Julie garwood desejo rebelde

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Julie garwood desejo rebelde

  1. 1. ! ! JULIE GARWOOD ! DESEJO REBELDE ! Tradução: Celina Falck Cook Editora Landscape ! ! ! DISPONIBILIZAÇÃO, DIGITALIZAÇÃO E REVISÃO: MARISA H !
  2. 2. ABA LATERAL DA CAPA: De todos os duques da Inglaterra, Jered Marcus Benton, duque de Bradford, era o mais abastado, o mais atraente... e o mais arrogante. E, entre todas as damas de Londres, ele escolheu apenas uma para lhe prestar a mais terna obediência: Caroline Richmond. Nativa do Estado de Boston, nos Estados Unidos, ela era extraordinariamente bela, dona de um passado misterioso e espírito fogoso. Deixou-se atrair pelo poderoso duque, sem se deixar intimidar por sua soberba, com o objetivo de conquistar o coração do rapaz de forma definitiva. Mas Bradford não era homem de se deixar dobrar por mulher alguma, até uma conspiração mortal aproximá-lo tentadoramente de Caroline. A partir daí, unidos contra um inimigo comum, eles descobrem o poder da magnífica atração que os uniu... Um desejo nascido em meio ao perigo, mas destinado a arder até transformar-se em amor! CONTRACAPA: Vozes exaltadas os detiveram e Caroline e Benjamin, bem escondidos no mato denso, podiam ver razoavelmente bem o que esta se passando. A cena que se desenrolava na estrada fez calafrios de apreensão percorrerem a espinha de Caroline. Quatro homens corpulentos, todos a cavalo, cercavam um lado de uma linda carruagem preta. Todos usavam máscaras, menos um. Seu adversário era um homem obviamente abastado, que saía lentamente da carruagem. Caroline viu sangue vermelho-vivo escorrendo sem parar entre as pernas do homem e quase soltou um grito deindignação e compaixão. __ Ele viu minha cara __ disse o homem aos seus capangas. __ Não tem jeito. Vai ter que morrer. Dois dos salteadores imediatamente concordaram, mas o terceiro hesitoy. Caroline não perdeu tempo esperando para ver qual seria a decisão dele. Mirou com todo o cuidado e apertou o gatilho. Seu tiro foi certeiro, resultado dos anos que tinha passado em companhia de quatro primos mais velhos, os quais insistiam em lhe ensinar princípios de autodefesa. A mão do líder fopi o alvo, e o uivo de dor dele, a recompensa de Caroline. Benjamin fez um ruído de aprovação com a boca entregando-lhe sua arma e
  3. 3. aceitando a pistola vazia. Caroline voltou a atirar, ferindo o salteador à esquerda do líder. Copyright© 1986 by Julie Garwood CAPA: Daniel Rampazzo (Casa de Ideias) PROJETO GRÁFICO: Genilâo Santana REVISÃO: Monalisa Neves Cláudia Cantarin Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Garwood. Julie Desejo rebelde / Julie Garwood; tradução Ceíma Falck-Cook — São Paulo: Editora Landscape, 2008. Título original: Rebellious desire ISBN: 978-85-7775-058-0 I. Romance norte-americano I. Título. I. Romance : Literatura norte-americana 813 2008 Direitos para a Língua Portuguesa EDITORA LANDSCAPE Rua Ministro Nelson Hungria, 239 — cj 10 Fone/Fax (II) 3758-4422 atendimento @ editoralandscape.com.br www.editoralandscape.com.br ! ! !
  4. 4. ! Para Gerry, com amor. ! ! PRÓLOGO INGLATERRA, 1788 VOZES ALTERCANDO ZANGADAS DESPERTARAM A CRIANÇA. Ela sentou-se na cama e esfregou os olhos, para espantar o sono. — Babá? — murmurou, no silêncio súbito. Olhou para a cadeira de balanço ao lado da lareira, do outro lado do quarto, e viu que estava vazia. Voltou a encolher-se sob o acolchoado de penas, tremendo de frio e medo. A babá não estava onde devia estar. As brasas que aos poucos morriam na lareira estavam de um laranja intenso na escuridão, fazendo a menina imaginar olhos de demónios e bruxas quando as fitava. Decidiu, então, não olhar para elas. Passou a fitar as janelas duplas, mas os olhos a seguiram, aterrorizando-a ao pro-jetar sombras fantasmagóricas de gigantes e monstros nas janelas, dando vida aos galhos desprovidos de folhas que roçavam as vidraças. — Babá? — repetiu a pequena, baixinho, já à beira das lágrimas. Ouviu a voz de seu pai. Ele gritava, e, embora parecesse ríspido e inflexível, a menina imediatamente deixou de sentir medo. Ela não estava só. O pai estava por perto, e ela sentiu-se segura. Agora que se acalmara, ficou curiosa. Já morava naquela casa fazia um mês e até aquele momento não tinha visto nenhum visitante. O pai dela
  5. 5. estava gritando com alguém, e a menina queria ver e ouvir o que estava acontecendo. Quando chegou ao patamar das escadas, deteve-se. Tinha ouvido a voz de outro homem. O estranho tinha começado a berrar, arrotando insultos ruidosamente, e fazendo os olhos azuis da menina arregalarem de surpresa e medo. Ela espreitou o andar de baixo, oculta pela balaustrada, e viu o pai de frente para o estranho. De onde estava, no alto da escada, enxergou outra silhueta, parcialmente escondida pelas sombras do vestíbulo. — Recebeste as advertências, Braxton! - - berrou o estranho em
 tom gutural. — Fomos regiamente recompensados para garantir que
 não causes mais tumulto. O estranho empunhava uma pistola muito parecida com a que seu pai costumava trazer consigo para sua própria proteção. e a menina viu que ele estava apontando a arma para o seu paizinho. Começou então a descer a escadaria curva, com a intenção de correr até seu pai para ele acalmá-la e lhe dizer que tudo terminaria bem. Quando chegou ao último degrau, parou. Diante dos seus olhos, seu pai atacou o estranho e o fez soltar a pistola, que caiu fora do seu alcance. A arma aterrissou com estardalhaço aos pés da garotinha. Das sombras, o outro apareceu. — Perkins lhe envia seus cumprimentos — disse ele, ríspido. —
 Também a mensagem de que não deves te preocupar com a menina. Ele
 vai vendê-la por um bom preço. A menina então começou a tremer. Não conseguia olhar para o homem que estava falando. Sabia que se olhasse veria os olhos do demónio, alaranjados. O terror a dominou. Ela sentia o mal cercando-a por todos os lados, sentia o gosto e o cheiro dele e, se ousasse olhar, sabia que ele a cegaria. O homem que a menina pensou ser o próprio capeta ocultou-se nas
  6. 6. sombras justamente quando o outro atacou o seu pai e lhe deu um empurrão violento. — Com a garganta cortada, não vais mais poder fazer discursos
 - disse ele, soltando uma risada maldosa. O pai da menina caiu de joelhos, e ao tentar levantar-se surgiu uma faca nas rnãos do atacante. L ma gargalhada detestável e terrível saturou o vestíbulo, ecoando pelas paredes como cem fantasmas cegos soltando gritos estridentes entre si. O homem passou a faca de uma das mãos para a outra, e depois para a primeira mão de novo, andando vagarosamente em torno do pai da garotinha. — Espera aí, papai, vou te ajudar — disse a menininha em voz
 trémula, estendendo a mão para pegar a pistola. Era pesada e fria como
 se tivesse caído sobre a neve, e ela ouviu um estalido quando um de seus
 dedinhos rechonchudos deslizou pelo círculo debaixo dela. Com braços retesados, bem estendidos, as mãos trémulas de medo, ela apontou a arma mais ou menos para o lugar em que tinha visto os dois homens lutando. Vagarosamente, começou a andar na direção do pai, para lhe dar a pistola, mas parou de repente ao ver o estranho meter a faca longa e curva no ombro do pai. Aí a menina gritou de desespero. —Papai! Eu vou te salvar, paizinho! — O soluço da menininha,
 cheia de terror e desespero, penetrou entre os grunhidos ásperos dos dois
 combatentes. O estranho que antes estava oculto pelas trevas correu para
 a frente, para participar da cena. A luta cessou, e os três olharam incrédu
 los para a menininha de quatro anos que apontava a pistola para eles.
  7. 7. —Não! — gritou o demónio. Tinha parado de rir. —Foge, Caroline, foge, minha filha, foge. Mas já era tarde. A criança tropeçou na bainha da camisola ao correr para o pai. Instintivamente, pressionou o gatilho da pistola ao cair, enquanto tentava evitar a queda, e depois fechou os olhos, ao ouvir a explosão que reverberou de maneira tão obscena quanto o riso do demónio por todo o vestíbulo. A garotinha abriu os olhos e viu o que tinha feito. E depois não viu mais nada. ! ! CAPÍTULO I INGLATERRA, 1802 Tiros estilhaçaram o silêncio, perturbando a tranquila viagem pelo interior da Inglaterra. Caroline Mary Richmond, sua prima Charity e o negro que as acompanhava, Benjamin, ouviram o barulho no mesmo instante. Charity achou que era uma trovoada e olhou pela janela. Franziu a testa, confusa, pois o céu estava tão límpido e azul quanto no mais belo dia de outono. Não havia uma única nuvem negra à vista. Estava para fazer um comentário sobre o assunto, quando a prima agarrou-a pelos ombros e empurrou-a para o chão da carruagem de aluguel. Caroline certificou-se de que a prima estava bem protegida, depois
  8. 8. tirou uma pistola prateada com cabo de pérola da sua bolsa. Apoiou-se sobre as costas da prima quando o veículo parou de repente, ao descrever a curva da estrada. —Caroline, que diabo pensas que estás fazendo? — A pergunta,
 em tom ríspido, saiu abafada, vinda do chão. —Aquilo foram tiros — respondeu ela. Benjamin, no banco em frente à sua senhora, empunhando sua própria arma, cautelosamente espreitou por sua janela aberta. —Parece uma emboscada, logo à nossa frente! — gritou o co
 cheiro, com um forte sotaque irlandês. — Melhor nos escondermos no
 mato até eles irem embora — aconselhou, descendo depressa da boleia
 e passando correndo pela janela. —Viste alguma coisa? — indagou Caroline. —Só o cocheiro se escondendo ali naqueles arbustos — respondeu
 o negro, pelo seu tom obviamente desaprovando a atitude do rapaz. —Não estou vendo nada — comentou Charity, frustrada. —
 Caroline, por favor, sai de cima de mim. Meu vestido vai ficar cheio de
 pegadas nas costas. Ela esforçou-se para sentar-se, finalmente conseguindo ficar de joelhos. Sua touca pendia-lhe do pescoço, emaranhada nos cachos da abundante cabeleira loura, e em abundantes fitas rosas e amarelas. Os óculos de armação metálica estavam enviesados sobre seu narizinho delicado, e ela semicerrava os olhos, procurando concentrar-se enquanto tentava se recompor. — Francamente, Caroline, creio que não precisarias ter tanto zelo

  9. 9. assim por proteger-me — declarou, apressadamente. — Ai, meu Deus,
 perdi uma das minhas lentes... — acrescentou, com um gemido. — Pro
 vavelmente caiu no meio das pregas do vestido. Acha que são salteadores,
 que estão atacando algum viajante desprevenido? Caroline concentrou-se no último comentário de Charity. — Pelo número de tiros e pela reação do nosso cocheiro, imagino
 que sim — respondeu. Sua voz soou baixa e tranquila, uma reação
 instintiva à tagarelice nervosa de Charity. — Benjamin, por favor, vá
 acalmar os cavalos. Se eles não se espantarem, podemos avançar e ofe
 recer ajuda. Benjamin concordou, sem nada dizer, e abriu a porta da carruagem. Seu peso considerável balançou o veículo quando ele se levantou, e o negro precisou abaixar os ombros largos para sair pela porta de madeira. Em vez de correr para a frente, onde os cavalos estavam atrelados, foi para a traseira, onde os dois cavalos árabes de Caroline estavam amarrados. Os animais haviam sido importados de Boston, com os três, e eram presentes para o pai de Caroline, o conde de Braxton. O garanhão estava assustado, e a égua também, mas Benjamin. falando com eles baixinho no dialeto africano musical que apenas Caroline compreendia totalmente, tranquilizou os animais de imediato. Depois, soltou-os e os levou até a lateral da carruagem. —Espera aqui, Charity — ordenou Caroline. — E não botes a
 cabeça para fora. —Toma cuidado, sim? — recomendou Charity, voltando a sentar-
 se no banco do veículo. Imediatamente meteu a cabeça pela janela, fin
 gindo que não tinha ouvido a ordem de Caroline para ter cuidado, e viu
 Benjamm ajudando-a a montar no garanhão. — Benjamin, tu
