Julie Garwood - Meu querido guerreiro

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Julie Garwood - Meu querido guerreiro

  1. 1. 1
  2. 2. 2
  3. 3. 3
  4. 4. 4 Digitalização e Revisão: Vick
  5. 5. 5 Copyright© 1985 by Julie Garwood CAPA: Daniel Rampazzo (Casa de Idéias) PROJETO GRÁFICO E DIAGRAMAÇÃO: Lina Kiyota REVISÃO: Adriane Aparecida Gozzo Fernanda Batista dos Santos Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Garwood, Julie Meu querido guerreiro / Julie Garwood; tradução Celina Falck- Cook — São Paulo: Editora Landscape, 2007. Título original: Gentle warrior ISBN: 978-85-7775-039-9 I. Ficção norte-americana I. Título. 07-6420 CDD-8I3 Índices para catálogo sistemático: I. Ficção : Literatura norte-americana 813 2007 Direitos para a Língua Portuguesa Editora Landscape Rua Ministro Nelson Hungria, 239 — cj 10 Fone/Fax (II) 3758-4422 atendimento@editoralandscape.com.br www.editoralandscape.com.br
  6. 6. 6 Para Gerry, com amor, por todo o apoio e encorajamento, e, sobretudo, por nunca duvidar.
  7. 7. 7 PRÓLOGO "Os gentis cavaleiros nasceram para lutar, e a guerra enobrece todos que a travam sem medo nem covardia. Jean Froissart, cronista francês INGLATERRA, 1086 Em silêncio, o cavaleiro preparou-se para a batalha. Sentou-se em um banco de macieira, estendeu as pernas longas e musculosas de cada lado, diante de si, e pediu ao servo que lhe pusesse a calça de malha de aço. Depois, de pé, permitiu que outro servo lhe prendesse a túnica de malha pesada sobre a camisa de baixo de algodão almofadado. Finalmente, ergueu os braços bronzeados ao sol para que sua espada, um presente extremamente valorizado por ter sido dado pelo próprio rei Guilherme, pudesse ser-lhe pendurada a uma alça de metal à altura da cintura. Seus pensamentos não estavam em seus trajes nem no que o cercava, mas na batalha que iria travar, e ele metodicamente revisou a estratégia que empregaria para obter a vitória. O trovão lhe atrapalhou a concentração. Com a testa franzida, o cavaleiro ergueu a aba da tenda e olhou para cima a fim de analisar a pesada formação de nuvens, inconscientemente roçando os pêlos negros que lhe espreitavam da gola enquanto ele observava o céu. Atrás dele, os dois servos continuavam a desempenhar seus deveres. Um pegou um pano empapado de óleo e começou a polir mais uma vez o escudo do cavaleiro. O segundo sentou-se no banco, também com uma perna de cada lado, como o cavaleiro, e aguardou, segurando o elmo cônico aberto para colocá-lo na cabeça de seu suserano. O servo assim permaneceu durante alguns instantes, aparentemente infindáveis, antes de o guerreiro virar-se e notar o elmo aberto à sua frente. Sacudindo a cabeça, ele o rejeitou, preferindo arriscar-se a tomar um golpe para ter mais liberdade de movimento. O servo franziu o cenho diante da recusa do cavaleiro em usar mais essa peça protetora da armadura, mas sabiamente optou por não expressar sua oposição ao notar a cara fechada do cavaleiro. Depois de terminar de se vestir, o cavaleiro voltou-se e andou a largas passadas até alcançar seu possante corcel e montá-lo. Sem olhar para trás, afastou-se do acampamento a galope.
  8. 8. 8 O cavaleiro buscava a solidão antes da batalha, e cavalgou energicamente, com toda rapidez, até uma floresta próxima, sem ligar para os arranhões que tanto ele quanto sua montaria estavam sofrendo por conta dos galhos baixos das árvores e dos arbustos. Quando atingiu o alto de uma colina, refreou o animal, ora resfolegante, detendo-o, e concentrou toda a sua atenção no castelo abaixo de si. A fúria voltou a dominá-lo quando pensou nos inimigos desleais que agora se encontravam entrincheirados no castelo, mas deixou esse ódio de lado. Iria vingar-se depois que o castelo voltasse a ser seu. Só aí se permitiria dar vazão à sua raiva. Só aí. O cavaleiro voltou a atenção para a propriedade diante de si, uma vez mais impressionado pela simplicidade da construção, notando as paredes largas e desiguais que se estendiam por volta de seis metros em direção ao céu, cercando todas as estruturas internas da fortaleza. O rio contornava três lados das muralhas do castelo, o que o agradou bastante, pois seria praticamente impossível alguém tentar invadir o castelo pela água. O edifício era quase todo construído quase todo de pedra, com apenas um ou outro bloco de taipa, além de ser flanqueado em ambos os lados por aglomerados de pequenas choupanas, todas de frente para o amplo pátio coberto de relva. Quando tudo aquilo voltasse a lhe pertencer, ele a tornaria inexpugnável, jurou a si mesmo. Nunca mais iria permitir que uma coisa daquelas tornasse a acontecer! Nuvens carregadas e ameaçadoras uniram-se na tentativa de bloquear o sol nascente, produzindo listras cinzentas que se arquearam em protesto pelo céu. O vento fornecia o fundo musical para aquela visão fantasmagórica. As lufadas de vento uivante misturadas com gemidos baixos e sibilantes fizeram o cavalo do guerreiro empinar, assustado, porém o cavaleiro o acalmou prontamente, usando os calcanhares para lhe dar a ordem. Olhando uma vez mais para o céu, viu que as nuvens volumosas agora estavam bem acima de sua cabeça, e sentiu-se como se a noite tivesse resolvido cair de novo. — Este tempo não está me acalmando — resmungou. Seria esse um mau pressentimento? perguntou-se, pois não era totalmente imune à superstição, embora desprezasse quem se deixava impressionar por essas coisas, procurando de maneira ritualística por sinais antes de todas as batalhas para prever-lhes o resultado. O cavaleiro revisou seus planos para vencer, procurando possíveis falhas em sua estratégia e não encontrando nenhuma. No entanto não conseguia se sentir tranqüilo. Frustrado, tomou as rédeas e virou o corcel com intenção de voltar ao acampamento antes que as trevas se fechassem em torno dele. E foi aí que o céu pareceu explodir, emitindo um rápido raio de luz prateada, e ele a viu. Ela estava ligeiramente acima dele, na colina seguinte, e parecia olhar diretamente para baixo em sua direção. Mas não estava olhando para ele, percebeu; estava olhando para o castelo lá embaixo. Montava um cavalo malhado, as costas muito eretas, e tinha, uma de cada lado, duas criaturas enormes que lembravam vagamente cães, mas cuja raça ele não conseguiu discernir, uma vez que, pelo porte, pareciam mais lobos que cães. Ele bebeu sofregamente a figura que via diante de si, notando que
  9. 9. 9 ela era de estatura baixa, com longos cabelos louro-claros que lhe desciam até os ombros; e, mesmo daquela distância, ele pôde distinguir os seios bem redondos, colados contra o tecido branco do vestido pela força do vento persistente. Ele não conseguiu entender bem o que estava vendo, mas decerto aquela jovem era mais bela do que qualquer outra que já conhecera. O clarão desapareceu, sendo em poucos segundos substituído pela luz ainda mais intensa de outro relâmpago. Contudo, no lugar da surpresa inicial, o cavaleiro ficou cético e, ao mesmo tempo, espantado, pois agora via um falcão descendo na direção da moça. Esta parecia não ter medo do animal de rapina, que descrevia círculos acima de sua cabeça, e até ergueu a mão como se saudasse um velho amigo. O cavaleiro fechou os olhos só por um instante e, quando os reabriu, não a viu mais. Esporeando o cavalo, correu na direção da visão. Cavalo e cavaleiro contornaram todas as árvores habilmente a grande velocidade, mas quando chegaram ao seu destino não encontraram mais a moça. Depois de algum tempo, ele desistiu da busca. Sua mente aceitava que o que tinha visto havia sido real, mas seu coração insistia que aquilo tinha sido apenas uma visão, um presságio. Ficou bem mais animado depois disso, ao voltar a toda velocidade para o acampamento. Com um sinal de cabeça, vendo que seus homens estavam montados e preparados para partir, pediu a lança e o escudo. Dois servos correram na direção do cavaleiro que os aguardava, segurando o escudo em formato de pipa entre si para dividir o peso, e quando chegaram onde o cavaleiro estava, esperaram calados que o guerreiro o erguesse. Para a confusão de ambos, o cavaleiro hesitou, com um sorrisinho a lhe erguer os cantos da boca, e ficou vários segundos olhando para o escudo abaixo de si. O gesto que fez a seguir desnorteou não só os servos como também os soldados que aguardavam para segui-lo: inclinou-se e, com o dedo indicador, vagarosamente traçou o contorno do falcão engastado no escudo. Em seguida, jogou a cabeça para trás e entregou-se a uma gargalhada retumbante antes de erguer, sem o menor esforço, primeiro seu escudo, com a mão esquerda, e depois a lança, com a direita. Ergueu ambos bem alto e soltou seu grito de batalha.
  10. 10. 10 CAPÍTULO I Longos e delgados dedos de luz começaram sua ascensão ritual, penetrando nas trevas, sem se deixarem inibir pelos tufos de nuvens alvas e ralas, na incontestada tentativa de introduzir a aurora no mundo. Elizabeth encostou-se na ombreira lascada da porta aberta da choupana, contemplando detidamente o nascer do sol, durante vários minutos, antes de deixar seu apoio e entrar na habitação. Um poderoso falcão, pairando com facilidade em círculos largos acima das árvores, viu a silhueta esguia sair da cabana e acelerou, descendo até uma pedra salpicada de lama ao lado da moça. Com um estridente piado, batendo de modo vigoroso as asas marrons e cinzentas, anunciou sua chegada. — Aí estás, meu majestoso — cumprimentou Elizabeth. — Chegaste cedo hoje. Também não lograste repousar? — indagou baixinho. Contemplou seu bicho de estimação com um sorriso terno e depois ergueu devagar o braço direito até ele estar totalmente estendido, com os músculos contraídos pouco acima de sua cintura delgada. — Vem — ordenou com voz firme, porém suave. O falcão inclinou a cabeça de um lado para o outro, o olhar penetrante jamais se desviando do rosto dela, e começou a emitir um gorgolejar gutural. Seus olhos eram da cor de cravos-de-defunto, e embora houvesse neles algo de selvagem, ela não sentiu medo. Pelo contrário, retribuiu o olhar com total confiança e voltou a lhe pedir que viesse até ela. Dentro de uma fração de segundo, o falcão pousou no braço desprotegido da moça, todavia ela não se encolheu em razão do peso nem do toque da ave. Suas garras irregulares eram afiadas como lâminas, mas ela não estava de luvas. Seu braço macio e imaculado provava que o falcão era capaz de ser delicado com sua dona. — O que hei de fazer de ti? — perguntou Elizabeth. Seus olhos azuis cintilaram de alegria enquanto ela contemplava o animal. — Estás ficando gordo e preguiçoso, meu amigo, e embora eu tenha lhe dado liberdade, recusas-te a aceitá-la. Ah, meu fiel bichinho, se ao menos os homens fossem leais como és. — A alegria lhe fugiu do olhar, substituída por uma imensa mágoa. O som de um cavaleiro aproximando-se assustou Elizabeth. — Vai-te embora — disse ela ao falcão, e ele imediatamente alçou vôo. Sua voz deixava transparecer o pânico quando ela chamou seus dois enormes mastins e correu para a segurança da floresta que cercava a choupana. Os dois cães estavam ao seu lado quando ela se encostou à grossa casca do tronco da árvore mais próxima e lhes fez sinal para que não mexessem. Seu coração batia disparado enquanto ela aguardava, arrependida por ter esquecido o punhal na choupana. Saqueadores, bandos inteiros de forasteiros paupérrimos e errantes andavam pelos campos, e todos que se encontravam fora das muralhas, desprotegidos, eram presa fácil de sua violência e depravação.
