seguiriam lady Morgan em sua jornada. Com um suspiro, acendeu a lareira. Ainda não era inverno, mas a temperatura já caía bastante durante a madrugada. Fazia muito frio, principalmente quando se usava uma camisola tão delicada. - Agora, deixe-me – Liliana ordenou impaciente. Maude balançou a cabeça, aquiescendo, e saiu. Tinha que terminar suas próprias malas, pois lorde Trevelyan concordara em deixá-la acompanhar a jovem esposa em sua nova vida. Liliana trajando a camisa de linho que usara sob o vestido de noiva em vez da camisola de seda especialmente bordada para aquela noite, começou a escovar o cabelo vigorosamente, dando vazão à sua ira. Após alguns minutos, seus gestos foram se abrandando até pararem por completo. Estava exausta. Ela franziu a testa, contemplando a cama que Maude preparara. Se Kyryan Morgan pensava que a encontraria pacientemente esperando entre os macios lençóis, não tardaria a descobrir que se enganara. ! Três horas mais tarde, Liliana ainda se encontrava sentada em frente ao leito. Ela ouvira os passos do pai pelo corredor quando ele se recolheu. Depois, escutou a
  17. 17. cantoria enrolada dos convidados embriagados sob a janela. Por fim, chegou-lhe aos ouvidos vozes masculinas que se aproximavam do quarto dela. Liliana ergueu-se e cruzou os braços. A porta se abriu com estrondo e seu marido entrou cambaleando, mal conseguindo manter-se de pé. O cachorro vinha atrás, como era previsível. Contudo, deteve-se na soleira quando Kyryan gritou com o amigo naquele idioma abominável, antes de chutar a porta, fechando-a. - Você está bêbado – ela acusou-o, proferindo as palavras com deliberada lentidão. - Não muito – ele replicou, reprimindo um soluço. - Tire o seu cachorro do meu quarto. . Kyryan franziu as sobrancelhas. _ Mott não dorme longe de mim. _ Muito bem. Espero que aprecie a companhia de seu cão em sua noite de núpcias, por que eu vou dormir em outro lugar. Liliana começou a dirigir-se para a porta, mas Kyryan agarrou-lhe o braço com surpreendente força ele puxou-a para si. Os dois ficaram próximos o bastante para que a respiração dele lhe penetra-se as narinas. - Você é minha esposa. - Pois não se esqueça disso. Você parece pensar que eu não passo de uma camponesa estúpida que não se importa em mendigar um pouco de atenção. Liliana lançou-lhe um olhar de desafio. Não temia um homem tão embriagado que não conseguia sequer manter o equilíbrio. Sentindo-se no controle da situação, ergueu o braço e apontou a porta. _ Saia daqui é leve seu cachorro com você! Kyryan não se móvel, limitando-se a sacudir a cabeça. - Oh, não. Você é minha esposa e esta é nossa noite de núpcias. Perdendo o que lhe restara de paciência, Liliana empurrou-o para a porta. - Saia daqui, seu beberrão, seu... gaulês! – exasperada ela praticamente cuspira as palavras, imprimindo à última um tom agressivamente pejorativo. No instante seguinte, Kyryan agarrou-a pela cintura, ergueu-a no ar é atirou-a sobre o leito. Postou-se diante dela e, pela primeira vez, Liliana deixou-se atemorizar. Principalmente por causa da raiva fria que vislumbrava nos olhos dele. E pela força de seus músculos. Então, Kyryan piscou e desabou sobre a cama, gemendo, as costas apoiadas sobre pernas dela. Em seguida, os gemidos cessaram. Por um momento terrível, Liliana julgou que ele estivesse morto. Um ronco pesado, porém, demonstrou que Kyryan havia adormecido. Liliana moveu as pernas, afastando-o com violência. O marido foi parar na extremidade da cama. Ela sentiu-se tentada a chutá-lo para o chão. Se aquele era o comportamento usual dos recém casados, toda a incerteza
  18. 18. acerca,de seus deveres conjugais havia sido completamente injustificada. Com um último olhar furioso para o homem que dormia, ela virou-se de lado e tentou conciliar o sono. ! Kyryan teve a impressão de que o ferreiro lhe martelava novamente a cabeça, desta vez de dentro para fora. Com um gemido de dor, tentou levantar-se da cama. Então, viu Liliana. Trajava um vestido de veludo verde, os cabelos ocultos sob um toucado que terminava num gracioso véu despeito do colorido da roupa, parecia tão severa como uma freira no convento. Liliana. Sua esposa. Sentada na cadeira em frente ao leito, observando-o com expressão de puro ódio. Ele lembrava-se vagamente da noite anterior, Ela usava alguma coisa branca que lhe revelava quase todo o corpo Haviam discutido... De alguma forma, apesar do lapso de memória, a expressão soturna da esposa e o fato de ela já estar vestida o levava a suspeitar que o casamento não fora consumado. - Vou conversar com meu pai - Liliana anunciou em tom feroz. - Quero anular o casamento. Kyryan fitou-a, perplexo. - Por quê? - indagou, incapaz de acreditar em semelhante absurdo. - Porque você não passa de um idiota beberrão. Não quero qualquer ligação com alguém de sua laia! Ela falava sério. Kyryan Morgan tinha-se comportado como um camponês bruto, e Liliana não dividiria sua vida com alguém como ele. Ela não o toleraria de forma alguma, não importava o ar de menino vulnerável que o cabelo anelado emoldurando o rosto lhe conferia. Liliana ergueu o queixo. Claro que não o toleraria, a despeito da beleza máscula do corpo dele, do olhar ferido e inquisitivo com que ele a contemplava. Kyryan levantou-se e despiu a túnica. - Eu sinto muito... Ela esforçou-se para desviar os olhos do amplo tórax à sua frente. - É demasiado tarde, para se desculpar. Você me humilhou demais. - Não foi minha intenção, eu juro. Suponho que o casamento...possa ser cancelado? Ele Parecia tão arrependido! Mais do que isso, sua expressão revelava uma profunda tristeza. Como era possível que aquele homem fosse o mesmo que vira nos torneios, cheio de determinação e dureza contra os adversários, capaz de lutar horas sem demonstrar medo ou cansaço? - Sim, pode - Liliana respondeu com brandura. Então, endireitou os ombros, lutando contra a perturbação que o tórax nu do marido lhe causava. Começava a lamentar a embriaguez de Kyryan na véspera, que impediu que... fosse lá o que fosse... acontecesse.
  19. 19. Contudo... seria assim tão incomum que um jovem noivo se embebedasse na festa de casamento? Talvez ele não estivesse acostumado a beber vinho, principalmente francês, consideravelmente mais forte. Ela já vira homens mais habituados a bebidas alcoólicas caírem após umas poucas taças. Kyryan fitava-a, expectante. Liliana levantou-se. - Desculpe, mas creio que será o melhor para nós. Pedirei a meu pai que deixe a propriedade em seu poder. Afinal, você lhe jurou fidelidade. - E jurei fidelidade a você. Como minha mulher. O brilho daqueles olhos negros despertou emoções desconhecidas em Liliana. Ela sentiu que vacilava, tomada por uma súbita fraqueza. Kyryan aproximou-se. - Estou profundamente arrependido por ter-me portado como um imbecil. Será que você... poderia... conceder-me uma nova chance? ! Três ! - Você está muito quieto homem, muito calado - Elwy observou o olhar bri1hando de malícia, para o amigo que, cabisbaixo, parecia encolher-se sobre a sela. Deve ser cansaço... imagino que passou uma noite memorável ... Kyryan dirigiu-lhe um sorriso débil, grato por perceber que se sentia me1hor ao menos fisicamente. Endireitando a postura, para aliviar o pescoço, enrijecido pela tensão, consolou-se por ao menos não estar vestindo a pesada cota de m a l h a , e m b o r a portasse sua espada e algumas adagas. Tinha, também, o arco pendente do ombro e uma aljava com flechas presa no cinturão de couro. Kyryan o1hou por cima do ombro. Liliana, trajando um elegante vestido sob o manto de lã verde, cavalgava atrás deles. Por último, vinha à carroça lotada com a bagagem dela e com os presentes. A criada acomodara-se ao lado do cocheiro, vigiando-o para que o ve1ho não ferrasse no sono. Ele deixou escapar um suspiro de alívio. Pôr um momento, quando ainda estava no castelo Trevelyan, chegou ele a pensar que Liliana iria de fato o pedir a anulação do casamento. O pior é que ela tinha motivos. Fora um idiota por beber tanto. Se a esposa lhe tivesse perguntado o motivo, ele teria inventado que aquele era um costume gaulês. Tudo, qualquer coisa, menos a verdade. Menos admitir que ele não passava de um camponês ignorante, capaz, de grosserias imperdoáveis e sem ,o menor traço da sofisticação que se espera de um nobre. Por mais que lutasse para vencer na vida, nada no mundo poderia modificar sua natureza simplória. - Estou pensando em seguir seu exemplo – Elwy declarou em tom sério. - Que exemplo?
