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CRÔNICAS DE PAULINO GIL

JAMBEIRO

(Resumo histórico)

Iniciamos hoje a publicação dum resumo da história de Jambeiro, a começar de seus
primórdios.
Os fatos, datas e dados apresentados, nós os colhemos num resumo histórico publicado
no número 42 d’ ”O Jambeirense” (1905) e na tradição oral, que ainda se conserva bem
viva, dos primeiros tempos de Jambeiro.
Para que o nosso trabalho se revista da maior certeza possível, pedimos às pessoas que
possuam alguns conhecimentos sobre o nosso passado, ou disponham desses
documentos que nos podem ser úteis, que nos auxiliem, pelo que desde já lhes
agradecemos. Com igual prazer receberemos as críticas ou corrigendas aos enganos em
que, naturalmente poderemos incidir.     P. Gil

Como acontece com tudo onde não se não dispõe de elementos perfeitamente
esclarecedores nos quais se possa basear para deles se extrair a certeza dos fatos,
também a história de Jambeiro, nos seus períodos mais afastados, acha-se envolta em
trevas, nas quais, em se tateando com toda a dificuldade, somente se encontraria um
terreno cheio de hipóteses.
Conta-se, por exemplo, que a princípio, as terras que hoje compõem o nosso município,
pertenceram a um só dono, um Vieira, que em época afastada, conseguira comprar ou se
apossar de toda a vertente do Capivari. Tal suposição não deixa de ter o seu pouco de
verdade. Ainda que se duvide que toda a vertente do Capivari, ou seja, todo o atual
município de Jambeiro, tivesse pertencido a esse Vieira lendário, é certo que as terras
situadas mais próximas donde está a cidade, eram propriedades dos Vieiras.
O próprio dono da fazenda que abrangia os terrenos onde está hoje Jambeiro, Luiz
Jacinto Bernardes Gil (1), era casado com uma Vieira – D. Ana Gomes Vieira de Almeida,
a célebre tia Aninha.
No decorrer deste trabalho só citaremos os nomes das pessoas que tiveram atuação
saliente na criação da cidade. Os outros habitantes serão lembrados num estudo que
pretendemos fazer sobre “Genealogia Jambeirense”.
Façamos agora a descrição do que era isto aqui lá pelo ano de 1860, quando ainda era o
simples “bairro do Capivari”, pertencente ao município de Caçapava.
Havia naquele tempo a sede da fazenda, no lugar onde é hoje o Grupo Escolar, rodeada
por um pomar que se estendia pela garage em frente, chácara do Edgard etc..
No lugar onde é hoje a Praça Almeida Gil, existia um rancho de tropas de Luiz B. de
Almeida Gil (nhô Luiz) e uma tenda pertencente ao ferreiro Bento Norato. O terreno em
volta era um pasto comum, com algumas gabirobeiras ali perto da casa de d. Sinhá Senes
etc. (continua)
                              (“A JUSTIÇA” – ano I – núm. 1 – 15/11/1936) (2)

(1) Na certidão de casamento consta “Luiz Jacinto Gil”
(2) Desse jornal “A JUSTIÇA” – “orgam independente” editado em Jambeiro em 1936 – só nos
chegaram às mãos os nºs. 1 (15/11/1936) e 2 (22/11/1936). O Prof. Paulo Gil era seu redator-
responsável.
Jambeiro
           (continuação)

O morro que forma hoje o barranco atrás da casa do sr. Cunha, descia suavemente até
além do coreto. Onde é hoje a casa do snr. Hilário havia um armazém pertencente a
Francisco (Tomaz) Rebelo.
Na rua de cima, no terreno ao lado da residência do sr. F. Senes, existia outra casa na
qual morava Joaquim Bernardes de Almeida Gil (Nhô Quim). Em frente à igreja existia a
casa de morada e um outro armazém, pertencentes ao Capitão Jesuíno Batista, que era
dono de um pedaço de terra que ia desde a casa do sr. João Gurgel até as divisas da
chácara S. Joaquim, e do rio até o cemitério.
Nesse tempo já existia um cemitério, o debaixo, mas sem delimitação certa, de maneira
que se enterravam os mortos por toda a encosta do monte. Até por perto daquelas
touceiras de bambu que há lá por cima, foi enterrada gente, principalmente escravos, pois
os ricos eram enterrados em Taubaté. E para que a porcada da fazenda não
desenterrasse os defuntos, costumava-se fazer um estivado de madeira ou bambu
gigante por cima das covas, além de socá-las à mão de pilão.
Como isso ainda não evitasse que de vez em quando os porcos andassem arrastando
pedaços de defuntos pelo pasto, D. Ana Gomes fez com que seu filho Joaquim Bernardes
mandasse vedar o cemitério.
O resto do terreno era ocupado com lavouras, pastos e matas.
O rio que passa atrás do mercado seguia mais ou menos em linha reta em direção à casa
do Melinho. Só mais tarde, para se fazer a rua de baixo, foi que Luiz Bernardes (Nhô Luiz)
deu-lhe o curso atual, sendo aterrado o leito antigo.
                                                                         (continua) (*)

(*) Infelizmente a narrativa termina aqui, por ser desconhecido o paradeiro de eventuais outros
números do jornalzinho “A JUSTIÇA”.

Capitão Jesuíno Antonio Batista, fundador da Paróquia de Jambeiro

Entre os personagens que se ligaram de maneira indelével à história de Jambeiro, justo é
relembrar o Capitão Jesuíno Antonio Batista, que muito trabalhou e realizou em
benefício de nossa terra, em seus primórdios.
Nascido na cidade de Santa Branca (1), em 5 de fevereiro de 1822 (2), Jesuíno Batista
imigrou em 1848 para o então Bairro do Capivari, onde se dedicou à lavoura do café.
Por essa época, o Bairro do Capivari centralizava-se na fazenda do casal taubateano,
Luiz Jacinto Gil – Ana Gomes Vieira de Almeida Gil, cuja sede, situada onde hoje está o
Ginásio, servia de ponto de parada ou pernoite dos viajantes ou tropeiros, que de Taubaté
ou Caçapava demandavam as cidades de Paraibuna ou Caraguatatuba.
Por essa razão, ali se formara um arraial, composto de alguns armazéns, tenda de
ferreiro, ranchos de tropas, casas de camaradas, de agregados e de outros moradores
que ali iam fixando residência.
Prosperando como quase todos os que se dedicaram à agricultura nas terras novas e
férteis do Capivari, Jesuíno Batista – já agora Capitão da Guarda Nacional e político de
prestígio na povoação – adquiriu em 1865, de João Batista de Barros, a área de terra que
hoje constitui a parte alta da cidade.
Nesse lugar se estabeleceu com armazém e loja de fazendas, que ficou sob a gerência
de seu empregado João “Mestre”, por não convir ao Capitão afastar-se de sua fazenda.
Homem profundamente religioso, desde logo sentiu o Capitão Jesuíno a falta de uma
igreja na próspera povoação, onde os atos religiosos – missas, batizados, casamentos,
dos escravos ou das pessoas modestas do lugar – eram realizados, de vem em quando,
pelo Vigário de Caçapava, no “oratório” da casa grande da fazenda dos Gil.
A idéia de construir a igreja, aliás, anseio de toda a população, acabou concretizando-se
por efeito de um acontecimento em que se envolveu o Capitão e terminou por favorecê-lo.
Foi o caso da mudança da chegada da estrada que vinha de Caçapava, que, ao se
aproximar do povoado, cruzava duas vezes o ribeirão dos Francos : uma, junto à sede da
chácara do “Nhô Quim” (Joaquim Bernardo de Almeida Gil), hoje propriedade do sr.
Guilherme; e outra, quase ao entrar no largo (Praça Almeida Gil).
Alegando tencionar evitar as duas pontes, que freqüentemente eram destruídas pelas
enchentes do ribeirão, “Nhô Quim” conseguir mudar o trajeto da estrada que, desviando-
se da primeira ponte, seguia pelo atual campo de futebol e entrava no largo por onde está
o “bangalô”.
Com isso não concordou o Capitão que se sentiu prejudicado em seus interesses.
Surgiu então uma demanda judicial, ganha em 1868 pelo Capitão, com o que a estrada
voltou a ser por onde era, a atual Rua Cel. João Franco de Camargo.
Muito religioso, o Capitão fizera até promessa, que se tornou pública, de que, se
vencesse a questão, doaria o terreno e construiria a igreja. Brioso e desprendido como
era, cumpriu a promessa.
Por escritura pública passada na sede de sua fazenda, em 12 de junho de 1868, nas
notas do tabelião de Caçapava, Francisco Alves Moreira da Costa, fez, com sua primeira
esposa, D. Maria Bento Rangel, a doação do terreno que adquirira de João Batista de
Barros, que passou a constituir o “patrimônio da Capela”.
O “patrimônio” constituía quase toda a atual parte alta da cidade, à qual o Capitão deu
forma de loteamento. Demarcou as atuais ruas José Pinto da Cunha, Dr. Carlos Rebello
Júnior, Governador Lucas Garcez, Praça Cônego Hygino Corrêa e a antiga “Rua da
Palha”.
Os lotes dessas ruas foram doados a pessoas sem recursos, que ali construíram seus
barracos cobertos de sapé, donde seu nome primitivo. Os demais lotes foram vendidos e
o dinheiro empregado na construção da igreja. (3)
Em 3 de março de 1871, obteve o Capitão o desejado consentimento para a “fundação da
Capela de Nossa Senhora das Dores do Capivari”, passado pelo Vigário Geral (4) da
Diocese de São Paulo, Pe. Dr. Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade.
Contando também com a colaboração e entusiasmo de toda a população, a igreja ficou
concluída nesse mesmo ano (5).
Antes de inaugurar a Capela, o Capitão promoveu uma subscrição popular, cujo produto
foi empregado na aquisição dos paramentos e demais alfaias necessários ao culto
sagrado e na construção de uma casa paroquial. A Imagem de Nossa Senhora das Dores
veio do Rio de Janeiro, indo o Capitão com grande comitiva de cavaleiros buscá-la em
Caçapava, sendo aqui festivamente recebida.
No dia 17 de setembro de 1871, a igreja foi benta e solenemente inaugurada pelo Vigário
de Caçapava, Cônego Francisco Marcondes do Amaral Rodovalho.
“Atendendo, ainda, o mesmo Vigário Geral (4) às insistentes solicitações que pelo mesmo
Capitão eram feitas e que realmente se tornavam imprescindíveis para a nova povoação,
por provisão de 19 de março de 1872, depois de o declarar protetor e zelador definitivo da
Capela, houve por bem considerá-la curada, independente da matriz de Caçapava, não
podendo, entretanto, ser provida enquanto não estivessem estabelecidas as divisas entre
os municípios circunvizinhos, para o que deveriam ser ouvidas as competentes Câmaras
Municipais” (“O Jambeirense” de 30/01/1910).
Nessa época foi concedida a ereção de uma pia batismal. Consta que o primeiro
jambeirense batizado na igreja foi Delfino Franco de Almeida, filho de “Nhô” Quim
Bernardo.
O Capitão ainda fundou duas Irmandades : a do SS. Sacramento, em 1873, e a de São
Benedicto, em 1875.
Em 10 de abril de 1872, a Capela foi elevada à categoria de Freguesia, cujo primeiro
Vigário foi o Pe. João Pereira Ramos. Além de sua inolvidável ação religiosa, o Capitão
Jesuíno ainda teve relevante atuação política em Jambeiro. Foi chefe de numerosa e
ilustre família, que, infelizmente, como tantas outras, se afastou definitivamente de nossa
cidade. Ele mesmo daqui se mudou, havendo falecido em 17 de janeiro de 1894 (6), em
Santa Cruz da Conceição, comarca de Pirassununga.
                                                            (“O Jambeirense” – 23/05/1982)

(1) Conforme consta na certidão de óbito do Capitão Jesuíno, ele foi nascido em São Luiz do
Paraitinga.
(2) Como se deduz da mesma certidão, tendo o Capitão Jesuíno 74 anos quando de seu
falecimento, ele nasceu em 1820.
(3) Os lotes não foram “vendidos”, mas aforados (= alugados) pela Paróquia.
(4) O Pe. Dr. Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade era “Vigário Capitular” da Diocese, isto é,
administrava a Diocese de São Paulo, “sede vacante” na época.
(5) Em 12/06/1868 – data da escritura de doação da área para o patrimônio da futura Paróquia –
já estava em construção a Capela dedicada pelo Cap. Jesuíno a Nossa Senhora das Dores.
(6) O falecimento do Capitão Jesuíno Batista ocorreu em 17 de dezembro de 1894 (e não em
janeiro desse ano).


“O MAIS VOTADO”

A posse do novo prefeito e dos vereadores, realizada no dia 1º deste mês, foi um
acontecimento festivo e agradável.
Quase que completamente esquecidas as tricas e futricas da campanha eleitoral, os
dignos eleitos revelaram louvável sensatez, mantendo aquele clima de cordialidade e
harmonia em que decorreram os trabalhos.
Foi grande a presença de elementos das diversas facções políticas, de autoridades,
convidados e do povo em geral. Os aplaudidos oradores foram concisos e brilhantes,
sendo de justiça destacar o excelente discurso do ex-presidente da Edilidade, dr.
Benedicto Ernesto Alves de Moraes.
E como não poderia deixar de ser, a presença da graça feminina, personalizada nas
excelentíssimas senhoras esposas dos eleitos e demais damas e senhoritas da sociedade
local, deu a mais elegante, bonita e risonha da reunião.
Talvez por tudo isso, ainda que sem perda do seu caráter solene e cívico, tenha a
assembléia se realizado naquele ambiente descontraído e harmonioso de que já falei.
Bom sinal de que todos nós e nossa terra muito iremos lucrar com o dedicado conjunto
dos ilustres novos dirigentes. Assim seja !
Por ter sido o vereador mais votado, ao meu prezado “parente de pai e mãe”, dr. Luiz
Eduardo Cunha Almeida, coube a eminente tarefa de assumir a presidência dos
trabalhos. Então, ocorreu-me a justeza da sua destinação para tal incumbência.
Por uma tradicional coincidência, também seus pai, avô, bisavô e até mesmo seu trisavô,
foram políticos de notável relevância na vida jambeirense. Todos eles exerceram altos
postos, onde muito serviram e engrandeceram esta terra, com exemplar dedicação e
desprendimento. É interessante a “ficha genealógica” do Luiz Eduardo. Por parentesco
de sangue, ele se liga a muitas das mais antigas e tradicionais famílias jambeirenses.
Assim é que, do lado paterno, seu pai, o “Edu” – Eduardo Vieira de Almeida – é filho de
Joaquim Franco de Almeida (o “Sinhô Bernardo”), que dá nome ao nosso principal
estabelecimento de ensino, e de Olívia Vieira de Almeida. Seu avô foi filho de Joaquim
Bernardo de Almeida Gil e de Ana Cândida Franco de Camargo (bisavós do Luiz
Eduardo, portanto). Seu bisavô foi filho de Luiz Jacinto Gil e de Ana Gomes Viera de
Almeida. Esse Luiz Jacinto, taubateano (1), foi dos primeiros povoadores desta região,
tendo aberto a fazenda do Capivari, depois herdada por seu filho Luiz Bernardo de
Almeida Gil, que nela fundou a cidade de Jambeiro.
Pelo lado paterno, portanto, o Luiz Eduardo é Gomes Vieira, Almeida Gil e Franco de
Camargo. Pelo lado materno, é filho de Enid Pinto da Cunha, filha de João Pinto da
Cunha e de Maria Francisca de Barros Rebello. João Pinto da Cunha foi filho de Joaquim
Antonio Pinto da Cunha (conhecido por Joaquim Benedito) e de Maria Antonia
Domingues. Sua avó Maria Francisca (“Morena”) foi filha de Francisco Joaquim Rebello
(o “Chico Velho”) e de Maria Pereira de Barros (a Maria “Velha”). Francisco Rebello foi
filho do capitão português, Francisco Tomaz Rebello e de Maria José de Almeida Gil,
também filha de Luiz Jacinto Gil. Sua bisavó Maria Pereira de Barros foi filha de Paulino
Pereira de Barros e de Ana Maria Pereira de Lima. (os demais antepassados de ambos
os lados já não tiveram ligação com Jambeiro). Portanto, pelo lado materno, o Luiz
Eduardo é Pinto da Cunha. Tomaz Rebello, Pereira de Barros, Lima e Domingues. Tendo
sido o vereador mais votado e eleito secretário da Mesa da Câmara, e com toda essa
fartura de sangue jambeirense de todos os lados, nós – seus parentes, conterrâneos e
amigos – estamos certos de que o Luiz Eduardo saberá honrar a memória dos seus
antepassados e fazer jus aos votos recebidos.
                                                   (“O Jambeirense” – 28/02/1983)

A CADEIA VELHA

Na esquina da Rua Cel. João Franco de Camargo com a Praça Côn. Hygino Corrêa
(Praça da Matriz) situa-se um dos edifícios mais antigos e, talvez, o ainda mais sólido de
Jambeiro. Suas paredes de taipa de pilão, com 70 centímetros de espessura, ainda
continuam firmes e conservadas. Seu construtor foi o Cel. Luiz Bernardo de Almeida Gil,
que de início tencionou erguer ali um sobrado.
Não concretizando sua intenção, adaptou a construção para servir de cadeia, que ainda
faltava no povoado. Até então, os presos sem periculosidade, como “paus d’água”,
desordeiros, briguentos, eram trancafiados numa tulha da fazenda. Os perigosos, ou
criminosos mesmo, eram enviados para Caçapava.
A cadeia só tinha uma cela, que era todo o salão que dá para a rua. Assim, os presos –
aliás, raros – podiam conversar com os passantes através das grades de madeira que
vedavam as janelas. Cumprida a rápida pena, o preso pagava mil e quinhentos réis de
carceragem e era solto.
A instalação sanitária da cadeia era “fora de série”. Constava de uma espécie de tina (a
metade de um barril serrado apelo meio), a que chamavam de “baixo”. Todas as manhãs,
quando havia preso, este punha o “baixo” sobre a cabeça e, acompanhado pelo
carcereiro, ia despejá-lo e lavá-lo no ribeirão.
Certa vez, um preso malandro conseguiu entornar o conteúdo do “baixo” sobre o
carcereiro. E enquanto este, furioso, se limpava no ribeirão, o malandro escafedeu-se
morro acima pela capoeira que ali havia e sumiu, nunca mais aparecendo no arraial ...
Mais tarde, quando o prefeito Major Gurgel edificou a nova cadeia, a primitiva perdeu sua
função e passou a servir de residência.
Em 1924, ao construir seu bangalô na Praça, o sr. Benedicto Pinto da Cunha, somente do
forro da cadeia velha retirou quase toda a madeira de que necessitou.
O último fato, por sinal lamentável e até revoltante, que se deu no velho prédio, aconteceu
na noite de Natal de 1937.
Foi assim : com o golpe dado pelo ditador Getúlio Vargas em 10 de novembro daquele
ano, foram extintos todos os partidos políticos, inclusive a Ação Integralista Brasileira, cuja
sede municipal funcionava no salão. Ora, como faziam todos os anos, os integralistas
haviam programado o Natal das crianças. E como se tratasse de uma simples festa
natalina, sem nenhuma conotação política, seus promotores resolveram realizá-la no
salão da ex-sede, nesse tempo já desativada por força das novas leis da ditadura.
E quando, naquela noite, o salão todo enfeitado regurgitava de gente, principalmente
crianças e suas mães, eis que foi intempestivamente invadido pela polícia. Foi uma cena
selvagem e dolorosa. Com violência e aos impropérios, as pessoas eram grosseiramente
empurradas para fora. Tombavam bancos repletos de crianças. Senhoras desmaiavam
de susto e medo. Gente pulando pelas janelas e caindo na rua. Gritaria, choro etc. etc..
Um escarcéu tremendo, uma confusão terrível ! E só quando o “chefe” José Anísio da
Cunha, que havia ido pedir socorro, voltou de Caçapava com um oficial do Exército e
alguns praças, foi que, reaberto o salão, a festa recomeçou. Mas então já era tarde e
poucas crianças voltaram.
Apurou-se depois que a polícia, capitaneada na ocasião por um daqueles célebres oficiais
inferiores reformados e de má fama na Força, que para cá eram mandados como
“autoridades”, fora induzido a acabar com a festa por injunção de um tipo salafrário que
servia à situação dominante ...
Atualmente o histórico edifício pertence ao Dr. Luiz Ângelo Gil de Castro, bisneto do
construtor, que, após caprichada reforma, o transformou no seu belo “casarão” (*). Com
os outros dois prédios que compõem o quarteirão, o “casarão integra o conjunto mais
imponente da cidade.
                                   (“O Jambeirense” – 24/03/1983 – 28/04/1998 – 26/03/2003)

(*) Hoje (2003) já faz algum tempo que o prédio passou para a propriedade do conterrâneo João
Evangelista de Siqueira (João Pimenta) que, em recente reforma nele feita, teve o cuidado de
mantê-lo em seu estilo original.

JAMBEIRENSES QUE PARTEM ...

Mais uma conterrânea querida que se foi dentre nós, após uma bela vida de oitenta anos !
Já há pouco haviam morrido outros dois jambeirenses : a Maria Adelaide Vieira de
Almeida (a Maricota do Joaca), com mais de oitenta anos, e o Juca Rebello, primo da
Judith, com oitenta e cinco.
É a terceira geração de jambeirenses que se está extinguindo.
Conheci a Judith quando eu era ainda garoto e ela, já uma graciosa mocinha. Eram três
formosas irmãs : a Maria Angélica, que se casou com o Odilon Vieira de Almeida; a
Floripes, com o João Baptista de Tolosa Almeida; e a Judith, com o Dr. José David
Filho, de ilustre família de jornalistas de Rio Claro, o qual aqui foi Delegado de Polícia nos
áureos tempos de Jambeiro-comarca.
Elas e eles se amaram, se uniram, viveram longas harmoniosas vidas conjugais, e
deixaram numerosa e digna descendência.
Judith teve também dois irmãos : o Seninho (prof. Benedicto Nogueira Sennes), que
foi casado com Nair de Boni, e Francisco Sennes, casado com Branca Mariano. Seus
pais foram Benedicto Nogueira Sennes (Sinhô Sennes) e Felisbella Rebello (Sinhá
Senes).
Não recordo o nome do seu avô paterno, marido de sua avó Maria Justina Santos.
Seus avós maternos foram o Capitão Francisco Tomaz Rebello e Maria José de Almeida
Gil. Com a bisavó da Judith, a mãe de Maria Justina, que se chamava Maria Angélica,
deu-se um fato interessante. Adoecendo gravemente, sobreveio-lhe um sono cataléptico,
pelo que foi dada como falecida, apesar de, naquele estado, sentir tudo o que se passava
ao seu redor. Como urgia, logo se providenciou o enterro. Colocada numa usual rede de
carregar defuntos daqueles tempos, levada por serviçais e parentes, seguiu a “morta”
para Taubaté, onde se costumava enterrar as pessoas de posses que faleciam aqui no
sertão do Capivari. Ao passar o cortejo por Caçapava (a “Velha”, pois a atual Caçapava
nem existia ainda), a rede foi posta no recinto da igreja, enquanto os carregadores foram
se refazer nos armazéns do povoado. Contou depois Maria Angélica que, na sua aflição,
implorou o auxílio de Nossa Senhora d’Ajuda, padroeira daquela igreja, rogando-Lhe que
alcançasse de Deus o seu restabelecimento, prometendo mandar rezar ali uma missa
solene em ação de graças. Então, como que por milagre, ela voltou a si. E foi cheios de
medo e espanto, e depois de alegria, que os da comitiva foram encontrá-la orando em
frente ao altar ... Maria Angélica cumpriu a promessa e ainda viveu vários anos.
A última vez que me encontrei com a Judith foi numa reunião familiar na casa do Orôncio
e da Flora. E, por dolorida coincidência, lembro-me de duas outras pessoas queridas
nossas, que lá estiveram naquela mesma noite : o Benedito Gil, filho do Nenzinho, e a
Irene, mulher do Armindo, que há pouco também partiram para a outra vida, deixando-
nos, como agora a Judith, cheios de tristeza ...
A todos eles – Maricota, Juca, Benedito, Irene e Judith – além das muitas e sentidas
saudades, a nossa prece fervorosa a Deus, para que Ele os tenha em Sua casa ...
E assim vamos indo nós, os jambeirenses mais antigos, um a um, chegando ao fim da
estrada da vida ...
                                                 (“O Jambeirense” – 24/01/1984)

ELA FARIA CEM ANOS ...