  11. 11. 11 — Senhorinha? — O som da voz de seu fiel criado penetrou o terror que dominava Elizabeth, trazendo alívio imediato. Ela deixou o tronco cair para a frente, a cabeça baixa, recuperando a respiração. — Senhorinha? É o Joseph. Estás aí? O alarme cada vez mais evidente na voz dele forçou Elizabeth a sair de seu esconderijo. Ela contornou a árvore em silêncio e surgiu diante de Joseph, batendo de leve no ombro caído dele com a mão trêmula. Com um grito de susto o velho pulou para trás e girou nos calcanhares, quase derrubando sua senhora. — Que susto me destes! — ralhou ele. Porém, ao ver a expressão de angústia no rosto de Elizabeth, forçou-se a sorrir, mostrando vários dentes faltantes. — Mas, mesmo com essa cara fechada, vossa beleza tem o poder de abrandar-me. — Bajulador como sempre, não, Joseph — replicou Elizabeth com um sorriso escancarado, e seu criado voltou a se deixar cativar pela voz rouca, porém musical, de sua senhora. Ficou observando-a virar-se e andar até a porta da choupana, e surpreendeu-se um pouco ao constatar que a beleza da jovem ainda tinha o poder de assustá-lo toda vez que a contemplava, pois a vira crescer e já convivia com ela desde a mais tenra infância. — Vem beber comigo para refrescar-te e me conta o que te trouxe aqui hoje — convidou Elizabeth. E aí começou a perder a pose, a confusão lhe toldou o olhar. — Eu não esqueci o dia, esqueci? Não é o dia em que me trazes comida, é? Ou será que perdi mesmo toda a noção do tempo? Joseph notou o desespero na voz dela, e quis tomá-la nos braços e consolá-la. Era uma ambição impossível, bem sabia, pois ela era sua senhora, e ele seu humilde criado. — Já se passou quase um mês desde que minha família... — Não faleis mais nisso, senhorinha, e não temais — acalmou-a Joseph. — Não estais ficando louca, pois eu estive aqui faz apenas dois dias. Hoje trago uma notícia importante, e tenho um plano que talvez a senhorinha considere interessante. — Joseph, se vais voltar a sugerir que eu vá para a casa do meu avô, perdeu a viagem. Minha resposta vai ser a mesma hoje: nunca! Ficarei perto do meu lar até poder me vingar dos assassinos da minha família. Fiz um juramento! — Olhou-o furiosa enquanto falava, sua teimosia realçada pelo queixo erguido de forma desafiadora. Joseph então foi forçado a olhar para as botas para não ter de enfrentar o olhar gélido dela. Elizabeth aguardou, os braços cruzados. — Então, o que tens a me dizer? — instou. Quando viu que o criado não reagiu de imediato, suspirou exasperada e continuou em voz mais branda. — Conforma-te, Joseph. Mandei o pequeno Thomas para um lugar seguro. Isso deve bastar. Sua resposta não foi a que ela esperava. Elizabeth viu os ombros dele afundarem ainda mais do que o normal. O criado esfregou a careca e pigarreou.
  12. 12. 12 — Os malfeitores se foram. — Foram-se? Como assim se foram? Como é possível? Para onde foram? — A voz dela foi aumentando de volume a cada pergunta, e ela não percebeu que estava agarrando o leal criado pela capa e sacudindo-o vigorosamente. Joseph soltou-se delicadamente das mãos de sua senhora. — Por favor, senhorinha, acalmai-vos. Vamos entrar — sugeriu — que vos contarei tudo que sei. Elizabeth concordou com uma rápida vênia, e correu para dentro da choupana. Tentou se recobrar como era adequado para sua posição, mas mentalmente resistiu a isso, concentrando-se no número de perguntas não respondidas e de emoções conflitantes, em vez de se acalmar. Na choupana de um só cômodo havia pouquíssima mobília. Elizabeth sentou-se na beirada de um dos dois bancos de madeira, as mãos entrelaçadas sobre o colo, as costas retas, esperando Joseph acender o fogo na lareira. Embora fosse fim de primavera, a choupana estava úmida e fria. Pareceu-lhe que uma eternidade havia se passado até Joseph sentar-se diante dela. — Foi pouco depois que saí daqui, da última vez, senhorinha. No dia da tempestade — esclareceu —, mal cheguei ao topo da segunda colina, acima da mansão, e os vi se aproximando como uma nuvem de poeira na estrada sinuosa, lá embaixo. Embora houvesse apenas uns duzentos, mais ou menos, eles ainda pareciam um exército mortal. O chão chegava a tremer um pouco sob meus pés, tão portentosa foi a cena. Vi o líder deles, pois ia bem à frente dos homens e era o único sem capacete. — Depois de derrubarem os portões e entrarem no castelo, pois como ficou óbvio para mim eles não estavam nem um pouco preocupados em fazer uso do elemento surpresa, eu me aproximei, minha curiosidade superando todos os meus temores. Quando encontrei um ponto de observação melhor, o líder havia formado um semicírculo com seus comandados, e, protegidos por essa barreira de escudos, eles avançaram. Foi uma batalha e tanto, senhorinha. Vi o líder tomar posição, um homem gigantesco, devo admitir, pois trazia uma espada enorme que aposto que dois homens mal poderiam erguer. Vi-o usar a espada inúmeras vezes, e fazer cair por terra tantos inimigos quantos foram os golpes. Foi aí que a tempestade começou... — Eram por acaso homens do Lorde Geoffrey? — foi um mero sussurro, mas Joseph ouviu. — Eram, sim, homens do Lorde Geoffrey. Sabíeis que ele enviaria um batalhão. — Claro que sabia, Joseph — ela suspirou. — Meu pai era vassalo do Geoffrey, e seu suserano iria naturalmente procurar reaver o que é seu. Mesmo assim não o avisamos. Então como ele chegou tão rápido? — Não sei — confessou Joseph. — Belwain! — O nome saiu em um grito de desespero. Elizabeth pulou e começou a andar de um lado para o outro. — Vosso tio? — perguntou Joseph. — Por que ele...
  13. 13. 13 — Claro! — interrompeu Elizabeth. — Ambos sabemos que meu tio estava por trás do massacre da minha família. Ele é quem avisou Geoffrey. Meu Deus, ele traiu seus próprios homens para poder ganhar a simpatia de Lorde Geoffrey. Que mentiras não deve ter contado! Joseph sacudiu a cabeça. — Sempre soube que era malvado, mas nem mesmo eu iria achar que ele chegaria a esse ponto. — Nossa causa está perdida, Joseph — sussurrou Elizabeth agoniada. — Lorde Geoffrey vai acreditar nas mentiras de meu tio. Thomas e eu vamos ser colocados sob a tutela dele, e Thomas vai morrer, pois só quando meu irmão caçula tiver morrido é que Belwain vai poder se tornar o dono legítimo do meu castelo. Só depois disso. — Pode ser que Lorde Geoffrey perceba que Belwain está mentindo — comentou Joseph. — Nunca conheci Lorde Geoffrey — disse Elizabeth —, mas sei que tem fama de ser muito genioso e bastante desagradável às vezes. Não, acho que ele não nos daria ouvido. — Senhorinha — implorou Joseph — quem sabe... — Joseph, se eu só tivesse de pensar em mim, falaria com Lorde Geoffrey e lhe imploraria que me desse atenção, pois a perfídia de Belwain precisa ser divulgada aos quatro ventos. Mas tenho o dever de proteger Thomas. Belwain pensa que eu e meu irmão morremos. Elizabeth continuou a andar de um lado para outro, diante da lareira. — Já decidi, Joseph. Amanhã partimos para Londres para nos esconder na casa do meu avô. — E Belwain? — indagou Joseph hesitante. Com medo da resposta que suspeitou que iria receber, Joseph preparou-se. Conhecia sua senhorinha muito bem. Ela não permitiria que Belwain saísse impune depois do crime que havia cometido. — Eu o mato. Uma acha de lenha chiou e um estalo alto ecoou no silêncio que se seguiu à afirmativa de Elizabeth. O velho criado sentiu um frio na espinha. Não tinha a menor dúvida de que a senhorinha faria o que estava dizendo. Contudo não havia ainda lhe comunicado todas as notícias e, pondo as palmas das mãos enrugadas contra os joelhos trêmulos, tratou de terminar a tarefa. — Thomas está em poder dos homens de Geoffrey. Elizabeth parou abruptamente de andar. — Como é possível isso? Ele está com meu avô agora. Tu o viste sair com Roland. Só pode ser um engano. — Não, senhorinha. Eu o vi no castelo com meus próprios olhos. Thomas estava dormindo diante do fogo, e era ele, sim. Vi muito bem. Depois, perguntando a um e outro, descobri que ele é considerado mudo. — Joseph levantou a mão quando viu a moça fazer menção de interrompê-lo e continuou a narrar depressa sua história. — Como ele foi parar lá eu não faço idéia. Os homens de Geoffrey não me disseram nada, mas uma coisa é certa: ainda não sabem quem é o garoto e estão cuidando bem dele. E, segundo dizem, parece que o homem que está à beira da morte foi quem lhe salvou a vida.
  14. 14. 14 — Joseph, pára com esse mistério todo. Quem é que está à beira da morte? Em sua frustração, Elizabeth jogou para trás do ombro uma mecha de cabelos dourados rebelde que lhe bloqueava a visão. Joseph, por sua vez, deixou escapar um longo suspiro, coçando a barba cerrada antes de continuar. — O líder deles levou um golpe na cabeça durante a batalha. Dizem que está agonizante. — Por que não tentou ir até o castelo, Joseph? — Maynard, o cavalariço, mandou me avisar que Thomas estava lá. Precisava confirmar isso. — Joseph explicou. — Quando me disseram que Lorde Geoffrey estava morrendo, procurei o subcomandante. Concebi um plano arriscado e... — Joseph voltou a pigarrear antes de prosseguir. — E contei-lhes que conhecia uma curandeira muito boa, e que a traria para cuidar do comandante deles com a condição de que, assim que ele estivesse curado, ela poderia ir embora ilesa. O vassalo do Lorde veio com milhares de objeções a isso, dizendo que não tinha obrigação de prometer nada, mas não arredei o pé, e no final ele concordou. Elizabeth prestara enorme atenção ao plano que Joseph lhe havia apresentado, e zangada exigiu: — E se ele não ficar bom, Joseph? O que acontece? — Só consegui planejar isso para poderes vos aproximar de Thomas. Talvez possais encontrar uma forma de libertá-lo depois que entrares. Não fiqueis assim tão zangada — suplicou o criado. — Vossa mãe cuidou de enfermos inúmeras vezes, e muitas vezes íeis com ela. Com certeza aprendestes alguma coisa. Elizabeth refletiu sobre o que Joseph lhe dizia. Parecia que havia um nó em seu estômago, enquanto se preocupava pensando o que deveria fazer. Levar Thomas para algum lugar seguro era o mais importante. Se os homens de Lorde Geoffrey soubessem quem era seu irmão, eles imediatamente o levariam para seu líder. Thomas era o herdeiro do castelo, mas, segundo a lei, seria colocado sob a tutela do tio até atingir a maioridade. E como guardião do Thomas, Belwain trataria de garantir que o único obstáculo à sua conquista do poder fosse eliminado. Lei era lei. Não, não tinha mesmo nenhuma escolha. — Teu plano é bom, Joseph. Se Deus quiser, o líder deles vai se recuperar. Se isso não acontecer, pelo menos teremos feito todo o possível. — Elizabeth fez o sinal da cruz bem devagar, e Joseph a imitou com um gesto rápido. — Se Deus quiser — repetiu Joseph como se fosse uma oração. — Se Deus quiser. — Eu me prepararei para a viagem enquanto selas minha égua, Joseph. — Um sorriso lhe abrandou a ordem. Joseph imediatamente se retirou, fechando de maneira firme a porta ao passar. Contornou a choupana e preparou sem demora o animal para sua senhora. Alguns minutos depois, já de volta, viu que Elizabeth tinha trocado de roupa e usava então um vestido azul, simples, porém muito vistoso, e exatamente da cor de seus olhos.
  15. 15. 15 Aceitou a trouxa de ervas que sua senhora lhe entregou e ajudou-a a montar. Estava agora meio arrependido de seu plano arrojado, e sua senhora percebeu sua preocupação. Elizabeth inclinou-se e deu tapinhas delicados em sua mão enrugada. — Não te preocupes, Joseph. Já era tempo de fazermos alguma coisa. Tudo vai acabar bem. Como para garantir que as palavras de sua senhora iriam se cumprir, Joseph voltou a fazer o sinal da cruz. Depois montou no capão que tinha pedido emprestado a Herman, o Careca, que era o ajudante do cavalariço, e foi na frente atravessando a floresta, o punhal desembainhado pronto para ser usado em caso de ataque ao longo do caminho. Em menos de uma hora, Elizabeth e Joseph chegaram aos portões danificados pela batalha que davam para o castelo, no alto da estrada sinuosa. Dois guardas avantajados recuaram para deixá-los entrar, mantendo distância dos ameaçadores mastins que flanqueavam o cavalo de Elizabeth. Via-se surpresa nos rostos deles; contudo nada disseram, sorrindo e olhando com sobrancelhas erguidas um para o outro quando o grupo terminou de passar em segurança. Quando os dois chegaram ao pátio, Joseph foi o primeiro a desmontar, e correu para ajudar sua senhora. Sentiu a mão dela tremer ao tocar a dele, e viu que estava com medo. Uma ponta de orgulho o dominou quando contemplou os olhos dela, pois por fora ela parecia inteiramente segura de si e tranqüila. — Sois o orgulho de vosso pai, senhorinha — sussurrou ao erguê-la da sela. Ela havia, sim, herdado a coragem do pai; Joseph sabia disso, e só desejou que Thomas pudesse vê-la agora. A verdade era que Joseph é quem estava apavorado diante do que poderia acontecer, e sua delicada senhorinha era seu tônico e calmante. O som dos homens trabalhando era alto e frenético quando eles entraram no castelo, mas um silêncio cheio de presságios se fez ao perceberem a presença dos recém-chegados, tão intenso que chegava a ser gélido. Um mar de rostos estranhos a fitava com toda a atenção. Elizabeth ficou parada ao lado do cavalo um instante, depois reuniu toda sua coragem e, de cabeça bem erguida, começou a andar em direção àquela multidão de homens que a observava. "Joseph não tinha dito que eram uns duzentos homens?", perguntou-se ela. "Ora, ele estava enganado", concluiu, "pois havia ali pelo menos duas vezes esse número. E todos de boca aberta!" A falta de educação deles não intimidou Elizabeth. O orgulho lhe fez endireitar os ombros, dando-lhe a aparência de uma rainha. O vento lhe removeu o capuz, e os espessos cachos dourados iluminados pelo sol aceitaram de bom grado a liberdade, caindo-lhe revoltos sobre os ombros. Elizabeth continuou a andar calada e digna, entrando no grande salão, parando apenas para tirar a capa e entregá-la a Joseph, sempre atento a suas necessidades. Notou que ele estava segurando sua trouxa de ervas medicinais com muita força, pois as veias das mãos dele pareciam querer saltar por causa da pressão e lançou-lhe um sorriso rápido para tentar aliviar um pouco seu nervosismo.