  20. 20. - O de arranjar uma esposa rica. E a melhor forma de se obter uma propriedade. - Hã... Elwy piscou zombeteiro. - Pelo sangue de Cristo, homem, você está mais silencioso, do um defunto! Percebo que sua mulher também não está falando muito. - A viagem é longa, precisamos poupar o fôlego. - Certo. Tudo que você disser, companheiro – Elwy fez uma pausa antes de acrescentar - a criada até que é bem bonitinha... - Você considera bonita qualquer moça que ria das suas piadas. - O que demonstra que alem de beleza, ela tem tutano. - Julguei que estivesse interessado em desposar uma mulher rica. - E estou, mas não preciso dormir sozinho enquanto não me caso, concorda? - Elwy tornou a piscar e começou a cantar, enchendo a floresta com o som melodioso de sua voz: ! ! ! “Foi num dia, certa vez, de solstício de verão, que um cavaleiro gaulês de uma jovem quis a mão...” ! Dafydd ouviu uma gargalhada masculina e rastejou na direção da estrada. Era sua tarefa vigiar o caminho, prestando atenção aos viajantes ricamente vestidos. Em especial quando não havia soldados para protegê-los. Com toda cautela, afastou o galho de um arbusto e viu dois homens e uma mulher montados em cavalos da melhor raça. Atrás, seguiam alguns criados e uma carroça coberta. A menos que sua intuição o traísse, podia jurar que ali ia um carregamento de bens de grande valor, talvez um dos homens fosse o novo senhor de quem falava, que ganhara o castelo nos limites da propriedade Trevelyan. Arrastando-se, Dafydd aproximou-se um pouco mais e notou o pequeno arco gaulês no ombro do homem de melhor aparência. Esse detalhe o intrigou, pois nenhum normando ousaria portar uma arma daquela. Na verdade, os normandos desprezavam qualquer tipo de arco. Seria verdade, então, que o novo senhor era gaulês? Não lhe parecia possível, a menos que Trevelyan lhe tivesse dado a filha em casamento. Mas arco... O homem dê nariz grande começou a cantar, deixando Dafydd de queixo caído. Aquela canção lhe era familiar... Ivor precisava ser informado a respeito disso.
  21. 21. ! Li1iana parou de contemplar o marido e olhou em torno, tomada por grande nervosismo. () fato de estarem atravessando a floresta assustava-a. Afinal, a comitiva, era composta apenas por ela mesma, Kyryan e o amigo, Maude e o velho John. A carroça estava repleta de roupas, linhos, brocados, prataria, algumas peças raras de mobília, candelabros e até moedas de ouro. Eles formavam um alvo perfeito para os ladrões. Ouvira rumores de que um bando de malfeitores vivia na floresta. Todavia, seu pai não dava a impressão de acreditar muito nos falatórios. Talvez estivesse se preocupando à toa. Kyryan recusara a escolta armada que o sogro lhe havia oferecido. Seu pai teria insistido, se achasse que a jornada envolvia riscos desse tipo. Obviamente, ele julgou, que Kyryan e seu amigo de nome ridículo eram suficientes para defender o grupo. Nuvens cinzentas recobriam o céu. Liliana torcia para que chegassem ao castelo antes que começasse a chover! Estavam, cavalgando desde a manhã, e agora a tarde já findava. As árvores ainda gotejavam, em conseqüência do aguaceiro da véspera, e estrada reduzira-se a um lamaçal. O olhar de Liliana tornou a fixar-se nas costas largas do marido e no arco que lhe pendia do ombro. Dizia-se que Kyryan Morgan era um arqueiro excelente, mas ela atribuía pouca importância a isso. Os cavaleiros de verdade usavam lança, espadas, clavas ou achas; e não aquela arma relegada aos soldados de pés descalços. Sob vários aspectos, Kyryan era diferente de todos os nobres que conhecera. Talvez fosse essa explicação, de seu charme e carisma. Pensar que sua determinação em anular o casamento esvaneceu-se só com um olhar dele! Aquele olhar... provocou-lhe um verdadeiro tumulto emocional. Num instante queria, expulsá-lo de sua vidas, no outro, ansiava por atirar-se em seus braços. Quanta loucura! Talvez os homens tivessem razão quando afirmavam que as mulheres eram criaturas fracas. Jamais acreditara nisso, mas podia ser por não ter ainda encontrado o homem certo. De súbito, o cachorro de Kyryan disparou para a mata cerrada. Antes que ela se desse conta do que acontecia, o marido deteve o cavalo empunhou o arco. No momento seguinte, puxou uma flecha da aljava, encaixou-a no arco e disparou. A seta voou pelo ar e atirou alguma coisa ao chão. Logo depois, o cão voltou trotando, com um coelho preso entre os dentes. Kyryan virou-se para o amigo e despejou uma enxurrada de palavras em Gaulês antes de desmontar e apanhar o coelho. Arrancou a flecha de dentro do animal e Liliana percebeu uma sombra de desgosto escurecer-lhe o semblante ao limpar o sangue do bichinho. Então, ele a fitou-a com um sorriso um tanto embaraçado. - Nosso jantar - comunicou, piscand0-lhe um olho. Sem esperar que ela respondesse, Kyryan tornou a montar, prendendo a
  22. 22. pequena caça na sela e recolocando a flecha em seu lugar. - Estamos chegando. A entrada do castelo fica logo depois da próxima curva – Kyryan informou, apressando o cavalo para liderar comitiva. O que foi bom, pois evitou que Kyryan ouvisse a exclamação chocada de Liliana ao ver seu novo lar. Pelo que, se lembrava, o solar era um prédio bonito, e não aquele monte de escombros. A muralha externa estava literalmente ruindo. Ela pôde vislumbrar a parede de taipa da velha mansão através dos buracos no muro. A maior parte do telhado havia sido refeita recentemente, mas as paredes encontravam- se num estado lastimável. As outras construções que cercavam o castelo não estavam em melhores condições, com exceção do celeiro, que era quase tão grande quanto a mansão mostrava-se obviamente bem mais conservado. Na verdade, parecia que Kyryan passara o mês inteiro só cuidando do celeiro. Ao que tudo indicava, o marido preocupava-se muito mais com os grãos e com o gado do que com a esposa. Kyryan olhou para trás exibindo um sorriso que ela considerou odioso. -Precisa de alguns reparos, é claro, mas estou certo de que logo daremos um jeito em tudo. Liliana rangeu os dentes. Como Puderam submetê-la a tamanho desconforto? Seu pai ignoraria o quanto a propriedade estava abandonada? Com que ele pôde oferecê-la em casamento ao camponês ignorante que morava ali? E como Kyryan podia pensar quer uma mulher ficaria feliz em desmontar o cavalo e entrar naquela... choupana imunda? Se não tivesse começado a chover, ela faria meia-volta e retornaria ao lugar onde nascera e vivera até o casamento, sem ligar para a reação do marido. Mas recomeçara a chover forte. Liliana baixou o capuz para proteger a cabeça, enfurecendo-se ainda mais por notar que Kyryan não esperava por ela, disparando na frente sem a menor consideração pela esposa. Aliás, como já era de se esperar. A contragosto, seguiu o marido e seu amigo até o celeiro. Ao menos, conseguiram alcançar o abrigo antes de ficarem totalmente encharcados. Só depois de desmontar e retirar o capuz deu-se conta de que não estavam sozinhos. Cerca de vinte homens, que conversavam e riam, receberam Kyryan com tapinhas nas costas, enquanto ela permanecia junto da porta, ignorada. Galinhas ciscavam no chão sujo, vacas mugiam no estábulo, um cavalo relinchou, o cachorro de Kyryan corria de um lado para o outro como se estivesse endemoninhado. O cheiro inconfundível de porcos era insuportável. Não era a recepção que imaginara para a esposa recém-casada de um nobre. Pouco depois, Maude e o velho John entraram com a carroça, que gotejava por todos os lados. Então, Kyryan finalmente pareceu lembrar-se dela.