  10. 10. também,
 cuidado — gritou Charity quando o homenzarrão montou na égua.. Caroline foi na frente, passando entre as árvores, com a intenção de abordar os salteadores pelas costas, para contar com o elemento surpresa em seu favor. Pelo número de tiros, deviam ser quatro, talvez cinco os bandoleiros, e ela não tinha a menor intenção de se ver no meio de um bando de foras-da-lei estando em condições de inferioridade numérica. Os galhos batiam na sua touca azul com violência, e ela resolveu retirá-la de um só golpe, jogando-a no chão. Sua espessa cabeleira negra, da cor da meia-noíte, soltou-se dos grampos ineficientes e espalhou-se pelos seus ombros, os cachos rebeldes dançando ao redor do seu rosto. Vozes exaltadas os detiveram, e Caroline e Benjamin, bem escon- didos no mato denso, podiam ver razoavelmente bem o que estava se passando. A cena que se desenrolava na estrada fez calafrios de apreensão percorrerem a espinha de Caroline. Quatro homens corpulentos, todos a cavalo, cercavam um lado de uma linda carruagem preta. Todos usavam máscaras, menos um. Seu adversário era um homem obviamente abastado, que estava saindo lentamente da carruagem. Caroline viu sangue vermelho-vivo escorrendo sem parar entre as pernas do homem e quase soltou um grito de indignação e compaixão. O cavalheiro ferido era louro e belo, mas seu rosto estava branco como giz, todo crispado de dor. Caroline viu-o encostar-se na carruagem e enfrentar os assaltantes. Notou a arrogância e o desdém no seu olhar enquanto ele examinava seus captores, e aí viu seus olhos arregalarem de repente. A arrogância desapareceu, substituída por puro terror. Caroline viu logo qual era o motivo da mudança súbita no comportamento do homem. O assaltante sem máscara, obviamente líder do grupo, pelo modo como os outros o olhavam, erguia vagarosamen a pistola. O bandido, sem dúvida,
  11. 11. estava para cometer um homicídio sangue-frio. — Ele viu a minha cara — disse o homem aos seus capangas. - Não tem jeito. Vai ter que morrer. Dois dos salteadores imediatamente concordaram, mas o terc;. hesitou. Caroline não perdeu tempo esperando para ver qual seria i : cisão dele. Mirou com todo o cuidado e apertou o gatilho. Seu tiro foí certeiro, resultado dos anos que tinha passado na companhia de quan primos mais velhos, os quais insistiam em lhe ensinar princípios de a todefesa. A mão do líder foi o alvo, e o uivo de dor dele, a recompensa de Caroline. Benjamin fez um ruído de aprovação com a boca, entregando-lhe sua arma e aceitando a pistola vazia. Caroline voltou a atirar, ferindo o salteador à esquerda do líder. E foi aí que terminou o assalto. Os bandoleiros, soltando impropé rios e ameaças, dispararam estrada abaixo, produzindo um estardalhaço. semelhante a uma trovoada. Caroline aguardou até os sons das patas dos cavalos sumirem aí manejou as rédeas, instigando o cavalo para que seguisse em frente. Quando chegou ao ponto em que estava o cavalheiro, desmontou com ligeireza. — Eles provavelmente não voltarão — disse, baixinho. Ainda estava de arma na mão, mas abaixou o cano quando o cavalheiro recuou um passo. O homem vagarosamente recuperou-se. Os seus olhos azuis incrédulos, um pouco mais escuros que os de Caroline, fitaram a moça compreendendo tudo de repente. — Foste tu quem atiraste neles? Tu atiraste... O pobre homem não devia estar encontrando palavras para arrematar seu pensamento. O que se passara obviamente tinha sido demais para ele. — Sim, fui eu. E o Benjamin — acrescentou, indicando o gigante
  12. 12. ao seu lado — me ajudou. O cavalheiro conseguiu por fim tirar os olhos de Caroline e espiar por cima da cabeça dela, vendo o seu amigo. Sua reação ao negro preocupou Caroline. Ele deu a impressão de que ia desmaiar. Parecia meio desorientado, mas Caroline achou que era por medo e pela dor do ferimento que ele estava custando a entender tudo. — Se eu não tivesse usado minhas armas, estarias morto. Depois dessa declaração bastante lógica do acontecido, Caroline virou-se para Benjamin e entregou-lhe as rédeas do seu garanhão. — Volta até a carruagem e conta a Charity o que se passou. Ela deve estar morta de preocupação a esta altura. Benjamin concordou e começou a afastar-se. — Traz a pólvora, por via das dúvidas — gritou Caroline, ainda, —, e a mochila de remédios da Charity. Então voltou-se para o estranho e perguntou: — Podes voltar para dentro da tua carruagem'? Vais sentir-te mais confortável enquanto cuido do teu ferimento. O homem concordou, e vagarosamente subiu os degraus e entrou na carruagem. Quase perdeu o equilíbrio e caiu para trás, mas Caroline o seguia, e ajudou-o a equilibrar-se, pondo-lhe as mãos nas costas. Quando ele já estava sentado no banco acolchoado cor de vinho, Caroline ajoelhou-se no piso, entre as pernas abertas dele. Viu-se subi- tamente envergonhada, pois o ferimento se situava em um lugar bastante inconveniente, e sentiu as faces ruborizarem diante da posição intima em que se encontrava. Hesitou, pensando no que devia fazer a seguir, até que um novo rio de sangue empapou os calções de camurça do homem. — Mas que coisa mais constrangedora — murmurou ele. Sua voz refletia mais sofrimento do que vergonha, e Caroline reagiu com pura comiseração.
  13. 13. O ferimento era exatamente entre as pernas dele, na parte interna da coxa esquerda. —Tiveste muita sorte — murmurou Caroline. — O tiro foi de raspão. Se me deres licença, vou rasgar só um pouquinho a camurça... —Vais arruinar minhas calças! — O homem parecia ter ficado indignado diante da sugestão de Caroline, e ela endireitou o tronco, para poder olhar bem para a cara dele. —Já bastam minhas botas! Olhai o estado das minhas botas! Ele parecia, segundo a avaliação de Caroline, estar a ponto de um ataque histérico. — Tudo vai dar certo — disse ela, baixinho. — Podes, por favor dar-me permissão para fazer só um cortezmho de nada nas tuas calças? O cavalheiro inspirou profundamente, revirou os olhos para o e concedeu permissão para Caroline prosseguir, com uma vénia de quem está concordando contra a vontade. — Se não há outro jeito... — disse, resignado. Caroline, então, depois de assentir, tirou um pequeno punhal onde o escondia, acima do tornozelo. O cavalheiro assistiu à manobra dela e conseguiu sorrir pela primeira vez. —Sempre viajas assim bem preparada, madame? —No lugar de onde viemos, viajar exige que tomemos todas as precauções — explicou Caroline. Foi uma dificuldade imensa meter a ponta da lâmina sob o couro, de camurça colado no corpo do homem. As calças pareciam ter sido perfeitamente moldadas à pele dele, e Caroline não pôde deixar de pensar que o simples ato de sentar-se devia ser terrivelmente incómodo para ele. Ela trabalhou com diligência até finalmente conseguir cortar o couro da costura
  14. 14. entrepernas, e depois afastou bem o couro, para a carne rósea ficar bem exposta. O cavalheiro, percebendo o sotaque diferente da bela mulher que tinha ajoelhada diante de si, reconheceu o modo de falar colonial sua voz rouca. — Ah, com que então, és das Colónias! Um lugar um tanto bárbaro, segundo me disseram — e soltou um gritinho involuntário quando Caroline começou a examinar as bordas do ferimento, prosseguindo depois: — Não admira que tragas contigo um arsenal. Caroline ergueu os olhos para o estranho, respondendo, sem conseguir esconder a surpresa: —Sim, sou das Colónias, não nego, mas não é por isso que porto armas, senhor. Não, de jeito nenhum — acrescentou, sacudindo vigorosamente a cabeça. — Acabo de vir de Londres. —Londres? — O estranho voltou a mostrar-se confuso. —Deveras. Já ouvimos falar dos crimes que ocorrem por aqui. Ora, inúmeras notícias de assassinatos e assaltos que ocorrem aqui já chegaram até Boston. É um covil de decadência e corrupção, não é? Minhã prima e eu juramos que tomaríamos todos os cuidados possíveis. O
 que, aliás, foi excelente, visto que testemunhamos esta emboscada logo no primeiro dia após nossa chegada. —Ah, mas já ouvi as mesmas histórias sobre as Colónias - respondeu o cavalheiro, abafando uma risada. — Londres é um lugar muito mais civilizado, minha prezada e equivocada senhora! — O tom do homem pareceu condescendente demais, na opinião de Caroline. Mas, estranhamente, ela não se deixou irritar por ele. —Estás defendendo tua pátria, o que é louvável da tua parte — respondeu a moça, com um suspiro. E voltou a atenção para a
  15. 15. perna do homem antes que ele pudesse encontrar uma resposta adequada, acrescentando: — Podes, por favor, me dar essa tua gravata? —Como foi que disse? — respondeu o estranho. Estava mordendo o lábio inferior entre cada palavra cuidadosamente pronunciada, e Caroline deduziu que a dor estava aumentando. —Preciso de alguma coisa para estancar essa hemorragia — ex- plicou Caroline. —Se alguém te ouvisse falar assim, eu sofreria uma humilhação acima de qualquer... tomar um tiro assim, nesse lugar inconveniente, ser socorrido por uma dama, e ainda por cima dar- lhe meu próprio plastrão para... Meu Deus, é demais, demais! —Não precisas ter receio de que eu vá inutilizar teu plastrão — acalmou-o Caroline, num tom que usava para tranquilizar criancinhas, — Olha, vou usar um pedaço da minha anágua. O cavalheiro ainda retinha um olhar meio desvairado e continuou a proteger seu precioso plastrão das mãos dela. Caroline obrigou-se a continuar procurando mostrar-se compreensiva: — E dou-lhe minha palavra de que não revelarei a ninguém este incidente tão escabroso. Nem mesmo sei vosso nome, ora! Muito simples, não vês? Daqui por diante, eu o chamarei... de Jorge, como Jorge, o vosso rei. Não é perfeitamente aceitável? O olhar desvairado nos olhos do homem intensificou-se e Caroline entendeu que não era aceitável coisa nenhuma. Reâetm um momeia( sobre aquilo e deduziu o motivo dessa nova irritação dele. — Naturalmente, como vosso rei não anda bem de saúde, talvez um outro nome seja mais adequado. Smith, por exemplo. Que tal Harold Smith? O homem concordou e soltou um longo suspiro.
  16. 16. — Otimo — disse Caroline. Deu um tapinha carinhoso nas rótulas do homem e saiu depressa da carruagem; depois curvou-se e começou a rasgar uma faixa da beirada da anágua. O som de cavalo e cavaleiro aproximando-se rapidamente assustou Caroline. Ela ficou paralisada ao ver que o tropel provinha do norte, a direção oposta àquela da qual Benjamin devia vir da carruagem alugada Seria um dos bandidos voltando? — Dá-me a minha pistola, sr. Smith — exigiu ela, enquanto recolocava depressa o punhal no seu esconderijo e jogava a faixa de anágua pela janela aberta da carruagem. — Mas está vazia — protestou o homem bem alto, apavorado. Caroline sentiu o mesmo pânico tentar apoderar-se dela. Procurou evitar ceder ao impulso de apanhar as saias e correr para pedir ajuda, Não podia obedecer assim a um impulso de tamanha covardia, deixaria aquele homem ferido sozinho, sem proteção. — Pode ser que a pistola esteja vazia, mas só nós sabemos disso — insistiu Caroline, simulando valentia. Recebeu a arma pela janela aberta suspirou profundamente, para acalmar-se e mentalmente rezou para que Benjamin também tivesse ouvido essa nova ameaça aproximando-se. Meu Deus, se ao menos suas mãos parassem de tremer tanto! Do outro lado da curva, cavalo e cavaleiro finalmente surgiram. Caroline concentrou-se no animal, um gigantesco corcel pelo menos três mãos mais alto do que seus árabes. Pensou, a esmo, que o homem ia atropelá-la e que ia morrer e sentiu a terra tremendo sob os pés. Ergueu a pistola, segurando-a com firmeza, embora recuasse um passo, sem sentir, e, não obstante fosse perigoso, ela precisou fechar os olhos por causa da poeira levantada bem na sua cara quando o cavaleiro freou o corcel. Caroline passou uma das mãos sobre os olhos e voltou a abri-los.