  16. 16. 16 Sem dar sinal de ter notado as avaliações despudoradas de todos aqueles homens, e ladeada por seus leais mastins, Elizabeth virou-se e foi entrando até chegar à grande lareira, na outra ponta do salão. Ninguém disse nada enquanto ela aquecia as mãos diante do fogo estrondoso. Ela não sentia exatamente frio, mas usou aquele tempo para se recompor antes de enfrentar seu público. Quando não teve mais como se demorar fazendo aquilo, virou-se e encarou aqueles que a admiravam. Os cães sentaram-se um de cada lado da jovem. Vagarosamente contemplou a sala. Não podia mais chamar aquele lugar de seu lar; o estandarte e a tapeçaria pendiam esfarrapados contra as paredes de pedra úmidas, lembrando-lhe que a morte havia invadido Montwright; nem uma só risada ecoou na memória de Elizabeth, só gritos de tormento lhe penetraram a alma. Essa agora era apenas uma sala vazia; ela nem mesmo conseguia se lembrar da mãe sentada ao lado do pai à comprida mesa de carvalho... Não, só conseguia ver sem parar a espada erguida, descendo, prestes a cortar o pescoço da mãe... Alguém tossiu, interrompendo-lhe as reflexões. O pesado silêncio se quebrou. Elizabeth fez força para desviar o olhar do estandarte rasgado e queimado e concentrar-se em seu público. Um soldado ruivo, atrevido e de sorriso fácil, pulou de seu lugar à mesa comprida e correu a postar-se diretamente à frente de Elizabeth, bloqueando-lhe a visão e impedindo que visse os outros. Devia ser algum escudeiro, pois era velho demais para ser pajem, mas jovem demais para ter sido sagrado cavaleiro. Seu sorriso sonso quase levou Elizabeth a sorrir também, mas ela fez questão de continuar séria. O escudeiro, fitando os olhos azuis da moça, disse em alta voz: — És belíssima. Que espécie de tratamento vais ministrar ao nosso senhor? A jovem ficou muda a essa provocação, pois não sabia como responder a tal pergunta. Então ele chamou um outro, dizendo: — Ela tem cabelos nascidos do sol. Aposto que, quando tocados, têm a textura da seda. — E ergueu a mão para tocar os cachos da moça, mas a voz dela, embora baixa, lhe cortou o gesto como uma faca. — Não valorizas tua vida? O escudeiro parou subitamente, seu sorriso desaparecendo-lhe do rosto, pois não tinha deixado de ouvir o grunhido baixo dos cães. Olhou para cada animal de soslaio, e viu o pêlo eriçado nas costas dos pescoços de ambos e os dentes brilhantes arreganhados com as pontas aguçadas como punhais prestes a atacar. Quando o jovem voltou a olhar para Elizabeth, seu rosto tinha empalidecido, e estava de cara amarrada. — Não te faria nenhum mal, pois estais sob a proteção do Falcão — sussurrou. — Não deves ter medo de mim. — Então não tenhas medo de mim — murmurou Elizabeth para que apenas ele escutasse. Depois sorriu, e a raiva do escudeiro pareceu evaporar. Ele viu que, embora os soldados tivessem
  17. 17. 17 assistido à cena, não havia possibilidade de terem ouvido a conversa. Elizabeth tinha salvado as aparências, e ele ficou grato por isso. Sorriu de novo, enquanto a moça fazia sinal para os cães, e ambos se deitaram, batendo as caudas contra os juncos que cobriam o chão.1 1 Nos castelos medievais, nos quais o piso costumava ser de terra, espalhavam-se juncos ou palha no chão para absorver a umidade. (N. T.) — Onde está seu comandante? — perguntou ela. — Se me seguires, levar-te-ei até ele — sugeriu o escudeiro, deixando transparecer a expectativa na voz. Elizabeth concordou e seguiu o rapaz. Joseph aguardava ao pé das escadas, e ela lhe lançou mais um sorriso ao aceitar a trouxa de ervas. Depois subiu correndo o lance de escadas em caracol. Era difícil, mas Elizabeth obrigou-se a tirar todas as lembranças do passado da cabeça, do tempo em que subia as escadas com suas irmãs e seu irmãozinho. A época de chorar seria depois. O futuro de Thomas agora dependia dela. No primeiro patamar, um cavaleiro visivelmente mais velho apareceu. Seu rosto anguloso estava carrancudo, e Elizabeth preparou-se para um novo confronto. — Mas és uma mulher! Se for algum truque... — Não é truque — reagiu Elizabeth. — Conheço remédios que podem ajudar seu líder e farei todo o possível para salvá-lo. — E por que nos ajudarias? — quis saber ele. — Não tenho explicação para vos dar — respondeu Elizabeth. A irritação e a fadiga lhe invadiram o corpo, mas ela tomou cuidado para não deixar transparecer tais emoções. — Desejai ajuda ou não? O cavaleiro continuou a olhá-la, apreensivo, por um pouco mais de tempo. Ficou claro para Elizabeth que ele desconfiava de seus motivos, mas ela recusou-se a acalmar-lhe os temores, permanecendo teimosamente calada enquanto o fitava nos olhos, sem desviar o olhar. — Deixa os cães aqui e segue-me. — Foi uma ordem brusca e quase ríspida. — Não — respondeu Elizabeth na hora. — Eles vão me acompanhar. Não irão causar problema algum a menos que alguém tente me atacar. Para sua surpresa, ele não discutiu, embora Elizabeth notasse que passou os dedos longos pelos cabelos castanhos agrisalhados, um gesto que ela teve certeza de que era de pura exasperação. Não a levou para o triângulo formado pelas portas que davam para os quartos à esquerda, mas dobrou à direita e, tirando a tocha acesa do suporte na parede de pedra, desceu o corredor estreito e foi
  18. 18. 18 parar em frente ao quarto que antes era dela. Duas sentinelas guardavam a entrada e ambas ergueram os olhos, surpresas, quando viram Elizabeth de relance. Com grande nervosismo, Elizabeth seguiu o cavaleiro, entrando no aposento. Deu uma olhada geral no quarto e ficou assombrada, pois estava exatamente como ela o havia deixado. Seu quarto era menor do que os outros, mas era o seu preferido, entre todos, pois era isolado e tinha uma vista maravilhosa da janelinha que dava para a floresta lá embaixo. A lareira ocupava a maior parte da parede oposta, e era ladeada por duas cadeiras de madeira com almofadas na cor azul-real que sua irmã Margareth tinha feito para ela. Seu olhar deslocou-se para o estandarte pendurado acima da lareira, seu azul combinando com as almofadas, com fios amarelo-claros entremeados que formavam o desenho de seus dois mastins. A única outra cor no estandarte era um vinho bem escuro, perto do alto da tapeçaria, delineando a figura de seu falcão de estimação. Seu coração ficou apertado, tantas foram as lembranças que a assaltaram das muitas vezes em que ela e sua mãe tinham trabalhado naquele estandarte. Não! Gritou ela mentalmente. Ainda não é a hora. Elizabeth sacudiu a cabeça, e esse gesto foi percebido por um cavaleiro que a observava. Ele também olhou o estandarte e depois se virou para Elizabeth. Tinha detectado o tormento transitório que ela procurava abafar. Especulação e curiosidade lhe surgiram nos olhos, mas ela não lhe deu muita atenção. Tinha se virado para olhar a cama e, como o cortinado azul e amarelo havia sido atado dos dois lados, pôde ver com clareza o comandante. Imediatamente ficou admirada diante do tamanho descomunal daquele homem, calculando que ele devia ser ainda mais alto que seu avô. Seus cabelos eram negros como as penas de um corvo e quase tocavam o cortinado da cabeceira da cama, ao passo que seus pés por pouco não ultrapassavam a beirada do colchão. Por algum motivo inexplicável, mesmo assim debilitado, ele a amedrontou, e ela ficou ali, paralisada, enquanto estudava suas feições severas. Era um cavaleiro muito atraente, admitiu, atraente e... inflexível. O guerreiro começou a debater-se, gemendo em voz grossa, porém fraca, e seus movimentos incitaram-na a agir. Elizabeth pôs a mão na testa bronzeada e úmida de seu paciente, afastando de leve o cabelo molhado para poder ver se ele estava febril. Sua mão branca como leite contrastava de maneira gritante com a pele profundamente bronzeada e curtida daquele homem, e o toque dela o fez parar de se mexer. — Está ardendo em febre — comentou Elizabeth. — Há quanto tempo ele está assim? — Enquanto falava, notou um inchaço acima da têmpora direita dele e apalpou-lhe a pele ao redor da intumescência com todo cuidado. O acompanhante do guerreiro ficou observando-a, carrancudo, de sua posição ao pé da cama. — Vi quando ele foi atingido. Caiu por terra e desde então está assim. Elizabeth franziu o cenho, concentrando-se. Não sabia o que fazer em seguida.
  19. 19. 19 — Não faz muito sentido — respondeu —, pois só um golpe de arma não causa febre. — Depois, ergueu-se e, com determinação na voz, ordenou: — Ajuda-me a tirar as roupas dele. Elizabeth não deu tempo ao acompanhante do doente para lhe questionar os motivos, pois na mesma hora começou a desfazer os nós das roupas, nas costas do guerreiro. O cavaleiro hesitou apenas um instante, mas depois começou a ajudá-la, puxando as calças de malha de aço da parte inferior do homem agora adormecido. Embora fizesse o maior esforço possível, Elizabeth não conseguiu remover a túnica almofadada, feita de um grosso algodão e empapada com o suor da febre, puxando-a sobre aqueles ombros imensos, então finalmente admitiu sua derrota. Instintivamente, estendeu a mão para pegar o punhal que trazia na cintura, com intenção de cortar o tecido para poder aliviar o calor do peito do guerreiro. O acompanhante, quando viu o brilho do metal, e sem entender por que ela estava fazendo aquilo, derrubou o punhal com as costas da mão. Nesse momento os cães começaram a grunhir, mas Elizabeth rapidamente os acalmou e virou-se para encarar o cavaleiro. Sua voz saiu calma e sem raiva alguma. — Embora não tenha motivo nenhum para confiar em mim, não precisa ter medo. Eu só ia cortar-lhe a camisa. — Mas para quê? — interrogou o cavaleiro frustrado. Elizabeth fez que não ouviu a pergunta e curvou-se para pegar o punhal. Cortou a túnica na altura do pescoço e rasgou a vestimenta, abrindo-a bem com as mãos. Sem olhar para o acompanhante do enfermo, exigiu que ele lhe trouxesse água fria para que ela pudesse remover o suor e aliviar a alta temperatura do corpo do homem. Enquanto o cavaleiro foi até a porta repassar essa ordem para a sentinela, Elizabeth examinou o braço e o pescoço de seu paciente, procurando possíveis ferimentos. Obrigou-se a olhar mais para baixo, e suas faces ficaram vermelhas. Percebendo que tinha corado diante da nudez de um homem, aborreceu-se consigo mesma, embora na verdade nunca tivesse visto um homem nu antes. Apesar de ser costume as filhas ajudarem a dar banho nos nobres que visitavam os castelos, seu pai não confiava muito na moral de seus amigos, e assim decretou que os criados é que ajudariam nos banhos, e não suas filhas. Contudo a curiosidade superou a vergonha e Elizabeth olhou de relance a parte inferior do corpo do homem. Ficou ligeiramente surpresa ao ver que ele não possuía a apavorante arma que ouvira dizer que todos os homens possuíam, e se perguntou se as criadas a quem tinha entreouvido não haviam exagerado ou se todos os homens seriam como aquele. Talvez ele fosse defeituoso. Então Elizabeth concentrou-se na tarefa que precisava desempenhar e cruzou seu peito. Removeu os panos limpos e rasgou o tecido em longas tiras. Quando a água chegou, começou a lavar o rosto do guerreiro, absorvendo-lhe o suor. Ele ainda estava imóvel, como se estivesse morto, pensou ela, e sua respiração irregular estava fraca demais. Havia em seu rosto uma cicatriz vermelha muito feia, que começava na beirada do olho
  20. 20. 20 esquerdo e se curvava como uma meia-lua, terminando em algum ponto atrás da orelha bem oculta pelos cabelos negros e ligeiramente encaracolados. Com o pano molhado, Elizabeth traçou com delicadeza essa cicatriz irregular, pensando que ela não era suficiente para estragar a aparência do guerreiro. Lavou o pescoço e o peito dele, notando muitas outras cicatrizes. — Esse homem tem cicatrizes demais para me atrair — comentou em voz alta. Elizabeth parou de enxugar-lhe o suor quando chegou à cintura. — Ajuda-me a virá-lo — disse ao acompanhante. Mas a paciência dele estava se esgotando a essa altura, e sua frustração ficou evidente quando berrou: — Por todos os santos, mulher! Ele precisa de cura, não de um banho. — Só dessa forma eu conseguiria saber se o golpe da cabeça foi o único que sofreu — respondeu Elizabeth no mesmo tom de voz. — Nem mesmo removestes a armadura dele. A reação do homem foi cruzar os braços, carrancudo, e Elizabeth concluiu que não iria receber nenhuma ajuda. Lançando-lhe o que esperava ser um olhar sarcástico e virando-se para o guerreiro outra vez, estendeu o braço até o outro lado da cama e agarrou a mão inerte do paciente com as suas duas mãos. Embora puxasse com toda a sua força, o guerreiro nem se mexeu. Continuou a puxar, instintivamente mordendo o lábio inferior tanta era a força que estava exercendo, mas quando achou que estava progredindo, a mão que segurava voltou à posição inicial de repente. Elizabeth se deixou levar por ela e acabou estirada sobre o peito musculoso do paciente. Procurou libertar as mãos com todas as forças, mas o cavaleiro agora as segurava com firmeza, e parecia, até dormindo, não estar disposto a colaborar. O vassalo ficou só olhando Elizabeth ali pendurada, tentando soltar as mãos, e sacudindo a cabeça o tempo todo; depois gritou: — Sai do caminho, mulher. Arrancou as mãos dela da mão do paciente e a puxou com rudeza, obrigando-a a ficar de pé. Com gesto certeiro, virou o paciente inerte de barriga para baixo. A irritação virou horror quando o vassalo viu a camisa de baixo empapada de sangue colada às costas do guerreiro, e ele recuou chocado. Elizabeth ficou aliviada ao ver o ferimento, pois isso ela sabia tratar. Sentou-se na lateral da cama e começou a remover o pus da ferida infeccionada. Quando o acompanhante do líder pôde enxergar claramente a extensão do talho diagonal, levou a mão à testa. Sem pejo de deixar as lágrimas lhe escorrerem dos olhos, sussurrou em voz angustiada: — Nunca pensei em verificar... — Não te recrimines — respondeu Elizabeth. A jovem lançou-lhe um sorriso solidário antes de prosseguir. — Agora entendo por que ele está com febre. Vamos precisar de mais água, mas dessa vez quente, fervendo mesmo, por favor.