  23. 23. - Deixe-me apresentar-lhes alguns dos meus mais prestativos amigos gauleses. São os melhores construtores de mundo! O Barão DeLanyea os enviou quando soube do meu casamento e ... – Kyryan calou-se de forma abrupta. - E imaginou que a sua propriedade necessitaria dos melhores “construtores do mundo?” – Liliana sugeriu o final da frase num tom repleto de sarcasmo. O que resultou inútil, pois Kyryan não deu mostras de perceber. Um largo sorriso, quase infantil, iluminou-lhe o rosto. - Exatamente! Não é maravilhoso? - Maravilhoso – ela ecoou, desalentada, aconchegando a manta para tentar aquecer-se. Kyryan tornou a esquecer-se de sua presença. Em gaulês, retomou a conversa com os compatriotas. Maude riu quando Elwy, o único homem ali capaz de demonstrar algum senso de cortesia, ajudou-a a descer da carroça. Liliana acercou-se da carreta, tomada por profundo desânimo. Todas as suas roupas, seus objetos valiosos, tudo devia estar enlameado. - A chuva diminuiu - Kyryan anunciou. – Vocês podem ir para o salão do castelo. Eu os encontrarei lá daqui a pouco. Liliana apressou-se a sair do celeiro e começou a atravessar o pátio com passos acelerados. Então, percebeu que estava molhando a barra do vestido nas poças e passou a evitá-las com cuidado. Subiu as escadas que conduziam ao salão. Ao chegar à soleira, parou e observou. O piso acima do andar inferior, que geralmente servia para armazenagem, não existia, com exceção de algumas vigas. Em vez disso, havia um andaime com uma rampa para descer ao andar de baixo. Então, ela teria que viver numa despensa? Num lugar com o chão sujo e, pelo que pôde ver quando desceu a rampa, uma imensa lareira provisória no centro? Havia bancos espalhados ali por perto, bem como cavaletes de mesa encostado na parede, um biombo na extremidade da sala. Uma mulher encarquilhada, que presumiu tratar-se de Sara, estava de pé junto da porta, na outra extremidade. Seria ali a cozinha? A velha, dirigiu-lhe um sorriso desdentado. Exausta, Liliana deixou-se cair sobre um dos bancos. Kyryan lhe havia arranjado uma bruxa sem dentes como cozinheira! Deserto empregava olhos de sapo e pernas de morcego em suas poções! E onde estariam os demais criados? Por que não foram recebe-la? O que fora feito de Maude, que ainda não trouxera sua bagagem? Precisava tanto de roupas secas! . Ela olhou para cima, onde deveria estar localizado o salão principal. A luz mortiça do final da tarde escoava-se pelas janelas estreitas. As paredes nuas e manchadas, não sofriam uma boa limpeza havia anos. Liliana principiou tremer, enregelada, e aproximou-se do fogo. Ergueu um pouco as saias para secar os pés, que haviam perdidos a sensibilidade, de tão frios. Maude finalmente chegou.
  24. 24. - Meu bom Deus! Estou molhada até os ossos! - resmungou, olhando a rampa, as vigas e o teto. Soltou uma de suas risadas irritantes. - Bem pelo menos ainda sobrou o telhado. Ele quase desabou na última tempestade, pelo que Elwy me contou. Ao ver a expressão de sua patroa, porém, Maude interrompeu a tagarelice e correu para ela, numa tentativa de reconfortá-la. - O velho John vem trazendo as suas malas. Demoramos um bom tempo para encontrá-la em meio a toda a bagagem. Bem que eu avisei na hora em que estavam colocando tudo na carroça, mas ninguém me ouviu! Liliana fitou-a com ar carrancudo. Não duvidava das palavras da criada, pois considerava bastante provável que não se desse grande importância ao transporte de seus pertences. Também, depois do que todos haviam bebido durante a festa, deviam estar com uma tremenda ressaca. John entrou com a arca que continha o enxoval de Liliana. Lençóis de seda e renda bordada para sua nova casa. - Onde ponho isto? – o criado indagou. - Lá – a velha apontou para o biombo, falando pela primeira vez. Os olhos de Liliana se estreitaram e seus lábios se contraíram. Kyryan Morgan esperava que ela dormisse ali? Pretendia consumar o casamento com um bando de homens a poucos metros de sua cama? Era ultrajante! Maude lançou um olhar preocupado para a patroa, como se lhe adivinhasse os pensamentos. - John agora traga a arca de carvalho. Lady Morgan precisa de roupas secas. Os dois desapareceram atrás do biombo. Neste instante, Kyryan entrou no salão, seguido pelos amigos gauleses. Saltou pela rampa como se estivesse praticando um esporte muito divertido e entregou o coelho para Sara. - Tome. Este será o nosso jantar de amanhã. A cozinheira assentiu e retirou-se. Kyryan voltou-se para a esposa com um sorriso radiante, que imediatamente desapareceu, dando lugar a uma expressão indagadora. - Você não vai tirar a manta? - Não. Estou com frio. Ele apanhou uma acha da pilha perto da porta por onde Sara havia saído e atirou-a no fogo. - Agora ficará mais quentinho – Kyryan prometeu aos amigos com jovialidade e todos desataram a rir. Então sentou-se ao lado da esposa enquanto os homens montavam as mesas sobre os cavaletes para o jantar, brincando de empurrar uns aos outros e gargalhando. Kyryan participava da conversa ininteligível, ponteada de risos e exclamações, e esticou as longas pernas para junto da lareira. À medida que sua roupa secava, tornava-se cada vez mais óbvio, pelo odor, que estivera mexendo com os animais no
  25. 25. estábulo. Liliana mantinha-se obstinadamente calada, embora tivesse muito a dizer. Não via utilidade em discutir a inadequação dos modos de seu marido na frente de estranhos. Sara entrou pouco depois, carregada com travessas de carne, pão e cerveja. Liliana bem que gostaria, mas o fato era que a torturava. A jornada fora longa, com uma única parada para um lanche rápido, constituído por umas poucas frutas e um copo de vinho. Afora isso, nada comera o dia inteiro. Maude terminou sua tarefa e acomodou-se ao lado de alguns dos gauleses, numa das mesas, rindo como uma tola a maior parte do tempo. O comportamento da criada só aumentou a irritação de Liliana. John ao menos, limitava-se a comer, distante da balbúrdia geral. A comida, porém, revelou-se extremamente saborosa. Liliana não pode deixar de agradecer com um sorriso quando Sara serviu-lhe mais fatias de pão macio, ainda quentinho do forno. Talvez não fosse má idéia, afinal, conserva-la como cozinheira. A velha podia não ter dentes, mas possuía mãos de fadas para culinária. Assim, procurou mostra-se cortês para com a serviçal. A essa altura, não restava dúvida de que lhe caberia ensinar boas maneiras ao marido, empregando o próprio comportamento irrepreensível como exemplo. O que desgostava era perceber que, para Kyryan Morgan, a educação não parecia fazer falta. Após a ceia, Liliana ergueu-se com toda dignidade. - Tenha uma boa noite, milorde – despediu-se com frieza. O sorriso que ele lhe dirigiu em nada contribuiu para diminuir-lhe a raiva. - Já é assim tão tarde? - A viagem deixou-me exausta. - Oh, sim. Boa noite – Kyryan retribuiu o cumprimento e voltou-se para prosseguir a conversa com os compatriotas, que se entreolhavam com ar de entendimento e piscavam os olhos com malícia. Liliana atravessou o salão com o cenho franzido. Aparentemente, o marido planejava passar a segunda noite de casamento farreando com os amigos. Ficaria embriagado de novo. Bem, dessa vez ela não seria tão complacente, tão pronta a perdoar. Voltaria para a casa do pai e pediria a anulação daquele malfadado casamento, não importava o quão arrependido Kyryan se mostrasse. Indignada, cruzou o biombo. Alguma tentativa fora feita para arrumar o “quarto”, mas, a julgar pelo desleixo com que Liliana se deparava, Maude devia estar pensando que agora não precisaria trabalhar tanto quanto no castelo Trevelyan. Teria que demonstrar-lhe que se enganara. Por ora, todavia estava cansada e zangada. Só queria dormir. As únicas peças de mobiliário no aposento improvisado eram as arcas que trouxera, uma mesinha com uma jarra de água e uma bacia, um braseiro e uma cama grande. Uma cama enorme. Feita ás presas com seus lençóis de linho enlameados.