  17. 17. Do outro lado do magnífico corcel, viu uma pistola reluzente diretamente apontada para ela. Tanto o animal que bufava como a pistola intimidaram-na demais, de modo que Caroline voltou a atenção para o cavaleiro. Mas arrependeu-se. O homenzarrão que a olhava intimidou-a muito mais do que o cavalo ou a pistola. Os cabelos fulvos, caindo-lhe na testa, não suavizavam as feições austeras e cinzeladas daquele homem. Seu maxilar era rígido, nitidamente definido, assim como o nariz e os olhos, de um castanho dourado que não exprimia nem uma nesga de bondade ou compreensão, e agora tentavam atravessá-la como uma lança, debilitar-lhe as boas intenções. A carranca dele era tão medonha que chegava a arder. Ela não permitiria isso, pensou. Retribuiu o olhar arrogante do homem, tentando não piscar enquanto o sustentava. Jered Marcus Benton, o quarto duque de Bradford, não estava con- seguindo acreditar no que via. Tranquilizou o seu garanhão enquanto contemplava a formosíssima dama diante de si, a bela de olhos azuis que segurava uma pistola apontada direto para o seu coração. A situação em si já era incompreensível. — O que houve aqui? — quis saber ele, com tal intensidade que seu corcel começou a empinar-se ao ouvi-lo. Ele rapidamente controlou o animal, usando as coxas musculosas para neutralizar o movimento do animal. — Calma, Confiança — ordenou asperamente. Mas pareceu contradizer sua ordem firme acariciando o lado do pescoço do animal. Aquela manifestação inconsciente de afeto contrastava totalmente com a expressão brutal no seu rosto. Ele não afastava os olhos dela, e Caroline passou a desejar que um dos salteadores tivesse voltado, afinal. Já estava desconfiada, achando que o estranho iria perceber logo, logo que ela estava blefando. Onde terá se metido o Bemjamin? Caroline pensou, um tanto apavorada.
  18. 18. Não era possível que não tivesse ouvido o tropel do cavaleiro se apro- ximando. O chão ainda estava tremendo, não estava? Ou seriam suas pernas? Ela precisava se controlar, meu Deus! — Diga-me logo o que aconteceu aqui — ordenou de novo o estranho. A aspereza da voz dele surpreendeu Caroline, mas mesmo assim ela não se mexeu. Nem respondeu, temendo que seu medo se revelasse na sua voz, e ele passasse a ter essa vantagem sobre ela. Apertou ainda com mais força a pistola e tentou acalmar o coração, que batia disparado. Bradford arriscou uma olhadela rápida em torno de si. Sua carruagem predileta, emprestada a um amigo durante uma quinzena, estava a beira da estrada, com vários buracos de bala horrorosos no seu brasão. Captando um movimento dentro do veículo, reconheceu a cabeleira loura do amigo. Bradford quase soltou um suspiro de alívio. Seu amigo estava são e salvo. Entendeu, instintivamente, que a mulher que tinha de pé orgulhosamente diante de si não havia sido responsável por todo aquele prejuizo.Viu-a tremer ligeiramente e aproveitou a oportunidade. — Larga a tua arma! — Não era um pedido. O duque de Bradfoi raramente, se é que isso tinha alguma vez acontecido, solicitava alguma coisa. Ele mandava, não pedia. E sob circunstâncias normais, sempre recebia o que queria. Bradford foi obrigado a reconhecer que as circunstâncias em que se encontrava não eram normais quando a sirigaita continuou olhando para ele sem reagir, fingindo que não tinha ouvido sua ordem. Caroline concentrou-se em tentar não tremer enquanto observava o homem corpulento que tinha acima de si, como se fosse uma nuva de tempestade. O poder envolvia-o como uma capa, e Caroline viu-sei amedrontada pela intensidade da sua reação. Ele era, afinal, apenas um homem. Ela sacudiu a cabeça e fez força para organizar os pensamentos O
  19. 19. estranho parecia-lhe arrogante e pomposo e, pelas roupas que usaiva obviamente abastado. Seu colete era cor de vinho, de estilo idêntico, casaca verde-vegetal do sr. Smith. Seus calções dourados de camurça eram também tão elegantes quanto os do outro, e igualmente colados no corpo, pois era possível ver-lhe o relevo da musculatura através do tecido. As botas de cano alto reluziam de tão bem engraxadas, e o homen com cara de desconfiado até usava o mesmo tipo de lenço no pescoço. Caroline lembrou-se de como o ferido tinha se preocupado, temendo que um de seus conhecidos soubesse do acontecido, e lembrou da promessa que lhe havia feito de não contar a ninguém o sucedido. O estranho que a fitava de maneira tão agressiva definitivamente pareceu- lhe do tipo que espalharia fofocas sem a menor dor na consciência. Era melhor livrar-se dele o mais rápido possível. —Madame, será possível que és surda? Eu já vos disse para depordes a vossa pistola. — Ele não pretendeu gritar, mas sentia-se aprisio- nado tanto pela arma dela apontada para ele como, admitia agora para si, pelos olhos dela, que o desafiavam. Eram de uma cor que ele nunca
 tinha visto. —Deponde vós a vossa — Caroline finalmente respondeu. Adorou perceber que sua voz não tinha tremido demais e achou que pareceu tão zangada quanto ele. Tinha sido uma pequena vitória, mas, ainda assim, uma vitória. As costas de Carohne estavam voltadas para a carruagem, e ela, portanto, não viu o ferido acenando para o recém-chegado, que estava tentando matá-la de medo. Bradford cumprimentou o passageiro da carruagem com uma vénia seca. Suas sobrancelhas arquearam-se interrogativamente para o amigo, e seu olhar subitamente perdeu a expressão de desconfiança. Era como se de
  20. 20. repente tivessem apagado todo um quadro-negro repleto de anotações, e Carohne viu-se desejando que a sua aura intimidadora de poder também desaparecesse depressa assim. Não houve tempo para que ela entendesse a mudança de compor- tamento do seu adversário. — Parece que chegamos a um impasse — declarou o homem, numa voz grossa e melodiosa. — Devemos atirar um no outro? Ela não achou graça. Viu os cantos da boca contraída dele er- guerem-se ligeiramente e sentiu a coluna enrijecer, reagindo ao gesto. Como ele ousava assumir assim um comportamento tão descontraído e entediado, quando ela estava quase se borrando de medo? — Podeis depor vossa arma — insistiu Caroline, baixinho. — Não vou atirar em vós. Bradford não quis saber nem da ordem, nem da promessa dela, e continuou a olhá-la com toda a tranquilidade, enquanto acariciava o pescoço do seu corcel. Era evidente que valorizava o animal, e Caroline de repente entendeu que tinha nas mãos uma nova arma. Ele, pelo visto, não ia ceder nunca. Não ia curvar-se diante mulher alguma. Bradford tinha visto sua oponente tremer um instar antes e sabia que só precisaria esperar, que ela iria desmoronar todinf Relutantemente, admirava sua coragem, uma qualidade que jamais nhã encontrado em mulheres antes, mas também achava que, corajosa ou não, ainda era apenas uma mulher e, portanto, inferior. Todas mulheres eram basicamente iguais... todas elas... — Não vou atirar em vós, mas sim no seu cavalo. O estratagema dela funcionou. O homem quase caiu da sela. — Não terias essa coragem! — urrou ele, de pura indignação. A resposta de Caroline a essa reação foi abaixar o braço para suai
  21. 21. pistola vazia apontar direto para a cabeça do imponente corcel. —Bem entre os olhos — prometeu ela. —Bradford!— A voz, vindo do interior da carruagem, fez o duque deter-se antes de obedecer ao desejo irresistível de descer do cavalo e esganar a mulher que estava à sua frente. —Sr. Smith? Conhece este homem? — Caroline gritou. Ela não tirou os olhos do estranho furioso, que estava agora apeando e recolocando, para grande satisfação dela, a pistola no coldre. Uma onda de alívio dominou-a. Não tinha sido tão difícil assim convencê-lo, afinal. Se esse inglês era um espécime típico da alta sociedade local, então Caroline admitia que suas primas tinham razão. Talvez todos eles fossem maricas. Bradford virou-se para Caroline, interrompendo-lhe os pensamentos. — Nenhum cavalheiro que se prezasse jamais ameaçaria... E aí percebeu, no instante em que fazia aquele comentário, como ele era completamente absurdo. — Eu nunca me considerei um cavalheiro, mesmo — respondeu Caroline, quando percebeu que ele não ia terminar a frase. O sr. Smith meteu a cabeça pela janela e soltou um gemido baixo quando o movimento lhe causou dor, — Essa pistola que ela está empunhando está vazia, rapaz. Não precisa ficar aí todo apoplético. Teu cavalo não corre risco algum. Na voz dele era possível perceber um certo tom de mofa, e Caroline não conseguiu conter um sorriso. Bradford ficou temporariamente distraído ao ver o lindo sorriso da moça, o brilho malicioso que surgiu nos seus olhos. — Não foi nada difícil convencer-te — comentou Caroline. E
  22. 22. imediatamente desejou não ter dito nada, pois o homem avançou para cima dela, a uma velocidade alarmante. E não estava sorrindo. Obviamente padecia de uma horrível falta de senso de humor, refletiu ela,
 recuando um passo. A carranca dele eliminou qualquer possibilidade de atração física. Isso e seu tamanho. Ele era alto demais e espadaúdo demais para o gosto dela. Era quase tão grandalhão quanto o Benjamin, que, Caroline verificou aliviada, estava se aproximando às costas do estranho, sem fazer ruído. —Terias atirado no meu cavalo, se tua pistola estivesse carregada, é? — O estranho exibia agora um tique bastante acentuado na face direita, e Caroline, abaixando a pistola, decidiu que era melhor responder. —Claro que não. Ele é lindo demais para alguém querer matá-lo. Por outro lado, o senhor... Bradford ouviu alguém pisar no cascalho atrás de si e virou-se. Deu de cara com Benjamin. Os dois homens mediram-se, avaliaram-se durante alguns instantes, e Caroline percebeu que ele não tinha se deixado intimidar pela presença do seu acompanhante. Sua reação foi apenas mostrar-se curioso, uma diferença notável em relação à reação do sr. Smith. —Podes me entregar o remédio, Benjamin? Não te incomodes com esse aí — acrescentou ela, indicando com a cabeça o homem arrogante. — Parece que é amigo do sr. Smith. —Sr. Smith? — indagou Bradford, lançando um olhar intrigado ao homem que sorria para ele pela janela da carruagem. —Ele hoje se chama Harold Smith — prosseguiu Caroline. — Não quer que eu saiba o nome verdadeiro dele, pois está em posição bastante constrangedora. Sugeri que podia chamá-lo de Jorge, o mesmo nome do teu rei, mas ele imediatamente ofendeu- se, de modo que concordamos que seu nome seria Harold.
  23. 23. Charity escolheu justamente esse momento para vir correndo pela curva da estrada, segurando a saia cor-de-rosa rodada, que estava erguida bem acima dos seus tornozelos bem torneados. Caroline achou ótima a interrupção, enquanto Bradford, de cenho franzido, olhava para ela, totalmente desconcertado. Será que todos os ingleses pareciam assim confusos o tempo todo? — Caroline! O cocheiro se recusa a sair do mato — disparou Charity quando conseguiu recuperar o fôlego. Parou de repente ao lado de Benjamin e lançou-lhe um rápido sorriso antes de olhar para Bradford e depois, atrás dele, para o homem que a olhava encantado da janela da
 carruagem. — O perigo já passou? O cavalariço prometeu que retornaria à boleia se eu voltasse e lhe dissesse que tudo estava bem. Ele me mandou aqui perguntar — explicou. — Caroline. devíamos voltar para Londres. Sei que fui eu que insisti em ir para a casa de campo do teu pai,
 mas agora vejo como minha sugestão foi tola. Prima, tinhas razão! Vamos todos ficar na casa do teu pai na cidade e mandar-lhe um recado. Charity, tagarelando sem parar, pareceu um redemoinho ambulante para Bradford. Sua atenção alternava-se de uma a outra mulher e ele achou difícil crer que as duas fossem mesmo primas. Eram completamente diferentes uma da outra, tanto na aparência como no comportamento. Charity era de baixa estatura, mais ou menos com um metro e cinquenta e cinco de altura, calculou Bradford. com cachos dourados que não paravam de mover-se e olhos esverdeados que brilhavam travessos. Caroline era uns quatro ou cinco centímetros mais alta que ela, cabelos negros e cílios espessos circundando-lhe os deslumbrantes olhos azul-claros. Ambas eram esbeltas. Chanty era graciosa; sua prima era belíssima. As diferenças não paravam na aparência. A lourinha parecia ser estouvada, e seu olhar não tinha concentração nem firmeza. Não tinha conseguido olhar direto nos olhos dele. fazendo-o deduzir que ela era
  24. 24. tímida. Caroline dava-lhe a impressão de uma autoconfiança absoluta, tendo um olhar firme e direto. Seria capaz de olhá-lo nos olhos até fazê-lo cair de joelhos, e quase tinha conseguido. As duas primas eram opostos completos, segundo Bradford constatou, opostos sedutores e misteriosos. — Sr. Smith, esta é Charity — apresentou Caroline, com um sorriso afetuoso para sua prima. Deliberadamente fingiu que não via Bradford e justificou seu deslize dizendo para si mesma que o tinha cometido porque o homem continuava de cara fechada. Charity correu até a janela da carruagem, ficou na ponta dos pés e tentou espiar o interior. —Benjamin me disse que vos feriram, não foi? Pobre homem! Estais vos sentindo melhor agora? — Ela sorriu e esperou uma resposta, enquanto o cavalheiro ferido procurava desesperadamente cobrir a coxa exposta. — Sou prima de Carohne, mas fomos criadas como irmãs praticamente desde que éramos bebés, e temos quase a mesma idade. Eu sou só seis meses mais velha que ela. — Depois dessa explicação, Charity voltou-se para sorrir para Caroline, mostrando duas covinhas iguais nas faces ao fazer isso. — Onde está o cavalariço deles? Acha que também foi se esconder no mato? Alguém devia ir procurá-lo, não? —Sim — respondeu Caroline. — Esplêndida ideia. Por que não tentas encontrá-lo com o Benjamin, enquanto termino de cuidar da perna do sr. Smith? —Ai, meu Deus, perdão pelo mau jeito! Deveríamos todos nos apresentar, embora as circunstâncias sejam estranhas e seja difícil saber exatamente como se deve proceder. —Não! — O grito tinha saído de dentro da carruagem, com uma força que quase a fez cair de lado.