  21. 21. 21 O vassalo concordou e correu para fora do quarto. Dentro de alguns minutos, uma chaleira soltando vapor chegou e foi posta no chão perto de Elizabeth. Elizabeth, na verdade, temia o que sabia que era preciso fazer; tinha visto a mãe fazer isso incontáveis vezes antes, com gente que tinha sofrido ferimentos semelhantes. Repetindo uma prece que pedia orientação, mergulhou uma tira de pano limpa na chaleira e fez uma careta diante do desconforto que isso lhe causou. Procurou não pensar na dor, e torceu o pano para eliminar o excesso de água. Agora estava pronta, mas ainda hesitava. — Vais ter de segurar o homem — sussurrou ela — porque isso vai causar muita dor a ele... só que precisa ser feito. — Ela ergueu os olhos azuis, fitando o rosto compenetrado do vassalo nervoso, e aguardou. O acompanhante concordou, meneando a cabeça, e pôs ambas as mãos nos largos ombros de seu líder. Mesmo assim, ela ainda hesitava. — Preciso absorver esse veneno, senão ele certamente vai morrer. — Elizabeth não sabia se estava convencendo o vassalo ou a si mesma de que a dor que estava para causar era necessária. — Pois não, minha senhora — foi a única resposta do acompanhante. Se Elizabeth tivesse escutado com atenção, talvez tivesse notado a compreensão em sua voz. Mas estava tão preocupada com o sofrimento que iria causar que nada percebeu. Dando um suspiro profundo, pôs a tira de pano soltando fumaça de tão quente bem em cima da ferida aberta. A reação do guerreiro foi rápida e furiosa. Ele procurou remover o pano escaldante das costas com uma brusca sacudidela, mas o vassalo o segurava com muita força, de modo que ele não conseguiu livrar-se daquilo que o atormentava. O grito de agonia do líder partiu o coração de Elizabeth, que fechou os olhos aflita. A porta do quarto abriu-se de supetão, e os dois guardas entraram correndo com as espadas em punho. Via-se medo e confusão em suas expressões. O vassalo sacudiu a cabeça e disse-lhes para embainharem as espadas. — É necessário. — As palavras de Elizabeth acalmaram os guardas, que recuaram para seus postos diante da porta. — Ele nunca gritaria de dor se estivesse acordado — disse o vassalo a Elizabeth. — Não sabe o que está fazendo — explicou. — Estás pensando que por expressar o que sente um homem é menos homem? — perguntou Elizabeth enquanto colocava uma segunda compressa sobre o ferimento. — Ele é um guerreiro destemido — replicou o vassalo. — A febre é que comanda os atos dele agora — respondeu Elizabeth. Diante do gesto de cabeça do homem, concordando, Elizabeth sentiu vontade de sorrir. Voltou- se outra vez para o paciente e ergueu ambas as tiras de pano do ferimento, trazendo com elas um resíduo amarelado e vermelho. Repetiu o procedimento inúmeras vezes, até que só saísse sangue vermelho da profunda lesão. Quando terminou, suas mãos estavam tão vermelhas quanto a ferida e
  22. 22. 22 cobertas de bolhas. Ela esfregou uma contra a outra para aliviar a ardência, e depois pegou a trouxa. Falando mais consigo mesma do que com o vassalo, disse: — Acho que não há necessidade de cauterizar o ferimento com uma faca quente, porque o sangue que está saindo é vermelho e sem pus, e não há hemorragia. O guerreiro estava inconsciente, e por isso Elizabeth deu graças, pois sabia que o remédio que precisava aplicar no ferimento não era nada agradável. Cobriu a lesão com uma pomada malcheirosa e aplicou bandagens nas costas do paciente, de cima até embaixo. Depois de fazer isso, o acompanhante do cavaleiro virou-o de barriga para cima, para Elizabeth, e ela deu, aos poucos, água com sálvia e beladona esmagadas, e malva para o homem tomar. Nada mais havia a fazer. Os músculos de Elizabeth doíam do esforço e, mesmo assim, ela ficou de pé e foi até a janela. Ergueu a pele de animal que cobria a abertura, bloqueando o vento, e ficou surpresa ao ver que a escuridão já havia chegado. Encostou-se, cansada, contra a pedra e deixou seu frescor revigorá-la. Finalmente, voltou-se de novo para o acompanhante do líder, notando pela primeira vez como ele parecia cansado e abatido. — Vai descansar um pouco. Eu velarei por teu senhor. — Não — respondeu ele. — Só conseguirei dormir quando o Falcão tiver se recuperado. Antes não. — Ele pôs no fogo outra acha de lenha enquanto falava. — Qual é teu nome? — indagou Elizabeth. — Roger. — Roger, por que chamas teu chefe de Falcão? O vassalo olhou para ela de onde estava, curvado diante do fogo, e respondeu, bruscamente: — Todos que lutam com ele o chamam assim. Simplesmente isso. Aquela resposta reservada não fez lá muito sentido para Elizabeth, mas ela não quis irritá-lo insistindo no assunto. Então resolveu ir direto ao que a interessava. — Dizem que há um menino aqui que não fala, e que o Falcão lhe salvou a vida. È verdade? — É. — A desconfiança voltou à fisionomia do vassalo, e Elizabeth viu que ia precisar ter cautela. — Se ele é quem estou pensando, conheço a família dele e estou disposta a levá-lo comigo quando partir. O acompanhante olhou-a pensativo. O silêncio dele quase a enlouquecia, mas Elizabeth esforçou-se para manter a calma. — Que me dizes, Roger? — Verei o que posso fazer, mas apenas o Lorde pode tomar essa decisão. — Mas se o Lorde Geoffrey sequer vem até aqui! Levaria um mês, pelo menos, até chegar a permissão de levar o garoto. Com certeza ele deve querer que o filho reencontre os pais. Não podes tomar essa decisão no lugar dele? Tenho certeza de que lhe agradaria deveras não ser incomodado, pois
  23. 23. 23 Montwright não passa de uma propriedade pequena e insignificante se comparada às outras que ele possui. — Elizabeth quase acrescentou que tinha ouvido o próprio pai dizer isso em inúmeras ocasiões. E sabia que era verdade, pois o Lorde Geoffrey nunca tinha visitado seu pai. Não, era Lorde Thomas quem sempre viajava até a residência do Lorde quando era preciso tratar de negócios. O acompanhante ficou surpreso por aquele repente dela. — Um mês? Só precisas esperar até que ele fique sem febre e acorde para lhe pedires isso — explicou. — E estás enganada, mocinha. Não existe propriedade insignificante a ponto de não merecer a inspeção de Geoffrey. Ele protege todos que lhe prestam vassalagem, do mais nobre ao mais humilde. — Estás me dizendo que o Falcão pode me dar essa permissão? Pode representar o Lorde? — perguntou Elizabeth, cheia de esperança. — Mas claro que pode — respondeu depressa à sua própria pergunta —, pois eu cuidei dele. Mereço pelo menos isso. — Ela sorriu aliviada e uniu as palmas das mãos. — Não sabes de quem cuidaste? — perguntou Roger com um sorriso ameaçando lhe repuxar os cantos da boca. Elizabeth franziu o cenho para ele e aguardou. — O Falcão é Lorde Geoffrey, senhor de Montwright. — Roger sentou-se em uma das cadeiras e apoiou os pés na outra, esperando a reação da moça. — Ele é o Lorde Geoffrey? — exclamou ela, espantada. — Pois é — confirmou Roger. Cruzou as pernas na altura dos tornozelos e sorriu. — Por que estás assim tão surpresa? Todos conhecem o Falcão — disse arrogante. — Sua reputação é famosa. — Sim, mas pensei que ele fosse idoso... mais velho do que... — indicou o guerreiro adormecido e contemplou-o durante muito tempo, meio aturdida diante daquela reviravolta. Seu pai jamais tinha mencionado que o senhor das terras era tão jovem. Elizabeth tinha só presumido que ele era velho, como os baronetes que havia conhecido. Recostando-se na pedra fria, olhou de novo para Roger. Ele parecia estar achando graça da ignorância dela. — Ele é o mais jovem e poderoso dos barões súditos de Guilherme — respondeu Roger. O orgulho sobressaiu-se nessas palavras. — Se teu senhor sarar, vai me retribuir o favor, não vai? — indagou Elizabeth. Rezou depressa para que isso fosse verdade, que Geoffrey fosse um homem honrado, pois aí talvez ele lhe desse ouvidos. Podia convencê-lo da vileza de seu tio. Precisava convencê-lo. Se ele recuperasse a saúde... Uma batida alta na porta interrompeu os pensamentos de Elizabeth. Roger fez-lhe sinal para ficar onde estava e foi abrir a porta. Falou sussurrando com as sentinelas, depois voltou até onde estava Elizabeth. — Teu criado deseja falar contigo. Elizabeth concordou e seguiu uma sentinela até o fim do corredor onde Joseph estava esperando de pé. Ela seria capaz de jurar, pela expressão dele, que estava aflito.