  26. 26. Ouviu-se uma eclosão de gargalhadas e canções desafinadamente entoadas pelos homens no salão. Liliana escutou um ruído de passos atrás dela. Virou-se e viu Kyryan aproximar-se com um sorriso lúbrico nos lábios. - Você espera que eu durma aqui? - Poe que não? Não há outro lugar, com exceção do celeiro. - Não consentirei em ser humilhada assim. Não estou habituada a deitar-me em chiqueiros. Kyryan a fitava com os olhos brilhando. Tinha diante de si a mulher mais linda que já encontrara, e a mais temperamental, também. Jamais desejara uma mulher dócil e submissa como esposa. - Bom, concordo que esse quarto precisa ser melhorado, mas... - “Melhorado”? Não existe quarto algum, este lugar não passa de um curral! Leve-me para a minha casa. Kyryan apertou os olhos. - Esta é a sua casa. - Não viverei sob este teto em ruínas por nada no mundo! - Você é minha mulher e vai morar comigo. - Não sou e não vou. Kyryan estava agudamente ciente do súbito silêncio que invadira o salão, do outro lado do biombo. Doía-lhe pensar que, momentos antes, recebia os cumprimentos pela beleza da mulher. E agora ela negava, com gritos veementes, ser sua esposa. - Estou lhe dizendo para levar-me de volta para casa – Liliana insistiu em tom de comando. Ele não seria diminuído perante os homens que conhecia desde a infância. Não se deixaria humilhar dentro dos limites de sua propeiedade. Além da raiva, um enorme ressentimento crescia em seu coração. Liliana, sem saber, havia-lhe causado uma grande mágoa. Ele lera no semblante da esposa a repulsa e o desapontamento ao ver o castelo, forçando-o a enxergá-lo através dos olhos dela. Liliana sequer suspeitava de como o solar parecia lindo para Kyryan, a despeito de suas más condições de conservação, pelo simples fato de que pertencia a ele. Numa reação inesperada, Kyryan ergueu-a no ar e atirou-a sobre o leito. Quando Liliana desabou sobre o colchão, o véu desprendeu-se de sua cabeça, soltando-lhe os cabelos, que espalharam em cachos dourados sobre os ombros. Ela ergueu o queixo, enrubescida de fúria. - Como se atreve...? - Você é minha mulher. Ela levantou-se da cama e correu para junto do biombo. - Seu... bruto! Eu não permitirei que você... não com todos esses homens aqui! - Eles já se foram.
  27. 27. - O quê? - Arranjaram outro lugar para dormir. - Então... - Então estamos sozinhos. Liliana nem se moveu. Fitava-o com expressão inflexível. - Não ouse tocar-me. Não se aproxime de mim. Você cheira mal... como um camponês! Kyryan Morgan era um homem orgulhoso, e a esposa finalmente conseguira ultrapassar os limites de sua tolerância. Com os lábios apertados, ele devolveu-lhe o olhar duro. Após um segundo, agarrou-lhe o braço e puxou-a para si. - Você é minha mulher – tornou a afirmar, como se a desafiasse a contradizê-lo. – Da mesma forma como Mott é o meu cachorro e esta casa é a minha casa. Nunca mais tente negar esse fato. Entendeu? Liliana ficou chocada e realmente amedrontada. A serenidade com que o marido proferia aquelas palavras parecia mais ameaçadora do que se tivesse gritado. Os olhos negros contemplavam-na com um brilho intenso de determinação. Não restava dúvida de que se encontrava diante do homem mais perigoso com quem já se defrontara. Lembrou-se dele na arena, lutando feroz e incansavelmente até derrotar o adversário. Tinha que admitir, Kyryan Morgan era um guerreiro corajoso e hábil. Mais do que isso, era um homem passional, quase selvagem. Bom Deus quantas vezes ansiara por um marido com essa descrição, e agora... Com a rapidez e a força de um felino, Kyryan derrubou-a de novo sobre a cama. No instante seguinte, estava em cima dela, prendendo-lhe os braços; o rosto a poucos centímetros de distância. Implacáveis, os lábios de Kyryan colaram-se aos de Liliana com firmeza e sensualidade. Ela jamais havia sido beijada daquela maneira. Tratava-se dê uma carícia possessiva e persistente. Um beijo de guerreiro. Tão diferente das poucas tentativas, débeis e quase repugnantes de outros homens a quem ela concedera tal liberdade. Então, algo inesperado surpreendeu-a. Kyryan forçou-a a entreabrir os lábios para permitir que sua língua tocasse a dela não entendia por que, ele fazia isso, mas sentia que gostava. E muito. E agora, o que estava acontecendo? Tomada por repentino pânico, Liliana esforçou-se inutilmente para fugir do marido. Seria aquilo a consumação do casamento? Era daquela forma que um homem apossava-se de uma mulher, tornando- a sua esposa? Abrindo-lhe o decote e mordiscando-lhe os seios? Assaltada por emoções incontroláveis e por uma forte curiosidade, parou de debater-se e aguardou, deixando escapar um longo suspiro. Kyryan disparava beijos em seus cabelos, faces, orelhas, pescoço, atordoando-a, levando-a a ansiar por alguma coisa que nem sabia o que era.