... no próximo dia 31. Nascera em 1884 e faleceu em 1970, com 86 anos.
Chamavam-na “Nhá Dasdores do Sinhô Luiz”, pois foi casada com Luiz Bernardes de
Almeida Gil, este, filho do Luiz Bernardo que dá o nome à nossa Praça.
Maria das Dores de Almeida Gil foi uma irmã de Ana Rita de Cássia Cunha, esposa de
Benedito Pinto da Cunha, o que construiu o “bangalô” da Praça; de Maria “Velha” Rebello,
avó materna, dentre outros, da Enid, mulher do Edu Vieira de Almeida; de Ana Marta
Nascimento, avó materna dos Lopes : Ary, Iná, Déa e Chiquinho, e dos Francos de
Almeida : Zito, Gaspar e Aloísio; de Joaquim Pereira de Barros, o popular e alegre
sanfoneiro dos inesquecíveis bailinhos que divertiam a mocidade do meu tempo; de
Enoch Elias de Barros, oficial do Registro Civil, pai das primas Maria do Rosário,
Aparecida, Angélica e Enóe, o qual se casou, segunda vez, com Didita Franco de
Almeida. Maria das Dores faleceu há 14 anos, pelo que, se viva fosse, faria cem anos no
dia 31 deste mês.
Os que a conheceram afirmam que foi uma criatura simples e bondosa, por todos amada
e respeitada. E que mãe boa que ela foi ! (Aliás, qual é a mãe que não é boa ?)
Matrona do sistema antigo, mulher de fazendeiro, trabalhou a vida inteira e teve uma
dúzia de filhos, dos quais só um não cresceu : Luiz (falecido), Benedito (Nenzinho), José
(falecido), Paulino, Tito, Ana Luíza, Florentina, Flora, João, Sileno e Armindo.
Redigi estas lembranças, a pedido dos meus caros amigos, diretores d’”O Jambeirense”,
os quais, pelo grande amor que têm pela gente e coisas da nossa terra, muito se
comprazem em relembrar vultos jambeirenses do passado. Neste caso e pelo assunto, é
imenso e cordial o meu agradecimento.
– Ah ! mamãe ! A senhora viveu tanto tempo com a gente … Já faz quatorze anos que
nos deixou, parece que foi ontem !… Entretanto, mamãe, quanta saudade eu ainda sinto
da senhora !...
                                                  (“O Jambeirense” – 28/12/1984)

OS REBELLOS DE JAMBEIRO

A maioria dos Rebellos aqui nascidos foram-se, por motivos óbvios, para outras terras e
seus descendentes “desconhecem” a terra de seus pais. Mas há os que se radicaram
aqui e os que continuam prestigiando o berço dos seus antepassados. É sobre eles e
seus casamentos “interprimos” este rápido comentário genealógico.
Vindo de Taubaté, o casal Luiz Jacinto Gil e Ana Gomes Vieira de Almeida Gil foram dos
primeiros povoadores, aqui abrindo a antiga fazenda do Capivari, em cujas terras hoje se
localiza a cidade de Jambeiro.
Este casal teve quatro filhas e dois filhos, aqui nascidos. Um deles foi Luiz Bernardo de
Almeida Gil (o fundador), que se casou com Ana Luíza de Tolosa Guedes e tiveram
quatro filhos e uma filha.
Um dos filhos se chamou Luiz Bernardes de Almeida Gil e a filha, Maria do Carmo de
Almeida Gil, tratada por Carminha. Uma das filhas de Luiz Jacinto se chamou Maria José
de Almeida Gil, a qual se casou com o cidadão português, Francisco Tomaz Rebello, e
tiveram cinco filhos e três filhas. Desses, que têm descendentes ainda ligados a Jambeiro,
cito três : Carlos, Gustavo e Brazília. Carlos Rebello se casou com Carminha, sua prima,
tiveram três filhos e uma filha. Um dos filhos foi o Dr. Carlinhos (Carlos Rebello Júnior,
médico benemérito, que tem seu nome dado a uma rua em nossa cidade, ao lado da
igreja, e a uma avenida, em Guaratinguetá, onde viveu e faleceu, prematuramente).
O Dr. Carlinhos casou-se com sua prima Gizelda, filha de Gustavo Rebello e Bertília
Brancatti, e tiveram cinco filhos e quatro filhas.
Outro filho de Carlos Rebello é o nosso caro Orôncio, casado com sua prima Flora Gil,
filha de Luiz Bernardes de Almeida Gil. É o casal Rebello Gil mais “radicado” no Jambeiro,
com seus dois filhos, quatro filhas e oito netos.
Outro Rebello jambeirense que costuma freqüentar a terra natal é a Maria Piedade,
esposa do neo-jambeirense Paulo Lopes Carvalho, brilhante e apreciado colaborador d’”O
Jambeirense”. Neta do casal Francisco Tomaz – Maria José, Maria Piedade é filha de
Brazília Rebello e Antonio Nogueira Santos (Antonio Boticário), que teve farmácia em
Jambeiro. Um dos irmãos de Piedade, o Benedicto Nogueira, foi exímio violonista e
compositor. É de sua autoria a dolente canção “Saudade de Jambeiro”, sempre cantada
pelos nossos violeiros.
                                                  (“O Jambeirense” – 20/03/1985)

N. da R.: Na edição de 25/04/1985, “O Jambeirense” publicou o seguinte aditamento à
presente crônica :
“OS REBELLOS DE JAMBEIRO” – Entre as tantas deficiências que a idade acarreta aos
idosos, uma das piores é a perda da memória. Pois não é que me esqueci de lembrar que
a Berta, a mais loura dos Rebellos, esposa do nosso amigo Rafael Martinez Balaguer, é
filha do casal Gustavo Rebello e Bertília Brancatti, afinal é a única Rebello de fato
radicada e residente aqui em Jambeiro, nossa terra ?!
Perdoe-me, Berta ! Acho que já estou ficando meio coroca ...”


DE REPENTE, A TIVICA NOS DEIXOU !...
Foi tudo muito rápido : um enfarte, e não a vimos mais com vida. Deu-nos grande pena
sua morte. E sua falta já nos enche de saudades.
Para nós era como nossa irmã mais velha. Dedicou-nos uma vida inteira de amizade e
carinho, pois foi nossa cunhada – sempre amável e atenciosa – durante cinqüenta e nove
anos ! Ou seja, todo o tempo que durou seu exemplar casamento. Com sua candura e
inteligência, era encantadora em suas conversas e atenções. De gênio alegre e
expansivo, teve muitas e sinceras amizades, como notamos em seu velório, em que
tantas e piedosas senhoras não cessaram de elevar a Deus cálidas orações pelo seu
descanso eterno.
Tivica – Etelvina de Moura Gil – deixa viúvo nosso irmão Nenzinho (Benedicto Bernardes
Gil), com o qual viveu, como já disse, cinqüenta e nove anos de um casamento exemplar.
Constituíram uma família maravilhosa pelas suas virtudes. Oito filhos : Benedicto
(falecido), Luiz Gonzaga (falecido), Etelvina das Dores (Tivininha), Maria Ruth, José
Afrânio (falecido), Aparecida, José e Maria Felicidade (Dade).
Filhos dignos. Filhas adoráveis. E mais dezenove netos e dezoito bisnetos !
A Tivica mesma foi a derradeira sobrevivente de uma distinta família de dez irmãos, que
foram : Maria Izabel (Bezinha), Dario, Maria Angélica (Mariquinhas), Maria Etelvina
(Mariazinha), Mário, Etelvina (Tivica), Francisca, Altino, Júlia e Bento (Nenê).
Foram seus pais João Bento de Moura e Etelvina Dias de Moura, que residiram em
Jambeiro durante muito tempo, na “chácara do João Bento”, situada em frente à matriz e
cuja sede ainda existe, pertencente hoje ao sr. Manoel Mendes Ribeiro.
Despretensiosa e modesta como foi, a Tivica nunca fez alarde de um fato ligado a um
seu antepassado e que, entretanto, bem poderia entusiasmar a qualquer um de nós.
Seu avô, o pai de João Bento, foi o Capitão Bento Vieira de Moura, o qual tem seu nome
registrado na história do Brasil, pois tomou parte no “Grito do Ipiranga”, no dia 7 de
setembro de 1822, quando foi proclamada a Independência de nossa pátria. Naqueles
dias, quando o então Príncipe Regente D. Pedro vinha do Rio para São Paulo, ao passar
por Pindamonhangaba e Taubaté, formou-se nessas cidades uma “guarda de honra”,
composta de destacados cidadãos locais, para acompanhar o Príncipe em sua viagem.
Então, entre os seis acompanhantes naturais de Taubaté, se incluiu o Capitão Bento
Vieira de Moura. Este acompanhou o Príncipe até Santos e na volta, às margens do
Ipiranga, teve a glória de desembainhar sua espada em solidariedade ao histórico grito da
libertação nacional. Depois foi condecorado com o “hábito da Ordem de Cristo” pelo então
já Imperador D. Pedro I.
Mas para Tivica isso pouco contava. Como sabia que são vãs as glórias deste mundo,
tratou antes de ser boa e honesta, de cuidar de sua família, de levar sua vidinha calma,
modesta e trabalhosa, que agora, aos oitenta anos, chegou ao fim ... Para nossa tristeza
e lembranças, apesar de ter ido para a Casa do Pai ...
                                                 (“O Jambeirense” – 25/04/1985)

DISCORDANDO

Peço permissão para discordar de algumas expressões contidas numa notinha (“Mais
eucalipto ?!”) publicada na última edição do nosso “O Jambeirense”.
Como o assunto é extenso, resumirei o mais possível.
Eu acho que as plantações de eucalipto, principalmente as feitas em áreas acidentadas,
são as que menos estragam as terras. Elas evitam as erosões e umidificam o solo com as
partes que caem, como folhas, cascas, gravetos etc., e com as raízes que penetram na
terra, tornando-a assim mais rica.
Sobre esse assunto, o Boletim nº 6, de 1965, do Serviço Florestal do Estado, traz o
seguinte :
“A propósito da capacidade de restauração do solo com essências florestais, inclusive o
eucalipto, lembram-se as exuberantes culturas de café de Campinas e Rio Claro,
sucessoras de eucaliptos que recobriram as glebas por algumas décadas e cuja manta
não fora desbaratada.”
Como se vê, muito diferente do que aconteceu com as lavouras de café, que foram
plantadas em terras de matas virgens e férteis e que, ao se extinguirem, deixaram
verdadeiros desertos de terras erodidas, ácidas e estéreis, onde só medraram sapé,
barba-de-bode ou rabo-de-burro ...
Planta de rápido crescimento, o eucalipto, em seu desenvolvimento, consome mesmo
muita água das chuvas. Mas suas raízes não chegam a sugar o lençol freático.
Entretanto, como depois de formados, os eucaliptos não são mais capinados, acontece
que a manta de detritos se adensa e passa a reter toda a água pluvial, como qualquer
floresta natural. E o excesso de água não absorvido pelas plantas acaba se infiltrando
pela terra adentro, contribuindo, assim, para sustentar as nascentes em vez de secá-las.
Aliás, por observação própria, nas diversas regiões onde executei empreitadas de milhões
de pés de eucalipto, nunca notei que as muitas vertentes que aqui e ali existiam, tivessem
secado ou, mesmo, diminuído sua vazão.
E foi confiando nisso que, a poucos metros acima de uma fraca nascente que abastece
minha residência, eu formei um eucaliptal. E a fonte continua a mesma. Não sendo, pois,
as nascentes prejudicadas pelos eucaliptos, elas continuarão a fornecer aos rios as
mesmas águas de antes. E mais : retendo as águas superficiais, o eucaliptal contribui
para evitar as enxurradas ou enchentes e, conseqüentemente, as erosões e
assoreamentos, com o que auxilia a manter o equilíbrio na natureza.
Acho, portanto, que o eucalipto é, acima de tudo, uma essência abençoada, não só pelas
suas utilidades, como pela grande importância econômica que já adquiriu em nosso país.
São grandes e variados seus usos e empregos, como na construção civil, nas indústrias
de compensados e de papel; como postes, estacas, dormentes, mourões, lenha, carvão,
mobiliário, óleos, tanino etc..
Adapta-se nas mais estéreis e acidentadas terras, reconhecidas como impróprias para
qualquer outra utilização agrícola. Nas zonas rurais, onde praticamente nem existem mais
madeiras, é “pau pra toda obra”. Qual outra madeira poderá substituí-lo ?
O que é de se lamentar é que ainda nem todos os agricultores inteligentes possuam em
suas propriedades ao menos meio alqueire, com seus três mil pés de eucaliptos, para
satisfazerem suas inúmeras necessidades de madeiras.
                                               (“O Jambeirense” – 26/01/1986)

HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ...

Transportes    -I-

Nos fins do século passado, Jambeiro talvez tivesse um terço das casas que hoje possui.
Mas a população do município devia ser umas três vezes maior.
A igreja matriz atual ainda levaria uns trinta anos para ser edificada. Em seu lugar, muito
modesta, ainda existia a primitiva igrejinha, construída pelos esforços piedosos do
Capitão Jesuíno Antonio Baptista, para atender às necessidades religiosas dos
moradores do povoado do Capivari.
Naqueles tempos, muitas casas da vila permaneciam quase sempre fechadas. Eram as
residências dos fazendeiros ou sitiantes que, morando em suas propriedades rurais, só
apareciam na vila, com suas famílias, em raras ou especiais ocasiões, como festividades
religiosas, fins do ano etc..
Era, aliás, um verdadeiro “dia de juízo” movimentar-se uma família, como as antigas, em
geral numerosas e ainda acrescidas de seus agregados e empregados.
Para virem passar alguns dias na vila, era preciso locomover-se o carro de bois ou o trole,
levando os patrões. E mais alguns cargueiros, transportando lenha, mantimentos, roupas
etc.. Junto, alguns cavaleiros. Por fim, dois ou três cachorros de estimação, correndo e
latindo em volta da caravana ...
Por caminhos quase sempre em precárias condições, as viagens feitas a pé, a cavalo, em
carros de boi, em aranhas ou troles, eram demoradas e cansativas e constituíam, por si
sós, um acontecimento para seus realizadores. Distâncias que hoje são percorridas em
poucos minutos por asfalto deslizante, naqueles tempos poderiam gastar horas e horas
de caminho pedregoso ou íngreme, poeirento ou lamacento. Disso, talvez, a pouca
disposição de se viajar ou a rara freqüência das famílias na vila. De modo geral,
individualmente, o meio mais comum ou popular de se locomover era o animal de sela.
Daí, o grande empenho com que os ricos ou remediados procuravam possuir bons e
belos animais, para seu uso obrigatório ou, às vezes, para uma compreensível exibição.
Assim é que existiam e se viam, com freqüência, exemplares dos mais soberbos e
variados tipos. Alazões, cor de canela; zainos, de um castanho-escuro sem mescla, ou
pretos sem brilho; baios, nas diversas tonalidades do castanho ou ouro desmaiado;
tordilhos, de pelagem negra com malhas brancas; murzelos cor de amora; ruões,
mesclados de branco e pardo ou claro com crinas amarelas; pampas, só de cara branca
ou de corpo em zonas pretas e brancas; muros, pretos salpicados de branco; piquiras,
resistentes e ágeis, às vezes boleadores.
E ouros mais, que os entendidos no assunto poderiam citar, ou mesmo tipos indefinidos,
como aqueles da “cor de burro quando foge” ...
E por falar em burro, não esquecer aquelas bestas gigantes, resistentes e espertas, que
davam inveja !...
                                                        (“O Jambeirense” – 30/04/1986)

HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ...

Transportes - II -

O gosto por bons animais de montaria que existia – e era uma necessidade no passado –
agora ressurge entre nós, com espírito esportivo ou interesse comercial. É o que se tem
presenciado nas cavalgadas efetuadas em nossa cidade, das quais a última, realizada na
Festa do Tropeiro, tanta admiração despertou, atraindo gente de toda a região. Foi uma
apresentação deveras empolgante, na qual também se pôde apreciar, além do garbo dos
cavaleiros, da graça das belas amazonas e do entusiasmo dos cavaleiros-mirins, também
a excelência dos muitos e admiráveis exemplares eqüinos presentes no desfile.
Mas voltemos ao nosso passado.
Quando os automóveis ainda mal buzinavam seus primeiros vagidos lá ao longe, a
principal valia ou ajuda, nas atividades de transporte dos nossos antepassados, eram
mesmo os cavalos, os burros e os bois. Para isso, era comum as grandes propriedades
possuírem seus plantéis de animais de sela e manadas de outros, para toda sorte de
serviços.
A propósito da estima ou valor em que eram tidos os bons cavalos daqueles tempos, deu-
se em Jambeiro um caso bastante ilustrativo, que adiante vai resumido : ainda bem moço,
mas já bem próspero negociante de café e cereais, além de proprietário no bairro do
Varadouro, onde deve ter nascido (em 26/10/1858, sendo registrado em São José), aqui
residia o sr. José de Almeida Telles.
Morava ele numa bela casa ajardinada, que existiu no terreno atualmente desocupado, à
margem do ribeirão dos Francos, em frente à nova Casa da Agricultura. Seu pai,
Francisco de Almeida Telles (como o filho, também ligado à Família Vieira), teve loja de
tecidos na esquina da Praça Almeida Gil com a Rua Cel. João Franco de Camargo (casa
do Laurinho). Posteriormente, os Telles se mudaram para Caçapava, onde o então Major
Almeida Telles se tornou elemento de grande prestígio pela sua projeção social,
econômica e política.
Acontece que o Zé Telles – como então era chamado aqui – possuía um dos mais belos e
melhores cavalos do município. Certa feita, veio a Jambeiro uma Comissão com o fim de
requisitar animais para o Exército e um dos primeiros a ser visto, cobiçado e logo
requisitado foi justamente o cavalo pertencente ao Zé Telles. Quando se soube do
acontecido, o desagrado na cidade foi geral. Solidariedade ao proprietário, que era muito
estimado, e pena do valioso animal, que ia ser levado embora.
Guardadas as proporções, poderíamos avaliar o reboliço que haveria na cidade,
imaginando-se que hoje aparecesse por aqui alguma autoridade e fosse logo requisitado
aquele bonito cavalo árabe, o “Dominó”, do nosso amigo João Paulo Almeida !...
Mas o caso acabou com um final feliz, por meio da entrada em cena da boa política
apaziguadora.
Como toda a Comissão se havia hospedado, graciosamente, na residência do chefe
político local, o Cel. Almeida Gil, este manteve uma boa conversa com o chefe da
Comissão e lhe propôs que escolhesse três outros animais da criação de sua fazenda e
os levasse, em troca daquele que havia sido requisitado ao José Telles.
A oferta foi bem aceita e com isso voltou a calma e a alegria ao povoado.
E o “Dominó” daquele tempo voltou a bater, garbosamente, suas ferraduras pela poeira
ou pela lama das ruas daquela época ...
                                                         (“O Jambeirense” – 25/07/1986)


HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ...

Transportes -III-

Até 1920, os transportes aqui eram feitos à custa dos animais de sela, de carga e de tiro.
Por isso havia muita fartura desses animais.
Os contemporâneos daquela época devem lembrar-se de como a cidade ficava aos
domingos, com a chegada dos moradores da roça e suas conduções.
A animalada costumava ocupar quintais de parentes ou amigos. Lotava o pasto do
Joaquim Ivo (atual Jardim Centenário). Enchia a Vila Vicentina e, principalmente, os
cavalos se alojavam por todo o barranco onde hoje está o bangalô do Didi Coelho e
esparramando-se até o final da Rua Nova (Rua Cel. Antonio Bernardes de Almeida).
E como era divertido quando ali por perto havia algum foguetório e acontecia que muitos
animais espantados desembestavam pela praça e ruas afora, com seus donos correndo
atrás para contê-los.
Além dos animais de sela, havia diversos tipos de carruagens, como os troles, semitroles
e aranhas. Entre vários outros, podem ser lembrados os troles pertencentes aos irmãos
Joaquim Franco de Almeida (Sinhô Bernardo), Antonio Bernardes de Almeida e Leopoldo
Franco de Almeida.
E era um verdadeiro espetáculo quando o Coronel João Franco de Camargo e esposa, D.
Mariquinha (Maria Adelaide Vieira), chegavam da fazenda.
O trole, tirado por soberba parelha de cavalos brancos, caprichosamente ajaezada, subia
a Rua Debaixo (Rua Cel. Batista) a largos passos, tendo à boléia o Chico Guedes
(Francisco Tolosa Guedes, tio materno de meu pai e uma das mais queridas figuras dos
velhos tempos de Jambeiro).
A cavalo, seguiam a carruagem o Coronel e seus três filhos – Franco, Dodão e Rinaldo.
Às vezes, antes de entrar pelo largo portão da residência (aquele casarão ainda existente
há uns quinze anos, que ia desde a atual bomba de gasolina até o ribeirão), Chico
Guedes gostava de dar uma volta pela praça ...
Esta, então, se enchia de acenos e sorrisos, trocados entre os moradores e as gentis
senhoritas e meninas da carruagem – Sinhá (Olívia), Deita (Adélia), Pequetita (Maria
Francisca), Elza e Zélia.
De toda a turma ainda vivem a primeira, a Sinhá, forte nos seus 92 anos (viúva do prof.
Nestor Luz, meu primeiro mestre), e a Zélia, que com seu esposo, sr. Ary Ramos Vieira
de Bastos, semanalmente está entre nós.
Mais gracioso e leve, puxado por um só cavalo, era o semitrole. Com o seu, José
Fortunato da Silva Ramos (avô do Tarcísio) às vezes exibia sua elegância, dando umas
voltas pela cidade.
As aranhas, precursoras das atuais charretes, das quais se diferenciavam por possuírem
rodas maiores, estreitas e chapeadas.
Com uma delas e um bom cavalo, ia-se a Caçapava e de lá se voltava num mesmo dia.
Quando era moço, todo fim de semana e por muitos anos, o Ivo (Benedicto Ivo, estimado
ex-prefeito) levava em sua aranha mercadorias para negociar em Caçapava.
Como reminiscência final daqueles tempos, lembramo-nos dos troles de aluguel que aqui
existiam. Como o de José Lúcio do Prado, que em viagens longas e difíceis levava
passageiros até o alto da serra de Caraguatatuba. Ou então imaginar, vindo de
Caçapava, ver surgir pela Rua Nova, a trote lento e ao estalar do relho, o Lica Rocha com
seu trole barulhento ...
Ah ! Jambeirinho saudoso da minha meninice ! Até me faz lembrar uns versos de não sei
qual poeta, que certa vez meu pai escreveu numa parede da fazenda :
“Amadas ribeiras em que nasci,
em que passei os melhores anos
da minha infância feliz !
Único tempo de sólida ventura,
com que saudade vos recordo ...
e vos desejo !...”
                            (“O Jambeirense” – 15/10/1986)

O AUTOMÓVEL EM JAMBEIRO (I)

Até a década dos anos 20, os automóveis, ainda que poucos, já eram uma realidade em
nosso Estado.
Como, naquela época, os bons preços fizessem “sobrar” dinheiro aos fazendeiros, ao
mesmo tempo em que a Companhia Ford acabara de instalar uma linha de montagem em
São Paulo, para seus carros fabricados nos Estados Unidos, o número de automóveis
aumentou muito.
Além dos “fordinhos”, outras marcas, em geral mais caras, pesadonas e de luxo,
passaram a roçar, roncando e fonfonando pelas ruas esburacadas e estradas apenas
carroçáveis daquele tempo.
Lembro-me de alguns nomes : Rolls Royce, Cadillac, Hispano Suiza, Bugatti, Lancia,
Dodge, Fiat, Studebaker, Oldsmobile, Hudson, Buick, Chevrolet etc.
Coube à Ford a popularização do automóvel, com seus carrinhos leves e baratos. Seu
modelo “T”, o célebre Ford de bigode, tornou-se o carro do povo, como até há pouco era o
Fusca.
Em Jambeiro ele predominou. Alto, sacolejante, pipoqueiro, tinha três marchas : primeira,
segunda e marcha a ré. O tanque situava-se em cima do motor e a gasolina descia por
gravidade. Por isso, nas subidas mais fortes, podia faltar gasolina no motor e o carro
pifava. Era quando os passageiros tinham de descer e ajudar a empurrar o miserável.
Os primeiros fordecos que chegaram a Jambeiro não possuíam o motor de arranque, que
ainda era uma espécie de acessório opcional. Assim, para acionar o motor, usava-se uma
manivela que se introduzia na frente, abaixo do radiador. Depois que o motor pegava
(arre !), recolhia-se a manivela. Às vezes, um contragolpe inesperado da manivela podia
quebrar o braço do virador (o que, aliás, não tinha a menor importância, pois seu Pedro
Lopes, nosso grande farmacêutico, com facilidade encanava o braço partido ...)
Ignorando a existência do motor de arranque em outros carros, a molecada das gerais,
quando assistíamos no cinema do Hilário a algum automóvel partir sem usar a manivela,
pensávamos que estava havendo tapeação na fita. E lá vinham as vaias, dadas pela
nossa inocente ignorância ...
Salvo erro ou omissão, lembro-me de que o primeiro que possuiu automóvel em Jambeiro
foi o Zezinho Cunha (José Pinto da Cunha). Seu carro, um Ford, teve a placa P-1.
Como naquele tempo ainda não estava regulamentado esse negócio de placas, cabia ao
proprietário mesmo mandar fazer a sua.
De Caçapava veio o preto Adriano, o chofer, para dirigir o auto do Zezinho Cunha.
Entretanto, de vez em quando era o Luiz Pinto da Cunha (atualmente residindo em Santa
Cruz do Rio Pardo) quem pegava o carro do pai e dava umas voltas pela cidade, o que
alarmava todo mundo : pudera, o Luiz Pinto tinha apenas uns doze anos ...
O segundo Ford pertenceu ao Sinhô Luiz (Luiz Bernardo de Almeida Gil) e seu motorista
era o filho Nenzinho, meu irmão, o qual mandou fazer a placa nº P-2. A carta de motorista
do Nenzinho, a primeira de Jambeiro, foi tirada aqui mesmo na Prefeitura.
Certa vez, ao cuidar de uma vaca, o Nenzinho espirrou creolina num olho. Quando a
turma dos afiados línguas-de-trapo da cidade soube do fato, foi aquela gozação :
disseram que ele tinha ido curar uma bicheira no seu fordeco ...
O terceiro carro, outro fordinho, pertenceu ao ...
                                                 (“O Jambeirense“ – 25/08/1987)

O AUTOMÓVEL EM JAMBEIRO (II)