  24. 24. 24 — Joseph, estou cuidando do Lorde em pessoa — anunciou. — Pois está — disse Joseph. Aguardou até a sentinela sair de perto e não poder mais ouvir, antes de continuar: — Ele vai ficar bom? — Ele tem uma boa chance — disse Elizabeth. — Agora precisamos pedir a Deus que nos ajude. Ê a única esperança para o Thomas — acrescentou. Joseph franziu ainda mais a testa, e Elizabeth sacudiu a cabeça. — Isso é bom, Joseph. Será que não consegues entender que o Lorde vai estar me devendo um favor, seja eu uma mulher ou não? Vai ter de atender ao meu pedido... — Mas o substituto do comandante, — disse ele indicando o quarto dela — o vassalo... — O nome dele é Roger — informou Elizabeth a seu criado. — Ele mandou chamar Belwain. — Como disse? — gritou Elizabeth. Acalmou-se e continuou: — Por quê? Como sabe disso? — Herman, o Careca, ouviu as ordens dele. Os mensageiros partiram faz uma hora. Juro — disse ele quando Elizabeth começou a sacudir a cabeça. — Belwain vai estar aqui dentro de uma semana ou pouco mais. — Meu Deus do céu — murmurou Elizabeth. — Ele não pode chegar antes de eu falar com Geoffrey. — Agarrou a manga do criado, com pânico na voz, e prosseguiu depressa: — Precisamos esconder Thomas. Precisamos levá-lo para longe daqui até eu poder ter certeza de que Geoffrey vai deixá-lo vir comigo. Belwain não pode saber que ainda estamos vivos, de jeito nenhum. — Impossível, senhorinha. Belwain vai saber assim que entrar aqui. Muitos a viram voltar. Ele vai saber. E é apenas uma questão de tempo antes de Roger descobrir a verdade. — Preciso pensar — murmurou Elizabeth. Percebeu então que estava puxando a túnica do criado e soltou-a. — Fala com Herman. Ele é fiel e vai guardar segredo. E ele é livre, Joseph. Os dois, tu e ele, precisam levar Thomas embora daqui, escondê-lo. Há muitos lugares que podem servir de esconderijo. Podes fazer isso? — Posso — respondeu Joseph, endireitando os ombros. — Não vos decepcionarei. Encontrarei um esconderijo. Elizabeth concordou, depositando toda sua confiança em seu humilde criado. Ele não a decepcionaria. — Vai ser só durante algum tempo, até Geoffrey despertar — disse ela. — Mas e a senhorinha? Se o Lorde não despertar, se os espíritos do sono continuarem a retê-lo, e Belwain chegar aqui... se o Lorde morrer... — Vou ter de partir — disse Elizabeth, mais para si mesma do que para Joseph. — Não vou mais estar aqui quando Belwain chegar. Se o Lorde acordar logo, talvez eu possa falar com ele antes de
  25. 25. 25 Belwain ter a oportunidade de lhe contar suas mentiras. — Estremecendo, ela prosseguiu: — Se não, se ele morrer, deves trazer Thomas para mim. Vamos dar um jeito qualquer de chegar à casa do pai da minha mãe. Ele vai saber o que fazer. — Voltareis para a cachoeira? — perguntou Joseph, a voz temerosa. Não ia poder acompanhá-la, já que tinha recebido a incumbência de levar Thomas, e sua preocupação com sua senhora era tremenda. — Não, ficarei aqui — murmurou ríspida. — Belwain violou estes muros. Não vou ficar aqui até ele voltar. Não mesmo. Ele aguardou sua senhora acalmar a respiração. A mudança que ela sofria sempre que mencionava o nome do tio amedrontava o velho. Ele sabia que ela tinha testemunhado a chacina, compreendia a aflição e o tormento que lhe despedaçaram a alma, e, vendo tudo aquilo, tinha a convicção de que Belwain estava por trás do crime. Mesmo assim ele desejava que ela pudesse falar-lhe o que tinha acontecido, que lhe contasse o que houve, para expressar sua dor... Era tão diferente de suas duas meias-irmãs, Margaret e Catherine. Talvez fosse porque era meio saxã. Quando Mestre Thomas chegou a Montwright com suas duas irmãzinhas, era um homem desiludido e amargo. Mas tudo mudou em seis meses, pois ele conheceu uma bela loura saxã e se casou com ela. Sua esposa saxã era rebelde, sem dúvida, mas Thomas sabia como lidar com ela, e logo todos viram que o casal estava se entendendo. Um ano depois, nasceu a pequena Elizabeth. Thomas, pensando que não estava destinado a ter um filho, dedicou todo seu amor à sua filhinha de olhos azuis. Entre eles existia um vínculo especial, e quando, dez anos depois, nasceu o pequeno Thomas, este vínculo ainda continuou forte. Embora Elizabeth não tivesse herdado os traços masculinos do pai, tinha seus modos reservados, seu jeito de esconder os sentimentos. Tanto Catherine quanto Margaret demonstravam claramente tudo que sentiam para todo mundo ver, mas não Elizabeth. Joseph acreditava que Elizabeth era o fio que mantinha a família unida. Era de uma lealdade a toda prova, o orgulho de seu pai quando cavalgava a seu lado na caça, a frustração da mãe quando tentava costurar alguma coisa. É, a família tinha vivido muito feliz e satisfeita, até agora... — Eu vos contei que Herman mandou três homens ao castelo de Belwain? Talvez eles possam obter as provas que precisamos, pois se falarem com os criados de Belwain... — Herman é um bom homem — interrompeu Elizabeth. A voz dela agora tinha se acalmado, e o criado soltou um leve suspiro de alívio. — Mas não acho que os criados de Belwain dirão a verdade. Todos têm muito medo dele. Joseph, diz ao Herman que lhe agradeço por seu esforço — murmurou Elizabeth. — Ele também adorava vossa família, senhorinha. Foi Thomas que o libertou. Éreis muito pequena e provavelmente não vos lembrais, mas Herman não vai se esquecer da dívida de gratidão que tem para com os Montwrights.
  26. 26. 26 — Sim — respondeu Elizabeth. — Ouvi falar disso. — Sorriu e acrescentou: — Não conseguia entender por que todos sempre se referiram a Herman como o Careca, pois a cabeça dele é coberta de uma cabeleira espessa, e meu pai ficava muito constrangido sempre que eu lhe perguntava o motivo. Joseph presumiu que ela ainda não sabia o motivo e corou. Esperava que a jovem não tornasse a pedir-lhe explicações sobre isso. Era uma piada boba de homem, e ele com certeza não iria ofender os delicados ouvidos de sua senhora com a verdade. A lembrança feliz de seu pai ajudou a melhorar o humor de Elizabeth. Ela sussurrou: — Vamos conseguir passar por tudo isso, Joseph. Agora preciso voltar para o quarto do Lorde. Reza, Joseph. Reza para que Geoffrey fique bom. Reza para ele me atender. Reza e tem fé. Ela deu um tapinha carinhoso no ombro caído do criado e voltou devagar para o quarto. Seu estômago estava virado outra vez, e ela procurou evitar o vômito. A idéia de Belwain voltando para Montwright era revoltante. Se ela não precisasse pensar em seu irmão caçula, teria até achado bom, pois planejaria uma armadilha e receberia Belwain com um abraço caloroso e uma faca em punho. Ela iria dar tempo ao tempo. Iria se vingar sim. Sua resolução a mantinha ereta, os passos firmes. Mantinha-a lúcida naquele momento insano. O sabor da vingança e o dever de proteger seu irmãozinho. Só quando seu irmão estivesse a salvo e suas terras longe das garras do tio, e só quando Belwain pagasse com a vida por seus pecados mortais, só aí é que Elizabeth iria permitir que o abismo da desolação que se apresentava, escancarado, diante de si a engolisse. Só depois disso. Quando Elizabeth abriu a porta do quarto, viu seus dois mastins vigiando o Lorde, um de cada lado da cama. Eles tinham resolvido proteger o guerreiro, pelo visto, pois se encontravam atentos e vigilantes. Ela voltou a sentar-se no banco de madeira ao lado da cama, e a passar uma vez mais o pano úmido na testa dele. Durante mais dois dias e duas noites Elizabeth continuou sua vigília ao lado do senhor. Ela trocou as ataduras inúmeras vezes, dizendo o Pai-Nosso doze vezes a cada mudança, e toda vez ela salpicava malva e sálvia2 no ferimento em cicatrização, exatamente como sua mãe tinha lhe ensinado. 2 No original está marrow em vez de mallow, que foi o primeiro remédio que ela usou e se traduz como "malva". Marrow é tutano, o que seria improvável. Provavelmente deve ter sido um erro de impressão. (N. T.) Tomava suas refeições no quarto, e só saía do lado do guerreiro quando absolutamente necessário. Em uma dessas ocasiões, ao descer as escadas, viu Thomas no salão. Ele olhou para cima de relance e, naquele segundo fugidio, Elizabeth entendeu que ele não sabia quem ela era. Não deixou que isso a perturbasse, pois haveria muito tempo no futuro para ajudá-lo a se recuperar. E talvez até fosse bom que o pequeno Thomas não se lembrasse de nada. Ele também tinha visto a família ser assassi-
  27. 27. 27 nada, e, se Deus era mesmo bom e misericordioso, talvez nunca mais se lembrasse do que havia presenciado. Elizabeth voltou sua atenção para Joseph, de pé ao lado do irmãozinho. O criado lançou um olhar significativo para o menino, depois fez sinal para Elizabeth. Com um meneio quase imperceptível da cabeça, Elizabeth entendeu que ele faria tudo o que fosse necessário, e foi cuidar de sua vida. Tinha resolvido que só poderia esperar mais um dia. Depois iria embora. E naquela noite, enquanto os soldados estivessem dormindo, Joseph levaria Thomas embora. Se ao menos o Lorde colaborasse! Se pelo menos despertasse e atendesse ao seu pedido... Com esses pensamentos, Elizabeth retornou para a cabeceira de seu paciente. Roger tinha assumido a tarefa de cuidar dos cães, providenciando comida e exercício para eles, uma tarefa que detestava, pois fazia tudo resmungando. O motivo era o comportamento esquisito dos mastins sempre que ele se aproximava do cavaleiro adormecido. — Agem como se eu fosse capaz de ferir meu amo — resmungou ele aflito. — Procuram protegê-lo — disse Elizabeth sorrindo. Também estava surpresa diante da óbvia lealdade dos animais para com o guerreiro, e não tinha explicação alguma para o comportamento de seus cães. Várias vezes, no segundo dia, Roger deixou-a a sós com seu amo, e Elizabeth reconheceu que tinha finalmente conquistado sua confiança. No meio da segunda noite, Elizabeth, sentada ao lado da silhueta adormecida, voltou a pegar o pano úmido e lhe banhar a testa. O guerreiro agora dormia profundamente, parecendo não sentir mais dor nenhuma que lhe perturbasse o sono, e sua respiração não era mais superficial. Elizabeth estava gostando desse progresso, mas achava que a febre ainda persistia. — Que espécie de homem és tu — murmurou ela — ao qual tantos juraram lealdade? — Depois fechou os olhos embalada pelo silêncio, mas, quando os reabriu, ficou assustada ao ver os olhos de um intenso castanho-escuro do guerreiro a fitá-la. A reação de Elizabeth foi instintiva; estendeu a mão para tocar-lhe a testa. Com a mão esquerda, ele interceptou a mão da moça e, devagar, com toda a facilidade, puxou-a contra si. Quando os seios dela estavam comprimidos com força contra o peito nu dele e os lábios de ambos estavam a apenas alguns centímetros de distância, ele falou: — Protege-me bem, ninfa. Elizabeth sorriu ao ouvir essas palavras, certa de que ele estava delirando. Continuaram a se entreolhar durante alguns segundos, que pareceram uma eternidade, e aí a outra mão do Lorde subiu e tocou a nuca da moça. Com uma suave pressão, ele obrigou os lábios de ambos a se encontrarem. A boca dele era quente e macia, e a sensação não era desagradável, pensou Elizabeth. Assim que começou, o beijo casto terminou, e uma vez mais eles se entreolharam.
  28. 28. 28 Elizabeth não conseguia tirar os olhos dele, pois os dele — belos, aveludados e escuros, como seus cabelos — pareciam hipnotizá-la, tanta emoção expressavam. Como uma criança que sabe que não será descoberta, Elizabeth ficou mais atrevida e cedeu a sua imensa curiosidade, passando com delicadeza as mãos por trás do pescoço do cavaleiro, envolto em seus cabelos. A maciez contra os músculos firmes a surpreendeu, e ela começou a massagear lentamente o pescoço dele. Continuavam a fitar-se. Se Elizabeth fosse mais astuta, teria notado que os olhos dele não exibiam mais o brilho da febre. Tomou uma decisão. Dessa vez foi ela quem o puxou para si e tocou-lhe a boca com seus lábios, em uma carícia suave e delicada. Não sabia como proceder, pois não entendia nada da arte do amor, e parecia uma criancinha inexperiente dando seus primeiros passos cautelosos ao beijá-lo. Uma sensação de calor e formigamento começou a espalhar-se por seus membros, e ela gostou dessa sensação inédita. Depois que satisfez sua curiosidade, tentou afastar-se, mas o Lorde não a abraçava mais de modo passivo. Apertou-a mais, e tornou-se o agressor, sua boca subitamente dura e exigente, ao enfiar a língua entre os lábios entreabertos dela, machucando-os ao atacar. O corpo de Elizabeth reagiu depressa a esse ataque sensual, e ela procurou tocar a língua dele com a sua, dando início a um duelo velho como o tempo. Foi um momento fantástico. Sentimentos que Elizabeth não sabia que possuía lutaram por serem reconhecidos, impelindo-a a avançar nessa missão insaciável. Alarmada, mais por sua reação desinibida do que pelo ataque dele, Elizabeth contraiu-se e recuou, livrando-se do abraço dele, o qual rapidamente esmoreceu. Ela procurou com todas as suas forças controlar o tremor que lhe dominara o corpo, esfregando os lábios inchados com os dedos, olhando para tudo à sua volta, menos para o rosto dele, pois sabia que tinha as faces coradas de vergonha. Finalmente, obrigou-se a olhar de novo para o rosto do homem e suspirou aliviada. O guerreiro estava adormecendo. Dentro de segundos seus olhos se fecharam. Rindo baixinho, murmurou: — Estais ardendo em febre, meu senhor, e não vos lembrareis de nada disso. Para sua consternação, o guerreiro sorriu devagar.