  28. 28. Kyryan começou a gemer baixinho. Tinha em seus braços a moça mais linda do mundo. Nunca experimentara um prazer mais inefável do que sentir-lhe o cheiro, o calor, a suavidade da pele... ah, e poder sentir o sabor de sua boca, de seus seios... Logo iria possuí-la por completo, tornando-a só sua para sempre! Ele lhe perdoaria os insultos. Ela não tinha culpa, pois nem avaliava o quando o havia ferido! Além disso, apreciava seu temperamento forte tanto quanto se deliciava com a maciez de seu ventre alvo. Liliana reclamara, tentara esquiva-se, mas agora, entregava-se de forma tão terna, quase apaixonada... Zangara com ela, mas, que diabo... por que ele teimava em agir como um camponês ignorante? A pobrezinha não merecia um tratamento tão rude. Kyryan suspendeu a cabeça para fita-la, brindando-a com um sorriso carinhoso. Então, Liliana ergueu o braço e desfechou-lhe uma sonora bofetada. ! QUATRO ! - Saia de cima de mim – Liliana gritou, a voz vibrando de raiva e de indignação. – Afaste-se, seu bruto! Antes que ela pudesse agredi-lo novamente, Kyryan agarrou-lhe o pulso. - Nem tente – limitou-se a dizer. Ele fitou-a direto nos olhos, reconhecendo que havia subestimado sua oponente. Então, por uma fração de segundos, vislumbrou no semblante da esposa o medo que jazia sob a raiva. Medo! Liliana o temia! Num átimo, cruzou-lhe a mente a recordação de uma menina soluçando, a vergonha, o juramento de nunca mais atemorizar uma mulher. Kyryan largou-lhe o pulso e rolou de lado pelo leito, libertando-a. Desgostos por ter cedido à ira e à sua paixão egoísta, levantou-se. - Saia daqui, seu... gaulês! – Liliana bradou com desdém. Um travesseiro quase atingiu a cabeça de Kyryan, indo chocar-se contra o biombo. Ele voltou-se, devagar, sem mostrar vestígio de cólera. - Eu sou gaulês e me orgulho disso. Ela saiu da cama, os cabelos desfeitos chegando-lhe à cintura como uma cascata de ouro. - Já disse para deixar-me a sós! - Não sou seu criado, Liliana – Kyryan replicou, lamentando que a primeira vez em que a chamava pelo nome fosse com tanta frieza e em circunstâncias tão desagradáveis. Bem, ele esqueceria o quanto desejara desposá-la. Ignoraria o desejo que ainda o torturava. Ele se absteria até fita-la para verificar se o medo continuava estampado
  29. 29. em seu semblante. - Entenda, Liliana. Eu sou seu marido - Kyryan aproximou-se da esposa. - Eu poderia jogá-la naquela cama e fazer o que bem entendesse, pois estaria no meu direito. Eu poderia bater em você, se quisesse. Mas, por Deus! Não farei nada, disso. Eu me prometi jamais possuir uma mulher contra a sua vontade e manterei a pro- messa. Amanhã, poderá tomar as providências que achar melhor. Voltará para a casa de seu pai, se é o que quer. Liliana perscrutou-lhe os olhos negros repletos de mágoa e fúria. Em silêncio, voltou para a cama. - Mas eu não devolverei as terras - ele prosseguiu. – Eu cumpri a minha parte do trato. Diga isso a seu pai. Ela abaixou a cabeça. Se Kyryan Morgan cumprira sua parte do trato, então... o casamento havia sido consumado. Tornara-se, de fato, mulher dele. Nesse caso... como podia pretender mandá-la de volta para o Castelo Trevelyan como se nada houvesse acontecido? Ergueu o queixo, em seu gesto habitual de desafio. Lágrimas de indignação queimavam-lhe os olhos, mas ela se obstinava em contê-las. De forma alguma choraria diante daquele gaulês ignorante, e preferia morrer a deixar que Kyryan Morgan soubesse que era capaz de feri-la com suas palavras. - Vá embora – ordenou-lhe, lançando-lhe o olhar que havia aterrorizado os criados durante anos. Ela o havia surpreendido, tinha certeza. Obviamente ele esperara que ela se rendesse como uma serva qualquer. - Desta, vez, vou deixá-la porque eu preferi assim. E não retornarei ao seu leito até que me peça. -Eu nunca lhe pedirei tal coisa! Os lábios, de Kyryan retorceram-se num sorriso gé1ido. - Em seu lugar, eu pensaria duas vezes antes de falar. Já perdi a conta do número de mulheres que imploraram para partilhar a minha cama. Liliana sorriu com, escárnio. - Eu sou lady Liliana Trevelyan... - Morgan - ele completou. Ela prosseguiu, ignorando a interrupção. - E eu jamais lhe pedirei. O rosto do marido permaneceu irritantemente impassível. - É o que veremos. Tenha uma boa noite, normanda. Liliana ficou feliz, por vê-lo retirar-se. Ele tinha sido rude e cruel. Consumou o casamento sem demonstrar respeito ou consideração por sua inocência. Se, como afirmou, era tão experiente nesses assuntos, devia ter percebido como ela se sentia e proceder com maior gentileza. Mas "gentileza" era uma palavra que não constava no vocabulário de Kyryan Morgan. Ela era lady Liliana trevelyan... Morgan, maldição. Pertencia a uma família de
  30. 30. nobres que remontava, à Conquista. Ninguém nem mesmo o marido, tinha o direito de falar com ela corno Kyryan Morgan fizera. Principalmente agora, que eram marido e mu1her de verdade. Aquele patife poderia até acusa-la de ter abandonada o lar. Todos, até o pai, iriam condena-la pelo fracasso da união. Como Averil se regozijaria com a novidade! Afinal, ela saboreava cada escândalo, cada pequeno detalhe sórdido da vida dos outros. Já conseguia até ouvi-Ia espalhando o mexerico: “Queridas amigas, estou chocada. Que infelicidade o que aconteceu com os Morgan! Quem diria que Liliana, tão bela, tão dócil, seria capaz de largar o marido? Um homem adorável!" – Averil comentaria com falsa consternação. O pior, porém, seria o desapontamento de lorde Trevelyan. Doía-lhe magoar o pai, que sempre a tratara com amor e depositara nela todas as suas esperanças. Como poderia decepcioná-lo? E havia Kyryan Morgan. O que ele pensava? Que podia aproveitar-se do corpo dela e depois manda-la embora para ficar com as terras, seu único motivo para casar- se? Aquela propriedade era o grande sonho de Kyryan. Casar-se com a fi1ha de um nobre, consumar o casamento e, depois, expulsa-la. E, ainda por cima, assumindo o papel de vítima! Que estratégia perfeita! Não fora o desejo que o levara a possuí-la! Kyryan não a queria realmente. Ao longo de sua vida todas as pessoas, do mais humilde serviçal ao mais nobre dos lordes, haviam-na tratado com deferência buscando agrada-la e obter-lhe favores. Contudo, ela jamais tivera certeza se era por estima ou por mero interesse. Não pelo amor do pai, a carência afetiva e a solidão de Liliana seriam completas. Quando o noivado foi anunciado, Kyryan lhe pareceu tão feliz! Passou a noite contemplando-a com paixão.nenhum homem havia lhe provocado emoção mais avassaladora. Seria possível que fosse tudo fingimento ou obra de sua imaginação? Liliana despertou com o ruído de passos no quarto. Abriu os olhos, mas não moveu um músculo. A janela lá no alto filtrava a claridade do amanhecer. Era Kyryan. Dava a impressão de estar a procura de alguma coisa dentro de uma pequena arca encostada à parede. E ele estava totalmente nu. Aquela era a primeira vez que via um homem despido. Kyryan estava de costas para ela, mas era possível contemplar-lhe as longas pernas, os ombros e os braços musculosos. Uma onda de calor incendiou-lhe as veias ao fitar-lhe o corpo forte e esguio de cavaleiro. Ela não passava mesmo de uma mulher fraca. Ao menos em situações inusitadas como aquela. Neste instante, ele encontrou um par de culotes e começou a virar-se em sua direção. Liliana apressou-se a cerrar os olhos. Já vira o bastante para constatar que, com o rosto bonito e o corpo soberbo, Kyryan Morgan era o homem mais magnífico que
  31. 31. uma moça poderia almejar como marido. Se ao menos ele a quisesse com a mesma intensidade com que ela o desejava agora! Durante a noite, ela se convencera de que Kyryan era orgulhoso e capaz de experimentar sentimentos profundos. O que mais se esperaria de um guerreiro tão envolvido emocionalmente com a luta? Contudo, na manhã seguinte à noite de núpcias, ele revelara uma face vulnerável, infantil. Custava-lhe crer, lembrando-se dele naquele momento, que Kyryan havia se casado apenas para obter terras e dinheiro. Quanto a consumação do casamento, tinha que admitir que não fora de todo desagradável. Embora ela estivesse apavorada demais para sentir qualquer coisa. Tudo acontecera tão depressa! Liliana também se recordava que, quando terminou, ele sorriu, não de triunfo, mas com genuíno carinho. Observando-o com os olhos semicerrados, sentia o corpo cada vez mais quente, como se uma estranha febre a fizesse queimar por dentro. Se Kyryan falasse com ela, decidiu que responderia. Talvez ele a beijasse de novo, desta vez com mais delicadeza, permitindo-lhe partilhar seu prazer. Em vez disso, porém ele retirou uma túnica de dentro da arca e vestiu-a. Liliana franziu a testa. Á túnica estava surrada, cheia de buracos. Era assim a roupa de baixo de um cavaleiro? Bem, sim, se o cavaleiro fosso pobre. E Kyryan não tinha dinheiro sobrando. Seu pai lhe dera uma soma considerável em moedas de prata e de ouro para uso próprio, mas ela empregaria uma boa parte em roupas para o marido. Talvez tivesse exagerado um pouco em relação ao castelo. Não era por culpa de Kyryan que o solar se encontrava em tal estado de abandono. Charles de Monteclare, o dono anterior do feudo, tinha sido notadamente negligente em seus deveres. Em um mês, Kyryan até que conseguira um resultado excelente na reconstrução do celeiro. O marido olhou-a de relance, surpreso. Ela fechou os olhos e prendeu a respiração, esperando que ele dissesse alguma coisa. Kyryan, porém, assobiou para o cachorro e saiu. Liliana sentou-se, buscando desesperadamente vencer a frustração que a dominava. Ele se quer tentara certificasse de que ela estava de fato adormecida. O desinteresse de Kyryan era patente. Ouvindo vozes do outro lado do biombo, ela percebeu que os criados já estavam se levantando. Maude logo chegaria, provavelmente rindo como uma parva. Depois de lutar com o nó do laço que amarrava o vestido, conseguiu tira-lo. Largou-o sobre o leito e correu para a arca onde sabia que Maude guardara um traje apropriado para o dia. Logrou a enfiá-lo de qualquer maneira antes de ouvir o risinho familiar. - Milady?