  25. 25. —O sr. Smith prefere continuar incógnito — respondeu Caroline, com toda a delicadeza. — E tu deves prometer, como eu prometi, que esquecerás este incidente. — Ela puxou a prima para um canto e cochichou: — O homem está terrivelmente constrangido. Sabe como são esses ingleses... — acrescentou. Bradford, que estava ali por perto, ouviu a explicação e estava para perguntar o motivo do último comentário de Caroline, quando Charity disse: —Ele está constrangido porque foi ferido? Mas que estranho. É grave? —Não — garantiu-lhe Caroline. — A princípio pensei que fosse isso, mas foi porque ele sangrou muito, e o ferimento é em um lugar inconveniente — terminou Caroline. —Ai, ai, ai, ai, ai! — exclamou Charity, com pena. Lançou um olhar ao homem dentro da carruagem, depois se virou para Caroline. —Inconveniente, é? —E — respondeu Caroline. Sabia que a prima queria uma descrição completa, mas, por respeito ao sr, Smith, não lhe disse mais nada. — Quanto mais rápido terminarmos aqui e seguirmos caminho, melhor. —Por quê? —Porque ele está fazendo o maior drama por causa do ferimento — respondeu Caroline, deixando a prima perceber sua exasperação. Não estava contando a Charity toda a verdade, admitia consigo. Desejava ir embora depressa por causa do amigo ameaçador do sr. Smith. Quanto
 mais depressa se afastasse dele, melhor. O homem a amedrontava
  26. 26. em um nível incomum, irritante, e Caroline não estava gostando nada daquele sentimento. — Ele é um peralvilho? — perguntou Charity aos cochichos, como se isso fosse alguma doença grave. Caroline não respondeu. Fez sinal a Benjamin e depois aceitou a bolsa dos remédios que ele trouxera. Voltou a entrar na carruagem e disse ao sr. Smith: — Não te incomodes com a Charity. Ela está sem óculos, mal consegue enxergar-te, Benjamin ouviu a explicação, depois ofereceu a braço a Charity. Quando viu que ela não se apoiou nele, Benjamin agarrou-lhe o braço e vagarosamente levou-a para longe dali. Bradford ficou ouvindo a dupla, tentando imaginar quem eles seriam e o que estaria havendo. — Podes entrar, não tem importância que vejas minha desgraça— chamou o sr. Smith, dirigindo-se ao seu amigou Readford concordou
 e contornou a carruagem pelo lado oposto. — Há poucos homens nos quais eu confiaria para manter segredo sobre esse meu apuro, mas Bradford certamente é um deles — explicou ele a Caroline. Caroline não fez comentários. Viu que o ferimento havia parado de sangrar. — O senhor traz consigo alguma bebida alcoolica?__ indagou ela, sem dar a menor bola para Bradford quando ele entrou na carruagem e se sentou diante do sr. Smith. A carruagem era muito mais ampla do que o coche de aluguel de Caroline, mas, apesar disso, a perna esquerda de Bradford encostava no seu ombro, enquanto ela estava ajoelhada diante do sr. Smith. Não seria de bom- tom sugerir que ele aguardasse lá fora até ela terminar de limpar a ferida e pôr bandagens, uma vez que o sr. Smith tinha convidado o homem para
  27. 27. entrar; mesmo assim, Caroline sentiu vontade de expulsá-lo. —Um pouco de conhaque — respondeu o homem, voltando os pensamentos de Caroline para si outra vez. — Acha que uma bebida forte ajudaria? — indagou, ao tirar uma garrafa cinza do bolso do peito. —Se restar ainda um pouco — respondeu Caroline, — vou der- ramar umas gotas no ferimento antes de atá-lo. Mamãe diz que o álcool protege contra infecções — explicou. Não acrescentou que a mãe dela não tinha certeza, se isso era verdade ou não, decretando que certamente mal não devia fazer. — Vai arder, de forma que, se sentires vontade de gritar, podes gritar, que não me incomodará. —Não vou dar um pio sequer, madame, e não é galante de vossa parte insinuar que daria — declarou o homem com ar pomposo apenas segundos antes de aquele fogo líquido tocar-lhe a pele. Ele então deixou escapar um urro de protesto a plenos pulmões e quase caiu do banco. Bradford, sentindo-se completamente deslocado, fez uma careta, solidarizando-se com a dor do amigo. Caroline apanhou um pequeno pote de pó amarelo que cheirava a chuva caída há certo tempo e folhas úmidas e polvilhou liberalmente o ferimento com ele. Depois pegou a longa faixa rasgada da anágua e trabalhou o mais rápido possível. — O remédio vai anestesiar o ferimento, e também cicatrizá-lo — informou com delicadeza. Bradford sentiu que estava sendo vítima da voz sensual e rouca da moça. Pegou-se desejando poder trocar de lugar com o amigo, e precisou sacudir a cabeça para livrar-se dessa ideia ridícula. O que estava acontecendo com ele? Sentia-se enfeitiçado e confuso. Era uma reação muito estranha a
  28. 28. uma mulher, que ele jamais tinha experimentado antes, e viu que não estava gostando nada daquilo. Ela o descontrolava totalmente. Essa reação assim tão intensa àquela rapariga de cabelos negros quase o amedrontava, e Bradford sentiu-se de repente como se fosse o estudante desajeitado que tinha sido muitos anos antes, sem saber como proceder. — Eu me comportei como um covarde, berrando daquele jeito — murmurou o sr. Smith. Enxugou a testa com urn lencinho bordado e abaixou os olhos. — Sua mãe é uma bárbara, usando esses métodos de tratamento assim tão cruéis. Bradford, vendo seu amigo assim angustiado, entendeu que era di- fícil para ele admitir um defeito, mas concluiu que, se tentasse dissuadi-lo de sua opinião, só pioraria as coisas. —Mas sr. Smith, mal abristes a boca — contradisse Caroline, com firmeza. Deu-lhe uns tapinhas no joelho e olhou de relance para ele. — Fostes um paciente muito valente. — E o modo como encarastes aqueles salteadores, tanta bravura! — Caroline viu que seu elogio estava
 produzindo o efeito desejado. O ar pomposo do sr. Smith estava voltando aos poucos. — Fostes corajoso, e não precisas lamentar- vos de nada. E vos perdoarei por chamar minha mãezinha de bárbara — acrescentou com um sorriso bondoso. —Fui mesmo bastante corajoso diante daqueles patifes — re- conheceu o sr. Smith. — Naturalmente, estava sozinho, e eles eram muitos, a senhora entende. —Estáveis mesmo — respondeu Caroline. — Devíeis orgulhar-vos da vossa conduta. Não concordais, sr. Bradford? —Concordo — respondeu imediatamente Bradford. muito satisfeito de ela ter resolvido afinal dirigir-lhe a palavra. O sr. Smith soltou um grunhido de prazer.
  29. 29. —O único covarde por aqui é o cocheiro irlandês que eu contratei — comentou Caroline, quando começou a enrolar a longa faixa de tecido da anágua em torno da coxa do sr. Smith. —Não gosta de irlandeses? — perguntou Bradford com voz ar- rastada. Estava curioso diante do tom veemente da voz dela. Caroline olhou-o de relance, os olhos faíscando de ódio. e Bradford viu-se perguntando-se se ela amaria com tanta intensidade quanto odiava. Aí
 tratou de afastar da cabeça mais essa ideia ridícula. —Todos os irlandeses que já conheci são uns tratantes — admitiu Caroline. — Mamãe diz que eu devia ser mais liberal no meu modo de ver o mundo, mas acho que não consigo. Ela suspirou e procurou concentrar-se nos seus deveres. — Uma vez, três irlandeses me atacaram, quando eu era bem mais nova, e se o Benjamm não tivesse me salvado, não sei o que teria acontecido. Provavelmente não estaria aqui lhes contando isso. — Acho difícil crer que alguém possa vencer-vos — comentou o sr. Smith. Aquilo parecia um cumprimento, e Caroline respondeu como se fosse. —Não sabia como me proteger naquela época. Meus primos ficaram muito revoltados com esse incidente e, desse dia em diante, revezaram-se como meus professores de defesa pessoal. —Essa mulher é um arsenal ambulante — comentou o sr. Smith para o amigo. — Diz que anda com toda essa proteção para defender-se dos criminosos de Londres. —Será que devemos discutir as diferenças entre as sofisticadas Colónias e vossa vergonhosa Londres uma vez mais, sr. Smith? — A voz de Caroline saiu com um timbre risonho. Ela estava
  30. 30. provocando o homem, mais para distraí-lo do que por qualquer outro motivo. Com gestos delicados e precisos, atou a longa faixa na coxa dele, formando várias camadas de bandagem. O sr. Smith aos poucos havia deixado de fazer caretas de dor. — Estou me sentindo consideravelmente melhor. Devo minha vida a vós, minha cara senhora. Caroline fingiu que não tinha ouvido essa declaração fervorosa, e rapidamente mudou de assunto. Cumprimentos a constrangiam, — Estarás dançando dentro de quinze dias — garantiu. — Vais aos grandes bailes da alta sociedade? Como dizem, pertenceis à nata? Essa pergunta inocente fez o sr. Smith tossir. Parecia que ele estava sufocando com alguma coisa presa na garganta. Caroline olhou-o um segundo, depois passou a olhar para Bradford. Pelo olhar dele, Bradford estava achando graça, e ela considerou que sua expressão nesse momento fazia-o parecer bonito. Pacientemente, esperou que o sr. Smith respondesse, enquanto ele, ainda tossindo e procurando recuperar o fôlego, simplesmente parecia não ser capaz disso. Bradford não era nenhum peralvilho, pensou ela, enquanto esperava a resposta. Era até meio decepcionante reconhecer isso. Não, ele não agia como o sr. Smith, de jeito nenhum. Os trajes deles eram parecidos, sim, mas Caroline seria capaz de jurar que Bradford não trazia consigo um lencinho feito de renda. Tampouco achava que a coxa dele se pareceria tanto com a bunda de um neném. Não, provavelmente era musculosa... e firme. Ele era muito mais musculoso do que o sr. Smith, também. Não tinha nem um pouco de gordura sobrando no corpo. Ela imaginava que ele poderia facilmente esmagar um adversário somente com seu peso. Como se comportaria quando estava com uma mulher? Caroline sentiu as faces ruborizarem quando essa fantasia alarmante lhe passou pela cabeça.. O que
  31. 31. estava acontecendo com ela? Tentar imaginar um homem sem roupa, ou como seria seu comportamento ao tocar uma mulher... Meu Deus, era uma coisa impensável! Bradford viu aquele lindo rosto enrubescendo e achou que ela estava pensando que o sr. Smith estava rindo dela. Imediatamente respondeu: — Pertencemos à alta sociedade, sim, mas o sr. Smith vai a muito mais bailes do que eu. — Ele não mencionou que raramente comparecia aos bailes e que considerava tudo aquilo uma mera chatice. Em vez de expressar seus verdadeiros sentimentos, Bradford indagou: — Vós mencionastes que estáveis visitando vosso pai? Morais então nas Colónias? Com vossa mãe? Bradford desejava descobrir o máximo que pudesse sobre Caroline. Ele se recusou a reconhecer sua súbita compulsão para obter tantas informações quanto pudesse e fingiu, até para si mesmo, que era apenas um interesse passageiro, nada mais. Caroline franziu o cenho. Seria falta de educação deixar de responder a perguntas educadamente formuladas, mas ela não sentia vontade alguma de contar àqueles cavalheiros nada sobre sua vida. Permaneceria em Londres durante muito pouco tempo, se nada atrapalhasse seus planos, e não queria fazer amizade com ingleses. Mesmo assim, não lhe pareceu que pudesse deixar de corresponder à expectativa no rosto dos dois homens. Ela precisava dizer alguma coisa. — Mamãe já morreu faz muitos anos — finalmente revelou. — Mudei-me para Boston quando era bem pequena. Minha tia e meu tio me criaram, e eu sempre chamei minha tia de mamãe. Ela me criou, entendeis? Era mais fácil... para eu não me sentir diferente dos outros
 — acrescentou, encolhendo os ombros de um jeito negligente. —Vais ficar muito tempo em Londres? — indagou Bradford e inclinou-se para a frente, pousando as mãos enormes nos joelhos, obviamente ansioso para ouvir a resposta.