  29. 29. 29 CAPÍTULO 2 No sexto dia, o Lorde despertou. A névoa do sono induzido por medicamentos demorou a esvair-se, e, depois dela, confusão e desorientação momentâneas toldaram a mente do guerreiro. Ele abriu os olhos, viu a brilhante luz solar e procurou distinguir o que lhe era possível de onde estava. Parecia tão familiar, e, no entanto, era tudo novo e estranho. Franziu o rosto másculo diante das cenas da batalha que se desenrolaram por um instante diante de seus olhos, interferindo em sua necessidade de saber o que tinha ocorrido depois. Com um gemido de frustração, o cavaleiro virou-se de barriga para cima. Uma dor penetrante, bastante parecida com o golpe de espada sofrido do inimigo, subiu-lhe pelas escápulas, e ele inspirou o ar com força procurando deter os tremores que lhe abalaram o corpo. O breve tremeluzir da dor em seus olhos foi a única manifestação do ferimento que ele deixou escapar, pois o sofrimento era uma constante aceita em sua vida. Expressá-lo era debilitar-se. A força, invencível e absoluta, era o poder de Lorde Geoffrey, e a fraqueza, a odiada antítese, era algo que apenas os fracos conheciam. — Bem-vindo de volta ao mundo dos vivos, meu senhor. — A voz áspera de seu fiel vassalo, Roger, removeu a severa expressão de concentração do rosto do cavaleiro. Agora ele iria obter algumas respostas. Meneou a cabeça, notando a aparência abatida de seu vassalo. A prova da vigília de seu acompanhante durante sua doença era evidente. Sua lealdade agradou ao suserano. — Que dia é hoje? — perguntou Geoffrey, a voz rouca por causa do sono. — Seis dias se passaram desde que caístes ferido pelo inimigo — respondeu Roger. O Lorde franziu o cenho diante dessa informação, olhando de relance ao seu redor, uma vez mais, enquanto formulava algumas perguntas mentalmente. Seu olhar se deteve no estandarte acima da lareira. Durante um longo momento de silêncio, Lorde Geoffrey examinou com todo o cuidado aquele desenho. De repente, a lembrança de sua "visão" bloqueou todos os pensamentos, todos os movimentos. Ela estava viva, existia de verdade, e as cenas do que havia se passado naquele quarto eram tão claras e recentes quanto o novo dia. — Onde está ela? — Vós vos lembrais? — A voz do vassalo deixou transparecer a surpresa. — Sim — respondeu Geoffrey baixinho. — Traga-a à minha presença. — A ordem áspera após o reconhecimento terno abalou Roger. — Ela já foi embora.
  30. 30. 30 O brado de indignação que Lorde Geoffrey emitiu se fez ouvir no pátio abaixo daquele andar, e era ao mesmo tempo intimidador e um tanto animador. Expressava claramente seu desprazer com algum assunto, mas também que ele estava bem melhor. Roger aturou as reprimendas do senhor com uma facilidade de quem está acostumado com esses repentes, sabendo muito bem que aquele rompante logo se abrandaria, e depois teria a oportunidade de explicar tudo. Lorde Geoffrey tinha um temperamento difícil, um pavio curtíssimo, mas era um homem bom. Era preciso aguardar que a raiva passasse (contanto que a pessoa fosse corajosa o suficiente para isso, refletiu Roger) para poder então apresentar seus motivos. A ordem finalmente veio. — Comece do princípio, sim, Roger. Conte-me tudo. A narrativa de Roger foi rápida e sem interrupções. Só quando ele terminou de contar a história toda foi que fez uma pausa para respirar, pois embora já fizesse quase cinco verões que servia a seu senhor, ainda tinha o poder de lhe prejudicar o raciocínio perfeito quando estava transtornado, como parecia estar neste momento. — Meu senhor, eu teria feito um pacto com o próprio capeta e atendido a todas as condições que ele me propusesse para salvar sua vida. — Disse isso com o ardor de quem fala a mais pura verdade, e Geoffrey não teve como criticá-lo. Sua lealdade era absoluta. — Mesmo assim, tentei descobrir onde ela morava. Mas ninguém daqueles a quem perguntei parecia conhecê-la. — Eles estão dizendo a verdade? — Acho que não. Acho que estão tentando protegê-la, mas não entendo por quê. — O menino que ela pediu para levar... traga-o a minha presença — exigiu Geoffrey. Obrigou-se a controlar sua frustração e alarme. Ela havia ido embora! Estava além dos muros, desprotegida... Roger correu até a porta e deu a ordem a uma das sentinelas. Depois voltou até a cadeira diante da lareira e sentou-se. — O menino quase escapou — começou ele, sacudindo a cabeça. — Um dos guardas interceptou o criado da moça tentando seqüestrar o garoto. Eu interroguei o criado, mas ele não quis me dizer nada. Achei que devia esperar que o senhor me dissesse o que pensa de tudo isso. — O garoto vai me dizer o que eu preciso saber — respondeu Geoffrey. — Ele continua se recusando a falar, meu senhor. Como... — Não me questione — interrompeu Geoffrey rispidamente. — Eu preciso ter certeza. Dentro de poucos minutos, o menino já estava diante do Lorde. Ele não demonstrou medo nem timidez, enfrentando os olhos perscrutadores do líder com um sorriso rasgado. O Lorde achou graça na ausência de medo do menino, pois homens já feitos costumavam tremer na base quando Geoffrey
  31. 31. 31 voltava sua atenção para eles; no entanto, aquele pirralho agia como se estivesse para ter um ataque de risinhos juvenis. Estava de roupas de camponês e precisando de um banho. O menino não demonstrou medo algum. Na verdade, estava mesmo era encantado, pois o homem que tinha salvado sua vida, o guerreiro que tinha eliminado o bando de malfeitores que havia emboscado seus protetores no caminho para Londres, finalmente tinha despertado. A memória do menino começava com Lorde Geoffrey, e embora o guerreiro não tivesse como saber isso, ficou impressionado diante da aceitação inocente e da confiança nos olhos do garoto. — Não vais morrer ainda? — perguntou o menino. Tanto Roger quanto Geoffrey demonstraram surpresa diante do fato de que o rapazinho sabia falar, mas antes que qualquer um dos dois pudesse tecer algum comentário sobre isso, o garoto continuou. — Todos sorriram quando ouviram o senhor gritar. O menino parecia tão aliviado e tão seguro de si que Lorde Geoffrey, sem sentir, começou a sorrir. — Diz-me qual é teu nome — ordenou asperamente. O menino abriu a boca, franziu o cenho e depois sacudiu os ombros. Sua voz revelou surpresa quando ele respondeu: — Não sei qual é meu nome. — Sabe de onde veio, como veio parar aqui? — foi a pergunta que Roger fez, e o menino virou- se para encará-lo. — Ele me salvou — disse o pirralho apontando para Geoffrey. — Foi assim que vim parar aqui — explicou. — Eu vou ser cavaleiro. — Os ombros do menino se endireitaram com orgulho. Ele mesmo é quem tinha chegado a essa conclusão. Lorde Geoffrey e Roger entreolharam-se e voltaram a olhar para o garoto. — A quem pertences? — indagou o cavaleiro, embora já adivinhasse a resposta. — A vós? — O garoto não parecia mais tão seguro de si. Uniu as mãozinhas e apertou-as, esperando a resposta. O guerreiro não deixou de perceber o gesto de nervosismo. Raramente falava com alguém tão jovem, mas o instinto de proteger o impeliu. — Muito bem — respondeu estremecendo por dentro diante da aspereza em sua própria voz. — Agora pode se retirar. Conversaremos outra vez mais tarde. O menino pareceu ficar aliviado. O Lorde o observou ir até a porta, desejando que ele sorrisse em vez de ter o cenho franzido, e se perguntando por que se sentia assim. A febre devia tê-lo deixado fraco de espírito, assim como fisicamente, imaginou ele. — Meu senhor? — perguntou o menino da porta, de costas para o líder de forma que ele não pudesse lhe ver a expressão.
  32. 32. 32 — Sim? — respondeu o Lorde impaciente. — O senhor é meu pai? — Aí ele se virou e Geoffrey pôde ver claramente o tormento e a confusão no rosto do menino. — Não. Sua resposta encheu os olhos do menino de lágrimas. Lorde Geoffrey olhou para Roger de relance, com cara de "e agora?". Roger pigarreou e murmurou para o garoto: — Ele não é seu pai, menino. Ê seu suserano. Seu pai era vassalo dele. — Meu pai morreu? — Sim — respondeu Geoffrey. — E agora estás sob minha responsabilidade. — Para treinar para ser cavaleiro? — perguntou o menino, franzindo o cenho. — Sim, para treinar para ser cavaleiro. — Não sois meu pai, mas sois meu suserano — disse o menino, com toda a naturalidade. — É quase a mesma coisa — anunciou, por fim, desafiando Lorde Geoffrey com um olhar firme. — Não é? — Ê — respondeu exasperado o guerreiro. — Ê a mesma coisa. Nem o Lorde nem Roger disseram outra palavra até a porta se fechar atrás do menino. Eles o ouviram gabar-se para as sentinelas à porta, e Roger foi o primeiro a sorrir. — Esse aí certamente dava um trabalho danado ao Thomas — disse, risonho. — E ele não era mais tão jovem assim quando o menino nasceu, se não me falha a memória. — Como pudemos nos esquecer disso? — perguntou o senhor. — Thomas teve várias filhas, e já estavam todas crescidas quando a esposa lhe deu um menino. Até em Londres ouviram falar disso, de tão orgulhoso que ele ficou. — E a moça? — perguntou Roger. — È irmã dele. Ê só olhar os olhos do menino, Roger, para ver a verdade. Ê a exata reprodução dos dela. — Geoffrey sentou-se na cama e tentou ficar de pé. Suas pernas fraquejaram, mas ele as apoiou contra o lado da cama e inspirou profundamente, procurando revigorar-se. — Ela está se escondendo de mim, Roger, e quero saber por quê. — Disseram-nos que toda a família foi assassinada — disse Roger. — E o menino estava vestido como camponês... — Obviamente para se proteger, pois ele é herdeiro de Montwright... — O criado que tentou levar o garoto talvez possa elucidar este enigma — sugeriu Roger. — Claro. Tenho certeza de que ele sabe onde sua senhora está se escondendo — concordou Geoffrey. — Ele vai me dirá do que ela tem medo. — Medo? — riu-se Roger. — Duvido que ela sinta medo de alguém ou de alguma coisa neste mundo. Ora, ela conseguiu pôr todos para fazer o que ela mandava. Horace conta a quem quiser ouvir como a jovem dos cabelos dourados entrou no salão toda empertigada e encantou a todos que estavam presentes. Todos, menos eu — acrescentou Roger.
  33. 33. 33 — Não ficaste encantado com ela? — indagou o guerreiro, erguendo uma das sobrancelhas. — Eu me senti foi humilhado — admitiu Roger com um sorriso encabulado. — Sou velho demais para me deixar encantar. Geoffrey achou graça e foi olhar pela janela. Ficou contemplando a floresta enquanto escutava Roger falar. — Quando a vi pela primeira vez, fiquei furioso. Não esperava que uma mocinha daquelas viesse cuidar do senhor, e me convenci de que irias mesmo morrer. Mas ela sabia o que estava fazendo. A coragem dela me intrigou. Ela era uma contradição — admitiu Roger —, mas notei a fragilidade dela quando me perguntou sobre o menino. Eu estava cansado demais naquela hora para somar dois e dois. Agora sim dava para entender tudo. — Mas por que ela foi embora se sabia que seu lar tinha voltado a ser um lugar seguro? Por que se arriscou a ficar fora destes muros quando teria sido protegida aqui? — Geoffrey, ainda à janela, virou-se e acrescentou: — Vou encontrá-la, custe o que custar... — E quando a encontrar? — perguntou Roger. — Eu a farei minha — respondeu o guerreiro com uma voz firme e decidida. — Ela será minha. A promessa estava feita. Levou menos de uma hora para que se cumprisse a missão de restabelecer a ordem em Montwright. Roger tinha sido muito eficiente, e os homens trabalhavam arduamente reforçando as muralhas. Lorde Geoffrey vestiu-se — todo de preto, de acordo com sua disposição — e aguardou impaciente no salão o criado que seria trazido à sua presença. Estava a ponto de se descontrolar de tanta raiva, frustração e preocupação. Encontrar aquela moça antes que ela sofresse algum tipo de atentado estava se tornando uma obsessão. Ele admitia isso, mas não conseguia explicar o porquê. Só sabia que vê-la na floresta antes da batalha para retomar o castelo de Montwright tinha sido mesmo um presságio, que havia se concretizado. Afinal, quando despertou, não a viu cuidando dele? Seu raciocínio beirava a superstição, porém mesmo assim ele não conseguia controlar seus pensamentos e pela primeira vez, em seus 27 anos, se via levado pelas emoções. Reconhecer isso lhe dava um frio na espinha. Emoções não tinham lugar em sua vida. Elas obscureciam a razão. Disciplina e lógica, tão frias e aguçadas quanto a lâmina que ele brandia em nome do poder, ditavam-lhe todas as ações. E seria assim outra vez, jurou ele, assim que aquela jovem fosse encontrada. Encontrada e conquistada. — Aqui está ele, senhor — disse Roger da porta. E empurrou o criado trêmulo para diante do senhor. Lorde Geoffrey virou-se de sua posição em frente à lareira e lançou um olhar firme ao criado. — Qual é teu nome? — Chamo-me Joseph, meu senhor. Servo leal do senhor Thomas — acrescentou. O criado ajoelhou-se e abaixou a cabeça, demonstrando seu respeito.