  32. 32. - Sim? – respondeu com a voz serena, enquanto suas mãos se apressavam a prender os cachos dourados. Maude entrou. - Preciso de ajuda com esse vestido – Liliana lhe disse em tom brusco. Virou- lhe as costas, para evitar que lhe fizesse perguntas inconvenientes. Nem imaginava que desculpa kyryan teria inventado para justificar sua ausência do quarto na última noite, e não sentia a menor disposição de tolerar a curiosidade de Maude. A moça porém, obedeceu as ordens quase em silêncio. Claro que dentro dos padrões dela, pois ficar totalmente calada era algo impossível. Graças a isso acabou sendo informada que o vilarejo mais perto começara a crescer depois que se espalhou a notícia da existência de um novo senhor no castelo, e que havia rumores sobre um bando de fora-da-lei galeses atacando os normandos nas fronteiras. - Quanto tempo falta para a missa? Liliana indagou. - O suficiente para pentear o seu cabelo e colocar o toucado, milady - Maude replicou Com deferência. Em seguida, foi arrumar a cama. Suspirou, melancólica, ao ver os lençóis na mais completa desordem. E, sua patroa estava sem sorte mesmo. A pobrezinha decerto não pregara o olho um minuto sequer, naquela noite. ! Kyryan ajoelhou-se, aguardando com impaciência que a missa começasse. Havia uma quantidade de coisas que gostaria de fazer, começando por comer. Mal havia tocado no jantar, na véspera, antecipando... Interrompeu o fluxo de lembranças que ameaçavam voltar a torturá-lo, estremecendo de leve. O frio não o incomodava, nem mesmo a dureza das pedras do chão. Pouco ligava para o desconforto. Contudo... não esperava passar a primeira noite em seu próprio castelo depois da chegada da linda esposa numa pilha de feno atrás do celeiro. E sozinho. Sua orgulhosa, teimosa mulher. Ou melhor, sua legítima, esposa até regressar para a casa paterna. Liliana provavelmente já estaria pronta para partir, belíssima em um de seus des1umbrantes vestidos, dando ordens aos criados para carregarem a bagagem para a carroça. Pois ela que se fosse. Ele ficaria com o dote e com a propriedade. Ninguém poderia inculpá-lo pela separação, já que lhe haviam sido negados seus direitos como marido. Explicaria a situação ao sogro quando este o chamasse, como certamente faria. Talvez o solar não pudesse ser comparado com o grande e confortável Castelo Trevelyan, mas ele jamais mentira a Liliana a este respeito. Presumira, tolamente, que o pai a havia informado sobre as reais condições da mansão e que ela não se importou. Tanto que concordou com o casamento. Deus, ele era um imbecil! Pior, não passava de um idiota sem força de vontade e apaixonado, que mesmo agora não suportava a idéia de perder Liliana. Tentara
  33. 33. convencer-se de que seu aborrecimento era conseqüência da humilhação de ser abandonado pela esposa dois dias após o casamento, e não por ela tê-lo considerado tão rude e grosseiro que não pôde tolerá-lo. Elwy, ajoelhado a seu lado, observou-o de soslaio e, com um sorriso malicioso, cochichou: - O casamento está acabando com você, rapaz! Dormir um pouco, vez por outra, faz bem... Kyryan sacudiu os ombros, mal conseguindo suavizar a expressão carrancuda. De súbito ouviu o som característico de saias arrastando nas pedras e, com o canto dos olhos, viu Liliana ajoelhar-se do seu lado direito. Virou-se para fitá-la e surpreendeu-se com o sorriso mais recatado e dócil com que uma esposa podia brindar o marido. Em nome de todos os santos, o que ela estaria fazendo ali? Por acaso pretenderia constrangê-lo agora que dispunham de "uma platéia"? Nesse momento, a missa teve início e, corpulento padre Alphonse demorou-se mais do que o habitual em seu sermão, proferindo as palavras com pomposa lentidão. Sem dúvida, desejava impressionar a jovem senhora do castelo. A jovem senhora do castelo... sentara-se tão perto dele que Kyryan poderia tocar-lhe as mãos esguias se seus dedos sofressem o mais leve tremor. . Ele contemplou-a disfarçadamente, percebendo pela primeira vez as olheiras escuras que contrastavam com o verde de seus olhos. Suas faces, normalmente rosadas, apresentavam-se pálidas, sem viço. Os sinais evidentes de cansaço denunciavam uma noite tão insone quanto à dele. Por fim, a missa terminou. Kyryan ergueu-se, seguido por Liliana. Ele hesitou por alguns instantes, mas como ela não dissesse nada, voltou-se para sair. Então, sentiu que a esposa apoiou a mão em seu braço. Tentou não demonstrar surpresa ou prazer, ciente de que Elwy e os outros habitantes do castelo os observavam. - Eu gostaria de conhecer o restante da criadagem interna Liliana comunicou com suavidade enquanto retiravam-se da capela. - Você já conheceu – respondeu, o tom brusco tentando ocultar sua confusão. Se ela planejasse voltar para o solar do pai não demonstraria interesse pelos,criados de sua nova casa. –Sara e Maude, que veio com você. Não posso abrir mão de mais ninguém, por ora. Liliana franziu ligeiramente a testa. - Não é suficiente. Kyryan não desejava discutir em público, por isso não retrucou e encaminhou os passos na direção do pomar. Percebeu-lhe a resistência, mas não se deteve. Mott trotava atrás do casal. As pessoas se dispersaram, em busca de seus afazeres, e não, tardou para que Kyryan e a esposa se vissem sozinhos debaixo de uma imensa macieira. O aroma de maçãs pairava no ar e o chão estava forrado de frutas caídas do pé.