O possuidor do terceiro automóvel em Jambeiro – o P-3 – foi o Joaquim Pinto da Cunha,
o mais amável e estimável dos Cunhas. Membro da turma dos caçadores, às vezes ia à
caçada levando sua cachorrada veadeira latindo entusiasmada , em coro com a buzina do
fordinho ...
O quarto possuidor de automóvel foi o Sinhô Bernardo (Joaquim Franco de Almeida).
Primeiro teve um fordinho, logo trocado por um Chevrolet “cabeça-de-cavalo”, cujo
motorista era seu filho Yeyé (José Geraldo de Almeida, hoje residente em Ribeirão Claro,
no Paraná.)
Era um ótimo carro, que envelheceu em Jambeiro.
O quinto Ford pertenceu a José Bernardino Vieira. Era dirigido pelos seus filhos Ditinho,
Zezé, Nelson e Dagi.
O sexto carro pertenceu a outro Cunha, o Benedicto Pinto da Cunha.
Foi um Chevrolet, por sinal, desastroso : com ele, o Cunha, em companhia do garoto Ary
Lopes, ao passar numa tarde lamacenta pela ponte do Craveiro, o carro derrapou e
despensou no rio Piraí. Foi nesse desastre que o Ary recebeu graves ferimentos, cujas
cicatrizes o marcaram até o fim da vida. O carro sinistrado “acabou-se”. Mas, tempos
depois, com o pedido insistente do próprio Ary, o Cunha comprou um Buick, que foi o
carro mais luxuoso que existiu em Jambeiro naquele tempo.
O sétimo carro pertenceu ao Alberto da Silva Ramos.
Depois, muitos outros jambeirenses adquiriram automóveis.
Um deles foi o estimado cidadão português, Manoel Padeiro. Este, voltando um dia de
Caçapava, sofreu um acidente e por pouco não se “estrombicou” todo. Por isso, “raios
que o partam” ... vendeu logo seu fordinho ...
Comprou-o meu irmão, Luiz Gil, que, com a competência do Neco Funileiro (*),
transformou-o numa baratinha de corrida, tipo “charuto”, como se usava naquele tempo.
Por causa dessa baratinha, o Luiz certa vez teve um caso meio gozado com a Polícia
local. Mas isso já é uma outra história ...
Depois, quando em fins de 1929 veio a terrível crise do café, que baqueou toda a
fazendeirada, os automóveis, como que por encanto, sumiram de Jambeiro. Só ficou o
“cabeça-de-cavalo”, o rijo chevrolet do Sinhô Bernardo ...
                                                            (“O Jambeirense” – 16/09/1987)

(*) Manoel Carlos dos Reis – hábil funileiro – mais conhecido como “Neco” – em 14/02/1895
casou-se, com 22 anos, casou-se com Benedicta Innocencia de Carvalho, com 27 anos (ou
Benedicta Francisca da Carvalho, como consta na certidão de óbito dele, Manoel Carlos dos Reis,
datada de 30/10/1951). Natural de Paraibuna, era filho de Rophino Carlos dos Reis e Luíza Alves
Honorato. Ela, Benedicta (conhecida por “Bidita”) era natural de Redenção da Serra, filha de
Manoel Dias de Carvalho e Claudina Maria de Jesus.
O casal residiu muitos anos no começo da Rua Cel. Batista, ao lado da ponte sobre o Ribeirão
Jambeiro, não tendo deixado geração. “Neco” faleceu em Jambeiro, em 30/10/1951


UMA VIAGEM HISTÓRICA - I -

Um dos grandes entusiastas do automobilismo foi o ex-Presidente Washington Luís
Pereira de Sousa. Quando Presidente (título hoje mudado para Governador) do Estado
de São Paulo, seu lema era “Governar é abrir estradas”. E criou o Plano Rodoviário
Estadual, graças ao qual construiu estradas e incentivou o transporte rodoviário.
Em 1923, percorria ele o Vale do Paraíba, em propaganda de sua candidatura à
Presidência da República, para a qual, aliás, foi eleito e depois deposto pela revolução
antipaulista de 1930. Quando aqui se soube que tão eminente político deveria passar por
Jambeiro, o Prefeito, Major João do Amaral Gurgel, entre diversas providências, convidou
e ajustou quantos quisessem colaborar no reparo da estradinha que ia do Tapanhão até o
alto da serra. Apresentaram-se desde filhos de fazendeiros até os elementos mais ou
menos desocupados da cidade. Com isso, o mutirão transformou-se numa verdadeira
pândega. Basta dizer que um dos fiscais ou dirigentes de turma foi o nosso benquisto
barbeiro, Pedro Braz que, com sua natural calma e delicadeza, dirigia os serviços. No dia
da visita, foi aquela festa : cidade limpa, povo bem vestido, satisfação geral, criançada
com bandeirinhas enchendo o Grupo Escolar que, por sinal, naquele tempo tinha o nome
de “Escolas Reunidas”.
Depois da solene recepção na Câmara Municipal (*), a primeira inspeção que o ilustre
visitante fez foi na Escola. Recebemos palavras elogiosas e incentivadoras, às quais
respondemos com vivas e agitar de bandeirinhas. Depois, logo ali perto, foi uma visita à
Cadeia. Pasmo do visitante ! Tudo silencioso e limpo. Nenhum preso nas celas. Foi então
que ele pronunciou uma frase que foi muito badalada pela imprensa :
– Feliz a terra que tem sua Escola superlotada e a cadeia, vazia !
Sorte nossa ! O único pinguço que havia pernoitado na cela, o “Rabo Curto” logo de
madrugada tinha sido encaminhado lá para os confins das Coletas. Sem saber a razão da
sua viagem, feliz, passou o resto do dia esvaziando alguns litros de cachaça. Dádiva
generosa do comércio local ...
(“O Jambeirense” – 26/10/1987)

UMA VIAGEM HISTÓRICA - II -

Antes, porém, da chegada do Presidente Washington Luís a Jambeiro, seu automóvel,
não agüentando as asperezas do caminho, teve o motor fundido ali no bairro do
Tapanhão. Foi passando para um carro da comitiva que o Presidente do Estado chegou à
cidade, onde foi recebido por aquele foguetório especialmente preparado pelo professor
Júlio de Moraes.
O veículo danificado foi socorrido por um caminhãozinho pertencente, em sociedade, ao
Zezinho Cunha (pai do Pe. Ernesto) e ao Zé Monteiro (avô do Zebra), o qual, a muito
custo, o transportou até Caçapava. Esse caminhão, que chegara novo a Jambeiro, teve
de receber uma nova carroceria, mais leve, para poder enfrentar os caminhos do
município, principalmente aquela antiga e difícil (porém, saudosa) estrada da Serra.
Essa estrada saía ali pela “Rua Nova” (hoje, Rua Cel. Antonio Bernardes de Almeida),
logo passava pelo sítio do Nhô Emídio, contornava o “Bairrinho”, cortava o sítio dos
Tosettos e dos Barretos, e vadeava o córrego que vem da propriedade que hoje pertence
ao Geraldo Boaventura, e chegava ao tope.
Certa vez, ao passar muito pela beira do barranco onde a água caía, a montaria do
estafeta Anselmo despencou lá para baixo com as malas do Correio. Felizmente, só
houve susto ...
Virada a serra, a estrada passava pela fazenda dos Costas (bisavós do Walther, Edith,
Tito e Marina Cunha) – Fazenda da Glória – e descia íngreme, cheia de curvas, estreita e
pedregosa.
Para quem vinha de Caçapava, um dos obstáculos mais temidos era o terrível “espinho
de agulha”. Ali quase sempre os motores ferviam e os carros empacavam. Tinham,
então, de ser ajudados a subir a muque, empurrados pelos viajantes.
Outro lugar temido era já lá adiante de Piedade, onde a estrada atravessava um terreno
úmido – o brejo do Sales. Em tempo chuvoso era comum os carros atolarem até os eixos.
Mas o “socorro” era logo levado por um sitiante morador ali na redondeza, o qual sempre
tinha de prontidão uma junta de bois ...
Foi essa estrada que o ilustre Presidente e comitiva tiveram de enfrentar na sua histórica
viagem. Talvez tenha sido por isso que, passado algum tempo, um dia o então Prefeito
Major Gurgel foi chamado a São Paulo, donde voltou com a notícia da construção da
nossa atual rodovia.
Até agora o ex-Presidente Dr. Washington Luís Pereira de Sousa e o ex-Governador Dr.
Lucas Nogueira Garcez foram as autoridades máximas de nosso Estado que nos deram a
honra de visitar oficialmente nossa terra. Por isso, também, são os únicos nomes “de fora”
que mereceram a homenagem de ter seus ilustres nomes em placas de nossas ruas.
                                                           (“O Jambeirense” – 31/01/1988)

FATOS E COISAS DO PASSADO - I -

Sobre a palestra que fiz durante o I ERPRAC (1º Encontro Regional de Preservação das
Raízes Culturais do Vale do Paraíba), aqui realizado por iniciativa da Prefeitura Municipal
nos dias 8, 9 e 10 de março passado, recebi várias solicitações ou sugestões para que a
publicasse. Como jambeirense, tais pedidos me alegraram pelo interesse demonstrado
por alguns que me ouviram, em conhecer mais fatos ligados à nossa cidade. Assim é que
resolvi atendê-los, acrescentando mais casos sobre o assunto, o qual, apesar de longo, é
muito interessante.
Sempre atrai e comove saber de acontecimentos referentes à terra natal ou a parentes e
amigos que não existem mais. Vou tentar fazer isso. Desde já, porém, peço perdão se
errar ou se, involuntariamente, desagradar a alguns leitores, devido à minha natural
inaptidão. Para corrigir minha deficiência, aí estão muitos conterrâneos e amigos, que
também conhecem coisas da história de Jambeiro, como a Profª Maria Olímpia Vieira, D.
Leonor Gurgel Almeida e seu irmão, Olavo do Amaral Gurgel, que muito sabe sobre
Jambeiro; o Walther Costa Cunha, o David Gagliotti e o Benedicto Ernesto Alves de
Moraes que, como diretor esforçado deste jornal, tem acumulado muitos subsídios para a
história de nossa terra. E mais tantos outros cujos nomes não me vêm agora à lembrança.
Conto com eles e desde já agradeço.
                                         ***
Para falar sobre o passado de Jambeiro e de sua antiga gente, temos de valer-nos quase
que exclusivamente da tradição oral. Isso porque documentos antigos, principalmente
oficiais, a não ser os da Paróquia, existem muitos poucos. Temos, felizmente, uma
excelente ajuda que merece ser lembrada : foi o aparecimento d’O JAMBEIRENSE, em
07/07/1904. É ele hoje o principal testemunho escrito dos muitos fatos que aqui
aconteceram nos quase trinta anos de sua publicação, no começo deste século. E a
propósito, é justo também louvar e ressaltar o desvelo e a previsão do cidadão
extraordinário que foi o Major João do Amaral Gurgel, o qual fez chegar até nós a única
coleção quase completa das edições d’O JAMBEIRENSE, publicadas de 1904 a 1933 (da
qual o atual diretor responsável extraiu cópias, completando a coleção com exemplares
de 1936, 1938, 1939, 1964, 1979 e de 1981 até hoje).
                                                           (“O Jambeirense” – 25/05/1988)

FATOS E COISAS DO PASSADO - II -

Eu disse que afora os livros do “Tombo” da Paróquia, há poucos documentos escritos
referentes à história do Jambeiro antigo.
Eles desapareceram. Isso, aliás, aconteceu em quase toda parte, naquele tempo em que
o verbo “preservar” era mesmo desconhecido e a ignorância gerava o indiferentismo ou o
descaso pelos repositórios da memória nacional.
Entre nós podemos citar alguns motivos desses desaparecimentos. Por exemplo, uma
causa natural, imprevisível : a primeira grande enchente que aqui se deu no dia 2 de
março de 1917. Chegando as águas a alcançar dois metros na praça, foram danificados
ou destruídos muitos documentos federais, estaduais e municipais (sobre essa enchente
falarei oportunamente). Mais recentemente, por razão, de um lado bem lastimosa, como
de outro até um tanto esquisita, houve aqui destruição de documentos.
Foi o caso que se deu com um meu caro colega de mocidade, o Hito (Hipólito de Moraes
Filho). Pessoa de valor, o Hito fazia lembrar seu pai, o Hipólito Modesto de Moraes, figura
notável pelos seus conhecimentos e muito ligada à história do passado jambeirense
(considerado, com razão, o primeiro pesquisador de nossa terra).
Pois o Hito era funcionário de uma repartição pública local, quando morreu tuberculoso.
Então, alegando evitarem-se futuros contágios, resolveu-se incinerar todos os livros e
demais papéis com os quais ele havia trabalhado (!).
Fato lastimoso pelo caso de morte, porém estranho pela idéia “luminosa” e simplista que
se teve, de queimar toda a papelada.
Outro caso semelhante aconteceu que, a não ser por outra morte a lamentar, não causou,
felizmente, nenhuma perda de documentos. Trata-se da sorte que tiveram os livros do
cartório do registro civil, cujo escrivão nesse tempo era meu saudoso tio materno Enoch
Elias de Barros. Pessoa muito benquista e até hoje lembrado por todos os que o
conheceram, meu tio Enoch também morreu tuberculoso. Imagine-se que caso sério, que
grande complicação teria acontecido, se tivesse havido outra “brilhante” idéia de se
queimarem os livros do cartório em que ele trabalhou ...
Além dessas perdas de testemunhos do nosso passado, ainda há casos, até desonestos,
de desaparecimento de documentos. Mas não vamos falar deles ...
Como falei em mortes por tuberculose, é bom esclarecer que há umas décadas passadas,
ser ou morrer tuberculoso era coisa corriqueira. A cura ou prevenção não era fácil como
agora, que até faz parecer que essa moléstia desapareceu.
Nosso ótimo clima atraía gente de fora, que aqui vinha se tratar. Na região, acima de
Jambeiro nessa especialidade, só estavam Campos do Jordão e São José dos Campos.
Certa vez, ao se aproximar desta última cidade, como era costume, o chefe do trem
avisou :
– São José dos Campos ! Então, um grupo de galhofeiros impiedosos completou :
– Cidade de um cilindro só, fazendo menção à fraqueza pulmonar que havia entre muitos
de seus moradores. Entretanto, hoje, nossa cara vizinha é esse verdadeiro colosso que aí
está e que se coloca entre as primeiras cidades do nosso Estado.
                                                          (“O Jambeirense” – 22/06/1988)

O FUNDADOR DE JAMBEIRO

Causou-me estranheza, bem como a muitos que tiveram a oportunidade de visitar o
MUSEU DO TROPEIRO, no último mês de junho, verificar que, entre os muitos objetos
colocados à visitação pública, encontrava-se o retrato emoldurado do capitão Jesuíno
Antonio Batista, destacando-o como “fundador de Jambeiro”. Em que pesem as virtudes
do ilustre cidadão, que muito contribuiu com a nossa terra, há que se fazer justiça ao fato
de que Jambeiro foi realmente fundado por um outro cidadão, cujo nome é lembrado em
nossa praça principal : LUIZ BERNARDO DE ALMEIDA GIL.
Reportando-nos à História, verificamos que, no começo do século XIX, os sertões do
Capivari (hoje, Jambeiro) eram uma enorme fazenda de propriedade de Luiz Jacinto Gil e
Ana Gomes Vieira de Almeida, que servia de pousada e hospedagem às tropas e
viajantes que demandavam Paraibuna ou o Litoral, e onde, com o tempo, foram surgindo
várias casas de parentes, de agregados e de comércio. Um dos filhos dos proprietários,
Luiz Bernardo de Almeida Gil, tendo herdado esse imóvel, resolveu dar a forma de
cidade ao conglomerado. Para tanto, fez vários melhoramentos como a alteração dos
cursos dos ribeirões que cortavam o terreno, demarcou ruas, fez pontes, nivelou a praça
que hoje leva o seu nome, tendo ainda doado lotes e fornecido material para as
construções. Os atos litúrgicos, porém, continuavam a ser realizados na capela da sede
da fazenda de Almeida Gil, situada no local onde hoje se encontra a EEPSG “Cel.
Joaquim Franco de Almeida”. Era idéia do fundador construir uma igreja onde hoje se
situa o conjunto poliesportivo da A.A.Janbeirense. Foi quando, porém, surgiu um fato,
através do Capitão Jesuíno Antonio Batista, amigo e correligionário de Almeida Gil, que
veio resolver o problema do culto. Aqui chegando em 1848, o Capitão Jesuíno conseguiu
grande prosperidade e prestígio, tendo adquirido, em 1865, de João Batista de Barros a
área que de terra que hoje constitui a parte alta da cidade. Homem profundamente
religioso, o Capitão Jesuíno, após ter ganho uma demanda e sentindo, também, a falta de
uma igreja na povoação, doou o terreno para a construção, o que se efetivou com a
elevação de um templo sob a invocação de Nossa Senhora das Dores, sendo, portanto,
considerado o fundador da Paróquia, cabendo a Luiz Bernardo de Almeida Gil a honra de
fundador do município.
Que não me levem a mal os organizadores do Museu do Tropeiro, mas os que me
conhecem sabem como sou curioso escrevinhador dos acontecimentos da nossa terra, e
as linhas acima foram motivadas unicamente no sentido de se restabelecer a verdade.
(“O Jambeirense” – 16/07/1988)

“JAMBEIRISMO”

Podemos chamar de “jambeirismo” esse sentimento de amor, carinho ou simpatia que a
gente sente por Jambeiro. E tanto faz que se tenha nascido e permanecido aqui, ou
como os conterrâneos que se foram, ou mesmo qualquer pessoa ligada à nossa cidade.
Há muitas famílias que daqui partiram e que nunca mais tiveram qualquer com a terra
natal. Em compensação, inúmeras outras continuam a manter seu “jambeirismo”.
E muitas o fazem de uma maneira sensibilizante : assinam “O JAMBEIRENSE”, para
estarem a par do que aqui acontece, ou comparecem, com filhos e netos, às nossas
grandes festividades. Os mais idosos vêm felizes e ansiosos por rever sua velha terra.
Visitam a igreja querida que marcou suas almas (batismo, primeira comunhão, casamento
?) Oram ao SS. Sacramento e homenageiam a Imagem dolorosa da Senhora das Dores.
Depois saem por aí, a olhar, com olhares de dezenas de anos passados, aqueles lugares
que tantas saudades e recordações lhes trazem. Se encontram antigos conhecidos, é
aquela alegria que dá gosto ver !
Os mais novos aprendem a conhecer e a amar a terra dos antepassados. Descem à
Cascata e rolam pelas pedras lisas. Sobem ao Morro do Cruzeiro e se extasiam com
aquelas vistas maravilhosas. Vindos, quem sabe de cidades grandes, cheias de barulho e
poluição, de artificialismo e sufoco, aqui descobrem que ainda há lugares, como
Jambeiro, onde o ar é sempre puríssimo e o céu, muito azul.
Cercada de verdes montanhas cheias de luz, a cidade é calma como um meio-dia de sol
sem vento. De excelente clima e de sanidade completa, onde nenhum miasma deletério
prolifera. De gente boa, risonha e acolhedora. Assim, esses “jambeirenses por herança”
passam a curtir o mesmo jambeirismo de todos nós.
Mas, nessas ocasiões em que Jambeiro se enfeita e se alegra, também há tristeza.
É quando nos lembramos dos conterrâneos e amigos que para aqui nunca mais voltarão.
E são muitos ! Recordo apenas alguns, como o Sílvio Zuim, o João Bellotti e filhos; vários
membros da Família Braz; o Pe. José Maria da Silva Ramos. O Júlio Martins e seus filhos,
Laércio e Bidianinha. O poeta Gurgel Júnior, José Anísio Cunha, Antonio Ozório de
Moraes, o Dr. Déscio e seu pai, Jorge Pereira. O João Batista Tolosa. Os irmãos Sinésio,
Zoro e José. Luiz Moraes, Manoelzinho Rocha, Euclides Rocha, o Didi do Ivo e outros e
tantos outros mais que nos deixaram tantas saudades !...
E por falar em Didi Ivo, lembro-me de uma Festa da Padroeira, quando fui ao sítio de meu
irmão Nenzinho (hoje em outras mãos).
Ao passar pela chácara do seu Guilherme, topei com uma família divertindo-se ali próximo
do ribeirão. Pela placa do carro, percebi que era gente do Rio de Janeiro. Averiguando,
percebi que se tratava do nosso saudoso poeta Diomedes Santos, que ali estava com sua
família, matando saudades ... Justamente no lugar que pertencera ao seu pai, Benedicto
Albino. Viera de longe rever a terra do seu nascimento e do seu coração ! E era verdade,
pois num dos seus livros de poesia – “No azul da imaginação” – ele assim se expressou :
“Tenho sempre na minha imaginação a casa da minha infância, com andorinhas no beiral,
flores por todos os lados, o pomar cheio de frutos, as árvores ornadas de passarinhos, o
tanque cheio de peixes.”
O poeta Diomedes, que foi cunhado do Didi Ivo, tem uma rua com seu nome em São
José dos Campos. O que também muito nos honra. Tudo isso faz parte do nosso
“jambeirismo” ...
                                                          (”O Jambeirense” – 18/08/1988)
FESTAS JAMBEIRENSES

As antigas festas de Jambeiro não eram como as de agora, que atraem esse povão
incalculável nos festejos da Padroeira, na Coroação da Imagem de Nossa Senhora
Aparecida ou no Dia do Tropeiro. Pois não era muito fácil vir gente de fora, mesmo de
Caçapava ou Paraibuna. As viagens eram sempre custosas e demoradas. Hoje, ao
contrário, é isso que estamos vendo todos os anos. A facilidade com que centenas de
ônibus e automóveis trazem milhares de visitantes dos mais distantes lugares.
Por isso, as festividades antigas eram como que mais íntimas, mais familiares. Mas gente
era o que nunca faltava. Pois se hoje nós contamos cerca de três mil habitantes, há cem
anos o município tinha mais de dez mil.
A principal festa daqueles tempos longínquos, entretanto, era a do Divino Espírito Santo.
Uma semana antes do grande dia, a “casa da festa” já passava a sustentar dezenas de
“ajudantes” ou forasteiros avulsos. É que fartura não faltava. Fazendeiros e sitiantes,
nadando na bonança que o café propiciava, contribuíam generosamente. Cereais, reses,
porcos, aves e que mais, eram de sobrar. E ainda as gordas contribuições financeiras, os
leilões, rifas, barato da jogatina etc. , rendiam tanto dinheiro que, depois de cobrir todos
os gastos e demais despesas, ainda sobrava dinheiro ... Tanto assim que, quando
alguma pessoa de bem da cidade se via em dificuldades financeiras, seus amigos
levavam-na para festeiro e ... sua situação se normalizava ...
O dia da festa era deveras divertido. Ao amanhecer, uma furiosa banda acompanhada de
foguetório passava por toda a cidade. Ao meio-dia, enquanto a gente “fina” se
banqueteava na “Casa Grande”, na praça se realizava o “império”.
Armava-se um bem ornamentado palanque no qual se postavam os festeiros – imperador
e imperatriz, coroados e ricamente trajados a caráter. Ele, sustendo a bandeira do Divino
e, ao redor, toda a corte ... À frente do palanque, fileiras de mesas postas para o grande
festim popular. Mais tarde, encerrando a parte religiosa, aparatosa procissão com a
bandeira do Divino à frente, andores e estandartes, percorria as ruas da cidade. À noite,
após o apreciado acendimento da fogueira, que era erguida no barranco (onde, depois de
arrasado, hoje está o bangalô), inflamada por um buscapé que, por um arame, ia do
coreto até ela, começavam as diversões ditas profanas.
Os diversos grupos se formavam pela praça. Aqui, um animado samba de roda. Ali, um
cadenciado moçambique. Acolá, um arrasta-pé de levantar poeira. Noutro lugar, o
batuque ou jongo dos negros. Escravos ou alforriados, grupos crioulos ou faceiras
raparigas de sorrisos de leite, gingavam ou se requebravam ao som surdo, soturno e cavo
dos atabaques, urucungos e puítas (cuícas), entoando sofridas canções dolentes. Lá por
dentro do Mercado, a jogatina : bancas de bolas, búzio, dados, jaburu, truco etc..
A festança acabava alta madrugada, com o baile chique na “Casa Grande” ou o arrasta-
pé apertado, ao som de violas e sanfonas nos salõezinhos improvisados ...
Numa simples crônica assim, tão rápida e sintética como esta, não é possível contar toda
a beleza e encanto das nossas antigas festas. Por exemplo : como não teria sido fora de
série a festa de Francisco Jordão Moreira da Costa, avô materno da nossa cara amiga,
professora Maria Olímpia Vieira ! Foi esse festeiro quem, após dar um banquete a cada
uma das várias classes sociais, acabou oferecendo um banquete, de verdade, aos cães
de todas as raças existentes na cidade ! E, como se conta, tal banquete terminou numa
grande “cachorrada” ...
Noutra festa, a de Diogo de Tolosa Almeida (filho do primeiro casamento de Joaquim
Bernardes de Almeida Gil com Dioga de Tolosa Guedes), houve o que se chamou o
“encontro dos perus”.
Como o festeiro havia recebido uns sessenta perus como prendas, eles foram
acomodados na chácara de seu pai (que hoje pertence ao Guilherme Vilela de Oliveira).
Quando os perus foram trazidos para a matança, a banda de música e muita gente foram
encontrar-se com eles ali onde hoje começa a Rua Prefeito Jorge Pereira e ainda estão
as mesmas tradicionais duas paineiras (*). Improvisou-se um desfile : à frente iam os
inocentes perus, grugrulejando alegremente, ignorando o próximo sacrifício. Em seguida,
a banda. E atrás e nos lados, uma multidão de acompanhantes, curiosos e divertindo-se
com a festiva peruada.
Mais recentemente (faz “só” uns setenta anos ...), lembro-me da grande festa do Sinhô
Bernardo (Joaquim Franco de Almeida). Isso, porque, entre os vários entretenimentos,
havia em cada canto da praça um tonel de legítimo vinho português, distribuído
graciosamente. E como eu tive o desejo de experimentar uns golinhos, acabei sendo
levado para dormir mais cedo, com o que perdi o resto das festividades ...
Como se vê, “tudo muda, tudo passa, neste mundo de ilusão : vai para o céu a fumaça,
fica na terra o carvão” ...