  34. 34. 34 — Tens uma forma estranha de provar tua lealdade a Thomas — disse Geoffrey rispidamente. — Tentar levar o herdeiro dele para fora daqui pode te custar a vida. — Não pretendia fazer-lhe mal, meu senhor — sussurrou Joseph. — Estava tentando protegê-lo. — Protegê-lo de mim? — o berro de Geoffrey aterrorizou o criado. Ele sacudiu a cabeça e tentou encontrar a voz. — De jeito nenhum, meu senhor! Só pretendíamos levar o pequeno Thomas para algum lugar seguro enquanto o senhor se recuperava. — E acharam que aqui é perigoso para ele? — perguntou Geoffrey. — Ouvimos dizer que tinham mandado chamar Belwain, tio de Thomas e de minha senhora. Ela acha que foi Belwain quem mandou assassinar sua família e não queria que Thomas estivesse aqui quando o tio chegasse. — E foi por isso que ela foi embora? — perguntou Geoffrey, esfregando o queixo, pensativo. — Foi, meu senhor. — Joseph deixou os ombros caírem, e arriscou um olhar para o homem atemorizador diante de si. — E tu és leal a mim? — indagou Geoffrey. — Sou, meu senhor — respondeu Joseph, pondo a mão no peito onde seu coração batia disparado. — Então, levanta-te e prova tua lealdade — exigiu Geoffrey asperamente. Joseph obedeceu de imediato. Ficou de pé, com a cabeça ligeiramente baixa, e esperou a próxima ordem. Esta não demorou a ser dada. — Dize onde tua senhora está se escondendo. — Perto da cachoeira, mais ou menos uma hora a cavalo daqui, meu senhor — respondeu Joseph sem hesitar. — Quando ela souber que despertastes, voltará para falar convosco — previu. — O nome dela, qual é? — indagou Geoffrey, embora seu tom agora não fosse mais tão ríspido, já que sabia que o criado iria colaborar. — Ela se chama Elizabeth, e é a filha caçula do meu senhor — respondeu Joseph. As mãos dele começaram a doer, e só aí percebeu que estava apertando uma contra a outra. Soltando um suspiro profundo e trêmulo, tentou acalmar-se. — Ela estava aqui quando o ataque começou? — Sim, senhor — respondeu Joseph, tremendo ao se lembrar do fato. — Todos, menos a senhorinha Elizabeth e o irmão, foram assassinados. Consegui ajudá-los a escapar, mas infelizmente só depois que eles testemunharam o assassinato da mãe...
  35. 35. 35 — Eu sei — interrompeu Geoffrey. — Recebi a lista dos mortos... e o modo como morreram também me foi relatado. — Sua boca expressou desgosto ao lembrar-se da recente descrição feita por Roger dos corpos mutilados. — E dizes que ela testemunhou isso? — Ela e o irmão. Ouvi dizer que o pequeno não disse uma palavra desde a chacina. Até hoje — corrigiu-se. — E ele parece não se lembrar do ocorrido. — Sabes quem ordenou esse ataque? — perguntou ele ao criado. — Não consegui reconhecer nenhum deles, pois vários deles usavam máscaras. Mas minha senhora crê que Belwain é o responsável. Com sua permissão, meu senhor, vou trazê-la à vossa presença. — Não — ordenou Geoffrey. — Eu é que vou trazê-la de volta. A voz de Roger interrompeu a discussão. — Meu senhor, o sacerdote chegou. Geoffrey concordou, suspirando de alívio por dentro. Embora os mortos tivessem sido sepultados, ainda não tinham recebido bênção alguma. — Dá-lhe tudo o que seja necessário, Roger. Ele vai ficar aqui até eu voltar. — Posso mostrar-vos o caminho até a cachoeira, meu senhor? — a voz tímida de Joseph chamou a atenção de Lorde Geoffrey outra vez para ele. — Não — respondeu Geoffrey. — Eu vou sozinho. O pai dela era um vassalo leal. E meu dever. Foi um desserviço à tua senhora ficares calado, mas não te recriminarei, pois ouvi falar da tendência que ela tem para a teimosia. E tu lhe salvaste a vida. Não esquecerei isso! Mesmo assim, a responsabilidade por seu bem-estar agora é minha. Tu cumpriste o teu dever. Joseph sentiu como se um peso tivesse sido tirado de seus ombros. Ficou olhando Lorde Geoffrey sair a passos largos do salão, pensando que Elizabeth ficaria mesmo bem protegida. Lorde Geoffrey dava a impressão de ser um homem de aço, avaliou Joseph, e sua força seria o escudo de Elizabeth contra todos que tentassem fazer-lhe mal. Contudo restava ainda uma dúvida que incomodava Joseph, cutucando-o bem lá no fundo: quem protegeria lady Elizabeth de Lorde Geoffrey? Nem uma nuvem sequer toldava o horizonte quando Geoffrey seguiu rumo à floresta procurando a tal cachoeira. Já havia cavalgado bem uma hora quando o som de água corrente, ecoando através da luxuriante folhagem verde, chamou-lhe a atenção. Desmontou depressa e atou as rédeas do cavalo ao galho de árvore mais próximo, começando a abrir caminho no mato. A névoa produzida pela água que caía, misturada ao calor do sol da tarde, formava um manto de vapor que lhe cobria as botas. Ele sabia, pela descrição de Joseph, que a choupana estava bem escondida dentro de um capão de mato, logo depois do lago formado pela cascata. Ia nessa direção, quando ouviu um som de espadanar de água, seguido de uma leve tosse, e se deteve. Geoffrey num impulso sacou a espada e virou-se, esperando outro som que lhe desse vantagem sobre o inimigo, quando percebeu o reluzir de algo dourado entre os ramos. Deslocou-se ligeiramente para ver melhor. Prendeu a respiração quando
  36. 36. 36 percebeu o que era. Sua visão — a donzela dourada, como seus homens a tinham tão apropriadamente apelidado — elevou-se da água, como a deusa Afrodite. Ficou admirando-a, hipnotizado, enquanto ela se deslocava para a parte mais rasa da piscina, ficando de pé. Suas pernas estavam afastadas, e ela estendeu os braços acima da cabeça em um movimento vagaroso, sem pressa. Raios de sol passavam pelas copas entrelaçadas das árvores, banhando de ouro a sua deusa. Com um movimento lento e gracioso, Elizabeth afastou os cabelos da testa. Suspirou, feliz por viver esse momento, apreciando a quentura do sol em seus ombros e o frio contrastante da água transparente batendo-lhe nas pernas. Ela obrigou-se a bloquear todos os pensamentos, todas as preocupações. Em seu coração, sabia que seu servo fiel iria mover céus e terras para esconder Thomas dos olhos de Belwain, até que Geoffrey pudesse lhe dar sua palavra. Mas a espera... estava se tornando insuportável. Talvez a febre tivesse voltado, e o guerreiro tivesse morrido. Talvez Belwain tivesse chegado a Montwright e convencido a todos de que não tivera nada que ver com a chacina. Pára com isso, instou ela. Não há nada a fazer senão esperar, disse a si mesma. Esperar e rezar. A sina das mulheres nessa vida, pensou Elizabeth desesperada. Com as mãos em concha, ela banhou o corpo, fazendo a água escorrer-lhe pelo pescoço. Geoffrey estava perto o bastante para vê-la tremer, ver as gotas de água escorrendo entre seus seios fartos, pela cintura delgada que ele poderia cingir com facilidade com apenas uma das mãos. E depois descer mais para baixo, penetrando no triângulo louro e coberto de pêlos encaracolados entre as pernas da moça. Seus mamilos estavam contraídos de frio, mas foi Geoffrey que tremeu diante daquela visão. Uma sensualidade inocente irradiava dela a cada gesto, e Geoffrey passou a sentir dificuldade de controlar suas emoções, suprimir o desejo primitivo que rugia como uma fera dentro de si. O suave balançar dos quadris da jovem ao sair daquela piscina natural e ao pegar as roupas quase o deixou louco de desejo. Ele voltou a suspirar fundo para se controlar. Era o Lorde Geoffrey, senhor de tudo que Guilherme tinha lhe concedido! Não a possuiria agora, embora tivesse a impressão de que iria enlouquecer se não provasse aquele corpo em breve. Sim, ela seria sua. Disso não restava a menor dúvida. Era um fato simples da vida. A lei. O que o suserano queria, ele tomava. Os cães dos quais Geoffrey se lembrava surgiram ao lado da sua senhora, e esperaram-na terminar de se vestir. Os animais eram monstruosos, mas pela maneira como ambos a cutucaram de leve com os focinhos quando ela se virou e sumiu, entrando na floresta, Geoffrey viu que a protegeriam bem. Ele estava para embainhar a espada e seguir Elizabeth até a choupana quando um grito súbito penetrou o silêncio da mata. Era um grito de mulher. Geoffrey correu na direção do som, sua espada em punho. Ouviu os grunhidos ferozes dos cães, gritos e berros de homens... pelo menos três, a julgar pelos diferentes sons guturais. Geoffrey saltou na clareira diante da choupana de qualquer jeito e analisou a cena diante de si em apenas uma fração de segundo. Eram três os homens, dois procurando deter os cães e o terceiro meio arrastando e meio carregando a moça para a choupana, enquanto ela se
  37. 37. 37 debatia. Ver um safado tão imundo agarrar uma beleza como aquela — que era sua, por sinal — transformou-o completamente. O belo e nobre suserano se foi, dando lugar ao hercúleo guerreiro que só pensava em uma coisa: matar. Não haveria audiência, julgamento nem compreensão. O inimigo tinha ousado tocar no que era seu, e se entendiam isso ou não, não tinha importância. O preço para tamanha lascívia e burrice seria a morte. O brado de indignação do guerreiro fez o agressor de Elizabeth ficar paralisado de susto. O terror varreu-lhe do olhar a concupiscência, e ele jogou Elizabeth no chão e virou-se para enfrentar o desafiante. A fúria expressa que crispava o rosto do cavaleiro fez o agressor mudar de idéia. Virou-se para procurar uma forma de fugir da intenção que ele entrevia nos olhos negros e frios. Sua hesitação foi sua sentença de morte. A lâmina de Geoffrey sibilou ao cortar o ar, guiada pelo forte braço do guerreiro, cortando ossos e músculos tão facilmente quanto se tosquiasse um carneiro, na sanha de encontrar e perfurar o coração. Arrematando com um girar do pulso, Geoffrey terminou de matar o homem, puxou a espada e virou-se para eliminar os outros dois que estavam atrás dele. — Chame seus cães — ordenou ele por cima do ombro, e Elizabeth, fazendo força para ficar de pé, obedeceu à ordem sem questionar. Geoffrey permitiu aos dois que tivessem tempo suficiente para ficarem de pé e pegarem as armas antes de avançar. Aí se postou de pernas abertas, a espada ao seu lado, aguardando. Os dois homens agacharam-se e começaram a circundar o guerreiro, e suas tentativas ridículas de matá-lo fizeram-no sorrir. Mas eles não viram esse sorriso, pois antes que qualquer um deles pudesse dar um grito, o guerreiro os matou com dois golpes de espada rápidos e certeiros. Zonza, incapaz de entender como Lorde Geoffrey tinha aparecido ali para defendê-la, Elizabeth só ficou assistindo à cena, sem reagir. Quando Geoffrey deu a luta por terminada e virou-se para ela, Elizabeth sentiu os joelhos amolecerem diante do vigor, da força bruta que emanava dele. — Vem até mim. — A dureza de sua voz a assustou. Havia uma espécie diferente de terror que ela experimentava agora, e Elizabeth não conseguia entender o que estava acontecendo. Não devia estar se sentindo aliviada? Aquele homem tinha lhe salvado a vida, tinha matado por ela. Talvez porque ele fosse tão mais corpulento do que ela se lembrava ou talvez porque tinha matado com tanta facilidade, sem nenhum esforço... tão friamente. Ela estava confusa demais, apenas sabia que o perigo estava presente, pairando no ar, misturando-se ao cheiro de morte e suor. A tensão envolveu a ambos enquanto se encaravam. Elizabeth ficou parada, rígida e empertigada, enfrentando a força que emanava do homem. O poder estava presente na postura, nas pernas musculosas, na autoconfiança, na vitória, nos punhos cerrados pousados nos quadris, mas, acima de tudo, no rosto dele. E todo esse poder a atraía para aquele homem. Elizabeth lhe retribuiu o olhar e caminhou devagar até ele. Parou bem em frente ao suserano e aguardou. O que ela não sabia.