  34. 34. Liliana retirou a mão do braço dele. - Preciso de mais criados e de dinheiro para comprar tapeçarias e móveis para o salão. - Não - Kyryan objetou. - Não posso me dar ao luxo de gastar dinheiro com coisas supérfluas. Ele fixou o olhar na esposa. Ao longo dos anos, desenvolvera uma expressão inescrutável, que servia para confundir o adversário antes de uma luta. Seu semblante agora mostrava-se igualmente insondável. Com Liliana, ocorria o oposto. De braços cruzados, fitava-o sem o menor sinal de medo. Pelas chagas de Cristo, ele já se defrontara com aquele ar feroz antes, mas nunca num rosto feminino. - Eu preciso do dinheiro - ela repetiu, quase cuspindo as palavras. Kyryan não sabia como agir com Liliana, pois jamais encontrara uma mulher como ela. Além disso, ainda não assimilara a idéia de que a esposa não pretendia partir. Debatia-se entre a esperança e um profundo desânimo diante da impossibilidade de os dois se entenderem. Ambos não pertenciam ao mesmo mundo nem falavam a mesma língua. - Terei que usar todo o ouro e prata que possuímos para os reparos nos prédios e no moinho e também para estocar alimentos para o inverno - ele, por fim explicou. - Neste caso, recorrerei às moedas que meu pai me deu. - Tudo agora pertence a mim. - O quê? - Como seu marido, os seus bens e o seu dinheiro... - Existe uma reserva só minha! É o que consta no contrato de casamento. Com um esforço sobre-humano, ele ocultou a surpresa e as dúvidas sob uma máscara de impassibilidade. Ele havia presumido que tudo passaria para as mãos do marido após o matrimônio, mais o fato era que não entendia bem desses assuntos. Na verdade, sabia ler tanto quanto podia voar. Por isso, correu os olhos pelo contrato e assinou seu nome, única coisa que havia aprendido a escrever. ! Liliana talvez estivesse certa, mas preferia caminhar sobre carvão em brasa a pergunta-lhe. - Será que você ficou tão rico que se dá ao luxo de desperdiçar a co1heita? - A voz de elwy vinda de trás de uma árvore. - Quase me acertou o olho com esta maçã, rapaz! Você escapou de uma boa surra... - Pois tente... - Kyryan retrucou com severidade. Elwy estreitou os olhos, fitando-o com estranheza por alguns segundos. Por fim, sorriu. - Adivinhe quem veio visitá-lo! Uma voz agradável começou a entoar uma velha canção de pastores. Kyryan
  35. 35. disparou em sua direção. - Gareth! - Em carne e osso! – o jovem exc1am1ou em Gaulês, correndo para abraçá-lo. Kyryan estava genuinamente feliz por encontrar o amigo. Assim como acontecera com ele e com Elwy, Gareth também havia recebido a proposta de se tornar um escudeiro... mas a recusara. Gostava de ser livre, era o que dizia, e achava as armaduras restritivas demais. Assim, enquanto Kyryan e Elwy se dedicavam ao estudo das armas e de estilos de combate, Gareth continuou aprendendo as lições dos antigos pastores. Enquanto os amigos se aprimoravam na luta, ele remexia as tripas de ovelhas mortas para tentar descobrir o que as havia matado; - Trouxe-lhe o melhor presente de casamento que um noivo pode almejar. Da parte do barão DeLanyea... - o rapaz anunciou em tom solene. . - Mas... o barão já me havia presenteado com cinqüenta ovelhas. - Kyryan comentou, surpreso. - E ainda me enviou homens para a reconstrução do castelo. Os olhos castanhos de Gareth brilharam bem-humorados. - Sim, mas isso não conta. Diga-me, o que o barão possui de melhor? Kyryan escancarou os olhos. - Um carneiro? . - Não, meu, caro - Gareth de1iciava-se em promover, o suspense., - Um, não. Ele mandou três! Ao ver o espanto do amigo, desatou a rir. - Estou falando sério! São os três maiores carneiros que já vi. E olha que já vi muitos. Eu devia ter chegado ontem, mas... quis ficar um pouco mais na companhia dos bichinhos, entende? Elwy deu um tapa nas costas de Kyryan. - Que sorte! Teremos o melhor rebanho das redondezas, afinal! - Calma, ainda nem vimos os carneiros - Kyryan ponderou, parecendo ainda em estado de choque. Ele estava simplesmente atônito. Junto com Elwy, havia examinado os carneiros dos rebanhos da vizinhança, verificando que eram muito inferiores aos do barão. A espinha dorsal de qualquer rebanho era, sem dúvida, constituída pelos carneiros, por isso haviam chegado à triste conclusão de, que necessitariam de muitos anos para formarem um rebanho de que se pudessem orgulhar. Esta situação, porém, agora mudaria. - Os carneiros estão aqui? -- Claro! Acha que eu vim sozinho? Venha, eu os coloquei perto do celeiro. Kyryan começou a dirigir-se para o curral onde o rebanho se abrigava. Os pedreiros e britadores que vieram do castelo do barão, interromperam o trabalho para cumprimentá-los. Os galeses que haviam trazido as ovelhas já se haviam reunido no curral. Mott latia e saltava conto se fosse um filhote... ou como se estivesse de volta a Gales. O cachorro de Gareth, um animal já velho, observava as piruetas de Mott com uma expressão que se assemelhava ao desdém.
  36. 36. - O barão lamentou profundamente não poder vir pessoalmente – Gareth comentou. – Também, aonde ele poderia ir com uma perna quebrada? . Kyryan franziu as sobrancelhas. - Quebrada? O que aconteceu? - Caiu do cavalo quando caçava raposas, pobre homem. Enviou-lhe lembranças e votos de felicidade. Kyryan balançou a cabeça, refletindo que precisaria de todos os votos do mundo no que se reteria ao seu casamento. - Quando você partirá? - Não partirei... isto é, se me aceitar aqui. O barão pensou que você talvez, necessitasse da ajuda de um verdadeiro mestre, como eu para formar seu rebanho. - Até parece que eu não entendo de carneiros... - Kyryan protestou, fingindo-se zangado. Na verdade, estava encantado, demais com a presença do amigo e com o presente para ofender-se com a aparente falta de confiança do barão em seus talentos como pastor. - Bem, um lorde sempre sabe o que faz não acha? Há muito mais para você se preocupar, além de ovelhas. Como eu não tinha família, resolvi vir para o sul. Kyryan suspirou. Naquele instante, trocaria tudo o que havia obtido desde que deixara sua terra natal para voltar à vida simples de pastor. - O barão não ficou aborrecido por perder você? - Ah, não. Eu treinei o seu primo, Iowerth. Ele é meio louco, como todos os Morgan... - - Kyryan deu-lhe um soco de brincadeira no queixo e Gareth sorriu antes de prosseguir: - Mas é habilidoso e aprendeu depressa. Além disso, o barão sabe que, se precisar de mim, é só mandar me chamar. Tomando a balançar a cabeça, Kyryan expressou sua aprovação. Com três carneiros de DeLanyea, cinqüenta vigorosas ovelhas galesas e Gareth cuidando do rebanho, podia considerar-se um homem verdadeiramente afortunado. Bem, quase afortunado, pensou, ao ver Maude correndo pelo pátio para encher o balde com água. Talvez ainda houvesse tempo para ajeitar as coisas com Liliana, se ela concordasse. - Você não vai convidar o homem para entrar? - Elwy indagou. - Ele gostaria de conhecer sua esposa - acrescentou, piscando o olho. - Claro! Por favor, Gareth, vocês todos também. Vamos entrar e comer. ! Quando entraram no salão, Kyryan mal pôde acreditar nos próprios olhos. Havia mesas montadas sobre cavaletes dispostas ao longo da parede, e uma delas, a mais próxima do biombo, fora armada sobre um pequeno estrado, de forma a sobressair-se das demais, e forrada com uma fina toalha de linho bordada. Padre Alphonse já se acomodara ali, bem como alguns dos trabalhadores. Uma profusão de travessas com alimentos variados fumegava sobre as mesas. Liliana ergueu-se da cadeira para receber os recém-chegados. Estava adorável