(*) Sobre essas paineiras o conterrâneo José Bellotti dos Santos (Nê) escreveu uma bela
crônica, publicada em nossa edição de 30/08/1989. Infelizmente uma dessas paineiras centenárias
foi abatida em janeiro de 1991. O fato foi lamentado na coluna “Comentários da Cidade” d’”O
Jambeirense” de 30/01/1991, bem como na tocante crônica de autoria do jambeirense Orlando
Gurgel Almeida, publicada em 26/02/1991 pelo mesmo jornal.
                                                             (“O Jambeirense” – 17/09/1988)

FAMÍLIAS TRADICIONAIS

Ao escrevermos sobre as famílias jambeirenses, as mais antigas, tradicionais, com mais
de cem anos de jambeirismo, ainda que resumamos, o assunto é longo e vai tomar muito
tempo e espaço n’”O JAMBEIRENSE”.
Mesmo sintetizando, todavia, procuraremos lembrar-nos de todas e revelar às novas
gerações alguns fatos interessantes ligados aos seus antepassados. Como sempre,
pedimos desculpas pelos possíveis enganos.
Como se sabe, a primeira família que veio povoar o sertão do Rio Capivari foram os
Gomes Vieira, descendentes do taubateano José Gomes Vieira (*).
Há quase duzentos anos, o governo real daquele tempo empreitou a José Gomes Vieira
(*) a incumbência de restaurar o verdadeiro picadão que era a estrada de Taubaté a
Ubatuba. A empreitada foi acertada em um conto e quinhentos, isto é, um milhão e
quinhentos mil réis, quantia considerável naquela época. Terminado o serviço, como seu
custo não pôde ser pago em dinheiro, o empreiteiro recebeu por pagamento uma
sesmaria que abrangia toda a bacia do Rio Capivari, ou seja, quase todas as terrasque
hoje formam o município de Jambeiro. Essas terras foram divididas em muitas glebas,
vendidas a gentes de Taubaté ou até doadas a parentes de Gomes Vieira (*). Assim é
que a fazenda chamada do “Monteiro”, que depois pertenceu ao Coronel João Franco de
Camargo (e hoje é dos Quinzote) foi do parente Antonio Monteiro Gomes. Também a
fazenda do Capivari, onde hoje se situa a cidade de Jambeiro, foi de outro parente : Anna
Luíza Gomes Vieira de Almeida Gil, esposa de Luiz Jacinto Gil. Todos, gente de
Taubaté. Com a abertura das fazendas de café e o surgimento do povoado, vieram novas
famílias habitar no bairro do Capivari. Assim, além dos Vieira e Almeida Gil, vieram
também Franco, Tolosa, Guedes, Moura, Gurgel, Costa, Rebello, Sennes, Nogueira,
Silva, Ramos, Moraes, Barros, Carvalho, Pereira, Cunha, Lima, Pires, Rocha, Ivo, Braz,
Leandro, Durão, Dias, Santos e outras. Depois, nos fins do século passado (**),
chegaram os “estrangeiros”.
Com seus jeitos e costumes diferentes, despertaram muita curiosidade na população
local. Mas logo se adaptaram ao meio e se tornaram muito queridos. Escrevo seus
nomes simplificados. Foram eles : Hilário, Beloti, Vanzela, Zuim, Batalha, Toseto, Zenati,
Brancati, Locateli, Zandonadi, Angelim, Ferreti e outros. E chegaram também os
alemães, como Germano, Gopfert, Becker. E até sírios, como Jorge José. E ainda, com
a abolição, muitos ex-escravos constituíram famílias regulares, muito consideradas, como
Braz, Ferreira, Martins, Santos e outras. Da maioria dessas famílias jambeirenses, seus
descendentes daqui desapareceram. Outras, contudo, aqui permanecem, como se pode
ver pelos seus nomes sempre publicados no “Registro Social” d’”O JAMBEIRENSE”.
Todas honram a terrinha de todos nós e suas já longas genealogias nos levam aos
albores do nascimento de Jambeiro.
Continuaremos.
                                                          (“O Jambeirense” – 30/11/1988)

(*) O nome correto é José Vieira da Silva (de Taubaté) – filho de Francisco Vieira da Silva
(também de Taubaté) e de Anna Maria de Siqueira (de Cotia) e neto, pelo lado paterno, de
Francisco Vieira da Cunha (da Ilha Terceyra – Açores – Portugal) e de Maria da Conceição (de
Taubaté), sendo desconhecidos os avós maternos – que se casou na matriz de Taubaté, em
20/06/1789, com Bernardina Edibia de Andrade – filha do Sargento-Mor Cypriano Gomes Veiga
(de Monção – termo de Viana – Bispado do Porto – Portugal) e de Maria Magdalena Vieira (de
Taubaté), neta paterna de Manuel Vaz Veiga e Ventura Domingues (naturais da dita Vila da
Monção) e neta materna de Manuel Vieira de Amores e Ignacia Ferreira de Loyola (ambos de
Taubaté).
(**) século XIX.


OS ALMEIDAS

Como se sabe, uma das mais antigas famílias que veio abrir fazenda de café nos sertões
do Rio Capivari foi a do casal taubateano Luiz Jacinto Gil (1)
e Ana Luíza G. Vieira de Almeida. Esse casal formou a fazenda do Capivari, que se
transformou no povoado do mesmo nome, o qual veio depois a ser a cidade de Jambeiro.
Tiveram cinco (**) filhos, todos nascidos aqui, a saber : Joaquim Bernardo, Luiz Bernardo,
Maria José, Maria Caetana e Felizarda (2). Todos com o sobrenome de Almeida Gil.
O mais velho, Joaquim Bernardo de Almeida Gil (3), nascido em 1830, casou-se
primeira vez com Dioga de Tolosa Guedes, cunhada de seu irmão Luiz Bernardo.
Tiveram o filho Diogo de Tolosa Almeida, que se casou com Maria Guimarães de Almeida
(Maria da Palma) e, por sua vez, tiveram os filhos João Baptista de Tolosa e Joaquim.
João Tolosa foi muito nosso conhecido, pois aqui vinha freqüentemente assistir à Festa
da Padroeira. Casou-se com sua prima segunda, Floripes Sennes, com geração.
Segunda vez Joaquim casou-se com Ana Cândida Franco de Camargo (tia de nossa
conterrânea Zélia Franco Bastos). E tiveram os filhos : Joaquim (1866), Antonio (1869),
Delfino (1871), Malvina (1873), Leopoldo (1875), Octaviano (1877), Maria Francisca
(1880), José Luiz (1882), Elvira (1884), Benedicta (Didita) (1886), Amélia (1888) e
Alvarino (1894). Trataremos somente dos que mantiveram ligações com Jambeiro (os
demais viveram em Caçapava).
Joaquim Franco de Almeida, o “Sinhô Bernardo”, como era conhecido, foi chefe político,
pessoa de valor, muito estimado e respeitado. Numa justa homenagem deram o seu
nome à nossa EESPG. Casou-se com Olívia Vieira e tiveram os filhos : Odilon Vieira de
Almeida, que se casou com sua prima segunda Maria Angélica Sennes; Alice, casada
com Fernando Pantaleão (Dandico); Maria Gertrudes (Nina), casada com Dario Dias de
Moura; João Batista de Almeida, casada com Maria Eugênia Cunha; Sílvia; Anna Luíza,
casada com Vicente Cioffi; José Geraldo de Almeida, casado com Anália Mariano;
Eduardo Vieira de Almeida (Edu), há pouco falecido, casado com Enid Cunha; e
Hermínia, casada com Cícero Haddad.
Antonio Bernardes de Almeida também foi grande e dedicado chefe político, cidadão
emérito que tem seu nome imortalizado numa rua da cidade (Rua Nova). Construiu na
praça a casa onde hoje funciona a Caixa Econômica (4). Foi casado com Presciliana de
Almeida e tiveram os filhos : Maria do Carmo (Sinhá), casada com João Franco de
Camargo Júnior (Dodão); Joaquim Fernandes de Almeida (Joaca), casado com Maricota
Vieira, irmã da nossa Maria Olímpia Vieira; Antonio Cândido Bernardes de Almeida,
casado com Satira Abreu; Caetana, casada com Antonio Pinto da Cunha; Octavio;
Conceição (Tãozinha), casada com Elias Toledo; e os irmãos solteiros Milton e Sotero
Bernardes de Almeida.
Leopoldo Franco de Almeida foi casado com Maria José de Araújo. Filhos :
Leopoldinho, casado com Izabel de Sá; Octavio Enéas, casado com Leonor Gurgel;
Joaquim (Quincas), Urbano e Dalila (Lili), solteiros; Sinésio, casado com Maria Alaíde
Cunha; Maria José, casada com Geraldo Boaventura do Nascimento; Brizabel (Nina),
casada com Ademar Leite Vilhena; Zoroastro (Zoro), casado com Ana Maria Nascimento
(Tita); José, casado com Alaíde Guanieri; Rosa, casada com Antonio Scarlato; e Lúcia,
casada com José Pereira de Oliveira.
Benedicta Franco de Camargo (Didita), que foi casada com meu tio materno Enoch
Elias de Barros.
Alvarino Franco de Camargo, casado com Avelina Nascimento, minha prima materna.
Tiveram os filhos : José (Zito), casado com Jandyra Zenatti; Gaspar, casado com Dionéa
Ronconi; e Aloísio, casado com Ivone Germini. O Zito e o Gaspar faleceram em março p.
passado, com a diferença de dois dias entre uma e outra morte.
De todos esses Almeidas, seus filhos e netos estão por aí, honestos e capazes,
honrando seus dignos antepassados !
                                                            (“O Jambeirense” – 30/12/1988)

(1) Luiz Jacinto Gil, na verdade, era é natural “da Sé de Sam Paulo”, como se vê no registro de
seu casamento, realizado em 03/01/1825, na matriz de Taubaté, com Anna Gomes de Almeida –
filha do Tenente Jozé Vieira da Silva e Bernardina Edibia de Andrade.
(2) Além dos cinco, houve mais uma filha, de nome Bernardina.
(3) Joaquim também se assinava Joaquim Gomes de Almeida.


FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - I -

Os sobrenomes dos atuais ALMEIDA ou GIL, até a segunda geração, isto é, até os dois
filhos do casal Luiz Jacinto Gil – Ana Luiza Gomes Vieira de Almeida, tanto Joaquim
Bernardo como Luiz Bernardo, assinavam Almeida Gil. Depois, como vimos no
número passado, os descendentes de Joaquim Bernardo de Almeida Gil passaram a
assinar Franco de Almeida ou Bernardes de Almeida ou ainda Vieira de Almeida. Já os
descendentes de Luiz Bernardo de Almeida Gil continuaram a assinar Almeida Gil ou
Bernardes Gil. É destes que trataremos hoje.
Luiz Bernardo de Almeida Gil casou-se com Ana Luíza de Tolosa Guedes e tiveram
cinco filhos : 1) Luiz; 2) Orôncio; 3) Damaso; 4) José; e 5) Maria do Carmo. Todos com o
sobrenome de Almeida Gil.
1) Luiz Bernardes de Almeida Gil casou-se com Maria das Dores Pereira de Barros e
tiveram onze filhos : Luiz Bernardes de Almeida Gil Filho, casado com Terezinha Ramos
de Barros; Benedicto Bernardes Gil (Nenzinho), casado com Etelvina Dias de Moura; José
Bernardes Gil, casado com Elza Franco de Camargo; Paulino Bernardes Gil, casado com
Semíramis Marques Gil; Tito, casado com Maria Jurema de Siqueira; Ana Luíza
Bernardes Gil, casada com Luiz de Castro Leite; Florentina Bernardes Gil, casado com
Domingos de Oliveira; Flora Bernardes Gil, casada com Orôncio Rebello (primos); João
Bernardes de Almeida Gil, casado com Olga Ribas de Andrade; Sileno Bernardes Gil,
casado com Maria Rocha; e Armindo Bernardes Gil, casado com Irene de Paula.
2) Orôncio Bernardes de Almeida Gil (um dos três fundadores d’”O JAMBEIRENSE”)
faleceu solteiro, assassinado quando era Delegado de Polícia em Ribeirão Bonito-SP. Foi
o primeiro jambeirense que se formou em Direito.
3) Damaso Bernardes de Almeida Gil retirou-se de Jambeiro.
4) José Fernandes de Almeida Gil retirou-se de Jambeiro.
5) Maria do Carmo de Almeida Gil foi casada com seu primo Carlos Augusto Rebello.
Tiveram os filhos : Edward Rebello, casado com Maria Emília Gama; Carlos Augusto
Rebello Júnior (Dr. Carlinhos), casado com sua prima Gizelda Brancatti Rebello; Ana
Luíza (Nenê), falecida solteira; e Orôncio Geraldo Rebello, casado com sua prima Flora
Bernardes Gil. Observação : por alguma regra de Gramática Histórica, surgiu na família o
sobrenome “Bernardes” em que se transformou o antigo Bernardo. Bernardes significa
“filho de Bernardo”. Há na língua exemplos semelhantes, como Marco que se
transformou em Marques; Álvaro em Álvares; Rodrigo em Rodrigues; Gonçalo em
Gonçalves etc.      De qualquer forma, o nosso Bernardes é um sobrenome um tanto
espúrio, mas muito adotado pelos Gil.                     (“O Jambeirense” – 30/01/1989)


FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - II -

O “JAMBEIRISMO” DOS ALMEIDA GIL

Antes de tratarmos de outras famílias jambeirenses, ainda queremos lembrar o
“jambeirismo”, isto é, o tempo que a Família Almeida Gil tem tido de ligação com
Jambeiro. Assim é que a nossa prezada conterrânea, profª Ana Angélica Almeida
Guimarães, distinta Diretora da nossa Escola, colaborando conosco, dirá :
– Se imaginarmos que meu tetravô Luiz Jacinto Gil (marido de Ana Luíza Gomes Vieira
de Almeida, primeiro casal que nesta região se fixou no início do século passado (*), fosse
vivo, teria hoje uns 170 anos de “jambeirismo”. Do mesmo modo, se meu trisavô
Joaaaquim Bernardo de Almeida Gil, nascido em 1830, vivesse, teria 159 anos. E meu
bisavô, Joaquim Franco de Almeida (Sinhô Bernardo), nascido em 1866, teria 123 anos.
E ainda meu avô, Odilon Vieira de Almeida, de 1897, teria 92 anos. E meu pai, José
Benedito de Almeida, de 1923, tem 66 anos. E ainda meu irmão mais velho, o José
Odilon Almeida, de 1949, tem 39 anos, às vésperas dos 40. E por fim, sua filha mais
velha, a sobrinha Gisele Hilário Almeida, já tem 14 anos de “jambeirismo” !
Seguindo o mesmo raciocínio, eu também poderia dizer :
– Se meu bisavô, Luiz Jacinto Gil, fosse vivo, teria uns 170 anos de “jambeirismo”. Meu
avô, Luiz Bernardo de Almeida Gil, de 1837, teria 152 anos. E meu pai, de 1875, teria
114 anos. E meu irmão mais velho, Luiz Bernardes de Almeida Gil, de 1904, já teria 85
anos. E como seu filho mais velho não vai deixar geração, substituo-o pelo meu filho
mais velho, José Bernardes de Almeida Gil, de 1942, já com 47 anos. E, por fim, sua filha
Joana Melo de Almeida Gil, já conta com 6 anos de “jambeirismo”.
Não estamos fazendo nenhuma propaganda ou exaltação de nossa família. O que
desejamos é afirmar que nos orgulhamos de ser jambeirenses há tanto tempo. E, por
isso, a obrigação que temos de amar, servir e enobrecer esta terra. Que há tanto tempo é
nossa terra !
                                                          (“O Jambeirense” – 27/02/1989)
(*) século XIX


FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - III –

AS BERNARDES GIL

Como já dissemos, além dos filhos Joaquim Bernardo de Almeida Gil e Luiz Bernardo de
Almeida Gil, o casal Luiz Jacinto Gil - Anna Luíza Gomes Vieira de Almeida teve também
quatro filhas :
1. MARIA JOSÉ DE ALMEIDA GIL, que se casou, em 24/06/1865, com Francisco
Joaquim Rebello (ou Francisco Tomaz Rebello, filho dos portugueses Francisco José
Rebello e Roza Thereza da Silva), formando o tronco dos Rebellos jambeirenses. Foram
seus filhos :
Brazília, casada em 06/11/1884 com Antonio Nogueira dos Santos, o Antonio Boticário,
filho de Francisco Nogueira dos Santos e Mariana Rosa Nogueira, e que foi proprietário
de uma das primeiras farmácias de Jambeiro. Foram seus filhos : Benedicto, Aristides
(poeta de cuja lavra “O JAMBEIRENSE” transcreveu o afetuoso poema “Respondendo
...”, na edição de 20/03/1985), Antonio, Mariana, Adelaide, Benedicto (o Nogueira, exímio
violonista, autor da toada sertaneja “Saudades do Jambeiro”, Leonel, Antonio e Maria
Piedade, que foi esposa do nosso caro colaborador, Paulo Lopes de Carvalho;
José Rodolpho (* 05/10/1873), que foi Vereador e Vice-Prefeito e chegou a ser Prefeito
em 1918, era casado com Idalina Silvério dos Santos, deixando os filhos Maria Benedicta
(Sinhá Rebello), Petronila (Nila), que vivem hoje em Guaratinguetá; José (Juca) e Carlos;
Francisco Tomaz Rebello Filho (o Chico Velho), casado com Maria Pereira de Barros
(Maria Velha). Foram os pais de Maria Francisca (Morena), que se casou com João Pinto
da Cunha;
Felisbella (Sinhá Sennes), que se casou, em 20/04/1895, com Benedicto Nogueira
Senne. Foram seus filhos : Benedicto (Professor Seninho), Floripes, casada com João
Baptista Tolosa; Maria Angélica, casada com Odilon Vieira de Almeida; Francisco (casado
com Branca de Souza Pereira, filha do saudoso Mariano da “Light”); e Judith, casada com
o Desembargador José David Filho;
Carlos Augusto, nascido em 06/08/1880 e que se casou com Maria do Carmo de
Almeida, de quem já falamos anteriormente; Luiz (Nhô), casado com Maria Piedade
Baeta. Filhos : Leonor, Luiz, Ilda, Evaldo e Celso;
Júlia, casada com Inocêncio de Paula Pereira (que foram padrinhos de batismo de
Benedicto Bernardes Gil (Nenzinho). Tiveram os filhos : Eliodora, Benedicto, Noé, Loth,
Amada e Maria José;
Gustavo, que, aos 28 anos, se casou em 18/02/1911 com Bertília Brancatti, com 15 anos,
filha de Francisco Brancatti e Inocência Rosa de Mello. Filhos : Maria Aparecida,
Albertina (nossa querida Berta, casada com Rafael Martinez Balaguer, aqui residente);
Gizelda (viúva do caritativo Dr. Carlos Rebello Júnior – Dr. Carlinhos – que tem seu nome
gravado numa avenida em Guaratinguetá e numa rua de nossa cidade); Francisco, Luiz,
Benedicto e Maria José; e
Maria (batizada em 10/04/1892.
2. MARIA CAETANA DE ALMEIDA GIL, mãe de Presciliana Bernardes de Almeida.
Esta foi casada com o Cel. Antonio Bernardes de Almeida, grande chefe político
jambeirense. MARIA CAETANA foi a primeira esposa do Major João do Amaral Gurgel,
com o qual teve os filhos Benedicto Gurgel do Amaral (Nenê Gurgel), que foi casado com
Brazília Gomes Vieira, e Adelaide, falecida em tenra idade. Tendo enviuvado, o Major
João do Amaral Gurgel contraiu novas núpcias com a paraibunense Zoraide Rosalina
Pires, em 23/04/1895, com a qual teve os seguintes filhos : João Gurgel Júnior, o poeta,
uma das grandes glórias de Jambeiro, que foi casado com Guiomar Guieiro Gurgel;
Leonor, viúva do ex-Prefeito Octavio Enéas de Almeida, e hoje morando novamente entre
nós; Adelaide Maria da Conceição, José (Juca Gurgel) e, ainda bem vivos e fortes
residindo entre nós, a Clarice e o Olavo.
3. ANA FELIZARDA DE ALMEIDA GIL, casada com Fernando de Carvalho e pais de
Bento e Amélia, com geração em Caçapava.
4. BERNARDINA, de quem não temos outras notícias além do registro que nos legou o
”O FOLGAZÃO” (órgão crítico, humorístico e literário local, na edição de 1º/02/1908, na
seção “Primeiras coisas de Jambeiro”, de autoria do primeiro pesquisador da história de
nossa terra, o Major Hypolito Modesto de Moraes) : “Doceiras – foram as primeiras neste
município Dª Anna Gomes Vieira de Almeida Gil e suas filhas Dª Bernardina (grifamos),
Dª Maria Caetana, Dª Anna Felizarda e Dª Maria José Rebello. O preto Damião – o fiel da
casa – era quem ia fazer as vendas desses doces em Taubaté, Paraibuna e Caçapava,
levando, cada vez que viajava, quatro e, às vezes, seis burros carregados com esse ramo
de indústria.”
                                                         (“O Jambeirense” – 20/03/1989)

OS ITALIANOS EM JAMBEIRO

Em fins do século passado, como aconteceu em outras cidades paulistas, também para
Jambeiro veio um grupo de imigrantes italianos.
Sua chegada aqui foi um acontecimento. Aquela gente estranha, bem clara, de falar alto
e gesticulado, roupas quentes e coloridas, encheu de curiosidade a população. Católicos
praticantes em sua maioria, logo os estrangeiros obtiveram boa acolhida, a simpatia e
amizade da população.         Algumas famílias foram trabalhar nas fazendas. Outras
adquiriram pequenas propriedades ou passaram a exercer atividades de seus ofícios.
Assim, em pouco tempo se adaptaram à nova pátria e se entrosaram com seus
moradores.      De início, houve algum desentendimento de somenos importância.
Principalmente quando algum daqueles robustos moços de olhos azuis se engraçava com
alguma garota da terra. E daí vinha o despique do namorado que havia perdido a sua
“ela” :
“Carcamano pés de chumbo,
calcanhar de frigideira :
a birra desse italiano
é namorar com brasileira ...”
Mas tudo acabava bem, quando não acabava logo em casamento ...
Muitas dessas famílias que aqui chegaram, mudaram-se depois para outras cidades.
Atualmente, mais ligados a Jambeiro restam os Hilário, Bellotti, Zuim, Vanzella, Pazzini,
Batalha, Tozetto, Zenatti e outros.
Os Hilário são os descendentes de uma dessas famílias que mais se enraizaram em
nossa terra. E pelo que se nota dos nomes de aniversariantes publicados mensalmente
na seção social d’”O JAMBEIRENSE”, parece ser hoje a maior família jambeirense,
sobrepujando talvez até mesmo os Almeida ou os Gil.
Foi seu patriarca o saudoso Hilário Fermino. Pelo seu gênio especial e simpatia, o
Hilário foi um dos “jambeirenses” mais notáveis do seu tempo. Muito popular (seu
cachimbo era afamado ...), gostava às vezes de bater um papo alegre com a rapaziada
que éramos naquele tempo. E quando algum de nós dizia uma bobagem que o
contrariava, ele olhava para o tal, sacudia a cabeça e só dizia : – Caipira atrasado !
Naquele tempo, o Hilário era o proprietário da chácara onde hoje seus descendentes
abriram o JARDIM CENTENÁRIO.
Esta chácara fez parte da fazenda do fundador de Jambeiro. Era a “horta” de Nhô Luiz
Bernardo. Nesse lugar ele plantou um variado pomar do qual fizeram parte aquelas
jabuticabeiras que até há pouco tempo ali existiram.
Certa vez, Nhô Luiz ganhou de um fazendeiro de Congonhas do Campo, em Minas, duas
estátuas representando leões, esculpidos em pedra-sabão. Essas estátuas foram
colocadas ornamentando o portão da chácara.
Certa ocasião uns antiquários passaram por Jambeiro e adquiriram quantos objetos de
arte encontraram, como imagens, quadros, ornatos etc.. E como não podia deixar de
acontecer, compraram do Hilário também os dois leões, pagando por eles a importância
de quinhentos mil réis, quantia bem elevada naquele tempo. E quando depois se
comentou que aquelas estátuas poderiam ter sido obras do célebre escultor Aleijadinho, e
portanto teriam alto valor artístico, o Hilário, sistemático como era, só disse :
– Ecco ! Os leões eram meus. Achei bom o negócio e vendi. Quem estiver achando
ruim, que vá se queixar pro diabo que o carregue !...
                                                           (“O Jambeirense” – 27/06/1989)

OS HILÁRIOS - I -

O casal Hilário Fermino (*) – Carolina Locatelli deixou grande descendência em
Jambeiro. Pelo sobrenome – Hilário – parece ser esta atualmente a maior família
jambeirense.
Os homens são gente robusta e amante do trabalho. As mulheres são, na sua maioria,
essas lindas louras de olhos azuis que ornamentam a nossa sociedade.
Foram filhos desse querido casal de italianos, todos aqui nascidos : Maria, Rosa
Benedicta, Ferdinando, Artibanno, Pascoína, Fioravanti, Ricieri e José.
1) Maria, nascida em 03/02/1894, casou-se em 16/04/1916 com Luiz Vicente Codello, em
cerimônia presidida pelo vigário da Paróquia, Pe. Victorino Ferreira, sacerdote português,
tendo como testemunhas Benedicto Pinto da Cunha, o saudoso tio Cunha, e João
Scarpel. Luiz tinha 25 anos, era natural de San Pietro di Barbosa, município de Treviso,
na Itália, filho de João Codello e Esperança Onardi. Desse casamento nasceram os filhos
: Clélia, João, Geraldo (falecidos), Fidelfranco, Artibanno – que foi integrante da gloriosa
Força Expedicionária Brasileira – FEB – tem seu nome gravado no obelisco da Praça
Benedicto Ivo, de nossa cidade; Nadir, casada com Antonio Temperini, José (falecido) e
Octavio, casado com Maria Teresa Pereira Codellos.
2) Rosa Benedicta nasceu em 09/05/1896. Casou-se com João Bellotti dos Santos, filho
de João Bellotti e Maria Francisca dos Santos. Tiveram os filhos : José (Nê), casado com
Laura Norma Giacomini Bellotti; Israel (falecido), Rosa, viúva de Roberto Gerloff; e Elviro,
casado com Edith Aparecida Moreira Bellotti.
3) Ferdinando (que muitos conheciam como Fernando), nascido em 24/07/1898, casou-
se com Luzia Zandonadi (nossa querida D. Lúcia, aqui residente), filha de Ângelo
Zandonadi e Luzia Falchetti, em 14/11/1931, em cerimônia realizada em nossa matriz,
presidida pelo vigário da Paróquia, Pe. Victor Ribeiro Mazzei, sendo testemunhas
Francisco Fernandes das Chagas (o popular Chiquinho Sacristão) e Luiz Zandonadi.
Desse enlace nasceram os filhos : José (Zeinho), casado com Jandyra Souza Hilário;
Geraldo (Ado), casado com Ilda Martins Hilário; Luíza, casada com Agostinho Monteiro de
Camargo; Irene; Luiz (falecido); Lúcio, casado com Margareth Santos Hilário; Angelina
(Lina); Nair, casada com João Batista Moura Cassiano; e Gilberto, casado com Cleusa
Santos Hilário.
4) Artibanno nasceu em 14/01/1904 e faleceu em tenra idade;
5) Pascoína (Páscoa), nascida em 06/01/1905, casou-se com José Codello, natural de
Caçapava, filho de João Codello e Esperança Onardi, no dia 23/06/1927, na presença do
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Macae e sua História 4º encontro
 