  32. 32. —Charity gostaria de comparecer a alguns compromissos en- quanto estamos aqui — respondeu ela, evitando responder diretamente à pergunta formulada. Bradford franziu o cenho diante dessa manobra para deixar de responder à sua pergunta, mas depois disse: —Logo vai começar a temporada de bailes. Estais ansiosa por dar início a vossa aventura? — Ele procurou esconder o sarcasmo, admitindo que não queria estragar as expectativas inocentes da moça. Ela era uma mulher e, portanto, devia estar morrendo de vontade de participar de todas aquelas frivolidades. —Aventura? Não creio que considere esses bailes uma aventura. Mas tenho certeza de que Charity vai adorá-los — respondeu. Estava de cenho franzido para Bradford, e ele se deixou impressionar com a ideia de que o olhar dela, quando dirigido com tal intensidade, poderia fazer qualquer homem gaguejar e perder a sequência dos pensamentos. Naturalmente, Bradford procurou recordar-se depressa, enquanto tentava lembrar-se do que estavam falando antes, que tinha visto muita coisa nessa vida, que era muito experiente para se deixar levar pelas manhas de qualquer rapariga. Mas estava ficando cada vez mais alarmado diante daquelas suas reações indisciplinadas. Pelo amor de Deus, nunca tinha se sentido tão perturbado, tão dominado por uma mulher antes! O que diabo estaria havendo com ele? Devia ser o calor, refletiu, enquanto jurava, naquele mesmo instante, quando o olhar dos dois se encontrou, que iria descobrir tudo sobre a mulher ajoelhada diante dele. Ela irradiava inocência pura e promessas de um genuíno calor humano para um homem que já estava no frio fazia bastante tempo. O feitiço que os olhos de Bradford exerciam sobre Caroline se quebrou quando o sr. Smith pigarreou e indagou: —Não estais empolgada diante da perspectiva da chegada da
  33. 33. temporada de bailes, estais? — Ele parecia, conforme a forma de pensar de Caroline, totalmente assombrado com sua própria pergunta. —Ainda não pensei muito nela — respondeu Caroline. Ela sorriu, depois acrescentou: — Já ouvimos tantas histórias... A nata é um grupo fechado, muito reprovador, e os seus integrantes precisam comportar- se de maneira absolutamente correta. Charity está com medo de cometer algum erro que envergonhe meu pai na sua primeira noite em uma festa. Deseja comportar-se conforme as regras, como podeis compreender. A voz dela parecia tensa, e Bradford ficou ainda mais curioso. O sr. Smith comentou: — Pois eu prevejo que todos em Londres tecerão comentários a vosso respeito — disse em tom esnobe e arrogante. Ele pretendia fazer um cumprimento e ficou confuso quando Caroline concordou com uma vénia e franziu o cenho ao levantar o rosto para olhá-lo. — E disso mesmo que Charity tem medo com relação a mim. Ela teme que eu cometa alguma gafe terrível e que toda a Londres venha a tomar conhecimento dela. Raramente tomo iniciativas corretas, compreendeis? Minha mãe me chama de rebelde. Infelizmente, preciso
 reconhecer que ela tem razão. Ela fez esse comentário sobre si mesma de um jeito perfeitamente natural. —Não. Não, estais equivocada na vossa interpretação do meu comentário — declarou o sr. Smith. Ele então sacudiu o lenço no ar, como se fosse uma bandeira. — Quis dizer que a elite vai acolhê-la com prazer. Eu é que estou prevendo isso. —Muita bondade a vossa — murmurou Caroline. — Mas não tenho esperança quase nenhuma. Não importa, como vós ingleses gostais
  34. 34. de dizer, porque estou para regressar a Boston. Se o Pummer em pessoa me expulsar, isso não vai fazer diferença alguma. —Pummer; — Bradford e o sr. Smith pronunciaram esse nome ao mesmo tempo. —Plumer, ou Brummer — respondeu Caroline, dando de ombros. — sr. Smith, podeis deslocar vossa perna só um pouquinho para eu pegar essa ponta solta? Obrigada, agora posso continuar. —Quereis dizer Brummell? Beau Brummell? — perguntou Bradford, evidentemente achando graça. —Ê, esse provavelmente é o nome correto. A sra. Maybury nos disse, antes de sairmos de Boston, que esse Brummell é quem manda na nata, mas naturalmente sabeis disso. A sra. Maybury havia acabado de chegar às Colónias antes de partirmos, portanto cremos que a história que nos contou é verdadeira. —E qual foi essa história? — quis saber Bradford. —Que se o Brummell resolver vetar uma senhora, é melhor ela ir procurando um convento. Não irá encontrar nenhum par nos bailes, e retornará a casa com sua honra enxovalhada. Podeis imaginar que uma pessoa tenha tal poder? — fez essa pergunta a Bradford e olhou de relance para ele. Imediatamente desejou não ter olhado. Claro que ele podia imaginar tal poder, disse a si mesma. O homem provavelmente tinha sido o inventor dele. Suspirou, frustrada, e abaixou a cabeça. O fato de Bradford estar ali tão perto irritava-a. Ela olhou para o sr. Smith e viu que ele estava de cara amarrada, tenso. —Perdão, vossa bandagem está apertada demais? —N-não, está ótima — gaguejou o sr. Smith. —Deveis compreender que eu pessoalmente não me importo se Brummell me isolar ou não. Não creio que Londres seja o lugar
  35. 35. certo para mim. Mesmo assim, preocupo-me por Charity, temendo que sua reputação sofra a influência do meu comportamento e ela seja humilhada. Sim, eu me preocupo muito com isso. —Tenho a impressão de que Beau Brummell não irá isolar nem a vós nem a vossa prima — previu Bradford. —Vós sois bela demais para serdes rejeitada — interferiu o sr. Smith. —Ser atraente não devia interferir no processo de aceitação. E o que vai por dentro da pessoa que importa — aconselhou Caroline. —Além desse nobre fato, ouvi dizer que ele valoriza os seus cinzentos acima de qualquer outra coisa — comentou Bradford, em tom seco. —Os cinzentos? — estranhou Caroline, confusa. —Seus cavalos — respondeu Bradford. — Sem dúvida que ten- taríeis atirar neles se ele ousasse evitar que vós ou vossa prima frequentassem os bailes. Sua expressão parecia séria, mas seus olhos tinham um quê cálido e provocador. — Longe de mim! — respondeu Caroline, claramente confusa.
 Aí ele sorriu e Caroline sacudiu a cabeça. —Estais caçoando de mim — afirmou ela. — Pronto — disse, voltando-se para o sr. Smith. — Terminei. Levai este remédio convosco e mandai trocar o curativo uma vez por dia. E não permitais que ninguém vos aplique sanguessugas, por tudo quanto é mais sagrado. Já
 perdestes sangue demais. —Uma outra prática da vossa mamãe? — indagou o sr. Smith,
  36. 36. bastante desconfiado. Caroline confirmou, saindo da carruagem. Quando ficou em pé do lado de fora, voltou-se e apoiou as pernas do sr. Smith no banco em frente a ele, ao lado do corpulento Bradford. — Infelizmente, estais com a razão, sr. Smith. Vossas lindas botas estragaram-se. E vossas borlas estão cobertas de sangue. Talvez devais lavá-las com champanhe, como a sra. Maybury explicou que Brummell faz, e aí ficarão novas em folha de novo. —Mas esse é um segredo muito bem guardado — replicou o sr. Smith, indignado. —Não deve ser tão bem guardado assim — respondeu Caroline, —, pois a sra. Maybury sabia muito bem dele, e parece que vós também sabeis. — Ela não esperou uma resposta a sua afirmativa lógica e virou-se para Bradford. — Agora vais cuidar do vosso amigo? —Encontramos o cocheiro — gritou Charity, assim que Bradford confirmou para Caroline que iria cuidar do amigo, sim. — Ele está com um galo na cabeça do tamanho de uma torre de igreja, mas vem vindo aí. Caroline confirmou e despediu-se: — Bom dia para ambos. Benjamin, precisamos ir agora. O sr. Bradford cuidará do sr. Smith. O negro respondeu algo a Caroline em uma língua que Bradford ja- mais tinha ouvido antes, mas, pela forma como a jovem sorriu e balançou a cabeça afirmativamente, viu que ela entendia perfeitamente. E aí o trio se foi. Nenhum dos dois nobres disse uma palavra en- quanto viam a ninfa de cabeleira negra afastar-se, conduzindo a prima, pela estrada. O duque de Bradford saltou da carruagem para olhar mais tempo, enquanto seu amigo metia a cabeça pela janela e também observava os três se afastarem.
  37. 37. Bradford pegou-se sorrindo. A priminha de cabelos louros estava falando com Caroline, e o preto caladão, de pistola em punho, seguia atrás das duas, obviamente protegendo-as. —Meu Deus, acho que contraí a loucura do rei — declarou o ferido. — Essa rapariga vem das Colónias — acrescentou, com um certo desprezo na voz —, e mesmo assim já estou cego de paixão por ela. —Pois trata de curar-te — alertou Bradford bruscamente. — Eu a quero para mim. — Seu tom não insinuou uma discussão, e o amigo sabiamente concordou, balançando a cabeça com vigor várias vezes. —Não importa se ela é das Colónias ou não. —Pois vais causar um tremendo rebuliço se a cortejares. Se o pai dela não tiver títulos... Ora, simplesmente não é possível. Lembra-te da tua posição. —E, portanto, estás condenando nossa união? — Bradford fez essa pergunta com uma curiosidade tranquila. — Não condeno. Eu te apoiaria. Ela salvou-me a vida. Bradford ergueu uma das sobrancelhas, e o seu amigo apressou- se em responder à pergunta que ele não fez. —Ela atacou os patifes e arrancou a arma da mão do líder segundos antes de ele atirar em mim. —Não tenho a menor dúvida de que ela seria capaz de fazer exatamente isso — comentou Bradford. —Feriu outro dos salteadores no ombro. — Notaste como ela procurou evitar responder às minhas perguntas? O sr. Smith começou a soltar risadinhas juvenis. — Achei que não seria possível vê-lo sorrir, Bradford, e mesmo assim, hoje eu o vejo fazendo isso sem parar. A nata vai fervilhar de tantas
  38. 38. especulações. Não será fácil para ti unir-se a essa rapariga. Eu até sinto inveja desse teu desafio. Bradford não respondeu, mas virou-se de novo e voltou a olhar para longe, para a curva da estrada na qual os três haviam desaparecido. — Ela vai causar uma reação e tanto quando as senhoras elegantes puserem os olhos nela. Notaste a cor dos olhos dela? Vais ter que lutar pela atenção dela, Bradford. Meu Deus, rapaz, olha só as minhas botas! O duque de Bradford fingiu que não tinha ouvido esse pedido. Depois, pôs-se a rir. — E então, Brummell, vais ter a ousadia de vetá-la? ! ! CAPÍTULO 2 A carruagem de aluguel percorreu a estrada para Londres a uma velocidade constante. Benjamin, desconfiado do desrespeito do cocheiro para com seus deveres, decidiu viajar ao lado do homem, na boleia, para ficar de olho em seu comportamento. Caroline e Charity iam sentadas uma diante da outra, dentro do veículo, e depois que Charity já havia se cansado de falar, as duas caíram em um silêncio reflexivo. Charity não costumava sentir-se tão nervosa. Caroline entendia que aquela sua tagarelice era uma forma de desabafar a insuportável tensão sob a qual sua prima se encontrava. Enquanto Caroline procurava raciocinar,
  39. 39. Charity contava a ela tudo o que lhe vinha à cabeça. Não era honra nenhuma, uma vez que sua prima gostava de falar de tudo que era assunto com absolutamente todo mundo. Sua mãe dizia, que Charity espalhava as últimas fofocas mais rapidamente que o Journal de Boston. Caroline era o total oposto de Charity; calada, tímida, já havia aceitado havia muito tempo que não tinha a menor queda para trocar confidências. Ao contrário de sua prima, Caroline procurava carregar seus fardos em silêncio. —Gostaria que tivéssemos um plano para pôr imediatamente em ação, agora que chegamos finalmente à Inglaterra — declarou Chanty, apressadamente. Estava torcendo as mãos, amarfanhando as luvas corde-rosa que segurava. — Estou contando contigo para me dizer como
 proceder. —Charity, já repetimos a mesma coisa um milhão de vezes. Sei que é difícil para ti, mas deves parar de preocupar-te assim. Vais ficar velha e enrugada antes do tempo. — Caroline falava com bondade, mas com firmeza. — Sabes que vou ajudar-te. Porém em troca precisas
 prometer-me que vais ter cautela. —Sim. Cautela! Esta é a chave. Se ao menos eu tivesse um pingo da tua autoconfiança, Lynnie... — respondeu a prima, usando o apelido de infância de Caroline. Charity tornou a suspirar, um suspiro longo e arrastado, certamente exagerado. — Mas, e se eu descobrir que ele é casado? Caroline decidiu que seria melhor não responder. Não ia ser capaz de evitar que a raiva e a frustração se revelassem na sua voz, e isso faria Charity entregar-se a novo ataque de choro. Depois de uma viagem tão longa, Caroline não estava nem um pouco disposta a aturar isso.