  38. 38. 38 O corpo de Geoffrey se descontraiu. Elizabeth viu a tensão e a violência se evaporarem. Ele soltou um suspiro profundo, e seus olhos enterneceram-se um pouco. E ela deixou de sentir medo. — Acabei de matar por ti. — Seu tom era arrogante e desafiador. Elizabeth observou Geoffrey limpar a espada e a recolocar na bainha antes de responder: — Sim, salvaste minha vida. Estou em dívida para contigo — reconheceu ela, a voz baixa. — Pois está. — Só que eu também salvei a tua vida — respondeu Elizabeth —, pois fui eu quem cuidou de teus ferimentos. — Eu me lembro — respondeu Geoffrey. — E, portanto, estás em dívida para comigo também, não? — Eu sou o teu suserano. — Aonde Elizabeth estaria querendo chegar? Geoffrey perguntou-se. Qual seria seu plano? — Tu pertences a mim. Elizabeth nada respondeu, esperando que ele continuasse. Passou-se um instante interminável, e o senhor franziu o cenho, decepcionado. Não seria bom para ela se não reconhecesse esse fato, pois o destino dela estava nas mãos de Geoffrey. Na verdade, ela pertencia a ele, sim. Seria isso que ele queria? Que ela reconhecesse que agora ele era o seu senhor? — Tu pertences a mim — repetiu ele. Elizabeth estava para concordar, quando ele levou a mão como um relâmpago à nuca dela, seus dedos lhe agarrando os cabelos com força. — Eu é que decido o teu futuro — declarou Geoffrey. Elizabeth franziu o cenho frustrada. Ele devia sentir que estava em dívida para com ela. Devia estar sentindo gratidão, mas, em vez disso, estava exigindo que ela reconhecesse sua posição de vassala. Geoffrey não gostou dessa reação; torceu os cabelos da moça até ela gritar de dor. Então ele os soltou, puxando-a mais para perto de si ate o peito da jovem se achatar contra a fria malha de aço que cobria o seu. Elizabeth fechou os olhos para esquecer a dor e não ver o olhar dele, com a boca bem fechada para não gritar de novo. Tremia por dentro, mas jurou que não iria mostrar a ele sua apreensão. O guerreiro ficou olhando o rosto de Elizabeth, sorrindo da forma como ela tentava mascarar o medo. Havia em seus olhos um quê de rebeldia. Ele não tinha deixado de perceber isso, e gostou do que viu. Ela não devia se deixar intimidar com facilidade. Era espirituosa e corajosa, pensava Geoffrey, pois tinha vivido fora dos muros apenas com seus animais como protetores. Era inédito a uma senhora de boa estirpe fazer uma coisa dessas, entretanto ela tinha feito. Também era teimosa, ele sabia, e talvez com uma natureza um tanto quanto indomável. Ele domaria aquela donzela sem lhe enfraquecer o espírito. E ia começar agora mesmo. Sua boca desceu até a dela em um beijo de quem está determinado a conquistar. Ele a obrigaria a submeter-se! Sentiu-a estremecer ao toque inicial de seus lábios, mas fingiu que não percebeu que ela procurava se soltar, obrigando-a a aquiescer apenas lhe torcendo os
  39. 39. 39 cabelos com mais força, até ela abrir a boca para protestar. E aí a sua língua invadiu a boca da moça, provando, sondando, conquistando. Seu ataque não foi suave, pois na verdade ele pouco conhecia da arte de cortejar o sexo oposto; mesmo assim, fez tudo o que pôde para não imobilizá-la por completo. Ela era uma nobre, lembrou-se ele, e embora pensasse em dominá-la completamente por meio de sua destreza sexual, descobriu logo que ele é que estava perdendo o controle rapidamente. Ela tinha um gosto tão bom, tão novo, que quando finalmente começou a retribuir-lhe a carícia, quando sua língua tocou a dele de maneira tímida, o guerreiro sentiu uma onda de fogo voraz a percorrer-lhe o corpo. O efeito em sua cativa foi tão surpreendente quanto essa reação dele. Ela procurou se libertar? Elizabeth achou que sim, mas, quando terminou o beijo, descobriu que seus braços estavam ao redor do pescoço do homem. Ele é que os pusera ali? Não, respondeu, ela mesma tinha feito isso. O rosto dela encostou-se na malha que lhe cobria o peito. A vergonha tentou lhe chamar a atenção, mas Elizabeth a esqueceu. Não tinha forçado o abraço dele, mas só se submetido por causa da força dele, que era imensamente maior. Sentiu as mãos de Geoffrey apertá-la e só aí viu que os braços dele estavam em torno da sua cintura. Ele cheirava a couro e a suor. Não era desagradável ser abraçada por ele, admitiu Elizabeth. — Seus beijos melhoraram, Elizabeth — disse Geoffrey, os lábios contra a testa da moça. Uma satisfação profunda, que ele ainda não conhecia, o envolvia; a sensação do corpo dela contra o dele era perfeita, ele sentia no fundo do seu coração que era perfeita. Inspirou a fragrância de flores silvestres que perfumavam os cabelos dela, e quase suspirou alto de tanto prazer. Sabia que devia soltá-la e assumir uma posição firme e intimidadora para que ela entendesse bem a relação entre os dois desde o princípio, pois ele era o seu senhor e ela a súdita, mas não tinha coragem de afastar as mãos dela, apagar o sorriso. Precisava evitar que ela soubesse o poder que exercia sobre ele. Provavelmente seria sua perdição mostrar-lhe essa fraqueza. Ele sabia, pelo que já tinha passado na vida, que o sexo frágil era capaz de manipular com facilidade qualquer homem, até mesmo o mais forte, se este o permitisse. Nenhuma mulher iria mandar nele; não, ele é que seria o chefe, e ela se sentiria grata por essa liderança. — Eu só senti curiosidade — declarou Elizabeth, referindo-se ao beijo que tinham trocado quando estava cuidando dele. — Não sou tão experiente assim em matéria de beijos. — Não tenho a menor dúvida de que és pura — declarou Geoffrey, e Elizabeth notou que a arrogância tinha lhe voltado à voz. Seu sorriso a confortou, e Elizabeth retribuiu o gesto. Ia precisar tomar cuidado com aquele homem, pensou. A forte atração que ele exercia sobre ela a fazia ceder quase imperceptivelmente. Mas ele era poderoso demais, avassala-dor demais para gente como ela, recordou- se; ele era como os muros de pedra de sua fortaleza, inflexível, e não lhe faria nenhum bem envolver-se com um homem assim. Não. Ela jamais nutriria uma atração como essa. Não tinha vontade de se deixar engolir pela força daquele homem só para ser cuspida como uma casca quando ele voltasse sua atenção para outra. Ela deu-lhe as costas e tentou se lembrar sobre o que estavam falando. Pura, ele achava que ela era pura, tinha dito.
  40. 40. 40 — Como saberias? — viu-se perguntando — Que sou pura? — explicou melhor. Virou-se para ele e esperou a resposta. Embora achasse que ele tinha feito esse comentário para aliviá-la, porque ela podia estar pensando que ele a considerava atrevida, sentiu-se exasperada. Em vez de ficar aliviada por ele não achar que ela era alguma rameira, notou que estava se sentindo meio ofendida. Será que seus beijos eram tão sem graça assim? — Ficou evidente, Elizabeth — respondeu o Lorde. — Embora tirar vantagem de um homem debilitado por um ferimento seja uma atitude que mostra bem que tipo de pessoa tu és. — Ele estava implicando com ela, com sua intenção bem clara no olhar brincalhão. Aquilo a surpreendeu, pois ela não achava que ele fosse um homem que gostasse de brincadeiras. Retribuiu o sorriso. Ela entendeu que o beijo o tinha deixado mais descontraído, e procurou tirar vantagem desse momento. — Agora estáis se sentindo bem? — Estou — confirmou Geoffrey. — Chamaste-me pelo nome, senhor. Como descobristes? — Foi fácil decifrar esta parte do enigma — respondeu Geoffrey. — Mesmo assim, preciso entender melhor. Quando voltarmos para o castelo... — Eu gostaria... se agradar ao meu senhor, gostaria de conversar convosco agora, antes de voltarmos a Montwright. Geoffrey franziu a testa diante desse pedido e depois aquiesceu. Foi até a rocha enlameada ao lado da choupana e encostou-se na beirada dela com as longas pernas estendidas diante de si. Nem percebeu que estava acariciando os cães encostados um de cada lado de seu corpo, ao contemplar Elizabeth. — Então começa me contando por que não permaneceu no castelo. Por que vieste para cá? — Não podia ficar ali à espera de Belwain de jeito nenhum. — Elizabeth procurou acalmar a voz e foi até ao lugar em que Geoffrey estava, colocando-se entre suas pernas. De mãos postas, como se estivesse se preparando para dizer as orações da manhã, falou: — Ê uma longa história, meu senhor. Vais escutá-la? — Vou — confirmou Geoffrey. Estava louco para ouvir a versão da jovem, entender o que havia acontecido em Montwright. — Meus pais, minhas irmãs, o marido de uma delas... Todos morreram — murmurou. — E Belwain, o irmão caçula do meu pai... ele é o culpado. Ele precisa ser punido. — Conta-me tudo desde o início, Elizabeth — incentivou Geoffrey carinhosamente. — Diga-me o que viste, o que ouviste. Elizabeth concordou e suspirou fundo.
  41. 41. 41 — Eu não os vi chegar. O pequeno Thomas e eu estávamos cavalgando quando tudo começou. A família estava reunida para comemorar o aniversário do meu irmãozinho. Era uma tradição nossa — explicou. Geoffrey meneou a cabeça, mostrando que entendia, e depois viu que o olhar dela parecia perdido em algum ponto atrás dele, porém ela nem tinha notado esse seu gesto de incentivo. A lembrança tinha assumido o controle da sua mente naquele momento e, pelo tormento expresso em sua fisionomia, Geoffrey entendeu que a narrativa que ela estava para encetar era das mais terríveis. Sentiu vontade de tomá-la nos braços, apertá-la e consolá-la, mas sentiu que ela não aceitaria sua compaixão, por sua postura empertigada. A lembrança estava levando-a para o mundo dos pesadelos infernais, e ele só podia prestar atenção. — Minha irmã mais velha, Catherine, e o marido dela, Bernard, vieram de longe, do castelo deles perto de Grandbury, mas Rupert, que estava passando mal do fígado, não pôde vir. Porém permitiu que Margaret viesse... Ai, meu Deus, se ao menos ele não tivesse sido bonzinho assim! Ela ainda estaria viva... — Elizabeth suspirou fundo, e sua fisionomia pareceu acalmar-se. Contou o resto em voz monótona e sem emoção. — Thomas e eu entramos pela porta lateral para mudar de roupa antes de nossa mãe nos ver, pois estávamos completamente enlameados. Há um lance de escada oculto do salão por uma tapeçaria pendurada sobre a porta, no segundo patamar. Quando me aproximei do alto desse lance, ouvi gritos e brados. Notei então que alguma coisa horrível estava acontecendo. Mandei Thomas ficar na escada e abri a porta. Ninguém me viu, mas eu vi tudo de onde estava. Vi cadáveres mutilados espalhados pelo chão como se fossem juncos imundos. Os responsáveis pela chacina estavam vestidos como camponeses, mas brandiam as espadas como soldados treinados. Vários dos homens usavam máscaras para esconder-lhes os rostos. Eu estava tentando descobrir quem era o comandante quando vi minha irmã Margaret. Vi-a esfaquear um dos homens no ombro, depois correr para nossa mãe. O homem que ela feriu a seguiu e meteu-lhe o punhal que trazia nas costas, e Margaret caiu. Senti o pequeno Thomas ao meu lado nessa hora, e aí me virei para evitar que ele visse o que estava acontecendo e procurar um lugar seguro para escondê-lo. Um dos agressores, uma voz um tanto familiar para mim, mandou que os homens encontrassem o menino. "Se não encontrarmos o garoto, teremos fracassado", ele gritou, e foi aí que percebi que o que eles queriam era matar Thomas, meu irmão. Então eu precisava protegê-lo. Ele era agora o herdeiro... eu não podia fazer nada por minha mãe, mas também não podia me mexer... Era como se eu estivesse presa no chão. Só conseguia ficar olhando para ela. Estavam rasgando suas roupas. As roupas da minha mãe! Ela conseguiu se soltar e arranhar o rosto de um dos seus agressores. Ele gritou de dor, e aí aquele que tinha matado Margaret... veio até minha mãe com um machado na mão. Ergueu-o bem alto, e a lâmina desceu, cortando-lhe o pescoço, e a cabeça dela se separou do corpo! Ela não tinha dito o que havia acontecido naquele fatídico dia até aquele momento. Sentiu vontade de se deixar cair no solo e morrer. A dor foi tão intensa, os gritos agonizantes de sua família

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