Crônicas de Paulino Gil

  • 1. CRÔNICAS DE PAULINO GIL JAMBEIRO (Resumo histórico) Iniciamos hoje a publicação dum resumo da história de Jambeiro, a começar de seus primórdios. Os fatos, datas e dados apresentados, nós os colhemos num resumo histórico publicado no número 42 d’ ”O Jambeirense” (1905) e na tradição oral, que ainda se conserva bem viva, dos primeiros tempos de Jambeiro. Para que o nosso trabalho se revista da maior certeza possível, pedimos às pessoas que possuam alguns conhecimentos sobre o nosso passado, ou disponham desses documentos que nos podem ser úteis, que nos auxiliem, pelo que desde já lhes agradecemos. Com igual prazer receberemos as críticas ou corrigendas aos enganos em que, naturalmente poderemos incidir. P. Gil Como acontece com tudo onde não se não dispõe de elementos perfeitamente esclarecedores nos quais se possa basear para deles se extrair a certeza dos fatos, também a história de Jambeiro, nos seus períodos mais afastados, acha-se envolta em trevas, nas quais, em se tateando com toda a dificuldade, somente se encontraria um terreno cheio de hipóteses. Conta-se, por exemplo, que a princípio, as terras que hoje compõem o nosso município, pertenceram a um só dono, um Vieira, que em época afastada, conseguira comprar ou se apossar de toda a vertente do Capivari. Tal suposição não deixa de ter o seu pouco de verdade. Ainda que se duvide que toda a vertente do Capivari, ou seja, todo o atual município de Jambeiro, tivesse pertencido a esse Vieira lendário, é certo que as terras situadas mais próximas donde está a cidade, eram propriedades dos Vieiras. O próprio dono da fazenda que abrangia os terrenos onde está hoje Jambeiro, Luiz Jacinto Bernardes Gil (1), era casado com uma Vieira – D. Ana Gomes Vieira de Almeida, a célebre tia Aninha. No decorrer deste trabalho só citaremos os nomes das pessoas que tiveram atuação saliente na criação da cidade. Os outros habitantes serão lembrados num estudo que pretendemos fazer sobre “Genealogia Jambeirense”. Façamos agora a descrição do que era isto aqui lá pelo ano de 1860, quando ainda era o simples “bairro do Capivari”, pertencente ao município de Caçapava. Havia naquele tempo a sede da fazenda, no lugar onde é hoje o Grupo Escolar, rodeada por um pomar que se estendia pela garage em frente, chácara do Edgard etc.. No lugar onde é hoje a Praça Almeida Gil, existia um rancho de tropas de Luiz B. de Almeida Gil (nhô Luiz) e uma tenda pertencente ao ferreiro Bento Norato. O terreno em volta era um pasto comum, com algumas gabirobeiras ali perto da casa de d. Sinhá Senes etc. (continua) (“A JUSTIÇA” – ano I – núm. 1 – 15/11/1936) (2) (1) Na certidão de casamento consta “Luiz Jacinto Gil” (2) Desse jornal “A JUSTIÇA” – “orgam independente” editado em Jambeiro em 1936 – só nos chegaram às mãos os nºs. 1 (15/11/1936) e 2 (22/11/1936). O Prof. Paulo Gil era seu redator- responsável.
  • 2. Jambeiro (continuação) O morro que forma hoje o barranco atrás da casa do sr. Cunha, descia suavemente até além do coreto. Onde é hoje a casa do snr. Hilário havia um armazém pertencente a Francisco (Tomaz) Rebelo. Na rua de cima, no terreno ao lado da residência do sr. F. Senes, existia outra casa na qual morava Joaquim Bernardes de Almeida Gil (Nhô Quim). Em frente à igreja existia a casa de morada e um outro armazém, pertencentes ao Capitão Jesuíno Batista, que era dono de um pedaço de terra que ia desde a casa do sr. João Gurgel até as divisas da chácara S. Joaquim, e do rio até o cemitério. Nesse tempo já existia um cemitério, o debaixo, mas sem delimitação certa, de maneira que se enterravam os mortos por toda a encosta do monte. Até por perto daquelas touceiras de bambu que há lá por cima, foi enterrada gente, principalmente escravos, pois os ricos eram enterrados em Taubaté. E para que a porcada da fazenda não desenterrasse os defuntos, costumava-se fazer um estivado de madeira ou bambu gigante por cima das covas, além de socá-las à mão de pilão. Como isso ainda não evitasse que de vez em quando os porcos andassem arrastando pedaços de defuntos pelo pasto, D. Ana Gomes fez com que seu filho Joaquim Bernardes mandasse vedar o cemitério. O resto do terreno era ocupado com lavouras, pastos e matas. O rio que passa atrás do mercado seguia mais ou menos em linha reta em direção à casa do Melinho. Só mais tarde, para se fazer a rua de baixo, foi que Luiz Bernardes (Nhô Luiz) deu-lhe o curso atual, sendo aterrado o leito antigo. (continua) (*) (*) Infelizmente a narrativa termina aqui, por ser desconhecido o paradeiro de eventuais outros números do jornalzinho “A JUSTIÇA”. Capitão Jesuíno Antonio Batista, fundador da Paróquia de Jambeiro Entre os personagens que se ligaram de maneira indelével à história de Jambeiro, justo é relembrar o Capitão Jesuíno Antonio Batista, que muito trabalhou e realizou em benefício de nossa terra, em seus primórdios. Nascido na cidade de Santa Branca (1), em 5 de fevereiro de 1822 (2), Jesuíno Batista imigrou em 1848 para o então Bairro do Capivari, onde se dedicou à lavoura do café. Por essa época, o Bairro do Capivari centralizava-se na fazenda do casal taubateano, Luiz Jacinto Gil – Ana Gomes Vieira de Almeida Gil, cuja sede, situada onde hoje está o Ginásio, servia de ponto de parada ou pernoite dos viajantes ou tropeiros, que de Taubaté ou Caçapava demandavam as cidades de Paraibuna ou Caraguatatuba. Por essa razão, ali se formara um arraial, composto de alguns armazéns, tenda de ferreiro, ranchos de tropas, casas de camaradas, de agregados e de outros moradores que ali iam fixando residência. Prosperando como quase todos os que se dedicaram à agricultura nas terras novas e férteis do Capivari, Jesuíno Batista – já agora Capitão da Guarda Nacional e político de prestígio na povoação – adquiriu em 1865, de João Batista de Barros, a área de terra que hoje constitui a parte alta da cidade. Nesse lugar se estabeleceu com armazém e loja de fazendas, que ficou sob a gerência de seu empregado João “Mestre”, por não convir ao Capitão afastar-se de sua fazenda.
  • 3. Homem profundamente religioso, desde logo sentiu o Capitão Jesuíno a falta de uma igreja na próspera povoação, onde os atos religiosos – missas, batizados, casamentos, dos escravos ou das pessoas modestas do lugar – eram realizados, de vem em quando, pelo Vigário de Caçapava, no “oratório” da casa grande da fazenda dos Gil. A idéia de construir a igreja, aliás, anseio de toda a população, acabou concretizando-se por efeito de um acontecimento em que se envolveu o Capitão e terminou por favorecê-lo. Foi o caso da mudança da chegada da estrada que vinha de Caçapava, que, ao se aproximar do povoado, cruzava duas vezes o ribeirão dos Francos : uma, junto à sede da chácara do “Nhô Quim” (Joaquim Bernardo de Almeida Gil), hoje propriedade do sr. Guilherme; e outra, quase ao entrar no largo (Praça Almeida Gil). Alegando tencionar evitar as duas pontes, que freqüentemente eram destruídas pelas enchentes do ribeirão, “Nhô Quim” conseguir mudar o trajeto da estrada que, desviando- se da primeira ponte, seguia pelo atual campo de futebol e entrava no largo por onde está o “bangalô”. Com isso não concordou o Capitão que se sentiu prejudicado em seus interesses. Surgiu então uma demanda judicial, ganha em 1868 pelo Capitão, com o que a estrada voltou a ser por onde era, a atual Rua Cel. João Franco de Camargo. Muito religioso, o Capitão fizera até promessa, que se tornou pública, de que, se vencesse a questão, doaria o terreno e construiria a igreja. Brioso e desprendido como era, cumpriu a promessa. Por escritura pública passada na sede de sua fazenda, em 12 de junho de 1868, nas notas do tabelião de Caçapava, Francisco Alves Moreira da Costa, fez, com sua primeira esposa, D. Maria Bento Rangel, a doação do terreno que adquirira de João Batista de Barros, que passou a constituir o “patrimônio da Capela”. O “patrimônio” constituía quase toda a atual parte alta da cidade, à qual o Capitão deu forma de loteamento. Demarcou as atuais ruas José Pinto da Cunha, Dr. Carlos Rebello Júnior, Governador Lucas Garcez, Praça Cônego Hygino Corrêa e a antiga “Rua da Palha”. Os lotes dessas ruas foram doados a pessoas sem recursos, que ali construíram seus barracos cobertos de sapé, donde seu nome primitivo. Os demais lotes foram vendidos e o dinheiro empregado na construção da igreja. (3) Em 3 de março de 1871, obteve o Capitão o desejado consentimento para a “fundação da Capela de Nossa Senhora das Dores do Capivari”, passado pelo Vigário Geral (4) da Diocese de São Paulo, Pe. Dr. Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade. Contando também com a colaboração e entusiasmo de toda a população, a igreja ficou concluída nesse mesmo ano (5). Antes de inaugurar a Capela, o Capitão promoveu uma subscrição popular, cujo produto foi empregado na aquisição dos paramentos e demais alfaias necessários ao culto sagrado e na construção de uma casa paroquial. A Imagem de Nossa Senhora das Dores veio do Rio de Janeiro, indo o Capitão com grande comitiva de cavaleiros buscá-la em Caçapava, sendo aqui festivamente recebida. No dia 17 de setembro de 1871, a igreja foi benta e solenemente inaugurada pelo Vigário de Caçapava, Cônego Francisco Marcondes do Amaral Rodovalho. “Atendendo, ainda, o mesmo Vigário Geral (4) às insistentes solicitações que pelo mesmo Capitão eram feitas e que realmente se tornavam imprescindíveis para a nova povoação, por provisão de 19 de março de 1872, depois de o declarar protetor e zelador definitivo da Capela, houve por bem considerá-la curada, independente da matriz de Caçapava, não podendo, entretanto, ser provida enquanto não estivessem estabelecidas as divisas entre os municípios circunvizinhos, para o que deveriam ser ouvidas as competentes Câmaras Municipais” (“O Jambeirense” de 30/01/1910).
  • 4. Nessa época foi concedida a ereção de uma pia batismal. Consta que o primeiro jambeirense batizado na igreja foi Delfino Franco de Almeida, filho de “Nhô” Quim Bernardo. O Capitão ainda fundou duas Irmandades : a do SS. Sacramento, em 1873, e a de São Benedicto, em 1875. Em 10 de abril de 1872, a Capela foi elevada à categoria de Freguesia, cujo primeiro Vigário foi o Pe. João Pereira Ramos. Além de sua inolvidável ação religiosa, o Capitão Jesuíno ainda teve relevante atuação política em Jambeiro. Foi chefe de numerosa e ilustre família, que, infelizmente, como tantas outras, se afastou definitivamente de nossa cidade. Ele mesmo daqui se mudou, havendo falecido em 17 de janeiro de 1894 (6), em Santa Cruz da Conceição, comarca de Pirassununga. (“O Jambeirense” – 23/05/1982) (1) Conforme consta na certidão de óbito do Capitão Jesuíno, ele foi nascido em São Luiz do Paraitinga. (2) Como se deduz da mesma certidão, tendo o Capitão Jesuíno 74 anos quando de seu falecimento, ele nasceu em 1820. (3) Os lotes não foram “vendidos”, mas aforados (= alugados) pela Paróquia. (4) O Pe. Dr. Joaquim Manuel Gonçalves de Andrade era “Vigário Capitular” da Diocese, isto é, administrava a Diocese de São Paulo, “sede vacante” na época. (5) Em 12/06/1868 – data da escritura de doação da área para o patrimônio da futura Paróquia – já estava em construção a Capela dedicada pelo Cap. Jesuíno a Nossa Senhora das Dores. (6) O falecimento do Capitão Jesuíno Batista ocorreu em 17 de dezembro de 1894 (e não em janeiro desse ano). “O MAIS VOTADO” A posse do novo prefeito e dos vereadores, realizada no dia 1º deste mês, foi um acontecimento festivo e agradável. Quase que completamente esquecidas as tricas e futricas da campanha eleitoral, os dignos eleitos revelaram louvável sensatez, mantendo aquele clima de cordialidade e harmonia em que decorreram os trabalhos. Foi grande a presença de elementos das diversas facções políticas, de autoridades, convidados e do povo em geral. Os aplaudidos oradores foram concisos e brilhantes, sendo de justiça destacar o excelente discurso do ex-presidente da Edilidade, dr. Benedicto Ernesto Alves de Moraes. E como não poderia deixar de ser, a presença da graça feminina, personalizada nas excelentíssimas senhoras esposas dos eleitos e demais damas e senhoritas da sociedade local, deu a mais elegante, bonita e risonha da reunião. Talvez por tudo isso, ainda que sem perda do seu caráter solene e cívico, tenha a assembléia se realizado naquele ambiente descontraído e harmonioso de que já falei. Bom sinal de que todos nós e nossa terra muito iremos lucrar com o dedicado conjunto dos ilustres novos dirigentes. Assim seja ! Por ter sido o vereador mais votado, ao meu prezado “parente de pai e mãe”, dr. Luiz Eduardo Cunha Almeida, coube a eminente tarefa de assumir a presidência dos trabalhos. Então, ocorreu-me a justeza da sua destinação para tal incumbência. Por uma tradicional coincidência, também seus pai, avô, bisavô e até mesmo seu trisavô, foram políticos de notável relevância na vida jambeirense. Todos eles exerceram altos postos, onde muito serviram e engrandeceram esta terra, com exemplar dedicação e desprendimento. É interessante a “ficha genealógica” do Luiz Eduardo. Por parentesco de sangue, ele se liga a muitas das mais antigas e tradicionais famílias jambeirenses.
  • 5. Assim é que, do lado paterno, seu pai, o “Edu” – Eduardo Vieira de Almeida – é filho de Joaquim Franco de Almeida (o “Sinhô Bernardo”), que dá nome ao nosso principal estabelecimento de ensino, e de Olívia Vieira de Almeida. Seu avô foi filho de Joaquim Bernardo de Almeida Gil e de Ana Cândida Franco de Camargo (bisavós do Luiz Eduardo, portanto). Seu bisavô foi filho de Luiz Jacinto Gil e de Ana Gomes Viera de Almeida. Esse Luiz Jacinto, taubateano (1), foi dos primeiros povoadores desta região, tendo aberto a fazenda do Capivari, depois herdada por seu filho Luiz Bernardo de Almeida Gil, que nela fundou a cidade de Jambeiro. Pelo lado paterno, portanto, o Luiz Eduardo é Gomes Vieira, Almeida Gil e Franco de Camargo. Pelo lado materno, é filho de Enid Pinto da Cunha, filha de João Pinto da Cunha e de Maria Francisca de Barros Rebello. João Pinto da Cunha foi filho de Joaquim Antonio Pinto da Cunha (conhecido por Joaquim Benedito) e de Maria Antonia Domingues. Sua avó Maria Francisca (“Morena”) foi filha de Francisco Joaquim Rebello (o “Chico Velho”) e de Maria Pereira de Barros (a Maria “Velha”). Francisco Rebello foi filho do capitão português, Francisco Tomaz Rebello e de Maria José de Almeida Gil, também filha de Luiz Jacinto Gil. Sua bisavó Maria Pereira de Barros foi filha de Paulino Pereira de Barros e de Ana Maria Pereira de Lima. (os demais antepassados de ambos os lados já não tiveram ligação com Jambeiro). Portanto, pelo lado materno, o Luiz Eduardo é Pinto da Cunha. Tomaz Rebello, Pereira de Barros, Lima e Domingues. Tendo sido o vereador mais votado e eleito secretário da Mesa da Câmara, e com toda essa fartura de sangue jambeirense de todos os lados, nós – seus parentes, conterrâneos e amigos – estamos certos de que o Luiz Eduardo saberá honrar a memória dos seus antepassados e fazer jus aos votos recebidos. (“O Jambeirense” – 28/02/1983) A CADEIA VELHA Na esquina da Rua Cel. João Franco de Camargo com a Praça Côn. Hygino Corrêa (Praça da Matriz) situa-se um dos edifícios mais antigos e, talvez, o ainda mais sólido de Jambeiro. Suas paredes de taipa de pilão, com 70 centímetros de espessura, ainda continuam firmes e conservadas. Seu construtor foi o Cel. Luiz Bernardo de Almeida Gil, que de início tencionou erguer ali um sobrado. Não concretizando sua intenção, adaptou a construção para servir de cadeia, que ainda faltava no povoado. Até então, os presos sem periculosidade, como “paus d’água”, desordeiros, briguentos, eram trancafiados numa tulha da fazenda. Os perigosos, ou criminosos mesmo, eram enviados para Caçapava. A cadeia só tinha uma cela, que era todo o salão que dá para a rua. Assim, os presos – aliás, raros – podiam conversar com os passantes através das grades de madeira que vedavam as janelas. Cumprida a rápida pena, o preso pagava mil e quinhentos réis de carceragem e era solto. A instalação sanitária da cadeia era “fora de série”. Constava de uma espécie de tina (a metade de um barril serrado apelo meio), a que chamavam de “baixo”. Todas as manhãs, quando havia preso, este punha o “baixo” sobre a cabeça e, acompanhado pelo carcereiro, ia despejá-lo e lavá-lo no ribeirão. Certa vez, um preso malandro conseguiu entornar o conteúdo do “baixo” sobre o carcereiro. E enquanto este, furioso, se limpava no ribeirão, o malandro escafedeu-se morro acima pela capoeira que ali havia e sumiu, nunca mais aparecendo no arraial ... Mais tarde, quando o prefeito Major Gurgel edificou a nova cadeia, a primitiva perdeu sua função e passou a servir de residência. Em 1924, ao construir seu bangalô na Praça, o sr. Benedicto Pinto da Cunha, somente do forro da cadeia velha retirou quase toda a madeira de que necessitou.
  • 6. O último fato, por sinal lamentável e até revoltante, que se deu no velho prédio, aconteceu na noite de Natal de 1937. Foi assim : com o golpe dado pelo ditador Getúlio Vargas em 10 de novembro daquele ano, foram extintos todos os partidos políticos, inclusive a Ação Integralista Brasileira, cuja sede municipal funcionava no salão. Ora, como faziam todos os anos, os integralistas haviam programado o Natal das crianças. E como se tratasse de uma simples festa natalina, sem nenhuma conotação política, seus promotores resolveram realizá-la no salão da ex-sede, nesse tempo já desativada por força das novas leis da ditadura. E quando, naquela noite, o salão todo enfeitado regurgitava de gente, principalmente crianças e suas mães, eis que foi intempestivamente invadido pela polícia. Foi uma cena selvagem e dolorosa. Com violência e aos impropérios, as pessoas eram grosseiramente empurradas para fora. Tombavam bancos repletos de crianças. Senhoras desmaiavam de susto e medo. Gente pulando pelas janelas e caindo na rua. Gritaria, choro etc. etc.. Um escarcéu tremendo, uma confusão terrível ! E só quando o “chefe” José Anísio da Cunha, que havia ido pedir socorro, voltou de Caçapava com um oficial do Exército e alguns praças, foi que, reaberto o salão, a festa recomeçou. Mas então já era tarde e poucas crianças voltaram. Apurou-se depois que a polícia, capitaneada na ocasião por um daqueles célebres oficiais inferiores reformados e de má fama na Força, que para cá eram mandados como “autoridades”, fora induzido a acabar com a festa por injunção de um tipo salafrário que servia à situação dominante ... Atualmente o histórico edifício pertence ao Dr. Luiz Ângelo Gil de Castro, bisneto do construtor, que, após caprichada reforma, o transformou no seu belo “casarão” (*). Com os outros dois prédios que compõem o quarteirão, o “casarão integra o conjunto mais imponente da cidade. (“O Jambeirense” – 24/03/1983 – 28/04/1998 – 26/03/2003) (*) Hoje (2003) já faz algum tempo que o prédio passou para a propriedade do conterrâneo João Evangelista de Siqueira (João Pimenta) que, em recente reforma nele feita, teve o cuidado de mantê-lo em seu estilo original. JAMBEIRENSES QUE PARTEM ... Mais uma conterrânea querida que se foi dentre nós, após uma bela vida de oitenta anos ! Já há pouco haviam morrido outros dois jambeirenses : a Maria Adelaide Vieira de Almeida (a Maricota do Joaca), com mais de oitenta anos, e o Juca Rebello, primo da Judith, com oitenta e cinco. É a terceira geração de jambeirenses que se está extinguindo. Conheci a Judith quando eu era ainda garoto e ela, já uma graciosa mocinha. Eram três formosas irmãs : a Maria Angélica, que se casou com o Odilon Vieira de Almeida; a Floripes, com o João Baptista de Tolosa Almeida; e a Judith, com o Dr. José David Filho, de ilustre família de jornalistas de Rio Claro, o qual aqui foi Delegado de Polícia nos áureos tempos de Jambeiro-comarca. Elas e eles se amaram, se uniram, viveram longas harmoniosas vidas conjugais, e deixaram numerosa e digna descendência. Judith teve também dois irmãos : o Seninho (prof. Benedicto Nogueira Sennes), que foi casado com Nair de Boni, e Francisco Sennes, casado com Branca Mariano. Seus pais foram Benedicto Nogueira Sennes (Sinhô Sennes) e Felisbella Rebello (Sinhá Senes). Não recordo o nome do seu avô paterno, marido de sua avó Maria Justina Santos.
  • 7. Seus avós maternos foram o Capitão Francisco Tomaz Rebello e Maria José de Almeida Gil. Com a bisavó da Judith, a mãe de Maria Justina, que se chamava Maria Angélica, deu-se um fato interessante. Adoecendo gravemente, sobreveio-lhe um sono cataléptico, pelo que foi dada como falecida, apesar de, naquele estado, sentir tudo o que se passava ao seu redor. Como urgia, logo se providenciou o enterro. Colocada numa usual rede de carregar defuntos daqueles tempos, levada por serviçais e parentes, seguiu a “morta” para Taubaté, onde se costumava enterrar as pessoas de posses que faleciam aqui no sertão do Capivari. Ao passar o cortejo por Caçapava (a “Velha”, pois a atual Caçapava nem existia ainda), a rede foi posta no recinto da igreja, enquanto os carregadores foram se refazer nos armazéns do povoado. Contou depois Maria Angélica que, na sua aflição, implorou o auxílio de Nossa Senhora d’Ajuda, padroeira daquela igreja, rogando-Lhe que alcançasse de Deus o seu restabelecimento, prometendo mandar rezar ali uma missa solene em ação de graças. Então, como que por milagre, ela voltou a si. E foi cheios de medo e espanto, e depois de alegria, que os da comitiva foram encontrá-la orando em frente ao altar ... Maria Angélica cumpriu a promessa e ainda viveu vários anos. A última vez que me encontrei com a Judith foi numa reunião familiar na casa do Orôncio e da Flora. E, por dolorida coincidência, lembro-me de duas outras pessoas queridas nossas, que lá estiveram naquela mesma noite : o Benedito Gil, filho do Nenzinho, e a Irene, mulher do Armindo, que há pouco também partiram para a outra vida, deixando- nos, como agora a Judith, cheios de tristeza ... A todos eles – Maricota, Juca, Benedito, Irene e Judith – além das muitas e sentidas saudades, a nossa prece fervorosa a Deus, para que Ele os tenha em Sua casa ... E assim vamos indo nós, os jambeirenses mais antigos, um a um, chegando ao fim da estrada da vida ... (“O Jambeirense” – 24/01/1984) ELA FARIA CEM ANOS ... ... no próximo dia 31. Nascera em 1884 e faleceu em 1970, com 86 anos. Chamavam-na “Nhá Dasdores do Sinhô Luiz”, pois foi casada com Luiz Bernardes de Almeida Gil, este, filho do Luiz Bernardo que dá o nome à nossa Praça. Maria das Dores de Almeida Gil foi uma irmã de Ana Rita de Cássia Cunha, esposa de Benedito Pinto da Cunha, o que construiu o “bangalô” da Praça; de Maria “Velha” Rebello, avó materna, dentre outros, da Enid, mulher do Edu Vieira de Almeida; de Ana Marta Nascimento, avó materna dos Lopes : Ary, Iná, Déa e Chiquinho, e dos Francos de Almeida : Zito, Gaspar e Aloísio; de Joaquim Pereira de Barros, o popular e alegre sanfoneiro dos inesquecíveis bailinhos que divertiam a mocidade do meu tempo; de Enoch Elias de Barros, oficial do Registro Civil, pai das primas Maria do Rosário, Aparecida, Angélica e Enóe, o qual se casou, segunda vez, com Didita Franco de Almeida. Maria das Dores faleceu há 14 anos, pelo que, se viva fosse, faria cem anos no dia 31 deste mês. Os que a conheceram afirmam que foi uma criatura simples e bondosa, por todos amada e respeitada. E que mãe boa que ela foi ! (Aliás, qual é a mãe que não é boa ?) Matrona do sistema antigo, mulher de fazendeiro, trabalhou a vida inteira e teve uma dúzia de filhos, dos quais só um não cresceu : Luiz (falecido), Benedito (Nenzinho), José (falecido), Paulino, Tito, Ana Luíza, Florentina, Flora, João, Sileno e Armindo. Redigi estas lembranças, a pedido dos meus caros amigos, diretores d’”O Jambeirense”, os quais, pelo grande amor que têm pela gente e coisas da nossa terra, muito se comprazem em relembrar vultos jambeirenses do passado. Neste caso e pelo assunto, é imenso e cordial o meu agradecimento.