  40. 40. Os homens eram todos uns tratantes, com exceção dos seus que- ridos primos, naturalmente. Por que a adorável e querida Charity tinha entregado seu coração a um inglês, era uma coisa para a qual Caroline não conseguia encontrar explicação. Havia muitos pretendentes à mão de Charity em Boston mesmo, mas sua prima tinha que ter escolhido um sujeito lá do outro lado do mundo. O inglês, Paul Bleachley, estava visitando Boston quando os dois se conheceram por acaso, e ela imediatamente se apaixonou por ele. A única parte dessa bobagem em que Caroline acreditou foi o fato de ela ter se apaixonado. Charity estava sem óculos, e literalmente tropeçou em Paul Bleachley quando dobrou a esquina da rua da Nogueira, na praça da cidade. O namoro durou seis semanas, e foi dos mais intensos. Charity jurou seu amor e contou a Caroline que Bleachley tinha feito o mesmo. Ela achava que o inglês tinha as melhores intenções, mesmo depois do seu desaparecimento súbito. Era insuportavelmente ingénua. Mas Caroline não se deixava enganar com tanta facilidade assim. Ela e o resto da família nem mesmo tinham conhecido o homem, A cada vez que se marcava um jantar, Paul Bleachley encontrava, no último minuto, outros compromissos mais urgentes aos quais comparecer. A desconfiança de Caroline de que o inglês estava apenas enganando sua prima aumentou dez vezes mais quando ela começou a investigar discretamente a vida dele, fazendo perguntas pela cidade. Charity tinha mencionado que Bleachley estava em Boston para visitar os pais, mas ninguém na comunidade bastante unida em que viviam tinha ouvido falar do inglês. O desaparecimento do inglês coincidiu com a noite da terrível explosão no porto de Boston. Três navios ingleses e dois norte- americanos tinham sido completamente destruídos. Embora Caroline
  41. 41. não ousasse revelar sua desconfiança, e não tivesse provas, ficou convencida de que Paul Bleachley de alguma forma estava envolvido nessa conspiração. A família ficou aliviada quando Bleachley sumiu. Todos presumiram que ele tinha voltado à Inglaterra, e que Charity logo se esqueceria daquele romance passageiro. Mas estavam redondamente enganados. Charity ficou para morrer de pesar quando finalmente aceitou que Bleachley a tinha abandonado. Jurou vezes sem conta, até Caroline acreditar nela, que ia descobrir o que havia acontecido e por quê. — Sinto vergonha de mim mesma — disse Charity, interrompendo os pensamentos de Caroline. — Nunca mencionaste uma palavra das tuas preocupações, enquanto eu tagarelava sem parar, falando sobre as minhas. — Eu não tenho preocupações — protestou Caroline.
 Charity sacudiu a cabeça, demonstrando sua exasperação. — Faz catorze anos que não vês o teu pai, e não tens preocupações? Não tentes enganar-me, Caroline. É natural que estejas preocupada! Teu pai virou tua vida pelo avesso, e ages como se isso não tivesse a menor importância.. — Charity, não há nada que eu possa fazer para resolver isso! — replicou Caroline, demonstrando sua irritação. — Desde que aquela carta chegou vens escondendo-te atrás de uma máscara. Eu sei que deves estar perturbada! Fiquei morrendo de raiva do teu pai. Teu lugar é com a minha família, e não com um homem do qual nem mesmo te lembras. Caroline concordou, lembrando-se da cena horrível que tinha ocor- rido em sua casa de Boston quando ela e Charity voltavam da cavalgada
  42. 42. matinal. O resto da família estava esperando as duas, de cara fechada. A mãe de Charity chorava e gritava algo horrível, proclamando que Caroline era tão sua filha quanto Charity. Ela tinha criado a menina desde quatro anos, não tinha? E Caroline chamava-a de mamãe desde o início. O pai de Charity mostrava-se mais contido, mais decidido, enquanto lhe anunciava com toda a calma que ela teria de voltar para a Inglaterra. —Acha que ele realmente viria te buscar, como ameaçou na carta? — perguntou Charity. —Acho — respondeu Caroline, com um suspiro. — Nós não tínhamos mais desculpas — acrescentou. — Meu pai deve pensar que eu sou de uma fragilidade terrível. Sabe que cada vez que ele pedia que eu voltasse sua mãe lhe dizia que eu tinha contraído alguma doença.
 Creio até que a única doença que ela não inventou foi a peste, e isso só porque não se lembrou dela. —Mas ele não te quis. Deu-te para nós, para te criarmos. —Só ia ser por uns tempos — respondeu Caroline. — Não entendo o que aconteceu, mas depois que minha mãe morreu, meu pai não podia tomar conta de mim, e aí ele... —Ele é um conde — interrompeu Charity. — Podia ter contratado alguém para tomar conta de ti. E por que ia querer que voltasses agora, depois de tanto tempo? Nada disso faz sentido. —Se eu tiver um pouquinho mais de tempo, vou descobrir a res- posta — afirmou Caroline. —Caroline, lembras de alguma coisa que tenha acontecido quando eras bem pequena mesmo, um bebé? Eu só me lembro de coisas que aconteceram quando tinha seis anos, como aquela vez em que caí do sótão da casa do Brewster. —Não, só do que aconteceu em Boston — Caroline respondeu.
  43. 43. Sentiu um nó no estômago e desejou que a conversa terminasse. —Ora, não entendo como não detestas esse homem. Não me Olhes assim. Sei que é errado odiar as pessoas, mas teu paizinho obviamente não quis ficar contigo, e agora, depois de catorze anos, vem dizer que mudou de ideia. Ele não dá a mínima para os teus sentimentos. — Preciso acreditar que o meu pai fez o que considerou melhor— respondeu Caroline. — Caimen ficou furioso quando soube que ias embora — declarou Charity, referindo-se ao seu irmão mais velho. — Devo lembrar-me de que tenho para com teus pais e teus irmãos uma divida, e não devo zangar-me — respondeu Caroline. Suas palavras soaram como um juramento. — A raiva e o ódio são emoções destrutivas, e nenhuma das duas vai mudar os fatos. Charity franziu o cenho e sacudiu a cabeça. — Não entendo como te conformas assim. Sempre tiveste um plano. Conta-me o que vais fazer. Não és do tipo que aceita tudo assim. Es atirada, não sentada. —Sentada? — Caroline riu da descrição inventada pela prima. —Sabes do que estou falando. Não ficas só sentada, tu te atiras às coisas. — Ora, pensei em dar ao meu pai a oportunidade de conviver um ano comigo. Devo isso a ele. E tentarei gostar dele também. Depois, é claro, voltarei a Boston. — E se teu pai não permitir que voltes? — disse Charity,
  44. 44. torcendo as mãos e amarfanhando as luvas outra vez, e fazendo Caroline apressar-se a acalmá-la. — Preciso crer que, se eu me mostrar devidamente frustrada, ele vai me deixar regressar a Boston. Não te arrufes assim, Charity. E minha única esperança. Por favor, não tentes abalar-me a fé. —Não consigo evitar. Meu Deus, ele pode até casar-te com alguém antes mesmo que te acostumes aqui. —Isso seria uma indelicadeza que não creio que ele vá cometer. — Ouviste dizer que o Caimen disse ao Luke que te seguiria e te traria de volta a Boston, se não voltasses dentro de seis meses? Caroline confirmou. — Ouvi — respondeu ela. — E o George, sempre tão tímido e contido, disse a mesma coisa. Teus irmãos são muito leais a mim. Caroline viu-se sorrindo ao rememorar a imagem dos seus primos. Lembrou-se de novo de considerar-se sortuda por ter passado tanto tempo em sua companhia. Achava que sua natureza era resultado da influência deles. Ela fazia lembrar o irmão de Chanty, Caimen, tanto na aparência como no génio impetuoso, imitava a timidez de George às vezes, tinha a honestidade de Justm e o senso de humor original de Luke. — Devíamos ter escrito ao teu pai primeiro e depois aguardado até termos certeza de que a carta chegou às mãos dele antes de sair de Boston. Caroline sorriu. —Tens uma memória conveniente, Charity. Assim que tua mamãe te deu permissão para me acompanhar, insististe que devíamos partir imediatamente. —Isso apenas porque o Caimen estava procurando convencer mamãe de que eu não devia vir — explicou Chanty. Sua voz tinha o tom
  45. 45. de quem tenta explicar algo complexo a uma pessoa meio simplória. Ela suspirou, demonstrando sua irritação com Caroline, depois indagou: —Quem era o senhor alto que estava te ajudando com o cavalheiro ferido? — A mudança de assunto confundiu Caroline e Charity continuou, mesmo assim: -— Ele era mesmo muito formoso. —Não era formoso coisa nenhuma — Caroline respondeu na hora, de maus modos, surpreendendo-se diante da irritação que sentia. — Eu não senti a menor atração por ele. —Não pode estar falando sério! Mesmo sem os meus óculos, vi que ele era um homem bem fora do comum. —Fora do comum até demais. Era um arrogante — Caroline informou à prima. O tom dela saiu altivo, mas ela não se importou. — Provavelmente nunca mais o veremos, e, para mim, tudo bem. Charity lançou um olhar intrigado à prima e depois disse: —Um homem assim tão grandalhão como ele, com uns olhos azuis maravilhosos! —Eram castanho-escuros, não azuis, com uns pontinhos dourados — respondeu Caroline, antes de ter tempo de perceber o que dizia. Charity riu. — Tu te deixaste cativar por ele, sim! Eu te enganei. Eu sabia que os olhos dele não eram azuis — declarou, mostrando-se satisfeitíssima. — Mas reparei nos cabelos dele — continuou, sem deixar transparecer que notava a fisionomia irritada de Caroline. — Estão precisando de um bom corte, e são muito encaracolados. —Não demais — observou Caroline, dando de ombros. — Ele me deu um pouco de medo — admitiu Charity. — Parecia tão...
  46. 46. —Poderoso? — interferiu Caroline. Charity concordou, e Caroline prosseguiu: — O nome dele é Bradford, e eu não quero mais falar dele. Achaste tua lente perdida? —Sim, eu a dei ao Ben. Ele prometeu consertar os óculos quando chegarmos à casa de teu pai, na cidade. Poderoso é justamente a palavra certa, creio eu. Esse tal Bradford não vai se deixar levar com muita facilidade — concluiu Charity, balançando a cabeça como quem sabe
 das coisas. —Como assim? —Só estou dizendo que não vais poder levá-lo pela coleira, como fazes com o Clarence. —Não estou levando o Clarence pela coleira a lugar nenhum — protestou Caroline. — Somos apenas amigos. —O Clarence segue-te como um cachorrinho — afirmou Charity. — Tu o dominas por completo. Até o Caimen diz isso. Precisas de um homem forte, senão o derrubas. —Mas que besteira estás dizendo! — respondeu Caroline, chateada com os comentários que Charity fazia com a maior naturalidade sobre sua personalidade. —Não perdes por esperar. Vi como o sr. Bradford estava olhando para ti. Acho que vai tentar te cortejar. Acho, sim — apressou-se em dizer quando Caroline abriu a boca para protestar. — Quando te apaixonares por alguém forte, como o sr. Bradford, esse homem vai
 te conquistar o coração, e aí teu comportamento vai mudar. Não vais querer mais ser tão independente. Claro que não será conveniente para ti apaixonar-te por um inglês, uma vez que juraste voltar para Boston.