  37. 37. num vestido verde que lhe realçava, a cor dos olhos e a curva dos quadris. Pousou um olhar crítico no marido e este, de súbito, lembrou-se que trajava uma túnica surrada; perfeitamente adequada para lidar com os animais do estábulo, mas imprópria para o almoço, na opinião da mulher. Na verdade, porém, Liliana maravilhava-se com a nobreza do porte de Kyryan, a despeito dos trapos que lhe cobriam o corpo. Então recordou-se de sua nudez, vislumbrada na penumbra do quarto, e sentiu o rosto incendiar-se de rubor e o coração disparar no peito . . - Este é Gareth - Kyryan apresentou-lhe, sentando-se ao lado dela. - Ele é pastor - informou em tom de provocação, como se a desafiasse a esboçar qualquer protesto pela companhia inferior. Todavia, Liliana inc1inou a cabeça com graciosidade e sorriu para o convidado. . - Seja muito bem-vindo a esta casa, Gareth. Maude, sentada numa das mesas baixas, a mais próxima da principal, contemplava o jovem pastor despudoradamente. Bem, ao menos não estava rindo, para alívio de Liliana. De qualquer forma, ela pretendia advertir a criada para que abandonasse aqueles modos impudicos. O padre Alphonse resmungou uma bênção e todos começaram a comer. Liliana esquadrinhou o salão com o olhar atento. Muitos dos comensais tagarelavam em gaulês, inc1usive o marido, Elwy e Gareth. Os três homens, sentados perto dela, entretinham-se em animada conversa, ignorando-1he por completo a presença. Ela franziu a testa ao curvar-se para a frente, para observar Gareth. Ele era mais ou menos da mesma idade que o marido e Elwy, mas nem de longe tão bonito quanto Kyryan. O rapaz não parecia muito à vontade e falava pouco. Era compreensível, pois dificilmente um pastor estaria habituado a sentar-se a uma mesa sofisticada como aquela. - Gareth, espero que tenha feito uma boa viagem - ela comentou com polidez. A conversação dos homens interrompeu-se, Kyryan voltou-se para fitá-la com a mesma expressão inescrutável que vira no pomar. Era terrível, pois não tinha como saber o que ele estava pensando. - Gareth só fala Gaulês – Kyryan informou com aspereza. Liliana tentou conter o rubor que lhe queimava as faces. - Oh, desculpe, mas ninguém me avisou - sorriu com doçura. - Terei que aprender seu idioma, como aprendi Saxão e Latim, para comunicar- me com você e seus amigos. A expressão de Kyryan transformou-se, e Liliana depreendeu que ele finalmente compreendera o quanto a desagradava ser excluída. - Não imaginei que uma dama da mais alta nobreza se interessasse por conversas acerca de moscas-varejeiras e rins de ovelhas - Kyryan replicou com frieza.
  38. 38. - Mas eu pedirei a Gareth pata lhe contar tudo a respeito, depois que você aprender nossa língua. Antes que Liliana pudesse retrucar, ele empurrou a cadeira para trás. - Nós agora iremos para a pastagem. Estaremos de volta para a ceia. Os aldeões só deverão chegar depois da refeição. Se realmente deseja pagar por mais criados, poderá escolhê-los nessa oportunidade. ! CINCO ! Kyryan deteve-se no canto do lamacento pátio perguntando-se onde estaria Liliana. Os aldeões chegaram havia horas e ele já tinha até terminado de ouvir seus juramentos de lealdade. Elwy lhe dissera que o vilarejo crescia a olhos visto desde que tomara posse do castelo. O que era muito bom. Quanto maior a população, maior seria a arrecadação e mais numerosa a mão-de-obra necessária para a restauração do solar. Todas aquelas pessoas que circulavam a passos lentos pelo pátio estavam começando a impacientar-se. Kyryan queria que eles ao menos vissem a nova senhora, a mulher que tanto insistira que precisava de mais criados, mas que desaparecera no melhor momento para consegui-los. Elwy veio em sua direção. - Pretende ficar aqui para sempre, rapaz? Temos muito trabalho a fazer. - Estamos aguardando a minha esposa. Elwy, notando os lábios contraídos do amigo, sabiamente retirou-se sem replicar. Kyryan cruzou os braços, depois descruzou-os, tentando disfarçar a ansiedade. Os aldeãos observavam-no expectantes. Seria aquilo algum “joguinho de salão” de Liliana para se divertir às custas dele na frente de todos? Ou teria ela finalmente compreendido que eles tinham outras prioridades e desistiu de contratar serviçais desnecessários? Ou, talvez, a orgulhosa filha de lorde Trevelyan não dispusesse de dinheiro suficiente para tais extravagâncias. De algum modo, porém, duvidava dessa hipótese. O castelo do sogro era bem cuidado e farto, com certeza ele providenciara para que sua herdeira não sofresse qualquer tipo de privação. O dote suntuoso era prova disso. Sua expressão carrancuda transformou-se num sorriso astuto. Se Liliana não chegasse logo, ele mesmo escolheria alguns criados. Assim, mostraria que não só pretendia prover-lhe a devida assistência, mas também que não era avarento. Nesse instante, todavia, Liliana apareceu no pátio, entrando pelo portão principal na companhia de padre Alphonse. Quando ela se aproximou, Kyryan observou com tranqüilidade. - Imaginei que você tivesse assuntos importantes a tratar com o reverendo, por
  39. 39. isso todos a aguardávamos. A esposa brindou-o com um sorriso doce. - A paciência é uma das virtudes mais apreciáveis, meu caro marido. Liliana contemplava os aldeões, pensativa, enquanto Kyryan a apresentava. Não havia muitos, considerando o porte da propriedade. O padre Alphonse lhe havia feito a gentileza de guiá-la pelo vilarejo e contara-lhe tudo o que conhecia- ou presumia – a respeito de cada um de seus moradores. Preocupavam-no sobremaneira os novos habitantes que chegavam diariamente. E ninguém sabe nada sobre essa gente, milady. Ou quase nada...", ele comentara. O pároco receava, também, os malfeitores gauleses que, pelo que se dizia, agora infestavam as florestas. Liliana, contudo, descartara a maior parte dos receios de padre Alphonse. O castelo necessitava de mais serviçais para darem conta de todo o trabalho que havia para realizar. Quanto aos fora-da-lei, só esperava que fossem embora para outro lugar o mais rápido possível, se é que eles estavam mesmo na região. Tudo o que ouvira, até o momento, não passava de mexerico. O que a interessava de verdade era conhecer os a1deões, não apenas para escolher os melhores criados, mas também para descobrir quanto dinheiro teria que desembolsar em donativos. Seu pai lhe presenteara uma soma considerável para uso pessoal, todavia, já que teria que gastá- la com alimento e roupas para os servos, além das despesas essenciais para cercar-se de conforto, toda a cautela seria insuficiente. Liliana correu os olhos pela pequena multidão de servos, embora já houvesse selecionado quem tomaria por criados. Nenhuma daquelas garotas bonitas e tagarelas perto do poço. Elas passariam o tempo flertando com os rapazes e mexericando em vez de trabalhar. ! Nenhuma das mulheres que a fitavam sem ocultar a impaciência pois este era,um.dos defeitos que mais abominava numa serviçal. Uma jovem corpulenta e feiosa aguardava sozinha num dos cantos do pátio prestando muita atenção a tudo o que ocorria ao seu redor. O padre Alphonse, feliz demais para ser-lhe de alguma valia, já havia, mencionado essa moça, cujo nome era Jhone. Uma órfã, pelo que lhe contara, quieta, e polida, que se habituara à idéia de que jamais seria desposada por ninguém, em conseqüência de sua falta de atrativos. Era óbvio que o pároco, a despeito de seu dever de amar todas as criaturas de Deus, não conseguia entender como o bom Deus pudera conceber uma criatura tão feia quanto Jhone. Liliana, entretanto, viu em seus olhos o brilho da inteligência. Sem dúvida, jhone era uma das escolhidas. Havia duas outras moças que também dariam boas criadas. Um pouco afastadas do restante dos aldeões, quase não conversavam men olhavam para os homens. Liliana acenou para que Jhone se aproximasse.

×