  • 8. – Ah ! mamãe ! A senhora viveu tanto tempo com a gente … Já faz quatorze anos que nos deixou, parece que foi ontem !… Entretanto, mamãe, quanta saudade eu ainda sinto da senhora !... (“O Jambeirense” – 28/12/1984) OS REBELLOS DE JAMBEIRO A maioria dos Rebellos aqui nascidos foram-se, por motivos óbvios, para outras terras e seus descendentes “desconhecem” a terra de seus pais. Mas há os que se radicaram aqui e os que continuam prestigiando o berço dos seus antepassados. É sobre eles e seus casamentos “interprimos” este rápido comentário genealógico. Vindo de Taubaté, o casal Luiz Jacinto Gil e Ana Gomes Vieira de Almeida Gil foram dos primeiros povoadores, aqui abrindo a antiga fazenda do Capivari, em cujas terras hoje se localiza a cidade de Jambeiro. Este casal teve quatro filhas e dois filhos, aqui nascidos. Um deles foi Luiz Bernardo de Almeida Gil (o fundador), que se casou com Ana Luíza de Tolosa Guedes e tiveram quatro filhos e uma filha. Um dos filhos se chamou Luiz Bernardes de Almeida Gil e a filha, Maria do Carmo de Almeida Gil, tratada por Carminha. Uma das filhas de Luiz Jacinto se chamou Maria José de Almeida Gil, a qual se casou com o cidadão português, Francisco Tomaz Rebello, e tiveram cinco filhos e três filhas. Desses, que têm descendentes ainda ligados a Jambeiro, cito três : Carlos, Gustavo e Brazília. Carlos Rebello se casou com Carminha, sua prima, tiveram três filhos e uma filha. Um dos filhos foi o Dr. Carlinhos (Carlos Rebello Júnior, médico benemérito, que tem seu nome dado a uma rua em nossa cidade, ao lado da igreja, e a uma avenida, em Guaratinguetá, onde viveu e faleceu, prematuramente). O Dr. Carlinhos casou-se com sua prima Gizelda, filha de Gustavo Rebello e Bertília Brancatti, e tiveram cinco filhos e quatro filhas. Outro filho de Carlos Rebello é o nosso caro Orôncio, casado com sua prima Flora Gil, filha de Luiz Bernardes de Almeida Gil. É o casal Rebello Gil mais “radicado” no Jambeiro, com seus dois filhos, quatro filhas e oito netos. Outro Rebello jambeirense que costuma freqüentar a terra natal é a Maria Piedade, esposa do neo-jambeirense Paulo Lopes Carvalho, brilhante e apreciado colaborador d’”O Jambeirense”. Neta do casal Francisco Tomaz – Maria José, Maria Piedade é filha de Brazília Rebello e Antonio Nogueira Santos (Antonio Boticário), que teve farmácia em Jambeiro. Um dos irmãos de Piedade, o Benedicto Nogueira, foi exímio violonista e compositor. É de sua autoria a dolente canção “Saudade de Jambeiro”, sempre cantada pelos nossos violeiros. (“O Jambeirense” – 20/03/1985) N. da R.: Na edição de 25/04/1985, “O Jambeirense” publicou o seguinte aditamento à presente crônica : “OS REBELLOS DE JAMBEIRO” – Entre as tantas deficiências que a idade acarreta aos idosos, uma das piores é a perda da memória. Pois não é que me esqueci de lembrar que a Berta, a mais loura dos Rebellos, esposa do nosso amigo Rafael Martinez Balaguer, é filha do casal Gustavo Rebello e Bertília Brancatti, afinal é a única Rebello de fato radicada e residente aqui em Jambeiro, nossa terra ?! Perdoe-me, Berta ! Acho que já estou ficando meio coroca ...” DE REPENTE, A TIVICA NOS DEIXOU !...
  • 9. Foi tudo muito rápido : um enfarte, e não a vimos mais com vida. Deu-nos grande pena sua morte. E sua falta já nos enche de saudades. Para nós era como nossa irmã mais velha. Dedicou-nos uma vida inteira de amizade e carinho, pois foi nossa cunhada – sempre amável e atenciosa – durante cinqüenta e nove anos ! Ou seja, todo o tempo que durou seu exemplar casamento. Com sua candura e inteligência, era encantadora em suas conversas e atenções. De gênio alegre e expansivo, teve muitas e sinceras amizades, como notamos em seu velório, em que tantas e piedosas senhoras não cessaram de elevar a Deus cálidas orações pelo seu descanso eterno. Tivica – Etelvina de Moura Gil – deixa viúvo nosso irmão Nenzinho (Benedicto Bernardes Gil), com o qual viveu, como já disse, cinqüenta e nove anos de um casamento exemplar. Constituíram uma família maravilhosa pelas suas virtudes. Oito filhos : Benedicto (falecido), Luiz Gonzaga (falecido), Etelvina das Dores (Tivininha), Maria Ruth, José Afrânio (falecido), Aparecida, José e Maria Felicidade (Dade). Filhos dignos. Filhas adoráveis. E mais dezenove netos e dezoito bisnetos ! A Tivica mesma foi a derradeira sobrevivente de uma distinta família de dez irmãos, que foram : Maria Izabel (Bezinha), Dario, Maria Angélica (Mariquinhas), Maria Etelvina (Mariazinha), Mário, Etelvina (Tivica), Francisca, Altino, Júlia e Bento (Nenê). Foram seus pais João Bento de Moura e Etelvina Dias de Moura, que residiram em Jambeiro durante muito tempo, na “chácara do João Bento”, situada em frente à matriz e cuja sede ainda existe, pertencente hoje ao sr. Manoel Mendes Ribeiro. Despretensiosa e modesta como foi, a Tivica nunca fez alarde de um fato ligado a um seu antepassado e que, entretanto, bem poderia entusiasmar a qualquer um de nós. Seu avô, o pai de João Bento, foi o Capitão Bento Vieira de Moura, o qual tem seu nome registrado na história do Brasil, pois tomou parte no “Grito do Ipiranga”, no dia 7 de setembro de 1822, quando foi proclamada a Independência de nossa pátria. Naqueles dias, quando o então Príncipe Regente D. Pedro vinha do Rio para São Paulo, ao passar por Pindamonhangaba e Taubaté, formou-se nessas cidades uma “guarda de honra”, composta de destacados cidadãos locais, para acompanhar o Príncipe em sua viagem. Então, entre os seis acompanhantes naturais de Taubaté, se incluiu o Capitão Bento Vieira de Moura. Este acompanhou o Príncipe até Santos e na volta, às margens do Ipiranga, teve a glória de desembainhar sua espada em solidariedade ao histórico grito da libertação nacional. Depois foi condecorado com o “hábito da Ordem de Cristo” pelo então já Imperador D. Pedro I. Mas para Tivica isso pouco contava. Como sabia que são vãs as glórias deste mundo, tratou antes de ser boa e honesta, de cuidar de sua família, de levar sua vidinha calma, modesta e trabalhosa, que agora, aos oitenta anos, chegou ao fim ... Para nossa tristeza e lembranças, apesar de ter ido para a Casa do Pai ... (“O Jambeirense” – 25/04/1985) DISCORDANDO Peço permissão para discordar de algumas expressões contidas numa notinha (“Mais eucalipto ?!”) publicada na última edição do nosso “O Jambeirense”. Como o assunto é extenso, resumirei o mais possível. Eu acho que as plantações de eucalipto, principalmente as feitas em áreas acidentadas, são as que menos estragam as terras. Elas evitam as erosões e umidificam o solo com as partes que caem, como folhas, cascas, gravetos etc., e com as raízes que penetram na terra, tornando-a assim mais rica. Sobre esse assunto, o Boletim nº 6, de 1965, do Serviço Florestal do Estado, traz o seguinte :
  • 10. “A propósito da capacidade de restauração do solo com essências florestais, inclusive o eucalipto, lembram-se as exuberantes culturas de café de Campinas e Rio Claro, sucessoras de eucaliptos que recobriram as glebas por algumas décadas e cuja manta não fora desbaratada.” Como se vê, muito diferente do que aconteceu com as lavouras de café, que foram plantadas em terras de matas virgens e férteis e que, ao se extinguirem, deixaram verdadeiros desertos de terras erodidas, ácidas e estéreis, onde só medraram sapé, barba-de-bode ou rabo-de-burro ... Planta de rápido crescimento, o eucalipto, em seu desenvolvimento, consome mesmo muita água das chuvas. Mas suas raízes não chegam a sugar o lençol freático. Entretanto, como depois de formados, os eucaliptos não são mais capinados, acontece que a manta de detritos se adensa e passa a reter toda a água pluvial, como qualquer floresta natural. E o excesso de água não absorvido pelas plantas acaba se infiltrando pela terra adentro, contribuindo, assim, para sustentar as nascentes em vez de secá-las. Aliás, por observação própria, nas diversas regiões onde executei empreitadas de milhões de pés de eucalipto, nunca notei que as muitas vertentes que aqui e ali existiam, tivessem secado ou, mesmo, diminuído sua vazão. E foi confiando nisso que, a poucos metros acima de uma fraca nascente que abastece minha residência, eu formei um eucaliptal. E a fonte continua a mesma. Não sendo, pois, as nascentes prejudicadas pelos eucaliptos, elas continuarão a fornecer aos rios as mesmas águas de antes. E mais : retendo as águas superficiais, o eucaliptal contribui para evitar as enxurradas ou enchentes e, conseqüentemente, as erosões e assoreamentos, com o que auxilia a manter o equilíbrio na natureza. Acho, portanto, que o eucalipto é, acima de tudo, uma essência abençoada, não só pelas suas utilidades, como pela grande importância econômica que já adquiriu em nosso país. São grandes e variados seus usos e empregos, como na construção civil, nas indústrias de compensados e de papel; como postes, estacas, dormentes, mourões, lenha, carvão, mobiliário, óleos, tanino etc.. Adapta-se nas mais estéreis e acidentadas terras, reconhecidas como impróprias para qualquer outra utilização agrícola. Nas zonas rurais, onde praticamente nem existem mais madeiras, é “pau pra toda obra”. Qual outra madeira poderá substituí-lo ? O que é de se lamentar é que ainda nem todos os agricultores inteligentes possuam em suas propriedades ao menos meio alqueire, com seus três mil pés de eucaliptos, para satisfazerem suas inúmeras necessidades de madeiras. (“O Jambeirense” – 26/01/1986) HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ... Transportes -I- Nos fins do século passado, Jambeiro talvez tivesse um terço das casas que hoje possui. Mas a população do município devia ser umas três vezes maior. A igreja matriz atual ainda levaria uns trinta anos para ser edificada. Em seu lugar, muito modesta, ainda existia a primitiva igrejinha, construída pelos esforços piedosos do Capitão Jesuíno Antonio Baptista, para atender às necessidades religiosas dos moradores do povoado do Capivari. Naqueles tempos, muitas casas da vila permaneciam quase sempre fechadas. Eram as residências dos fazendeiros ou sitiantes que, morando em suas propriedades rurais, só apareciam na vila, com suas famílias, em raras ou especiais ocasiões, como festividades religiosas, fins do ano etc..
  • 11. Era, aliás, um verdadeiro “dia de juízo” movimentar-se uma família, como as antigas, em geral numerosas e ainda acrescidas de seus agregados e empregados. Para virem passar alguns dias na vila, era preciso locomover-se o carro de bois ou o trole, levando os patrões. E mais alguns cargueiros, transportando lenha, mantimentos, roupas etc.. Junto, alguns cavaleiros. Por fim, dois ou três cachorros de estimação, correndo e latindo em volta da caravana ... Por caminhos quase sempre em precárias condições, as viagens feitas a pé, a cavalo, em carros de boi, em aranhas ou troles, eram demoradas e cansativas e constituíam, por si sós, um acontecimento para seus realizadores. Distâncias que hoje são percorridas em poucos minutos por asfalto deslizante, naqueles tempos poderiam gastar horas e horas de caminho pedregoso ou íngreme, poeirento ou lamacento. Disso, talvez, a pouca disposição de se viajar ou a rara freqüência das famílias na vila. De modo geral, individualmente, o meio mais comum ou popular de se locomover era o animal de sela. Daí, o grande empenho com que os ricos ou remediados procuravam possuir bons e belos animais, para seu uso obrigatório ou, às vezes, para uma compreensível exibição. Assim é que existiam e se viam, com freqüência, exemplares dos mais soberbos e variados tipos. Alazões, cor de canela; zainos, de um castanho-escuro sem mescla, ou pretos sem brilho; baios, nas diversas tonalidades do castanho ou ouro desmaiado; tordilhos, de pelagem negra com malhas brancas; murzelos cor de amora; ruões, mesclados de branco e pardo ou claro com crinas amarelas; pampas, só de cara branca ou de corpo em zonas pretas e brancas; muros, pretos salpicados de branco; piquiras, resistentes e ágeis, às vezes boleadores. E ouros mais, que os entendidos no assunto poderiam citar, ou mesmo tipos indefinidos, como aqueles da “cor de burro quando foge” ... E por falar em burro, não esquecer aquelas bestas gigantes, resistentes e espertas, que davam inveja !... (“O Jambeirense” – 30/04/1986) HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ... Transportes - II - O gosto por bons animais de montaria que existia – e era uma necessidade no passado – agora ressurge entre nós, com espírito esportivo ou interesse comercial. É o que se tem presenciado nas cavalgadas efetuadas em nossa cidade, das quais a última, realizada na Festa do Tropeiro, tanta admiração despertou, atraindo gente de toda a região. Foi uma apresentação deveras empolgante, na qual também se pôde apreciar, além do garbo dos cavaleiros, da graça das belas amazonas e do entusiasmo dos cavaleiros-mirins, também a excelência dos muitos e admiráveis exemplares eqüinos presentes no desfile. Mas voltemos ao nosso passado. Quando os automóveis ainda mal buzinavam seus primeiros vagidos lá ao longe, a principal valia ou ajuda, nas atividades de transporte dos nossos antepassados, eram mesmo os cavalos, os burros e os bois. Para isso, era comum as grandes propriedades possuírem seus plantéis de animais de sela e manadas de outros, para toda sorte de serviços. A propósito da estima ou valor em que eram tidos os bons cavalos daqueles tempos, deu- se em Jambeiro um caso bastante ilustrativo, que adiante vai resumido : ainda bem moço, mas já bem próspero negociante de café e cereais, além de proprietário no bairro do Varadouro, onde deve ter nascido (em 26/10/1858, sendo registrado em São José), aqui residia o sr. José de Almeida Telles.
  • 12. Morava ele numa bela casa ajardinada, que existiu no terreno atualmente desocupado, à margem do ribeirão dos Francos, em frente à nova Casa da Agricultura. Seu pai, Francisco de Almeida Telles (como o filho, também ligado à Família Vieira), teve loja de tecidos na esquina da Praça Almeida Gil com a Rua Cel. João Franco de Camargo (casa do Laurinho). Posteriormente, os Telles se mudaram para Caçapava, onde o então Major Almeida Telles se tornou elemento de grande prestígio pela sua projeção social, econômica e política. Acontece que o Zé Telles – como então era chamado aqui – possuía um dos mais belos e melhores cavalos do município. Certa feita, veio a Jambeiro uma Comissão com o fim de requisitar animais para o Exército e um dos primeiros a ser visto, cobiçado e logo requisitado foi justamente o cavalo pertencente ao Zé Telles. Quando se soube do acontecido, o desagrado na cidade foi geral. Solidariedade ao proprietário, que era muito estimado, e pena do valioso animal, que ia ser levado embora. Guardadas as proporções, poderíamos avaliar o reboliço que haveria na cidade, imaginando-se que hoje aparecesse por aqui alguma autoridade e fosse logo requisitado aquele bonito cavalo árabe, o “Dominó”, do nosso amigo João Paulo Almeida !... Mas o caso acabou com um final feliz, por meio da entrada em cena da boa política apaziguadora. Como toda a Comissão se havia hospedado, graciosamente, na residência do chefe político local, o Cel. Almeida Gil, este manteve uma boa conversa com o chefe da Comissão e lhe propôs que escolhesse três outros animais da criação de sua fazenda e os levasse, em troca daquele que havia sido requisitado ao José Telles. A oferta foi bem aceita e com isso voltou a calma e a alegria ao povoado. E o “Dominó” daquele tempo voltou a bater, garbosamente, suas ferraduras pela poeira ou pela lama das ruas daquela época ... (“O Jambeirense” – 25/07/1986) HISTÓRIAS DAQUELES TEMPOS ... Transportes -III- Até 1920, os transportes aqui eram feitos à custa dos animais de sela, de carga e de tiro. Por isso havia muita fartura desses animais. Os contemporâneos daquela época devem lembrar-se de como a cidade ficava aos domingos, com a chegada dos moradores da roça e suas conduções. A animalada costumava ocupar quintais de parentes ou amigos. Lotava o pasto do Joaquim Ivo (atual Jardim Centenário). Enchia a Vila Vicentina e, principalmente, os cavalos se alojavam por todo o barranco onde hoje está o bangalô do Didi Coelho e esparramando-se até o final da Rua Nova (Rua Cel. Antonio Bernardes de Almeida). E como era divertido quando ali por perto havia algum foguetório e acontecia que muitos animais espantados desembestavam pela praça e ruas afora, com seus donos correndo atrás para contê-los. Além dos animais de sela, havia diversos tipos de carruagens, como os troles, semitroles e aranhas. Entre vários outros, podem ser lembrados os troles pertencentes aos irmãos Joaquim Franco de Almeida (Sinhô Bernardo), Antonio Bernardes de Almeida e Leopoldo Franco de Almeida. E era um verdadeiro espetáculo quando o Coronel João Franco de Camargo e esposa, D. Mariquinha (Maria Adelaide Vieira), chegavam da fazenda. O trole, tirado por soberba parelha de cavalos brancos, caprichosamente ajaezada, subia a Rua Debaixo (Rua Cel. Batista) a largos passos, tendo à boléia o Chico Guedes
  • 13. (Francisco Tolosa Guedes, tio materno de meu pai e uma das mais queridas figuras dos velhos tempos de Jambeiro). A cavalo, seguiam a carruagem o Coronel e seus três filhos – Franco, Dodão e Rinaldo. Às vezes, antes de entrar pelo largo portão da residência (aquele casarão ainda existente há uns quinze anos, que ia desde a atual bomba de gasolina até o ribeirão), Chico Guedes gostava de dar uma volta pela praça ... Esta, então, se enchia de acenos e sorrisos, trocados entre os moradores e as gentis senhoritas e meninas da carruagem – Sinhá (Olívia), Deita (Adélia), Pequetita (Maria Francisca), Elza e Zélia. De toda a turma ainda vivem a primeira, a Sinhá, forte nos seus 92 anos (viúva do prof. Nestor Luz, meu primeiro mestre), e a Zélia, que com seu esposo, sr. Ary Ramos Vieira de Bastos, semanalmente está entre nós. Mais gracioso e leve, puxado por um só cavalo, era o semitrole. Com o seu, José Fortunato da Silva Ramos (avô do Tarcísio) às vezes exibia sua elegância, dando umas voltas pela cidade. As aranhas, precursoras das atuais charretes, das quais se diferenciavam por possuírem rodas maiores, estreitas e chapeadas. Com uma delas e um bom cavalo, ia-se a Caçapava e de lá se voltava num mesmo dia. Quando era moço, todo fim de semana e por muitos anos, o Ivo (Benedicto Ivo, estimado ex-prefeito) levava em sua aranha mercadorias para negociar em Caçapava. Como reminiscência final daqueles tempos, lembramo-nos dos troles de aluguel que aqui existiam. Como o de José Lúcio do Prado, que em viagens longas e difíceis levava passageiros até o alto da serra de Caraguatatuba. Ou então imaginar, vindo de Caçapava, ver surgir pela Rua Nova, a trote lento e ao estalar do relho, o Lica Rocha com seu trole barulhento ... Ah ! Jambeirinho saudoso da minha meninice ! Até me faz lembrar uns versos de não sei qual poeta, que certa vez meu pai escreveu numa parede da fazenda : “Amadas ribeiras em que nasci, em que passei os melhores anos da minha infância feliz ! Único tempo de sólida ventura, com que saudade vos recordo ... e vos desejo !...” (“O Jambeirense” – 15/10/1986) O AUTOMÓVEL EM JAMBEIRO (I) Até a década dos anos 20, os automóveis, ainda que poucos, já eram uma realidade em nosso Estado. Como, naquela época, os bons preços fizessem “sobrar” dinheiro aos fazendeiros, ao mesmo tempo em que a Companhia Ford acabara de instalar uma linha de montagem em São Paulo, para seus carros fabricados nos Estados Unidos, o número de automóveis aumentou muito. Além dos “fordinhos”, outras marcas, em geral mais caras, pesadonas e de luxo, passaram a roçar, roncando e fonfonando pelas ruas esburacadas e estradas apenas carroçáveis daquele tempo. Lembro-me de alguns nomes : Rolls Royce, Cadillac, Hispano Suiza, Bugatti, Lancia, Dodge, Fiat, Studebaker, Oldsmobile, Hudson, Buick, Chevrolet etc. Coube à Ford a popularização do automóvel, com seus carrinhos leves e baratos. Seu modelo “T”, o célebre Ford de bigode, tornou-se o carro do povo, como até há pouco era o Fusca.
  • 14. Em Jambeiro ele predominou. Alto, sacolejante, pipoqueiro, tinha três marchas : primeira, segunda e marcha a ré. O tanque situava-se em cima do motor e a gasolina descia por gravidade. Por isso, nas subidas mais fortes, podia faltar gasolina no motor e o carro pifava. Era quando os passageiros tinham de descer e ajudar a empurrar o miserável. Os primeiros fordecos que chegaram a Jambeiro não possuíam o motor de arranque, que ainda era uma espécie de acessório opcional. Assim, para acionar o motor, usava-se uma manivela que se introduzia na frente, abaixo do radiador. Depois que o motor pegava (arre !), recolhia-se a manivela. Às vezes, um contragolpe inesperado da manivela podia quebrar o braço do virador (o que, aliás, não tinha a menor importância, pois seu Pedro Lopes, nosso grande farmacêutico, com facilidade encanava o braço partido ...) Ignorando a existência do motor de arranque em outros carros, a molecada das gerais, quando assistíamos no cinema do Hilário a algum automóvel partir sem usar a manivela, pensávamos que estava havendo tapeação na fita. E lá vinham as vaias, dadas pela nossa inocente ignorância ... Salvo erro ou omissão, lembro-me de que o primeiro que possuiu automóvel em Jambeiro foi o Zezinho Cunha (José Pinto da Cunha). Seu carro, um Ford, teve a placa P-1. Como naquele tempo ainda não estava regulamentado esse negócio de placas, cabia ao proprietário mesmo mandar fazer a sua. De Caçapava veio o preto Adriano, o chofer, para dirigir o auto do Zezinho Cunha. Entretanto, de vez em quando era o Luiz Pinto da Cunha (atualmente residindo em Santa Cruz do Rio Pardo) quem pegava o carro do pai e dava umas voltas pela cidade, o que alarmava todo mundo : pudera, o Luiz Pinto tinha apenas uns doze anos ... O segundo Ford pertenceu ao Sinhô Luiz (Luiz Bernardo de Almeida Gil) e seu motorista era o filho Nenzinho, meu irmão, o qual mandou fazer a placa nº P-2. A carta de motorista do Nenzinho, a primeira de Jambeiro, foi tirada aqui mesmo na Prefeitura. Certa vez, ao cuidar de uma vaca, o Nenzinho espirrou creolina num olho. Quando a turma dos afiados línguas-de-trapo da cidade soube do fato, foi aquela gozação : disseram que ele tinha ido curar uma bicheira no seu fordeco ... O terceiro carro, outro fordinho, pertenceu ao ... (“O Jambeirense“ – 25/08/1987) O AUTOMÓVEL EM JAMBEIRO (II) O possuidor do terceiro automóvel em Jambeiro – o P-3 – foi o Joaquim Pinto da Cunha, o mais amável e estimável dos Cunhas. Membro da turma dos caçadores, às vezes ia à caçada levando sua cachorrada veadeira latindo entusiasmada , em coro com a buzina do fordinho ... O quarto possuidor de automóvel foi o Sinhô Bernardo (Joaquim Franco de Almeida). Primeiro teve um fordinho, logo trocado por um Chevrolet “cabeça-de-cavalo”, cujo motorista era seu filho Yeyé (José Geraldo de Almeida, hoje residente em Ribeirão Claro, no Paraná.) Era um ótimo carro, que envelheceu em Jambeiro. O quinto Ford pertenceu a José Bernardino Vieira. Era dirigido pelos seus filhos Ditinho, Zezé, Nelson e Dagi. O sexto carro pertenceu a outro Cunha, o Benedicto Pinto da Cunha. Foi um Chevrolet, por sinal, desastroso : com ele, o Cunha, em companhia do garoto Ary Lopes, ao passar numa tarde lamacenta pela ponte do Craveiro, o carro derrapou e despensou no rio Piraí. Foi nesse desastre que o Ary recebeu graves ferimentos, cujas cicatrizes o marcaram até o fim da vida. O carro sinistrado “acabou-se”. Mas, tempos depois, com o pedido insistente do próprio Ary, o Cunha comprou um Buick, que foi o carro mais luxuoso que existiu em Jambeiro naquele tempo.