  47. 47. Caroline recusou-se terminantemente a responder àqueles co- mentários absurdos de sua prima. Não tinha a menor intenção de se apaixonar por alguém. A falta de sono estava começando a deixá-la zonza, e os comentários ridículos de Charity faziam com que perdesse a concentração. A viagem de Boston ao porto de Londres tinha levado uma eterni- dade. Caroline rapidamente adaptou-se ao balanço do navio, pelo menos foi esse o cumprimento do capitão da embarcação, mas Charity e Benja-min não tiveram a mesma sorte. Caroline passou um bom tempo tomando conta de gente enjoada e contrariada. A tarefa tinha sido exaustiva. Eles tinham dormido no navio na noite anterior, e de manhã en- viado uma mensagem ao conde de Braxton, informando que haviam chegado. O mensageiro voltou, dizendo que o conde estava no momento passando uma temporada no campo, a três horas de distância de Londres. Caroline resolveu ficar na casa da cidade e enviou uma mensagem a seu pai anunciando sua chegada, mas Charity, impaciente por natureza, insistiu que alugassem uma carruagem e fossem para a casa de campo. — Afinal chegamos! — gritou Charity, ao pararem diante do sobrado. A voz dela irradiava entusiasmo, e ela não parecia nem um pouco cansada. Isso irritou Caroline quase tanto quanto a tagarelice chata dela. Charity estava debruçada à janela da carruagem, semicerrando os olhos para ver a casa, e Caroline foi obrigada a puxar-lhe o braço para poder abrir a porta. —Eu sabia que a casa era linda — exclamou Charity. — Teu pai é conde, afinal. Ai, Caroline, estás muito nervosa? —Claro que não. Meu pai não está — comentou ela, ao examinar o sobrado de fachada de tijolos elegante diante de si. Foi obrigada a admitir que parecia mesmo bem impressionante. As várias
  48. 48. janelas retangulares ficavam todas na fachada, e todas tinham contornos cor de marfim, contrastando de forma agradável com os tijolos vermelhos.
 Cortinas também cor de marfim encontravam-se penduradas do outro lado das vidraças, nos cantos das janelas, dando à casa uma aparência nobre e elegante. Era preciso subir três degraus para alcançar a porta da frente, que também era cor de marfim. A aldraba preta enfeitada com detalhes dourados ficava no meio da porta, mas quando Caroline ergueu a mão para pegá-la, a porta se abriu. O homem que Caroline presumiu ser o mordomo era tão impres- sionante quanto a casa que guardava. Vestido de cima abaixo de preto, sem nem mesmo uma gravata branca para amenizar o efeito, ele conservou uma expressão totalmente isenta de emoções até Caroline identificar-se como filha do conde de Braxton. Sua expressão mudou nesse momento, e seu rosto, voltado para cima, sorriu para .ela, pois o homem era apenas cerca de dois centímetros e meio mais alto do que a pequena Charity, e, embora Caroline considerasse o seu sorriso no máximo débil, ele lhe pareceu sincero. Ele recebeu os três dentro da casa, apresentou-se como Deighton. e explicou com ar de importância que era "o homem" do conde. Disse-lhe que tinha acabado de chegar a fim de supervisionar os criados na reabertura da casa para a temporada de bailes que se aproximava. O conde chegaria à noitinha. Se eles tivessem prosseguido na direção da casa de campo, teriam se desencontrado, percebeu Caroline. A casa estava que era uma azáfama só, de tanta atividade. Caroline sentiu-se um estorvo enquanto os criados corriam de um quarto para outro com panos de pó e baldes de água nas mãos. Ela gostou do comportamento sensato de Deighton. Ele provou ser
  49. 49. extremamente eficiente e mandou duas criadas abrirem as malas e tirarem tudo de seu interior em minutos. A casa contava com um amplo estúdio e cinco quartos no andar de cima, e Caroline e Charity receberam quartos adjacentes. Depois de Caroline ter passeado pelos quartos no segundo andar, acompanhou Benjamin até o terceiro andar, para ver se o seu quarto era satisfatório. Ela o deixou desfazendo as malas e retornou ao segundo andar para ajudar Charity a localizar seu par de óculos reserva. Caroline deixou Charity supervisionar as criadas que desfaziam suas malas. Sentia-se inquieta e incomodada, e sabia a causa. O pai ia chegar antes do cair da noite, e ela estava preocupada com a reação dele. Será que demonstraria a ela em pessoa o mesmo afeto que demonstrava nas cartas? Será que ficaria satisfeito ou decepcionado com sua aparência? Gostaria dela? E tão importante quanto isso, será que ela gostaria dele? Ela parou um momento diante da porta da impressionante biblioteca no alto das escadas e deu uma espiada no aposento. A sala reluzia de cima até embaixo, impecável. Não era uma sala que inspirasse conforto. Será que seu pai era tão impassível quanto sua biblioteca? Caroline ficou mais preocupada com o jeito de ser do pai ao passear por cada um dos cómodos do andar principal. Tudo estava tão arrumado! Arrumado e tão terrivelmente frio! O salão de recepção formal ficava à esquerda do corredor de entrada, revestido de azulejos, e era elegantíssimo. Todo decorado em ouro e marfim, com toques de amarelo-claro, era belíssimo, mas não parecia convidativo. Caroline tentou imaginar seus primos se colocando à vontade naquele aposento e depois constatou que isso era inútil. A mobília excessivamente estofada não parecia capaz de sustentar homens de grande estatura e modos desajeitados, vestidos com roupas de trabalho e botas das quais nunca se lembravam de raspar a terra. Não, Caimen, Justin, Luke e George se sentiriam tão deslocados ali quanto ela.
  50. 50. À direita do vestíbulo havia uma grande sala de jantar. A maciça mesa de mogno e doze cadeiras para complementar o conjunto eram o ponto central, mas os cálices de cristal fino e bordas douradas, no centro do bufe, contra a parede oposta, chamavam igualmente a atenção. Não havia nada de confortável naquela sala também. Ela irradiava abastança e luxo. Caroline seguiu o corredor comprido e encontrou nova biblioteca logo atrás da sala de recepção. Ficou profundamente aliviada quando abriu a porta e viu a bagunça. Aquela sala era obviamente o lugar onde o seu pai ficava. Ela hesitou à entrada, preocupada por estar invadindo um recanto secreto, mas por fim entrou. A linda escrivaninha chamou-lhe a atenção, assim como as duas poltronas de couro gasto, e os volumes de livros que revestiam as prateleiras de duas paredes. As janelas que davam para um jardim lateral isolado cobriam a terceira parede, e quando Caroline se cansou de olhar a linda vista que as janelas lhe proporcionaram, virou-se para a última parede. Surpresa, ficou totalmente imóvel enquanto examinava a bizarra disposição de elementos que tinha diante de si. Desde cima até embaixo, a parede estava coberta de desenhos, todos feitos por ela! Eles iam de primitivos rabiscos semelhantes a animais que tinha feito quando era muito pequena, até figuras mais avançadas de casas e árvores. No meio de todas aquelas suas obras, estava um desenho que Caroline lembrava de ter feito. Ela riu quando o olhou mais de perto, e sacudiu a cabeça. O desenho tinha sido sua primeira tentativa de fazer um retrato de família. Todos estavam ali, seus pais de Boston, Charity, seus primos, e até seu pai, embora ela o tivesse desenhado afastado do resto do grupo. A aparência de seus temas era bastante ridícula. Caroline tinha usado círculos imensos para fazer as barrigas de todos, e se concentrado nos dentes, como o principal foco de atração. Rostos minúsculos, todos sorrindo, com dentes imensos saindo deles! Ela devia ter por volta de seis anos
  51. 51. quando desenhou essa família e lembrou-se de que tinha sentido muito orgulho do seu desenho. O fato de seu pai ter guardado todos os seus desenhos deixou Ca- roline espantada e aliviada. A mãe de Charity devia tê-los enviado para ele, sem lhe contar nada. Caroline encostou-se na beirada da escrivaninha e examinou com atenção aqueles desenhos todos, durante muito tempo. Notou que os primeiros desenhos incluíam seu pai, mas à medida que ela progredia em idade e estilo, ele deixou de aparecer nos desenhos. Mesmo assim, ele tinha guardado todos. Percebendo isso, ela o viu menos como o conde e mais como pai. Era assim que ele tinha tomado conhecimento da sua infância, a jovem entendeu subitamente, e esse pensamento entristeceu-a. Caroline, uma pessoa de uma lealdade a toda prova, viu-se com- pletamente confusa. Aquela exibição dos seus desenhos indicava que ele gostava mesmo dela. Por que não tinha mandado buscá-la nas Colónias para morar com ele? Certamente percebia que, com o tempo, ela iria começar a chamar seu tio e sua tia de papai e mamãe. Ela só tinha quatro anos quando se tornou "filhinha" deles. Era perfeitamente natural que os irmãos de Charity se tornassem seus irmãos. Ele devia saber que suas primeiras memórias iriam desaparecer, substituídas pelo seu novo ambiente e sua nova família. A culpa invadiu-lhe os pensamentos. Ele tinha feito um sacrifício por ela. Mamãe tinha lhe contado isso inúmeras vezes! Tinha explicado que o conde queria que sua filha fosse criada com uma família estável e sentia que ela iria ficar mais feliz, sentir-se mais amada, com seu irmão mais novo e sua família. Por que ele não pensou que talvez seu amor fosse suficiente? Meu Deus, ela não tinha lhe dado nada como filha. Lembrava-se de reclamar quando era obrigada a escrever umas palavras educadas para
  52. 52. enviar a ele! Ela fora egoísta e, por mais que doesse reconhecer isso agora, desleal! Tinha tramado e planejado ficar em Boston, chamado de pai a uma outra pessoa e, o pior de tudo, tinha se esquecido de amar seu verdadeiro pai. Desejou jamais ter visto aqueles desenhos. Seus olhos ficaram cheios de lágrimas e ela saiu correndo da sala. Desejou voltar a Boston e sentiu vergonha de si mesma por desejar isso. Aquilo a fez sentir-se culpada e indigna. Uma covarde. Será que ela seria capaz de dedicar ao pai pelo menos uma parte do amor e lealdade que tão livremente dedicara à sua família de Boston? Caroline subiu até seu quarto e deitou-se na cama com dossel, de- cidida a analisar suas emoções. A parte lógica da sua mente insistia em que ela era apenas um bebezinho quando mudou de família e, portanto, o amor e a lealdade não eram importantes. Mas seu coração continuou a doer. Como teria sido mais fácil se o conde fosse frio e destituído de amor!Ela tinha desempenhado o papel de heroína trágica durante todo o caminho de Boston até Londres, e agora admitia que, afinal de contas, era só um papel. A realidade era bem diferente. Como iria prosseguir? Não conseguia encontrar uma resposta, e finalmente deixou o cansaço vencê-la, caindo em um sono profundo e sem sonhos. Caroline dormiu até a manhã seguinte, e só a interromperam uma vez. A certa hora da noite, ela acordou ao ouvir a porta ranger. Instan- taneamente, ficou alerta, mas fingiu dormir, enquanto observava um homem mais velho hesitar à porta e depois vir devagar até a cama. Ela fechou os olhos, mas não antes de ver as lágrimas que escorriam pelo rosto do homem. Ele parecia uma versão mais velha do seu irmão, e então ela viu que aquele ao lado da cama era seu pai.