  • 15. O sétimo carro pertenceu ao Alberto da Silva Ramos. Depois, muitos outros jambeirenses adquiriram automóveis. Um deles foi o estimado cidadão português, Manoel Padeiro. Este, voltando um dia de Caçapava, sofreu um acidente e por pouco não se “estrombicou” todo. Por isso, “raios que o partam” ... vendeu logo seu fordinho ... Comprou-o meu irmão, Luiz Gil, que, com a competência do Neco Funileiro (*), transformou-o numa baratinha de corrida, tipo “charuto”, como se usava naquele tempo. Por causa dessa baratinha, o Luiz certa vez teve um caso meio gozado com a Polícia local. Mas isso já é uma outra história ... Depois, quando em fins de 1929 veio a terrível crise do café, que baqueou toda a fazendeirada, os automóveis, como que por encanto, sumiram de Jambeiro. Só ficou o “cabeça-de-cavalo”, o rijo chevrolet do Sinhô Bernardo ... (“O Jambeirense” – 16/09/1987) (*) Manoel Carlos dos Reis – hábil funileiro – mais conhecido como “Neco” – em 14/02/1895 casou-se, com 22 anos, casou-se com Benedicta Innocencia de Carvalho, com 27 anos (ou Benedicta Francisca da Carvalho, como consta na certidão de óbito dele, Manoel Carlos dos Reis, datada de 30/10/1951). Natural de Paraibuna, era filho de Rophino Carlos dos Reis e Luíza Alves Honorato. Ela, Benedicta (conhecida por “Bidita”) era natural de Redenção da Serra, filha de Manoel Dias de Carvalho e Claudina Maria de Jesus. O casal residiu muitos anos no começo da Rua Cel. Batista, ao lado da ponte sobre o Ribeirão Jambeiro, não tendo deixado geração. “Neco” faleceu em Jambeiro, em 30/10/1951 UMA VIAGEM HISTÓRICA - I - Um dos grandes entusiastas do automobilismo foi o ex-Presidente Washington Luís Pereira de Sousa. Quando Presidente (título hoje mudado para Governador) do Estado de São Paulo, seu lema era “Governar é abrir estradas”. E criou o Plano Rodoviário Estadual, graças ao qual construiu estradas e incentivou o transporte rodoviário. Em 1923, percorria ele o Vale do Paraíba, em propaganda de sua candidatura à Presidência da República, para a qual, aliás, foi eleito e depois deposto pela revolução antipaulista de 1930. Quando aqui se soube que tão eminente político deveria passar por Jambeiro, o Prefeito, Major João do Amaral Gurgel, entre diversas providências, convidou e ajustou quantos quisessem colaborar no reparo da estradinha que ia do Tapanhão até o alto da serra. Apresentaram-se desde filhos de fazendeiros até os elementos mais ou menos desocupados da cidade. Com isso, o mutirão transformou-se numa verdadeira pândega. Basta dizer que um dos fiscais ou dirigentes de turma foi o nosso benquisto barbeiro, Pedro Braz que, com sua natural calma e delicadeza, dirigia os serviços. No dia da visita, foi aquela festa : cidade limpa, povo bem vestido, satisfação geral, criançada com bandeirinhas enchendo o Grupo Escolar que, por sinal, naquele tempo tinha o nome de “Escolas Reunidas”. Depois da solene recepção na Câmara Municipal (*), a primeira inspeção que o ilustre visitante fez foi na Escola. Recebemos palavras elogiosas e incentivadoras, às quais respondemos com vivas e agitar de bandeirinhas. Depois, logo ali perto, foi uma visita à Cadeia. Pasmo do visitante ! Tudo silencioso e limpo. Nenhum preso nas celas. Foi então que ele pronunciou uma frase que foi muito badalada pela imprensa : – Feliz a terra que tem sua Escola superlotada e a cadeia, vazia ! Sorte nossa ! O único pinguço que havia pernoitado na cela, o “Rabo Curto” logo de madrugada tinha sido encaminhado lá para os confins das Coletas. Sem saber a razão da sua viagem, feliz, passou o resto do dia esvaziando alguns litros de cachaça. Dádiva generosa do comércio local ...
  • 16. (“O Jambeirense” – 26/10/1987) UMA VIAGEM HISTÓRICA - II - Antes, porém, da chegada do Presidente Washington Luís a Jambeiro, seu automóvel, não agüentando as asperezas do caminho, teve o motor fundido ali no bairro do Tapanhão. Foi passando para um carro da comitiva que o Presidente do Estado chegou à cidade, onde foi recebido por aquele foguetório especialmente preparado pelo professor Júlio de Moraes. O veículo danificado foi socorrido por um caminhãozinho pertencente, em sociedade, ao Zezinho Cunha (pai do Pe. Ernesto) e ao Zé Monteiro (avô do Zebra), o qual, a muito custo, o transportou até Caçapava. Esse caminhão, que chegara novo a Jambeiro, teve de receber uma nova carroceria, mais leve, para poder enfrentar os caminhos do município, principalmente aquela antiga e difícil (porém, saudosa) estrada da Serra. Essa estrada saía ali pela “Rua Nova” (hoje, Rua Cel. Antonio Bernardes de Almeida), logo passava pelo sítio do Nhô Emídio, contornava o “Bairrinho”, cortava o sítio dos Tosettos e dos Barretos, e vadeava o córrego que vem da propriedade que hoje pertence ao Geraldo Boaventura, e chegava ao tope. Certa vez, ao passar muito pela beira do barranco onde a água caía, a montaria do estafeta Anselmo despencou lá para baixo com as malas do Correio. Felizmente, só houve susto ... Virada a serra, a estrada passava pela fazenda dos Costas (bisavós do Walther, Edith, Tito e Marina Cunha) – Fazenda da Glória – e descia íngreme, cheia de curvas, estreita e pedregosa. Para quem vinha de Caçapava, um dos obstáculos mais temidos era o terrível “espinho de agulha”. Ali quase sempre os motores ferviam e os carros empacavam. Tinham, então, de ser ajudados a subir a muque, empurrados pelos viajantes. Outro lugar temido era já lá adiante de Piedade, onde a estrada atravessava um terreno úmido – o brejo do Sales. Em tempo chuvoso era comum os carros atolarem até os eixos. Mas o “socorro” era logo levado por um sitiante morador ali na redondeza, o qual sempre tinha de prontidão uma junta de bois ... Foi essa estrada que o ilustre Presidente e comitiva tiveram de enfrentar na sua histórica viagem. Talvez tenha sido por isso que, passado algum tempo, um dia o então Prefeito Major Gurgel foi chamado a São Paulo, donde voltou com a notícia da construção da nossa atual rodovia. Até agora o ex-Presidente Dr. Washington Luís Pereira de Sousa e o ex-Governador Dr. Lucas Nogueira Garcez foram as autoridades máximas de nosso Estado que nos deram a honra de visitar oficialmente nossa terra. Por isso, também, são os únicos nomes “de fora” que mereceram a homenagem de ter seus ilustres nomes em placas de nossas ruas. (“O Jambeirense” – 31/01/1988) FATOS E COISAS DO PASSADO - I - Sobre a palestra que fiz durante o I ERPRAC (1º Encontro Regional de Preservação das Raízes Culturais do Vale do Paraíba), aqui realizado por iniciativa da Prefeitura Municipal nos dias 8, 9 e 10 de março passado, recebi várias solicitações ou sugestões para que a publicasse. Como jambeirense, tais pedidos me alegraram pelo interesse demonstrado por alguns que me ouviram, em conhecer mais fatos ligados à nossa cidade. Assim é que resolvi atendê-los, acrescentando mais casos sobre o assunto, o qual, apesar de longo, é muito interessante.
  • 17. Sempre atrai e comove saber de acontecimentos referentes à terra natal ou a parentes e amigos que não existem mais. Vou tentar fazer isso. Desde já, porém, peço perdão se errar ou se, involuntariamente, desagradar a alguns leitores, devido à minha natural inaptidão. Para corrigir minha deficiência, aí estão muitos conterrâneos e amigos, que também conhecem coisas da história de Jambeiro, como a Profª Maria Olímpia Vieira, D. Leonor Gurgel Almeida e seu irmão, Olavo do Amaral Gurgel, que muito sabe sobre Jambeiro; o Walther Costa Cunha, o David Gagliotti e o Benedicto Ernesto Alves de Moraes que, como diretor esforçado deste jornal, tem acumulado muitos subsídios para a história de nossa terra. E mais tantos outros cujos nomes não me vêm agora à lembrança. Conto com eles e desde já agradeço. *** Para falar sobre o passado de Jambeiro e de sua antiga gente, temos de valer-nos quase que exclusivamente da tradição oral. Isso porque documentos antigos, principalmente oficiais, a não ser os da Paróquia, existem muitos poucos. Temos, felizmente, uma excelente ajuda que merece ser lembrada : foi o aparecimento d’O JAMBEIRENSE, em 07/07/1904. É ele hoje o principal testemunho escrito dos muitos fatos que aqui aconteceram nos quase trinta anos de sua publicação, no começo deste século. E a propósito, é justo também louvar e ressaltar o desvelo e a previsão do cidadão extraordinário que foi o Major João do Amaral Gurgel, o qual fez chegar até nós a única coleção quase completa das edições d’O JAMBEIRENSE, publicadas de 1904 a 1933 (da qual o atual diretor responsável extraiu cópias, completando a coleção com exemplares de 1936, 1938, 1939, 1964, 1979 e de 1981 até hoje). (“O Jambeirense” – 25/05/1988) FATOS E COISAS DO PASSADO - II - Eu disse que afora os livros do “Tombo” da Paróquia, há poucos documentos escritos referentes à história do Jambeiro antigo. Eles desapareceram. Isso, aliás, aconteceu em quase toda parte, naquele tempo em que o verbo “preservar” era mesmo desconhecido e a ignorância gerava o indiferentismo ou o descaso pelos repositórios da memória nacional. Entre nós podemos citar alguns motivos desses desaparecimentos. Por exemplo, uma causa natural, imprevisível : a primeira grande enchente que aqui se deu no dia 2 de março de 1917. Chegando as águas a alcançar dois metros na praça, foram danificados ou destruídos muitos documentos federais, estaduais e municipais (sobre essa enchente falarei oportunamente). Mais recentemente, por razão, de um lado bem lastimosa, como de outro até um tanto esquisita, houve aqui destruição de documentos. Foi o caso que se deu com um meu caro colega de mocidade, o Hito (Hipólito de Moraes Filho). Pessoa de valor, o Hito fazia lembrar seu pai, o Hipólito Modesto de Moraes, figura notável pelos seus conhecimentos e muito ligada à história do passado jambeirense (considerado, com razão, o primeiro pesquisador de nossa terra). Pois o Hito era funcionário de uma repartição pública local, quando morreu tuberculoso. Então, alegando evitarem-se futuros contágios, resolveu-se incinerar todos os livros e demais papéis com os quais ele havia trabalhado (!). Fato lastimoso pelo caso de morte, porém estranho pela idéia “luminosa” e simplista que se teve, de queimar toda a papelada. Outro caso semelhante aconteceu que, a não ser por outra morte a lamentar, não causou, felizmente, nenhuma perda de documentos. Trata-se da sorte que tiveram os livros do cartório do registro civil, cujo escrivão nesse tempo era meu saudoso tio materno Enoch Elias de Barros. Pessoa muito benquista e até hoje lembrado por todos os que o conheceram, meu tio Enoch também morreu tuberculoso. Imagine-se que caso sério, que
  • 18. grande complicação teria acontecido, se tivesse havido outra “brilhante” idéia de se queimarem os livros do cartório em que ele trabalhou ... Além dessas perdas de testemunhos do nosso passado, ainda há casos, até desonestos, de desaparecimento de documentos. Mas não vamos falar deles ... Como falei em mortes por tuberculose, é bom esclarecer que há umas décadas passadas, ser ou morrer tuberculoso era coisa corriqueira. A cura ou prevenção não era fácil como agora, que até faz parecer que essa moléstia desapareceu. Nosso ótimo clima atraía gente de fora, que aqui vinha se tratar. Na região, acima de Jambeiro nessa especialidade, só estavam Campos do Jordão e São José dos Campos. Certa vez, ao se aproximar desta última cidade, como era costume, o chefe do trem avisou : – São José dos Campos ! Então, um grupo de galhofeiros impiedosos completou : – Cidade de um cilindro só, fazendo menção à fraqueza pulmonar que havia entre muitos de seus moradores. Entretanto, hoje, nossa cara vizinha é esse verdadeiro colosso que aí está e que se coloca entre as primeiras cidades do nosso Estado. (“O Jambeirense” – 22/06/1988) O FUNDADOR DE JAMBEIRO Causou-me estranheza, bem como a muitos que tiveram a oportunidade de visitar o MUSEU DO TROPEIRO, no último mês de junho, verificar que, entre os muitos objetos colocados à visitação pública, encontrava-se o retrato emoldurado do capitão Jesuíno Antonio Batista, destacando-o como “fundador de Jambeiro”. Em que pesem as virtudes do ilustre cidadão, que muito contribuiu com a nossa terra, há que se fazer justiça ao fato de que Jambeiro foi realmente fundado por um outro cidadão, cujo nome é lembrado em nossa praça principal : LUIZ BERNARDO DE ALMEIDA GIL. Reportando-nos à História, verificamos que, no começo do século XIX, os sertões do Capivari (hoje, Jambeiro) eram uma enorme fazenda de propriedade de Luiz Jacinto Gil e Ana Gomes Vieira de Almeida, que servia de pousada e hospedagem às tropas e viajantes que demandavam Paraibuna ou o Litoral, e onde, com o tempo, foram surgindo várias casas de parentes, de agregados e de comércio. Um dos filhos dos proprietários, Luiz Bernardo de Almeida Gil, tendo herdado esse imóvel, resolveu dar a forma de cidade ao conglomerado. Para tanto, fez vários melhoramentos como a alteração dos cursos dos ribeirões que cortavam o terreno, demarcou ruas, fez pontes, nivelou a praça que hoje leva o seu nome, tendo ainda doado lotes e fornecido material para as construções. Os atos litúrgicos, porém, continuavam a ser realizados na capela da sede da fazenda de Almeida Gil, situada no local onde hoje se encontra a EEPSG “Cel. Joaquim Franco de Almeida”. Era idéia do fundador construir uma igreja onde hoje se situa o conjunto poliesportivo da A.A.Janbeirense. Foi quando, porém, surgiu um fato, através do Capitão Jesuíno Antonio Batista, amigo e correligionário de Almeida Gil, que veio resolver o problema do culto. Aqui chegando em 1848, o Capitão Jesuíno conseguiu grande prosperidade e prestígio, tendo adquirido, em 1865, de João Batista de Barros a área que de terra que hoje constitui a parte alta da cidade. Homem profundamente religioso, o Capitão Jesuíno, após ter ganho uma demanda e sentindo, também, a falta de uma igreja na povoação, doou o terreno para a construção, o que se efetivou com a elevação de um templo sob a invocação de Nossa Senhora das Dores, sendo, portanto, considerado o fundador da Paróquia, cabendo a Luiz Bernardo de Almeida Gil a honra de fundador do município. Que não me levem a mal os organizadores do Museu do Tropeiro, mas os que me conhecem sabem como sou curioso escrevinhador dos acontecimentos da nossa terra, e as linhas acima foram motivadas unicamente no sentido de se restabelecer a verdade.
  • 19. (“O Jambeirense” – 16/07/1988) “JAMBEIRISMO” Podemos chamar de “jambeirismo” esse sentimento de amor, carinho ou simpatia que a gente sente por Jambeiro. E tanto faz que se tenha nascido e permanecido aqui, ou como os conterrâneos que se foram, ou mesmo qualquer pessoa ligada à nossa cidade. Há muitas famílias que daqui partiram e que nunca mais tiveram qualquer com a terra natal. Em compensação, inúmeras outras continuam a manter seu “jambeirismo”. E muitas o fazem de uma maneira sensibilizante : assinam “O JAMBEIRENSE”, para estarem a par do que aqui acontece, ou comparecem, com filhos e netos, às nossas grandes festividades. Os mais idosos vêm felizes e ansiosos por rever sua velha terra. Visitam a igreja querida que marcou suas almas (batismo, primeira comunhão, casamento ?) Oram ao SS. Sacramento e homenageiam a Imagem dolorosa da Senhora das Dores. Depois saem por aí, a olhar, com olhares de dezenas de anos passados, aqueles lugares que tantas saudades e recordações lhes trazem. Se encontram antigos conhecidos, é aquela alegria que dá gosto ver ! Os mais novos aprendem a conhecer e a amar a terra dos antepassados. Descem à Cascata e rolam pelas pedras lisas. Sobem ao Morro do Cruzeiro e se extasiam com aquelas vistas maravilhosas. Vindos, quem sabe de cidades grandes, cheias de barulho e poluição, de artificialismo e sufoco, aqui descobrem que ainda há lugares, como Jambeiro, onde o ar é sempre puríssimo e o céu, muito azul. Cercada de verdes montanhas cheias de luz, a cidade é calma como um meio-dia de sol sem vento. De excelente clima e de sanidade completa, onde nenhum miasma deletério prolifera. De gente boa, risonha e acolhedora. Assim, esses “jambeirenses por herança” passam a curtir o mesmo jambeirismo de todos nós. Mas, nessas ocasiões em que Jambeiro se enfeita e se alegra, também há tristeza. É quando nos lembramos dos conterrâneos e amigos que para aqui nunca mais voltarão. E são muitos ! Recordo apenas alguns, como o Sílvio Zuim, o João Bellotti e filhos; vários membros da Família Braz; o Pe. José Maria da Silva Ramos. O Júlio Martins e seus filhos, Laércio e Bidianinha. O poeta Gurgel Júnior, José Anísio Cunha, Antonio Ozório de Moraes, o Dr. Déscio e seu pai, Jorge Pereira. O João Batista Tolosa. Os irmãos Sinésio, Zoro e José. Luiz Moraes, Manoelzinho Rocha, Euclides Rocha, o Didi do Ivo e outros e tantos outros mais que nos deixaram tantas saudades !... E por falar em Didi Ivo, lembro-me de uma Festa da Padroeira, quando fui ao sítio de meu irmão Nenzinho (hoje em outras mãos). Ao passar pela chácara do seu Guilherme, topei com uma família divertindo-se ali próximo do ribeirão. Pela placa do carro, percebi que era gente do Rio de Janeiro. Averiguando, percebi que se tratava do nosso saudoso poeta Diomedes Santos, que ali estava com sua família, matando saudades ... Justamente no lugar que pertencera ao seu pai, Benedicto Albino. Viera de longe rever a terra do seu nascimento e do seu coração ! E era verdade, pois num dos seus livros de poesia – “No azul da imaginação” – ele assim se expressou : “Tenho sempre na minha imaginação a casa da minha infância, com andorinhas no beiral, flores por todos os lados, o pomar cheio de frutos, as árvores ornadas de passarinhos, o tanque cheio de peixes.” O poeta Diomedes, que foi cunhado do Didi Ivo, tem uma rua com seu nome em São José dos Campos. O que também muito nos honra. Tudo isso faz parte do nosso “jambeirismo” ... (”O Jambeirense” – 18/08/1988)
  • 20. FESTAS JAMBEIRENSES As antigas festas de Jambeiro não eram como as de agora, que atraem esse povão incalculável nos festejos da Padroeira, na Coroação da Imagem de Nossa Senhora Aparecida ou no Dia do Tropeiro. Pois não era muito fácil vir gente de fora, mesmo de Caçapava ou Paraibuna. As viagens eram sempre custosas e demoradas. Hoje, ao contrário, é isso que estamos vendo todos os anos. A facilidade com que centenas de ônibus e automóveis trazem milhares de visitantes dos mais distantes lugares. Por isso, as festividades antigas eram como que mais íntimas, mais familiares. Mas gente era o que nunca faltava. Pois se hoje nós contamos cerca de três mil habitantes, há cem anos o município tinha mais de dez mil. A principal festa daqueles tempos longínquos, entretanto, era a do Divino Espírito Santo. Uma semana antes do grande dia, a “casa da festa” já passava a sustentar dezenas de “ajudantes” ou forasteiros avulsos. É que fartura não faltava. Fazendeiros e sitiantes, nadando na bonança que o café propiciava, contribuíam generosamente. Cereais, reses, porcos, aves e que mais, eram de sobrar. E ainda as gordas contribuições financeiras, os leilões, rifas, barato da jogatina etc. , rendiam tanto dinheiro que, depois de cobrir todos os gastos e demais despesas, ainda sobrava dinheiro ... Tanto assim que, quando alguma pessoa de bem da cidade se via em dificuldades financeiras, seus amigos levavam-na para festeiro e ... sua situação se normalizava ... O dia da festa era deveras divertido. Ao amanhecer, uma furiosa banda acompanhada de foguetório passava por toda a cidade. Ao meio-dia, enquanto a gente “fina” se banqueteava na “Casa Grande”, na praça se realizava o “império”. Armava-se um bem ornamentado palanque no qual se postavam os festeiros – imperador e imperatriz, coroados e ricamente trajados a caráter. Ele, sustendo a bandeira do Divino e, ao redor, toda a corte ... À frente do palanque, fileiras de mesas postas para o grande festim popular. Mais tarde, encerrando a parte religiosa, aparatosa procissão com a bandeira do Divino à frente, andores e estandartes, percorria as ruas da cidade. À noite, após o apreciado acendimento da fogueira, que era erguida no barranco (onde, depois de arrasado, hoje está o bangalô), inflamada por um buscapé que, por um arame, ia do coreto até ela, começavam as diversões ditas profanas. Os diversos grupos se formavam pela praça. Aqui, um animado samba de roda. Ali, um cadenciado moçambique. Acolá, um arrasta-pé de levantar poeira. Noutro lugar, o batuque ou jongo dos negros. Escravos ou alforriados, grupos crioulos ou faceiras raparigas de sorrisos de leite, gingavam ou se requebravam ao som surdo, soturno e cavo dos atabaques, urucungos e puítas (cuícas), entoando sofridas canções dolentes. Lá por dentro do Mercado, a jogatina : bancas de bolas, búzio, dados, jaburu, truco etc.. A festança acabava alta madrugada, com o baile chique na “Casa Grande” ou o arrasta- pé apertado, ao som de violas e sanfonas nos salõezinhos improvisados ... Numa simples crônica assim, tão rápida e sintética como esta, não é possível contar toda a beleza e encanto das nossas antigas festas. Por exemplo : como não teria sido fora de série a festa de Francisco Jordão Moreira da Costa, avô materno da nossa cara amiga, professora Maria Olímpia Vieira ! Foi esse festeiro quem, após dar um banquete a cada uma das várias classes sociais, acabou oferecendo um banquete, de verdade, aos cães de todas as raças existentes na cidade ! E, como se conta, tal banquete terminou numa grande “cachorrada” ... Noutra festa, a de Diogo de Tolosa Almeida (filho do primeiro casamento de Joaquim Bernardes de Almeida Gil com Dioga de Tolosa Guedes), houve o que se chamou o “encontro dos perus”. Como o festeiro havia recebido uns sessenta perus como prendas, eles foram acomodados na chácara de seu pai (que hoje pertence ao Guilherme Vilela de Oliveira).
  • 21. Quando os perus foram trazidos para a matança, a banda de música e muita gente foram encontrar-se com eles ali onde hoje começa a Rua Prefeito Jorge Pereira e ainda estão as mesmas tradicionais duas paineiras (*). Improvisou-se um desfile : à frente iam os inocentes perus, grugrulejando alegremente, ignorando o próximo sacrifício. Em seguida, a banda. E atrás e nos lados, uma multidão de acompanhantes, curiosos e divertindo-se com a festiva peruada. Mais recentemente (faz “só” uns setenta anos ...), lembro-me da grande festa do Sinhô Bernardo (Joaquim Franco de Almeida). Isso, porque, entre os vários entretenimentos, havia em cada canto da praça um tonel de legítimo vinho português, distribuído graciosamente. E como eu tive o desejo de experimentar uns golinhos, acabei sendo levado para dormir mais cedo, com o que perdi o resto das festividades ... Como se vê, “tudo muda, tudo passa, neste mundo de ilusão : vai para o céu a fumaça, fica na terra o carvão” ... (*) Sobre essas paineiras o conterrâneo José Bellotti dos Santos (Nê) escreveu uma bela crônica, publicada em nossa edição de 30/08/1989. Infelizmente uma dessas paineiras centenárias foi abatida em janeiro de 1991. O fato foi lamentado na coluna “Comentários da Cidade” d’”O Jambeirense” de 30/01/1991, bem como na tocante crônica de autoria do jambeirense Orlando Gurgel Almeida, publicada em 26/02/1991 pelo mesmo jornal. (“O Jambeirense” – 17/09/1988) FAMÍLIAS TRADICIONAIS Ao escrevermos sobre as famílias jambeirenses, as mais antigas, tradicionais, com mais de cem anos de jambeirismo, ainda que resumamos, o assunto é longo e vai tomar muito tempo e espaço n’”O JAMBEIRENSE”. Mesmo sintetizando, todavia, procuraremos lembrar-nos de todas e revelar às novas gerações alguns fatos interessantes ligados aos seus antepassados. Como sempre, pedimos desculpas pelos possíveis enganos. Como se sabe, a primeira família que veio povoar o sertão do Rio Capivari foram os Gomes Vieira, descendentes do taubateano José Gomes Vieira (*). Há quase duzentos anos, o governo real daquele tempo empreitou a José Gomes Vieira (*) a incumbência de restaurar o verdadeiro picadão que era a estrada de Taubaté a Ubatuba. A empreitada foi acertada em um conto e quinhentos, isto é, um milhão e quinhentos mil réis, quantia considerável naquela época. Terminado o serviço, como seu custo não pôde ser pago em dinheiro, o empreiteiro recebeu por pagamento uma sesmaria que abrangia toda a bacia do Rio Capivari, ou seja, quase todas as terrasque hoje formam o município de Jambeiro. Essas terras foram divididas em muitas glebas, vendidas a gentes de Taubaté ou até doadas a parentes de Gomes Vieira (*). Assim é que a fazenda chamada do “Monteiro”, que depois pertenceu ao Coronel João Franco de Camargo (e hoje é dos Quinzote) foi do parente Antonio Monteiro Gomes. Também a fazenda do Capivari, onde hoje se situa a cidade de Jambeiro, foi de outro parente : Anna Luíza Gomes Vieira de Almeida Gil, esposa de Luiz Jacinto Gil. Todos, gente de Taubaté. Com a abertura das fazendas de café e o surgimento do povoado, vieram novas famílias habitar no bairro do Capivari. Assim, além dos Vieira e Almeida Gil, vieram também Franco, Tolosa, Guedes, Moura, Gurgel, Costa, Rebello, Sennes, Nogueira, Silva, Ramos, Moraes, Barros, Carvalho, Pereira, Cunha, Lima, Pires, Rocha, Ivo, Braz, Leandro, Durão, Dias, Santos e outras. Depois, nos fins do século passado (**), chegaram os “estrangeiros”. Com seus jeitos e costumes diferentes, despertaram muita curiosidade na população local. Mas logo se adaptaram ao meio e se tornaram muito queridos. Escrevo seus
  • 22. nomes simplificados. Foram eles : Hilário, Beloti, Vanzela, Zuim, Batalha, Toseto, Zenati, Brancati, Locateli, Zandonadi, Angelim, Ferreti e outros. E chegaram também os alemães, como Germano, Gopfert, Becker. E até sírios, como Jorge José. E ainda, com a abolição, muitos ex-escravos constituíram famílias regulares, muito consideradas, como Braz, Ferreira, Martins, Santos e outras. Da maioria dessas famílias jambeirenses, seus descendentes daqui desapareceram. Outras, contudo, aqui permanecem, como se pode ver pelos seus nomes sempre publicados no “Registro Social” d’”O JAMBEIRENSE”. Todas honram a terrinha de todos nós e suas já longas genealogias nos levam aos albores do nascimento de Jambeiro. Continuaremos. (“O Jambeirense” – 30/11/1988) (*) O nome correto é José Vieira da Silva (de Taubaté) – filho de Francisco Vieira da Silva (também de Taubaté) e de Anna Maria de Siqueira (de Cotia) e neto, pelo lado paterno, de Francisco Vieira da Cunha (da Ilha Terceyra – Açores – Portugal) e de Maria da Conceição (de Taubaté), sendo desconhecidos os avós maternos – que se casou na matriz de Taubaté, em 20/06/1789, com Bernardina Edibia de Andrade – filha do Sargento-Mor Cypriano Gomes Veiga (de Monção – termo de Viana – Bispado do Porto – Portugal) e de Maria Magdalena Vieira (de Taubaté), neta paterna de Manuel Vaz Veiga e Ventura Domingues (naturais da dita Vila da Monção) e neta materna de Manuel Vieira de Amores e Ignacia Ferreira de Loyola (ambos de Taubaté). (**) século XIX. OS ALMEIDAS Como se sabe, uma das mais antigas famílias que veio abrir fazenda de café nos sertões do Rio Capivari foi a do casal taubateano Luiz Jacinto Gil (1) e Ana Luíza G. Vieira de Almeida. Esse casal formou a fazenda do Capivari, que se transformou no povoado do mesmo nome, o qual veio depois a ser a cidade de Jambeiro. Tiveram cinco (**) filhos, todos nascidos aqui, a saber : Joaquim Bernardo, Luiz Bernardo, Maria José, Maria Caetana e Felizarda (2). Todos com o sobrenome de Almeida Gil. O mais velho, Joaquim Bernardo de Almeida Gil (3), nascido em 1830, casou-se primeira vez com Dioga de Tolosa Guedes, cunhada de seu irmão Luiz Bernardo. Tiveram o filho Diogo de Tolosa Almeida, que se casou com Maria Guimarães de Almeida (Maria da Palma) e, por sua vez, tiveram os filhos João Baptista de Tolosa e Joaquim. João Tolosa foi muito nosso conhecido, pois aqui vinha freqüentemente assistir à Festa da Padroeira. Casou-se com sua prima segunda, Floripes Sennes, com geração. Segunda vez Joaquim casou-se com Ana Cândida Franco de Camargo (tia de nossa conterrânea Zélia Franco Bastos). E tiveram os filhos : Joaquim (1866), Antonio (1869), Delfino (1871), Malvina (1873), Leopoldo (1875), Octaviano (1877), Maria Francisca (1880), José Luiz (1882), Elvira (1884), Benedicta (Didita) (1886), Amélia (1888) e Alvarino (1894). Trataremos somente dos que mantiveram ligações com Jambeiro (os demais viveram em Caçapava). Joaquim Franco de Almeida, o “Sinhô Bernardo”, como era conhecido, foi chefe político, pessoa de valor, muito estimado e respeitado. Numa justa homenagem deram o seu nome à nossa EESPG. Casou-se com Olívia Vieira e tiveram os filhos : Odilon Vieira de Almeida, que se casou com sua prima segunda Maria Angélica Sennes; Alice, casada com Fernando Pantaleão (Dandico); Maria Gertrudes (Nina), casada com Dario Dias de Moura; João Batista de Almeida, casada com Maria Eugênia Cunha; Sílvia; Anna Luíza, casada com Vicente Cioffi; José Geraldo de Almeida, casado com Anália Mariano;
  • 23. Eduardo Vieira de Almeida (Edu), há pouco falecido, casado com Enid Cunha; e Hermínia, casada com Cícero Haddad. Antonio Bernardes de Almeida também foi grande e dedicado chefe político, cidadão emérito que tem seu nome imortalizado numa rua da cidade (Rua Nova). Construiu na praça a casa onde hoje funciona a Caixa Econômica (4). Foi casado com Presciliana de Almeida e tiveram os filhos : Maria do Carmo (Sinhá), casada com João Franco de Camargo Júnior (Dodão); Joaquim Fernandes de Almeida (Joaca), casado com Maricota Vieira, irmã da nossa Maria Olímpia Vieira; Antonio Cândido Bernardes de Almeida, casado com Satira Abreu; Caetana, casada com Antonio Pinto da Cunha; Octavio; Conceição (Tãozinha), casada com Elias Toledo; e os irmãos solteiros Milton e Sotero Bernardes de Almeida. Leopoldo Franco de Almeida foi casado com Maria José de Araújo. Filhos : Leopoldinho, casado com Izabel de Sá; Octavio Enéas, casado com Leonor Gurgel; Joaquim (Quincas), Urbano e Dalila (Lili), solteiros; Sinésio, casado com Maria Alaíde Cunha; Maria José, casada com Geraldo Boaventura do Nascimento; Brizabel (Nina), casada com Ademar Leite Vilhena; Zoroastro (Zoro), casado com Ana Maria Nascimento (Tita); José, casado com Alaíde Guanieri; Rosa, casada com Antonio Scarlato; e Lúcia, casada com José Pereira de Oliveira. Benedicta Franco de Camargo (Didita), que foi casada com meu tio materno Enoch Elias de Barros. Alvarino Franco de Camargo, casado com Avelina Nascimento, minha prima materna. Tiveram os filhos : José (Zito), casado com Jandyra Zenatti; Gaspar, casado com Dionéa Ronconi; e Aloísio, casado com Ivone Germini. O Zito e o Gaspar faleceram em março p. passado, com a diferença de dois dias entre uma e outra morte. De todos esses Almeidas, seus filhos e netos estão por aí, honestos e capazes, honrando seus dignos antepassados ! (“O Jambeirense” – 30/12/1988) (1) Luiz Jacinto Gil, na verdade, era é natural “da Sé de Sam Paulo”, como se vê no registro de seu casamento, realizado em 03/01/1825, na matriz de Taubaté, com Anna Gomes de Almeida – filha do Tenente Jozé Vieira da Silva e Bernardina Edibia de Andrade. (2) Além dos cinco, houve mais uma filha, de nome Bernardina. (3) Joaquim também se assinava Joaquim Gomes de Almeida. FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - I - Os sobrenomes dos atuais ALMEIDA ou GIL, até a segunda geração, isto é, até os dois filhos do casal Luiz Jacinto Gil – Ana Luiza Gomes Vieira de Almeida, tanto Joaquim Bernardo como Luiz Bernardo, assinavam Almeida Gil. Depois, como vimos no número passado, os descendentes de Joaquim Bernardo de Almeida Gil passaram a assinar Franco de Almeida ou Bernardes de Almeida ou ainda Vieira de Almeida. Já os descendentes de Luiz Bernardo de Almeida Gil continuaram a assinar Almeida Gil ou Bernardes Gil. É destes que trataremos hoje. Luiz Bernardo de Almeida Gil casou-se com Ana Luíza de Tolosa Guedes e tiveram cinco filhos : 1) Luiz; 2) Orôncio; 3) Damaso; 4) José; e 5) Maria do Carmo. Todos com o sobrenome de Almeida Gil. 1) Luiz Bernardes de Almeida Gil casou-se com Maria das Dores Pereira de Barros e tiveram onze filhos : Luiz Bernardes de Almeida Gil Filho, casado com Terezinha Ramos de Barros; Benedicto Bernardes Gil (Nenzinho), casado com Etelvina Dias de Moura; José Bernardes Gil, casado com Elza Franco de Camargo; Paulino Bernardes Gil, casado com
  • 24. Semíramis Marques Gil; Tito, casado com Maria Jurema de Siqueira; Ana Luíza Bernardes Gil, casada com Luiz de Castro Leite; Florentina Bernardes Gil, casado com Domingos de Oliveira; Flora Bernardes Gil, casada com Orôncio Rebello (primos); João Bernardes de Almeida Gil, casado com Olga Ribas de Andrade; Sileno Bernardes Gil, casado com Maria Rocha; e Armindo Bernardes Gil, casado com Irene de Paula. 2) Orôncio Bernardes de Almeida Gil (um dos três fundadores d’”O JAMBEIRENSE”) faleceu solteiro, assassinado quando era Delegado de Polícia em Ribeirão Bonito-SP. Foi o primeiro jambeirense que se formou em Direito. 3) Damaso Bernardes de Almeida Gil retirou-se de Jambeiro. 4) José Fernandes de Almeida Gil retirou-se de Jambeiro. 5) Maria do Carmo de Almeida Gil foi casada com seu primo Carlos Augusto Rebello. Tiveram os filhos : Edward Rebello, casado com Maria Emília Gama; Carlos Augusto Rebello Júnior (Dr. Carlinhos), casado com sua prima Gizelda Brancatti Rebello; Ana Luíza (Nenê), falecida solteira; e Orôncio Geraldo Rebello, casado com sua prima Flora Bernardes Gil. Observação : por alguma regra de Gramática Histórica, surgiu na família o sobrenome “Bernardes” em que se transformou o antigo Bernardo. Bernardes significa “filho de Bernardo”. Há na língua exemplos semelhantes, como Marco que se transformou em Marques; Álvaro em Álvares; Rodrigo em Rodrigues; Gonçalo em Gonçalves etc. De qualquer forma, o nosso Bernardes é um sobrenome um tanto espúrio, mas muito adotado pelos Gil. (“O Jambeirense” – 30/01/1989) FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - II - O “JAMBEIRISMO” DOS ALMEIDA GIL Antes de tratarmos de outras famílias jambeirenses, ainda queremos lembrar o “jambeirismo”, isto é, o tempo que a Família Almeida Gil tem tido de ligação com Jambeiro. Assim é que a nossa prezada conterrânea, profª Ana Angélica Almeida Guimarães, distinta Diretora da nossa Escola, colaborando conosco, dirá : – Se imaginarmos que meu tetravô Luiz Jacinto Gil (marido de Ana Luíza Gomes Vieira de Almeida, primeiro casal que nesta região se fixou no início do século passado (*), fosse vivo, teria hoje uns 170 anos de “jambeirismo”. Do mesmo modo, se meu trisavô Joaaaquim Bernardo de Almeida Gil, nascido em 1830, vivesse, teria 159 anos. E meu bisavô, Joaquim Franco de Almeida (Sinhô Bernardo), nascido em 1866, teria 123 anos. E ainda meu avô, Odilon Vieira de Almeida, de 1897, teria 92 anos. E meu pai, José Benedito de Almeida, de 1923, tem 66 anos. E ainda meu irmão mais velho, o José Odilon Almeida, de 1949, tem 39 anos, às vésperas dos 40. E por fim, sua filha mais velha, a sobrinha Gisele Hilário Almeida, já tem 14 anos de “jambeirismo” ! Seguindo o mesmo raciocínio, eu também poderia dizer : – Se meu bisavô, Luiz Jacinto Gil, fosse vivo, teria uns 170 anos de “jambeirismo”. Meu avô, Luiz Bernardo de Almeida Gil, de 1837, teria 152 anos. E meu pai, de 1875, teria 114 anos. E meu irmão mais velho, Luiz Bernardes de Almeida Gil, de 1904, já teria 85 anos. E como seu filho mais velho não vai deixar geração, substituo-o pelo meu filho mais velho, José Bernardes de Almeida Gil, de 1942, já com 47 anos. E, por fim, sua filha Joana Melo de Almeida Gil, já conta com 6 anos de “jambeirismo”. Não estamos fazendo nenhuma propaganda ou exaltação de nossa família. O que desejamos é afirmar que nos orgulhamos de ser jambeirenses há tanto tempo. E, por isso, a obrigação que temos de amar, servir e enobrecer esta terra. Que há tanto tempo é nossa terra ! (“O Jambeirense” – 27/02/1989)
  • 25. (*) século XIX FAMÍLIAS JAMBEIRENSES - III – AS BERNARDES GIL Como já dissemos, além dos filhos Joaquim Bernardo de Almeida Gil e Luiz Bernardo de Almeida Gil, o casal Luiz Jacinto Gil - Anna Luíza Gomes Vieira de Almeida teve também quatro filhas : 1. MARIA JOSÉ DE ALMEIDA GIL, que se casou, em 24/06/1865, com Francisco Joaquim Rebello (ou Francisco Tomaz Rebello, filho dos portugueses Francisco José Rebello e Roza Thereza da Silva), formando o tronco dos Rebellos jambeirenses. Foram seus filhos : Brazília, casada em 06/11/1884 com Antonio Nogueira dos Santos, o Antonio Boticário, filho de Francisco Nogueira dos Santos e Mariana Rosa Nogueira, e que foi proprietário de uma das primeiras farmácias de Jambeiro. Foram seus filhos : Benedicto, Aristides (poeta de cuja lavra “O JAMBEIRENSE” transcreveu o afetuoso poema “Respondendo ...”, na edição de 20/03/1985), Antonio, Mariana, Adelaide, Benedicto (o Nogueira, exímio violonista, autor da toada sertaneja “Saudades do Jambeiro”, Leonel, Antonio e Maria Piedade, que foi esposa do nosso caro colaborador, Paulo Lopes de Carvalho; José Rodolpho (* 05/10/1873), que foi Vereador e Vice-Prefeito e chegou a ser Prefeito em 1918, era casado com Idalina Silvério dos Santos, deixando os filhos Maria Benedicta (Sinhá Rebello), Petronila (Nila), que vivem hoje em Guaratinguetá; José (Juca) e Carlos; Francisco Tomaz Rebello Filho (o Chico Velho), casado com Maria Pereira de Barros (Maria Velha). Foram os pais de Maria Francisca (Morena), que se casou com João Pinto da Cunha; Felisbella (Sinhá Sennes), que se casou, em 20/04/1895, com Benedicto Nogueira Senne. Foram seus filhos : Benedicto (Professor Seninho), Floripes, casada com João Baptista Tolosa; Maria Angélica, casada com Odilon Vieira de Almeida; Francisco (casado com Branca de Souza Pereira, filha do saudoso Mariano da “Light”); e Judith, casada com o Desembargador José David Filho; Carlos Augusto, nascido em 06/08/1880 e que se casou com Maria do Carmo de Almeida, de quem já falamos anteriormente; Luiz (Nhô), casado com Maria Piedade Baeta. Filhos : Leonor, Luiz, Ilda, Evaldo e Celso; Júlia, casada com Inocêncio de Paula Pereira (que foram padrinhos de batismo de Benedicto Bernardes Gil (Nenzinho). Tiveram os filhos : Eliodora, Benedicto, Noé, Loth, Amada e Maria José; Gustavo, que, aos 28 anos, se casou em 18/02/1911 com Bertília Brancatti, com 15 anos, filha de Francisco Brancatti e Inocência Rosa de Mello. Filhos : Maria Aparecida, Albertina (nossa querida Berta, casada com Rafael Martinez Balaguer, aqui residente); Gizelda (viúva do caritativo Dr. Carlos Rebello Júnior – Dr. Carlinhos – que tem seu nome gravado numa avenida em Guaratinguetá e numa rua de nossa cidade); Francisco, Luiz, Benedicto e Maria José; e Maria (batizada em 10/04/1892. 2. MARIA CAETANA DE ALMEIDA GIL, mãe de Presciliana Bernardes de Almeida. Esta foi casada com o Cel. Antonio Bernardes de Almeida, grande chefe político jambeirense. MARIA CAETANA foi a primeira esposa do Major João do Amaral Gurgel, com o qual teve os filhos Benedicto Gurgel do Amaral (Nenê Gurgel), que foi casado com Brazília Gomes Vieira, e Adelaide, falecida em tenra idade. Tendo enviuvado, o Major João do Amaral Gurgel contraiu novas núpcias com a paraibunense Zoraide Rosalina
  • 26. Pires, em 23/04/1895, com a qual teve os seguintes filhos : João Gurgel Júnior, o poeta, uma das grandes glórias de Jambeiro, que foi casado com Guiomar Guieiro Gurgel; Leonor, viúva do ex-Prefeito Octavio Enéas de Almeida, e hoje morando novamente entre nós; Adelaide Maria da Conceição, José (Juca Gurgel) e, ainda bem vivos e fortes residindo entre nós, a Clarice e o Olavo. 3. ANA FELIZARDA DE ALMEIDA GIL, casada com Fernando de Carvalho e pais de Bento e Amélia, com geração em Caçapava. 4. BERNARDINA, de quem não temos outras notícias além do registro que nos legou o ”O FOLGAZÃO” (órgão crítico, humorístico e literário local, na edição de 1º/02/1908, na seção “Primeiras coisas de Jambeiro”, de autoria do primeiro pesquisador da história de nossa terra, o Major Hypolito Modesto de Moraes) : “Doceiras – foram as primeiras neste município Dª Anna Gomes Vieira de Almeida Gil e suas filhas Dª Bernardina (grifamos), Dª Maria Caetana, Dª Anna Felizarda e Dª Maria José Rebello. O preto Damião – o fiel da casa – era quem ia fazer as vendas desses doces em Taubaté, Paraibuna e Caçapava, levando, cada vez que viajava, quatro e, às vezes, seis burros carregados com esse ramo de indústria.” (“O Jambeirense” – 20/03/1989) OS ITALIANOS EM JAMBEIRO Em fins do século passado, como aconteceu em outras cidades paulistas, também para Jambeiro veio um grupo de imigrantes italianos. Sua chegada aqui foi um acontecimento. Aquela gente estranha, bem clara, de falar alto e gesticulado, roupas quentes e coloridas, encheu de curiosidade a população. Católicos praticantes em sua maioria, logo os estrangeiros obtiveram boa acolhida, a simpatia e amizade da população. Algumas famílias foram trabalhar nas fazendas. Outras adquiriram pequenas propriedades ou passaram a exercer atividades de seus ofícios. Assim, em pouco tempo se adaptaram à nova pátria e se entrosaram com seus moradores. De início, houve algum desentendimento de somenos importância. Principalmente quando algum daqueles robustos moços de olhos azuis se engraçava com alguma garota da terra. E daí vinha o despique do namorado que havia perdido a sua “ela” : “Carcamano pés de chumbo, calcanhar de frigideira : a birra desse italiano é namorar com brasileira ...” Mas tudo acabava bem, quando não acabava logo em casamento ... Muitas dessas famílias que aqui chegaram, mudaram-se depois para outras cidades. Atualmente, mais ligados a Jambeiro restam os Hilário, Bellotti, Zuim, Vanzella, Pazzini, Batalha, Tozetto, Zenatti e outros. Os Hilário são os descendentes de uma dessas famílias que mais se enraizaram em nossa terra. E pelo que se nota dos nomes de aniversariantes publicados mensalmente na seção social d’”O JAMBEIRENSE”, parece ser hoje a maior família jambeirense, sobrepujando talvez até mesmo os Almeida ou os Gil. Foi seu patriarca o saudoso Hilário Fermino. Pelo seu gênio especial e simpatia, o Hilário foi um dos “jambeirenses” mais notáveis do seu tempo. Muito popular (seu cachimbo era afamado ...), gostava às vezes de bater um papo alegre com a rapaziada que éramos naquele tempo. E quando algum de nós dizia uma bobagem que o contrariava, ele olhava para o tal, sacudia a cabeça e só dizia : – Caipira atrasado ! Naquele tempo, o Hilário era o proprietário da chácara onde hoje seus descendentes abriram o JARDIM CENTENÁRIO.
  • 27. Esta chácara fez parte da fazenda do fundador de Jambeiro. Era a “horta” de Nhô Luiz Bernardo. Nesse lugar ele plantou um variado pomar do qual fizeram parte aquelas jabuticabeiras que até há pouco tempo ali existiram. Certa vez, Nhô Luiz ganhou de um fazendeiro de Congonhas do Campo, em Minas, duas estátuas representando leões, esculpidos em pedra-sabão. Essas estátuas foram colocadas ornamentando o portão da chácara. Certa ocasião uns antiquários passaram por Jambeiro e adquiriram quantos objetos de arte encontraram, como imagens, quadros, ornatos etc.. E como não podia deixar de acontecer, compraram do Hilário também os dois leões, pagando por eles a importância de quinhentos mil réis, quantia bem elevada naquele tempo. E quando depois se comentou que aquelas estátuas poderiam ter sido obras do célebre escultor Aleijadinho, e portanto teriam alto valor artístico, o Hilário, sistemático como era, só disse : – Ecco ! Os leões eram meus. Achei bom o negócio e vendi. Quem estiver achando ruim, que vá se queixar pro diabo que o carregue !... (“O Jambeirense” – 27/06/1989) OS HILÁRIOS - I - O casal Hilário Fermino (*) – Carolina Locatelli deixou grande descendência em Jambeiro. Pelo sobrenome – Hilário – parece ser esta atualmente a maior família jambeirense. Os homens são gente robusta e amante do trabalho. As mulheres são, na sua maioria, essas lindas louras de olhos azuis que ornamentam a nossa sociedade. Foram filhos desse querido casal de italianos, todos aqui nascidos : Maria, Rosa Benedicta, Ferdinando, Artibanno, Pascoína, Fioravanti, Ricieri e José. 1) Maria, nascida em 03/02/1894, casou-se em 16/04/1916 com Luiz Vicente Codello, em cerimônia presidida pelo vigário da Paróquia, Pe. Victorino Ferreira, sacerdote português, tendo como testemunhas Benedicto Pinto da Cunha, o saudoso tio Cunha, e João Scarpel. Luiz tinha 25 anos, era natural de San Pietro di Barbosa, município de Treviso, na Itália, filho de João Codello e Esperança Onardi. Desse casamento nasceram os filhos : Clélia, João, Geraldo (falecidos), Fidelfranco, Artibanno – que foi integrante da gloriosa Força Expedicionária Brasileira – FEB – tem seu nome gravado no obelisco da Praça Benedicto Ivo, de nossa cidade; Nadir, casada com Antonio Temperini, José (falecido) e Octavio, casado com Maria Teresa Pereira Codellos. 2) Rosa Benedicta nasceu em 09/05/1896. Casou-se com João Bellotti dos Santos, filho de João Bellotti e Maria Francisca dos Santos. Tiveram os filhos : José (Nê), casado com Laura Norma Giacomini Bellotti; Israel (falecido), Rosa, viúva de Roberto Gerloff; e Elviro, casado com Edith Aparecida Moreira Bellotti. 3) Ferdinando (que muitos conheciam como Fernando), nascido em 24/07/1898, casou- se com Luzia Zandonadi (nossa querida D. Lúcia, aqui residente), filha de Ângelo Zandonadi e Luzia Falchetti, em 14/11/1931, em cerimônia realizada em nossa matriz, presidida pelo vigário da Paróquia, Pe. Victor Ribeiro Mazzei, sendo testemunhas Francisco Fernandes das Chagas (o popular Chiquinho Sacristão) e Luiz Zandonadi. Desse enlace nasceram os filhos : José (Zeinho), casado com Jandyra Souza Hilário; Geraldo (Ado), casado com Ilda Martins Hilário; Luíza, casada com Agostinho Monteiro de Camargo; Irene; Luiz (falecido); Lúcio, casado com Margareth Santos Hilário; Angelina (Lina); Nair, casada com João Batista Moura Cassiano; e Gilberto, casado com Cleusa Santos Hilário. 4) Artibanno nasceu em 14/01/1904 e faleceu em tenra idade; 5) Pascoína (Páscoa), nascida em 06/01/1905, casou-se com José Codello, natural de Caçapava, filho de João Codello e Esperança Onardi, no dia 23/06/1927, na presença do