  53. 53. Caroline sentiu a colcha ser levantada e metida sob seus ombros firmemente, e aquele gesto comoveu-a até o fundo do seu ser. E aí sentiu a mão dele, trémula, roçar na sua têmpora, bem de leve, e o ouviu murmurar baixinho, com amor, "Bem-vinda ao lar, minha filha". Ele inclinou-se e beijou-a na testa, e aquele toque suave trouxe alegria ao seu coração. Depois, endireitou o tronco devagar e voltou para a porta. O aroma de tabaco e especiarias perfumou o ar depois que ele se foi, e os olhos de Caroline abriram-se de repente, arregalando-se. Ela reconhecia aquele cheiro, lembrava-se dele. Tentou recordar-se das imagens que o acompanhavam, das sensações, mas como os vaga-lumes que tentava capturar quando era pequena, tudo lhe pareceu fugidio. A memória parecia estar bem ao seu alcance, porém ela não conseguia alcançá-la. A fragrância bastava no momento, pois com ela vinha uma sensação de contentamento e amor que a cercava como a bruma matinal, abraçando-a e enchendo-a de paz. Ela aguardou até a mão do pai pousar na maçaneta da porta e ele estar a ponto de fechá-la atrás de si. E não conseguiu mais conter as palavras, que saíram sem que ela sentisse: — Boa noite, papai. Era como se estivesse repetindo um ritual noturno muito antigo, e, embora não tivesse lembrança alguma dele, instintivamente viu que ainda não tinha terminado de dizer tudo. Procurou expressar os seus sentimentos com palavras, e, sem se dar conta, falou: — Eu te amo, paizinho. O ritual estava encerrado. Caroline fechou os olhos e deixou as lembranças, como os vaga-lumes do passado, afastarem-se saltitantes. Finalmente, tinha regressado ao seu lar. ! CAPÍTULO 3
  54. 54. O duque de Bradford não conseguia tirar aquela belíssima mulher de olhos azuis da cabeça. A inocência dela o tentava, seu sorriso deslumbrava-o, mas, antes de qualquer coisa, seu raciocínio desenvolto agradava-o totalmente. O duque tinha inclinação para o ceticismo e, portanto, não se deixava impressionar por qualquer mulher. No entanto, toda vez que pensava em como ela o havia desafiado sem o menor cons- trangimento, ameaçando dar um tiro em seu cavalo, pegava-se sorrindo. Aquela mulher tinha coragem, e Bradford admirava-a por isso. Lá pelo fim do dia do acidente, Bradford já havia transportado Brummell para casa e, após providenciar para que lhe fosse dado todo tipo de conforto, deixou-o aos cuidados efusivos de sua fiel criadagem. Depois foi para sua própria residência, em Londres, e tratou de dedicar-se à tarefa de descobrir qual seria a família de Caroline. A única pista que tinha para descobrir sua identidade era que ela estava voltando a Londres para visitar seu pai. Pelo modo como a jovem havia falado sobre as reuniões sociais da elite, presumiu que seu pai deveria pertencer à nata da sociedade. Talvez também fosse um nobre. A priminha dela havia mencionado que o grupo se dirigia a um sobrado em Londres, onde iriam esperar o pai de Caroline. Bradford concluiu que o homem possuía uma casa de campo e ainda estava descansando em sua propriedade até começar a temporada de eventos sociais. Tinha absoluta certeza de que teria suas respostas ao anoitecer. Mas no fim do quarto dia, já estava totalmente desesperado. Nem mesmo uma única pista havia surgido, e a frustração que ele estava sentindo era diferente de tudo o que já havia experimentado antes. Ficou mal-humorado, e os sorrisos que os criados ficaram abso- lutamente surpresos de ver quando o duque voltou para casa desapareceram por completo. Agora a criadagem, aos cochichos, comentava que devia ter se enganado redondamente. O seu patrão tinha voltado a ser distante e rude. A
  55. 55. cozinheira dizia a todos que estavam ao alcance da sua voz que estava aliviada, pois não gostava de ninguém nem de nada que tosse imprevisível. Mas o "braço direito" de Bradford, Henderson, sabia que alguma coisa bastante importante tinha acontecido a seu patrão, e ficou preocupado. Henderson sentiu-se ao mesmo tempo animado e aliviado quando o melhor amigo do duque, William Franklin Summers, conde de Milfordhurst, chegou para uma visita inesperada. Henderson escoltou o conde escadaria acima, até a biblioteca, com o maior prazer. Talvez, refletiu Henderson, enquanto andava ao seu lado, o conde pudesse inspirar seu patrão a voltar a ser acessível. Henderson tinha sido criado pelo pai de Bradford durante dez excelentes anos, e quando uma tragédia se abateu sobre a família, causando a morte do pai e do primogénito, Henderson passou a dedicar-se totalmente ao novo duque de Bradford. Apenas Henderson e o melhor amigo do duque, Milford, lembravam-se de como ele era antes de ser obrigado a herdar o título. Lançando um olhar de relance a Milford, Henderson lembrou-se de que os dois amigos costumavam ser bem parecidos. Houve tempo em que Bradford era um folgazão do mesmo calibre que seu amigo moreno, e, exatamente como ele, gostava de iludir as senhoras da elite. No entanto, durante os cinco anos durante os quais havia sido seu criado, Henderson desistira de esperar que o duque voltasse a ser a pessoa descontraída e despreocupada que era antes. Aconteceram coisas demais. Traições demais. —O Brad está te preocupando, Henderson: Estás subindo as escadas de cara amarrada — indagou o conde, com aquele seu sorriso rasgado de costume, mostrando bem o maroto que Henderson sabia que ele era. —Aconteceu alguma coisa para o duque ficar assim contrariado — respondeu Henderson. — Eu, é claro, não ouço confidências do
  56. 56. meu senhor, mas creio que vós notareis uma ligeira mudança no seu modo de ser. Henderson não quis tecer maiores comentários, mas suas palavras fizeram Milford franzir o cenho, pensativo. Assim que Milford pôde dar uma boa olhada no seu amigo, deduziu que Henderson era o rei dos panos quentes. "Ligeira" seria a última palavra que ele usaria para descrever a mudança de disposição do duque, pois ele parecia ter voltado de uma viagem de carruagem daquelas bem longas, só que como se tivesse feito a viagem arrastado debaixo do veículo, em vez de em seu interior. Bradford estava sentado de ombros caídos atrás da sua monstruosa escrivaninha, a cara amarrada, enquanto escrevia um nome em um dos vários envelopes amontoados sobre o tampo da mesa. A escrivaninha de mogno estava uma verdadeira bagunça, mas Bra- dford também estava desarvorado, segundo Milford concluiu. Seu amigo precisava desesperadamente barbear-se e colocar um plastrão limpo. — Milford! Um minuto, por favor, já estou acabando — disse
 Bradford ao amigo. — Serve-te de uma bebida. Milford recusou a bebida e sentou-se em uma poltrona confortável diante da escrivaninha. —Brad, estás escrevendo para todo o povo da Inglaterra? — in- dagou, ao colocar os calcanhares das botas polidas sobre o tampo da mesa, demonstrando total falta de educação. —Quase todo — resmungou Bradford, sem tirar os olhos da correspondência. —Parece que faz dias que não dormes — comentou Milford. Continuava sorrindo rasgadamente, mas os olhos traíam sua preocupação. Bradford não parecia estar nada bem, e quanto mais Milford examinava o amigo, mais ficava preocupado.
  57. 57. —Não tenho pregado o olho — finalmente respondeu Bradford. Deixou a caneta de lado e recostou-se no estofado macio de sua poltrona íergère. Suas botas também se apoiaram junto às do amigo, sobre o tampo da escrivaninha, e ele soltou um longo suspiro. Então, sem hesitar mais, ele contou ao amigo como tinha conhe- cido a linda mulher chamada Caroline, só omitindo a parte em que Brummell aparecia, pois ele também havia prometido não contar nada a ninguém sobre o incidente humilhante pelo qual o amigo havia passado ao ser atacado pelos assaltantes. Viu-se elogiando a beleza da moça, falando durante muito tempo para descrever adequadamente a cor dos olhos dela, mas por fim conseguiu controlar-se e passou a narrar apres-oaJamcjitc u Ciai da história, declarando revoltado que todas as suas investigações tinham dado em nada. — Estás procurando nos lugares errados — concluiu Milford, com uma voz cheia de empáfia, assim que conseguiu parar de rir da narrativa de Bradford sobre o assalto. — Ela acha mesmo que as Colónias são mais sofisticadas que nossa Londres? Bradford fez ouvidos de mercador para a pergunta e passou a frisar sua afirmativa anterior. —O que queres dizer, insinuando que estou procurando nos lu- gares errados? Ela veio visitar o pai. Vou seguir essa pista! — disse Bradford com rispidez. —A maior parte da elite não deve ter ainda regressado para a temporada de festas — explicou Milford, pacientemente. — E deve ser unicamente por isso que não recebeste ainda nenhuma resposta. Procure controlar-se, mancebo! Ela vai comparecer à festança dos Ashford. Eu te garanto isso. Todos comparecem. —Mas ela não é de frequentar bailes — Bradford cochichou, ao
  58. 58. repetir as declarações de Caroline acerca das atividades da elite, e sem se dar conta começou a sacudir a cabeça. — Ela disse exatamente isso. —Mas que coisa mais estranha — disse Milford, esforçando-se para não rir. Fazia tempo que não via o amigo perplexo daquele jeito. O alívio que sentiu ao constatar que não havia nada de grave deu-lhe disposição para fazer troça. Também lhe deu vontade de gozar com a
 cara do amigo, exatamente como costumava fazer antigamente, quando os dois faziam a ronda por Londres. —Não é tão estranho assim — retrucou Bradford dando de ombros. — Tu não compareces a nenhum evento. —Estás interpretando mal o que eu disse. Quis dizer que estás te comportando de uma maneira estranhíssima — respondeu Milford. dando uma risadinha. — Acho que nunca te vi assim tão transtornado. E preciso aproveitar a oportunidade! E a causa é uma senhora que vem
 nada mais, nada menos, que das Colónias. — Milford teria continuado, mas não conseguiu mais conter o riso e, apesar da cara de desaprovação do amigo, soltou várias gargalhadas escandalosas. ! —Estás te divertindo, não estás? — ralhou Bradford quando Milford conseguiu controlar-se o bastante para ouvi-lo. —Não posso negar — admitiu Milford, com toda a sinceridade. — Estou me lembrando de uma promessa ardente que fizeste há uns dois anos — prosseguiu. — Mais ou menos que todas as mulheres só serviam para uma coisa, e que dar a uma delas teu coração seria o

  59. 59. cúmulo da burrice. — Quem disse que alguém vai dar alguma coisa a alguém? — urrou Bradford. — Estou só curioso, só isso — insistiu ele, mais calmo.— Não me irrites, Milford. Senão vais te dar mal. — Acalma-te, rapaz — respondeu Milford. — Só o que quero é ajudar-te. — E obrigou-se a ficar sério, dizendo: — Deverias consultar os costureiros. Se ela é das Colónias, deve estar precisando urgentemente atualizar o guarda-roupa. A família não vai querer passar vergonha por
 causa das vestimentas antiquadas dela, portanto irá encomendar novos vestidos. —Tua lógica me espanta — respondeu Bradford. Um brilho de esperança surgiu nos olhos dele, e o duque até sorriu. — Por que não pensei nisso? —Porque não tens três irmãs mais novas que tu, como eu —- res- pondeu Milford. —Eu tinha me esquecido das tuas irmãs — confessou Bradford.— Nunca as vejo por aí. — Elas se escondem de ti — revelou Milford, prendendo o riso. — Tu as deixas apavoradas. — E aí encolheu os ombros, dizendo: —Mas eu te garanto que a moda é o assunto principal da maioria das mulheres, inclusive minhas irmãs. — Seu tom de voz tornou-se sério quando ele perguntou: — E apenas uma paixonite o que sentes por essa moça, ou é algo mais? Nos últimos cinco anos só te vi ao lado de cortesãs pela cidade. Não estás acostumado a senhoras bem-educadas, Brad. Essa reviravolta vai ser das mais impressionantes. Bradford não respondeu na hora. Não parecia ter nenhuma resposta definida na cabeça, apenas sentimentos a expressar. — Creio que é apenas uma insanidade passageira — finalmente respondeu. — Mas assim que tornar a vê-la, terei certeza. O
  60. 60. que pretendo é tirá-la da cabeça de uma vez por todas — terminou Bradford, dando de ombros. Milford concordou. Não acreditou em uma palavra do que o amigo havia dito, mas Bradford tinha se expressado com tanta seriedade que Milford não ousou contradizê-lo. Deixou o amigo escrevendo suas missivas. Desceu as escadas com passos leves, tão aliviado que chegou ; dar um tapa bem forte no ombro de Henderson para demonstrar afeiçãc antes de sair. O conde de Milfordhurst de repente sentiu uma vontade louca de conhecer aquela misteriosa feiticeira das Colónias, a mulher diferente que tinha conseguido o que nenhuma outra havia sido capaz de fazer nos últimos cinco anos. Embora não soubesse disso, a senhorinha chamada Caroline estava trazendo o duque de Bradford de volta ao mundo dos vivos. Milford sentiu que já gostava dela. A manhã chegou, e com o sol vieram novos pensamentos, novos planos. Caroline Richmond, sempre madrugadora, não importava a hora em que se recolhia, recebeu o sol espreguiçando-se devagar de contentamento. Colocou depressa um vestido cor de violeta e prendeu os cabelos desgrenhados em um rabo-de-cavalo, com uma fita branca de renda. Charity ainda estava dormindo, e Benjamm, pelo ruído abafado que vinha do andar de cima, parecia estar acordando naquele instante. Caroline desceu, pretendendo esperar o pai na sala de jantar. Encontrou-o já sentado à cabeceira da comprida mesa envernizada. Tinha uma

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